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A INVENÇÃO DA
HETEROSSEXUALIDADE

JONATHAN NED KATZ

TRADUÇÃO
CLARA FERNANDES

PREFÁCIO DE

GORE VIDAL
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SUMÁRIO
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opynght © 1995 by Jonathan Ned Katz

.~D --PUb~;~~'i~;~~lte por Dutton, um selo de Dutton Signet, uma divisão da


'ZdB @-;Z';-;"'i:iõ- Penguin Books USA Ine.

Copyright da tradução © 1996, Ediouro Publicações S.A


[ISBN original 0-525-93845-1]

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 5988 de 14/12n3.


É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios,
sem autorização prévia, por escrito, da editora.

Capa
Wladimir Melo

Projeto Gráfico
Ediouro
AGRADECIMENTOS 5

Cip-Brasil. Catalogação-na-fonte PREFÁCIO


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
de Gore Vzdal 7
Katz, Jonathan Ned
K31i A invenção da heterossexualidade / Jonathan Ned Katz; prefá- A GENEALOGIADE UM CONCEITO SEXUAL
cio Gore Vidal; tradução Clara Femandes. - Rio de Janeiro: Ediou-
Da História Homossexual à História Heterossexual 13
ro,1996
Tradução de: The ili,vention of heterosexuality 2 AESTRÉIADO HETEROSSEXUAL NA SOCIEDADE
ISBN 85-00-43198-9
Richard Von Krajft-Ebing e os Médicos da Mente 31
1. Sexo (psicologia) - História. 2. Heterossexualidade -
História. 3. Comportamento sexual- História. I. Título.
3 ANTES DAHETEROSSEXUALIDADE
96-1057. '., CDD 306.7
CDU 392.6 Olhando para Trás 45
96979899 87654321
4 CRIANDO A MÍSTICA HETEROSSEXUAL
Os Conceitos Seminais de Freud 67

5 O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO


Do Discurso Médico para os Meios de
EoIOURO PuBUCAÇÕES S.A. Comunicação de Massa 91
SEDE;, DFPTO• DE VENDAS E ExPEDIÇÃO
RUA NOVA JERUSAlÉM, 345 - RJ
CoRRESPONDJiNtIk CAIXA POSTAL 1880 6 QUESTIONANDO A MÍSTICA HETEROSSEXUAL
CEP 20001-970 - RIO DE JANEIRO - RJ
1'EL,(021) 260-6122- F-",,(021) 280-2438 Alguns Veredictos de Feministas Liberais e Radicais 119
7 A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA AGRADECI M ENTOS
Algumas Críticas de Feministas-Lavanda 143

8 PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER


Olhando para Frente 169

W EPíLOGO

de Lisa Duggan 193

NOTAS 197
BIBLIOGRAFIA 233

íNDICE 261

É claro que aqueles a quem sou grato podem concordar ou discordar de


algumas ou muitas de minhas formulações.
Este livro é dedicado a David Barton Gibson, cuja amizade constante
desde junho de 1976 possibilitou a este estudioso independente escrever
e pensar fora do siste~a' acadêmico que geralmente apóia o trabalho
intelectual.
Minha tia, Cecily Brownstone, fez comentários profissionais so-
bre partes do original, assim como me prestou um delicioso auxílio ali-
mentar.. -,

'...•
'\ Agradeço muito a Gore Vidal por seu incentivo ao longo dos anos e
por ter concordado, antes deste livro ser escrito, em redigir o Prefácio.
Também agradeço a Lisa Duggan pelo Epílogo e por sua amizade e leitura
.\ ,. ..~
. crítica de.todo o manuscrito .
'- '~' Meus amigos John D'Emilio, Jeffrey Escoffier, Ed Jackson e Carole
S. Vance leram todo o original, e suas críticas construtivas foram muito
úteis e apreciadas.
Por suas leituras críticas de determinados capítulos e sua amizade,
também sou grato a: Robert Benton, Allan Bérubé, Mark J. Blechner, Judith
Levine, David Schwartz, Ann Snitow, Sharon Thompson, JeffWeinstein e
Gil Zicklin.
Por apoiar corajosamente os' meus pedidos de mais subsídios para
pesquisar a história heterossexual, sou grato a John D'Emilio, Martin
Bauml Duberman, Laura EngeIstein, Estelle Freedman, John Gagnon,
Mary P. Ryan, Joan Wallach Scott, Christine Stansell e Catharine R.
Stimpson. Obrigado a David Geffen pela contribuição.
~ ""

