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D I S C I P L I N A Análise Real

Sequências de números

Autores

André Gustavo Campos Pereira

Viviane Simioli Medeiros Campos

aula

04
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Governo Federal
Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva

Ministro da Educação
Fernando Haddad

Secretário de Educação a Distância – SEED


Carlos Eduardo Bielschowsky

Reitor
José Ivonildo do Rêgo

Vice-Reitora
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Secretária de Educação a Distância


Vera Lucia do Amaral

Secretaria de Educação a Distância – SEDIS

Coordenadora da Produção dos Materiais Arte e Ilustração


Vera Lucia do Amaral Adauto Harley
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Coordenador de Edição
Ary Sergio Braga Olinisky Heinkel Hugenin
Leonardo Feitoza
Projeto Gráfico
Diagramadores
Ivana Lima
Joacy Guilherme de A. F. Filho
Revisora de Estrutura e Linguagem José Antonio Bezerra Junior
Thalyta Mabel Nobre Barbosa
Adaptação para Módulo Matemático
Revisoras Tipográficas Joacy Guilherme de A. F. Filho
Adriana Rodrigues Gomes
Margareth Pereira Dias
Nouraide Queiroz

Divisão de Serviços Técnicos

Catalogação da publicação na Fonte. UFRN/Biblioteca Central “Zila Mamede”

Pereira, André Gustavo Campos.

Análise real / André Gustavo Campos Pereira, Viviane Simioli Medeiros


Campos. – Natal, RN: EDUFRN, 2009.

196 p.
ISBN: 978 - 85 - 7273 - 561 - 2 ISBN:

Conteúdo: Aula 01 – Revisando a linguagem matemática e o conceito


de funções; Aula 02 – Conjuntos finitos e enumeráveis; Aula 03 – Números reais;
Aula 04 – Sequências de números reais; Aula 05 – Desigualdades, operações com
sequências e limites infinitos; Aula 06 – Séries numéricas; Aula 07 – Limite de funções;
Aula 08 – Funções contínuas; Aula 09 – Funções deriváveis; Aula 10 – Máximos e mínimos.

1. Análise matemática. 2. Enumerabilidade. 3. Limite. 4. Continuidade. 5.


Derivadas. I. Campos, Viviane Simioli Medeiros. II. Título.

CDD 515
RN/UF/BCZM 2009/66 CDU 517

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste material pode ser utilizada ou reproduzida
sem a autorização expressa da UFRN - Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

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Apresentação
Em muitas situações práticas o produto final é obtido depois de uma sequência de eta-
pas. Quando falamos em sequência imaginamos etapas que se sucedem uma após a outra,
ou seja, existe um tipo de ordem em uma sequência.

Muitos dados inseridos em um computador são em forma de sequência, por exemplo,


uma estação meteorológica que mede a velocidade dos ventos em intervalos de tempo de 10
em 10 segundos. Se ela começou a funcionar as 00:00:00 hs do dia 01/01/2009 então os
dados (10.2, 7.3, 12.3, 5.7, 3.9,3 23.0, ...) representam:

10.2Km/h − velocidade do vento em 01/01/2009 às 00:00:10 hs


7.3Km/h − velocidade do vento em 01/01/2009 às 00:00:20 hs
12.3Km/h − velocidade do vento em 01/01/2009 às 00:00:30 hs
.. ..
. .

Objetivo
Estudar sequências de números reais, suas pro-
priedades, bem como analisar a convergência das
mesmas.

Aula 04 Análise Real 1

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Sequências de Números Reais
m Matemática tudo tem que ser muito bem explicado, bem definido, para evitar am-

E bigüidades. O grande problema na compreenssão das definições é que, ás vezes,


não se consegue associar o que está escrito nos textos matemáticos com o nosso
português coloquial. Tentaremos fazer esta ponte para que o entendimento não seja compro-
metido por falta de palavras.
Sabemos, do nosso dia-a-dia, que uma sequência tem uma ordem a ser seguida, lembra
da estação meteorológica?

10.2Km/h − 1a medição
7.3Km/h − 2a medição
12.3Km/h − 3a medição
.. ..
. .

Como fazer uma definição que contemple essa idéia de ordem?


Sabemos, da aula 2 (Números Naturais), que o conjunto dos números naturais =
{1, 2, 3, ...} tem uma certa ordem (n e s(n)) nos seus elementos, isto é, dados m, n ∈ ,
com n = m então n < m ou n > m. Para estabelecermos uma ordem na sequência, a idéia
é fazer uma associação entre cada número natural (n) e o elemento da sequência que ocupa
a n−ésima posição na sequência.
No exemplo da estação meteorológica: associamos o número natural 1 ao elemento que
representa a 1a medição, e assim por diante...

− Sequência
1 ↔ 10.2
2 ↔ 7.3
3 ↔ 12.3
.. ..
. .

Então fica claro que 10.2 e 12.3 correspondem às posições 1 e 3 na sequência, respec-
tivamente.

Definição 1
Uma sequência de números reais é uma função x : → , que associa a cada
número natural n um número real x(n) = xn , chamado n-ésimo termo da sequência.

2 Aula 04 Análise Real

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Para a sequência dos dados meteorológicos temos x1 = 10.2, x2 = 7.3, x3 = 12.3, ....
Escrevemos (x1 , x2 , x3 , ...) ou (xn )n∈ , ou simplesmente (xn ), para indicar a sequencia
cujo n−ésimo termo é xn .

Observação 1
Note que o número de elementos de uma sequência é infinito, já que temos uma função
cujo domínio é . Logo (1, 2, 3, 4) não é considerado uma sequência.

Observação 2
(x1 , x2 , ..., xn , ...) = {x1 , x2 , ..., xn , ...}, ou seja, uma sequência é diferente do con-
junto formado pelos números que a compõem.

Exemplo 1
Suponha um medidor que a cada 1 segundo checa se um dado controlador de temper-
atura está funcionando ou desligado. Suponha que ele associa o valor 0 a desligado e o valor
1 a funcionando. No final do dia o medidor apresentou o resultado (0, 0, 1, 0, 1, 0, 1, 0, ...).
Note que o cojunto {0, 0, 1, 0, 1, 0, ...} é igual ao conjunto {0, 1}.
Mas (0, 0, 1, 0, 1, 0, 1, 0, ...) é diferente de {0, 0, 1, 0, 1, 0, ...}. A sequência conta uma es-
tória, em cada ponto xn temos o passado x1 , ..., xn−1 e o futuro xn+1 , xn+2 ....

