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O PROFESSOR E O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO

Desde a sua criação, no início do Século XIX, com a vinda da Família Real
Portuguesa para o Brasil, o nosso Ensino Superior foi marcado pelo modelo
"francês-napoleônico", que o inspirou. O que isto significa?

Significa que desde o seu nascimento, a preocupação de nossas escolas de


ensino superior tem sido a formação profissional de seus alunos, para o
mercado de trabalho nacional, seguindo aquela orientação exclusivamente
profissionalizante.

Tal objetivo justifica que as escolas tenham em seu Currículo, apenas matérias
ligadas à formação profissional. Justifica que o Professores, escolhidos para
estas escolas sejam profissionais da área, preferencialmente, os "bem-
sucedidos". Estes devem apenas transmitir os seus conhecimentos técnicos aos
alunos, pois ainda acredita-se que "quem sabe fazer, sabe ensinar". Tal
objetivo, formação profissional, justifica também que a Metodologia mais
utilizada, seja até hoje a "transmissão oral" dos conhecimentos teóricos, com
algumas práticas laboratoriais, se for o caso.

Em nossas escolas, o Professor é considerado como o "centro maior das


informações a serem aprendidas. A organização das carteiras em aula – uma
atrás da outra – uma número cada vez maior de alunos em sala, pois se o
professor fala para 15 alunos poderá fazê-lo para 50, ou 100, ou mais. A
Avaliação é usada como mero elemento de pressão e cobrança do que terá sido
aprendido.

E ao final dos cursos, em geral, sente-se uma sensação de que não estamos
formando profissionais à altura das exigências atuais do mercado de trabalho.
No entanto, os profissionais das diversas profissões que trabalharam e ainda
trabalham no Brasil (nós inclusive), provieram na sua quase totalidade deste
Ensino Superior. (E. Marcondes) . Mas afinal, que ensino queremos? Como
deve ser o Professor nesta nova realidade?

Com objetivos didáticos, para ajudá-los a refletir sobre estas perguntas, mas
sem oferecer respostas, transcrevo abaixo, partes dos seguintes textos –

-1- "O Ensino Moderno". Texto escrito pelo Dr. D.M.Braile, e publicado no
jornal Diário da Região, no dia 18 de setembro de 1999.

-2- "O Professor dos nossos filhos", artigo escrito por Claudio Moura Castro,
publicado na revista Veja do dia 07 de julho de 1999.

"ENSINO MODERNO"

"O verdadeiro professor é aquele capaz de transmitir conhecimentos de modo


simples e interessante. À medida que a quantidade de informações foi se
ampliando ficou cada vez mais difícil encontrar professores que dominassem
conhecimentos de forma global. A característica dos antigos filósofos e
cientistas era a capacidade de concentrar a maior parte do conhecimento
disponível ao seu tempo. São exemplos: Hipócrates, Sócrates, Copernico,
Galileu, Avicena, Leonardo da Vinci, Pascal, entre tantos outros.

Com a ampliação da cultura não foi mais possível aos mestres dominar o
estado da arte de forma ampla e universal. Como decorrência, foram surgindo
os especialistas e as especialidades .Assim ocorreu com a Filosofia, a
Química, a Física, a Matemática ,a Astronomia etc.

A grande expansão das artes, das pesquisas, das descobertas e das novas
conquistas científicas ocorreu durante o Renascimento, seguindo-se a Idade
Média, período obscuro da humanidade, talvez o celeiro da expansão que
estava por vir. O Renascimento, por volta de 1500, produziu uma nova
maneira de ver o mundo com as novas alternativas, mostrando que o
conhecimento podia ser ampliado ao limite da imaginação humana.

Porém, a partir da virada do século, que está para terminar, o progresso


tornou-se vertiginoso, desenvolvendo técnicas e conquistando fronteiras.

Foi necessário criar cada vez mais especialidades, limitando a visão e as


habilidades de cada um a um pequeno mundo, absolutamente verticalizado,
em que as pessoas passaram a saber muito sobre assuntos muito específicos.
Considerando somente a área medica, em 1997 foram publicados dois milhões
de artigos científicos quando são consideradas apenas as revistas indexadas,
ou seja, aquelas com nível de qualidade suficiente para figurar no exigente
"índex medicus".

Fica fácil entender que é impossível para qualquer médico ou professor de


medicina, ler apenas parte deste acervo incrível de informações de apenas um
ano.

