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77
HISTORIA '^
•VNIVERSAL O.
E M Q_V E S E DESCREVEM I>X

OS IMPÉRIOS, MONARCHÍAS,
Rcynos & Províncias do mundo, com
muitas couías notáveis, que
ha ncllc.

COTIzÃTxià V^êtvE KS 0 S ft
dAuthores, Cmronijlcis approva>
autbemicos Geogràpbos.

LA FRANCISCO CABRAL SE
Jr cia caía de Belmonte.

PELO PtSÍDRE FR. ^Id^NOEL


dos e^njos Religiojo da 'Terceira Ordem
de S. Franáfco.

EM COIMBRA. '

Com talas <a licença* necejfarias.

Na Officina de Manoel Dias mercador de livros."


. Anno 1651.
\\

tf
LICENÇAS.
•p Or mandado do noffo muito reverendo Padte Frcy Fernando
da CameraMiniftro Provincial da íagrada Ordé dePcnitcn-
YciadenofloSeraphico Padre S. Francifco ncfte Reyno de Portu-
gal, vi tfte livro intitulado Hiftoria Vniverfal do mundo, cópofto
pelo, R P.P. ògador Fr. Manoel dos Anjos filho da melmaprovin •
cia; & achei naó sò naó aver nelle coufa, que offéda noíTa S. Fè, &C ,
bons coftumes, mas també (er digno de que a noticia, que o Au- »
thordàdascoufas mais notáveis, & dignas de memoria, que no
mundo ha, a erudição, & clareza, có que as defereve , íe comuni-
que a todos para que os doutos achem nelle liç->ó . os curioíosen-
tretinimento, os Políticos çabedal,& todos húa vniverfal narração
cm tâm breve compendio refumida.-& aííi me parece ler obra muy
digna de íair a luz. Nefte Collcgio de S. Pedro de Coimbra em 4,
de Agofto de Ó51 . ,J$*+
tu^tnt6n'u\' -tyta.taoLeitor jtóiUdo zr R\eylor. 4

FR«y Fcrnádo da CartJJra Miniftro Provincial da fagrada Ordé


de Penitencia de ndSFSeraphico P. S. Francifco nefte Reyno
d cPorcugal. Pelo theor das preferes concedemos licéça ao Padre
Pregador Frey Manoel dos Anjos filho defta nolTa província para

V
mandar imprimir o livro , que nos prefentou intitulado Hiftoria
Vniverfal, ottéto ferinos informados de religioíos doutos fer obra
digna de fairaluz: em fedo qual lhe paílamos as prefentes nefte
noflb Collegio de S. Pedra de Coimbra em 10. da Agofto de 65c
Fr Fernando d* Comer* Miniílrotro°vincid.
POr mandado do Confelho geral do Sinto Officio viefla Hi-
ftoria Vniverfal, & naó achei coula alguma cótra noíTa Santa
Fè, ou bons cuftumes. Lisboa no Convento da Santiífima Triuda-
de em 15». de Abril de 650.
0 Doutor Fr. Adrião Pedro.

Vtfta a informação,podeíeimprimir eftelivro, cujo titulo he


Hiftoria Vnivecíal, Author o Padre Fr.Manoel dos Anjos, &
depois dcimpreilo tornarão Cúçelho para fe conferir côo ori-
ginal, &fe dar licença para çotrer, &femellan:ó correrá. Lisboa
xj. de Mayo de Ó50.
Fr. I0.10 de Kifcoucellos. Pêro d.t Syl~)u de Faria.
FtancifcQ Cardoso d-:Tsrneo.P antaleaô Rodrigues Pacheco. Diogo de Sottfi'.
Podctc
LÍ€ENC,AS.
~T\ OJefc imprimir. Lisboa 3.de Iunho de 650.'.
_|_ o Bjjpo de Tdrgá.
.■ ' ..'■•.•(

POr mandado de VoíTa Magcftade li cftc livro . cm que fe seb*


I muita noticia do mundo,em que V.Migeftade tem o Senho-
I
rio repartido nas quatro partes delk, que (cus v.,íl illos conquiílâ-
raó ,'àcd.eícnbriraó, & adi igual gloria teíulta a V. Mageftadcde
averem (cu Reynoqocm có igftaJ nabalho , & diílinç-ó dicfctcva
a-ími;içiódomúdo,dcqiie V.M.igeftade tanta pane piíliu'. &dc
que Deos o fará ainda Senhor principal; alfi q me parece que de-
ve V. Magrftadc mandar paliara licença paraa imprcíT ó. £m
N.»Senhora do Dcítcrro I0.-dc Iolho de 1650.
r
Q ^.. <: Fr.incifcoBnndjÕchreniftamòr..

QVe fc poda imprimir efte livro de ie fc trata, viftas as li«en-


çasdo Santo Officio,& do OrdirWio , que orTcrcce,& naó
co. 1 ciá Tem tornaiàmefado Paço paraV^aixar. Em lisboa a 11 r
de Iulliode 650.
D. P. P. Pinheiro,. I. Pinheiro-

I •

17? Stá conforme como original, Lisbo3 no Convento da San^^^B


_ ui tiflinia-Trindadej em \6 de Novembro de 651. ^B
O Doutor Frey Adrião Vedti.

Vlfto citar confoime com ooiiginal pôde correr eítc livic


Lisboa 16. de Novembro de 1651.
Vero da Sylva àe Faria, Pantalcãb. Rodrigues Vacheco.
Diogo de Sonja.

**T^ Axío efte livro em duzentos,& oitenta reis em papel,Lisboa. #


X 2.0. de Novembro de 1651.
1 'finfam. " .,
Pacheco. I Pinheiro.
/v

•A FRANCISCO
* ' CABRAL. SENHOR DA CASA
DE BELMONTE.

Z12F74R pc/aode agradeci-


do Uy keinvitlaVel^J- prec ifa ode'
nada entre as mais da verdadeira,
'Politica aos qrcceíerão mercês, fa\
Vort<- Sfyl&fy&os-como a qutjtal-
5
■* "héíta, fer avaiiadt pw im> *11,
dlbeo da re%ao Jgjfj>ouco difeiplinadonospreceitos do
primor, & cortefa. Et* meconfejfo por iam empenhado
nella pelas grandezas, com que )\mt tanto me [abe obri-
gar, quanto feu penerojo animo cefluma a todos, que nao
yfahérejjd mais na correspondência, & ejpcmaneos ob- \

fequios de agradecido. Mas porque por obras menos


pofío dar fa tis facãoao mais que devo , remeto ao mere-
cimento davontade, as que não çòdcmfer iguais às ven.
tagensdode/ejo. E como ,/uppojiofe naopodefatiífazer
tudoyOque fe deve, fe não deve deixar de fazer tudo,o
qmfefòde^ neile pequeno livro, que cff.reço a V.m. mc-
flrof como o procuro fervir, feja nao ke novo interejfe de
credito próprio, o que Vay com titulo de gratificar anti-
guos favores continuados nas mercês, que cadadia rem
cèbo. Mas como he conatural aos ânimosgenerofa darje
por pagos do meímo,co que obrigado mefmo ke amparar
y.m..
#\

>ríefl4ohdco44utbârM4deJeftMpe{[c4rfHfifitisf4:' *
Wfe do beneficia, com que de novo fe fazjenhor da von~ 4
, tadepor todas as ratais avaffalada, & rendida.
Efe os que efcreVem fazem eleição de Mecenas4
feus livros \ para que confiados fepojfao expor ãcenfur4
dos que tal i> ez.com emulação de retarda* o credito 4r-
guem defeitos, levando efle no principio 9 nome de tam
cahficado fogeito ,feguro eflou de que todos refpeitarào *
preço, & \alor, %per uni memoria cauja lhe conpgnott
^ 4 ventura. Pois, ft. . - ^re.^uefrvadte'[malte
ao humilde da obra, a de vm. h, <m agrifelada, ç*f afi
plaudida no mundo tqne nao necefa de alheos credítos\
quando tem os próprios efculpidos n\diamantes, & ref
plandores da fama , fendo tam antiga apropria defia
illuflriffima cafa, que fe naofabe afua origem, # per-
manencia, principio certo, & determinado, mais que A I
continuação do nobiliffimojolar, # clara genealogia il.
\
lujlrada com a cravação de cajamentos em tantas cafas
principais do Reyno tfaindo delia os Ínclitos, &• valer o-
fos Progenitores tque tanta matéria der ao com feus he~
reicosfeicost&gradiofas emprefasa muitas penas dou-
<* tas, que efcreverao delias: retfo f porque nào reduzo 4
eíla breve fumma o que he tam glortofo affumpto a dila*
tadosdifcurfos. Só digo9que entre asgrandezas de Bf-
panba he rara a qmfe ac ha femelhante, à que os Reys
concederão àfamofa cafa de Bãmonte ,quehefazerem
tanta confiança defua lealdade, firmeza, &fét ja exi-
mirão
"mira* dejurér òmenagY, a que todas asmaise[iãoJc2
>■ \ geitas no Reino, Tàmbem be gr andezafuatque jamais
K % nellafaltaffe a Sdronia de legitimes herdeiros> & ilfofi
t tresdefcendenter.
1,4 demonftraçao \ & argumento de fia amigua no»
brezafe collige da infgnia, & ha/ao 3 que tomou por
armas, que (ao humas Cabras ,6 que não achamos ,fe2
gundo luftíM9& outros ^Author es graves, que outrem
tivejfeno mudo, fenão ^ilexandrejrtagno herdado de
feupay Felippe Xej de M^s^^S como muitos pa-
rentes feus viefíemajfjpanbd , confervârao as mefmas
armas -f dos quais ajuns f carão nos Reynos, & Trovin2
cias de Caftella,&J'e ficarão intitulando Cabreiras in*
fiítuindo com ejte appellido grandes cafas ,& famílias;
.. outros vierao a Portugal, chamãdofe de fuás armas Ca.
y^»*w, cujofolar heefiacafa antiquiffimi digna de que \
-W muitasfe honrem defe ajuntar com ella, conhecido o im
memorável refplandor detaminfigne nobreza.
Suppojias eíias antecedencias}que tanto conduzem
para acreditar a todos, nao pofio eu deixar de me valer
detalamparo3quenãoJabe negarprotecçoens aquemas
procura. Efe diz. o Sábio, que todos os rios tornam ao v
% mar tributando penfao do cabedal das agoas, querece--
bem delle', av.,m.torna efia pequena 9<& humilde cor-
rente, pois no mar defua livraria achey es mais dos
^Attthores tde que me aproveitey para a matéria prin-
cipal defte compendie yque V.m.deve aceitar comopre-
,\

fria iffèppâfta que defigunl ào Valor de fua grandeza? •'


alem de que próprio he dos fenhores 9 o que fevsjeryos
■acquirem. Confere o Ce o a rida a v..w. com os au?»
mentos , qttefeus Capellaes lhe defejamos, que nao ferey
eu o menos frequente neftas deprecaçoes spois/òu o mais
inttrejjado na execução. O* effeito delias.

f
\

Fr.Manoel dos Anjos.

PROLOGO
■-J

FROLOGO AO LF1TOR •
:
NTREas celebres íentenças, que
w>
nos deixou eferitas aquellc douto,
& piedoío varão Hugo Victorino
hb. i.Miíccll. rir. 72. hc digna de
grande reparo a que dis, que coda
a vida do homem cftà pòftá, &
cifrada em huma perpetua c^rftáo, porque (empre
cm quanto vive náoccf^ysRs*5^- Iftolhcna-
cc, & procede da naj^ratlnclinaçaõ, que tem a que-
rcr íaber, & cfpicujjyas couías, que náo alcança,nem
o entendimento mimano penetra Para que poisàc-
quiraalguma noticia delias, fc aproveita dos olho?,
com que as procura vc^ôí experimentar, ou recorre
aos livros, em que as acha cftampadas, & eferitas. E \
aííitodo o que defeja íaber, ouhadeícr prcgulnan-
dòo aos próprios olhos ou as livros, onde os què
{ -berám, & viraõ as couías, asdeixárão poftas, &
communicadas ao mundo F. porque das que paflaõ
no Vwivcrío hc impoífivel poderícacquirir perfeito
conhecimento, mediante a noticia cxpciimenrai,
afli por ferem quaíi infinitas, cortiopor (c não pode-
rem diícorrer, & andar coda-; as regioens,' onde ella;
íccnccrraõ recorremos & aí pregnntarnos aos que
náVvpadoarido ao trabalho (que (cdividio por mtff-
to>) nosquilcraódeixar cicrito o qucviíáo, cxp.n-
rn:n-
PRXDLOGO
mcnrarão,& fouberaõ, para que odcfcjodcasal-1
cancar, ficaííc menos euftofo, & mais empenha- ,
doem as inquirir, pela falcidadc com que as pode
faber. j
Alguns amigos, que converfaraõ comigo, ouvin-
dome falarem grandezas, & prodígios d3 Vnivcrfo»
fegundo que os rinha lido nos Authorcs,quc cfcrcvc"
raó delias me faziaóa cada pafío perguntas, a que cu
fatisfazia, íc cftava lembrado da liçaô dos livros- ou-
tios me pcdiraõ.t^^c nnç pudcííc alcançai fizcílc
bum breve compendio &re,lkpilaçam,dc quccllcs
também feaproveitaflem, teno^ junco o que cftá
repartido cm muitas relações, &mrros,cõ tanta dif-
iculdade de fcacharé, como de podere lerfe porex-
téíb Obedici,por mo pedir quê me podia mádar;5c
íuppoíto q ao principio me parecco a emprefa ardua;^
&a execução di m~cuIrofa,afTi porq requeria outro ma ^^
yor cabedal, & melhorralero,como porejado mui-
tas deftascoulas incógnitas, & prodígios da Naturc-
za,aviaõ de fer cefuradas de hús, & reprovadas de ou-
tros, comoíofpcitasnocftilo da narração, & pureza
da verdade: com tudo cu me animei a cípicular,&rc -
volver os livros antigos, & modernos mais authen-
ticos, & colhedo dcllcs o q maiscóduzia a meu inte-
to. ajuntei eítc pequeno volume, a quem dei titulo
de Hifíoria univcrfal, por fe defcrcvcicm nellcos
Rcyuos,,&rcgiocns do Vnivcrfo. Aliçaó dos livros,
quty
AO LEITOR.
- * ^ que para ifto fc requerem, deixo cu â confideraçaõ
J V dosquccxpcrimcntaõ ícmelhantes coufas, como o
trabalho de as copiar, &pór cm praxe corrente; não
/* fendo menor ventura poder achar todos os Autho-
res, que trarão, & cfcrcvcm delias.
Os que quiferem cenfurar a obra, o podem fazer
muy livremente, porque nem cila, nem oAuthor
ícdcraõ poroffendidos, a obrapor infenfivcl, &c o
Author por expofto, &con\o animo prevenido a
tudo o mais de que os ourror/^^teáo. A verdedei-
ra céfura(como dis ^fAuthor a cftc intento) hc to-
mara pc«a,c\; fazc.Jcoufas melhores, porque apena
hc iaftrumcnto deprudentes, & avifados, & alingua
de ncfcios,& ignorantes. Bcmquiícraáimitaçarnde
f Afpadio tocar a lira, &cithcra íópara mim no rc-
^tirodo filencio: & dizer o que deixou eferitoo Pa-
•' triarcha Sophronio, quando vendo que aviaõ de fair
a luz fuás coufas, diíTc: Qjicm me dera poderme
aproveitar dos frutos do íllcncio, antes que fair a pu-
blico com as rolhas, & flores de meus ciemos, &o-
bras; porque no filencio vivia có defeanío, & na p u-
blicaçaõ, com o trabalho da ccnlura, & murmu-
% çaõ dos maldizentes.
O que pódc dar alivio aos que cícrcvcm, hc con-
fiderar, q nc lempre os mercadores fc promete mar
bonança.aumctos de ganhos, intcrcíles,ó\: felicidade
. cm feus cõmcrcios,porq tábc fc arrifeã às tormentas,
J ^2 temem
PROLOGO
remem os encontros dos ladrocns, & reccaõa per»'1
da das fjzcndas. Saó os que tiraó a luz íuas obras,
mercadores (não irato aqui de inrerefles temporais,
ponque crcyo, que não hc eftc o motivo defeutra* *''
bailio, masogoíto, emqucíccmpenhaõ)&a{íi íup-
pofto queíc promettã:) bonança no applauío dos
anjmos bem arTcótos, com tudo não podem deixar
de temer as tormentas, & temererias cenfuras das
maslinguas, que a nirguem perdoaõ Nao fc pode-
rádar obra alguí: ' ^-QvJhor que feja, que não
venha alcrvitupcradaíqueixllVucjadeoGalcno no
i livro dcCrifibus dizendo. fl^jns vojvituperaóa
brevidade, allcgando quccfcrcvfcís efeuro &paflais
por muitas couías: outros dizem, que vos cftendcf-

t tes muito, &qycnáohaquempofía chegar ao fim


de voíTas obras; pelo qual cu me rcíolvo, qnc ninguca
pódé deixar de fer ceníurado, &rcprehcndido.
Ncftâ obra me fogeico efponcancamcnrc ao
^

que julgarem os bem eííedtos,& entendidos dizen-


docomS ÀnaftaííoSinaitalib Hcxameron: A ma-
neira dcfofmiga recolho osgraõs, que ficarão pelo
campo, &como cachorrinho me aproveito das mi-
galhas daquéllc cíplendido banquete das obrasdos
Santos Dourores. /\ ííí cu por eftc modo me aprovei -
teipara a preíettrcdo quceícrcvcramosChroniftas,
&Gcogtafos acercado Vniverío. Bem fc me pódc
dar aqueliaraprchcnfaõ^quc poem Baldo in Dccrcr.,
num.V
AO LEIT0R.
^^umJ2. Para que falias, &cfcrcvcs, quandotamos
J{'ÈÍcrevcraò,& faltarão, allnmiádo o mudo? Ellcmcí.
f mo rcfponde por mim .dizendo: Porem falia, & cf-
/*• creve, porque nãoobftaacrcccntar coufas novas ás ->
cjucfaõ jainvcntadas,&íabidas. Não ufo de palavras \
peregrinas, que os cultos cada dia acommodama
nofla lingua.accumulandoas das outras, mas de hum
cftilo fácil, ordinário, & corrente, porque alem de
que cfta obra não admirte «utra cou/a,cambem
não quero fer arguido p^g^ tantos,
comrczA''; v .tiípcrao, &
jrondcnaõ.

ff, DO

J
■-■

\
\
DO L1CENCIUD0 FR\Jtí CISCO
Leitão ao ^dmhor em Metdpkora da ferra d* '
EftrelU, pairiade ambos.
SONETO RETROGRADO;
^ /"~\ Tu, que mutuado das Eftrcllas. '.
/ v_-/ Gozas folar illuftre, excelfo Monte;
De novoaccumúlaa teu Otizonte
Luzes, que hum novo Sol te vefte delias.*
Se tanto por teus valles te defvellas,
Produzindo as que o mundo he bem que contç
Flores, õC fua fama,v". trafmontei
Sera.que invei^: «lais poffa eícondel!as>.
^ Entre as nevadaS^W*BÉ^ penhas,
O puro canta defta Hiftorhçrave,'
Que a empenhos de luz rayV■ defpendci
Quando (ó Leitor; com ella leVíntretenhas,
Nota a Rethorica, & eflilo íuave.
Com que o mundo todo eferever pretende»
Donde claro fe entende, ^
Que reduzir o todo a breve agrado, %
( Milagre he de hum difeurfo fublimado. >
£>0 P. FR, ANTÓNIO DA ENCARNACJM
Religiofo da mefma Pmincia ao ^ímborl
SONETO.
SEgundo refplandor, que a luz conduzes
Dentre fombras, que aluz fazem mais data,.
Menfurando do Sol a etuprefa rara.
f
Grato defvelo feu, hoje produzes:
Empenho raro, fe empenhadas luzes
A luz fahi, que ne/Ta Aurora aclars
A vifla, quem a luzes fe prepara;
Vjfta a inveja feus mortais capuzes?
I03Ít4
-''V
Imite aoíol no império o braço j&ugufto,
A coroa iguale com a luz Romana;
■i\k
Que cffa pena avanqpu ao Sol nos Rayos.
>\Não vio Cefar Sardinia, & Libio adufto,
( Eeftc Sol da família Franeifeana.
M' Mais luzes scve> onde o mais Sol defmayos. ,>

Do me/mo Réligitfi M J.*é*r\


DECIMAS.
A q incêndio amorofo Que o peccado capital
'Águia Phcnix renaceo, Ao Signo virginal (puro;
E era Palmos fcengrãdeceo Niochegoupor limpo,ôc
Comfeuvoogenerofo, Ee^fíuepesao perjuro,
Ia do affeoto luminofo ^-JS3f**™1,Pa «"Sinal.
Deccndo outra vez, reJsa, Agoracõ hú pe na terra,
Que de hu» nuvê dejjtta O"»0 íbgeitando o mar,
yè fair hum Anjo fWo, Cõ húa mão que reis dar
Que hú peno marte feguro quãtoaterra,& marêeerra:
E com outro a terra trata. E porqae fuave guerra
Sobre a cabeça trazia Lhe fizefle a outra em tudo
Arco,que fegurou Prepara ja volTo eftudo,
Ao mundo, que efeapou Que effa mão a que governa
Do Diluvio, que o cobria; Agloria de meflre eterna
Com nua mão offereeia Com eflilo fobic agudo.
Hú livro, a outra moftrava Vivei, pois fois alegria
O Ceo, para que apontava; De Francifco.&admiray,
Outro Anjo a Luzicana Que he alegria ao pay
Em vós vé na Francifca Do filho a fabedoria:
Nuvê, que vos ocultava. Só eflfa nuvem podia .
Sobre a cabeça trouxcftes Dar Anjo com tal valor,
O íris da falvaçarn Que fe o pay reformador
No livro da Conceição, Foy do mundo arruinado,
Que primeir.0 cõpufeftes: DeíYe mundo reparado
Nelle douto propufeftes Seja hú filho o deferiptpr.
J
A ^9
-"V.

V
*ÃVTHO%ES, QJESE
citao nejle livro. *i^
' **.,
A. C.
A BYíl am
^ Oftelio. Cbolcoccndilat.
JL\. ^Abuham Bafe a, Claudiano.
K^Aáam Betmenfe. Capreolo.
i^dndre Bureo. Ctanfizio-
Kjilonfe lopcs de Haro. Caftanbeda.
Andraàa. Ji Caffalâo.
^ibulfeda. rj ^ Clemente Adam Mo/covita,
r K^intonio Vviedo. t£,r Baronio Cardeal.
frey António de S. Romão. CecKyo.
Amento Sberleio. Cefâr\impan*.
Frey Alenfo Femandez. Cluverto.
Annonio. Cbronica de Franca.
Arifioteles. Collenucio.
t^sivcntino. Conrado Celtes.
y^Annais de Efpanha* D.
Damião âelGees. <.
B. Dh/gefõ.
Bartbolomeo de las Cajás. Dona/do Monroy.
Benjamim Hebreo. Donato Ianocio.
Bernardino Gomei. E.
Berofo. Eduardo Tirryo Inglês.
C Be» Cafen Árabe. Einafdo.
O Bifpa de Cbiafa+ Egefipo.
Boàino. f
Erpoldo Lindembttrcb. ■
Bellanio. Efirabo.
Bolondo. Eu» apto.
Brocbardo. F.
Breindcmb.
k
Eernao Guerreiro.
Iran*
V•-♦- . /.'

quefe citdol
y
<*)\jPt<Hidfo Alvartk, Presbítero. Ioao Fabro.
<V, G. Fr. Ioao Gonçales de Mcndoca.

i • Gabriel Maroniu.
Gabriel Siomta
Ga (par Barreiros.
Ioao Villaneo.
Ioao Zullardo flamengo.
Ioao BâptiHa Montalvão".
^>

Frcy Ga/par àe li Cruz. Ioao de Barros. \


Gafpar Contarem Cardeal. Ioao de Lucena.
Guari»0. Frcy Ioao dos Santos.
Genebrardo. Ioao de Per/ia.
George Bucbanano efioiés. Ioao Cattuvigro Inglês.
Guilhemo Paradine. lc\^c Leão ■jÀfricano.
Guilbelmo Candeno Inglês.
Goldafto. ^rónas Coldigenfe.
• Guilbelmo Mangiaco. IofapbatBérbàr*.' l; - '■■'••
Gonzaga. lofepho Hcbreo.
/
H. Io/epbo Sc ali gero.
Hajton arménio. Inlio Scaligcr .
Htcíor Boecio, lujlino.
> Heródoto. Iufliniano.
Herrera.
S. Hicronyrno. Lazaro Soranzo.
D. Hicronyrno Qforio, BifpP. Frcy Leandro Albctto±
Hieronjmo Paulo. Leonclavio.
Hiftoria geral da índia. . !p.! Leopoldo. ■*
Honório. Linfcotono.
L LUíS Samaritano.
lacobo Mcnecio. ' Luis Giuciaiàino Itali.wo. '
* Ianfonio. Luis de Gazman.
lacobo Majero. LmsVcmto.
João Boiero. M.
D Ioao Bcrmudes Patfiarcba Maffeo.
de i^álexandria. Marciano.
Ioao.de Lact, Marco Paulo Veneto.

J ■
Frcy
\
mtle Hmi
Prey Marcas: Pont ano tfacto.
Matfon. Fompomo MelU.
Marco Tulliâ. Ptolomeo Pbiladelpbí%
Marineo. Q.
Marco Paulo Stracbi Bohcmio. Quinto Curdo.
Martinho Cromeros R.
Merda. Rafael Veloterano.
Mereurio trances. Rib adentra.
Meshudio. S,
Mirei. Sahtlico.
N. J* Scbicardo.
Nennio. q^^^gciaferdinoi
Niculao de Lpa. - --^ola.
Nicolao de oliveira. Siltef^
■ Nicepbor$i \ Solino\
Nónio. Speeâo.
P. StacU.
fane i.dachotomadeSam Suetonio Tranquillo;
Prancifio. Sigibert».
Paulo Orofio. T.
Paulo Emelis. Theofrajlo.
Pedro dei Valie. Tbeephilo Antiocheno*
Pedro Teixera. Ibomas Segeto.
Pedro de Medina, •, Ibuano.
Picam. Tilio.
Procopio. V.
< Plinio Veronenje, Vandtr Bmchio.
Platina. Vafeo. -
Piãcas Maffilienfe. Virgílio. •
Peciteia Régio. Vvilbelmo Lmbard.
....
.w •
COM\
/
^COMPENDIO DOS CAPITVLOS
£- deftaobra.
^>
Lvvro I. Da Eftrop (U.
CAp. i. Em que fe defereve Efpanha era geral, &fe
dà a rezaõ, porque os Geographos comummente
começão por ella fuás defcripçoens, 5c tratados..
Cap. 2. Do Reyno de Portugal, fegundo as relações mais,
autenticas, Sc verdadeiras. ^.
Cap. 3. Das Províncias, «5c ilhas ítf|§!£jfra Portugal.
Cap. 4. Em que fe defera?-, J?;á5r£zTde Portugal.
Cap. 5. Dos Reynos, ^Províncias de Efpanha.
Cap. 6. Das ilhas deJEfpanha no mar Mediterrâneo, &
Oceano Atlanti
Cap. 7. Das tcrras.q poffue elRey de Efpanha na America
Cap. 8. Das crueldades, q alguns miniftros,& foldados Ef-
panhoes ufaraõ com os índios da America, qnando ao
principio foraõ conquiftados.
> Cap. 9. Da defeendencia real, & nobreza de Efpanha, &
decomofoy inítituida afanta Irmandade nella.
Cap. ro. Em que fe deferevero as ferras, & montes de Ef-
panha, & donde tem feu principio.
Cap. ir. Em q fe relataõ as Provineias,& Eftadosq fe uni-
rão á Coroa de França, &c.
Cap. 12. Defcrevemfe em particular os Eftados, & Pro-
víncias da Monarchia de França.
Cap. 13. Em qfe ecntinu?õas mais Províncias de Frãça.
Cap. 14. Dos Prelados, Parlamentos, & Tribunais defte
Reyno, fegundo Iofeph Scaligero, Ioaô de Laer, &c.
Cap. 15. Dos Cavalleirosde S. Spiritus.officiais da Caía

J
Real,nobreza,& famíliasilluftreside França. '
Csp.
Cmmpendio dos
Cap. 16. Brevegenealogiadoí Reys de França ate noí-
Cos tempos, fegundo as Chro.iicas do meímo Reyno^ ■ •
Ioaõ de Liei;, 5c outros Autores. ( \
Cap. 17. Dos tumultos, 5c infelicidades, que padeceo Hl
França em t.empq delRey Henrique IV. Sc como cfte ^
Rey fe converteo, 5c deixou as heregias.
Cap. is. Do poder, 5c citado do Sumo Pontífice, cm quã-
Co Príncipe, 5c Senhor temporal.
Cap. 19. Do Reyno de Nápoles íogeico à jurifdiçam dei
Rey de Efpanha.
Cap. 20. DoDucado de&ilaõ unido âCoroa de Efpanha-
C.2i.DaRepublic^^ghoria de Génova , ôc da cidade
Cap. 22. Do DucadTOrSfrr, & Piamonte. (de Luca.
Cap. 23. Do graõ Duque de HeWja, ^ çommumracnte
fe chama de Florença. Y
Cap. 24. Dos Duques de Mantua, A&dena, Parma, Vrbi-
no, 5c de outros Príncipes, 5c Senhores.
Cap. 25. Da Republica, & Senhoria de Veneza.
Cap.2(S. Da nobiliífima, & famofa cidade de Veneza. Jí
Cap. 27. Do Império de Alemanha, & fuás Províncias. ^
Cap. 28. De como foy trasladado o Império, ôc das cida- ^
des confederadas, que ha nelle.
Cap. 29. Do Reyno de Bohemia, fegando M. Paulo Strí-
chi natural do mefmo Reyno.
Cap. 30. Do Reyno de Polónia, fegundo Thuano, 5c ou-
tros Authores.
Cap. 31. Do Ducado, ôc Republica de Mofcovia, fegudo
diverfos Authores.
Cap. 32. Do Reyno de Vngria, 5c Províncias unidas a elle
Cap. 33. Do Reyno de Suecia,5cftias províncias, fegúao as
defereve hum natural delias chamado André Bureo.
Cap. 34, Do Reyno de Dania, ou Dinamarca, ôc Provín-
cias do Norte fogeitas a elle: ,
Cap.\
• * Capítulos dffta obra.
• Cap. jj.DaNorvega, & algumas ilhas do marBJthico.
Cap.36. Da Ilha, & Rcynode Inglaterra, fegundo Can-
/ S deno Inglês, & outros.
^ Cap. 37. Dos Rcynos de Efcocia, & Ibernia, & de outras
f ' ilhas circunvizinhas, fegundo Georgc Buchanano Eír
coces, Guilh, Candeno Inglês, & outros.
Cap. 38. Em que fe trata de Holanda , Zelanda, & outras
Províncias circunvizinhas.

Livro II. Em que feírata de es4Jit-~

CAp. 1. Em que (c i$;-.'-. ■-#. '/snflTeTipfoens, que três


Geógrafos infignJf fizeraõ do Império, & Monar-
chia do grad Turco^F ,
Cap. 2. Dos Africamos fogeitos ao graõ Turco,
Cap. 3. Das regioens, que o Turco poííue na Europa.
Cap. 4. Das regiões, & Provindas do Turco em Afia.
\<£sp. 5. Das rendas, & poder do grão Turco aífi por mar,
';W como por terra.
.0 Cap. 6. Da feâa de Mafamede, & de fcrrs mayorcs cbfer-
vadores, que faõ osSantoens, ou Rcligioíos dos Ma-
/" hometanos.
Cap. 7. Da cafa Ottomaoa, & Emperadores da Turquia,
. fegundo Leonclavio, & outros Authores nos Annais
dos Turcos.
Cap. s. Do Império do graõ Chaõ da Tartaria, fegundo
_ diverfos Authores.
Cap. 9. Da vizinhança da Tartaria com a China, & co-
, mo feas Príncipes fc fazem perpetua guerra; & de ou-
tras cotifas deOa Monarehia.
Cap. 10. Do riquiffimo, & famofo Reyno da Cirna, fe-
i gundo Authores graves*
1 Cap. ir.
,/-'

Oompendio dos
Cap n. Dos religlofos, ôc facerdotcs dos Ídolos, Ieys,
Y

cortumes dos moradores da China. *
tn, Í-K'5M'* R»7rd° l3P3Õ^e§5do Ioaõde Lu-'5
cena, Ribadenera,Maffco, ôc outros Authores
CaP- & Dos templos dos Ídolos do Iapaõ, 6c de feus Sa- -
cerdotes, Bonzos.
.Caf;I+:i.Da;i",M<«e Luzofl, ou Filipinas, 6c cidade de
Manilha, fe fegundo as defere vem Fr. Marcos Herrera,
6c outros.
Cv
'.fríi0lC,,ip,re,Í0 d°SraõMogor, que por outro no-
rnefe chama Indiav^dadcira Oriental, fegundo di-
verfos Au hor^^eferevéraô delia.
Cap. i6. Dealgurnlf^o^^veoíparticuía, do Impc..
no do Mogor. \ -
Cap.i7. Da Província de Agra, ôcYortcdo Graõ Mogor.
Cap. is. De outras Províncias dolm^erio de Mogor.
Cap. ,9. Do cuma do Mogor, 6c das mercadorias, que de
feus Reynos fe levão para outras partes.
Cap. 20. Das varias feaas.ôc opiniões, que ha no Mogotf
acerca da religião. & magnificência, com fi cftc PritM
cipe fe trata em fua Corte. \
Cap. ai. Da infigoe cidade de Goa, 6c outras da índia.
Cap. 22. Da ilha de Ceilaõ, 5c coufas q acõtecèraõ nella,
Cap. zi Do Reyno do Pegu, ôc de hum índio, que mila-
grofamente v.veo quatrocentos annos em Bengala.
Cap. 24. Do Império, ôc Monarchia da Perfia, fegúdo va^
nos Authores em fuás Geographias.
Cap. 25. Da Província de Pare, ou Parcia no Reyno da
1 eríla, Ôc de outras circunvizinhas. *
Cap. 26. Das Províncias de Charazon, Chermõ, Ormuz,
ôc outras da Períla.
Cap. 27. Da cidade de Bagdad, ou nova Babylonia, ôc ri-
os Tigns, ôc Euphrates.
/ CapV,
(
/ * Capítulos âeíWoha:
.• Cap. 28. Defcripfam domar Vermelho, & região de O-
fir Si de como, & onde fe produz o Âmbar.
v
*Cap. 29. Do poder do Pcrfiano, & dos ritos, & fe&as,que
. fe guardaõ nefta Monarchia.
/ Cap. 30. Das Arábias, cafas de Meca, & Medina.
Cap.31. DoReyno deSyria, Scgrãdezas do aoonte Líbano;
Cap. 32. Da regiáõ de Palcftina, que por outro nomefe
chama Terra fanta ou de Promiffaõ.
Cap. 33. Das vefes, que foy affolada, & defhuida a fanta
cidade de Ierufalem, & de outros lugares fantos da
Terra de Promiffaõ. ^
Cap, 34. Em que fe continuam our^^ares, &deftritos
da Terra de PromiffarrV'

LtrvmLlI. De africa.
Ap. 1. D3 diuifaõ, términos, & confins de Africa.
Cap. 2. Das montanhas, & ferranais de Africa, & de
feu clima, & ares.
• Cap.3. Da famofa,& infígne cidade de Marrocos, &011-
^_ trás de Africa.
/~*Cap. 4 Das fumptuofas cidades de Fez, Tunes, & Ar-
gel cm Africa.
Cap. 5. Do Egypto, rio Nilo, & cidade de Alexandria.
Cap. 6. Da populofa, & admirável cidade do graõ Cairo.
Cap. 7. Dos Animais, Aves, & Minas de Africa.
» Cap. 3. Da coita de Ethiopia, Moçambique , & Sofala
em Africa.
Cap. 9. Da Ethiopia Oriental, que por outro uome fe
chama oPreíte Ioaõ.

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*Lpa5fi' ete&* efe^" e£5uT «teãw> ;*few3lS,j

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£.M .QVE SE. TRATA DOS
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,lEYNOS,E.P R OVINCIAS
DA EVROPA.

ESTILO mais b.^^raticado , & cor-


rente, qcrçç&o vjcogr3phos'íertípre;©bferVa-
raõ para-í^icrever asregroerjs do Vnivfcrfo?
foy d.j4>orrehdo pelas três. gètàes', em que
eftà dividido, que faò Eu.ro p&/'Afia, & Afri-
ca •,.& efte mefrríoiigo cu ucfta Hiftoriai da«tíòlh€ pitos
Cipio na forma; feguinte. ; :toq :;.-..L, i
Suppofto que quafí todos os mais antigos, & graveè
Authores concordam em que a primeira diviíam dtf
mundo depois dodiluvio univerfál, • foy feita por Noe,1
.dividindo toda aterra em três pari rs , das quaes deo *
cada hum dos-filhqfa que lhe cabia'-, fegundo a eleiçíiiV
feita pelo mefeno piy: com tudo naõ conftá quando, ou
quem lhes pufefle os nomes, que ha muitos tempos tem,
& ao prefertreconfervaõ. O que íof-òdeícònjecltirat
hc fíiippofroque o de Aílaíe acha na; 1 grada Scriptu-
ra , porem haíc de entender da qoe fe chama Menor J
qnr? os tais nomes lhes foram impoítos^por peííõas par-
ticulares, como Reys,& Príncipes', cujas cooíarfaõ mais
aj?'plà(}dídas, & veneradas de tofcrc-iíitíuf^ela1 '■e-soVenien-'
cíav&<" ligai fiações, que-os Autliote^ííirTfcobciaottelles,1
, fc foráo diuulgando,: & conhecendo1 no-tiwfído/potque
/• A o que
\ \
\
*i .-Pí/I Hifloria TJrimerfd.
o q .acerca .dos cais nomes efereyem Heródoto, Sc PoriJ
pomo Mella fe tem por eoufa apócrifa, fabulofa, & fín-
g>da. Tambc naõ confia, que p Santo Patriarcha cõfinaf- r
feas demarcsçoens, remates, ou términos das tr.çs re°io-
ens, em que reparti o acenai mas depois o? Príncipes, ou
por guerras-, ooc dm (feitos* os introduzirão; ou porque
ai diftaneias -dos -mares,! cãudalofos rios, montes, & de-
feitos, cprçcndp,as tf napos-, os deixaram feitos. .
*J que com evidencia confia, he que Iapheth o filho
mais novo veio a Europa (corno a-diante fe dirá) trazen-
do configo feus deícen/?nces, entre os quaes repartio
as!PíOVioeiasJçfta^raô^che de árcffqipor menor dos
filhos, avia de:fer.mafs ãmS$&$y. pay (como ordinaria-
mente vemas,)Sr. afsi depois do grã ^de morgado, q deo
a Sé o mais velho, q foi toda a Afia.^pnílgnou o melhor,
qhe aEuropa.ao qmais amavai& qíieria. He cflaregi-
ão, coro íer amenor das. três,, a mais fértil, aprazível , ôc
faudavel de todas, pois naõ (ò produz todo o género de
frutos preciofôs, & perfeitos cô grande abundância, nias^C
tambeno clima, íiiio & ares he avãtejada às outras, bar\
nhãdoaonaar po; todas as partes com tal uniaõ , 5c fre- ^
cjuertcia > q parece fe quis abraçar com ella. A rezão eflâ
pidirido, cj^»or efta parte fc de principio à prefente def-
cripção, & Hifloria, propondo as regioens, & Províncias
mais. famofas, & conhecidas, porque das outras, alem
de que faô de menos nome naô-he fácil a noticia.
. * Porem advirto primeiro , que hà alguns termos,
& modos de fallar* os quais he neceílario explicaremfe
aos que naõ tem noticias delles. E affi he de Caber, que
cada grão de Norte a Sul .-contem defafete legoas, <5c
meya,&os qué.ha de Leite; a Vefte, nam té entre os ma-;
reates taõ certa medida, Si. fò governam pela cftimativa,.
& conforme ocuifo das eabatçoens i que he o que otà\
díni(ia-
/
/
V
h
I XÀuro I. Qapiujol. EuroftS. fy
• ' íHnâriamente faz delirar alguns Pilotos menos experi-
mentados, & deftros na ane-de-mairearej.'! ©s graos;'tfe
• jsiorre a Sul, fe conhecem com facilidade )pefaridofe
• bcmoSol ao Meio dia, & porque cada bum deftes tem
| feflenta minutos, osdividem nclles, & lhes ficaõcha-
mando eíciupulos, declarando por efle modo o c] achão
alem dos grãos, que obíetvaõ . Também fe ha de ad-
vertir , que ires milhas Italianas fazem toma Iegoa da»
que fe coftnmam em Efpanha; & em Alemanha huma mi-
lha tem três deitas, & lhe: chamam milha; horária ,f qiie
he o que ordènatiarrientíe'feli^de,andiap noefpjfÇó de
hua hora, & entre nos íe.lheòáigpnàdeiiegoa^ábqíà-
minhode hum dia fe fvhumariiconfign[atvinte,!&-'^âV
tro- milhas , que farr/oito legoa ,■ jornada'ordiriaíià das
cáfilas do Orient(^.'icgundoocAilo do Itália.;
" -ò ,eBJr»dsub íleup naimo
^ . jy w_,:__■_.•■ ■ _ -lEvisJibsr
CA 1 i l V .LU ,4* g^

m-f Em meie defcrmeEfp&wba-tm$wàh&Fe

mummente começaopor ellcCjucis


dcfcri^oens anatados,
oí'i s 3fn?<t?noD .írri
T| E Efpanha de figiiraíquadradaírou deoqnatiodb-
« ■&.■ & dos. principais, que'cerreípo-ndem aosqaatro^an-
gulos, & partes doCeoq Iam Levante,iGcekleore,
áríjorteií & meiodija". ::fior,huroa: deitas p'ártes tem os
momês Pi in<*os, pelos quais fe ajarita-.ccimuasioutras da
Europa; & faõileftes montes como garganta ( frgnndo
t 'Pedro de- Medina) entre-a cabeça, que he Efp-mha,
/
-3tJ ~Àz / &0
\

\
V.'I
_ I

?4 .-i-. ■'MiJbâa?Z)m^eyfál.
■fo^PfBa» que faôãs outcas parces.do mundo. Pelos
.•fiufòft^átt hevtadesdatíomar, qucsa faz muy .faudavcfc
& 3eemmod:ada à raaturcza- hunama, caiifà, íporqaeiâ*
nvulcjpljea ta rito. n cl la. Começa pois o dos montes Pir
rineos pouco éoics deFuente Rabia nas últimos fins da
r^íi».ViflcÍ4dôGuif>uficua, & dalli vai pelo Septentriaro,
■&k Qí£idente^vâíraUeíIaiado^&; dividindo Efpanha de
ifiian^>..!atèf&jnecet ha coita do mar Mcditerraneo,.jun-
to ap.qjbo de.Creúsi&aiJiporeftes montes ha de hum
r?)^t{pmar. quafrde.oitenta lcgoas, feudo efte o mendr
itío5^jiai»a:angul©s5, ■ou^Rtos de .Efpanh*. -Neftcjcahb
•ójecCfe£*i<9odbtei^r/íao* Birici«>sv corneça. o outro
íeguefdo> o quah(stfcnd£a£è<i»ie S. Vieentej que por
out*p.ftomefeochar»a Saero Promontório, & corre de
Levante para OiOccidentcfendo pi^pyor de todos.pois
oceupaquaíi duzentas, & fetenta légoas pela coíta do
mar Mediterrâneo, &: Qeeaao. No. cabo de S.Vicente
fe principia o terceiro lado , qòe vay do Sul para o Nor-
te, & chega até o cabo Nerio , que agora fe chama de*
,
$tÇP{?í*S&■•£*$?&9mÀ\§JP 3W3<*5^ çen^o:,fif qpc'o-
chta íegoas.iJe comprido VO quarto lado, otf qu^drode
Efpttòfil co meçaMefteiçarjo" dt%'ongl a," & váy1 êo^Occi-
dente para Le«ajit^,.eí|er)den;dofe todo peJa parte Sep-
tentrional até Fuente Rabia, por efpaço de ccnto,& trin-
ta, & qmtró legdas, fegvírído o$ lugares da cofta maríti-
ma. Conforme a ifro achamos, que tem toda Efpanha
decircuito feifiientaW&trintfl, & quatro legc/as',' póucb
mars,-ou mtinos v^difcorrciido-1 pelos mates, coite , ifc ,
•montes')qne rcípriaios.:
i i ■•i1D!v-móioMz&:, -que o primeiro nomeqilfe
lErpanliaite^crtbyjIbofci ^.dnquafc-tòífjotr do riu-Jberio,
-mr-,nori fe cfiai-iri finro. ;Depois íè "chamou • Efpewi,
forrada» <tel&eyHifpcro> que-nellá reynoupor mortie
- iA de
/
/ Livro J: Capitulo I. EuropÃJ. f
a ide Hercules Libio • Vltimamente le chama Efpanha,
' tomando o nome delRey Hifpan, do qual fe lé, que rey-
• nounella com 2elode juftiça, & em gtatificàçaõ (pot
► memoria fuaj quis tomar onomedelle. Quérnfof
f os primeiros que começaram a habitar, & povoar Efpa-
nha direi brevemente, íegundo o que hc commum en-
tre os Chroniftas, fuppoíto que variam no numero, 5c
computação dos annos, & aífim nefta parte figo o que
tem algre/a, que he o mais acertado , colligindoo doq
põem o Martirologio Romano na vigília da Nativida-
de do Senhor, em que deferev^s idades, que lhe prece-
deram, ;Noanno da creaçam do rfrjjjplo dous mil duzen-
tos, & quarenta, & dou Vque foy antes da vinda de Chri-
• fto Redemptor noflb.íious mil, nove centos, 6c cincoen-
ta, & fete, fucedeoiídiluvio de Noe, que defereve Moy-
fes, como tem a (agrada Scriptura, onde faindo da Arca
« Santo Patriarcha com feus três filhos Sem Cham , Sc
iaphech, repartio entre todos a terra defta maneira. A
>^Sem , que era o mais velho deo aparte do Oíiente, que
*he Afia; a Cham, que era o íegundo, deo a parte do
• Meio dia, que he Afriea;& a Iapheth.que era o mais no-
vo, deo a parte do Occidente, & Septentriaõ, que he
Europa. Aífim o referem Plínio, Berofo,& outros Au-
thores. Iapheth teve fete filhos, osquaes foram Gomcr,
Maguod, Maday,Invan,Thubal, Mofocb,& Tiras. Tcdos
eftesfe dividirão por Europa, & com íuas -famílias a ha-
bitarão, & povoarão em diverfas regiocnsvSc acommo-
dados fitios. E aífim o.quinto, que foy Thnbal, eoncor-
daõ todos os Ffcriptores de Authondade , que veio<ec
•ai-Efpanha com efle intento . Iofepho Hebreo chama a
«fie Tubal, Iobcl,. & dir que delle Ye chamaram Iobe-
les, os que depois íe intitularam Iberos. Olugsr, oncte
i Tuba! primeiro aportou em Efpanha, fenaõ fabe buns
A 3 dizem,
f
\
\
tf "". ' - \Hiftoria TJnvoerfM.
dizem, que cm Andaluzia, outros que em Sefuval, & ^
delia tomou o nome cbamandofe Sedes Thubal, por qua-
to nella habitou, depois de a a ver edificado. Confotf''
^ me a ifto fe acha , que Thubal veo a Efpanha no anno
cento, 6c quarenta, & três depois do diluvio,que foy an-
tes-da vinda de Chtifto dous mil, outo ceotosA quatOK
ze , fegundo o computo da igreja.
Morto Thubal lhe fuccedco cm Efpanha feu filho
Ibero, q nella reynou; & eontinuandoíe os Reys atè hú;
que fe chamou Abidis, por efpaço de mil, & cincoenta,
& quatto annos: por njfa deite fuccedeo, que em quaíi
v.nte,&feis não qjg/so cm toda Efpanha (a fecretoi
JUíZOS de Deos, fenaõ a peWdas públicos, fe atribuem
íemelhantes perdas, & calamidades; pelo qual os mais
dos-moradores fe aufentaraô delia, ^.os que ficàraõ, pe-
recerão, afíim por falta dos mantimentos, como pellas
graviílimas infermidades, que fobrevieraro caufadas do*
grandes calores, & fecura; como tambem pellas grandes
concavidades, que fe abriram na terra, & íovertiam tf
gente. Eíta calamidade fe continuou por tinte, & feis\
annos, no fim dos quais fe excitou huma cfpantofa tor- *
menta de venta, com que as mais das arvores fe arran-
caraõ, levantandofe tais nuvens de poo,&vapores da ter-
ra, a modo de fumo que parecia abrazarfe toda. Eefta
he a rezaõ, porque fe dis aver faltado por muitos annos
a fucceiTam dos Reys de Efpanha, o qual! foy antes da
vinda de Chrifto mil, cento, & trinta, & oito annos; Ve-
do depois os que fe aviam aufentado delia, que }a com c
as chuvas fe tinha reftituido a fua antiga felicidade j fe
tornarão a recolher a fuás terras, ccprovincias> acotiin-
do muita gente de Outras rraçoens, com intento de a ha-
bitarem, pofluirem, como foraõ os Troyanos, fendo
ueaetempo-abrazaía Troya pelos Gregos, que também
/ concor»

I ^ TÀuro I. Capitulo II. Europtu. y


• eOncotieraõ a cfta empecia ; com os mais vcyo Vlyffcs
!
que povoou a Cidade de Lisboa, como dizem Eftrabo,
• &Solino- Acodiraõ também de Grécia os Lacedo-
, wonios, que povoarão muitas terras em Bifcaya, vindo
y com elleshum famofo Capitam ,'por nome Mencfteoq
fes numa povoaçam em Andaluzia junto aoRioBeda-
lac , que agora le chama Guadalete, & a intitulou Porto
de Meneltco , que ao prclcmc chamamos, de Santa
Maria.
Também de Alemanha veo grande moltidam de
gente em tempo dos EmpeiVpres Arcádio, & Honó-
rio, os quaisfeomodis Paulo OtoG^íc chama vão Vân-
dalos, Alanos, & Suevos, hobicarao em os montes Pi-
• líneos» Si em oucras muitas partes da Efpanha. De mais
difto acodiraõ Cartagincíes ,& Romanos, que trauando
entre íy cruéis, Continuas guerras , aleancavaõ 'nuns
dos outros iníigoes victotias, como largamente efere-
vem os Hiftoriadores; atè que ajudados os Romanos
. da mayor parte dos moradores de Efpanha, lançarão
«^ fora delia os Cartaginefcs, ficando elles íenhores, &a
• governà'aõ com livre adminiflraçaõ ; atè que os Eípa-,
nhoes afligidos, ócraokftados dos Romanos pelasinfo-
lcncias que fiziaõ, & tributos, que lhes punhaô, admit-
tindoos Godos,os aclamaram em Reysi & depois de
grandes>& memoráveis batalhas, que com os Romanos
tiveram, os cxpulfaram de toda Efpanha, ficando os Go-
dos reynando até D.Rodrigo, em cujo tempo tiveram
- nclla entrada os mouros de Brrberia da fuceíTam dos
Reys depois defte tempo, faremos adiante nanaçam ate
os que ao prefente governaõ. Eefta recopibçaõ íerâ
baftante para brevemente fe faberem os princípios , &
progrcflbs da infância de Efpanha.
Eoy fempre a gente defta regiaõ moy bclicofa, &
A4 inclinada
\
-.
8 Hiftoria Z)niverfaL ^
inclinada às armas, avendofe nas guerras com grande «
animo, & valor, querendo mais morrer por defendes a
liberdade , que confervar a vida com inermes cobar-
dias, & afrontofos ritiros. Delia disaífi Iuftino: os Ef-
t panhoesfam coítumados afofrerfome ,è< todos os tra^
balhos militares} he gente muy animofa, & fua natureza
indómita, dotada de alentados brios, & generofoscofi
tumes, com perpetua fidelidade, & obediência a feus
Piincepes, que he o primeiro brafam de nobreza nos
verdadeiros vaflallos. E Suetonio Tranquillo dis, que
avendo Iulio Cefaríojc^adoqaailtudo o que naqucl-
le tempo 4o mund^íf fabia, tornando para Roma ef-
^ colheo os Efpanhoes para guatda de fua pefiba. Coma
homem, que tinha larga experiência da bondade, & leal-
dade de muitas naçoens, conheceo, que. nefta. maté-
ria levavam ventagem a todos. E li moftrou fer verda-
de, porque avendo defpedido aos Efpanhoes, confiando
que os Romanoslhc feriaõ fieis, por ferem feus natu-
rais.- da hi a pou cos dias o matarão no Senado. Também\J'
fe efcrcvedelRey Francifco de França, que indo carot^
nhando por Efpanha no anno do Senhor mil, quinhen- *
tos 5c vinte, & cinco, quãdo foy prefo pellos Efpanhoes
na batalhi de Pavia , vendo os moços de pouca idade, &"
ainda fem barbas, todos com fuasefpadas cingidas, dif-
fe : O bem aventurada Efpanha, que pare, & cria os ho-
mens atmidos. Epartindofe para França deixando as
filhos em rff<?n% & com as lagrimas nos olhos, confo-
landoos lhe difie.- Filhos meus na verdade que menão-
pefa de voflíi; vinda a Efpanha , antes dou muitas graças
a Deosporiffo, que vosnão deixo em poder de Bárba-
ros, nus comos Principes de Efpanha parentes voifos,
& com os nobres caualleiros delia, para que aprendais
fiws vertudes,<5c generofos eoflumes, Finalmente hetal
oani-
/

/
',--«, ■ <v, • ••.

1
*oV ; ' '•• >
^ Livro X.'Çaptulõ I. Ewofa^. < p
« Oranimo, & brio dos Eip.anhces, que a:é nas caçoes mais
• barbaras, & difiantes mcflraõíeu valor, ccesforço, con-
* quiftando- Reynos, domando infiéis,, dilatando, a Fè,<&
, gugmentarrdo a Igreja, como a experiência claramente
f tem moíhado-
Haem, Efpanha; grande abundaneia.de riquezas'
&bens, aflim temporaes como efpirituaes j porque fs
acham ne.Ha muitas minas de ouro, prata ,-.& de todos
ou outros metais. Pelloqual differaõ Eftrabo, & Arifto:
teles, que era Efpanha tam rica, que até para os cavallos
tinha rnanjadouras-de prata, &íj,\quiflirriQS jaezes, com
que os ornavaõoscavalleiros, qúe,^vaôdcllrs. O paõ
he tanto, que do que Ihecrece, fe levapellomar a diver-
\» fas partes; como também de vinho r o qual hé em tal
abundância* que otpvé França, Flandes, Inglaterra, <5c
as índias» <§c íò em Xerès de Ia Frontera fe dis, que fe
recolhem todos os annos feffenta mil pipas de cri nta ar*
robas cada huma. Os gados, que ha cm Efpanha.naõtem
onto, porque fò nas ribeiras do rio Guadiana confta,
quefe apafeentaõ paffante de quinhentas mil cabeças.
* De pe,fcados de toda a çafta ha tal abundada , que fò
os Atuns, que fe pefcaó nas Almadravas, paffam.de du-
zentos mil, O Azeite he innumeravel, & tanto que fò
na Cidade de Sevilha ,& feu território fe recolhem cada
anno fetenta mil quintais delle, tendo cada quintal a dez
arrobas,, fegupdo o modo de medir daquellas partes. A
variedade das frutas, & a copia delias he tanta, que fe
^ não fabe no mundo coufa íemelhante, como também
; das flores j iôç.^rvas medicinais: não faltando çan3S de
açúcar, queem^uitos lugares de Andaluzia fe cultivão
com grande,utilidace de fe.us moradores. A (eda , que
em Efpanha fecria, he em tanta quantidade , que fò a
Cidade de Granada paga, todos os annos de tributo dei-
* lacin-

!■
7 ' ■ .
ío Hijloria Vniverfal, \
ia cincoenta mil, cruzados. Aslans finiílimas faõ ínnti;
tneraveis, & delia fc fazeaj tantos panos, que ío Sego--
via pafía de des knil de diverfas cores eada anno. Cria
^ cambem Efpanha tantos cavallos, que íò Xeres de U
i Ftonteca fe dis paflfat de íeis mil egoas, 5c fc tiram deli*
todos os annos pafíante de dous mil potros. Os portos
do mar, que fam muitos em toda Efpanha, faõ os mais
accomodados de todos, para o contrato, & navega-
ção, aífim no Oeceano.coiwono Mediterrâneo,fazendo°:
fc nelles tati grande copia, dé fal, que provê as Provín-
cias do Norte, & mi^?s outras regioens do mundo.
Para as feiencias t€fc.muicas, & bem dotadas Vniveríí-
dades, quefloreeem em codas as faculdades, faindo del-
ias homens eminentes, que com (eus livros, & letras a
L honraõ.Sc engrandecem. Alem di£o he Efpanha enri-
quecida com muitos Santos q cem floreado nella, Mar-
tyres, Confeííbres, 5c Virgens; & povoada toda de Mof-
tuosera
teiros, Sc Convétos das mais das religioens, inftitoidos era
toda a virtude, pureza.Scfantidade.Os mais milagres es infig^r
nes, & evidentes, que Deos tem obiado em Efpanhí nha, <^
afaeratiífíma Virgem fua Mây, faõ incomparáveis; co- ■
>is • co-
mo também os thefouros das faritas relíquias. A Fè flõ\_
rece de tal forte em feus Reynos, que nunqua ja mais fc
confentio nelles, nem ainda por breve tempo herege
algjmv que a efcureceffe, 5c contamináffe, acodiodo o
tribunal da Santa Inquiíiçaõ a tudo com a vigilância,
zelo, & cuidado, que coftuma.
Propoftas pois, & copiadas aífim em geral efiasc
grandezas de Efpanha , tratarei em particular de: feus
Reynos, 8c Províncias; dando primeiro a rezaõ, parque
começo poreHa-eíía diferipçam do Vriiverfo, & he por
me conformu com os Authores, que deita matéria tra-
tarão, aífi antigos, como modernos v dos quais os mais
antiguos .

/
•,%« ' •
> Livro I. Qapulo I. Êúfbçiu. íi
• antigos'foraõ PliniO Vtroneníe, & Pr. dl orne o Phila-
àelto , que feguiraõ eftc meímo eftilo nas diícripçoens,
•- quefizeraò!, fundados, por ventura, em que Efp*anha he
aulcima das terras povoadas árefpéito do mar Ocea-
no, cm cuja coílaeftáof/»H/Wrf, que por efta parte
fe pode chamar principio do mundo. E porque òRcy-
nó de Portugal be o mais Occidental deita regiam, co
meçarei por clle, dando húa volta a toda Efpãnha pela
parte direita: & ailim depois de Portugal tratarei dá
Eftremadura, & logo das mais^que fam Andaluzia, Mur-
cia, Valença,lAragaro, Cathali&a, Navarra, Guipuícua,
Bifcaya, Aítutias, Lear», Caftclla :& Galiza, que pela
parte do Norte confina com Portugal:

CftPITVLO II.
■'•;.- i
Z)o ^RçynodeTortugalJegimdo as relações
> mais authenticas, &- verdadeiras.
* - ■

A Meímarezao, que avémos dado, para còrneçar-


Jt\. mos efta difcripçaô dó Vriiverfo Jpor Efpanha,
concorre também para q* em Portugal lhe demos
principio , por férefte Reyno a-parte mais occrdental
de toda a Europa , como fica dito. Occupa'poís efta re- ^
giam de circuito duzerita», & oitenta' legoasi de compri-
% do noventa, <3c de largo trinta, & três; em alguas parages
Vinte, & em outras menos, difeorrendò parte delia pe-
la corta do mar Oceano. Coftuma dividerfe cm íeis
Provindas, das^uais a'primeira hé o Rc.ytàrdb Algar-
ve, que fe eftcndè da de Séixas-até Càftròmarim defron-
te de Ayamomej óc tem de Éòtof ridp vinte, & fete le-
, ■ >- goas

/■
il Hiftorià Vmve}fd\
goas 5 & de largo, ojep, A fegunda he Alentejo defde
Sincs,acè Elvas, ocupando tudo oquefkaenrrc o Tc, '
íp, & Guadiana,,comotambém Alcoitím, Olivêça,Ser- '
pa , & Moura cora trinta, Sc feis Iegoas de comprido;'Sc
trinta,. & quatro de largo. A terceira he a Eftremadu-
ia, que Ce eftende defde .Calcais ate o Mondego pela
coftadomar, 5c.pella.tCKa dentro, lançando humali-
nha imaginaria, ocupa defde,;Ab.rantes até a Ponte de
Coimbra tendo de comprido trinta, & cinco Iegoas í &
de latgo.dpzoito. A quarta parte he a Beira, defde Co-
imòra ate, a Guarda, e^ndo.aqui Riba de Coa , cora
QS Bifp^ps.da.;Gu^a , Vifeo, Lamagp, Sca mayor par-
\ te do de CoimbraKtendo de, CQmprido.trinta ,.-& quatro
Iegoas; & de largo trinta, & três, contando de Aveiro ate
os Touroens. A quinta he entre Doujo, & Minho defde
a Cidade do Porto atè> Valença/tendo dezeico Iegoas
de comprido, & de largo, onde mais ohe , doze- & onde
menos, oiço.. Com. fereítVPrpvificia tam limitada;, &
pequena, fe contam nella no. Conventos de frades, Stf
freiras; mil, quatro centas,- & feffenta Igrejas ParrochiailV.
alem da Metropolitana de Braga, a Epifcopal do Por- *
&%}& f jngo mais colleig^d^ ..T^m.dwn.tas pontes, de
pedra, feis.pprtqs marítimos, <5cpaíTjnte de cinco miP
fontes perennes, com muitos rios, que por todis as pa-
tês a cercão. A fexta he a Tranfmoncana chamada vul-
garmente Trajosm^^ a qual íe eitende defdo rio
Tamaga até;Miranda, pecupando trinta Iegoas de com-
ptido, & vinte de largo. . t
Tem efte Reyno dezoito Cidades, .& quatrocentas,
.&
co quatorze Viilas grandes f àlçrodj! muitas de,menos
™Je;i3çao.^^^
fort1a^i?o.s,SíqiaarrjnâRiilps:LBgares,óí.A.ldeas com que
he ,dqmAfiada,mence povoado,, poc fç-^jfj^Mrnejle
a natu-.
f ••- -
• V
/ Liuro I. 'Capitulo li, Éuróp<u. 13
• a natureza humana com grande pro-videncia , & cuida-
' do. A primeira, <5c jfcrfn-cípal cidade, Corte dos Reys
•de Portugal* he aQllufttiíTima , & famoía Cidade de
Lisboa, acujasigratídezas fizera agfavo, fe as. quríera
copiípnefta breveíumma, quando para eilas fe requé--
rem grandes tomos, & Chrcnicas roais dilatadas: pelo
'^uatasvdbiKtJ pinados què èrfi pattkiíJ&r as defcreveram,
-contentandctme-^ot» dizer■;■ que h« huma das quatro
mais íinaladas r & pôpulofas da Europa ( fegundo tem
commummente os GecgraphqsJ as quais hô Coníhn-
tinoplar,Paras,;.Liífo>3.& Nap^&.v: poremno fitio, cli-
íria', bondade áà tôtricoíi^ poito tf#mar,:& mais gran-
dezas ;fe a rama j a aiodas-j-fendo b«ma perpetua primavc-
• ia , deleite, & regalo da natureza humana, compendio,
& cifra dos bens, ^A com mu rn reparti o pelas mais par-
tes do mundo ; comolaigânuente :íc pode ver nos Au»
thorcs, &: Cbroniftasdc Portugal/que defcrevem todas
eftas coufas porextenfo.
%W AfegundaCidadeheEvoracomfoites muros,&
^orrfs, qne íegundo Iacobo Menecio;,; occuparrcde cir-
,cuitojpaffante;de huma legoa. He-reqaifirmai fértil> <Sc
^«abundánrefdrtiriígo, vânho;azeite , carnes ,&..de tudo o
m.iis, qúe.íe.pòde dcfejnr. As mais cidades fam Coimbra
;com hú-j floittíte Vniverfidade ; & ellaem (1 tam bella,
-&apfa?ivfi':qui° lhe charnão os eftrangcircs Cidade. rj>
-deotir | Braka.dvlirand.v Perto , Lamego , Vileu , Gnar-
»
tda, PnrtaUgre-',-Elvas Leiria, Bragaínçar, Beja, Taura,
*Lagos, F3flo,.& Silves ,.entree)las ha três Arcebifpados,
que faõ.Braga, Lisboa.yi&,Évora , & dezBifpados. fo-
icei tos a<ei Ies.;.7' rfFcmio-JUyno1 três.porcos. rofign.es, km
debita*. Lisboa amais famofe, capaz de deí entrarem por
«Bafeis iegoas, nãos dar.India','namihnar Bahia tami sm»
ipía."vsquç pôde; juntamente recolher muitas, .«raiadas»
,.3í:no ' O-íe-
14 Eiftoriá Vviverfai.
O fegundo porto hc Sctuval dtftantc vinte milhas de
lispja, o qual te» trinta de comprido, Sc ttcs de Lrgo
O cerceiro he o Porto, que faz o Douto, mas lua entra-'
da perigofa, por rezaõ das impetuofas correntes dcfte
rio. Muitos outros portos tem, mas menos capazes, frei
quentados.&fcgutos.
He o clima de Portugal Sumamente faudavel, aífi
por rezaõ dos ventos do rr»ar, como da tetra, taas o ter-
ritório afpero.&montofo principalmente no Algarve.
Produz todos os fruitos petfeitiífimos, dando g.ande
abundância de azeite.^nhõ,: &,mel,uippQÍto quecnos
annos menos fadáveis padece falta de. trigo j roas he
provido de França, & de outras partes Septentrionais:
& nem efta falta fe fentira.no Reyiio,. fe. ouv.era: mais
induftria, & cuidado em fe culcij^r; pois eonfta que
alguns annos as duas villasde S.erpa,.& Moura, deram
de dizimo tal quantidade de. trigo', que parece increi-
vel, alem das mais novidades» & no campo de Santarém
deo certo lavrador em hum anno cem moyos de todj/
afemente . E fuppofto que eftes territórios fam pinV
guês, & como tais correfpondem a quem os cultiva, *
muitos outros fizeram o meímo i ou pouco menos, fe os
beneficiarão ,& lhes applicàraô a induftria, com que o
Reyno fora mais abundante, profpero, &TíCQ. Epara
que fe veja a ventagem, que nifto nos levam os eftran-
geiros, conta Ioâo Botero, que ha entre elLes! Provín-
cias-tam infrutuofas, que nam produzem couta alguma,
& he tal a traça , em que deram, que carregando navios»
de terra em outros Reynos, lha lançaô por cima , &?afl!
recolhem.copiofas nouidades, fem íe,enfadarem de to-
dos os annos fazerem o mefmo: & difeorrendo por Por-
tugal, não ceifam de culpar a Negligencia de feus mora-
dores" em deixaiem perder eanta ••quantidade deterras,
onde,

/
• .\ • . ..;•..; . •
. • » Liuro I.'Captaio 11. Fw-ofa-;. 15
• onde alem de íc pcotum cultivar n imas, pode apaí-
" centar grande, copia de gados.
• N^íie Rcyno lcprcduz tanta abundância de azeite,
que fegundo affirroa Nicolao de Oliveira, todos osan-
nos íe levam mais de tíes mil pipas delle para as provín-
cias Belgicas. Ha muitas minas de metais de ouro , pra-
ta, ettanbo, ferros, mármores finiífímos, & jaípes de
«hverfas cores ; muita abundância de feda, principal-
mente na comarca de Bragança . O fal he em tanta
quantidade, que fe não acha no.mundo coufa femelhan-
te, como a peícaria dos atuns ,^r mais pefeados em to-,
dos os portos do mar. As fortaleza^, caftellos faõ.in-
expugnáveis, principalmente o de S. Iuliam na barra do
Tejo , quatro lagoas de Lisboa, de tanta mageftade, &
grandeza, que fe lhejiaõ íabe igual em toda Europa. As
mais coutas de Portugal deixo para os Hifioriadores,
porquanto repetidas de huns nos outros faõ vulgares,
& íabidas, deferevendo fó eftas para complemento da
floria.
*■. A nobreza deite Reyno confia de Duques, Mar-
* quefes, Condes, & de muitas cafas de folar iiluftriífi-
mas, & muy antiguas, com amplas rendas, eftados, de
que adiante fe faz mençaõ. Os Reys de Portugal co-
meçarão em D. Affonfo, que fucedeo a feu Pay D. Hen-
rique, cuija origem, & deíceBdeneia be a fegninte, fegun-
do Iacobo Aguítiuho Thuanc, & os Annais de Efpa-
nha., Gilhelmo filho de.Eu-ftachio II. Conde de Bo-
»nonia , irroaõ de Gof>edo Rey de Ierufakm, teve mui-
tos filhos: dos quais Henrique Conde de Limburg com
defejo de aquirir fama, & ampliai feu eftado , fe partio
para Efpanha, que neffetempo eflavi em perpetuas
guerras com os Mouros, em companhia de Raymun-
do filho de Gilhelmo Copdç.de Buigundia* & deoutio
.- Raymun-

\
16 BifiorU Vnwetfd: vv
Rayarjodo feu tio Coadc de Toloía. trazendo, configo
muica gente de armas, que:os acompanhava,. & feguia.
Avendo:pois militado.; alguas teimpos ; &feitO grandes
/ proezas filhas de íeu valor, & ânimo generofo, Di-A-ffori-
c fo VI. Rey de Caftellalhe deoaquella parte da Lufita-
nia fque ainda pefluia com titulo de Condado'.) em do
tecaíandoo com íua,filha D. Thereza.paea que clle por
uqudla parte defendeffe, & repriniifle, o impero dos
inimigos. Iftoheoque referem os Aonais de-Efpanha
acerca de D. Henriqiie progenitor dos Reys de Portu-
gal. Outros dtzcm,, (4rv'ifto fe tem por mais verifimil,
fcgundo o mefmçáThuano.; que Henrique, a quem hús
clvamáo Limburgenfe, &• outros Lotaringo, não foy
da decendencia de Eu!lochio de Bononh, mas da de'
Ruberto Duque de.Burgundia , que era irmão de Hen-
rique I. Rey de França, Sc netode Hjgo Capeto. O
qual Ruberto depois da marte de Rudolfo ultimo Reyr,
de Burgundia, dividido o Reynoem Duquado, & Con-
dado, foy feito Duque no anno 1014. Efte tevehum fi-
lho por nome Henrique, de quem foram filhos Hugu
Duque de Burgundia, & O doo,- que- fuecedeo a feu ic-
maõ no Ducado pellos annos.n02. & Henrique , que
foy Conde de Portugal no de 1090. &' recorrendo ao
Caralagodos Reys de França, achamos, qucograo.em
quefiõ patentes (eus os de Portugal, por eíUJinha , he
o vigeíi 110 nono com o queao prefente- reyna; fuppof-
to que por outras travaçoens , & deíeendencíasíaõ 'pa-
rentes moy propinquos.
Morto pois Henrique-ero Aftorga, lhe ficou hum
filho,' que. ouve em D. Tareza►, com quem foy cafaio
(co-no fica dito) por nome D. Affjofo aue fuccèdeoa
feu r>,fy no mkà 111». o qm\ tewdo Lufitania com ti-
tulo de-D«que viny:, $ íete:antvos, naquela celebie, 5:
memo-

L
J
•.A • • _.
' Liuro I.'Capitulo 111. Fvropa-. 17
• memorável victoria , que alcançou dos cinco Reys
Mouros no campo de Ourique, foyatlamado Rey pe-
*Io exercito, tomando depois tudo ornais do ReynfJ
4c Portugal à força de armas, & o Papa Eugénio III.
cu Alexandre III. o inveftio, confirmandelhe os titu- s
ilós, & infignias reais, que por feu velor tinha alcan-
çado, & merecido. .Defdc Dom Affonío Henriques,
.que faleeeo;em Coimbra no ânnno n8> atè Dom Ma-
noel filho do Infante Dom Fernando, & neto.de Dom
Duarte (o qual Cucxedeo a D. Ipaõ II. neto também do
mefmo Rey> porquanto cite f&ecco fem .filhos legíti-
mos no anno 1495) ^ cotam treze -3*ys. Caiou D. Ma-
noel três vezes r & íò de Maria filha delRey D. Ferna-
,do o Cathclico teve muitos filhos, D. Ioaõ, q lhe íuece-
.deo, D. Ifabel molhar de Carlos V. & Mãy de D. Felip-
pe o prudente, D. Luiz pay de D. António (q depois
cõtendeofobreaíuccefiaõ do Reyno) D.Fernando, D.
• Afronto, & D. Henrique ambos Cardeaes, & ultimame-
nte Dom Duarte, o qual deixou duas filhas legitimas, que
> foraõ Dona Maria mais velha , que cafou cem Alexan-
dre Farneíio Duque de Parma • &'a íenhora Dona Ca-
• therina, que cafou com Dom Ioão Duque de Bragãça.
Depois de fallecido elRey Dom Manoel no anno 1521.
reynou D Ioaô III. o qual de D. Catharina irmaã do Em-
perador Carlos V. teve muitos filhos: mas finalmente
no anno 1557. faleceo, não lhe ficando de todos ma- ^
is que hum lo neto ,^ue. foyelRey Dom Sebaítiam.
* Por cuja aufencia Coão querendo alguns, que fe chame
morte ) fuecedeo o Cardeal D.Henrique no Reyno,que
em breve tempo falleceo, por fer de muita idade. Con-
tenderão muitos fobre afucceffaõ, fendo os principais
.'D. Felippell. filho de D. Ifabel ,& por ella neto delRey
-D. Manoel, & a fenhora D. Cathatina filha do Infante
B D. Da- «.
\
\
i8 Hiftoria TJniverfal.
D Duarte, que por reprefentar apeffoa de feu paydc*
u.aíer preferida, pois cftaua no mefmo grão, como tara
bem por outros hmdamétos,que apontão os Doutores-I
mas atropellou nefte cafoo poder á/uftiça, verdade» rei
zao, & direito; ôc afli D. Felipe ficou com o Rcyno de
Portugal, que teue elle, & feus fucceffores por c/paço
de feffenta & do.us annos . ftí
Poréconfiderandoos Portuguefes,q o Reynoeftaua
vfurpado a feu verdadeiro, 6c legitimo Rey,q era o Du-
que de Bragança neto da. fenhora D. Catherina, no anno
1640. aclamarão a D. Úlo IV. noíTo Senhor , ã reyM,
& gouerna co app^fo & beneplácito de todos feus vai-
falos, reftitu.dos a antiga felicidade, «Sc profperada' £0*
tunacooRey.porq tanto fufpirauão, q o Ceo cõfetue;
&lhedeviaoria de todos feus inimigos, para honra, fc
gloria da nação Portugefa ? feruindo de knmortal faaw
3 efte Príncipe, foberano o fer reftituido aoq de direito
lhe pertencia, fem que elle porfio pretendeffe, pois no
eítado da cafa de Bragança tinha a quietação, qe g*
uernodoReynolhe côuerteo era cõtinuos cuydados,e
perpétuos defuelos;&aífi os vafíallos lhe devem tributar
verdadeira gratificação, Sceordeal lealdade, pelo animo,
3czelo,comqueqais acudira feu amparo, óc remédio:
fem reparar nos incommodos de tam atrifcada cmpte-
ia & pengofa contenda.

CAPITVLO IIL
Das Promnáasr & Ubás finitas a Portugal.
- 1
PRimeiramente tratamos do que tem era Africa, 5
heofcguinte. Septa na Mauritana Tingitana pofta.
eoi

/
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v
'■ • • / - -

• '* Livro I. Captulô IlI.Euroça. 19


. èmrtinta,& féis grãos da parte do Norte nas prayasdo
" mar Gaditano ganhou D. loaõ I. Rey de Portugal aos
•Mouros no anuo W. que no levantamento do Rey-
no ficou pelos Caftelhanos. Tanger ena pelos Po*
tusuefes, como também Mazagam na entrada do mar
Atlântico em trinta, & três grãos do Norte , A ilha
da Madeira, & o Porto Santo ficao na mefma altura
disftantes de Lisboa cento, & cincoenta legoas, & da
Canária feffenta . He ilha fertil.íuma , & »J"n?aote
de vinho, açúcar, &ma.s coufas deeft.ma. A Cidade
principal he o Funchal com Uvm P0"0"0»™0^*
Se bem guarnecido. TfiBifPo,*lWa Cathedral muy.
ÍUtí,PtU ft
N m muy diftante deftailha da Madeira eftà outra,
que fe chama Anuha, & a gora fc nam ve. Delia rete-
se Pedro de Medina, que a achou eftampada emhuma
carta de marear muy antigua; & como delia íenamti-
vcffc noticia alguma, propôs de abufcar por muitas
AVias: & que em hum Ptolomeo, que foy dirigido ao
^Papa V.bano, achou finalada efta mefma ilha encibeç.
)
ta & iu >to a cila cfcrito o feguinte . Efl* ilha ^ínulu
. em orno-tempo foj dtfcibert* pcllos Lufitanes, mas agota,
mando hc bnfcada fenam acha . Ha nella gente , que
falia a lingoa de Eípanha, & fe cre , que do tempo
do ultimo Rey-dos Godos Dom Rodrigo, quando os
batbaroilentrá.aõ- nella, vieraó fugindo para efla ilha.
Tem humArcebifpo, & féis Biípos, pelo qua alguns
• lhe champô a.lha dc.fete C.dadcs. Agente delia he
Ghriftãa & te abundância dos bens. & riquezas deQemu-
do,& dis Medina, que, rcprefentava no Ptolomeo ter
oitenta , & fcte legoas de comprido, & vinte , «
oito de largo com feus portos, & rios j & quee -
. tava fituada quafi no Paleio ,do eareito de G.bral-
ta
.. , Bi <


\
'A . "

tar em trinta, 5c féis-grãos, & meyo de altura. A mira


me affirmàraõ. alguns mareances., que' navegando de
longe a vera , 5c. chegando- perro a não acham, ifto
he o que li acerca, da Ilha encúb^rta,. & o Remeto á.
corteíia dos que o quiferem crer» «Sc à difpoíiçam divina
que ahi pode defcobrir ao monarca de Portugal huroa.
nova Lufítania..
t Asilhasdos. Açores (quepor outro nome fc cha-
inãoFlandicasJ eQãotambem nefta corrente; &• apria-
cipal hea Terceira, que tem dezaíeis milhas de circui-
to, com huma fortaleza^i caftello (i que fc tem por in-
expugnável ... Apiitj^Jra cidade he Angra?-metropolidas-
mais ilhas , onde refide o Bifpo, 5c Governador. Dif-
ta a de Sam Miguel defia ilha vinte, 5c oito milhas a
qunltem. vinte de comprido, 5c a Cidade principal her
Ponta delgada.abundante de trigo (comôaffirma Linf-
cotano,5c.omoítra a experiência);de que muitos annos>
fetras copia a Lisboa. Oito milhas da Terceira fica *
Graciofamuy frefea, 5c fértil: 5c a de Sam Iorge, nove^
Perto defti eltà.o Fayal , que tem dezoito milhas de'
:>
circuito; 5ca ilhr do Pico abundante devinho, 5c fruitos
excellentes. como a das Flores,,que diftâ fetenta milhas
da Terceira.
MJS tornando à terra firme de Africa, paliado-
Mizagarj, fe Cegue o Cabo Branco, donde o mar cora
ruma enfeada fé mete pela terra adentro, ôc fe cha-
ma o golfo de Argaim, onde os Reys de Ponugal no
anno 1441. edificarão humcaftello, que tem o próprio
nomefogeicoao ConJe d.a Atougia. He abundantifil-
mode pefcados,iScnelle tiveram em outro tempo grande
cobreio os Portuguefes com os Mouros, como refere
Ioaô de Laet. Diíta Argui™ de Lisboa trezentas, cincoé-
tar-leg.oas em altura de vinte grãos do Norte. As ilhas

/
• V
Livro I. Capitulo III. Europa. íi
\ «}e Cabo verde eftaõ quatorze grãos, & mefo cm cuja
' terra firme (coroo dis Niculaodc Oliveira) começ» a
•pthiopia, que fe eftende por mais de cemlegoas, até o
pormontorio da Serra Leoa: & todo efte cfpaço pertéce, .
& fe configna ao Governador de Cabo verdc.Aprincipal
deitas ilhas,que.laõ des, he Santiago,^ ditta do cõtinente
cc legoas; & nella iefidem o Governador, & Bifpolun-
to a Serra Leoa tem os Portuguczes Cachavero nove
grãos da linha equinocial , onde commerciando com
os Negros,tiram daqui muito ouro, marfim, & outras
coufas precioías» O caftello deí". Iòrge, que por outro
nome fe chama a Mina, cftà cinco í#K>S para o Norte
na Cofta de Guiné, que os Holandcfes tomarão, mas
em breve morrerão todos, por fér terra fummaroente
doentia, &aaíeftàèoje deferia, & com pouco animo
ác fe habitar. A ilha do Príncipe efta em dous grãos
da parte do Norte, & diffa dá Cofta de Guiné no-
venta legoas . Debaixo da linha equinocial fica a
Ilha de Sam Thome diftante feflenta legoas da ter-^
ia firme. Produs copia de Açúcar, mas o clima he ao^
eivo, & perjudicial , & poriffó os Holandeíes, que
• também tomarão efta ilha , a tornaram-a largar com
morte de muitos . A de Annobom eftà diftante f fe-
gundo Oliveira) vinte legoas do continente de Afri-
ca, cuja cofta fe eftende daquipella parte Auftral
até o Cabo de Boa Efperança por eípaço de feifeen-
tas legoas.
* Nefta cofta eftà primeiramente o Re yno de Con-
go em féis grãos da parte Auftral, cujo Rey fendo vat
fillo de Portugal, fe rebellooha poucos annrs, con-
federandofe cem os Holmdefes . Depois dcfte fica
o Reyno de Angola em nove grãos ái mcfma al-
•tura Auftral, onde os Portúguefes affi na cofta, como
na
B 3 •
/

22. Hiftoria Vmuerfal.


na terra fume tem algumas fortalezas . Daqui ate 6 f
decimo terceiro grão ha muitos portos, que pertencem
ao Reyno de Benguella , onde os noiTos conquiítando,'
procuraõ aquerir novas Províncias. A ilha de S . Hele-
/ na eftá em dezafeis grãos da parte Auftral, & difta do
continente de Africa trefentas, & cincoenta legoas.
Tem quatro de circuito, ,& não he abitada por fei pou-
co dcfcnfavel: nella apportaô asnaos da índia para fa-
zerem agoada, colherem madeira, & outras coufas ne-
ceiTanas. He abundante de'caça, fruita, & muitos aega-
lps.reprefentandohtfm^araifo, como com fua coftu-
roada elegância, ô^poeticoeftilo a defereve o farnofo
Luís de Camoens, pairado o cabo de Boa Eíperancá na
coita de Africa que daqui começa a difeorrer para o
Norte, pufluem primeiramente os*. P^rtuguefcs a forta-
leza de Sofalla, em vinte grãos da.parte do Sul, onde
tem. hum requiflimo comm;erciQ pellos rios de Cuama,
ou Mucarangua. Alem deita tem outra fortaleza cha-
mada Sena pelo rio acima feíTenta legoas feita'de pe-t
dra, &. barro, com muitas peças de artelharia, onde eiH ' ,
hum capitam podo pelo, Governador de Moçambique.:
A eira fortaleza vem os moradores da Província de
Tete, trocando por ouro as mercadorias de Portugal.
Na mefma Província de Tete no Reyno de Inhabaze,
fenííenta legoas de Sena, debaixo do dominio do Mana-
matapas.tem os Portuguefes outra fortaleza , onde as
.< coufas de Portugal" faõ muy eftimadas, & fe commutaõr
por outras de grande preço, Daqui commerceáo tam-
bém com os Bárbaros em- três portos, & empórios feus,
que faõ MaíTapa-, Luanze, & Manzovo, onde tem feu
Governador com. confentimento do mefmo Rey de
Manamotapa. Tem efte Reyno duzentas legoas de cõ- •
pndo & pouco, menos de largo, & confina com o Rey-
no de
/
• ■"■ Livro I. Capitulo 111: Europeu. 23
\ no de Abutuá, que fe dis eftendetfe até Angola.
O cartello de Moçambique eftà pofto em huma
• pequena ilha em quinze gtaos Auftrais, & difta pouco
cfpaço da tetra firme; he lugar muy accommodado pa-
ra as nãos, que vem da índia, & nelle invernao, qnando
nãopódempaíTar.Sc vencer acabo de Boa Efpcrança.
Sccenta legoas da tetra firme de Africa efta a grande
ilha Madagafcar, chamada de S. Lourenço : a qual co-
meça no vigeífímo fexto grão da parte do Sul, & acaba
no duodécimo da raefma altura. He julgada efta ilha
•ormayor de todas as domun^v?, porque fe dis que tem
decomprido duzentas, & oitenta le^as, & de largo no-
venta. Os moradores faõ negros gentios, esforçados,
& belicoíos i Schuns dizem que tem cinco Reys; ou-
tros affirmaõ que fete . Paffado Moçambique na meí-
macofta de Africa eftà Quiloà com fua fortaleza em
nove grãos da parte do Sul. Depois fc fegue Mombaça
ena quatro grãos; & Melinde em dous, & trinta eferupu-
^os. Enrtoda efta cofta defde Moçambique a Melinde
^ha muitos Reys pequenos, fendo os mais dellestribu-
}
tarios a Portugal; como muitos outros, que ha de Me-
linde atè o promontório de Guardafuy, defronte do
qual na boca do mar vermelho eflàailha de Sacatora
confederada com os Portuguefes. Eftes iam os Lugares,
que Portugal poflaecm Africa, fegundo Oliveira, & ou-
ttos.que delles ttataraõ.
Agora diremos os que tem em Afia, & na índia
• feguindo^os mefmos Geographos. A cofta de Afia, co-
meça em Sues lugar dos Turcos na entrada do mar ver-
melho: &pella parte Oriental do mefmo mar fe eften-
'• de até a Cidade Adem, & dahi, comando a praya da
Arábia Félix, vai ate o mar da Perfia, em cuja boca na
. tetra firme tem os Poituguefes commercio com os
B4 m°ra-
\
/
(
, 24 Bifioria XJniverfal.
moradores de Calayte Cidade do Reyno de Orrous,:
Naó longe daqui fica huma ilha,que tem o próprio nome
que o Reyno diflante. naõ mais de duas Iegoas de con-i
tinente da. Arábia cm vinte* & fe.te grãos da linha da
parte do Norte. Aeftailha, aquém os noflbs chamaõ
Ormtis (deque,m, em.outra parte faremos mais copiofa
mençaõj chamaõ os Perfas, & A rabes,Gerum, a qualef-
tà na entrada do Mar Perfico comíeis milhas de cercui-
to,& he calidiífima nosmefes do Eftio, por fer toda de
falitri>,que com os rayos do Sol eflà fervendo . Té duas?
enfeadas, que divide hum/? ponta de arèa, onde os Por-
tuguefes tinhaô hq^na fortaleza, julgada (fegundo Pe-;
dro Teixeira) oo Gúo, & fortaleza por avantefada ato-'
das as mais do Oriente, edificada por Affonlbde Albu-
querque no anno 1307» Porem no de^.iózz. o meímo
Rey com ajuda, dos Hereges combateo efta fortaleza,.
<3c tirou aos Pòrtuguezes, tomandolhes cento,- 3c qua-
renta peças de ferro, & bronze, com grande quebra do
commercio, que nefta ilha era dos mayores da índia- \
Duzentas,& cincoenta. Iegoas de Ormus efiá a forta-
leza de Dio, no Reynode Carobaya em vinte grãos, &
meyo do Septentriaõ. Também os Portuguefes (aôfe-
nhoresda Cidade a qual fortificarão de tal forte que a
fizeram totalmente inexpugnável ; & como tal refiílio
ao cerco , que por duas; vezes lhe puíeram os infieis.hua
no anno 1539. & outra no de 1546. He a Cidade floren-
ctííi(na com os.cõnercios de varias naçoens, & a ilha fér-
til de tudo o necefiario para ávida. Dàmaõ, Tarampor,.
Vailice, & Cacil também faô dos Pòrtuguezes, como a
Cidade de B^çaim em dezanove grãos, & meyo do Nor-
te. De Baçairo fe inclina a coita da índia para a parte
Auftral.onde Portugal pofíue Tana, &Chaul; & em
dezafeis grãos do Norte a ilha de Goa , a qual eflà
poíte
/
- ' ' Liuro I. Capitulo III. Europa. 25
\ pofta no principio da cofta do Malavar, & fe divide
do continente por hum breve intervallo , Nclla cQá a
• n0bilifl1ma Cid.de de Goa, metropcli de toda a índia
onde refidem o Viíoray, & Arcebifpo. Defde Goa pa-
ra a parte Auftrat conta Liofcotano os feguintes luga-
res Pottuguefes.- Onor donde fe tira grande quantida-
de de Pimenta, Barfelor,Mangafor, Cananor, Calecur,
Avor, & finalmente Còchim, Cidade ampliflima , &
quafi igual a Goa, aílim nos ediffkios.eomo no nu-
mero dos moradores . Mo fim da cofta do Mala-
var, junto ao promontório de Comorim oito grãos
<fa linha , acaba- a parte Occidepjpl da cofta da In-

Defronte defte promontório eftà Ceylam, que


• tem em redondqpduzentas, & quarenta legoas, onde
os Portuguefes tem as fortalezas de Colum, Manara,
Maluco, & outras. He efta ilha opulentiflima, Sc delia fe
tira toda a Canclla , que vem para a Europa. Aqui efta
J» famofo Reyno de Cândia, cujo Rcy o largou aos
' Portuguefes, & fe veio para Lisboaronde viveo mui-
tos annos. Pa fiado a cabo de Comorim para a aparte
. Oriental tem a cidade de Negapotaõ emonze grãos,
& meyo do Norte; & em quatorze a cidade de Sam
Thome, que por outro nome fe chama M< lliapor, onde
eftàoeorpo do S. Apoftolo.quc nella padeceo marty-
rio. & naquelle tempo fe intitulaua Calamina. Em toda
efta cofta tem os Portuguefes feus confederados paia •
• os commeteioí atè o Reyno.&Cidade de Bengala. Acof-
-ta fe chama Choromarrdcl', & dahi ate Bengr.la foram
os Reynos de Narfinga, Biínargar.ôc Orixá junto a fos
do rio Ganges, onde também começa o Reyno de Ben-
gala em qtem feus lugares.&caftelloS De BcgaVa ao Rey-
• qodo frgú,qos Fottugucs por culpa do mao governo
l t *. \ i

. • %$ Hifioria Vnherfal.
deixarão perder, depois de àverem conquiflado, fe ef-: ;
tendeamefma cofia cento, & cineoenta Jegoas. Do
Pegu caminha até hum promontório que fica defron-', '
te da ilha Samatra , que alguns chamo a Taprobana ,8c
, • , noTeftamento velho he Ofir ( como affírmâo muitos
fuppofto que outros dizem , que he o Peru j <5c ao pro-
montório intitularão os antiguos Áurea Chcrfonefo, on-
de eftà edificada a Cidade de Malaca cm dous grãos, 6c
trinta eferupulos da banda do Norte. He cidade requif-
fima, que ha poucos annos os.barbaros tomarão aos Por-
tuguefes. De Malaca diíla Samatra oitolegoas, aonde
concorrem mercadores da China Siam, Sc das maispar^
ter Orientais. Para a banda do Oriente de Malaca fí-
caô as ilhas Malucas, Ôc outras muitas naquelle mar.
Delhstomaram as principais os Hola^defcs nos annos
paílados, comofaõ Ternate, Tidor, Timor, Machiam,
Bachian, & outras, que produzem grande abundância
de cravo. Do cabo de Malaca fe eftende acoftaacè a
China por eípaço de quatrocentas, & cineoenta legoas >r
& começa o Reyno em dezanove grãos de Septentri-
ão,& acaba em quarenta,<5c oito da mefma altura. Iun-
toaelle tem os Portuguefes a Cidade de Machão em
vinte, & três grãos, Onde commerceaõ com os Chinos,
ou em cercas occaíícens fobre as agoas,porque no Reyno
lhssnaõconfentem entradas. Eftesfaô os lugares, que
Porcugil tem em Afia ,& na índia, fegundo os Autho-
■t res referidos.
NoBrafiltemofeguinte, Primeiramente na AmerU
rica Auftral poflue a terra do Brafil, que nos princípios
de faa conquifta fe chamou de S . Cruz Começa efia
regiaõ no Pará, que he huma fortaleza dos Porrugue-.
fes na bsrra do grande rio das Amazonas, pofta debai-
xo da linha, & acaba no grão trinta, <5c três Aufira!; & fe- .
gundo . •
■-rv • , >, ;-^ '
* ' liuro 1. Capitulo III. Furo]>4->. ty
i guindo a cofta do mar oceupa mil, & quatrocentas le-
goas, fendo tudo da jorifdiçam de Portugal, em que os
* Holandefes querem ter também entrada. Toda cita
terra fc devide em quatorze capitanias, que faõ Pará,
Maranhão, Ciará, Rio grande, Parayb3,Tamaraca, Per,
nanbuco, Seregipe, Bahia, líneos, Spirito Santo, Por-
to feguro, R*o de Ianciro,& S. Vicente. Em todas eftas
Províncias ha muitos engenhos de Açúcar, de que ao
menos vem todos osannospara Portugal vinte, & féis
mil eaixoeos, tender cada hum de quinze arrobas para ci-
ma. Acabeça de toda efia regnõ.hea Cidade de Sam-
Salvádor, que por outro nome fe c%ma a Bahya de to-
dos os Santos,onde refidem o Arcebifpo, Governador, Sc
mais mimftros. He terra abundante, fcrtiliffima, & apta
para nella fe fund»huma ampla Monarchia, para onde
Sua MageftadefqucDeos guarde; pudera mandar mui-
tos moradores dos que fobraó nefle Reyno, que culti-
vando a terra, refpondera com grande copia de fruitos..
<0bclla vem para efle Reyno preciofíffímas mercadorias,
muita quantidade de Âmbar , Balfamo excellentiííimo
pao do Brafil, & outras madeiras de grande preço, Ta-
• baço, Gingibre, & mais coufas femelhantes.

CAPITVLO IV.

Em quefe defereve a nobreza de TortugáL

TAntosfaõ os titulos, & cafas de fenhores refle


Reyno, que naõ avendo nefle mais de feifeentos,
& cincoenta povos grandes entre Villas,.& Cidades, (o
duzentas faõ dclRey como dis Manoel de Faria , &r
Souía
% r. •. í
28 Hiftoria Vniverfd.
Soafa. Qumdo Felipe o prudente entrou em Portu- /'
gal, nao avia nelle mais de três Duques, quatro Mar-
quefes,& quatro Condes hereditários. Os que ouve 3c '
le acabaram.era o Duque de Coimbra, Vifeo, Beja,
Trancofo, Guimaraenj,& Villa Real; dos quais os qua-
tro primeiros fò a Infantes fe davam.-<5c os outros, a Se-
nhores de grandes prendas, & merecimentos. De Mar-
quefes, era Valença, Montemor, & Torres nove, De Cõ-
des Barcellos, Albuquerque, Viana, Sea, Cintra, Marial-
va, Caminha, Loulé, Penela. Abrantes, Olivença Can-
anhede, Borba, Prado, Matofinhos Caítel Rodrigo, &
Id.nha. Os que em^píTos tempos permanecem faô cin-
co Duques, de Marquefes íete. de Condes quarenta.
& dous hum Viceconde. hum Baraõ. Os quais todos '
fam os feguintes, fecundo a ordem do «Alfabeto, prinfein-
dmdo das antiguidades, ôcmayores titulos.

Duques. r Bragança. 4-ViHavic0fa.de Bragança.


