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POESIA, TRADUÇÃO

Um cântico de Inana e Dumuzid

02/01/2016 | ADE | ADRIANO SCANDOLARA, AUTOR ANÔNIMO, CLÁSSICAS, DIÁLOGO


POÉTICO, ESCRITA CUNEIFORME, INANA, MESOPOTÂMIA, MITO, POESIA AMOROSA,
POESIA EROTICA, POESIA SACRA, POESIA SUMÉRIA, SUMÉRIO | 1 COMENTÁRIO
(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/11/inana-e-dumuzid.jpg)
Inana/Ištar e Dumuzid/Tâmuz, em detalhe de cerâmica suméria

Bem, por sorte eu já falei bastante longamente sobre a deusa Inana, divindade suméria do amor, do
sexo, da fertilidade e da guerra (conhecida como Ištar entre os babilônios e possível origem da deusa
Afrodite no panteão grego) e seu esposo Dumuzid (ou Tâmuz), num momento anterior aqui no
blogue, quando apresentei o poema “A descida de Inana ao mundo dos mortos”
(h ps://escamandro.wordpress.com/2015/04/06/a-descida-de-inana-ao-mundo-dos-mortos/) (e um
outro post que fala da deusa também é o do Bernardo com a tradução da tabuleta 6
(h ps://escamandro.wordpress.com/2015/03/30/sin-leqi-unnini-ele-o-abismo-viu-serie-de-gilgamesh-
tabuinha-6-traducao-de-jacyntho-lins-brandao/) do Épico de Gilgámeš), por isso acredito que agora eu
posso ser um pouco mais breve nesta introdução. Para ser realmente brevíssimo, o tema deste post
agora é um poema sumério de diálogo erótico entre o casal de deuses. Pois é.
O livro do Cântico dos Cânticos (h ps://escamandro.wordpress.com/2013/08/19/o-cantico-dos-canticos-vindo-
de-haroldo-de-campos/) é a nossa referência mais óbvia para o gênero, acredito, com suas referências
sexuais algo explícitas e seu jogo de vozes entre o rei Salomão, a jovem que é desposada por ele ao
longo do poema e uma outra voz que funciona mais ou menos como um coro grego, ainda que isso
não esteja explícito na maioria das edições bíblicas. O gênero do poema dialógico parece ser um velho
conhecido já da literatura mesopotâmica, vide “O diálogo do pessimismo”
(h ps://escamandro.wordpress.com/2015/12/10/o-dialogo-do-pessimismo/), que já vimos aqui
também, apesar de que é difícil dizer se, assim como os poemas sumérios, “O diálogo do
pessimismo” era um poema musicado que transcrito na argila, ou se era uma criação original de um
escriba para circular só entre escribas. São mais raros, no entanto, os exemplos de poemas com o
mesmo teor que o famoso poema bíblico, que, apesar de sua atribuição ao rei Salomão, estima-se que
tenha sido composto mais ou menos durante o chamado período persa da cultura de Judá, i.e. nos
séculos logo após o retorno do exílio na Babilônia em 536 a.C., o que faz com que ele seja muito
recente na história do Oriente Médio. E é por isso que encontrar um poema sumério – composto no
máximo até 1600 a.C., portanto – com essa mesma configuração é nada menos que fascinante (pelo
menos tanto quanto a perspectiva de dizer aos amigos que você está lendo pornografia suméria).

Como é normal na literatura suméria, o tal poema em questão não tem nome de autor e tampouco
tem título, com exceção da classificação dada pelo Electronic Corpus of Sumerian Literature como
Dumuzid-Inana P e a sua descrição dúbia como um possível balbale (um gênero poético sumério, ao
qual pertence a “Canção de Amor de Šu-Sin” (h ps://escamandro.wordpress.com/2015/01/19/a-
cancao-de-amor-de-su-sin-um-poema-sumerio/), já traduzida aqui também). O original transcrito do
poema e a sua tradução para o inglês podem ser verificados no ETCSL clicando aqui
(h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.4.08.16#), que, por sua vez, reproduz o poema com
base no volume Love songs in Sumerian literature: critical edition of the Dumuzi-Inanna songs, de Yitschak
Sefati, publicado em 1998 pela Bar-Ilan University Press. Infelizmente, como vocês podem averiguar,
o poema está fragmentado, o que atrapalha muito a fruição e é um pesadelo para qualquer tradutor,
mas bem, a gente faz o que dá para fazer. A descoberta de um poema desses, em todo caso, é bom
demais para deixar passar por causa de um detalhe como falta de integridade física.

Eu poderia me demorar mais comentando coisas como a franqueza da linguagem sexual do poema,
que é típica da falta de pudor dos sumérios (benza Inana) ou ainda o que podemos reconhecer como
um lirismo surpreendentemente próximo do nosso, apesar da distância temporal, em algumas
imagens como a da vulva de Inana como uma nau celeste (eu disse que eles eram francos) ou bela
como a jovem lua crescente. Mas acredito que o poema fale por si mesmo. Sem mais delongas,
portanto, segue a minha tradução. Operando do mesmo modo que as anteriores (com contato direto
com o original, mas norteado também pela tradução inglesa), ela contempla as partes mais legíveis
dos segmentos A e B do poema tal como disponibilizado pelo ETCSL.

Um cântico de Inana e Dumuzid

(…)

Inana
sobre povos numerosos pousei meu olhar
e a Dumuzid apontei por deidade da terra
a Dumuzid, o amado de Enlil,
exaltei o nome, decretei o destino,
minha mãe muito o estima
meu pai o elogia
eu me banhei e lavei-me com espuma
banhando-me em pé sobre a tina
minhas vestes, como as dos justos, foram passadas
meu vestido soberbo foi ajustado

(…)

o poeta entoa um cântico


meu esposo celebra comigo
Dumuzid, o touro selvagem, celebra comigo

Coro
…o desejo em tons de louvor
a senhora das terras todas…
que faz subir as preces em Nibru…
que faz descer as preces…
a senhora louva a si própria;
o gala[1]… em canto
Inana louva…
seu sexo em canto

Inana
este sexo, …
como um chifre, um grande coche…
esta minha Nau Celeste ancorada
que traja a beleza como a jovem lua crescente
este ermo na estepe…
estes prados de cairinas onde pousam minhas cairinas
estes prados altos e bem molhados
meu sexo, um morro aberto e bem molhado
quem será seu lavrador?
meu sexo, um morro aberto e bem molhado
quem levará o touro a ele?

Dumuzid
senhora, o rei virá lavrá-los para ti
Dumuzid, o rei, virá lavrá-los para ti

Inana
lavra meu sexo, homem do meu coração

Coro
…ela banha seus divinos quadris

[1] gala é como se chama um tipo de sacerdote ou cantor ritual, de natureza sexualmente ambígua,
devoto de Inana. Por conta da especificidade da função, achei que seria melhor deixá-lo no original.

