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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

A personificação do Divino no conto “História do Peixe-pato” de Jorge


de Sena

Trabalho apresentado à professora Luciana Salles


como requisito avaliativo da disciplina de Narrativa
Portuguesa II pela aluna Ana Carolina Marçal
Gomes portadora do DRE: 114040437.

Rio de Janeiro,
2019/2
Este trabalho pretende analisar alguns aspectos do conto “A história do Peixe-
pato” publicado no livro Antigas e novas andanças do demónio (1978) pelo autor
português Jorge de Sena. No conto em análise resgata-se a ideia de que é através da
capacidade de manifestar a aparência divina que se dá a poesia, ou seja, o conto
apresenta a personificação do Divino na figura da tempestade e das aves, resgatando a
aparência divina para construir uma narrativa de superação da lei divina por meio da
experimentação amorosa.

A partir dessa ideia, tanto em “história do peixe-pato” como em O físico


Prodigioso (1977), com a passagem dos “quatros ladrões” buscadas na obra “Orto do
Esposo” do final do século XVI e início do século XV, acerca desse fato, DUARTE
(1978, p. 84), em seu ensaio sobre O Físico Prodigioso (1977), ressalta que

a presente narrativa encontra-se realmente marcada pelo fascínio


duma antiga história perdida no tempo e anónima, como lugar duma
escrita actual com interpenetração de tempos. Aí decorre a
complexidade desta experiência: [...] uma história que tem a sua
génese no fascínio da história.”. (DUARTE, 1978, p. 84)

Em “história do peixe-pato” é apresentada a história de um homem, o qual não


sabe quem é nem de onde veio, habitando uma faixa de areia numa ilha “lá para as
bandas das Áfricas, das Índias ou dos Brasis (1978, p. 1)”. Ao iniciar a narrativa, o autor
nos apresenta a paisagem como um paraíso, em que fazia tanto calor “que o mar parece
de vidro azul, e as florestas crescem tanto que se apertam, apertam, e chegam mesmo ao
pé da água.” (p. 1). Nessa bela paisagem o homem, o qual não sabemos o nome, tenta
fincar suas raízes construindo uma cabana, no entanto, como a floresta é muito fechada
e o mar próximo, disponibiliza apenas uma faixa de terra em que o homem não
conseguia se estabelecer devido às fortes tempestades.

Sobre a significação da tempestade, GAGO (2012, p. 8) ressalta que “a


fragilidade e a precariedade da ação e construção humanas perante os caprichos da
poderosa Natureza, que reclama o seu espaço destruindo as vãs tentativas da sua
apropriação da parte do homem.” Diante deste fato, percebe-se que durante a narrativa o
homem busca estabelecer-se naquele sítio, no entanto, “quando vinha o mau tempo, e às
vezes vinha, ainda ele não/ tinha chegado e já o homem ficava sem casa nenhuma.”
Ainda sobre a tempestade, GAGO (2012, p. 8) afirma que “a leitura na narrativa
remete-nos para o Robinson Crusoé de Daniel Defoe (1660-1731): a ilha situada num
ponto geográfico pouco definido, habitada pelo homem solitário que constrói a sua
cabana frágil e vulnerável às imprevisíveis tempestades.” Ao longo da narrativa o autor
deixa clara a tentativa do homem em se estabelecer naquele pedaço de terra, mas a
Natureza não estava disposta a deixá-lo criar raízes ali.

A tempestade assume, na narrativa, um caráter punitivo, visto que é


personificada em punição, pois ela finge que “ia acabar com o mundo” (p. 1), e toda vez
que se manifestava coloca o homem em uma situação perigosa, já que a ideia de
punição retomada por Jorge de Sena traz como meio punitivo a chuva, ou seja, a
tempestade. Com isso, a chuva retoma a ideia do dilúvio, a qual é retrato da intervenção
divina manifestada pela tempestade. Logo, há a personificação do divino na figura da
tempestade, apresentada logo no início do conto e retomada mais tarde no clímax da
história.