Exemplo 2
Se no exemplo anterior o medidor detectasse que o equipamento está sempre em fun-
cionamento teríamos como resultado a sequência (1, 1, 1, ...), enquanto o conjunto dos ele-
mentos que formam a sequência é {xn ∈ } = {1}.

Exemplo 3
Monte a sequência dos números pares positivos.
Queremos construir uma sequência onde

− Sequência
1 ↔ 2
2 ↔ 4
3 ↔ 6
.. ..
. .

Note que a cada número natural ele associa um número par positivo da seguinte maneira
1 ↔ primeiro par positivo, 2 ↔ segunto par positivo, ... . Quem seria então o n−ésimo
par positivo?

Aula 04 Análise Real 3

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Se observarmos bem, veremos que cada par positivo que está associado ao número
natural é o produto deste número por 2. Observe:

− Sequência
1 ↔ 2.1
2 ↔ 2.2
3 ↔ 2.3
.. ..
. .

então o par que está relacionado com n é 2n, ou seja, temos a sequência

− Sequência
1 ↔ 2
2 ↔ 4
3 ↔ 6
.. ..
. .
n ↔ 2n
.. ..
. .

x: →
ou mais resumidamente, , ou ainda, (xn )n∈ = (2n)n∈ .
n → 2n

Exemplo 4
Monte a sequência dos números ímpares positivos.
Queremos construir uma sequência onde

− Sequência
1 ↔ 1
2 ↔ 3
3 ↔ 5
.. ..
. .

Note que a cada número natural ele associa um número ímpar positivo da seguinte
maneira 1 ↔ primeiro ímpar positivo, 2 ↔ segundo ímpar positivo, ... . Quem seria então o
n−ésimo ímpar positivo?

4 Aula 04 Análise Real

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Perceba que a sequência que estamos construindo nada mais é que o valor correspon-
dente da sequência dos pares subtraindo 1. Verifiquemos

− Sequência
1 ↔ 2.1 − 1
2 ↔ 2.2 − 1
3 ↔ 2.3 − 1
.. ..
. .

então o ímpar que está relacionado com n é 2n − 1, e assim temos a sequência

− Sequência
1 ↔ 1
2 ↔ 3
3 ↔ 5
.. ..
. .
n ↔ 2n − 1
.. ..
. .

x: N →
ou mais resumidadmente, , ou ainda, (xn )n∈ = (2n − 1)n∈ .
n → 2n − 1

Atividade 1
Monte as seguintes sequências de números reais.
a) Sequência dos quadrados dos números naturais.
b) Sequência das raizes quadradas dos números naturais.
c) Sequência dos logarítmos naturais dos números naturais.

Sequências Limitadas
Outra idéia natural é a da limitação.
Quando alguém diz que o abastecimento de água foi limitado a x litros/dia para cada
residência de uma dada cidade, entendemos que nenhuma residência poderá consumir mais
que x litros de água por dia. Se y representa a quantidade de água que uma dada residência
consome por dia, teremos que y ≤ x.
Outra situação seria a seguinte:
Todo trabalhador com carteira assinada recebe no mínimo um salário mínimo, ou seja,
se x representa o salário de um dado trabalhador com carteira assinada, temos que x ≥ 1
salário mínimo.

Aula 04 Análise Real 5

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Nas duas situações anteriores está havendo uma limitação, na primeira uma limitação
por cima e na segunda uma limitação por baixo, usando outras palavra, uma limitação su-
perior e uma limitação inferior. Há ainda a possibilidade de termos a seguinte situação:
No Jornal Nacional a previsão do tempo disse que a temperatura no dia seguinte na
cidade do Natal variará entre 18o e 34o , ou seja, se esta previsão estiver correta e x for uma
temperatura medida em qualquer hora do dia seguinte, teremos 18 ≤ x ≤ 34. Quando isso
ocorre dizemos que a temperatura está limitada entre 18o e 34o .
Note então que se tivermos limitação teremos limitação inferior e superior. E reciproca-
mente, se tivermos limitação superior e inferior teremos limitação.
Estes conceitos também se aplicam quando tratamos de sequências.

Definição 2
Dizemos que a sequência (xn ) é limitada superiormente quando existe um número
real c tal que xn ≤ c para todo n ∈ . Em outras palavras, existe um número real que é
maior ou igual que todos o elementos (termos) da sequência.

Exemplo 5
 
1 1 1
1, , , ..., , ... .
2 3 n

Note que
1 1 1
1 >
 > > ... > > 0.
2
 3
 n

x1
x2 x3 xn

Então c = 1 é tal que c ≥ xn para todo n ∈ . Logo xn é limitada superiormente.

Você poderia dizer: c = 2 também satisfaz 2 ≥ xn para todo n ∈ !

Satisfaz, qual o problema nisso? A definição diz pra gente que basta que exista algum
número com essa propriedade. A definição não diz em nenhum momento que tal número
tem que ser único, ou seja, que existe apenas um número que satisfaz aquela propriedade.

Definição 3
Dizemos que a sequência (xn ) é limitada inferiormente quando existe um número real
d tal que xn ≥ d para todo n ∈ . Em outras palavras, existe um número real que é menor
ou igual a todos os elementos (termos) da sequência.

6 Aula 04 Análise Real

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Exemplo 6
Considere a sequência dos números pares (2, 4, 6, ..., 2n, ...). Note que

 6 > ... < 


4 < 
2 <  2n < ...
x1 x2 x3 xn

Então d = 0 é tal que d ≤ xn para todo n ∈ . Logo xn é limitada inferiormente.

Novamente você poderia dizer: d = 1 também satisfaz 1 ≤ xn , para todo n ∈ !


E novamente a resposta é que a definição em nenhum momento pede que o número que
satisfaz a propriedade seja único.

Observação 3
Para finalizarmos note que se existe tal c ∈ na definição de limitação superior, então
qualquer número d maior ou igual a c também satisfaz a propriedade de xn ≤ d para todo
n ∈ . De fato como xn ≤ c, ∀n ∈ e foi dito que c ≤ d, juntando essas duas informações

xn ≤ c ≤ d, ∀n ⇒ xn ≤ d, ∀n ∈ .