(tradução e comentário de Adriano Scandolara)


CRÍTICA, POESIA, TRADUÇÃO

“A descida de Inana ao mundo dos mortos”

06/04/2015 | ADE | ADRIANO SCANDOLARA, AUTOR ANÔNIMO, CATÁBASE, CLÁSSICA,


ESCRITA CUNEIFORME, INANA, MESOPOTÂMIA, MITO, POESIA SUMÉRIA, SUMÉRIO | 2
COMENTÁRIOS
(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/03/british_museum_queen_of_the_night.jpg)
Relevo mesopotâmio em terracota,em exposição no British Museum conhecido como “Rainha da Noite”, que,
acredita-se, seria uma representação da deusa Inana/Ištar, ou, possivelmente, sua irmã Ereškigal

“A descida de Inana ao mundo dos mortos” é o principal texto por trás de um dos mitos mais célebres
do Oriente Médio: a narrativa de Tâmuz e Ištar. Como se sabe, Tâmuz era um deus da vegetação,
consorte da deusa do amor, do sexo, da fertilidade e da guerra, e a cada ano, ao chegar o solstício de
verão, quando ele morre e renasce, seus ritos envolveriam lamentos pela sua morte, e as águas do rio
Adônis (hoje chamado Ibrahim), no Líbano, próxima à cidade antiga de Biblos (hoje Jubayl),
avermelhadas por causa da lama, seriam manchadas por seu sangue. Essa é a narrativa padrão que
temos e que, não por acaso, encontra ecos depois no mito grego de Vênus e Adônis (segundo o qual, o
deus seria partilhado, durante meses diferentes, por Vênus e por Prosérpina, passando metade do ano
no mundo dos vivos e metade no mundo dos mortos, segundo o ciclo das estações), um mito muito
possivelmente importado através dos fenícios, considerando como Adônis, como o nome clássico do
rio Ibrahim, é uma palavra de origem semítica, partilhando da mesma raiz ‘A-D-N que Adonai, com o
sentido de “senhor”. Em todo caso, porém, se formos olhar bem o mapa do Oriente Médio, podemos
observar que a Mesopotâmia fica a alguns bons quilômetros de distância de Biblos, e, uma vez que o
mito de Tâmuz é originalmente sumério, observa-se que ele deve ter feito uma bela viagem para sair
das margens dos rios Tigre e Eufrates e chegar ao rio Adônis. Mas há mais algumas coisas curiosas
ainda em torno dessa história, que pretendo comentar aqui como introdução para a minha tradução
do poema.

Antes de mais nada, alguns detalhes sobre nomes: Tâmuz é o nome que chega a nós pelo viés
hebraico (‫)תמוז‬. Até hoje ele é o nome do mês do calendário judaico equivalente a junho/julho – pleno
verão, portanto – que os judeus derivaram a partir de um mês chamado Du’uzu do calendário
babilônico, que homenageava o deus. Como se sabe, porém, a língua falada na Babilônia,
especialmente à época do exílio dos judeus, não era o sumério, mas uma língua semítica, como o
hebraico e o aramaico, que era o acádio (em que foi escrita a versão mais completa que temos do Épico
de Gilgámeš (h ps://escamandro.wordpress.com/tag/gilgamesh/)), e Du’uzu seria um empréstimo de
Dumuzi/Dumuzid – do sumério significando “filho (dumu) legítimo (zid)”. Além de uma divindade,
Dumuzid também teria sido um rei do período pré-dinástico da Suméria, assim como Gilgámeš
(conhecido em sumério como Bilgameš). O nome Ištar é também um nome acádio, e, assim como
Vênus é um sincretismo feito pelos latinos com base na Afrodite grega, ela se baseia na deusa Inana
dos sumérios, que residia em Úruk e que também estava associada ao planeta que hoje chamamos
Vênus e que era conhecido entre os babilônios pelo nome Dilbat.

Dito isso, imagino que o mais surpreendente seja descobrir que o que parece ser um dos principais
elementos do mito à primeira vista (a morte e renascimento do deus), é, na verdade, um elemento
secundário que quase não aparece nas tabuletas que chegaram a nós. A situação é tão confusa que,
quando traduziram pela primeira vez a tabuleta contendo “A descida de Inana ao mundo dos
mortos”, o consenso inicial era que a deusa Inana estaria indo buscar o seu amado nos infernos, como
faz o Orfeu grego. Porém, muito pelo contrário, ocorre é que Inana estava na verdade indo ao
submundo por outros motivos – em sua maior parte desconhecidos, mas há autores que presumem
que fosse uma tentativa de ampliar sua esfera de influência – e que, ao fracassar em sua empreitada,
morrendo no caminho (por pouco não permanentemente), ela acaba era causando a morte do marido.
Para dar mais detalhes, o problema é que não é permitido a ninguém (nem mesmo a uma deusa
consideravelmente poderosa como Inana) voltar dos infernos, ou pelo menos não sem mandar
alguém no seu lugar – e esse alguém acaba sendo Dumuzid, por ele não ter chorado a morte dela.
Esse é o principal assunto do poema: a preparação de Inana para descer ao mundo dos mortos, sua
morte ao tentar sentar no trono de sua irmã, Ereškigal, rainha dos mortos, e seu renascimento com
Dumuzid sendo escolhido como substituto.

Outras tabuletas – como “O sonho de Dumuzid” (h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?


text=t.1.4.3) e “Dumuzid e Ĝeštinana” (h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.4.1.1#) –
relatam outros episódios do ciclo do mito, como a premonição de Dumuzid antes de os demônios
aparecerem para buscá-lo e a perseguição que se deu, mas não consegui encontrar fontes sumérias
que tratem mais longamente da parte posterior, sobre seu retorno, em que sua irmã Ĝeštinana, deusa
do vinho (“Ĝešti” (diz-se Nheshti) é “videira” em sumério), acompanhada por uma Inana bastante
arrependida, faz um acordo com Ereškigal, de modo que os dois irmãos passariam a se revezar no
inferno ao longo do ano, introduzindo o aspecto de ciclos sazonais no mito, pelo qual ele viria a ser
conhecido. Esse acordo está presente nos versos 404-410 da tabuleta, onde há menção a cada um
passar uma metade do ano entre os mortos, mas, diferente de outras obras literárias que tratam de
p q

(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/03/estrela-de-

inana.jpg)
A estrela de Inana, um dos símbolos da deusa

deuses de vegetação e ciclos sazonais, como, por exemplo, em grego, o “Hino Homérico a Deméter”
(do século VII ou VI a.C.), a relação disso com o revezamento dos deuses não está bem explícita, e o
papel exato de Dumuzid, que a princípio era um deus pastor, também fica obscuro.

Esse mesmo mito é recontado depois no poema em acádio “A descida de Ištar ao mundo dos mortos”,
uma releitura contendo menos da metade dos versos do original sumério, que encurta
consideravelmente a narrativa. “A descida de Ištar” também introduz alguns elementos importantes
para a caracterização dos deuses, um dos quais é o de que nele a morte de Ištar faz com que todo tipo
de fertilidade e desejo sexual cessem enquanto ela estiver no inferno, assim como, no mito grego, o
tempo que Perséfone/Prosérpina passa no Hades faz com que venha o inverno. Ao que tudo indica,
porém, há vários séculos que separam um poema do outro. “A descida de Ištar” foi escrito no período
neo-assírio (entre 911 e 612 a.C., aproximadamente), ao passo que o original sumério teria algo entre
sete e quatorze séculos a mais. E, falando em datas, como expõe Marie-Louise Thomsen em The
Sumerian Language, há três períodos de história da produção textual suméria: o período do Antigo
Sumério (2600 – 2200 a.C.), cujos textos são quase ilegíveis, porque o cuneiforme era usado apenas
como auxílio mnemônico (o que faz com que detalhes gramaticais sejam ausentes nesses textos); o
período Neossumério (2200-2000 a.C.), do qual faz parte a 3ª dinastia de Ur, que produziu textos
como “A canção de amor de Šu-sin” (h ps://escamandro.wordpress.com/2015/01/19/a-cancao-de-
amor-de-su-sin-um-poema-sumerio/) e os poemas de Enheduana
(h p://revistamododeusar.blogspot.com.br/2014/04/en-heduanna-2285-2250-ac.html); e, por fim, o
chamado Pós-sumério ou Paleobabilônico (2000 – 1600 a.C.), do qual datam a maioria dos textos do
corpus poético que temos à disposição. É por causa de elementos gramaticais que Thomsen identifica
que “A descida de Inana” só poderia ter sido escrito no período Paleobabilônico – e, de fato, é notável
como os textos dessa época são mais complexos do que os das épocas anteriores.

