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Curso Online Bullying e Ciberbullying: Prevenir & Agir

2019

Caracterização do bullying

É importante sabermos distinguir os comportamentos de bullying de outros


comportamentos igualmente agressivos, nomeadamente porque, em contexto escolar,
ocorrem muitos outros comportamentos agressivos que não configuram uma situação de
bullying. 2

Existem alguns critérios que nos ajudam nessa diferenciação e que importa aqui
clarificar:

 Um comportamento de bullying, é sempre um comportamento agressivo


intencional (não aconteceu por acaso nem sem querer, foi
pensado/premeditado);
 É um comportamento sistemático, que assume um padrão de repetição ao longo
do tempo (a frequência com que poderá ocorrer depende de caso para caso, mas
nunca se trata de um incidente isolado, único);
 Implica uma desigualdade/abuso de poder entre os alunos envolvidos, o que
implica que um deles se encontra numa posição de domínio/poder e o outro
numa posição de impotência/submissão (pode ocorrer entre alunos mais velhos e
mais novos, ou mais altos/fortes e mais baixos/fracos, etc.);
 Para que os dois anteriores critérios possam ocorrer (repetição e abuso de poder)
é necessário que os envolvidos se encontrem com alguma regularidade. Por esse
motivo, o bullying tende a ocorrer em grupos sociais que mantêm alguma
familiaridade entre os seus elementos (tal como ocorre entre os alunos de uma
turma que, ao final de um certo tempo de convivência, já conhecem as
características e fragilidades uns dos outros).

Tendo por base estes critérios, qualquer definição de bullying implicará a inclusão dos
mesmos. Podemos definir bullying como uma agressão (física, verbal ou
psicológica) praticada intencionalmente de forma a causar dor ou desconforto
(físico ou psicológico) repetida ao longo do tempo e com desequilíbrio de poder
entre os envolvidos (o agressor e a vítima).

Para melhor compreender esta problemática, sua definição e manifestação, sugerimos a


leitura do artigo de revisão de literatura de Almeida, Cavalcante e Silva (2008).
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É difícil categorizar os comportamentos de bullying em categorias mutuamente


exclusivas.

Podemos categorizar quanto ao conteúdo (conteúdos homofóbicos, sexuais, raciais,


etc.) ou quanto à forma (físico, verbal, relacional, sexual ou ciberbullying) e ainda
quanto ao meio utilizado (presencial ou digital). Existem por isso, comportamentos que 2
se sobrepõem, que podem ser simultaneamente categorizados em mais do que uma
categoria.

Formas de bullying

Quanto aos diferentes tipos/formas de comportamentos de bullying que podemos tentar


identificar, podemos ter comportamentos:

 físicos, que implicam contacto físico, corporal, com o outro, como bater,
empurrar, puxar os cabelos, dar pontapés, etc.;
 verbais, como chamar nomes ofensivos, insultar, rebaixar, fazer troça ou colocar
alcunhas;
 relacionais, onde se manipulam as redes sociais e de amizade para, de forma
indireta, atingirmos um terceiro elemento, como por exemplo fazer excluir um
colega de um grupo ou de uma atividade, espalhar rumores utilizando os pares
nessa disseminação, ou ignorar deliberadamente alguém;
 sexuais, que incluem todos os comportamentos agressivos de teor sexual,
podendo os mesmos ser físicos ou verbais, como o exibicionismo, o assédio, os
comentários ou insultos de natureza sexual, direcionados a partes do corpo ou
relativos à orientação sexual;
 ciberbullying, quando os comportamentos de bullying utilizam como meio as
tecnologias digitais, permitindo a rápida disseminação de conteúdos vários,
através de todas as formas de comunicação que os vários dispositivos com
acesso à Internet (telemóvel, tablet, computador) permitem.

Papel dos alunos envolvidos

No início de um novo ano letivo, quando os alunos ainda se conhecem mal, cerca de
22% dos alunos relatam ter sido vitimizados pelos seus pares, ao passo que no final do
ano apenas 8% são regularmente vitimizados. Este decréscimo diz-nos muito sobre os
processos de seleção das vítimas, onde os níveis de familiaridade entre os alunos são
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ainda fracos no início de um novo ano letivo mas, à medida que as interações sociais se
desenrolam, se observa uma crescente e mais apurada avaliação das características dos
pares.