Como fica então o ensino? Como ensinar o que não sabemos? Existe ainda
lugar para o professor?

São todas perguntas de difíceis respostas,

As informações estão disponíveis nos imensos BANCOS DE DADOS,


contidos em computadores das organizações governamentais e particulares,
nos livros e revistas das bibliotecas, e uma grande parte destas informações foi
também disponibilizada na INTERNET, que une o mundo e integra a todos
com a mesma facilidade e igual oportunidade.

Existe hoje a mesma possibilidade de acesso a informações para aqueles que


moram em Boston ou Cambridge, bem perto da prestigiada Universidade de
Harvard, ou para quem habite no meio da Floresta Amazônica. Basta para isto
dispor de uma linha telefônica, um computador e alguns conhecimentos.

Quais conhecimentos? Logicamente deve-se dominar um mínimo de


informática, a língua inglesa e principalmente, saber o que se quer saber.

Esta será a função do professor, ensinar os alunos a procurar a informação


correta e estimular a pesquisa.

Os professores, deverão ter a qualidade de interessar os seus alunos a se


capacitarem cada vez mais.

As informações estão à disposição de todos, basta saber procurá-las. Os países


em desenvolvimento estarão em mesmo nível de competição com os
desenvolvidos, pois o saber agora estará ao alcance de algumas batidas no
teclado de um computador.

A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA, possibilitará que alguns poucos professores


ensinem um número imenso de estudantes. A EDUCAÇÃO MODERNA será
comandada por professores com visão ampliada, especializados em
desenvolver em cada aluno suas próprias especialidades, que são infinitas
quando o acesso a informações é oferecido.

Esperem por estas mudanças e verão como países como o Brasil representarão
grandes pólos de desenvolvimento e cultura."

(Prof. DR. DOMINGO M. BRAILE, É CIRURGIÃO DA BRAILE


CARDIOCIRURGIA E É PROFESSOR DA FAMERP E DA UNICAMP)

"O PROFESSOR DE NOSSOS FILHOS"

"O processo escolar requer que se desenvolvam simultaneamente dois traços


contraditórios: disciplina pessoal e curiosidade. Ao professor, a mágica de
orientar o aluno nas duas direções"

O artigo começa com as seguintes afirmativas –"Computadores? Televisão?


CD-ROM? Internet? Tudo isso pode ser útil (ou inútil, conforme o uso). Mas a
essência do aprendizado tem a ver com o professor, aquele que administra,
estimula, enriquece e dá vida a uma série de processos que levam o aluno a
aprender."

A seguir, o nosso escritor pergunta -: "que professor gostaria de ter para meus
filhos?"

Creio que poderíamos também perguntar -: que professor eu quero ser?

Pela reportagem, o autor responde -:Bernardo Toro me ajuda a responder -: "O


processo escolar requer que se desenvolvam simultaneamente dois traços
contraditórios: disciplina pessoal e curiosidade".

Porque o nosso autor entende assim o Processo Escolar?

"Parte do que se aprende na escola é disciplina de trabalho, isto é, o hábito de


fazer o que precisa ser feito – apesar de faltar vontade, sobrar desconforto e
haver a atração de coisas mais interessantes.

Mas, ao forçar esses hábitos pessoais, a escola pode matar a curiosidade


espontânea do aluno, seu instinto de explorar o mundo que o cerca, de fazer
perguntas só porque não sabe a resposta. Se isso acontecer, perde-se algo
valiosíssimo.

Mas curiosidade sem disciplina não leva a parte alguma. Ao professor, a


mágica de orientar o aluno nas duas direções: disciplina pessoal e
curiosidade".

A seguir, continuando a leitura, o autor responde também a pergunta -: Como


se dá essa mágica?

Sendo um Bom Professor.

Mas que é um Bom Professor?

"Ele tem um conceito positivo de si mesmo e de seu trabalho. Ele faz o que
gosta, gosta do que faz e se sente realizado porque é professor.

Busca as possibilidades de fazer boas coisas diante da adversidade, em vez de


procurar as excelentes razões para se desculpar por não havê-las feito. Não se
contamina pelo pessimismo dos outros. Em vez disso, ele cria uma ilha de
otimismo em torno de si.

Sabe mostrar ao aluno a beleza e o poder das idéias. Isso foi dito por Alfred
North Whitehead e não dá para dizer melhor."