Considerando então os comentários do profeta bíblico Ezequiel (que viveu em torno do século VI
a.C.), condenando o culto idólatra a Tâmuz (Ez. 8:14-15), que já incorporava os elementos rituais de
lamento pelo deus morto, temos aí, entre os anos 2000/1600 e 600 a.C., uns bons mil anos para o culto
se disseminar e se desenvolver. Outra data importante é o ano de 1750 a.C., quando é instituído o
calendário babilônico, como uma tentativa de aperfeiçoar o calendário sumério (que era lunar e no
qual faltavam alguns dias para bater a contagem dos dias com a órbita da Terra), dividindo um ano
de 354 dias em 12 meses, começando a partir da primavera, com um 13º mês sendo eventualmente
decretado pelo rei para compensar as disparidades e corrigir o calendário. O fato de que Tâmuz
ganha um mês dedicado a ele – e justo o mês em que se passariam os ritos relacionados ao lamento
por sua morte – parece significativo, portanto, visto que outros deuses importantes do panteão
babilônico – como Ánu, Ea, Sin, Šámaš e Ištar – também têm um mês dedicado a cada um.
(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/03/inanna-dumuzi.jpg)
Inana e Dumuzid
A coisa toda fica ainda mais complicada quando lembramos que existia um outro deus, chamado
Damu, que também morre e renasce e que, diferente de Dumuzid, que era um pastor, seria um deus
da vegetação propriamente. Ele é mencionado no poema “Jornada de Niĝišzida ao mundo dos
mortos” (h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.7.3#), que, ao que parece, a julgar pela
complexidade do texto, deve datar do mesmo período que “A descida de Inana”. Segundo diversos
autores, Damu e Dumuzid poderiam ser identificados um com o outro, de modo a representar
diferentes aspectos – opostos-complementares, inclusive, vide a relação Caim e Abel, que parece
encarnada de forma mais harmônica em Damu/Dumuzid – de uma mesma divindade. Enfim, é
provavelmente impossível dizer como o mito de Inana e Dumuzid se desenvolveu até assumir a
forma que viria a ser associada ao culto de Tâmuz. Fora “A descida” e os poemas em torno de sua
narrativa, há 33 outros poemas sobreviventes sobre o casal, em estados diversos de conservação,
tematizando o amor ou os jogos de sedução entre os dois deuses. Um deles (4.08.16 no ETCSL, o
balbale a Inana (Dumuzid-Inana P), acessível clicando aqui (h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-
bin/etcsl.cgi?text=t.4.08.16#)), aliás, é particularmente digno de nota, ao representar um diálogo
bastante pitoresco em que a deusa descreve seu sexo como um “campo úmido e bem regado”,
pedindo para que Dumuzid venha lavrá-lo. Por isso é estranho que, com tantos poemas (e tão
variados), nenhum deles que tenha sobrevivido trate mais longamente do trecho final do mito. Pode
parecer um pouco obsessivo de minha parte (e, de fato, é), mas, para traçarmos uma comparação, o
que acontece com o culto de Tâmuz/Dumuzid parece ser mais ou menos como se Jesus viesse a ser
conhecido não pelo episódio da sua morte na cruz e ressurreição, descritos em todos os quatro
evangelhos, mas pelo milagre mais obscuro da moeda na boca de um peixe para pagar o imposto do
templo (Mateus 17:24-27) e se tornasse então o deus do pagamento de imposto. De quebra ainda, “A
descida de Inana” termina com um verso dedicado não a Inana, heroína do poema, ou a Dumuzid,
sua vítima, ou mesmo Ĝeštinana, por ter se sacrificado pelo irmão, mas a Ereškigal, que é quase a vilã
da história: “Divina Ereškigal / doce é louvar-te”. Pois é.

Agora, sobre o poema em si: a história que ele narra, como é comum entre poemas de mitos, é
bastante esquemática e apresentada segundo as convenções que parecem típicas da literatura
suméria, como as fórmulas e repetições. Ele começa dizendo:

“Do vasto céu, voltou-se à terra vasta.


Do vasto céu, a deusa voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, Inana voltou-se à terra vasta.”

…onde se observa a mesma estrutura dos versos que abrem “O sonho de Dumuzid”:

“Ia ao campo, com o peito cheio de pesares.


O jovem ia ao campo, com o peito cheio de pesares.
Dumuzid ia ao campo, com o peito cheio de pesares.”

O primeiro verso anuncia o mote dos poemas (Inana, que rege os céus, se interessa pela terra,
Dumuzid sai perturbado porque teve um sonho profético sobre sua morte), mas sem anunciar quem
é o seu protagonista. O segundo alude ao protagonista por um título (diĝir, “divindade”, e ĝereš,
“jovem”) e só no terceiro vemos o seu nome completo.

Depois desses versos de abertura, temos uma sequência enumerando todos os locais com templos
dedicados à deusa onde ela abandonou o ofício divino para seguir ao mundo dos mortos, que optei
por traduzir como “abismo” para manter algo do tom topológico da palavra kur, que em sumério
também quer dizer “montanha”, além de “inferno”. Inana se prepara, então, e para isso prepara os
sete me para acompanhá-la. Um me é um decreto universal de autoridade divina e é parte da
concepção de mundo dos mesopotâmios, que é distribuído aos deuses pelo Pai Enki no poema “Enki
e a Ordem do Mundo” (h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.1.3#). Aqui, porém, eles
assumem a forma de peças de roupa, com as quais Inana se veste. A palavra é mencionada também
(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/03/enki.jpg)
Enki, deus da criação, da sabedoria, da água e do logro

em outros momentos do poema, como quando Enlil e Nana afirmam que “os me do abismo não são
me que se deseje”. Na tradução, para tentar captar esse sentido e evitar salpicar o poema de palavras
sem tradução, optei por verter consistentemente a palavra me por “dom”/”dons”, que, acredito, capta
algo dessa conotação religiosa do termo.