Do mesmo modo podemos mostrar que qualquer número c ∈ menor ou igual a d


na definição de limitação inferior, também satisfaz a propriedade xn ≥ c, ∀n ∈ . De fato,
como xn ≤ d, ∀ ∈ e foi dito que c ≤ d, juntando estas duas informações

xn ≥ d ≥ c ∀ n ⇒ xn ≥ c, ∀n ∈ .

Definição 4
Dizemos que a sequência (xn ) é limitada quando ela é limitada inferior e superior-
mente.

Exemplo 7
No exemplo 1, temos a sequência (0, 0, 1, 0, 1, 0, ...).
Note que os termos desta sequência são 0 ou 1 então podemos dizer que xn = 0 ou
xn = 1 qualquer que seja n ∈ , ou seja, satisfaz 0 ≤ xn ≤ 1, ∀n ∈ . Logo (xn ) é
limitada.

Observação 4
Dizer que uma sequência é limitada é equivalente a dizer que existe um k ∈ , k > 0,
tal que |xn | < k, ∀n ∈ . Em outras palavra, (xn ) é limitada, se e somente se, existe um
k ∈ , k > 0, tal que |xn | < k, ∀n ∈ .

Aula 04 Análise Real 7

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Para mostrar isso precisamos mostrar as seguintes implicações:
1a Se existe um k ∈ , k > 0, tal que |xn | < k, ∀n ∈ então (xn ) é limitada;
e
2a Se (xn ) é limitada, então existe um k ∈ , k > 0 tal que |xn | < k, ∀n ∈ .

Demonstração da 1a implicação:
Hipótese: Existe um k ∈ , k > 0 tal que |xn | < k, ∀n ∈ .
Tese: xn é limitada.

Vimos na aula 3 (Números Reais) que

|xn | ≤ k, ∀ n ∈ ⇔ −k ≤ xn ≤ k, ∀n ∈ ⇔ xn ∈ (−k, k)∀n ∈ ,

mas isso significa que −k ≤ xn , ∀ ∈ n , ou seja, a sequência é limitada inferiormente por


−k e xn ≤ k, ∀ ∈ , ou seja, a sequência é limitada superiormente por k. Se (xn ) é limitada
inferior e superiormente isso implica que (xn ) é limitada.

Demonstração da 2a implicação:
Hipótese: xn é limitada
Tese: Existe um k ∈ , k > 0 tal que |xn | < k, ∀n ∈ .

Dizer que a sequência é limitada significa que a sequência é limitada superior e inferior-
mente. Se (xn ) é limitada inferior e superiormente isso implica que existem c ≤ d números
reais tais que c ≤ xn ∀n e xn ≤ d, ∀n.
Note que nada foi dito sobre os valores de c e d, ou seja, eles podem ser ambos posi-
tivos, ambos negativos, um positivo e um negativo, um igual a zero e o outro positivo, ou um
negativo e o outro igual a zero, ou até mesmo os dois iguais. Por exemplo,

1 ≤ xn ≤ 10, ∀n ∈ ,
−10 ≤ xn ≤ −1, ∀n ∈ ,
−1 ≤ xn ≤ 10, ∀n ∈ ,
−1 ≤ xn ≤ 0, ∀n ∈ ,
0 ≤ xn ≤ 10, ∀n ∈ ,
10 ≤ xn ≤ 10, ∀n ∈ .

Considerando k = max{|c|, |d|} temos que

k ≥ |c| e k ≥ |d|.

8 Aula 04 Análise Real

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Sabemos que para qualquer número real c vale

−|c| ≤ c ≤ |c|.

Só relembrando porque: Se c > 0 então c = |c| e se c < 0 temos c = −|c| ≤ |c|.


Assim
−k ≤ −|c| ≤ c ≤ xn ≤ d ≤ |d| ≤ k, ∀n ∈

logo,
−k ≤ xn ≤ k, ∀n ∈ ⇒ |xn | ≤ k, ∀n ∈ .

Que é exatamente o que queríamos mostrar.

Exemplo 8
Mostre que (xn ) = (1, 2, 3, 4, ...) é limitada inferiormente mas não é limitada superior-
mente.
Temos que c = 1 é tal que

1 ≤ 
1 < 
2 < 
3 < ... < 
n < ...
x1 x2 x3 xn

ou seja, c ≤ xn , ∀n, logo (xn ) é limitada inferiormente.


Se (xn ) for limitada superiormente então existirá d ∈ tal que xn ≤ d, ∀n. Mas se ela
não for limitada superiormente, o que terá que acontecer?

A negação da expressão acima fica assim: (xn ) não é limitada superiormente se qual-
quer que seja d ∈ existe n0 ∈ tal que xn0 > d. Em outras palavras, uma sequência não
é limitada superiormente se qualquer que seja o limite imposto, sempre existirá pelo menos
um elemento da sequência acima deste limite.

Mostremos que qualquer que seja c ∈ podemos conseguir n0 ∈ tal que xn0 =
n0 > c.

De fato, se c < 0 então xn = n ≥ c, ∀n ∈ . Se c > 0 consideremos a função maior


inteiro [.] : → (estudada no curso de análise combinatória e probabilidade na aula que
fala sobre o princípio das gavetas de Dirichlet) definida por [c] = maior inteiro menor ou igual
a c. Temos:
[c] ≤ c < [c] + 1 ∈ (já que c > 0).

Assim para c ∈ + existe n0 = [c] + 1 ∈ tal que n0 = xn0 > c. O que prova que
(1, 2, ...) não é limitada superiormente.

Aula 04 Análise Real 9

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Atividade 2
Mostre que (xn ) = (−1, −2, −3, −4, ...) é limitada superiormente mas não é limitada
inferiormente.

Subsequência
As vezes necessitaremos olhar para uma parte da sequência, por exemplo, suponha-
mos que uma pessoa esteja estudando a influência da lua cheia nas marés e que tenha à sua
disposição uma sequência dos dados de todas as marés

lua cheia lua cheia lua cheia lua cheia


   
(x1 , x2 , x3 , x4 , x5 , x6 , x7 , x8 , x9 , x10 , x11 , ...).

Então o pesquisador tomará apenas os dados que lhe interessam, a saber

(x2 , x5 , x7 , x10 , ...),

formando, desta maneira, uma outra sequência que foi obtida da anterior pela escolha da
função índice de interesse. Esta nova sequência chamamos de subsequência de (xn ) e de-
notamos por x . Mais formalmente

Definição 5
Dada uma sequência x : → , uma subsequência de x é a restrição da função x
a uma subconjunto infinito  = {n1 < n2 < ...} de , ou seja, x = x|  . Escrevemos
x = (xnk )k∈ para que fique claro que toda subsequência é uma sequência, ou seja, uma
função cujo domínio é .

