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O ADICIONAL POR FALTA DE INTERVALO

INTRAJORNADA DE TRABALHO
Antonio Carlos de Oliveira
Juiz do Trabalho da 5a Região(aposentado) e Presidente da Academia de Letras Jurídicas da
Bahia

1. Conseqüência da não concessão do intervalo intrajornada

Quando o trabalho for contínuo e sua duração exceder de seis horas, há de haver um
intervalo para repouso e alimentação de, no mínimo, uma hora, e, no máximo, de duas
horas, podendo ir além de duas horas se houver acordo escrito ou convenção coletiva de
trabalho(art. 71, da CLT. Tais intervalos não são computados na duração do trabalho. Se a
jornada de trabalho for de oito horas, por exemplo, o empregado deverá prestar os seus
serviços durante quatro horas seguidas, ter o intervalo de uma ou de duas horas, e trabalhar
mais quatro horas, após o intervalo. Desse jeito, o empregado terá a jornada de trabalho de
oito horas de duração e, dentro dela, haverá uma interrupção de uma ou de duas horas.
A observância dessa regra compete ao empregador, cabendo-lhe, portanto, conceder
ao empregado o intervalo previsto na lei. Desobedecendo a essa regra, ele comete uma
infração legal e se torna passível de sofrer uma multa fiscal. O empregado não tinha
qualquer vantagem pelo sacrifício de trabalhar durante as oito horas seguidas. Trabalhava
durante oito horas ininterruptas, desgastava-se sem nenhuma compensação, e o patrão
infrator se sujeitava à multa, como penalidade pelo descumprimento da lei. A pretensão do
empregado de receber alguma vantagem compensatória desse desgaste, não encontrou eco
na jurisprudência especializada. Firmou-se até o entendimento segundo o qual o desrespeito
ao intervalo, sem importar em excesso na jornada de trabalho efetivamente cumprida,
tratava-se de infração sujeita a penalidade administrativa, não dando direito a qualquer
ressarcimento ao obreiro. Tal entendimento cristalizou-se no Enunciado 88, do Tribunal
Superior do Trabalho.
A Lei n. 8.923, de 27 de julho de 1994, porém, consertou a injustiça, e acrescentou
ao art. 71 o § 4º, cujo teor é o seguinte:
“Quando o intervalo para repouso e alimentação, previsto neste artigo, não for
concedido pelo empregador, este ficará obrigado a remunerar o período
correspondente com um acréscimo de, no mínimo, cinqüenta por cento sobre o valor
da remuneração da hora normal”.
Tal lei tornou inócuo o Enunciado 88 e o TST cancelou-o (Resolução n. 42/95).
Quer dizer: o empregador, ainda que multado pela não concessão do intervalo, vai
pagar ao empregado uma compensação pecuniária.
O valor dessa compensação tem dado margem a alguma polêmica. Há quem entenda
que corresponde a 50% da remuneração da hora normal. Se o empregado não teve o
intervalo de uma hora, tendo trabalhado as oito horas seguidas, ganharia mais meia hora.
Digamos que o salário-hora seja de R$ 1,00. No dia em que trabalhasse sem intervalo,
ganharia R$ 8,50, isto é R$ 8,00 pelas oito horas trabalhadas seguidamente e mais R$ 0,50,
cinqüenta por cento da remuneração normal. Outros pensam que, a lei concedeu ao
empregado, uma hora extra(ou duas, conforme a duração do intervalo) e que a
compensação consiste no pagamento da remuneração do tempo do repouso intrajornada

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mais 50%. Se o intervalo era de uma hora e o empregado trabalhou oito horas seguidas,
ganhando R$ 1,00 por hora, ganhará mais R$ 1,50.
Penso dessa forma também, embora entenda que, rigorosamente, o pagamento não é
feito a título de hora extraordinária, mas é feito nas mesmas bases da remuneração do
trabalho extra, como forma de aferição do quantum devido, sem, portanto, natureza
jurídica de salário por trabalho extraordinário.
Quando a lei obriga o empregador que não concedeu o intervalo a remunerar o
período correspondente com um acréscimo de 50% sobre o valor da remuneração normal
está claramente dizendo que o intervalo não concedido deverá ser pago e que esse
pagamento deve ser acrescido, deve ser feito com mais 50%. Se o período não concedido
for de uma hora, ele receberá o salário de uma hora normal mais 50%.