Na sequência, Inana se vira para Ninšubur, sua sukkal (algo como “cortesã”, “mensageira”), e lhe dá
as instruções para o que ela deve fazer em sua ausência. Primeiro temos os atos de luto, depois o
pedido de que Ninšubur visite Enlil, um dos deuses supremos, e Nana, deus da lua, pai de Inana e de
seu irmão Utu, deus do sol (Šámaš em acádio), e, caso eles não possam ajudar, por fim, Enki, que
conhece a erva da vida e a água da vida e poderá trazer Inana do mundo dos mortos, caso ela não
retorne. Dito isso, ela parte e vem bater na porta de Ganzir, o palácio do mundo dos mortos, sendo
atendida pelo porteiro Neti. Ela diz que vem visitar Ereškigal, sua irmã, que está de luto pela morte
de seu marido Gugalana – literalmente “Grande Touro do Céu”. No Épico de Gilgámeš, como vimos na
tábua 6 na tradução de Jacyntho Lins Brandão (clique aqui
(h ps://escamandro.wordpress.com/2015/03/30/sin-leqi-unnini-ele-o-abismo-viu-serie-de-gilgamesh-
tabuinha-6-traducao-de-jacyntho-lins-brandao/)), Gugalana tem um papel importante, pois Ištar,
após ser recusada pelo herói por causa do que aconteceu com Dumuzid e a outros heróis, pede a Ánu
para que solte a imensa besta para vingá-la, mas o animal é morto por Gilgámeš e seu parceiro
Enkídu. O Épico de Gilgámeš, porém, é um poema acádio, organizado primeiramente no período
Paleobabilônico a partir de tabuletas anteriores individuais, que não formavam um todo coeso, mas
um ciclo de episódios em torno do herói sumério, só depois ainda (1200 a.C.) assumindo a forma que
conhecemos como definitiva. Na tabuleta original que trata do episódio de Gugalana
(h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.8.1.2#), Inana está furiosa com Gilgámeš, mas o
motivo é desconhecido e pode ter se perdido nas avarias sofridas pela argila. Em todo caso, não
parece haver menção a Dumuzid – o que criaria um paradoxo curioso, pois Dumuzid morre porque
Inana desce aos infernos, mas Inana só desce aos infernos após a morte de Gugalana, morto por
Gilgámeš após Inana soltá-lo, porque Gilgámeš a recusou por não querer que lhe acontecesse… o que
aconteceu (aliás, acontecerá!) com Dumuzid, amante de Inana!

Mas estou digredindo… em todo caso, Gugalana é só a desculpa dada por Inana, e uma desculpa que
Ereškigal não engole. Suspeitando da irmã, ela manda Neti preparar sete portões, com cada um só se
abrindo para ela após ela se despir de uma de suas sete peças de roupa (seus me, portanto). Passados
todos os portões, ela chega aos infernos nua – e, mais do que isso, desprotegida. Ao tentar sentar-se
sobre o trono de sua irmã, porém, Inana é julgada pelos juízes infernais, os Anuna, ou Anunaki
(como os 3 juízes do Hades grego, só que 7 em vez de 3), e se transforma imediatamente num
cadáver, pendurado num gancho.

Enquanto isso, Ninšubur suspeita que algo tenha dado errado e vai consultar os deuses. O único que
a ajuda, como esperado, é Enki, criando da terra debaixo das suas unhas duas criaturas, que manda
atrás de Inana, chamadas gala-tura e kur-ĝara, levando a erva da vida e a água da vida até ela. Os dois
nomes são termos também para tipos de sacerdotes que aparentemente deviam cantar e dançar
durante os ritos religiosos sumérios. De novo, para evitar cobrir o poema de termos não traduzidos,
eu decidi arriscar uma tradução (meio à moda de Haroldo de Campos, quando verte o nome Qohélet,
o Eclesiastes, como O-que-sabe (h ps://escamandro.wordpress.com/2013/09/26/qohelet-o-que-sabe/))
para eles, de modo que gala-tura se tornou “chora-miúdo” (gala é um tipo de sacerdote de
lamentações, tur é pequeno) e kur-ĝara, “deita-abismo” (kur, como dito, é a palavra para “montanha”
ou “abismo”, ĝar é mais ou menos o verbo “pôr”, presente em outros verbos compostos como a ĝar,
“irrigar” (literalmente pôr água), igi ĝar (deitar os olhos), etc).

O plano de Enki dá certo, mas Inana descobre que não poderá fugir assim tão fácil do submundo e
que precisa escolher alguém para morrer em seu lugar. Ela é escoltada por um bando de demônios
chamados gala, e eles primeiro querem levar Ninšubur, mas Inana não deixa, porque ela cumpriu
suas instruções e seria desleal recompensá-la assim. Depois eles se voltam para Šara e Lulal, mas ela
também não quer que eles os levem. Por fim, eles flagram Dumuzid que não só não estava de luto
como ainda parecia estar aproveitando que Inana tinha morrido. Dumuzid faz uma prece a Utu para
que o transforme numa cobra e possa fugir, e o deus o concede, mas mesmo assim ele acaba
capturado (esse trecho está descrito com mais detalhes no poema “O sonho de Dumuzid”). E então o
restante da tabuleta está danificado demais para podermos entender direito o que se passa. Vemos
que Inana chora a morte do marido, depois conta com a ajuda de uma mosca para reencontrá-lo.
Então tem o acordo e o verso final de louvor a Ereškigal. E isso é uma das coisas frustrantes de se
trabalhar com poemas dessa época.

A disparidade entre o que se sabe do culto de Tâmuz e a matéria do poema faz com que ele seja um
tanto complicado de interpretar. Há algumas leituras junguianas do mito que o interpretam como
aquela coisa de morte e renascimento pessoais (simbolizados pela passagem no inferno) e a
necessidade de desapego do passado (simbolizada pelo despir-se da deusa), mas essa leitura
beirando a auto-ajuda não parece se sustentar diante do texto em si, além de ser problemática por
projetar como o “verdadeiro” sentido “por trás” do mito uma mensagem que é essencialmente
burguesa, no sentido de que só é possível numa sociedade individualista (que não era o caso dos
sumérios). Em vez disso, eu arriscaria dizer, parece que o foco principal do poema é a morte. Antes
de partir, Inana explica a Ninšubur os atos adequados do luto (vestir-se como “alguém que nada
possui”, carpir-se, bater tambor) e, quando conversa com Neti, comenta os ritos fúnebres de Ereškigal
em honra a Gugalana. Quando ela retorna do inferno, consegue impedir que aqueles que estão de
luto por ela sejam afligidos pelos demônios, mas não Dumuzid, que não respeitou esses ritos
sagrados. As coisas que são levadas a ela para trazê-la de volta à vida são uma comida e água, duas
coisas completamente ausentes na concepção suméria de inferno (os mortos só recebem o que comer
e beber através das oferendas fúnebres). Até a presença da mosca parece simbólica nesse sentido, por
ser um inseto ligado à morte e à putrefação. E, de quebra, podemos enxergar no poema um eco,
séculos antes, da noção que virá a aparecer na Eneida (livro VI, v. 126-30) de Virgílio, na boca da Sibila
que fala com Eneias, de que ir ao mundo dos mortos é fácil, difícil é sair (e ninguém melhor que Inana
aqui para expor isso). O verso final de louvor a Ereškigal também parece corroborar essa
possibilidade de leitura.

A minha tradução, como na outra vez com “A canção de amor de Šu-Sin”, se orienta na tradução
disponível no Electronic Text Corpus of Sumerian Literature (clique aqui (h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-
bin/etcsl.cgi?text=t.1.4.1#)), mas, com o que eu pude aprender até agora de vocabulário e gramática
do sumério, prestando atenção no original, também disponível no site, de modo a atentar para a
estrutura dos versos e as possíveis nuances das palavras. Porque o final do poema está bastante
danificado, eu pulei as partes que seriam difíceis de traduzir de modo satisfatório (as lacunas estão
marcadas com (…)), dado o grau de ilegilibilade dos fragmentos, mas o restante está
consideravelmente bem conservado e permite uma leitura ininterrupta.