2. Barcellos dos primoge- 5. Gouvea,Sylvas. '•
nicos da mefma cafa. 6. Alenquer, Sylvas, que r
3. Ave.ro, Alencaítre. tarnbem vagou par; a
4- Torres nove, dos Primo- Coroa, ou património,
gen.tosde Aveiro. das Rainhas.
J. Caminha, Menefes, que 7. Porto feguro no Braffl,
íeextinguionaacclama- Alencaflres de Aveiro,
çam doReyno. Condes, 1. Arrayollos, dç
mrqaefes. 1. ViilaRcal, Bragança
que também fe extin- 2. Arganil, dos B.fpos de •
guio na mefma occa- Coimbra-
5'5 ■ 3- Alcoutim, dos Primo-
2- CaftelRodngo, Mou- genitos de V.lla Realk
ras
' . ... que também accaboucõ-
3- Ferreira, Mdlos. enCSi

4 Atou:'
• • Liuro I. Capitulo ITJ, Europa-,. 19
\ 4. Atougia» Ataides. 32. lemugai, dos Marque-
5.,Acalaya. Manocis. íe s éf) ..ixt< eitflõbot». j
*6. Arcos,Limas.; ;. j », Váleo^a, de Viirá PvÇâk
7; Bjftoy Cairos, 34'Viínioío, portug.a.«i!s4
g, Caftanheira.Ataides^ 3-5. Vidigueira, Gamas.
<jv Calheta, Camarás. ... A 36. Vjllanòva * Ç.a&ejb.ia.r|-,
xo. Caftclmclhor, Vafcorr-r CO$, >'. «> :•: ) Sb
CCllOS. ;■
37. V^ltótt.anWí Camaraçj A
ií. Caftodaire, Ataidcs 38. Vi.lJa.flor..» FJenriques.
12. Ericeira, Meneies.- i 39. Vimjeiro, Faros, .
©! Feira, Pereiras. -A Qs outfOs três foraó ,infii«
tuid^na aclamaçaõ.do
14-. Fato,Faro?.;
15. Ficalho, Borjas. Reyno.
16. Linhares, Noronhas. OViceeonde de Serveira,,
i7.Luroiares dosFr^noge- Limas. ,t 31 •. -.
j
nitos de CaftelRodrigõ. , O Baraõ de Alvito, Lobos.
iK Mica",; Naronnas, & fff 0 3 S S^IC ,' 0 3 &*S.V]E
pittouaos Faros. ' • TIfJL OS, £J'E DEO
f9 Monfanto,;Caítros- D". Felippe puàitste, icfnan-
20. Miranda, SouCaswi ] do em Portugal.
. ;zi Ourem de Bragança. AD.iManoel d? iVienefes,-
. pn ^Óbidos MafcarenhftS.- Marques de .VilljReal.
2:3. Pensgiaõ, Sás. Aos- Primogénitos .da câ-
24. Portalegre do Marques ;j fa de Aveiro.de Duques
deGouvea. 1 de.Torres nove. |
25 Palma, Mafcarenhas. A D. Antonjo.de Caftro,
26. Redcmio.Coutinhos. de Conde de Mon/anto. *
• 27. Cruz, Mafcarenhas. A D. Fnncifco Mafcare-
28. Sabugal Caftelbranco. nhãs, de Conde de ^an-
. z9.-S.I0ao Tavoras. ta Cruz; • ,
jo. Sortelha, Silveiras. , A Ruy Gonçalves da.Ça-
;K Tarouca* Menezes que mâra, dc-Conde de Vil-
wgo»naa6lanqaç.apjr tafranca,
A0i-
30 • - Hiftoria \)nheyfd.
A D, Franclíco Manoel, de Aos Primogénitos de' Ca£ /
Conde -da Acatava, tello.Rodrigo de Con-i
'A-Dv Fernanda de ^NòroK des de Lumiares. >'
nha, de Conde de Li~ A D. Luis Henriques, dev
nhares. Conde de Villaflor.
A°D. Fernando de Gaftro; A D. Luisda Sylveira,de
de Conde de Baftoi n Conde da Sortelha.
A D. Pedro "déAtíatçova A Ruy Mendes de Vafcon-:
Carneiro, de Conde da celtos,de Conde de Caf-i
Idanha- tei Melhor,
A D. Duarte de Menefesj A Henrique deSoufa , de
de Conde'dé T^ouca. Conde de Miranda do
A D. Chriftovam de Mòu- Corvo.
ra, de Conde de Caítel A D. Luis de Portugal, de
Rodrigo.: Con^e do Vimiofo..
.;•" loJ ,: A Luis Al veres de Távo-
11TOLOS, £?E DEO ra, de Conde de S. Ioão;
D. Felipe IH. ém Por- A D. Manoel de Caflcllo
tugal. branco, de Villa nova d«^
■ I
Portirnam-
A D. Miguel de Menefes, A Dom Fraocifeo de Faro,
Duque de Caminha. de Conde do Vimieiro
A D. Chriftovaôde Mou- ADõ Pedro de Meneies,
ra, de Marque de Q\(- de Conde da Cantanhe-
tello Rodrigo , & .pri- de.
meiro- Vicercy de Por- A D. Eítevam. de Faro, de
tugal. : Conde de S. Luis.
A D. Diogoda Sylva, Mar- A IoaõGonçalves de Ara-
quesde Alenquer,Villa de, de ConJe da Atou-.
própria d3sRainhas Por- guia. )
tuguefas, ■ A D. Luis de Lima, de Cõr
A D. loaõ de Borja, de Co: de de ArCos.
de de Ficalho. A Situam, Gonçalves da
Cama-
>"C\ >->-• /
livro I.CaptdoJF. Fuhfa^. 35
Camará, de Cõde da Ca- O Conde de Alegféte dos
lhefa. Albuquerquçs.
1
A Dom Francifco de Sâ, 3c O Conde do S. Lourenço,
Menefes.de Conde de Mellos.
Penaguiam. E o Conde ide Serem, Mafc
carenhas.
tlTFLOS, £VE DE O r
D. Felipe IP. Â PPELJD.OS DAS
famílias iUufireséJle \
A D.Affófo de Alencaftre, Reyno .
de Marques de Portori*
co. AUreosltem fen, principio
À D. Diogo, de Meneies, defdo tempo dei Rey
de Conde de Ericeira. D. Dinis.
A Dom António .^afcare- Albuquerques procedem
nuas, de Conde de Pai- de D. ArTonfp Sanchgs
,, ma. í] tíci . filho baftardo delRcy
A Dom Henrique da Silva, , M Dinis, &;foy.Gonde
0 de Marques de Gouvea. de Albuquerque em Ga-
A D. António de Ataíde, Hza-
de Conde de Caíkodai- Alarmos que^ç. o roefmO
re_ . que Barbas, & paftanas;
AD.PedroManoeldeCõ- r defdo tempo deiRe-y D.
de da Atalaya. ) loaõ I.
A D. Iprgc Mafcarennas, Atmadas procedem de hus
dcConde.dcCaftçlionT)- a . Cavalleiros inglefes, q
vo. , . iup M feva^baramn^ ujtimato-
mada de Lisboa*
E1REY D. IOAMOIV. Almeydas, em tempo de
noflb Senhor inflituio o .- D. ioapl. ocuparãogtã-
Marqucs de Cafcaij. ' ; -r.sHtes. eargos,& foraõCa-
O Marques de Aguiar, pitaens famofos.
i Ç^Matqucs dê Niíã, c Ataides. tenvqçe procede
\ de
/
I

3* . ■ • ■HZftorla, Vmuerjal.' 1
de D.. Mortinho Viegas \ -primeiro;
Gafcon,; & três, ou qua- Caftros procedem de bua.
tro títulos tem o mcfmò fflWdcIfceV ODom Saúchb
apelhdo .- Ramires'de Navarra.
AtDugi« fe d.s procede- Deites ha huns, que fifo
icm de Guiiheime de de feisRoelas, & outros
^ .Lacorni, que íc achou ■'■ <fè treze.
Coelhos de D. Egas Mo-
Azevedos fanVilia ancígua nis ayo delRcy D. Affõ-
onde aoda o officio de foi.
Almirante.
Cortereaeis-dehum caval-
•Barretcos/comò iOsevedos heiro de Tavira, chama-
fá o-antigos. ": - do Vafqueanes da Coi-
Boteihos defdé clRey D. ta, & lhe chamou eIRey
Fernando D. Duarte Corte Real,
Britos procedem de hum porque com grades gaf-
cavaleiro ngles, qUe aífif- tos, & brios feguia a Cor-
tio em Lisboa, quãdò fe té. •
tomou Lisboa. ' Cofias**, hum cavalIeiV
Cabrais he família antiquif. dõ tempo ddRe Dom
0»í a que fe não fabc Manoel, poremha entre
• pr.ncip.o, mas huma per- elles differença.
petua travaçaõde cafa- Coutinhos tiveraôlfeuprin-
mentos com cafas illuf- cipio em hum Couteiro
três; & fcdis que o bra- Morem tempo dellle-y
fam de fuás armas fam as D. Aftonfo-I-V;^,
cabras,- que Alexandre Cunhas de hum Cavalei-
Magno trazia nas fuás. ro de Gaíconhaem tê-'
Cabras tem feu principio po do Conde D. Hen-
em hum- criado da ca- rique.
fa do Infante DonvHen- Eças de D. Ioaõ filho del-
riquèV Rey D. Pedro, Sc Dona
Carvalhos defde D, loão o Incs
{
>
' \
>
I
L*^ V *~ ^-»' '
S~ S. • . - ••
••'' Lhro I. f^fâM^ú&rop^. 33-
t .Íí>Iha&3c tGaftro:g .a id^liriQiparq-mamay f y
Henriques em D.Femanido ama< delRey D. Manol.
• sjfillitidonÇQdejdcirGijôí Maíeacanhas, do tép,o dcl-
Farias em tempo delRey ReyD. I02Õ0L
D. Fernando,.deNutio Metos tem têpo, delRey D.
.GGònçàlves:. Alcaide do" • Fecoaodo o Magno.'.. .
96GaôcLIojd&Fariaio J Meneiesi de Dom Affonfo
Figueiras de hú ct^aHfâiro mriF.eUes <pov.GaBaideArt!Í
ír'Ga!lego\ cnurcmpajfóii r^.btiiqufj^iieij ipfcivijO
Rey?D« Fernando. Mirandas.cm AffbjáíOíPAes
Freires de Andraday en» daCbiatncca^et»tearipo
Nuno'Freire Cavaleiro delRfly D.IoaõL-
.:.de,Galrza,iM*8te da ,Or- MonizesjTrríJDWDSrkrníõsS'
dem de Chrifto, fim tê- •^.jf^aor^àraõ na tomada
po delRey D. I^dro. de Lisboa.
Furtados ero hu cavalleiro, Mouras., em D. Pedro Ro-
- jquf;fe;pafíou de Caftel- :.,yi.j.qi}e, gan.&ouqMoura
la para P.or,tug4'-,,emt5- emjempo de-lRçy Dbrn
|pode-D Afft-infoíV. AffpnifçHeoTiq^eç.i,
Gamas tê feu folar em OH- Noronhas de hú filho del-
vença.St começarão em ReyD.HenriqueII.de
. tepodelReyD. IoaõII. dos CalUlla,
quais D. Vafco da Gaina Pereiras no Cond^oPr.Ma-
foydefcobtidorddíndia -.pinho Romano aí.tes
Lêcaftr-s , começarão em de íerReyno.
. D . lorge filho d-clRcy Porru.gartihe.a prjmcira ca-.
- D. loaõlí. JJa dySique -prcH-Cíiem dq
• -lároas eim>D. Fer.náridoBa- , . dg ,B wgançs.
ri cá la- no 'principio do Sásd.e hfi c^atjriro em ic-
I Revoo. ■ 1 po rieJRc y D. Pedro
• :M.Jg.ilaiens, em tempode Sald_a.r>his de híi -ca-vaUeiro
I D. M'.;nín 1IÍ. . : | CafleUia^j jÇm.ttn.p^
ManoeiiSi.,cojíic-.9íàftte;íte ^e,lRe# D. í&P(t<8tâ l¥t '
C ^ Sam
} ■ ■ ■
Svmpayos, era tempoI -dei- D. Rofendò CaYdlcI-:
.íRcy/D. Fernando^" eros infignes,; ,• >q■.-.
Sylcas,-;$» wnpdi-JdioEiteK Vafeoi>cdòí'PnoL.Infàtitc
mo Rdyj os ,i .a ^a£ t>tfU»Eaoi^t&]DiinesidS
SylveMfoPaítsmasrdetiatf o Cáltrb. .-■-a ' .U
Alferez mor de Evorayem Veigas, de huQvfirhodè.>D.
(empo delRey D. Ioaõl. Lourenço Arccbifpode
Sylveiras. Lobos, de hum ojjBfoga- id
Ouvidor delRey Dom Muitas outras £amilia«>ha
• Idaõt cõ feus apelidos, qos
Souías, em tempo delRey cor iofos pòdê ver no E-
D. Sancho L. & pito me das hiftorias Ptírtu-
Tavoras eo? D. Tedon, Sé gueías.dèManoelídéEâiia;
jb
C APITVLO V.
<Dos<Rgynos &■ Trovincut'sde Efpanha*
i
A Primeira Província, que fe fegue a Portugal^he
a Eftremadurá, a qual (íegiindo Boterò) fe-eften-
de deíde Cuidàd Real atè Badajoz, & dãSerra Morey,
ate o Tejo, & últimos fins do território de -Cotia,-& Pla^
cêcia. A Cidade principal foi antigamenteMerida.&ago-,
ra he Badajoz. Metida'rios tempos -paliados foi famofai
mas agòfa poucôfaraisofteta/cj as-ruinas de fua antigua
nobrczí,i:a:^' fetiã&pòde reftitâtr; depois q* foy aflblada
pelos inimigos; fe bê ainda cõferva grandiofos edifícios,
q a pefàr do tépo fuftentaõ-fua firmeza. Badajoz difta del-
ia1Pd*, legòâs, & fe.fehamóu Paxaugufta, mas òs Mouros lhe
corrôpéraõ o nome en>Baxaugíisi8c'd"ahi em Badajoz, có-'
r»o refere Gafpar Barreiros. A Cidade de Placencia edifi-
cou êlRey D. Alonfo^noanno 1178. fértil,mas oclima
pouco fáudavel. Coíia hc outra Cidade, q tem-600.viii-
hhos,& hu téplo infigne. Ale deitas Cidades te muitas Vil-
las de far»a,'fcòmó-fã0 Vilacca, %rôgiltM>,CacçrerCan'Ma-
/ ? vetai,
I '
-' I
)■' V • r "
'" y' Livro I.:Captulò V. £i*fopa. ^
à> ireral Oropefa, Medelim, & Alcântara có.húa pote fobre
oTao das maisgrandkof^arthileauras.da Europa. Té-
. de compedo 67o,pès, de hrge,^ & de alto zoo.&íe
collige de alguns letreiros, qfoyed.ficada por Trajano
Emperadori com táo grandes pedras q parece impoífivel
«oJeté Cobir por induftria; humabaúao lugar que oceupao,
&fe!lecmhama delias-: Watics hUmdotmto *quç(le canto.
Aridaluzia.que fe fegue á Eftremadura,- fe coprehcde
ioda entre as ferras Morena, & a de Granada &entre o
golfo Gaditano ao,Meyo dia, &asprayas de Guod.ana
la Harte..»eôe'toar,;Ou golfo Gaditárto de\**oV*íl*
Snta fa Jrcs pontas em q.efta^ed.rfcadasG.btiltar.Ta.
*&»& Bacbata: & da parte de Africa'outras tantas, onde
Sõ^pca; Al caçar, &, Tãgêr.e. Grbtaharceâapofto ao
ôèdo monte Galpfq.hetQdacercadoxio-maPvrexeepto
húbreve cfpaco,ponondefe ai&tacóqrtfcrca: defrote,do
dual fie» o de AtfuVem Africa, & íe châmao 'asxolumnas
X Hercules onde, pos.wuphU ultra a fuás jornadas, cren-
do õ dalli.por diante não avia.mais conquiftas. Fora1 deite
• eolfds& ia no Occeano Atlãtico eftáa ilh^de 1 Odtx di;
. ' ^dlíiia-.docõtiríente-7o/pés^Bah?yaaccõmad3dapara os
' navios^Na. barra do Gúadarquibir fica a ilha-de Gades,
•qdividi a Europa de Africa, & o-mar mediterrâneo do
Oceano chamado Atlãtico naquella paragS, por lhe ficar
em pouca diítaciaoimõte Atlãte-em-Africa, Aqui fepef-
€agrude:coptí deAtÚ3, &fe fas muita quantidade de fal.
• .Mais adiante fò fegue Porto Real.&o de S. Mana, onde o
Guadàlete fe mete no mar;& paffadohum 'p&queoo pro-
rodntorio fe dcfcóbre S.Lucar de<Barramed>A metropo-
ibdeíta Pfovinciá'hc Sevilha, juntoiào rio Gaadalquibir;
-Gidãdè £->rte;.& bé muradaA«õ«suptuorbs: edifícios, Oter-
litoriofertiliffimQ, & abádantSe de ciigo, vinho, azeite, 3c
dc
. pZjd "Cl ^
:
\ - '-: . '

dôíòtísw;OSíregaiiDs.ra0ociíafios.,.Ãiiqui ?ea»aportar àsiriv


q&Sfaaq&ithefcíuEos. da-iajilraEQiJotècat3^^i&': nulttas> iaá
cóeiisxQnvfeas-comefcios; iA fegLmdp.Gjdjdò £ord©vfc
junco ao Guadalquibir, fatàdfa abundate, i&.rica. Ateu
ceiràhclaem, q em bondade,& grandezaxõpete côas
çnelbores; como^tanabé:Ecija, rAntiqaera, Oflana, &. Xc^
res.de la fcontera.Góhtanfe alemdertasem:Andalufci*
i8ò VillasFaroofas, fendo as principais Alcaxâiz,bVoeda,
Baeza, Álcala.Real, Palma, McdinaSidenia,Vttera,;Lebfi-
xa, Arcos.Marchena, Palòs, Lucena,Nicbla, & Ayàrnõtçi
Heiujgada' Andalnzu íer a melhor PoaviricíauieEípK
nha, áflà por tezãa^òs portos <k^ma*r;ccrroo ^tdsjicBmi)
& excellericia da, terra., que produs todo o gehetònd*
fcuitos com grande-abuodahcia . Osàre&ffaõíeinpera-
dos; ac^cegÍ3Q;falutifefa,ôç;fre{ca; j>do qiialios^MMigas
rftechamasaãjosbratoposEiiíios, .fjngihdá XjceeilrhiiiJ
vivenaa'jilmas,: ide/pois que pàílívanudeíraiviílai 3V;JCJ ôd
A Andaluziafe ícgue^o Reyiaod<r-Gii5nada?qlerh:do
comprido âo. legoas, & dehrgo.25; deídos. confiHs d^
MutciaaAndaluziaw He. regada de dous rios.i;qlfâõpar»
to, Sc XàiU^asr^uak-ambositèVf^
d a ferra Nevada. *ACidade .de Gramrd&Jíe julgádáde
muitos por fer a.raayor.de EfpTOhà,aqualroccupaT2 mtr
liras em redondo, fendo tudo cercado de fortes'rruros
cõ 1030. torres; que a ornaô.&defendetnhe.ofen clima
f-efco,' tcperado, ,& falutifcro, produzindoérr&íua^ele,
bce,5< famôfa Vcig? todos os fcuitos èrogrSdeabDDcKíciaii
He imenenfa a quantidade defedaq-aqui fé criaii&fedia,
que fò. das-Amoreiras que dão a folha para os^bièhos, fe
pagio a elR.ey de rerída.cincoenta.mil cruzados, a fora
moitas librai, qiie ifredão darftefm^ferjaij ''oTfcmiiAíci-
bifpo, Sc Chancelaria real cor» ampla- )Bri&rç«õ;iA^Gida-
áiás de Gidix difta nove leg:òasde. Gíanada, poâaieha
b
» huaia
l
;'■ '■ ■

S Livro 1. Cafitdo Vi Europa >$?■


L bua planície cercada de altos motes, abund.ntc de t„go,
%
vinho, ftultos,* gados. Almei.a he outra Cidade nac
• Ldo Cabo de Chariderr.i. Málaga hc porto infig-
0e,a onde acodem mercadores de tod^s as partes com
«rodos comércios, & frendas, bftà por todas as partes
cercada de fortes muros, & torresmo hú almaze, provi-
do de todas as armas,&aPparatos de «ifeH* Temdous
.«aftellos emiguaicorefpondencia, &*õletyent.a dchu
«ara o outro entre dous muros: o mais alto fe chama Cu•
blalfarro.& o outro a Alçava . Alem deitas' Gidader
•tem mditas Villasinfignes, cemo Baça, Ronda, Munda
Alhama, Origina, .M-rbella, .Zahai^Annqoera, Alpu-
xarras, Cartamá,&outras. n^\çn\r\,
O Reyno de Murcia feeftende ao longo de.golfo V r-
oitano defdo cabote Paios ate o de Gates. PaiTao pelo
*cyo dous rios õ faõ Sega,& Guadalentmó. Imito ao pri-
meiro cílà pofta Murcia cabeça do Reyno em hum lugat
frefco,& aprazível, onde fe ena muitaíeda. Cartagena
fciantlgarnentCCidadeampliífima mas agora pouco fre-
quentada, & menos aplaudida do q a» Chronicasanti?as
• .dizem delia. Seis legoas de Cartagena efta o WM
-. de Almancarron,-onde <c acha g-ande cop.a de: Ahume,
de que tirão grandes im*r-efie< o Marques de Vila,' & o
Duque de Eícalonà. Lorca he V.lla Taftvtffa junto ao
Gudaleotino. As mais faõ G.atdamar, P^»^
Ver*, que antigamente fe chamou Virgi, donde cite
.mar, ou golfo tomou o nome dè Vi gitano. ><M
• -»a Sègoefe o Principado de -Catalunha , que fe-efren-
de de Salfes atè ó òrio Ebro , Sc dis Hieronymo Patf-
\o , que tem de comprido cento, & fetenta milhas , &
delargo (onde maiso he ) cento, & trinta, ^nellaen-
tre Cidades.&V.llas muradas cirtcccnta &íeis.AsCidades
fio nove, Perpinhaó, Girõda, Viglfl-Vit,Silfona,Leri«/
B
C3 >y «"
^ • ^, ■

1% Hiftorík Vvivofd. ^
Barcelona. Tortoía, <5c Tarragona,: com grande numero
de aldeãs, & fe dis que teta coda cita Província Imcen-
tas mil almas. Pecpinham diíta três k-goas dos montes
Pirineos podo em hum lugar pl-.r.o co;»> ;j.:. - oequc-
naeminencia para a parte do Meyo dia, ft íobie ellâ hú
CaftcMo fortiilimo, & bem guarnecido. Barcelona be
Cidade populofa, bem muwd-»> & com hum■ foffo pro-
fundo, & largo. Tem ferruofos edifícios, Óc ruas direi-
tas,/largas,. & planas,,pellas quais correm muitas agoas,
que as regão, ác alimpam. He porto de ;mar frequenta-
do de commercios,<5c abundante pelia induítria dos mo-
radores. Tarrago^foy Cidade nobilliffioia, que aflbla-
lam os Vândalos; & agora não pafia de quinhentos vizi-
nhos, fuppoftohe abundante de trigo, azeite, gados, &
vinho mui preeiofo. Tem Areebifpo,- a que fam [fuffra-
ganeos os Bifpos das raais Cidades. He fama que em
Tarragona citava Augufio Cefar, quando ordenou poe
feu decreto, que fe efcrcveire todo o mundo noNaci-
o»e/mode Chníto. Nefta Provinda eftà aquelle adrrí^
ravel Santuário de Nolía Senhora de Monferrate, tam
celebrado em toda 3 Cnriftandade, pelas maravilhas.^
grandez3s,q.fe contam delle. A Cathaluoha pertence o
Condado de BLuffiohpnV que eíta entre dous ramos dos
Pirineos, dosquais.<hwTi vay a SaHcs, & outrpaColt-
bre . Salfes, -tSc Pcrpiohamtomàraô ha pouco tempo os
Frapcelesaos Çípanhocs, fogeitandofc toda Cathaluoha
a elRf y de Ftfp^ jEtfap o.efte Condado ,a. Cidade de
3e)na, C$>Ubrs,HRoíTes^Awpu^sjunto ao mar, En-
tre as Villas nobres de Catha{anha,íe, conta Carona,
perto da qual eflá hum monte, que parece çje farinha,
Sç huíríafçriteceuja,s, agoas, reprcíentara fet vinho vec-
mslhK).,:Hi aqui-vários géneros de fal, criftalino, azul,
veíde,.ana4telo^vcfiTielhQi ôc de outras cotes mas pifa-
/ r. O do, &
- '* . ' »
^* Livro I, Capído V- Eurof^* 39
• 'do, & moido fica branco; Tem efta Província hum Bu*
%
aue que he o de Cardona, três Mâtqueíes, onze Cen-
• des & muitos Baroés, & Senhores, cm que conGuc a
«avor nobreza delia. Qs primeiros Príncipes, que a co-
meçarão a governar, foram os Condes de Barcelona,
quando osEmperadotes Carlos, &Lurs a tomarão aos
Mouros: & depois a herdarão os Rcys de Efpanha po«
patentes mais propinquos.
O Reyno de AragaõiTegundo Boleio) dermrc*
•elo Oriente o rio Cingia: pelo Oeeidente os montes
de Moncayo, & Molina: pelo Septentriao o cio Ebro, &
pelo Meyo dia as alturas de Brabanc*. Alem da Cidade
metropolitana, que he Caragoça tem BalbaOto, Hoet.
ca, laca, Tarrazoní, Calatayud, Albarazm» Tiroel,Sc
fetenta Villas mundas, com outras muitas que onao
íaó. He pela mayor parte aterra de íahtre, falta de ago-
as, & por iflo menos abundante, & fértil.Caragoça..c£i
tà pofta em huma campina junto ao Ebro; & em frfifciw
** fertilidade, fumptuoícs edefkios,& numero de ntõ>
radores, he das mais illuttres,& ftmoías de Efpanha.Te-
• . dezaíete templos grandes {Tendo o principal entreto-
- dos Notía Senhora dei Pilar,) & quatorze -conventos»
EIRey D. Alonfo a tomen aos Mouros no anno iwtt
Hucfca fquefe dis foy ediriwda por Sertório) tem hua
Vniuerfidade mui antigua. T.amzona cftà nos confins
de GaíteUaV&Aragaõ.não longe da Serra de M^cayo.
C itscayud he hoie das prinupaw£idades de Aragão, ia-
• seita ao Bifpo de Tarrazona/- Também gozáo de pri-
vilegio de Cidades Taufte; Exea, Sadava, Sos, &Ona-
caQiglo, He amor parte do Reyno montofa, & as fuás
•' .ferrasfechamaó as manchas .de ^rágam.
O Reyno de Valença fíegundo o roefmo Boter©?
tem de compiido íeflenta legoas, & de largo dezafece,
CA. W cx cm
(_ ■. -5 . ^«v
N
. í
4$ .o- Hiftâria TJrivverfaL
&.frmalgumas partes- merros. Ha nelle. quatro Cicfacrel*.
fcffenta Villas muradas, & mil aldeãs . He regado de
trinta, & cinco rios dos quais-os mayoresfaõ Mighar,
Molvedre, Guadalviar, Xucar, & Segura.. Tem-taro bem
a famofa. lagoa. Albufeira, com três légoas de comprido,
& huaia>defargor onde fe toma grande quantidade de-
pefeadosr& muitas aves do mar. Ha nellé quatro por-
tos,, ode Vencri* odcDenia, o de Xabia, & o de Ali-
cante. Todo o Reyno fe dis que tem cens mil familiass
&fedivideem quatro regiões, dás quais a primeira fe
cftende de Catalunha ate o Migliar: fuppofto que de
montes afperos; te$ muita feda, azeite, vinho, & gadov
Nefta eftà o Meítrado de S. Iorge. A feguoda.fe contem
entreMigliar,&Morvedro, ondefíõlug3res principais
Villa Reali & Borrianaj naõ longe do,mar Mediterrâneo.
A terceira fe eftende de Morvedro a Mólwello,ondc;
confiíte aflòndo Reyno, Segorbiá, Valença vilhsr; Li-
/ wiaXelva, Xativa, & muitas outras cô freíeos, & fecun-
dos vallcs. Aquarta, dcMclincllO a Segura,.onde cfiãV
^ Xixona, Denia,Sabia,. Alicante, Biar, & Elehe. Valença
(fegundo Nonio)Cidade nobihffima deEfpanhaCiterioiy,,
, eflà iunto aorio-Turia, húa-legeadiftante do mar-. He
ffirtiliflima, & muy rica cõ oscõmercios dos eflrangefc-
ros; & induftria de feus moradores.
Caítella nova fe divide da velha por humasaltas
ferras, que dos>.fins^ de Navarra fe eftende até o mar Me-
diterrâneo. De buma para outra Caítella fe paíía pelo
porto de Guadarrama. A cabeça da Nova (como dis
Nonioj he Toledo, pofta no mryo de toda Efpanha,
em hum lugar afpero,& eminente , que pela rravor pa*
re rodea o Tejo-, & pela outra eíl-à cercada de muros,,
ôteenti, & cincoenta torres-, cem que he quafí inex-
jsugmvel. He o clima fclicifiimo , m» o território
/ menes;.- >
• / .! /■ . -/; ; ;

^ Livro UCafitdo V' Ft'rcf^. 41


K incnos^rtil, poríertcdo dea.éa. lemhum engenho
de agoa.que para a Cidade íobe do Tejo , com admua-
• vel artificio. O templo mayor he hum-Santuário-. fa.
mofo celebre em toda Efpanha ©ividefe Cafielia no-
va cmSierra,Algaria,& Mãcia-ícomo efereve Botero-),
A cabeça de Sietra he Cucuc* pofta em huma alta rocha
entre dous tios & montes-com íumptucíbs edifícios , &
muitas fontes perenes, Algariad.v>de o Tejo de Manca.
He abundante de trigo-, vinho, azeite, mel, açafrão, Sc
todos- os ftuitos.- O principal lugar he Guadalaxara
com mil, & quinhentos vezinhos, onde o Duque do In-
fantado tem huns fumpruofos Paços* & caía de armas
muiilluftre, & excellente. A cabeça- de: Maneta h <G-
udad Real. Tem o Marquefado de v, hei» g**™*
do deCaftella,& auitas regioens, & Villas. O pt.nc.pal
idear defta Província he Madrid pofto no ma.s excelle-
teT&íalutiferocíima de toda Efpanha, pela qual rezam
habitão. nella os Keys com fua Corte-, Seis legoas daqu.
,*h o Efeurial.húa das maravilhas do mundo. Alcalade
ílenares té húa florente Academia: També nella fecotao
• âCifugtes,Mtdiriaé%li.Ochana,Tal*vew>.Vilhena,Hita.
De Gaftèlla velha he-metr?poli Burgos, ornada de
' ftmofòs edifícios (como refere Nónio ) mas o chma
frio, & húmido. Eftaôwllà a Cidade de Siguença jun-
to ao tio Hènates,. com huma Academia, Molma Se-
govtav defctermil vizinhes, Anila de t.es Iftft, & Va-
lhadólid junto ao rio Piçuerga hum dos mais nobres lu-
• gares de Efpanha, ondeie enfina todo o género de
feiencias. He dcà<es faudaveis, &o território cheo de
fontesvhortas, &j3.d/ns; pelo qual vivarão nella os
' Reys per mnirortempós . Dis Botero , o,e tem Onze
m.l vizinhos , & muitos paços íomptaofiflimos , ien-
do. aventejado a todos o do Conde de ***£*
\

42 . ;. •= HiftarU X)nwerfdi; T

Alem deitas Cidades ha famofas VUlas, como faó Frias;


Birbiefca.S. Domingos de Silos, Miranda, Lerma, Soria,
Penhaficl, Roa.Olmedo, Martimunhoz, Sepúlveda, Me-
dina dei campo, & junto ao mar Laredo , Sc Santandei
com portos 3 eco m moda dos, &bcm guarnecidos.
O Reyno de Leão fc divide de Caftella com numa
linha imaginaria lançada defdo Oceano atè as fontes
dos rios Pieuerga,& Douro,-Sc dahi paííando por Sala-
manca, Avita, Coria, Sc Plaçêeia, vai aos confins de P01-.
tugal. Os lugares principais iam as Cidades de Leam,
Aítorga, Palencia, C.amora, Salamanca, Sc Ciudad Ro-
drigo. Leam (fegj-idoNónio; hc Cidade antiga, &i!-
luflre, com hum templo fjmofocm que eílam fepulcar
dos hum Emperador.Sc trinta, & fete Reys de Efpanha.
Iunto a Aítorga eftá a lagoa de Siaby, que tem huma 1c-
goa de comprido , & meya de largo, onde fe pefcaõ
graodes Trutas, 8c outros géneros de peixes. No mcyo
defta legoa fobre huma penha tem o Conde de Bena-
vente humas cafas edificadas para fen regalo . Salaman-
ca, que agora fe conta entre as Cidades de Caftella a ve-
lha, tem huma Vmvcrfidade eelebraáa em todo o mun-:,
do. He terra fértil, habitada de fete mil moradores, co-
mo efereve Marineo . Alem deites ha outros lugares
deeoníideraçaõ; comofaõ Vilhfranca, Ponferrada, Po-
te de la Reyna, Ledefma com trezenras, & cincoenta al-
deãs de termo, em queíceontão dareis mil vizinhos;
Betanços, Manfilha, Vilhalpando , Benavente, Salda-
nha, Medina de Riofeco, Tordezilhas, & Touro . Me-'
dina he celebre pelas feiras.que fe fazem nrlla; para on-:
de os mercadores conílgnsõ Léus créditos, ôc hbranças.
He-dotada de avú grande.sipiiviIegi,Qst .4í?!ifent.a: de to-
das as alcavsllas, Sc tributos.,.Todos os benefícios ec-
cleílaíticos, & officios reais dà o Senado,- porque mui-
/ tas ,
^ livro LCdfkuío IX £wof^.' 43
# tasvçzes fuccedera grandes bngas, & tíikordias.
O Reyno de Navarra confina cem os montes Pi--
•lineosde huma parte, & da outra como rio Ebro. Di-
vidife cm íeis partes, ceque faõ cabeças Pomplona,
Stella, TuelU Ohte, Sangueza, S. Ioaodepiedi por-
to Pamplona efià perto dos Pirinecs, junto ao rio
Argas, em hum campo fértil, & abundante, cercada de
fortes muros, dous caaellos forriffímos . S. Ioao de
pie di porto, dis Marineo, que eftà pofto no cimo de hu
alto moDce, que tem quatro milhas de fobida, com in-
Biimeravcis fontes, &na mayor altura hum campo fref-
«o, & em todo o tempo verde. A^avarra pertence a
Provincial Riofcia, que fica a hum lado do monte
ldubeda. r ■ ■
Bifcaya, Gui^pfcua, 5c Alva.fam n
Províncias, que te
asmefmas qualidades, ricas de ferro, frequentadas de
moradores, & ifentas de todo o tributo. Biícaya tem
onze legoas de comprido, & outras tantas de largo com
\*jte, Schuro lugares murados, fendo os principais La-
redo, Vermcja,, & Bilbao. O melhor de todos de Gui-
• pufcua he metropoli Tolofa; as mais de algum mon-.en-
- 'to faõFuente rabia, Motrico, Eria, & S.Sebafiiam com
' hum porto aceommodado para os commercios Alva
tem vinte, & oito legoas de comprido, & de largo de-
zoito, fértil de trigo, vinho, & mais frutos. A fua me-
tropoli he Viaoria chea de cavalleirosj & nobres fa-
mílias. As maisfaõ Paffagioeom porto accommoda-
• ;do, & feguro, Salvaterra, & Trevigno,
OReyno de Galiza ie inclue entre o mar, & Avia-,
& osReynos de Portugal, & Lcam. N.Cofta do mar
' ípafd de quarenta portos, onde fao os principais a Lo-
iunha,,& Ferro!. 3fem cinco Cidades, & cincoenta & fe-
tç ViUasanuada^Corópoftella. he amiqmffima, jlloíhe
• ------ com
44 . . HiftoriH VniverfaL
com as relíquias do Apoftolo Santiago* Tem doas mil
vizinhos, fegundo Botero. As mais Cidades fão Lugo,
Orenfe celebrado por feus preciofos vinhos , & falutifc- '
ros banhos, Tm,& Mondouhedo. As Villas principais
faó Bjyona, Vigo, Pontcvedra com dous mil,6c quinhen-
tos vizinhos, Noja.Cea, Finiaerra?, Mongea, Corunha,
Ponte de aume, Ferrol, fUbadavia, & Monterey. Aftu-
riafe cltende defdo rio Ribadeo a Santander. Agora
eíiá dividida em duas partes, que fào Afturia de Ovie-
do, & de Santilhana. A metropoli he Oviedo refugio
dos Efpanhoes na entrada, & furor dos Mauritanos. Cõ
i&o tenho dado npà deferipçam das Províncias de Ef-
panha, (e naõ como íua grandeza o requere, ao menos
«omo a brevidade do compendio o permitie.
V
CAPITVLO VI.
Das ilhas de Efpanha fio mar cSMediték-
raneo> &■ nó Oceano, ajtlantico.
POflue elRey de Efpanha no mar Mediterrâneo pri-
meiramente as ilhas Beieares, que commumente
fe clumam Miyorca, Sc Minorca. Tem a primeira f fe-
gundo Bernardino Gomes ) cem milhas de comprido,
& de circuito quatrocentas, & oitenta. He abundantif-
fina d: trigo, fal, azeite, vinho.queijo, gados, & outras «
confas.de que provê muitas Províncias, que por com-
meruo concorrem a ella. Tem três Cidades, alem de
muitos lugares, ác a principal tem o mefmo no'me da
ilha co* hum porto fsmofo, & excdlcnte. As outras fe
chamam Poncia, 8c Polencia. Dcnilafe aqui muita flor
/ de.
' »y i ' V
Livro LCapmloVr. Furop^. 4?
# 'ae: Murta Y'de que l»$«ttMttt drfla ilha ) cujo licoft
*' fedíí 'qué excede 00 cheiro aos mais preciftíes ,-que-
•veovdo Oriente . MmOica difta da prin.eifa qnafiíefc
fcgoas; & tem hfn Cidade icnVo próprio nome. alem de
arnicas aldeãs.. Occupfrd^circnito cento , & cinecenta
milhas cõ altos motes; & efpefias brenhas; mas no mais
^õhé-rttenôs: abundante q-Máyorca Segundariamente
potebilhas Peíiúfas, que íaò^duásiawayor (e chaníS
Yuica, queoceupa cem milhas em redondo.&diíta do co^
tinèote^otífce legoas. He fértil, fcprodustodo o generO
de frulfts: oríás o q a"fas mais rica, he a tíspte<de íal, cj «fca
qtii fê»lei»aoparar Itália, íè rafrii partès^tfídpa Afegun-
dai-qua agbfà fe ehUtíii Frómemere ,'he quaíl deferca
por reíaô das muitas' ferpentes, quefecriam nella fendo
que na -Yuuía naõ jy bicho algum peçonhentowas mui-
tos «joelhos,que aíroíamíasifearas-petofc campos.
J'/AteMiíièíta&JpGífuc-Sardenha, que pelo Oriente
eft-â cercada d0 ma(;Thyrrenoi pelo meyo dia, do A-
fiafios- p€lò -Occidente do Sardo, & pelo Scptcncrião;
dobraço> quea-dividéde Cotcíca. Tem de comprido
• «eiitoí&íetcnea aiilhas, de lavgonoventa, & de cireni-
- *òquitíhentas,&feffentâ, petoqual íe juiga por quúfi %
' igòaHaSíciliai.Hè abundante de trigo', vinho', & mais
fruitos necefiarios, cominas de prata, & outros metais;
.Náó tem lòbos,nembicho algum' verenofo, excepto hu
pequeno dá quintidadev & qu;fi fe me lha nc> de Aranha,
^q.vem os Cardos chamSoSoliftrga, qi e de ordinário fe
•gera nas minas da ptata, &fe homa pe.iíoaíe afienta ffl-
breellas io3dver'idamentera contamina de pefte . Och-
«líia defta | ilha hemui per/ódicial à laude dos: que habi-
/
-fôo/nellà^erao refere Cl. odiiàndt As Gdadeí poocipais
4L&Ok\M cofeo A r'c*bifpo;õ ride tãbé .efidc^Viíor-
rèy.: Aicgúdaihe Óriílagt.o .qué^ntigamète le chamou
.9:/. ^ Aibo-, •
- \ ■'

4& f Hfloria Vnherfãl: .-.;'-.


Arbórea, também A.-ctiicpiicopal. Aterceíra he-Saflaí
u, quetambém teu Arc.ibifpo,& fe iotiuiU Turmaoo;
As. mus fao Alger, B3tfa, Clua, & outras com (eus BuV
pos fuffragancos. O Pipa dea efta ilha era feudo aos
Rey*sde Aragão, fcaífi veoao podec.de Efpanhacora
omefmoReyno,
Nefte mar Mediterrâneo te^tarabeta anobiliffiv
ma ilha de Sicília, que coriíífte- quaíi em trc*. famoGífí.
mos promontório, o Lilybeo f qagora.fe chama Capo-
Boro) Pachyno (Capo PaiTero);<5c Pcloro, Gapo dei To-
roaÇluveno demarca a.ilha dçfte modo. DoPdbro ao
Li ybeohacduze^,& cincoenta, ÃJcincor,m,lhfli: do
Lilybeo ao Paeh.no, cento, Sc noventa-.- &do. Pachinò
ao Peloro, cento, Sc cincocnta, & quatro. De modo que
toda a. ilha teni de circuito fcifçeotts milhas, Dividefc
agora era tres.regioens, que hõ o Vatle Demon^que oc-
fiupá ócaboPeloro atè os rios Tecia, SUmeria^A fegÕ-
da fe chama o Valledo Norte,- que, coruprehendeo Ga-
bo Pachyno até o rio Gela. A terceira fe chama o \\.l-
le de Masara em que cftà o; promontório, Lilybeo. Hç
ôàr, & clima deita ilha fummamente- temperado, tam '
abundante de trigo que poucos faõ óslugareí.onde de -
cada alqueire fc naõ recolha hum cento. De vinho,
mel, & maisfruitos produz também grande copia, com
que a côdea outras Províncias. Tem muitos vulcanos,
ou bocas de fogo, fenda a demais nome o monte Etna,
que vapora em certo tempo do anno, & quanto mais
longe chegão as fuás cinzas, tanto mayor fertilidade (c*
efpera o anno feguinte . Nãofaltaõ aqui pedras precio-
fas fmas de menos pr,eço) nem mármores muy branco?,
.& finos. Ha nefte Reyno muitas Cidades grandiofas„c#- ^
rooMeílína, que eftá portai na praya defronte de Itaba
entrehuns oiteiros. NeíU praya cftà Charybdis:> «Scv<iie
/ Jfronte.
>'\turo m^Mm^rot^. 47
i ts^M Sílcs iam-celebradas dós Poetas, & mareantes,

W^aue á»vidp SiciUa d«Itália. He oíuiodefta.Cidade


^^**Vi-»d««oVp«idDh0Bl.iua em que toda .
cÍoS,nfifle,dd! deze-rrilhas, cõ contínuos edefiao* por
hla&ou racartes. Tem pouco trigo, mas mutta fe-
£ íhVmtó cxcellente, denoda ,* Europa.-. Cata»» be
£i2Ê 5£SE a qoal efti. poftá entre O *»+**««
F na Tem Voiverfidade-em que fe< aventados direi-
&
SSS*
comdous portos,,Stt.
a Teria Í5SSSS5SSKS
nova, iiergcn

Í^.ÍS,TS8&.feX« Cid.dc de Siçil*.


CoS?& cabeça de todo o Reyno, fitnada junto a hum
rio Òo. nome Eormofa. He terra a prazivet. & abunda*
í*c°òdTos frui.os. Occepaqoa.ro milhas, como tem
0S0 os Geómetras. Nicocia he lugar populo.o,
• cuo mo.adores fallaõ Lombardo, & Francês,mas muy
... C. Innto a Sicília para aparte Sep.cntaooal, fi- %
' SlhasEolide,, que faô íete Lipa-a he am yor,&
nellatefidi o Kípo.Thermifas, Strongyle, Dw.me, E-
?iY„ía Phenicuía, & Evonymos, Da outra parte para o
.Meto' dia efià a ilha de Malta dos CavaUeirosd,: San,
-ioaô, que impedem as entradas, & reprimem o furo, dos
•4lon,os po, aquellas partes,* fica entre S.crha, & Tnpol
dCBe
Somar At.antico.em elRey de Cafte.la asrftas
: Cana,i.s°que faõ a grande Canária Tener.fe ««Hg
Palma, Feiro. Laocerota, & /ortevemu a. EíW*
.dormita do Cabo de Bajador na «Ba.de A«
.
48 ' HiftòYi&^niuerpã'. <> I
Lmcerota, difta pouco de Efpenha; asmais, feflentáro!-»
Ih is de cerca firme, A grande Ganaria tem doze milha*
de comprido^ .quaíiiSur.ras tantas de largo, •& quarent»
em redondo . Cuntaafe-asila; pertO/deiQOwe/inil-rBQíi*
dores,& hecjbv-çi das. mais, porque rrclto.reííde {^Go-
vernador na Cidade chamadaidás Palmas. >He eftaune-;
Pròpoh may aprazível, Si (cus-cidadaen»:gatíiardoiS;ar>
.elimi tOTiperadov.&faadavel diftanteí-da liríhá vinte, &
fere graosrdo ;NorteVi tem doze: engenhosÃle açúcar* 6c
produz "precioiilfimos vinhos principalmente no ter-;
ticorio di Cidade de Telie. Tenèrifa difta da grande
-Canária doze mUKas, em vinte, & - fete .'grãos* & nieyo
da linha equinocfal;& tem de comprido defafete lego*
tas. No m.70 delia eftàihum altitfimo monte iredonder*
& precipitado, chamada o Pico de-Tenerife, do Pé do
<jual atè o mais alto fe contam cinco legoas. Efte eftà
perpetuamente vomitando chamas, & enxofre pro húa
boca, a modo de caldeirão'. Ao redor delle por eípaço
de duas milhas não ha fe naõ pedras pOmices, &cmVi:
abaixo delta por.efpaço de outras duas milhas, naõ ha
'mais que perpetua neve: & logo para-baixo fe criaõ ar-
-vores muygrandes, a quechamaõ Viatico > & Barbufa- '
no, donde (e colhem muy excellentes madeiras , Tam-
bém aqui íe criaõ outras, de que fc tira fange de dra-
gão. He tam fértil de trigo efta ilha, que no anno 15S2.
paífoude duzentas mil fineg is .Produz-alem difto gra-
de quantidade de açúcar ,ôc vinho.a':qu^'Cha«sáO'~mai-
vizia celebrado ;em rodas as 1 partes. Gjmera difta ide
Tenerife íeis legoas, & tem oiro de comprido. Palma
eftá de Gomera doze'legoas; & tem de circuito vinte,
& cinco, abundante devinhrjj .&..a cucar.. Agrande Ca-
nária , Tenerife, & PalmajtenrBifpo efom doze .mil crli-
zidos de renda, <5c delias tcesHlhaj tem ■,elIleyl;todasítes
r annos

"' Liuro /. Capitulo VIL Europeu. 49
4 aoBos.cincocntaiaillí.Ferrofiflà diftantc.da Palma des
* lcgôas, &: não tem de circuito toais de íeis. Não. ha ncl-
•la oucraagoa doce mais que a que diftila húa arvore, q
eftà no méyo delia, & tem folhas como de Oliveira. Ef-
taeftá perpetuamente cuberta de névoa, que fe refolve
cmaagoa recolhida em hum tanque, de que bebe a gen-
te, & os gados. Lancerota tem doze legoas de com-
prido, & não dâ mais de fi que carnes de chacina de
gadocabrum, a que chamão Tuffineta. Forteventura
diftado.cabode Guedna coflade Africa cinecenta le-
goas, & da grande .Canária vinte, & quatro. Tem des RJ
<roasem circuito, 5c be abundante de*a«v& gado. EÉ
ias famas ilhas, que por hora temclRey de Eípanha em
' ambos os mares.
m

-kart CAPITVLO ■

Í>as terras, que pofue el\Reyde Efpanha


;iu- na ^America.
-fã' t
America, ou índia Occidental, que tãbem fe cha-
ma Ncvo mundo, fe cftn.de por grande diftancia,
&etyaço de terras entre o Norte, Sc o Sul Tomou o no
me. .de America ffegundo Genebrardo > de Américo
> Vefpucio Florentino, qne a defçobrio; &nâofefabe fe
he terra fieme,, ou ilKn.fuppoftoqu^ fe tem-por VW

.Nort;e'com Groelandja, quehef huma das Provintiasde


'.Suécia. Em três partes fe pòdenvdividir, pua que affin
fique mais corrente íua d.cfcri.pçam ;■ em ilhas, & em
tetra
^
«03a D
^
X
i
.Hiftoria Unkuorfd.
terra firme Septentríoual, & 'Mexiduaaal, As ilhasípdní
cipais fàa quatro,:-Cuba; Iamsieí, Êfparilhola;*^ de&jrai
loaô. Efta fica mais vizipha a; Europa; a qual tera:!tt»r&-'
ta, & cinco legoas de comprido,& vinte de; latgo, & O
ptincipal lugar-fe chama Porto Rico. Tem bons ares,
& he abundante de partos, & gados. .As firas princi-
pais riquezas conilfiem em Gingibre,' Aeucar,.& muita
coirama. Defta ilha á Efpanhola íc mete hum braço;
de ma. de dezafeis legoas. He ilha nobvliflíma, & miny
accom.modada para adefenfaõ da America. Tem em
redondo quatrocenras liego3s:, de comprido cento, &
eiocoenta, & dej^rgoeiricoenta, & em algumas partes
trinta. He algum tanto cálida, mas fertiliílima, & tem
as mefmas riquezas que a outra. A metropoli be Santo
Domingo Cidade famofa, com hup» porto, &eaftello,
forte, & feguro. Foy nos annos paliados a mais florente
de toda a America ,çpo quanto eftiveraõ abertas as mi-
nas de ouro. Cuba efià diante da Efpanhola quinze
iegoas^a qual oceupa de cõprido duzentas, & trint£.35c
©nde mjislarga.q.uarenra. He mais lalutitera, que a Ef-
panhola, mas menos ferril, po,r Cer montofa, & de mui-
tas bren has. A primeira Cidade:, & mais antiga he S. Tia-
go com íeu porto, mas pouco feguro. Porem a mais cele-
brada he a Habana cõ hum porto, & caftettos inexpug-
náveis, íAqOivé aportar codas asarmidasda tTova.£ípa«
nha,& dá cerra firme coro fuás riquezas nós meies de Tú-
!hõ>& Agoiro, & no principio de Setembro fe parte para
Efpaoha. A Iróaiea cílà difiante daCoba vinte legoàs.éc
tem de terço iÃifWpá9ihCoèntá,'Ew,ftõfcóíàV'&-bofts
àres-!h'e-!avanrejãda a iodas, fendo peia mayol- parte 'pla-
na , abundante de gsdOs, & rtfoifOs ftbfõsí-' A4õ-^déiftas ha
outras ilhas menores. rirás'tbdas'défpovoa'das, pela-cruel-
dade tyraniadosHfpanhoes, que as conquiftàrativ
n;i3 Q Agof»
X
'''tvvrol. Capitulo firIL Euro?*-. _ 51
4 i Agora'trataremos da certa firme bcptenttional,
* da qual ha ainda a mor parte por conqaiftar. & dcíco
thrir Occorte em primeiro, lugar a Florida amplifiimâ
regiam, ondcfcdis quelha, gtaode. numero de touM
mas naõ cftaõ defcubcttas. Outra nobiliffima parte íe
chama aNova Eípanha, que íedivide.em varias Pro-
vicias, cuja metropoli hoMeirco, Cidade autiguâmen-
te mui ampla, & dilatada, quando os bárbaros hatwavao
neUar&umbcmígorahft muipopulofa. & rica comos
comércios das .Províncias circunvizinhas. Debaixo dei-
ta. íc contaõ as fcguintcs. O Arcibifpado Mexicano,
oBifaado-Macbosaaneie/oTUrcalMfc, o Guwçano,
fcasperféâu».*- ou preíldencia de WniKO,* \ucatan.
. Tem hum porto exeellentc no mar Auftral, champô
Acaputóó.infignejõasaavegaçoens pata as Phil.pmas,
& Reyno dos Sina". Na Província de 1 laCeaia, lUto-a cof
tadomat.Setentrional eftà o lugar de Veta Cruz em
húfitio pouco faudavel.mas.raui acommodado paca 09
^rnercios, por quanto tem vizinho .0 .admirável- porto
de.S.loaõdcVlhoana Nova Eípanha, onde as armadas,
• .qae da outra vão apottaõ,.& outra vesfeaprefiam. (A
... 'Jriafealafefegue Gúaxacà", as Mifticas ambas, Tutepe-
'* que, Tabiíco, Tapóteca.&Guazacoalco.onde eftà o poe-
to de Guatulco no mar Pacifico, em que os do■ Peiu ex-
çteitam feus eommereios. Em todas .eiras Províncias
temos Efpanhoens muitasCi.dadesAlugares.emquc ha-
bitarão, com amplas regioens, em queipodermoftender»
• íe, Anová Efpaoha para a parte do Occidcntc íe ajun-
ta a nova Galiza., que comprehende sanas Províncias
atài-Cgolto de. Califutttia, dss quajs íaõ as principais.
■/ Gtódíltóara, Xalifc;op¥õnópaíOS:;Z3earffEa^ (-gente bc-
lieofa, Sc indomit3)^hiamtít!aí-<G»ilvacan,.Cinal£)a> &
Nova ;Circaya..,T4aib.eiulíaqui^.cootcfli.as P-rwi^ias
dc
D2
\ ' • • :-

de. Califórnia, Ctoolà, Q-nta , 5c novo México, q eftaõ


defcuberta$,ôc não cõquiitadas,. como tambê os Cnichi-
mecas,^ por habitadores dos campos,& motes, vive como
feras. Co a Nova Eípanhacõíina a perfi&uta de Gua-
temala qabraça treze particulares Províncias, Chiapa,
Socònuíco, Suchicepec, Gaatimala, Verapaz, Yzalcos, S.
Salvador3.S. M-guel, Honduras, Chulutecam.Nicarag ua,
íaguzgalpum, Cofta Rica, Sc Veragua. Foram todas eftas
Províncias muito habitadas,& agora faõ raros os índios;
q hanellas, porq os Eípanhoes os affolaram,& deftruiram.
Cõ grande fentimento refere Bartholameo-de las Caías,
qem poucos anno^rnataram dous milhoensdeftesgétios
' deixando oslugares defeitos, & as Províncias fem quem
\ habitaííe nellas, como adiante fe verá.
)Refta agora dizermos da America Meridional; a
qual fe divide, da Septentrional com humIfthrnorou pa-
ragenrmui eftrita, em que os Efpanhoes tem dous luga-
res nobres,. Panamá, ôc Poito bello. Nefte Ifthmo ef-
tà. hum3 Audiência Real, a quem chamam Penamcrè».'
ôc o mais em: que entendem, os feus deputados, he em
apreftaras armadas, 6c coníignar os tributos dos com-
i márcios aos mercadores . Tem de comprido' defdos
fins de Cartagena até o Caftello de Veragua-noventa le-
goas; de largo entreos dous mares (onde mais o he) fef-
fentas 5c entre Panamá, & Porto bello, oito; He o clima
húmido, calidilfimo, 5c mui nocivo a íaude. Dos natu-
rais da terra não ha ja aqui vcfligio, porque osEfpanhoes
os extinguirão de todo. Tem pois ai parte Meridional
da America muitas,. 6c mui dilatadas regiocns, porque
fei.eftende defdo grão decimo,. 5c duodécimo- da latitud
Sfe.ptentrionaliaté- o quirtquagòflímo< íegundo- da Auítral,
entre o Norte, òc o Meya dia. Entre Oriente y- 5c Oc-
cidence. de baixada-, linha heimuierifa-aiêce dilatada* tr-as
Incliv
X

y írvro L Capitulo' Jj&t EurofaZ. 53


V inclinaodoparaopolo Auftral,. pouco a pouco fe vay
* "«ateando, & fenece no eftreito de Magalhaens. Pata a
• «arte Septcntrional tem eftas Províncias , Cartagena,
Novo Reyno de Graoada,S. Maitha, Venezuela, &Pana,
aue por outro nomeie chama Nova Andaluzia Para o
acidente té Popayana, o Peru, *™\*"'°?™<
fica o Brafil da Cotoa de Portuga!» & o Rio da Prata da
de Efpanha. A Provinda de Cartagena produz P^cofif-
íimo batfamo, & outros licores aromáticos .Ncllaefla o
grande rio da Magdalena, por onde ate a Cidade de Car-
tagena fe levam as riquezas de novo Reyno de Granada,
& da hi vão ao porto da Hahana. Par^he Prov.ncia mm
dil.tada.ft nãodetododefcuberta. fotç\U^no^
> diffimo rio Oronoquc dõde fe feguc g-ades d.flac.as de
terra atèo das Armorias no Maranhão, oqual fe dis q
tcra7olegoas de"oca, & heo mayor do mundo.
O Peru he Província nob.liffima, & a mayor da A-
merica Auftral: a qual tem de comprido entre Norte, &
ali mil, & duzentas legoas.de largo defdo mar ate as a-
tiffimas ferras dos Aodios mil; & de circuito.quatro mil,
• &feflenta, cinco; & fe affirma fer mayor foa d.Oanc.a.
... ' que a quchâ de Efpanna a Babylonia . Efta efta fogcica |
' ao Viforey, roasdividida cm tres Aod.encias Reais,
das quais a primeira he "Quito, a fegunda Lima, &
a terceira os Charcas ,. ou a Prata. Lima he a me-
tropoli deAa Província, Cidade jlloftre, & muy fre-
quentada de. moradores, aonde concorrem todos os
• theíourõs. 'para', dahi fe levarem a panamá. Tem
alem difi» fatias muitas Cidades, & luguesde gran-
de fama . No díftrito, & Audiência Real dos Charcas
eftà afamoía Cidade do potofi coro aquellas minas tau
etólflfas-da. Prata, celebradas em todo o mundo, ÚW
de fe tem tirado tara innumcravel quantidade , que
D3 P«««
I
' V
54(, 3 Hijloria TJniverfal. '
pacecc incrível. Aefte diftrito Tc atribue também San-
ta Cruz de Sieica, cujos moradores fam moleftados pe-
los Bárbaros, Cheriguanes, & Titanes. A Província de
Chile he abundaciflima de ouro. mas os Gentios mui
belicoíos, & infeítos aos Eípanhoes, como também os»
de Arauco, que por vezes <c tem rebeilado. A. regiam;
qne fica defdo grão quadrageffimoquinto da latítud Auf-
tral, atèo grão quinquageflímo quarto, & mais adiante
atè o mar do Sul, como também defdo grão Setentrio-
nal trigefíímo quinto, ou da foz do grande tio-da Prata,
( que nella tem quarenta legoas de largo ) até o efiíeito
de Magalhaens,fe/!Íiama a Magalanica.que pouco a pou-
co fe encolhe, & vay fenecer naquelle apertado cftrei-
to. Do rio da Prata fe íegue huma capitania, que tem o
£eu próprio nome, onde junto ao rio^ftà Buenos Ayres,
& pellas Províncias adentro muitos outros lugares, pria-:
cipalmente na que.chamara Tucumanà. Eiras faõas ter-
ras, que poffue elRey de Efpanha na America, & muitas
outras, que fe naõ defcrevem;por quanto requerem h&E»
particular volume, onde. poffam cabet todas íendo icta
tadas por extenfo.
.
>
CAPITVLO vin.
Das crueldades, que. aigimr minijlros, &
foldados Efptinhòes nfaraó com os In-
aios da America, quAwo,ao prin-
cipio foram còncjuijtados.

T Ais, Sttarttis foram as crueldades, mottes, aífola*:


foens de Reynos inteyros, roubos» violências, âc
tytan-
\ ■".! ' " • .' ; ■ "

'huro I. Capitulo VIlí. Europa. 55


V tyranias.que fe fifeiam na Nova Efpanha ( fcgundo re-
fere oBiípodeChiapa) nos primeiros doze annos de
• lua conquifta, que ío em quatrocentas, & eincoenta le-
goas nos contornos de Maxico matarão a eutello, & ás
lançadas, & queimaram vivas mais de quatro milhoens
de peffoas... Alem diíto executaram as mefmas cruelda-
des, & muito mayores em outras partes das índias, por-
que hum capitam deOes, que fahio de Mcxico para a Pro
.vinciade Guatemala com muita gente depé,&deca-
vallo, fez tantas tyranias, mortes, maldades, & eftra-
gos, que fem grande admiração dos tempos prefentes,
& futuros, fe não poderão contar, forque de induftria,
por fua cobiça, foy queimando, deftruido, roubando, Sc
1
matando a geme dos povos, por onde hia, em mais de
cento, & vinte le^oas. E de pois outros capitaensfeme-
Ihantesa efte defdo anno mil, quinhentos, & trinta, &
cinco, àíTolaram aquellas Províncias. No Reyno de Na-
co, ôc Funduras mataram em onze annos roais dedous
ráflhoens de peffoas, nam deixando em mais de cem le-
goas em quadro dous mil índios .fendo huma da? terras
• mais povoadas do mundo. Fizeraõ matanças, & roubos v
-,' eftranhos, queimando , & deítruindo a terra com a iri- J
faciavel cobiça do ouro : & em fim chegaram à Cidade
de Vltatlan, Corte do Rcy, o qu*l os íahio a receber em
humas andas levadas por Indics, com trombetas, & ata-
bales, acompanhado de muitos fenhores do Reyno: & (
o dia feguinte chamaram ao Rey. & aos Catizes, & pot
• que lhe na > deram o ouro, que lhes pediaõ,:porque o
não tinham, os queimarão a todos vivos, fem outra ne-
nhúa culpa, nem proceffo, ou fentença.
Os Caeizes das outras Cidades, quando viram o q
fe avia feito a feu Rey, Sc mais fenhores, q-»e eram os fu-
rtemos
r
da tetra, defemparando a fua fe foram fugindo
. D4 aos •
■jó v. Hiftoria Umvei fal) Vo
aos montes.- Staos que deites puderaõ aver, matarão as
lançadas & outros lançavam a caens ferozes, que os def-
pedaçavam, «Sccomiaõ : & quando encontravaõ algum'
Cacis, ou grande íenhor, o queimavam-.em vivas cha-
mas, por fefazerem temer dos outros índios, & lhes
tirarem todo o ouro, que tiveíTem .- até quedeftruida
toda a terra, pafTaraó â de Yucatan , & porque nella
não avia ouro, nem Prata,ferrarão por eferavos quão-
tGs puderaõ aver. Eu vi por meus olhos ( dis o Bifpo
de Chiapa) ao filho do principal Cacis daquella terra
ferrado, como fe fora eferavo. Etinhaõ por coftume
eftes crueiiííímos^omés, todas as vezes, que hiaru fazer
guerra aos povos circunvizinhos, que he o que elles
chamão eonquifta, levat em feu exercito muitos índios,
& algumas vezes eraõ tantos que cagavam a vinte mil;
& porque lhe não davaó q comer, comiaõ afres os ín-
dios q conquiftavam: & aííi avia no arrayal earniçaria de
homês, & em fua prefença fe matavam os Innoeentes, &
pequenos mininos,&aflados os comiam.Tal ves matavflo
a hum homem, fò por lhe comerem as rnãos,& pès q en-
tre elles era o melhor. & mais faborofo bocado-, con>
t feruido em tudo efta deshumana gente.
Hum Alemão era Governador do Reyno de Ve-
nezuela, taõ cobiçofo como todos os outros.&mais cruel,
q nenhum dellcs, porq a todos levava ventagem, em que
fe os outros eraõ mãos Chriftãos, efte era fino herege,
eô fofpeicas de Lutereno porq né ouvia Miffa, nô a dei-
xava ouvir aos q andavam cõ elie.- o qual abrazou, & def-
povoon mais de quatrocentas legoas de terra, & nella
grandes, & dilatadas Províncias, povoadiílimas, de gente,
& muv abundsntes de ouro. Matou efte tyrano, •& lançou
no ioferno mais de cinco milhares de almas, fem rece-
ber nenhíu delias o fanto Baptifuao: 3c roubou a elRey
' de
1
'' livro I.Q^ttdoVUl. Europa. Jty \
V dcEfpanhamaisde três milhões de ouro. Todos efles,
%
capjtaens, Governadores, & Adiantados, íuppofto que
• tinham feusgovernos em diverfos Reinos, ôc-Provincias
das índias, aceudiaó a México cem o a metropoh, & ca-
beça defte Novo mundo, & com a frita de íogeiçam, «Sc
de juttiça, fervia a Cidade em maldades, vícios, &. pec-
cadosE entre outros muitos, os jogos erao iam eícan-
dalofos que ouve algum deiles, que de huma (o mao pa-
rava quinhentos índios efeolhidos na provinda que go-
vernava,* como quem dà huraa librança de dinheiro,
adavaelle de índios, mandandoos bufear por íeu Te-
nente, para que os defpachafle log%, & os mandaííe a

*°Tinhaõ os Reys Catholicos mandado a hum fan-


tovaraõ chamadfcEr.ioaó de Zumarraga da O.demde
noffo PadreS.Franciíco, por Proteflor dos índios, õc
mimeiro Arcibifpo do México: o qual reíkha na mel-
ma Cidade, & via todas cftas couías, & fabia de outras
ifcnitas, quenaquellc Novo mundo paffavam: & defe-
iando remedialas , fe oppos fortemente a todas, repre-
!• hendendoos humas vezes em fegredo , & outras çub.i-
• ' camétc, atè os lançar da Igreja, & excomungar a muitos,
>
• fazendo tirar as praças aos Ouvidores,* Prcfidete de Mé-
xico que foy oq mais q todos fe (Inalou nas tyranus, &
maldades executadas na Nova Efpanha. Porque (íegun-
dodizêHerrera.a Hittoria geral da índia,.* o Bifpo de
.Chiapa) queimou viver ao Rey de Mechcacan, que era
Chriftam baptizado. E nas Provindas da Nova Elpanha,
& Panuco, a muitos Índios deu^ruel morte,& aos q dei,
soucõ vida, feriava no roftocbmo a eferavos: fendo li-
vres todos elles, ormandava véder a outras partes.carre-
gando"deita mercadoria muitos navios, até que deílruio
QuaG toda a Provinda de Panuco. E coroo lhe eufiaram
» pouco
^-x
j8\ HiftonaTjniuerfal. í -
pouco cftas almas, as vendia cana baratas, que dava oi-
tenta índios por numa Egoa, Sc hum poi hum queijo,
Também no Reyno de Xaliíco abrazou, 5c deftruio oi-'
tocencos povos: & eftando em México , à vifta do raef-
mo Protector, que pregava contra elle, jugou de huma
aflentada quatrocentos, & para os a ver de pagar, man-
dou poi clles à Província, que governava: & muitas ve-
zes para os tomarem, agardavam, que os Religiofos os
ajuntaflcm na Igre/a para os averem de baptizar , ou fa-
zerlhes Sermaô: & dalli os riravam, & ferravaõ no rofto
para os levarem por eícravos dos que no jogo os tinham
ganhado,com grande pena fua, & dos Religiofos, que
os vião tratar da quella forte, fera lhe poder dar remé-
dio, Effdtos fam da infernal cobiça refoluta em executat
inauditas crueldades, & deshumanas tiranias. j .
Ao fim deltas maldades, & principio de outras
mayorcs, que ao diante commeteo, foy tirado da terra
de Panuco, para governar a de México, & toda à Nova
Efpanha com outros feus femelhantes por Ouvidor^,
ôcellcpor Prefidente daquella Real Audiência: & to-
& y dos cometerão tais mal Jades, tantos peccados, roubos, (
X &extorçoeos, que parecem incríveis.- 5c fe.Dcos lhes
"' não atalhara os paífos com a reíiítencia^ que lhes faziam
DS Religiofos, Sc com o novo Prefidente, & Ouvidores,
-cm dons annos defpovoàram toda a Nova .Efpanha. E
uiis o Bifpo de Chiapa, & jura em Deos, & íua concien-
,cia, queemtodas eftascoufas nãodis de dez mil partes
huma das que cites ty.rannos fizeraõ; «Sc que todas as fa* '
be certiflíma.-nente : porque o Prote&or , que as tinha
efetitas, lhas deixou, quãdo rornou a Efpanha, donde ti-
rou moitas outras, q efereve, fendo todas cõprovadascÕ-
o ceftemunho da larga experiência de muitos Rcligiofof,
<3c outra géte timorata>qfe achou pcefcce,ckdeo fede tudo
Soube
*Lwro L Captulo VIU. Farofa. Jw ^
^ Soube de todas citas a rmpe;atris D. Habcl que:
* governava Efpanha emaufencia do tn pttadorícu n a-
•tido: & confukandoas com os de leu coníelho Real de
Índia», fe comprovaram tantas delias com reftemunhas.
que fe acharam na Corte que bailaram para mandar GU-,
tra Audiência á Nova Eípanha, como oProteâor pe-
dia, com ordem fecreta, que fe deo ao novo Prcfidenre,
para que cm chegando a México, a primeira coufa, que
trítaffe, foffe averiguar as que os Ouvidores,& Brefidena
te de poftos efereviam da peflfoa do Protector. & de feus
frades: & dis Herrera, que acha ram fer Prelado de exe-
plar, & fanta vida: pelo qual fe mandou outra ordem ao
novo Prefidente, & Audiência Real, para que honraflem
- muito ao Prote&or, ôelhe defiem todo o favor necefía-
íioparaaprotecçaji dos índios. Porém deolhe grande
pena huma falfa opinião, q o demónio inventou naquel-
res tempos, fuftcntada por homens de credito , & le-
tras; os quais affirmavam, que os índios nam eram ho-
nJns da mefma efpccie, & natureza, que nosoutros,ne
tinham ufo de rezam, & pelo confeguinte eram incapa-
• zcs de receber os Sacramentos da Igreja. ^
Tratou o Protector de remediar eftas coufas, J^
ufando de.rigurofos, & afperos meyos, foppofto que
pos muitos, nenhum lhe aproveitou; porquehum ccbi-
/ çofo nunqua tem emenda-& afli o pregou publicamen-
te nos pulpetos, reprehendendo fuás tyranias , morres
de Innocentes, maldades, & latrocínios. Pelo qual teve
• grandes encontros com muitos delles, principalmenre
como Prefidente de México, & feus Ouvidores, rece-
, bendo delles mui grandes afrontas, & chegaram a tan-
to, que intentaram tirarlhe a vida. Mas à eufta de fua
honra ( como dis Gonzaga ; tornou tam de veras pela
de Deos,que< fes caftiga* a muitos, em particular so
•-•.•* Preu-
V •' • \
/ 6*0^ Hiftoria Umuerfd.
Prefidente, & Ouvidores, que privados de Teus officios v
ostroxeram prefos a Efp?nha--& aos que fugiram còfti-
gou Deospor fua maõ. a huns com mortes arrebatadas,'
morrendo fem confiffaõ, & mais Sacramentos; & a ou-
tros, acabando defefttadamente a mãos de feus inimigos.
E em fira com o bom zelo do Proteâor,& com a no-
va Audiência, q fuecedeo â pafiada , fe melhorarão mui-
roascoufas das índias, & Nova Efpanha, aceudindo
Deos a (uftentar, & defendera nova Igreja, quenellas
com quotidianos aumentos fe ampliava , & eftendia, re-
parando os novos miniftros o que os paliados tinham
diffipado, Sc diftruÃd.0.
.:
CAPITVLO IX.

T>a defeendencia %ealj&nobrety deEfpa-


nia, &-decomofoyi?iJlituidaafan- .
te Irmandade nella.

4 DEfdoanno 169. (fegundo Vafeojgove/naraõ, os


Godos, & Suevos em. Efpanha aiè o de 713. em
*

que D. Rodrigo foy deftruido pelos Saracenos, aeaban-


dofe nelle a antigua nobreza dos Godos. Noannoçiô.
os Chriftaõs, que fugirão para as montanhas das Aftu-
ri:s, acclamaram em Rey a Pelayo, de quem dizem ai-''
guns., que defeendia domefmo fangue Real, Começou
eftea reynarno fobredito anno, & fe .continuarão qua-
renta & dous fuceefíbres até o de 1369; em que foy co-
roado Henrique II . & nelle .começamos ageoealogia
fegainte. Cafou eíte Rey cora D. Ioanna Manoel de
Laeer- <
r N7
' ■ Xniw I- Captúlo II. Btrofa. [J6i
^ Lncerda filha do fenhor de Vilhena, de quem ouve a D.
* Joaõ que-fuecedeo aíeu pay & a D. Leonor, qcalcucõ
•Carlos III. Rey de Navarra. D loaõ-I. Rey de Caflella, &
i^eaõ cafou primeiramente cõ D. Leonor filha de D.Pe-
dro Rey de Aragam, de q ouve aD. Hêriqocq lhe íuece-
tieo,& a D. Fernando,q foy Rey de Afagam. Segunda vez
«JafoucôD 'Beatriz filha de D. Fernando I. Rey de Por-
tugal, de quem não ouve filhos. D.Henrique 111. cafou cõ
E^Gathanna de Alécaftre filhado Duque Ioaõ Gãda-
venfe.de quê teve D. Ios-ôII. q lhe íuecedeo. Efle cafou
primeiramente "cõD.Msria fi ha de D. Fernãdo l.Rey de
Afagam, de quê ouve D. Hérque 1V^ lhe fuecedeo no
Reyno. Segunda vez calou cõ D: Ifabeldc Portugí-I filha
• de Ò.loaõ Meftre de Sãtisgo Cõdeftáble do mefmo Rey-
no,de que ouve DJfabel q teynou de pois àcD Henrique
ivl Efte eafando co D. B áca filha delRey de Navarra, &
fegundavescõ D.loanna filha delRey de Portugal', de
nenhuma teve filhos/Pelo qual lhe (uecedeo no Reyno
- ftJirmãD.IÍabel, que cafou com D. Fernando Rey de
Aragam, & nelles íeaiuntá^amreftas duas coroas.-
• De D: Fernãdc,&; D. Ilabel naceoo príncipe D. Io;õ, v
•''qmorreo fem filhos, D. Ifabei, que -cafou- cõ D Manoel J^
Rey de Portugal, D. loanna, que depois reynou. D Ma- * •
ria, que também cafou com D. Maneei. & D. Caihrrina,
/ que cafou com Henrique VI1L Rey de Inglaterra Do-
rtíiloanna herdeira dos Reys- Catholicos cafou cem
Philippe-Í. Archickicjue- de Auftria , & focccrko no
• Reynonoanno 1504. Eítcs tiueraõ os filhos U guin'es.
D. Carlos,'que* lhefucèdco, D. Fernãdc que f< y Rey
àc Hungria, 8t E;nperaclor'd'ep^Qe Carlos: D. Maria,
que cafou cõ LaiãiReyraeHúgria &■ Boheirn:D. Ilabel,
•q caiou cô-ChMftierno^.Reyídê^Daííiá-D^CathViira.q ca
fou cõDUoaõ UI, Rtvde Pottugual&D^eonpr^qcaíou
com
6%: yMifiòjiú %jwveffd) W^J
co trancifeo Rey ds França. D. Carlos Rey.-de. Efpanhai
& depqís Empcradot caiou com D. Kabel filha dei Dom
Manoel Rc^dCy Po riugal., -& gwLgttVAD.Eclippclquis
l^.fpcedexJViDpna^Mari^que catem tom oEmpcrador
Maximiliano II.,& D. loann.a, que.çafou com Dom Ioaõ
Piincipedc Portugal, cujo filho fcy D. Sebaftiam. Dciii
Efijrppelf fuccedeo aíeu, pay: no anno 15.56. A primei»
^ves cafou com, D. Muia filha de D.-IoaõiII. Rey de
Bortugal, da qttal ouve> D- Carlos, que falleceo no anno
1563 A íegunda ves caiou com D.Maria Rainha de
Inglaterra,, de quem não ceve filhos. Atcrceira caiou
com ífabela filha de/Hcnriquet II. Rey de França, da qual
pnvc Ifabela Clara Eugenia, que eafou com. o Archidu-
que de Auftria: <5t D. Cathatina, que cafo.u com o l Duç
que de-Saboya, A quarta ves afeu^com Anna( primo-
génita do Emperador Maxirnilranilo, 1L; da-qual ouve
três .filhos, que morreram de tenra idade. O quarto foy
$, ^Ee-ljippe ill. no anno 1579. que lhe fuccedeo 5 & cafou
com Margarita de Auftria filha do Arcbiduque CarK s,
da qual ouve D. Arina, que, cafou com Luis XIII. Rey de
^ança-i & D. Felippe IV.. que fneçedeo a* feu pay.-.Efie
/ calou cora D. Ifábel fiíha de Hensique.IV» Rey deKf$
'■ ' ça, a qual em. 17. de Odubro de \619- lhe deu hum fi
lho aquém puferaõ por nome Bjlthafat Carlos-. • D<>r
mingo Lucas Felippe de /Aiafiyajoqijal-fjlleceí)..^
poucos annos, com grandeíentioaentp de toda E/panha-,
Efta he a verdadeira genealogia de-Teus Reys tfefd.o íem-
po que deixamos referido-, ate o anno 1650.
Naõ.ouve cm Efpanha ( ftgun Jo Alonfo. Lopes
de Haro,) Condes,Duq^í3fe,nem£M4fí)flf'íes,ha^dira:rtQí
ate D:->mHefuÍqu,eH. que; começou a rcyn.ar no anno
,«69. como fica dito Eíl-e mftjtuioo5.;>Qp~04ÊS feguifr-
tcs. t.j O Conde de fyjfâfé í.eu.jrm.a,Q JPilfiUpiicCaC-
tilha,
r I ' ^

V tífhi de^iienvâefccndcmos Ma-queles-ce-Muilár. 2.


* O'Conde de Albuquerque.fcffitaíSò^ÇuMioíaiPCti^

1 H)ftitlHO<ve<^d^dô--^ri^^cg^^.<fftrWqi,èiWa»
fcòelde VrlHerfa WlHíMiqiWílH^itflhtaíd'^-OW^^

AlorifoÍTOèntél, cujos íuccéfercs-laõ ■•.Marcjoefes àz


V.UafrãneaV Dom Ioaõ II. fes i: O Conde de Sv HkvaO
©©& í^iwctf tíe:Jiuhía,?ÔWí«!tfftíbW' «ítCaffefta.TBií*
«ore dr-Tftfgífh^ 8í>fWS«$«icsfiacBVrtB*ft K^Èobí*
IfeGtaftPg&is ;Bi^&''tSotofeíítfé'&&<&\8á. sMdpTdÊ*
cc flores-fàõDuques dê terma-, Ce a &'Vzeda. i O Co'r>
d#da Caflanhedá "'Gbtfias-Hernandes Mannque,; oi.foali

•'^arques de Berlangá 5. O Cohdc de Ledeíroa, & PlaJê-


cia dos;Ztinigâs ©uqu<^a«fraTo'r& ®ej»l*fel olial
farinha bé tambèrtpy fíiarqu^dei-Ffe^s ©avtla.<-6». <G
Coriti* tfe?M*á'éBrii9&?Wô^È>. -PWJrâ feèiflte'dfí[9o*
BWqfl* de Ctóiá>&4Aaf^WfcAd*lZStíp^i-'© Coní& tfe
AÍvade Tormés Femandalbares de Toledo Dõcue de
••Hueíeâ.8. O Conde de S.Marta dos Saurentos; de que
■'HetãAibVm O Condene SSlvarírtá, & ode GcfrdantA.
. $> Áefàdè dei Re^de.'Mahbefcaies^ & Maftjfi*tf«Jfe
ísihhtteHÍa fhbrgo Ltípe? de Mehdoíícfl fio- O-Ccfefo
de Traftàmara Marques de Aflorga • ir. G Coddc de
Trebino, Dpque de Najaia, ia. O Condene o&agtfós
. sfónoD ■'■••*' de
) 641 .L-- Hiftoria VfimerfaL
àe .^ava.. -.ifcjQjiÇppdp. de Pferno. 14. O Conde de
Alc.ajtwrA»-ftforgijgs de Alt»3p?f?:, EI.Rey Henriqac IV.
LnftftBip;:itP Condene AlvadjÇ-^lifte- 2. P;<£ondedd
Ledefma. Duque de Albuquerque. 3. O Conde de Ca-
bra, Duque de Sefa,& Barna. 4.: P Conde de Tendilha.
y.QiÇ:m&Âe<?;i(egP.'!^n0 Çpr*de P^Vosenha, Duque
de,QíTim*,Marqueside.^enhafieL^-CXCpndede Mel-
gar. Duque de Medina djs^iofflco. 8. O Conde da Co-
ruoha 9.PGon.dede Belalcaçar. 10. O Conde de Lu-i
na. 11. O Con4e.de ;Leipos:, Marques de Sarna 12,, Q
Conde dç; Miranda Duque dePenharanda 13. O Con-
Ô«o Çc^^que, .d? ^riaL Marques deVilhalva. 14. OCõ-
de de Cona. 13.O tondede Onhate. 16. O Conde de
Euenfalida-17. O Conde de Syrvelados Velhatcos, de
qjtãrndfe/segde/B QScMaíq^efesdçn^linas.. 18 O Con-
de, de SaJ}na? -Daon^a-. ;i9. P Cqndç fc.iCifucmcs. 20>
O Conde dfrcSfeíEfte^fivdel.: Puerto 21. O Conde de
Nieva, Marques de Valderrebano. 22. O Condene Mõ
terey 23. O Conde & Marques de Iodar. Vs
Os R.ey Cac.holieos iraftituicai^ i. O Conde de
Bqen dia 2. Q Conde de QropezftniíH O Conde de
j Mí>nte aguJo 4. O Conde de Aguilar. ,5. O Conde de
/ los Molares, Marques de Tarifa, & Duque de Alcalá. 6.
0 Conde de Cjftrogefiz,L7,.; P Conde-de R,i.badayÍ!ft
t ,h ^QiQmd^dej ftáfce, «Manques de<ksN-afas. 9. P Cã-
de dS^iJbC^Marq^e^iej-Adales 10. O Copde de ,Cç-
dilho n. O Conde de de Baylen. u. O Conde de Pai-
nu. IJ. O, Conde de Salvaterra de Alva. 14. O Con-
de de la Puebla. 15. O Conde de Vilhena ,:Ç,ado§;j\f.
ioQituio, í/, Q Conde-de> Akaudeeeí foi P,Ço:nds de
Cnirtdvçf.0. ;r O Conde.de Caftellar. 4-. O Conde de
Clivares, que Felippe,IV. fez grande 5. O Conde de
O,giz 6. O Conde de U Ptiebltde Moncalvan. 7- P
Conde
•f. . > 1 \
r
* /* , - ^ \
^ÍÀUYO 1. Capitulo IX. [Europa. )6$
\ Conde de Punho en rofto- 8. O Conde, & Marques
de Gelues. 9. O Conde de la Gomera. 10. O Conde
* de Deleitoia, & Oropefa. Felippe Il.inftituio O Conde
de Santa Gadéa. 2. O Conde de Galues. 3. O Cõde de
Vilhat Dompardo. 4. O Conde de Berajas. 5.0 Conde
dei Real. 6. O Conde de Villa nueva. 7. O Conde de
Fuenfaldanha. S. O Conde de Fuentesde Valdeopero.
9. O Conde de Vzeda Marques de Loriana. Felippe
III. fez 1. O Conde de Villa mediana. 2. O Conde de
Mora 3. O Conde de ViUalonfo Marques de Malagon
4. O Conde de Mejorada. 5. O Conde de Panullana.
46. O Conde de Banhos. <p
Os Duques inftituiram os Reys como fe fegue.
Henrique IV. O Duque de Efcalona . Os Rey Catho-
licos O Duque d^Maqueda. Carlos V. O Duque de Vc-
ragua. Felippe II. O Duque de Pefirana. Felippe III. O-
Duque de Lerma. Os Reys Catholicos fizeram o Mar-
ques de Moya, o de Cenete, o de Villafranca, Duque de
E#rnandina; o de Priego.o de Cornares, o deles Veles, &
o de Canhefe. Carlos V. inftituio o Marques de Alcãni-
• zesodcVilla nueva dei Frcfno, ode Tabara,o de Poza,
/ o de Montemor, o de Ayamõte o de Mirabel.o de Mon-
tes claros, o de Certalvo, o Príncipe de Afculi, & Mar-
ques de Ateia, o Muque de Bala Siciliana, & o Marques
I do Valle de Guaxaca'. Felippe II. o Marques dei Car-
pio, o Marques de Flomefta , o Marques de Ia Mo-
ra , o de Ladrada, o deAljava, o de Santa Cruz , o
• de Velada ,0 de Eftepa» o de Villa nueva dei Rio,
o de Villa Manrique 4 o de Aquila fuente, o de la
Guardiã, o de Alcalá , o dei: Almeda, o de Vianna,
o de Aunhon.&o de Valde fueores. E Felippe III.inf-
tituio ode Iavalquinto. Dis Iosõ Botero ; que ha em
toda Efpanha vinte, & féis .Duques, quarenta, & hum
E Mat-
, ■ ' \/

66^ Hiftoria IJnivei Çal.


Marqucres, ÒUelknta Condes. Os Arcibifpos íao oi-
to. Ode Toledo,o de Sevilha,o de Granada, ode Tar-
ragona, o de Caragoça o de Valença o de Burgos , 5c
o de Cornpoftella. A eílcs fam fuffraganeos cincoenta,
& cinco Bispos repartidos, pellas mais Cidades. Alonfó
Lopes de Haro conta em Efpanha cento, & vinte, Ode-
te famílias riobiliffimas entre as caías titulares, & de (o-
lar, mui antiguas, & ílluftres, cujo tratado fe pode ver,
porque nejle eftaõ por extenfo.
Por ultimo eímalce da nobreza Efpanhola fie
pode aqui tratar daquella digna de perpetua memoria,
a Rainha D. IfaJH molher de Dom Fernando ( aos
quais o Papa deo o titulo de Cathohcosj fendo efta fe-
nhora huma das mais illuftres, & heróicas Princefas,
que ouve em Efpanha. Nella fiotecf-am muitos géne-
ros de virtudes, principalmente quatro.- a prudência, a
paciência, a honeftidade, Ôc a humildade . Comapru-
dencia pacificou muitas difeordias, que fe levanraram
entreelRey, & os vaflallos; com a paciência foffcao
graviíiímas enfermidades fem ja mais fe lhe ouvir hum
ay, nem hum gemido: foy tam honefta , que nem para
averem de a ungir, eoníentio que fe lhe defcobriffe oV:
pé. Tam humilde, que fe mandou amortalhai no habi-
to do N. P. S. Francifco,& qne fem pompa algúa a foísê
fepultar na Cidade de Granada. Falleceo em Medina
dei Campo no anno 1304. com fentimento geral de to-
da Efpanha.
Sam fites Reys Carholicos dignos de eterna
memoria, pello bom governo que no feu tempo ouve
em toda Efpanha. Mas onde efle mais fe empregou,
foy na excelente traça, em que deram, para defterra-
tem delia os ladroens, & malfeitores. Porque vendo
que deftes avia grande Qamcío emíeus Reynos: &ex-;


s
ri \ I ' -.,. ••
' txvro I. Capitulo IX: Europa, p
V rerimentado, que por ctros meyos fe nao podiam ob-
íiarfuas exorbitâncias, &iníolencias, inventaram hum
«tamefficaz, como bem confiderados &foy, que em
todas as terras de feus Reyncs mandaram fazer huma
junta gèrál, a que chamaram Cafas de Irmandade com
luizes, & .Alcaydes em todas ellas. Aos quais deram
poder! & jurifdiçaô para conhecerem de todos os rou-
bos, mortes, feridas em defzenos, ou por treinam ; & de
forças, & violências feitas a mplheres. Para os ladro-
em fuy feita aleguinte ley: que fe o roubo for até cen-
to, & cineoenta reis, íeja o agreffor açoitado, &defter-
lado: & íe chegar aquinhentos , jbe coitem as oiti
lhas, & lhe dem cem açoites: & fhegando a cinco
, mH , lhe cortem hum pè, & nunca ja mais fe ponha
a cavallo, íub pena de morte de fetas: & fe paffar de
de cinco mil rcinmotra affeteado, &naõ feja tirado do
patíbulo coro pena da meíma morte. Nos mais cafos
mandaram fe guardem as leys do Reyno.com os delia-
c;lentes. Tanto que nos lugares fe comete algum dei-
tes crimes , fe invplora a auxilio da Canta Irmandade*
» & logo todos, deixando feus exercícios, vjm feguindo
/os Alcaydes, & não piraõ atè.íe na.6 prender o delin-
quente. .Com o qual atalharam de tal forte os latrocí-
nios, & crimes, que de dia, & de aoite fe pód«
caminhar por toda Efpanha íem.-peíigo
algum de ladroens, & mal-,
feitores.

oa ~

Ez CAPI-
/
*&v Biftoria'Vnherfd.

CAPITVLO X.

Em que fc de•ferevem asferras, &■ monte


de Efpanha ,&-donde tefcu principio.

E Screvé comummente os G''ogrâphos, q a natureza


formou o corpo da terra có hum cípinhaço de mo-
tes, que tem fua origem no que fe intitula Tauro, o qual
dividindo o munfo com os braços, & ramos que lança»
tem differentes ntfmes, fegundo asdiverfas naçoens, a
que fe enftende. Tauro fe chama cm fua mayor eminên-
cia, com que divide as províncias dePanfilla, & Celi-
ciada mayor Arménia; Caucafo, &V"araponefo em di-
vefas regioensda índia. Dos ramos hons fe chamaõ
Cfapios, outros Rifeos, outros Hiperboreos: Atlante era
Africa { Alpes, por onde divide Alemanha de Itália; AW-
nino , difeorrendo por cllaj& Pirineos, feparando Fr5ça~
v de Efpanha. E porque efra regiam pela mayor parte he
/tam acompanhada de altas ferras ,& empinados mon-
I tes.uâo fera fora denoíTo intento fazer huma diferip-
çam dos mais nomeados, 5c ihfignes delia, para que os
t leitores teflham mayor noticiados Reynos, & Provir^
cias, em que fe devrdc& reparte. Os Authores, que tra-
taõ deita matéria, dizem que os montês Pirineos, os
quais dividem Efpanha de França feomo fica dito ; faõ >
o principio, Sc origem de todos os mais; por quanto por
fua altura, 6c diftãcia excedem a todos os outros de Ef-
panha. Começão pois eítes mõtes.fcgundo os defereveo
Chronifta Pedro de Medina, júto de Fonterabia Provin-:
eia de Cuipuffiua, oade fç charãozsíctmdQ lafquibel.
\ Pai .
VL ' ;• • • , y
T^ivro I. Capitulo X. Europa^. J69
Dalli vãodifcorrendoa S. Içam de Pie cie puerto.Val-,
de íalazar, & Valderofical: & entrando cm Navarra fe ef-
tendem pelos confins defteRçyno ateXanfranque, Penha
colorada de fronte de laca: & da hi vam as terras de So-
bratbe. Ayofa, Caftil leo. Porco de Vida, Piedtas bíácas,
Alta la Vaca, Potto de Andorta. Abellamar, Porco de
Ribes, Alibia, Alcolde la perxa, Puigualcdos, Gaudies,
SancAnCon de Galamos, Perapertufa , Ficor.ôc Leo-
cara, que difta numa legoa de Safes para aparte de
França, onde por aquella diítancia fenecem , & fe
acabaõ. Efte nome de Perineos dizem os Anthores,
que lhe pnleram os Gregos, que nvyavam em Efpanha
no tempo, em que neftes montes fuecedeo hum grande
incêndio, que fazendo derreter a Prata, qu e nelles avia,
foy correndo a^decer aosvalles. Nem falta motivo,
para que ifto fecrea, porquanto Pir nalingoa Grega,
quer dizer, chama de fogo; & affi Pirineos, hcomefmo
que montes delle,
* Lançam, & pruduzem de Ci eiras altas ferras braços,
& ramos por toda Efpanha; & os primeiros^ ros , que ia em
l"a<rm
val
delles, vão dar em Navarra, onde chamam im Ronces "\^
les, dividindo efte Reyno de Guipufcuai, & Alva com ^--^
não as ferras de
grandes eminências, &■ alturas, & íe ehamão ^
Encia, tocando a da Poblaciò entre Logronho, & Salva-
terra de Alva. Dalli paflfaõ por Viftoria da mcfma Pro-
víncia, & pelos confins das montanhas de Cafiella velha,
não longe das Aflurias deSãtilhan3,&Oviedo, por cimaa
de Saldanha, Carriõ.Sahagú, & Leaô. Por toda efta diítã-
cia-faõ mui dilatados, & altos, lançando muitos ramos,
que vão ter ao mar de Efpanha para a parte do Septétriaõ.
Pouco mais adiante de Leaõ fe começaõ a dividir no ca-
minho, cj vay para Ovidoemdous membros (inalados,
dos quais húfe eftédepara o Meyodia entte Afiorga, &
E3 POOT
- ' ,' A "é
70^ • Hiftoria Vmverfal. '<*
Ponfrrrada, onde eftão os portos do Ravanal, difcori /
rendo pella ferra de Sanabria, ou-Siabra; Sc entra em Por
tugalpor junto a Bragança, até dar nas prayas do Dou. '"
ro. O outro ramo caminha paraoOcciJente por Vil*
lafranca quarro legoas de Ponferrada, Sc paffa pelo por-
to chamado Zebreros de Galiza. Efte entra em Portu-
tugal pela Villa de Chaves, & em Lamego fe ajunta com
o outro braço nas ribeiras, Sc-prayas do mefmo Douro,
A outra altura, donde eítasduas procedem, vay por Ga-
liza» dertamandofe por toda ella como huma rede , até
fenecer no cabo de Mongia , & em muitos portos, Sc .
prayas da mefroa J?rovincia. Dèfte braço, que fae de
Navarra para as Afturias, procede muitos rios: Sc aífi as *
agoas,que correm para Ronces valles, vão parar no E-
bro; Sc as que íaem para a parte do Ocidente, vão dar
no Douro, tirando Sil ,Sc Minho, Sc alguns de Galiza,
que coro feus próprios nomes fe metem no mar. As ou-
tras agoas, que decem para oNoite.acodem às Aflurias,
3c Bifcaya. V
Do mefmo braço Sc ramo fobredito, chegando a
Aguilarde campos, quatorze Icgoas de Burgos, para a ^
parte do Occidente Septentrional , procede o monte ^
Idubeda,onde.eítáo asfontesdo rio Ebro, [unto a hum
lugar chamado Fontible. Defde feu nacimento, aièque
entra no mar ha cento, Sc vinte legoas; Sc fua' corrente <
vay do Norte para o Sul, Paffa pois eíla ferra Idubeda
por junto a Barbiefca,Scdahi apouco efpaço fe come-
ça a chamar os montes Doca ,Sc paffando por Villafran- °
ca fete legoas de Burgos, difeorrem por junto a Frefne-
da, Rioja , Sc Baldaneda; Sc. mais adiante fazem huma
grande altura, q. fe chama Orbion, onde eftjfi as fontes
do Douro, cujo primeiro principio he de huma lagoa
que eílà nò mais, alto, caa» profunda, que fe lhe naõ acha
fundo, •
o
. • ^Lrnro I. Capitulo X. Euroftu. })f%
\ fundo, onde fc tem vitto coufas mcnfltuolas, & horren-
das: & he efta ferra «ma,ta' <lue todooannoeflàcu-
* bertade neve. Deceefterio, em faindo da ferra, a So-
tia, Aranda, fcSimancas, onde fe ajunta com Arlança,
& Arlançon, que vem de campos, & Burgos: & dalli
vai a Camora, & entrando em Portugal, (e mete no mar
junto à Cidade do Porto, avendo curfado cento, & vinte
legoas. Depois efta ferra de Orlion difeotre poj entre
Yanguas, & Soria, Agreda, &Tarrazona, junto à qual fe
faz grande altura de Moncayo. Pouco depois entra,
por ^Aragam, onde a divide o rio Xalon: & atraveffando
por entre Daroca, & Carinhan, Agi.^on, ViUadulce, $
Tortofa,vai fenecer na cofiado mar Mediterrâneo na
Província de Cartagena.
Do meyc^os montes Idubedas faem osOrotpe-
das< que pela raayor parte difeorrem para o Mcyo dia.
Deftes fe aparta hum ramo, o qual vay por junto a Mon-
cayo , & entra no Reyno de Mureia, não mui levantado
áfque chega a Cuenca, donde difeorre pellas ferras
de Confuegra. Neftasde Orofpcda, que por outro no-
• me fe chamáo de Molina, efiáo as fontes do rio Tejo,
f que paliando pela Cidade de Toledo, Talavera, Alcan-
'. tara & outros muitos lugares, entra em Portugal, & fe \
mete no mar quatro legoas por baixo da Cidade de Lif-
'. boa, depois de aver gaftado cento, & vinte em leu cur-
fo.'continuaõfe pois os Orofpedas das ferras de Con-
fuegra a Alcaraz, Sigma, & Caçorla.&em Alcaraz lan-
* çáo outro ramo, que he aferra Morena, a qual difeorre
pela parte direita de Guadalquibir , & fenece na cofia
• do mar Oceano entre Guadalquibir, & Guadiana.
I Pouco adiante de Caçorla íaemoutros dous bra-
ços dos mefmos montes Oróípedas, dos quais hum vay
ao Reyno de Granada,repartido em muitos ramos, que
E4 oceupaõ
\ , ■■

7\ HiJloriaVniverfal. V 1
occupamquafitodoaquelle Reyno, lendo íua mayor ai- /
tu:a a Secra nevada. Donde difeorrendo pela cofiado
mar, paCTa por cim3 de xWalaga, Sc depois de fazer a fer- \
rania de Ronda , fe a)unta com o monte de Gibraltar,
& fenece pouco adiante de Tafira. O outro braço dos
Orofpedjs vay por junto a Ti cu a, Almaçan Bmtngo,
Segóvia, Ávila, Bonilha, Sc Bejar junto a Plazencia.
Dallifeeftendeâ ferra da Gata , que por fua grande e-
minencia eflà todo o anno acompanhada de neve-ç &
difeorrendo pelas alturas de Penha de França, Gadalu-
pe, Sc as mais da Eflremadura, vem a Portugal pela par-
te da Cidade da g>iarda ,Scfe efiende até a Loufa fobre
as ribeiras,Sr prayas do Mondego. Em diftanciada Guar-
da quaíi quatro legoas, junto do lio Zêzere ha contigua
aos montes, huma aprazível eroinene^- a qual eflà co-
roada cõ o forte, Ôc fermofo caftelío de Belmonte, íolac
antigo da illuflre família dos Cibrais íenhores da quel-
la cafa . Ao pè delta eminência ha huma antiguidade
digna de memoria, fuppofto que os Autores nâo fia-
rão menlam delia, a qual he huma torre , que tem por *.
nome Centumcellas, Si he ttadiçam dos moradores da
terra, que arti fe intitulava huma villa, que alli ouve, Sc •
mudandofe para o aito, fe ficou chamando Belmonte.
Eíb torre fe dis que foy edificada por lulio Cefar, quã-
do Efpanhaera íogeita aos Romanos, & que para o po-
vo, que eftava junto delia, foy degradado o Summo Põ-
tifke , & glorioío Martyr S. Cornelic, quando pela con-
ffffaõda Fè Ga.llo, Sc Vlufiano Empersdcres odefter- '
raraõ de Roma. Equealfi feja fe moftra coraeviden-
cia, porque Portugí! era o roais diflante Reyno da jorif-
diçaõ dos R iromos , Sc efta terra huma das mais afpe-
ras, Sc ri^arofas de todas, aífi pelas denías brenhas.como
pelys altos montes, Sc ferras;> ôcaííípor crime que eltes
tinham
r x • v
**Livro 1. Captdo XI. ffiirofa. 9 '73
\ tinhsõ por mais atroz de todos, não svianã de degradar
' os Romanos, fe não para a terra mais alpera, & dcíetta.
' Confirmaefta opinião, ver que junto da mefma torre el-
tà huma ermida antiquiffiraa da Invocaçamdo meímo
S. Cornelio.
Daqui fe começam os montes air levantando com
tam grande altura, que ficam foperio.es a todos os mais
doReyno; & chamandofe antiguamente os motes Her-
mineos ( nome q cambem tinhâo os habitadores dellesj
jade muitos tépos fechamão Serrada Eftrella; no mais
alto da qual ha húas lagoas mui profundas, & campinos
aprazíveis, muitas, & enftalinas agoa^deqoe fe ajuotaq
•randes tios, eõ abundância de neve.q a qu. íe conler-
íatodooanno. Vav diícorrendo efta Serra lançando
. diveríos braços,,* ramos- fendo hum dos pnoapa.s o q
vay aos Algarve?, & faz a Serra de Monchique celebra-
da' dos mareantes, por feraprimeira, que defcobrem
iKje Reyno, Scahi fenece na cofta da mar Oceano:
outro vay ter à Serra de Cintra, cinco legoas de Lif-
boa i fobre a cofta do mar , onde por fer quafi o F.nis
, terras-, Kuma,& outra parte he a mayor diftadcia, & ul-
• timo fim deftes montes Pirineos.