Observação 5
Lembremos que  ⊂ é infinito se, e somente se, é ilimitado, i.e., para todo n0 ∈
existe nk ∈  tal que nk > n0 .

Exemplo 9
Suponhamos que temos um medidor de luminosidade em uma sala. Quando a luz está
acesa ele indica 1 e quando está apagada ele indica 0. As medições são feitas de 1 em 1
segundo. Suponha que no tempo 0 a luz esteja apagada e uma criança começa a brincar com
o interruptor, acendendo e apagando a lâmpada de 1 em 1 segundo. Desta forma a sequência
mostrada pelo medidor será (0, 1, 0, 1, 0, 1, 0, 1, ...).

10 Aula 04 Análise Real

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O que uma pessoa observaria se ela olhasse para a sala nos instantes ímpares, ou
seja, nos tempos 1 = {1, 3, 5, ...}? E nos instantes pares, ou seja, nos tempos 2 =
{2, 4, 6, ...}? E nos instantes primos, ou seja, nos tempos 3 = {2, 3, 5, 7, 11, 13, ...}?
Para os instantes ímpares temos,

(xn )n∈ 
1
= (0, 0, 0, ...)

ou seja, ela terá a impressão que a lâmpada está sempre apagada.


Para os instantes pares temos,

(xn )n∈ 
2
= (1, 1, 1, ...)

ou seja, ela terá a impressão que a lâmpada está sempre acesa.


Para os instantes primos temos,

(xn )n∈ 
3
= (1, 0, 0, ...)

ela verá a luz acessa uma vez e depois escuridão, ou seja, ela terá a impressão que a lâmpada
queimou.

Atividade 3
Considere a sequência formada pelo resto da divisão de cada número natural por 4, i.e.
(xn ) = (1, 2, 3, 0, 1, 2, 3, 0, ...) Encontre as sequintes subsequências
a)(xn )n∈  onde  é o conjunto dos números ímpares.
b)(xn )n∈  onde  é o conjunto dos números pares.
c)(xn )n∈  onde  = {1, 5, 9, 13, 17, ...}
d)(xn )n∈  onde  = {2, 6, 10, 14, 18, ...}
e)(xn )n∈  onde  = {3, 7, 11, 15, 19, ...}
f)(xn )n∈  onde  = {4, 8, 12, 16, 20, ...}

Limite de sequências
Em diversas situações as sequência representam processos que estão sendo estudados.
Uma pergunta importante nesses estudos é: será que o processo chegará a um equilíbrio, ou
seja, será que com o passar do tempo não haverá muita modificação nos dados que estão
sendo coletados?
Mas o que significa então uma sequência chegar ao equilíbrio?
Significa que existirá um valor do qual ela não se afastará quando o tempo passar
(quando n for grande), ou seja, existe um valor para o qual os valores da sequência ten-
derão.

Aula 04 Análise Real 11

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Novamente apelamos para o português para tentar chegar a um entendimento desta ex-
pressão. O que significa tender para um determinado valor a quando n for grande? Significa
que qualquer tamanho que você der, por menor que seja, os valores da sequência estarão a
partir de um certo momento a uma distância do valor a menor que o tamanho dado e isso se
manterá a medida que o tempo passar.
Você, por exemplo, dá o tamanho 0.01. Se a sequência converge para a, será possível
encontrar um n1 ∈ tal que os termos da sequência de índices maiores que n1 estarão
todos a uma distância de a menor que 0.01.
Você pode dizer, 0.01 é muito grande, tome 0.0000001. Se a sequência realmente tende
para a, será possível encontrar um n2 ∈ tal que os termos da sequência de índices maiores
que n2 estarão todos a uma distância de a menor que 0.0000001.
Assim para não termos que ficar dando valores e encontrando n s para cada um dos
valores dados, identificamos  > 0 como uma distância qualquer e definimos:

Definição 6
Dizemos que o número real a é o limite da sequência (xn ) quando para todo  > 0, dado
arbitrariamente, podemos obter n0 ∈ tal que todos os termos xn com índices n > n0
cumprem a condição |xn − a| < . Escrevemos:

lim xn = a.
n→∞

Vamos conversar um pouco mais sobre esta definição:

• O “para todo  > 0 arbitrariamente dado"está fazendo o papel dos números


0.01, 0.0000001 e qualquer outro valor que você queira dar.

• O “existe n0 ∈ "está fazendo o papel do n1 para 0.01 e n2 para 0.0000001.

• n > n0 está dizendo que todos os termos da sequência de índices maiores que n0
estão a uma distância menor que  do ponto a.

Então esta definição engloba todos os valores que quisermos testar no  e todos os
índices, a partir dos quais os termos da sequência estarão próximos de a a uma distância
menor que , no n0 .
De uma forma mais compacta (elegante)

lim xn = a .≡. ∀ > 0, ∃n0 ∈ ; n > n0 ⇒ |xn − a| < .


n→∞

O símbolo . ≡ . significa que o que vem depois é a definição do que vem antes.

12 Aula 04 Análise Real

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Outras notações para lim xn = a:
n→∞

n→∞
xn → a ou simplesmente xn → a

e lemos “xn tende para a"ou “xn converge para a".


Uma sequência que possui limite diz-se convergente. Caso contrário, dizemos que a
sequência é divergente.

Exemplo 10
Considere  
1 1 1 1
(xn ) = 1, , , , ..., , ...
2 3 4 n

1
Vemos que xn = é sempre positivo e está ficando cada vez menor a medida que n
n
cresce. A pergunta é: xn converge para 0?

Dado  > 0 queremos mostrar que existe n0 ∈ tal que n > n0 então |xn − 0| < ,
ou seja,    
1   
 − 0 =  1  = 1 < .
n  n n

1
Como  > 0 então > 0, ou seja, é um número real positivo. Vimos na aula 2 que

dado um número real qualquer, existe um n0 ∈ tal que n0 é maior que o número real dado.
1 1
Assim, dado , existe um n0 ∈ tal que n0 > . Então, para n > n0 temos
 
1 1 1
n > n0 > ⇒n> ⇒ <
  n
ou seja, encontramos um n0 tal que para n > n0 temos
   
1 1  1 1
< , ou seja,  − 0 =   = < .
n n n n

Logo, pela definição, temos que a sequência (xn )n∈ converge para 0.