Adriano Scandolara

(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/03/inana.jpg)

A descida de Inana ao mundo dos mortos

Do vasto céu, voltou-se à terra vasta.


Do vasto céu, a deusa voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, Inana voltou-se à terra vasta.
Minha senhora precipitou-se do céu e da terra, descendo ao abismo,
Inana precipitou-se do céu e da terra, descendo ao abismo.
Precipitou-se do sacerdócio em En e em Lagar, descendo ao abismo,
precipitou-se de Unug, em E-ana, descendo ao abismo,
precipitou-se de E-muš-kalama, em Bad-tibira, descendo ao abismo,
precipitou-se de Giguna, em Zabalam, descendo ao abismo,
precipitou-se de Barag-dur-ĝara, em Nibru, descendo ao abismo,
precipitou-se de Hursang-kalama, em Kiš, descendo ao abismo,
precipitou-se de E-Ulmaš, em Agade, descendo ao abismo.

Ela atou os sete dons,


uniu os dons e os atou com a mão,
com auspiciosos dons pôs o pé na estrada,
pôs um turbante cobrindo a cabeça ao ar livre,
com a mão ajeitou a cabeleira cobrindo a testa,
ao pescoço atou um pingente de lápis-lazúli.

Carregou o peito com um par de contas,


trajou sobre os ombros a pala, vestes régias,
passou kohl nos olhos, que a todos diz “vem, vem”,
prendeu o alfinete ao peito, que a todos diz “vem, vem”,
pôs na mão um anel de ouro,
empunhou a linha e bastão de lápis-lazúli.

Prosseguiu Inana ao abismo,


seguiu-a sua cortesã Ninšubur.

Divina Inana diz a Ninšubur:


“Vem, cortesã leal de E-ana,
minha cortesã das belas palavras,
minha emissária das fiéis palavras.
Agora devo descer ao abismo,
agora, quando chegar ao abismo,
vai, lança nas ruínas um lamento por mim.
Vai, bate no sacrário o tambor por mim.
Vai, faz na casa dos deuses vigílias por mim.
Carpe teu rosto, carpe o nariz,
carpe, em público, tuas orelhas,
carpe as coxas sem que vejam.
Como quem nada possui, veste um único andrajo,
e sozinha pisa em Ekur, casa de Enlil.

Ao entrares em Ekur, casa de Enlil,


chora diante de Enlil:
‘Pai Enlil, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

Se então Enlil não for de ajuda, vai para Urim:


em Emudkura, em Urim,
ao entrares em Ekišnuĝal, de Nana,
chora diante de Nana:
‘Pai Nana, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

Se então Nana não ajudar, vai para Eridug:


ao entrares em Eridug, casa de Enki,
chora diante de Enki:
‘Pai Enki, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

O Pai Enki, senhor de largo entendimento,


conhece a erva-da-vida, conhece a água-da-vida.
Que ele à vida me traga.

No que Inana seguiu ao abismo,


Ninšubur, sua cortesã, a seguia atrás.
Diz ela à sua cortesã Ninšubur:
“Vai, Ninšubur, me dá ouvidos,
não te descuides das palavras que eu te disse”.

Quando Inana chega a Ganzir, grão palácio,


golpeia os umbrais, em fúria, frente ao abismo,
grita aos portões, em fúria, do abismo:
“Abre as portas, Ó porteiro, abre as portas!
Abre as portas, Neti, abre as portas! Venho só e quero entrar”.

Neti, grão guardião do abismo,


diz à divina Inana, diz em resposta:
“Tu, quem és?”
“Sou Inana e sigo o rumo do Sol nascente”.
“Se és Inana e segues o rumo do Sol nascente,
o que te trazes ao abismo sem retorno?
por que então puseste no juízo esta via de onde ninguém retorna?”

Divina Inana lhe retorna:


“Morrera o marido de minha irmã mais velha,
divina Ereškigal, o senhor Gugalana.
Dou oferendas de suas honras fúnebres,
e ela tanta cerveja liba em sua honra – é por isso”.

Neti, grão guardião do abismo,


diz à divina Inana, diz em resposta:
“Espera, Inana, que direi à minha senhora,
direi à minha senhora Ereškigal, direi a ela tuas palavras”.

Neti, grão guardião do abismo,


vai à sua senhora Ereškigal,
e, ao entrar em sua casa, diz:
“Minha senhora, tem uma jovem aqui.
Tua irmã, Inana, chegou às portas de Ganzir, grão palácio.
g p g p
Golpeou os umbrais, em fúria, frente ao abismo,
gritou aos portões, em fúria, do abismo,
precipitou-se de E-ana, descendo ao abismo.

“Ela atou os sete dons,


uniu os dons e os atou com a mão,
com auspiciosos dons pôs o pé na estrada,
pôs um turbante cobrindo a cabeça ao ar livre,
com a mão ajeitou a cabeleira cobrindo a testa,
ao pescoço atou um pingente de lápis-lazúli,

“Carregou o peito com um par de contas,


trajou sobre os ombros a pala, vestes régias,
passou kohl nos olhos, que a todos diz ‘vem, vem’,
prendeu o alfinete ao peito, que a todos diz ‘vem, vem’,
pôs na mão um anel de ouro,
empunhou a linha e bastão de lápis-lazúli”.

Nisso, Ereškigal bateu nas próprias coxas,


mordeu os lábios e guardou as palavras no peito,
disse a Neti, grão guardião:
“Vai, Neti, meu grão guardião do abismo,
não te descuides das palavras que te digo,
aldrava os 7 portões do abismo
e abre uma a uma as portas do palácio Ganzir
e então, quando ela entrar,
e agachar-se e despir-se das roupas, alguém irá levá-las”.

Neti, grão guardião do abismo,


dando ouvidos às palavras de sua senhora,
aldrava os 7 portões do abismo
e abre uma a uma as portas do palácio Ganzir
e diz à divina Inana:
“Vem, Inana, e faz tua entrada”.

Quando Inana entrou,


tiraram seu turbante, que cobria a cabeça ao ar livre:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo segundo portão,


tiraram do seu pescoço o pingente de lápis-lazúli:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo terceiro portão,


tiraram do seu peito o par de contas:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.
Quando entrou pelo quarto portão,
tiraram o alfinete do peito, que a todos diz “vem, vem”,
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo quarto portão,


tiraram de sua mão o anel de ouro:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo sexto portão,


tiraram de sua mão a linha e bastão de lápis-lazúli:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo sétimo portão,


tiraram de seu ombro a pala, as vestes régias:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Após agachar-se e após despir-se das roupas, alguém as levou.


Quando sua irmã se ergueu do trono,
ela se assentou ao trono dela.
Os Anuna, os 7 juízes, passaram juízo contra sua presença:
deitaram olhos sobre ela: o olhar da morte,
pronunciaram-lhe palavras: as palavras da peste,
pesava nela a voz: a voz do sacrilégio.
Abalada, ela se fez numa carcaça,
e a carcaça foi suspensa num gancho.

3 dias e 3 noites se passaram,


mas sua cortesã Ninšubur
guardava à memória as palavras de sua senhora:
lançou nas ruínas lamento e mais lamento por ela,
por ela bateu no sacrário o tambor,
por ela na casa dos deuses fez vigília e mais vigília,
carpiu o rosto e carpiu o nariz,
carpiu as coxas sem que ninguém visse,
como quem nada possui trajou um só andrajo
e sozinha pisou em Ekur, casa de Enlil.