CAPITVLO XI. '


Em qfe relatao as Trovinaas, &• Efiados
qfe uniram àCoroa de Fraca: :&-o poder,
&-grade-Xa de fia <^Monarcbia.
COmo as couías do mundo não coftumam prrmane-
cer roaito em hum meímo eílado, peb pouca'fir-
nuza»
r
*
7^ Eifioria VmverfaL. '*?" * J
mexa, Sc conftancia, que as acompanha, daqui procede *
acharfe grande variedade, & mudança no progreflb, &
difeurfo delh. O que fe deixa ver no Reyno ae .França, *
onde por rezam dos diverfos donos, & fenhores, que ti-
veram as Provindas,& Eirados defta Momarehia variara
tanto os Auchores nasdifcripçoens, & tratados, que del-
ia fizeram. E aííí eu conformandome com o que de pre-
fente fecem por mais autentico, & verdadeiro, trata-
rei de dar notícia da uniam dCrnuitas Províncias, coma
Coroa, & deferevendo cada huma delias em particu-
lar , lhes (inalarei os fitios, comarcas, & limites, que ao
prefente tem, repopilando brevemente as grandezas
mais fínaladas deite Reyno. As Prouincias , & Eira-
dos., que-fe lhe unirão fam os feguintes. Andes, que vul- '
garmente fe chama orf*/í«,foy hum Condado, que Hu-
go Magno de o a Guafredo Grifegonneílo cavallciro de
grande esforço. & valor, porque o ajudaffe na recupera-
çam do Reyno. E vagando por morte de fcus fucceffo-
res, Carlos IX. ounio à Coroa no anno do SenSbr
1568. Sobre Normania côtenderara muitos tempos os
Reys de Inglaterra, Sc os de França, ate que ultimame- C
te lançados delia os Inglefes por Carlos VII . ficou (en-\
/ do dos Francefes. Aquitania.que antiguamente eraRey-..
no.foydada por Carlos Calvo com titulo de Ducado a "
Ranulpho; o qual caiando com Leonora Ing!efa,fov o ,V
Ducado a Henrique Reyde Inglaterra, que depois lhe
tomou elRey de França Philippe Augufto . Touraine,
Picavia, & Ceno mania eftiveram muito tempo em po-#
der do Inglês, mas Carlos Vil. lhas tomou, & as unio à
Coroa de Frto.ça. Aurcliano, que he Orl«t»s (o qual pri- •
meirofoy Reyno, 5c depois fe unio a França) deo Phi-
lipe Valefiocom titulo de Ducado a feu filho fegundo
por nome Felippe, que morreo Cem filhos;; & depois o
deo •
%inroI' Cttptnlo II. TMO$^* Jf
'\ deo■ Garfos V. a Luis fcu filho , cie quem naceo Cailos
"Duque de Oileans, pay de Luis XII. que depois rey-
-:nou. Francifco I. deo também efte Ducado a Henrique
III. & depois a Carlos IX. que iiicederão no Reyno.
Do DelfinadoViennenfe conta Paulo Emílio,
que foy íenhor hum grande Piincipe chamado Vmbcr-
to, o qual por morte de hum íò filho, que tinha foy cheo
de tanta tnfteia , & magoa, que fe refolvco em fazec
vida rnonaftica. Ecomo o Saboyano tratava de lhe ufur-
par o Delfinadofazendolhe guerra, elle o entregou a
Felippe Vakfio Rey de França, com condiam, que o
filho herdeiro do Reyno fofle chamado Delfin. Bur-
gundia, que antigamente era Reyno, foy dada a Rr-
chardo com titulo de Ducado: & faltando legítimos
fueceíTores, Luis XI. o unio à Coroa. De Campania foy
o primeiro Conde no anno 999. Hugo filho de The-
obaldo Blefenfe, ckdehumairmâ doEmperador Con-
ladoll. mas por falta de quem lhes fuecedefíe , tomou
poÍTe delia Ioam Rey de França no anno de 1461. O
Condado Matifconenie foy dado ao Duque de Burgun-
• dia, com direito de que também as fêmeas luecetfdi
.' fem nelle ; mas vend.o Luis XI. que ííto era contra o di-
Ireitodo Património Real faltando a Barcnia.o aplicou
a Coroa. Raymundo Conde de Tolofa , deixando (eu
• Eíbdo fcpartio para Afia, & fuccedendolhe fcui mão
* o Conde de S. Egídio, teve hum neto por nome R.y-
mundo, o qual cafou huma fi'ha com Afonfo Corde
•dos PiaoensirmaôdeS.Luis,&n.õ avendo fiiihos def-
te matrimonio, foy àCoroa o Condado. O Primeiro
. Conde Blefenfe foy no anno de 920..5c (c engatou Gei-;
lcn, ckno de 1391. Guido ovendeo 3 Luis de Olears
àvòdc Luis XII. que o encorporou no Reyno. O Con-
dado Cainotenfe vendço Ioanna Cõdefiade Alençon
o
a Fe
e
»
yák HiftoriaVniuerfal. ^ •}
a Feiippe fermofono anão de u8<5. & Francifco I. o ',
deo com titulo de Dacado a Hercules Duque de Ferra-
ra marido de Renata filha de Luís XII. O Ducado de*
Borbon deo Feiippe Valefio a Lais filho de Roberto
CUramontano noanno de 1317. & fe continuou neíta
família atè o Duque Carlos que falleceo no cerco de
Roma anno 1527 . por cuja morte Francifco 1. o unio
â Coro3, O Ducado Bituricenfe, que fe 'chama Berry,
deo Henrique II. em dote a Margarita tua ifmã cafada
com Manoel Felisberto Duque de Saboya, por morte da
qual Henrique III. o deu a Francifco feu irmam. Fran-
cifco I. foy Gon^c de Angolifma, & entrando a reynar,
o levantou em Ducado, que depois Henrique II. deo a
Diana filha fua . O Condado de Marchia foy dado ao '
Duque de Borbon, & nefta familia eíUve até Iacobo da
Armignac, que foy degolado em Paris no anno 1477.5c
o fifco llie lançou maõdo Condado: porem depois o
deo Luis XII. a Ioaõ II. Duque de Borbon cafadorom
Ioarina filha do defunto. Autiffíodoro com titultf^de
Condado deo Feiippe Auguíto a'familia Cabilonenfe,
a quem Carlos V. Rey de Franç?, o comprou no anno *
1370 6c o deo ao Duque de Burgundia feu irmaõ , mas-
/ . depois tornou à Coroa. /|
O Condado Sueílíonenfe, on SaiiTons, unio Car-
los VII. à Coroa no anno r^S. A Província dos Vero- «.'•
manduos pofiuirão muito tempo vários Côdes, & ferido
toda de Fclip-pe Alfato, foy por fua morte junta à Co-
roa em tempo de Feiippe chamado Auguflo. O Conda-'
do Siluaneétenfe era data do Inglês: mas Feiippe Auguí-
to mandou por decreto feu, qúe todas as terras, que In-
ghtcrrativefíecm França, foffem confifeadas para a Co-
roa. BilJuino I. Conde de Flandes inftituio o Conda-
do de Bononia, Sc o pos em Adolfo filho fegundo, em
cuja ■
T
£mro I. Capitulo XI. Europa-, r?
em cuja descendência fe conlervou por muitos aniios,
\tè que Fclippe Burgundo no de 1463. o venCeo a
Luís XI. Rey de França. A Picardia, que he humà fer-
moía, & ampliffima Província, fcy antiguamente pof-
fnida por vários Condes, & fenhores, porem toda veo á
Coroa de França, ou por eafamentos.ou por guerras.
Bertanha foy primeiro Rcyno, & depois com titulo de
Condado a deo Carlos fimples à Rollano Duque dè
Normania, & fe continuou em feus defeendentes def-
do anno 1250. até o de 1488. em qfalleeeo o ultimo Du-
que Francifco, cuia filha Anna calou primeiro cõ Caibs
VIII. & depois com Luis XII. & à inftancia dos Broroens
feencorporou na Coroa, &juntamcnfe o Condado de
Monforte. No de Brayele Comtè fuecedeo c Duque
de Orleans.&porLuis XII. ficou fendo do património
Real Alencon qpflmeiro foi Côdado, depciscõ titulo
de Ducado foi pro muito tépo poffuido dos Normanos,
õde Dinamarca vieram a Françarporem Helia iimá,&
heíeira de Roberto Conde de Alencon o deo a Felip-
p e Augufto, & a feus herdeiros. Depois o pc ffuiraro ai*
1
gúsfilhos fegundos, atè q faltando a fueceflam, fe orno a
■'Coroa 00 anno 1525. O Cõdado Caftinenfe largcuFul-
>' cão Rude filho do Cõde Andegavenfe a Fdippe I. Rcy
de França; & defdeffe tépo fe encorporou no património
á Real- O Cõdado da Provença teve muitos anno< paiti-
culares fenhores defeendentes dos Reys de -Itália ,. dos
quais fôy o ultimo Raymundo p-y de Marguita molher
•de S,Luis;&por efie modo feencorporou em França.
Propoftas eftas coufas deferevereí nc capitulo ic-
guihte todas a Províncias, &eftados defte Reyno, fica-
dos aos leitores mais clara noticia do que nella fe con-
tem ; mas primeiro direi *aqui'ero geral algumas de
íuas grandezas. porque querer tratar de todas, fora
■'- ° - ' * ' ' " cace*
•\ '•• ...

7% Hifioria X)nwerfdl. ■■ >:•;


exceder â brevidade, 3c limitação» deite compendio i He ')
efta nsçim ( como dizem Iulio Sealiger, & Thuano) bel- '
licofa, Sc naturalmente inclinada às armas .tanto que'
falcandolhe inimigos de fora do Reyno, excitam dentro
deíle continuas guerras, civis bandos, & rebelioens, co-
mo por muitas vezes fe tem vifto.
A grandeza, & potencia deita Mornachia fe po-
de eonje&urar de muitas caufas, & principios. Primei-;
ramente do fitio, porque eftà como medula, & coração
nomeyo de toda a Chriftandade, & por iffo aptiflima
pira ajuntar, & defunir, quando lhe parecer, as forças
dos mais Príncipes Chriítãos, que por todas as partes
confinão com eVa. Como também pelos dous mares,
de que participa Mediterrâneo, & Oceano, por onde
communica, Sc tem commercio eom as mais naçoen do
mundo. He cite Reyno por todas I» partes fortiffimo,
&qua(l inexpugnável, aífi por rezam da natureza do fi-
tio, como da induítría, com que fummamente efià forti-
ficado: porque de Itália o defendem os montes A^es.
de Efpanha os Pirineos, de Inglaterra o mar, de Alema-
nha os grandes rios, fortalezas, & muralhas das Cidades. (
Também o faz fer fortiftimo o eftar todo junto, & uni-
do, fem ter membros feparados, & diftantes. i
Toma o Reyno feu principio no grão quinquageflí- '
tno,5cacabanoquadrageífímofegundo< &para a parte
domar Mediterrâneo goza de tam faudaveis, & tem-'
perados ares, que faz a terra accoramodada para dar, 3c
produzir todo o género de frutos, fuppoflo que.para a
Septentrional, & mar Britanco padeííe f„lta de vinho.
Ooumero dos naturais, & moradores he tam grande,
quefegundo dis hum Autor Francês, pafia de quarenta
milfregucGas, aífi Parophia*, como Cathçdwis. Con-
duz tarabem gcandcaeate pau a opulência do Reyno
& mui?
A
^n
\
'é':vro I. Capitulo XI. Eurofa^. 79
',a multidão»^ communidade dcs riosnavegiveis; 'dos
quais huns o cercaõ coroo Moíella, A rar, & o Rhr;da-
-fio: outros o atraveííam paio mcyo, coroo íaõ Somna,
Sequana, Liger, & Garumna. Deftes o Rhodano fe me-
te no mar Mediterrâneo, & os mais no Oceano, Septen-
trional. Outros muitos ha, que facilitam o commercio
em todo o Reyno; & no Ducado Andegavenfe íe con-
taô quarenta entre grandes, & piquenos- Pelo qual cof-
tumava dizer Cathaiina de Medicis Rainha de Fran-
ça, que em feu Reyno avia mais rios navegáveis,que
em toda a mais Europa. O Liger depois do Danúbio,
temocurfomais comprido, & dilatado ( como eícreuc
Maffon ) pois nacendo nos Valaunos ,Tk paffando pelo
meyo de França, deixando oReynorico, & fertilizado
com fuás corrente^ fe mete no Oseano Armonco; &
defde Rodumna, que vulgarmente fe chama Roanne,
atè a foz fe navega por roais de cento, & feffenta 1c-
goas,
-*Naõ faltam muitos, & bons portos em França:*
com tudo, nota Botero, que as melhores Cidades não cf-
1
tão junto ao mar, mas nos lugares mediterrâneos, don-
:de collige que agrandeza defte Reyno não he extnnfe-
Y.a, masdomeQica.&connatural. A abundância, & bon-
'dade de vinho, que nas mais das Províncias fe produz,
i & recolhe, he immenfa;& elle tam preciofo, que fe igua-
h aos melhores da Europa. Incrível he ( dis Bodino )
o vinho, que França manda para Flandes, & Inglaterra.
•O que íe deixa ver, de que hum fò Mercador Caroera-
cenfe , por nome Lauda, ha poucos annos fes levar para
. Flãdes por terra trinta, milalmudes, fendo os caminhos
afperos, as entradas difficultofas, & em tempo, cm que
não faltavaõ guerras.
Ha tambem minas de todos os metais em França,
8o ^HiJloriaUmverfal. \ J
õípttta de Paris íe ccn por mais excellentcr& fina. Si,
como cal não leva de liga mais que a quadragefiima fex-
ta parte, lançandofe à de Efpanha a trigeffima fexta, co- '
modis o mefmo Bodino. Iunto aos Pirineosfe achará
veasde praça, & ouro, <5c em Careafona . Nos montes
Cemenos, & Gabalos, de chumbo, eftanho, & zouge;
& nos Arvernos de ferro. He efta Monarchia tam copio»
fa de naftimentos, que (fegundo dis Botero ) pode fuftè>
tar qualquer exercito cm campanha. Quando Carlos V."
entrou nella, avia cento, & cincoenta mil íbldados, àlertí
dos que eftavãonos prefidios: & de prefente fe affirma,
que fuftenta efteReyno vinte mil de cavallo, & trinta
mil infantes eftraiígeiros;& dos naturais, quinze mil de
caiullr), & cem mildepè, fem que fe deixe ver careftia,
ou f Jca nos baftimentos. O Empecador Maximiliano ( a
quem os Italianos pela falta do thefouro chamarão. Po-
codenanj coftumava dizer, que os Reys de França tinhaõ
orelhas com vellos de outro , querendo fignificar.com
eft3 metaphora a riqueza, & abundância do ReyncN E

X
por efta rezaõ fe íogeitâo aos tributos, que fe lhes im-:
põem por grandes que fejaõ: fuppofto que de prefente {-
fe dis, que moleftados com continuas guerras os tem re-'
eufadocom alteraçoeos,& bandos. 'Finalmente he tari
poderofo o Rey de França q fe cõ a indulhia, & prudên-
cia conformara as 'forças, & poder que tem, todas as cou-
fas de Europa eftiveram a feu arbítrio: mas he providen-
cia de Deos não querer que concorram, & fe ajunte am-
bas eftascoufas, por atalhar a foberba, infolencia, &ty-
lania. Pelo qual os poetas fingiram a Hercules furio-
riofo, Achiles iracundo,& Marte defacautelado, &
incircunfpc&o nas acçoens, & acertos mi-
litares, que por elle fc regiam,

CAPI-
■ i l'nro I. Capitulo XII. Europa^. *
| . CAPITVLO XII. ,

T>efcrevenfe .emparticular os Eflados, &■


'Províncias daéMonarchia de Fraca.
I
Vinte, & quatro Provindas principais ccftumãoos
Autores (inalai no Reyno de França. A i. he
Xanguedocia: a;.Lugduneníc,que commúmentefedis
LeLyon: a 3. O Delfinado: a 4. Provença: a*5. Picar-
dia: a 6 Francia: a 7. Normannia; a 8. ÇsHia.ouBcaoffe:
a 9. Campania: a 10. Bretanha: a «."Toiôau: au.Xa-
intonge.- a 13. Bturiges, qhe Berry: a 14. Borgundia: a
15. .Bórbonu: a 16. Lemovices, q hc Lirooiíin: a 17. Pe-
.«ocoiios q he Perigord: a 18. os Arvctncs, ou Au-verg-
ne: a 19. os -Cadurcos, q he Quercy: a 20. os Ruthenos,q
he.^.ovç£Ígne; a 21. A quitània; a 22. Vafconha: a 23.
Bieíía: a 24. Bearne.
Em paliando os montes Pirineos a primeira Pro-
vrneia. q fe oíFcrcce em França he a ncbiljíilma Lãgue- \\
I'.docia.q pela parte do Occidente confina com Vafconha;
\ pelo Septcotriaõ, cõ Querey, & Auvcrgne: pelo Oriente > ^\
cõ a Provença-, pelo Meyo dia com mar Mediterrâneo,
Comprehende efia dilatada Província 2. Diecefes, &
/ muitas regioensj das quais a primeira he a dos Valaunos
(que commumente le chama le Vclay; & as Cidades
* principais, le Puys, & Tomon. A fegunda fe chama Ge-
voudan; & as Cidades Mande, Quefac&Chirac. Atercei-
ra he a Abigenfe.cuja Cidade principal he Alba Auguíta,
vulgarmente.Alby.muy nob;e.& antiga.Aquarta he a Dic-
ceie Tholofaha,cuia cabeça.cocnotambê da mais Provín-
cia he Tholoía, que emgrandeza de edificies, numero de
F mo-
< I

8i HiftoriaVniuerfal. )
moradores, Vuiverfidade florentes dignidade de SenaJ .,
do, & abundancia.de riquezas, he aíegunda depois de1
Paris . O rio Garumna a cerca quafi toda, enriquecen-*'
doa com Tuas eriftallinas, & faluciferas agoas , pela/
quais .comrounica feús corameicios com Burdeus. A <
quinta he o território Lautacenfe, cuja cidade principal
fe chama Caftelnau de Arry, povo grande, & de muitos
vizinhos, diftante quatro legoas de Tholofa. A fexta
he o nobiliffímo Condado Fuxcnfe, cuja cidade prin-
cipal he Fuxo, onde refide o Governador. As mais
faõ Pamiffrs, Saverdun, <5c Maferes, Carmania , MU
iepoix, Caferes, JVieux , & Garcafona. Narbóna cida-:
de Archtepifcopaw mny antigua, & famofa, eftá pofta era
hum campo fértil, abundante de todas as couías, por on-
de pafla o rio Atace, que perto da quj-fe mente no roaf
Mediterrâneo. A cidade de Alcth eftá junto aos motes
Pirineos, & Agde junto a foz do Atace. São também
defta Província as cidades de Befíers, S. Pons/ft Ledóí
ve. Mompelher eftà em hum fértil, & fermofo-fitio, cõ
hua Vniverfídade infigne, q comummente fe chama Ma-.
galonenfe. A mayor de toda a Gallia Narbonenfé.&a,
prioeipaí he a cidade de Nifmes, afilem riquezas,como,; hl ,

/ em edifícios dos mais fumptuofos doReyno. Vltima-,(


Vltima-(
mete faõ também cidades Epifcopais Vzes, Eaulne, Lawi La
Vaur,Montalvam Vivario, & Nonnay. \ '
A Província Lugdonenfe, queheLeaõ, confin»
Pelo Septentriam com Breffa; pelo Oriente com Sabo-
ya; pelo Meyo dia com o Delfinado -, pelo Oceidente
com Auvergne. Sua metropoli he Leaõ cidade antiga,.
& nobre com a Academia Lugdunenfe. Iunto a ella •
corre o rio Arar, que não longe fe mete no RhenO»
Grandes confas conta deita Província Guilhlmo Pa-
ladino, que fe podem ver no tratado, que fez dellai as
quai» «

c
.! i'-
KN! "I^vro I. Capitulo XII. EurovZ\ ' g>
\« quais naõ relato por cauía de brevidade. **■
, íw ODelfinado, Provineia nobihflima, confina pelo
I Meyo dia com a Provença; pelo Occidenre.a demarca
• V) Rodano;pelo Septcncriaõ Leaõ,pdo OccidéteSaboya
<T & os montes Alpes. Commummente fe divide em Su-
perior, & Inferior. Da Superior he metropoli Ambrun
. principal cidade dos Alpes maricimos, como dis Thua-'
no. Iunto a ella corre o rio Druencia que a faz abundãte
de trigo, vinho, & de todo o género de frutas; & tem Ar-
Cibifpo. A fegunda cidade he Valença junto ao Ródano
cercada de dous muros,& muitas torres. Ha neila Bif.
po, & Vniverfidade, onde Cujacioilluítrou o Direito
CIPII com fumraa gloria Da Inferior he agora metropoli
Orenoble, onde refide o Prefidente de toda a Província.
. A fegunda cidad£ he Vicnna antigamente primeira t <Sc
agora refidenciaTo Arcebifpo. Romãs he cidade (como
dis Mafíon) muy femelhante no fitio a Hierufalem , & fe
te» por huma das mais ricas defta Província, fituada iun-
to a hum rio chamado liara.
# A Provença nobiliífima Província de França,
k_ #. confina pelo Norte com o Ddfioado, do qual a d.W- V
vdem os montes Veleos, & o rio Druencia; pelo Oriente X
1 a demarcam os montes Alpes, & o rio VarorpeloMeyo %>
J dia o mar Mediterrâneo, pelo Occidcnte em parte o
,/ Principado dos Araufios, em parte Avinham.&o rio
Ródano. Ha nella duas cidades Metropolitanas, & onze
m Ep.fcopa.s. As Metropolitanas faõAquaSextia (& vul- *
garmete Aix) onde refide o Parlaméto, cidade antigua.Sc
nobre; & Arelate, ou Aries, junto a hú rio chamado Tu-
• ron. Das Epifcopais he a primeira Marfelha, a qual (fe-
gundodis Maflbn he cidade antiquiffima, cercada por
ires p3rtes do mar Gallico, & pela quarta he inrxpugna-
vel,porrezaõde húa alta eminécia, eme] cítà fundada.
F
* As
I , ' *
84 Hiftoria Tjmuerfd* bjj
As mais Cidades faó Dini Ga (Tc, Glarxieves, Senasnoi */j
Alpes marítimos, S. Paul de Vences-, Ape, Reius, Fteju-.
Is, Ciíteron,& Tolon. Três Jegoas deita Cidade ficsõaS0 A
ilhas Hieres, junco das quais fe colhe- muito,. & finiffimo
coral. Perto donde o Ródano íe mete no mar, ha duas
ilhas, hum» fe chama Martica, 5c a outra de Pequais, on-
de fe faz grande quantidade de Sal, em que elRey,&os
moradores interefíaó muito. He eira Província ferulif-
íima, & abundante de azeite a çafraro & de todo o gene-
xo de frotas de efpinho, laranjas, limoens, <5cc. porê he
frigidiffima junto aos montes, que eftaò (empre cuber-
tos de neve: mas p vales de grandes paftos, & boas cni
açoens de gados.
A Picardia excede (como disThuanoj a todas as mais--
ítn nobreza , & Cavaleiros. Da parte, do Septentriam
confina com regioens do antigo-Bclgio, que agora fe
chamão Artefia,& Hannonia.- pelo Meyo dia com Cam-
pania, «5c com a Província, que fe chama la Francia^ pe-
lo Oriente, com Luxemburg,& Lotaringia.-& pelo\i>c-
eidente com o Oceano Britânico ,& parte de Norman-
nia. He ferti-liífima, & como tal dà abundância de trigo;
a Paris,& fua Província. Não tem vinho por falta da
induíhia dos moradores, que fe naõ aplicam ao cultivaté.f
/
Dividcfe em três partes Vera Inferior, & Superior: a
Superior fe contem agora quafi toda nas Províncias
Belgicas. A Vera tem o Ducado de Tirafche.cuja cida-
de principal heGuifa. Tem mais o Condado Ambia-
nenfe, que he Amiens, o de Veromenduos o de Soiflon,0
Noyõ.S.Quintin, Laõ.Sc o de Retclois.cuja metropoli he
Retel. As outras cidades faõ Amiens, Soiííõs, Abeville,
Corbia; Petõne, Dorlé S. Quintin,Noyõ>LãoBoulogne
Ia Fere Bíauvais. A Inferior cõp:ehédc Sãterra, onde cf-
tã* Mõdidier , Roye, 6c Neslez lugares bem fortificados:
. „ 0 COí?
r
r
I
»

9>
È^ ' "^Ív.ro I- CaPtul° XH- Europa. ' 87
^(. t> Condado de: Pontbieu, cujo lugar principal he "Abe?
f ville* & o Condado Oyenfe, que fe eftende atè DunKer
Ke,& íua cabeça he Cales. Os rios principais deita Pro*
V" íyinciafaõoSomna (que paííando por Pcrona, Corbia,
f Amiens, & Abeville fe mete no mar junto à .cidade de
Crotoy, caftello, & Porto de Pontivioj Oyfe, Marne,
Ayne, 5c Scarpe. A cidade de Cales ettà por todas as
partes cercada deagoa, que a fazem quafi inacceífivel;
íèmportodeirmr para a parte do Oecrdente, & para
'■á mais, fortiífioras tçrres, & muralhas. Neíte porto
não podem entrar nãos, fem primeiro regiílrarcm no
'prefidio de Risban. Eíta cidade tojiíou o Duque de
• tíuiía MM Inglefes no anno '1558, « os Efpanhoes a
! '«ornaram no de 11596,.. mas -em breve foy recuperada
# pelos Francefes^, Amiens lie cidade rica, & belicofa;
aqual tomou por treyçam Alberto de Auftria no anno
1597- porem no mefmo atornou a recuperar elRey
-H|prique IV. Corbia he também famofa cidade-, &
■diita quatro milhas de Amiens. O Condado de Bo-
nonia he grande; & dilatado, mas o território junto
^ .ao mar cubertode areais, pella terra a dentro de tna-
/ tas, & brenhas , com humas altas ferras, a quem chi-
Itoãó fos montesde S. Ingelvert, &les-mons deNsqf
^Caftel, & Danncs. Nefte Condado cftá Balonha; que
o Francês tomou aos Inglefes no anno ^50.. Efiàtam-
bém nefta Provinda o Condado Guinenfc, on.ie he lu-
^.gar pn'ntíc«t Quinesr&><o iPontiveofe, cuja mecropoli
he Abeville/cofDO..fiC3)dico. Perona he cidade forriffr-
mi junto ao rio Somnas & outras muitas, mas naõpodê
• 'defereverfe todas,
La Frmcia he húa Província nobiliílíma defle Reyno,
fot rezam da qual todo elle fe chama Frãça. Soa mrtro-
-Jíoli he Paris Corte dos Reys, & cidade princip -1 defta
F3 Monár-
%
%
i 6 '. I '

80 ■ Hifloria TJnherfal.
Morfarchia, Eftà nclalo Vicceondado Parifienfe? O '/}
Ducado Valeíio, & os campos dos Vrapifios,que vut-'
garmente fe chamam le Horepois, & lcGaftinois. Lu-
tecia, cjuchc Paris, eltá fituada no campo Parifienle .a-
bundantiííimo de todas a$ coufas.: Paffa o rio Sequana
pelo meyo delia; o qual nàeendo nos Heduos difcorre
pelos Tricaffcs, onde (como dis Thuano; fe mete nel-
le o tio Alba,&juntoa MoretooLupa Marne, & outros
navegáveis, pelo qual de todas as Províncias, pot onde
paffam he provida a Corte de grandei abundância- de
mantimentos, & regalos. Eem paliando o Sequana a
cidade, dà tais voltas, 5c rodeyos pelos campos, que naõ
fendo delia a Poíiiaco mais de quatro legoas por terra»
pelo rio. contaõ vinte, Sc feis os que navegam por elle.
Tara vagarofo paffa por eíla regiam, aue parece qcon?
tra fua vontade fe aparta delia. Donde procede íer efta
cidade taro populofa, que pode competir com todas as
grandes do mundo Iulio Scaltgerdis, que dos murx>sa
dentro tem doze mil vizinhos, & que nos artabaldesiie
muito mayor o numero. Ha nella huma das roais floren-
tes, & illuítres. Vniverfidades de toda a Chriftandade:
3c feu território tam povoado de jardins, & bofques, &
quintas, que parece hum paraifo da terra. A ilha da Fran-
/ cia ( coroo commummente fe chama) contem tudo o
que ha entre o lugar de S. Dinis, & p Poíiiaco, & quan-
to o Sequana com feus giros, & voltas abraça. O tem-,
pio de S. Dinis difta de Paris pouco mais de mil palTos,
lugar grandiofo com as fepulturas dos Reys de França.
O campo dos Vrapifios começa no Sequana por baixo
de Paris, & fe cftende ate o rio Vcrine, que o divide do
território Giftinenfe. Nefta Província eftaõ os fump-
tuofifínios paços deFontiblandi, para onde os Reys-fe
ictiraô algacnas vezes. A província, & território G.aflil-
nenfe
» • »
^hmro I. Captnlo XII. Europa. ^ %?
\- aenfe eomprehendeo Ducado Staropenfe, & o Nírao-
f rofío, & o Condado deRupifort, o Moretenfe, & ou-

r*i Normaniahe Província ampliffima, a qual divide


' da Francia o rio Epta, que junto a Roche Guyon fe ajú-
ta com o Scquana, pela parte do Oriente. Pelo Ocei-
dente a divide da Bretanha outro rio chamado Cenon.
Pelo Septcntriam confina com o mar Britânico, & pe-
lo Meyo dia com os Cemnomanoj. Dividefe em Supe-
rior, & Inferior. Na Superior ha três Ducados, que faõ
Alençon, Aumali, & Longe ville, Ha também fete Con-
dados, Eúr Harcourt, Eurcux, Tanegruille, Maleurier,
Mortain , & Mongummery. A metropoli he a cidade
de Rotòmagi fítuada junto à foz, & barra do rio Sequa-
na. AuranchesJie cidade Epifcopal marítima, como
também Eureux, &Bajeux. Caen eftà pofta /unto ao
tio Olena', pelo qual fobem os navios domar Oceano
ecun a maré atè efte porto ou bahya. A Infrrior contem
o campo Vexinenfe , cujo principal lugar he Giforcio:
& a regiam de Caux, onde a primeira cidade he Dieppa
* . não longe do rio Betuna . No território Conftancienfe
* *à eftaõ Conftances, & Valoigne, Iuetocio, ôcFalaifc.
1 Bclfia, que commummente fe chama la Beaufie, \
| fe divide em tres partes, Superior» & Inferior, & Media.
':§ Superior contem primeiramente a regiaõ dos Carno-
tenfes, que Cartrain, onde eftara os Condados de
Dreux, & de Monfort: o Ducado Andagavenfe , & O
* Condado de Perchegovet. A Inferior, que he Campi-
na, fe eftende entre o Bifpado deOrlians, & o Carno-
tenfe, onde também fe contem ode Seealaunia. A Me-
dia fe attibue todo o território das ribeiras do Ligeri,
defde Rotòmagi até Vendocino, & os campos Toro-
nenfei onde cftão o Condado Blefenfe, o Dunenfe, & o
F4 de
\
■ ) •

88 Bi faria IJnwevfoi.., , f:\


de Tornodote: o Ducado Vendocino, & o Viironen/ç j
Belfia Carnotcnfe (dis Maffon) he regiam, que produz '■
grande abundância de trigo ;& deído rio Ligeri, &Or-
lean fe eftende pot efp3çp de quihze legoasyatéStamps,
& dalli ate Paris fe contam quatorze das menores q não
faõ mais de dous mil paffos cada numa. Não ha nefta re-
gião montes, nê rios, & as arvores ainda q naçaõctecé
pouco, nê ha mais agoas, que de poços, & chuvas, dcq
bebem os gados; & lhe chamam Maras. Autritico (q he
Chames) he a primeira cidade deita Província junto ao
lio Dura, & Droea (oaDrenx) he cidade antiga, & fer-
moía. O Ducado Andegavenfe he região fértil, & muy
frefca,& produz rooito,& bom vinho branco; fua metro-
poli he AngetSy pelo meyo da qual pafíao rioMedoana.
Ha nefta cidade húa Vnivcrfidade ini^gne: & a efle Du-
cado faõ feudatarios o Condado Cenòmaneníe. (que l>c
Mainejcuja cidade principal he lc Mans,& o Vcndoci-
no, qhe Vendofme, & agora Ducado. Oileans he huraa
cidade ferraofifíima, & rouy populofa, & du?s milha?Jda
qual té Teu principio o rio Loyrer, tam grande na foz co-
mo na fonte donde nace, & dalli começa anavegarfe cõ-
grande utilidade da cidade, porq" como naõfeca de ve-
rão, & nem de inverno fe cõgela, fe aproveita em todO;|
o tempode fuás correres. He o território defta cidade fer-
tiliffimo.ôc abundante de todas as coufas.Os Reysdef ra-
ça á coítumamdarao filho fegundo cõ titulo de Duca-
do. Té Vniverfídade celebre, & fe chama Aurelianeníe.
Do Ducado Turonenfe he metropoli Cefaroduno (que *
he Touts) na qual dis Maffon, que fe acham as melhores
frutas de toda França..
Campania tomou o nome de fer terra píana. & toda
capina, & fe divide em Superior, & Inferior: na Inferior
cftão os Tricaffes, IoigQios,BafíiâOÍos,& Vallage. Na Su-
per^
c
t
. 1- ;
\ orno? «(tbwfrW Pettcnlç», £ fflc#0gplfe,id3j&ftrior
^YheTioyes junto a^Rio-Sç^uapa, cidade atnpjliíÇfla^cpr-
*'te .& lepultura dos anÇiguos^odff ^115%^; Can>

Pa:fs de Portais, h^^Vtíaqria^^çdificada.-fJOriFrançiícç


I. meya legpa da optra, que os Efpanhoes aprazarão nas
guerras p3fíadas,&fe chama comummente Vitri lc Fra-
çois. Nefta Px,ovinji;a eftao os Ducados-Remen/e, Sc
Lingonenfe, & es Condados Catalaunenfe,Ligpienfe,;Sc
Motenfc. Do Ducado, & Arcibifpado Remenfe he me-
. trepoli Remis, ondeie eoftumáo coroar,& uagirosRe-
ysde França; &o (cu Arcibifpo he Duque , & Par, Do
Ducado Lu>gonenfeJie metropoli Angres, &,os.feus
Biípos faõ Duques, & Pares de França nos finsdeCam-
pania , & Burgundia chamada la Franche-Çomfé. Do
.Pucado-6acalau?enfc he cabeça a cidade;-de Çhalon
cmCampagne: & feu Biípo he. Conde ;&Çaj,deFrança.
Também aefta Província fe atubue o A^ebifp^do^Sc-
noSenfe, cuja metropoli heSens junto ao rio lorne,cir
dade an.tiquiífima, & mui populofa.
* i CAPITVLQ Xill.
TT-XT-T Á ' vTTl

Bi Em me fe continuao as mais "Províncias.


&Vi „ , deí rrança.
T~

Retanha nobilifííma Província confina pelo Ori-


ente com Normania , & Angersi pelo Meyo dia
comPoidou; & pelas outras panes com ornar Britâ-
nico, pelo qual entra com.hunialingca, & ponta de ter-
' ra. Divideíe ffcgundp MniTon ) em Superior, ende ef-
tão os Nantes, Redoens, & Venetos: & em Inferior,cn-
deíe contem os mais povos de Brexanha,principalmente
' "> '■ •■" aquel-
A

aquefies, que fegunUò fe diz, vierão da B-etanha maior, ''


qae helngtaterra, para eftas partes; & fc deffércriçãonai
lingoa dos outros B;etoés; & -mais parece que batem
os dentes', do que movem a lirígòa, quando fàlláo. Tem
nove Bifpados & outras tantas Cidades; o primeiro Bit;
padoheo Nannetenfes o fegundo, Vcneto ; o terceiro,
Redonjo quarto, Dolenfc; oquinto,Maclovienfe;ofcx.
to S. Brican; ofcptimo, de S. Paulo lieonenfej o oitavo,
Corifopítenfe; & o nono, Trecorenfe, Saõ os homes.Sc
molheresdefta Província, como também os brutos ani-:
mais, & arvores, de mais pequena cftatura, que nas mais
de França. lunta.aomar he mais povoada, por fer fér-
til, porque nas mais partes por eftéril fe habita menos.
A metropoli da Superior he a cidade de Nantes, porto
famofo defta Província. lunto a ella fiorrc o rio Ligeri,
onde tem huma ponte de pedra de cem paflos'. Aqui
fizeram os Príncipes huma amplilfíma fortaleza onde
coftaroavam morar. Na Bertanhà Inferior ua melhores
cidades, & povos. Venecia.ou Vantes, foy antigamen-
te huma das maiores, & mais poderofas cidades de Bre-
tanha , poda no mais intimo recanto domar: defronte
da qual eftàa ilha Canohefo (vulgo Belleíle ) chamada
aflípor fua fremofura, & belleza. Difta do çontinente.f
/ quaíi íeis legoas, & quatro do porto Tiberoni.- tem fcte
de circuito , três, & mcya de comprido, & duas de largo.
A Pravincia dos pi&oês (chamada PoiftouJ con-
fina pelo Septentriám eõm'B'értahha, & com Angers;
pelo Oriente,com os Turoçs Bituriges: pelo Meyodia*
com Xaitonge; & pelo Occidente tem o Oceano, Ha
oefta.Província 1200. Patcoçhias fugeitas" atres Bifpa- ■
dos qfaõo Pi&avienfe o Malleacenfe, & o Lucionenfe,
A metropoli he Pi&avio (ou Poiílièrs ) cidade ampla,
& rica junío ao rio Clanio. Também eftânella ò Prin-
cipado ■
(
t
•■•»'■■ ". . i
V. \iyro I. Çapituío,]cni.-:^iro^. > 3*
\* iàfuiPi #i*T*Jraqíh,5í;uja .cabeça be ((eg^ç^ííon)
' *Taloíundo , porto celebre, frequentado de mercadores;
*q Ducado de Çaftelleraut, o Condado de Thuars, & o
f Vterritoriq Le;AngomoÍ£, que «1» vinte, & quatro mi-
lhas de comprido, & dezafeis dc.,largq, çoja cidade prin-
cipal .hegngolifma fundada em hum alto monte, fcomp
dis Thuano) donde fe defcobrem todos os lugares, q
demarca, & eonfinaõ com cila.
A Provinda dos Santones fouXaltongc), confina
pelo Septentriam com Poisou* pelo; Oriente com En-
golifma .• pelo Meyo dia com orlo G-arurona ; & pelo
Occidente com o Oceano. A principal cidade he Xa-
in&es junto ao rio Carantono'.. .AsrAaisfaõS- lean de
Angely, Lorgaire ., Archaut, Ppnte Loubleze, & Broa-
gío, onde fe faz tara grande copia defal, que prove del-
le todas as partes^eptentrionais. Eíte. lugar tomou Ar-
donio Villeriõ aos Proteftantes de pois da guerra Mon-
cotuiiaoa ..Defronte de.lk para a parte do Occidente
fk:?ailha VliariO;,mu,y fértil, & rica com fetc legoss de
circuito, ;& fe chama vulgarmente Oleron ; onde eftà
* hum Convento de Cónegos Regrantes, outro de Sam
" • *Francifco,& outro de S. Bento, a que faõfogeitas íeis
IParochias. Porefta Província de Xaitonge .coftumáo
W dizer os Francezes : \S$U■■'frtuç" (ftoh.un otuf,-.S*itmge
à tn JetohU moytuf. Se fazeis França hum ovo, he Xaitõ-
* ge a fqa gema. E com rezaõ (disMafíbnJ porque na cle-
mência dos ares, na fertilidade da terra, na bondade
• das agoa$, lenaventagem a todas ■■■ hc abundante de vi-
nho, trigo, legumes, & fal, com muitos portos de gran-
. de commercio. Aella pertence, a região de Aulnis, cu-
ja cidade principal he &, Rochella pofta,junto ao mar
em hum^ campo fértil, ço|n> gtarjde çommunidade de
porto p*SÔ3|fi#fifibe«jfiÕ«WMm%! fc-lo. qual osPrjncipes
lhe
>
- - \ • <

pdpóibfa, 'fica, dá?^fõrfcè.-* "Etta^iWiaè tomaram oslnglè-i


íes (cboio dis Io.<õ'de Leat ) noanno 1360. com Pol-
&ou,-Lemoges■ Xiintôngue-', <5c EogOliima: porém os
•Rochèleíb* ííift â?aè6Je3Íml^#¥e'lftc tebèllãrSõ,5Hà#.
$âdtfo) fò^dS <íniÇrfTg#$ í"0efiftit>a òbedifetâirô fcu Rty.
Também èm tempo de Luis XIII. fc levantarão con-i
tra elle; maserabreve foram conquiíiados , & 'tcdazi-
:
dcs. -Defionteda Ròdíelliíem diftancía de duas legoas
tfêa ailfta^e^Re,' a qual WRál>tiÍK&-âè comprido ,'ôc-HSí
& meyi de largo, rica,■■& abundante de vinho, & das
mais coufas neceJÍarias pará^tádi? o «M
A Província dos Bituriges, que he Berrai confina
pelo -fto^fteídflífoá Sfítaftunte^rte delif ^BealiiTe^déqóé
a divide o riò"' Garo; pelo Oriente tfbwBorbdtttò?> Pelo
Meyo dia com os Zemovicesidk peio Occidente com
Pi&ou por hum pequeno' rio chamado Clery. A roetro-
poli deita Província, & Ducado heBOfirges. cféadç^Ar-
chiepiícbpal ? com huma Academia illufire- chamada
Burgerife. Três rios a cercar» por hua parte, que íaõ
{fegundoMiíTon1;) Avariéo, Avureta, &Elaveriolo; <k
pela outra o Eura, & o Moio. A fcgunda cidade he Iffon- 1
"duri; bnde fe;'adiam vinhos de mais de vinte an'nos con-i'
/ fervamos V-Y\ terceira Dun le Roy: A quarta, Vierzon; A
quinta , Mehun . 'N.ofta Provincial eftà o Condado de
Sancerra, o Condado de S. AigWa'rí,i& a Batoivjade Mo-
te falí?áb.Sí: ' •■ Sf:
>*Vfi ?-oh eton
•Burguodia fòy &«tí^uamf ííVtfrftief n&', Jk âgôra af-
iz dividiJo em Rvfôflbi & Superior*? ^«Irífferior' he Du-
cado de França, & a Sãpeíior.qGdndadd delReyde Eí-
panhá. A Inferior divilieo^ela p^átte' do Oriente o-Rio
Rim de Saboya, SbGlSDMMoJiiBbigWtiteirpetò M%-
-yo dia conffòttkó&f ttfíílifdWaôfiiiáfdâftWíe^peloi Oe-
ciden-
A / ''■•'•
' V !
^So -£^° *• Capitulo JtTlL Farofa^-. ■ p
:
'V cidentc, com os campos de Boibonia, & peloNnrTccõ
"tCampania. A fua mctropol» hc Dyon, onde tfià o Par-
L lamento Real, Cidade íituada emhúa phmfie, abnndan-
4 «teAfrefca,regada com os dons riosSi'/on,& Leauche.As
' Cidades Epifcopais faõ Auguítoduno, q he Aucon, a qual
ffegundoThuano)he a primeira Cidade dosHcduos Que
foffe antiguamente ampliílima o molha o circuito de
feus muros, cj tem fete milhas, da qual hoje a mayor par-
te íc cultiva emortas, pomares, & cápos. He também
EpifcopalChalon, junto ao rio Arar em hum capo muy
fértil, ôcfaudavel.Como também Neveis, MaIcon,&Ie
Pais de Anxerre, que he Autiíliodor^.
Borbonia he hua Província pequena, que confina
cõ Berry, & cem Limoifin pela parte Occidental: pela
, Setentrional com Nevers: pelo Oriente com Burgun-
dia, &pe!o Meyodiacõ a Província Lugdunenfe. Divi-
defe em Superior, & Inferior. A cidade principal da So-
pear he M-òlina, ou Molins, junto ao rio tlaver, copio-
fatle peixes, principalmente Salmoens, & a cidade mi-
^ mofa, & frefea com muitas hortas, &: pomares. "As Aí mais
,faõ Bourbon cidade pequena ( de qijuem toma o nome \
a província ) Montmcraut, Montluíoi íon, Chance He , 5c ^^
Gharoux. Comptchendc também eílaa Província o con- \^
dado de Beaviolois, cj contem toda a terra, q ha entre o
Liger, & o Arar, que vulgarmente fe chama, la Saone.He
efte Condado ampliííimo, & alem das aldeãs tê qusfí de
quarenta cidades ,& villas muradas, fendo as principais
Mombrifon,&Feurs. Iunto a efta fe levantaõtres mon-
tes, q perpetuamente vaporam chamas de fogo; & ne lies
ha minas de carvaô de pedra q he o q fe gaffanaquellas
partes. Tãbem té pedrerias.de q (e tiram mármores de cor
de cinza finifíimo, q levam por toda a Provinda, para or-
nato, 6c guarnição dos edifícios. £ no anno 1605. fe tirou
:
~ . t hinva
>
?
,-•>
94
/ 3£7 Hiftoria; .1fjmvèifal.
•. : i
%

tf
O
humfpedra de altura efpãcofa, -Sc nunqua vifta.de qfe fes •
huma fernioíiilina Cruz celebrada em Coda Europa,ai
qual fe collocou em huroa ilha chamada o Prado das fei-
ras. A Barbonia Superior he quafi coda montofa, & naõ'
cem mais que o território chamado Combraille, onde cf-
Caa cidade de Montagu.
A Província dos Leraovices, que fc chama vulgar-
mente le Paiz de Lemoíin, confina pela parce do Nor-
te com Berry: pelo Oriente com Borbonia: pelo Meyo
dia com Auvergnc: pelo Occidence com Perigord, &
cora Poisou. Dividefe era Superior, & Inferior.- da Su-
perior he metrogoli Limoges cidade junco ao rio Vi-
genna. A Infêriofrè chama la Marcha de Limoifin, cu-
ja cidade principal he Tulla com poiicos moradores, &
cregida era Bifpado por Ioão XXII. no anno 1318. fe-
gundoThuano. He também Vfarca, que fe cero por in-
expugnável junto ao ,rio Vazera, donde fe dis porpro-.
verbio era França; <H*tm tem cafa em Vfateba, tem farta-
lezaem Limoifin.
A Provinda dos Petrocorios, que he Perigord,
confina pelo Orience com Limoifin; pelo Occidence, ôç
Norte cora Xaintonge; & pelo Meyo dia com Aquita-
nia.de quem a divide o rio Dordona. Tem muita no
breza (fegundo dis Thuanoj mas he gente amiga de
novidades,afpera, & inclinada a brigas, <5c diffenfoens,
baítandolhe pouco para logo fc inquietar. A principal
cidade he Perigeux fituada em huma campina , que
por todas as partes eftà cercada de outeiros plantados*
de vinhas. As mais faõSorlat Epifcopal, Nontron , Lu-
nel, Biron, Branthomé, & Liburno, que eftà pofia onde
oriolfula enrra noDuranio: ôc por rezam da maré que
fobe pelo Duranio.&fercprefa nolfula, & como ve-
heraente vento, que de ordinário alli corre, de tal forte
fe

1
Ú« li%yL'Capitulo"XIll. Eurof<i_. ' 9f
\ fe inquieta, & embravece a egoa, que fe os que po?3qui
Jnavegamnao forem muito atento, fe.veram em grande
t .perigo: o vulgo chama a efle ponto Mafcareto celebrado
i *em Aquitania por huma das grandezas, & maravilhas
/ daquelles lugares, & creo que a cila allude Horácio, quã-
do dis: Ibis Liburnis, &c '
Os Avernos, que he Auvergne, he huma Provín-
cia que demarca pelo Oriente cora os Lugdunenfes; pe-
lo Occidente com Limoiíin; pelo Meyo dia cora os Ve-
launos; pelo Septentriam com Borbonia & Berry , Divi-
defeem Superior, & Inferior. Os lugares da Superior,
que he quG toda de montanhas, faõ S^lour, cidade E-
[ pifcopal, Onlac, Charlat, iMurat, & Billon. A Inferior
tem quafi vinte legoas de comprido, ôc oito de largo, Sc
> íc eJjamacornmi^mentelaLigmane, cuja cidade prin-
cipal he Claramonte frefea, com muitas fontes , & de
aprazível vifta . As mais faõ Rion IlToire Brioude, Ôc
Aigjpperfe. A efta Província , pertence o Ducado de
Montpeníier.
# A Província dos Cadurcos (que commummente
fe chama Quercy; confina pelo Occidente com Peri-
Tord; pelo Oriente com Auvergne; pelo Septentiiarn
:om Limoifin; pelo Meyo dia com Vafconha . Tem
[cluas Diecefes, Cadurceníe, & Montalbanenfe. A prin-
cipal cidade he Cahors, junto ao rio OIta., A outra he
Montalvam, rica, populofa, & bem fortificada fobre o
w>Tarno, à qual fez Bifpado Ioão XXII. As mais fam
Caftel Sarrazin, Lauferte, ôcSovillac.
Os Ruthenos, cuja Província fe chama comtnum-
• mente Rovergne, confinam pelo Occidente cum Quer-
cy; pelo Septentriam com Auvergne; pdo Oriente com
os Velaunosi pelo Meyo dia com os Albigenfes. Aprin-
«»pa| cidade he Rhodes: As mais, Villafranche-de Ro-
vergne-
...
pá J HiftórU TJhwerfd,
vcrgne, Eftauges, & Efpeyron. •
A quiranÍ3 continha antigamente à terceira pafr>
te de França,- mas agora he muito menos, pois felhe
não configna mais que o que fe contem entre o rio Ga»
zurona, &os eonSus de Guienna. Primeiramente ter»
junto ao Oceano os payfes de Medoc, onde junto á foz>
& barra do Garumna eflà o caftello Cordoano fobre
huroa fortiifima penha, com fatoes acefos de noite pa-
ra raoflrar o porto aos mareantes. Comprehcndem ef-
tes payzes toda a terra.que ha entre Burdeos, oOcea-
no,&G'uumna, regiaõtotalmente infrutuofa , Steítctil,
fuppofto que junto ao mar dá algum vinho,& fal. Na foz
doGirumna fe pefeão muitas oftras , a que os Burdiga*
lenles chamaô Glarcofa,& Solaccncia. lunto a Medoc
ficão ospiyzís de Bouch, onde fe ç^o dà outra c/iufa,
por fer tudo aièa, mais que pèz, & refina, que he o con-
trato da quclla gente . A Província Burdigalenfe, vul-
girmeme Bordclois, tem por cabeça Burdeos, indigne
promontório, & porto de Aquitania . Quatorze milhas
deita cidade, & trinta da foz do GarumnaeítàBlaye, lu-
gar, & caftello fortiífimó com perpetuas vigias (fegundp
MafTon ) queobfervaô todas as entradas, que por cftc
Rio fazem os navios: & ficou pofto cm coftume, depo
/ is que os Inglefes foraõ explufados de Aquitania, que
não poffâo com fuás embarcaçoens ir aportar, em Bur-
deos, fem primeiro abaterem o eítendarDe, & velas ante
efla fortalefa,difparando tiros, & pagando hum efeudo
de ouro por cada navio. Da província Vafarenfe, que
he.le B>fadois,he cabeça Bafas, cidade antigua, & Epif-
copal. A coda marítima de Aquitania íe eftende def-
de Burdeos até Barona por efpaço de trinta legoas,
fendo toda eftetil,& infrutuofa. & lhe chamaõos Efpa-
nhoes las Lianas de Aquitania. Segneíe a Lapurdia , ou
Lourde,
^Lipro I. Capitulo XIII. Europa. 97
j*. Lourde, òffdc ha duas Diecefes,Bayona, & Acqs. Sayo-
tfna he cidade fortiffima com hú farooíb porto, onde vam
•nãos de toda Europa. Tem Biípo, & judicatura Seneícal.
\Acqs tem também o roefmoj & ambas eftam dos montes
Pirincos em pouca diftancia. •
Vafeonha contem quatro Provindas, Aginnenfe,
Armeniaca, Bigerroens, & Convenas. A Aginnenfe tem
duas Diecefes, Agin.&Condomo. Agin he huma das mais
infignes, & ricas cidades de Aqoitania regada com três fa-
mofos rios, que faõ Olta Durano, & Garumna. Côdomo
lambem te grande , porê naõ he tam frequétada, & abft-
dante como. AgUnNellacíláa audiência Senefcal. A ef-
ta Província pertence o Ducado Labertano, ou.de Ai-
bret, cuja cabeça he Neraco. O Cõdado Armeniaco co-
tem duas Dieeefes,a dos Aufcios,&a Ladtoratcfe. Augufta
Afcêfe, q he Aix ne Arcibifpado dotado «de grandes ren-
das. Lactotaco.q cõmumméte fe chama Lettcure, he ca-
beça do Principado Armeniaco, & lua principal cidade: ■[
OtJodadodos Bigerroens junto aos motes Pirineos eflá
entre Bearne, & Cõvenas, cuja cabeça he Tarbe cidade
Epiípopal fobre o rio Aturro. A Piovincia dos Cõvenas, \
; ou Comiogas fe divide em Superior, «5c Inferior. A Su- N.
Iperior he toda de montanhas, & tem duas cidades Epií- *\
/copais, S. Bertrand, & Coíerans A Inferior que he maís
I plana, contem o Bifpado de Lombres, a ilha de Do-
don &Samathan,junto daqual começa o Condadode
Eftrach, cuja cabeça he Miranda, com Pavia, & Caftel- A
nau. .
No-an.no I<5OI. fe ajuntou a França aProvincia
•dóiSebafianos ( quc.he Brefla ) que elRey primeiro to;
mau, peh.; armas, ôc depois lha entregou, o'Duque de Sa-
boyacõ capitulações de pazes pelo principado dos Sa-
G làcttb
ii
<?8 ^ Hijlória %)niuerfal.
Iuzias-O lugar principal heBourg em Brefla (como dís
Thuano ) poíto em hú lugar baixo, mas fértil. Pelo Orié-(
te tem os motes de lura ; pelo Norte, os Sequanos; pelo
Meyo dia Lear»; & pelo Qccidente numa grande cam/
pina, que fe eftende até o rio Arar.
Bearne, que he hua parte-do Reyno de Navarra;
pertence agora ao Rey de França." A fua metropoli hc
le Pau, onde eftà o Parlamento deite principado, jun-
to ao rio Gaberi, fete legoas dos Pirineos. Tem dous
Bifpados, olerony&le Efcur, & a Vniverírdade de Hor-
tès, fogeita ao Bifpo de Efeur. Efta he a difçripçam mais
authentica, & verdadeira das Províncias, de que ao pr©-.
fenteconftaa Monatchia de França. -.

CAPITVLO XlV.

Dos Trelados, ^arlametos, &- Tributuji


dejle %eynofegundoIofephScaligerOi-
loao deLaet3 úroutores Aiithms.

•IV "T O Parlamento de Paris fe eontaô trinta. Dieeefrs,


.L^f-cinco Arcibifpados metropolitanos , & yintç &
cinco Bifpados. O primeiro Arcibifpado he Remis, «o»'
jo Prelado he Duque,"& primeiro Par de França O fe-'
gundo he Séns, O terceiro Boutçef, Primas de Aquica-
nia , & no Decreto de Gracianno iie chamado Patri-
archa. O quarto he Teuts. Eo quinto Leão, privado
do Clero de França. 5ao íurTcaganeos a Remis oito
Bifpos,
t
/'
Li(vro I. Capitulo XIV. Europa. _ 99
jVBffpos , òae Leça, Duque ,ôt Par de França: ^ de
icbaalott, Conde, &,Par de França.- o de Saipm: o
•Morinenfe »cuja Sb (Tendo a «idade deflruida por Car-
olos V. Emperador) fe trasladou a Bononia para hum
lugar chamado Gefioriaco : o de s^imiens : o de Neion,
Conde , & Par de França : o de Sentis, & ode Beau-
vais, também Conde, & Par de França. A Sens faõ
íuffraganeos fete : Paris , cabeça de todo o. Reyno;
Chartres , Orleans , TXeuers , K_Au(fem, Itois en Cham
pague; & juntamente Meaux. Ha também nefte Parla-
mento quarto Bifpados íuffraganeos de Burdeus: Foi-
tiers, Malle^es, Lufion , & Bngoulefme . A Tours faõ
íuffraganeos dous .- o Bifpo de Cdngers, & de Lt
Mans. A Bourges outros dous.- ode Clermont, & o de
S. Flore. A Leaõ faõ fuffraganeos outros dous.- o
ú^Laagtes, DuÇie , & Par de França: & o de Maj-
ÇOth
ÍO ampliíiímo Tribunal de Tholofa infiituido
Carlos VII, comprchende trinta, & huma Dieee-
fes, três Metropolitanas, & vinte 5c oito Bifpados. Á
primeira. Metropoli he a Narbonenfe {Narbona; ) . h\
c fegunda Aufeenfe, que he ^iucb. A terceira, Tolo-
Ifana, Tolofa. A Narbona faõ fuffraganeos nove Bifpa-
W dos . .O de Ni/mu, o de r/as, o de Ledtve, o de Sainã
t Fontde tomiers, ode ^slet: o Magalonenle, que he
Mompelley, & fc chama affi da ilha Magalone, onde a
Sé Epifcopal efteve primeiro: o de Befiers, ode i^Sg.
• de, & o de Carca/íone. Ha também neftc Tribunal íete
Bifpados fuffraganeos á; Metropoli Bituricenfc ; ode
Menâc , ode Cá/Ires, o Albigen.fe ,,. qde he ^dlbf.r o
Anicíenfe ,. ou le Pui en Veia), que he huma cidade in-
figne (fegundo Chenu.J diftante féis, legoas do monte
Gerbario, onde rjaec o rio Liçcr* nos Vclauu.os: o da
»*w Ga Rodes:
\
1
"-
' -. ' '
i oov Hijloúa TJniverfal.
Rodes: o de Vetes: Ôç ode CAOTS. A Tolofa TamfuíFrá-
ganeos Tece, o Bifpadò Apamienfe, que heParoieTS, o^
de Mircpoix, ode S. Paul, o de Mentalvam, © àzVattt,
o de Rieus , Sc o Lombarienfe, que he Lombes. W/
Metropoli de Auch (âõ fuftraganeos quatro O de J,
Bettrand de Comenge: o Confarenfe, que he S. Legierde
Conjetans, o de Turbe: & o de Laiãoute. A Metropoli
Vicncníe he fuffraganeo o Bifpo Vivarienfe, que he
Fiviers, ■
OTribunal Gracianopolitano inftituido pelo
mefroo Carlos VII. he o Parlamento do Delfinado. O
'qual tem fete Diecefes, dous Arcibifpados, & cinco
Bifpados . A primeira metropolitana Vienneníe, Vie-
na, ckafegunda, Ebroduneníe, ou i^Ambrun. A Vienna
faõ fuffraganeos três Bifpados, o de Valence, ode,.Z>«;
& o Gracianopolitano, ou GrahopJe t onde aítifte o
Parlamento. O Bifpado Tricatinenfe , ou Sainã Anto~
ni de Tfifcatm, he íogçito à Metropoli dè Arlcsj &,/> de
Gap, a de ^êx.
O Burdigalenfe inftituio também Carlos VII. onde
ha hum Arcebifpo, que he o de Burdeus, & onze Bifpos.
Os quatro primeiros eíraõíbgeitos à metropoli Aufcc-
fe, q he Auch, os quais faõ o de Bayona, o de Acejs\o Va-
fatenfe,ou Vafats;- & o Adurenfe, que he Ayre. A Metro- |
poli de Bardeos, o Xãtonenfe.ou Satntengt o Petrocorié- '
fe , ou Per/g(ux,o de Sa/lat, o Aginnêfe,ou Agen, ode Con-
dsn, o Limovicerifô, ou Lint6ges\ & oTulléfe, q he Tulie.
OTribunal Aquenfe inflituido por Luiz XII. tÊ
trereDiecefes, dous Arcibifpados,& onze Bifpados:©
primeiro Arcibifpado he o Aquenfe, Aix, onderefídéo
P-*rlaméto;o fegúdo o Arelatenfe, Aries. Dos Bifpados
faõ cinco fufFraganeos àMetropoli de Ambrú; o de Graf-
/Sjode Dine\Q-G$te\&{t>Q\x-GlMde.reiQ Sanactiéfe ,q he
Seitas,.
\
Li&yp I. Capitulo XVL Europa. ."Aoi
y^Senas, nos Alpes marítimos; & o Vencienfe, S.^aulâ»
^Vences. A Metropoli Aquenfe, Aix, quatro:ode Jpte: o
y"Reicofej -ou Ries: o Fórojulienfe, cj he Ferit/ls, cujo Bifpo
•hefenhorteporal damefma cidade: & oCiíteronéfe.ou
CitttYon. A Metropoli de Aries dous: o Maífilicjífc, ou
Mirjelbá, & o Telcneníe, que he Toles.
O Tribunal Divionenfe, queinftituio LuisXII.naõ
tem mais que dous Bifpádos fogeitos à Metropoli Lug.
dunenfe; que faõ o Cabilloneníe, Challonfut Saone: & o
Auguftodoncnfe, que he Auftun. «
O Rotomagenfe foy inítituido por Luis XII. & ha
nelle fete Diecefcs, hum Arcibifpado. & féis Biípados.
A Metropoli Rotomagenfe, Rwen, orixle refide o amplif-
íimo Senado deNormania. Os fufíraganeos he o Bif-
po^brincantenfe, ou Aurancbes: O Ebroicenfe , ou £«-
fiux-.ò Bajocenfe, bu Bakux o Sajeníe . ou Sais.- o Conf-
taneieofe,que he Confiança-. & oLexonienfe, Ufi/us.
|0 Tribunal Redonenfe nos Bretões Armoricos infli-
tuio Henrique II. onde ha nove Diecefes fogeitasà Me-
tropoli Turoriêíc. A primeira Briocenfe, SawãBriat: i-
/egunda Maehlovienfc, Saincl Maio, cidade quaíi toda ^
í cercada do mar: a terceira Leonenfe;, Sainã. Paul de
\LCÕ!J:í quarta Nannatenfe.ou Nantes: a quinta Venetc-
W ie, q he Vannes: a fexta^Tricorienfcou Triguiet: a fetima
f Curefopitenfe, ou Cornpvaille: a oitava Dolenfe,ou Dol,cu-
jo Bifpo té pallio.pelo qual aífiftc cõ os Arcebifpos, 5c he
Conde, & nas Cortes te o primeiro lugar dos Bifpos. O
honò Rhodonenfc, ou Rcncs, onde aflifte o Parlamen-
to da Bretanha Armorica.
Eftes faõ osòitoamplíffímosSenados. de Éfj
quais Ce ajuntou o Bearnenfe , qUando Henriq
Navarra fjcccdeò por direito hereditário hei
Foy inítituido pelo meímo Rey avó (por partem
iozN Hifioría XJnherfal.
Henrique IV. & tem fua refidencia cm CaH.ro Paio; '
que htlePaii. Ha nellc duas Diecçfes fogeitasà Me.trov»''
poli Auícenfe, A»cb. A primeira Lafcarienfe > ou LeÇcatif'
& a fegunda Oloronenfcque he Oleren.
OTribunal da cidade Mediomatriz tem três Dic-
cefes íbgeitas à Matropoli Treuirenfe. A primeira Mets
tenfe, que he UMei^, & antiguamente foy Corte dô Rey-
no de Lotharingia. A fegunda Tullenfe, oaTeuli cujo
Bifpohe Conde, & Principedo Império: A terceira, Vir
dunenfe, ou Verdum, no principio de Flandes junto ao
rio Mofa;& feu Bifpo.hctambém Conde. A cidade de
Mdz.it chama Mejiiomatrieo , por ferconao roeyo en-
tre Erança,& a Be.gica. Conforme a ifto achamos que
iia nefta Mqnarchia.cento5c dezafeis Biecenfes, quatro-
zcMetropolitanas, & cento 5c duas Epifcopais, como
roais largamente fc pôde vet nas deTsripçoens de Mis
íeo,&IoaõChenu.
V
CAPITVLO XV.
/
T)os Cavalleiros S*. Spiritus, ofjjcidis da Ca *
/. fa l^çaly nobreza, &•■ famílias illujlres
de França* \

HE elRey a cabeça deita ordem, a qual comprehen '


de quall toda a nobreza do Reyno: ôf foy inftitui-
da por-Henrique III. no anno 1579 O fegundo lugar
nella oceupa Gjftão vnico irmão delRey. Logo os ma-
is chegados â caía, & fangue Real, que faõ Henrique de
Botbon, Príncipe de Conde, Duque Angiano, primeiro
Prin-
• ■■■' \

p
LWty I- Capitulo XV. Europa^. ^103
• Príncipe , & Par de França, Governador da Província
í de Berry;& Luis de Borbon Gonde SueíIionenfc,Par,
^ & grão Meftre de França, Governador do Delfínado.
• Os Príncipes faõ, Franeifco de Orleans Conde deS,
Paulo, Duque de Fronfac,Par de França,& Governador
da Província, & Ducado de Orleans. Carlos de Lota-
ringia Duque de Guifa, Par de França, & Governador
da Provença. Henrique de Lotaringia Duque de Me-
duana, Camareiro mòr de França Cláudio de Lotarin-
gia Duque de Chreus, Par, & Governador das Aluer-
nias. Ccíar Vendocino Duque de Vêdocino, Beaufort,
& Stampenfe, Par, & Governador (^Bretanha. Carlos
Valello Duque de Engoliíma,Par, & Conde de Aluer-
nia. Carlos de Lotaringia Duque de Elboeuf, & Par de

Os Duques Pares faõ Henrique Duque de Momo-


rancio, & de Anuille, Par, & Almirante, Governador de
L?fguedoeiã. Manoel de CruíTol Duque de Vzes, Par,
ScPrincipe de Soyon. AnnasdeLeuy Duque de Venta-
dour, &Par, & Vigário geral delReyem Languedocia.^
,IoãoLuis de Valetta Duque de Efpernon, Par,&Tri-
r
buno geral da Infantaria de França. Henrique Gondio
\ Par, Duque de Ratz, & Beauprè. Heacules de Rohan
Duque de MontbaiTon Par, & Monteiro mòr. Carlos de
f Albert Duque deLuynes, & Caçador mòr de França.
Carlos Roberto dela March Duque de Bullioni, Se-
nhor de Sedano, ScRaucou.
Os Marefcaes de França, Miniftros, & Officisis ma-
yores faõ Rogero de Bellegarde Marques de Sevre,
Prefídcnte dos Cubicularios nobres , Governador de
Burgundia i&Segufianos. Carlos CoíTeu Conde de Bri-
fa c Marcfcal. António de Roquclauri Senhor do mef-
rao lugar, & Mareícal de França. Vrbano de Luval Mar-
G4 quês
\
io^ ' Hiftoria Uniuerfal.
quês cie Sable Marefcal. Luís de Chaftre Barão de Mai- '■'
fonfort, Marefcal. Egídio. dft.Souvre Senhor deite lu-;'
gar, Marefcal, & Gover.tíãdor da Província Turonenfe. \
Poncio de Lauíieres fenhor de Themines, Marefcal.ôc
Governador de Quercy. Carlos de Choifcul Senhor de
Prafíin, Marefcal. Ioaõ Fraocifco de la Guiché Senhor
de S. Geran, Marefcal, & Governador de Borbon. Nico-
lao Hofpitalio Marques de Vitri, Marefcal, & Governar
dor de Bria. Honorato de Albert Marefcal, & Gover-
nador de Picardia.
Os mais Cavalleiros, que foraÕ admitidos à or-
dem: faõ Carlos ÇJefleu Senhor de Liancourt, Marques
de Montfort,Preíidente de Paris Francifco dela Mag-
daleinc Marques de Ragny, Governador de Niver-
nia. Iacobo Ctabocio Marques de Mipble.Govern/dor
de Burgundia. Ioaõ de Buií Conde de Sanferra, Co-
peiro mòr. Eiiftacio de Conflans Viceconde de Au-
chy; Governador de S. Quintino. Carlos de Neufrille
Marques de Villeroy, Governador, & Vigatio geral na
Província Lugdunenfe . Renato de Rieux Senhor de
Sourdiac, Marqiles de Oixanc, Governador de Brefti.
Carlos de Matigoon. Conde de Thorigoy, Vigário dcl-
/. ReyemCadomo, & Alcnçon. António Vrfino Marques/
de Trefncl, & Senhor de la Chapella. '
Na ultima creaçaõ foraõadrpittidos Luisde Rohan *
Conde de Rochefort, Governador do Condado , &
Caftello de Nantes. Ioachim de Belledgreville Senhor
deNeufoille, Governador de Meulancio. Martim Bil-
layo Príncipe de Ivetocio, Marques de Tovarcey. Car-
los de Crequy Príncipe de Poix, Conde de Saux Vigá-
rio geral no Delfinado. Carlos Collineu Marques de
Collignio, k Andelot, Vigairo ge'ral delRey por Campa-
nia, Renato de Bcc Senhor de Vardas, & Marques.de Ia
Boííe,
/
v ■• c»v Liqyo £ Capitulo "XIS.\ Europa.
Eurof <u -. , aoy
vji<
^•Boflfe,, Prefidente de Tiraíchia . Amónio
Prcfidcntc.de Anicr.io Arnaldo
A òe
»Pjrdaillan. Senhor de Gondiin, & Montelpan, Vigaiio
'geral.na Prefidencia de Guienna.. Henrique de Sctimi
\berg Conde de Nantvil, Prefidente de Le Mcgrs.
Francifco de.Baffonpierfe Coronel geral dos Helvéci-
os . Henrique de Bo*ideilles Viccconde do meímo lu.
gar^Marques^ejAschjach, Governador de Perigord.
loaô BaptiíU de Qrnaoo: Marques de Montlor,Coronel
geral dos Corfos. Timoleon de Efpinay Senhor de S.
Luea, Conde de Eftelan,& Governador de Bro vagio.Re-
natoPocicíio Conde de Treines» Governador de Ca-
billonioem Cãpania. HenriqueBanfrxmoncio Marques
de Seneeio, Vigário gèrál Matifconenfe. Felippe.Ma-
noel Conde de Loignio, Capitão dás Galés de Françai
Carlmde AngSius Marques de RambctlUvet. LuisCre^
vancio Marques de Humiers . António de Gramraont
Conde de Goichen,, Governador de Bayona;
^ntràtaõ depois deites Fráncifco Nomper Conde de
Lozun. Leonor de Magdaleigne Marques de Ragny,
Governador do Códado de Charolois. Melchior Mitte
de Cheupiers Marques de S- C haumont primeiro Bajaõ
.' d3 Província.Lugdunenfe. Leaõ;de Alberr Senhor de
YBrente , Governador de Baflilia, Ioaõ de Soure Mar-
| quês de Courtenvaulr, Governador de Thours. Frãcifco
* Hofpitaho Senhor de Hallier,,Capitão da guarda del-
Rey. Carlos Marques de Vieuville, Capitão dos Tolda-
dos Efcocefes.-António Hercules de Budos ..Marques
* de Portes, Prefidente da Província dosGsbalos. Frãcif-
co Conde de la Roche foucaula, Príncipe de Marcillar,
Governador de Pictcu,.'.
Muitas outras caías, titulares, & famílias iliuflres
h3 em França: porém a brevidade, com que eferevo, naõ
pôde dar lugar a tudo: & aíli os q forem roais çuriofos, as
pódem
»-
\
I
til

ioó Hiftoría %)nherfal.


pòdèm ver por excenfo nas relaçpens de SceVola, 5c dc?J
L uis Samartano. Mas pois deferevemos os Pares de;
Branca, direi eom Thuano aonde teve principio efta'
dignidade, 5c brafaõ. Noanno 1359. Carlos V. Rey de,r
França, para raayor authoridade de ícu Confclho Re-
al, & para melhor governo da Republica ffuppofto que
alguns Authores querem que ifto feja mais antigo)
ordenou que ouvafle em feu Reyno doze grandes, a
quem deo titulo de Pares, que hc o raefmo que iguais
na dignidade, para que lhe afliftiffem nas coufas mais
importantes ao bem eommum de ícus vaffallos. A pri-
meira inftitniçamfQy de doze Pares, féis Ecclcfiafticos,
& féis Seculares: os Ecclcfiafticos faõ o Arcibifpo de
Rhemis, o Bífpo Lingonenfe , & o Laodunenfe, Du-
ques.-o Bifpo Bcllovacerjfe, o Catal^nfc .Sr.^-No-
viodunenfe, Condes; nos quais permanecco fempre ef-
ta preheminencia , & he annexa à dignidade Pontifi-
cal. Os Seculares faõ o Duque de Burgundia, o£?A-
quitanij, & o de Normania: os Condes de Flandes,
de Campania.ácTholafa. Deftes feculares huns fc u-
1 niraõ á Coroa , outros acabaram; <5c afií os Rcys corifeu *
0 vando fempre os Ecclcfiafticos, nos mais variaõ, & daõ *
| efta dignidade a quem lhes parece, ampliando o nume-/
ro, fegundo a difpofiçaõ dos tempos, & melhor direc-\
çam defta Monarehia. E para que ultimamente con- \
clúa com a nobreza defte Reyno"! digo que fe acham nel-
* le cento,& quarenta, <5c duas cafas illuftriftrifllmas de Prín-
cipes, Duques, Marquefe, Condess, Vicecondes,
Barocr, 8c Solares de grandes re ndas, mui
antigas profapias, 5c famílias
nobiliífímas.

CAPI-
/
JàV%O I. Capitulo XFI. Europa, -pgssjp
l GA P i T V: Í>OJ XVI.'1 3b
X*% V& ot
■{DÍl ohtjoiO pinvp o-.Eni.3i
é<
Brem genealogia dos %eysde Fratiça ate
noflos tepos Segundo ar i Chronicas do
mejmo %cyno JoadeLaeh& g(fl
outros çÃuthores.
De(ççn.dençia dos.Reys de Fraritjafe divide ienj.
,o*re$famílias. A primeira dos M^rovmgos,,que!cn»
meçou cm Pharamundo no. afino 419. A fegunda<doi
Carolina?..q.uejp.principiou no:R.ey Pipino.pay de Cai
losAda^jio no anno 751. A terceira dos Capctos come
çaor^m Hugo-Lapeto;filho de HugoLMagn©-.Conde
de Parjs .Duque, & Condeftable.dciEraaça no arinó
«588*
I. Rey anno 4i.o". foy Pharamundo ,imperando
Honório, & Theodofio II. Reynou onze,annos , & foy x
filho do Duque Maxcomiro. II. no anho-.430. .Ciodot *
uco.que leuou-os Francos da antigua França> que he
VjFranconia alem do Rheno, para Gallia» & reynou de-
fzoito annos. III: no de 448. Merouingo ( de quem fe
' intitulou aífiefta família) ^que reynou dez annos-, & vé-
ceo a Actila Rey dos Hunnos nos campos de Chalaon
cm Campanla. IV. Çhilderico I. noannO 458. o qual
•caiou com Bafina molher que foy dei Rey de Thurin-
gia.de quem teve hum. filho; & reynou vinte & quatro
annos. V* no de 484. Clodoveo Magno filho de Çhil-
derico, primeiro Rey Chriftaõ'.' £ qua|> safou com Cio-
tildes filha de Chilpero , irmã de Cundebaldo Rey de
Burgundia de quem teue quatro filhos;o primeiro dos
quais
I

I0l HiftoriaVmverfal ■■
quais morreo minino.' o fegurkdo chamado Childcbéf- \ )
to foy Rey de PâtijíjO téflc.eJrV Glfcdpíhird Rey de Or-j'
leans.-o quatro Clotario Rey de Saifions. VI. Childe-^
beito filho dfi Clodoveo no anno 514. & reynou 46»' .
morrendofem herdeiros. VII, no anno 590. Clotario I.
filho de Clodeveo, que. primeiro foy Rey de Saiffons,
& deponde toda França ; & reynou cincoenta annos,
feguodcTlPitio-.Doí qual rUâtao quatro filhos^quedivi-
dirão o Reyno entre.fy . Charibertofoy Rey de Paris,
Gjncrano, de Orleans.- Sigisberto de Auftrafia: Chil-
.pexiofe-rib Salífons. VIII. rio anno 565.Charibertoftfy
dcPatis, reyaou rjove afinosi & rtodrreo fem filhos. Tark-
bem morreo fem elles Guntrano, depois dè aver reyna-
do em Orleans.trintão três annos: Sigisberto Rey de
Auflrafia reynou quatorze annos, deixando hun^fi-lho
pòcnome->ghrtdeberto';-lX. no anno 574. Chilpcrico
fcnfilho-tatttbem-' do ClO«atio-l.<Reyde Saiflbns, de quem
ficou Clotario feu filho. ChildebertoII. Rey de Au^rafia
herdeiro-de feu Pay reynou em Orleans dezafete an-
/ nos.&lheíuccedeo Theodeberto feu filho, quemo|r-
' reò fem teuheideiro. X. no anno jSS. Clotirio II. que
tayrrou em-toda tffanqa Quarenta & <juWío"'annos XI. '
no dcójo. Dagoberto I. que reynou quatorze XII. nò^
anno de 64^ Clodoveo II. que reynou em toda França^
excepto- Auftrafia, quefeu pay.dpixoua Sigisberto filho ^
jlle^rtróVo.jReypooíGlndoveoâezoitõ: annos, &deixori
ttej:filhos^..Ciotarft»Cnitdefíco, &' Tfveodótico XIII.
no.anno 663. Clotario III. Rey dcN&uftna,& Burgun-
dia reyaoti cinco annos. Defte começou a admimrtrá-
$*S;Wi«^efo*n®tM>iWtáe dev Re^nõyeFrança a cor-
rei petos grandesi &''Officiai^do PaÇo, & Corte ? naõ
fieihio aos1 RevsmàisqoeO nome, porque ertes gover-
navam tudo XIV; no anno 66S. Childetico II. primoiro
Rey
Livrai-Capitulo XVI. Eurofu-. ,.,109
*'Rey de Auurafiar, & depois de toda França por morte
ídè ícu irmaõ, & reynou doze annos XV. no de 68o.
•Theodotico IIIJ filho do Clodoveb II. que'-'jpWfòotoffc
lide feu irmão reynou dezoito annos erêi toda- Trança.
Em tempo defte foy Pipino por todo o Reynb feito
•Prefidenee->: & Goucrnador do Paço* XVI P no anno
694. Clodoveo III. filho de^T-hefcdoricô reynou três
annos, prefidindò no Paço Pipino XVII. no ahno de
698. Childéberto III, filho de Tbeodorico reynou
dezafete annos. XVIII. no de 716, Dagoberto II.
filho de Childéberto III. AvcndO-efte reynado quatro
annos, fe levantarão motins no Reyno^ôc o excluíram dô
cetro, elegendo a feu irmaõ Daniel Clérigo, & lhe cha-
marão Chilperico II. o qual fez Governador do Paço
a CflihatMartelo^Jk fe lhe dá o numero XIX. entre os
Rey? XX. no ahno 720. Clotario IV- reynou onze
annos. XXI. no de 731. Theodotico IV, filho de Da-
gobarto II. reynou quinze annos, fendo o mefmo
Martelo Governador do Paço . XXII. no anno 745.
Chlderko III. filho de Theodorico reynou fete annos r
debaixo da adminiítraçam de Pipino, & Martello Gover-
nadores do Paço; pelos quais foy privado, & excluído
o Reyno- Onde pereceo, & fe extinguio a família dos
[Merovingos.
XXIII. no anno^i. Pipino chamado baixo , ou
pequeno por rezam •dâeftatura. Efte por confentimen-
to do Reyno, com approvaçam do Siirruno PontificeZa-
'charias tomou políe delle', &" reynou dezafeis anno*.
Teve dons filhos, CarlOs,& Catlomano , .Efte menor
foy Re? de Saiflbns fuecedendo a leu tio -Carlos Martel-
lo,cj por Governador do Paço fe tinha tsmbt: Itvantado
em Rey daquella Província. Falleceo fem filhos & affi
ficou Gailos com-todo oReyno. XXIV. no anno 768,
Carros
1
Y
n-o Riftoria fl)nirverfal,
Carlos Magno filno de Fclippe . Pipi.no ', *quc teynou'',/
.quarenta* &je.te annos, & foy Èmperador quatorze- Qn-f
de começou afemiliados Carolinos. jFoy cfte Principe
.dotado de todas as virtudes, & exccllencias, & por tal
acclaajado de todos por Èmperador, & dcfcnfor da I-
greja, como era outra pane fe dirá mais por extenfò
XXV". no anno 814. Luis I. chamado o Pio, filho ,dc
Carlos, foy Rey,& Èmperador, & reynou vinte & cin-
co annos. Foy muy catholieo, k. virtuofo, & como tal fc
recolhe-o a fazer vida monaílica, deixando o Império a
leu filho. XXVI. Carlos Ui chamado Calvo* filho de
,-LHUS, reynou trinta,Sc oito annos, & faleceo no.de 878.
XXV.Il. Luis II, chamado Balbo, filho de Carlos, que
não reynou mais qdous annos XXVIII. no anno «80.
Luis III. & Carlomanno filhos illegidmos. de Lujsjíal-
b.o, dividirão entre fy o Reyno. Cáuomano ficou em
Burgundia, & Aquicania; & ^Luis com as mais Provín-
cias. Eftc morreo no anno 885, Sc. ficou reynartép íò
Carlomanno, que também fallcceO em breve tempo,
f XXIX. no anno 885. Carlos, chamado Craflb, Èmpera-
dor de Alemanha, foy inftituido no Reyno para o de- (
fender dos Normanos, que queriaõ entrar nelle. Poré
vendofe depois inútil para o Reyno, & Impcrio, o lai;
gou. XXX. no anno 890. Odon, Conde A.ndegapenfc
0>qual fuppoftoque não era da defceodeacia de Carlos
-Magno foy coroado nos motins' do Reyno; & avendo
reynado em toda França dous annos, foy mâdado Cora
.confufaô, & defprezo para Aquitania onde reorreo no1
:anno 899,.XXXI. Carlos III. chamadorSimpjes»rfoy co-
roado em :Rhemis.no anno-1892-'tendo de idade;doze.
Mas como também era iohabij para o governo, foy re-
pudiado, «Sc lançado delle.. XXXII. no anno 929^ Luis
IV. chamado Vkpajfcarino, iilho deiGaclss SinopJe$, f«y
invefti-.

Liuçol. Capitulo%lfl. 'Europa. ^ii
*ihveftido nó ReynoporHugo Magno Conde de Paris,*
ítrazendoo de Inglaterra, peta onde fe rcrirnra , & o fez
'coroar na cidade dê Laotj. Reynou dezoito annos,è<
làfalleceo no de 954. XXXIII. no niéfmo anno Lotha-
rio filho de Luis, que reynou trinta, &■ dous annos;
XXXIV. Luis V. filho de Lothario, que- foy coroado
era vida domefmopay. Porem morto eUe não durou
mais que hum anno, morrendo de peçonfra, que lhe de-
iaõ) fegundo fecre) os que queriam reynãr. E nefie Rey
fe acabou a defeendencia dos Carólinos.
XXXV.no anno 988. Hugo Capeto j ã<juem Lo-'
thario tinha feito Préfidente & Governador do Paço*
O qual era filho primogénito de Hugo Magno Conde
de Paris, & reynou nove antios. Onde teve principio a
cafa^ea^dos Cactos. XXXVI. no anno 997. Rober-
to fflBodeHugò, que reynouvto'te,& quatro XXXVII.
no anno 1030.' Henrique I. fiíhbdê' Roberto; & reynou
trinr^ XXXVHI. no^ânno 1061. Felippe I. filho de
Henrique, qué foy coroado vivendo opoy,& reynou qua-
renta ôc nove. XXXIX. no anno lr'09. Líiiii VI. chama-
do oCfaífofilho de/i Felippe/ foy coroado7 eni Orleás,
& reynou Vinte 5c oitO^XLl no 'arino-^Á^Ltiís Vlf,
chamado O Moço ( porque vivendo o pay foy coroado)
freynou quarenta & três. XLI. no anno 1180 í Ffclíppé
'II. chamado Auguftovfilb<odc Luis,; fe cóíôèfa Vivando
ó pay & reynou quarenta'& três. CXLIÍ!.' hò ahtío 1224?.
Luis VIII. filho de Felippe, Efre fendo >b!pàfmda v?-
*vo foy chamado a Inglaterra pelos Barbes rios1 morria,
que fe levantarão CÔntrà^Ióaõ Rey do mefmo lUyno.
Porem morto -loíõí&cõrií^fiáía^ cóufas5 cFe^Irigílaté^-
rtf. Te copriok para1'Fran!ff,^fiâieí:náléi;réyfrrjfi!:maíáitié- t?ft
anoos. XLHI. no anno' 1226. O íanto Re^líui* fX/q
icynou quarenta 3t quatrb^ftrilei&d enrMicVéftándb,
fazendo
«
•■■•— fj <y ,

fazendo gierra aos Mouros XLIV. no anno 1271. Feli-C/


pe;ll[,chamad;> Audax filho,de S.. •Luis-» Foy coroado r
pelo Bifpo de,. Saiuons, Sc reynod quinze annos. Do ter-1'
ceiro filhodeíterey, por nome. Carlo,s>, teve principio,,
adeicendencia, & braffaõ dos Valefíos XLV. no anno
1285. Felippe IV, chamado o. Bailo foy coroado em
Rhemis ;• o qual caiou com, loanna herdeira do Reyno
de Navarra: & rcynou vinte, & oito annos XLVI. Luis
X. chamado Vcino rilho de Felippe Bello foy coroa-
do Rey de Navara cm nome de fua molher no anno
1307. ôç de França em Rhemis no de 1315- & reynou
fomente hum anno, 6c quarto meies XLV1I. noanoo
1316. Felippe ,V. ehwaado- Longo , filho íegundo de
Felippe Bello, reynou cinco annos. XLV1II. no anno
I3zr. Carlos IV. chamado o fermofo, irmaõ.d^.FcH-
ppç Lpngo> foy coroado em Rhemis, 6ç reynou ièis an-
nos XLIX. no anno 1328, Felippe. IV- chamado Va<-
lefio, neco de Felippe Augufto foy coroado, & r<»fnou
vinte, & dous annos L. no anno 1350. loaõ filho de
Felippe Valefio foy coroado-em Rhemis. Efte fendo
prefo pelo Príncipe de VV.alia na guerra, que com elle *
teve, fjy levado cativo .a Inglaterra, depois de aver rey-
nado quatotze annos, 5c morreo em Londres no d«
1364. O filho fegundo de fie, Rey foy feito Rey de Sici)
lia.&.de ,N,apqles LI. no anno 1364. Carlos V. çhama-V
tdo-SaJ2fjfff,^J^o,4ç íoaõ.fqy eo;oado em Rhemis, & reyy
nou dezeíeis annos. LU. no anno 1380 . Carlos VI. fi-
lho de Carlos V. foy coroado em Rhemis* Sua filha ul-
tima por nome Çacharina xafou.çcup^ÇBfique VI. Rcy-
_de ínglnerra, a qu:ra elRey initituio herdeiro ;do Re,y>
no d.-sher.dando a feu filhqjC^rJo^i/í.eflerJflrapp.os
Re.ys de Inglaterra fe intitularam também Reysde í&-
ça, pondo as flores de.Lis no. eícudo das fqas arr»a$.
obn 'Reynou,
1
ZivpI.Capt&kXP^I.EÍitof^. , 1.13
'Reynou Canos 427annioSr&-follcceQ ntrldeíiq>22.'LiIf;
iho me imo anno fuccedco. Garlps^\frllujcàatmíra Vifitotí
^ucreynou trinta, & nov&afinèSf;:LXV.jaoaie i^Qr.Luis
,XI. filho de Carlos VILque reynou vime,& dousannos
LV.no de 1484. Carlos VIII. chamado Pequeno filho,
de Luis XLEfte caiou com Arina- herdeira dei Bretanha
jiDometidia ao-Eojperador Maximihano^iOd.ual reynoii»
14. ânuos; & morreo fem filhos. LW tnó anno r498.
Luís XII. primeiro Duque de Orleansi-i chamado Pay
dopovo,foy inueftido no-Reyno por fer o paréte mais
chegadade Carlos VIII. Reynou dezafetc annos, & mor
jeo>fém filhos. Otf :.-Slo1ni
s- LYlL-no anno 1514 Frãcifco I. chanaadoValéfiÚifo"!
«oroado em Rhemis, fendo primeiro' DuqberAngolífmê
íe, parente mais chegado, do Rey defunto: & reynou 52",
aniíosco Vários 'itfc
iàcceffos da fortuna Aêj.&iõ pouco o pee-
íeguio.naõ fendo o menor fer levado • cativo por Carlos
*V .Etftiperador a Efp<mha. LVIlI.no anno i54ó.Henti>
<que II. filho de Francifco; cafou com Cátharina de Me-
díeis, de quem teve cinco filhos, & outras tantas filhas; >\
& reynou doze)ànnos. LIX. no .anno 1359-' Francifco
IL filho de HenriqúejI.iQ qual cafoucom MáriaRíi-
.nha de.Efcocia, de quem naõ ouve filhos. Naõ te^nou
rmais de dezafeis meies LX. no anno 1560. Carlos IX.
'filho de Henrique II. .0 qual cafou com Ifabelde Auftria
.-filhado Emperador Maximili.3ao4 de quem naõ ouve
mais qhúa.filhar 5c revoou quatorzeannrcs.'LXI.rtO de
'1574. Henrique III. irmaõ de'Carlos IX. o qual -deixando
o Reyno de Polónia, em q pouco antes fota ihvcflrdo, fc
tornou aF.íãç3,áí fe-coroou cm Rhemi?.-Cafou cu Aloifia
de Loraringiaifilha. do-. Conder.de Vaudeftsõt, de que n^ô
teve filhos: reinou t5.ann-05.tp varias miferias, continuas ,
guerras civis, & motins domefiicos;&finamente o Sumo
H Pontifi-
PõtifíceodeolaxoiPporitvdigo do Reyoo peltfmorte dèT/
Gai6D,a.vciidoÓJptJbetro:âxcõmLiiiga!dòporherege. fotT
nioitOippr lâeobo X^kméct.no aano-ajSo. JoodeiV(,oiaca*
boaatfamiliados'Valefios/. Antes de.fua morte 4;.Vr»e>t
fes foypreguntado de outros amigos hú homem douto.q
íc podia-; cfperat delRey Henrique o qual abrindo o torno
dosivctfos de Virgilro,ide remete foy dar có os íeguintes*
Oiiz dura ■qúiès oetihii &fèltetis urget
Somntts w-: xternÁtn claudimtut lumwa noftent.
O que bem fe comprovou com o defeftrado fim, qtevei
fedo tudo juizo de Deos, q. fe naõ defcíiida em caftigai
infolétes. LXII. no anno fobre dito foy Henrique IV. eh*
Ríado-Magnoi dafámiliade Borbon, primeiro: Rey de
Navarra por fuaroây, invertido no Reyno de França e(\
tando onze grãos diftante da defeendencía ReaJ^Qf S.:
Luis, que começou areynarno anno 1226. Ouve ria ir*-'
viftidura derte Rey grandes motins, & alteráçoensera
França até que no anno tj94> pacificado o Reynfe fojr
coroado em Chartres da Provinda Carnotenfe. Reyno.11
dezafeis annos, & no de 1610. foy morto às eftocadas
por hútraydor chamado Ravilhaco. LXIII. no fobre di? *
to anno, Luis XIII. filho de Henrique IV. chamado o Iuf-:
to. Eftefoy Priocepe de raras virtudes, & excellencias,
valerofo, benévolo, muy Catholieo, & grande defeníon
da Fè>& Igreja Romana ;& como.tal alimpou o.ReynoV
de França das heréticas zizanias,, que nelle avia. Reynoq '
31. annos, &fallcceo no de 1641. LXIV. no anno 1643,
fu.ccedeo no Reyrio feu filho, que ao prefente felicemê^
te governa, com aplaufo dos vaflalos, efperãdo o
mundo,.que em.tudo imite as generofas
acçoens do tronco, de que
procede.

""",;'' çMi*
v tf' • • •
' L • U -V, • "
tingiI- Capitulo WIÍ.-EuroftL... ^ iiy
CAPITVLO XVII.