Existem certos padrões de comportamento social (com perfil mais internalizante) que
tornam os alunos mais suscetíveis a serem alvo de “ensaio”. Alunos mais tímidos,
2
inseguros, socialmente retraídos ou ansiosos, podem efetivamente transmitir uma
postura de maior fragilidade, de maior incapacidade em se defender, podendo ser
percecionados pelos alunos agressores como “alvos fáceis”.

Numa situação de abuso, em que um aluno com perfil mais agressivo se confronta com
um aluno com um perfil mais internalizante, existe uma forte probabilidade deste último
manifestar sinais de dor e sofrimento face aos ataques. Esta manifestação alimenta, por
sua vez, a necessidade de domínio dos alunos agressores o que, por sua vez, pode levar
ao estabelecimento de ciclos viciosos de encontros recorrentes entre os mesmos
agressores e as mesmas vítimas.

Face ao exposto, o papel dos pares assume-se como fundamental em qualquer iniciativa
de prevenção e/ou intervenção face ao bullying. Este papel pode assumir uma
configuração muito diferenciada, desde alunos que ajudam e incentivam a agressão
iniciada pelo agressor, até alunos que se mantêm como observadores externos, sem
interferência direta, aos alunos possíveis defensores e ativamente defensores. O desafio
das escolas recai precisamente aqui: em tornar os alunos passivos e silenciosos, em
alunos proativos.

No sentido de sistematizar melhor o conhecimento sobre esta problemática,


recomendamos a leitura do artigo de Santos e Ramos (2017). Trata-se de um artigo de
revisão da literatura, ancorado na educação intercultural, que caracteriza o bullying,
suas consequências e prevenção.

Incidência, género, idade e formas

Os resultados da investigação apontam para alguma concordância entre o genérico dos


resultados, nomeadamente no que se refere aos níveis de incidência dos
comportamentos de bullying, às características do seu envolvimento quanto ao género e
tipos de bullying, e, ainda, quanto às repercussões para os alunos diretamente
envolvidos.
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Relativamente à incidência, constatamos que a maioria dos alunos (60 a 70%,


consoante as amostras) não se envolve em comportamentos de bullying. Na realidade,
ao longo do seu desenvolvimento, a maior parte das crianças adquire mecanismos
internos de autorregulação e inibição face a esses comportamentos. Verifica-se
igualmente que o pico de incidência atinge os 13 anos de idade (sensivelmente o 8.º
ano). 2

Quanto ao género, tem-se confirmado que, tal como os rapazes, as raparigas também
agridem, mas o seu comportamento tem sido largamente subestimado porque assume
uma forma diferente, mais subtil e mais complexa do que as agressões diretas físicas nas
quais os rapazes se envolvem. Assume uma natureza essencialmente indireta e
relacional.

A incidência também tende a variar consoante a idade e competências das crianças,


nomeadamente crianças mais novas parecem não possuir ainda as competências sociais
e de assertividade necessárias para lidar eficazmente com o bullying e desencorajar
episódios futuros. Por outro lado, à medida que as competências verbais e sociais se
desenvolvem, as crianças tornam-se progressivamente mais capazes de articular as suas
necessidades/desejos sem recorrer tão frequentemente à agressão.

Quanto às formas de agressão: a proporção de crianças que utilizam formas de


agressão física, declina com a idade, em contrapartida, as que utilizam formas de
agressão verbal e indireta, aumentam na pré-adolescência. Por seu lado, o bullying
sexual é mais tardio, tendendo a aumentar na adolescência e relacionando-se com a
puberdade e a composição heterossexual do grupo de pares.

Repercussões

As repercussões vivenciadas pelos alunos diretamente envolvidos em comportamentos


de bullying, são diferenciadas consoante sejam agressores ou vítimas.