Ao entrar em Ekur, casa de Enlil,


ela chorou diante de Enlil:
“Pai Enlil, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”
Pai Enlil, de estômago revirado, responde, responde a Ninšubur:
“Minha filha desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Inana desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Dons do abismo não são dons que se deseje: quem os alcança o abismo detém.
Quem, ao chegar lá, desejará subir de volta?”

Pai Enlil não foi de ajuda, e ela foi a Urim,


em Urim, em Emud-kura,
entrar em Ekišnuĝal, casa de Nana,
chorou diante de Nana:
“Pai Nana, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”

Pai Nana, de estômago revirado, responde, responde a Ninšubur:


“Minha filha desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Inana desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Dons do abismo não são dons que se deseje: quem os alcança o abismo detém.
Quem, ao chegar lá, desejará subir de volta?”

Pai Nana não foi de ajuda, e ela foi a Eridug,


entrar em Eridug, casa de Enki,
chorou diante de Enki:
“Pai Enki, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”

Pai Enki responde, responde a Ninšubur:


“O que fez minha filha? Isto me aflige.
O que fez Inana? Isto me aflige.
O que fez a senhora de toda terra? Isto me aflige.
O que fez a rainha do céu? Isto me aflige”.
Ele apanhou o pó de sob a unha e criou o deita-abismo,
apanhou o pó de sob a outra unha e criou o chora-miúdo,
e ao deita-abismo deu a erva-da-vida,
e ao chora-miúdo deu a água-da-vida.

Diz o Pai Enki ao deita-abismo e ao chora-miúdo:


“Ide, conduzi vossos passos à terra dos que repousam,
voai, voai como moscas pela porta,
passai, passai como espírito pelas dobradiças.
Lá, por seus filhos,
repousa Ereškigal, mãe que dera a luz:
seus ombros sacros nenhum linho cobre,
seus seios não aleitam como um jarro,
seus dedos lhe são como machados,
seus cabelos como alho-poró na cabeça se enroscam.
“Quando ela disser, ‘ui, meu peito’,
dizei, ‘pronto, pronto, senhora, teu peito!’
Quando disser, ‘ui, minha costela’,
dizei, ‘pronto, pronto, senhora, tua costela!’
‘Quem sois?’, ela dirá,
‘Vos falo do peito ao peito, costela à costela,
se sois deuses, deixai-me falar convosco,
se mortais, que um destino por dom vos seja decretado’,
que ela jure pelo alento do céu e o alento da terra.

“Toda a água de um rio vos será ofertada – não aceiteis.


Todo o grão de uma gleba vos será ofertado – não aceiteis.
‘Entrega-nos a carcaça que pende no gancho’, dizei, e ela dirá:
‘esta carcaça é vossa rainha’,
‘seja ela nosso rei, seja nossa rainha, entrega-a’, dizei,
e a carcaça que pende no gancho será entregue.
Dentre vós um sobre ela lançará a erva-da-vida, o outro, a água-da-vida.
E Inana levantará”.

O chora-miúdo e o deita-abismo deram ouvidos às palavras de Enki,


voaram, voaram como moscas pela porta,
passaram, passaram como espírito pelas dobradiças.
Lá, por seus filhos,
repousava Ereškigal, mãe que dera a luz:
seus ombros sacros nenhum linho cobria,
seus seios não aleitavam como um jarro,
seus dedos lhe eram como machados,
seus cabelos como alho-poró na cabeça se enroscavam.

Ela disse, “ui, meu peito”,


e eles disseram, “pronto, pronto, senhora, teu peito!”
Ela disse, “ui, minha costela”,
e eles disseram, “pronto, pronto, senhora, tua costela!”
“Quem sois?”
“Vos falo do peito ao peito, costela à costela,
se sois deuses, deixai-me falar convosco,
se mortais, um destino por dom vos seja decretado”,
jurou pelo alento do céu e o alento da terra. (…)

Toda a água de um rio lhes foi ofertada – não aceitaram.


Todo o grão de uma gleba lhes foi ofertado – não aceitaram.
“Entrega-nos a carcaça que pende no gancho”, disseram.
Divina Ereškigal respondeu ao chora-miúdo e ao deita-abismo:
“Esta carcaça é vossa rainha”,
“seja ela nosso rei, seja nossa rainha, entrega-a”, disseram,
e a carcaça que pende no gancho foi entregue.
Deles um sobre ela lançou a erva-da-vida, o outro, a água-da-vida.
E Inana levantou.

(…)
Pelas palavras de Enki, Inana voltava do abismo,
Inana voltava do abismo,
quando os Anuna a detêm:
“Quem já voltou do abismo? voltou vivo do abismo?
se Inana quer voltar do abismo,
que outra cabeça seja dada pela sua”.

Inana voltava do abismo.


À frente alguém, sem ser cortesão, empunhava um cetro,
atrás alguém, sem ser emissário, levava um porrete no cinto,
os demônios pequenos, como uma cerca,
e os grandes demônios, como um matagal, a detinham de todos os lados.

Aqueles que iam com ela,


aqueles que iam com Inana,
desconhecem erva, desconhecem água,
não comem a farinha ofertada,
não bebem a água libada,
não aceitam belas dádivas,
não gozam das belas carícias do amor,
filho nenhum docemente os beija.

Eles separam o marido da esposa,


carregam o filho do colo dos pais,
expulsam a noiva da casa dos sogros.

Voltando Inana do abismo,


nas portas de Ganzir, Ninšubur cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós a levaremos”.

Divina Inana responde, responde aos demônios:


“Ela é minha cortesã das belas palavras,
minha emissária das fiéis palavras,
ela deu ouvidos aos meus conselhos,
não se descuidou das minhas palavras,
lançou nas ruínas lamento e mais lamento por mim,
por mim bateu no sacrário o tambor,
por mim na casa dos deuses fez vigília e mais vigília,
carpiu o rosto e carpiu o nariz,
carpiu as coxas sem que ninguém visse.

“Na casa de Enlil, em E-kur,


na casa de Nana, em Urim,
na casa de Enki, em Eridug,
ela pisou, sozinha,
e me trouxe à vida:
como poderia entregá-la?
Vamos, vamos a Šeg-kuršaga, em Umma”.

Em Šeg-kuršaga, em Umma,
Šara, em sua cidade, cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós o levaremos”.
Divina Inana responde, responde aos demônios:
“Šara é quem canta para mim
e faz minhas unhas e meu cabelo:
como poderia entregá-lo?
Vamos, vamos a E-muškalama, em Bad-tibira”.

E-muškalama, em Bad-tibira,
Lulal, em sua cidade, cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós o levaremos”.

Divina Inana responde, responde aos demônios:


“Lulal me segue aqui e acolá, aonde for:
como poderia entregá-lo?
Vamos, vamos às campinas de Kulaba, onde brota a macieira”.

Eles seguiram seus passos até as campinas de Kulaba, onde brota a macieira.
Lá Dumuzid ostentava vestes majestosas, sentado majestoso sobre o trono.
Os demônios o agarram pelas coxas,
os 7 despejam seu leite do manteigueiro,
(…)

Deitou olhos sobre ele: o olhar da morte,


pronunciou-lhe palavras: as palavras da peste,
pesava nele a voz: a voz do sacrilégio.
“Vós demorais. Levai-no!”
Divina Inana entrega assim Dumuzid nas mãos deles.
(…)

Divina Inana chorou lágrimas aflitas por seu esposo.


