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AGAMBEN, Giorgio. Estâncias: a palavra e o fantasma na cultura ocidental. Trad.

Selvino José
Assmann. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

Para Agamben, apenas uma obra teria o nome de crítico: Origem do drama barroco alemão, de
Walter Benjamin.

“Uma obra que merecesse ser qualificada como critica só podia ser aquela que incluísse em si
mesma a própria negação e cujo conteúdo essencial fosse assim exatamente aquilo que nela não
se encontrava.” (p. 9)

Criativa e por conter negatividade. Irônica autonegação.

“[...] a negatividade da ironia não é aquela provisória da dialética, que a varinha mágica da
Aufhebung estaria sempre já transformando em algo positivo, mas é uma negatividade absoluta e
sem recuperação, que no entanto não renuncia por esse motivo ao conhecimento.” (p. 10)

Poetas do século XIII chamavam de stanza = a morada capaz e receptáculo, o núcleo essencial
da poesia porque conservava junto a todos os elementos formais da cancao, aquela “alegria do
amor”, em que eles confiavam como único objeto da poesia.

Cisão entre poesia e filosofia: “[...] a cisão da palavra é interpretada no sentido de que a poesia
possui o seu objeto sem o conhecer, e de que filosofia o conhece sem o possuir. A palavra
ocidental está, assim, dividida entre uma palavra inconsciente e como que caída do céu, que
goza do objeto do conhecimento representando-o na forma bela, e uma palavra que tem para si
toda a seriedade e toda a consciência, mas que não goza do seu objeto porque não o consegue
representar.” (p. 12)

Essa cisão testemunha a impossibilidade da cultura ocidental de possui plenamente o objeto do


conhecimento (pois o problema do conhecimento é um problema de posse, e todo problema de
posse é um problema de gozo, ou seja, de linguagem)

“À apropriação sem consciência e à consciência sem gozo, a critica contrapõe o gozo daquilo que
não pode ser possuído e a posse daquilo que não pode ser gozado”. Dessa maneira, ela
interpreta o preceito de Gargântua: [‘ciência sem consciência não é senão ruína da alma’]. O que
fica fechado na ‘estância’ da crítica é nada, mas esse nada contém a inapreensibilidade como o
seu bem mais precioso.” (p. 13)

“Nas páginas que se seguem, busca-se, pois, o modelo do conhecimento nessas operações,
como o desespero do melancólico ou a Verleugnung [renegação] do fetichista, em que o desejo
nega e, ao mesmo tempo, afirma o seu objeto e, desse modo, consegue entrar em relação com
algo que não poderia ser nem apropriado, nem gozado de outra maneira. Tal modelo forneceu o
campo, tanto para um exame da transfiguração dos objetos humanos, realizada pela mercadoria,
quanto para a tentativa de voltar a encontrar através da analise da forma emblemática e [Esfinge],
um modelo do significar que escapasse da posição primordial do significante e do significado que
domina toda reflexão ocidental sobre o signo.” (p. 14-15)

Reconstrução da teoria do fantasma, desejo e palavra, a poesia construía a própria autoridade,


convertendo-se ela mesma na ‘estancia’ oferecida à [alegria que nunca acaba] da experiência
amorosa.

O espirito humano responde à impossível tarefa de se apropriar daquilo que deve, de qualquer
modo, continue inapreensível.
Fin’amors: amor cortês, inicio do século XII  amor puro do cavaleiro que enfrente perigos para
atrair a atenção da mulher amada que já é casada. Por isso, em geral este amor não se realiza,
por mais que perdure e seja forte. Que ao mesmo tempo goza e procrastina, nega e afirma,
assume e recusa, e cuja única realidade é a irrealidade de uma palavra que ama o vento e caça a
lebre com o boi e nada contra a corrente

Topologia do irreal, pensa o espaço como algo mais originário que o espaço. “Talvez, de acordo
com a sugestão de Platão, como pura diferença, a que corresponde ao poder de fazer com que
‘algo que não é, de certa maneira seja, e aquilo que é, por sua vez, de algum modo não seja’.” (p.
15)

“Assim, a exploração topológica está constantemente orientada soba luz da utopia. Se uma
convicção sustenta tematicamente essa indagação no vazio em que a sua intenção crítica a
obriga a ficar, é precisamente porque só se formos capazes de entrar em relação com a
irrealidade e com o inapreensível como tais, será possível apropriarmo-nos da realidade e do
positivo.” (p. 15)