*'!Dos:'timulto.h & infecilijd.de's,sjuefddcceò


Franca em tempo de Henrique IV*
&■ como ejte J^ey fe convertw,
& deixou as-heresias.
TV/T .Orto.Henprique III./jçqmo,fic3iditoí} & caro Iheiâ-
rxVJbcãd.Q ôlhojéj !he fuícedeíre^fó^c^araadQ^HenâS-
:iqu€ de Bojtbõ Rey dç Navarra» q nô jura.atóító/dos- Efladj&s
do Reyno jurou cambe de cõfervar cmtudo.aEèda IgtB-
-ja^gjg^ria, féennoyar era coufa algúíj & q afls rebeldes
.«aitigaría rigurolamente, como referem íanfonio noí«-
gundò. livro, & Çefar Campana no,decimo. Muitas Pro-
vindas o jiaôqulferarn aceitar, & aífí elegeram outros
Prineipes, deejue fe feguiram tais difeordias, & ealimida-
.d.es,qae nunca os Franeeíps,deixawm.de as laiwentar,.em>.
quanto, ouver, 5c. durar a memoria delias.:
Era Henrique nãoimenos q feu antocftlíor: afTefto açs
Í hereges, por fer inficionado de feus erroj, & contra o ju-
ramêto, que avia feito,nam eelTava de perfeguir os catho-
licos; & fingindo que quetiafazer eompollçâõern Ã$u
^ey«o,^o aninOi59^-^«flíaçhou provtíoês para^q,6s Efta-
sdos fpf6ê\à9hGoftes,;cj queira edebrar na metropouYTuWi-
*-flenfeiP..i. djade Noyébr^,PQréjC,onhec£do feus .•emb.uf-
^.esj y<êi etígs.nos ^Henrique Caetano Núncio; ôç Legado
- oAfpoQpl^iíe-ííí&sfeíí lqgi3:»C)S,Arcib.ff^os, -.Bitpos^&rA.b-
Kbajde$ tdeFtãça) mand^ftdelhe? ^ôjcenóías,* q:oâõ.,fo&ê.ás
-t^isCortes^ome/nçío efcreviCQ tambêao.s Giãdes,e«hoj;-
,*adops4 defçftdçfsé Q:pzã,o feifjcti &,juKCdg pfip.^eli»^
*!jp Ha Rey
A
<•. */

ii^ ■ HijionaVmúerM.
Rey aceres da Fé Catholica. Em Paris o naõ quiferanr /
receber, dize^ò^tyíaõl a,viam/d^ aceitat Rey, q naõ fofíe?
Catholico, & em tudo obediente â S. Igreja Romana.
Foy logo marchado para a cidade Henrique cõdoge* <
^mfrdepè.&tíesmil decavaHó, & cõ r?. peças de arri-
lharia\Ç^rBeçoiu abatè.r os/irvuros. M;s o Duque Ncmo-
reo.a que tinhaõ feito feu Governador, lhe refpondia cõ
6y & faiodO peií^^o^taSi.hiVtodos os 'dias faztr grandes
extorfoés nos inimigos; Os E.eclefiafticos, que avia na ci-
dade, fe Iií1áraõtambê,& puferaõ em armas, tomando à
-ifcia contará d-efe«fá®dos'pGftos, q lhes eraõ confinados;
-Seus Capitaens-e^õ o Bifpò-Siluáneaeníe, & o Prior fia
^Catóxa.; Ernlugar de eftenrJarte tinham a Imagem de
Chriftocrucificado, & outra da Sacratiílima Virgé Ktfa-
mR S, Nenhuns deixarão o habito ^eriçai, rr-^/ç^rc
-íille fe:a;rm3«am de fayas de malha, peitos, .efpaldarc:./Sc
-adargas. Nefte grande a- perto da cidade de- Paris fe á-
' juntou lodaa nobreza, Scpòvò na Igreja de 5'anta%Mâ-
tia,'& ante o Le~gado Apoftolico "fizeram veto folem-
Sitie, que fe o Senhor os livravavmandarião logo a Noíía
Senhora do LOrleeÒ húma" lítfripada, ôC navifr de prafta
i{C\a&faô%gi&ito-3S> de Paris ) de trinta marcos íde pefo. '•
Alem difto fizeíâna hurtía procidam publica com os )s pès.
defcalços, &' muitas Obras pias, porque Deos os livi?rafie,\
i&ideffendeíre.
•>t'-' Porem dilatandofe aguerra-mais tempo do qt nue fe
-©(gerava, muitos na cidade fe defgofiaraô, imputando a
culpa ao Núncio, de q elte fufiécava a profi3 de fe naõ eti-
tregars a Henrique. E temendo e!le,& os Grades mayorés
ri)io3s,a-rs5tàr3Õ; q&eísê experiçníft-dlúíanimo,& intento '
do Príncipe, íc-3 cafò ©'podiarrí mover a concerto de boa.
paz: ScafiTmãdàriÕ o Biípo de PaTíí.iSc deEeaõ potérri:
r>aixadorés aoRey,para qvifsé feipodiâõacabac com elle,
\3Â a .. que •
*^ . ClLivrnl. Capitulo XVII. Europa, ú Hf
V que qúiícííe pazStãdo pelo q cm leu juraméto tiníía pto-
? metido. Saé 0$ embaixadores fora da cidade, os quais vg-
* do elRey os foi bufear à porta chamada Antoniana. Pro-
1> puíeraro cllcs fua caufa, allegãdo qfacilmece podia S. Ma-
geftade remediar eftes males, & atalhar tãtas guerras, 5c
diícordias, qera fazêdofe Catholíco.- & q (e affi o fizeffe,
nãofò Paris, mas todas as roais cidades de França íe lhe
cntregjriaõ pac ficamête A 05 quais refpondeo Henrique»
.q bê fabia, q obrigados da extrema neceííidade cometiaõ
aquellas pazes, & q fe os Parificfes íe quilelfê entregar, os
receberia com bó trato, & fidelidade, mas q naó prometia
omefmoàsoutrascidades;& qnaõoueria q lhe movef-
• sc queftaõ acerca da Fè, & religiaro, j&tq tinha feito pro-
pofito de naõ fazer mudáça nella, ainda que perdeííe o
Rflgncu& que c^ injufto quererem os vaffallos pòr a feus
Keysparndo, efeondiçoés. Ao que es embaixadores ref-
ponderaõ, qnaõ tinhaõ poderes para mais do ejue aviam
prcjfofto, & aífi fe partiram outra vez para a cidade.^
Era ja nefte cepo a fome, q nella fe padecia tâta, q por
jottiça fe repartia hum paõ de féis onças para a familia def^
1
Lcg»do, outro para a do embaixador de Eípfnha, & affi
* para as cafas dos outros Grandes. Incrível he a fome , &
mi'eria,q paieceo efta cidade. O Guardião de S.Frãcif-
Jf co cõfeffou q em oito dias fe naõ vira paõ no feu Convê-
• to, &q os religiofos naõ comerão mais q ervas. Dos po-
1
breseram tacos os q morriaõ, qouve manhã, em que nas
ruisfe acharam 200. q perecerão n3 noite antecedente.
* Q iis Dcos acodir ao laftimofo aperto da cidade.porq cor-
reo fama, q o Duque Meoio a vinha foiorrer com 15. mil
Toldados &q o de Parma não fò mádàra a fua gentc.mas q
tãbê vinha cõ ella, oqual ao outro dia õttou em Paris. O q
fabcdoHcriqlevãtadoocercofoifairao Me.nio có o ex
ercito ao caminho, ficando a cidade livre da RtUeria em q
H3 eflava
«
\
n§^ Hifioria fjmuerfd.
citava pofta. Recolhido o Duq Menio cõ fuígente na cU^jT
dade Carnotenfe, q he Cartres, lhe pos Henrique cercoV
&a combateo tam profiadaroente, que os moradores*
naõ tiveram outro remédio mais que pedir bom cartel»* *
, Scentregarfe. Ascapitulaçoens, Sc partidos foram os fc-
guintes: Que os toldados do prefidio faiffcm livre? cõ
fuás armas: que todos os eidadaèns de Paris, 5c fcus bens,
quefe vieram alli recolher, foííem entregues à difpoíin
çam real; que lhe diffem em moeda cem mil eícudos, Sc
outros cem mil em fazendas : que reparaffem as ruinas
da cidade, & lhe fuítenrafíem o exercito hum mes intei-
ro: que os privilégios, & fè da Igreja Romana eftiycflcm
em íeu vigor; Sc affta forte entrou na cidade, que achou (
bem provida de vinho, Sctrigo.moftrandofe em tudo dei-.
cubertamente fino herege, Sc inimigo da^ Igreja.^.,.. ..^
Chegando cftas novas, a RomídSummo ronti- <■'
fice, que era Gregório XIV. em prelença dos Cardeais
excommungou de novo a Henrique , & a todos raUS,íc
quazes: & mandando paffar Monitorio , o cometeo a
'Landriano, a quem fez Núncio de França para que o
publicaiTe«:m toda cila. No mesde Agoflo feguinte do *
anno is&u o Parlamento Turoncnfe por edifto publi-
co julgou por nullo, & de nenhum vigor o Monitorio do
Papa, porque excommungava a Henrique, pronuncian-: 1
do que era contrario âs leys, direito, privilégios, Sc irn- ^ ,
munidade da Igreja de França. Às crueldades, que os hc
reges nefre tempo cometerão iam inauditas, as quais cu
deixo de efereuer, por ferem as mais delias indignas de
fairem a luz, pelos grandes defaforos, com que fotam cor
metidas.
Sojeitou emfim Henrique toda França em rriuy
breve tempo, parte à força de arm3s, Sc parte, porque as
mais das cidades pacificamente fe lhe entregaram. E pa-
tece o
Vi
Livro I. Capitulo XVII. Europa. > 119
\ íece que no annó leguintx Deos o quis tocar de lúa di-
vina graça, & faindo do paço de S. Dinis junto a Paris fe
^ ioy caminhando para a Sé: & vendo que os Prelados
m. lhe impediam a entrada , difle que eftava muy trifte, &
arrependido de fe apartar dafè da Igreja Romana, pe-
las falildadcs, 5c ertos dos hereges: & que agora de to-
doo coração fe conuertia , & íctornauaao grémio da
Igreja, & pedia, que o reecbeíTe como a outro filho Pró-
digo (lanços da divina Miíericordia, que afií fabe redu-
zir obftinados peccadores) confeflando fua culpa, & a:'
ceitando a penitencia, que lhe défle. Abertas logo as
portas lhe refpondeo o Arcibifpo Biturienfe .- Se hc
certo (ó ReyJ que efta trifteza he vt^adeira, fe renun-
ciardes todos os concertos, & confederaçoens, que têdes
feita com os Reys, Prineipes>& povos hereiíieos; & fe
àacfúicra diariW prometerdes que permanecereis na
obediência da Igreja Romana, & do Summo Pontífice
Viário de Chrifto na terra, & que defterrareis de Fan-
ça quanto vos for poflívcl todos os hereges.- nefte cafo,
& com eftas eondiçoens, ficando em feu vigor acenfurív
do Papa, eu vos abfolvo do crime da apoftafia, & vos ref-
• tituo á Igreja, Sacramento da Penitencia, & fagrada com-
munham.
Todas eiras eoufas ptometeo'fazer pontualmente
Henrique & affi fe lhe deo entrada na Igreja. Eftavam ja
rio templo para o receberem , alem deite Arcibifpo de
Bituriges o Cardeal Vendomio, & outros dezafete Bif-
%
fos, & Prelados. Eftes o acompanharam ate o Choro , Sc
apartandofe os mais, elRey fe confeffou por grande ef-
paço com o Arcebifpo, & foy abfolco por elle; & rece-
bendo o Senhor, affiítio à Mi Ha, & prégaçaro com gran-
de alegria dos fieis que naõ ce fiavam de dar graças a
Deos por tal obra fua. Pofto o Sol defparoutodaa arti-
H4 lharia.
no Hiftoria XJmverfaL < y-j*
lharií*, puzeraõfe luminárias, õt fe cifitmuàfamgrandes ^ *
feiras publicas, não íò em Paris, mas em todo o Rtyno.V
Foy logo mandado o Duque Ni<-ernenfe aoSummo Bõt',
tificecõ a cõfiffam real: & ieefercvcraõ cartai porozdc-nl K -.''
dcIRcy aos Parlamentos, para que tivefiem noticia do
fucce(ro,&o notificaffem acs povos, No principio de Se-
tembro mandou folemnes embaixadores a pedi. hu mil me-
te aòfolviçamao Papa, que era a efte tempo Clemente
VIII. potem elle lhe nam quis deferir, por nam facili-
tar negocio de tanta importância , para exemplo de
outro, fem que elle primeiro ruoftrafle finais de verda-
deira penitencia . Tornou a mandar íeus procuradores»
que com as inforríTíiçoens dos Prelados de França, & aju-
da dos Cardeais Aldobradino, &ToIedo,em vinte do mes
de Agofto de 1592. impetraram a abfo.lviçam com,as.c.õ-
diçoens feguintes. . '*« .^&&t?- \
Primeira, q a abfolviçam que o Arcibifpo Biturienfc
deo a elRey, fe dcclarafie por nulla. Se'gsnda, q osty'°-
curadores cm nome do Príncipe abjurem a heregia, prin-
flipalmente de Calviao.cõ promeffa de cj o mefmo Rey o
farárãbem por fy detro de féis mefes. A terceira,q perma-
neça perpetuamente na antigua religião Catholica.daqual
DÚcafeaparte.masfempre nellaperfevere emvida,& mor-
te. A quarta, q por todo o Reyno de França fe publique o
Cocilio Tridentino, 5c fe viva, & proceda fegõdo o q cftà
decretado nelle. A quinta.q dentro de hú anno íeja tirado
do poder.&adminifiraçaô dos hereges Henrique filho do
Principc de Conde, & infiruido na fé da Igreja Romana.Sq
obediência da Sé Apoftchcafucceda noReyno deFrãça.
A fexta, cj todos os bens dos Ecclti1aíticos,& tudo o q da-
tes fe lhe tinha ufurpado.ou pelos hereges, ou pelos mef-
mos Catholieos, trate de q lhes feja reftituido o mais ce-
do cjpadet fer, fem procefíb,ncm cftrcdo de juizo. A fetU
ma
n
LivrpJ. Çgfittíl.ó XVrIl.-Etíro^ai-, x rói
Vhi3 q procure t oTelvaríe 'a côcordaia dos! keys de Frãça
feus picdcccflores iõ a Sé Apoftolica, lemovcndotodos
,*©sabul?s. ^ 1; tS;ÍDtro:duzidbi:iA oitava,^ logofrtaõ reflj*l
atuídos es Bifpos no principadoBea,rn<rníe,:& íe lhe co'n*
fine shmêtus & redas, de q vivaô,-atè Ce recuperai em os
ccníosdcfuas Igrejas; ôcqfe torne de novo a'introduzir
nelle a religião Catholica. Anona, que funde nomcfmo
principado 4. Cõventòs, dousde f.eiras,& dous de frades
roais reformados. A decima, cjtodos os Domingos, &
dias de feita ouça Miflaou c-mfuaCapellaRc^ou em ou
tra qualquer Igreja em publico. A11. qcada dia ouça Mif-
fa, conforme o louvável coftumedosReys de Fr?ca. A
1-2. q nos Domingos reze húa Coroa, v»s quartas feiras as
Lcdainhas, & aos Sabbados o Rolano da Saeratifíima
Virpê. tomandoa por fua avogada, & patrona. A 13. q to-
daV'is"'feitas feirai','' & Sabbados jejue A 14. que■publica-
mente»commângue ao menos quatro vefes no anno. A
15. ejeavifea todos osReys, & Princepes Chriftaõs de
fua converfaõ por cartas, ou embaixadores.
Todas cftas condiçoens aceitarão os procuradores,pa-X
ra afli as fígnificarem a elRey, prometendo, qcorn toda
a inteireza as guadaria perpetuamente , & o firmaràraõ
com juramento, que para iffo receberão. Beijarão logo
com grande fumilTaõos pès ao Summo Pontífice & elle
os abraçou, dizendo q tinha aberto as portas da Igreja
militante aHenriquc Rey de França, q agora fizeííe el-
le por fua viva fé, & boas obras, q lhe lejam abertas tam-
bém as da triunfãte. Sendo feitas todas eftas coufas cora
folenidade,& Ecclcfiaítitas ceremonias, o Cardeal de Lo
jofa, Arcebifpos,Bifpos,& todos os mais Prelados de Frã-
ça,q fe acharão emRoma cõosNobres.&mais Frácefes fe
a;Qtàraô na Igreja de S. Luis, & ciitàraõ Te Deu Laudamus.
Em toda 3 cidade fe fizetaõgrades feitas cõ cõter.t-mêro
fcale-
r
izz .Hijiorià %)niruerfal.
& ile»ria de todos, Unçandofe^ogof jJ&idoíe luminar ^
rias, & fazendofe mui curiofos poeoias aífi na lingua Ita- **
liana, & Francefa, como na Latina. .Entre os quais foy',
:
celebrado o feguinte. *'*.'
Quem tota arnutum mhatt efl Gallia Regem,
'Mttata e(ietiam Romt beata pi um.
Mag/tw opusefiatmisftravifietot agmim\ majus,
. Ponttficispedibusfucciibuifiefacris.

ITÁLIA.

HEeftà região huma das mais famofas, & ingíínes


da Europa j*jfíi pelo numero, & grandezafefeus ,
pontentados, como pela bondade da terra, & temperado
clima.de que goza. Toda ella fe concem entre os mon-
tes Alpes,. & o mar Medittenanco quPs'om fuaírprãyas^ *
& abundância de rios a faz fummamente fértil, aprazí-
vel, & accommodadaà natureza humana, comrour5ç|,an-
do feuscommercios com varias naçoens do mundo. Os
•principais potentados, de que commumraente coafta,
*' íaõonze; alem de algumas terras de Senhores, que fup- '
podo batem moeda C por ferem limitados no poder, & '
rendas) fe pòdera melhor chamar Baroens, conforme o
cíttlo de Alemanha, ou Dinaftas, fegundo os Italianos.; *r
Saõ pois os Principaes, o Summo Pontífice Romano: cl- t
Rey Catholico.- três Reípublicas, de Veneza, Génova, *
& Luca : os Duques féis, de Saboya, de Florença, de Mo-
dena, de Mantua, de Parma, &de Vrbino. OsBaroêsfaõ '
o Príncipe de Guaftallia, o Marques de Caftilion , & ou-
tros da família Gonzaga, o Príncipe de Mirandula , o •
Príncipe de Maffa, & Carcará, o de Monachio, & Corre-
zio. A eftes fe podem ajuntar algumas Baronias Ro-
manas , a quem o Papa com gtaviffimas penas tem pro-
hibi-
0
0
/

4
';'' tí-vrol-Cj^itulo YVIll.BurcpL.-^ 123
hibido bateFm^à emTcus Senhorios,fTifttfacs, & tcr-

» CAPITVLO XVIII.

T>o poder, &■ efiado do Summo Totifice, em


quanto Trincipe, &■ Senhor teporal
Summo Pontífice cm nome da Sé Apoftolica tem
O
. leis Principados em Itália, alem do Ducado de
Benavente no Reyno de Nápoles, £**o Condado de A-
Vinhaõ ha Província deNarbona. He Senhor de gran-
des, áçpoderofos vaffallos fendo os principais elRey de
t^felà por ré2í5 do Reyno de Nápoles, cm que fe en-
cerram ambas as duas Sicilias (pelo qual dà ao Papa to-
dos jíannos hum ginete, & féis mil efcudos) o Duque
de Parma, &Plaeencia; & o Duque de Vrbino, que ha
pouco feunio âCoroa Pontifical. Também o Senho-.
rio ,& Eftado Radicofanenfe com feu território (qucfe ~
* eftende a té a Ponte Centina ; com direito feudatario,
& de confidencia puflue pela Igreja Fernaõ de Medicis
(em quanto Duque de Sena) com titulo de perpetuo
.Vigário do Summo Pontifice. São pois os Principados
"dá Sè Apoftolica os feguWes. O Romano, que começa-
do nos confins de Nápoles, fe eftende até a Ponte Cen-
•' tina, oceupando grande parte de Hetiuria. Efte gover-
na por íy o mcfmo Papa. O fegundo hc V-mbíia, que go-
.• vernahum Legado, & fe chama a Legaçam Peruciana,
da cidade de Perufio, que he a principal de toda ellaM)
terceiro he Romania, & o quarto Ferrara, que governa
hum 50 Legado; ckcoropichende dez cidades, as quais
' :"■" .- -• Í3m

^
^v

124 í : Hiftoria. Vnherfd,


ft* ferrara .(-que ,0pjpi Clin.croe'VuI. ifnío á* Coftía
Pontifical) Cornado . R1Vcona, Imola, Forlivio, Faven-
cia, Anmmo, Servia, Ceíena, ác Bortinoro. O Ducado
dcSpoleto, J nuamente a xVIuca.dc Àncona confti*.
tuern a quinta tegfta.ro, $ "Priacipado/Ònde ha muitos
lugares, que pertencem ao,Ducado de Vrbinjc. O fexto
hc a Degiçao de Bonoma, que não tem roais eme eíía
cidade. Conda o poder do Summo Pontífice por mar
dedozedes: 8c por terra pôde dos rCUS Fitados por
em campanln cincoema mil foldados de pè , & qua-
tro mil dcíav.llofcleclos.&dèftcòsnaiarwas.àlctn-do
foccorro.quelhedãoos feudatarios, quando lhe hc ne-
ceflino.co-«odk/Thomis Segcthô. Tãbcrn prove de
L:.g.do, & Governador o Condado de Avinham cm
França. O, reditos do Papa, cm quanto Senhor j&mn.o-
ral, fe d* commummerite, que he hutQ mUhaníc^tíito- I)
centos mil cruzados. A cidade de Avinham comprou
Clemente VI. a hanna filha de Roberto Rcy dfeiSici-
Iia, como refere Platina.
r A regiaô, que por efpaço de trinta milhas, cerca
Roma.hefertiliiuna com grande abundância de trigo, *<
& carnes; & também produzira muito vinho, fe os mo-
radores fe aplicaram ao cultivar. Porem he copioíamen-
te provida deite do Reyno de Nápoles, da ilha de Cor- *
fega,I/tj«riaV'& França. Com fer elta regiam tam fértil
he pouco povoada: a rezam he ffegundo Ioam de Laet) *
pela frêhemeaciá do calor, que fe imprime nella, & pe-
la mal,gmdidc dos ventos domar , que fam tanto mais*
n)civos, ácoerjudiciíis, quanto he mayor a copiados
vapores q.)e dos lagos, & lagares baixos fe levantaõ. Dó- ■
dê p ojede ler o clima de Roma pouco íaudavel, & o
ternto.io menos povoado do que era antigamente .•
tanto, que na coita chagada Romana ( a qual fe eflende
defdo *
'. • .%

*{'defdo porto de Hercules até Tcrracina , pot efpaço de


3150.'milhas ) fe naõ acham mais de oito mil moradores
•Vm diverias cidades,& lugares.
me Aterra, que eftà entre Roma, li Nápoles, fe chama
-Gampania, &aqpe fica para a parte de Florença, Patri-
mónio da Igreja. A Marca de Ancona, & Flaminia ef-
^so junto ao' mar.- a primeira confina com o Reyno de
•Nápoles: &L a fegundacom campos de Ferrara; &
com BonOnia, que rambero he cidade da Igte;a Roma-
na, como ire a dito. Vmbria he mediterrânea, tam fér-
til, & obundante, que naõ.fomente fuftenta com opule-
ciaos feas moradores, mas também acç.^e cõ abundância
de trigo a Florença-. /
Finalmente he tam grande o poder temporal do Sum-
i^^JB^vjjfice, q^ffegundo affirmaõ muitos AuthorjsJ
fc algum Príncipe fecular tivera os principados Pontifi-
cais, Saosadminifiràra como ceufa própria, & iieredita-
'rh, i^lu-cosTrincípcs fe puderam comparar com ellc: naõ
tanto pela grandeza do Império (fuppofto cjuehe am-
pliífímoj como pela cxcellencia, & bondade dasPro-"^
vjncias, fertilidade dos campos, numero de valTallos,
•nobreza de eidàdae'ns, gente valcrcfa para as armas» &
finalmente abundância de todas ascoufas.- Pelas quais
rezoens náofó fe pôde defender perfeitamente, mas
fazerfe temido, & reípeitado dos outros . Ecom tudo
confta , que em toda á'Chriítand.ide fe não acha. Prin-
cipado, & Império meríós guarnecido de armas, mu-
ralhas, óc fortalezas, que efie, eXpcfio a qualquer en-
trada, que fe quifer fazer nelle.- fendolhe tam necef-
faria a defefa por rezaõ' da* vifínhança doTurco , &
Sairanecos, & de fueceflos paliados, em que a experi-
ência mo flrou quanto necefíirava de fortificrçoês, & pre-
fidius. A;caúfa, que para ifte apontaõ os njeímos Autho-
res

nó / ^(QtJIiftòria Vn&érjfâr^ :j3 <
rcs he; porq os Sumos Pontífices entram de ordinano rià(
Igreja de muita idade, vizinhos à morte: et fallecendo, fc
muda a ditecçam, & ordem das coufas^cototandofc novo*
confelhos, que tal ves a eraulaçam converte a ©atros,
fins, & deíignios difterentes .Pelo qual os Príncipes
mais trataõ de naõ ter por inimigo efte Império,, & Po-
tentado, que propicio, Scprompto, para; os ajudar em
fuás emptefas: guardando porem todos os CalhoUcos, >,
a veneraçam, & refpeito divido â Santa Sé Apoftoliea,
comofizeraõ o Emperador Carlos V. & os Venezia-
nos, que fem contradiçam alguma reftituiraõ ao Sumrno
Pontífice Servia\.Jk Ravenna, eom ornais, que lhe tir
nhaô ufurpado/
:
CAPITVLO EIX.'*£.-■.
T>o %eyno de ^(apoies fogeito d jmifdi-
çam del\Rey de Éfyanha.

T
■ Em efte Reyno de circuito (fegundo Collenucip.)
mil quinhentas, & feffenta, & oitos milhas Italiams,
que refpondem a quinhentas, & vinte, & três lagoas aof-
fas. Eftà poftoem forma de peninfula entre o Oriente,
& Meyodií, & por todas, apartes cercado de mar; ex-
cepto o efpaco, que. ha de cento, & cincoenta-.m;ilhas e9-
tte osdous mares, Superior,& Inferior tfegundo que co-
mummente aífi fe chamam ; por onde fe ajunta cooa3a
mais terra firme de I.qalia. Tem de comprido de.ídonde
femete o rio Tronto.no, mar Adriático?; (que he peja
■arte" do Meyo dia ) até Q Promontório Hercúleo,cha-
mado commuramentc,oCaboSpartivento f-que.he pa-
. raa
raa •
l
'' fyoh 1- Captulo XIX. iMxgp.
H%gF- \* :ii>
*T-7
. ra a parte dó StfTpíiuatfíícentas, & cinVcchta [milhas.
*E de largo,onde mais o he ( que vem a fer do território
%Àk Gaveta ate as fontes do Tronto ) tem cento , & doze
•milhas. E no mais apertado, & eftreito, que he da eníea-
da de S, Euphemia no mar Thirreno,até onde o rio Soyl-
hceo fe mete no mar Iovio, para a parte do Oriente,
naõ tem mais de vinte milhas. Pelo qual alguns compa*
raõ a forma, & difpoficaõ deite Reyno a huma manga,
que fendo larga por onde fe une ao corpo, he eftreita na
extremidade, a que fe eflende pelo braço.
Contem efte Reyno fete Provindas, que fam ai
íeguintes. Terra di Lavoro, Bafilicata, Calábria, Terra
de Otranto, Terra de Bari, Apúlia, oucCapit3neato, &
Aprueio. A Terra di Lavoro eflà entre o rio Liris (que
agora fe chama Gatgalianoj & o Sarno. A Bafilicata
fqS^tríiguelog&)entre oSilar,&pSaporr.Cahbria co-
meça i>o mar Thirrcno junto ao rio Sapri, & fe eflende
ate «$/romomorio Lçueopetrano mar Siculofque ago-
ra fe chama Capo deli armi ) onde fenece o monte A-
pennino, a cu/a ultima altura chamaô os mareantes Pun- \
ta di Tarlo. A Terra de Otranto começa nefle premõ-
"tório, & diícorrendo para o Norte pela cofia marítima
até a enfeada ;Tàrantina, fe eflende ao mar chamado
Ionio. A Terra de Bari eflà entre Brundufio, &oRio
Aufrido (chamada de alguns Etolia) jnnto ao mar. A
-Apúlia, queantiguamenté fe chamou Daunia., começa
no Rio Aufrido, & fe continua ate o promontório de
•S. Angel, que agora fe chama Monte Gargano. Apru-
cio, ou Abruzo he hutna Província, que efià no mente
Apenníno paraa parte da Marcha de Ancona, habitada
de muita gente. Pela terra adentro eflà outra regiaõ
de huma, & outra parte do Apenrrino, que aotigusmen-
te feehamouSamnio, & agora o Valle de Benavente,
. - que
ii8 - yHiftoria rV?nverfal.
que cem de comprido oitentí^nilhís; 6c hc Ducado do
Summo Pontífice.
Em todas cilas Provindas fc contam mil,quinhcn«
tas, Sc fellVnta, Sc tres cidades, Scvillas, àlcm das.aldcas /
( a que os Italianos chamaõ cafates) Onde ha vinte Ac
cibilpos, Sc cento, & fete Bifpos, m3S pela mòr parte de
rendas muy limitadas, & ténues .porque, alguns naõ pafr
faõ de quinhentos cruzados cada anno . Os portos do
mar faõpoucos, fendo a regiaõ tam dilatada, & eftendi»
da.fuppoítotccn pela coita algumas enteadas, & bahyas.
O primeiro porto he o de Nápoles, que íupofto que
forte, he pouco feguto para os navios;5& por iiío oas gra-
des tormentas fAecolhem ás bahyas. Ofcgundo hc o
de Caycta expouo aos ventos Aquilonarcs. O tercei-
ro he o de Brundufio em Ocranto. O quarto he o de
Tranio cm Biri.oqual fe.fe reparara1 via capaz úCACIB
galés, como também ode Otranto, que fe mandou cn
tulhir, portemor de que os Turcos entraffem p\j; clic
no Reyno.
Hi nelle muitos rios n3vegaveis> entre os quais faõ
os mayorcs oGargliano, o Vulturno, & o Lando na ter-
ra di Lavouro. O Vafcncio, Sc Acrifío na Bafilicatafo* i
Aufridoem "Bari; o Fortore, Sc Candcloro, na Apúlia; o
PclVara, & Sangro, cm Aprucio . O numero da nobreza
nefte Rcyno he immeníb.- pois fc contam ncllc dezano-
ve Príncipes; vinte, & cinco Duques; trinta, & fere Mar-
queies-, cincocnt3, 5c quatro Condes, Sc mais de mil Ba-
roens. Por morte deites naõ herdaõ as caías mais que
atè certos grãos os que faõ parentes , fegundo a pragmá-
tica, &ley,5c cm faindo do grão determinado, ficam fen-
do da Corna, 5c fifco Real, E por efta rezaõ fe vendem
ordinariamente a Mercadores ricos com grande traça,
Ôc providencia do governo; porque como cftes fejaõ
otdina-
Lwrb£jQ@itt§l,XX. lEim
ordinariamente de animo baixo, & vil, não ha que re-
cear, nera que temer dcllei. E como também íejaõini-
J
. jhigos da nabreza antigua, nunca podem concordar com
►^clla, para fazerem motins , & alteraçoens no Reyno.
As rendas, & direitos Reais fe dis chegarem cada an-
noadous milhoens, & mcyo, cj eícaflameme podem pa-
gar os juros, tenças, praifidios, infantaria; cavallaria,
' gallés, & outras defpeías ordinárias. Os fóldados de
infantaria pagos por conta delRey íaõ quatro mil, com
diverfos Capicaens, & hum fuperintendente , que cha- -
mão Mae (Iro di Campo.- & hom Auditor general que
•jalga as coufas da milicia .; E tudo iOç> afíl junto fe in-
titula, U Ter^o ài Nspoli . Tem mais mil de cavallo
repartidos em dczalcis tropas , de felTcnta cada hu-
111 d
^"íBMAÍ^ '1^>tcm cada ccm f°gos obrigação de
tuítentar cinco Toldados deputados pelos miniflros,
& orV .iaes da milicia . E como es fogos , fegundo a
liílacio Reyno, fejam quatro milhoens , onze mil,
& quinhentos ficam fendo os fóldados , que fuften-
tã os moradores, duzentos , «Sc quarenta mil, & íete-'1*
centos: porem naófe ajuntar» fenaô emtcmpodc guer-
* ras.
A cidade de Nápoles (que he a metropoli do
Reyno) hc das mais populofas, & illufírcs da Chtiftan-
dade, affi no numero dos moradores, como nasrique-
» zas, fumptuofos edifícios, torres muralhas, & fortale-
zas. O .muro da cidade hc tam forte ,& lar-go, que íc
nanfi fahc couía femelhante: como também os trescaf-
tellos infí*ncs, que com eflarcm diílanj^tem feruen-
tia , & caminho por baixo da terra «Je^Uns para ou-
tros , com que fazem a cidade fortiffima , & inex-
pugmucl . Ã nobreza hc tanta , que fe tem por cer-
to paffjrem os coches de cinco mil, Os Convénios,
• • I Collc-
v
130 * <& Hiftoria Qnfoçrfd}-:'
Collegios, & Téplos ia na quaíi fem numero, pois ha iíefr-
giam, q no território de,Nápoles, & na oieíma cidade paf«
fade trinta Cõventos. E informandome eu dacaufa,Sc
motivo de canta grandeza, achei q hú Príncipe do Rey.
nofalleccndo icm herdeiros deixou doze mil cruzados
de renda cada anno applicados para fe edificarem Con-
ventos, & outros, lugares pios. O território da cidade hc
hum lítio de grande fertilidade.&freícura com grandiofas
quintas, hortas, /'ardi os, caías de prazer, & todos os rega-
los, & bcs.cj í'c podem defejar. Também hanella húa cou-
fa admiravel.que chamam a Gruta de Napoles,& heq mi-
.nãdofe húa ferra^de duas legoas, fe faz por baixo da ter*
ra huaeftradamuy feguida; em cuja diltancia nam tem
fuecedido latrocínio, nem malefício algum, que he couta
digna de grande reparo Ha féis ilhas foreitas a^jjç, R *?v-'
, no. Tremítho a Abruzzio.* Li para a Calábria: Capcra ( a
mayordetodasj Nycheca, Prochyta, ôclfchia, aferra di
Lavouro. O Viforrcy mandado poi elRey de Ê$»anha
affiíle na cidade de Nápoles cabeçada Província di La-
vouro, & de todo o Reyno ; & para as outras íeis prove»
& defpacha o mefrao Viforrey ootros tantos Governa-
dores. Perto de Nápoles eftà o monte Vefuvio vomitan-
do perpetuas chamas, & labaredas de fogo.

CAPITVLO XX.

Do Ducado de sIAÍiUc unido à Coroa '


jfo de Efpanha.

O Ducado 3e Mibooecupa a mayor, & melhor parte


de LõbardiaemluUa pot ambas as prayas, & »-
beiças .
y
t
l#
"* Tturo 1.Capitulo IX. Euro&W \ ?5f?
befas do nWaí^chatSSb cõmúmenté^Tò pela parte
* 4o Scptcnuiam júto ao lago VerabancfouLago Mayotc)
»confioaco»os Heluecios,q pegado ao meímo notem
Behnzona, & outros lugares eõtodo o lago Lugano: õc
junto aolago de Lario f qagora fe chamaComoJ eofina
cora os Rethos, que vulga.mente fe intitulao Tudelcos.
Saõeftes lagos f que faz o tio Pò) huma das mais celebres
, coufas de toda Europa, affi pela frefcura,fertilidade;& ex-
cellencia de fuás agoas, como pela comodidade dos po-
vos, q junto dclles habitaô. Pela pa.te do Oecidctetoca
os cotios de Vallefia, alê do rio Athiíon,& os limite» do
Ducado de Augufta, & do Condado de Veríellas ,uto do
tio Sicia, como também as demarcações de Momferra-
,e. Pela parte do Oriente cõfina com os campos Bergo-
menfesnas ribeiras do rio Abdua , defdc.lugar de Lee-
fN&Yroaatff! &com osBrixienies deído de Covo
atéCaJvaton,entre os quais paiTa o rio Olli (ficando
debá*xo da jurifdiçam de Veneza o território de Cremo-
na como húa ilha dentro do Eftado de Milaõj & também
■or aqui confina comos campos deMantua, & de Sa^
t bloneca. P<U parte do Meyo dia confina com o Duqua-
• - Eo de Parma, de quem os divide o Pó; & com os Geno-
• vefes, & outros feudatarios do Irrperio. Occupatrezen-
tasm.lhas de circuito (como disGuarino) nas quais tern
dez cidades, que laô Mib.õ, Ticino, Cremona, Lsuda rou
• Lodi) Tortona, Alexandria, Como, Novara.Bubio, &

• 'SHe efta regiam abundante de rios, & divetíos lagos;


fcrtiliffima de trigo, bom, & preciofo vinho, & de todo
o género de fruitos. Innto a Milaro fe produz tam grande
copia de Arroz, que parece incrível. O campo de Gre-
mona dà muito trigo, vinho; & fruitos, principalmente li-
nho, & mel. O Laudcnfe produz muito fcnteyo , rrulho,
\2 vinho,
I l
3 t^^-HiftorialJmverfàr.
vinho, Unho, oc vários frutos.Tum g&Vucípaffos. A prii
raeira cidade he Milaõ, antiquilfima, edificada (fcgutv c
do fecre J pelos Francefes.ou Galloslnfubtes. Eftàpofci
ta entre os rios Ticino, & Abdua, não longe dos Alpcí ,
em hum lítio temperado, frefco, & faudavel. He com rc.
zão contada por infigne, Sc por huma das mayores da Etfr.
ropa, muy florente em comércios,5c riquezas, excellen-
cia de edifícios, grandeza de templos, & raagnificécia.d»
praças,& ruas. Occupa grande efpaço, poisfe disque tê
oito milhas de circuito, & tantos moradores, que íegun-
do affirmaõ os q bê oobfervam, chegaõ a duzentas, &
trinta mil amas. Ha ndla muitas famílias nobilliílimas,
das quais húas te£j vinte , ôc cinco , & ©utraj trinta mil
cruzados de renda. Tem húa fortaleza chamada o Caf-
telo da potta Iovia, a mais celebrada de toda EuroDa, aífi
na fortificaçam, como na grandeza. Hà-svclla bífiFfe- ue
armas de grande preço, Sc valor, afll pelo artifkiOj.Õc per-
feiçam, com que iam obradas, como por ferem guarneci-
das de ouro, & prata, dignas de todos os Príncipes fe
^ viftirem delias. Os direitos Reais fe affirma paliarem
de oito centos mi! cruzados, alem dos tributos extraor- "^
dinarios, que cada dia fe põem ao mifcravel povo, fendo*' «
tanta a crueldade, & avareza dos miniítros, & executo-
res, que fegundo disloaõde Lact, anda em provérbio
por toda Itália, que os miniítros delRey roem em Sicir
lia, comera em Nápoles, Sc devoraõ em Milam. Ha Go-
vernador nefta Província, que fe chama Vigário géraí
delRey de Efpanha. r
A cidade de Ticino. que agora fe chama Pavia, inf-
tituio Vençeflao em Condado encorporado em M laõ.
Neih ha dous paços fomptuofos, hum edificado paio Pa-
pa Pio V. & outro por S. Carlos Borromeo. Os morado-
res, oíkmaõ.ter fua origem, de França, & as.mais dar
farol- „
- .*

famílias tem as flores de Lis em fuás armas. Oterrito-


* tio deita cidade he tam fertil, & aprazível, quelheeha-
*»ão commummente , llgiaidiano âi Milano. Nella eftâ
^» hum fumptuofo mofteiro de Cartuxos, chamado la Cer-
tofa A cidade de Novara fe deo ao Duque de Parma
, com certas cõdiçoens, & leys: porq rccõciliandoíc Otá-
vio Franefio no anuo 1556. cõ o Emperador feu íbgro,
9 fe aflentou nas capitulaçoens, q Placencia, & Novara cõ
feu território foffede Parma (ficando referwdo o direi-
to ao Império, &Sè Apofiolica) mas que a fortaleza de
"Novara ficaffc pelo Emperador atè fedar final íenten-
ça nefte pleito. Alem das cidades tcnvmais efie poten-
tado cento, & cincoenta, & quatro lugares entre villas,
& aldeãs, que chamaõ Caíates.

CAPITVLO XXI.

fia ^publica, &- Senhoria de Çenova. E


j da cidade de Luca.
s~*{ Omeçou a Republica dos Genouefes ffegúdo Thua
V^V no) no anno do Senhor mil, & cento. E luppofto q
.poc muitos fe conferuàraõ com fuás lêys, ordenações, &
■ ellatmos, com tudo não faltarão diffenfocns na matéria
do.gouerno, porque as mais nobres familias reencon-
trarão, & defcompulerão, tom ando armas cõ grades ini
mizídes, Scodios, ("obre qnais auiãodc oceupat os mais
altos poítos,!i'gares,& dignidades. Osq primeiro deião
principio a eftas altersçocs, & drcordiasforào de húapar
te osSpinulas.eDoriasje da outra osFilfcrs,«Grimaldos,
q cão as principais famílias de Genoua , cõ q oifíipada
, . 1 Vi pot
t y
r ys
134 ' ^E$$(M Vm^Mí^Â^. a
por muitos annos a Republica,' fe fogcitou a PríncépeS .
eftrangeiros, como foram o Emperador Henrique <V>1;
Roberto Andino Rey de Nápoles, os Reys de Erançaj '
& os Vicecondes de Milim, exprimentando emeada hú
dellesosinfeliccs fucceflbs de fuaadvería fortuna, que1
cada vez julgavam por mais inconftante, & retardada na
quietaçam, & bom gouerno, a que alpiravam. O que cõ-:
liderando hum prudente, & valerofo cidadão, por no-
me SimaõBoceanegra,fc teíolveo com grande conftan*
cia de animo a tornar Génova a fua antigua Uberdade»
& pacifico governo. Eaítinoanno 1444. perfuadidos,
& animados por çjle os Genovefes fe rebellaram.» & ne*
gàrarn a obediência aos Viceeondes:& inftituindo Re*
publica,o fizeram Duque»que pacificou os Grandes, &
fez novas leys, em que todos concordaram: 3y^lui""
do do governo os authores dos motins \ & ducordiãs»
eriou novos tribunais, & magiftrados. Ç
Mas como os defta naçam fejaõ tar» ambicioWs, &
inclinados a governar;por morte deite Duque fe-come-
f çâraõa mover novas difleníoens, que o Príncipe André
Dória quis aplacar, & naõ pode. Efoy efte fogo lavran-
do, & ardendo com tara grande vchemencia, que húas
das famílias fe falram fora da cidade , & tomando armas
fe puzeram em campo contra as mais que nella ficavam.
Pelo qual combatendofe fortemente de huma, & outra
parte no anno 1575. foram caufa de muitas mortes» Sc
lamentáveis ruínas. De que certificados o Summo.Pô-
tifice, o Emperador,5c os Reys de Efpanha, & de Fran-
ça, com zelo da honra de Deos , & paz entre os Chrif«
taõs.tratàram de acudir a tam grandes defventuras. E
feitas primeiro tregoas entre os discordes, -os períuadi-
raõaq-ie tomafíem árbitros, que julgaííem efte pleito*
Q que aceitando elles, nomearam por juizes, de ctéhfeji»
11 tinaenío» *■
* - rv
** timento,Ííío^eíí?o dòTFnncipes ,~õ Cardeal Morono
* Legado à latcre da Sé Apoftoliea : Pedro Fauno Cofiha-
>chiaiio Conde, & Príncipe do Império; o Bifpo Aquen-
te Embaixador do Cefar; Dom Carlos de Borgia Du-
m
quede Gandiaj & Ioam Idiaco Embaixador delRey Fe-
lippe. Os quais fizeram a concqrdata, eferevendo as con-
diçoens, & paftos delia era quarenta, & hum capítulos,
p que foram lidos, & publicados em Génova com grande
applaufo das partes. Conforme a elles inftituiram os feus
Magiftrados.creandohum Duque fobreintendente a to-
dos , que dura perpetuamente : & logo hum Senado de
Oitovaroens, que juntamente com o Duque íe chama,
LtSignorh. Deftc dependem todos ò? mais para o go-
uerno da Republica. Nifto fe conferuaôde prelente, to-
mando jaorfeu Protector elRey de Efpanha.para tam-
tfetrdifíompc^& reprimir nas difeordias, & difienfoés,
a quç4aõ inclinados, & íogeitos.
iÒsterritórios, villas, caftellos,& cidades,para que
mandaõ feus Prefidentes, Iuizes, & Goucmadores,íam
quarenta, & dous. Para todas efias prouem, & defpachaò\
[> homens de talento, prudência,& valor, ainda que nam
• ''"fejaõ do numero dos nobres. Exceptoa Prelldencia de
• Sauona, as Capitanias Clauarienfe, S padienfe, Zarzane-;
fe, Ayacenfe; o Gouetnador da ilha de Corcega, o Cõ-
miOariode Bonifaci.o,&.Calu3,em qnaõ faõ prouidos
i» fenão os matriculados no liuro dos cidadaês. Porem o
Príncipe Dória, oPrincipe de Maíía, & os mais, que faõ
• feudat?nos de Efpao.ha naõ podem fer admictidos ao
gouerno d i Republica, por inconfidentes, ôcíofpeitosà
fuaconferoaçaõ.
■ Acididede Genouaeflàfituada fobre huns ou-
teiros, ou tumuios junto ao mar, em fjrma de mfya Lua-
Da parte do Morte lhe flcaõ huns altos montes, inuil-
cos
. ' ,0 U '
\

136 - ^^J^/fiorialJnuierM.
cos, aíperos, & inúteis para tucío>á fo rhefervem de a am-
parar dos ventos Aquilonarcs, q alli farr» nocivos,ácperjui-
dici3is. Tem efta cidade paços,ôc edifícios de notavtl ma-
geftade, 5c grandeza. Diz Piçarro,q occupa íeis milhas de -.,,
circuito cora grande numero de moradores divididos em
32. Parochias. Té hum porco ampliílimo, roas expoíto aos
ventos Meridionais, q muitas vezes fazê grandes perdas,
& danos nos navios: por cuja caufa lhe puíeram diante hn
baluarte de feifeentos pesem alto. Defronte ddle fize-
ra© huma torre, & forol de grande artificio fobre hum
alto, & eminente promontório, junto do qualeítamos
arrabaldes da cidade ; cujos edifícios, 5c caías fe igualam
com as milhores^ ôc mais fumptuoías delia. Por junto
dos muros corre o rio Biíannc, ôc em pouca diftaneia o
Pocifero, de quem hum valk- tomou pjiome :& todo
aquelle território, principalmente |unrco ao marota p"o-
voado de illuftres villas, 5C ricos lugares; fuppoflo q naõ
tem mais que íefenta mil paflbs de cõprido. Dacidlfe^ pa«
^ra Milam ha dous caminhos, hú pelo Valle Pociferano,
$ ôc outro pelos aíperos montes» onde íe produz abundân-
cia de caílanhas, porem naõ dam outras novidades. Tem '
mais o Porto de Veneri celebrado dos mareantes; 5c a'
cidade de Sovaua, que fcomo dis Leandro) he muy no-
bre, 5c occupa de circuito mil, 5c quinhentos paííos com
fermofos edifícios. Algus tép06 foy livre, mas agora eftà
em poder dos Génovefes, q noanno 1^28. lhe entulha- .
ramo porto,porqnaõ entraííem, nê faiísêdellc navios.
Tomàraõ os deita Republica aos Reys de Efpanha "
por feus proteftores, como fica dito i Pelo qual Carlos
V. (fegundoThuano) tratando as coufas de Génova co-
mo próprias, para poder paflar feus exércitos de Efpa-
nhi a Itália, qnkaqui fazer huma fortaleza com titulo,
& diíu*m.ulaç;<iõ de melhor a guarnecer, ôc fortificar.- pc re
oPiin-v ,
:
K- ' **L iXjttituh
,L ,; •,;;. -r*<j$7
XXI. £$#*£. * ->
'137
^* c Príncipe EfôfTaTnê pôr prtrr.eflas,"V>ê per ameaças lho
* quiscõeeder (dado por rezam ler raiufto impcrlc tal ju.
•goâpatria)aqos maradoreí tamttêrefjRitam valetol^mê-
, te. Mas para refrear os. indómitos neíta parte ,deo o pru-
dentiííimo Príncipe em outra traça tam confiderada co-
mo fua>qfoy pedir aos Genoyeles o dinheiro q tinhaõ
enthefourado (em-cj céfifie opieço.fií valoi de fuás ri que-
0 ías^cõeondiçam qlhesdaria-grandesganhos delle.Porq
afll(('egund'ó entendeo para o futurojefta gente cam incli-
nada a íeus intereííes, lhe entregaria tudo quanto aqui-
rifle.&a fegeitaria com as armas de íeu próprio dinhei-
ro, & tbefouro. & '
Deita roeíma traça ufou também í#b filho Felippe O
Prudente: porque fazendo gradei gsftos, & defpefas nas
<merrasde Fbndes.torrouifto pormotivo,para pedir grã-
ttHétôiSi quantidade de dinheiro ártobreza de Génova;
eonfinandolhe para a paga dos' reditos as rendas de Efr
panhjf&das Inaias. Porem mandando fazei (depois de
paliados alguns annos)ccputo dos ganhos , & julgando q
fe tinha pago mais do que le devia, mandou q o que avia \
P de róaisa niais fe deicontaiTena íoma dopriírcip:!: & q
» "*é*m quanto iífo de todo fé na-n liqoidalTe, ie foOftivelTe
• ha entrega das peníoens. O qual ediótc foy publicado era
Eípanha no anno i>73-. revogando (queira Decs, q com
boaconciencia; ascoofiguaçoens.q lhcstirha feito. Dõ-
-■ de "não fomente em Génova^ mas també em.Roma, V
neza. Milam, Antuérpia, & nos mais dbs lugares de Ale-
'• manha, tê refultado grandesqueixas, & eic. ndalos. E os
contratadores, mercantes» Scaboriadores de-cábies^com-
mercios, & créditos fe deíanimaram, dê tal modoj q mui-
tos delles deixarão de cobrar de (eus acrédore*, por evi-
tarem contendas, & pleitos que com tal exêplo fe aviso
de ventilar, & mover.
Depois
■133 t \^fi.'florit TJrirjcrfd. '
Depois de paliarem qaãtenc^títros "era que os
Genovefcs naõ cobraram os reditos, que lhes foram con-'
fignados, acordaíaã mandar hum Embaixador a clRejr* {j
Felippe, o qual foy loaô Baptifta Letcaro, para que cora *^j
toda a modcftia propufeffe efte negocio. O que o Em.
baixadorconfeguio foy, que fe a bate Ciem os juros, &dc
fete viefTem a quatro, & que os Genovefcs contribuif-
fem também affí afeus acrèdores.- com que em Itália r
quebraram muicos, ôc deixaram o contrato. Porem nem
cila determinaçara, óc aflento perfeverou; porque no an-
no 1596. fe tornou 3 publicai por edi&o Real, que fua
Maçcftade elhva metido em exceffivos goftos da guerr
ra por de fender1'-'a Chriftandadc, pelo qual naõ podia
defraudar de feus thefouros, & rendas. Onde quafi de
todo acabarão de defmayac os Genovefcs. Porem tor-
nando à inítar com Felippe IV. no anuo i6i7^fvÇTaíTi 4
por rcfpofta> que lhe cfperaffem pela pagados ckzafete
milhoens, que felhes diviam, até o anno i«Sj6. &c^c cm
tanto fe lhes pagafíc a cinco por cento. Porem nara fc
/ dis que fc dèffc à execuçam cflc Decreto.
A Senhoria de Génova pertence à ilha de Cot- %
cega no mar Mediterrâneo. Tem (fegundo Cluvctio)* "J
duzentas, & oitenta milha* de circuito , cento ,& vinte
de comprido, & cincoenta de largo, fendo na grandeza a
terceira deite mar; a qual dilUde Sardenha íetc mil , óc J
quinhentos paffos, como dis Strabo. He pela mòr par- r*»
te montofa, chea de matos, ôc brenhas >Sc de poucos rios.
Os principais fcuitos , de que vivem os moradores faõ '
mel, líiocii & carnes de q'ic he muy a andante , As ar-
vores, q nella ha fam-buxos, & texos, pelo qual hco leu
mel a m argolo. He gente pouco grave , 6c aíícntada, me-
nos pálida, muy cruel, & fobre modo vingativa. Pelo
qual fe dis por provérbio cm Itália: Nw fmrds.Ctrfe, ntm
vivo, ,
1
-^ .. .,27 *~
vivo nem w<?r/í>.'Com tudo iam bens (tlcccs", & atuuõ
*o. trabalho da-militia- O prinxno lugar defla ilha he
• °kaítia defronte da coite de Hetruria, onde afiifteo Ma*
,>»giftrado, ou Prefidente.Tem mais Florêncio, que fa-
queáram os Franceies no anno 1553. Adiazzo cabeça
da ilha, frequentado dos mercadores de Génova. Boni-
fácio he o principal lugar fortificado pelos Genovcícs,
> com muros &torres> onde ha hum fermofo porto cer-
cado de altas penhas.- & junto a elle fe colhe muito , ôc
fino coral. Também dá abundância de vinho, que fe le-
va para Roma, & lhe chamam Cotfico . Ha nella quatro
Bilpados, o Sagonenfe. o Adiacieníc,^ Alericnfc, & o
Murtadeníe. Disloaõ Botero, que ha nefla ilha fetenta
& cinco mil pefloas, & que pudera fuftentar mais de
r-ji7.cnra«jxúl,pAb abundância de fruto», & paftos, on-
1
defe tilam muitos gados, ôc cavallos de grande preço, 5c
çftima 3
'U cidade, & Senhoria de Luca, que logo fe feguc a
Génova, tem duas milhas Italianas de circuito. O terri<
tório hc grande, masmontofo, & poriffo lhe nam dá
'.' mais trigo que para feis meies, ôc paca o mais tempo fe
; provê de Nápoles por mar. Vivem debaixp da piotec-
* çiõ dellley Cathclico. Comos Genoveíes, ôc como
Príncipe de Maffa tem continua amizade; mas cem o
t Duque de Môdcna eíteõ-fempre difeordes, por rezaõ
D» dos limites , ôc confins do campo draffignancnfe. Ao
Duque de Florença tem gtande refpeito, affi pelo direi
*to,q-ietema Luca por ler antigamente frgcitaa Pifa,
de que agora cflâ de pofle, como porque confinaõ com
elle por tres partes.O numero d3gente fe diz que fera
q.ufi de trinta rril homens. Ha n<lla famil as'opuíc n-
tiíliroas,fcndo todas de mareantes; & o trato p ir.cipal
he, epn panos de feda,c<hrwSaõos moradores hun-auos,
dota-
a." • / *
140 *■ S^^r/V Vw^rfáit^ ■
V

dotados de brandura, ôcfinceridade. talam alinguoa Ita-;,


liana mais cerceada,&polida do q Có coftuma nos maií la»
gares deHctruria. I
Sò efta cidade entre todas as mais, ainda que peque- * . J
na, defende, & eonferva fua liberdade. Parao qual orde- j
nou fua Republica, que conda de nove Senadores, & hú ^
Gonfiloneiro, que quer dizer Alferez cabeça do fupre- ,
mo Migittrado. A eleiça.n (c faz com pureza, & verda- \
de: & para que fenaõfalce nella, faõ admitidos com os
examinadores do eferutinio hum frade de S. Domin*
«os, Sc outro de S. Franciíco. E porque era todas as cida-
des coftumaavefrhómés ociofos, inimigos do trabalho,
& mclinidosi todas as-maldades, & vicios, inftituiram
os de L-ica (3om exemplo para as mais,) hum confelho
particular, que tomi conhecimento dq|oue liimiai fT"1^
&queniô procedem como devem. E na f o ma na íanta
os que aífiftem nefte confelho fe ajuntaõ em certV-Iugar,
& levando hum is cédulas, ernque vaõ eferitos osTÍomes
dos vadios, & malfeitores com as culpas, que comete-
ram. as lançam em numa caixa. E levandofe ao fupremo ..
confelho fe abre, examinados os crimes, deíterram os^
malfeitores dacidade, corrio indignos de viverem nella.
o

CAPITVLO XXII.
.-■<■-- '. ■

T>o Duqmdo de Saboya, &■ Tiamonte '

' ' •
.y->Elemoncio, OXiPiamonte, em cujo nome (fegnndo
_17 loaõ Bocero) fe comprehende tudo oque a ferenif-
fima família dos Duques dc.e.aòoya pOílue em Itália
lb i (excepto
1
fexrepto o "Cdhdddo delsuiza) íc eftcrjíícdejdo no
*S< fia até o Delfinade enfe pSiAlpcsi Mogpifeuate> Mi-;
1'aõ, & oterritono de Génova. ;Pa.fiaa):f tJQhcpeyo defta;
^vregiaõotio Pado, cu Pò,o Tanaro, o Stòra, oDuria-iSç"
vinte & oito mais entre gríndes,, & pequenos ., O.Pò a
engtadcce com íeu oacimento, cujas fontes^ eftaõ no
monte Vtfulo,que agora fe cbama-Non vi-fo. He opiniaíj
t comn;um , que nam ba em Itália, parte mais aprazível»
regalada, &frefca, nem mais fértil de trigo, vinho, 5c
frutas; abundante de todas as carnes de caça, & domef-
ticas, laticínios, caftanha, linho, & de todo o género
de metais. Donde procede, que em.fu^ quantidade hc
Província mais que todas rendofaa feu' Príncipe. O ar-
gumento mais evidente de lua vmyor abundância, &
fertilidade he, que no tempo das guerras , que entre íy
tivTraTtfrfêfla erFo Erancés & o Hpanhol por eípaço de
quafí vi*te, & três annos, ajuntandofe de ambas as partes
copicíss exércitos neftas regiocns; nunca ja mais íe fen-
tio falta de coufa alguma nellas . As riquezas íe viram
p'incípalmente nas ultimas guerras, que o Duque Car-
t los Manoel nos annos paliados teve afliem França, IO-
i 'moem feti Principado: para as quais lo Pian\onte c.on-
:
tribuio em poucos 'annos onze milhcens de ouro, alem
das grandes defpezas, que fez em baílecer os prcfi-
dios.
m. Ha nefta Província cincoenta Condados, quin-
ze Marqueíes, grande m-mero de Senhores, vinte Ab-
•badias grandes, & muitos cutros beneficies riquiílimos.
Naõ tem cidades populofas, porque cemo toda cila feja
•igualmente fértil, & boa,-cada hum faz (ua habkaçam on-
.de melhor lhe parece. E cõ tudo não ha em lt.-<Iia patte,
onde as cidades, vil!as,& lugares eliejím mai conjun-
tos , & vizinhos, Pilo Qual.puguntando hi.m hr n tm
, prudente
prudente a outro, que era o que julgai dê Piamonté;''
lhe refpondeo, que era hum a cidade, que tinha trezen-
tas milhas de circuito. Tem oito Bifpados, os quais faõ'
Vercellas, Afta, Iurea, Ofta, Turin Mohdovi, Toflav^
no, & Salucias. Verccllas, ôc Afta aífi no circuito dos mu-
ros, como na grandeza dos edifícios, 5c bódade dos cam-
pos levam ventagem às outras, principalmente A fta,quc
no numero, 5c magnificência dos paços pôde competir *',
com as mais amplas, 5c famofas da Lombardia. Vercel-
las.he antiquiffima, Guiada entre os rios Seíia, 5c Duris,
a qual foy cabeça dos povos Libieos, «Sc nclla celebrou
o Papa Leam D^.Concilio contra Berengario . Augufta
Pretória, que agora fc chama Ofta.eftá ao pè dos mon-
tes Grajos.Sc Alpes Penninos.que agora fechamaõo
Monte mayor, 5c menor de S. Bernardo, .• pelamavotle
vay a Valleíia, 5c pelo menor a Tarcntafia. Heeftí*ci- i
dade cabeça de hum valie, que tomou o nornettella, o
qual tem quinze legoas de comprido, abundantlkde tri-
go, 5c vinho, pouoado de muitas villas.Sc lugares* Sc tam
forte, 5c; defenfavel, aífi pelo lítio, 5c eftreitas paffagens,
como peh vigilância de feus moradores, que os France- %
fesoecupando os mais lugares circanvizinhos, não ou- U
fâraõ entrar nefte valle, fegundo Ioáo BoterO. Achaõfe '
nelle minas de ouro, 5c prata finiffima.
Turin hc excellente cidade afli por ter huma Vni- ,'
aerfidade florente, como por fer a Corte do Duque dc-r.n
Saboya.fituda não longe do Pò, junto a huns montes;
a qual foy colónia dos Romanos. Nella faz o Duque?
Carlos Manoel hum víueiro, ou tapada, em hum fitio
frefeo,6c apraziuel. que oceupa féis milhas de cercofpor
junto da qual correm o rio Po, Duria, 5c Stura. Eftâ toda
chea de matos, 5c bofques,lagos, fontes, Sc todo o géne-
ro de feras,que o Duque mãdou alli trazer para recrea-
ção.
'* çSo,&ex?racíodeTeusTilhos. Perto da qui junto as ri-
beiras doRcx íelevanta hum pequeno monte, cm tujss
decidas, & quebradas ha muitas fentes de.ígoas criftal-
,linas,& puras,& tantas quintas, hortas, & jardins, que re-
W
. ptefenta hum paraifo , & fe pode chamar monte de ou-
ro . Mondovi fituada em hum monte junto ao rio Ella,
fc julga por mais populofa de toda a Província. Em hum
, de feus arrabaldes, chamado o Vieo, edificou neftes tem-
pos o Duque huma Igreja fumptuofiffima dedicada â Sa-
cratiffima Virgem Noffa Senhora , na qual ordenou que
daqui por #nte fe fepultaflem os Príncipes deite Du-
cado. Eíuccedecque nos alicerfes fe defcobno huma
mina de mármores finiffimos, pela mafor parte negros,
que refplandecem comveas, & perfis de vários metais.
A cidade de Salucias fituada ao pè dos montes Alpes,
^cabfífdo 15fiirqueíado>no qual o rio Pò tem fua ori-
gem, fofonte. Alem deitas cidades tem mais efta Pro-
vi nciiaazentas, & cincoenta villas muradas de grande
fama, & nome; entre as quais excede Savigliano, cuja
fertilidade, & abundacia he tanta, que paliando por el-
f la Carlos V. para a Provença com feu exercito, diffe , que
> não tinha vifto logar mais accommodado que cfte, para
* ' fuftentar grande numero de íoldados. E Manoel Phili-
*• berto teve algum tempo tenção de a fazer cidade, & mu-
dando para ella a Corte dailhe titulo, & pieheminencia
■-<? de Metropoli da Província.
O nobiliflímo Condado de Nizza tem de com-
•prido vinte & duas legoas, & onze de largo, entre o rr-o
Varo,oDelfinado, Piamonte, & o território de Ge.no,
va. He terra afpera , & montoía, dividida em quatro r5Vfi-
gairarias, cujas cabeças faro Nizza, Pogieto , Barcellone-
la & Sofpello. Nizza, quehe a Metropoli, he cidade fer-
mofiffima, muy fone, & pppuioía eom gtandçs, & ícber-
bos
».
144 *~y$**-Hidòrid IJnivetÇd. , >>
bos cdi6ci0srKo~'ãnn3 15437'fôy grandemente cõbatida,
dos.Tatcos,& Etancefes.a quem reíilíió cont grade va-
lor, 6c eonítancit;, E depois.difto fe reparou de tal forte* *\
que naõ ha hoje era Itália-cidade mais" fortificada, fo*^
guarnecida j
Temos relatado o que o Duque de Saboya poffue (
cmltaliãnaregiaõ Sub Alpina. Agora vejamos o que j
tem fora de ltaha.de queordis aíii Vandér Burchio. Ra <íj
na Gallia Narbonenlc huma gente antiga muy illuíhe>
& clara com agloria das façanhas, & obras que fez, a
qual íe chamou os Ailobrogos, tomando^ nome dcl-
RieyiAlobrogo. Gude tem o primeiro logat Vienna jun-
to aorio B-odarft), môtropoli do Delflnado antiguamen-;
te^porqae agora o he Chamberi, onde reíideo-Parla-
mento.pot fer avétejada a todas as roais çidadffi. Aqu^l-
-IcpovopoisjOsSalienfes feus vizintiosf ocos peilicdiòs
Silufianos com tudo o que era feusll.uicesi 5?ixeomar-
eas fe encerra, chamarão orantepaííados Saboyàfa aqual
começa em Leaõ, & fe eftende atè Génova, & Piamon-
1
te confinando por outra parte com o Delfinado. Efte no
-me dizem que tomou de-huns povos chamados Saba- j
cios (que Pcolomeo põem entre osmootes Alpes jósfÉ
quais agora•Tam fogeitos ao Duque de'Saboya. Hunia
parte deíla regiam Cifalpina (e chamou amiguamente
.Miurienna, cuja metropoli he (fegundo ThuanoJ Ioan-
nisfino cidade Epifcopal, & popnlofa, mas por rodastes» 1
-partes aberta, & menos fortificada. Nos confins de-Frá-
çi eftá Confluência junto aos rios Arca, & Ifura, cidade*
-íbrtifkada ,& guarnecida, que defende a entrada a.os
•íP/ancefes no valle Xirentafiervfe . Tem-msis a Torre
Carbonária „ wpag defendi a entrada ncrvallc Morien-
■ fé, pátria de B*eralJo Saxon primeiro Conde de Mori-
enna inftituidor da família de Sabcya: & nella morarão
os Teus,
A

'. os fcus defcendentes era quanto foram Condes, & nam


"poffuiram Piamonte.
J
Agregoufe a efte Principado ha poucos annos o Ei-
rado do Dinafta Eobienfe deita maneira. Hannibal Gri-
malo Conde, & Baraô Bobieníe feudatario de Saboya,
no anuo 1617. por rezam das guerras, que avia entre o
Duque, & elRey de Efpanha abjurando o feudo, com
que eftava adftri&o a íeu Príncipe, impetrou a protec-
çamdelRey de França ( fegundo LaecJ & acabadas as
guerras nunqua pode tornar à graça do Saboyano.
Tratou o Duque de que o Senado deNicéatomaflc
«onhecimento defla caufa, & a julgafí^. E como fofle
condenado juntamente com Teu filho, & os bens appli-
cados paraofifco do Duque; foy mandado ao Gover-
nador de^jçga^que o prendeffe & lhe cortafle a ca-
beça. Pelo qual alem das terras lhe foram conquifta-
das g^ides riquezas afli em dinheiro, como em joyas,
& OOTO bens moveis, que tinha nos feus caftellos de
AíCros, Thodon, Tourette, & outros. Muitos ou--^
ve que defendiam, que .o filho defte Dinafta cafado
era França com .numa filha do Conde de Tavanes, &
t neta do Duque de Maynio, não podia fer defpojado
«dos bens paternais; pelo qual o.Duque de Maynio, &
1
outros parentes meterão memoreal ao Saboyano, al-
legandolhe varias rezoetw, & caufas para iflb. Mas
■ tiveram por repofta, que o filho nam tivera menos
culpa, que o pay,&que ambos foram condenados em
* jufto, & legitimo juizo, • alem de que naô he coufa
nova nos crimes leíx Ma/eíratis encorrerem os herdei-
ros, ôc deícendentes'nos delidos, penas, & caftigos de
feus pays.
Começaram os Príncipes defte Potentado no
írjno de Chrifto tooo. & o que deo principio a eíia
K fami-
<* "J
família foy Beraldo fcomo fica dito; "ao qual fe fegoi-;
ram dezafete défcendentes com titulo também de Con- ^
des. Eo primeiro que fe ioiituEbu Duque foy Ama-;
deo VIII. inflituido pelo Papa no anno 1459. Depois* H/
do qual ouve mais dez Duques atè Viftor Amadeo no i'
anno 1619. o qual cafou eom Chriftina filha de Hen-
rique.IV. Rey de França, de quem ouve hum filho, que (
de prefente governa, & fe chama também Viftot Ama-, >v
deo. O fegundo Duque chamado Luis no anno 1439;
foycafadocom Anna Lufignana filha delRcy de Chi-
pre, por direito da qual fuceedeo naquclle Reyno. He
eftacafa illuftriffima na Chriftandade, & como tal teve
fempre ttavaçao"de caíamentos cor» os mayores Prín-
cipes» oito vezes cora os Emparadores, quatro do Ori-
ente, & quatro doOccidente.- cineo/^oiii,o<s|JR.eys/r'*e
Franca: quatorze com Príncipes de feu Cangue: cinco «
com'a cafa de Auftria: huma eom elRey de A rapam: da-
as com osReys de Caftella.&Leam.-duas cohVelRey
de Portugal: huma comos Reysde Polónia, delngla-
' terra, Scocia, Chipre, & Bohemia;& três com os Reys de
Sicília, &Ierufalera. x '
Os reditos deite Ducado fe dts chegarem a dous, ^
milhoens; alem dos tributos extraordinários, com qoe^
eada dia augmenta o feu thefouro. Depois delRey de.
Efpanha fe aventaja em poder a todos os mais Prínci-
pes de Itália: & fe a fortuna refpondéra a feu valor fora *'
dos mais poderofos de Europa. O feu titulo he ao pie-^
fente, Duque de Saboya; Príncipe de Piamontev
Marques de Saluzzias, Ceva, & Borzena»
Conde de Afta; Senhor, & DinaC-
ta deNicéa.

CAPI: .
o
* CAPITVLO XXIII.

Dogram7)uque deHetrurid, quecommu-


mente fe chama de Florença,

ESte Ducado comprehende (fegundoThomas Sege-;


tho) três Republicas, q antiguamente forão livres; a
Florentina, a Senenfe, & a Piíana; nas quais fe contem a
mayor, & melhor parte de Hetruria, & alguma da Ro-
mana, que fe chama comummente , 5^ Romana Fiorett-
tina; õc em Vmbria, Burgo dcS.Sepukhro eõ hum terri-
tório dcfete Milhas. Eafíipoftano meyo oceupahuma
^oililHufS^t^de Itália, eftaodo por todas as partes
cercadide altos montes, ou do mar com inexpugnáveis
fortaLÍzas,caítellos, & torres. Também no mar Thirre-
no pofiue algumas ilhas, que (ara Ilyrio, ou dei Giglio;
Gorgona; a Rocha de Meloria; & em Eiva o porto Fer-
rario, & Cofmopoly. Dividefc comummente efle Prin-
cipado em Senhorio antigo, & novo.- no primeiro fe cõ-
prehédcm as Republicas de Florença, & Pifa; & no fegu-
' 4o a de Sena com feus aquifitos. Porem o Príncipe pofc
fueeíles domínios por differente motivo, & titulo: por-
que o antiguõ he abfolutb, &livre;a qual immunidadc
alcançou de muitos Emperadores< & c novo poíTue pe-
' ta m yor parte cm feudo ; como hèpor elRey deEfpa-
nha A República de Sena*& o Senhorio deEl^a Epela
•Sé.Apoííblica, Radicofjrroíom os lugares vizinhos, &
Burgo'de-S. Scpulchroem Vmbria-, o qual empenhou o
Papa ao Duque por certa quantidade de dinheiro , &lho
pode tirar, quando lho reftituir.E affi o Comiííarioda
K2 Carne-
148 V ^^^§/fl0)''aV[jheZl^.,-' ' êif,':
Camera na vigiiia^de SamPcufo cofitaVue lugar entre
os mais fogeitos à Sc Apoítolica. Ou finalmente os
tem pelo Império, como Filaierra, & outros Marque- t-^
fados do campo Lunenfe , que pofíuiram.antiguamente: %
os Malafpinos. f
Em ambos eftes dous domínios, afli antiguo, coJ,
mo novo, fe cõtaô dezafeis cidades Epifccpais Talem dé: •
Fefulâs, que eftá affolada, & deftruida ) as quais fam Fio- ^
rença, Pifa, Piftorio, Cortona ( pátria daquellà infigne
Penitente S. Margarita de nofla Terceira Ordem ) Arc-
cio.Volatterra.Monfpoliciano,Burgo de S. ScpulchroB
Collis, Sc Fefulaj no dominioantiguoi antes de arruina-
da. No novo, S&a, Montalcino, Pienza, Cluílo» Maffa,
Sovana, Groffeto; & alguns outros lugares, que na fer-
tilidade, riquezas, & numero de moradores _naõ recoi
nhecem ventagem.às cidades. Floren^S né gauiarda, oc
nofailiffima cidade, tanto, que os Italianos vulgarmente
lhe chamam a Bella, paffa pello meyo delia o ricftArno,.
que nacendo na parte direita do monte Apennino,cor-
f re para o Occidente por huns afperos, & precipitados,
valles; & depois de ajuntar a fy muitas agoas de outros \
rios, & fontes, arrogante, & copiofo paffa por Arecio; & ,
avendo regado o campo Florentino, divide a cidade pe-
lo meyo ("tendo nella quatro fumptuofas pontes) & faze-
doomefmo em Pifa, fe mete 90 mar.
Tem efta cidade de FÍorcnça nobilifíuwos edif?^ «.
cios com largas ruas, efpaçofas praças, <5c territórios lai
geados todos de grandes pedras lavradas . Ha nella
hum fortifíirno caflello edificado por Alèxãdre de Me-
díeis nepote do Papa Clemente VII. cõcento ôccincoê-
ta peças de artilharia. Tem a cidade de circuito íeis mi-
lhas , &. fe dis que ha nella noventa mil moradores.
Os templos faôaroplifíimos na fabrica, & arcbite&uraj-
cnttê ,
' LivroySapitdo '■ XXIII. 'Èmj&L. «4»
* entre os quais Temo primeiro.lugar b..MaiuElorrda;ío<-
do de marmo{es,& jafpcs brancos negros, &. verrttelhos
•eomhura zimborio^&torre^eccflupeniiaí^tand-ezSi^Sárrt .
também admiráveis o templo dci5JIoámsno de S.-Mài
ria Nouella; o de S. Spiritus; o de SlErancifco; o de S.
Lourenço;& o da--Annunciada. Tem quarenta, & qua-
troParochias: doze P>riortd~os;&.fetenta, & féis Conv
I ventos de frades, & fieira. -O paçoj Qnde «lide' o Pííftt
cipe.he ampliffimo,& de muita' magcftadê, & g¥àtid&-
za. Oterrritorio eftàtodo cheo de quintas, caías de pra-
ze.r, jardins, hortas , & pomares, abundantes das agoas,
que o rio; & fontes lhes comunicam, Oí mòíe-dc res
Um agudos,-graves,eloquentes,&muy dadbs aòcftodo
das letras, que aqui íe aprendem emhumâ VrtiveríTda'-
^fi mtiv Aaikat^.. As molheres excedem atodas 3s mais
de Itália eia fermpfura, & horieflidade. Tem Arcibifro
■Metr*)õlítano , a quem íaô íuffr3g'ancos vinte , & féis
Bifpof' H'a nefta^ Academia féis 'Bibliotecas'í "a.'de Sam
Lourenço, que he a do 'Duque; a de S. Marcos.- a de. Sam v
Bento: a de S. CrOZ:a do Arcibifpo:& a de S.M3ria No-
.yella . Ha também cm Florença Sinagoga de Iudjos,
, qué haõ condife pouco para os cOmmercios; muitos dos
quais fe convertem á Fè Catholica pela; prègjçam do
m
Evangelho.
1 Pifa he cidade ãntiipaiffima entre os dous rios Sfr-
• íchio,'&• Arnío, que ambos tem íuà origem no ráooté A-
pennihõ. Foy cita cidade anfiguamente podeiofack' (&,
nhora de Sardenha: poré"bafalh'a'nd'o*'ccro os"Genoveí-s,
os Piíanós foram vécidos por cllesemTartello.onde Pi-

tjtàà&s ^fihaVméntc vieram ao pd'd<


aos: dos quais feápártáram-noanno 1494. torr.DiT-i es
1 . K3 Carlos
•IJO
Carloss VIII. Rey de FrançTa lua anfiguâ Lberdade, cm ''
que fe confeivàramateoanno 1309. .cm que os Floren-
tinos os pnferarn em cerco; .& vendofe defiituidos de to-. * *M
do .0 foeeorro, & efparanças dclle, ao fim fe lhes entre* *r f
gàram, defemparando muitos a cidade per-Tua livre von-
tade: & aífi ficou pouco menos que defpovoada. De?
f ois dift.o tratou Cofmc Duque de Florença dearef? J
laurar, & reftituir, pondo nella Vniverfidade, & edificam* ^
dohuuspaços para.os Cavalleiros de S. Eftevam, mas
nem affi pode recuperar o antiguo refplandor de fua
nobreza. Tem Arcibifpo^a quem fam fogeitos oBifpo
de Çivitella.o de Maffa, & os da ilha de Corfega. - r/p
A «idade d% Sena he também antigua; & oceupa
três milhas'de cerco com, bens muros, & hum alto | fof-
fo, quea cerca toda. Ha nella Arcibifpo defiáp temo**
do Papa Pio II. &hur»a Vniverfidade,"que""eTle mefmô *
icformpu, & acrefeentpu. Burgo do S. Sepulchrcfçidade
de Vmbria fendo da Igre/a, empenhou Eugénio iK poí
doze mil cruzados ao Duque. Tem efta província mui-.
' tos portos mas o principal he Liburno, que agora fe cha-.
ma Liorne, eom preíidio de quinhentos foldados, Hev \\
truria como agora a peflue o gram Duque, confina pela , '*>
parte» do Occidente com Génova, Luea, Modena, o val-
le Caferniano, o Du cado de Vrbino, & Parma; & pelas
outras partes; que não (iam raaruimas, com Bononia, Ro- »
mandiola, PiruÍja,Tifernate . & outras, do Eftado da Igre •• -
-,a. Os reditos deíle Principado fe diz que faôoito cen-
tos mil cruzados, íegundo alguns, que os computarão;
Opoder ordinário militar he de trinta, &oito mil foi- .
dados de infantaria liftados para as pecafioens de guer-
ra Porem neftes nãõentraõos Florentinos,nem fe lhes.
permittem armas, porque fc naõ levantem com o defe-
joda amigua liberdade. Tem os foldados grandes pri-;
\\te~
' LsJu&L Capitulo XXIU.Mrgp/J ij i
* vilegios^cnifc éliís htKnoÉ quê^ffi poliam fer preíos
%or dividas, pelo qual muitos que as tem, ;fe alternam na
•milícia • Epatâ que >ormar'fe Tegurafle melhor infti-
tuio o Duque Coime no anno 1561. a ordem dos Ca-
- valleiros de S. Eftevam, onde de ordinário ha feífenta
de divetfas naeoés, de quem o Duque he, Meíke, impe-
trando para tilado Papa Pio V. muitos privilégios, &
graças. Dotou efta ordem com vinte, SMeis rail cruza-
dos! & inftituio para os Cavalleiros comendas de trinta
mil cruzados cada anno. Tem na ilha Eiva doze galles,
alguns gallcòés, & galleaças, para os eommercios., dc
que tira grandes intereíTes.
Começou efta familia em Ioar#dc Medíeis, que
foy o primeiro' Príncipe, ôcfalleeeo no anno 1418. fen-
\ào ferthordealgumas terras, a que depois aeteeeiam as
^idádes> eitauõs, que efta eafa, ôc família agora pofiue;
&'íe swntinuou em nove^ Duques até Fernando , que a-
goraíive: o qual naceo no anno 1610. Della-tem faido
o Duque Iuliano.que foy Papa, & fe chamou Clemente'
VII. Também foy filho de Lourenço, I. Ioaõ que depois"
foy Papa chamado Leatn X Eftes ampliaram grande-*
. mehteefta familia em lugares, rendas, & dignidades' dã-;
dolhe o titulo de gram Duque com aplaufo , & conferiti-
9
mento dos mais Reys, & Príncipes. E porque conclua-
mos! com' tudo, digo^uljimamente, que no anno 1 $77-'
. largou elRey Felippeao Duque Cofaíe1 <lõdirci*õr qtfeV
tinha em Sena, «ora todaapoffe, que nejle avia "tfi«ó5 S£
• .'i gozadofcomoefcrevenmano) excepto o porto
de Hercules, Thelamon, Montôkigenta- j.J
n 10-, .Orbitello, & af6r&le^r<te; '
00 Plombino» q-u? refetvotf' f) y ■
para fy.

■ K4' ■'-'■'''" :'"c


Hill ;;•/. í UiiivcrfaL .

CAPITULO XXIV. i
A
i^

e
DosT>ttquesdc zIMatiu, <z5\/lodenn^
Tjrnuynbino^dcQHtrpsT<ni- \ -"

O Ducado de Mantua^ítà parte na Lombardia Cif-,


padana.pattc na Tranfpadapa. Pela parte do Nor-
te, & Oriente c» ifiiia comes Venezianos no campo "
Veronenfe, tocando o Pucado de Ferrara»: pe-lo. Occi-
deti^e, com o território BnxicnlV, & Crcmoneníc: pelo.
Meyo.dia, com Modena.Sc Mirandula. A*\»uaue Qe Man-; *
tija (como dis Leandro, jeíU.poila no movo de bfifcfegBtJI
que faz o tio Mincio ; í% não ha em Itália cidadc^mais
íegiira,& forte,que efta em rezaõ do fitio. Tem fermo-
cfiilimos edifícios, & he abundante de todjsas coufas nef
ceílarias. Fora da cidade (c ye hum alto , & largo folio, \
que oceupa trinca n^lhfis.&fc contem dentro ddlc, hu-
ma parte do campo, de Mantua, chamada Scralio.., Efte
fido, valia, ou lago (eito daagoado Mmcio, acabarão
de fjjzet.os MfMHiiap.Qs no annp 124.9. para melhor" fe re. I
pararem»;ftj defc^lcrcm de iciísc rmmjgosl \Paflwro o la- »
g.0 apparcce iogoa iiluítrC viila de Marmiroli, edifica-
di fiKp-ptuofamente pelo:Marques Frederico primeiro.
M iis adiante , pndç Q no íac do lago, cftá huno fortif-
fima vila chig|a/i*»:Pjfchcria . Coraeçajeflc lago em
Benaci, 5c fc chjjm* o lago Qfl Qiiiàt,. tomando o no-
me ic Cdrogarda Acuada iunto de lie: & entre Pife he-
ria, &Riva o ecupa trinta > 6c cinco milhas de comprt-
* À ào',
I

^ do, fcdeíargo quinze. NáíTha ncíte Ducado mais que


axidade Metropolitana, porque todas as mais iam villas,
#
& aldeãs. •
Monfcrrate he também da jurifdiçam deite Po-
tentado, porque caiando Guilhelmo filho de Frederico
r comLeonora filha do Emperador Fçrdmando.&íoccc
didopor direito deíua avò Guilhelmo Paleolr go Mat-
f quês de Monferraie neftc Marquelado , Max-.miliano
II. o fez Duque, concedendolhe grandes privilégios no
anno 1573. E porque cite Maiquclado eflà incluído den-
tro da Província de Piamonte , infra o Sabo5anoque
lhe pertence a cllc. Mcrula o dcícreyc com cilas pala-
vras . He Monfcrrate hum monte alto enendido, &
continuado com grandes, & levantadas eminências,fref-
rn-fnnife-rn. abundante de todas ascoufas, & rr.i-yfre-
^joentado de"moradores. D.fla á< s Alpes fete logoas, fi-
candojio mevo hCia fermofa. & aprazível capina. Tudo
aqui '-cultiva pela bondade da terra , & muitas ageas
com que hc regada, porque de húa parte tem o rio Ta- ,
naro, & da outra o Pò: & quanto Os montes mais fc apar-
f t/õ deftes rios, tanto rrnyores, & mais aprazíeis cfpcs
f . fede^fcobrem. Na pa;te onde o Tamro fe mc;e ft< Po
fe. levanta húa eminência, fobre a qual -ePà Augufta dos
? Vacíenos,& pouco adiante a aoflgoí V.-Urça, & Pè-
rrfuio com buma c h fotPaleeaP. C S.-E-
ía Ae ;i|11, T ! lS c
• vado^he cidade M*%$ > °™a r' *
dificios, &muyuli>nrcs'famiíias;a oti,l (ftgufcdb T.hua-
* no) he cabeça de Monfrrr.ite, abundante, BÍti nos aP
fel , como na campina , de trigo , Si de te das as
tffaftWQtM
Sao os MiMpti dede Ducado da f.rriha Gtmz«ga
antiq.-,iilimafmlr..lia1&rci.,.M.. . ó- &ffmne*deGonj
zjgaqtomouvollc delleem tcPo uo ín rcradtr Prt*,,-

s
1
W ■^JjMW" Vmerfal
co U, noannonij. co cituTode D7naí17â,c<: Senhorio; jP
Os q fe feguiram foram chamados Marqyefes, & ultima*
mente Duques, tam aparentados com os grandes Prin-# 4
cipes, que o que agora governa he irmaõ da Empara- %
triz, 5c pela mãy deícende da cafa de Auftria, parente
muy chegado do gram Duque, ôj delRey de França. No ^
anno ióa4. o fez o Emperador fea General Vicário
em toda Itália, ofticio que ate effe tempofoy do Duque •
deSaboya. Eaffifazcm tudo as partes do Império; por
quanto delle tem tudo o que poiTue com direito fidu-
ciário. As rendas defte Duque dizem nuns que faõcra
cada hum anno trezentos, & cincoenta mil cruzados, ou-
tros dizem que cv/egaõ a feifeentos mil.- o que tudo po-
derá fer, por quanto tem empenhada grande parte dei-
tes reditos. Quanto ao poder militar, fe dis que pòde^
ajuntar grande numero de foldados dê BOTforia, J*
muitos Cavallos, de que fe cria grande copia n<* cam-
pos de Mantua, cafticos, ligeiros, & fortes para a%ucr-
u.
O Ducado de Modena, & Rhegio contem àlera
deitas duas cidades, os Senhorios Carpcníe .Fugnano, %
«Sc grande parte do valie Caferniano. Da parte do Sep-' .V
tentriam cófina com os territórios de Mantua, & Miran- *
dula.-pelo Orienre com as terras da Igreja junto a Seul- **
tena: pelo Occidente, com o .Ducado de Parma; &c pe- 4
lo Meyo dia, paliando o Monte Apennino.com Hetru
na,õc Luca. A família deites Duques fe chama Accfii
na,que hc de muitos tempos nobilifíima, & illuíhe , não
somente em Itália, mas também em, Alemanha, tendo
travaçaodeeafamentos comos mayores Principes.fi o
que agora governa cafou no anno i«o8. com huma fi-
lha do Duque de Saboya, chamada Dona Virgínia de
Medíeis, com quem lhe deram cem mil efeudos cm do^
te.
i * LivrOLCawtfãa•&%!£&$&*'• ' »55
Vte. O primeiro^- quc*entrou1?e«a caia foy Opizo AteftU
no filho de Rcynaldo Marques de França, a quem es
É *dc Mo.Jeoa tomarão por feu Príncipe noanno i289< &
+ depois de paliadas varias fortunas, fe conferva em íeus
de fec ridentes. Efles eram também Duques de Ferrara,
& atmha pela Igreja por direito feudatario; mas como
no anno i>s-8. filtaffe nefia cafa herdeiro varam, ator-
f nou Clemente VIII. a reunir à Sè Apoficlica, que naõ
admittc fêmeas nos feudes de fuás terras. He o Duque
de Modcrw vaíTallo do Império, a qnem paga de feudo
quatro mil efeudos cada anno, tendo pouco mais de cc
mil de renda. Também paga dezafeis mil efeudes ca-
da anno aosGenovcíes por duzentos*mil, que empref-
táraõa Alfonfo Duque de Ferrara, com que comprou
^o EmpcjadorModena, & Rhegio. O poder defle Prín-
cipe hdnuyT^uco, ck afíi hoje naõ pòdc pòr cm catn-
panha*mais de doze mil foldados.
X) Ducado de Parma , & Placencia eftà pefio na fa-
mília dos Farnefíos,qucfamvaíTallosda Igreja Romani.
Porque Paulo III. o deo com direito fiduciário a Pedro
^ Aloifio Farneíio (aquém fuecedeo Oftavio, a Octávio
>. Alexandre, a Alexandre Raynucio, que agora vive; com
obrigaçam de que lodos os annos pague dez mil efeudos
P de tributo a Igreja. Infiaôos Efpanhoes, que Placencia
he do direito de Milam^JJc que nclle fc ha de encorpo-
• iar cm faltando fucceflõr aos Farnefios. Ocertohequc
não faltaram difcordias quando ifto fueceder .Alem def-
• tas cidades tem também o Ducado Caftrenfe, & Rcffí-
lione com outras vilUs, & caflcllos vizinhos a Romãs
Porem não tem jurifdiçaõ para poder bater moeda. As
rendas annuais fe dis que chegaô a trezentos mil eícu-
dos; & ellando moy endividado caíco com huma neta
do Swmmo Pôtifice chamada Margarita. Aldobrandina,
com
ut
%
ffi dor ia UyiiverÇal.^ r
cora cujo d«cT£W$lída^OTi#fcípKS1iÍhõs, tíf/j
delU família ha ralis que o Duque, & feu irmana Odo-
ardoFarnefio Cardeal da Faeçam deEfpanha. He efte^ *^
Príncipe muy querido, & venerado de todos os eircun* O
vizinhos pocíua natural clemência, & generofos proce-: *
dimentos. Saõ fogeicos a efte Ducado o Marques de
Soregna, o Dinafta de BaíTatri, o Marques de Cúria ma1 Çr
yor, o Muques de Sala, & o do Golorni; os quais todos v>
iam fenhores de muitos vafiallos; & p afiam- de doze "mil
xruzadosde renda-
O Ducado de Vrbino he htima regiam fe rei li filma,
& muy povoada .Jfem dez cidades Epifcopais, doús por-
tos marítimos, orbito fortalezas; & unindofe ás terras da *
Igreja,fe ficaeftendcndo àjurifdiçam temporal do Papa
de hum a outfo mar. He o Duque defte.JPr.iorúgado vaA
falo da Igreja, aquém paga de feudo oito~mU' cruzados, *
& a família que o pofiue fe chama Roborca ir$ituida
por Sixto IV. & ampliada por Iulio II. com titulo ae Du-
que de Vrbino, Conde de Monfeltrio, Dinafta de Pi-
fauro, & Governador das SenasGallicas. O ultimo Du- fi
que (Cegando Mercúrio Francês) no anno 1624. foy Frá,- v
cifeo Maria Koboreo filho de Guido Vbaldo , & de Vi- ±\
ctoria Farneí! irmã de O&avio Duque dé Parma , de ^=
quem naõ teve mais que hum filho, oqual cafou com nu
matiadograõ Duque de Florença, que agora viue;&
.morrendo de morte fuppíta deifcOu fua mólher pejada, '
' que depois pario huma filha". Fallcceo efte' Duque pou-
cos dias antes de Gregório XV. & Vrbano Vlll. que
lhefuecedeo, tratou iogo de encorporaro Ducado de
Vrbino ao património da Igreja; por quanto nella fe ti-
nha decretado, & diffinído por Bulias Apoftolicas, jura-
mento dad 3aos Cardeais, de que afilo obfervem', que'
daqui por diante o u! Ducado fe não dé a feudatarip
. , ' algum,
?-' ' ''■ * '.'*■■'

Laígum, mas quViéja perpetuamente' tinido à Coroa Põ


tifíeal; &affi o mandou O Papa nctificaraos Ptincipcs
Circunvizinhos, porque dcfiÍTiffem das pretençoens, quer
, podiam ter- Epara fc tomar poííe pacifica defpachou
três prelados de cõfiança, que ajuntando a gente mili-
, tar, pudeffem refiftir a quem o quifefíe contradizer. E
aíShe hoje da Igreja o Ducado de Vrbino,-que. rende
i quaíi de trezentos imil crufados, com abundância^ de gS-
tc militar, que em deftreza, ót.valor íe aventaja a toda a
mais de Itália. Conforme a ifio pafla agora o Princi-
pado da Igreja d,e cento>& vintic milhas dr. comprido;
pois: occopa defde'Tarracina & ultimos^confins do Rey-
no de Nápoles, até os de Veneza.Sc oefda foz do Ti-
beri atè Ancona junto ao mar, toda a largura de Itá-
lia... .; im^^^ .-~i$>>. nclqon
'"^* aCfKSfflfitfo 3e<Mirandolâ, <5c Concorçjiá(: fegirn-^
doThtono) pdfíuc a famiiia dos^PicósirDsquaisrfmdo
cidadaCs principais na cidade de Modena floredéuãcom
illuftres feitos, óc-obras pellos anhos de Chifto.. ino. &
depoisducentos roy.Fr<aDeifco Pico inftunrdô rerHa.Vi-
1
garro dò Império pelo Emperador Luis l'V-. BapàmtífxM
f defeendentes fuecedendò huhs aos outros :átè? o annò
1460. em que Ioaô Francifco Pico falIecendoT.deixou'
£ tres filhos, que foraõ Galcoto, António,Matiav&ilqaõ. o
qual foy varaõ confumadp em bondade de coítiimes,
, piedade, & virtude, róce'p|lp.-«xn^*ci|ní<ito de toda.< as
lingoas, & feiencias; &'~cít'e he O Pico Mirandubno,
• que ainda na1 idade juvenil mereceo fer chamado o Phe-
nixdaqueífes tempos, >Q que agora, he fen.hqrd4ít®f-
tado fe chama Alexandre Pico cafado com Laura" de
Eft filha do Duque dexModena. Tem o principado pe-
lo Emperadtír com diteito^fídueiario, SHiberdadepara
bater moeda; porem o-i'0*itros> Principtfs^àõ^qoejj&írí
^<s7! ■ que
t
TVR --, TlíãorialJniúerfal. ^JIX. lf,
que corra em fim tetras. t {
'Deaaixo da protecção dclRcy Catholicocíta6 v-
Príncipe de Maiía,& Carrara , que lhe paga de penfaÕ H i
três mil eicudos. Confina como graõ Duque de Fio- C
renca, com Génova, & Luca. Os fundadores delta cafa *
fe levantarão contra os Genovefes, & por armas lhe to-
marão as dicas terras 5 pelo qual naõ pagaô feudo, nem t
tributo delias. O Senhorio do Dinafta de Monaehío.ôc ^
Correzio eftá pofto. na. eofta marítima de Genoua, en-i
treVintimiho.&Villa Franca. Monachio he porto,on-
,de muitas vezes fe recolhem os piratas,& lhe; eonfente-
ODmaftaa entrada dos navios poi.Ihé pagarem tribu-
to. Pelo qual he%diado do Duque de Saboya;&dos
Genovefes-, com medo dos quais, eftà fempre fechado
no porto, & fortaleza de Monaehio. Po^rrjgjte do viti-
mada eia $rr>o;ari no 1605. tomàraõ óf Êtjiannoes eftc
lugar, em;qu(Tha duzentds fòldados,& duzentos^: «in-
coentaxidadaés. E corá'.tu do o filho do defunto (o qual
ficou de dez annosj cobrava os reditos, como Senhor;
poVerrios Franeeíes lhe tomàraõ tudo no anno 1642.
Haíambem rieftas partes o Príncipe de Guaftallia , & o ,
Marqires de -Caítilton da família dos. Gohzagas , cujos f j
Senhoriorfe defmembrâraõde Mantua , & aífi nao faze ^
mos patticulat mençam delles.

