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EQUIVOCOS EM TRADUÇOES DOS TEXTOS DE KARDEC

Revista espirita da IDE Adulterada.


ABRIL DE 1869.
Tradução de salvador Gentile pela IDE:
18. A alma humana, emanação divina, leva nela o germe ou princípio do bem
e do mal que é seu objetivo final, e deve fazê-la triunfar das imperfeições
inerentes ao seu estado de inferioridade sobre a Terra.
Tradução Correta:
18. A alma humana, emanação divina, leva nela o germe ou princípio do bem
que é seu objetivo final, e deve fazê-la triunfar das imperfeições inerentes ao
seu estado de inferioridade sobre a Terra.
Contudo, o Sr. Salvador Gentile se arrogou a condição de mais douto em
matéria de Espiritismo do que o Codificador da doutrina e acresceu ao original
três palavras, transformando a sábia instrução do mestre nesta aberração
filosófica: “A alma humana, emanação divina, leva nela o germe ou
princípio do bem e do mal [...]”. (Grifo meu.)
Eis o francês: “L'âme humaine, émanation divine, porte en elle le germe ou
principe du bien qui est son but final”. Ante o pensamento completo de Kardec,
não há dúvidas: “A alma humana, emanação divina, traz em si o germe
ou princípio do bem, que é o seu objetivo final”. Como poderia o mal ser
objetivo final da alma, sendo esta proveniente de Deus?

Vejamos uma comparação com A Gênese original de Kardec.

Capítulo 3, item 9. Em A Gênese adulterada, termina o parágrafo com a


seguinte frase:

“O instinto se enfraquecer, ao contrário, à medida que a inteligência


se desenvolve, porque assim domina a matéria”.

Mas não foi o que Kardec escreveu na edição original, onde completa:

“O instinto se debilita, ao contrário, à medida que a inteligência se


desenvolve, porque assim domina a matéria; com a inteligência
racional, nasce o livre arbítrio o qual o homem usa a seu capricho;
então, exclusivamente cabe a ele a responsabilidade dos seus atos”.

Allan Kardec, em A Gênese, desmontou esse raciocínio, demonstrando


que o livre-arbítrio não foi uma dádiva divina, mas uma conquista
progressiva do espírito, por seu esforço, em suas reencarnações. Mas
onde está esse ensinamento? Procure no livro inteiro e você não vai encontrar!
Foi retirado da edição adulterada em 1872, que não foi feita por Kardec. Quem
retirou o trecho certamente acreditava na queda, no castigo divino, ou
em um Deus vingativo!

Mais equívocos em traduções dos textos de Kardec, e agora, salvo exceções


indicadas, todos em edições L.A.K.E. ou F.E.E.S.P., por J. Herculano Pires...[1]

1 - N. 189 de O Livro dos Espíritos. Onde se lê: “Em sua origem, os Espíritos
não têm mais do que uma existência instintiva, possuindo apenas a
consciência de si mesmos e de seus atos”, leia-se, na verdade: “Em sua
origem, os Espíritos não têm mais do que uma existência instintiva,
mal possuindo consciência de si mesmos e de seus atos”. No francês: “A
leur origine, les Esprits n'ont qu'une existence instinctive et ont à peine
conscience d'eux-mêmes et de leurs actes”. Uma coisa é “mal possuir
consciência de si”, outra, “possuir apenas a consciência de si”.

2 - N. 673 de O Livro dos Espíritos. Onde se lê: “Já vos disse, por isso
mesmo, que Deus desaprova as cerimônias que fazeis para as vossas
preces, pois há muito dinheiro que poderia ser empregado mais utilmente”,
leia-se, na verdade: “Não quero dizer com isto que Deus desaprove as
cerimônias que praticais para a ele orardes, mas muito dinheiro se gasta aí
que poderia ser mais utilmente empregado”. No francês: “Je ne dis pas pour
cela que Dieu désapprouve les cérémonies que vous faites pour le prier, mais il
y a beaucoup d'argent qui pourrait être employé plus utilement qu'il ne l'est”.
Uma coisa é Deus condenar as cerimônias, outra, que não as condene.