2. Natureza jurídica do pagamento por falta de intervalo intrajornada

“ O intervalo intrajornada desobedecido passou a ser remunerado como hora extra


a partir de 28-7-94, por força da Lei n.º 8.923/94, que acrescentou o § 4º ao art. 71 da
CLT”, decidiu a 2a Turma do TRT da 12ª Região(RO 007908/98).
O TRT da 9ª Região, por sua 3ª Turma, decidiu no mesmo sentido: “ Verificada nos
autos a ausência da concessão do intervalo intrajornada, legalmente imposto(§ 1º, do art.
71, da CLT) é devido o adicional de horas extras, após a publicação da Lei n.º 8.923/94,
ou seja, a partir de 28-07-94”(RO 6650/98).
A 3a Turma do TST consagrou igual entendimento: “Apenas a partir da edição da
Lei 8.923/94 é que o desrespeito ao intervalo mínimo entre turnos gerou direito ao
pagamento como extra”(RR 507342/98)(*).
Por aí se vê que há uma forte tendência no sentido de considerar que o pagamento
por falta de intervalo intrajornada tem natureza remuneratória, tal como se faz quando há
excesso de horas trabalhadas.
Entendemos que se trata de uma compensação do desgaste que representa o trabalho
ininterrupto. Tal como ocorre com o adicional de insalubridade, que visa a compensar o
trabalho sujeito a agentes nocivos à saúde. Tal como ocorre com o adicional noturno, que
visa a compensar o desgaste sofrido face ao trabalho em tempo durante o qual normalmente
se repousa.
Não se trata de hora extraordinária, porque não há excesso de jornada. O obreiro
trabalha as horas normais, todavia não lhe dão o descanso que evitaria o desgaste do
trabalho direto. Esse desrespeito ao comando legal que prevê o intervalo era encarado como
mera infração administrativa sujeita a um multa fiscal. O empregado, explorado, ficava na
desvantagem. A lei, todavia, veio afinal dar-lhe uma compensação, impondo ao
empregador o pagamento de um valor semelhante ao da hora extraodinária. Uma coisa é
trabalhar durante o intervalo para descanso e alimentação; outra coisa é não ter esse
intervalo e trabalhar as horas normais sem parar. Se o obreiro tem jornada de oito horas,
com um intervalo de uma hora para descanso, e trabalha durante o intervalo, ocupou-se
durante nove horas e vai ganhar a remuneração das oito horas normais e de uma hora
extraordinária. Se ele trabalha as oito horas normais e não lhe é concedido o intervalo de
uma hora para descansar e alimentar-se não se pode enxergar aí excesso de horas. Ele não
podia antes da lei de 1994 pleitear nenhuma hora extra. Quem pleiteou perdeu a questão.
Os tribunais viam aí somente infração do empregador passível de uma multa por
descumprimento da norma jurídica. Com o advento da lei de 1994, o empregado passou a