N.
6 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

v.
reI
.~ Elizabeth Lobofsky Kennedy também tem apoiado de muitos modos PREFÁCIO
c: o meu trabalho, Sua amizade e sua própria pesquisa são muito apreciadas.
p~ ~ Por seu apoio agradeço a alguns novos e velhos amigos: Ian Birnie, Alan I
Df.' Bray, Madeline Davis, Neil Derrick, Frances Doughty, Allen Ellensweig, Gore Vidal
I
--
u
I',j
Edward Field, Richard Fung, Eric Garber, Myra Goldberg, Greg Gunter,
Edna Haber, Bert Hansen, Amber Hollibaugh, Tom Holt, Becky Johnston, •
Bob e Carol Joyce, Suzanne Kessler, Gary Kinsman, Tim McCaskell,
11
Wendy McKenna, Joan Nestle, Esther Newton, Marc Ostfield, John Per-
reault, David Roggensack, Michael Savino, Judith Schwarz, Ed e Eudice
Segal, Barbara Smith, Herb Spiers, Jim Steakley, Ed Strug, David Thomas,
Vince Vitali, Tom Waugh, Paula Webster, Jeffrey Weeks, Harold Wells,
~.
Albert Wolsky e Mary Wright. Por sua inspiração sou grato a Harry Hay, i
Jim Kepner e Richard Plant. .
Agradeço muito a Herb Freudenberger por seu bom humor e sua ajuda.
Sou grato a meu editor em Dutton, Arnold Dolin que, com John Paine, II
deu muitas sugestões e ótimas orientações relativas à publicação, a Miranda Quando o Gulag freudiano (teoria de Freud) finalmente implodir
Spencer por preparar a edição e à minha agente, Diane Cleaver, por seus
como a antiga Iugoslávia, é animador saber que o culto e por
conselhos e seu incentivo.
natureza irreverente Jonathan Ned Katz haveria de esfifi]fresente
Por suas informações relativas ao computador agradeço a vocês, Beth
para enfiar uma estaca de madeira em seu coração agonizante. A '\
Haskell e Eric Jennings. Por traduções e cópias, a Michael Lombardi-Nash
heterossexualidade, um conceito fatídico de origem recente mas de
e Paul Nash. i conseqüências terríveis é, obviamente, fundamental para as noções!
Sou grato aos muitos grupos de estudan tes que, desde o início dos anos
muito estranhas da sexualidade humana que Freud e seus discípulos .J
oitenta, têm me convidado a falar sobre "A invenção da heterossexualida- I nos impuseram durante um século.
de". Seu entusiasmo e apoio me ajudaram a continuar a trabalhar nisso. Os
muitos leitores que têm me escrito desde 1976 certamente também me , Segundo o Profeta, começa-se nascendo - este viria a ser o
ajudaram a seguir adiante. último fato facilmente compreensível de que ele tratou; então, o bebê
sente uma atração erótica pelo genitor do sexo oposto; em seguida,
..~ teme o incesto assim que lhe é explicado o que é isso, portanto
IN MEMORIAM , reprime o melhor que pode um desejo profundo de copular com o
Na intenção de guardar na lembrança alguns amigos e parentes queridos e pai ou a mãe; mais tarde na vida, devido a essa repressão, o adulto
muitos conhecidos levados pela AIDS, pelo câncer, pelo diabetes e por (o bebê que cresceu) passa a ter asma e caspa ... até se consultar
outras doenças, e para protestar contra o nosso sistema de saúde absurda- com um discípulo de Freud, que lhe dirá que embora tenha repri-
mente deficiente, cito Lois Adler, Robert Adler, Dan Allen, Allen Barnett, mido os seus impulsos incestuosos básicos (mas isso de fato ocor-
Vincent Beck, Mike Belt, Bill Bogan, Robert Chesley, Winston Davidson,
reu?) será curado, assim que admitir que desejou praticar o ato
II Ken Dawson, Mike Folsom, James Frazer, Ray Gray, Richard Hall, Mable
Hampton.Ben Katz, Phyllis Brownstone Katz, Gary Knobloch, Gregory
sexual com a sua velha mãe, como Édipo. Tipicamente, Freud
Kolovacos, Reed Lenti, Michael Lynch, Keith McKinney, Lawrence Mur- conseguiu confundir até mesmo aquela alusão clássica: Édipo
phy, Gerard Mutsaers, Bill Neitzel, Jim Owls, Marty Robinson, Craig matou o seu pai e teve relações sexuais com a sua mãe sem saber
Rodwell, Vito Russo, Neil Sandstad, Richard Schmiechen, Michael Sher- quem eles eram; por isso, talvez apenas na história freudiana, o rei
ker, Gregory Sprague, George Whitmore e Connie Zoff. Édipo não sofria do complexo que tem o seu nome.