Relativamente às repercussões para os alunos agressores, apesar de menos óbvio à


primeira vista, os seus efeitos negativos podem-se amplificar ao longo do tempo.
Tendencialmente, os alunos agressores evidenciam um percurso em espiral, ao longo da
vida, tendo o seu comportamento interferências na aprendizagem (maior absentismo e
abandono escolar), amizades, trabalho, relações íntimas, salário e saúde mental. Mais
concretamente, estima-se que cerca de 2/3 dos agressores se tornam adultos antissociais,
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com maior probabilidade de consumir substâncias, de cometer crimes e de se


envolverem em situações de violência doméstica.

No âmbito das repercussões para os alunos vitimizados, o bullying causa grande


sofrimento e uma série de transtornos biopsicossociais, podendo os seus efeitos durar
anos. Verifica-se igualmente que quanto mais repetidas, severas e prolongadas no tempo
2
as agressões, maiores os danos na saúde mental. Essas repercussões podem-se
identificar em três grandes áreas de funcionamento:

 Dificuldades sociais/relacionais (mais sentimentos de isolamento e de solidão;


maior inibição; rejeição pelos pares; maiores níveis de impopularidade; reduzido
número de amigos);
 Dificuldades escolares (fobia e evitamento escolar; sentimentos frequentes de
insegurança na escola; falta de concentração e falhas de memória; diminuição do
desempenho académico);
 Menor bem-estar (mais sentimentos de tristeza/desamparo/infelicidade; baixa
autoestima; maior número de sintomas psicossomáticos; maior número de
sintomas psicológicos como depressão, ideação suicida e ansiedade).

Condicionantes

Quanto às condicionantes que podem ajudar a compreender a ocorrência destes


comportamentos, é necessário existir um conjunto específico de condições (tanto
pessoais como familiares, escolares e sociais) para que uma criança comece a agredir,
ameaçar ou intimidar sistematicamente os seus pares.

No âmbito dos fatores familiares, é de salientar os estilos educativos pouco afetuosos,


pouco atentos e com fraca supervisão, como uma oportunidade para o aparecimento de
comportamentos de bullying. Em contrapartida, sobressai a superproteção parental
como possível característica associada à vitimização, uma vez que se trata de um estilo
pautado pelas poucas oportunidades dadas à criança, de gestão de situações de conflito,
traduzindo-se numa falta de confiança na sua capacidade para controlar o seu ambiente.

Sobressai igualmente a imitação do comportamento agressivo, quando a criança se


confronta com estilos disciplinares punitivos ou situações de agressão física ou verbal
entre os pais.
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No âmbito dos fatores escolares, existem alguns aspetos que, pela sua presença ou
ausência, se podem assumir como fatores facilitadores ou inibidores do bullying. Entre
eles, sobressaem:

 a (in)existência de supervisão adequada dos espaços escolares;


 a (in)adequação da intervenção por parte dos adultos, face ao bullying;
2
 a (in)existência de um regulamento de escola ou de normas de conduta
suficientemente claras com consequente aplicação de medidas disciplinares;
 equipamento (in)suficiente;
 a (in)existência de sistemas de apoio aos novos alunos;
 a (in)tolerância face às diferenças;
 a (in)existência de políticas ou iniciativas anti-bullying;
 o (des)encorajamento de mecanismos de denúncia;

Por fim, no âmbito dos fatores pessoais, sobressaem as questões do temperamento,


nomeadamente a tendência básica para desenvolver determinados estilos interativos e
comportamentais de maior prepotência (possíveis antecipatórios do envolvimento
enquanto agressores) ou de maior passividade e submissão (possíveis antecipatórios do
envolvimento em comportamentos de vitimização).

Uma outra característica pessoal refere-se à ausência ou menor empatia pelos outros,
mas a inveja, frustração ou o facto de se ser vítima de bullying, podem igualmente
constituir fortes motivações para a agressão.

De realçar ainda a procura de atenção ou de maior visibilidade junto dos colegas, como
um fim a alcançar através do bullying. Este aspeto assume particular importância em
alunos a frequentar o 2º e 3º ciclos de escolaridade.

No sentido de uma melhor compreensão acerca da diversidade de fatores que se podem


encontrar subjacentes à manifestação ou vivência de comportamentos de bullying,
sugerimos a leitura do artigo de Shultz et al. (2012).