Exemplo 11
Voltemos agora para a sequência da menina mexendo no interruptor, ou seja (xn ) =
(0, 1, 0, 1, 0, 1, ...).
Olhando para esta sequência, ela parece “osciliar", entre os valores 0 e 1, ou seja não
parece convergir para nenhum ponto. Mas como mostrar isso?

Aula 04 Análise Real 13

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Como mostrar que não existe nenhum a ∈ para a qual a sequência converge? Voltemos
para definição de convergência para tentar escrever a definição de não-convergência.

lim xn = a .≡. ∀ > 0, ∃n0 ∈ ; n > n0 ⇒ |xn − a| < .


n→∞

Já aprendemos, na aula 1 (Técnicas de demostração e Um pouco sobre funções), a


negar frases matemáticas, então dizer que a sequência não converge para a significa que
existe  > 0 tal que para todo n0 existe n > n0 tal que |xn − a| ≥ . Mas o que isso está
dizendo? Está dizendo que existe uma distância  tal que independente do número natural n0
que você der, existirá sempre pelo menos um índice n > n0 tal que a distância deste xn ao
ponto a é maior ou igual à distância dada, ou seja, |xn − a| ≥ .
Será que é esse nosso caso aqui? Vejamos: para qualquer a ou a distância de a a 0, ou
a distância de a a 1 vai ter que ser diferente de 0, já que o a é fixo.
|a − 0|
Suponha, primeiramente, que |a − 0| =  0 e considere  = > 0. Note que nesta
2
situação temos que para qualquer n0 dado, basta tomar n como sendo o primeiro índice
ímpar depois n0 . Ora, para um índice n ímpar temos xn = 0, logo |xn − a| = |0 − a| =
|a − 0|
|a − 0| > = .
2
|a − 1|
Agora, se |a − 0| = 0 então temos |a − 1| = 0 e considere  = > 0. Note que
2
nesta situação temos que para qualquer n0 dado, basta tomar n como sendo o primeiro índice
par depois n0 . Ora, para um índice n par temos xn = 1, logo |xn − a| = |1 − a| = |a − 1| >
|a − 1|
= . Mostramos que existe  > 0 tal que para todo n0 sempre conseguimos um
2
termo da sequência de índice n > n0 tal que |xn − a| ≥ , logo, a sequência diverge.

Atividade 4
Considere (xn ) = (a, a, a, ...) uma sequência constante, ou seja, uma sequência que
não muda de valor com o tempo. Mostre que xn → a.

Propriedades do Limite de Sequências


Estudaremos agora algumas propriedades do limite de sequências e definiremos se-
quências monótonas. Mostraremos como a monotoniciadade juntamente com a limitação
pode garantir a convergênica de uma sequência de números reais.

Teorema 1
(Unicidade do limite:) Uma sequência de número reias não pode convergir para dois
limites distintos. Em outrar palavras, se (xn )n∈ converge, seu limite é único.

14 Aula 04 Análise Real

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Demonstração
Hipótese: lim xn = a e lim xn = b.
n→∞ n→∞

Tese: a = b.

Demonstraremos este teorema por contradição, ou seja, utilizaremos a


Hipótese: lim xn = a e lim xn = b
n→∞ n→∞
e a negação da tese:
∼Tese: a = b
|a − b|
como verdades. Como a = b então |a − b| =  0. Considerando  = temos que
2
(a − , a + ) e (b − , b + ) são disjuntos. Só para ilustrar.

|a – b | distância entre a e b
ϵ= =
2 2

a –ϵ a b b +ϵ

ponto médio
a +ϵ =b – ϵ
entre a e b

Já que a = b vamos supor, sem perda de generalidade, que b > a, então o ponto
médio entre a e b, dado por a+b a+b a+b
2 , tem a seguinte propriedade 2 > a e 2 < b. Considere
|a−b|
 = b−a
2 = 2 > 0, ou seja, a metade da distância entre a e b. Somando a com  temos
a +  = a + 2 = a+b
b−a b−a
2 . Subtraindo  de b temos b −  = b − 2 = 2 .
a+b

Dado o  > 0 acima:


De xn → a, temos que existe n1 ∈ tal que se n > n1 então |xn − a| < , que é
equivalente a a −  < xn < a + , ou ainda, xn ∈ (a − , a + ).
De xn → b, temos que existe n2 ∈ tal que se n > n2 então |xn − b| < , que é
equivalente a b −  < xn < b + , ou ainda, xn ∈ (b − , b + ).
Se considerarmos n0 = max{n1 , n2 } temos que se n > n0 então

n > n1 e portanto xn ∈ (a − , a + )

e
n > n2 e portanto xn ∈ (b − , b + )

Aula 04 Análise Real 15

Analise_Real_A04_RF_ZD_190310.indd Miolo15 19/03/10 09:43


Vemos então que para os índices n > n0 os xn da sequência satisfazem xn ∈ (a −
, a + ) ∩ (b − , b + ), o que nos leva a um absurdo, já que (a − , a + ) e (b − , b + ) são
disjuntos. Portanto o teorema é verdade e temos a = b, ou seja, o limite de uma sequência
convergente é único.

Outra propriedade bastante útil na resolução de problemas é o teorema 2.

Teorema 2
Se lim xn = a então toda subsequência de (xn )n∈ converge para o limite a.
n→∞

Antes de iniciarmos a demonstração deste teorema, vejamos o que significa uma sub-
sequência (xnk )k∈ convergir.
Já vimos que, a sequência (xn )n∈ convergir para a significa lim xn = a, ou seja,
n→∞
quando o índice que varia, neste caso n, vai para infinito os valores da sequência que pos-
suem aqueles índices estão próximos do valor a. No caso da subsequência (xnk )k∈ =
(xn1 , xn2 , ...) quem varia é o k, logo dizer que (xnk )k∈ converge para a significa lim xnk =
k→∞
a, ou seja, dado  > 0 existe k0 ∈ tal que se k > k0 temos |xnk − a| < , mais explicita-
mente ainda, que |xnk0 +1 − a| < , |xnk0 +2 − a| < , ... Com estas observações em mente
vamos à

Demostração do Teorema 2
Hipótese: lim xn = a
n→∞

Tese: Dada (xnk ) subsequência qualquer de (xn )n∈ temos que mostrar que

k→∞
xnk → a.