í CAPITVLOXXV.
/ rr'
■ ^^€B^mUiUs&-Senhoriiide Vene^
...•■;,. iOob Bfilri M
.é-rfosipado Veneziano comprehendc fcws provin-
das ifttçir#s/e«i^ca.lia: as quais fcft $ty*AÍ»*> 1 *?fr
5UP
\ viíinâ, Eeríuiio ( que os ltaífános''chamam Ftiuli', '& os
Venefianos Pátria) ôclftria. :Alem difto tem parte da
» ^LombardiaTtanfpadaha, que faô os territorioscBíixien-
(. fe, Bergoroenfe, & Vermeníe; & finalmente Crema na
regiam dos Cenomanos. Confina pelo Oriente parte cõ
„ Auftr.ia, parte com o mar Adriático: pelo Septentriam
cora a mefma Auftria, terra de Trento, & dos Rethos,
t ouTudefcosrpelo Occidente, com Milamiòc pelo Meyo
dia com Mantua, & Eftado da Igreja.
A Marcha Tarviíina tomou o nome de Tarvio,
onde antiguamente habitarão os Marquefes. Pelo Oc-
cidente a demarcaõ os rios Mincio, Benareo, Sc Sarça;
pelo Septentriam, os montes Taurifanol; pelo Oriente, o
mar Adriático, & a foz do rio Timavo, & pelo Meyo dia
Atheíi, &_psJagos Melarianos, & Brigantinos. He efta
■4; giam (íefSnwLeandro.) nobiliflíma,& fértil/povoa-
da de^quiííimos lugares, & cidades muyillufires, de grã'
des etígenhos afli para as letras, como para o bom gover-
no da Republica. Os campos fammuy frefeos, & abun-
dantes de trigo, vinho, & de todos os mais frutos. Tem
muitos banhosfaudaveis, fontes criftalinas, vários me-
' tais, caudalofos rios, õc profundos, lagos;- O clima he
benigno, temperado, & aprazível: & finalmente he efta
£ regiaõ dotada de tanta bondade, & grandeza, que com
rezam he contada entre as mais excellentes, 5c famofas
* de Itália.
Friuli, ou Pátria demarca pelo Oriente o rio Formios
• pelo Norte os Alpes Iuliosi pelo Occidente os Alpes
Vindelicos, ScNoricos, 6c por efta parte a divide tam-
bém da Marcha Tarvifinao rio Liquencia, & pelo Me-
yo dia o mar Adriático. He pela mayór parte terr3 de
1 campo regada com muitas fontes, Sciios, abundante de
VJnhof arvoredos, metais f & pedrarias de marmeres fi-
k ■ •
nos. O rio Pnncipjl nc o Hydra, junto aoqual ha huma
mini de Azougue dilatada ,.& copipía.
Os términos de Iftriafaõ pelo Oceidente o rio Ti-'1
mavo, que agora fe chama Rifano.-pelo Septentriara,os
Alpes, que dividem CarnioIa,& Pannonia de Itália; pe-
lo Oriente, o rio Atfias; & pelo Meyo dia, & Oceidente,
o mar Adriático. He eQa regiaõ afpera, xiio por rezara
de mostes,& ferras, mas de outeiros, óc eminências; a
mais alta das quais fe chama Monte mayor, em cj fe pro-
duz muita, & boa madeira para os navios, comotambe
finiflimos mármores, que fe levara a Veneza, & a outras
partes de Itália.
O campo Brixiénfe he rauy.grande, & dilatado:
porque tem /fegundo CapreoloJ cem milhas de circui-
to. Ha nefte território alguns lagos, dosauais faõ os ma-
yores olfeo, &oldrino, como tambfnTmuitos oure-
ros, montes, & valles habitados de muitos lugeres, Sc
villas. Hefertiífimo de trigo, milho, vinho, & mais fru-
tos; como de metais, ferro, cobre, & eftanho, de que os
moradores tiram grandes intereífes. O campo Bergo-
meníe he fértil, excepto na parte Septentrional, onde
he afpero, montofo, inhabitavel, & totalmente efteri!.
Pelas, outras partes tem muitos valles com abundância
de vinho, & azeite fuavillimo.- & onde menos fe cultiva '
cria grande numero degadosjde cujos vellos fc fazem
muitos panos, que fe levam po"r 'toda Itália. O território
Veronenfe fe eftende do lugar de Bruchalio até Riva
porefpaço de fefenta milhas de comprido ; & de largo
quarenta. He também terra abundante de trigo, vinho,
azeite, & gados, corri minas de .mármores finos. Tem
rios, tanques, & hgos: ffendo o melhor de todos o Bc-
naco ; fontes faudaveir, & hum thefouro de ervas medi-
cinais muycopiofo, principalmente no monte chamado
Baldo
* •

% Baldo. O campo Cremoncnfe he fcttil, cultivado de


muitas arvores, que acompanhadas de vides produzem
1
*copiade vinho. Tem muitos rios pequenos, mas de a-
, goasmui criftallinas, & abundantes de peixes, principal-
mente Maríonos (que fe parecem com Enxerrocos) de
• fabor muyexccllente.
O golfo de Veneza, ou mar Adriático tomou ono-
► me da cidade de Adria,qeftava junto à barra do rio P
a qual foy affolada por Attila, & outros tyranos. Tem
efte golfo de eõprido fetecentas milhas, & de largo cen-
to, & quarenta, ficandolhe de húa parte Itália, & da ou-
tra Ifiria, Dalmácia, Efclavonia, & parta de Albânia. He
efte mar muy fogeito a tormentas, & naufrágios, pela
vizinhança dos montes, que excitãofuriofos vetos. Tem
PtJi^Senhori.xidí¥T^,eneza o domínio delle , o qual lhe deo
o Papa Alezanâre III. porque fendo perfeguidodo Em-
perad^r Frederico Barbaroxa, fugindo peta Veneza,
os Venezianos o ampararão, & defenderão, faindo a
campo com hum filho do Emperador, que prenderam
na batalha. é
He efta Republica muy antigua, pois (fegundo luf-
l tiniano , ôc outros J começou pelos annos de Clvifto
4(S7.&os230.foy adminiflrada por Tribunos, que com
V certas leys a regiam, & governavam. Poré defeonteotes
defte modo de governo, trataram de fe melhorar; & adi
» no anno 697. inftituiram Republica com uarios Sena-
dos, & tribunais, a que prefide hum Duque q he cabeça
de todos, & com cento, & vinte Senadores feirs adjuntos
conflitue a Senhoria de Veneza. O Duque he perpe-
tuo, &.os Senadores por certo tempo.- & he tal o gover-
no defta Republica, que fe não confente nella mal algú,
que logo fe naôremedèe. Os que agovemaõprocedcm
corn juftiça , óc inteireza ; & fe algum falta em toa
s L obri-
<c *r

obrigaçam, &officio, ofufpendem,& privamdelle;nará


perdoando, nem ainda aos Duques, com terem o fuprc-
mo domínio, porque alguns ouve,aquém por fuasinfo-* *
lencias matáraô, & a outros tiraram os olhos: com os
quais exemplos trataõ todos de fazer" re&amente o que
devem . O primeiro Duque , que entrou a governar no -
fobreditoanno fe chamou Paulucio Anafefto, & preíi-
dio vinte annOs na cidade de Heraclia. Aefte fe feguiram
noventa, & quatro até o que agora governa chamado
Ioam Corelio.
• Tem efta Republica muy illuftres, & nobres cidades,
fendo a principal Veneza, de quem trataremos no capi-
tulo feguinte. Depois delia tem o fegundo lugar Verona
cidade antiquiflima que quaíi cerca o rio Athefi, como
dis Silio. Hi nella 35. têplos, entre os quai-Uie-o primei-
ro a Igreja Cathedral, q reprefenta grande antiguidade
em feu edifício: com mais dez Conventos de frades, Sz
freiras- Eíleve efta cidade fogeita aos Romanos, até que
Attilla a deftruio como as mais de Itália. E depois de va-
rias fortunas, adverfidades veo#ao poder dos Venezia-
nos no anno 1517. os quais afortificàraõ de tal forte, cj
he agora das mais inexpugnáveis de toda Europa. |'
Patavio, que vulgarmente fe chama Pádua illuftre cõ
o corpo do gloriofo S. António, he cidade ampla,&fer- t
mofa, cercada com dous murqs, ôc alta cava junto ao rio
Brônta, que com fuás agoas, & navegaçoens afaz rica. & ->
aprazível. Tem vinte, & três Igrejas com a Cathedral, q
he fumptuofo edifàcio feito por Henrique Emperador:
vinte.&tres Conventos de frades,& vinte, & nove de frei-
ras. O paço ond£Hrfíifte.o Senado tegrande nome em to-
da Itália, porq fem aver coluna alguma, em q eftribe } fui-
tenta o te6to de Chumbo. No rio Brenta tem trinta, 3c
oitop5r.es de pedia: & o q mais he q tem Monte de pie-
J dade, *
/•••'-' •' • /

\ dade ôcnodepofito delle 38. miferuzados, que os cida-


daens deram liberal, & gratuitamente, para defterrarem as
#
ufurasdos Iudcus, q levam a cinco por céto> defpêdédo
delles muitas cfmollas pela Paíchoa . O Bifpo defia cida-
de fedis q he o mais rico de toda Itália. Tê huma Vniver-
fidade florentiífíma, chamada Pàtavienfe. O feu termo,
território, ou comarca oecupa de circuito 180. milhas,
em que ha 647. villas,& lugares, com grande abundân-
cia de trigo, vinho, & mais fruitos. Os vizinhos, que ha
nella faca quatro mil, fegundo Leandro, & outros. A cila
fe fegue a cidade de Vrtencia ornada de íumptuofos
edifieios, como também Brixia, Bergomo, Crema, Tar-
Vifío, & Fruli com fuás ricas, & dilatarias comarcas on-
de faõ innumeraveis as cidades, villas, & lugares, em que
'e aventai3_-3-,sidade de Aquilca, que antes de íer def-
truida pormma teve cento, & vinte mil vizinhos. Ha
sambe ii neftas comarcas, & Provindas portos de mar,
por onde commanicam feus commercios com todas as
naçoens do mundo. •
Alem difto poflue a Republica de Veneza toda a cof-
ta marítima de Dalmácia, com as ilhas, qeilaô defronte
delia. Os principais lugares faõ Zíra, & Catharo, que faõ
portos de gande nome. A primeira das ilhas he Corcy-
ra, que agora fe chama Corfu,ou Gulfò.aqual naõ difta
mais q húa milha da terra firme de Albânia. Tem de cir-
cuito ffegundo Botero cento, ôt vinte milhas; de cõpri-
do, feffenta, & de largo vinte, & quatro. Para a parte Me-
ridional he mõtofa, & para a feptentrional, afientada, &
plana. Daíe nella pouco trigo, porque alem de fer falta
de agoas, os ventos Auftraes lho nam"deixam produzir. E
cõtudodà abundância de vinho, cera, mel,azeite, frutas
de efpinho, Sc todas as mais. A principal cidade he Corfu
Ç{^3' foniflimos ca(kllos,& hú porto muyamparado dos
L2 ven-
iií4 • -^Mam MnivirSê. '
ventos, guarnecido tudo deloldados, 3c muniçam part
os aflfaltos dos Turcos, que a cada paílo a acometem*
Afegundailha he Cephalonia, que tem de circuito'f
cento, & quarenta milhas,, com aígumas bahyas, em que
fe recolhem as armadas. He também falta de agoas, mas
abundante de trigo, azeite, gados, mel, mannà, & vuas
pafl'adas:&disJ3otero,que ha nella dezanove mil pef-
foas. ZacinthoVquehe a terceira, tem de cerco feffenta
milhas. He afpera, & montofa para a parte do Oriente,
Separa a Septentrional aprazível, & frefea. Ha nella
muitos terremotos: abundância de yinho, mas falta de
trigo, «porcj os moradores fe naõ ocupaõemo cultivar»
A quarta he Creta, ilha (depois de Sicília ) mais no-
bre de todo o mar Mediterrâneo, que agora fe chama,
Cândia. Tem quinhentas, & noventa mjlhas^de circui-
to; duzentas,. & fetenta de comprido ;^f<:iricoenta de
largo. A natureza a dotou de tal: filio, q quis (co^io dis
Ariftoteles) que foffe fenhora do mar. Difta do continê-
te de Síria quinhentas milhas, & outras tantas do Egypto:
de Caramania, Chipre, & Albânia, trezentas. A fua cofta
tem diverfos portos, enfeadas, & promontórios, fendo os
principais o Cabode Efpada, & o Cabo de Salamam. A â
terra he quafi toda afpera, & roon.tofa,& os mais altos mo-
tes fe chamão Ida;por£ nos valles heabundante de paftos \
onde fe criam muitos gados, pouco trigo, mas grande co-
pia de preciofifTimo vinhofnomcado em todo o mundo)1 .
& de mel.de que fe leva muito para Alexandria. Os mõ-
tes.&valles eíam cheos de acipreítes,de que faõ as matas, '
&,bofques deita ilha.Teve antiguamête cê cidadesfeomo
dis Boterojècagora naõ tem mais de 3. qfe/amdecon-
fidetaçam. asqmis fam Cândia, Canea, <Sc Rethino. A
cada palia fe acham nella ruínas, & veítigios de cida-
des, que dantes florccçram fcor ficar memoria delias,
Muitos; /
\ Muitos tempos foy fogcita aosEmperadores dó Oriête;
depois a poífuio Bonifácio de Monferrate.cjavédeoaos
* Venezianos no anno U94. O Governador habita era
húa fortaleza, & lugar chamado la Spachia, que os Ve-
nezianos fortificaram contra os Piratas.

CAPITVLO XXVI.
2)anobilifsimay&-famofa cidade de Feneça
lííliQ ao
T"""\ Ous Atithores graves cy 'de fcmit na deferipeaõ
JL-/ de Veneza, hú he Gafpar Contareno Patrício Ve-
neziano, depois foy Cardeal, & outro Fr. Leandro AJ-
g^cito Sffig^gP geral da Ordem de S. Domingo;. Efíá
pois Veneza pofta no ultimo término,:-& fim domar A-
driatioo, dentro de fuás agoas a medo dê tanques, & la-
gos, a quem o mar com fuás correntes fe comrr.unica pe-
la paste do Oriente, tendo aqui de largo mil,& quinhen-
tos, ckcincocnta pafibs, donde fe navega por efpaço de
fetecenras milhas até o cabo, & promontório de Leucá.
I Entre o mar, os tanques- emej eftá fftuada a cidade, fe
mete hú pequeno monte de terra (a q chamaõ praya.) q
ir a provida natureza alli pos cõ grande artificio para defe-
fa, &emparo daquellaj ilhas' ('que íaõ fefiema ) contra a
violência, & ímpeto do mar, quando mais alterado, & fu-
riofo. Reprefentaefiâ praya 3 figura de lui arco, & tê de
comprido trinta, & cinco- milhas com cinco pontas > cm
cada bua das quais ha hum pequeno porto, por onde eu-
trão para ostfiques da cidade as embaroaçoens menores.
Ocupa o fítio marítimo deftes táques, & lagos sov milhas
de cõprido, & de largo não tem medida cerca,porq a cada *
Piffo a variaõ as correntes das agoas,$ ondas<ío mar Eflá
M
>< ^ ' L5 'edifi-
V
i66 \y^$lâo%aJ)nherM. &£.
edificada a cidade no meyo deitas, lagoas, que fazern as
agoas pelascinco bocas, ou. portas daquella pray*, d< g
jà tratamos, & muitos rios da .cena firme, que gllj fe me-'
tem. Pelo qual naõ somente fe/ulga pot in expugnavd,
mas por mais aprazível, que todas as outras do mundo
em rezam do fítio, & commodidades de que goza.
Acercado principio da edificação defta cidade
ha variedade entre os Authores. Sabellico citado pot
Leandro dis que foy defta maneira . Avendo jà entra-
do em Itália aquelle foberbo Attila Rcy dos Hunnos,
inimigo capital do nome Chriftaõ , & tendo deftruido
com feu exercito: muitos povos delia, pelos aanos doSe-
nhor 420. alguns homens nobres dos antiguos Venezi-
anos, que moravaõ na cidade de Aquiléa, & Pádua com
foas famílias, & fazendas,que puderaõ levaiu intimida-
dos da fúria, Sc crueldade daqucllcs tjffi-tfí inimigos,
foram fugindo para o mar Adriático, donde diftam pou-
co as ditas cidades, & fe apofentdraõ em duas ilhas cha-
madas Grado, & Rivalto vizinhas húasda outra, no fitio,
em que agora eftá a cidade. Eftas sò eftavam antes difto
habitadas de aves do mar, que em certos tempos do
annoferecolhiaõa ellas, por ferem abrigadas dos ven-
tos, Sc tempeftades: como também de alguns pefeado-'
res, quenellas tomavão porto, Os que primeiro come-,'
s$&atQ)iedificar foraôos Padu;anos em Rivalto, que he
agora o meyo, Sc coração da cidade . Demodo que os ,-
Chriftãos, fugindo da tyrannia daquelles bárbaros, buf-
eavão os lugares, onde melhor fe pudefiern defender de v
feus aífaltos, E porque julgarão fer efie o mais accom^
roodado para feu intento, Sc pios defejos-, começarão lo-
go a edificar nelie muros, fortalezas, Sc torres, dãdolhes
p.-inçipio.naqucUc lugar onde agora eftâ o douradoté-
Ifio deS.Mareos, no aono de Chtifto4ii.
Succê-
t Succedeò cambem que alguns tempos depois
íreynou na Lombardia Clefo, que com fua crueldade, &
^tyranias fez aufentar os roais dos moradores das cida-
des da Gallia Tranfpadana, como eram Milam, Ticino,
Verona, Vieencia,& outros poucos, que defemparar.do
íuas pátrias, vieram fugindo para efta parte, onde admit-
tidos às ilhas era companhia dos outros Chriíhõs, am-
pliaram Veneza em multidam de moradores , & fump-
fuofos edifícios. Donde ficou em provérbio naqaeíles
tempos, que os mininos nas mais partes fecriovam aos
peitos das rnãys, para Veneza os gozar na flor de fua ida-:
de. Por efte modo veo efta cidade afazerfe tam illuf-
tre, ôcpopulofa, que he huma admiraçam , <k maravi<
lha do mundo. •
A-g^i va^o fe ajuntaram feffenta ilhas com ferven-
aa de,pontesde humas para as outras; &: nam longe Ibe
ficaõ outras doze , para mayor grandeza, & comodi-
dade fua. Oecupa Veneza cõ fuás íe(Tenta ilhas oito mi-
lhas de circuito com-edifícios nobiliífimos, muitas ri-
quezas, & felicidades, não faltando nella coufa alguma
para o fuftento, & delicias da vida humana: fuppofto as
não tem dentro da fy, por- eftar edificada fobre as agoas,
• mas he provida de tudo com grande abundância, de"to-
» das 3S partes do mundo. Nella fe acha, cõforme os tem-
pos, todo o género de frutas, melões, pepinos, uvas, pe-
ras, maçans, laranjas, limoèns, hortaliças, & mais regalos
com provifam incrível. Alem difto todo o género de
caça, & mais carnes, manteiga, queijo frefeo, & íalgado;
& tanta copia de trigo, que muitas vezes he neceflario
defpçndcrfe para outras partes, como também toda a
variedade de vinhos mais preeiofos; pefeados affi do.
mar, como dos rios, & íalgados, que de varias partes alli'
fe^levam com admiraçam de todos, concorrendo para
L4 fuás
V'

luas prcvilocns mm lornente Italuí' maT também o IV J


lyrico., Grécia, Aln , & muitas outras regoens, ôc
jfttDv.inc.ias-.:Dfl todas asriaçcens do mundo íe acha aqui '
gente, com.diverfidade de veftidos, fegundo feus eítilos*
& coílumes.
Dividefe a cidade de Veneza em leis bairos, .
&por iíTo lhe charrum Sexteria. Terá fetenta, & duas;
fregueíias,. dezaíete Convences de frades, & vinte, &
quatro de freiras. Todos os templos tem feus átrios, ôc
pórticos para mayor ornato , & grandeza da cidade , ôc
todas as quartas feiras ha mercados neftes terreiros, ôc
ptaÇas: Sc nos Sabbados fe faz feira geral, & muy fre-
quentada/de mercadores na praça di Igreja de Saro
Marcos, que he muy larga, ckefpsçofa. No principio
dapraya, de que já tratamos, ha duas praças., & ncllas
duas columnas muy altasv fobre huma crasquais eíU a
inilgnia de S. Marcos, que hum leaõ com azas, & na
outra huua imagem de S. Theodoro; & entre ellasfaõ
os malfeitores juftiçados. Tem efte território quatrocen-
tos pé; de comprido, & eento, & trinta de largo, cercado
todo de fumptuofos edifícios. No"meyo da outra praça .
mayor eftá o fumptuofifíimo, & admirável templo de S.
Marcos, que tem quinhentos pés de cõprido, & cento, &
trinta de largo; edificado todo de preciofo, & finiífimo • '
mármore com muita magcftade,& grandeza. O pavimé- '!
to cftà ehtreííachado de ricos porfidos, & varias pedras «
preciofas, cõ muitos verfos, & emblemas: entre os quais
ha algus de íoaehim Abbade de S. Floro, em que profi- ■V.
zou as grandes perdas,& trabalhos, que avia de padecer
Itália . Tem mais efte templo trinta, ôc féis columnas de
mármores muy lavrado, & polido. A capella mòr hede
abobeda feita com grande perfeiçam, ôc artificio: ôc por
todas as partes pintada cõ fumo primor, & arte a hiftojia
3o
»: '* ■■' • 7
í do Velho, & toovo TeftamerVto. Fora doiltar n òi Cí;,Q
quatro colunas de Alabaflro diáfanas, & reíplandecf mes
P a modo de vidro, em qéfiriba o tabernáculo do divino
Sacramento. A fuperfkie doaitar hc huma taboa fabrica-;
da de ouro, & prata, com muitas pedras preciofas de infi-
nito valor. No meyo do templo à pattc direita fe ve húa
aka,& larga poita efeulpida de meyo relevo, em qeítani
as imagens de S.Domingos,-&.de S. Francilco noflos Pa-
dres, que ofobredito Abbade loachim mandou alli en-
talhar muitos annos antes que ao mundo vieíTcm efies
Santos Patriarchas. Dentro defta porta guardam os Pro-
curadores de S. Marcos o grandiofo theiouro de Veneza
taro celebrado no mundo,que elles moura ram a Leandro
em companhia de Francifco Ferrarieníe Meftte de to-
dja a Ordergudos Pregadores: o qual o deícreve, fegundo
avio, contrita? palavras.
Primeiramente nos molharam (disellej aquelles
illuftres Senhores doze coroas precioílífimas, 6c outros
tantos colletes de ouro puriífimo , guarnecido todo de
muitas, & varias pedras preciofas. Ha aqui muitos carbún-
culos, q chamam rubis, efmeraldas.topazios.chrifolitos, Ôc
toda a mais pedraria, eõ húas pérolas de tal grandeza , q
, nos pos em admiraçam; vimos mais duas pontas da Ab-
i bada, ou unicórnio muyiníignes, muitos vazos de curo,
de efmeraldas, & jafpes, ôc hum rubi mayor que os outros
que deo para cfte thefóro' o Cardeal Domingos Gri-
mano; como também hum vafo de riquifíima pedraria,
que antiguamente Vfum Caflanes Rey de Perda mãdou
á Senhoria de Veneza de prefente, cõ muitos outros de
imméfo valor,& eflima,& turibulos d' ouro,<Sc prata cõ ar-
tificio,& grandeza admirável. Vltimaroére vimos a mitra,
ou fõbreiro.q fe poé na cabeça ao novo Duque guarneci
do todo d' ouro, & de muitas pedras preciofas rematadas
~* na
-

na parte fuperiôr cahum carbúnculo riquiífimo. Tam-


bém vimos huns candieiros muy grandes de ouro, 5c
outras muitas peças grandiofas, que requerem mais co-
piofo tratado. E afíi affirmo ( conelue) !que rne parece
nam aver no mundo parte, onde fe ache thefouro de
tanto valor, & riquezas.
Mas tornando às mais grandezas do templo, cera
na entrada hum átrio fumptuofillimo, que fe eftcndc a
ambos os lados, cujo tefto, 5c abobeda he de ouro, 8c
nelle entalhadas, 5cefculpidas as hiftoria do velho teí-
. tamento; 5c he talefta obra exterior, que não da venta-
gem a interior do.tcrnplo: porque nclla fe contam du-
zentas, 5c feffenta, & fcis columnas de porfldo com fuás
coroas, Sc guamiçoens, 5tentre ellas varias imagens de
Santos, Eftànefte templo humzimbori^eom o teclo,
fabricado de telha de ouro, cujo reíplanuor em lhe dan-
do o Sol fe vè de grande diftancia .• & nefte zimbório,
ou torre eftam os finos, a qual cem de altura duzentos, 5c
trinta pès.
Confta a cidade, de muitos arrabaldes, que dividem
os canais cora pontes a cada paffo de pedra, ôc de madei- »
ra, as quais fam quatrocentas entre publicas, & particu-
lares. O principal eftreito, por onde correm as agoas, fe ,
chama o grande Canal, que atraveffa a cidade toda, ten- $
doso no meyohuma grande ponte de madeira, que fe
chamada Rivalto. Tem efte Cariai mil, 5r trezentos paf- (
fos de comprido, Sc de largo onze , cercado por todas as.
partes de fumptuofos edifícios. Ha nelle trinta barcas •
de paflagem, para os que nam querem i; dar volta pela
ponte. As barcas em toda a cidade fe dis que pafl'aõ de
oito mil chamadas gôndolas, entre as que fe pagaõ, &
as de próprios donos. Ha dentro da cidade numa ribei-
ra de nãos deduas milhas em circuito, rodeada de for-
fes '
Lmr^LQavjtdo XII- "I.EyyoipiL. 171
. tesTourosT&torres.aque enaranirí Áríenale,onde de or-
dinário ha quatrocentos homens, que fabricam, & fazem
f os navios, que em tam grande copia mandam por todas
as partes. O numero dos moradores (fegundo Donato
Ianoeio florentino ) chega a vinte mil, de que íe podem
tirar quaréta mil íoldados para aglierra. Entre os mo-
radores ha três mil Patricios, que iam as famílias nobres,
& illuftres de Veneza.
Tem a cidade nos contornos muitas ilhas, fuppof-
toque pequenas, mas de grande abundância, & regalo,
fendo a principal Muriano, em diftaneia de mil paffos,
tamfrefca, que todas as cafastem hortas, jardins,. & po-
mares , com edifícios iémelhantes ao^de Veneza. Ha
nella hum Convento fumptuofiílimo da Ordem dos
Pregadores com húa Biblioteca mui copiofa de livros.
^tjui fê lfflrf§Êos vidros taõ celebrados no mundo, por
fua fineza, & primor da arte. Ondedis Fr. Leandro que
lhe foy.moftrada huma naofinha do mefmo vidro da
quantidade de .hum palmo, em que da própria matéria
avia maílos, exarcias, & todas as mais coufas, com que
fe aperfeiçoa hum navio: fendo admirável a futileza do
artífice. Também dis que vio hum orgam comos ca-
, nos de vidro, de altura de três covados o raayor, 5c to-
dos tam affinados, ckmuficos, que foziam huma armonia
fuaviilima. .Tem eíta ilha três milhas de circuito cem
hum canal.que lhe palTâ pelo meyo. O clima he faudavd,
& temperado: o que fe atribue aos fornos de vidro, que
çflam fempre ardendo.
Começarão os Bifpos Veneza pelos annos do
Senhor 747. &. continuandofe o numero delles. sté o
de ciocoenta,& quatro, que foy S. Lourenço Iufliniano
da Ordem dos Celeflinos.oPapa Eugénio IV. no ann
HJO; ofczPairiarcha,'ck Primas de Dalmácia, & ato-
* dos.
dos feas fucceflores, qaelao onze ate o pre lente, que le
chama Hieronymo Qjirino da Ordem dos Pregadores.
Tem fai<Jo-defta cidade crés Summos Pontífices, Gie-V
gorio XII. Eugénio IV.5c Paulo II. treze Cardeais, 3c
outros muitos homens infígnes em letras, & dignida-
des; por (et clima fecunda de grandes engenhos, & ali,
nalados vacoens.

CAPITULO XXVII.

T>o Império de (tÃlemanha3 &-fuas


Trovincias.
ALemanhl he a mayor, & mais am** Lcgíaõ de to-
da Europa , fegundo Aventiano. Pela parte Occi-
dental feeftende àlcm do rio Mofa em Flandes .• pelo
Meyo diaraté os Alpes: pelo Oriente, ate Vngria,& Po-
lónia .-& pelo Septentriam, atè o Oceano Germânico.
Afficmafle que tem de circunferência quaíi oitocentas
legoas. Dizem Authores graves citados por Ioam de
Lict, que Tuifcon filho de Gomer, neto de Iapher, &
biíneto de Noe , foy o primeiro, que com fua gente co
meçou a habitar a regiam de Alemanha, depois do dilu
.vio. Efte hc aquelle Afcenes (íegundo os mefmos Au
■thorcsj de quem Moyfesfaz menfam no cap. io.dcGe
nefis", deferevendo a genealogia de Noe. Nacco pois Aí"
cciíes no anno 130. depois do diluvio ; & foy pofto por
QfètJ bifnò na quelli parte, que e.ftà entre o rio Tanais, o
ponto Euxino,'firo Rbeno, como dis Berofo. Donde
--os deita regiam tiueraõ muitos annos pot-mrae Tuiíco
ftes. Germanos fe cham*fam pelo amor,.&■ fraternidade,
que
0 .jjtf .
.*S^^ro^Çapj@lp XXTKU- jEuYopL. 173
^que entre'fy guardavam /c" o moais Conrado Celtes:
Germanos vocitant Ttali,. Gr<eà fcd Adelfos : quoà frattum
f/òleant inter fe vivere more. O nome de Alemães fe im-
puferar» elles a íy mefmos, que quer dizer. Varoens no-
bres , illuftres, & generofos. Antiguamente os France-
íes, & Alemaens fe intitulavam por hum apelido cómnnv
que era Celtas, ou Gaiatas, com o qual nome lhes efcre-
veo o Apoftolo S. Pauto humade fuás Epiftolas.
Dividefe agora toda Alemanha em dez círculos, os
quais faõ Auftria, Burgundia, Rheno fuperior Eleito-
ral, Saxonia fuperior, Saxonia inferior, França , Baviera,
Suevia, Rheno inferior, & Vuesfalia. Aos quais fe sjun-
tão as Províncias de Pòmerannia, Magaipurg, Huluecia,
Rhetia, Carinthia, Stiria, Moravia, Bohemia, Silefia, Bo-
juflia, Livoni.a.Alfacia, Lotharingia , Barbancia , Selân-
Tia. HolandaTÍmu, Flandes, Turingia , Haília , Miínia,
&Marchia. Adivifam dos dez círculos fez o Empera-
dor Maximiliano no anno 1512. qu&fam os feguiotes. O
Francico comprehende os Bifpados BimbergêTe, Hcrbi-
polêfe, Eichftenfe, o Meftre dos Cavalleiros Teutonicos
em Marieburg; osCõdesHénebergico, Hoenloico, o Er-
bachio, o Sehuvartzêburgico: & as cidades de Noriber-
'^a, Vvinfemio.ScSchuvinfurto. Ocirculo Bãvarico ccn-
pté o Arccbifpo Salisburgenfe, o Bifpo Ratisbonéfe, o Pa-
favienfe, & o Frinfingcnfe; o Duque de Baviera, o Con-
de Palatino do Rheno;*o tandgrave de Leuchtenbe/g;
oConde de Ortenburg; & as cidades de Ratisbona , &
' Freiftadio . O circulo Auftfiaco contem os Bifpos de
Trento, de Brixia.de Labac, de Vienna i & os Archidu-
quês de Auftria. Ao SuevicoTaãíbgeitososBiípos, Cõf-
tantioo. Cutienfe, Auguftano, & muitos Abbades em
Suevia : o Príncipe de Vvitenberg, o Marques B-sdenfe:
os Cõdes de Eoheiuollem, de Hçlfenftein, de Octingé,
"r: " de
174 •, Hijjffljj^mvérfd.f-K
de Monfort, de EWtcnÈ>?rg , Eoèrltein, Bar, Gero!t-;
zeK; as cidades de Auguíte Vindelicia , Vima, Meroin*
ga, Eflinga, Heilbronna, Bibraeo, Lindavia, RavenÊí
purg, Conftancia, Schafhufia, Halla, Norlinga, Rotu-
villa, Chaubira, & Donaverda. Ao circulo do Rheno
fuperior pertencem os Bifpos VVoroiaeenfe, Spirenfe,
Argentinenfe, Bafileenfe.- o Duque de Lotaringia: o
Duque de Saboya; os Duques, & Condes Palatinos: o
Landgraue de Haíliaj os Condes de Vualdecio, Dillen-.
berg, Ifernburg, Leiningen, Morsbug, Rapolftein,
Hohen Reberg, VVeisbaden, Itzttein, & o de Solmus.
As cidades de iVlulhufa era Alfacia, Colmaria, Cheifer,
bega, Argentina, Hagenoa, Spira, VVormacia, Fiide-
betga, VVctceravia, & VVetzlario; a quem também
pertencião as cidades de Génova, de Batijça, Lofanna,.'.
Metz, & Verduno, que fe defmembràraSfuó império. *
O circulo dos quatro eleitores junto ao Rheno,
comprehende o Eleitor de Moguncia, o Eleitor de Tre-
viris, o Eleitor de Colonea, o Eleitor Conde Palatino
do Rheno, & o Meftre Teutonicoem Coblentz.as cida-
des de Monguncia, Treviris, Coíonia, & Gelnhufa. Ao
circulo de Vueftfalis fe eonfignàraõ os Bifpos Pedebor-
nenfe, Monafterietife, Ofnabrugcnfe, Verdenfe, Min- '
denfc, Carmcracenfe, & Vltrajettino. A Abbadia Cor~-f|
bienfe; os Duques de Clivia.ôc o Conde de Marchia;
os Duques luliaceníes, & Bergenfes: os Marqueíes Ba- ,•
denfes, & de Lutzemburg. Os Condes Embdano na
Friíl-a. oSeinnenfe, o de Manderfcheid, VVeida, Ben-i *
theim, Oldenburg, Schavvénburg, & Lipa. As cidades,
Aqueifgran, Cameraci, Duisburg, Lcngovia . O circula
de. Saxonia tem os Bifpos Mineníe , Martifpurgenfe,
Naumburgenfe , Brandeburgenfe , Havelbug , & o de
Lubeca; os Abbades Salvcdenfe, & Quedlirnburg, O
S Dd-que
£
*\Duque de Saxonia Eleitor; o"Marques de" Brandeburg,
Eleitor; Os Duques de Pomcrania :• os Príncipes Anal-
{tinos; os Condes de Mansfeldio, Schdartzcnbog. o Stol-
bergenfe, Gleichienfe, Hohenftainio; & os Barocns de
Tuutenburg. O circulo de SaxoDia inferior contem os
Ardbifpos Bermenfe, & Magdeburgenfe : os BiTpos Hil-
delfieníc, Suerienfe, Slefuicenfe; EIRey de Dinamarca
► por alguns Senhorios, que pertencem ao Império: os
Duques Bruníuieenfes, Luneburg, Lavenborg, Mcga-
politan;& os Condes de Alfacia. As cidades faõ Lu be-
ba,-.Hamburgo» Norteufam, Milhufa de Thuringia, Gof-
latia, Gotinga. O circulo de Burgundú comprehende
- o Príncipe de Flandcs, & omefmo Duque de Burgurj-
dia; os Condes Egmondano, Hornano, & Naífovico
Breda^^.,.^
Odon nTTvéndoos tumultos, & perturbaçoens,que
avia na eleição do Emperador entre os Italianos, traf-
ladouaelciçãoa Alemanha, pondoa em fete Príncipes,
três Ecclefiaíticos, que faõ os Arcibifpos de Maguncia,
de Treviris, & de Colónia; & quatro feculares, o Duque
> de Saxonia, o Conde Patino, o Marques'de Brande-
Lburg, o Rey de Bohemia. A qual confirmou o Papa
NGregorio V. & o primeiro Emperador por efte modo
^eleito, foy S. Henrique no anno de 1001.
,'■ Tem o Império duzentas, & quatro cidades, div
» das pelos circulosi & Provindas, que difiemos.- fendo as
principais Aquiígran na Diecell Laodicenfe, onde fc
*poem a primeira coroa ao Emperador; Argentina em
Alfacia; Augufta cabeça de Suevia, Bamberga, Balèa,
Brandeburg, Hamburg, Brunfuiga em Saxonia , Coló-
nia , Conftancia Lubeéa, M-aguncia, Ratisbonà, Yrevi-
fis, Trento, Vienna,& Milaõ.onde fe.lhe po'em a-feguri-
da coroa i Deitas (aõ livres feffenta, & cinco que fe go-
• ' vernão
17a Hifíma X)nimrfd./
vcmaõ como Republicas, ordenando cada huma as Uyi
convenientes a fua direeçara, & governo. O corpo dos
Elfodos do Império defere ve alfi Goldafto no tomo das ))
Conítituiçoens Imperiais. Ha quatro Eleitores Ecclç-
íiafticos, o Papa Archipatriarcha univerfal do Impe-
rio Romano; o Areibifpo de Moguncia Archicancel-
lario do Império por Alemanha, & Sclauonia: o Arei-
bifpo de Treviris Archieanesllario por França, & Are- í
lace: o Areibifpo de Colónia Archicanccllario por Itá-
lia, & ilhas marítimas. Quatro Eleitores fceulares, a que
o Emperador Sigifmundo deo titulo de Archiprinci-
pes; os quais fam elRey de Bohemia Archipincerna do
Império: o Conde Palatino do Rhcno Archidapifcro:
o Duque deSaxonia. Archimatefcal: o Marques de Brã-
deburg, Arehicameratio ('cituíos, que o vulgar da nofla ^
lingua naò .pode explicar fera agregado de palavras.)
Qustfo Reys; dos Romanos, de França,de Polónia,&
de Vngria. Quatro Patriarchas; o Romano, o Conftan-
tinopolitano, o Alexandrino, & o Antiocheno,em quan-
to cites três não negaram a obediência à fanta Sè Apof-
tolica: em lugar dos quais foram feitos o Aquileenfe , o
de Ravena, «to de Veneza. Quatro Primazes, o Magde- j
burgenfe, o Lugduncnfe, & o Scrigonenfe, 8c o Gnefnen" *
fe. Quatro Cancellarios, o Toletano por Efpanha , r>j
Cantuarienfe por Inglaterra, o Strigonenfc porPanno-\^
,'nia, & o Gnefnenfe por Sarmacía. Quatro Arcibifpos.o >->
Salisburgenfe, o Rhemcnfe, o Mediolanenfe, & o Aquif-
granenfe .Quatro Bifpos, o Pabcnbcrgeníc, o Mifnenfe, >)!
oRatisboncnfe.Sc o Herbipolenfc.
Quatro Duques, o-de Saxonia, o de Baviera ,0 dÒ
Suevia, & o de Lotharingia. Quatro Palatinos, o do
' Rhcno, o de Saxonia, o de.Fraoça, & o de Vngria. Qua-
tro Vicários do Império, o de Auftria, o de Milam, o de
Saboya.
p

\Saboya&ode Bugundia. Quatro Landgraves, ou Con-


des Provinciais, o de Thurjngia» o de Arfaeia> o.de Haf-
(fia, & o de Leuchtenberga. Quatro Maíquefes ,0 de
Morauia, o de Brandeburg, o de Mifnia, <5t ode Strom-
berga. Quatro Heregravios, ou Capitaens mores, ode
Barbancia, o de Nordmannia, o de Vngria, & o de Fer-
rara. Quatro Burgcavios fque fac Condes de Csftellos)
► ode Morimberga, o de Magdeburg, ode Reinechia, &
o de Stromberga. Quatro Condes (que chamam Ein-
fache Graffen ) o de Clivia, o de Saboya, o de Schuvart-
zenburg, ôcode Cilia. QuattoBondoferos; (que iam os
Alferez mòres)o de Baviera, o de" Mibm.o de Auftria,
& o de Polónia. Quatro Condes Palatinos , o de Suevia,
o de Baviera, o de Franconia , & o de Saxonia. Quatro
^Baroens, p.uíxenhores livres, o deLimbutgo em Franco-
^n'a, o'de vnfefterburg, o de Tufia , ôcode Aldènvval-
dia. Quatro Condes foberanos, o dcFlandes, de Ty-
•tol. ode AIteroburg,& o de Ferrara. Quatro Senhores
Provinciais, ode Miraodula, o de Verona.o de Padua,&
Ode Milarri. Quatro Abbades, o Fuldenfe, o-Campo-r
dunenfe, o "Weifienburgenfe,& o Mubacenfe.
. Quatro AbbadefTas,a de Quedtilinburg.a de Ratif-
Vbona, a de Herverden , & a de Lindavio, as quais tem
^Tttitulo de Princefas do Império. Quatro Caías, Auftria,
i-Saxonia, Braunfchuaigia ; & Baviera- Quatro Ilhas,
1 .'«Sicília.:, Inglaterra pSotia , & Chipre. Quatro Ca-
valeiros ,0 de Andalavia , o'de 'Melding-a-,• o de
' Strundechia, & o de Frauvenberga. Quatro Maref-
cais, o de Bappenhcim, o de íulia ,0 de Mifnia,-& o
de Friuingia . Quatro cidades , em que os Emperado-
res fe coroam Aquifgeari , Arelate, 'Miram, & Ro
ma. Quatro cidades Imperiais, Augulta, Aquiíçrar^
Mecz,& Lubeca. Quatro tidadesí Reais, Nápoles, P'3U5,
' M Cra
178 Hift^:-JQFWQ£4. fljjp :Vfi
Cracóvia, 5c Buda. Quatro cidades Eleitorais, Praga,'
Heidelberga, VVirtemberga, & Cutrino. Quatro Em-
pórios, ou Scallas francas, Marfclhà, Francofordia, Vc-ij
neza,& Antuérpia, ou Amflerodam. Efte numero qua-
ternário de todos os eftados inftituiram os Emperado-i
res, para que com fna authoridade , & poder corno coi
lumnas illuftrafíem a Mageftade do Império, adminiftran-
do todos juftiça aos mais membros, & inferiores dellc <i
conforme fuás dignidades, poderes, & fenhorios.

CAPITVLO XXVIII.

De como foy trasladado o Império, &■ das


cidades confederadas, que bmihll&+ 4*^


CArlos Magno filho delRcy Pipino de França na-
c«o no anno do Senhor 742. & fuccedeo a feu pay
-no de 771. Foram dignas de memoria todas as coufas (
deite grande Príncipe: porque.primeiramente fez goer- à
ra aos de Saxonia no anno 772. os quais por alguns ,j
tempos lhe teíiftiraó fortemente , até que em fim fcv'*
entregarão ; & recebendo o Baptifmo profefsàraõ 9 Jj
Fede Chrifto. Alem difto pacificou todo o Geciden-\J
te, defterrando os authores dos* motins, & diflénfoens. n
Chamado pelo Summo Pontífice Adriano a Roma,,
lhe foy dar foccorro , & prendendo a Defiderio Rey w
dosLongobardos, vnío o feu Reyno ao de França. Foy
com o exercito a Efpanha contra os Saracenos, & do*
mou os que a tinhaõ tam avexada, & opprimida. Con-
"tra os Hunnos, &'Avaros fahio também a campanha;
& fuccedendolhc tudo «ora grande felicidade, ajun-
tou ,
5w' Íforo\Capimlo; XXFIIL Europa.' 179*
^*tou grt&â<?s trfeíouiub? TcL.vSvã^iz tornou a entrar
em Itália no anno 800, onde o Summo Pontífice oco-
tioou Empcradot no dia do Naeimento de Chrifto, &
foy de iodo c povo acclamado por Augufto« & cora
grande aplaufo , & alegria romperão neftas plavras.
%_JCarlos ^ugufie coroado por Ticos, grande , & pacifiOi
imperador , a vida , & vlcioúa dos Romanos. Efiafama
fe divulgou por iodo o mundo, mandandolhe todos os
T?rincipes delle fuás embaixadas com grandes doens, &
prefentes. Pouco depois de fer coroado , lhe mandou
o Patriarcha de Ierufalem entregar as chaves do fanto
Sepulchto com o eftandarte da mefma cidade. O Sum-
mo Pontífice lhe concedeo grandestfavores, & gra-
ças, entregandolhes as chaves dcSam Pedro, & o ef-
tandarte de Roma; & que pudeffc eleger, ôc inflituir os
SPprelados,<í^Íi,ihe parecefíe em todo o Império , como
dizem Sigeberto, & Annonio.
Tratou logo oEmperador primeiro que tudo de
propagar a Fé, &Religiam Chtiflã; & aíli inftituio mui-
tos Bifpados, Collegios,& Vniveifidades, como foy a
de Oínaburg no anno 780. & a de Paris no de 791. tra-
zendo para ellas homeos iníignes em letras, como Ra-
^ bano. Alcoino, Cláudio, Clemente, & outros. Tam-
bém fe dis, que foy inftituidor da de Papia, & Bono-
y nia. Levou a Roma Medres para 'emmendaiem o can-
. to,& modulaçam F-hriefiaftica i & mandou grandes ef-
molas para os Chriftaõs, que eftavam no Egypto, em
• Ierufalem, & Síria Foy perito cm muitas lingeas, prin-
cipalmente na Latina, & G^ga, Dialedic3, & Theqlo-
gia, que lhe eníniàram Alconio, & Paulo Pifano.
Dellé fc conta, que informandoíe do que paliava na
Vnivcrfidade de Paris, lhe foy refpondido,que os nobres,
& ticos eram negligentes, & que os pobres cftudavam cõ
M2 cuida-
cuidado. Eindoíelf'h*iWdia fezrio p-ueo ajuntar to- ^*
dos os eftudantes, & mandando por es nobres da parte
efquerda-,' & da -direita os pobrev&-de* medos, cafidade;)
viniopar-á eftes, Ih s diííe.- Vós obedeci fies' a meu pre-
ceito, empregando todo voffo cuidado nas letras, continuai,
que alcançareis o premio de vofío trabalho ; porque eu vos
levantarei em honras , riquezas, & dignidades > 'fazendo (t ,.
huns Bifpos, & if outros confclheiros 'cm minha Cúria. E
virandofe para os nobres, que tinha à maõ efquerda,'
lhes diffe muy indignado : Vós duros > ejrperverfos, que
tjlribados nas riquezas, ejr timbres de vofios pajs , injuria-
Jies a Cefàrca Mageflade , & dcfprczaftes o [eu mandamen
to: tomo a Deos far teflimunha, que fe vos não emmendat-
des, nao tereis de mim fenao indignação, ejr cajligo de voffo.
culpa, para que os mais com uojfo exemplo ftuo advertidos,
& emendados. ** '
Em cudofoy eonfomado Príncipe, pio, re&o, zelo-
íb, como dado; por Deos para tam grandes proezas.
Pelas quais com rezão lhe foy áiáo titulo de Magno,
permanecendo a gloria do Império de Alemanha, prin-
cipiada por elle até o fim do mundo, como piamente
podemos colligir do vaticínio do Propheta Danie?. Fal
leceo em Aquiígran no anno 814. & defua idade 72'ôc
no de feu Império 13. Ouve nelle depois de Carlos ■ ■/
Magno quarenta, & cinco Eroperadpres até Ferdinando ' M
II. que foy coroado no anno 16T9. & ao prefente go- J'
za do trono Imperial, defenfot da Fè , & columnadal-
greja. «*>
Não fera fora de noffo intento tratar aqui das cida-
des confederadas, para que os leitores tenhaõ melhor
noticia quando praticarem delias. Aquelle grande,
dilatado efpaço , que ha defdo rio Narva, o qual
divide Livonia de Rufíia ( em cuja foz, Scboc* eftsõ
duas ,
livro I.iÇapitído XXVTLI. Euroçtu. 181
v"'duas cidades, que tem o feu liféimo nome , chamandoíe
huaNarva Germânica, & outta Narva Rutheniea J&íe
i eftédc até a foz, & barra do Rheno,q fe mete no mar en-
tre Holanda, & Zelanda, côprehendc as terras, & cidades
Hanfcaticas, tomando o nome de Hanfa, q quer dizer li-
ga. As quais Hérique III. Rcy de Inglaterra coneedeo hú
grande privilegio no anno 1206. eõ a feguinte occafiaõ,
& motivo. Vendofe efte Reyopprimido com as moitas
guerras", q tinha (fecundo Ioam de Laet,) lhe acudiram os
Hanfeaticos com grande numero de navios, fazendo efte
côcerto primeiro cõ elle; q fe algum navio fe perdetíe, ou
défle â cofta, elle o pagalfe, & reftituiíTe como fofle ava-
liado. Acudindolhe pois com efte fecrórro ate alcançar
vi&oriade feus inimgos, avendofe de recolher a arma-
da a feus portos, lhe íobreveo tam grande tormenta, que
*"todas as ttiiDarcaçoensfe fizeram em pedaços. E tratado
de q elRey lhe fatisfizefle a perda, fegundo o pafto, que
eõ e.lle -tinhamfeito; vendo que né em muitos annos fe
! podia defempenhar do que lhes devia, vieram a cõcertc,
qlhe perdoavaõ gratuitamente tudo, cõobrigaçamde cj
o dito Rcy, & feus fueceffores os deixaflem livremente
comerciar cm Inglaterra, fem lhe pagaré direito, né tribu-
« to algum por iffoi, aífi nas entradas, como nas faidas, porq
I até aquelle tempo lhe pagaram fegundo as valias, a cen-
f to por cada navio. Foylhes aífi concedido pelo dito Rey;
Sedando os Hanfeaticos a cbedenicia ao Império, & fi-
cando' membros- delle, tomaram porfeu protc&or hum>
Príncipe do mefrao Império, que foy o gfam Meftré dos
Teutonicos em Bruftía.
O infirmo defta ordem, & cóngregâçam de cavallei-
ros começou no anno 1192. no qual áforça^dé armas'Co>^^
quiftaram Bruffia, que era terra de gentios, &ícorivert«i?^
doos àFé, fizeram efla Província cabeçade fua ordem
M3 mas
Níli
■v''_ jt, í ,js

iíii ' ] HiJhnaVMvérfa!. 'f ;'",»,


mas fogeita ao Imperfé, c7>i*ic (Tentar, & duas cidades, fe-'- ■/"
tenta caftellos, & fumptuofos edifícios, que nella edifi-
carão,ampliandoa de tal forte, que he numa das mayo-
res,.&mais iluftres Províncias de Alemanha. Inílituio ■
efta ordem Militar Frederico II. para.-es Toldados po-
bres, que pelejafíem pela defenfam da Fe Catholica;n as
depois fe eílendeoa todos os que quiferam entrar nella.
A recepção fe faz com eftas palavras .-. Nos te. promette- ^
mos p.w , &■ igoa, ejr bum pobre vefliâo em quanto' viveres.'
Se depois te couber, mais algum/t coufa, (cieis fenkor, delias-&■
não te devemos mais. Logo Ibedaõ eíporas, & efeudo & eí-
padi, & tendolhe vertido o habito, lhe dizem: Toma e/l*
Cju^, & fe fifyre£'o que promete(le G nós te prometemos *
vida eterna . Deite modo fe confervaram porefpaço.de
trezentos annos.até que no de 1525. o gram Mcftre d&-a
Ordem Aloerto de Brandeburg efquecicf^dV; íua pro-^"
fi-flaõ. fv*z das rendas da Ordem hum Principado ternpoí
ral heredicario., repartindoo com Sigifna.undo Rey de>
Polónia a quem deo a obediência.
Debaixo da protecçam deftegram Meflrc eflivef-
rão as cidades Hanfeaticas, ampliando fuás confedera- m
CJens,. & cornmercios.-. mas vendo a mudança, & defã- J]
tino, que avia feito, elegeram outro p.foteÊtor. O primei-, ,'!»■
ro e.ftatuto da confederaçam he, que não poflaõ entrar i
na liga fenaõ as cidades, que.efliverem na coitado mar, ^^w
o-u nas pfayas, dos rios navegaveircormj com.modida.de ,„'
de commerciovSc negociaçam para todas. O fegundO:h.e
quefejam 1'ivres, ■& tenham as-çhaves das portas em.fed "
poder, governandofe por fy, fupp,ofto que no mais d.e.nj
a obediência a algum Píincipe, que jura primeiro, que
e;lla fe lhe encregue, de lhe.-guardar os feus privilégios»
vterceit.o he, que eítejaõ debaixo do Império; & por
iffo não faõ admuddas as de Suécia, & Dinamarca, fup-
pofto „'
■^^Jjpro % Capg&lo X£j£Ial!- Europa. 183
V podo que accommodadas: por ferem de Priocepes dolu-
nidos do Império. Sam entre todas íetenta, & duas ci-
| dades, as que tem eftes três requifitos. Ele ajuntam as
eleitos pela liga de dez em dez annos, para examinarem
eftas coufas; para renovarem a eonfederaçaro; & para
excluírem.as que o merecerem, & aceitarem de novo
as que tiverem as íobreditas condições, & requifitos:
^.como também para fe foccorrer às que tiverem neceffi
dadecom baftimentos, navios, & armas; avendo grande
prohibiçãode que eftas coufas fe não communiquêaos
bárbaros, & infleis.
Efta liga fe dividio em quatro membros. A ca-
beça do primeiro he Lubeca , âqualTe concedeo privi-
legio, que quando for neceífario de eonfelho de cin-
*_- cocidad^wzinhas, poffa conuocar todos os confede-
rados, para íe trataremos negócios de importância. JNel-
Ea cidade eftâ a Chancellaria , & archivo de toda a li-
ga. As cidades vizinhas,que'fe chamaõ Vandalicas, iam
Hamburgo, Roftochio, VVifmaria, Stralfundia,& Lunc-
biirg. Nefte membro fe contam as cidades de Pomera-
nia, que faõ Stetino, Golnavia, Gribfvvalda, Colberga,
Stargardia, Scolpa , Rugevolda, & outras. Do fegundo
"* membro he cabeça Colónia, cidade aventajada a todas
K as mais de Alemanha em grandeza, & Chriííandade . A
* efte fe attribuem Xfcfalia, Emeiico, Dusburg, ôc outras
.cidades do Ducado de Clivia: do Condado de Marcha1,
'Monafterio, Ofnaburg, Tremonia, Lufccio,& outras;co-
mo também as cidades de Grldtia, Vueflfalia , & Tbu-
ringiav Do terceiro membro hc cabeça Bruníuiga , cm
quefe contam muitas cidades de Saxonia, ScMagdoburg,
Metropoli, & primaz de Alemanha . Do ultimo irifi^
broavantejado aos mais em poder, & número de cicia
des, he Damifco, em quefe comprehendem rodais
M4 de
'184 Hiftç^^niuesrrd. { ■ ..,;
de Bruflia, fendo as principais Marieburgo,Konigsberg-,V
Colmaria, Turonia, & Brunsberga.
Todas eftas cidades da conferação faõ de grade vtí )
lidade para as nações, onde aportaô cõíuas armadas. &
navios, procurando os mais dos Príncipes feus comércios
cknavegsçoés, porque cõ ellas enriquece fuás terras, Rey-
nos, & Províncias. Com efte intento lhes tem eoncedido \
fumptuofos almazens, & edifícios em Antuérpia, Veneza,
& Londres: & lhes chamamas caías Germânicas. Tarobé
aporcaõnefte Reynode Portugal em Lisboa, Setuval, &
Porto trazendo trigo, couraima, bayetas. alcatram, peixe
falgado,S{ carnes, maííos, queijos, & manteiga cõ muitas
outras couias; pela's quais levam fal,açucar, drogas aromá-
ticas, vinho, azeite, 5? outras muitas fazendas, & racrc*r
doiias, por quem commutam as fuás. ^sLi «*^

CAPITVLO XXIX.

2)o Ifyyno de cBobemia,fegudo <£hl. T^m*


lo Stranchi natural do mefmo ^Reyno.
«í.
■í'

A Queila regiam de Eutopa, que fica (como dize os 'm


CofmografosJ entre o grão g>longitud trinta, & s|i
quatro, & trinta, & oito: & entre o de latitud, quarenta,
& cito.òk cincoenta; he o Reyno de Bohcmia,o qual tê
de comprido quarenta pedras defdo Oriente, ao Occidé-
te, & trinta, & cinco de largo, q he de Norte a Sul A fua
figura he ovada, cercada por todas as partes de altos
montes, & matas; os montes fe chamam Sudètos, & as
Tíràtas Gambreta, ou fegundo apropria lingoa, Sumavva.
Pela parte do Otiente cõfinja cora Sileíla, & Mora.- pelo
Occi- •
Í0 J
íS^íÍÍ^O\Cz?M W^Em^(U. *%
VOcciderjte, com d Noiico, ou pTlatinaao de Baviera:
pelo Meyo dia com Aufttia; & pelo Septentriaó cem
lMifnia,& Luiacia. O clima he temperado, (audavcl, &
puro; as agoas muitas, & boas,affi dos rios.eemo das feri
ires, que correndo todas ao Albis.o augmentão emitas
correntes de tal forte , que quando entra em Mifnia,he
já muy amplo , & caudaloío. Nace efle celebrado fio
I^JOS confins deSilcfia em dous sitos montes, que cha-
mãodos Gigantes. O leu primeiro nacirmnto he de on-
ze fontes; & por iflb na lingoa do Reyno he chamado
Elbedclf, que quer dizer onze. Efião iempre efles mo-
tes cubertos de neve, que derrerendofe_nelles, lhe com-
muniea grande abundância de aguas.-* metendofelhe
outros muitos rios, começa a fazerfe navegável com grã
^e vtihdagSggis regiões, & Províncias. Também ha
outro rio navegável, chamado Multava, que paliando pe
la cidade de Praga Corte, & Metropoli do Reyno, a faz
iica.& abundante de comércios. &baflimentos. Aqui fe
pafia o rio por húa ponte de vinte arcos, tendo oitocé-
tos, & fe flerta, & dous covados de comprido, com for-
tes, & altas torres por húa, & outra parte; & chegando
àMielnicofe ajunta com o Albis. Alem difto hanefie
"*Reyno muitos banhes de agoas faudaveis, muitos tan-
Kquês, & lagos, onde fe ctiaõ vários géneros de pefeados,
^como tambê nos riosyfluefaõ abundantes dclles. O ter-
ritório he fértil'& como tal dà grade copia de todos os
frutos, excepro azeite, & nem o vinho he muito;mas em
lugar delle fe aproveitão das cervejas, que fazem de tri-
•go, cevada, & outros materiais, com tanta perfeição, &
fabor.que daqui fe leva para Baviera, Vcitlandis, Lufa-
cia, & Mifnia, onde he muy aceita, & eftimada de to-_
dos.
Saõos moradores deíle Reyno muy curiofos ceculti
varem
7"^
iSó Biãojja Z)WRW/VI.
vatemjardins, fíorías, oc pomares, onde fe produz gran-
.de quantidade fruitas, hortaliças, açafram, ervas chei-
rofas, & raediciaais; rofas, afTueenas, & todo o mais gc-
•nero.de. flores. Os gados, que neíle Reyno.fe criam, iam
em grande numero, eocuo tambcm a caça, aífí de aves,
como de feras. T-ambcro ha fontes dê fal, mas como
naõ iam perennes , nem reíponde o lucro aos gados, &
defpefas, feprovem de Baviera, Sc Saxonia. He abun-
dante de meçais, deícobrindqfe a cada paffo minas del-
les, ouro, prata, eftanho, cobre, chumbo, ferro, azougue>
enxofre, ahurae, falitri', Sc vidro; como também de mar-
inores tiniili nos, pedras preciofas, amethiftos , efmeraí-
<3as, fafitasiíifpesj&pie-rolas de grande preço; & valor,
que .fe. criam em numas conchas no rio Vacava; como
também rubis (a quem o vulgo chama Gran.^y ) que fe^j
tiram de dous poços; os quais brilham com tanta força,"
& a&ividade, que parecem brafas vivas.
Dividia o Emperador Carlos IV. euc Reyno em
quinze Províncias, Ou deítridos, dandolhes os nomes
das cidades principais,que nellesfe encerram. O primei- 4
.ro he a cidade de Praga, que he Corte. Sc Metropoli, ri- ^
ca & abundante de tudo, cor» fumptuofos edifícios, nu- <(*
mero de moradores, & -paços de muita mageftade, &*'"*
grandeza, que nella edificou o mefmo Emperador, Sc,'/1!
huma florentiflima Vniveríldade^ue depois fefez co-^íl
vil, ninho, & viveiro de hereges. Agora eftà muy dimi- «
nuida.Sc damnificada, porque fazendofe nella fortesois
hereges, o Emperador a mandou entrar, Sc faquearno
atino 161c. 5c o meimo lhe fizeraõ os de Saxonia.no*
de \6'}z. Saõ do fegundo deftrito cidades .livres do
•Reyno Caurzima, Colina,.ou CoIonia.Sc Broda.Ha tam-
"bem nella muitas terras do património Real. De Caur-
zi.na toma o nome: cila Pfcovincia, a qual fempre fe
con- *
Sfc, Livro 4 Capitulo XXIX. Fwop *_.. 187-
*«oh ferido com Cua fioerda-af^P^fivilegics. Br.oda cflà
*quafi defpovoada, por rezão de hum grande incendic/,
Inue nella ouve no snno 1627. Kos campos delia cicia-;
<ie fe deo aquella celebre batalha entre osíequazes co
prevêrfo herefiarcha loaõ de Hus fque íe intitularam os
Thaboritas Evangélicos, os quais íe conjrjraram -com in-
tento de vingar a morte de feu Miílie infernal, a quero-
^>s Cathol.cos mandaram queimar no Concilio Conflan-
«enfe, & entre os confederados do Emperador, & Sum-
mo Pontífice. Calixto; na quslos Hereges foraõ alfaia-
dos, & deftruidos. O terceiro deflnâo he o da cidade
de Raefco, que por outro nomeie chama Radecio da
Rainha ...Onde iam cidades;livres, efia^ieímajilarovriiz-
za, BydzQVO , :Tfutnowo. & Curta, que.fam do dote das
Rainhas de Bohemia. Nellé eflà também hum a Abba-
^6ia, & Moltcffo da Ordem de S. Bento com grande ju-
rrfdieaÕ& rendas: junto ao qual teve o Emperador Mac-
thias huma çeJebfe'bat3lh-a.com os Lutheranos no an-
no 1620. dosqúais alcançou huma infrgne victeria , n%
candcrelles tam magoados da perda, &ruina, que tive-
raõ, que ainda não ceiam de alaoientar, & fentir.
O qusrto deíbifto he Ghrudirea, onde i rem. def-
eca cidade eftaõ a de Baumberga ,i Alramita ',:& Pclicz-
*cha, que também fam do dute das Rainhas. Ocfumto
(fhe Zaslavia, com ou'ra cidade livre, que íe chama Gut-í
na, que. em.1 dignidade depoisidc Prsg.a fe aveatajaiàs
mais de Bohêmia . Ha junto aefta cidade grandes mi>
nas de prata, & cobTe,. por reza^dasíquais' o;Eo-iper.ndor
Alberto no anno i?o8 fezguerra.áVVcnceslaoll Rey
de Bohemia. A fexta Provinda.fe chama Bechyna to-
mando o nome de hum cafterlo ch.amado^afli OndeiVô
cidades livres Budegocivo , Thabor, Pelzimovo, &■-
Tyna.junto aoiioMulda. Budegocivo hc cidade fa-
ro o fa,
•w i>
i83 Hifloria IJnvverÇd. r <"'
mofa.forte, & bem mufauTpofta na parte direita ao ri©^
Multava, femprefirme na confiíTaõ da Feda Igreja Ro-
mana, fem ja mais.dar entrada aos Heregcss pelo qual:
o Emperador Rudolfolhe cõcedeo muitos privilégios.
Thabor he hurna cidade, que os difeipulos, & íequazes
do herefiarca loáo de Hus edificarão cinco annos de-
pois de fer queimado . Porque como os Catholicos os
lançavão fòta dos templos, & cidades, fe forão para húas ^
brenhas, & montanhas, onde fizerão humas cabanas, St
choças de madeira, em que habitavão, & fazião íuas cc-
remonias, & ritos herericos . Para aqui vierão fugindo
os mais das outras partes, ôc chegarão atam grande nu-
mero, que fizerã^s huma ampla cidade, cercada de mu-
ros, & torres, 6c lhe puferáo por nome Thabor»Contra a
qual mandou o Emperador Ferdinãdo II. no anno i6zi.- r.f
hum copiofo exercito,que a teve cercatfa^iefde vinter
& hum de.Mayo, até oito de Novembro, refiftindò conr
grande força, atè que por falta de baftimentos fe veo-a
entregar. O íeptimo deftrióto he Vvltávuícho, toman-
do o nome do rio Vultava. He regiaõ pequena fem ci-
dades, ou eoufa alguma digna de memoria. O oitavo *
hePodprifco,8c fua cabeça,huma cidade livre chama- A
daBerauna junto ao rio Mifna, pouco frequentada de :>B
moradores, por fer muitas vezes abrazada. Laurafe nel-/,f
!
la muita louça com grande perfeição,& primor da arte. -jjj
Não longe daqui fica a -faraofa cidade de Garoloíii»3,>
onde fe guardãa. com grande cuidado , &; vigilância a
Coroa do Reyno.os privilégios,,& mais couías de cfti-
ma da Republica em hum caftello muy forte, & feguro.
O nono fe chama Prachno, o qual era hum território
muy. povoado ,••,.&cfeirtil antes que .os Heícges oaílblaf-
hèm em-tempo do Emperador Matthias. Ha nelle cida*
des-Reays, Sc livres, Pifcca, Suííice, Vodnana, & P,racha-
tfeio,
S^.^ro \ Cáf^ulo X%M'. 'Fwop^. 18o
jticio. Sam'incriveis as crueldades, oc lyranias, q es He-
reges té feito nefia regiam, matando muitos Catholiccs,
lafi-lando cidades,deftruindo templos, & Conuentosde
Religibfos; entre os quais avia hú infsgne da Ordem de
Cifter chamado a Abbadia de S. Corcna Spiniea; Ic hm
• grãdè Priorado dos Malcezes por nome Strachonice;fup-
poftó cjtãbem o pagaram,pois dando nelles o exercito do
JEmperadorypaffou grande numero ao rio da efpada, cm
3uítke,&nas mais cidades.
Temos dito das Províncias de Bohemia, que eflaõ pa
ra a parte do Oriente , & Meyo dia; agora veremos as q
ficão para o Oecidente, & Septetriaõ. Occorre pois em
primeiro lugar, & decimo cm numero o*eítrito de Pléfr
cho, tomando o nome da cidade de PiUna: onde ale dei-
ta ha outras Reais, q fam Glatovia, Stizibro,ou Muza, Do-
Thazlicio, csoCòchytfana. Pilfna, he famoía, & celebrada
em todo o Reyno.muy cftimadados Reys, & Empera-
res, q lhes cõeederam muitos privilégios, per quãto refjf-
tio fortiffimaméte aos Hereges, q têdoa em húa ccafiam
cercada, & dizendolhe q (e entregafie, lhe refpondeo cò-
grande defprezo, & vitupério, que mais entigna era a for-
ca da cidade, que a feita dos Hufiftas. O undécimo he
sLuefcho fértil de trigo, & vinho; cujss cidades livres, &
^Reais fam Zatecio, Moita, Launa, & Cadana. A primeira
f^oyfempre ccntumaz^ela parte dos hereges; mas entran-
do nella o Emperador terdinando no anno í6\f. mãdou
q osq naõ quifeffem receber a fe da Igreja Romana;fof-
fem defnatnralizados do Reyno, o q aceitaram muitos, q
com fuás molheres, & familus fe forsõ a viver em outras
partes, como obílinados, & endurecidos: o q também fi-
zeram muitos das outras cidades.
O duodécimo he Rachominifcho , qhe cidade Re^l;
ck o çciiitorio pela cnòr paite de brenhas, ck motes, Cem
lufares
ioo mftoria %)mverfal. { ■■■■■ vjr*
' _ ^
lugares de eonaderaçao^ famã^dc que fe tira muíti^
madeira, & lenha ;quc vay embarcada para Praga, & ou-
tras partes pellos rios Voltava, & Albis. O decimo tçr-<
ceiro he Slanfcho, chamado afli defta cidade Real, que'
provê Parga de abundância de trigo. O decimo quar-
to he o deíteito da cidade de Litomerficho, que todo
fe cftende pelas ferras, & montes Sudétos. Daíe nellc
muito pam, vinho, & frutas, de que provèa MifniaCií-^.
Albina, que confina com ella. O decimo quinto he Be*
leilavvuícho Província grande, fértil, ôc de muita gente;
a qual coma o nome da cidade BoleQavia, que.he do Pa-
trimónio Real com Benatcha, LyíTa, ScBrandicena. A-
via cambem neíf» Província a cidade de Numbiug, que
o Duque de Saxoniano anno 1632. abrazou com arti-
fícios de fogo, por nam poder encrarnella. Alem deites ,
dcftritos ha também alguns Senhores ,-^ft."tem cerra**" (
particulares com fuás Refpublicasi porem Iam vaflallos
dei Rey de Bohemia.
Affirmaíe que.pôde pòr eíte Reyno em campo
trinta mil homens, de pè, & dez mil de cavallo; & pudera ,
ajuntir miisfe a variedade da celigiam o naõ tivera tara *
divifo, & encontrado. Entre Duques, que primeiro fo- JJ
raõ- & Reys, que lhe fuccedèram, fe contam neíte Rey-^jtf-
no cincoenta,& cinco, defdo snno. do Senhor 620. ate ,,|
o de 1632. em que o Emperador Ferdinando feu legi-^l
timo Rey tomou pofle dclle , av*endo vencido aFrede- "^
rico Conde Palatino do Rheno, que por força de armas
o procurava ,&p'ctédia: mas luccedeolhc mal, pois naõ .1
fomente foy excluído da pertençam de Bohemia, mas
também de feus eítados, fugindo para Holanda pata ef-
capar com vida-, caíligo, que mereceo por rebelde à obe-
diência da Igreja Romanav& protector dos Hereges.

CAPI- ,
7^ J^vro $F- Catulo XJX. Europa. 191
CAPITULO XXX.

T>o ^Reyno de Colónia, fegundo Tkuanoy


&- outros oÃuthores.
^T\ Affado o rio Viftula, que he o termino, & ultimo
J7 fim de Alemanha pela parte do Oriente, íefeguem
as duas Sarmacias eftèndidas em grande difiancia para
o Septentriam, huma na Europa , & outra em Afia, as
quais divide o rio Tanais, & a lagoa M*tis. NaSarma-
ciaEuropéa eftá poftooReyno de Polónia, que come-
çando no rio Viftula difcorre para o Occidente até o
^dera, cortíjírehendendo asampliííimas Províncias de
Pomerania, Pruífia, & Polónia ( de quem toma nome to-
dooReyno) & agora todas juntas íe chamão Niepero,
defdo Ponto Euxino até o mar Báltico, & defdos fins de
Lituânia atè os de Mofcovia, & Suécia. H3 ncftaSarma-
cia Europca muitas, & dilatadas rcgioens differentes na
lirtgua, &coftumes, que todas conflituem o corpo dcf-
»te fortiffímo Reyno. As quais fam Polónia, Pruffia.Maf-
jfovia, Samogicia, Livonia , Lithuania, Volbinia, & Po-
'dolia. Alem das particulares década Província ufam de
huroa lingoa geral, com que todas fe communicam, cha-
mada Slaviea, ou Sclavonica, que fe falia em dezanove
naçoens, femqueem alguma íe corrompa a formalida-
de delia; fendo para todas como connatural> nativa, &
própria.
He efta regiam pela mòr parte aflentada, & plana
principalmente no Occidente, & Septentriam; fuppofici^
quç n.jõ deixa de fermontoia para a parte em que cen-
fim
ipi Hijlorjé Vni^erfaL, ^,.^r ^\
fina com Vnjria. Occiípade comprido (Tegundo Mar-jT
tinho Cromero ) duzentas milhas Polacas fcada huma
das quais cem quatro das Italianas) & de largo trinta 1
onde mais eítreica, & onde mais larga, tatu cem milhas,
que he no meyo de toda ella. Os montes Sarmaticos,
que dividem Polónia, & Rufíia de Hungria, fam afperos,
& de altas brenhas, cuja mayor eminência fe chama Car-
patho i Scfaôtam frias eltas regiones, que moitas vezes^ j
as arvores (e fecim até as raízes, & a goa, que cae do
alço fe congela antes que chege aterra. Os lagos, &
rios os mais dos annos citam congelados quatro, & cin-^
co meies doinverno, dando palíagem fegura por cima
do caramello ài cavalgaduras, & carros por mayor car-
gi, que levem. E com fer efte clima tam deftemperado,
lhe não faltam pomares, hortas, & jardins^principalmen- „j
tejuntoaorio Viftula.no território de CT^iovia, &e"ra
outras partes; onde fe produz todo o género de peras,
maçans, amexas, majacotoens, cerejas, & nozes. Tãbem
ha uvas, que fe comem quando o anno as deixa fazoar,
ckmadurecer, mas fempre o vinho que delias fe faz he J
miiy azedo, & efeabrofo. Ha também neftas partes-ábun-
dancia de caftanhas, amoras, figos , amêndoas, pepinos, J
meloens, ervas, & flores de toda a cafta, fe fe cobrem) &>*•
amparam das neves, geadas, & feios. «J
Prodúzemfe aqui muitos metais nas montanhas,»^
■chumbo mitturado com prata, azougue , eftanho, ferro, /
ôcveasdefal; o qiiil fazem também deagoa, que tiraõ
de poços alcos, Sc cozida fe converte nelle: mas a ma- '
yor abundância he a qae titão das minas da terra. Tam-
bém deltas falinas tirão hum material à maneira de
pez, & lhe ehamiõ carbúnculo, de que fazem bebera-,
gens purgativas.-Nas intimas, & mais profundas caver-
nas deites minerais fe ouvem muitas vezes vozes coroo
• de 6
-Ifuro 4. Capitulo 2fjí.%. Europa. 103
*de caês,galIos, & de outros animais.ôc aves, q os morado-
res tem por prefagio de: alguma calamidade, que lhes ha
Ldefucceder. Também nos defertos dePodalia ha hum
lago, que na força do veraõ, & quando o calor do Sol ef-
cá mais intenfo, íe endurece em huma matéria tam fa-
lida, que os carros, & cavalgaduras andam fobreella, &
quebrandoa em pedaços fazem íal, que levam a diver-
Jas partes. Ha também em muitas mármore, & alabaf-
tro finiiíimo: como também outra couía , que parece
incrível, & he, que produz, & brota aterra cfpoatanea-
ncamentc panellas tigellas, & outros vazos de barro,
que faindo ao ar fe fecam,& endurecer^ Edis o Author
citado que vio alguns dellcs, mas que para ferem mais
pulidos os concertam, & endiraitaõ. No mar Sarmati-
co de Pmljja fc colhe hum material (a que charaaõ Am-
bra) que as ondas lançam na praya, o qual faindo da
agóa molle, & brando, logo ao àpfe endurece, & fe fa-
zem delle ao torno coufasde grande valor, & efiima.
A matéria delle he leve, diáfana, amarela , & branca,
mas efta mais eflimada. Dentro de alguns pedaços, fem
sfinal de abertura fc acham formigas , mofeas, & ou-
tros bichos femelhantes, que alli fe não podiam me-
ster, por artificio algum , mas por induftria da natu-
• reza, que muitas vezes obra cftes; & femelhantes pto-
I digios. ■ -\,
Tem efte Rtfyno imuitosrios^ entre os qoais faõ
"navegáveis Viftula, Donaieciò, NiCper (aiquem os anti-
guos chamarão Boyíthenes, que nacendo em Mofcovia,
fe mete na Tartaria no mar do Ponto Euxino) Sano,
Varra, Notefcio, Neftro.Drevancia, & Odera. O Vif-
• tuia: naco. nos montes Sarmaticos , & difeorrendo po^^f^
Polónia mais de ceco, & trinta lcgoas,idepaiS'de ver re-
cebido éfy dezoito rios> & vifitado dezafete cidades, fe-
N defpe-
dcfpedc delia coro grandes augmentos de fuás corren-
tes: ôi entrando em hum lago de Pruília chamado Ha-
bo, que tem quinze milhas de comprido, & duas de lafr
go, ccrc4do de muitas cidades, junto àfortalezi de Lod-
deíte fe mete no mar. Nan? faltam outros muitos lagos
grandes em Polónia dignos de íe fazer meníaõ dellespeHi
abundância de pefcados, & coufas maravilhofas.deqos
dotou a natureza. Nellcs he notável o que eftá'no terri-
tório Chelmenfc, chamado Biale, q quer dizer branco,
cujas agoas nos meies de Abril, & Mayo fazê negros os
qfe lavram,& banham nellas. Também he admirável o do
capo Belféfe chamado Crinice.naõ largo, mas: may pto*
fundo, do qual refere Dlugoííò, q de três-em três annbs
dàhunsgrandes roncos, & bramidos, cVfubindo fuás agoas
defdo profundo por hu alto monte fe deterem fuasca^i
.vernas, & concavidades algús dias, dõde;tornaõad,ecef
a feu coftumado centro. No território Scepufio ha-hum
regito.qfe defpenhade huns altos montes, cujas agoas
fe convertem em pedra dura, de q fe fazem roòs para QS
moinhos. Ha também húa fonte, cujas; agoas naõ fomen-
te bebidas, mas com fuás vaporaçoehs matãoas aves?3c
animais,que chegaõ a ellas. " '' j+
A variadade de caça, & montaria deftas partes her"
incomparável, por rezaõdas muitas ferras, brenhas, Scyl
montanhas, que ha nellas;grandevBumero de lebres, coe-'-
Jhos, corças, veados, âejavarís?principalmentei em Pruf-
íia,& Maflbvia, onde eiras feras andam em bandosjeomo
.também cavallos bravos, & agrefies, & huns grandes ani-
mais (a,q comummente chamão' On2gros bifontes^cõ
huis pontas negras retrocidas para détro, entre as quVis
©óJem caber dous,& três boroSs.ciija ferocidade he.tã-
" ta, qacolhédo hum caçador a cavallo.cõ elleolevãraõ
muy alto pelos ates, & manando com as arvores, asarrãr
cão.
^, JAuro £ Capitulo XXX. Europa.,. àp5
►caõ. Ó*pelo deftes he 'bú couròVpero, & de fedas duras,
mas a fua carne de eonferva, he iguaria muy prezada dos
Príncipes, & Senhores. O modo, có q os tomaõ he arrif-
■ cado, «as de recreação», & defenfado para os monteiros,
& caçadores. Alem deftes ha zebras, onças, lobos cer-
vais, fcboys fylveftres, chamados Thuros, cujas carnes
comem, & das pelles fe fazem diverfas couramas. Ha tã-
bem marcas, caftores, & outros bichos de pelo finiffimo,
\ manchado, cujas pelles fe levaõ a diverfas partes. Dos
caftores he notável o que fc conta, que as caudas fe tem
por iguaria muy prezada, &excellente, avaliada, & tida
por pefcadd, fazendofe pouco cafo da mais carne delles-
A rezaôhcporqefte animal fabrica oteu covil de ma-
deira junto aos rios, & lagos,& tendo ornais corpo em
feeo.fò a cauda eftà fempte metida na agoa.Ha também
'grande abutídancia de codas as aves, .principalmente ma-
iitimas, que vaô entreter os calores do veraõ na frefeu-
tadaquellas partes. _
A Província, que com particular nome fe chama Po-
lónia fe divide em miyor, & menor, &húa,"& outra faro
fertilhliroas, & muy povoadas. Recebeo a Fè de Chrif-
to no anno 965. em tempo do Papa Ioaõ XIII. A roais
. antigua cidade hc Gnefna, cujo Areibifpo cm fendo eõ-
firmado he logo Legado, Primas de todo o Reyno, &
f Prefidentc na morte, dos Reys com todo o direito, &
poder.Real. Prefíde na eleição; do novo Rey, publica a
eleiçam, poemlhe o ôlie, ôc a Coroa na cabeça. So o feu
,paço depois delRey fe pode chamar Corte, & os que o
fervem,não criados, mas cortefoens. Cracóvia he agora a
Cidade principal Corte dos Reys de Polónia, iUua.re, Sc
fa.nofaem numero.de moradores, & íuroptuofos edih^^
cios, pofta junto ao Viftola,. por onde communica ífaSS -
commeteios, & he provida de tudo. Ha nell.a Vnu rr-
N2 fídaddef
;
{ \1
19a • Hiftoria Xjrivverfal. , ^ WM>%~£A
cidade, cm que fe aprencTe^todo o género de letras. Ha\
roais nefta Província o Arcebifpado Leopolienfe com
mais quatorze Biípados, & maicos Vaivodas. que farit.)
Djques, & grandes fenhorés. Aefta íefegue a^rovin*
cia de Lichuania ampliflírna, & muy dilatada, & pefa
rnòr parte coberta de agoa canto que as neves, & ca-
ramellos fe derretem. A fua Metropoli he Vilnia jun-
to ao rio Velia . Reccbeo a Fè -de Chrifto 110 arn*^,)
no 1387. fuppoílo que obferváram muito tempo o riril
Grego, como os Roxolanos feas vizinhos; que dando
a obediência ao Patriarcha de Conftantinopla, naõqui-
feramobedecer ao Pontífice Romano. AÍithuaniahc
fogeita RoxoIanVa, a qual oceupa todas as terras,, que
ha entre o mar Balticho, ou Germânico , & Livonia,
Suécia, o Mar coalhado, o rio Volga, que agora íecha- A
ma Rhas, a lagoa Meotis, o Ponto Eu x inatos - montes?"
Sarmaticos. Polónia, Luthuania, & Saroogicia. Divi-
defe em duas partes, a primeira das quais íe efiende ar-
te a foz do rio Volga por regioens muy dilatadas, jun^
to à cidade Aftracan, onde ordinariamente vam com A
merciar os Medos, Perfas, Arménios, Scithas,& Mofco-
vitas. Efta Roxolania, que fe efiende até os confins dos- J
Perfas, eftà fogeita 30 gaõ Duque de Mofcovia. A ou->
tra, que fe chama Roxolania Real fogeita a Polónia cõ- «^
prehende os territórios LeopolienÇe , Lublincnfe , Bei-X ,
íenfe, & as regioens de Podolia, Volinia, Kiovia, Cirfcaf- ,tf
fia, & Podlachia.
Maflbvia he também Província muy dilatada, cuja "
Metropoli he Varfavia junco ao Viftula, onde fe a/up- \
tão, & fazem as Cortes do Reyno. Samogicia fe fegue
a efta , a qual fuppfto que Província Aquilonar,. fará
ella tam poucas as trevas da noite no meyo do cfiio,
que os rayos do Sol, quando fe poé.fe encontram com os
nfcf. <
„ I^vro li. Qaptdo XX&. Europa. 107
^âteímos rayos, quando toma á naccr. E he tal o calor ío-
lat líeftaregiam, que não ha pode tfe efperai na força do
\ú\r. Si efta-he a rezam porque o trigo fe produz aqui em
Enes, & meyo, como também emMofcovia. Pclocõtra-
lioacontcce émlrlandia aléde Suécia debaixo domef-
mo polo,onde féis meies he dia, & íeis redes noite, cu-
jas trevas fe reparam com o perpetuo lume. Receberam
^>s Samogtcios a Fè de Chriflo no aono 1-413. fendo dan-
tes idolatras, & gentios: fuppofloque ainda naõ eftão de
todo fòrade fujsfuperfUcoens. Segueíe Livonia, q con-
fina com Ruffia dós MoicOvitas; a qualhe Província
aropliflimâ convertida à Fe de Chrifio pelos annos
IZ02. por huar pio varam, que a effe eneito veo allicõ
huns mercadores de Lubeca. Ha nella hum Arcibifpo,
& dous Blfçadòs: pdrem a gente barbara, inculta, &
pouco difciplinada . A Província, & Ducado de Po-
roerania he também amplillimo povoado de muifas
cidades, & villas, nâs quais tem o primeiro lugar Ge-
dano, ou Dantifco Metropoli da Província, cabeça do
quarto membro das cidades confederadas , junto à'
qual fe mete no mar Germânico por grandes bocas o
famofo rio Viftula , fazendo hum infigne porto, &
empoiío celebrado de todas as naçoens porfeus com-
.mercios, riquezas', & abundância. Vltiroamente a Pro-
' vincra de Ptuílía ,não/nenor que as outras, he fertilif-
fima de trigo , & abundante õé gados , convertida à
Fé no anno"u2<5. Ella repartida em doze Ducados
feudatarios ao Polaco': & ha nella quatro Bifpos,
dós q'uàis ò VVarmiénfe he Cardeal da Tanfta Igreja
•Romana. ',■.:■■■',''
Começarão os PrincipfsdcPtilohiaÁo anno ÇCç^^^
& tem fuceèdido quarenta, & féis entre naturais, & ef-
tràngciròs, porque como cnttão por eleição , procura o
IO** N3 • fteyno
198 . j HiftoriaJJJmverfaD .?. ot^jjjj,^ ; ^,
Reyno os que melhor ogOvernern. A aprefpntche^í-,
gifmundo III. Rey CatholiçOi;qufc tfcyna com felicida-,
de, & applauío dosvafialos. rQ>!?nto.-ao;pader íe affir- *
ma, que pode par era campo cem mil homens de eaval-
lq.- porque a pé não coftucnsm <pc!e;aÈ. Q^.attrioaKa»;*!
guerra levam grandes plqmages <de?;guias i>&Jçr:.v£<§cm
de pelles de leopardos, & uffos.fara que aificauíemiaía-i
yorterrot ao inimigo. ^)'
■■.'..'

V
XXXI.

T>o Ducado^& ^puí/ica de <£Mofcov'uiy


femndo diverfos aÃuthores.
+,•

M Ofcovia, que poroutro nome fe chama Ruffia Al-


va, he regiam ampliflíma, cercada por todas as par-
tes de varias naçoens, porque pelo Oriente. & Mcyo
dia confina comos Tártaros; pelo Septenrriam core o í
Oceano Scythico.- pelo Occidenrecomos LapocnsgéV
te agrefte, & inculta, que fe não communica com outra
alguma naçam. Depois deftes para aparte Auftral lhe-1
ficaõ Suécia. Finlândia, Livonia & Lithuania: tem de »
comprido trezentas, & oitenta afilhas .Germânicas, & KJ
trezentas de largo. He efta regiam rrgada de-muito* ,
rios, entre os quais faõmuycaudaloíos,& grandes oRhas,
que também fe chama Volga, o Tanais,& o Boryfthcr
nes, que agorafe intitula ,Ncpar. Efte, & oRhaspacen- \
do ambos de hum lago fazem dilatados curfos ppt-ry9r *
^^^ riasregioens, & Províncias; porque o Rbas caminhan-
do para aparte Oriental, depois de aver dado muitas
voltas, & recebido eaj fy gtandes tios, íc mete pot mui-
IQI <
'^9^. T^vro 7*. Capitulo XXXI. Europa. 199
^»osramos,<& bocas no mar tJafpio. .QTanais fáe lego
da terra eona huma grande, & copiofa corrente, & en-
\ trando era hum largo, & comprido lago, fe efpraya ,nel-
lejdoqual faindo torna ajuntar fuás agoss, & difeorren-
do muitas legoas, chega a huma campina, onde faz hum
celebre lago chamado Ioan (perto do qual paffa tam-
bém o Nolga ) .& caminhando para o Meyo dia, fe mete
^ia lagoa chamada Meotis. O Boryflhencs, depois de
aver feito feu curfo por muitas naçoens, & Reynos, vay
daí no ponto Euxinio. Tem Mofeovia lagos admiráveis,
entreosquais he o principal,o que fe chama Belifefie-
ia, no meyo do qual eftâ pofta huma inexpugnável for-
taleza, onde o Príncipe recolhe feus thtfouros em tem?
pode guerras, He increivel a variedade, & abundância
de peixes, quefe criaô nette lago ; legando Clemente
*JVdflra Moleovita, aquemfigonefta relaçam,
A terra he quafi toda de campina afíentada, Sc
plana; fuppofto que para huma parte tem os montes
Ripheos, .& outras ferrarias cubertas de perpetua neve;
tm cujas brenhas fe criam muitas; & grandes feras. Ef-
ta regiam, que he a. Septentrional , he tam demafíada-
mente fria, que pondofe a lenha molhada; & húmida no
fogo, o humor que deftila, fe converte, em caramello:
-fendo grande a variedade em tam pequeno efpaço, de
* modo querem huma ponta do.pâo, que fe queima, eftà
:o fogo, & na outra, o caramello, & humor convertido
n-elle . Em entrando a qui o inverno logo todas as agoas
fe congeltaõ , fazendofe o caramello de grande força, ri-
gorAgfofura-.oqualfe não derrete fenam muito depo-
is que o foi.tem paffado o equinócio. Porem na patte
Aufttalhe maistemperada.Sc humana.
Repartefe toda Mofeovia emdezafere regioens,
& Provindas, &em quinze,Ducados. £7.<:Ua íe falia a
N4 »°S°a
ioo HiJlorUJOnwirfdh,, '£_ f* J»
J I
UngoaEfclavonica, mas tam confufa por razão das nas',",
çoens eftrangeiras, q ™l fe entendem nuns aos outros os
EfcIavoés,& Mofcovitas, q por outro nome fe chamam j!
Ruthenos. António VVido traz em fua Taboa Goro-
grafica hú Alprnbeto, de q ufamosde Moícovia rtmy To •
melhante aos Carafteres Gregos, nos quais eferevrro, ôc
pronunciaõ affi a oração do Pater nofler. Occenas, lijieji
mttchefieh > suetife ime Tuoie . Prigbikragle Vjtio tuoie+):
Budi voglia Tuoia, Kako nãntbtt, tako inà SemgU, Krub
nafi ftt akdanidainamga danas, iodpttfti nam dugbe naf-
ce , Kako i mi od pujtluiemo duxikom «afeiem, ine- vtc
ài nas u napaji,da ofiebo di vasodsU. ^men. As Prcr*
vindas, em que efià divido o Ducado, fe thamam
Ordas, que fignifica naçoens. A principal cidadc*hc
Mofeovia f/de quem todo o Principado tema nome)^^
Corte, demorada do gram Duque. Tem Muitos mo- 4
radores, & edifícios mas feitos de barro, & madei-
ra , a que chamamos taipas, ou tabiques. Tem bons
muros, & huma fortaleza bem edificada, & ferrfiofa,
fuppofio que de ladrilhos, cujas paredes tem dezoito d
pès de largo. Eftápofta/unto a dous rios, cjahi feajuntaô . .'
em hua corrente. Os paços,em que mora o Príncipe he
ceufa humilde fuppofto que repartidos em feus quadros.
Affirmaffe que tem 41500. vizinhos, mas naçam ru- -^à
de; pérfida, & naturalmcnta fcrvirt naô fomente nas Pro-\^
vincias remotas, roas ainda na mefma Corte, ondedevia •
aver politicia, & gente mais entendida, briofa,& culta: po-
rem naõ hade quaefpantar, pois lhe faítaõ as letras, que *\
fam a lima, & prefeiçaro da natureza humana. \
Na fortaleza, de que já tratamos, tem o grani Du-
que faquem os valTallos chamam Czar, que querdizcf
imperador; vinte milfoldados de prefidio, que per-
petuamente a M Oiftenca, He o clima, & território da
cidade
*** -livro I. Qàfkulo X%X1. Fm-o£<c.. 20%
, cidade'rouy afpero , & rigutcío , cndc p'ci rezão do
frio intolerável , faõ raros os fiutos , que cheguem a
V fazoarfe , & ter íua prefeição . A terra apertada do
rigor da geada, & caramello fe íepàra huma da outra,
fazendo grandes aberturas , & concavidade* í&a ÍSfo
va,.quefe lanhada beca, antes c'e chegara'0 c"baõ,ray
jà congelada. Muitos hc mens pelbs caminhos, & cam-
^pos fe achão mortos cem a: aípereza do frio, & rigor
dos ventos. E com fer o inverno tam cruel, & deshu-
mano, hc talo deftemperaroentoda regiam,qúenaõ ha
poderemfefopòrtar òs calores dò cílio , íecandòfé' qua>
fi de todo ós-taáques, lagos, & rios. E>itrigo'cm ibon-
dancia, mas os mais fruitos faltos de tedo o fabor. Não
fe tem vifto aqui pefte , mas de ordinário huma fe-
bre aguda , a que chamam Ognyo, de que morre*.
' muitos. ■ -■'■
Seguem cm tudo a Fé, & ritos da Igreja Grega
(como refere Ioaô Fabro. ) Não admittem imagens de
vulto,mas de pincel, a que tem fuma veneraçam.&ref-
peito- No modo de veírir fe nam difFerençaro dosleigos
os Sacerdotes ,'ós quais faõ cafados, excepto os que
faõ Religiofos. Nos1 templos km o velho, & novo
Teftamento traduzido em fua própria lingoa , mas
,íom tanta confufam , & obfcuridade, quenenhunj en-
> tendem o- que Tear.. Raros faõos que fabem o Pster
nofter, &nenhuns, ou muy poucos o Credo, & Manda-
mentos; dando porrezãò que naõ he juilo que o povo
rude fe meta em coufas tara levantadas, Sc profundas.
Com os defuntos ufam de huma ceremonia,
çam ridícula, Si he que lhes metem na msH
cmq vayefcrito, comoâquíílte defunto fóy Mckrfk>)tir_-j£
& guardou a fua Fé, & nella falíeceo da (vida prenfeme.
Eíias letras fe mandaõa Sam Pedro, as
m> . _* r BijlonaQtywerfald \ r^ç-ij^g , Jj
,çljes afBrroaõ) lendo o Apoftplo, admitte logo o dcfân- ,
r,o, & como a.obfervante da mais pura fè,lhe dà mclhot
lugar, que aos Chriftaõs da Igreja Latina > a quem cha- j
mão rncyos Chriítaons, Sc aos feus inteiros, & confuma-
dos. Saõirto deliramentos,, & defatinos, de gente tara
^jarbara, áç ignorante . He grande o ódio»que tem à Igre-
ja Romana, & ao Summo Pontífice , a quem nam dam
outro titulo mais quede Doutor. Não. ha entre clles^,)1
outra Religiam mais que de S. Bento.4 ou S. £ afilio com
morteiros tara amplos, Sc ricos, que f^tem,por averigu-
ado poffuirem a! terça p§rte del^e Potentado.; Em fallc-
.çendo o Abbade. lança o Príncipe majõ<Je:todosos bens
do morteiro, & n\io os torna a dar ao fucceflbr, Tem que
lhos compre,,Sc rima por grande quantidade de di-
nheiro. , . ^ i .,
Alemdifto ha entre .elles muitos idolatras, 5c gen-- (
tios, como faõ pela-major parte os da cidade, Sç regiam
de Permia, que vivem entre as brenhas fem uíb de pão,
roas só de carne de feras. Como também os de Petzo-
xa, que-..p-ara.s. parte do Se"ptentrjam,& Oriente fe eftcíw ^
de atè o mar coalhado, onde por aquella parte fenece
a Europa. Nefta regiam eflão os celebrados montes Ri-
pheos, ou Hyperboreos inaccefíiveis por fuás continu-
as neves, Sc perpeiuos, caramellos. Os moradores iam
totalmente rudes, inculcas,.<5c ignorantes, nem.ten> ufo t
de pão, mas de ervas agreftes, Se feras, de que viwem, ,
Naô longe daqui habitam outros, aquém os Mofcovi-
taschamaõ Zamogeds fque quer dizer, os que fe co-
mem huns aos outros ( os quais nunquayem a Mofço/ '
:via, Sc fempre andara fugindo de todo ocommercio huj
mano. No Oceano circunvizinho hapefcadosdc diverr
"*Tás cartas como também cavallos marinhos, Sc hum ani-
mal , 3 quem os Mofcovitas ehamaõ Moxs . Efte dá
Hor- (
Njjjo^eiídos; & c(psúótmtot'°*ti&sPvfàM^mr>itài&L
*pos no mar,> &outro* m *€*#.-:Te«ri dAríítí^ ir/fie^-
Ivel grandeza, & pegando com elles nas penhas fóbe pe -
los altos montes, donde decendo à canpirvàí -traga , Sc
devora tudo o que acha „. Outros ha chanades os La pi-
pias, õuLappoens, tão bruta»;&feros,que naôtem lugat
próprio cmque.rôvimv masííoroofeifcs andim vágíièáKt
;^o pelas brenhas, & montanhas vifiidos de pellés de
animais, que parece íe não diferençam delles. APio-
yincia de Mordqva/he muy discada jj&^eíkn.d.ida, & fe-
Us moradores huns"'Gentios , & outros Mahcmctanos.
As molheres .andara com a cabeça deíeuberta, &, o cabe-
lo comprido*^; **c
O graõ Duque de MpfcOvia fe ja£b que procede
^ do Emperador Augufto Cefar. E começando o primei-
lo a governar no anno do Senhor 562, (o qual elles que-
rem que fóffe!filho defte Emperador Romano, & que
fe chamaííe Pruífio ) fe continuou a fueceflam até o pre-
fente, que fe chama Bafilio de Ioam, & (c firma com ef-
tes titulo*. Q gtao Senhor Bafilio, por graça de Dcbs Rey>
tjr Senhor de soda Rufia, & 'grão Duque de Volodimèrià,
Mofcovia, Novogardia, Plifcewa, Smoknczhia, Tuver/a, fct~
guria, Permia, Viakia, Bulgária, &c Tem perpetuas guer-
ras com os Tártaros, Suecos, & Palocos feus' vizinhos;
iCorttra os quais arma muitas vezes novecentos mil ho-
, mens (calhe o fco poder como ifto)& delles le*«a cam-
panha trazemos mil' comfigo, 3t'os mais deixa prefidia-
' ;do as praças, & fortalezas; fendo os mercadores, & la-
•yj^d.oire5,tperpetóamentc IfeBíostdâigneYM* Todos os
■foidádos^ aparecem dianteldofDuljue!, Si lhe dtfô húmà
jrnoeda a qoe? cbaptãm ©enga',í&fvc4vènao da*'góértã),''
torna cada hum a pedir, Sccobrar: &'pelas moedas que
ao Príncipe fichaõ na maõ conhece oTiúmeto dos foi-
> .ivia dados
o. "

^adps, quelhe &Icaõ>Qtai COMCC>h*■.jMuy põoctvaflS\_


na milich.como. fòra-della & tandoaHioiiOU«ebollas,
não procuraõ ajais, julgando» que niítoternas meiho- /
res iguarias.- Antes de entrarem na batalha bebem a-
goaardente., com qíie.:ojuitD fecoofor^ãicdfr.aritmáo.i «
^s ar nas de que ví>õ>a"e .*(«»,> Sc uâcctopc^atia largai #
in'kh'dinb?s»fac3Si«omptidas,iÔcalgBaslanças, Potcm
íaõ cobifiss puíillamoaes, & de poucos brios. >'

CAPITULO xxxrtf; ,;cl


• • ' '