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N. PREFÁCIO 9
8 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

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Freud foi um pretenso novelista romântico da escola de Nietz-
sche e da escola modernista-simbolista (sua visão de Leonardo da
Vinci é uma ficção histórica digna de Rafael Sabatini) que criou uma
estranha doutrina à qual ninguém jamais prestaria atenção se não
fosse por seu brilho pessoal e sua megalomania imperturbável. Com
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O inabalável Macmillan assegurou-lhe que aquilo era algo
muito sensato a desejar. Contudo, o general, percebendo a gafe de
sua esposa, disse, em seu inglês um pouco melhor:
-Madame quer dizer app-penis. *
Osfreudianos nunca conseguiram propor uma palavra adequa-
u o correr do tempo, Freud criou uma teoria sobre o desenvolvimento da (em vez de uma híbrida greco-latina) para a heterossexualidade,

• sexual humano que se baseia, como é comum com ele, em uma série
de hipóteses falsas. O bebê passa, se tiver sorte, de desejos inces-
porque os gregos não sabiam o que era isso. Sabiam sobre a
reprodução, a luxúria e o amor. Sabiam sobre a intensidade do
tuosos para um desejo por si próprio (masturbação) e depois por desejo sexual entre homens e homens, mulheres e mulheres, mas
outros iguais a ele -a coisa abominável que a Comissão Levítica para eles, Lesbos era apenas uma ilha distante, próxima à costa da
denunciou na Babilônia - e então, com sorte e talvez com a Ásia, Menor, enquanto Safo era a sua poetisa digna do Prêmio
intervenção de um admirável judeu habitante da antiga Vzena, ele, Pulitzer: Infelizmente, como um burguês vienense do final do século
como adulto, ascenderá ao platô feliz da heterossexualidade em XIX, Freud tinha idéias convincentes saídas do Antigo Testamento
que mamãe e papai fazem o que convém na alegre certeza de que sobre o que era comportamento bom e inadequado. Também não
11
estão seguindo, se não o roteiro de Deus, o mais importante de S. era tolo (embora sob muitos aspectos fosse um homem perverso) e
Freud, inventor da psicanálise (sensatamente ele costumava dormir por isso aceitou a bissexualidade do comportamento humano. Como \
enquanto os seus pacientes tagarelavam no divã a seu lado). Não um apreciador do clássico, conhecia a história, e a cultura gregas.
importa o que estava atormentando uma jovem, ele sempre estava lá Não lhe passara despercebida a fúria de Aquiles despertada pela
para lhe dizer que aquilo era apenas histeria e tocar em seu clitóris morte de seu amante. Mas, finalmente, o advogado natural do
era muito desaconselhâvel; já que maturidade significava orgasmo Antigo Testamento que existia nele venceu. Pênis mais vagina é
I vaginal, algo que não existe mas que ele acreditava que existia, e por l igual a bebê e ponto final. Ele considerou aquilo o fato básico,
I isso conseguia até mesmo entender mal a própria anatomia que tão
firmemente declarara ser destino. Freud certamente nunca viu coisa
--~ embora fizesse sexo com a sua cunhada e nenhum dos adúlteros
desejasse gerar um bebê. A invenção da palavra heterossexualidade
alguma, na natureza humana que ele prôprio, como um deus desatento, ocorreu nessa época (deixo a cargo de Katz a data exata).
não colocara lá. No início, heterossexualidade significava um interesse inconve-