Então o que estamos esperando?

Dada uma subsequência (xnk )k∈ arbitrária de (xn )n∈ e  > 0 queremos mostrar
que existe k0 ∈ tal que k > k0 implica em |xnk − a| < .

n→∞
De xn → a temos que existe N ∈ tal que n > N implica em

|xn − a| < . (1)

Ou seja, todos os termos da sequência que tiverem índices maiores que N estarão a
uma distância menor que  de a.

16 Aula 04 Análise Real

Analise_Real_A04_RF_ZD_190310.indd Miolo16 19/03/10 09:43


Sabemos que o conjunto de índices {n1 , n2 , ...} da subsequência (xnk )k∈ é ilimitado,
ou seja, qualquer que seja N ∈ + , existe k0 ∈ tal que nk0 > N . Como n1 < n2 <
... < nk0 < ..., se k > k0 temos nk > nk0 e podemos concluir que se k > k0 temos
nk > N . Sabemos que os termos da subsequência, são termos particulares da sequência
e que os termos da sequência com índices maiores que N satisfazem (1). Vimos que se
k > k0 os índices nk dos termos da subsequência serão maiores que N , ou seja, nk > N ,
e portanto satisfaz (1).
|xnk − a| < .

Reescrevendo as frases destacadas no texto e a última equação, obteremos: Data uma


subsequência (xnk )k∈ arbitrária de (xn )n∈ e  > 0 existe k0 tal que se k > k0 ,

|xnk − a| < .

k→∞
Mas isso é exatamente a definição de xnk → a, como queríamos demonstrar.

Exemplo 12
Se voltarmos à sequência construída pela menina mexendo no interruptor (exemplo 11)
vemos que x2n+1 = 0 e x2n = 1 para todo n ∈ .

lim x2n+1 = lim 0 = 0


n→∞ n→∞

e
lim x2n = lim 1 = 1,
n→∞ n→∞

ou seja, temos duas subsequências de (xn ) que convergem para valores distintos, logo (xn )
diverge, pois caso ela convergisse toda subsequência obrigatoriamente convergiria (con-
forme afirma o teorema 2) para o mesmo limite.
Mais uma propriedade:

Teorema 3
Toda sequência de números reais convergente é limitada.

Demonstração
Hipótese: xn é convergente, suponhamos que lim xn = a.
n→∞

Tese: (xn ) é limitada, ou seja, existem M1 < M2 tais que M1 ≤ xn ≤ M2 para todo n ∈ .
Da hipótese, temos que dado  > 0 existe n0 ∈ tal que n > n0 implica em |xn −a| <
. Reescrevendo |xn − a| <  de outra forma temos

− < xn − a < , para n > n0

Aula 04 Análise Real 17

Analise_Real_A04_RF_ZD_190310.indd Miolo17 19/03/10 09:43


ou ainda
a −  < xn < a + , para n > n0 .

O que isso significa?

Significa que

a −  < xn0 +1 < a + 


a −  < xn0 +2 < a + 
a −  < xn0 +3 < a + 
..
.

Então se chamarmos M1 = a −  e M1 = a +  já terminamos a demonstração?

Observe que o que queremos mostrar é que M1 ≤ xn ≤ M2 , ∀n ∈ e o que


mostramos até o momento é que a −  < xn < a +  apenas para n > n0 . Falta ainda
encontrar uma limitação para os termos x1 , x2 , ..., xn0 .

Sabemos que cada termo da sequência é um número real, logo dado uma quanti-
dade finita deles podemos ordená-los (lembrem-se que é um corpo ordenado) e obter
K = max{x1 , x2 , ..., xn0 } e P = min{x1 , x2 , ..., xn0 }. Com isso temos que P ≤ xi ≤
K, i = 1, 2, ..., n0 .

Observe que limitamos os termos x1 , x2 , ..., xn0 e os termos xn0 +1 , xn0 +2 , ... por lim-
ites distintos. Como fazer para garantir um limite comum para todos os termos? Basta
considerar M1 = min{P, a − } e M2 = max{K, a + }. Com isso temos

M1 ≤ P ≤ x1 ≤ K ≤ M2
M1 ≤ P ≤ x2 ≤ K ≤ M2
..
.
M1 ≤ P ≤ xn0 ≤ K ≤ M2
M1 ≤ a −  ≤ xn0 +1 ≤ a +  ≤ M2
M1 ≤ a −  ≤ xn0 +2 ≤ a +  ≤ M2
..
.

Agora sim, conseguimos limitar todos os elementos da sequência, o que garante que a
sequência é limitada como queríamos demonstrar.

18 Aula 04 Análise Real

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Exemplo 13
Mostre que a sequência (xn ) = (1, 2, ..., n, ...) é divergente (não converge).

Note que esta sequência não é limitada, pois qualquer que seja M ∈ + existe n ∈
tal que xn = n > M , pois o conjunto não é limitado superiormente. Pelo teorema 3 toda
sequência convergente é limitada, portanto a sequência (xn )n∈ não pode ser convergente.

Atividade 5
1. A sequência da atividade 3 é convergente? Justifique sua resposta.
2. Considere a sequência (xn ) = (1, −2, 3, −4, 5, −6, ...) = ((−1)n n)n∈ . (xn )n∈ é
convergente? Justifique sua resposta.

Sequências Monotonas
No nosso dia-a-dia é comum chamarmos de monotóna situações ou comportamentos
que são previsíveis, que sempre se repetem. Geralmente quando nos referimos a coisas
monótonas, na maior parte das vezes, nos referimos no sentido perjorativo. Quando você
assiste a um filme e não gosta muito, se alguém pede sua opinião você diz: O filme foi muito
monótono.
Em matemática usamos também a palavra monótona para representar a repetição de
comportamento, porém sempre que esta palavra aparece ela é recebida com muito alegria e
satisfação uma vez que ela nos dá uma informação adicional sobre nosso objeto de estudo.
Para sequências usamos monótona no seguinte sentido.

Definição 7
Uma sequência (xn ) chama-se monótona quando se tem xn ≤ xn+1 para todo n ∈ ,
ou então quando se tem xn ≥ xn+1 para todo n ∈ .
Observe que no primeiro caso temos

x1 ≤ x2 ≤ x3 ≤ ... ≤ xn ≤ ...

e no segundo temos
x1 ≥ x2 ≥ x3 ≥ ... ≥ xn ≥ ...