Z)J 3©»0 ívVngnA ,&• Trovincias vin-


das a elíe. \
! i

1~\ Araavermos de tratar do Rcyno de Vngria, feri


jf neceffirio deferever primeiro toda Tranfyluama
com fms demarcaçoens,8c limitesffegundoas relações
autenticas enviadas a Ioão de Laet) eoftt qut ficará <■_
mais clara noticia do que a vemos de dizer . Aquclla
Província, que o Emperador Trajano tornou alem do
rio Danúbio a feu.iR.ey chamado Decebalo, fe dividio
em duas Mçfias, quefaõ regtoens, dando àíProvincia no
me de Dacia.ôcafy .pela aver conqtiiftado, 8c rendido .
Diciano, Depois,correndo os-, tempos'., féf chamada
Tfaníyíuania , a quemíe vnio pela pirte.Scprentrional
M -ldavia , que confina com Poldnia,& tom Rufíia , ou
M afçoyia. Pcl i pijte:d<:>->Oriente lhe fica Vaiachia; que
jpot outto nome fe. chann» Traníalpina, pouco diftatítfc
«^^ dork4e^s Al.jçs fa^em Jauma grande j & extraordinária
s
^mine.ici3i Sc fe ele ide junto ao Danúbio até o Ponto
•Euxino, confinando com Panonia. , :
Divi- <
y
{
Nk. Livro L (^M*> JMtâ?£m-c£j. k^
^ Dividefc-pois .Tranfyluania cm. três rcgftie©s'*abítãl
das de outras tanta* naçétfngiero tad'6 díffew r»es', 'qiisfaõ
^©sGiculos, Vngaras^ &'V,atacbos'<: IfóSi ^uáfe ^ftes^Itti
mós ke geríce agrefte, & ruflka, 5? qwlía^viVeícrtaÕ
nos camposfdé rapinas, & lattotinios: Os veflidos iam
de pelo de cabras, que elles tecem, & fazem por fuás
mãos,-ferri terem lèys algumas* porque íc governem. Af-
^rmafe, que efles uieram de-Saxonisi porque aindí^eS
parte faliam a fua lingoa, fuppofio que o mãisde Trarí-
íyluania tem outra particular. Ciculia eflà a hum lado
de Dacia junto a Moldávia, & feus povos fe chamam
Cieulos, os quai^temTua origem dos |cythas'comtéi
ys, & ritos particulares, & dffferemes dos outros. To-
dos entre elles fam tidos por nobres, ainda os que fe
exercitam em-artes machanicas»& fe-disque eítes-foram
os antigos Hurnnos, de quem foy Rcy-o cruel, & tyraa»
no Afilia.Eítão divididosI em íete regroe?)V-q'aé'c 1 lès
chamão. affento, cujos nomeS faôi Sepíi; Orbai, Kifdk
CzíjK, Gyrgio» Marcozée^fic ArnayafézCeKi qe* feô os
povos principais deita naçam. Os Vngaros gente «ebre,
, & briofa eftá miírurada cõ os Cículos, & Vai a cibos, fil-
iando todos comummente huma^meíma lingoa. Podem
porem campo noventa mil homens dèífros nas armssr&
acertos militares»
» Hà em Traníyluania; fete cidades principais, &!muy
, illuftres: as quais fam Cibinio (ou Hermadítat j- Brafio-
via, ou Corona (ou Crõnflat) Bitricia , Segefuvaria,
Megics, Zabcfo, ou Millémbach, Colcfovsria,ou Clau-
fembur. Cibinio he a Metropoli, cidade fortiííima cer-
cada de foffos, & lagos, torres, muros. & fortalezas, que
a fazem inexpugnável . He tam fértil, & abundante ;*
de trigo , que debaixo da terra fazem grandes cc-
lett0%5 delle , para o tempo de careftia , Tem em
feu
Ceo tçíníÒHQ ínuicos caftellosj 5c vjlJas fogcitas a cila.'
Corte por juotQ-.aefta cidade.o rio . Alute com aréas de
OúrokOquaUeorojeJís no Danúbio, jumo a Nicqpolisduaj/
Ittilhasde. Çibínicjs ppi.o.nde coftmaam entrar os Tui?
cosem Tranfylaania. Hetoda:efta regiam abundantif-
tiaia, Ôc fértil, mas em particular a cidade de Corona ce-
lebre pelos grandes commercios, que com cila tem os
ÉarcosirEfti pofta, entre huns oiteiros muy'aprazíveis^'
& fteícos com fortes mUros» & corres. He regada cora
muitos, regatos, 5c fontes perennes, que produzem co-,
dos,os fmicos regalados, & excellentes. . Hanella huma
florente Vnivejíídade, &shuma, Bibliotbcea a mais ca*
piaía de todas, "depois da de ,Budaem Pãnonia deftruí*
da petos THtrcos. Alba Iuliaíby antiguamente. a Cortei
djQ3.Eleyf!:dc.Dacia,.tam populofa, que oceupava cinco^
«Uhas de;circuito, tíias agora pouco. menos:que de to-
do: affal^da.-pelos inimigos. Tomou oínome deIúha Au-
^CUn^dô Marco Aurélio: 5c nella habita agoira Ifa-
ÍJetláirtainhlí de Vngria.' Ha perto daqui huns montes
riquifíi nos de ouço, 5c prata donde (e tira grande quan- f
tidade para a Camera, Realo .
(, ; Feita efta dtícripçaó de toda Tranfyluania cai
*o.rflmum,.diremos agoraiaígumas couíàs de.Vngria era
particular. Efte nome Vngarosfe eollige de Humnos, 5ç
Avaros (corno obfervam os-queeferevem defta Provin-,
■cia) dos quais os primeiros vierõ da lagoa Meotis, otir »'
,db habitavam, ocos fegundos deeendo do monte lura,
fizeram todos fua«iorada nas.Bannonias (que alli fe châ- "*j
-taava antiguamente efta regiaõj lançando os Godos '
fora, que à força- de armas a tinham também tomado
^ pouco antes aos moradores dellaiJ)ividefe em duas par-
tes, das quais huma fe chama Primeira , ou Vltradanu-
biana, 5c a outra Segunda vou Ci/danubiana; Pela parte
'l do f
jttbOiienre confina com Tranfyluania^&èÉòffiWegtímí
dosRate'iWós,-qoe da'rfte*'fe chiwavi^f&si^ftlsípMm
iAâRrar^^^íicíDfavoí^pelò" StpfeHlliífófólIOttiaifiSD
pelo occid{,ntc Aultrtapíc"StiriK ■-r fc*í hti ;J ob
A regi<m,qúé ficaíntre os tios Savò^&DTràvo, que
antíguaofleíife íc-chamoii,Galeria, RipííVa.-i&pÊaWttcj^
dentre ©s *íoS, fciid05íeígeita a«x^Rèyiscte^(Vflgiíiff,ie4íià
agora tòda^nrí poder da «Deidade, &.tyfaríia doí-Ti»»
cos, He o clima íummamente-temperada; >roas:;òà&*m
algumas partes por rezao»-das.bumídades,& vapoLráçoenS
dfos rios, eleore», ôciíettuldfOf á regiam humadas>Ms«
jfingues, & abundantes de toda Et»topa> .porquerparcídAis
trigo, vinho, & carrões em tanta copiaf ique: proyèí! Vieri*
na; & outras partes de Alemanha. HaneUa^todoogerte»
m^de-metais prirwipataenr.e eura fioiflímo^Ôc de gran,
depreço idce&uqan He' regada dpsiÉimdf<Jsfíios, '©afttf-
:blofSÁVò,©rawo^Savaria.-Gorjaeta^líbiftO? BwwntiÒii
Valciámó, & outJQs:tnuit©vquecom. tós!%íaWgâçóer&,
&;abandancia de pefcada-affszérn^ká,'^'prWida ífc
lèdoS ©srbensi.?8aj5 in.frtiBí^raVéís^èSíiaè^S-^lfòs <éè
, :VílgtÍai'q'ti«eoflfiO' tató-ftc^mmèaâdá^ó'ífibó-Jh8rBí-
BOj 'WeWm hòdS&is pattes tò&KifÍiám.kí>Km&att nrré' elfift
he Agria , que agora fe charoi^Eíla^ aíFoláda primeiro
^pèlos Tattaros , mas depois reedificada com grandes
#"fOrÉaleáasVf-ÉríUtSltes?i$ 'totfeslcSrtigbrm «fííiíada -rfiSkh
, beiras do Danúbio, he cidadfc rtJuy' urjbre, & a mais arftí-
gWoVs Panrfôhíás > ôntic1 habitai'Árcibifpo Primas de
toda Vngria. Buda he a primeira, & principal, pofta em
mtiiras ilhas, que faz o Danúbio'; entre as quais he a-ven
tajada, a que- fe eharr/a 'Hydropolfe.&íêòdas1 ellas- confli-
:
tue'mc(le celebrado pdVò. :'A-lba'RVaí-foybn de ambi-
guamente fe coroavão, & fépultàvíoos;Rèysde Vngria
nojerDplomayòr, que eraomais íumptiiofo de todotf
' *[ Reyno.-
itejrflo^massgataíam poffuidasjiQdas^QS Turcos, jCQ.:
Q»«fitaol^fn.Eâ*ííirovincLasjdí, ÇEoaeiat,Silezia, & Dalma-
' cbi<ÍB.6ÍE^ei6àrM»íifM:Tyc«pi#;Q-pag|e^!&iwpctÍ9 fca-; '
doquaíitudoera hum mefmo tempo. -
i Nuo há regiam, que tenha mais agoas, nem mais
íwdaHeisiqric Jifagrji ,cra rios, fonces:& banhes nvedi-
«aôaUiifegiíndobasvdLvejtfas ícUçoení *^ue delias fazem
efcj&uthorcs. .Nasxaldtas de Buda, nomeadas em toda a^"
parte,, fezo Baxa-Mahomcth, depois de tomar a «idade,
hum Convento, ou domicilio das Dervifes Turcos, qup
eorrefpondem aos Religiofos da Chtiftandade; os quais
si«ein-,dfceimqlas, & fazem tam indifcrctas, ,& extraosp
dinarias penitencias, que htins abrem chagas,, & feridas
eonvferrosi abrazados, outros- mutilaõ os membros com
«afilhas, &, outroslferroa agudos, martyrizandofe çom
gW0^e.crueldaldc-'pára;4ue.iosg:enharn'pQÉ mais fant-os,.&
.yirtuofoíi çpwpinais latgaókritediíièmos: cm .<Qutra par
.|ft. Mistornando anoíTojntcnto, hàjunto a Jwiarlugat
tfharrjado SrtiplnÀcia, hurriasconcavidades, donde fe ú-
$ava.õ: naecsiít aQ&igu^ft«t/?>i<5Çí3g.o.Ta ágóa, q-em breve té- ,
-tftgí|ft»<ft3C«?f|TO6«#MÍ!»pa:fqgunílo a «kwnwa,, que
&(ot?fccv!a,AE9Faâ3taftto«40«^q«Ç #qa*.&çifoixjíç (c \
cdiççretc no fogo* &í fficando^maneira de malTa ,r fazem
ide.Ua mutas curiofidadcis de grande eftima. Daqui'fac
.cambem hum fiStfOjUgOftrfPJP^p^l^flgfiratc^lWÇ^
.»$ as pelles, & mais c^rajma.., brl tOKfpo6(] ob miod , '
Também ha em. outro lugar chamado: ZepuGo,
hum. ligo,, que converge, brevemente em pedra.tudo p *«
que deitaõ nelle^fic-lançandofòra. a agqafc cqnvçrtctã-
bem era.;;Çak.de1gqeiuíam npspdificiqs. Pjcjoqual feja-
s í^am os moffdpres de que .vivem em.caías formadas ,de
"^agoa.Naô lopge daqui ha também huroa fonte, que cor-
rendo liquida no inverno, de vetam em .Caindo da; terra
íecon-
I
**b .LimoI. Capitulo XXXII. Europa. 205?
?(c converte em earamcllo, Ha alem difto fontes ve-
nenofas» qua, mataõa quem bebe nellas .-.entre as qua-
' is ha huma,que creee, & mingua corna. Lua.de mo-
do, que quando he nova naõ lança gota de agoa:ou-
tras a lançam tam azeda como vinagre. De huma fae
agoa verde, que embrcve (e coalha, Sç de fua matéria
íc fazem peças de eftima. Iunto à fortaleza de ^Fileg
ha huma concavidade , onde caindo a agoa do mais alto
delia. > com fuás deftilaçoens tem formado ícxos como
eíhtuas de homens :& heefta pedra tam fina, que mo-
çrçdoa os pintares fazem delia hum branco perfeitiífi-
mo. As fontes de íal.faõ muitas, & de. grande utilidade
fará os povos, criandoíc nos tanques, que fc fazem del-
ias, faborofiíllmos pefcados.
Na terra fe acham também minas de (ai com
coufas tam prodigiofas, que parecem, incríveis. Em
hum lugar de, Tranfyluania fe vio formada de fal hu-
ma galinha, fomentando os ovos, com tanta perfei-
ção, como fe fora natural, & viva- Com o fal vem tam-
bém mifturado muito carvam , de que fe aproveitam
na quellas partes. Deita mefraa. mina fahio huma gran-
de viga, ôc tam dura, que nem com ferro fe pedena
cortar.- mas em faindo da mina fe corrompeo dentro de
^ quatro dias, de modo q em lhe tocando cõ amam fe fazia
, em pedaços. De hum lago chamado Çarnis junto a hu-
, ma villa por nome Zir/'intz contaõ os Authores outra
coufa digna de admiraçam.- & he que todos os 3nnos no
fim do Outono derepente fe enche de agoa, que fae, <5c
rompe dos meatos da terra, trazendo logo contido grana-
do copia de pefeado; &-,'çm começando o Eftio , as agp-
as fe efcpndem quaíi repentinamente , ficando o .lago...
de todo feco ; & fobre o lodo fe fêmea trigo,q:,.' e
recolhe dentro de hum mes. E deite modo fe corr.-í.a
• O todas
210 'HifiorialJjti^erfd. *&2
todos os annos fua abundância, & fertilidade , fendo\
couta tam commum no Reyno, que naõ fazendo nellc
duvida, caufa admiraçam a todos os queavem, & obfcr-
vam.
O primeiro Rey de Vngrra, que reeebéo a Fè
de Chriíto foy Gaifca pay de Santo Eítcvaro; oqualfoy
baptizado ^or Adelberto Biípo de Praga. Nãceo San-
to' Eftevam (fegundo Abraham Babfca) no anno 969. o^'
qual foy canonizado, & porto no Catalago dos Santos
E no anno 1006. cafou o Emperador S. Henrique fua
irmã Gallia, ou Gifeta com elle, & fe converteo toda
Vngria à Fé Cat>olícâ, florecendo a paz ncfte Reyno •> f
por muitos annos, atè que no de 139*. tomou o gram
Turco Bulgária, que era Província defta Coroa; &dan-
dofe batalha morrerão vinte mil Chriftâos, & feflenta
mil Turcos. No anno 1476, tomou o Turco Dalmácia, (
& chegando atè Stira levou trinra mil captivos, depois
de aver affolado Dacia com ferro , & fogo. Noanfio
1514. publicando o Cardeal Arcibifpo de Sttigonia a
fama Cruzada contra os Turcos, hum Capitão chama- <?
doGeorge fe fez levantar peia mor parte do povo era .
Rey de Vngria, executando grandes crueldades,& ty- \
ranniaspor todo o Reyno em todos os que naõ quife-
raô'íéguir fua parcialidade, & vando , fem perdoar a Bif-,
pos, Religiofos,nem ainda a donzellas, <5c mininos inno- «
centes. Do qual èftimolado o Conde loaõVayuodá, a- •
juntando hum bom exercito uencéo a George , & aven-
doo às mãos executou nelle hum terrível, & horren-
do género de càfiigo :. Porque primeiramente lhe
mandou-por na cabeça huma coroa de ferro tornado.
'•"fc^jma braza viva . Logo lhe fez abrir duas veas , &
o fangue , que fahio delias-, mandou beber a huru
feu irmaõ chamado Lucas . Fez que fe recolherem
cm
T( ' Livro L Capitulo XXXII. Europa. 211
■cm huma caía trinta rufticos,& que por efpaço de três
dias íe lhes não déííe de comer ,-até que metido na di-
ta cafa o inrrufo Rey, os rufticos o devoraram, & co-
meram : & vendo que ja os roais membros eftavam def-
pedaçados . & comidos , lhe mandou afiar os intefti-
nos,& dandoos a comer aos que mais o tinham aju-
dado no motim, Sc a Lucas Teu irmaõ, ultimamente
T os fez matar a todos com vários tormentos, & mor-
tes.
No anno 1521. entrou o graõ Turco Selyman
em Vng ia com hum copiofo exercito, aflblando to-
, das as Províncias por onde paflava, & tomando Bel-
- logrado, fe tornou a recolher a luas terras. Evol-
vendo outra vez no anno mil, & quinhentos, & vinte,&
féis, llie fahio ao caminho elRey Lais II. o qual foy
vencido, morrendo na batalha dezanove mil Chriítaõs,
em queentràram muitos Príncipes, & Prelados, & elRey
indo fugindo cahio em hum lago, onde acabou mife-
ravelmente. Tomaram os Turcos deita vez, & affola'-
raõ famofiífimas cidades, em que entrou Buda metrepo-
t li do Reyno . E fugindo para humas altas brenhas, cha-
madas Vertifes, mais de vinte, & cinco mil Chriílaõs, a
fora molheres, & roininos, dando os Turcos nelles às ar-
cabuzadas os mataram todos. Depois acometendo a Pã-
nonia fuperior.pufcram a ferro, & fogo tudo o que avia
arem do Danúbio.
No anno 1329. veo omefrrroTurco fobre Vien-
na de Auftria, & cercandoa com duzentos milfolda-
dos, a cambateo porfiadamente por efpaço de vinte
dias contínuos, morrendo no cerco oitenta mil Tur-
cos. O que vendo Solymao, como também conftran-
gido do rigor do fiio, levantou o cerco, & fe reco-
Ihco a Buda, ôc Confia ntinopla . Dahi a três annos
O2 tor-
2i2 Hiftoria Vnvverfal H
tornou com trezentos mil íoldados, & cento, & vin-' •
te peças de artilharia j mas faindorhe àò encontro o
Emperador Férdiriando Árchiduque dé Auftria Com
trinta mil de cavallo, & duzentos mil de pé, quctiríhi -
junto em Viena, o fez recirar. No anno mil, & quinhé-
ros, & quarenta, & dous mandou o mefmo Emperador
a. Vngria hum copiofo exercito, & por General loachim
Eleitor Brandeburgenfe; para o qual lhedeo o Summo.
Pontífice três mil de cavallo. Porem íuccedeolhe mal,
porque dando pcfte ndexercito matou amor parte dos
foldados No aríno mil, & quinhentos, & fetenta, & no-
ve, dedois dos Ti^cos averemafiblado muitas terras, &
captivado muitos Chriítaôs, íairidome ao encontro o
Emperador, & mitendo a mòr £arte delles, fez retirar o$
outro com confuzáo a Conftantinopla . Pelo qual no
anno 1584. fizeram pazes Rodolfo II. Emperador, &
Sultam Amurathe III. Eflas coufas eferevi, para que fe
veja o citado de Vngria, & como nam tem outro re-
médio para fe defender', & confervar nas terras, que
agora poffue, mais que eleger fêmpre por féú Rey&de
fenfor ò Emperador de Alemanha, para que com íeu
poder fortifique, & ampare efta chave dé toda a Chrif-
tandadei concorrendo os Príncipes com feccorro ao
que h/e de tanta importância para todos A calamidade
/ie Vngtiá deplora hum feu filho, & natural com efles
verfos.
<$Homea maiefiasl que eefsiig/o/ia- qno me
Delfufit fitam, ejr (xvi hórrida immiriu ira?
j9y.e rfgha primtoitim celcb?ata per orbem,
Viclaciqnc m.tn'i natonim fepta potcwum
.. ' ' hi:--Lbin, raiem num bnt (nU(iquc,(e\cque

'■ ■ ■ 'i ■ b\ : •;'


Cu?
' V. -
Livro 1. Capitulo XXXIII. Europa.,.
t 113
Cttt noit pofle queti faltem licetl an quoquefalis
»•<
Cantam nt liceal cafus lugêfe nefando st

CAPITULO XXXIII.

^ Do^yno de Suécia, &-fuasTrovincias3


fegundo as defcreve hu natural dei-
las chamado <*Ãndre "Bureo.

i A Que lias terras, & rcgioens, que ficão para a paí-


x\. te Séptentrional, chama os Gcographos mun-
do Arótico, que he o mefrao que Províncias do Norte-
> As principais deitas íaô Scandia, 5c Dania. Scandia,
ouSeandinavia, a quem Plínio chama ilha de ineogni-
tagrandeza,he o ultimo fim da Europa nefta parte Sep
tcntrional. He região ámplifíima, & fe eftende entre
% os grãos cincoenta, & cinco; & íetenta, & dous de lati-
tud , & entre c vinte, & cinco, & fefleuta, & cinco de
I longitud. Pela parte do Meyo dia confina com Dania,
ou Dinamarcha, & Alemanha: pelo Norte, & Oeei-
dente tem o mar ;& pelo Oriente confina com Ruífia.
Até o grão íexagefiimo da elevação do polo he o clima
brando, faudavel, & temperado; mas dahi por diãte heaf-
pero, Sc ngurofo; de tal forte, q nenhus frutos chegão a
madurecer,& íazoarfe. Ornais de que vivem(eus habi-
tadores fam pefeados, gados, leite, mãteiga, & queijos cõ
notável abundância. Tem muitos, & grandes bgos, de
que procedem caudaloíos rio . He pela mòr parte
terra montofa, & de muitos arvoredos, & brenhas
donde fe eortam madeiras de muito preço, que íe levam
■ ' O3 a di-
114 Hiftoria fl)niuerfal.
adivetfas partes. Toda eft-a regiaõ carece de vinho, bè
afli como Inglaterra, Noryega, Dania, Polónia Mofcó»
via, <5c todas as mais Províncias, que íicão para o Norte
defdo grão cincpenta, & dous de latitud. Porem osrr.cr
cadores as provem com grande cuidado ; alem de que
também fe aprovcitão das cervejas, & beberagens, que
fazem , fendo.o vío de beber agoa rjeílas partes tão raro
somo eftranhaaodosque as habitáo. .
Dividefe pois Scaridia na Provinda chamada parti-
cularmente Suecia.Gothia, Finlândia,Ingrià, & Eftho-
nia. As principais comarcas de Suécia ( que também
faõ cabeças de glandes regioens, & territórios) faõ V- ,s
plandia, onde os Reys tem fua Corte ..He efta comar-
ca fértil, & copiofa de trigo, rodeada de muitos lagos,
entre os quais he o principal o Melero povoado de mui-
ías, & fertiliífiwas ilhas com immenfa copia de pefc.a-
do. Tem mais os territórios de Veítmannia > Nericia,
& outroi infignes. Nefta Vplandia eílâa cidade de Sto-
cholmia, Corte, ác Merropóli de todo o Reyno,f>oito,
& empório muy infigne, & frequentado, Sâo grandes os f
commercios, &intereííes<q«etem efta cidade por agoa:
porque pelo lago Melero lhe vem ferro, & cobre, que \
comprão aos montanhefes, como também trigo, ceva -
da,legumes,manteiga,queijos, carnes, coirama, roadei-
'*a,,i& mais eòufas neceUariâs; & pelo mar, vinho, fal.azeí-
te,panos-delã.:feda,& linho*, açúcar ..cfpeciesarçmati- '.
cas, & mais drogas, com quehe provida de dive.rfas par-
. -tesdo mundo. Affirmafe que com teus arrabaldes pafla *<
de vinte, & cinco mil vizinhos, alem de muitos rmcrcan- '
tes, que fempre affiftem nclis.
^^»»if-q i A eflafefegue Vpfalia, que antiguawente fçya
"rnayor do Septentriam, onde refldia ,a Corte,-& o fupre-
mo confelho; & agora he cidade Archicpifeopal, onde
ouje »
' \ ■
Livro I. Capitulo XXXIII. Europa. 215
c
^Ixuvc vinte, & féis Atcibifpos obedientes à fanta Igreja
'Romana. Mas diffeminandos nella,eomo em todo o
Reyno odepafvado Luthcro fua maldita íeâa, foy no
anno 1531. eleito em Arcebifpo hum feufequaz, & dif-
cipolo chamado Lourenço Petri, que naõ quiz confirr
maçaõ, nem pallio doSúmmo Pontífice. Aeflc fc fe-
guiraõ outros três feus feraelhantes, fendo o Ultimo Pc-
r^jdrò lenido, queaoprefente he capitam, & cabeça dos
hereges . Ha também nefta cidade Academia amplia-
da por cIRey Guftavò Adolfo no anno 1624. queme-
V, lhor fc pode chamar covil de rapoías, ou archivo dos er,
p. TOS, ácdéfuãrics Luteranos. £
A Província de Suécia fe fegue^á de Gothia, de
cjue fairaõ os Godos, que fe eftcnderaõ poc tantas na-
çoens do mundo. Efta fe divide em Veftrogothia, Da-
t liâ,6c V-ermclandia, a quem antiguamente fe ajuntava
Hallandia. Tem mais para aparte Oriental as provín-
cias de' Oftrogothia, Smalandia , Oelandía, -Gotlandia,
Scania, & BkcKingia.com muitos rios, & lagos abun-
A dantes de todo o género de •pe-íeados. • AGothia fe.fe-
. '^uem' Finlândia regiam fértil, & aprazível, a qual fe divi-
f de em Meridional, <3c Septentrional; Cayania, Savola-
r. xia.Tavaftià, Nylandia, & Carelia 5 onde eftâ o mayor
, lago, que ha na Eurnpa chamado Ladeícô.oqualtem de
comprido trinta; & féis milhas Gerrnanícas , & de largo
I* vinte. A quinta parte delle poffuem os Rtithénos, & as
roais Suécia , Péícafe nelle grande copia de Sàlsrioéns, &
f de muitos outros peixes de grande eftima, & valor .- A
Província dé Ingria confina'ctfoii)» Mófeovitas; aven-
» do entre eftes duas riaçoefls quâír perpetuas guerras nos
campos da cidade de Notteburg, que o Sueco tem bem
fortificada por efte refpeito. VItimamente fe feguc
Eíthonia parte de Livonia; a qual hoje efià de todo
. •"' O4 fogei-
u6 Riflaria IJniverfal. fh
fogeitâ a Suécia: Regiam tam eftendida, & dilatada^
que alem dalingoa Germânica, de que. ufam os merca-
dores, fe acham nella outras quatro lingoas differentes,
& totajmentcdiftintas. loa
Naõtem todo o Rcyno de Suécia mais defeco
Diecefes todas S.cifmaticas, âc Lutheranas, como tam-
bein elRey, aquém naõ coroaõ, íem que primeiro jure,
que ha de guardar a fe&a, «Sc doutrina de Luthero. Ou-
ve nefte Reynocento, & quarenta, ôc féis Reysatc o ul-
timo, que fe chamou Guftavo Adolfo, & fe intitulava
Rey dos Suecos dos Godos, dos Vândalos, grande Prín-
cipe de Finlândia^, Duque de Efthooia, & Carelia, Se,
nhordeInglia*Luonra,&e. He poderofo por mar, 5c
por tetra, como ha pouco fe vio nas guerras, que teve
com oEmperador de Alemanha, fuppofto que morre©
nellasí Falleccndo efte ultimo Rey deixou húa filha unir
ca herdeira, & fucceffora do Rcyno*,
Contam os Hiftoriadores, que o primeiro Rey, que
nella ouve foy Magog filho de Iaphet, & neto de Nocj
o qual veo deScythia pelo mar Venediço a Gothia.tra-
zendp coníigo, bons poucos por .nome os Getas, que de-
pois íe chamaram Gothieos, os quais povoando-,a ter- t
ra, fe eftenderampor varias Províncias. Afile Magog
{oucomo outrosquerem.Çornçrprimogenito de Iapher)
fuccedéramatè.a vinda de Çhrifto. 35. Reys, hons natu-
rais, & outros intrufos â f wça de armas. Todos forão '
idolatras, & gentios atèoanno do Senhor 832. em que
O zelofo varaõ Anfgario (como dizem Leopoldo , & «
Craotzio> jBífpOvíde Hamburgo veo a eftas regioens on-
de propagando a Fede Chrifto converteo a, ella Bero-
ne IV. feu Rey com grande.parte dos moradores: &
..-zendo n.ellas alguas Igrejas, fe tornou a, Hamburgo, dei-
xando cm feu lugar poc Bifpode Blrcha hum íanto va-;
•Í3|o) *0 «õ
•3 ' I.Edpittilo
•H Liuro '\ ■■
XXXIII.Europa. 2.17' t
Viaõ chamado Simaõ,& hum Ptesbitcto por nome Nitar-
*âo, os quais depois.maityrizaraô os idolatras. E como
faltaram os miniftros Evangélicos tomou Gothiaaíuas
gentílicas fupreftiçoens, & idolatrias.
Dahi a alguns tempos íuecedeo, que eftando elRcy
Ingeílo offerecerido facrificio aos deofes, de repente o
facerdote dos ídolos cahio por terra cego diante delRey,
*4» & dos mais, quclheaífiftiamj&. levado para caía, lhe ap-
pareceo cm fonhos a Saeratiífima Virgem Maria Notfa
Senhora, & lhe diffe : Sabe que juramente te foy dado o
^ caftigo,, que padeces, pois tirando, a honra a Chrifto leju vei-
j. àadeita Deos, adêfieaos demónios. ijAgpra fequeres, que
tefeja refiituida a vifta, promette, que mixando a adoração"
dos ídolos, firmemente. receberas a Fé de Chrifto, & a pré-
. gatas a todos. Elle.oprometeo aífi. &foy logo allumia-
do nos olhos, & entendimento. Pelo qual pregou a el-
Rey, & aos.mais eftas maravilhas, & que lo Chriflo era
verdadeiro Deos.* A que todos deram credito, vendo o
milagre, & recebendo a Fe Catholica, mandou elRe-y pe-
* dir horoensidoutos ao Arcibiípo Bremenfe, o qual entre
os mais lhe mandou dous infignis varoens, chamados A-
I dalvardo ôcEftephano, que pregaram à Religiam Chrif-
' tãa, &batizaram os habitadores daquellas Províncias, q
não ceifavam de dar graças a Deos, & à Saeratiífima Vir-
gem pelas mercês, que aviam recebido. Na pureza da Fé
I * fe confervararo ate que os depravados Luthe.rancsos di-
vertiram, ôc inficionarão, com feus heréticos erros. .Po-
•" tem confiamos da celeflial Rainha, que aífi como
fuy motivo de fua çonve.rfam, os reduzirá â
, Fè, & obediência da íanta Igie-
im ja Romana.
pi

•, CAPI-
?
115 Hiftorid X)niverfd.

CAPITVLO XXXIV.

Do ^JReynò de Dania y ou Dinamarca "■> <&


'Províncias do J\(orte fogeitas
aella. . >

PAra que melhor noticia fe tenha de Dinamarca,


Sc fuás Provindas, defere veremos aqui primeiro
eom AdamConegO Bremcnfe, & Einardo, o mar Bal-
thieo que por todas as partes a demarca, & cerca. Eften-
defepois efte golfo, Scfeyodefdo Occidente até o O-
riente, Scem humas partes fe chama Balthieõ, em ou-
tras Bárbaro, ou Scythico, por rezam da gentilidade,que
habita junco delie. Os Italianos lhe chamaõ Britanni-
copor aquella parte, por onde cerca Inglaterra, que he
pelo Occidente ; pelo Meyo dia toca o território de
Hamburgo em Saxonia : pelo Norte as ilhas Orchadas,
deixando á mão cfquerda Hibernia , q agora fe chama
Irlandia, & à direita as penhas, & rochas da Noruega , õc
mais adiante Islândia, & Gtonlandia; onde fe acaba, Sc
termina o Oceano caliginofo. Pelo Oriente tem Dania,
& a parte do mar Belthico com os Nordmannos, que fi-
cãoàlem de Dinamarca. Ifto he o que efte golfo tem
de comprido, de largo, onde mais o he fe dis que naõ
paffi de cem rnilhas, Sc em algumas partes nam chega a
feffcnta, como he na entrada delle entre Wuendila
promontório de Dania, & a Rocha de Nordmannia.
Agora digimos com lonas Coldingenfe, Ponta-
no, & outros, as Provindas de Dinamarca. He pois a
•pii-
* \ .
Limo I. Captulo X%yLiy.Fmo£íLJ.
c: .210
Mimeira. Pania, que confia de terra firme, & juntamen-
te de ilha? • 1 A terra/firme abraça duas partes divididas
pelo mar, humada outra, que fam a Cheríonefo Cim.bri-
ea (que por outro nome fe chama Holfacia, ou Cimbria)
ScSeandia. As ilhas (que agora fe chamáo comrr.um-
naente Dinamarca) faõ Fionia, Sialandia, Falfiria , &
outras menores, que eftam defronte da Cherfonefo. A
ferra firme fe chama ao prefen.te Iutlandia, que.tem de
comprido cincoenta, & três milhas Germânicas; & de
largo, onde mais o:he, vinte; & fe divide em Meridio-
nal, ác Septentrional. A primeira cidade da Meridional
he Slefuvico, onde refide oBiípoia fegunda Fleus.butg
com hum porto tam profundo, que das cafas podem car-
regar, & defearregar os navios. Tem fumptuofos edifí-
cios portos todos em numa fó rua, que tem de compri-
do mil, oitocentos, & quarenta paíTos . Alem defla ha
outras muitas cidades, & ilhas em pouca difiancia.do
continente, fendo tudo taõ agradável à vifia, & útil â na-
tureza, que não pode defejar coufa melhor para fua cõ-
fervaçam, & fuftento. A Iutlandia Septentrional he muijç
to mayor, & não dà ventagem à outra affi na fertilida-
de, lomo na recreaçam. Comprehende quatro Bifpa-
dos, que faõ o Ripenfe, Arhufienfe, Alburgenfe, & Vi-
burgenfe com vinte, & três cidades, muitas viltas, caftel-
los, & ilhas. A Diecefe principal he Ripa com hum ter-
ritório acompanhado de muitos rios, duzentas, & oiten-
ta , &:duas-Parochias,& cem fortalezas. Aihuísa tem fe
is cidades, trezentas, & quatro Parochias, & cinco caf-
tellos. X Diecefe de Alburg, alem da Mctroptli tem
cincp cidades cento, & oitenta fieguefias, &ccro csftcl-
!os muy nobres* Achãofc nella quarenta.& quatro Lgos
abundantes de pefeados. O Bifpado de Viburg tem rres
cidades, outrostantoscaficllos, & duzentas, & dezoito
} Paro-
Ho Hiftoria IJniverfal.' )
Parochias. Na Metropóli eftà o tribunal, cm quefcjolv,'
g)õtodas as cauías da Chetfonefo Cimbrica, appelladas
dos/'uizes inferiores.
O mais deite Reyno eftà metido em ilhas, das
quais a primeira he Fionia, fértil, aprazível, & fermofa:
onde ha oito cidades, com duzentas, & íeflenta, Sc qua-
tro Parochias, dez eaftellos, & outros tantos morteiros.
Tem de comprido dez milhas Germânicas, & de largo #*
oito. A cidade Metropolitana, que fica no meyo, fe cha-
,ma Ottonia, onde reòdc o Bifpo. Ha nella hum porto
de grande nome , aonde concorrem mercadores de va-
rias nacoens. Tenjhum Convento de S. Francifco muy A\
celebrado por feus edifícios. Tem mais ás ilhas Lan-
gelandia, Lalandia.Ealftria, Tafíinga, Ária, & Selandia,
que he a mayor de todas, & tem de comprido dezoito
milhas Germânicas, & de largo doze. Nella fe contam «
treze cidades famofas, & trezentas, & quaréta, & fete Pa-
rochias com feus templos muy iníignes. A Metropóli
he Rofchildia, junto à qual nace humafonte, que faz lo-
^go andar juatas fete rodas de moinhos. Ha nella hum •i
Collegio de homens doutifíimos, & hum templomuy .
fumptuofo, em que eftam fêpultados dous Reys, Chrif- \
tiano III. & Frederico II. Perto defta eftà a ilha A maga,
onde os Reys tem fua Corte. Chriftiano IV. a cercou
de fortiffi nos muros, foffos, & eaftellos, guaroecendoa ,
co n muicos foldados, artilharia, munições, «5c mais appa- . "
ratos de guerra, para que competiffe comasmais illuf-
três, & iníignes da Europa. Tem huma ponte de madei- ^
ra entre a terra firme, & a ilha, que fe levanta-por artifí-
cios, quando entram os navios. O templo mayor he de-
^cadoàSacratiffima Virgem Maria, & nelle fe coftu-
mão coroar os Reys. Ha aqui hum Jardim Real de mui-
ta mageftade.Ôí gradeza. Tem huma Vniverfidade.flo-
ren-
\ '' ^
V Livro I, Capitulo XXJ1V. Europa. 221
j&ntiíTirría inílituida porelRey Érico com auhoridadc
do Papa Martinho V.' dotada de grandes iendas, iíen-
çoens, & privilégios. He efta cidade muy frequenta-
da, ÔC provida naõ fo por concorrerem a ella todas as
do Reyno, mas ainda todas as mais naçoens do mun-
do, i
Paffadaefta ilha fe feguc hum Canal, ou cftreito,
**a quechamaõ Orefunda, por onde he forçado palia-
rem todos os navios de alto bordo, que de Europa vaõ
commeicear a Suécia, como também os que delia fa- .
» cm para as outras partes. A qoi edifficáram os Reys de
K Dania huma fortaleza inexpugnável chamada Cornem-
burg, metendo no mar a mòr parte delia fobre innu-
meraveis, & grandiífimas pedras, onde batendo BS on-
dascom perpetua vehemencia, lhe nam podem fazer da-
no. He a obra tam admirável na perfeiçam, & archi-
te&ura, que reprefenra hum painel de grande primor, &
artificio. Temobrigaçam todos es navios, que per aqui
paliam, como também pela Corte, de abaixar o eftandar-
| te, &velas^& fazerem fuás falvas: & lançando ancho-
. rafaematerra, onde vaõ pagar os tributos, & direitos
I ordenados por elRey na cidade de Hdfingora : &
os que fazam o contrario, perdem as fazendas, & ní-
vios. Muitas outras ilhas fe feguem aeftas, & fe cha-
maó menores, mas nam podem nefte compendio rela-
^- tarfe todas.
Refta dizermos da Província de Scann, que fi-
' ca defronte da ilha de Selandia .• a qual pelo Or:trxe
confina com Suécia,. & pelo Septentri?m com Nor-
' • vega. A ella fe ajuntam HajUn.dia', & Bil&naia: po-
rem fora deftas tem de comprido de/c to r. i!h.^ , &,
!,rgn doze . A principal cidade He I ■ • •• => • § n
,^cbM;oMci: pclra. C 'c.. i\ ''gv ■ n Ct■■'- -'■■ ••■■
' ^^l
.: \y
J HiftorWlJnwerfd. * ta

para as dietas do Império, para dar feu voto nelias. O*


templo Catherdal de S. Lourenço he obra fumptuofif-
fima, onde ettà hum admirável relógio,que claramente
rnóltra o anno, que corre/ o mes, a fomana, os dias> & ho-
ras, como rambera os afpectos da Lúa , ótfignos do Zo-
díaco, em que cadadia anda o Sol. Tem roais as cidades
de-Coronia (que por outro nome fc chama Landícron^
Malmogia, StElíenborg- ^»
Suppofto queneftc Reyno naõfalta nobreza,com
tudo naõ ha títulos de Condes, Marquefcs, Duques, Ou
**'Baroés-, mas cada hum fe conferva nos foros defeusan-
tcpalTadosfcm innovar coufa alguma, & quando muito ^.
elRey lhes dá hifts titulo , que elles chamaõ de Cavai- -
leiros Dourados. Foy efte Reyno antiguamente muy
podoroío. pois por muitas vezes tomou Inglaterra, Su-
écia, Saxonia, ôc outro Reynos, fazendoos feus tributa- %
rios. Ha nelle hum Arcibiípo,que he o de Lundia com
feis Bifpados fufFragsneosj os quais todos preíentam, &
provem os Rcys. E querendo o Summo Pontífice para
íy a prefentaçaõ com outros reditos, & jurifdiçoens na '
quelle Reyno, os mandou pedir a élRey Valdemaro III.
no anno 1345. (como dis Ifacio PontanoJ o qual lhe \
refpondeo cora pouca modeftia, & refpeito eftas pala-
vras: Valdemaro Rcy de Dania ao Romano Pontífice faude.
A vida lemos de Deos, o Reyno dos vajjallos,as riquezu, ejr »o
breza de noffos progenitores, çjr de vojjos preâecefiores a Fé, * .-'
& Religião; [e deliu nos tendes inveja. pelas prefentes volt
remettemos. Vàlc.( Palavras efcandolofas, & que arguem. >
pouca firmeza na Fè;) Nem ha de que efpantar, que af-
íi refpondeíTe efte Rey, pois teve por íbbrenome Ré- „
prooo,& como tal foy avarento, atrevido, temerário,
irmaliciofo; inimigo da nobreza do Reyno, que de to-
do quis acabar, & extinguir, quebrantando com infame
*'P«- .
Livro I- Capitulo XX^IV. Eurof íU. 223
perfídia o /uramento que fez era fua corcaçam. Final-
mentera foy taõ preverfo, que íe nam fera per vergonha,
tom facilidade deixara de todo a Fé. Pelo qual rruitos
fe lhe rebellàram, com intento de íe livrarem de fuás cru-
eldades, femrezoens, & tyranias.
Mas pois fallei íiefte Rey, direi brevemente como
Suécia , & Norvega foram unidos à Coroa, & Reyno de
1
^Dinamarca, íegundo Erpoldo Lindcmburch. Teve Vsl-
demaro huma filha chamada Margarita, piedofa & boa
* Chriftam: a qual feu paycafou com Haquino Príncipe
W de Suécia, & Norvega, de quem ouve hum filho, que
».,\morreo de poqca idade : como tambe^ o mefmo Ha-
quino antes de tomar poiTe do Reiro > & aflí Margari-
ta por fua morte ficou reinando trinta, & dous annos
cora grande valor, & prudência . No de 1380. le levan-
> tou em Rey de Sueeia Alberto, contra o qual mandou
de Dania a Rainha hum poderofo exercito, & dandofe
a batalha, foy prefo nella Alberto, & feu pay Conde de
Holfacia, com outros muitos, que foram todos levados
% aDania, onde acabaram, & pereceram, ficando todos os
.•três Reynos unidos em huma Coroa. Porem os Suecos
I pcrfeveràram pouco tempo nella união, porque ero bie-
* vc elegeram em Rey a Carlos Canuto ('ficando os da
Norvega até efies tempos fogeitos a Dinamarca) pe-
1 .^loqual ha pouca paz, & concórdia entre efias duas na-
ás» çoés. Ouve nefte Reyno cento, & quatro Reys atèo pre-
fente, que fe intetula, chnjíuno IV. Rey de D«nia, áA Nor-
veiga, do,s Gottos, ejr VVanàalos, Buque Slejvvicenfe, de
Holfacia, âe Stormatia, Ditnrmafehia, cjr Conde Ol-
*■ âembufgefe. O qual rcyna cõ felicidade,
culto da Religiam Cbriftã, & zç- ,
Ioda honra de Deos.

**■ CA PI-
' * <fc
224 Hiftoria 1)muerfal.
CAPITVLO XXXV.

■DA ys£orverga,&- algumas ilhas do


mar Halticho»
4
P Afiadas as ilhas de Dania fe nos deícobre outro mõ- J
do pouco fabido do noffo; o qual fe divide em duas '
ampliífímas Províncias Septentrionais, huma chamada i
Sueonia, & a outra Normandia. Deftafe affirma que cf- •
caflameote fe pJJerà atraveffar por éfpaço de hum mes.' *
& a primeira de dous. Confina pois Sueónia (que poc
outro nome fe chama Suadia ) pelo Occidente com os
Gotthos: pelo Norte com os VVermclianos; peloMeyo
dia cem o mar Balcicho: & pelo Oriente feeírende ate
os montes Ripheos, onde grandes defertos alciífimas ne-
ves, & monftruofas naçoens de gentes barbaras não dei-
xam paflar a diante. Alli eftam as Amazonas, que com- .
municando com brutos animais geram, & parem horren-
dos monftros, de que alguns fe levàraõ a Dania , & o ou- I
trás partes. Alli habitam também os Anthropophagos,
que comem carne humana; os Cyclopes.que tem na tef-
ta hum iò olho» os Nimantopodes , que não tem roais
que hum pé (coufas, que parecem incríveis, mas affir-
madasde muitos. )' Deixando eftes bárbaros dos mon-
tes Ripheos, onde fenece Sueonia, digo que he cita re-
giam ferciliífima de pam, mel & muitos gados: & fupoíto
que feus abitadores fam gentios, naõ deixam de fe in-
clinu â prègaçam do Evangelho. Cada hum tem o nu-
«mero de molheres conforme fua poílíbilidade . Sam hu-
manos, & amigos de fazer bem aos eftrangeircs, & tanto,
:-' que
Lh ro I. Capitulo XXXF. Europ <c. 225
.■*.•■

que naõ íò tem por opprobtio negarlbe poufada, mas


airPda contendem fobre quais famraais dignos, «5c aptos
•para os agafalharem. A província, & cidade principal
tem o mefmo nome, que ,h.e Halííngaland, fendo innu-
rneraveis os mais povos; fuppofto nos não confia, que fe
converteflemà Fè mais q os Gotthos, Werruelanos, &
parte dos Scritenos fogeitos aDania.
1
Normandia he a ultima Província do Orbe Sep-
tentrional, a qual agota os modernos chamaõ Norve-
ga. Começa pois cila regiam nos altos penhafeos do,^
^ marBalticho, & diícorrendo para a parte do Norte, de-
'#\p°'s de aver cercado as prayas do Oceano ferventepò-
cr» feu remate, & limite nos montes Ripheos, onde
também fenece o mundo . He a Norvega, aífi por re-
zaõ da afpereza dos montes, como da inclemência do
, frio , a mais eíliril, & infecunda de todas as régio-
ens, fuppofto que accommodada para criação de ga-
dos. Com fer pobriffima he muypovoada, & por eíla
rezam os feus habitadores andam perpetuamente dií-
• correndo pelos mares feitos ladro ens, & piratas: fup-
j» poílo que d»pois de receberem a Fè fe abftiverao de?
/ latrociniost contentandofe com fua,miferia, <5c penúria.
A cidade Metropolitana da Norvega fc chama Trondé-
ni5, ornada de fermofos templos, & frequentada de mui-
.*# cos povos, que vão vidrar o fepulchro de S. Olaph Mar-
!► tyr.quefoy Reyde Dania, & eftà fepnltado na quella c
dade, fazendo Deos muitos milagres por feus rogos, &
merecimentos. De Dania fe vay a eíla cidade por mar
em cinco dias, porque por terra fegaftàram rcuitos mais,
alem de fer o caminho por altas montanlhas, arrifeado,
Sc perigofo. -
Depois da Norvega ; qbea ultima Provinch do Nor-
te, feitoro acha terra alguma povoada, nem'outra coufa
P mais
.1
nó Biftoria-TJnfaerfal.
mais que o mar terribel,& eípantofo ncfhs partes. De-'
fronte defta Província eftão algumas ilhas, que a gora íaõ •
íbgeitasa ella. As primeiras faõ as Orthadas, das quais
dizem Marciano, & Solino, que faõ quarenta , ametade
defertas, & ametade povoadas. Em muy grande diftancia
deitas .fica a ilha de Thyle, de quem atèeftes tempos fe
teve pouca noticia. Delia dizem oseferiptores coufas
admiráveis, & que parecem incríveis: porem não fede- J
ve negar o credito aos que affirmaô, q cfcrcvèraõ o que
viram. Nella flegundo achamos eferiro ) no Solílicio do
eftio, paffando o Sol o íigno de Cancro, naõ ha noite ai- •
gua, nc dia no SrJ.flicio hiemal. E outros dize que aqui he A
íeis mefesde noite, & outros féis de dia; & hum dellcs he
Pi&eas Maílílienfe , que dis fez viagem de Inglaterra a
Thyle em féis dias. Efia ilha fe chama a gora Iflandia, to-
mãdoo nome do caramello,com q o mareftà coalhado
junto delia. Também dizem que o tal caramelloaqui pot
rezam de.fer antiquiffimo he negro como carvam, &tam
arido,q arde em fe lhe pegando o fogo, q he grande pro-
dígio entre os mais da natureza. A ilha he grande , Sc '
muy povoada, mas efteril de paõ, & mais novidades. Cri- {
aõfe nella muitos gados, de cujesfrutos fe ftiflentam os
moradores. He gente.fimples, charitativa, & bem incli-
nada, & como t3l aceitou facilmente a Fè,& pregação do
Evangelho. Defta Thyle, ou Iflandia entendem alguns •-.
aquillo do Poeta, quando querêdo lifongear ao feu Em- «
perador Augufto.lhe diíTe. Georg. i.
-< Tibi fefviat ultima Thulc.
E Stacio libro 3. Syl-var.
gMmquam, &fi gélidas irem manfmus acl Arítos,
* Vd fupu Hefperi* vada caligantia Thulcs. .
., Defronte dos montes Ripheos para a parte de Suco-
nia fica outra ilha chamada Gionlandia, que fe sffrrça
tece-
vuro 1} Captulo XXXV. £uropa. ny *
f\ jíccebco a Fé ha poucos annos. Mais vizinha à Norvega
eltà outra por nome Halaglandia, que no Solflicio efiival
tem quarenta dias continuos,fem noite, ou efeuridade ai-,
gúa; 5c no hiemal por outros tantos dias fe naõ vé o Sol,
<íendo ena todos elles huma tenebrofa, 6c continua noite,
. També fé defcobrío nefte mar a ilha de V Vinlandia, on-
de nacera vides fem fe plantarem, que produzem bom
vinho, como também abundância de trigo fem fe çulti-
0 var, fegundo cj os de Dania o contam por relaçam verda-
t cíèira.' Hum Príncipe da Norvega chamado HaráTdo le:
. vado da curiofidadc defaberatéonde fe enflendia oO-
^ ceano Septentrional, fe meteopor elle alem de Islândia,
*/\ou Thilc viagem de hum dia, no fim c!# qual chegou á*
ultimasrayas, onde fe acaba o mundo, & vio qalli fe co-
meçava hum tam horrendo, 5c efpantofo Chàos, affi po.t
rezam das dentas, & efçuras trevas, como pelas impetu-
ofas correntes, & fervenças do mar, q com grande traba-
lho, & perigo pode tornai a trás com feu navio.
Tjmbem refere Adam Bremenfe, quehunshomês
nobres de Frífía fe refolvérem cm ir defcobriro mais in-
* timo reccjTo, & ultimo remate do Septentriam. Epaffan-
\' doporentre Dania, 5c Inglaterra, chegarão as ilhas Or-
f chadas, as quais deitaram à maõ çfquerda, 5c Norvega, à
direita, fazendo huma dilatada viagem pelo mar de Thy>
le, que agora he Islândia; donde fulcando atè o angulo,
•^ & eixo do Septentriaõ, de repente foraô darnáq^llate-
• nebrofa confufam do coalhado Oceano, que coro difa-
culdade puderaõ penetrar com os próprios olhos; mas
viram claramente, que o mar fazia alli hum como olho
marinho, em q fummamentefe embravecia,'ícvanqo a
fy os navios com grande vehemencia, & irrpulfp, pare-,
eendò, q as agoas ferviam, encontfandofe hfus co as cu-
tras com brava competência , ôc movimento terrivd.
. •; p2 pão
ii8 ' • Hifiona Xjnwerfd. •'
Pelo qual fc viram quafi de todo perdidos, fem tratarem
mais que da morte, q tinham prefente,impellindoosas a-
goas para aquelle efpantofo Cháos. Aqui íe dis cj eftà o
fervente redemoinho', & profundo abifmo, onde (Cega-
do a famaj fe vem abfoiver, retirar, & reprimir todos os
recurfos do mar, donde tornam afair, & cíprayarfe, q he o
que commummente fe chama Maré. Atribuindofe efte
effeito, & maravilha á in fluência da cõfteliaç,am do Nor- .«■
te, & juntamente a Lúa, que tem predominação fobre
as agoas.
Vcndofepoisos mareantes emtam manifefio peu- «
,& implorando o foceorro divino para a falvação das' /
nas, a imp
almas, impetuota'corrente do mar arrebatou, & fumio
hús dos navios, lévaridoos pára dentro, Si a outra, q fahia
para fora, trouxe configo os q efeaparaõ, aproveitandofe
fdrtiffimaroentc dos remos, & faindo aterra peias altif-.
fimas penhas de hnma ilha, quiferam ver o q avia nella, Sc\
achàraõ em certas cavernas huns homens agigantados, q
arremetendo muy furibundos a elles acompanhados de
grandes caés, os fizeram recolher aos navios. Allude cite
Author àrelaçam, que fizeram os Holandeíes, quando ha
poucos ànnos intentando ir âíndia Oriental pelo Nor-
te: chegando aeftailha (a quem puferam por nome No-
va Zembla) fe lhes coalharão os mares; & faindo aterra
lhes defa,paréceo oSol a 4.de Novembro, &o náotor-
nàram a^cr fenãoem 24. de laneiro: pelo qual a todo ef-
te tempo chamarão, Noite himeal; &como alli habita-
rão aquelles mefes viram o que acerca do golfo, & olho
marinho fica relatado. E defengauados de que por a-
quella parte era impoífivel apaíTagem para a Irjdia, def-
cpalhandbfe os mares pelo S. loaõ, fe totnàraõa reco-
lher a fuás terias.

CA PI-
^ Livro I. 'iafimlo. XXXyi. JE/rroptc-. 219
v
\ CAPITULO XXXVI.
1
t■ 1

*? *Da Ilha. &- %eyno de Inglaterra^fecun-


do Candeno Inglês\ & outros.
>'■■»

1 A Grande, Bretanha ,he a ilha roais celebrada, que


ha em todo o mar Oceano , que a fepara da terra ■&*
k firme da Europa, chamandoíe o mar Vergivio nefta par-
te. Eítà pofta para o Oecidente no gr^> eincoenta, &
\ hum, no oiçavo elima, & nos paralledos dezoito, &
dezanove. Pela parte do Oriente tem defronte a cof-
ta de Alemanha baxa: pelo Oecidente, a illha de Hibcr-
nia;peIoS^ptentriãm, as Orchadasj & peloMcyo dia a
Província de Normannia, & Bretanha ('chamada Armo-
rica) em França. Primeiro fe intitulou efta ilha Albi-
on, depois Bretanha ,& vkiroamente Inglaterra. Tem-
oito centas milhas de comprido ; de largo, onde mais o
hc, trezentas,& vinte ;& junta como Rcynode Efco-
ciaoccupa mil, & íeteceotas. milhas de circuito. Tcra
muitos rios, & portos, & o clima mais temperado, que o
das outras partes Septemrionais. He fértil, & abundante
de todos os fruitos, delicias, & regalos, que fe podem pro-
eurar. O comercio, q tem, he com todas asnaçoens,- & :
Reynosda Europa ,.& ainda coro ás índias Occidentais,
Mexiço, Brafil, Guiné, & Ilhas.de que recebe preciofas
drogas, prata, ouro, & outras riquefas. Divideíe em duas
partes, que comprehendem dous Reynes, & faõ Eíco-
c
U»^PSlaRrra>PS quais íeparão huns montes, &os ri-.
osSolvco.&Tueda.
■ Contãofe neííe Reyno 32. Provindas, & vinte,
V Pi &feis
230 HiftoriáTJmverfal. t
Sc féis cidades, dous Arcibifpados, vinte, & quatro Bis-
pados, feifcentas, & quarenta, & numa villas, & nove
aiil,feteccntasJ& vinèê, & cinco Igrejas; entrando neftc
numero os Conventos, & Collcgios, que os hereges def- .
truiraõ ufurpandolhe as rendas para (eus ufos profanos;
& Ce acha, que os que foraõ arruinados, & deftruidos
chegaõ a 3845, A primeira Província he Cancio ava-
liada por fuperior, & avante/ada a todas ( como dis Spe- %
edo ) aífi na grandeza , como na fertilidade, regada de
.muitos rios navegáveis, entre os quais tem o primeiro
lugar o Meduvesgo, que lhe paíía pelo meyo; alem de. /
outros dez, que r^i?tendofe nomarpor vinte bocas, fa-. A
zem outros tantos portos capazes de recolher em fy na-
vios. Eefta he a chave,<5c fortificação de todo o Rey-
no : principalmente os portos de Haftings, Dover? Hy-.
th, Rumney, & Sandiwich, a cujos habitadores tem cõ-
cedido elRey grandes privilégios. A principal cidade
Metropoli de toda a Província, na qual refide o Arcibif-
po, he Cantuaria, antigua, & bem murada, fértil. & abun-
dante, aílí por rezaõ do território, como por eftar junto
ao mar. A outra he Roffa, com muitas villas , & lugares,
& oito paços Reais, que cm fua comarca fe edificarão,
não faltando nella caftellos, & torres fortiflimas. A fe-
gunda Província he Suflcxia, onde eftà a famofa, & am- .
pia cidade de Ciceftria junto ao mar. A efia fe fegue .
Surria, onde eftá o furnptuofifíimo paço Real edifica- «
do por Henrique VIII. & fe chama NonSuch, queque*
dizer a nenhum fegundo. A Província de Hantonia té
duas cidades populofas, que fam Wintonia, & Southan-
tonia.
< Na de MidielTexia efia' a cidade de Londres ca:bcça,
& Corte detodo oReyno.lugar antiqiiiííimo, fitúado
júco ao tio Tamifi, por quem fobc a maré com hum alto,
&pro:
•,'-* rforoLjOafíttilo X%$VL Europa. 231*
K & profundo vao, que dà lugar à pafíagem dos navios, os
t ^qijais de todo o Oriente, & Occidente levam feus com-
\ inercios, & fazendas à cidade. Foy ceicada por Conftã-
linp Magno com fortiffiraos, muros que tem trc$ milhas
* de circuito, co m icte poitas mayorcs, & hum caftello,
s cjuefe chama a Torre de Londres tam fortificado, que
> íc tem por inexpugnável. He julgada efta cidade pot
huma das mais populolasda Europa; & como tal fe dis
4 que tem trezentos, ,3c cincoenta mil homens, íegundo
, affirma Veneto allcgado por Hornorio. -No rio Tamiíí,
por onde fobe a m^rè a cidade por efpaço de vinf;
i Jkgoas, fezclRey Ioam huma ponte de pçdra eom.deza-
, A iiqve arcos, obraram, fuperior, & majpftofa, que.parece
naõ tem igual, ou íemelhante. Osp,ços,que os Titula-
res do Reyno tem na Corte, fam grandes, & fumptuofos
edifícios com quintas, & jardins de grande recresçam, Sc
caías de prazer muy curiofas.,Porem "a todas, fèavenrajaõ
as cinco Reais, que eftam nefte território, a que fé reti-
raõ os Reys, quando lhes parece. ., . .ji 1.
Tampem hc cidade Archicpifcopai, Eboraco muy
* gtzty&pf3- povoada, & rica; illuilrc -com famoios edifi*
I * ...cios, fortalezas, torres, & muros. NHla inftituio Henri-
' que VIU. hum tribunal, onde fe julgam todas as caufas
das terras, que ficaío da parte do Norte. Ha no Reyno
' duas- Yniverfidddes, hufna çm Gantabrigia , onde hâ
f,qujnze aulas, & Collegios: & outra era Oxo!nia, com dei
zafeis Collegios, St oito aulas, fendo efta .cidade aprazii
yel, abundante, Scaccom nodida para os eftudcs, & ex-l
creicios das letras. A parte,que nefte Reyno ficaparao
•Qccidente, & mar Hibemico , que dividem os rios Sa-
brina, & Deífa das outras Províncias, fe chamou anti?
gamente Cambria, & agora V Valia, cm que fe compreV
, htendem doze Condados; a qual por ditçiftcthç.teditaiioi
P4 coflu-
',
«Qft HiftoriaVn&erfai.:
;
eoítum.i ferdo Príncipe herdeiro? 'era quanto não t& <
ma polfe de todo o Reyno. De todas 3S ilhas circunvi-
zinhas não políue-o Inglês mais, de fete cjueíaõ Dania,;»
«âcrá, Fatne, Mona, CeíaréavSarriiá, 8c Veftj. He 'á
■%?me deffa>'níçàm pefllma, cruel, & desumana' p*ára dV
eftrangéiros, que a cila vam, como affirma VVilhelmo
Larnbard, que à fua eufta ó expiimcntou, & outrrís, que
cíeandalizados affirmão o mefmò. Alem diftb faõ ftò^èi m
4éiròs èm matéria de religiam, 'porq cada dia arguêho vis; v
feitas, cj defendem com contumácia, ainda depois "de fe
averiguar nos tribunais fm falfidade, & ignorância: & o
O peor he que fe fazem authores delias, & antes fc dei-
xão queimar/qu^icõtradizerfe. Porem éftas. coufas tío f
ftiais ordinárias nò;vulg'o, porq os nobres governao pót
uotro termo, íenão de fidelidade , ao menos de pruden-
cia, & cotteíía.
fi Anobrez* do'Reynb confifte em Condes, Vieécorf-
des& Baroês. Os Goridesfaõ cincoenta,& féis.- os Vice-
condes novei&osEaroèns cineoenta,& cinco; fendo bs
appelidos, & nomes das'famílias illuffres duzentos , ôc
bito; enVqptãmbem/eriCrarn. alguns Diicjués, St MaYqdí-
&Si íWasmuy poucos< Heb Rey de Inglaterra-pbtmuMs
eezoens poderofo; primeiramente pelo lítio do Reyno.q
■hehuma ilha inexpugnável; depois difto pelo numero,
Se fortaleza dos. navios, pdis fe áflfrma que entre os da
Coroa-, & dos vaffallos pôde quando lrié for hecefiarib :
apreftar, &pór no mar quinhentos. Vltimamente fe cHsy *
que depè tem liftados fetenta milfoldados, & de cavai- :
lo, dous- mil. ■ ;"*3
tf Ha na Reynb hum Parlamento, que confta dos p-fíffc
eipais miniílroSi que faõ o Cancellario, oTheroureiro.o
PrivizelioYqhe o Secretario de Eftado) o'Almirante,&
o Mbrdomamòr, a arrelies charnaô Stuardo. Efle cõ-
folha»
}\fc!ho>& tribunal chcgou.a(çr de^tanta aut^cridadc, qsé
\^ ccJ.nfu]tara feu Rcyprdena o que lhe parece, ftogpas, vc'-
\'zes manda o coBteajííj^o^â^eíiBÀ^SyWrlÇfiÇfit*

,X mento, O que considerando Carlos.ultimo, Rey,& ã^f


dos os mais do mundo tinl}ami,abfoÍ^to,.gçv:etno,& pq-

•P to n^pfizcffe.çoufa. algumaíf^,p^c^^ç^F9fjoajçtt
to feu} on que fazendo o. contrario; o avia pcr-nu|llIo?.& ^
L ps Párlaraehtarios por fufpcnfos de fe,os cargos, & digni-
l |ade. Não qujíeram ellcs eftar pela ley.&c decre^Rç^
1 & aífi ajuntando de fua parte hum ç.ofiqíp^et^to gpj
ann.01641. & elRey outro da fua', fe deram por vezes
batalhas campais, em q morreo grande numero de gerj-
tej.& çontinuandofe eflas guerras civisatc .o,armo 1648.
nclle os do Parlamento prenderam a j,çul^cy, & por sã-
tença de todos lhe mandarão cortar a cabeça em húm
eadafílfo publico. Exorbitância, q não lemos de outra na»
, çaõ, por mais barbara, & cruel que feja»

f CAPITVLO XXX VIL


• • .. .■ •■

>' WM^W^^ticmU, & de


outras ilhas■ circunvizinha sJegudo Ge-
orgc^Buchanano Efcocés,. Çuilk
$8k>i Cundeno inglês* &• outros.. te
EScocià h'e hum dos dous Reynos, que fe contem na
ilha'dá' grSmde Bretanha, & a divide de Inglaterra
*?4
primeiramente
ramentc b ò nono^TuVda, altfífimò mon- /
rueda, depois hum altíífimpmon-
te ch^òiido Zcvioca, & ulci na nente os rios Eíca,
„,-. 4r, 7..<n^.r-> ^r filei na „í>r,r^ rtc .irx* C/•-.., & Sol-
«^ Ct

qiie': os FríglÈfés áííblaram por ordem do Parlamento no


. ^eanno 1567. porque os rebeldes, 5c amotinados fc nâó
fizeflem fortes nella: Hadmtona cercada de muros, 5ç
torres; DalKcrtv^ 5c Edemburg cabeça de todo o Rey-, l
Hb cólmTarn^tubíos edifícios, Fortalezas, & muros^ por-
to de.mat cm pouca diftancia delle.ôc paços famofos, on-
de habitavam os Reysdamcfma ilha. A efta fe fegue a.
Província Glptiâna, onde eftam as infígnes eicladçsde
Lanarco, & Gtafcuà. As mais Províncias faõ Coih, Cu-
nigamia, Levinia, Covalia, Cantiera , Lorna, Fifa.Go-
tea (ondecftá hum celebre rnofteiro, cm que antigua-'
mente fe coroavam 0$ Rey de Eícociaj Foreftia, Mar-
ria.-Buchania, Spéa Moravia, Roffía, Navcrnia,5c Ca-
íhenefia, onde 'fenece o Reyno. D
Ha em Eícoeta dous Arcibifpados, hum he a cida-
de de S. André na Prpviocia de.^ifa^qus, he Pjwna^» 5c
i fero oito Bifpos fòffc-aganeas-.' WiÍMÒMÍã&ciÒifpk- -.
dode Glafcúa çom três Bifpados fogeitos. Affimaõ os *
Hiftoriadores fobreditos, que o pnmciroíRcy de Eíco-
cia começou a governar nellatrezentos,' &'trinta ánnos
antes da vinda de Chiara, &, fe.\^lí30>pa.ii.5Farguí)o, que
foy filho de Ferquardo Rey de Hibernia. A efte fe fegui-
ram cento, & féis até o anuo 1602. era que falecendo a
ccuel Rainha Ifabela em Ioglacerca, fuecedeo por parcte
Ihw chegado IacoboVI.Reyde, Efcoçia, quetraslada-
Vj0 fua Corte para os lnglefcs,foy degolado pelo Parla-
mento, como fica dito nò capitulo paliado. --
Eftà Efçocia cercada de muitas ilhas, que como
/Rainha a coroáõ. Os Modernos as reduzem todas a
três cia fies, Occidentais, Orçadas, & Zelandieas. Occi-
dentais chamão as que eííam no mar Deucaledonio pa-
^Ta a parte Occidental deEfcociaatè as Orçadas. Eíup-
I jpofto que alguns lhe chamão as Hebridas > o feu roais
próprio nome he & foy íempre asEbudasffegurjdo Do vj^
i naldo MonroyJ o qual aífirma, que paliam de trezentas,
^lguns tempos eítiveram fogeitas aos R#ys da Noivega;
lnas vendoos Alexandre M.;Rey de Efçocia. em hu-
mas cruentas batalhas, as tornou a reduzir a feu Impe-
xio. Saõ cilas ilhas abundantes de carnes, & pefeados,
mas faltas de trigo, & de tudo o mais, nãõ fe produzin-
do nellas mais que cevada, & avèa. A primeira delias fe
chama Mana, ou como quer Paulo Orofio, Menavia,on-
de refidia o Bifpo, qne noeípiritual as governava. Eco-
► mo os Inglefes o lançaiTero dalli fora, fe foy para a ilha
v *dc S. Columbo ( celebre por nella aver florecido cíie
f fanto varam com grande penitencia , & aufietidade de
vida) Porem nem a hi o quiferam deixar osliereges, por
•que expulfandoo delia, alTolaraõ juntamente dous Con-
^ ventos, que ahiavia, hum de Frades, & outro de Frei-
»» ras.
Ha entre as antiguas rninas defia ilha hum ceme-
terio, em que coftumavam íepultarfe comummente os
defuntos das illuflres famílias das ilhas Occidentais; &
fe vem ainda três rumulos pouco diftanteshuns dos ou-
tros com nóageítade, & grandeza; & nas pedras entalha-
das humas letras, que dcclaraõ cujas foram as tais fepul-
turasy Porque o do raeyotem efte titulo. Tumulas Ec-
gw
13 6 Hifto^ia IJnw^n
gffm. ScotU. E fe' dís qur foram fcàultaáos nelle qjwrejw '
ta.&oitòRcyír/ Odamjíá direicVdis afli &t $
g/íâi HibemÍA. £ que nelle èftão qaacrò defte Reyno. O
da outra p3ttetem por titulo: Tumulas Revvm Morvtzux
8f& disque efóo nelle oitffReys daquella naçam. Taw-
bêrri entre eftas ha numa ilha jpequenai,' que. fe chama
dos Pigmeòs, ou Sigrama .• onde íe acham as ruinas de
hum edifício a modo de templo ; & he tradiçara entre <
os vizinhos daquella ilha, que nella habitaram os Pig- v
^ meòs, porque cavando a terra, faerri ainda neíla humas
-tf cabeças pequenas, St redondas com outros óflbs do cor, :
po humano de pernas,
?<
& braços, mas de pequena efta-
tura. ' r
Outra ilha ha chamada Rona, onde as aves do mar
cóftumaó fizer fáascriaçòens; & herança a abundância
de carnes deitas aves, que íc levam navios carregados
delias para muitas partes. Aqui fe acha hum raro gé-
nero de aves, que em nenhumas outras regioens faõ co-
nhecidas , & lhe chámaõ Cokas, tàrn grandes como hu-
roa Adem. As quais vindo a efta ilha iodos osannos,
criam, & acompanham os filhos acé elles fe poderem go-
vernar por fy mefmo. Enefte tempo lhes caem todas
as penas de tal modo qjeficãodé todo nuas. feio qual
fe metem logo no mar, & não faõ mais viftas até o prin-
cípio da primavera, como referem os mefrno Autho-
res.
Seguemfe as ilhas Orçadas, parte das quais eftâ no
mar Deiícaledonio, & parte no Germânico, para o Sep-.
tentriaõdo Reyno de Efcocia. Sua defeendencia fe dis
que foy de numa naçam, que ouve antiguamente em Sa-
xoniachimid3 dòsPidòs, fegundo aquillo de ÇJaudi-
ano. VIÍ. íanegyrica; :
*-■ Maslucmit SàKonè fufo
yJfÇtlm
'
^ LivroJ.Okptulo XXXVil.Europa. 2.37
t\ orladas, incaívit Piãorum fanguinc Tbule:
l ' • Scotorum túmulos fievit glacialis Irene.
lDis Paulo Orcfío, que fam trinta, & trcs > das quais ío-
mente treze fe habitam, fendo amayor de todas Pomo-
^nà» aquém ch3mão terra firme, porfua grandeza que he
trinca milhas de comprido. Tem huma cidade chamada
Kircua, &dez Parochias divididas por toda cila- Tem
- bons portos de mar, por onde íe communica com outras
Pnaçoens. Difta de Cathanefia ultima Província de Eíco-
cia 24. milhas, ficandolhe no meyo o mar chamado Pi-
I&ieo, cuja vehcnaencia he tanta, que fe navega todo a-
^quclle efpaço por tempo de duas hora.JTodaseíias ilhas
Vaõ pobres, & como as Ebudas não ptoduzê mais q a\ éa,
& cevada, & cõ tudo tamfaudaveis, & amigas daconfer-
vaçamdavida humana, que fe vive ordinariamente nel-
las muitos annos. E nefla era ouve hum homem por no.
me Lourenço, q cafou depois deter cento de idade, &
vive o cento, & quarenta, andando fempre no mar pcfcâ-
doem húa barca: & ha pouco que defemparado da na-
i tureza acabou de velho. Das ilhas Zelãdicas fe dirá no
•capitulo feguinte.
f Não íerá foca do intento fazermos 3 qui relaçam de
algumas coufas, que de Efcocia conta também He-
* ótor. Boecio. Ha nefte Reynofdis elie) muitos rios de
£ agoa puriffima, criftalina, & clara, onde fe criam as con-
» chás , cm que fe geram as pérolas; cuja produçam he
defta maneira . Em começando a romper no Otiente
a Aurora> eftando o Ceo (ereno , & os ares temperados
fe levantão fob:e a fuperficic d3S agoas, 6c abrindofe
recebem o orvalho^ puro : & conforme a quantida-
de , que receberão ' afíi#he depois a pérola . O fedtido,
que tem he tam perípicaz, & agudo, que cm ouvin-
do fàlUt na praya , ou lançandolhe huma pequena
pedra
• v:
238 Hiftoria XJnfoerfâi.r,
pedra na agoa, immediatamentefe recolhem" todas de-
baixo delia, Ôc fe retiram ao mais profundo, & efeondi-
do. Com tanto cuidado guardara, & defende" o thefou-
ro, com que as enriqueceo a natureza! & aífi os q as pef-
caõ, obfervameom grande vigilância, que cm pegando
nas conchas as apertam logo, porque naõ lancem fora as
pérolas, como cofturnão fazer (è ha difeuido. O modo
de as pefearera he o íeguin*. Metemfe pela agoa qua-
tro, ou cinco homés até lhes dar pcllos ombros, levando T
humas pequenas lanças, para melhor fe fegurarem ; &
^v^firmandofe nellas vem pelocriftal das agoas onde eítaõ
as conchas, & chegando com os dedos dos pés a ellas,
as tomaõ, & corp a maõ que tem litifêj as dam aos que ef- /
tão na praya a bom recado, porque não larguem, & vo-''
mitem as pérolas. Alem deitas ha outras pedras precio-
fas de grande eílima, & valor, que fe mandam a díverfas
partes. Também conta o mefmo Author, que em huma
das ilhas Ebudas por nome Muliahahuma fonte purif-
íima diftante do mar duas milhas, de que faem huns
globos á maneira de ovos pequenos, que brilham Sc rctj
plandecera como pérolas, os quais eftara cheos de hum
humor efpetTo, Scdecendo pela corrente da fonte atè a
praya, fe recolhem em huma cova, que eftà chea de agoa
do mar, onda por efpaço de doze horas fe convertem
em grandes conchas.
Admirável he oquecontãoos Authores de hum «
género de Adens, que ha neftes mares, chamadas Cha- '
Kis. Eheq-ielançandoícnasagoashumpao, ou madei-
ro, por efpaço de certo tempo nacem nelle huns bichos,
que formando pouco a pouco cabeças, pés, & outros mê-
bros,ultimamente fe cobrem depenas, fendo tam gran-
des como adens, Scganços. E chegando a fuanatural
proporçam,& quantidade, voão pelos ares como as mais
aves.
./* -■
ly LiuwhQdfltMoXXlVII.EuYOfa^. 2}0
V àvçs. O que (fegundo dis Hiftor Boecio ) começou" a.
Ncxpcrimentaríe em Burquania no anno 1490. dando
xeftimunho todos os moradores do que virão ; & foi que
iunco ao caflello defta cidade fe trouxe febre as ondas
^hum grande madeiro, em que íe viaõ ferver, <5c bulir grã
de numero de bichos :5c tiradoà praya fe mandou fer-

r
rar, com que logo fairaõ para fora innumcravel qua-
lidade, huns começando a nacer, outros tendo jà os mé-
bros formados, & outros fendo perfeitas aves, entre as
quais avia humas vertidas de penas, & outras íem ellas, £
\ eftando o madeiro penetrado por todas as partes, para
Uiabitarcm em fuásconcavidades efles bichos. O mef-
moTe vio também depois no porto de Edemburgem
hum navio, que nelle cfteve anchorado por efpaço de
três annos.
Também neíte mar fe cria hum género de algas
marinhas, em que fe geram humas conchas, de que faem
aves, que a feu tempo voam, & difeorrem pelos a'res; &
affirma omefmo Boecio , ferem eiras couías tam vulga-
► res naquellas partes, que não ha quem duvide delias E
j 'também fe fazem creiveis pelo que a mim me coota-
f ram Religiofos graves de noffa Ordem, que achandofe
nas partes do Brafil, & Angola viram que nas ribeiras de
•alguns rios nacem humas arvores, que produzindo huns
^frutos como maçans, ou laranjas, em fendo fazoado5,&
* maduros caem fobre as agoas, & em certos dias fe criaõ
nelles huns bichos, que cobiindofede penas voam pelo
àt como as outra aves.
Relia ultimamente tratarmos da Ilha, ScReyno de
Hibemiacom Candcno, Sc Speedo . No mar a quem os
Inglefes cahmaõMorweridh, es Hibcrnios, Fariai, & os
Luinos, Vergivio, para a parte Occidental dê Breta-
nha fica ailha de Hibernia, aquém os moradores charrão
Erim,
t. ■ • . • . < [y, <■
240 Hifloria UniuerfaL
Entn, 0$ Bretões Yverdon, os Ingleíes Iríanãa, <5c alguns »í
antiguos leme, como Claudiano no ultimo dos veríos, q
deixamos referidos. Eltendefe efta ilha do Aufiro para
o Septentriam trezentas milhas de comprido, & cento,
& vinte de largo. Os Geógrafos antigos lhe davam o
terceiro lugar entre as ilhas, que fe tinham deícubetto,
aífi na grandefa, como na bondade. He nebulofa , & de-
maíiadamcnte húmida, pelo qual os eftraqgeiros adoc-.
. cem logo em entrando nella de huxo de humores, &^\
,.,-catarros; mas para ifto inventarão os naturais huma be-
Deragem a que chamam Kebach, que quer dizer, agoa
de vida, com que. logo foram, & fc acham bons. Criaõfc -
neíhilhaimmemos gados, & às ovelhas fe tiraõ os ve-/
los duas vezes no anno. Os cavallos iam fortes, mas pou-
co ligeiros, porem em tanta abundância, que largam co-
pia delles para muitas partes. He immenfa a criaçam
das abelhas não fomente n3s colmèas, mas nos troncos
das arvores, & concavidades da terra. Naõtem ferpen-
tes, nem bicho algum peçonhento, mas muitos lobos, de
que recebe grandes danos. ;
Os moradores (ãõ belieofos, de grande engenho,
& boa difpofiçam natural do corpo. S. Patrício os con- \
verteo à Fè Catholica, como affirma Nennio . dando-
Ihés noticia daqnclla horrenda cova a quem chamam o
. Purg3totio deíle Santo,, para melhor os eonfetvar no ^
temor, i5c amor divino. A defcriptçam defte prodígio fe n
pode ver nos Authores, que tratam delle, porque eu me
naõpoíío deterem o referir. Divideíe Ibernia em cin-
co partes principais, que faõ Momonia, ou Mounfter.pa-
rio Meyo dia, Lige-nia para o Oriente, Connathia (oa.-
deeftà o PurgatorioJ para o Oçcidente. Vltonia para o
Scptentriaõ,& Mídia, ou Meth, no meyo de toda a ilha,
A primeira , & principal cidade chamaõ os Ibernios
Bala- »•
v
.V & ^Str i.
I '''^LiuroíQgfitiilo XXXVII.Europa^. 241
F Bilaclcrgh, os ínglefes Develin, & os Latinos Dubili-
Cnio"*, empório nobiliífímo, onde eftà o tribunal fuprcmo
\dajuftiça: hebcm murada, ornada de íumptuofos edi-
fkios, & povoada de grande numero de moradores.
^No bairro Oriental junto á Igreja de Santo André e:
dificou Henrique II. nuns paços Reais de muita ma-
geftade , & grandeza. Nam longe daqui cfiá o fa-
mofo Collegio4a Santiíliroa Trindade , que a Rainh*.
Plfabela ampliou com titulo, rendas, & privilegio de
Vnivcrfidade, Em outro bairro cílàa Igreja .Cathc-
dral dedicada a Sam Patrício, & junto a ella o Paço do-. '-**-
Arcibifpo.
V' A caufa, & motivo, que ouve.paráflqHibernia fofle
íogeita a Inglaterra, he o feguinte. Era efia ilha poí-
fuida de muitos Reys pequenos, que com inveja, & erou-
laçoens, que entre (y continuamente tinham, viviaõ em
perpetuas difeordias: de que tomando occafiam Henri-
que II. Rey de Inglaterra, ajuntando hõ copiofo exercito
entrou côelle em Hibernia no anno 1172.3c rendendo a
ilha.fogeitou os Régulos, cj voluntariamente lhe deraro
ã obediência cõ todos os mais do Rey no; poré não ficou
fttais q" cõ titulo de Senhor, q todos os mais Reis tiveram
atè Henrique VIII. o qual nas Cortes, q celebrou cm Hi-
i bernia, fe fez intitular Rey pot todos os eftados delia. A
gora ha poucos annos (fegúdo fe cota) nas alterações, &
motins de Inglaterra fe rebcllàram os mefmos Hibcrnios,
& CõfefTando publicamente a Fè da Igreja Romana, fe cõ-
fervàõ nella cõ grade Chriíiandade,& zelo do culto divi-
no, fortificado Vflleroíamente o feu Rey no, & ilha para
©s aíTaltos, que nella quifetem fazer os Ínglefes, con-
tta quem fe levantaram, por ferem Catholicos. Po-
rem quando actualmente eferevo eflas coufas , vie-
ram povas, que o Parlamento de Inglaterra mandou
Q_ aefta
241 Hifionà Vnnierfd.
aefta ilha huma armada, que aííolou duas 'cidades prin: 4
cipais, náo perdoando a molheres, velhos, nem mini-
nos.

CAPITULO XXXVIII.

Emqúefetratade Holanda, Zelandafir-


outras 'Províncias cirmnvifynhasi j
.' ' :; ' " ,
HOlanda eftá fituada naquella ilha, que antigua* l
mente feChemou Batavia; no qualnocnç íe en-
cerra tudo, o que fica entre as duas pontas, ou enfeadas
do rio Rheno, & o mar Oceano; de modo que alem
da mefma Holanda eoroprehende também o fenhoiio de
Vlcraje&o , & a parte Septcntrional do Ducado de
Geldria . O qual. tudo no tempo do Emperador Calí-
gula era propriamente o Reyno dos Batavos (como
xefere Suetonio ) & Plínio lhe chama a nobre ilha
Batavienfe . O nome de Holanda (fegundo Luís
Guiciardiqo Italiano, & aquém figo nefle tratado ) fe ]
compõem de duas dicçoens, Hol, que fignifica Con-
cavo, & land, que quer dizer terra; o que tudo jun- .
to fe intitula terra concavai a rezam he, porque ca-
minhandofe por ella a cavallo, cu cm coche, em mui- '*■
toslugares treme a terra, bem aííi como fe efti.vera na-
dando fobre a agoa. O que claramente fe deixa ver
de hum cafo admirável, que ha poucos annos aconte^-
ceo junto a Harlemo; onde em diftancia-de huma le-
goada cidade, andando pafeendo huma vaca, a cafo
cahio em huma cova, & dshi a três dias fe achou à-
fogada em hum lago, que eílà junto â cidade. Don-
de
i'j:■ x:-,-??.
LvyrQj.ÇàptdoXXXJZIII. Europa. 243
% íáe parece que a terra naõ tem alli, outro fundamento
V »ài$ que agoa, & què nella fe íuftenta , &.eftríba. O
V que em particular íe experimenta naquella regiam de
Holanda a quem commummente chamaõ VVeterlan-
*■'/ dia, que quer dizer terra aquática, defronte da cidade de
Amfteiodam. Também em Arthefia junto a S. Audo-
noaro eftà hum grande lago. onde andam nadando mui-
tos pedaços de terra,& tam grandes, que fe apacentão
r gados nelles: fendo afíi que o tal lago não tem altura»
& firmeza para fuftentar effa maffa de terra, como a(T,
1 tem o Oceano. Plínio no/livro 2. capitulo 95. faz tanv :
bem menfaõ de algumas ilhas, que fempre fe andam
JS, movendo fobre as agoas, aproveitanoofe os povos cir-
cunvizinhos delias para os gados, conforme à diftiibui-
çaõ,& dias, que lhes cabem.
Osterminos de Holanda pela pattcido Norte,
& Occidente , he o Oceano: pelo Meyo,'dia o'rio
Mofa, & Bcabaneia: Sz pelo Oriente o Ducado do Gcl-
dria . He efta Província regada dos grandes dous rios
Rheno, & Mofa; dos quais os moradores com grande
induftriá, & artificio tem tirado tantos braços?, & canais
navegáveis, que não fomente cm todas as paites fe pode
ir de hum lugar para outro por terra, mas também pot
# 'agoa,fendo toda aregiaõ ehea de lagos, eofeadas, & tan^
• que», com varias ilhas, que fazo Rheno, & ornar; fen-
, do efta a caufa, porque aqui fe produz muy pouco trigo,
Sccenteo; mas hecom abundância provida de Dania,
& das terras Septentrionais, que vulgarmente fe cha-
mãó Oofllandia.-i como também do, vinho, que lhe vay
de muitas partes, Linho feinão produz nella , & com tu-
do do que lhe vem deFlandes, terra Leodicen/e,& Oof-
tlandia, fe lavra o mais fino, que fe fabe em todo o
mundo.
Q.z As
;
.244 HiftoriaTJniverfdl.,^^. _
As riquezas, de que conda Holanda (ale ta-.)<&$ W
Corroens, que em cercas- minas;&'jveas fe tiram, que fie a
denha.ique íe queima nella) faõfcxtiliífímos paftos, OQr
de fe cria immeníidade de gados , principalmente
cavallos.ác boys, dando as vacas cada dia dous canta:V,H,
ros deleite, de que íe faz manteiga, & queijos* que fe
levaô a Alemanha, Inglaterra, Efpanha, Portugal, Sc
outras pattes. Do carvão, que fe faz dos torroens que
já diflemos, vendido cmdivcrfas regioens fe colhe grã-
-. de quantidade de dinheiro. Tem Holanda de compil-
ado quafi íclTeota Icgoas, mas he mtiy eíheita , pois o
mais largo mal chega a íeis. E nefte pequeno.interval
-lo encerra vinte', & nove cidades, & villas muradas
As cidades principais faõ Dordrechto, Harlemò, Del-
fos, Leida, Amfterodarn, & Gouda. Alem difto teta
quatro centos lugues, &} aldeãs, fendo muitas muy po-
pulofas, & de muita, gente. São fogeitas a Holanda
algumas ilhas , • como fam Flevolandia., Theííalia,
VViringia, Vrca, Enfia, Vornia ,'Go'ereda »& Coren-
dica. ,y
Dordre£tho he cidade antiquifíimá delta Pra-,
vincia, fitmda junto ao rio Mcua, correndo tarnbem
perto delia Rheno Mofa , & Linga ; por rezam do
qial concorrendo de todas as partes asagois noanno .
d? rtiil,!& qu3£toceritos,.& vinte,& hum deixaram a rida- «>
de pofta em f >rmi de ilhj, fobmdo o Oceano coro a ve- J^f
hemencia de fuás correntes peitos ditos rios & do cam-
po, que dmteseftava entre a cidade, & Brabancía, fe
fez hum dilatado, & "grande hgo< fovettendo de-re-
-•jwritefetènta; & dous fimofos liigaris, & .nelles;rntós ,
de cem mil homens, que com fuás fazendas perece-
rão naquelle horrend), & efpantofo diluvio. He Dor-
drc&ho cidide famoía em poder, riquezas, & >fump-
tuofos j
I '^Lh^í^afMoXXS^Ill.mrop^: 245 *
e ioofos edifícios, cujo templo, principal he dedicado à
SSaeratifiima Virgem. Harlano he também cidade il-
laftre, & de tam grande trato de lans, que fe laviam nel-
la todos os annos pjffante de doze mil panos. He a
." royaor de todas as de Holanda com íumptuofos edifiti-
«s, amenos prados, ck fombtiosbofqucs-
Nos annais de Holanda fe conta, & o refere Ia-
cobo M .je o, que no anno de Chrifto ,rmlv-& cjuatro-
i ' centos/ Si tres, foy levada a eflacidade huma molher*
marinha, ou ferca núa, & muda, a qual tomàraõ os;
:
pefeadores cm hum lago , para onde as coimentas de
mac a tinham lançado. Dctaólhe veftido , & pouco a
apouco fe foy colturoando a comer pfov leite , Sc fe-
mclhantcs iguarias , íervindo na caía, mas perpetua-
mente muda. Não he de menos nome a cidade de Delv
'fos, onde no anno de mil, & quinhentos, & trinta, Sc
féis aeonteceo avet hum grande incêndio, que abra->
zou>a mayor parte delia. Ncííe incêndio fe obfervou
huma eoufa rara, digna de memoria, 6c he que crian-
do nos edifícios deita cidade muitas fegonbás, vendo
que os filhos fe hiam abrazando no incédio, acudirão
tratando de os livrar das chamas, -mas vendo que não
podiam, podas fobre os ninhos, fe deixaram abrazarcõ
elles. Tal como efle he o amor natural, ainda onde faU
ta a rezarn>& o difeurfo.
Leida, que por outro nome fe chama Lugduno
dos Batavos, he cidade muy rica de natos, & comrwef»
<ios, & nella >ha as mais fermoías molheres de toda
Holanda. Amfterodam he cidade nobiliffima, & muy
papulofa; & depois de Antuérpia, a mais frequentada
de todas as naçoens do mundo, porque a dia concor-
tem as mais da Europa, em particular -todas as .Ptovin-
Q_ 3 cias
2$6í , .Miflõria XJmvetfd..__. A v ' *
cias Belgicas, França» Inglaterra, Portugal, Efpanha <
Alemanha ,-•'.Polónia , Livooia , Norverga, as terras
Hkrrfaaticas: Suécia, & as roais do Norce, fendo E/cala
gètat-]pa/a^tod.ois os «omrnercio&:£í|á fundada em hum
gijajijíd.e-lagia.fobre vigas, & outros materiais, que com
grandes difpendios cada dia íe lançam nella, para forti-
fic&çiHi&doS' edifícios.
-snítap ^Agctra diremos do Condado de Zelanda,
que conftfrde diverfas ilhas ., Huns dizem que faõ v
9Uinze,..(Sc outros, dezaíeis : porem entre eftas fómcn:
'.,^,fete íaô de confideraçara, Scaldia, Duvelandia, Tola, ^
Valachria,vZuibdevelandia,:Nordbevelandia, & Volfrcí
dica.-Pela parte iio mar .eltam defendidas, & amparadas^.
cõ huns montes de a roa branca,-que as agoas alli ajunta-
rão .-pelas outras partes as cercam os rios j & por-
que o mar fobe por eltes com grande impetu, & .vc^
hemencia, lhe puferam huns marachoens, ou vallados,
a que cornmummentc chamam Diques, queas naõ dei-
xa õío ver ter das-?on das;-. Tem cites Diques dez palmos
de largo, & de alto vinte , &' cinco ,- feitos coro gran- .
de ind.uítria,.& rdiípendios ordinários.-, de ladrilhos.,'Sç
argamaíTa.; forte ^í.&.íolida, & onde. :a agoa eflà ba-- t>
tendo,.«c.briraõ:tudo de bitume, ou breu groffura-de
dous dedtís , trabalhando continuamente-em'reparai ^
o que fe vay gjftando, ou arruinando , para o qual
tem'aplicado :da Republica muy amplas , & grofías \
teadas. .».■■'. Ètzovtit
He o território de Zelaoda muy fértil, & pin^
gue, & como tal àlcrxi dos mais fruitos produz trigo
perfeitiílímo, &.todo o género de firo pies, & ervas me-
dicinais , ' Ene-terra- tam temperada por rezam da
vizinhança do mar:,1 a .qual nefie clima fae favora •
é £> vel
' • vel, & etiador', que-tis gadtís leunsm,, recolhem dos
^ fámpos » ncoode in^ernõi, riem de .veiam;. t.IPrcdin
v
i niuira Raiva , que íe manda a todas .as cartes da:fiiif
xopa com grande abundância; & hum género .dcbi*
-.'turpe, ou torroens, que; lhe fervem de lenha, aque
os íflQradoieiSi^íbaaião -rBartiogirS mas -hfc..perras -gran-
des impoftas: Contra, o^uem os -tiwjUotOnflOSi Diques;
Tem; eftas ilhas oito povoaçoens muradas , ,çjue jfacn
f " Midelbugo, Zirizèa,- Gampoveriar, Fliífiflga: f." Tola,
o campo de: Martinho » <Roí*içtft»táJtfIVíI^G Goe,^.
ía , alem de sento, &dous lugares ;p<&v<!.ados de mui'',
[ ta gente. He grande a induflria deita naçam em def-
fccubnrem novas terras , & em rectperarem as que
o mar lhes tem alagado: porque em viadoo veraõ, no
tempo , em que a raarè lhes dà lugar, concorre grande
raultidaõ^djfgente, & em breve fazem Teus., rnaraeho-
ens, & Diques, & lançando todas':as £goas "fl&a, a terra,
que fiea, lhes correfpondc com tanta abuijdancia de fru-
tos, que daõ por bem empregado o trabalho, & euf-
tos, que fizeram.
Todas as provindas Belgicas , que por ou-
tro nome íe charnaõ Patzes, ou Alemanha baixa, fam
defafetc, Brabancia , Linaburgo, Leccmburgo , Gel-
0 dria , Flandres , Artefia , Hanonia , Holanda, Ze-
. landa , Narourcho , Zutphania , Antuérpia , Frifia,
Vltraje&o , Tranfifulania, Mechlinia , & Grolinga.
Deftas fe rebelíaram oito, admirtindo os erros de Lu-
thero , & Calvino , negando a obediência à Igre-
ja Romana, & a feu legitimo Príncipe elB.ey de Eí-
panha .• as quais fam Geldria, Zutphania, Holanda,
Zclanda, Frifia, Vltrajctto, Tranfifulania, & Grolin-
ga.
Qj. Muitas
QX

^
148 Hiftoria XJmuerfal.^,^ ''
5
Muitas outras Províncias ha de menos nome ,
como DuoKerKe, que <he Republica livre, debaixodá
protecçam delRey Catholico; >Reih»a, que faõ osToG» '
cos, ou Tudefcos os Helvécios, & Celtas, que confe-
v
derados com O'Império tem fuás Rcfpublicas, mas faõ ó~
naçoens pobres i& que vivem do eftipendio, que fe
lhes dá na milícia, em que andão, feguindo as partes .
dos que melhor lhes contribuem, &.pagaõ o foldo. _ '
Temos dado fim á diferipçam das regioe3> 8c
, -r
Províncias da Europa, fegúdo o que po-.
• demos alcançar dos Authorcs,
que eferevem delia;

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^ E M Q_V E S E T R A T A D E
ÁSIA, SE VS IMPÉRIOS, E MONAR-
CHIAS, REYNOS,E PROVÍNCIAS..

LGVMAS rcgiocnsnoí ficaram por re-


latar na Europa, quais, por cftarcm de pre-
fcnte fogeitas ao poder, & Império do graõ
Turco , refervamos para ncfte livro fazer
menfaõ delias, He Afia julgada de todos os
Geógrafos, porfer a mayor das três partes dbOrbe.aífí
pelas dilatadas terras, que oceupa , como pelos muitos
Impérios,. & Rcynos* que fe encerraõ nella. Começa
pois efta nobilifiima regiam nas fontes do tio Tanais, q
fae logo da terra muy fecundo* ôtábundante- de agoas,
nos ;montas Rifeos^ebaixo do Septcntriam;&fazendo
feu- diktado «itfo.pcrr diverfas terras, & Províncias, com
que divide Afia da Europa, fe.mete na lagoaMeotis, a
qual fica em pouca diftancta da cidade de Gonftantino-
pia, onde o graõ Turco tem fua Corte, & ordinária afíif-
tencia, porfer quafi o mcyo de toda fua Monatehia, 5c
Império, como adiante fe dirá. E efla he a rezam porque
por clle dou principio â diferipçam de Afia difeorrendo
pelos mais, fegundo a difpofif.am de feus afletos, & fitios.
He

.
. . ... ;*«^;>,
2jo . Hlftoria \)niverfaL esaBSS m '
Ha Afia entre as três partes do mundo de mayor,
Scmaisexcellente dignidade, que as outras: porque fiei-
la pos Deos o Paraifo; nella formou o primeiro home;
nella fe dividiram as naçocns viveram os ProphetasAPa'
triarchas; nella naceo a Sacratiffíma Vigem, & o Filho \"--,
de D-'os fe fez homem, obrando tantos rnyfteiios, &
padecendo pela redempçam do mundo. <■

CAPITVLO I, ■

^C
Em quefe referem as defcripôoéns, 'que três-
''' ■ ■

Çeografbs infignes fi^erao do Império, &f


z5MLonarchia dogrão Turco.