\ .
Há alguns anos, muito antes da doutrina freudiana começar a
desmoronar; Katz questiona sua base essencial: a heterossexuali- l
niente pelo sexo oposto -em outras palavras, o bebê geralmente
era expulso por meio do uso de duchas. Na virada do século, a classe
dade, como o graal, o máximo em maturidade humana e felicidade. média em ascensão praticava o sexo não-seguro e, na ausência de
Enquanto eu escrevo essa última palavra, penso nos lapsos ou JI um conceito grego, propôs um neologismo para descrever algo que
equívocos freudianos. O Primeiro Ministro e a Srª Harold Macmil- todas as outras culturas descreviam simplesmente como sexo. Nesse
lan estavam almoçando com o General e a Srª de Gaulle em Paris. meio tempo, como o cérebro é binário (fonte de nosso um/outro
M acmillan e de Gaulle falavam sobre o que fariam quando ele não modo de pensar), tinha de haver outra palavra para indicar o oposto
mais governasse o seu país. Ambos disseram que escreveriam um I e por isso homossexualidade foi inventada e Katz agora mostra
livro. Polidamente, Macmillan perguntou à Srª de Gaulle o que ela como aspalavras se tornaram rígidas em seu uso atual. Grupo bom:
queria depois que as luzes se apagassem e as trombetas silencias-
sem. O inglês da Sr" de Gaulle não era bom. * De GaulJe pronunciou mal a palavra happiness, que em inglês significa
felicidade. (N.T.)
-Eu gostaria -disse solenemente -de um pênis.

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10 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE PREFÁCIO I I

V.
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~~\ hetero. Grupo ruim: homo. Homo versus gay. Um ou outro; nenhum J de Lote poderia ter sido salva da destruição de Sodoma se não
11

1II Sr. Intermediário. Essa divisão tem criado dificuldades constantes tivesse se virado para olhar pela última vez para o esplendor da

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II
para muitos homens e muitas mulheres, ao mesmo tempo que dá
muita alegria para os governantes dos reinos que aceitam essas
categorias antinaturais -porque eles podem então banir o grupo
ruim, mantendo dessa forma o controle sobre grande parte da
população, o objetivo de todo governo em todos os lugares e em
velha cidade. Ela dá uma espiada. É transformada em umpilar de
sal. Meu protagonista, Jim Willard, não é um homossexual assumido
- Baldwin não foi o crítico mais atento do nosso tempo -,
Willard odiava os efeminados e só tentou ficar vivo até Voltar a
unir-se ao seu primeiro, único e perfeito amor. Eu concordo com
todas as histórias que conhecemos.
j Baldwin em que isso provavelmente era impossível, mas dificil-
Analisando os estágios pelos quais essas palavras confusas se mente devastador. Era muito romantismo levado a um grande
tornaram conceitos que depois se tornaram fatos, Katz acaba extremo. Em vez de seguir em frente (não para o misterioso lugar
rigorosamente com toda a falsa divisão. Eu tenho, com freqüência bom e elevado de Freud, a heterossexualidade, em que o ar é
\1
- talvez até sucessiva - insistido em que não existem pessoas rarefeito demais para que muitos respirem), ele passa a vida olhan-
homossexuais e heterossexuais, apenas atos hetero ou homo, e em do para trás, para uma união perfeita com outro rapaz e, quando o
que a maioria das pessoas, em um momento ou outro, apesar dos reencontra, acha que o outro agora vive onde o ar é rarefeito. Por
horríveis tabus, faz das suas por at; como costumávamos dizer isso rejeita-o e, na melhor tradição romântica obsessiva, mata-o.
quando eu era criança, em Washington, D.e. Katz repete o meu Até mesmo o título do livro é uma advertência sobre o temperamento
refrão monótono, observando que essa também era a opinião geral romântico. Mas Baldwin acha que essa resolução violenta é in-
do Dr. Kinsey, cujo relatório sobre o comportamento sexual do duzida por um pânico que se aproxima da loucura. Essas novelas
homem foi publicado um mês ou dois depois do meu romance, The [está incluída The FalI of Valor, de Charles J acksonJ não dizem
~
City and the PilIar, no qual dois rapazes hetero têm um caso amoroso respeito à homossexualidade, mas ao perigo sempre presente da
com conseqüências terríveis, graças ao tempo e lugar em que atividade sexual entre os homens. Isso poderia ser verdadeiro em
I1 1,1
estavam vivendo: os Estados Unidos, que um dia Spiro Agnew relação a J ackson, mas não a mim. Eu afirmo em todo o livro que
chamou de a mais importante nação_~o mundo. os atos homossexuais são de fato uma coisa ótima e, para alguns
homens e algumas mulheres, sempre preferíveis aos atos heteros-
F 'dçouma certa objeção à reverência com que Katz lida com os
sexuais. Esse era um conceito novo em 1948. Mas os heróis român-
pensamentos desse eminente orador e amigo meu, J ames Baldwin.
ticos geralmente têm finais trágicos, como demonstra Shakespeare
Em 1949; Baldwin realmente teve algumas çoisas sensatas a dizer
com os seus dois adolescentes rebeldes de ~rona. Em todo o caso,
sobre oabsurdo de se ver em uma única dimensão a personalidade
alguns anos depois de criticar-me pelo pânico, exatamente a pala-
humana: 'É absolutamente impossível escrever um bom romance
vra errada, Baldwin escreveu Giovanni's Room, um livro ater-
sobre um judeu, um cristão ou um homossexual, porque infeliz- rorizante que termina com a cabeça do grande amor decapitada
mente as pessoas se recusam a agir de um modo tão regular e
em Paris.
unidimensional. Como dizem os franceses, isso subentende-se. Mas Katz não só se diverte com tudo isso, como consegue lançar por
então ele critica a minha novela do ano anterior em que o homos- terra duas palavras cuja invenção criou categorias falsas, tornando
I sexual assumido... mata o seu primeiro, único e perfeito amor assim possível controlar totalmente as pessoas através de tabus
quando finalmente eles se encontram de novo, porque não suporta legais que agora devem ser abolidos, como concluirá qualquer
I em vez disso matar aquele sonho de amor devastador e impossível.
leitor seu não supersticioso.
d Isso deixa de lado o ponto principal. The City and the PilIar. Título
bíblico. Que cidade? Sodoma. Vida homossexual. Pilar? A esposa I