No primeiro caso, dizemos que a sequência (xn ) é monótona não-decrescente e, no se-


gundo, que (xn ) é monótona não-crescente.

Aula 04 Análise Real 19

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Por que não chamamos as sequências acima de crescente e decrescente respectiva-
mente? Porque a sequência (xn ) = (1, 1, ...) obedece as duas condições e no entanto ela
não cresce nem decresce.O que garantimos no primeiro comportamento é que os valores
não-decrescem por isso não-decrescente e no segundo garantimos os valores não-crescem
por isso não-decrescente.
Agora se tivermos xn < xn+1 para todo n ∈ ou então xn > xn+1 para todo n ∈ ,
estaremos nas situações

x1 < x2 < x3 < ... < xn < ...


x1 > x2 > x3 > ... > xn > ...

respectivamente, e aí sim diremos que a sequência é crescente na primeira situação e de-


crescente na segunda situação.

Observação 6
Note que toda sequência monótona não-decrescente, ou seja, da forma

x1 ≤ x2 ≤ x3 ≤ ... ≤ xn ≤ ...

é limitada inferiormente pelo seu primeiro elemento.


De fato, para ser limitada inferiormente precisamos de um M ∈ tal que M ≤ xn para
todo n ∈ . Se M = x1 temos x1 = x1 , logo x1 ≤ x1 . Pela sequência ser não-decrescente
temos
x1 ≤ x2 ≤ x3 ≤ ... ≤ xn ≤ ...

ou seja, x1 ≤ xn para todo n ∈ . Logo (xn ) é limitada inferiormente por x1 .

Atividade 6
Mostre que toda sequência não-crescente é limitada superiormente pelo seu primeiro
elemento.

Uma propriedade interessante de sequências monótonas é que eles já possuem um


limitante superior no caso das não-crescentes e inferior para o caso das não-decrescentes.
Outra propriedade interessante das sequência monótonas é que para garantir limitação não
precisamos olhar para a sequência completa, mas apenas para uma subsequência conforme
o teorema 4.

Teorema 4
A fim de que uma sequência monótona seja limitada é suficiente que possua uma sub-
sequência limitada.

20 Aula 04 Análise Real

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Demonstração
O que este teorema está dizendo? O teorema nos diz que quando a sequência é monó-
tona, se tivermos uma subsequência limitada então a sequência toda será limitada.

Qual é nossa hipótese?


Hipótese: (xn )n∈ é monótona e possui uma subsequência (xnk )k∈ limitada.
O que queremos mostrar?
Tese: (xn )n∈ é limitada.

Demonstremos o caso em que a sequência é não-decrescente e será deixado, como


atividade, o caso em que a sequência é não-crescente.
Seja (xnk )k∈ a subsequência limitada da sequência monótona não-decrescente
(xn )n∈ . Já sabemos que (xn )n∈ é limitada inferiormente pelo primeiro elemento , falta
mostrar então que ela é limitada superiormente. Sabemos que (xnk )k∈ é limitada, em
particular, é limitada superiormente, ou seja, existe c ∈ tal que (xnk ) ≤ c, ∀k ∈ . Vamos
mostrar que (xn ) ≤ c, ∀n ∈ .
Dado qualquer n ∈ como o conjunto {n1 , n2 , ...} é ilimitado, existirá um k ∈ tal
que nk > n. Como a sequência é não-decrescente, quanto maior o índice, maior o valor do
termo correspondente, ou seja, xn ≤ xnk . Ora, mas xnk ≤ c, ∀k ∈ , logo xn ≤ xnk ≤ c o
que implica que xn ≤ c. Como podemos fazer este mesmo raciocínio para qualquer n ∈
dado, temos então
xn ≤ c, ∀n ∈ .

Portanto a sequência também é limitada superiormente o que implica que (xn )n∈ é
limitada.

Atividade 7
Mostre que se (xn )n∈ é uma sequência monótona não-crescente e possui uma sub-
sequência limitada então (xn )n∈ é limitada.
Para sequências monótonas o teorema 5 abaixo garante a convergência sem necessi-
dade de cálculos, basta que a sequência, além de monótona, seja limitada.

Teorema 5
Toda sequência monótona limitada é convergente.

Demonstração
Faremos o caso em que a sequência é não-decrescente, e deixaremos como atividade,
o caso em que ela é não-crescente. Assim temos

Aula 04 Análise Real 21

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Hipótese: (xn )n∈ é monótona e limitada.
Tese: (xn )n∈ é convergente.
Seja (xn )n∈ uma sequência monótona não-decrescente e limitada. Considere o con-
junto formado pelos termos da sequência, isto é, X = {x1 , x2 , ...}. Por hipótese temos que
X é limitado superiormente e X ⊂ já que xn ∈ , ∀n ∈ . Assim, pela completude de
, existe a = sup X. Pela definição de supremo temos que:

i) xn ≤ a, ∀n ∈ ;

ii) Dado  > 0, a −  não é cota superior de X, ou seja, existe n0 ∈ tal que

a −  ≤ xn0 ≤ a (2)

Note porém que a sequência é não-decrescente, ou seja

n ≥ n0 ⇒ xn ≥ xn0 . (3)

Combinando as informação contidas em (2) e (3) obtemos: Dado  > 0 existe n0 ∈


tal que, para n ≥ n0 ,
a −  ≤ xn0 ≤ xn ≤ a.

Subtraindo a de todos os termos da desigualdade anterior temos

− ≤ xn0 − a ≤ xn − a ≤ 0(< ),

ou seja,
|xn − a| ≤ .

Logo mostramos que dado  > 0 existe n0 ∈ tal que n > n0 implica em

|xn − a| ≤ .

Ora, mas isso é definição de xn → a logo xn é convergente e mais, sabemos para que valor
ela converge: a = sup X.

Atividade 8
Demonstre o teorema anterior com a hipótese da sequência ser não-crescente e con-
clua que toda sequência monótona não-crescente é limitada (xn )n∈ e converge para o
inf X = inf{x1 , x2 , x3 , ...}.

O próximo resultado é uma consequência do teorema 5, ou seja, é um corolário do


teorema 5 e é conhecido como Teorema de Bolzano-Weierstrass.

22 Aula 04 Análise Real

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Corolário
(Teorema de Bolzano-Weierstrass): Toda sequência limitada de números reais possui
uma subsequência convergente.