3 - N. 11 do cap. XXVIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Onde se lê:


“Além do nosso anjo guardião, que é sempre um Espírito superior a
nós, temos os Espíritos protetores”, leia-se, na verdade: “Além do nosso anjo
guardião, que é sempre um Espírito superior, temos os Espíritos protetores”.
No original: “Outre notre ange gardien, qui est toujours un Esprit supérieur,
nous avons des Esprits protecteurs”. Esta inserção: “a nós”, só se verifica a
partir da 59.ª edição da L.A.K.E., de 2003, ausente nas anteriores e, por
exemplo, na 14.ª da F.E.E.S.P., de 1998, o que isenta, evidentemente,
Herculano Pires. Uma coisa é “um Espírito superior”, outra, “um Espírito
superior a nós”, sobretudo num contexto especialíssimo, em que Kardec define
os tipos e elevações dos espíritos que se nos ligam, adiante esclarecendo de
modo a não restar dúvida: “Deus nos deu um guia principal e superior em
nosso anjo guardião, e guias secundários nos nossos Espíritos protetores e
familiares”. No original: “Dieu nous a donné un guide principal et supérieur
dans notre ange gardien, et des guides secondaires dans nos Esprits
protecteurs et familiers”. Portanto, todo anjo guardião é espírito protetor,
todavia nem todo espírito protetor é anjo guardião, precisamente porque este,
como assegura o mestre, é sempre um Espírito superior.
 
O Evangelho Segundo o Espiritismo => Capítulo XXVIII => Preces
pessoais => 11.Prefácio
Em francês: Outre notre ange gardien, qui est toujours un Esprit supérieur,
nous avons des Esprits protecteurs qui, pour être moins élevés, n'en sont pas
moins bons et bienveillants [...]

Tradução de Herculano Pires: Além do nosso Anjo guardião, que é sempre


um Espírito superior a nós, temos os Espíritos Protetores, que, por serem
menos elevados, não são menos bons e generosos.

Tradução de Guillon Ribeiro (FEB): Além do anjo guardião, que é sempre


um Espírito superior, temos Espíritos protetores que, embora menos elevados,
não são menos bons e magnânimos.

Tradução de Albertina Escudeiro Sêco (CELD): Além do anjo guardião,


que é sempre um espírito superior, temos espíritos protetores que, pelo fato de
serem menos elevados, não são menos bondosos ou menos benevolentes.

4 - N. 23 do cap. IV de O Evangelho Segundo o Espiritismo.  Onde se lê: “4.º) a


conservação da individualidade, com o progresso infinito, segundo a doutrina
espírita”, leia-se, na verdade: “4.º a individualidade com progressão
indefinida (ou indefinita), segundo a doutrina espírita”. No original: “4.º
l'individualité avec progression indéfinie, selon la doctrine spirite”; portanto,
progression indéfinie, não infinie. Uma coisa é que o progresso da alma seja
indefinito, outra, que o seja infinito. Kardec, aliás, postula que a ascensão da
alma ao bem absoluto deve ter um limite, porque jamais chegaria à felicidade
perfeita se estivesse a subir incessantemente. (Cf. Revista Espírita. Set/1862.
Poesias Espíritas. Peregrinações da Alma. Observação.) Nada obstante, Evandro
N. Bezerra, para a F.E.B., preferiu traduzir os dizeres do mestre: “progrès
successif et indéfini de l'âme”, por “progresso contínuo e infinito da alma”.
Melhor, a opção de Julio A. Filho, para a EDICEL:
“progresso sucessivo e indefinido da alma”; a corroborá-la está a escolha de
Salvador Gentile, para o I.D.E. (Cf. Revista Espírita. Nov/1863. Pluralidade das
Existências e dos Mundos Habitados. Pelo Dr. Gelpke.)

5 - N. 7 do cap. XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo.  Onde se lê: “Antes


que as relações mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam a sua ação de
maneira mais ostensiva pela inspiração, pela mediunidade inconsciente,
auditiva ou de incorporação”, leia-se, na verdade: “Antes que as relações
mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam a sua ação de
maneira menos ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente,
auditiva ou falante”. No francês: “Avant que les rapports médianimiques
fussent connus, ils exerçaient leur action d'une manière moins ostensible, par
l'inspiration, la médiumnité inconsciente, auditive ou parlante”. Na 58.ª edição,
de 2002, “mais ostensiva” dá lugar ao correto: “menos ostensiva”; sem
qualquer aviso, porém, da editora L.A.K.E., o que retira credibilidade da
publicação, pois, com a morte de Herculano Pires em 1979, sua obra
forçosamente se petrifica, e não se pode, sem aviso, nela mexer a bel-prazer,
para bem ou para mal. Permanece, contudo, a opção equívoca do mestre
paulista por mediunidade “de incorporação”. Kardec escreveu mediunidade
“falante”. Pode um espírito agir sobre as cordas vocais do médium sem
necessariamente haver “incorporação” desse espírito no corpo do médium. Esta
palavra, aliás, não é do Espiritismo. Kardec acabou admitindo a pertinência do
termo “possessão” em A Gênese, XIV, 47-48 e, antes disso, na Revista Espírita
de dezembro de 1863: “Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar
do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de
maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver
verdadeira possessão, isto é, substituição, embora parcial, de um espírito
encarnado por um espírito errante”. (Um Caso de Possessão. Senhorita Júlia.
F.E.B., p. 499.)