Mais abaixo, ele completa -:

"O bom professor consegue que todos aprendam o que têm de aprender, que
cada um aprenda quando está pronto para tal e que sejam felizes no aprender."

E a respeito dos alunos, o que diz Claudio M. Castro?

O "Bom Professor", "Tem sempre expectativas positivas acerca de seus


alunos. Já foi demonstrado que os alunos fracassam quando o professor acha
que vão fracassar. Portanto, não os culpe pelo fracasso, pois só atrapalha.

O "Bom Professor" nunca ridiculariza seus alunos. Aliviar o mau humor, mas
à custa de maltratar a auto-estima do aluno, é péssima idéia.

O "Bom Professor" consegue que seus alunos participem ativamente da aula.


Educação não se despeja goela abaixo. Aprender é um processo ativo, em que
o aluno trabalha (intelectualmente) tanto quanto o professor"

Quanto aos colegas, os outros professores, no entender do nosso escritor,


como é o seu relacionamento?

"Dialoga com os colegas e pede conselhos quando tem problemas com os


alunos. Ser professor é aprender constantemente, com os alunos e com os
colegas que já viveram situações semelhantes".

Outro aspecto importante da realidade escolar, e muitas vezes de difícil


solução, é o problema da Indisciplina , o que o nosso autor recomenda?

"... indisciplina começa quando o aluno pára de aprender. "Cabeça vazia,


oficina do diabo". Se necessário recomenda que a Escola busque o auxílio dos
pais, pois ".Não vê os pais como adversários temíveis, mas como aliados e
parceiros."

Até aqui parece muito Fácil ser um Bom Professor, mas o que Castro mais
teme, com relação ao Professor?

"Os objetivos são esses, a maneira de atingi-los varia tanto quanto a


personalidade humana é variada. Só temo o professor "bonzinho", que tudo
deixa, tudo entende e tudo perdoa.

Perfil impossível? O desafio é aproximar-se dele. Imperfeitos somos todos


(quando penso nas minhas fúrias diante de alunos malandros ou burros,
modero minhas expectativas para com os outros mestres)." (Claudio de Moura
Castro é economista)

CONCLUSÃO

Finalmente, deixo a vocês mais estas Reflexões:

"Com todas estas idéias "modernas" sobre Ensino, Professor, pode criar mais
falsos conceitos sobre os mesmos. Assim poder-se ia pensar -:

• Professor Não é mais necessário.


• Não é mais preciso Ensinar nada aos alunos.
• Os alunos devem aprender sozinhos, naturalmente.

"ISTO É UM ABSURDO"

O que se tem tentado explicar é que o Professor Não é mais a única fonte de
informações que os alunos têm a partir de agora. Mas lembrem-se -:

"Ensino, Aprendizagem e Informação - Não são sinônimos"(Asha Phillips)

O Processo Escolar, de Ensino – Aprendizagem é ainda muito dependente do


Professor.

Cabe ao Professor:

• Estabelecer os OBJETIVOS EDUCACIONAIS a serem atingidos.


• Selecionar os CONTEÚDOS melhores e mais oportunos para se atingir
os objetivos propostos.
• Definir e orientar toda ESTRATÉGIA DIDÁTICA das aulas.
• Motivar os seus alunos
• Ensiná-los a "aprender a aprender"
• Finalmente, um dos mais importantes papéis do Professor: a
responsabilidade da AVALIAÇÃO de todo o Processo Escolar.

O papel do Professor não diminuiu, ao contrário Aumentou.

Usando o que diz a Psicoterapeuta, Asha Phillips, "nenhuma pessoa por mais
inteligente e genial que seja, tem a capacidade de Educar a si mesma e
preparar-se para os desafios da vida adulta".

O que se sabe, é que um adulto pode, Não educar-se, mas aprender


determinado assunto sozinho, se ele quiser muito e tiver a disposição de
informações corretas sobre o mesmo. Mas mesmo neste caso a figura de um
professor (ou seu substituto) é importante, pois só ele pode orientar nesta
seleção de quais informações são melhores e mais corretas, além de outras
"facilitações" que um verdadeiro professor pode oferecer.

Podemos concluir, que o mundo pode crescer em tecnologias, mas o Professor


continua sendo indispensável para ajudar neste "fascinante desafio de preparar
as novas gerações".