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ser beneficiado com um pagamento indenizatório( e não remuneratório) pelo desgaste
orgânico provocado pelo trabalho ininterrupto.
Certos pagamentos realizados pelo empregador ao empregado são compensações de
um trabalho prestado em condições desconfortáveis. O adicional noturno, por exemplo,
nada mais é do que uma espécie de ressarcimento pelo desgaste sofrido pelo empregado
que trabalha no período tradicionalmente destinado ao repouso. O adicional por trabalho
extraordinário tem também essa finalidade ressarcitória, visando a compensar o obreiro
pelo desempenho além do tempo considerado normalmente suportável.
A doutrina costuma denominar esses pagamentos de “indenizações”, exatamente
assim entre aspas, porque assumem, pela continuidade, na sua realização, natureza salarial,
“ em virtude do conhecido processo de progressiva extensão do conceito de
remuneração”, como acentua Riva Sanseverino, e que são recebidas pelo obreiro “
enquanto se encontra em situação particularmente gravosa”(Curso de Direito do
Trabalho – Editora LTR – págs. 231/232). Ressaltam Orlando Gomes e Elson
Gottschalk: “Recebem o nome de indenizações(indenità, indemnitès) certas atribuições
econômicas pagas ao empregado como compensação de um trabalho executado em
condições que exigem maior desconforto em razão do tempo ou do lugar da prestação;
um maior perigo ou más condições de salubridade”(Curso de Direito do Trabalho –
Editora Forense – 16ª edição – págs. 205/206). Também José Augusto Rodrigues Pinto
sustenta que “a retribuição do trabalho pode assumir caráter indenizatório, cumulado
com sua função de contraprestação obrigacional da energia posta à disposição do
empregador, ou da remuneração pelo serviço efetivamente prestado a este ou a
outrem”. Explica que “ o ressarcimento é feito com acréscimos percentuais ao salário
ou à remuneração, ou seja, adicionais cuja destinação específica não é retributiva do
trabalho, mas compensatória de condições prejudiciais ao empregado no
desenvolvimento da atividade subordinada”(Curso de Direito Individual do Trabalho
– Editora LTR – 3a edição – pág. 347).
Assim como, portanto, o trabalhador faz jus a um acréscimo no seu salário, porque
trabalha em condições desfavoráveis à sua saúde, para exatamente ser compensado dessa
desvantagem, também ele recebe uma compensação por trabalhar durante toda a sua
jornada normal sem o intervalo de repouso e alimentação. Não se trata evidentemente de
retribuição por trabalho extraordinário, uma vez que ele não presta seus serviços além do
tempo previsto. Trata-se de uma “indenização” pelo desgaste físico, que, paga
continuamente, assume a natureza de verba remuneratória, denominando-se adicional por
falta de intervalo intrajornada.
Repiso num ponto: antes da lei de 1994, o empregado que trabalhava direto, sem
intervalo, cobrindo a jornada normal, não tinha nenhuma compensação. Se, porém, havia
intervalo na jornada, mas ele continuava trabalhando durante o intervalo, indo além do
tempo normal, aí, sim, ocorria trabalho extraordinário: ele recebia as oito horas normais e,
como extra, a hora ou as horas trabalhadas no decorrer do intervalo.
À luz da teoria geral do direito, esse adicional por falta de intervalo intrajornada é
um apenamento, uma sanção jurídica imposta ao empregador. O dever jurídico é conceder
o intervalo. A não concessão do intervalo é o descumprimento desse dever. Representa um
ilícito trabalhista, cuja conseqüência é o pagamento a título de indenização que ele deve
fazer ao empregado e uma multa fiscal, se a fiscalização descobrir não ter sido cumprida a
lei.

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Conclusões:

1. Quando o empregador não concedia o intervalo obrigatório intrajornada cometia


infração punível com multa imposta pela fiscalização do trabalho. Inexistia qualquer
compensação em benefício do empregado sacrificado.

2. Uma lei de 1994( a de n. 8.923, de 27 de julho) estabeleceu que, o empregado


tem direito de receber o valor da remuneração do período de descanso e alimentação
acrescido de 50%, no mínimo.

3. Se o intervalo não concedido for de uma hora, por exemplo, o obreiro faz jus ao
salário de uma hora mais, pelo menos, a metade.

4. Não se trata de remuneração por trabalho extraordinário, porquanto o serviçal não


ultrapassa a jornada normal, embora o pagamento seja de valor equivalente ao da hora
extra.

5. Trata-se de “indenização”, para compensar o desgaste pelo trabalho ininterrupto,


e passa a ter natureza salarial, quando há o pagamento continuado.

6. A lei nada mais fez do que criar mais um adicional ao lado daqueles que são
denominados, por alguns doutrinadores, de “indenização” pelo desconforto na prestação do
trabalho, como o adicional noturno, o adicional de insalubridade, o adicional por trabalho
extraordinário etc.