6 - O Livro dos Espíritos => Questão 189. Desde o princípio da sua


formação o Espírito goza da plenitude de suas faculdades?

Resposta em francês: ''Non, car l'Esprit, comme l'homme, a aussi son


enfance. A leur origine, les Esprits n'ont qu'une existence instinctive et ont à
peine conscience d'eux-mêmes et de leurs actes ; ce n'est que peu à peu que
l'intelligence se développe.''

Tradução de Herculano Pires: Não; porque o Espírito, como o homem, tem


também a sua infância. Em sua origem, os Espíritos não têm mais do que uma
existência instintiva, possuindo apenas a consciência de si mesmos  e de seus
atos. Só pouco a pouco a inteligência se desenvolve.

Tradução de Guillon Ribeiro (FEB): “Não, pois que para o Espírito, como


para o homem, também há infância. Em sua origem, a vida do Espírito é
apenas instintiva. Ele mal tem consciência de si mesmo e de seus atos. A
inteligência só pouco a pouco se desenvolve.”

Tradução de Maria Lucia Alcantara de Carvalho (CELD): “Não, pois o


espírito, como o homem, também tem sua infância. Em sua origem, os espíritos
apenas têm uma existência instintiva e mal têm consciência de si mesmos e de
seus atos; só, pouco a pouco, é que a inteligência se desenvolve.”
7 - Registrou, em A Gênese, I, 56, que os ensinos espíritas “completam as
noções vagas que SE tinham da alma”, afinal, as noções dadas por Jesus sobre
a alma foram vagas mesmo, em função de não poderem ser de outra forma.
O fato é que “complètent les notions vagues qu'IL avait données de
l'âme” jamais poderá ser traduzido de forma indeterminada. [“ELE”, e não
“SE”.]
8 - Chamou Jesus de “Senhor” e “Salvador” pelo mesmo motivo acima aduzido,
distorcendo a postura kardeciana nos textos de A Gênese XV, 61; em XVII, 37,
e no n. 671 de O Livro dos Espíritos. Eu não confiaria tanto num tradutor que
registra “voyaient JÉSUS et le touchaient” como “viam o SENHOR e o
tocavam”... “le sens de SES paroles” como “o sentido das palavras DO
SENHOR”... ou “SA doctrine” como “doutrina DO SALVADOR”... [“Jesus”, e não
“Senhor”; “suas palavras”, e não “as palavras do Senhor”; “sua doutrina”, e não
“a doutrina do Salvador”.]
9 - Acrescentou a inexistente palavra “moral” à expressão “absoluta perfeição”,
no item VI da Introdução de O Livro dos Espíritos, porquanto o rustenismo
assegura que só a absoluta perfeição moral pode ser atingida, não
ocorrendo o mesmo, segundo ele, com a perfeição intelectual. G.
Ribeiro quis, portanto, corrigir Kardec. A nova tradução de Evandro Bezerra
acertou isso, apesar de este dizer, na Introdução da Revista Espírita, que o
trabalho de Guillon é irrepreensível. [la perfection absolue: “a perfeição
absoluta”, e não “a absoluta perfeição MORAL”.]
10 - Registrou que o arcanjo começou “por ser átomo”, e não “pelo átomo”, no
n. 540 de O Livro dos Espíritos, para acomodar o texto à noção monista
substancial da queda angélica, de Pietro Ubaldi, do qual G. Ribeiro foi tradutor
e adepto entusiasta. Ora! Se digo que o arcanjo começou PELO átomo,
sou dualista. O arcanjo, princípio inteligente, é espírito, e o átomo é
matéria. Se digo que o arcanjo começou por SER átomo, sou monista
substancialista, e creio que o arcanjo, o princípio inteligente, congelou-se no
evento da queda, e passou a ser o próprio átomo, a própria matéria mais não
seria, assim, que o espírito condensado pela queda. Alguns ubaldistas
modernos já citam essa tradução tendenciosa de Guillon para fundamentar o
ubaldismo e suas teses como compatíveis com o Espiritismo. De mais a mais,
por que traduzir “par l´atome” como “por ser átomo”? [“começou PELO
átomo”, e não “começou por SER átomo”.]
11 - Em O ESE, cap. XX, item 05, a informação precisa de que “CHEGASTES ao
tempo” se tornou em “APROXIMA-SE o tempo” porque o rustenismo defende o
“final de ciclo” por catástrofes anunciadoras da volta de Cristo. Como “nada”
assim tinha ocorrido, Ribeiro quis corrigir agora o Espírito de Verdade. “Vous
touchez au temps” jamais poderá ser traduzido por “Aproxima-se o tempo”.
[“atingistes, ou chegastes ao tempo”, e não “Aproxima-se o tempo”.]