O DEMÔNIO MERIDIANO
(acreditava-se que a acídia inquietava o homem por volta do meio-dia)

Agamben compara a acedia como um flagelo pior do que a pesta que infesta a Idade Média

“Filiae acediae: malitio, o ambíguo e irrefreável ódio-amor pelo bem como tal; rancor, a revolta da
má consciência contra os que exortam ao bem; pusillanimitas, o ‘animo pequeno’ e o escrúpulo
que se retrai assustado diante da dificuldade e do empenho da existência espiritual; desperatio, a
obscura e presunçosa certeza de estar já condenado antecipadamente e o complacente
aprofundamento na própria ruina, como se nada, nem sequer a graça divina, pudesse salvar-nos;
torpor, o obtuso e sonolento estupor que paralisa qualquer gesto que nos pudesse curar; e por
fim, evagatio mentis, a fuga do ânimo diante de si e o inquieto discorrer de fantasia em
fantasia que se manifesta na verbositas, a tagarelice que gira inutilmente sobre si mesma, na
curiositas, a insaciável sede de ver por ver que se perde em possibilidade sempre novas, na
instabilitas loci vel propositi [instabilidade de lugar ou de propósito] e na importunitas mentis, a
petulante incapacidade de estabelecer uma ordem e um ritmo para o próprio pensamento.” (p.25)

Na psicologia moderna, o termo acedia foi esvaziado de seu significado original, transformando-o
em um pecado contra a ética capitalista do trabalho. Desleixo, preguiça

Heidegger analisa a banalidade cotidiana.

“Se examinarmos a interpretação que os doutores da Igreja dão sobre a essência da acídia,
veremos que ela não é posta sob o signo da preguiça, mas sim sob o da angustiada tristeza e do
desespero.” (p. 27) Segundo Santo Tomás, é uma species tristitiae [espécie de tristeza], a tristeza
com relação aos bens espirituais essenciais ao homem, a saber, relativas à dignidade espiritual
especial que lhe foi conferida por Deus. É o retrair-se frente ao compromisso do homem diante de
Deus. Fuga do homem frente à riqueza das próprias possibilidades espirituais

“Por isso, por ser a fuga horrorizada diante daquilo que não pode ser evitada de modo algum, a
acídia é um mal mortal; ela é, até mesmo, a doença mortal por excelência, cuja imagem
transtornada Kierkegaard consagrou na descrição do mais temível dos seus filhos: [...].” (p. 28)
“O fato de o acidioso retrair-se diante do seu fim divino não equivale, realmente, a que ele
consiga esquecê-lo ou que deixe de o desejar. Se, em termos teológicos, o que deixa de alcançar
não é a salvação, e sim o caminho que leva à mesma, em termos psicológicos, a retração do
acidioso não delata um eclipse do desejo, mas sim o fato de tornar-se inatingível o seu
objeto: trata-se da perversão de uma vontade que quer objeto, mas não quer o caminho
que a ele conduz e ao mesmo tempo deseja e obstrui a estrada ao próprio desejo .” (p. 28-
29)

O que não desejamos intensamente não pode ser objeto nem da nossa esperança nem do nosso
desespero (Santo Tomás) acídia aparece oposta ao Gaudium, à satisfação do espirito em Deus.

“Preso à escandalosa contemplação de uma meta que se manifesta a ele no próprio ato em que é
vedada e que é tanto mais obsessiva quanto mais se torna inatingível para ele, o acidioso
encontra-se em situação paradoxal: assim como acontece no aforismo de Kafka, ‘existe um ponto
de chegada, mas nenhum caminho’, e da qual não há escapatória, porque não se pode fugir
daquilo que nem sequer se pode alcançar.” (p. 30)

Abismo que se abre entre o desejo e seu inapreensivel objeto

Paralisia do animo diante de uma situação sem saída: o gesto exemplar de deixar cair a cabeça e
o olhar como emblema da desesperada paralisia...