(…)

“Você metade do ano, e sua irmã metade do ano:


o dia em que fores convocado é o dia em que ficarás,
o dia em que sua irmã for convocada é o dia em que serás liberto”.
Divina Inana deu Dumuzid em seu lugar.

(…)
Divina Ereškigal,
doce é louvar-te.

(comentário e tradução de Adriano Scandolara)


CRÍTICA DE TRADUÇÃO, POESIA, TRADUÇÃO

A canção de amor de Šu-Sin, um poema sumério


19/01/2015 | ADE | ADRIANO SCANDOLARA, AUTOR ANÔNIMO, BALBALE, CLÁSSICA,
ESCRITA CUNEIFORME, MESOPOTÂMIA, POESIA AMOROSA, POESIA SACRA, POESIA
SUMÉRIA, SUMÉRIO | 4 COMENTÁRIOS

(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/01/ur-utu-shamash.jpg)
Ur-Nammu diante do deus do sol, Utu/Shamash

Aproveitando o embalo do tema da escrita cuneiforme e línguas e poesia do Oriente Próximo e


Médio da minha postagem do começo do mês sobre um poema do ugarítico
(//escamandro.wordpress.com/2015/01/02/o-festim-divino-de-el-um-poema-do-ugaritico/), gostaria
agora de tratar daquele que, desde seu descobrimento no século passado, tem sido frequentemente
chamado de “o poema de amor mais antigo de mundo”. Aliás, recomendo seriamente que, para a
leitura desta postagem, vocês ouçam as reconstruções feitas por Stef Conner de antigas canções
sumérias clicando aqui (h p://io9.com/musicians-recreation-of-ancient-sumerian-songs-will-hau-
1676603467). A cantora estudou e aprendeu a língua (na medida do possível, claro, porque ninguém
sabe exatamente como se falava o sumério) e as notações musicais das tabuletas dos hinos hurritas
encontradas em Ugarit. Até mesmo uma lira especial foi construída, por Andy Lowings, visando se
aproximar ao máximo de como se imagina que seriam os instrumentos da mesopotâmia. Apesar de
ser impossível sabermos ao certo como soavam as músicas da época, os resultados são maravilhosos e
altamente evocativos das imagens de zigurates e ritos antigos.

Šu-Sin, também escrito Shu-Suen, foi um rei sumério da terceira dinastia de Ur (Ur III), filho de Šulgi,
que, na chamada cronologia curta, reinou entre 2029 e 1982 a.C., sucedendo seu pai Ur-Nammu, que
assumiu o império neossumério após os cerca de 100 anos de dominação sob o povo bárbaro dos
gúteos, dos quais quase nada se sabe. Šu-Sin governou após Šulgi e Amar-Sin, e seu filho Ibbi-Sin foi
o último governante dessa dinastia, reinando até meados do século 20 a.C., quando uma combinação
de catástrofes, desde problemas com o clima a invasões dos amoritas e elamitas, levou seu império a
ruir. A cidade de Ur (localizada à época no encontro do rio Eufrates e o Golfo Pérsico), então centro
do império, que em seu auge chegou a ter uma população de 65.000 habitantes, foi parcialmente
despovoada e saqueada por nômades, e a dinastia Ur III teve fim. O período subsequente é descrito
como pós-sumério ou paleobabilônico, e, como comentam os assiriólogos, por volta desse período o
sumério já havia sido extinto como língua viva, sobrevivendo só como língua escrita para propósitos
burocráticos, litúrgicos e literários, um processo que já havia sido iniciado em Ur III.

(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/01/estela-sumc3a9ria.jpg)
Estela funerária suméria com imagem erótica (1800 a.C.). Notem que a figura feminina bebe cerveja durante
o ato

Agora que sabemos quem foi Šu-Sin e quais as condições históricas de seu período, podemos falar do
poema em si. A tabuleta contendo “A canção de amor de Šu-Sin” faz parte da biblioteca do rei assírio
Assurbanípal (668 – 627 a.C.) descoberta nas escavações arqueológicas da cidade de Níneve no final
do século XIX de nossa era. Seu texto foi publicado por Edward Chiera (1885 – 1933) em 1924 e depois
traduzido pelos famosos pesquisadores da área Adam Falkenstein (1906 – 1966) e Samuel Noah
Kramer (1897 – 1990), em 1947 e 1951, respectivamente. Como ocorre com o Cântico dos Cânticos
(h ps://escamandro.wordpress.com/2013/08/19/o-cantico-dos-canticos-vindo-de-haroldo-de-
campos/), que é também chamado de Cântico de Salomão, nem Salomão, nem Šu-Sin são o eu-lírico
dos poemas, de autoria anônima, que levam seu nome no título, mas seu interlocutor, a quem a
canção é destinada. Esse também não é o único elo que fica sugerido entre os dois textos, que fazem
parte do que parece ser uma mesma tradição de canto matrimonial sagrado em voz feminina (apesar
de que não podemos saber ao certo se o autor era homem ou mulher), da qual “A canção de amor de
Šu-Sin” é até hoje o exemplar mais antigo de que temos notícia, tendo sido composto por volta dos
anos 2000 a.C., ao passo que o Cântico dos Cânticos seria uma composição posterior, entre os séculos
3-6 a.C., detendo por muito tempo o título de poema amoroso mais antigo do mundo, até este poema
ter sido descoberto e traduzido. Na Suméria, era costume que a cada ano, como parte do festival de
ano novo, o rei se casasse simbolicamente com Inanna, deusa do amor e da guerra (equivalente a Ištar
entre os acádios), um matrimônio que, apesar de simbólico, era consumado de fato através de uma
sacerdotisa da deusa, que, até onde se sabe (o que não é muita coisa) seria quem recitaria esses versos.
Talvez ela os compusesse também, visto que temos registro de cantos femininos ainda mais antigos
do que “A canção de Šu-Sin”, como “A exaltação de Inanna” e os Hinos Templários, compostos pela
sacerdotisa, princesa e poeta En Hedu’anna (h p://revistamododeusar.blogspot.com.br/2014/04/en-
heduanna-2285-2250-ac.html), mas, neste caso especifíco aqui, em que a autoria não é clara, é difícil
afirmar. Em termos de mito, nesse ritual de matrimônio, o rei assumiria o papel temporário do
consorte de Inanna, Dumuzid (que dá o Tammuz das tradições posteriores, também o nome de um
mês de verão nos calendários babilônio e judaico), deus primaveril cuja morte e renascimento,
refletindo ao mesmo tempo os mitos gregos (posteriores, creio) de Dioniso e de Perséfone, também
estão relacionados a temas de vegetação e fertilidade.

O texto está disponível online, no original transcrito e em tradução inglesa, no The Electronic Text
Corpus of Sumerian Literature (h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk), um importante projeto da universidade de
Oxford, organizado por Jeremy Black, Graham Cunningham, Esther Flückiger-Hawker, Eleanor
Robson, Jon Taylor & Gábor Zólyomi, que tem como objetivo reunir num único local o corpus textual
disponível da literatura clássica suméria. Tal como podemos ver no site, temos 3 partes da canção, a
parte A (kug-ga-am3 in-tu-ud), dedicada à deusa Bau, e a parte B (mu-ti-in cag4-ja2…) e C (siki-ju10 hi-
iz…), dedicados à Inanna. Quando as páginas por aí na internet se referem popularmente ao “poema
de amor mas antigo do mundo”, os autores costumam ter em mente ou a parte A ou a parte B (pouca
coisa sobrou da C, fragmentada demais para ser lida), mas, ao que tudo indica, eles integram a
mesma série de textos (o que faz com que o poema de amor mais antigo do mundo seja, na verdade,
3).