Tradução de Guillon Ribeiro

“O ESPIRITISMO E A CIÊNCIA SE COMPLETAM


RECIPROCAMENTE; A CIÊNCIA, SEM O ESPIRITISMO, SE ACHA
NA IMPOSSIBILIDADE DE EXPLICAR CERTOS FENÔMENOS SÓ
PELAS LEIS DA MATÉRIA; AO ESPIRITISMO, SEM A CIÊNCIA,
FALTARIAM APOIO E COMPROVAÇÃO”.

Tradução de Evandro Noleto Bezerra


‘O ESPIRITISMO E A CIÊNCIA SE COMPLETAM
RECIPROCAMENTE; A CIÊNCIA SEM O ESPIRITISMO SE ACHA NA
IMPOSSIBILIDADE DE EXPLICAR CERTOS FENÔMENOS SÓ PELAS
LEIS DA MATÉRIA; AO ESPIRITISMO, SEM A CIÊNCIA,
FALTARIAM APOIO E COMPROVAÇÃO.”

DESTACO: “AO ESPIRITISMO, SEM A CIÊNCIA, FALTARIAM APOIO


E COMPROVAÇÃO. Como assim? O Espiritismo precisa da comprovação da
Ciência? Kardec nesse trecho, além de estar em contradição com as mais
básicas noções de filosofia da ciência, também, e para completar, está em
contradição consigo mesmo, senão vejamos:

INTRODUÇÃO ITEM 8 DE OLE:

“A CIÊNCIA PROPRIAMENTE DITA, COMO CIÊNCIA, É


INCOMPETENTE PARA SE PRONUNCIAR SOBRE A QUESTÃO DO
ESPIRITISMO: NÃO LHE CABE OCUPAR-SE DO ASSUNTO E SEU
PRONUNCIAMENTO A RESPEITO, QUALQUER QUE SEJA,
FAVORÁVEL OU NÃO, NENHUM PESO TERIA”.

Original em Francês

…que le Spiritisme sans la science manquerait d’appui et de contrôle, et


pourrait se bercer d’illusions. La Genèse les miracles et les prédictions selon
le Spiritisme.

Destaco: “contrôle” (controle)

“O ESPIRITISMO E A CIÊNCIA SE COMPLETAM


RECIPROCAMENTE; A CIÊNCIA SEM O ESPIRITISMO SE ACHA NA
IMPOSSIBILIDADE DE EXPLICAR CERTOS FENÔMENOS
SOMENTE PELAS LEIS DA MATÉRIA; QUE O ESPIRITISMO SEM A
CIÊNCIA CARECERIA DE APOIO E CONTROLE”.

Agora sim! Esse é o Kardec que a gente conhece. As outras Ciências apenas
apoiam e controlam, nunca, jamais e em tempo alguém “COMPROVAM”
algo sobre o espiritismo. Esta ai Kardec de volta a coerência com ele mesmo,
com o espiritismo e com a filosofia da ciência.Escrevo isso no intuito de
evidenciar a clareza, objetividade, coerência, atualidade e visão profunda de
Kardec sobre o espiritismo, suas relações com o mundo e com a realidade.
Seja essa realidade encarada pela ótica da ciência ou da filosofia.

A tradução da LAKE está nesse ponto correta em relação com o original


francês. A do CELD também está errada como a da FEB.