O Primeiro Author que figo nefta relaçarnda Tur-


quia he Ioam Baptifta Montalvam Bononienfe,
Philofopho, & Doutor in utroque íure: o qual lhe dá y
principio na meneira feguinte . Toda a Turquia (c
divide, & fepara de Itália,: Alemanha» Polónia, Mof- A
covia, Tardaria Perda1, índia, Abexins, & Libia por \
toda a eofta de Africa até Gades no eftreito de.Gi- ^
bralcar ; de Efpanha ,'& de França , flcandolh.es ■ ps
mares no meyo ., Efta feparaçam -fazem os montes ■*"]
Alpes, o mu Adriático , os grandesirios Bòrifthe-
ne , & Tanais, as montanhas, & lagos , ■ os ■ contí-
nuos montes ., mar>HiMano , as íolidpens^v >&'.d'er
tfettos, os campos de área, & o mar Medttewaneo.
•As mais terras da Turquia rodéan© - marteVermelho,
& o Oceano, abraçando os golfos Arábigos, & inv-
nienfos cfpacos de cerras: até onde habitam os Ca-
fres. -.
Jr* ^'"T^roíívCapt. I. X$ta. *^ 251
fres. CõVfoTme* a iflo cccupaô as cifias, & paiyas '
defte Império oito mil milhas deíde Veneza atè Ga-
\àes, diícotrendo pelo mar Adriático, & pelo Fgeo
(que he o Atchipelago ) na Europa ; & na Afia,
'pelo Euxinio , Ionio , & grande parte do Mediterrâ-
neo, nam fendo menor fcu circuito, medindoíe pe-
la terra. Etudo, o que fica nefte meyo he fogeito
ao graõ Tureo, que lò a clle conhece por abfoluto.fe-
► nhor. Pelo qual julgo por impcfiivel poder referir to-
dos os Reynos de tam grande Império , fuás Provín-
cias, povos, cidades, & ilhas. Sòdirey, que exeep-t^
ta Itália, França Efpanha, Alemanha, Sarmacia com-
^íuma pequena parte de Vngria; tofcs as mais. ter-
ias, que antiguamente foram fogeitas ao Romanos,
de preíente eflam debaixo do Império da Turquia;
tomando á Chriftandade tantas províncias, & Rey-
nos, que íómente de fe referirem pode refultar gran-
de fentimento, & penas aos ânimos bem affettos, con-
fiderando as perdas, que por occultos juízos de Deos
lhe tem dado cites bárbaros, & cruéis inimigos de fua
Fè, & Igreja.
A fegunda relação da Turquia he feita por hum
Embaixador de: Veneza em Conftantinopla, referido
P por Honcrio.na forma feguinte . Depois que o Impé-
rio Romano fe foy atenuando, & diminuído, nenhum
dos Príncipes jà mais fogeitou tantas Províncias, & Rey-
' nos à força de arm3S, como o Império Othomano.
Porque começando em Dalmácia, que confina com
Itália, fe eftende até o Epiro, & cercando todo Felo-
ponefo, & Grécia, & a mayor parte dís ilhas no Ori-
ente, fe eftende por efpaço de mil, & quinhentas mi-
lhas | atè Conftantinopla. E lego das prayas, & cofta
do Ponto Euxinio (que agoia fe chama mayor) por
k Afia
» < RJ? fe --*© «< .V

' Aú*a atèosúltimos términos da Eutopa.^É"difcôrrená*«t w


porcfpaço de outras tatnas milhas pelo mar atè . f.gyp
to, fe eftende ao Nilo, & vltiroos fias de A(u. DUU vsy
caminhando para A fricaf cujas prayas, quafi todas poí-
foem os Turcos J atè o eftreito de Gibraltar , mando ai- v \
guma pequena parte, que poííueni os Reys de Eípanha,
& de Portugal. Todo efte cfpaço do circuito do tau-
compreheodeoito mil milhas, hão fendo menor o tal
circuito por terra. POí toda efta diftancia nos lugares.
mediterraneos ( excepeo o território de Tripol para a
7"Vr,>arte de Alexandria, que hc inculto. & inhabitavel) ate
o Egypto pofiuern os Turcos buma fcrtihflima rigião,
&dahiaté oOcCano: donde fem interropçam alguma
pelo mar vermelho, prayas de Aden, ScGhimon, & pe/
lo Euphrates, & barra do Tigris fe eftende ate o golfo
Períico; por onde com dilatadas diftancias confina com
oReynoda Perfía.atéquafi o mar Cafpio, onde tem fu- 1
asdemarcaçoens com os Georgianos, Mingrellos, Cu-
cados, & outras naçoens até chegar à vitima parte de
Afia, por onde corre o Tanais. Logo entra na Europa
occupandohuraa, & outra parte do Danúbio; onde lhe
faõ vizinhos, & tributários o Bògodano, o Valacho, & o 4
Tranfyluano; donde caminhando a Vngria , demarca cô . \
as terras do Emperador de Alemanha, & difeorrendo . '
por Crojcia.fe eftende ate Veneza. Eftá dividido todo
efte Império em vinte Governadores, ou Belebergos, *
que poí outro nome fe chamão Baxâs. Três eftãonaEu •> ■*

ropa, queíaõode Grécia f o qual he mayor, & mais po-


derofo, que todos os outros^ o de Buda, & o de Temi-
fuuar.Em Afia eftão treze;o de Natolia.o de Carama-
nia, o de Datiafco, o de Alleppo, o de Tripol de Syria,
ode Babilónia, o de Bítfara.o de Caraman, o de Edra,
o de Livafio, o de Manfio, & o de Chipre. Os de Africa
faõ q
*' *T%tolí:Capt
faô tresTo-Tto Cairo, o de Tripol.ôc o ce ArgeL A c$ quais
íc ajunta o Gcnctal/âo mar, que governa em todas as
.UhavSecoftasmaritimas.
A terceira reláçam tirou Ioao deLaet da Polt-
*teja Regia, fcheckfte modo. Comprehende o Tur-
l co cm íeu. Império'; as principais partes de todo o mun-
do : Porque na. Europa oceupa toda a cofia do mar, que
corneta nos fins do Epidauro,& íe eftende eté acabeça.fc
y barra do Tanais entrando a qui tudo, o que ha entre Bu-
da. Conítantinspla, & o Ponto Euxioio. Nefta diftan-
cia fe comprehende a melhor parte de Vngtia, todí';,-->
Sofria, Scrua, Bulgária , Macedónia, Epiro, Grécia,
^Pdoponefo, Thracia, & o Archipela^ com mas ilhas.
Em AGa, & Africa tem tudo o que ha dcfda adade de
Veles de laGomera até Alexandria do Egypto: defde
Bugia aGargala.- dcfde Alexandria até a cidade de Sy-
■cne: & defde Suez ate Suachen. A magnificência, &
mageftade deite Império fe pode colligir da grandeza
-de algumas de fuás partes : porque a hgoa Meotis
fa qual he toda do Turco) tem em redondo mil mi-
.lhvs. O Ponto Euxinio tem duas mil, & í.etema. E
tud^oque poffue na êofta domar Mediterrâneo con-
tem oito mil milhas . O Egypto , que todo hc feu,
, palTa de quinhentas. De Taunfio atè Boda tem três
-m.l, &■ d-'zericas milhas: avendo outra tanta diflancia
defdé Berbento pelo mar Cafpio, até Aden no grifo
Arábigo. Dflde B Liara (que hc Chaldea j pelo mar
Pe.fico até Tremcfem em Berbéria , pouco menos de
qoatro mil milhns.. No martem as nobihíímas ilhas
de Chipre, Eobea, Rhodes , Samo , Chio , Lef-
bo, & as outras do Archipelago. Em todo <f e f^pa-
ç-o fe contem regioens amplifílmas, muy abundantes,
>& ricas , como famiO Egypto, Africa, Syn?. Afia,
fc*rt Vngna,
254 Hiftoria %)riwèrfal.
Vngria, Grécia, <5c Thracia. \ >o . **"~X."
Ncftas Provindas tem o Turco quatro «idades
das mais populofas & opulentas do mundo, Conftanti-.
nopla, o Cairo, Aleppò,& Taurifío. Conftantinopla le-
va vencagem a todas as cidades da Europa no numero*"
dos moradores, poisfe affkma, que palia de fetecentos
mil vizinhos. Aleppo he a mayor cidadede de Syria,&
quaíi centro, a que acodem todos os comércios da A-
fía. Taurifio a mayor do Império dos Petfas (a quem ha
pouco aromou o Turco ) paffa de duzentos mil vizi-
r
\ nhos. O Cairo entre codas as cidades de Africa tem o
primeiro lugar,fuppoftoque alguns affirmaõ.que Cano
fe lhe iguala natgrandeza... O Cairo he como cclleir©*,
não fò do Egypto,8c de grande parte de Africa, mas dá
índia, cujos theíouros pelo mar Vermelho, & depois pe-
lo deferco em Cáfilas, levados a efta cidade , fe diftri-J
buem pelas regioens do mar Mediterrâneo . Da qual ci-
dade trataremos em outro lugar mais por extenfo.
Eíte Império do Turco de pequenos, & humil-
des princípios chegou acrecer tanto, & fazerfe iam grari-
ide, que he temido dos Príncipes Chriftaõj pelas armas,
a quem deram grande ajuda, & forças as difeordias, que \
entre elles ouve Os eftartagemas militares dos Turcos,
foram fempre eítar aparelhados, & promptos pára offen- %
derem, &fe acautelarem do inimigo: ufar nas expedi- .
çoensde hurna refoluçam, & brevidade admirável; ter
prepirados & quafi à amaõ os exércitos : não intentar
muitas coufasem numa raefma oceafiam. Naõ pelejar
com algum muito tempo; porquê fe não adeftre,& exer-
cite nas armas: não gafhr tempo, & dinheiro nas expe-
diçoensde pouco momento : não aquirir como de fal-
to, mas muy devagar. Também lhes foy de grande uti-
lidade acompanharem ordinariamente,os: Pjincipes .0
feu q
tr^" •*
• Livro.II. Vapt. II. ^fa. \5y
i> feu exercito- Dcfta íbite aquirio acafa Ottomana tan-.
, tos Reynos por cfpaço de trezentos annos, & defdode
1500. até o prcfente ganhou, 5c conquiftou mais da ame-
tade de feu Império.
Propus as defcripfoens defiestres Authores,para
que onde algum falta, fupra a narraçam dos outros con-
cordando todos nç ampliflimo poder deite Monarcha.-
. o qual pos fua Coite com grande confíderaçam,& difeur-
lo em Conftantinopla, que eftà entre a Europa, & Afia:
para que da hi eftiveíTe predominando neftas duas par- ,
tes do mundo» facilitando a paflagem a feus fubditos, &
vaffallos, aífi por mar, como por terra, & impedindoa aos
inimigos com poucos difpendios, & prepraçoens de ar-
mas. He efta cidade íaudavel, &de bom clima, mas o feu
território menos frefeo, & fértil; porem ella em (y muy
accommodada para os navegantes, cV perigrinos; para
recolher gente de guerra, & para apreflar exércitos, &
armadas; rezoens, porque também QsEroperadores Ro-
manos habitavam nella,

:
CAPITVLO II.

' TioszÃfricanosfogeitos ao grao Turco.


. - - .■ . ' rn
SVppofto que Africa tem pouca gente ioduilriada
namilicia, com tudo os q.ue afeguem, faõ. deffros, &
vaierofos nas armas, & por iflo o Império do Turco rão
he tam dilatado nefias partes. Nellas eícalfamchte fe
-acha velligio.ou.final do nome GhriflãP, porque alauns,
qucamda oobfetvam, profefíam a leda.Ncfirriara'mif-
turada cô innuweraveis enosi luppcfto c/ie ha (ocípto
'
-V
x^6* Hifiorla IJniverÇd. j£ ^ ^d
no Egypto ) grande numero de Chriftãos cativos . Os *\
moradores fam o primidos, &avexados de tantas tyran-
nias, & injurias, que em comparaçam defies fe tem es A-
fiaticos da Europa por venturofos, & mais bem afortu-
nados , Aqui não podem andar a cavallo, nem trazer ar-
mas, ou ferro algum mais que alviaô, & machado; & aili
cultivam a terra com relhas de pào nos arados. Se os
Turcos lhe fabem de alguma couía boa, logo à força
lhatomaõ, Sc aííí os miferaveis não tem outro remédioSr*
_- mais que andar fcmpreéícondendo tudo, vivendo rnuy-
'^ pobremente, porque nem tem camas, cm que durmão,
nem cómodo akum para o ufo quotidiano. A opulécia
5 i
do Egypto (dePque adiante faremos mais copiõfa rela*
çam ) a fertilidade da terra, a immenfidade dos morado-
res, asinnundaçoens do Nilo, a grandeza do Cairo, as
maravilhas das Pirâmides, 5c outras coufas admiráveis
defta regiam fe não poderá ja mais acabar de relatar, &
encarecei; fò digo com Ioam Baptiíta Montalvão, que
fuppofto que depois que o Egypto fe fogeitotiao tyran-
nico poder do Turco, perdeo muito de feu antigo ref-
plandor, & felicidade, com tudo ainda hc a mais rica &
profpera Província de todo o ImperSô Ottomano, don-
de colhe o Turco tantos reditos, & tributos, como da A-
fii, ou da Europa: & poriffo nãodà o governo delia fe-->
náoao Vizirio mais confidente, & valido, fendo eíta a .
músauthorizada, & rendofa praça de todas, depois da #.
Arábia Félix.
O Egypto tomou o Emperador Selim no anno
1516. aos Mamelucos, entre os quais naquelle tempo
prefidia hum por nome Tommabais, fendo morto à trey-
çaõ oSjltam Canfave Giuri no anno 1514. Começa-
rão os Mamelucos em tempo do Emperador Frederico
II. & lhes durou o feu governo pouco menos de trezetos
annoi. ,
■>. • Uytà H- Capi. III. */JJia.- 257
annos. Foraõ grandes foldados, principalmente de cavai-
lo. Morrendo o Sultaõelegiaõ outro do corpo dOcolle-
gio, tendo todos o voto livre. Todos eraõ Chriftãos.ou
filhos dellfs, nem a fuás eleiçoens admittiaõ os Árabes,
Saracenos, Mouros, Hebrecs, ou Turcos. OsmaisRey-
nos de Africa fogeitos ao Turco, mais fe govcrnaõ a mo-
do de Republica, que pelas Ieys do Império.- pote] quanto
mais diítaôde fua Corte, tãto mais lhe negaõ aobedi»
cncia,& menos fe fogeitaôafeus preceitos, & ordens.
A parte pois de Africa, que lhes he íogeita, divi-
dem os Turcos em cinco peifeâuras, ou governos. Mif-
fir.que he o Egypto, dão a hum Vezirio^qhe como Vi-
forcy) & as outras aBaxàs, qrefpõdema Governadoreí,
& aífi o primeiro deftes prefide aos Abexins naquella
pirte da Ethiopia, que confina com o Egypto, a qual o
Turco tomou ao Emperador, tj comojumroente fe cha-
ma o Prefte Ioaõ. O íegundo prefide em Triphlis, cjhe o
Reyno de Barca, & agora fe chama Lybia, pela mor par-
te deferta. O terceiro em Tunez, & o quarto em Tremc-
zem, cuja cabeça he Argel. Confina com éítes os Rey-
nos de Marrochos, & Fez, junto ao mar Gaditano, go-
vernados por feias próprios Reys; porem compram fua
quietaçam, & liberdade ao Emperador Ottomano porda^
divas ricas, &: muy grande quantidade de dinheiro, que
lhe pagam.
■: 1 . . . • -:

CAPITVLO III.;■ • . . ■ .. .

T>as regiões, que o Turcopofsue m Europa.


~ A6: ha duvidarem q as províncias, q o Torço tem
narEuropa (fupofto q cm muita parte atoladas, &
R def-
^ d. ^- ^ v;;, ) ■

dcífruidas) lcvaõ ventagem às que pofluc em Africa^ :


aííi no clima, como na riqueza, fertilidade, 5c abundân-
cia; como íaoas partes de Grécia, Thracia, Macedó-
nia, Epiro, & as que tomou ao Rey de Vngria. São to-
das éítas cultivadas com grande induíhia, & cuidado
de feus moradores Chriftaõs, porque os Turcos nenhu-
ma coufa cultisaõ, antes ufurpaõ aos pobres" valTalIosy
íem alguma piedade , tudo quanto podem* affi dos fru-
tos da terra, como dos gados, que criaõ. As partes da> V
« Greeia na Europa, que laõ as ilhas do mar Egeo , ou
"^Archipclago, Achaya, & toda aterra firme até Conf- .
tantinopla, faô .fiorentiííimas . habitado tbdo de Gre-
gos Catholieos",' & Gifmaticos, mas tyrannizados to-:
das as horas dos Turcos. Amayor pane das ilhas
eflà deferia, & nas que fehabttaõ (excepto Chio,
Mctileoe ,, T-heffjloniea,. Samo, & Eubèa ) não.mo-
rão M-ihometanos alguns, mas-cada hurra tem juiz
Turco, que chamam Cadiz,oqual n.iôtem outro or*
denado, &, fjllaio mais que o que tira das perperuas
altençoens, 3c difeordias, que ha entre es Cifmaticos, |
& Catholieos.- & eíta he a cauíá, porque os Catholi»
cos mais vezes carecem de Sacerdotes , & Minilbos
Eeclefiafticos. ^
Não foraõ poderofos os trabalhos, a perdida ->
liberdade, as fomes, & neceffidades, para que os ■jGi.f- •
maticos Gregos defiítiffem da eôrumacia, porque Deos
caftigou feos agijrpaflàdos; com o mefmo ódio ertaõ
contra os Latinos, & Igreja Romana- Daqui procede,
que fe alguns Sacerdotes, ou-Bifpos Catholieos vaõ à-
qucllas partes^ os Ciimatícòs os vaõ logo acçufár, diiê-
do que iam efpias. Pelo qual lhesile necelíario fugir, oa
fe os prendem, não eCcapam comi vIda,. fenáo. à força ete
muito dinheiro, A ilha. de Chio hc a mais povoada d«
Ç«chor - j
' GathoJÍe<ft;"t6 Conventos çle frades, ; GpUegios da. Com-
pahhia delefu, &efcolas frequentadas ao rioflbí: rxiodo.
Era Cõítantiiiopla,.&Eera (z que os Turjeps charolo Ga?
lata) ha Igrejas .publicas, çõ muitos Sacerdotes Catholi-
eos,& liberdade para fem íofpcica alguma fe poder tratar
cõ elies. Qs mais( até os fins de Bulgaria/aõ Qfmaticos
pertinazes, femetidos, & falfarios: Sc por ifib os. rTureos,
. ainda<j alguns fe convettão a fua fetta, psnão admittera
'a cargos, & dignidades: mas em lugar delias lhes dão po-
der para prégarê a nova feita,qprofeffam, & quefepof-
íaõ chamar os mais devotos, -& zelo/os delia.
Depois de Grécia, Thracia, &,Macedónia fogeitas
ao Turco, fe feguem o Epiro, Bulgaria,%c Servia Em to-
da efta. diftancia não ha Mahomecanos, fó he habitada
de Gregos cifroaticos: & fe efies fe não queixarão de q
«s Cacri.oiicos lhes ofurpavaõ a jurifdiçaav fazédo entrai
<m fuás terras es Sacerdotes Romaairs, jàòs mais dei-
les ouveram deadreittir a Fé, 3c ritos da Igreja Latina. E
o que allegão d iate do Cadizhc q fe. fe diminuírem , &
fic/aré poucos, não poderão pagar os tributos, fendo elles
tais q o Patriareha de GOíiftantinopl? xõtriboe todos os
annos ao Empcrador trinta mil eícudos' de ouro , àléde
3mixitas.defpefásJqfazcõfuapefíoaj&cafa.oqual tudo tí-
l-ra dos miferavêis Sacerdotes, da Cua religião idos frades,
f&.gõtcplebéa por.divleríos modos, & extrofoens violetas.
-G.Emperador Ihe.dàrioidados^r&ianizaros írnalàdos pa-
ta;fu3^uarda,!& para cõ elles obrigar & executar osde-
vedoíèsiíDas Provindas maisdifianfes tiraõ os Turcos
•muíEi gtae.rrulirar* porcj d imi fruindo! hes. as forças, fenão
xebollííuç Sílevjnték Emtàdòtf> Império eáo hacoufa^ q
•éHttsJtátb tefftãoj- comoiàindomitál&rreza des )de Epiro1,
<] cõijpcrcia fuatãtas vezes experimenraraõ, por rezaõdos
afperos, & fcagofpslugaíelem q^moraô, & habitaó, E o.q
**> B.a os
<>
Mi

i6cT Hiftòria 1)miterfal.^ '~x


os mete em mayorcs receos, he ver que~Macedoni) ,5c *
Thraoiaç-d.ue. confiriaô cem cites, íeguém fempreafor-
ttma dos vencedores, & ■partido dos mais poderosíos.
'V Aôutra-pírtc^de Bulgária,'& Servia, affi como
fe eítende por hum dilatado efpaço, afli-encerra em (y
grande ^multidam de gente. Porque primeiramente fc
acham-nêllaacâdâpallo Ghriítaõs Catholicos, nem no
Império do Turco fe pode defeubrir mais atommoda-
da feara para a converfaro das almas. Muitos deites por
. falta de^Sacerdotes deram em vários erros, & íuperfti-
' -*» çoens.né fabem ja oqerem. Obfervam os jejús.ck põem a
íeus filhos os nomes dos Sãtos com cj-fe diflerençaõ dos
Turcos;& no màisfaõ rudes, & ignorãtes. He fama q os
Padres da cõpanhiaj& outros Religiofos tiveram ha pou-
cos arinos entrada «éftas provincias,& vaô fazendo gran-
de frnito neilas. Fora do Egypto não tem o Turco cou-
fa mais-readofa.nê Reynos mais povoados> que efles, &
como tais fuftentaro muita gente damilicia. O&eytJÓ
de Bofna confina côelles,& fuppofttf"qfituãdôientre al-
tas ferrasick motes, não he menos abundáce/o^fcrtil, qás
fobredicas Províncias. He tão rico de minas de ouro, pra-
ta,5coutros metais,^ os: Turcos o guardaõcõ graod-evfgi-
lancia, & cuidado: & fó aqui cõtra:fcucoflume edificarão
fortatezasinexpugnaveis, cujo.governo não entregaõ fè-
nãdà q.uelles, tdc.q ma-isconfiança fazem* Poreim hè.tafh
feroz efta gente,: que nem admirtem os tais Govqrnádd-
res, nem obedecem em coufa alguma ao Baxá prefidem-
dente, fenão quando não podem ter outro remédio.
Nota aqui.Leonclavjo/que antiguaménteera Bofrra
repartida em íuperiot,' & inferion- das; qoáis'^finferior
tinha Rey, a qoéChalcocondilasxhama Rey dos Hídri-
cos: afuperiortinha Príncipe aquê chamavam Duqucde
S. SabéOReynotomàraôos Turcos no armo 10,63, &o
Duca-*- ,' I
vV l ->
■* •.Ç'»rd 77. G*/*f. 7/7. «yfyk*. 2<íi
Ducado, nó fcguintc, Todos os moradores faò Catho-
licos, & ter» entre fy Conventos de noflb Padre S. Frâ-
cifco,& outras Igrejas publicas . Ha nefte Reyno outra
^aftade gente chamada Potur, que não fam Chriftaõs,
nem Turcos. Pofto o Reyno de Boina em poder dos
inimigos, muitos milhares de homens fe foraõcfferecer
ao Emperador Soliman, dizêdo q queriam renegar da Fè
deChrifto, & profeífarfua fe&a, ócrcligiam. Do q admi-
rado o graõ Turco, lhes perguntou, q rezaõtinhaõ para
o fazerêjao q refpondèraõ, qéra por íe• iivrarem dos grã- s,
dcs tributos, que naquclle Reyno fepunham aos Chrif-
tãos; porquanto os que fe faziam Turras cm toda a Eu:
ropa flcavaõ livres delles, & (ò os Chrífiaõs os pagavam.
Do q fummamente enfadado o Emperador, vendo a im-
piedade deita pérfida gente- mandou qdalli por diante
pagaffem os tributos dobrados, & q feus filhos foliem to-
mados para fer Ianizaros. Pello qual ficàraõ aborrecidos
afíi dos Chriftaõsi como dos Turcos, como gente, q não
guardava religiam, né fè algúà. Os mais delles faõ Arria-
nosr & poucos Catholicos. Com os tributos dobra-
dos deramem tam grande dcfefperaçam, que muitos po-
do o fogo as cafas, com filhos, molheres, gados,& fazen-
das, que puderaõ levarco nfigo, fe auíéntàrao, & fe foraõ
meter entre os Turcos.
Eftaõ eftas Províncias da Europa repartidas entre fete
Governadores, dous faô Vezirios,& os maisBaxás. Em
Vrumeli, q he Grécia, Thracia,&. Macedónia, prefide ha
Vezirio. Adrianopolis, que depois de Conítantinopla he
a principal cidade da Thracia, em edifícios, & numero
de moradores, he a cabeça da dita Província.- como tam-
bém Philippopolis de Macedónia. Outro VcziriO go-
verna Bulgária' , Servia, Lòdoméria, Cornaria, & am-
as as Mefías com parte de Vngria; Belgrado, que por

R3 outro
zói ■ HiftonaVniverfaL
outzajiofnc (c chamaAlba Grega ficuada entre o Da>i Jf
nqbiovócSava.he a principal cidade de Bulgária; onde,
ou em Buda; que foy a Corte dos Vngaros, refide efte
Vezirio | E>os Governadores, ouBaxàs, o primeiro affif-
te em Arnaut,que.he o Epiro, ofegundo em Bofna; o
terceiro em Temeíuvan o quarto oa parce de Vngria
Vlcradanubiana; o quinto nade Croácia chamada Ca-
nifia.
M Outras Provindas eftaõ na Europa fogeitas ao-
.Turco, em que elle.poem Príncipes, fcReysfeus tribu.
!
'*Urios como faõ Dacia, Vallaehia Tranfalpiná, Moldá-
via, & Tartaria antes.do Tanais. E íe o Emperador qui-
fera reduzir eftes^Principados à Províncias, & tirarlhes
apreheminencia.de Reynos, os de Daeia fugirão para
Vngria, 5c Polónia, como os Vallachos,& Moldavos; &
Os Tártaros fe recolherão pela terra adentro, com detri-
mento dos reditos, & rendas, que lhe pagam. Saõ gran-
des as vexaçoens, que eftes Príncipes fazem aos vaffal-
los.impondolhes cada dia novas exaçcocns, &.tributos.
Alem diítoosmefmo Turcos osmoleflão, & affligem,
levandolhesos gados, & o mais que poder».
Eftes Vallachos, & Moldavos fe jactam.de que pro-
cedem dos Romanos; &. dizem que declinando o Impé-
rio deites, perfeguidos dos Bárbaros fe recolherão a ef- .
tas Províncias, cercadas de altos montes , candelofos
rios, & incultas brenhas, Todos faõ çifmaricos, & obfer- ■
yão o;ritp dps Gregos.'Vallaehia paga ao feu Principc
todos os annos paffantedc: trezentos mil efeudos; Se
Moldávia ao. feu muito mais: & elles ao Turco quarenta
miltaleros, alem do çanamq para, as galés, fevo, cera, &
as carnes neceífarias. Daçia foy antjguamente hurr.a am-
phffíma r^giaõi^quer.ftompíche-ndia. Tfanfy,luani3, & am-
tkas,as Va.liachias íupe-nor, & inferior, a fuperior be Mol-
dávia,"'- » I
r
davia, que Te eftende até o Ponto Euxinio, & a inferior
pelas ribeiras do Danúbio, & fe chama Tranfalpina. Os
r^ais Vngaros defta regiam, & Daeia, íaõ geme pérfida,
mudável, amiga de novidades, & de feguir o mayor 'po-
*der; pelo qual feaccombdarn bem com o governo, 8c
fogeiçam dos Tiweos. São grandes hereges, & contami-
nados de muitos erros, &tfoperftiçoeos. P3gaõ de tribu-
to duzentos mil efeudos, ôcitê obrigaram de'dâremviri-i
' te mil hómcniíarmadosi tadaias vezes, quc-ôEmpera-
dor-os-pède, *KA timos:-'
Os Turcos, que habitão entre ò fanais, b marEuY
xinio,o Bofphoro Cimmeno, & «Timca Cherfonefo
tem Príncipe pòfto^péio Etnperadòr aá^dfcftehdéneia
Ottòmana," qííe eíle Míâ", 'Sc^oefú quando" lhe parecei
ISIão hatjaçaõ que mái' hoTirè, & venere a íeus Prínci-
pes, pois lhes chcgãôa dar honras, & títulos de divino*,
*cndo>& julgando-por agravo feito a<*m'e#r/é Deos, dei-
Xar de obedefcei1!* fetls^-prCceítosP .Eftès (10 mais urbâ^
noâ,'Srácíoraddadosvque Os-ofetrèsVque; rnoraõ alem
do Ta'flâtá, & Vòlga, de que adiante trataremos em par-
ticular. As cidades prineipais, que tem em feu -Reyrio
faô Trâpizonda, Theodrtfà"(a quem<'eirés''c1i8maõ;-Gaf-
-fã ) Achêrni.Tn,'OxÍ3;)& BendetV fendo^itfó^difrerèri-
► Ccs'dos outros, qUeíiaõ tem cidades, neai talas, nem
ufo depaô, ou vinho,
% 3& ,í;i?í s íílA fn cm': o cifrn soflol
è'ÃPIT^X^Lt) tfÇr°'r;,'J? V ^
•bi.íicic-' :.;.FafiT «j-.^ã sb urnoí m</i ;

: ,siiíI)A m!)?í'i:ib III-.íA .f-r.IódO «o <•.


'ppO.íTue ptincipai!weraeas'fôrynò$ii& ^foÊnspqtfe
J;JL antiguamente mais que as^ootMS-fiOreíèíaôii-eto
P»4 letras
C 2fc'«
164^ fíiJiorUVnivcrfal ' *.
letras, & armas,como faõ o Ponto, & Bithynia, que pro-
priamente agora fc ch3rm Turquia. Alem difto a Afia
menor particularmente affí intitulada, a que tiles cha-
maõ Njcolia» debaixo da qual fc encerram Phrygia (â ao
prefentefe chama Paria; Bebricia c Licia , Galacia , Pa-
flagonia, Pamphylia , Câppadocia (que agora fe dis A-
mafíj) Arménia menor, & Cilicia, que por outro nome
fe chama Caramania. O circuito deita pcniníula, q an-
tiguamente fe chamou Afiamenor, & agora Natolia, té <
rx sdefde Alexandria até Trapizonda duas mil, & quairo-
.
-rt*X••-«- centas milhas. Poffuc também gtâdc parte das regiões,
que fe encerram pa Arménia roayor, que agora fe chama
Turcomania <Sc era antiguamente Chaldea. Saó muitoi
de ícus moradores Catbohcos coaveítidos, ôc doutrina-
dos pelos Religiofos de N. Padre S. Domingos. He gc-
te bem inclinada, cândida, 8c devota. Rcvercnceaõ gran-
demente ao Summo Pontífice , & (am tam «.ffciqoados ,à
Santa Sé Apoftolica, que vem muitos a Roma, fó por ver,
& fazer reverencia à Igreja de S Pedro, & bepro pc ao
Papa. Qjiando tornaôa fuaterra fe tem por bero-aven-
turados, ác ditofos por averetn vifitado os íantos luga-
res de Roma, & merecido vir, & reverenciar o Vigá-
rio de Chriflo . Muitos deites tem padecido roar-
tyrio pelos Turcos, quando tomàraõ efta terra ao Pct» \
fia no.
Poffue mais o Turco na Afia a ilha, & Reyno de
Chipre, quetomou aos Vcnczi nos, Syria, Palcflina,
ouludéa, a coTh domar de Syria defdc Foraroida até
Alexandria , que contem quafi quatrocentas milhas:
Arábia Petre*» Mefopotamia, Arábia deferta,& Ba-
bylonia, ou Chaldéa. Alem deitas tem Afliria, que fe
eftende atè a Arábia Félix- Continuafe roais eílc Im-
pério para. a parte Septcntrional dcfdc Trapizonda até _t
o Bof- ó
l > %;Ifi/ro Il.Çafit. IV ^Afa". ió5
• oBofphôtoCimmerico.quc confina am a Chctfcnc-
fo, ôj agora Ic chama Gazaria. Na qual diftancia Scptcn>
trional ^intitulada Caitacho) atè Matriga ao longo da
coita íc contamquatrocentas, & cincoenta milhas. De-
pois difto dcSuèx, dando uolta por Aiabia Fclix, aièa
barra do rio Tigris fe acha aver tres mil, íetecentas, Óc
cincoenta milhas. E affi, fegundo o computo, que te fei-
tio, dizem os Geógrafos, que o que o Turco pofiuc em
"Afia, coroprchende ícte mil,& trinta milhas.
As demarcaçoens das terras do Turcos cm Afia
faõdeita maneira. Pela parte do Oriente tem o mar
Perfico , o rio Tigris, & a cofia do mar Caípio ( que
agora fe chama de Baccu. ) Pelo Occidentc tem o
mar Arábigo ; que hc o Vermelho; o Egeo; cu Ar-
chipelagoi a Propontide , que hc o golfo de Conf-
tantinopla, & o Ponto Euxuiio, que agora íe intetula
Mar Mayor.Pelo Scptcntriam tema lagoa Mcotis, que
por outro nome fe chama o mar de las Zabachas, ôc
Sarmacia Afiatica , ou Tartaria . Pelo Meyo dia
o Oceano Auftral , ou Indico, & c mar Mediterrâ-
neo.
Ha nefias Províncias, & Regioens de Afia, pof-
tos pelo Turco trinta Vezirios, ou Bclcbergos. O de
» Natolia, que refide na cidade de Catayo da Phtigh rra-
yor. Ode Caramania, que affile em Calfaria de Silicia.
O de Sivas cmSabafte. Ode Paphlagonia, tm Amafia.
O d: Dulgadri, o de Aleppo: o de Scham, em Damafco.
Ode Tarapolos, cm Tripolde Siria O de MarasemMá-
raíTuro de Mofopotamia: o de Diarbechir cm Amida. O
de Bagdad em Babylonia.- ode B-lfara no grifo Perfi-
co: ode L3xacm Carmania .• odeGemenna Arábia Fé-
lix: o de Chcbctz nos Abexins da Ethiopia: x> de Miííit
^po Cairo; o de Chiptc cm Nicofia, ou Fàmagufia:
*' ode
• V
z66' Hiftoria %)nmérfal. Í&V
o de Scheherezul em Afíiria: o de VVuan efa Media,âc 4
Arménia mayor: o de Arzero nos Georgianos: o de
Tiphilis em Media.- & o de Siruan na meíma Província o
de Tcmircapi no mar Cafpio naquelle lugar, q fe chama
Porta férrea. O de Carie em Perfamenia Província da
Arménia mayor: o deSchildir nos confins dos Georgi-
anos: odeFaffaem Memgrelia: ode Sochojunco aos
Georgianos: o de Barin em outra Provinda vizinha a . '
efta; o de Revan na mefma cidadcque o Turco tomou ^
: ^ao Perfiano; & o de Samachia na Provinda domefmo ^
»»Uiome. à
Mifcravel he, ôc digno de fentimento o mao trato,*
que os Turcos daoaosinfelices Chriftaõs, que entre el-
les.vivem, habitando todos nas Provindas, & terras', é)
tomàraõ a feus Príncipes. Eítes' não tem eafa, nem cam-
po, nem gado, nem molhe;, nem filhos, nemcoufa ou-
tra própria, ou fegura, porque tudo eftà expofto à' tyran- \
nia dos bárbaros, que fobre os roubarem, os afrontam,;&
injuriaô, fem aver quem impida» ou refreé, Sccafirgué
tantas crueldades, femrezoês, & infolehcias. - Os que ha-
bitaõ em Afia faõ mais vexados, & affligidos, porque co»
mo eftão tam longe de Conírantinojila, não podem cõ
facilidade fer ouvidos do EmpèradorJenJ fuás queixasi,
Eftesfaôos Arménios, Afficios,' Chaldéos.Mefopotami'- \
os,Ôc Árabes.- os quais fuppofto que temnom'e de Chrif-
taõs, huns delles fam Arrianos, outros Neftorianos, laf- , i
eobitas., Gregos Cifmaticos, ou Conotas,icjQg como tís
Turcos fe circuneídão, & trazem o rodo!(inalado co'm
fogo,.à maneira dos Abexins do Preíte loaõ. Os xMa-
tonitas Cão poucos, :& eftes íòs obfervam a Ec (Catho-
•82a. 1 -. ; _oí
fffifM Os^que eftãoimais carregados.de tributos faõfds
Arménios junto aos -Perfas; & a eftes fazem os Turcos
3i>
' mayo-*';
e •
■* •% Ljvro.ll. Capit. III. '^Jía. 167
msyores vexaçoens, & moleftias; porque cetro para as
«uerras, que tem com os Perfas, de neceffidade haõ de
paflar por fuás terras, em fuás próprias caías á força, &
com violência fe alojão, levandolhes delias tudo o que
melhor lhes parece. O remédio , que eftes miferaveis
bofeaõem tantos males he aufentarfe para as monta-
nhas, & penhas, onde com íeus gados, filhos, & molhe-
lies eítam efeondidos, em quanto as guerras duraõ. Tam-
bém aos de Chipre, & Rhodes tem muy o primidos, te-
mendofe que dem entrada a's armadas dos Chriítacs, ^
que navegaõ por aquellas partes. Dos Hebreos fe acha
por todas eftas regioens muy grande numero, porque
não ha cidade alguma infigne em toda a Turquia, que
nãofeja habitada delles, entendendo em câmbios , 5c
em cobrar dos moradores o que devem ao Príncipe.
Aqui com mais liberdade fe moítram inimigos dos Cbrif-
tãos. nem os Turcos tem contra elles mais fieis explo-
radores, & vigias, que os pérfidos Iudeos, que muitas ve-
zes eorn mentiras, & falcidades os malfinão, ôk aceufam.

CAPITVLO V.

' T)as rendas, &■ poder do ÇraÕ Turco afji


por mar, como por terra.
COmmum opinião he (fegundo o Embaixador de
Veneza) que o Turco cobra todos os annes oito
milhoens de ouro, dos quais defpendc féis, & dous ente-
íoura. E fe q.uifefa fazer extorfoens, & violências, mui-
to mais dinhero pudera tirar de feus vaíftllos , princi-
palmente em Conftantinopla, porque fe crè.que nefta
w
cida.
lo 8 Hifioria \)nmerfd. \ '*•>
cidade ha grande quantidade de ouro, & prata'aceumu-
lida dos efpolios de tãtas Províncias, & Reynos. E conf-
/ tou claramente'ha pouco tempo, que hum baxà chama-
do Roftano teftou por fua morte de quinze milhoens,
&quefuamolhcr Sultana tinha todos os annos de ren-
da quinhentos mil efeudos de ouro. Quanto aos bafti-
mentoshe muy mal provido efte Impcrio, afli em tem-
po de paz, como de guerra, por rezam do maò governo, .
que ha na Turquia; fendo differente acaufa, que para'
. s*Jfib tem, da que entre nòs fe obferva, & pratica. Porque
5*V-k— na Chriftandade pela multidam dos povos, & pelas terras
ferem poucas, ha falta de mantimentos; mas entre -os
Turcos, fendo as regioens muy dilatadas, & amplas, faõ
as mais delias defertas, & os que as habitam não querem
cultivar mais cerra, que a que entendem pode fatisfezec
a fuás neceiíidades, porque fabem, que tudo, o que lhes
crecer, lhes hão de tomar os Turcos. E affificáo devo-
lutos, & fem cultura alguns campos fertiliflímos eheos
de eípinhas, de matos, & fylvas, donde lhes procede a
cariftia, & falta de mantimentos, & com tudoobrigâo
aos miferaveis fubditos a que leuem os neceíTarios aon-
de lhes mandão, & ordenaõ, pondolhes osminiftros, &
officiais da milícia a taxa, 5c preços, como lhes parece,
fazendo grandes vexaçoens aos miferaveis donos.
Tem o Turco perpetuamente liftados, & portos
em ala para fairem a campo cento, & quarenta & cinco
mil homens de cavallo . Dos quais oitenta mil eftão de
inverno repartidos por Europa, & os mais por Afia. Ef-
tesfamosque fe chamam Spachos Timarrotas, porque
naõ recebem pagas, & foldo ordinário de dinheiro, mas
temlhes dado herdades, & campos (inalados, com eon-
diçam que tenhaõ certo numero de cavallos, para a guer-
ra, os quais lhes confignão eõforme o que lhespódern ,
rendef»
# «
I* fender as" fazendas. Porque corro Os Ottorranos fc fi-
zeram fenhores abfolutos de todas as herdades, & cam-
pos, fem fazerem cafo da nobreza, eíbulharam de íeu
direito, 5c pode todos os donos, & polTuidores, & repar-
tirão eftes bens entre os foldadosero lugar de foido, 5c
eftipendio.-Ôc por efie modo todas as vezes que tomaõ
• Reynos de novo, fe lhes acrecehta o numero, & quanti-
./dade de Toldados. Donde fe colligem os grandes inte-
f ieffes, que daqui recebe o Emperador, tendo tam gran-
de copia de eavallos fem defpefas, ou diminniçom de íeu ,
fc thefouro ; porque fe fuftentàra com elle tam grande
machina, lhe naõ bailaram quinze miUicens de curo
em cada hum anno. Eafíí ofuftento de tantos folda-
dos não fomente redunda em utilidade da Republica,
Ôc thefouro do Príncipe, mas em os foldados ferem me-
lhor providos, S( pagos, 5? em mayor defenfam, 5c fegu-
raR.ça do Império. Ehe tal a quantidade dos reditos,-
que daqui recolhem os Timarrotas, que fe tem averi-
guado paliarem todos os annos de vinte milheens de
ouro . Efta inflituiçam, & traça he a califa principal,
porque tanto florecc , 5c fe conferva efte Império.
Alem diflo fuftenta o Turco quinze mil de cavallo,
intitulados da Porta,.que heaAula, 5c Corte do Em-
fcperádor. As armas, de que ufam, he lança, efpada larga,
• efcudo,j6c'ftechas. Porem nenhuma tem defenfiva mais
qtí"e=murrKao3, ôcalgúns efpaldãir,5c collete, que lhes não
^afia dos peitos. Todos efles eflão íempre promptos, &
i k'fí\ ó Empeíadoí não tem neceffidade de fazer no-
/*os'u*ifpend,iOs , quando fe aprefta para alguma ■guer-
tfa." '''
'■ .í^ão^ÇpoJTuíco g«nte aigúa de pé, tirando os laniz-a-
ros, que de ordinário fam doze mil (fuppcflo que outros
^ dizem.;q quarenta mil) & nem efles manda todos juntos
& •■ ■ ahu«
v
< \ - - - ' S*«^ ',:■/'''•
y/9f/'*.< HiftòriaVmMrfd. S&
a numa expedição, porque he necefiario rípartirenriie p
por vários lugares. Saõ os Iaaizaros filhos dos Çhrijf-
tãos, que o Empecador lhes coma por diverfos modos,
& os maada doutrinar, fendo mininòs, na fetta de Ma-
famede. A Conftantinopla os levam de duas maneiras;
numa he, que manda todos os annos miniftros a fazet
cfcolha dos mininos filhos dos Chriftãos, de cujas mãos
à força os tonam, õt levados à Corte osinftruem cmfua.
fuperítição, animandoos com a eíperança de os honrar, -,
v & enriquecer. A outra maneira de fazer Ianizaros he, q
*-quando conquiftaõ algum Reyno ou, Província, muitos
de feus moradores ofFerecem te\is filhos para ferviço
do Príncipe. IuWos todos eftes moços, fe faz dellcs elei-
ção, & os que tem melhor «ara, & difpofiçam do. cor--
po, fe difttibuem por vários clauflros do Turco, onde os
criaõ, & exercitam em diverfos minifterios.. Eftes afll co-
mo vaõ crecendo, os vaõ augmêtando em mayores grãos
de dignidade, conforme merecera, & aventura os me-
lhora . Os que faõ excluídos da ultima eleiçaro, que dcl-
lesfazem, faõ tratados como fervos , coftumandoos a
minifterios fervis, baixos, & humildes; Sç pelos vertidos
os conhecem poreferavos, Sç cativos, de feu Príncipe.
A todos em chegando a idade de yi.nte ,. &_ dous annos
fe lhes pergunta emqpeley querem viver, ôc osqueréí-
pondem, que nade Ch.riftos,eem dalli pot„ diante h.umj ,
<yida mny penofa, feryindio_nas gajlès. xme£*áç&:4fiÃp
ro,ou dõ vendidos, aquçm mais quer darpor ellefi^Qf
que querem viver na feda de Mjfamade ten> tjtulojte
•filhos do. Emperad.or, & fam admjttidos. ao, ■gQw.eMp 'das
Províncias,fazendo o Turco grande confiança deUçsj
^deites heo nuatffQ.jdõs .dozg mil,j3eaq5eer.$«rata-
-?mos.
Para perpétuos auxiliares faõ liftados os vallallos
-uci a Chif-, .
c
.«■^ + Livro II. Cap. %). <^Jta. 171
* Chriftãos". principalmente de Vngria , [Dalmácia, llly-'
rico, Meíia, Epiro, Thracia Macedónia, & algumas ve-
zes de Grécia, & de toda Afia: os quais nas batalhas po~
em diante para hebetar, & reprimir as forças, & furor
<3osinimigos, fazendo os Turcos pouco cafo de que
morraõ,& pereçam; A todos -cites chamam Afáppos por
• defptezo,que quer dizer gente vi!, &abatida, naô lhesL
. /dando para a guerra outras armas mais, que eípada, & al-
viam. Os mayores inimigos, q tem os pobres Chriftãos
faõ os Ianizaros feus. filhos, porque alem das injurias, & ^
afrontas, que lhes fazem, lhes roubam rodo, íem qlhes
poflam ir â mão cm coufa alguma , nem aver quem por
iffo os caftiguc.
Tem o Turco dous modos de armadas raaritimss,
humano Bo^phoro, & outra em Africa.com hum-gene-
ral, Sc fuperintendente , que as governa a ambas. A de
Africa ordinariamente le reparte por vários lugares-, &
fe ajunta fegundo as ordens dos que a governâo. A do
Bofphoro também eftá dividida ,a»s em breve efpaço,
para que com facilidade fe ajunte. Mas ri principal das
fo-çis maMíi.1135 erra em Coníranririopla, onde tanbem.
fc apri'ftã ) os miis appuaros de' guf ira . De ordinário
h-» neíhsaímad-as trezCnsàs gslès, para as quais tem qua-
|/lircTmil: homens, a fora-os capnvo-s degradados & íclda-
. dos con cíHpertdiov& fcldcs, & quando lhe* he neceíía-
rioobrigaõ a remar os Apmt-nlòçj ;Ind< os, & Ghnffnõs.
Efhs coírtirrão faie nomesde Março, & <c recolhi mim
Dezembro. Toda a preO», & tapti«os, que tfia armada
/tomai pertencem aotfíefoirtró d© Imperador. NVcVría
Piincipe/tqiic mais oportunidade' tenhàipara'spfefir-r sr-
-madas, que ò Turco : porque no Epifõ', -Sliicis,-' é?íc#-
media, & Trapizonda tefu tantas '&&deiVas, & .-arvores
^^Píra f-biicat todo o género de #àvJ05,<que parecein-
,3* (Cível
2^t HiJloriaVmèrfal'. * '*»>.
crivei. Nem lhe faltara officiais paracita obra' (porque*
atè osChriftãos levados de feu interefe concorrem a
cila) como nem numero de gence perita na arte de ma-
rcar, porque das gale's, que tem para euftodia em Lef-
bo, Rhodes, Chipre, Sc Alexandria, Tunes, Dugia, Sc
Argel, coftuma, fendolhe neceffario, eleger Capitães, Pi-
lotos, marinheiros.Sc remadores.
O que o Turco pode, (c vio ha pouco tempo nas ,
armadas, que mandou a Malta, às Echinidas, & à Goleta.
De apparatos de guerra tem mui grande copia : as pe-
'ças de artilharia fam innumeraveis: porque de Vngria
tirou cinco mil,,quinhentas de Chipre* & dá Goleta pou-
co menos. As mais que tem, fam de immenfa grandeza,
tanto, que fò o eftrondo, & reporta fem baila pode por
por terra torres, & muralhas. A pólvora, & muniçamhft
tanta, como fe experimentou cm Malta, onde fe difpa»
ràraõmaisde feflenta mil balas: em Framaguftadc Chi-
pre , cento , Sc dezoito mil. Na Goleta por efpaço de
trinta, & nove dias, arrazàraõas fortificaçoens, que os
noífos cm quarenta annos fabricarão; Sc na ultima guer-
ra Perfiana levou Ofman General dos Turcos quinhen-
tas peças de campanha.
Três coufas ha nçlles, que podem caufar pavor a
todos:amultidara infuparavcl de gente: a difeiplina mi-
litar, fem perturbação, Sc berb.ordenada-; Sc. a infinita
quantidade de baftimentos. Coníiíte fua doutrina mi-
litar em muitas coufas: na abííinencia, porque íefurten-
tão com hum pouco de.-paõ cozido nas brazas, Sc arroz
com alguma carne, feca ao Sol. Nâo-bebem vinho, co-
molhes he mandado;na fua ley. Nos exércitos cada dez
Jemhurn Decuriam , aqie.m fem contradigam alguma
•obedecem. Nos feus arrais uoão.adrnittcm molheres;
St o íilencio nelles. hg admirável, tanto que de noite
1
^'jLrvro ÍT. Çapt. V. udjia.
, /
273
'* muitas vezes por não fazet eftrondo, deixam fugir os
cativos. Para os valcrofos ha prémios, & para os
cobardes , caftigos. Não fe alojaõ oas cidades, nem
lhes conferirem fazer noite nellas: & para que a dif-
eiplina militar íe nana esfrie, coftumam os Ottoma-
nos íuíientar fempre guerra em alguma parte . To-
-udas eftas eoufas referidas conduzem grandemente pa-
. Aa a confervaçam, & augmento de feu eftado, Império &
caía.
/ Raros foraõ os Príncipes, com quem o Turco
failTe acampo , que não alcançaffe viftoria delles. O
mais poderofo inimigo, que de ordinário tem he o
Períiano: a efte tem tomado muitas terras, como Mefo-
poramia, Arménia, & Media: aos Mamelucos o Egypto,
& Siria , & os Georgianos confederados com o Sophy.
Sò com os noífos Poitoguefes não teve j'a.mais remé-
dio, porque como não pode encontrafe com elles, fe-
naõ cm guerras navais, lhe fica nellas muy inferior: por
quanto os Poituguefes na índia tem lugares, & portos
foitificados, & bem guarnecido; & pelo contrario o
Turco não tem em todo o mar Perfico lugar algum fe-
guro, & defenfavel, tirando Balfara. A cofla de Arábia,
1 de que pudera aproveitarfe não tem mais de quatro lu-
,/gTres abertos, & de pouca conírderaçam, &aííilhe he
' difficultofo neftas paragens aprefiar armadas, por ferem
regioens, que totalmente carecem de madeiras para fa-
bricar oavios. Por onde as poucas vezes, em que tratou
de meter armadas pelo mar Vermelho /perfuadido del-
rRey de Cambaya, com promeíía, quflhe entregaria
/ DioJ.lhe foy neceiTario mandar levar a madeira para
asembneaçoens dos portos de Bithina, & Cilicia pelo
rio Nilo ao Cairo , & dahi em camelos a Suez , onde
„ tem fua praça de armas. Todas, as vezes que o Turco
SWT^i. S fez
• >•
I ^~ ' ^v'"-'. '
V
',,

174 Hiftoria TJnwerfaL - ,


fez expedíçoens contra os Portuguefes, não tirou dei- "*
las mais que afrontas, & perdas, como foyern Dio no
anno mil, & quinhentos, & trinta, & oito. EmOrroúsno
de 1552. & em Mombaça no de 1550. onde lhe foraõ
tomadas cinco gaiès, que por ordem do Rey daquella
terra Te deixaram ficar naquelle mar. O que os Portu-
guefes mais procuram he, que os Turcos não* ponhaõ
pè nelle; & aílí em lhes confiando, que elles apreftãov
armada, os acometem, & fazem ceder da tal preten- x
^ çaõ. Os que o Turco mandou à índia , & chcgàraõ
■*'-' a Dio com duzentas vellas, íe chamavam Rumes, que i
he o mefmo que Romanos, por ferem todos liftados
da Europa , & fe fazer mais confiança de feu valor,
& esforço.

V CAPITVLO VI.

DafeBa de <z5\d afamede, &* defeus mayo-


res obfervadores, cjfao os Sa/itoes, ou
religiofos dos álMahometanos.

A Se&a, & religiam, que os Turcos íeguem, he toda «


X~\ fundada em vaidades, & fuperftiçoens, inventada,
& fingida por Mafamede no anno 622. imperando He-
raclio. Deite Mafa"mede fe conta que foy Cirenaico
de naçaõ , &1Jue fea Pay Mano , & a may da defceí* ^
dencia, de Ifmael, atrevido, corpulento, mal encarado, \
& de voz muy afpera, & terrível . Caiou aprimei-
ra vez com a tnolher. que ficou de feu fcnhoi, fendo
jà decincoenta. annos, de naçam Ifraelita , por fac
«J moll,*5-i*
«1

molher réquiílíma . Inftuuio fua maldita feâa con-


tra a doutrina do velho, & novo Teftamento . Aerc-
ceo a tua demência a perfídia de Sérgio Monge, em
quem concorriam todas as maldades; o qual porrezão
da heregia Ncttoriana fora degradado de Conftanti-
nopla, & a efte tempo habitava em Arábia . Por per-;
-Juafaó , & confelho defle depravado homem infti-
Àuio Mafamede a maldita fefta, compofta do fremen-
lo ludaico , & da maffa Neftoriana ; a qual logo
receberam todos os Árabes, & os mais eircunvizi-.
/
nhos.
Fingio que o Archanjo Sam Gabriel lhe appare-
cia, & tratava grandes myfterios, & iJgredos com cl-
le. Também coftumoa huma pomba a tcmat o co-
mer de fua boca , tendoo efcondido nelh , & fingia,
que aquella pomba era o mefroo Spirito Santo . Com-
pôs hum volume de (ua nova-ley, a quem chamou Al-
coram > & vendo que era já chegado o tempo de fe
introduzir em Rey, & poderofo fetvhor , atou huma
eeduli aos pès da pomba, na" qual eftava eferito : O
que prtfet o jugo a hum touro, effejeja Rey. Bufcoufe hum
touro, entre cujas pontas fe fixou o Alcoram,& coroo
L t^curo de repente faifle donde aftava recolhido, pon-
^ do grande pavor a todos os mais, fe foy correndo para
onde eftava Mafamede, por fer cofiumado a ifio.
Sérgio abiindo a cédula da pomba , leo as palavra;
trás logo hum jugo,& pondoo ao touro, ficcúMafa-
mede Rey, & Sérgio tido poi Propheta , clamando
■ y que aquelle livro era huma ley mandada do Ceo para
/ falvaçim dos homens. Nella eftavam eferitas muitas
coufas abfurdas , & ridículas, da creaçam , & fim do
mundo, do Paraifo , Inferno, Ceo, Terra, forma-
, caõdo homem, &daiornadade Mafamede ao Paraifo.
^ . . Sz Con-
I

HiftortaVnvverfal. ' - "


Confefla que ha hum Deosjôc manda que clle mefmOj
Chtifto, & Moyfes fejáo vcnerado&por grandes Prophe-
tas. Ordenadas aííieftas coufas, & outras infinitas, & fo-
geica, depois de muitas guerras, toda Arábia, finalmente
pelos de Tua cafa foy morto com peçonha, tendo de ida-
de 55. annosi Seu fepulchro eftà na cidade de Meca da
Arábia, viíitado dos Turcos, & Mahometanos com grã-,
de veneraçam, & refpeito. \
Conta hum Author referido por Honório (o qual ^
defcrevc efta hiíloria, como fica dito ) que hum Du-jV
que indo vifitar o tal fepulchro oíferecco grande quan- }
tidade de dinheiro ao guarda mòr da cafa, porque lhe
mpílrafle o corpo do Nabi (que na lingoa Arábiga quer
dizer Prophcta ) & que o guarda lhe xeípondeo ef-
tas palavras : Ebem terias tu animo , cjp confiança para
com efíes olhos , com que tens cometido , ejr feitos tantos
males, ver aquelle, com cuja vifta o Ticos grande criof*
o Ceo , & a teria ? Ao que acodio o Duque: Conheço
qne [ao verdadeiras toàas as coufas, que dizes: mas fe eu
merecera alcançar tanta ventura como ver o Nabi , logo
nefíe inflante por minhas mãos tirara os olhos . Eítas
couías quis relatar aqui, para que nós, que temos luz
do divino Redemptor Chrifto lefu , eftimemos noja A
boa forte à vifta da mifetia, & cegueira deites ignó-' tj
rantes, & nos alegremos em fò a Cruz defte divino Se- «
nhor. ■ .\
Por cabeça, & fummo interprete de fua religiam tS
os Turcos hum chamad® Moffci, eleito pelo Príncipe, j
varaõ julgado entre elles por grande inteireza, & fabi-
doria. Eíte he tido em grande veneraçam de todos os
mais, & he tanta fua aothoridade, que tudo o que elle
decide, & julga, o Príncipe o naõ oufa retratar, & con-
tradizer. Em todas as coufas entende, ou fejaõ civis,ou .,
crimi--
-*** %Mvro II. Capt. VI. *Âpa. ^77
criminais, ou que peitençaõ a admimtttaçam da Re-
publica, porem com condiçam, que não execute o q jul-
ga, mas q fique livre a cada hum o qmais quifer feguir.
Quando feofferece algúa diffieuldade, fe vay logo con-
fultar com elle, levandolhe em har» papel eícrita a
propofta; elle da feu parecer (aquém chamaô Zetfa;
o qual prefentam ao julgador, & por elle dâ fentença fi-
nal naquelle pleito . Nas coufas politicas ufa o Prínci-
pe de feu confelho,& authorldade, para que fe moftre
jufto,& religiofo. Com elle confulta quando ha de fa- -
zer guerra aos inimigos, & nas mais coufas pertenceres
ao Império.- com oqual meyo de religiam diípoe os fub-
ditos, para que melhor executem o qol lhes for orde-
nado. PoremoMoffti pcrpetuatwcnte lifongea ao Prín-
cipe accommodando feu parecer ao que o vé mais incli-
nado , fegundo fua vontade, & gofio,em tudo o que fc
propõem.
Eftà a religiam Mahometana dividida em varias opi-
nioens, & fentimentos, não fomente entre os Ottoma-
nos, Perfas, & Árabes, mas na mcfma Turquia entre os
povos fogeitos. Eaífi a opinião, que agora fe obferva cõ
todas fuás eeremonias na Porta, & Corte Ortomana," fe
l efiende fomente áquelles Turcos, que habitaõ na Eu-
^"Tõpa: porque cm Afia, & toda Arábia os Mouros, Siria-
cos.&Egypcios fe naõ differençem dos Perfas na fcãh
&ieligiaõ. O que caufa grandes recc'os, & pavor aos
Ottomanos, por temerem, que fazendo guerra ao So-
phi naquellas partes, (eus moradores fe accommodem
rcom elle, & figaõ o feu partido. Differem os Turcos dos
Perfas na religião, em que buns feguem a expofiçam da
lcy feita por hum genro de Mafamede, & outros, a que
fizeraõ huns feus companheiros. E como efias, por fe-
rem fundadas cm fakidadc, & mentira, fe contradigaõ
~^ S3 quafi
l*^V' ' ,

**r . \ * % i y <
17-^' Hijlona Vmverfd. . \ <f(...
quafi em tudo, da qui lhes procede Cerem inimigos ,' & '
andarem em perpetua guerra , chamandofe huns aos
qutros; pérfidos, hereges, & infiéis. Ou também pode-
mos di2er (<Sc he o mais acertado ) que petonitte Deos:
entre elles eítas diffcofoeos, & diícordias , porque fe;
não unam, & façam mayotes vexaçoetis à Chriftanda-
de.
Para mayor reforrnaçam de fua fe&a inftituiraô os\.
Maometanos quatro géneros, &; modos.de ordens, que ,
faôosSantoes, & religiofos: huns fe chamam Dervifios, V
i 8 . outros Calenderes, outros Huggiemales, & outros Toe- ]
laces. Os Dervifios não criam cabello na cabeça, mas
fempre andam ráyados â navalha . No rofto trazem huns
cautérios feitos com ferro abrazado, ou com huma ef-
ponja acefa. Tem as orelhas furadas, &: nellas huns arieis;
ou círculos de jafpe : osveftidos faõ de pc lies de ove-
lhas, ou de cabras, caindo huma parte por detrás, outra
por diante, & tudo o mais anda nu, & defeuberto aflide
veraõ, como de inverno. A fua habitação he nas aldeãs,
ou arrabaldes das cidades- Nos mefes da Primavera, 5c
veraõdifeorem pordiverfas regioens, & com pretexto
devida religiofacomettem infinitos crimes, & infultos.
Saõ formigueiros, ladroes, & adúlteros, fem fazeré eí- i,
crupulo deftasiioas obras, pelo qual fe ha de acautelar
delles, principalmente nos caminhos: porque a ninguém
de qualquer naçam que feja, perdoaõ, fe confiam de (y
que tem mais poder, & forças. Alem difto commetern j r

mil peccados nefandos atè com os brutos animais : &


para que melhor encubram eítas infâmias, & abomina-■.
çoens, & fe moftrem mayoresfantos, não comem fenão \
ervasaroargofas nos lugires públicos, ondepoffaõ fec
viftosdo povo, & julgados por virtuofos. Com eftas er-
vas, que comem, ficaõ muitas vezes como frenéticos,&
íe»F: !
*■* %f,ivrd II. Capit. PCI: •Ma. 179
tem juízo ;■& em quanto lhes duta aquellc-furor íe fazê
muitas feridas com facas no pefcõçò, peitos, braços, Sc
ilharguas,atèque eom as-fetidas,& langue íe tornaõ mui-
to disformes. Depois tomaóhucna cíponjaacefa, & che-
gandoa ás chagas anaõtiram delias ate que de todo íe
torna em cinza, fingindo que padecem eftas dores com
grande paciência, & fofrimento. O que vendo o povo
rude lhes faz muitas honras, & os tem em grande vene-
ração, dizendo quefaõ homens amados de Deos, & la-
go lhes dão muy copioías cfmolas. Tem cites na Nato- ^
lia hum Prior, ou preíidénte da fua ordem, chamado A-
zembaba, qae quer dizer Padíe íupremo, ou Piotopapa
âimitaçamdos Gregos.
Os Calenderes fe prezam de muy continentes*
oftentando grande pureza,& fantidade.Habitaõ emhu-
mas como hermidas muy pequenas,&eftreitas. Veílem
túnicas apertadas, & curtas ,fem mangas, a modo de Ta-
cos, humas de lã, outras de fedas de cavallo. Trazem
na cabeça (aqualtambém tem rapada anavalha ) hum
barrete de pano branco, guarnecidas as pontas de cabei-
los de animais. Nas orelhas, peíicoço & braços tem htís
anéis, ou argolas de ferro muy grandes, como infignia
| ^ fua religião, ou inítituto. Os Huggiemales ião ordi-
rV nariamente- mancebos robuftos, &rieos, os quais eom
titulo de religião andaõ continuamente diicorrendo por-
( Africa, Egypto, Arábia, Períía,& toda a Turquia. Obfcr-
vaõ muito os fitios, & diftaneias das regioens, & cidades
com todas as coufas, que lhes fuecedem nos caminhos.
r Andaõ cingidos cõ húas corréas largas, guarnecidas nas
pontas com ouro, & feda.-trazendo nellas penduradas
humas campainhas, como nas pontas da túnica, que lhe
não pada dos joelhos. Criam o acabello atè lhes dar pe-
^ losombros, applicandolhes para mais crecerem h»os
S4 cleos
V
• -•V

~* **<

' z8o HiftortaVnwerfd. v ~.~\


olcos de terebinto, ou zambujo. Trazem fempt.e hum li- ri
vro oa mão, ôccantaõ verfos amorofos, com que os Tur-
cos, Árabes, & Perfas fummamente fe recreara por ferem
compoftosna fua iingoa. Se vem algum minino bem.af-
íombrado, & de boa cara, o toraaõ nos braços, & cãtâd<?,
& faltado repicam as cápanilhas. Ao qual concorre mui-
ta gente, que lhes dà efmoia, & grandes louvores .de fua- ,
y
religião, virtude, &fantidade. (
Os Torlaces, como os Dervifiosandaõ viftidos\
de pellesde ovelhas, & cabras, fobre as quais lançaõ
* I outras de uffos com o pelo virado para dentro, «m que
feenuolveraamodode capa. Trazem hum barrete al-
to de pano brthco com muitas dobras, & pontas \ &
em tudo o mais andam totalmente nus, & defeubertos.
Nas fontes da cabeça fe eauterizáo3 & naõ tem noti-
cia alguma de letras . Ordinariamente andão nas ta-
vernas, praças publicas, & banhos, onde pelo conçur-
fo da gente tiraõ mayor quantidade de efmolas . b
para que fe veja a cegueira do vulgo na ve.neraçam,
& refpeito, que tem a eftes enganadores, conta Ho-
nório, que avia cm Alexandria hum grande Santão , o
qual fe punha às portas do banho das molheres & pon-
do hum dia os libidinofos olhos em huma, leuado de fu;>i
ror diabólico, íe foy rouy depreffa corrçndo para aqud- \
la parte, & fem que cila refiftifíe , à vifta de todos exe-
cutou feu maldito appetite. O que vendo o marido, fe ^
teve por venturofo, de q o varaô fanto, por impulfo divi-
no, pufeíTe mais os olhos em fua molh.er, q nas outras.
Não pode aver mayor cegueira que eira, nem gete mais,..
infame, ignorante, & barbara. ;
São também efies Torlaces ladroens de caminhos,
como os Detvifios, & fe fingem muy peritos na arte de
chirornaneia \ pelo qual concorre muita gente a elles^

i
-^ «-. m ,v ,,

*^ kíí^ ^- Captt. VIL *Àpa. 281


tendoos por Prophetas .piincipalmêieas mtlheresvís,
& baixas. Alguns vezes íe ajuntsõ muitos, & tf azedo no
meyo hum dos velhos da lua íetta, o vem adorando, dá
dolhe titulos, & honras divinas: Efte, chegando cóellea
'algú lugaff publica, q Deos lhe tem revelado grandes íe-
gredos, & myílcrios.- & fingindofe morto, corna outra
«. vez em fy, & volvendofe para os fingidos, & fubornados
/diícipulos, lhesdis; Levantaime chariílimos filhos, & lc-
1 vaime fora dcfte lugar, porq me revelou Deos es cafii-
/ gos.q haõ de virfobre efta gente. O q ouvindo os enga-
nadores, lhe pede q rogue a Deos, q não execute aquel- -
les caftigos. Finge elle confentir naquillo, & fazendo o-
façam a Deos, lb€ rogs, que levante fua la, & uíe cc elles
de miferieordia. Com eftas ameaças fica tremendo o ig-
norante vulgo, julgando todas aquellas mentiras por
verdades. Acodem logo todos com grandes efmoIas,.dê
que os fa-lçarios varp carregados para fuás efpelúcas Don-
de fe deixa ver a ignorância, & cegeira delia enganada
gente,&as ob.rigaçoens que temos os Chriíteõs, de fem-
pre louvara Deos, por nos trazer ao conhecimento de
fua Fé, & doutrina da Igreja.

U» CAPITVLO VII.

T>a caía Ottomana, &■ Emperadores da


Turquia, fegudo Leonclavio, &* outros
f dAutbores nos annais dos Turcos.

O Primeiro Emperador.q tiverão os Turcos foi Otto-


«ano, de naçaõTaitato,foldad© do gtâoChã hon ê
i^»v atrevi-
2.8 iw Hijtona TjmverjaL <\, - *■
atrevida, vaíerofo, 5cesforçado. Efte por occafíar» de *
algumas injurias, que lhe focam feitas, fe apartou dosTar-
6sros, Sc começou a habitar em humas ferras, & montes
de Cappadocia, ayuntandqfe-lhc quarenta de cavallo, Sc
muitos faeiuorofos, que fugiram ao caíligo. Era da fa-
mília dos Oguzios, que com perpetua fuccefíaõ rcynou
fempre entre os Parchos:Sc depois que recebeo a fcâa,
Mahomctina.pos fua Corte na cidade de Machan. A-\ •
elle, a (eu filho, 5c neto fe deopor fobrenome Gazi, que»
fígnifica foldado valerofo. Começou o feu principado V
no anno 1300. depois de aver fogeitado grande parte
de Bichynia junto ao Ponto Euxinio. Também tornou
aos Chriftãos NÍcéa, Prufi, 5c Neapolis, Cappadocia,
Ponto Pamphilia , 5c Silicia regioens opulentiífiaias-
Falleco no anno 1328. depois de aver por efpaço de
28. tido o Império.
Aefte fuecedeo Orchanes, que com asmefmas
traças, 5c modos do pay, mas com mayor poder, 5c copia
de riquezas augmentou. 5c confervou o Império . Para
ifto fe aproveitou das difeord/as, 5c diífenfoés dos Chrif-
taõs,com que fogeitou Mifia, Lyconia, Phrigia, 5c Ca-
ria, tomando até o Hollefponto tudooquefiea no nie-
yo. As difeordias, que avia naquelle tempo, eraõ entre j
os Paleologos, ôc o Cãtaeuzeno. Tomou roais Pergamó, >
ScAtramitio lugares da aotigua Troya. No fim de fua
vida cravou guerra com os Tártaros, onde acabou naiíe-
ravel mente no anno 1358. depois de aver reynado 31:
Succedeo no Império de feu páy Araurates Cham, que
de Afia, vencido primeiro o Hellefponto , pafiou a .
Thracij, Scfogdcando grande parte delia, caminhando *
para Balgaria, Sc Servia, foy na campina de Cofova.que
eftà ente Rafcia, Sc Bulgária morto à treiçam por La-
zaro Príncipe de Servia no anno mil, 5c trezentos, 5c no-
«rf,
p»~ . .«**>
SI*^ipro II Cap;. V.H.
-'•
\Afia.

283
\' venta,& no 31. de ícu Império.
Ficàraõ a efte dous filhos Sulim3n, & Bajízete.
Efle matando oirroaõ roais velho fe ficou com o Impé-
rio. Foy homem de grande engenho, animo gencrofo,
fiotadode muito valor, Sc audácia, íncaníavel nos naba-
lhos, nas prevençoens agudo, ôcfagá^, & nasexccuçoens
confiante, & firme . Refolvecfeem conquiftar Conftan-
inopla, mas primeiro afíentou fogeitar Thelíalia, Ma-
cedónia, Phocide,& Attica. Chegado pois a Conffanti-.
nopla,lhe faqueou os bairros: & avendojà oito annos,
que tinha pofto a cidade em cerco, lhe dersõ novas, que
o Emperador vinha com grande poderde Vngaros, Frã-
cefes & Italianos a prefentatlhe batalha, pelo qual te-
mendo a multidam de tanta gente, leuantando o cerco*
lhes foy fair ao encontro junto a Nicopolis. Deofe aba-
talha, & ficando o Bajazete vencedor forsõ Mortos, &
cativos muitos capitaens,.principalmente dos Francefes,
acabando também aqui Ioaô Duque de Burgundia. Prof-
perado com tam boro fueceffo Bajazete tornou a con-
tinuar o cerco de Conftantinopla, perfeverando tresan-
nos em a combater, E citando ja os da cidade para fe en-
tregar a partido, lhe foy dito que o graõ Cham da Tar-
1 taria.por nome Tarnorlao aferro, & fcgo hia alfaiando
|i;'âs cidades de Afia. Temeo grandemente Bajazete o po-
• der do Tártaro, & deíiftindo de Conflantinopla enca-
minhou o feu exercito para es confins de Galada, &
** Bithynia. Pelejofe de ambas as apartes toda huma noi-
yte,ficando vencido Bajazete, & avendoo às mãos lhe
mandou o Tamorhõ lançar nos pés huns gtilhoes de ou-
ro, & metido cm huma gsyola de ferro, o trouxe aíli por
toda Afia- Perecerão duzentos mil Turcos na batalha,
a qual foy no anno 1397. E depois no de 1403, fe ma-
tou Bajazete por fuás próprias mãos, avendo tido-qua-
>.
& terze

:
~^.

284 - Hijioria TJmuerfd.


torze annos de Império.
Nelle lhefuceedeo feu filho Soliroan que foy
coroado em Hadrianopolis no ánno 1404. Efte não fez
couía alguma digna de memoria, mas dado a perpétuos
banquetes, & delicias foy morto por feu irmaõ Mufà no'
anno 1411. Contendeo Mufá com Mahomete acerca
do Império largo tempo , até que Mahomete ouve ás
mãos Mufà, & o mandou fazer em poftas, depois de avec
adminiftrado o Império três annos com grande cruel-
dade, fctyranias. Começou Mahomete a reynar no an-
.»«* no 1414. & avendo conquiíhdo Valachia, fogeitou to-
das as terras até.omar Ionio;& pondo íua Corte em Ha-
drianopolis, depois de a ver reynado 17. annos falleceo
no de 1421. Entrou no Império feu filho Amuratcs II.
que algum tempo contendeo com Dufme Muftapha, o
qualfe fingia filho de Bajazetc, & como tal tinha poc
fy toda Romanlaí mas avendoO às mãos Amurates o
mandou logo enforcar: & affi ficou quieto no Império
pelos annos de 1425. Efte tomou Theffaloniea aos Ve-
nezianos ;& depois cafou com Maria filha de Georgc
Príncipe de Servia, neta de loaõ Emperador dos Grc
gos, da qual não ouve filhos. Por induftria do fogto aco-
meteo Belgrado junto aos rios Savo, & Danúbio, onde |
perecerão no cerco pafiante de fete mil Turcos; & mor-1
reraò muitos mais, fenáo dififtiram daemprefa. Corro-
borados com efta vi&oria os ânimos dos Chriftaõs, fe
prometerão alcançar coufas mayores. VIadiflao Rey
de Polónia, &Vngria vendo o valor de Ioam Hunnia-
des, & as proezas, que avia feito, o nomeou Vaivoda, ou>.
Duque deTranfyluinia: o qual entrando cm Servia lã-^
çoufóra delia os Turcos, corno tacubem dos confins de
feu Ducado; &chocaado com elles era Bulgária féis ve-
zes em hum mefno dia , fernpre ficou vencedor, cattN^
vander
t
r *~ V
iGi7
^fcforo 11. Capt. Vil. ^fia. 285
vando quatro mil dos inimigos, treze capitaens, & nove
bandeiras. Finalmente Amurates furibundo cena tam
grande perda, & queixandofe de que as tregoas, quefe
tinham celebrado firmadas com juramento, por perfua-
taõdo Papa Eugénio eftavam temerariamente quebran-
tadas por Vladislao; ajuntando feu poder, & forças, fe
,—Arefolveo a fe expor ao ultimo tranze, & perigo. Efla-
•./varoa efte tempo os exércitos dos Chriítáõs junto ao
lago Varnenfe: o que fabendo o Turco fem mais de-
mora defde Callipolis de Afia paíTa fua gente â Eu-
ropa , & dando cem mil efeudos de ouro aos Geno-
vefes, que fò lhe podiam impedir a paragem, chegou
livremente à eftaneia, & alojamento aos Chriítaons.
Três dias contínuos fedeo a batalha com grande valor
"de ambas as partes, até que Amurates ficou coroa vi-
toria; dizendo, & publicando, que tudo aquillo mete-
ciaõ os Chriftaons^por aver quebrantado a Fé , & pala-
vra das tregoas, que celebrarão. Morreo na batalha cl-
Rey Vladislao,'o Hunniades com difficuldade efeapou,
& o Cardeal Iuliaõ, que (Yegundo alguns affirmam) fcy o
author de fe quebrantarem as tregoas, caindo úo cavJlo
acabou miferavelmente. Efte Amurates foy o qt-etam-
il .bxm tomou aos Venezianos o Epiro, ckEtholia.Pos ale
í{ difto por terra no Ifthmo de Corintho o muro chama-
• do Hexamiío; & finalmente em Bruffia cidade de Bi-
thynia, 5c Corte dos Emperadotes falleCeo no annõ
." 1450. avendo reynado trinta.
Mahomete II. fuecedeo a feu. pay: o qual no
lf anno 1453. no fim de Mayò tomou, & alíolou Ccnftan-
ír tinopla (tresannosde pois que os Gregos fe apartarão
da Igreja Romana ,cj parece o pernoittio Deos em pena
de fua culpa ) como também Trapizonda, & o Principa-
v^ do dos Cõnenos. No anno 1462. tomou a ilha de Lesbo,

r
9 ■- cha-
ST" -H-», i *
Hiftoria XJnivérfd. '^Jfi '
chamada Mitylin por outro nome. Tomou mais Boina','
Ra feia, Sc grande parte de Servia, mandando esfolar vi-
vo o Duque Bofnonienfc com grande crueldade, & ty-
rannia. Conquiftoumais grande parte de Albânia, Sc o
Negroponto;Sc veneco em huma batalha a Víun Caf-
(anesRey da Perda. No anno 1474. tomou Capha na
Taucicia Cherfonefo: mas foy vencido dos Moldavos,^
& Vngaros no anno 1480. Também eorabateo Rho-
des, masnaõ apode levar.- porem fogeitou Dalmácia,
& Croácia, Eubèa, & Theoduíia> & impedio aos Vene-
zianos a reílauraçam do muro Hexamilo na entrada do
Corintho. Finalmente avendo reynado trinta, Sc hum,
annos, falleceono de 1481.
Bjjazete II. fuecedeo ao pay no Império. Efte teve
grandes diffenfoens com feu irmaõ Sultan Zami: porem
vencido em duas batalhas o Zemi, fugio paraRhodes, Sc
dáhi para Itália, onde lhe deram pecjQnha,.com que aca-
bou . Batalhou Bajazete três vezes cora o Sulcam do
Cairo, mas de todas ficou vencido com grande perda
de fua gente. Também fez guerra aos Venezianos, Sc
lhes tomou Naupa&o, Modon, Sc Coron no anno 1500.
Nodei5i2. feu filho Selim ofez cedei do Imperioipe-
ioqual Bajazete era breve efpirou , não fem ajudado |
filho, como tem commummente os Chroniftas. SucceV
deo pois Selim no Império, que enfadado de que feu
Pay vivefle tanto lhe tirou a vida com peçonhaj fazen-
do oraefmoa feus irmaõs, Sc aííi reynou como cruel, Sc
tyrano. Efte foy o primeiro, que paflbu a Africa, Sc lan-
hando fora o Sultam, tomou grande parte do Egypto. E-,v
tornando vencedor para Conftantinopla falleceode hu *
cancro peftilencial no mefmo lugar, onde com feu Pay
teveasdifeordias, no anno de 1520. Succedeo a ícu Pay
Soliman II.que tomou A}ba Grega (queheBelgrado^.
"^ «w 77. Gaspif'. *£;//. «y^. y
287
aos Vngaros, Rhodcs, Buda, Strigonia, & outras cida-
des de Vngria; & tendo Zigetho cm cerco morreo no.
anno de 1506. avendo xeynadp quarenta, & íeis, íc-j/cis
meies. ■ \
* Selim II. fuceedeo ao Pay no Império; o qual fez
tregoas com o Eraperador ' Max-imiliano íete. annos.
fA os Venezianos tomou Chipre, ;Tunesy& Goleta em
• 'Africa; & falleceo no anno 1575. Imperando efte tive*
/ram osChriftãosem Hclefponto aquella iníigne viâo-
iia, desbaratandolhe a armada com grande perda, & afrõ-
ta fua. Foy efta vittoria milagrofa, pois fe obfèrvouqué
para cada Chriftaõavia dez Turcos. A efte fuceedeo
Mahomete terceiro, & a primeira coufa, que fez no? Im-
pério, foy mandar matar vinte, & dous irmãos que ti-
nha . Em tempo dcfte tomàraõ os Chriftaõs aos Turcos
muitos lugares em Panonia. Avendo pois reynado oi-
to annos falleceo no de 1603. deixando bum filho de
pouca idade. Amete I. fuceedeo ao Pay; fendo de quaf
torze annos. Nefte tempo recuperou o Perfa Tauiifio,
Bagdat, & outros lugares junto ao Tigris , & Eupharate$i
com grande perda da armada ,& gente do Turío. N©
anno 1606. foram celebradas pazes entre efte Príncipe
| &,oEmperador de Alemanha. R.cynOu>'pois Amete 15.
| annos, & falleceo no de 1617.
Succedo a feu irmaõ Amate Muftapha tirado de
0 hum efcuro> cárcere, para governar, dm quanto Pírr>3n
não tinha idade. Mas pouco depois os principais minif-
tros da cafa Ofmanica o tornarão-ao cárcere, allengado
U' que erainhabil pata o Império:; & tomando Ofman fi-
J lho de Amate, opuféranvno-trõrioide-feu Pay no anno
1618 Efte celebrando pazes com<Os' Peífas, fez 'guerra
aos Polacos no anno í6iu mas cortt grande confufam,
>y &: perda dos Turcos. Porque neftaexpediçaõlhe deraô
► grande
;
i88 . Hifloria TJmverfd.
. grande perjuiz;) muitas difleníoés, que entrefy excita-
rão os lanizatos, 6c lhe impediram todo obom fucef-
fo, que fe prometia; pello qual os ficou fumroamcntc
aborrecendo. Eafllporconfelho do Vezirio mor íe re-
colheo a Damalco,erendofe,que queria ordenar outro
modo de milícia. E para que melhor encubriffe, & dif-
farçafie (eu intento fingio, que tinha feito hum voto, ôç.
o hia comprir à cafa de Meca . O que vendo os laniza-
ros, & outros rniniftros da milícia, tratarão de matar o f
Vezirio, ôc outros grandes da Corte, como em erfeito \
' fizeram: & tornando atirar Muftapha, o acclarcàraõ por
Emperador; & a Ofroan meteram em numa prifam de
fete torres, ondV por mandado de Muftapha foy delpe-
daçado noannoi622. Mas enfadados de Muftapha por
náo fer para o governo, o tiraram delle, podo em feu lu-
gar Amurate irmaõ de Ofman mancebo de quinze an-
nos no de 1628. O que daqui fe pode efperar he, que
perdido huraa vez o refpeito à mageftade do Império
por feus rniniftros, lhe fuecedaô novas defventuras, Sc
que o tal Império pouco a pouco fe và acabando, co-
mo tem obfervado homens debom juizo, & entendi-
mento.
Também ajuda a fe conjecturar o que fica dito, hu^
cjfo, que fuecedeo entre os Turcos na forma feguinte, '■
referido na Çhronografia de Gene.brardo. Deliberado
o Emperador Macthias no anno 1605. em faze guerra
ao Emperador da Turquia, ajuntando hum copiofo ex-
ercito, fe partio de Viena de Auftria para Iaurinof que
vulgarmente (e chama Raab) com todafua Corte, 5r
família, porque dalli ficaíTe mais perto do inimigo. Ca-
da dia o hia feguindo(oov3-gente de guerra de Silefia,
Moravia1PanonÍ31Pr3gi,& Vienna. O Summo Pontífi-
ce lhe mandou cinco mil de pé, & quinhentos de cavallc;
para
/
p-^**^^^ ^- Gípíf. VIL y4Jia. 289
para ò qual fintou o Clero de Itália cm íeifeentos mil
efeudos defubfidio. O grsõ Duque de Florença lhe
mandoii fententa mil; a Republica de Génova qua-
renta mil; o Duque de Ferrara cincoenta mil; a Se-
nhoria de Luca vinte mil; o Príncipe de Parma vinte,
& cinco mil. Os Duques de Mantu?, & Vrbino fe cffe-
., recéram para ir à guerra com lua-gente, Sc poder, como
- dis Iaofonio no livro 8.
/Feitas citas prevenções, fc foube logo delias cm to-
da a Turquia, & ajuntaodofe entre os Turcos vários
conventiculos acerca do íucccffo da tal guerra, o Be-"
v lebergo de Greda,-du por agouro do mal, que efperava»
ou por defejar q a mocidade íe exercitaíie nas armas, fez
cõvocar 600. rapazes-Turcos de 11. até 14. annos,& cõ
"feirs paos nas mãos os mandou ajuntar em húa das portas
da cidade de AlbaRealno Reynode Vngria:& levãdoos
fora ao campo os diviciio em dous efquadroés.mãdando cj
hum fe intitolaíTc dos Chriftaõs,& outro dos Turcos,& q
cõbatendofe hús cõ os outros, levando fuás infignias, os
dosChriffaõs chamaísé na batalha por IESVS, & os dos
Turcos por Haia; & q pelejafsé todos valerofaméte depo
íitâdo prémios aos vencedores. Dafe final, começaõ a fo-
jbirosgrkos pelos ares, cobatçfe os clquadroês,& fe peleja
| • de numa, & outra parte com tanto valor, esforço, & brio,
► cj muitos muidos.das-paneada?, & meyps mortos corne;
çàtamafugi). Os quetinhaõ por bràfam osâtiffirno Nome
" de IESVS, fazendo-retirar òs.cõtrarics, & feguindoos atè
as portas, os meteram dêtro da cidade. Teve cíGoverna-
','dor, ck^os mais, q lheaffiftiam, eflcfucceffo pormaoíí-
Jr tèiÍ;,i5êígòuro;& logo dalli fofpeitàram, & temeram, q.c's
ChcHtáõsíeram vencedores "rias batalhas para o futuro»
&oshíô defogeitar 3 ellcs, & privar dé todo o Inipe-
to riò, como refere o mcfmo Author.
Í '■ T Epor
z9o '"'■;?! HiftorUVnwerfd. ^^-À
E por principio do feliz prefagio das viâorias doi
Chriftaõs contra-os Tureos contarei.o q, fegúdoosmef-
meímos Hiftoriadorcs.fuccedeo no próprio anno.He a ci-
dade de Strigonia húa das principais d3 Panonia inferia
or, famofa,antigua, & forte, engrandecida cõ a mitra Ar-.
chiepifcopal, aquém faõ fuffraganeos íeis Biípados.era
Vngria. Aeftaacõmeteo por três vezes o Emperadol-^
Solimã no anfto 1543. defendédofeos Chriftãos valero-;1. •
famentciateq portreiçam de húCaUbiéslhe foy neceíTt--
rio entregarle ao inimigo: o qual afottificou de tal ma- V
neira, q parecia não ficar à Chriítandade efperança de
mais arecupera/.. Com tudo ajuntando o Emperador
Mathias feuexíícito.q confiava de quarenta, & quatro
mil, & duzentos foldados aífi de pé, como'de cavallo, ex-:^
cepto a Bagagê, & mais gête de fetviço, foy íitiar a cida-"
de de Strigonia, 5c animado cõ os feliees aufpiçios da ba-
talha dos moços» de que fe avia já divulgado a fama» em
7. de Mayo acomeçoú a combater com tanto impetp„var'
lor, & esforço, que aos n. do mefrno mes, em rompedo
a manhã, foy tomada dos Chriftãosi fendo todos os Tur-i
cospaífados ao rio daefpada.

