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A informalidade, modalidade laboral em que o trabalhador vende a sua força de trabalho por

conta própria e sem vínculos empregatícios oficiais, é uma característica cada vez mais
marcante na contemporaneidade. Comum, sobretudo em países em desenvolvimento, como o
Brasil, esse tipo de ofício deriva da falta de oportunidades no mercado, aliado a uma formação
acadêmica muitas vezes deficitária, ambos ​traços de um cenário cada vez mais instável
economicamente e vulnerável socialmente.
De início, é importante entender que o trabalho informal existe atrelado ao sistema capitalista
que, não raro, vende à população uma noção idealizada de meritocracia e de um universo onde
há oportunidades para todos. Ao contrário disso, a realidade mostra que, na prática, as
chances de se trabalhar e construir a tão falada “carreira de sucesso” dos livros de autoajuda
são limitadas, seja por exigirem uma gama de pré-requisitos caros que poucos podem custear -
o domínio de línguas estrangeiras, experiências no exterior, um alto grau de escolaridade -,
seja por dependerem de uma rede de contatos prévia dentro do próprio mercado. Esses
aspectos se agravam quando se trata de um país desigual como o Brasil onde, por exemplo,
cerca de 70 milhões de brasileiros têm um acesso precário à internet, fato que limita, e é
agravado em um momento de pandemia como o presente, as possibilidades de estudo de
muitos alunos, condenando-os a um futuro em que a única certeza, talvez, seja a de um
trabalho sem registros nem garantias trabalhistas.
Nesse quadro caótico de subaproveitamento e subformação da força laboral, cresce no país
um fenômeno chamado de “a uberização do trabalho”. Nessa nova relação, caracterizada por
aplicativos de celular intermediarem a relação produtor e consumidor, o funcionário não é
entrevistado, não conhece o seu patrão e apenas preenche um formulário online.
Envolvendo-se em um vínculo extremamente impreciso em termos de legislação trabalhista, é
evidente que o contratado é levado a uma posição de grande vulnerabilidade, uma vez que é
comum que ele fique, por exemplo, encarregado de providenciar todos os aparatos que a
atividade a ser exercida requer, endividando-se antes mesmo de começar a ganhar algum
dinheiro. Essa dinâmica abusiva foi mostrada em um recente episódio do programa “Greg
News”, intitulado “Delivery”. Lá, Gregório Duvivier denuncia a situação dos entregadores do
“IFood” submetidos a uma empresa que, embora evidentemente trabalhe com entregas de
produtos alimentícios, atesta em seus documentos o contrário. Dessa maneira, caso o
empregado, apontado como um “colaborador”, sofra um acidente de trabalho, a firma tem maior
facilidade legal de sair isenta de qualquer responsabilidade. Assim, o trabalhador “uberizado” é
ludibriado pela fantasia do “self-made man” e aprisionado sem piedade pela mão invisível do
mercado.
Fica claro, portanto, que os efeitos da informalidade na sociedade brasileira são nefastos e
promovem a piora da exploração no mundo do trabalho. A fim de modificar esse quadro, é
fundamental que o Estado comprometa-se com políticas públicas preventivas de educação e
paliativas, de caráter keynesiano, que garantam o sustento e aumentem a empregabilidade
para os cidadãos brasileiros. Isso pode ser promovido pela aliança com as secretarias de
educação dos estados e municípios a fim de estruturar as escolas para um ensino de
excelência, à semelhança das instituições federais de educação básica como os IF’s,
garantindo professores doutores, material escolar gratuito e prédios funcionais, o que
prepararia os jovens para competir de maneira mais igualitária no mercado. Como medida mais
imediata, o Estado deve introduzir benefícios sociais para a parcela mais carente da população
ter condições mínimas de se organizar financeiramente e aumentar a empregabilidade estatal.