“Contudo, é precisamente por essa contradição fundamental que não corresponde à acídia
apenas uma polaridade negativa. Com sua intuição a respeito da capacidade de inversão
dialética, que é própria das categorias da vida espiritual, os Padres coloca, ao lado da tristitia
mortífera (ou diabólica, ou tristitia saeculi), uma tristitia salutijera [tristeza benéfica] (ou utilis, ou
secundum deum), que é realizadora de salvação e ‘estimulo áureo da alma e, como tal, ‘não deve
ser considera vicio, mas virtude.” (p. 31)

João Clímaco: ‘luto que geral alegria’, definido como ‘uma tristeza da alma e uma aflição do
coração que procura sempre aquilo de que tem ardente sede; e, enquanto não o alcança,
ansiosamente o procura, correndo ao seu encalço com gritos e lamentações enquanto lhe
escapa.” (p. 32)

“É assim que a ambígua polaridade negativa da acídia se torna o fermento dialético capaz de
transformar a privação em posse. Já que o desejo continua preso àquilo que se tornou
inacessível, a acídia não constitui apenas uma fuga de..., mas também uma fuga para..., que se
comunica com seu objeto sob a forma da negação e da carência. Assim como acontece com as
figuras ilusórias que podem ser interpretadas ora de um, ora de outro modo, assim também cada
traço seu desenha, na sua concavidade, a plenitude daquilo de que se afasta, enquanto cada
gesto realizado por ela na sua fuga testifica a manutenção do vinculo que a liga a ele.” (p. 32)

“Ao mesmo tempo em que a sua tortuosa intenção abre espaço à epifania do inapreensível, o
acidioso dá testemunho da obscura sabedoria segundo a qual só a quem já não tem esperança
foi dada a esperança, e só a quem, de qualquer maneira, não poderá alcançá-las foram dadas
metas a alcançar. Tão dialética é a natureza do seu ‘demônio meridiano’: assim como se pode
dizer da doença mortal, que traz em si a possibilidade da própria cura, também daquele que se
pode afirmar que á maior desgraça é nunca tê-la tido’.” (p. 32)
MELENCOLIA I
Quatro humores no corpo humano: sangue, além de cólera, fleuma, melancolia. Terra melancolia,
agua fleuma, ar sangue, cólera fogo.

“A melancolia, ou bílis negra, é aquela cuja desordem pode provocar as consequências mais
nefastas”  na tradição humoral medieval, ela é associada à terra, ao outono (ou inverno), ao
elemento seco, ao frio, à cor preta, à velhice (ou à maturidade), planeta Saturno

Doutrina do gênio se costura com a do humor melancólico (poesia, filosofia, artes)

Propensão ao recolhimento interior e ao conhecimento contemplativo.

Atrabílis  bílis negra, cólera, irritação, melancolia

“Pode-se supor, pelo contrário, que foi precisamente a descoberta patrística da dupla polaridade
de tristitia-acedita que contribuiu para preparar o terreno para uma revalorização renascimental
do temperamento atrabiliário, no âmbito de uma visão em que o demônio meridiano, como
tentação do religioso, e o humor negro, como doença específica do tipo humano
contemplativo, deviam aparecer assimiláveis, e em que a melancolia, submetida a um
processo gradual de moralização, se apresentada, por assim dizer, como herdeira laica da
tristeza claustral.” (p. 37)

Medicina da Alma de Hugo de São Vitor (séc XII) teologia mística: doutrina soteriológica, aquela
que se baseia na salvação através de um redentor  transfiguração alegórica da teoria dos
humores, o humor negro se identifica com a tristitia utilis  a patologia dos humores se torna o
veículo corpóreo do mecanismo soteriológico

A bílis negra torna os homens ora sonolentos, ora vigilantes, ora cheios de angústia, ora
vigilantes e voltados para os desejos celestes. “Tiveste através do sangue a doçura da caridade,
tem agora, através da bílis negra, ou melancolia, a tristeza pelos pecados” (Hugo de Folieto) (p.
38)

“[...] se o vermos relacionado com essa recíproca compenetração entre acídia e melancolia, que
mantinha intacta a sua dupla polaridade na idéia de um risco mortal inscrito na mais nobre
das intenções humanas ou de uma possibilidade de salvação escondida no perigo mais
extremo. Na insistente vocação contemplativa do temperamento saturnino, continua vivo o
Eros perverso do acidioso, que mantém o próprio desejo fixo no inacessível.” (p. 38)

EROS MELANCÓLICO

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