Demonstração
Vamos mostrar que toda sequência limitada (xn )n∈ possui uma subsequência monó-
tona (xnk )k∈ . Mas a subsequência (xnk )k∈ já será limitada (pois a sequência toda é
limita por hipótese), portanto, pelo teorema 5, será convergente.
Neste corolário temos:

Hipótese: (xn ) é limitada.


Tese: (xn ) possui subsequência convergente.
Considere o conjunto

D = {n ∈ , xn ≥ xp , ∀p > n},

ou seja, é o conjunto dos índices cujo termo é maior que todos os próximos termos da
sequência.
Temos duas possibilidade para a quantidade de elementos de D, a saber:

i) D é finito;

ii) D não é finito, ou seja, D é infinito.

Consideremos cada caso:


a) Se D é finito, significa que existe um índice N que é o maior elemento de D. Logo
tomando n1 > N temos que n1 ∈ / D, portanto existe um índice n2 maior que n1 , tal que
xn2 > xn1 .
Como n2 > n1 > N temos que n2 ∈ / D, portanto existe um índice n3 maior que n2 tal que
xn3 > xn2 . E assim temos xn3 > xn2 > xn1 .
Continuando desta maneira obtemos uma subsequência (xnk )k∈ satisfazendo xn1 < xn2 <
xn3 < ..., ou seja, (xnk ) é crescente, logo monótona.
b) Se D é infinito, então podemos representar D = {n1 , n2 , n3 , ...} com n1 < n2 < n3 <
... e pela propriedade dos elementos de D teremos

xn1 ≥ xp para todo p > n1 , ou seja xn1 ≥ xn2 , xn1 ≥ xn3 , ...
xn2 ≥ xp para todo p > n2 , ou seja xn2 ≥ xn3 , xn2 ≥ xn4 , ...
..
.
xnk ≥ xp para todo p > nk , ou seja xnk ≥ xnk+1 , xnk ≥ xnk+1+1 ...
..

Aula 04 Análise Real 23

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Desta forma xn1 ≥ xn2 ≥ ... ≥ xnk ..., ou seja, (xnk )k∈ é não-crescente, logo monótona.
Assim vemos que em qualquer caso podemos obter uma subsequência monótona e lim-
itada (limitada é hipótese), e o teorema 5 nos garante que essa subsequência é convergente.

Exemplo 14
 
1 1 1
Mostre que (xn ) = 1, , , ..., , ... é convergente.
2 3 n

1 1
Temos que n < n + 1 implica em < , ou seja,
n n+1

1 1
xn = > = xn+1 .
n n+1

1
Logo (xn )n∈ é uma sequência monótona decrescente. Além disso, xn = >0e
n
1
xn = ≤ 1 para todo n ∈ , ou seja, 0 < xn ≤ 1 para todo n ∈ . Em palavras, (xn )n∈
n

1
é limitada . Portanto, pelo teorema 5, xn → a = inf ;n ∈ = 0, ou seja, xn → 0.
n

Exemplo 15
Seja c > 1. Mostre que (c, c2 , c3 , ..., cn , ...) formada pelas potências sucessivas de c, é
crescente e não é limitada.

Como c > 1 temos, multiplicando a desigualdade anterior por c que

c2 > c

e como c > 1 podemos completar a desigualdade anterior obtendo

c2 > c > 1.

Continuando este processo obtemos

cn+1 > cn > ... > c > 1,

ou seja, qualquer que seja n ∈ temos

cn+1 > cn > 1 ou equivalentemente xn+1 > xn > 1.

De xn+1 > xn qualquer que seja n ∈ temos que (xn ) é crescente.

24 Aula 04 Análise Real

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De c > 1 temos que c = 1 + z para algum z ∈ +, logo

cn = (1 + z)n ≥ 1 + nz.

Esta última é a desigualdade de Bernoulli estudada na aula 2. Note que z ∈ +, logo dado
qualquer M ∈ + existe n ∈ tal que nz > M (lembra da aula 2 que é um corpo
arquimediano?). Mostramos então que dado M ∈ + existe n ∈ tal que

cn = (1 + z)n ≥ 1 + nz > nz > M

ou seja, (cn )n∈ não é limitada superiormente, portanto não é limitada.

Atividade 9
Seja 0 < a < 1. Mostre que (a, a2 , a3 , ..., an , ...) formada pelas potências sucessivas
de a, é decrescente e limitada.

Resumo
Nesta aula definimos: sequências, sequências limitadas, limites de sequências e se-
quências monótonas. Mostramos que o limite de uma sequência, quando existe, é único,
que toda sequência convergente é limitada e que toda sequência monótona limitada é con-
verge.

Autoavaliação
1) Defina:
a) sequência
b) sequência limitada
c) sequência convergente
d) sequências monótonas
2) Mostre que o limite de uma sequência é único.
3) Mostre que toda sequência convergente é limitada.
4) Dê um exemplo de uma sequência que é limitada mas que não é convergente.

Aula 04 Análise Real 25

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Referências
FIGUEIREDO, Djairo Guedes de. Análise I. Rio de Janeiro: LTC, 1996.

IEZZI, Gelson; MURAKAMI, Carlos. Fundamentos de Matemática Elementar 1. São Paulo:


Atual, 1993.

LIMA, Elon Lages. Análise Real, Volume 1.Rio de Janeiro: Instituto de Matemática Pura e
Aplicada, Coleção Matemática Universitária, 1989.

MORAIS FILHO, Daniel Cordeiro de. Um convite à Matemática. Campina Grande: EDUFCG,
2007.

Anotações

26 Aula 04 Análise Real

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Anotações

Aula 04 Análise Real 27

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Anotações

28 Aula 04 Análise Real

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Análise Real – MATEMÁTICA

EMENTA

Conjuntos finitos, enumeráveis e não-enumeráveis. Números reais. Cortes de Dedekind. Sequências e séries
de números reais. Topologia da reta. Limites de funções. Funções contínuas. Sequências e séries de funções.
Panorama histórico.

AUTORES

> André Gustavo Campos Pereira

> Viviane Simioli Medeiros Campos

AULAS

01 Revisando a linguagem matemática e o conceito de funções

02 Conjuntos finitos e enumeráveis

03 Números reais

04 Sequências de números reais

05 Desigualdades, operações com sequências e limites infinitos

06 Séries numéricas

07 Limite de funções

08 Funções contínuas

09 Funções deriváveis

10 Máximos e mínimos
Impresso por: Gráfica

12
2º Semestre de 2009

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