Temos já uma tradução desse poema (partes A e B) para o português feita por Jorge Luis Gutiérrez,
publicada na edição de outubro de 2011 da Revista Pandora (clique aqui
(h p://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/Poesia_corpo/jorge.pdf)), que se baseia, ao que
tudo indica, na tradução de Kramer. Eu achei por bem, porém, propor uma nova tradução minha
para a parte A do poema com base na tradução e no texto original disponíveis no Electronic Text
Corpus of Sumerian Literature – só que não se trata desta vez de uma tradução indireta pautada só pela
tradução inglesa. Em vez disso, a tradução inglesa me serviu aqui de orientação para tentar lidar com
o sumério original – e nisso o The Pennsylvania Sumerian Dictionary (ePSD) e a gramática de The
Sumerian Language de Marie-Louise Thomsen me foram inestimáveis –, de modo a melhor representar
a estrutura do poema e evitar desviar tanto do sentido. A tradução de Gutiérrez, por exemplo, fala
em “bebida” e, mais especificamente, “vinho”, mas ocorre que o termo original é kaš, que, apesar de
poder também se referir genericamente a qualquer bebida alcóolica (que é o sentido 2 do dicionário),
costuma ser traduzido atualmente por “cerveja”, enquanto a kašbir (a “bebida misturada”) seria uma
cerveja mais leve, diluída em água – e, sem brincadeira, os sumérios tinham trocentas palavras, todas
dotadas de diversas pequenas nuances de sentido, para falar de cerveja: ebla, imĝaĝa, kašsig, kašsura,
kiraši, kurun, niĝsur, siraš, ulušin… Em outro momento, a tradução de Gutiérrez alude aos “alegres
cânticos allari” (no original: a-al-la-ri bi2-dug4-ga-ke4-eš), ao passo que o ePSD e o ETCSL registram
“a’allari” somente como “uma exclamação” ou “uma exclamação de alegria” e não me pareceu
possível encontrar nenhuma outra informação sobre o que seriam esses tais cânticos allari, exceto no
livro do próprio Kramer (History Begins at Sumer), o que nos leva a crer que essa deva ter sido a
interpretação dele à época – o que é bastante compreensível, já que se trata de um livro lançado em
1956, que, apesar de importantíssimo, vai naturalmente demonstrar sinais de estar datado,
considerando os avanços feitos na área desde então.
(h ps://escamandro.files.wordpress.com/2015/01/pedra-com-inscric3a7c3a3o-de-shu-sin-no-
louvre.jpg)
Pedra com inscrições contendo o nome de Shu-Suen, que, pelo pouco que eu entendo do cuneiforme, pode ser
lido na segunda linha (segunda fileira da direita para a esquerda… é preciso, porém, pôr a pedra de pé para
poder ler direito). Procure pelos símbolos para ŠU e “suen” (EN.ZU) no ETCSL
(h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/edition2/signlist.php). Os outros símbolos nessa linha são o de AN/DINGIR,
geralmente usado antes do nome de deuses. O caractere que se repete no começo das três últimas lihas, LUGAL,
significa “rei”.

No tocante à estrutura dos versos, eu me esforcei para observar as repetições e a posição dos
sintagmas, mas sem tentar reproduzir a ordem das palavras no original, já que, como se sabe, o
sumério é, como o latim, uma língua SOV (sujeito-objeto-verbo), e quem quer que já tenha lido más
traduções de latim sabe que esse não é um bom método a ser seguido. Por isso preferi propor desvios
da ordem normal SVO do português só quando o original se desvia da sua ordem natural. Notem
que o poema se repete com frequência, o que é uma característica do seu gênero, o balbale, baseado
em repetições, variações e paralelismos. Isso é explicitado pelo último verso, que não é bem um verso,
mas um colofão: “este é um balbale a Bau”.

O original sumério está disponível na ETCSL aqui (h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/section2/c2441.htm). O


site também tem uma explicação sobre como começar a ler esse diabo de língua (clique aqui
(h p://etcsl.orinst.ox.ac.uk/edition2/language.php)) – os números que acompanham as palavras,
como se vê, por exemplo, em gin7, indicam que se trata de uma das versões de uma palavra
homofônica, de modo que gin7, uma partícula gramatical que significa “como” (“como um jovem
leão…”, ur-nim-gin7), se distingue de gin6 (“estabelecer”), e assim por diante. Em muitos casos, duas
palavras homofônicas com significados muito distantes também apresentam logogramas distintos
(e.g.: a com sentido de “água” (h p://psd.museum.upenn.edu/epsd/psl/img/popup/Obhw.png) e a
com sentido de “braço” (h p://psd.museum.upenn.edu/epsd/psl/img/popup/Oayv.png)). O ePSD
pode ser consultado aqui (h p://psd.museum.upenn.edu/epsd/index.html). Antes de brincar no
dicionário, porém, é bom se familiarizar com as convenções de representação digital do sumério. Para
se procurar por, digamos, kaš no sistema de busca, não é preciso reproduzir esse caractere esquisito
que é o š (que tem som de “sh”). Em vez disso, digita-se c: kac, e o mesmo vale para a letra ĝ (que
representa o som de “ng” final do inglês), que é transcrito como j, de modo que diĝir (deus) se escreve
dijir e šeĝ (chuva) se escreve cej, e assim por diante. Os textos do ETCSL e de qualquer outro site de
natureza mais acadêmica na internet costumam já estar inseridos nesta convenção, o que facilita a
pesquisa.

A canção de amor de Šu-Sin

ou: um balbale a Bau para Šu-Sin

ela deu a luz ao que é puro, deu a luz ao que é puro


a rainha deu a luz ao que é puro
Abi-Simti deu a luz ao que é puro
a rainha deu a luz ao que é puro
minha roca que tece o prazer, minha Abi-Simti
meu bastão de tecer, minha rainha Kubatum

digno de minha cabeleira, o admirável, o meu senhor Šu-Sin


em palavras (…) meu filho de Šulgi
porque suspirei, porque suspirei, presenteou-me o senhor
porque suspirei de alegria, presenteou-me o senhor
com um broche d’ouro, um selo em lápis-lazúli, presenteou-me o senhor
com um anel em ouro, um anel em prata, presenteou-me o senhor

senhor, teus presentes são (…) que teus olhos se desnudem a mim
senhor Šu-Sin, teus presentes são (…) que teus olhos se desnudem a mim
(…) senhor (…) senhor (…)
que suplique tua urbe como um aleijado, meu senhor Šu-Sin
que como um jovem leão repouse a teus pés, meu filho de Šulgi

minha deidade (…) a taverneira, gostosa sua cerveja


tal sua cerveja, gostoso seu sexo, gostosa sua cerveja
tal sua boca, gostoso seu sexo, gostosa sua cerveja
sua cerveja com água, gostosa sua cerveja
meu Šu-Sin que me fizeste tão bem
que me fizeste tão bem e tão feliz
meu Šu-Sin que me fizeste tão bem
querido por Enlil, meu Šu-Sin
meu rei, deus da nossa Terra

(este é um balbale a Bau)

(poema anônimo, tradução de Adriano Scandolara, com base no ETCSL)

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