CAPITVLO vin. ài
Do Império do grão Chão da Tartaria y fe-
gundo diverfos aAuthores.
O Que maisei de fegoir nefta diferipçam he Lazaro *
Soranzo Patrício Veneziano.-, o qual aftuma.qef-
creve da Tartaiia cõ toda a verdade, fegúdo as informa-
çoens de homés fidedignos, & q nella veríàraõ muitos te-
pos (
/ •
Kl V ™ X /
: *^Çfaro II. Capit. VIII. t/lfia. aoi
jos, deixado as fabulas, q algús fingiram de luas gtãdezas.
Tomaraõ pois os Tártaros cfte nome dos líraelitas, q fo-
laõ levados em tempo delRey Ezechias para alem da
Media ( a qual naquclles tempos nãõ era habitada ) o
'que tudo fignifica o nome Tártaro na lingua Syriaea,&
Xe interpreta na nofia, povo prefeguido, & deiempara-
do ; porem naô ufaraó defte nome íei-âo deída era de
1200. O que fe deixa também ver de que algumas das
Hordas da Tartaria (fegundo Genebrardo) fc chamavaõ
dcDan, Zabulon , Nephtalim. O ultimo Rey que com
os feus deixou a Fé de Chrifto, 5c fe fez Mahometano,
v foy Cambagado no anfto I302. He tam dilatado efte
Império, que fe eflende defdo mar Càtpio até á China,
com quem confina no Reyno de Cafar, dividlndoa dei
h hú muro de mais de quatrocetas legoas, edificado pe
lo Rey dos Chins; & fe dis que ha nelle dezoito Provin
cias miiy dilatadas, 3c grandes em diftancia quafi de no
vecentas legoas (fendo efte hum dos mayores Monar
chás do mundoj com muitas, & populofas cidades,& vaf-
falos muy bclicofos.
Primeiramente fe ha de notar q ha deita naçam grade
differença, Sn variedade pelas diverfas regioens, a quê he
1 jjo^geita, & tributaria a feus Príncipes: porq hus té Rey, a
quê obedece, o qual posfua Corte na Tdurica Cherfo-
' nefo, junto da Turquia, & não longe de Conflantinopla;
t & deites habitam alguns na Europa , & outros nos cefins
de Afia, & lagoa Meotis (que commommente fe chama o
Mar de las Zabachas j como também junto aos rios Ta-
j nais, & Volga, vizinhos aos Mengrellios,& Circafllos: es
r quais todos por efte nome comum (sõ chamados Naga-
jenfes. Os outros, que habitam paliado o Volga det-ro de
Mofcovia.Mar Cafpio (qije agora fe chama de Bsccuj&
tt os Georgianos faò hijma parte fogeitos ao Duque-de
Ta Mof-
19z ; EiftorU Vnwerfal* >;■ ** ~
M jfcdvii,& outra goza de foa izencam,& liberdade. AI-
guns obedecem ao Turco naquella parte, onde.eftà.o
cabo de Demir, que antiguaroente fe chamou as portas
Cifpias, ou Férreas junto à cidade de Deibent, que e-
dificou Alexsndre Magno, a qual em nofla língua quer
dizer Anguftias, & divide Media de Albânia, que ago-
ra he parte da Tartaria: de modo que os que haôde ir
dcSyria, ou Perda para eft$ Império, de occefíidade hsõ
de paliar por cfta cidade; porque entre os dous mares]
Euxmio, & Caf^io fe cftendem por efpaço de quinhen- ^
tas milhtf huns alciflimos montes, & profundos valles>
em que habitão.huns régulos, & ninguém oufa paíTac !
por efta párage^m por rezam dos ladroens, que iam mui-
tos nellí. Aqui mefmo fica a cidade de Bacu, junto^
da qual fe vé hum monte . que brota hum óleo ne-
gro, & de roim cheiro, que gaftão nas can Jèas, &untão
com ellc os camellos, que tem íarna, por ferem eftes ani-
mais íogitos ã elta.
O Rey de que acima fazemos menfam, fe chama o>
Tártaro de Cremio, que he a metrop.li de feu Impé-
rio, fuppoíroque aflifte ordinariaaiête na Taurica Cher-
fonefo.q elles chamaô Ienibazca,& os Polacos,& Mofco-
vitas Perocofpa. Eftâ Cremio fora da Cherfonefo lúto^o-\
foffo, q antiguamente fizeraô quãdo quiferaõ pòr a Tan- 'é(
rica em forma de ilha. Pelo qual os Polacos.óc Mofcovitas
chamiõ a eítes Tarraros Procopitas da palavra Procop. q
quer dizer f:ffo. Os q moraõàlé dos rios Tanais, & Vei-
ga, Ciõ os q antiguaméce fe chamavam Scytas.&Gétas, gê-
te ruJc,feóz,& indómita, que não tem cidades, nê cab-
ias, nem ulo de paõ; & vinho, nê coufa outra algúa mais 3
q o q.a natureza adminiílra às feras» & brutos do capo, tê-
dofòiiús carros em lugar dc.cafas. Come carne crua, &
bebé sãguc de cavallos, & íegúdo os paflos dos animais. a
aífi
V
, -• mi^Lh \ -o II. Cap. VIII. &4Jía. 15)3
affi mudam os carros cm que moraô, & andaô. Faliam a
iingua da Turquia, mas muy rude, & pcor pronunciada.
Nas guerras faõ atfoladores,!adro€s,& deshumanos.-& aflí
o qac fazem, quando os Turcos lhe pedem focorro, hc
queimar, dcftmir, roubar, & acometer à treiçara o inimi-
go, &logo volver as coitas.
, O titulo dos Reys da Tartaria he Han, que fig-
- niflca dono ,& fcnhor. Os Italianos, & Alcmaens lhe
chamaõ Cham , & os Porcos Zar.ou Cefar: & a fua,
/ família fe appellida Chirci, donde os Príncipes fe cha-
[ maõ MahometCflitei Han,«Islan Chirei Hanj&oRcy,
I; que agora viue fe intitula Alip. Aquella parte , que fica
no mar Negro ate oBoíphoro Cimerio, & entrada da
iagòa Meotis ,que tem mais de trezentas legoasemre-
"*dondo, eftà íogeita ao Turco; & a que penetra mais
a dentro, pofiue o Tártaro Cham, onde ha alguns Chrj -
ítaõs, que feguem o rito Grego. Eftes Tártaros, que
alli habitaõ teme grandemente o Duque dos Moícovi-
tas, par lhe fazerem repentinas entradas em fuás terras,
roubandoas, & levandolhe os moradores cativos, que
vaõ vender ao-s Turcos. No anno mil, & quinhentos, &
íetenta lhe ahrafaraõ a rneíma cidade de Mofcovia ; do-
■ deo Duque não ouía aufentarfe , por temer, que lhe tor-
cem a entrar nella. Os que habitam na cofta de Afia pò-
« de eíte Príncipe impedir, que não façaõ mal aos Chrif-
tãos tomandolhes os portos , porque naõ palíetn o
f Volga . E ja por muitas vezes fe affi o não fizera,
tiveram entrado em Vngria . Eftes faõ os que os antí-
• guos chamarão Sarmatas Eufopeos.ck Afíaticos . con-
' fundindo Scythia com-Satmacia , fendo totalmente
dití.-rentcs. As armas dos Tártaros f3Õ arco, & frechas,
as quais por falta de madeira coflurrão frzer de canas
[js muy agudas, que preparaõ ao feu ufo, com que fazem
í Tj muito

a94> *" - HjJloriaVnwerfd. * 'y.1'- '*- »',
muita dano. O fcu modo de pelejar he muy íemelhan-
te ao acometimento de ladroes, fem difeiplina, nem or-
dem alguma de milícia. Todos vaõ cm cavallos, os qua-
is ldõ pequenos, mas muy foites, & animofos, acurando
muito tempo nas batalhas.
Coftumaõ os Turcos aproveitarfe da ajuda;
& companhia dos Tártaros na guerra, por terem todos v
apropria origem, & feguirem a mefma fupetítiçam Ma-: »
hometana. Porem outra caufa ha mais urgente q-ueeíta,
& he averem feito paftj de nunca terem amizade, nem
fazerem liga com os inimigos dos mefmos Turcos, 5c \
ifto por eftes os temerem grandemente; porque com to-
da a facilidade apodem ejíttar em Gooftantinopla com
irnmenfo numero de fold-ados, antes que os Turcos te-
nhaõ noticia diffo, ou fe naõ poffam defender do Ímpe-
to de tam fortes adverfarios. O que confia do mefmo
Enperador Soliman, porque avendo feito numa /unta
de feus Príncipes, eonfcffou que fò os Tártaros podiaã
fazer dano, & reíiflir ao Império Ottomano. Daqui tra-
tou fempre de os conciliar, & ter propícios com dadi-
vas, prefentes, & dinheiro, que lhes offerece, allegando-
lhes, que fam todos parentes, & da própria defeenden-
cia (porque a roãy domefmo Soliman foy Tártara de
naçaõ, filha de Mahomete Chirei );pelo qual efiâo obn-'
gadosaíer irmaõs em armas, companheiros, & amigos;
Porem no tempo da guerra curta aííàs cara aos Turcos
a ajuda, & companhia dos Tártaros porque lhe haõ de •
dar com que fe fuílcntcm afy,àsroolheres, & filhos, que
cm cafa deixão. ?
Ehe traça dos Turco?, pois para que com roayoí V
fegurança fe poffaõ fiar delles, n3Õ fomente.os obrigam
co ii dadivasse benefícios, mas ainda os conftrangem a
lhes dar obediência: porem fò no tempo de Soliman ^
confta ,
Kl'/. wroll. Cafit.VlII. ~~*/}Jta. apj
os
confta que Tártaros, fendo feu Emperador Seda Chi-
rei, de alguma maneira reconheceram, & reverencea-
raõo Império do Turco. Também a eftes mefroos Tár-
taros os Príncipes de Mofcovia,& Polónia cofiumaõ ma-
ndar prefentes, & offerecer dadivas, porque deixem de os
atcommeter, & roubar quando andaõ recolhendo íuas
, novidades, dandolhesliberdade, & tempo para o faze-
• icra. O Príncipe de Moldávia, fuppofto que paga tribu-
to ao Turco, com tudo tem grande refpeito, & venera-
, çaõ ao Império do Tártaro. E tanto eftimam os Prínci-
pes vizinhos a paz, 5c amizade coro elles, quanto os da
| Europa as confederaçoens com os Helvécios, & Tuícos,
" ou Tudefeos, como lhe chama o vulgo.
Alem deitas differenças de Tártaros (queavemos
'* referido ) fe acham também outros da mefma naçam, que
íechamaõos Gibelos,& ufaõ de catanas na guerra, ar-
co, efeudo, & faya de malha : os quais fuppofto que me-
nos em numero, não faõ menos esforçados, & bellico-
fos. Habitaõ alem do Danúbio na Província chamada
Dobrucia junto âs ruínas do muro, que naregiaõ Sudia-
nadcfda cidade de Liftria , até Conftancia foy edifica-
do , para a parte do Ponto Euxino: o qual muro fe dis,
Í.aue foy fito pelos Emperadores Gregos. A eftes Tacta
/
roschamaõ muitas vezes os Turcos para a guerra, para
períuadirem ao inimigo , que os Tártaros Grimeosvão
. em fuaajuda,& foccorro. Os Autores aduirtem acerca
•" deita nação em huma coufa digna de reparo , & he que
os Tártaros da Europa, que no tempo dos Romanos co-
ftumavão levar feus exércitos â Perfia por Demir Capi
Hfto he pelas portas Férreas, por onde Alexandre Mag-
no paliou aos Georgianos) abrirão , & fizerão cfte cami
nho ao Turco , pois fegniodo em no fios tempos efks
_ meímos paffos o Baxà Ofman entrou no'Império Per*
i T4 fiano,
* t
; ^ y ^->;!>-
i96-^ Hijloria Viiiverfal. !■■ y *
(lano, & fez nelle grandes extorfocns, domando Prúvin- J
cias, &faqucando cidades: & fe efle paffo fc lhe atalha-
ra, ficàraõ muitos Príncipes livres de feus a (Faltos, & in-
folencias. Os Círcaflos, qantiguamente fe chamaram Zi-
gas, ou Piens Corfehios na lingua Polaca, que quer dizeé
habitadores de einco montes, vivem em húa Província
cercada do Cimmetio, Bofphoro, da Mcotis, Ponto Eu- v
xino. Húsdeftes faô livres, & os mais obedecem ao Tar- *'■
taroGtimeo, obfervãdo os titos dos Gregos com vários'1
erros, <5c fuperfliçoens. São pobres, & pelo foldo, que lhes \
daõ, vão á guerra com os Turcos: & pala pobreza fe vc- v
der» muitas vezes» fazendofe eferauos dos que os que- ff
rem comprar. *-

CAPITVLO IX.
T)a vizinhança da Tartaria co o China&
como feus rPrincipesfefafym perpetua
guerra j &■ de outras coitfas def-
ta cSWonarchia.
SAõ os Tártaros (fegundo Fr. Ioaõ Gõçales de Men<f6»\-* ■ •
ça) anaçaó,qimmediat3mente confina cõ os Chins, j
dofjuindo cô elles hua mefma tetra firme, fem aver cu-
tradivifamentre eíles potentiffimes Reynos, mais que húa '"
muralha feita por hu Rey da China chamado Zintzon.o
qual para fe deféder dos Tártaros,cõ quê andava em per- ,
petna guerra, mãdou fabricar efle muro, q oceupa por a- ^
qui toda a demarcaçam,& frõteiras deites Reynos por cf- •
paço de 500. legoas, fegúdo o mefmo Author, q referi-
mos, fuppofto q outros.asireduzè a menor numero. Co-
meça **
. ■

,'.•» 0 __ _, . J
Livro II. Cãp. IX. ±/]jia. 197
meça po* efta fortificação junto â cidade de Ochici pei-
ta entre dous altiflimos, & afperos montes, & íc cõtinua
por todoaquelle intervallo. q ha de Poente a Levante.
Quatrocentas, & vinte legoas; deftas fam defendida$,&
«muradas pela mefma natureza, fegúdo a Crdê, & extenfaõ
de hús altiflimos montes unidos hús Cõ os outros. As ou-
, trás oitenta faõ de muro feito pela arte.Sc architedtura nas
quebradas,ck baixos deflas fcrras.fabricado tudo de pedras
- de cataria, com 7. braças de largo,& outras tantas de alto.
Começa pela paite do mar na Província de Câton,& paf-
fando pela de Pacquim, acaba nadcSuan. Pêra o Rey
t fobredito fazer efla maravilha, que deve ter lugar entre
as outras do mundo, mandou alli vir a lixeira parte de
feus vaffallos, lidando de cada féis dous , & ordenando,
'*que cm cada Província foffem a ella os que eflivelTem
mais vizinhos.- porem nê ainda affi fe pode fazer, que não
morreflemquafi todos, oscjalli afllfliam Poronde aquel-
la fúptuofiflima fabrica fcy ocafiâõ de qlclhe levâtaííe
o Reyno, & excluindo o pay admicifle ao governo hum
filho feu chamado Aogutzi.
Anresdefte Rey fe tinham combatido os Chins com
os Tártaros muiras vezes, & -húa preíeotou guerra o g<ão
È TartaroVzou a Tepiai Rey dj China,Scvécendoo entrou
/nclla cóhú grade exercito & cõquiír-u todo o-Re y.no, fi-
cãdoopofluindos»-.Reys Tártaros porefpaçode QJ, annos
q trstàram aquella naçaõ tyrãnicamcnte, avexandoa com
^ tributos,extroçcés, Sccrueldades. Puré o ultimo q fe cha-
mava Zjntzú, foy mais cruel q todos os outros, pi lo quil
. os povosfe lhe rebelàra-õ,&em feçreto elrgé.aõ a Hõbú
em Rey home valerofo.&defcédéte dos Reys antigos. Ajú-
tou efle a fy muita gCte,& elle obrou t-áto cõ feu tsferço,
& valor, q lançou fora os Tártaros de todo o Rtyn-o com
mor,te de niuytos milhares delles,defendédo os Chir-sfua
liber-
m
198 Híftoria Vmverfd. y< >\.
liberdade contra o injufto, 5t tyranico poder dos iní- ?
roigos, eom alentados brios, & gencrofo animo naquella
oceafiam. Daqui ficàraõ os Tártaros muy eftimula-
dos, & fe refolveraro em cornar vingança dclles.Sc não pa-
rarão atè que vigiando a occaííaro, the romperão o muro'
edes annos, entrando na China, & fazendo grandes ef-
torçoens em íeus moradores, fegundo as authentieas in- ..
formaçoens, que vieraõ de Maehao. Porem no anno *:
1650.as teve Sua Mageftade, que Deos guarde,de que
os Chins alcançarão dos inimigos huma famofa vifto-
ria, fendo feu Rey induzido por hum fervo de Deos a V
que fe eonvertefíeà Fè Cathqlica, porque logo feria a- -úr
judado delle, òc adi tinha dado muitas efperanças de fe
baptizar, como ja o tinhaõ feito íua mãy, irmaõ, 5c filho.*
de que ouve publicas demonflraçoés de feitas, & graças*
na Corte , Sc cidade de Lisboa.
Os Tártaros fe disque tiraõ mais a morenos, &
baços, que a corados, & brancos, fendo femeliiantes aos
de Fez em Berbéria, por eftarem todos em o mefmo
par-ílcllo. Os mais delles andaõ mis da cintura para ci-
ma, & comem carne crua, como fica dito. Coftumaõ un-
tarfe com.o faaguc dos animais, que raataõ, para aífi pa-
recerem mais robuftos, & valentes > noas he tal o màp i\
cheiro que de fy defpedem, que fe nam pode efperar, te-'''-/)
naõ pondofle huma pefiba contra vento. He gente natu- **\
ralmente barbara, cruel, & feroz reprefentando na apa- . ,
reheia exterior o depravado animo, 5c indómita condi- \'
cão, de que faõ dotados. Tem por certa a immortalida-
de da alma, affírmando, fegundo outros Gentios, que • >
em faindo de hum corpo fe mete logo cm outro, 5c fe- *
gundo a ventura fe melhora, ou atraza na imperfeiçam,
ou bondade dellc . Os filhos tem notável obediência
aos pays, naõ lhes faindo jà roais da vontade; 5c gofto, 5c ^
fazen- «
-*•--

■ ^K^I^VYO II. Capit. IX. ^fia. 209


fazendo"© contrario, os cafligaô pela juítiça riguroía-
mente.
Confefl*ara,& adoraõ hum fò Deos, fem admitir
eftatuas, ou idolos, offcrecendolhe cada dia incenfo, &,
tjutros perfumes, & lhe chamam o alto Deos, aquém pe-
dem bom entendimento, &íaude. Alem deftc confef-
fam outro Deos, que dizem he filho feu, chamado Nati-
gas, & affirmam, que efte tem cuidado das ceufas terref-
tes. Todos tem a lua eftatua em eafa , & de todas as ve-;
zes, queíc íeotam a comer, lhe untão primeiro o rofto
com a mais gorda carne , que tem na meia, 6c comem
/com grande veneraçam o que lhe crece. Samo.bcdientif-
fimosafeu Rey, particularmente na guerra, onde cada
hum (atisfaz a íua obrigaçam, acudindo com gtãdç pref-
f
*fa em fe tocando o tambor, ou atrombeta. No mais faõ
femelhantes aos Chins, & he de crer, que fe eítes rece-
berão a Fé de Chriílo, logo os Tártaros fariam o mefr
mo.
Muito he pata reparar na differença, que ha entre
eftasduas naçoens,eirando tam vizinhas, que confinão
huroa com a outra , porque os Tártaros faõ valentes &
bellicofos, & os Chins pufillanimes,& fracos, fendo aífi
| que por fero mefmo clima devia communicara todos
/femelhantes inclinaçoens, & influeucias. Eu creo que
cfta differença lhes procede de que os Tártaros andão
perpetuamente verfados nas armas, & os Chins em fens
• commerciosi pelo qual eftes fam muy ricos, & es outros
fummamentepobres. Outambem fe pode dizer, .que
herdarão cada huns as inclinsçoensdos progenitores, &
que nellas fe confeevam, naõ innovando o que hucoa vez
emprenderaõ em feus primeiros principies. «1
Neftes confins da.-Tartaria fica Vzbech, Provín-
cia ampliffima (como dis Teixeira ) a qual íuppofto que
nos
t to * '• •' ■-"

300 H/floria IJniverfd. ^ '* *


nos tempos paffidos foy fogeica à Perfia, agora não fò
cftâfeparada delia, & íogeita aos Tártaros, roas faz con-
tinua guerra aos Petfianos, a quem tem tomado parte
das terras circunvizinhas. Sua metropoli he Balch, ci-
dade populofa, rica, & povoda de belicoíos morado-*
res. Abulfeda a põem em cento, & hum grãos de longi-
tud, & em trinta, & íeis, & quarenta eícrupulos de lati-
ttid. Nella eftà Chaxchar, que produz o perfeitiffimo
Ruibarbo, que vem para Portugal. Alem deftas tem Sa-
marcanda cidade celebre, por nclla avernacido o graõ
Tamorlam R.cy da Tartaria, & afiorobro domundo em
feus tempos. Marco Paulo Veneto a defereve deite mo- \
do. He Sanarcanda cidade nobre, com fermofifíimas
hortas", & bum campo abundante de todo o género de
fruitos, cujos moradores fam Mihomecanos, & alguns
Chriftaôs, que em pouco o fam, mais que no nome. E£-
tão fogeitos a hum neto do graõ Cham , com quem te
pouca paz, & quafi continua guerra. Iofapha Bárbaro
lhe chama cidade grandifíima, ck de groflos commerci-
os com os mercadores do Oriente. Alguns qoiferam fa-
zer Samarcanda com feu território Província particu-
lar, & lhe chamão Catayo, outros Batlria.
Não longe defta cidade põem Teixeira a de Bo- |
ch3ra pátria de Aviccna, aqual por outro nome fecha-"
mi Boaly. Porem naóquer Luis Nunes, que cite infíg-
ne Medico foffe natural, fenaõ de Córdova em efpa-
nha: mas Ben Cafen Árabe, Author diligentiífimo, que
efereveo as vidas dos varoens illuftrcs, affirma o contra-
rio, defendendo, que nafeco em hum bairro de Bocha-
ra. Antes de ter dezoito 3nnos completos foy graduado
na feiencia da Medicina, em que faio tam douto, & con-
fumado, qae foy o primeiro que ouíou filofophar da fa-
udedos R.eys, & Príncipes, & exercitar coro ellcs-o
cíficio,
1
' • •

''^K^/Livro Tl. Capít. IX. \^fa. 301


efficio , K irriiniferio de. Medico . I ite privilegio r;ão
foy conuedUos outro ar.tses- delle, perq os Reys daquei-
la terra nã-i iifav.iõ de roais Medicina , que de algúas er-
vas, & bom regimento. Copos Avicena tem livros/ co-
rroo dis o me imo Autbor,) porque eícreveo muitos de
Medicina, alguns de Filofophia, as Epiftolas familiares,
a.Explicaçam das"e*v.as, plantas,'.& pedras.; verfos de A-
nima, & falute confervanda. Pedro de Medina defende,».]
o livro de Medicina de Avicena, foy comporto em La-
tim por S. Iíldoro, &q achandofe efle Medico ao tempo
<Je feu tranfitocrtvSevilha, ouve efle livro, qtr.aduzio.eaB
^Arábigo, Scdepois fe tornou a traduzir àe Arábigo em
^ Latim, & qpor rezaô deitas traduçoensfe acha o tal livro
viciado em muitos lugares, pelo qual he menos fegui-
'■*do, & aceito, que Hipócrates, & Galeno.. >
No anno 1222. foy:a primeira vez, que os Tartarcs
com feu Rey Changiufca fe puferam em armas, & dando
íobre os Georgianos, Arménia mayor, Polónia,& Vn-
gria, as alfaiaram (como referem Blondo, &. Platina/
fazendo'o mefmo em Moravia , & terras circunvizi-
nhas . Depois eílendendo o ampliífimo Reyoo. de
Catjyo,.lhe chamaram Tartaria; a qual fe continua pe-
, Jos dilatados defertos do- Oriente atè o mar Oceano
'Oriental, & Meridional de huma parte ,. & da outra-
ate o rio Tanais, Reynos de Períia,.& Turquia, a-
. braçando ambas as Sithias , &• muitas outras Pro-
víncias , como Servia, Ária, & os Sinas. A cidade
Imperial (fegundo Hayton Arménio) he Cambj^JJlJy!"^^
tem de circuito vinte,.Ôc oito milhas, fuppofto oue depois
q dcixou.a Fé Catholica, & admittio a. Maho^tang^jftâ^-
mui denificada por reflhro das muitas guerras! Forsõ ptj-^
meiro bòs Chriftãos, ajudado osCathf.licosnVconqúi.^»'
da Terra f^nta, como disomeímo Author; rrílas<defpois

' 9 J
•<•
-
m
302 Hiftoria IJnmerfal, "^ *
íc fizeraó Mshomecanos, ou para melhor dizer, S*£o«
morbareos: porque tema Sagooaorbar Chara , por gtã-
de Pròpheta, como os Turcos a Mafamcde, & como tal.
o refpeitaõ, & veneraõ. O motivo, qac ti verão para fe-
re^ primeiro Chriftáos,foy que caiando numa filha de
Haycon Rey de Arménia com Mngu Reydos Tárta-
ros, ella o converteo, & fez baptizar, com feu irmam
Hielon,&toda fua família, &Reyno, como refere Gui-.
lhelmo Nangiaco. Efte H<elon lançando fora os Sarra-
cenos tomou os Reynos de Syria, & Icrufalcm noanno
1290. os quais, três annos depois lhe tornou a tomar o
Sultão de Bibylonia, íegundo Niculao de Lira, que fio- >
receo nefte tempo.
Sucedeo na converfam deite Rey, a quem alguns
Authotcsehamâo Caffano, hum grande prodígio refe-,
rido por Ioam Villaneo no livro 8. cap. 35. & foy que no
anno 1298. fogeitou o mefino Tártaro a Província de
Syria com duzentos mil Toldados de cavallo, & fe fez
temido de todos os Príncipes circunvizinhos. Pelo qual
elRey de Arménia lhe deo por efpofa fua filha, fuppofto
que era Chrifta, &Mangú Caffano infiel. Paffado algum
tempo concebeo a Rainha, porem chegada a.hora naf-
ceodefeu ventre naõ hum minino , mas hum monftro\
horrendo. De que atónito, & alterado Caffano acorda'<
com os de feu coníelho, que a Rainha foffe morta, & jul-
gada por adultera. Eftava a pobre^muy defconfolada, ve-
do que morria innocente; & encomendandofe a noflo'
Senhor, por infpiraçam divina pedio, que baptizafíem
aquella creatura, primeiro que fe executaffe nella a fen^
tença. Manda elRey que aífi fefaça, & em fendo bapti-
zada, immediatamente fe transformou aquelle monftro
cm hum menino tam bello, & fermofo, que maravilha-
do o Pay fe converteo à Fé de Chrifto cora os mais
do
r r .

'%*. Livro TI. Çapt, X. ^Jia. 303


do Reyno \ como atras fica dito.

GAPITVLO X
■■!■■■'

©0 riquifsimo)&- famo/o Reynò da China',


fecundo <tÃuthores graves.

í A Lgumas coufas íe acham efcritas acerca defte am:,


J~\ pliífimo Reyno, que muyitos naõ querem admitir,
fSc crer, & as julgam prp apócrifas,ôz falfas: mas os que eC-
crcvem delia, as defendem, pot certas,'«. verdadeiras.
Os que (a meu ver) fç podem melhorleguirflfiAa def-
'-fcripçam., que fazemos, faõ-os Padres Fr, Gafpar de la
Cruz, Fr. Marcos, Fr. António de S. Romão, M?ffee,Fr.
Alonfo Fernandes, âcloaq de Barros, que íegundo sffir-
a?ão, efçfeycram de vifta, & por relaçoeos de taaçnsifó
dedignos,queviraõ, & experimentaram tudoi Goooent
pois o famofo Reyno da China ( o. qual -he-Jerrâ firme,
da Aíi» entre o Gatayo, ou Tartaria, .& o mar Oceano
do Oriente) de comprido quafi de feifccntaslegoas, de
largo maisde.quatrocenras>Sede circurto duas mil, He,
o mais infigne, & rico.do mundo, & tam abundante de
bons engenhos, que mais de feifeentos annos antes que
na^uropa, ,.fe: inventarão: otite- as exccllcmes artes,de,
imprimir livros, & de fazer pólvora; porque como,, fe.j,
cha eferito em fuás hiftprias pafia de mil anoos a rinveoi
Caro deitas artes.
:, Jintrç as maravilhas- do mundo. Te pode contar huy
ma defle Reyno»q«c não caufa menor admiraçam* &r.efj
pancoque as outras. E he; que feus Ríys ^•&;PíincipeJ
mandaram edificar aquelle Jançodje maralha,-por.onde
confina
3o4. mjforía VmTktfd.- ' >«/* -^
confina com os Tártaros; fuppóííoagora fe dis, & pra->
tica, que elies lhe romperam o muro, & lhe tem conquif- .
tado grande partff.dorlrnperioyíamo inferimos no ca-
pitulo paliado .• porem ajudados dos Portuguefes fe tem
reparado com humainfig-ne vi&oria neftes tempos. Cõ-
prehsndecodo ellá quinze ámpliflímas Províncias, corri
muitas, & muy populofas, cidades, fendo entre as outras
Nachim, 5c Pacquiitf as cabeças, & metroptrii do Rey-
no. De Pacquimíe refere, que he a mayor povoaçam,
que' fe conhece nd'rhundo, 5c que p3ra huma peffoa paf-
íarde hurift parte á outra, gaita-quafi hum dia inteiro,
indo fempre caminhando via fc&a. A qual grandeza -
lhéprocede da continua affiífenW, que ftelU tem os;
Rlêfs fcWft fua Cotte. _' * _
Todos os Authores, que trataõ da China fós qnais^.'
faõ muitos) dizem, que fegundo as mais verdadeiras re-
bçoens,tem c(la: Monarehia-fetenta milhoens de pef-
fóas; numero, que'com diffieuldade íe poderia achar
tfm-íoda a Europa. Muitas rezoens concorrem , paraque
riefte Reyno habite tanta gente . A primeira he a gran-
de abundância, 6c fertilidade da terra,-regada pór todas
âs pattes de muitos rios, & valias, a qucmosReys fize-
rão abrir caminho pelo meyo de altiffimós montes. A\^
fegurida he aclemencia, & benignidade dós ares,corria^
aqualaífi as plantas, como os campos frutificãoduas, W ,;
tresvezeáno'anno i produzindo grande abundância dí
frutos. A terceira he a maravilhofa induftria', de que'
tífatod* aquelia geríte na'fabrica dos campos, & no ex-
ercício de todas as artes. Não ha gente nó mundo ma-
is engeahofa nas obras de fuás mãos, Sc affi naõ deixáo
por cultivar hum palmo d esteira, nem de feexecutar errf
nrias fatilezis, & ouiofidades. ; • ■ "
Híem toda a China abundância de feda,algodam,
5fJn açúcar,
0
o > .
■Livro II. Capit. X, d fia. 305
açúcar, almifcar , lataõ , chumbo ,. eítanho » azougue,
muitas minaá de ouro,, & prata,,& pefcaria de péro-
las. Ecom tudo ha muita gente pobicj por fer jnnu-
meravel; & com valerem as couías muy baratas, tudo
^atc as aves, fe vende por pefo . Em poucos lugares ha
moeda acunhada, porque nos mais íe compra com pe-
daços de prata por pe£o , cortando cm muitas partes os
realcs de Efpanha. Té grandes tratos, & comércios, por
íer aterra cõmúmente plana, & de muitos rios navega-
ucis.qoifacilitaõ: & n3s capinas, & lugares efpaçofos u-
faõ de certos catros cõ velas, que corre cõ grande vcloci
j dade. De nenhúa maneira coníenté em fua Republica
vagemundos, ou ociofoss Scaíli todos aprende, & íabé of-
ficio,& trabalhão nelle.
De feus thefouros fe contão tantas coufas, que fe
as não certificaram Authores graves de viíta,& informa,-
çoens autenticas, não foraõ creiveis. Porque alem dos
grandes gaftos, que elRey faz com fuás armadas, & exér-
citos (q faõ.muitos) & o cj de fua caixa real fe dà aos Go-
vernadores, & ciliciais do Reyno cõgrandeza, & libera-
lidade, tê de renda certa cada anno ffegundo os curiofos
o tê obíervado) trinta milhões em ouro, prata, perolas,fe-
das, brocados, & outras muitas couías preciofas. A vifta
de tãta grandeza fica de menos admiraçam oq de Vefpafi-
ano Emperador de Roma fe conta, & heq qnãdo morreo
deixou no thefouto publico 120. milhões. He fê duvida
a renda do Chim muito mayor., que a de todos os Prín-
cipes da Europa : <5c fé faz fua.riqueza mais crei.uel.peIo
abfoluto fenhotio, que tem ..como os Emperadores Ot-
tomanos, fem que aja em todo feu Reyno Excellencias,
nc dignidades,como nos Rcynos da Europa, de Duques,
Marquefes,& Condes,cu|ESmorgados,& rêdas fairam do
património ceai. Por morte do que goza"".\'alguma tenda
>
V por
V \ í

30o Hiftoria TJniverfal. "^


por mercê particular, he elEUy feu herdeiro, & também
quaudo lhe parece lha tira em vida. O titulo, q te toma-
do, he fumamente arrogante, & foberbo, porque fe inti-
tula, Senhor do mundo, & filho do Ceo.
He a gente da China toda d3 mefma feiçam, bran-
ca, & corada, principalmente os da parte Oriental, 3c
Occidental do Reyno. Em quanto meninos fám bera
affombrados, & em fendo grandes fe fazem feos,&de
roirn barba, cora os olhos redondos, & pequenos. Dei-
xaõcrecer ocabello, curandoo com curiofidade ,& de-
pois o revolvem fobre a cabeça entrançado cõ hua fita, &
era cima lhe posm feu barrete guarnecido de fio de ouro, |
& os pobres de ledas de eavallo. As molheres não ufam
de toalha na cabeça, mas de guirnaldas, & joyas de ou-
ro, & prata, que encaixam nos cabcllos. Saõ recolhidas,
& muy honeftas, mais que todas as do OrieDte, & de ma-
ravilha faem de cafafenão a cultivar o campo, as que faó
muy pobres. Os cavallciros,& gente rieafe vefte curio-
famente de feda de todas as cores, & os pobres, & plebe-.
os, de linho, ou algodão. Fazem os viftidos ao noílo ufo, .
Si. fobre elles veílê marlotas, ou numas capas compridas.
Tem ricas armaçoens, porque os brocados , & fedas vale ~
aqui roais baratos, q cm nenhuma outra parte, como tam- V
óé os Damafcos, terciopclos, tafetás, & ehamelotes, tudo I
por taõ baxo preço, q poe em admiração os mercadores. ■
Creíe que os Chins receberão o fanto Evangelho do .
Apoftolo S. Thome,& que quando pregou na índia, dif-
correo também pela'China. Dizêosnoffos Portugueíes,
que viraõ entre elles a imagem de huma fermofa molher,
com hum menino nos braços, a quem fazem fumma-
veneraçaõ , & reverencia. Omefmo refere também
o Padre frey Gafpar da Cruz, que entrou na China no
.anno 15)5. Tera efta molher nos templos, & nos orató-
rios
• !
^k^Lhr&H. Capit.\ X. \JlJia. 307
tios cõ fuás lâmpadas aceías de dia,& de noite > (em en-
tenderéomyfterio, como taõ remotos de nofla fan&a
Fè,&loz da Igreja. Efpantado pois o fobre dito Padre
da maravilha, que avia vifto, perguntou o que aquillo
y^fignificava, & lhe foy rcfpondido: que aquella Senho-
ra era filha de hum grande Rey, a qual pátio aqueHc
Minino, ficando virgem, & que viveo fantamente, Sc
fem cometer peccadoem toda a vida. Também eoftu-
wão pòr três imagens juntas de hua mefma forma, &
femelhança , dizendo que aqucllas três faõ fomente
rhúa, tendoa cm altares: donde parece que em algum
tempo tiverão npticia do myftcrio da Santiífíma Trinr
dade. Tem innumeraveis idolosem feas téplos, como
também em fuás cafasjôc eftatuas de diverfas maneiras,
' huas com féis, & oito braços, & outras cõ ttes cabeçasj
de que cambe ha muitas pelos caminhos, montes, & pe-
nhafeos.
Adoraõpot verdadeiro Deos o Ceo, Sol, Liia, & Ef-
trcllas, pedindolhes, que lhes dê faude, fazenda, dignida-
de, & boa viage. Dizc que o mayor Deos he Iohon; que
não tê corpo, & que feu privado he Sinfay.o qual he for-
mado do Ceo, & tem cargo de governar todas; as coufas
fnblunares. Efte affumão ellesqté três criados, & q por
fua ordê governaõ o mundo; Tranquan.as agoas, os rios,
& fontes: Quequafy.o mar,& osnavegantes: Trinquan, os
homés, & frutos da terra. TS outro, q chamão oPortciro
do Ceo:& a outrosadoram,& tê por fantosiporqfizetáo
vida cafta, folicatia, & penitente, ou poravere fido muy
valentes., Tãbem venerão as eftatuas, & imagens de feu.s
filhos, & dç pefíoas, que.-3.mão(quc he por onde fe intro
duzio a idolatria no mundo ) aos quais depois de mor-
tos eoftuonão contar entre as divindades. Adoram
os demónios , pintandoos muito feos, enrofeados
.^ V2 como
\

:
30S HiftoriãVriverfal y * '
como cobras, & ferpentes, vomitando chamas de fõ-'
go. Efta honra lhe fazem, fuppofto que os conhecem por
rhaos, & que lhes 'não podem fazer eigú bem, mas dizem
que os veneraõ, porqlhes nâò façam mal nas vidas, pef-
foas, & fazendas, témendobs grandemente. Saõ todos de
ordinário intercfíeiros, & aili eífes faõ íeus deoíès, que
mais lhe eftam a conto.
Entre outras muitas ufam huafupreftiçam aflas
ridícula quando querem principiar alguma /arnada, ou
emprender negocio deconfideraçaõ: fazem fuás depre-
caçoens aoidolo, que tem mais à maõ lançando fortes.^
Para-ifto tomãOjdous pequenos paos, como meyas no* \
zes,porhúa parte redondos, & pela outra direitos, &
planos-, os quais atão com huma linha, ou fio delgado, Sc%
logo os lançam da mão, a Deos, & â ventura diante do
idolo; fe caem com o plano para cima, ou hum em
plano ,. outro em redondo, o tem por roao final, & o-
gouro, & virandofe para ó idolo lhe dizem mil afrontas,
&. injurias. Logo o tornaõ a afogar pedindolhe perdaõ
do que lhe differam, prometendolhe, que fe fae a forte
bem lhe oíferecéram fuás offertas, & does. Tornaõ a lan-
çar os pao<, & faindo como, dantes, deitaõ as mãos ao /N
idolo,& lhe daõmuitas pancadas, dizendelhe mil in- \
jurias, & alguas vezes olançáo naagoa.oú no fogo. Lo- *
go o tiraõ molhado, ou chamufeado, & tornandolhe a
pedir perdam cõ muita humildade, lançam fortes, ate que
os paos caem de affento com o redondo para cima (acõ-
tecendo affíacafo) & logo fazem grande fe ft a cõ mu fi-
cas, & offertas ao idolo, de galinhas, adés,5c arroz guifa-
do. Mas fe o negocio, fobre que pintaô as fortes, he gra-
ve , & de importância, lhe offerecem huma esbeça d-c
porco cozida, rouy enramada ( coufa que elles efii-
mâo íobre tudo) & hum cântaro de vinho com foas
coftu-
1 %
*ê + \ ■
'■-^^k, livro II. Capí XI. ^fia. 309
coftumadts eonfeiçoens, & algumas aves: & offerecen-
do fobre o altar as unhas, & cxtetmidadcs deftcs guifa-
dos, come elles os mais diante do idolo com grande fef:
ta, & contentamento.

CAPITVLO IX.

. T>os religiofos ^faccrdotesdos.ídolos Jeys,


&- coJlume's dos moradores da China.
' T"Vvidido cftâ efte Reyno em divetf^ opinioens acer-
i J ea defuafefta, & religião; porque primeiramente
' •huns, que fe tem por contemplativos, defendem, & fuf-
tentão a doutrina de Pitágoras, que as almas fe mudaõ
de huns corpos para outros. Alguns erem aimmortali-
dade da alma, & que ha lugar deputado para os quefa-
cm defta vida, depois que tem andado de corpo em cor-
po , onde recebem bem, ou mal fegundo os focceífos
da fortuna, que elles fingem. Os feculares dcixão cre-
çeroeabello, &o criam cqm tanto cuidado, queadmi-
Jra, porque fe perfuadem, & crem que ham de fer levados
aoCeopellos cabellos. Osíaeerdotes pelo-contrario
(que faõ também religiofos, & vivem reforroadaroente
ao feu modo ) porque rapaõ as cabeças, à navalha naõ
" fazendo cafa da fupreftiçam dos cabellos, affirmãdo que
femcllcs iram também ao Ceo. Tem eftes feus oioftei-
IOS, &hmis profeffaõ muita penitencia, fuftentandofc
com lo arroz, ervas, & frutas, vivendo como hermitoens;
> nos defertosem cõtemplsçam. Outros.ha,qhabitaõ nos
povos em communidade, & a feus mofteiros tem djdo
osReyshadades, & rendas para feu fuílento: fuppoflo
1
V3 1ue
310 Hiftoria Vrmerfal. - ' * *<
que algumas vezes andaõ pedindo efmola cariando cõ
pandeiros, & recebendo o que lhes daô em alforges, ou
alcofas, comem tudofem obfervar abftinencia, ou pro-
hibiçaõ nas iguarias. Duas horas antemanhã fe levan-
tão a cantar fuás matinas em communidade, tangendo
hum grande fino, hum tambor, 5c pandeiros,em quanto
fe eantaõ, & duraõ até o romper da alva. Re'zaõ ao Ceo,
aquém tem por Deos,5c a hum Sinquiaõ, que dizem
inftituio aquella maneira ,5c forma de vida, & o tem por
grande Tanto. Nas manhãs, & tardes offerecem incenfo
aos ídolos, beijuim, pao de Aguila, Ôc cayolaque, que he
muy odorífero, & outras paftilhas,ôc perfumes de diffe-V
rcntes,& fuaves^Seiros.
Ha também mofteiros de molheres, que como os
Religiofos tem cortado o^cabello , Ôc vivem em claufa-^-'
ra, & communidade. Tem em cada Província das quin-
ze do Rcyno feu Provincial, que nomêa os Priores, oa
Superiores, que gouernão es conventos; ôc eíraõ todos
fogeitosa hum Geral, que aífíftcícmpre na Corte dei-
Rey,ôche nomeado porelle. E cite elege os Provin-
ciais, conhecendo também dos negócios mais graves,
Sc demayor importância. Veírem todos de huma cor, Ôc
do mefmo pano, fúppofto que o Geral fe vefte de feda l
da cor de fua religião, Quando fae de cafa vay fempre fc
cm huma cadeira de marfim, 5c ouro, 5c o levão aos om-
bros. Todos feus fubditos lhe fallaõ de joelhos; ôc tem,
fello para defpachar todos os negócios pertencentes a v
. fua jurifdiçaõ. Afiiftcm eftes Religiofos aos enterros: os .
quais, fe faõde gente nobre, 5crica, fe fazem com gran-
des apparatos ,5c defpefas. Ao pay de famílias, quando
morre, veftem os melhores veftidos,que tinha, fentan- >
• doo em huma rica cadeira, aonde vem a molher, filhos,
5cos mais parentes,5c lançandofe por terra diante delle,
fedefr ,
^%^ ffor.oII.Capt.XI. lÂjta. 311
íedeípeSoi, derramando muitas lagrimas. Acabada
eftaceremonia o metem em hum ataúde feito de ma-
deira odorifeta, lançandolhe dentro muitos eheiroíi 5c
logo tapaõ, & calafetam muy bem as juntas, porque o
/»<orpo lhe não cheire mal. Dcfta maneira o levam a hu-
ma grande fala, ornada de armaçam de linho branco, 5e
põem fobre o ataúde hum grande lançol, como pano
de tumba, onde o defunto eftá retratado ao natural, por
que ha muy grandes pintores. Naantefala, ou portal
põem huma meia, ôc velas acefas com pam & fruitas, pOC .
efpaçp de quinze dias. Acodem ncfte tempo os íacer-
r dotes chamados Hoxiocs, de noite como miniftros do
demónio, cantando oraçoens.Ôc offere^ndo faeiificios a
íeusdeofes.: 5c queimando huns papeis pintados com
'-# certos carsaeres, diante do defunto, daõ grandes vozes,
5c alaridos , com que dizem roandaõ aquella alma ao
Cep. E paliados os quinze dias levaõ o ataúde ao cam-
po, onde tem a felpultura, ôc allicenterram com grande
falemnidade . O principal dos officios funerais hc co-
merem os Hoxioens atè não quererem mais, porque nef-
tes enterros fe trataõ com grande abundância , ôc re-
fgalo.
A iguaria principaldos Chins he arroz; 5c fuppofto
que tem trigo, eomem poueodelle, eontentandofe com
arroz cozido Delle fazem também vinho,' que tal.vez
pode competir com o bom de uvas. Comem aflenta-
dos.Sc cmmcfas.fem toalhas, nem guardanapos, porq
nada tocão com os dedos, mas com huns paos compri-
dos de marfim. Dãolhes ao principio a carne, ôc mais
iguanas fem paõ, Sc depois comem huma palangana de
r
arroz cozido. Nos convites põem a cada humfuamefa
com ganços, adens, galinhas, capoens, prefunto, vite-
la, vaea, peícados de muitas caftas, 5c muitas differen-
, V4 Ç»
4
;: /•••"
*=
311 H,floria Z)mverfal. ' ^0^*
ças de fruitas, & de eoufas de açuear. Tudo , o que fo-
beja nas mefas fe mandaacafa dos convidados, porque
fe fàz conta que jà aquillo he feu. Naõ bebem ícm-
pre vinho , fenaõ agoa; & quando bebem o vinho
he quente, & a Torvos como caldo. Saõ muy tempe«%
radosno bebei, & affi bebem por porcelanas muy per
quenas.
Nos cafamentos que fazem, naõ daõ os Pays do-
tes às. (ilhas.- o marido he o que dota aquém quer por fua
molher, & eíla tal he a legitima entre as outras, que
tem. As que não fem legitimas, naõ podem eftarem
companhia da que © he , mas muy apartadas, porque ^
naõ aja conteni-s, & difeordías. Pecmitte o Reyno -
molheres publicas, para evitar mayores males , mas
naõ podem habitar dentro dos muros das cidades,
porqueJnam preveitam com feiTmao exemplo os ho-
neftos coftumesde feús cidadaens. Naõ íe permittem
aos çftrangeiros'entradas no Rayno.fenaõ acsembay-
xidores dos Reys, & Príncipes. Nenhuma nsçam fe
àcha> que-eon? mayor vigilância,^ cuidado trate do
governo da Republica, nem com mayor juizo, & acer-
to tenha ordenado os prémios, &caítigos. Em faben- A
do ler algum nobre, o examinam, & achando hábil, lhe 1
daõ grão de Bacharel, pondolhe dons ramalhetes de |
prata nas orelhas : • & o levam a cavallo pafleando
pela cidade , com bandeiras , & infirumentos dian-
te , & fica com ifto apto para exercer todo o cargo de
/'ufliça.
Em certos tempos manda elRey vifitadores aos
Governadores das Províncias,-& cidades; & fe os ach3
culpados em cafos graves, os cafiiga com muita feve-
ridade, fem appeiraçaõ alguma. Dos que os vifitado-
res, oufindkancesconhecem, que procedem.b(m, daõ
rela- ,
ê • *.
^m^Mvro II. Capit. XII. <*/!fa. 313
w*igeara ao R-ey, que os meuiora, premiandolhes (tu te-
clo modo de proceder, & fuardar jufliça. Em cada hu-
ma das quinze Provindas fc guarda em certo lugar dos
principais numa taboa de ouro com íeus véosdebro-
/*cado, na qual eftà retratado o Rey; & no principio de
cada mes, ou na Lúa nova vaõ a ella os roagiftrados, &
Governadores com grande mufica, & acompanhamen-
to, & defcobrirido os vèos, lhe fazem íua reverencia, ou
por melhor dizer, adoraçam coro acçóens de idolatria.
Confina comos Chins o Império de Cochinchida. cu-
ja Rainha ha poucos annos íe converteo, & baptizou,
fraudando o nome de Flora em Maria; & largando o Im-
^ perioahumfeu irroaõ, fe reeolheo enrjhum convento
cora outtas íenhoras, onde acabou com opinião deían-

CAPITVLO XII.
Tias ilhas&R$ynos do lapão, fegudo Ioao
de Lucena, ^badanera, zSMafeo,
&■ outros çjfuthores.
-
1
/*^\S ampli{limos,& dilatados Reynos do Iapamíam
U muitas ilhas, que eftaõ a hum lado ,- & parte da
' China. Tem de comprido quatrocentas lcgcas , fup.
pollo que de terra continuada naõ mais de a.oo.dnlaJo
outras tátas da China,& Filipina, 5c mais de mil danova
Efpanha.como tábço» da cidade de Goa na índia Ouetal.
Foraõ cftas ilhas deícubertas no snno 1^2. por três mer-
cadores Portuguefes.que cõ hú.a. tormenta arribarão a-
quella coda. Tem efte grande íippeiio ícílenta, gtÃP
;

314 Hifloria XJniuerfd.


Reynos,ou para melhor diftr, Eftados, corf título dè
Reynos. Antiguaraente erf de hum ío fcnhor chama;
do Dayri, Scaverà como quinhentos annos, que hum feií
Viforrey fe levantou cora toda a monarchia do Iapam,
deixandoo fera terra alguma. Contra o qual fe puzeram
cm armas os fenhores principais do Reyno, & lhe rize-
raõ guerra: porem elle foy sam valerofo, & também a-
furtunado, que prevalecco contra todos, & fc ficou com
a mayor parte do Império, tomado nome de Iacatà, que
quer dizer Rey: fc cada hum dos mais fenhores pode-
lofo* ficou com o que pode fuftentar, 5c defender.
Dividefe o Iapaõ em três partes, ou Ilhas princí-V
pais. A primeira^he Ximo.que cera nove Reynos, fendo %
humdellesodeSatzumà, no qual ha muitos Chriftãos
convertidos pelos Religiofos, que tiveraõ entrada nel>~s
le. Outra ilha fe chama Xicocu, que comprchende qua-
tro Reynos. A terceira, & principal parte do Iapam he
numa ilha grande onde ha quarenta, & fetc Reynos, que
cora outros de féis ilhas, que eítím junto a ella, & os que
temos referido, fazem o numero de fenffenta, & féis. Cõ-
ílfte o melhor deita Moóarchia em cinco Reynos, que
eftão na ilha principal, & tem hum nome commum, que
he a Tença. O principal Reyno deites fe chama Xamã- 1
xiro.no qualeítâa grande cidade de Meaco.quc tem \
mais de huma legoa de comprido com cem mil vizi- ™
nhos, & he a Corte, & aflíftencia do Emperador do Ia-
paõ. E he de notar, que aquelie he tido por cabeça do v
Império, que fe apodera da cidade de Meaco , como ha
poucos, tépos o fizeraõ Nabunanga, Faífiba, & Cabucan-
dono.quefalleconoanno 1599, No mefmo anno fuc-
cedeo no governo Dayfufama, em quanto o filho de »■
Cabueandono, que era de dez annos, não tinha mais
idade, avendoo cafado com hum neta fua-- o qual fe le-
vantou ,
..Livro II. Capit. XII. */Ifia. 31 j
Vahtou com o Império, & opoflue agora.
Vive na cidade de Mcaeo o Dayri.que hc o fiiccef-
for dos legítimos Reys antigos: o qual ainda.que naõ
tem vaffaltos, nem tendas, he tido cm grande venera-
rão, & rcfpeito. Elle he o que dà os títulos de honra, &
nobreza em todo o Iapaõ. por vicYoria, que alcançam,
ou feitos heróicos, que obram na guerra. E faõ os lapões
tam arabiciofos de honra que por alcançar cites títulos
* offerecem cada anno aoDayri muito dinheiro, & pre-
fentes de tanta importância, que fò cora ifto reprefenta
rgrande mageftadc . Dá também grãos de Bonzos, & Sa-i
cerdotes, fendo elle de todos o fupremo. Afliftcm era
íua companhia na grande cidade de Mf^co os principais
Bonzos. Ha alem difto no Iapaõ quatro ordens, ou efta-:
"#dosde peííoas. O primeiro he dos que commummente
ehamão Tonos, que fam fenhores de vaflallos.ou fortale-
zas. O fegundo he dos Bonzos, que fam os Rcligiofos,
& Sacerdotes dos ídolos, & fedas; os quais de ordinário
faõ filhos de gente nobre, & principal, Efles tais faõ muy
eftimados, naõ fó por fua geraçam, & nobreza, fenão tam-
bém por fuás letras, que aprendem nas Efcolas, & Vni-
verfidades do Iapaõ. Sam os Bonzos gente religiofa no
nome, & aparência exterior, & em fegredo muy viciofa,

& endemoninhada. Para vender fua fantidade falfa, tem
huma capa de hipocrefia, & com a mayor deftreza do
mundo, com pretexto de religiam, roubáo as bolfas em
os íacrifkios, & enterros, que tem a feu modo. O tercei-
ro eftado hff a gente nobre, em quem os Reys põem os
olhos para fe fervirem delia no exercício das armas, &
nos outros officios, & governos da Republica , os quais
exercitaõadmiravelmente, & com muita prudência, &
inteireza. O quarto eftado he dos officiais mechani-
cos de quantos officios fe podem achar naEuiopaj&os
lavra-
7 -^
3i6 HtftoriaVniroerfal. -\ ^0f^
lavradores, que fam muytosj pelo qual geralmente paddj
cem grande pobreza.
As principais fe&as do Iapam, entre outras, mui-
tas , fam dous Ídolos, chamados Amida, 6c Xacàs os quais
dizem que foram Reys.- Amida de Siam, & o outro de *\
Zamuro;& apartado* em remotiffímos. defertos, fize-
raõvida mui afpera, & foíitaria. Enflnaõ, & prégaõ os
Bonzos, que a falvaçam fc ha de pedir a Amida, & que fe
alcança invocando feu nome com fervor, & devoçam.
Dizem mais que as molheres por ferem immundas, &
indignas de entrar no paraifo de Amida, fe haõde tranf-
. formar em homens. Os que naõ julgaõ bem da íe^a'
de Amidaprofeljamfeguirado Xaeà, que chamaõ ley
de virtude. Efta prohibe matar algum animal, bicho,
ou ave de qualquer carta que íeja. Dizem que afalva-*-^
çam confifte em numa quietaçam da alma dentro do cor-
po a qual fe grangéa com eftar muito tempo fem ima-
ginar em coufa alguma. O inferno (que quafi põem em
todas as fe£hsj dizem queconfifte em viver muy in-
quieta aimaginaçam, & o eoraçara afíiigido, & cercado
de cuidados.
Ha outra invençam de deofes mais pequenos cha-
mados Chamís, aos quais pedem favor os foldados.Sc ca- I
pitaês, & a cada palavra os nomeam com juramento. A
eftes deofes pedem todos.abundância de bens tempo- •
rais, faude, Sc filhos. A outros deofes chamaõ Fotoques,
aquém pedem a falvaçam, & dizem que podem muito v
com Amida. Outra caterva tem também de deofes ao
humano, que faõ os Reys antiguos,& 3lg ns fjmofos
homens, a quem contaõ entre as mais divindades, por-
que fe finalàraõ em algúa coufa heróica, & de que reful- *
tou proveito, Sç.gloria a fua naçam, & Repnblica. Imicaõ
mfto.as fabulas, que os Gregos fingirão de lupiter, Sa-
turno,
torno, Baco, Vénus, & outra canalha de perdidas; & def-
honeítas molheres.
Outra fcfta ha, que he de mayor numero de Gen-
tios, os qu lis adoraõ a hum; Bonzo vivo. Daõ muito di-
/nhei.o pelo verem, porque dize, que'feus antfpaíTados
vitaõ a Amida. O morgado datalgéraçam he cabeça dei-
ta fedta, & he adorado de todos os q a feguéj mandando
file os Bonzos de Aia ley, que fe não dè ouvidos aou-
í*ra. Gõ hum papel efcrito,ck cftampado de alguns cara»
Iteres;& biche s{fymbolo dos dubarates deita' abomina*
jel ley) dà efte Bonzo 9 cada hú fegurança da íalvaçaro,
ue elle toma a íeu cargo, (e lho pagaõ mwto bem. Tam-
bém ha outra fe&a (cujos profeflores fè chamam Xen-
, Xcis, que nega aver outra vida, & outras fubftancias efpi-
rituais mais que as que fe percebem pelos fentidos ex-
teriores. Defendem também os defla opiniam, que não
ha premio, nem caftigo para as boas, & màs obras. Efta
feita feguem commummente os Reys, & Senhores do
Iapaõ, por viverem com mais licença , & peccarem com
mais liberdade. Os idolos faõ ordinariamente de me-
ntal, ou madeira, & os põem aíTentados, como he coftume

I dos mefmos Iapoens. Outros adoraõ nu ma velha feiííi-


ma,& muy deshonefla, fegundo elles a pintam. Outros
ao demónio, que commummente lhes aparece de noi-
te em figura derapofa, lançando chamas de fogo pela
. boca, Outras vezesem forma degigrnte, moítrando-
fc muy valente,- arrogante, & atrevido. Outras em fi-
gura de mono, & he muy temido dos Gentios.
Ha também idolo dos namorados, pondoem
feu templo muitas lâmpadas, & can-
déas de enxofre.

CAPI-
yS HifiorU TJmverfd.
CAPITVLO XIIL ■

T)os templos dos ídolos do lapam, &• de feus*


Sacerdotes, &• "Bonzos,

ENrre as vaidades, & fupreítíçoens deftes Gentios fe


achahúa femelhante àdos Chins; & he que põem
era feus templos hua molher cora hu menino nos braços, j
do modo que nós coftumemOs pintar à Sacratiffima/Jf^
Virgens Noffa Senhora. Dizem que he rnãy de hõ gran-
de Fatoque, & Deov, que ellcs adoram, & venerara muy-.
to. Defte Fatoque referem, que quando morreo, fe eP
cureceoo Ceo,& ouve outras gtãdes maravilhas. Com-
putado o tempo pareee, que eítes finais foram na morte
do Redcptor do mundo Chrifto Senhor noflb. Em to-
dos os templos fe acham muitos idolosi & em hum ( fe-
gundo comummente fe affirmaj ha três mil, trezentos,
& trinta, & três dourados, & de eftatura de hum homem,
com dez braços cada hum, & cinco, oufeis cabeças pe-
quenas. Eftão muy doutrinados de feus Bonzos a fre-
quentar os templos pelas efmolas, que dam. Em alguns
ha gente de dia, &de noite dando vozes aotedordel-
Ies, & eftam alguns Bonzos â porta, vendendo indulgên-
cias, &perdoens. Eftes dam eferitos em hãas taboinhas,
que molhara em hum vafo de agoa, trazendoos engana-
dos com eílas, & outras mentiras. Poffuem os Bonzos
muy ricos Morteiros, onde a feumodotem Coro, lendo
em voz alta por feus livros, & cantando a coros, ao mo-
do, que os Religiofos rezaõ fuás horas. Prêg3Õ de ordi-
nário, fubindo o pregador era hum lugar alto a maneia
de
toro //: Qyí. XIII. */!fia. 315?
de púlpito, muy veftido de feda, & com hfia lamina de
ouronamaõ pciíbade aos ouvintes, que íònaquella fe-
ita Te podem falvar.
Acabado o fermaõ recebem muitas efmolas, & di-'
^ nheiro, que lhes offerecem, fendo muitas vezes os audi-
tórios de dous,& ties mil lapoés, Eftaô todos fogeitos
ao fupremo Bonzo 1 a que chamaô Xaeo. Em fegundo
lugar, a outros como Bifpos, & Patriarchas, que nas cou-
^'fas menos graves, pertencentes a fuás feitas, tem autho-
ridade,para difpenfar. Em alguns Mofieiros dos prin-;
cipaisjâlem dos Bonzos, ha muitas molheres religiofas
Éfem outra habitação diftinta. Eftas fe oecupaõ em hof-
'pedar as peregrinas, que vem de outrosTReynos, ou ci-
dades a viíitar eftes templos. Fazem também húas no-
minas de papel, que os Bonzos daõ aos freguefes de fua
fetla, affegurandolhesafalvaçaô,&que haõ de ir direi-
tos a feu paraifo.
Os principais Moftciros dolapaô faõ os que anti-
guarnente, fendo o Dayri abfoluto fenhor de toda a ter-
ia, edificou junto à cidade de Meaco, dandolhes para
-cada anno muitos mil cruzados de renda. Nomeou do-
us povos para lhes fazerem de comer. Até noffos tem-
1 pos duràraó naquella ferra chamada de Frenoxamajun
toa Meaco mais de quinhentos Mofleiros, & templos
de idolos. Avia entre elles hum mais celebre que os ou
t tros: ao qual de todas as vezes que os Reys do Iapaõ
em prendião algúa guerra , ou negocio de importância,
faziâo promeffaSjdc lâmpadas de ouro, & prata, & de ou-
tras coufas, muy preciofas, & ricas. Em bum altar defte
templo avia hum idolo muy grande cuberto de ouro,
«Om três cabeças ,& mais de quarenta braços, & maôs;
fignificando nefia figura as muitas peifeiçoens de q feu
Deos era dotado,
Na
; .'■. '■■■±Xy\
r
310 Hifioria. O?nuerfal.
Na cidade de Nara hi cambem iníignes Moftet-
ros de Bonzos, com grandiofos templos de idolos; ôc
hum, que he dos mais fumptuofos edifícios do Iapam:
aonde vaõ em romatia innumeraveis peregrinos de to-
do o Reyno. Entre outros ha hum chamado Cabyqui^
xi, que cem junto afy huma lagoa com muitos pefeados,
que ninguém pôde tomar, por fer dedicada ao idolo
Xjcà, & para íeu ferviço . Eftà fundada eíta machina fo-
bre fetenta columnas de cedro, das quais cada húa porta,*
&. affentada naquclle lugar, fe dis que cortou cinco mil
cruzados. No altar deite templo ha três figuras, huma
doXacá.&duas de feus filhos: cada huma das quais tem
fete eftados em alto . A primeira porta defte templo1
tem de largo vinte, & cinco pe's, & de sito quarenta: ,-í
qual fe fobe por huma fermofa efeada de pedra . Dafli
fe entra em hum pátio, ou clauftro fumptuofo; & dclle, a
outros dous femelhantes ao primeiro.- & defronte das
portas deites pátios eftâ a do templo com huma efeada
como a primeira.
Neíte Morteiro dos Bonzos ha hum dormitório,
onde fe recolhem, quehe huoi3 fala muy ferrrofa , &
grande, de fetenta , & cinco eftadios de comprido.a qual 1
tem quarenta canas de cada lado. Iuntoa eíta fala eftà
outra, que ferve de livraria, fobre vinte , cinco pilares:
o qual tudo fe vé pintado curiofamente de differentes
hiftorias antiguas da Gentilidade. He admirável a lim-
peza deites templos, 29 morteiros, porque não ha de a-
ver coufa immunda por minima que feja, que fe não ti-
re logo tendo finalados para ifto alguns homens, que fe
oceupaô em os varrer, & alimpar.' He alem difto extra-
ordinária a curioíldadc das hortas, & jardins , que tem
nosMofteiros.com diveríídade de flores, & rozas, que
nelles criam. Ha tambê nas arvores paflaros de muitas
cores;
m
Livro II. Capt. 'XIII. Afia. 311
cores, & para regalo dos Bonzos tem em fuás hortas tã-
que com grande copia de peixes.
O comer ordinário de que os Iapoens ufana he
arras, galinhas , que criam em muita abundância,
^ aves, que caçam, & pefcados frefcos: porque como
ha tam caudalofos rios, & mar que cerca as Ilhas,he
toda a terra abundante, & provida de todo o género
de peixe , como também de frutas perfeitas, & excel-
Pientes. Não'querem comer carne de vaca, porque lhe
tem afeo, como entre nòs a de cavallo. Menos co-
em leite, nem coufa, quefe façadclle, dizendo, que
c fangue, que procede do interior. JComem fenta-
dosno chão (obre efteiras de palma, com dous peque-
Jios paos de madeita, ou de marfim, obfervando gran-
de primor, & limpeza. Otrage , & veftido de homens,
& molheres he honefto , & euftofo. OJ edifícios íaõ
.commummente de madeira ; mas os da gente nobre, de
aciprefle , ou cedro, de que hà grandiílima copia. As
fortalezas, ôc paços de alguns fenhores íaõ de pedra,
Aias Tem cal.- porem as pedras faõ muy grandes . <5c la-
r
vradas com tal arte , que encaixam muy bem humas
| com as outras. Affi como na Europa por cortefia fe
* tira o fombreiro, affi elles os çapatos: porque em ca-
fa de pe.ffoa honrada nunqua entraõ (em que primeiro
- ,©s tirem.
' Vfam repudiar as molheres facilmente; & cilas
não faõ de melhor condiçam, que as mais das outras na-
çoens do Oriente . Eflimaõ muito a honra, & em che-
gando os varoens a idade de doze annos, aípirão a dar
rooftras de penfamentos, & feitos honrados, & !oao
cingem efpada, Sc adaga . São as efpadas de tam efire-
mada tempera , que coitão com facilidade o ferro. V-
faõ também de arcabuzes, arcos, frechas, & lanças.
X Affi
' - 1
'. "<>■'<- w
3 11 Hiftoria Z)niverfal. £„£*
Affí como na Europa fe eftLmaõ muyto as peças de ouro;
prata, ou pedras preeiofas, affí elles o terem efpadas de
meftres antiguos naquella arte, dando por cada huma
delias grande foma de dinheiro. Naõ fabem que còufa
he vinho de vides: porem artifiçiofamente o fuprern v
eom o que fazem do arroz. Efte não bebem com tan-
to gofto, como a agoa quente (quequafi todos geral-;
mente uíamj lançandolhe huns pòs, que chamaõ Chà.
Saõ tam affeiçoados aefta beberagem, que por muyta 4j
honra os mais nobres fervem eom ella por fuás mãos
aos hofpedes, & convidados de refpeito. A propric-.. \
dade deftes pós he admirável •■> porque fe algum bebe
duas vezes deita agoa, pode paffar toda a noite, fem j
que a falta de dormir lhe eaufe pena.-fe fe dcfveloude ^
noite, não fe achara nodia feguinte peor do que fe ou-
vera dormido o tempo ordinário, que c o duma,.Tam?
bem tem outra propriedade, & he, que ainda que efieja
hum homem perturbado de vinho, em bebendo de-fta
agoa, fente a cabeça livre, & tam defembaraçada dos fu-
mos do vinho, como fe o não ouvera bebido. Qutras
coufas ha notáveis, & curiofas neftes Reynos do Iapaõ,
que eu deixo de eferever por me não dilatar do que ia- v
tento fer breve. I

CAPITVLO XIV.
«i

T)as ilhas de'Lu%pri3ou.Felipinasi &-cida-


de de é\fanilha, fegundo as deferevem
Fr. z5\4arcos, Herrera, &■ outros.
■ J^ S Ilhas de Luzon, fuppofto que defeubertas pelo
Maga-
■*\ IpòII Capit. JW. 'Jlfia. 323
Magalhães no anno mil, & quinhentos , & vinte, & hum,
não forão conquiftadas até o de mil, & quinhentos, &
feffenta,& quatro, no qual fez entrada nellaso Adian-
tado Miguel Lopezde Legazpi cora três navios emque
hião quinhentos Efpanhoes, que da Nova Efpanha def-
' sachou o Viforrey Dom Luis de Velafco por mandado
de Filipe fegando, de cujo nome fe ficàraõ chamando
Filipinas. Aprimeira, que fe conquiftou, foy a de Ze-
f bíi, & logo outras, até que no anno mil, & quinhentos,&
fetenta fe conquiftou a grande Ilha de Luzon, na qual
eftà a infigne cidade de Manilha, cabeça das Filipinas.
t^Tem Luzon de comprido mais de duzentas legoas,& de
circuito, quafi quinhentas. Nefta cidaJe de Manilha fe
fc»os a Corte, & aííiftencia da Audiência Real, & Gover-
nador, & as principais forças dos Efpanhoes; poifer tão
grande a Ilha, & eftar mais em eommereio, & vizinhan-
ça do lapão, & da China, nam avendo a ella defda nova
Segóvia mais que fefferita iegoas por mar. Nella aífi-
fte o Arcibifpo com fua Cathredal, a quem farn fuf-
fraganeos Bifpados da nova Segóvia , & o de Ca-
i ceres , chamado dos Camorins na mefma Ilha 5 &
• o da cidade dei Nombrc de IES VS na Ilha de Ze-
' bú.
Tem aManilhamil, & duzentas cafas de Eípa
_ nhoes, feifeentas dentro dos muros, com fermofos e-
? clificios; & as outras de vttfadeira, dos muros a fora.
Eftâ muy fortificada cotirltóiwos, duas inexpugnáveis
fortalezas, & hum baluarte. Quafi toda a cerca o mar,
' & hum caudalofo rio, podendoíe cercar ornais facil-
mente com hum foíío. Affirmavão os Cavalleiros de
Samloão,& entre elles o infigue Dom Pedro de-A-
cunha ( que conquiftou, fendo Governador das Filipi-
nas , os Reynos, & Ilhas de Maluco ) que eftâ mais for-
X2 tifi-
&m
314 HiftoriaVnwerfd. ' *
tificada , & inexpugnável , que Malta : à qual na Eu-J
ropa poucas, ou nenhunafe ígualão. E aífi 3 charoão
terror, & efpanto dos infleis ; & tudo -lhe hê neceí-
fario , por citar rodeada de innumeraveis , & pode-
rofos inimigos Mouros, & Gentios, & tam apartada,
& diftante donde a podem íoccorrer , & amparar '
Tem o porto algumas Galés , & Navios de armada,
com feu General , & Capitaens para acòdir ás ne-
ceflidades deitas Ilhas . Ha nellas quatrocentos tol-
dados de prefidio , em quatro companhias de infan- 1
taria , Tem cafa de fundiçam de artilharia , & outra,
onde fe faz pojvora, com almazcns Reais de armas, <5c*,
muniçoens. " *
Quanto à religiam dos naturais de Manilha, &
mais Ilhas, fe affirma, que em todas cilas nam ouve'0'
templos, nem esfas comrmins de adoraçoens de idolos,
mas cada hum tinha, & fazia emfuacaía feus idolos,
fem ceremonia, ou (olemnidade certa. Dizem, que
ha hum Deos, que faz todas as coufas, a quem chamam
Batalà. Tem também outros deoles menores, aquém
adoram , & ofTereeem facrificios, a huns para que os fa- •
voreçam nas fcaras, & outros para.que lhes nam fa- «»
çam mal. Muitos adoravam o Sol, & a Lua, fazen- I
do feftas , & convites, qaando era nova. Alguns a
doravam huma ave , que ha nos montes pintada de
amarelo . Também adoçavam aos Caimaens quan- ^
do os viam , polira ndofalhes jsor terra , & com as
mãos levantadas, pelos grandes danos, que delles or-
dinariamente recebem , como aplacandoos com iíto, *'
para que os deixem. Crem , &tem por muy certo en-
tre fy, que as almas de todos feus pays, & parentes, as «
quais elles chamão Anitos, os hão de favorecer diâte do
Dcos principal, para que feja boro o arroz, & outros fru-
tos ,
^% jT*ro II. Cap. XIK \JJia. 3* 5
tos da terra, & para que tenham muita laudci-ôc ou-'
IO.
A eftes Anitos faziam muitas feitas, cfferecen-
dolhesinecnfo, & outras coufas diante dos Ídolos, que
lhes tinham dedicado. Não avia entre elles facerdo'-
' tes, que adminiftraíícm as coufas da religião, íenao
eram alguns velhos, & velhas, que chamaõ Catalo-
nas, grandes feiticeiras, & bruxas, que traziao engana-
dos aos outros. Eftes lhe refpondiaõ mil defvanos,
& mentiras, quando lhes communicavaô íens defe-
jos, & ncceffidades. Faziam oraçoens, & outras cc-

I 'remonias aos Ídolos por feos enfermos, crendo em


agouros, & fuprcftiçoens, que o denfonio lhes per-
wfuadia , com que diziaõ farava , ou morria o doen-
te . Apparecia o demónio a eftas velhas feiticeiras
em varias figuras , enfinandolhes diverfas maneiras
de feitiçarias. Nos faerifieios, & idolatrias fazia hu-
ma molher deitas o officio de fàcerdote: & quando
algum homem o exercitava, fe avia de veftir em trage,
& habito de molher . Alguns religiofos , que aílif-
. tem à convetfaõ deites índios, viraõ, & experiroen-
ftàraõ, que os enfermos, que invocavaõ a Deos fomen-
te faravão; 5c os que enganados faziaõ facrificio aos
Anitos, todos roorriaõ. Criaó que avia Outra vida com
prémios para os que foram valentes, & fizeram gran-
jdes obras, & com penas para os que tinhaõ feito
mal, fuppofto que não fabiam como, nem onde if-
to fe executava . Sepultavam também os mortos em
' fuás próprias cafas, tendo os corpos em caixas mui-
tos tempos, venerandoos como fe os tiveram vivos,
& eftiveram prefentes . Somente os de cafa enten-
diam no-enterro , fem aftos funerais , pompa , ou
. acompanhamento . E fuppofto que oftentavam a trif-
X3 <ez3»
>.. T; ' / ■<*
3 z6 TJ':Jloria ZJnherfal.
$£*$ v,

t.-zj, que os defuntos lhe caufavam, cortando ò ca-


bello; com tudo depois de chorado o defunto, tudo fe
convertia em excecivos convites, & dernaílados ban-
quetes.
No que toca a feu gorverno viviam os das Ilhas Fúíi
*n
pinas como bárbaros, fem género algum de Monac-;
chia^ porque naõ reconheciaõ fuperior,cabeça, ou Rey,
fenaõqueosmaispoderofoseraõ como tyranos fenho-.
res dos outros. Em todos os povos avia hum deites, o
qual os mandava, & elles por temor lhe obedeciarj
Nefte domínio, ou governo fuecediaó, & herdavam c
filhos a feus Pays, & faltando os filhos pairava ao herdei- j
ro mais chegado. Nos pleitos, & differenças, que tinhaõ, 1
nomeavaõ aneiaõs da meíroa parcialidade, que os ouvi- .
aõeílando as partes prefentes, Quando fe avia de dar"*'
prova, levavaõ alli as teftemunhas, 8c logo fe julgava a
ca ufa pelo exame, que fe fazia. Os que cafavaõ. compra-
vam as efpofas com bom dote de ouro, fegundo a cálida-
dedecadahum, & amolher guardava o dote atè que
tivefie filhos, porque logo ficava commum a ambos, pa-
ra aquirirem, &grangearem com elle fazenda, que pot ^
íua morte lhes deixafiem. ^,
Saõ todos os deitas Ilhas commummente desho- !/'
neftcs;&nas deZebu.&os Pintados, as molheres faõ
mny viciofas, &feníuais, Porem abominaõ grandemen-
te todos o peccado nefando; & quando algum cahia nel- A
le, o atavaõ a hum pao, ôc o apedrejavam . Os adultérios
eraõ caftigados nefta forma. Pagava o adultero ao agra-
vado o que julgavaô os anciães: & perdoando com ifto a ')
injuria, ficava o marido defagravado, & com fua honra.
Fazia logo vida com íua molher, fem que roais fe fallaf- \
fe no paflado. Os delitos fe cafligavaõ a requerimento
dos agray.ados> 5c particularmente os furtos com mayor
feve '.•,
ítS.
'•'■% V Lfvro II. Capit. XIr. Otfih W
feveridad?, fazendo eferavos os ladroens, & tirandolhes
algumas rezes a vida. Caftigavam também eom muito
rigor as injurias de palavra, feitas aos principais íenho;
xes'. Coramuramente avia muitos herbolarios, & feiti-
ceiros entre elles: os quais delitos fc não caftigavaõ, ne
fe prohibiam em quanto não caufavam algum dano par-
ti eulat. x"- '
O comer ordinário defta gente he arroz, &pefca-
P do, fuppofto que também cometa carne de cabras, java-
ris, veados, bufaros, & outras caças, principalmente nos
#diasde fuás feftas folemnes, O veftido, por fer aterra
L quente junto ao mar, como Manilha (fendo no interior
" temperada) he muy fingelo? porque (5 trazem humas
^roupas de algodam azul, negro, & de outras cores. Porem
andaõ defcalços de pé, & perna afíí homens, como mo-:
lheres, pelo antiguocoftume.com que todos fe criáraõ.
Mas depois que os Efpanhoes tomàraõ pofíe das Ilhas,
os mais delles ealçaõ çapàtos, & as molheres principais
os ufam de terciopelo/cairelados de ouro com outrasga-
las de preço, & valor, âimitação das Efpanholas. Tem
• eftes índios bom donaire, & brio (fuppofto que a cor he
| baça ) iam muy affeados, & limpos em fuás peífoas, & vef-
tidos, tendo grande vigilância nifto antes de fair de ca-
ía. As molheres curaõ o cabeilo, lav.andoo, &untandoo
com azeite eonficionado comalmizcar, & outroslico-
t res odoríferos.
Todos tem muytos cuidados dos dentes, os quais
I fendo de pouca idade igualam, & emparelham com pe-
' <dras, & limas, & lhes dão hitma coT'hegrai.que he perpe-
tua; a quaí fuppofto que caufa fealdade â vifta , os eon-
íetvafaõs,'& fortes cm quanto vivera, Seu dormir he
em humas canas tecidas como efteiras; & do mefmo
faõ quafi todasfnas cafas: as quais, por feraterra hi;rm-
X4 da,
v "; -:' % '
318 Hiftòria*Vniuerfal.
da, edificâo fobrc huns madeiros alcos. As armas, de
que ufam fam arco, & frecha, & lanças com ferros bem
polidos* & lavxados.- fuppoflo que ja depois que crataõ
comos Efpanhoes meneão os arcabuzes, & mòfque-
ces deftramente. A bahya, & rio de Manilha acodem
muitos navios da China, que trazem grande numero
de gente: & vem também navios do Iapam, de Borney,
Syaõ, Gamboxa, Malaca/ & índia, com fuás fazendas,
Sccommercios. Aqui as vendem, & defpacham para a.«
outras Ilhas. Das fazendas, que vem da China ( q\
he o principal) tem élRey de direitos, a três por cent»
quarenta mil pefos: tributando oito mil os Chins dc'J
Manilha, affi de Chriflãos, comoinficis. Não pafiaõ
de cento, & cincoenta mil peíos todos os annos o que J>
pagaô de tributo as Filipinas : o qual naõ chega às
defpefas. queuell.is fe fazem : & affi o que falta fe Ca-
pre das rendas da nova Efpanha. Suftenta , & con-
ferva elRey eftas Ilhas pela Chriftand.ide , & con-
verfam de feus naturais, & pelas efperanças que tem
de mayores frutos , que cada d.a fe vão augmentan:
do.
Aconteceo na Ilhi de Zebú . que entrando nel* &j
la os Piègadores. Evangélicas de diverfas Religioens, ^'
os Gentios lhes moftrátaõ hum (Menino. IESVS, quedo
tempo do Magalhães tinha ficado alli; Affeiçoados el-.,,
les à grande fermofura do Menino, o deram a hum grah- ^
de, & principal fenhor, para que entre as mais precio-
fas joyas,, quetinha,, O/guardafle.. £ como tinham ouvi- ,
do aos EfpaiThoes eílecnome Deus, chamavaõ ellc ao 'j
Minino Dc'ovata, qu<j he o mefmo que Deos Meni-
no, porque vata em tua lingua quer dizer menino. '
Era efta.fanta imagem tida cm grande eftima, & Vene-
ração, tirandoa com grande acompanhamento,-quan-
do ,
»•

* v 7*** 77. Grpzí. XXÍà .*#/*. 3*9


do lhes faltava agoa para fuás neccffidades , & a me-
tiaõ no mar, pêra que lha deíle. E era coufa roila-
srofa, que chovia logo, & faiaõ da quelle aperto, aífli-
çaõ, & neeeffidade. Pelo qual chamandoíe dantes a-
quella Ilha de Zebíi, dalli por diande fe intitulou Nombrc
delESVS.
Ha nas Philipinas huma cafta de Gentios chama-
dos Sanglcyes, os quais ( fegundo fe conta na quarta
Ipatte de noffas Chronicas ) no anno mil, & feifeentos,
& três conjurados fe levantarão contra os da cidade de
Manilha, com grande fegredo, & intento de porem
^'tudo a ferro, & fego, «Sc ferem fenhores da terra . Ena
meya noite antecedente ao dia de ncTffo Padte Sam
«^Francifco deram fobre a cidade ccmeCcadas, & machi-
nas de fogo: mas indo para executar (eu danado inten-
to, lhes arpareceo fobre a porta do muro hurra ima-
gem de Chrifto crucificado derramando fangue , & a
feus pés o noiTo Padre Sam Francifco pedindolhe pela
cidade. Com efta vifam fe pertu.bàraõ de tal forte os
inimigos, que defmayados cem o grande pavor, & medo
defampâraram o pofto, Ôc fugiram fem ferem fentidos,
| por quanto era.de noite. Sabido o cafo foram dar os Eípa-
nhoes fobre os Sangleyes, & avendo paííado a cutelo
vinte, & oito réíl/alguns, quando oseípanhoes os mata-
É vam, difleram que na meíma noite, em que acometerão
Ja cidade viram fobre ella hum homem crucificado, &à
fua ilharga hum frade de noflb habito pofto de joelhos
I diante do Crucifixo,rogandolhe pela cidade, & que iflo
' os atemorizara de tal forte, que logo fe foram fu-
gindo, deixando de executar o que
intentarão-
CAPI-
'

330 Hiftoria XJnivcrfal. ■

CAPITVLO XV.

T>o Império do Çraô tfMogor, qpor outro t»

nome fe chama Inala verdadeira Orien*


tal^fegundo diverfos (*Ãuthores3
que efcreveram delia.
A índia, a guem de prefentc òs Pcrfas, & Árabes chaijj
maõ Indbftan, tem feu principio pela parte Occi-
dental defdo rio Indo (etn cujas ribeiras, & prayas eftâ o iv
Reyno de Sinde, & feus moradores fe chamam Abin-
des) ôc defdos confins do Reyno de Macron, a quem ou-
tros chamãoGatehe Maquerona, cujos moradores iam
os Beloches, &feu Emperador no anno i«5ij. era Me«
lech Myrza, o qual fendo dantes tributário ao Rey da
Perfia, neftc tempo fe tinha rebellado contra elle. Efta
he aquella Provincial a quem os antigos chamarão Ca- *.
ramania, & feu porto heGuader em vinte, & finco gra- ^
os da linha para a parte Septentriona!. Ao Sinde cha-
mão os Árabes, & Perfas Reyno de Diol: Sc o rio, a quero
os antiguos chamaram Indo, chamão agora Pangab afU .,
os Pcrfas, como os Mogores, que fignifica cinco agoas, ^
porquaato fe metem nelle quaíi juntos finco rios: dos
qmis hum ffegundo Pedro Teixeira Português) he Be-
ath.quenace junto a Chabul.- o fegundo he Chanab,
que dece de Caffimer, Provincia, que difta quinze dias
de caminho de Lahor, para o Norte'* o terceiro Ratiri,
que pafía. por junto a Lahor, & nace por cima da mefma
cidade: o quarto fe chama Via, que nace em regioens
mais
.Vi "'Itfc
•'•■•* \%%U. Capit. XV. <J!jni. 331
mais remias, & diflantes: & o quinto he ísinde, que por
fcr o ultimo fe metem nelle os mais, & ahi peidem ícus
nomes, & elle fe fica chamando Indo, entrando no mar
em vinte, & quatro grãos, & quarenta, & cinco eferupu-
los da linha para a parte do Norte, ficandolhe a cidade
de Diul em diftancia de quinze milhas da foz.
Hepoisefte Império tam amplo, & dilatado que
(fegundo alguns eferevéraõ) efeaffamente o poderá au-
frdar%ra redondo huma Cáfila, ou Caravana por efpaço
de dousannos. Eduardo Tcrryo Inglês lhe finala eftes
limites, &demarcaçoens. Pela parte do Oriente o Rey-
'no de Maugh: peloOecidente.a Perfia,& o mar Ocea-
''no inclinando ao Meyo dia;pelo SepteirTriam, o monte
^Caueafo, &a Tartaiia:& pela parte Meridional, o Rey-
*nodo Decão.ou Dealcão,& o golfo de Bengala . Edis
mais o fobredito Author, que fe divide efle Império em
trinta, & fete largas, & grandes Províncias, as quais nos
tempos paliados foraõ cada huma Reyno de perfy. Os
íeus nomes, cidades,& rios faô os que fe feguem come-
çando da parte Occidental.
1. Chandahar, cuja metropeli temo mefmo no-
I me, he Província, que cabe para a banda do Norte, &
confina com a Perfia, cuja parte foy antiguamente, &
agora o Perfiano a tornou 3 tomar ao Mogor, 2. Cha-
^bul chamada aífi de fua principal cidade. Heefla Pio-
^tflncia a ultima defte Império, & confina com a Taita-
riada banda do Norte. Nace nella o rio Nilab, que cor-
re para o Meyo dia até fe meter no Indo, & parece que
I efteheoque Teixeira chama Behat. 3. Multan, toma-
do o nome de fua Metropolij a qual para o Occidente
tem a Perfia ou Chandahar,& para o Meyo dia Bichar,
tocando as ribeiras do Indo. 4. Hajacan tem por limite
pelo Oriente o rio Indo, pelo Occidentc LKa Provín-
- cia
.\

5 r
3 51 Hifloria XJniuerfal.
tVt da Perda; & fe chama o Reyno dos Balocos, gente
fera,& belicofa . 5. Buchoc eftà fituada nas ribeiras do
Indo, que com fuás correntes a fertiliza fummarríente.
6. Tatta intitulada afii da cidade Principal, por onde
correndo o Indo, faznella muitas ilhas frefeas,& fecun-
das; &tornandofe a fua corrente, fe ajunta perto do Sin-
de, cidade de grande nome. 7. Soret, cuja metropoli fc
chama Ianagar, he huma Província pequena, mas muy
rica. Pelo Oriente confina com Guzarátte, & pelo Me-^
yodia com o mar Oceano. 8. Iefclmere confina com
Soreth, Buchar, & Tatta. 9. Attach, cuja metropoli fel
chama tambemaffí, eftâ fituada nas prayas dorioNilab, j
que correndo ao Norte femete no Indo, o qual divide
efta Província de Hajacan. 10. Pangab, cuja cidade,,
principal he Lahor, amplilifima, & fértil Província, por
fer regada dos finco rios, de quem ha pouco tratamos,
tomando o nome delles. it. Caífimere , cuja cabeça fe
chama Siranachar, he Província banhada do rio Behat,
que depois de aver feito nclla muitas ilhas fe mete no
Ind o, ou como dizem outros nos Ganges. He muyto mõ-
tofa, Scfria. Oito legoas da fua metropoli eftá hum la- *
go, que tem cinco de circuito, em cujo meyo eftà huma
ilha s & nella huns paços reais feitos para dalli fe caça-
rem ganços. & adens, de que ha grande abundância. Iun-
to ao rio, que palía pelo meyo do lago, ha humas arvo-.,
res de immenfa grandeza, cuja folhas faõ femelhantes' sv
às do caftanheiro, & fua madeira farrada faz humas on-
das aprazíveis, ckluftrofas. 12. A Caífimere fe fegue a
Província de Banchish, cuja Metropoli fe-chama Be-
ishar.
13. Iengapor chamada aífida cidade principal, eftá
/unto ao rio Chaul entre Lahor * & Agra . 14. lamba,
cuja cabeça tem omefmo norae,& he Província chea
de
■\* '< (J ■ •
* ' • "tvtStoll. Capú XV. iÂjia. m
de afperos montes, &.confina cem -Bangab... 15 Dely
com a metropoli, do mefmo nome., cae encrelamba,
& Agra. Neíle nace o tio Iemini, ou. Semena , que
pairando por Agra fe mete no Ganges, iô. h Provín-
cia de Bando, cuja cabeça fe intitula affi , confina com
' Agra. i7.Maluvas, ou Malva, he Província fecundif-
fima.cuja mettopoli he Raptipore, junto ao rio, Ç.e-
pra, que fe mete no golfo de Cambaya. is. Chitor,
l^coro a cidade principal do mefmo nome, he sroplo , &
mtiquiffimo Rcyno, & confina com Andes, & Guza-
.atte. 19,. Guzaratte , MCO ,:Jk fermofiffimo Reyno, he
L chamado agora dos Portugnefes Cambava, por rezãQ
defte empório, que elles frequentão. h? regado de di-
^verfos rios, como faõ Nardabah( que paíta por BarohahJ
'^Tapte , & outros , com huma feimoía enfeada , que tem
no mar. 20. Candish, cuja cabeça he.chamada Bruham-
pur (Corte antiguamente do Reyno do Dealcsm, que o
GraõMogor lhe tomou) he Reyno dilatado, & muy fre-
quentado de povos, & moradores, o qual divide o rio
Tapte, que fe mete no golfo de Cambaya. 21. Berar,
cuja mectopoíi fe chama Shapoié, he Reyno Auftrslq
• cõfina com Guzaratte, & as montanhas.de Ranna. 22.
' Naruar ( cuja cabeça he Gehud ) he-regada de hum
fermofiffimo rio, que fe vay meter no Ganges. 23. Ga-
loror, côa metropoli do mefmo nome, tem hum caftel-
., Vófortiffimo, onde faõ prifioneiros os çativ.os nobrrs,
& fe guardam nelle muitos thefouros Reais com gtande
* copia de ouro, & prata lavrada, & por lavrar . 24. A
I Província de Agra tem o mefmo nome com fua cabe-
ça, que he cidade grandiffima, & poita.no meyo de
1 tc-do o Jmperio. Eqtrc Agra, & Cahor, que famas cida-
des principais, fe conraõ quatrocentas milhas. He to-
da eíUregiaõ certa pUna , & igual; o caminho para
a Corte
■:
\ ■

334 Hi,ftoria fynivèrfál. ^


aGortetodoeuberto de arvoredo por ambas as partes,
«òmtal traça, &ordem. que he hua faida, & jornada muy
Ftéíea, engraçada, & aprazível.
25. Sàmbàl.toràaonome da cidade quehefua
cabeça. Divide efta Província o rio Iernini junto a Nar-
nar, o qual fe mete no Ganges. Por outro nome fe cha-
ma o Reyno de Noab, que quer dizer dentre os rios,
29. Bachat,cuja metropoli (e chama Richancer, eftàfí-
tuada ha praya Occidental do Ganges, 77. Nigrachuf'^
he Ptovincia montofa,& a ultima defte Império para!
parte Aquilonar, Sua metropoli tem o mefmo nomc*>
na qual fe' vè hpma' fumptuofiífima' capella, cujo tcflio, &.|
pavimento efta cubertodc laminas de ouro .-'onde fe a-
WfÀ hum idolo chamado Mattà, a cuja veneração con^
correm todos òs annos muitos milhares de índios, &cor
tarído partes de fuaslinguas, lhas offerecememfacrifi-
cio- Na mefma Província eftà também Call3machâ,a
quem por caufa de religião vão muitos peregrinos, on-
de de fontes feias, & afperas penhas fe vem cada dia fair
chamas de fogo, diante das quais fe poftram os bárbaros,
& fuprefiiofo vulgo com grande veneraçam, &-idola-
tria . 28. Sibà, Cuja cabeça fe chama Harduvair,' onde fe
cre, que o Gangesnace de huma rocha, a qual imagina
o vulgo, que tem figura da cabeça de huma vaca, & por
iffo eftimão elíe animal mais que os outros, lavando to-
dos os dias os corpos nas agoas daquelle rio. He Provín-
cia pofta toda era altas ferras, & montes. 29. Chaha-
res, cujas principais cidades fam Danchales, & Purhola,
. heregiaõ muy dilatada, & montofa, dividida da Tarea-
ria peías altuTâsUo monte Caucafo •■> fendo a parte mais
SeptentriOnai: defte Império. 30. Gor, chamada affi de
fu3 metropoli, he lambem Província môtofa, em que na-
ce o rio Perfalis, que corte para o Ganees.
li. Pi!tn, que toma o nome de íua cabeça, he rega-
da dorio Chanda,, que em íeus confinsfe-mete no Ga-
ses. He Província móntola eílendida defde lamba para
aparte Oriental. 32. Chandiana Ccuja roetropoii fe in-
titula Charachatenchj (e divide de Peiranpclo rioPer-
' falis; & para a parte Auftral he a ultima defte Império.
33. Patna, chamada afíl de íua metropolH he Província
fertiliffima pofta entre quatro rios, ficandolhe o Gãges
topara o Occidente, & Perfalis para o Oriente; os outros
^iousfaõ Geraini,&Çhandah, 34- Ieíual,coja cabeça he
Ragapor, fica de Patnàpara a parte Oriental,. & confina
icom Bcngala.r35. Mevat, cuja metropolHc chama Nar-
\iol, he regiam pofta em afperos motite^araaparte,O,
^iental do Ganges. 36. Vdella, cuja cidade principal fç
intitula Iochanar, he a ultima Província defte Império
para a parte Oriental, onde. confina çpm o Reynpde
Jvlaug, cujos- moradores fãó ferociííimos • & muy batbar
ros. 37. Bengala he hum dilatado,; & fettilifíimp &çyj
no, que começa nogolfo:Gangetico pelo Meyo.dia^ on-
de fe mete o Ganges por quatro.grandes bocas, em que
íe reparte. As cidades prineippis fam:;Ragmeel,a;P*afhj
• confinando çom Ch<nomandelr!Xe:mmuitQS portosM
quentados dos Portugpefes, fendo ps-prinçipais Philapa-
tan, & Satighan. Encerra' muitas Províncias, & as que
mais fe aventajãpsão Purpp,&: Par.tai,vck qu.era;os.pQtc-
ViífiroosReys antiguamente tomàraõip nprpe^, Rcfèr^^i
' os Padres da Companhia, que cferevéraõdeAe.I^ReiÍQ>
que defdacofia, de Cambaya paraoMorte oceupay
de largo quatrocentas.^gpasj.&do. Oriente
:para o Occideníe> q^e.he defcieiBçn-
galaaté o§iode qu.e:h,e plat ■-■-'.■ ...
do,Ce.ifcentas,
vi, ... I
CAPr
i ' •• -
.
336 Hiftoria 'IJmrverfd.

CAPITVLO XVI,

De algumas Províncias em particular, do


Império doéMogor.
PRopoítas afli cm comum as Províncias, & Reynosf.j
deíla Monarehia,.tratarei agora de alguas ern parr* (
cular, começando pelas regioens, & partes marítima J'
Em Primeiro locar fe oflèrece Guzarate, a quem ffegú-
do jà fica ditosos Portuguezes deraõ nome de Cambaya»'
a qual faz duas pontas & enleadas para a banda do mar
Indico: huraa das quais tem no principio féis legoasde
largo, & pouco a pouco fe v.ay eftreitando por efpaço de
quarenta milhas para aparte Aquilonàr. Demarca eíta
Província pelo Occidente o mar Indico: pelo Septen-
triaõ a enfeyada.& acabada cila, Sorre, Iefolmefirè, &
Bando: pelo Oriente Chitor, & Ca.ndis;& pelo Meyo
diâo Reynodo Dealcão. As cidades marítimas , que
tem neftas duas enfcyadas, fam Surattc, Brochia , Cam-
baya, Mangaról, Patan, Dio Cherimar, Nagfario, Me- '
hova, Dongeffar, Dafglan, Mangerolpore, Onnapar,&
Goga. O empório, & efcala, a que agora mais acodem
oslnglefes, & Holandefes he Suarate, que difta da linha
vinte & húgraòs, & quarenta efcrupulos. Eftà fítuada nas
ribeiras do rio Tapte ( a quem outros chamão Tindc)
o qual dece de Bafampore, & vinte milhas por baixo
deftelugarfe mete no mar Indico, 3dmittindo até a ci-
dade navios demeyá carga, fííe etta cidade pequena,
roas fortidima. Pertòdella efiá hum tanque aberto em
viva penha, & de numa a outra cfquina, ou canto tem
vinte,
" * JjfVYO II. Capit. XVI- -^fa- 337
vinte, &oyco braçadas, com íeus degraos formados da
mefrna penha> obra admirável aílino artificio, como
na grandeza. Três milhas pelo tio a dentro eftá huma
Ilha, que de inverno toda fecobre de ondas, a cujo
lado Septentrional eflá huma bahya , onde os ma-
yores navios íe deícarregam , & tornaõ a tomar Tuas
cargas.
Cambaya he empório, & porto famofo, & fe dis
que tem fetenta mil moradores, com fortes muros, &
edifícios fumptuofos, cujas ruas, que fam direitas, & cal-
çadas , fe fecham todas as noites. No roeyo tem três pra-
Wj ças grandes, em que fe vendem todas a^oufas; & feus
li moradores fam pela mayor parte Baneanes. Ha nefta pa-
líkragêgrande copia de bugios, que cofluma fazer muitos
danos,& andando pelos telhados das cafas matam muita
gente com as telhas que delles lançam. He empório tam
frequentado, que muitas vezes fe achaõ nelle duzentas
nãos mercantis. Nefta coita eftà Baçaim , &■ quatorze
legoas adiante, Damaõ. Ametropoli da Província he
Amadabar, cidade iguala Londres na grandeza , oc-
cupando íeis milhas de circuito. Os edifícios fam fa-
f mofos, & ruas largas com calçadas excellentes. He
grande acontrataçam, que ha nefta cidade, faindo delia
de dez em dez dias para Cambaya duzentos carros car-
regados de fazendas, .Os mercadores (qfaõquafi todos
» Baneanes ricos) como os mais moradores, he gente de
grande induftria, &a cidade tam opulenta, que fe pò-
A dem tirar delias dez mil homens deeavallo. Todas as
I portas eftão fempre com perpetuas vigias, nem fedàen
trada a pefloa alguma, fenão com licença do Govcrna-
> dor. Vfaõdcfta cautella por terem vizinho o Badur, q o
Mogor nunqua pode domar, por ter fua afllfiencia em
hum lugar naturalmente inexpugnável. E nos anhos
> . Y palía-
p
358 . HiftoriaXjmuerfdl. ,
paliados dcceocom cem mil homens de cavallo, & en
ctando repentinamente em Cambaya a afiolou, depois
de aíaquear.
Também entre as cidades de Araadabar, & Tra-
pen habita nas montanhas hum Rahia, ou Regulo que
pódc pòr em campo dezafete mil homens de pé, & ea-
vallo; cujos fubditos fe chamaõ Quilees, & habitam em
defertos, que os fazem livres , & izentos do Império do .
Mogor. Não longe daqui começam os montes de Mar-*
va, que oceupão grande efpaço de terras. No mais ai-;
to delles eftá hum caftello inexpugnável chamado
Gurchitto, òrHe refide o potentifíimo Rahia, a quem 4
nem os antiguõs Reys Potanenfes, nem os Mogores
até efte tempo podéraõ fogeitar, & vencer: por quàn/;
to os índios veneraõ a efte Príncipe, como os Chrif-
tãos Catholicosao Pontífice Romano. Todo o feu
fenhorio tem fechado com aquelles altilTimos, & inac-
ceííiveis montes, & onde pódc aver alguma entrada, o
tem bem fortificado , & guarnecido. Poííue grandes,&
fermofos lugares, & pode pòr doze mil de cavallo em
campo. Huma legoa da cidade de Amadabar fe vè
hum monumento, ou fepuehro de notável magcíta-
de, & grandeza ; onde eftà fepultado hum Cadíz, pe-
dagogo , ou ayo de hum Rey de Guzaratte ; o qual
mandou fazer toda aquella fabrica, onde elle, & ou-
tros três Reys eftáo enterrados em huma capella. Tem
eira machina três eyrados, ou terreiros, em hum dos
quais ha quatrocentas, & quarenta columnas de mármo-
re de trinta palmos em alto cõ feus oedeftais; obra real,
& digna de fe poder ver.
Sarques he huma cidade famofa, onde fevemas
fepulturas dos antigos Reys de Gozarate em hum fer-
mo"íifiimo- templo, aonde acodem muytos índios de va-
rias
V ;i/
'Iruro II. Cap:Xri. *Âfia. & 339
lias partes. Perto daqui fica huma grandiofa cafacom
feu jardim muy polido, que edificou Couchim Nauvu
hum das principais íenhores do Mogor: o qual nefle
lugar venceo em cruenta batalha o ultimo Rcy de Gu-
zaratte, & íogcitou o Reynoao Graõ Mogor.Nefte lu-
* gar fe produz grande copia de Anil, de que fe leva mui-
to para a Europa. Rende a cidade de Madabar cõ fua co-
marca (onde feaehaõ vinte, & cinco lugares principais,
& dous mil, novecentos, & noventa, & oito mais peque-
nos; paíTante de féis roilhoeos: os quais dà o Príncipe ao
Governador, por lhe íufientar nefia Província quinze
mil homens de cavallo. Os quais reditos recolhe princi-
Wpalmedte da agricultura dos etfmpos, porque na cidade
fe não paga tributo algum dos commercios, que íe exet-
citaõ nella.
Depois deita cidade metropolitana tem o primeiro
lugar Baroche fitaada nas ribeiras de hum ferrnofifli-
mo rio, que decendo de huns altos montes, por baixo
delia fe mete no mar: mas antes diíío fe divide em do-
us braços, com que faz huma ilha de largura de hum
quarto de legoa. Perto de Brochia fe tiram das minas
f muitas pedras preciofas, que ehamaõ Achates. Ha tam-
bém aqui numas palmas agreftes, das quais, como de
outra arvore por nome Tarrio , tiraõ hum licor precio-
fo, que ehamaõ Tarrien.&Suren , muy eítimado. Em
»'hum lug3r, que fica entre Broehia, & Amadabar.eftà fe-
1
pultado hum fantão Mahometano chamado Polle Me-
I donio, ao qual concorrem de todas as províncias da
I índia, huns para que lhes dè riquezas, outros filhos, &
mais eoufas temporais. No caminho vão hús carregados
► de pefadas, 5c groflas eadèas, & outros levaõ húa m
ça na boca, que não tiraõfenâona occaíiaõ de comer.
E dizem que em lavendo venerado com devaçam cílc
> - Y2 [feu
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* u --..; , g • •■'
340 Hijioria IJniverfd.
feufanto, lhe cac logo a mordaça, & as cadèaspor (y
mefmjs, dando todos credito a efta fuperftiçam, & vai-
dade.
Radiapore,ou (como lhe chama o vulgo ) Brcde-
ra he huma cidade infigne pela terra a dentro, comrriu-: „
to, & fortes caftellos, & habitada quafí toda de Bãnca-
nes. Na mefma Província eflà o caflello de Ieloure e-
dificado fobre hum empinado, & alto monte Dentro
das portas tem huma fumptuoflima Mefquita, & acafa l[
do Governador na mais alta eminência do monte.-& na; /
decida delle fica hú tanque quadrado aberto em húa pe- \\
nha, que tem emeoenta covados de altura, & a agoa delle J
moy clara, & excellenre.'No pé defie monte ha huma ef-
paçofa campina plantada de fermofíflímas arvores, &./ ,;
no alto dehum pequeno outeiro eftâ o fcpulchro dei'
Rey Afiuard frequentado de moytos peregrinos,que por
feu valor, fantidade, & opinião o veneraô grandemente.
Na cofta defteReyno para a parte Aufira! eftâ a cida- ,
de de Dio, onde os nolTos Portugoefes tem huma for-
taleza, a qual fizeram no anno 1535. com confentimento
do Badui, que naquelle tempo era Rey de Cambaya, ou
Guzaratte. \X}
A efta Província para a parte Oriental eflà vizinha
adeCandis, que os Portuguefcs charoão Sanda . Sua
Metropoli he Barampote, cidade glande, mas muyqué--,,
te, & nociva â faude pelos mãos ares , que temporeftar «
fituada em hú lugar muito baixo. Perto delia corre hum
rio, onde eflà huma pedra, que reprefenta coro gran-
de femelhança afigura de hum Elefante, tanto que os
mefmos Elefantes, quando vão beber ao rio, íe enganaõ
às vezes comella. Temlhe os índios grande refpeito,
& veneraçam , como às mais coufas extraordinárias,
que vem na natureza. Bádur he afllfteneia, & covil
.de
. *3F
>
»
\k)ro II. Capit. XZ)I- lAJid. 341
<Ic ladroens. Nella fc faz huma maneira de vinho, que fe
efpteme de hum fruto chamado Meua, o qual he muy
amargofo, fe fenão coze primeiro ao fogo. He fenhoc
defte lugar Pe&ofpavi Regulo, ou Rehya Gentio, õjha-
bita em huns altos montes eílendidos por grande diftãcia,
AchabariEmperadordos índios o teve pofto em cerco
fetearinos,& no fim fe concertarão emque ellefe ficaffe
com Nancaporé, Daytâ, & Badur, & não moleítaffe aos
.-- que fizeífem feu caminho pelos campos. Dahi por diãte
ficou amigo, & confederado com o Mogor, & lhe manda
todos os annos feus prefentes.
ij , Haffere nefia Província he hum f|rtiífimo caflel-
1 lo fituado no cimo de humaltiffímo monte, o qual he
%tão grande, & tem tanta capacidade, que fe affirma fe po-
dem fuftentar dentro dclle cincoenta mil cavallos, porq
tem grandes tanques, & fertiliíTimos paftos. Também íe
conta, que avia nelle em tempo do ultimo Rey de Gu-
zaratte feifeentas peças de artilharia. Aehabar Erope-
rador do Mogor o tomou, depois de o aver tido em cer-:
co muyto tempo. Efe disque os cercados fe lhe entre-
garão, porque os tangues, & cifternas criàraõ innumera-
? veis bichos, & quem bebia daquella agoa' inchava , & re-
bentava em breve. Mandoâ he cidade, muy illuftrc com
grandes, & altas portas, & fumptuofos edifícios. Ha ncl-
JU huns paços de muita mageftade , & grandeza, em que
' eftão fepultados quatro Reys em maufoleos riquiffímos.
A hum lado deites paços fe levanta huma torre , que té
Íde alto cento, & fetenta degraos com feus pórticos,
& janellas,fundada fobre fortes columnas
& abobedas muy folidas.

Y3 CAPI
r- •>-•"
V. > V

341 -fíí/?o^ Vmverfal. / " '^


CAPITVLO XVII.

ZXí ^Província de a^fgray &■ Corte do


ÇraÔ <£\dogor.

DA Província de Galere, para a de Agra, fe pafla hf »"j


rio chamado Cambcrc, que as fepara, & divide h\ /1
ma da outra. Eftà Agra em vinte, & oyto grãos, & qui ' !
renta, Ôc cinco^efcrupulos da linha para a parte Septert- 4
trional. Antes' do Rey Aehabari fe dis que era não mais
quehuma aldèa, & agora he huraa opulentifilma cida-^
de. Eftá pofta em forma de meya Lúa nas ribeiras do
riokmini, que por outro nome fe chama Semana. Saõ
muitos, & fermofiffimos os paços que aqui tem todos os
fenhores,& grandes do Império do Mogor, com huma
perfpè&iva admirável, que ao perto, & ao longe osfas
campear com grandeza, & mageftade. Nclla eftà huma
fortaleza, & caftello, onde o Príncipe tem fua Corte,
fendo a coufa mayor de todo o Oriente: porque alem \)}
de fuás perfeiçoens, curioíidades, & grandezas, oceupa
quafi de quatro milhas cercadas por todas as partes de
murodecantatia,&da banda de dentro com dous altif% .
íimosfoíTos, No interior eftà o paço, & aula real, coou-; *
tros edifícios de inereivel furoptuofidade , & magnifi-
cência. |
A própria cidade não tem muros, mas hum foflb, I
valia, òu cava muy profunda, & alra. Os arrabaldes fam
ampliífimos, & de innumeraveis moradores. O Rey A-
chsbari fe dis que foy o primeiro, que aqui veyo habitat
no aono IJ6<5. coneortendo logo toda anobreza do
Impe-:
' ^ívvYolLCdFLWU.JJia. .343
Império* & aífi cm breve íe fes tam populofa, & avente-
iadaatodas. Occupamaisde comprido, que de largo,
porque todos querendo, & bufeando aeommodidade
do rio, fe foram eftendendo com as cafas por fuás prayas,
& ribeiras, feguindofe a huns os outr