GAGO (2012, p. 13) ressalta o caráter significativo da tempestade na obra, pois

podemos considerar que a tempestade, assume uma simbologia


ambivalente: possibilita o encontro [...] mas também a separação, a
perda; é fator de destruição, mas também de regeneração e de
reconstrução; e, por último, delineia-se como presságio de morte. No
fundo, a tempestade, atravessada por estas ambivalências, assume-se
como uma representação metafórica da condição existencial, eivada
de mistério e absurdo. (GAGO, 2012, p. 13)

Mas adiante no conto é apresentada uma nova personagem descrita como “um
peixe grande e estranho, como que tendo patas em vez de barbatanas ou um par de
barbatanas como patas, e de corpo luzidio e esbranquiçado, muito redondo, que parecia
coberto de penas” (p. 4). Com a inserção dessa personagem dá-se início a um
relacionamento amoroso entre ambas as partes, o homem náufrago e o Peixe-pato. Esse
fato é comprovado através do texto, visto que o roçar de ambas as partes satisfaz tanto o
homem quanto o peixe-pato, estabelecendo essa relação amoroso entre dois seres de
espécies diferentes.
A troca de olhares entre o homem e o peixe-pato é elemento presente na
narrativa, como podemos visualizar na passagem a seguir:

ele admirado de o peixe o fitar e sem lhe ocorrer o mergulho e a


lançada com o espeto, e o peixe muito sossegado, a olhá-lo com o
olho redondo, azulado, debruado de vermelho. (SENA, 1978, p. 4)”.

A relação amorosa de ambos se estabelece com o contato visual, evoluindo para


o físico, sendo, então, que quando ocorre a sensação física, o olhar não se torna mais
necessário, portanto quando o homem estava a “fazer festas” o peixe-pato não lhe
olhava fixamente com “o olho arregalado, debruado de vermelho”. Assim, como
mostra-se no fragmento a seguir:

Quando ele passou perto da sua mão que não segurava o peixe por
segurar o espeto, com as costas da mão e o braço o homem fez uma
festa ao peixe-pato que logo deu uma meia-volta desajeitada e veio ele
mesmo roçar-se-lhe no braço. (SENA, 1978, p. 6)

O fato de serem e diferentes espécies é irrelevante, pois um é capaz de completar


o outro. Sobre o erotismo, BATAILLE (2013, p. 13) afirma que “o erotismo dos corpos,
o ertismo dos corações e, finalmente, o erotismo sagrado [...] está sempre em questão de
substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de
continuidade profunda”. Nesse propósito, o erotismo ocorre na completude dos corpos,
no fato de que após se apaixonar pelo peixe-pato a percepção do homem muda, a
natureza ao seu redor deixa de ser bela, para ser aprisionadora, agora a floresta era como
uma muralha, vejamos o fragmento abaixo:

a floresta era uma muralha verde muito ao longe, longe do cabo e do


mar, mas uma muralha que, reparando melhor através da distância,
crescia afinal em altura com enormes abertas, por entre as quais era
ainda areia o que se via. (SENA, p. 9)

Sena ainda acrescenta o elemento onírico no texto, a questão do sonho torna-se


algo fundamental para a construção do poema, pois é através do sonho que são descritas
as atitudes que não aconteceram junto ao peixe-pato, ou seja, no sonho o erotismo torna-
se mais intenso.
Talvez mesmo tenha adormecido, de um sono agitado, povoado de
olhos arregalados que o fitavam, debruados de vermelho,
apaixonadamente, e de que acordava torcendo-se na areia, ao sentir,
no ventre, nas ancas e nas pernas, a memória de um perpassar fofo e
macio, e nos braços, contra o peito que arquejava, um ronronar
vibrando levemente. (SENA, p. 10)
Referências Bibliográficas:

BATAILLE, Georges. O erotismo / Georges Bataille; tradução de Antonio Carlos


Viana. — Porto Alegre : L&PM, 1987.

GAGO, Dora Nunes. Tempestades na terra, no mar e na alma em Vitorino Nemésio e


Jorge de Sena - Revista Desenredos, Janeiro de 2012, disponível em:
http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/12-artigo-DoraGago-tempestades.pdf

Orto do Esposo in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-
2019. [consult. 2019-12-07 20:51:39]. Disponível na Internet:
https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$orto-do-esposo

FARIA, Duarte. "[Recensão crítica a 'O Físico Prodigioso', de Jorge de Sena]" / Duarte
Faria. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 44, Jul. 1978, p. 84.

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