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A GENEALOGIA DE UM
CONCEITO SEXUAL

Da História Homossexual
à História Heterossexual

No início dos anos 1970, muitos homossexuais começaram a tornar


públicas as suas até então secretas vidas. Criando um modo novo e
patente de viver as nossas paixões e os nossos amores, passamos de
uma norma histórica de homossexualidade para outra. Observando
as mudanças que experimentamos, percebemos a homossexualida-
de com uma visão dupla - a de nossas vidas amorosas secretas
passadas e a de-nossa homossexualidade desvelada presente. Rejei-
tando o velho e estático modelo psicológico da homossexualidade,
alguns de nós ficaram fascinados com a descoberta da história
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mutante da homossexualidade - e então, lentamente, sem preme-
ditação, da heterossexualidade.
Naquele tempo muitos de nós passamos do vergonhoso homos-
sexual para o assertivo gay e lésbica, tornando o poder dessas pa-
lavras o centro de nosso movimento político.
Quinze anos antes, com um novo e grande horror, eu aplicara
conscientemente pela primeira vez a palavra homossexual aos meus
sentimentos pelos homens - na manhã seguinte em que dormira
pela primeira vez com um. Ele era um amigo da escola secundária,
estávamos em junho de 1956 e eu era um garoto sensível e ansioso
de 18 anos. Mesmo agora, depois de todos esses anos, ainda lembro

II ~;
A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL 15
14 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

sexualidade como um estilo de vida. Entre os novos militantes, ao


do pavor que a palavra homossexual provocou em mim naquela
que parece, estava um certo Elliot, o cabeleireiro de uma amiga
manhã dos conformistas anos 1950.
Também me lembro dos posteriores e humilhantes insultos minha:
"Bicha!" e "Viado!" que ouvi por ter olhado por um segundo ou dois Não me falem sobre as glórias e alegrias da vida de casado, diz EIliot.
para o heterossexual errado. Sei tudo sobre isso pelas mulheres com quem trabalho. E, é claro, em
um certo sentido ele está certo. A heterossexualidade não deixa de ter
Esses insultos representados por palavras explicam, em parte, o
os seus lados negativos. Durante os últimos anos eu vi o meu próprio
estudo que este livro faz da história, do poder e dos usos sociais da antes maravilhoso casamento acabar em divórcio. Olho ao meu redor e
linguagem. Primeiro, como uma vítima das palavras, eu me dei conta vejo tão poucos bons casamentos! Sei de muitas pessoas ... que, se
de sua capacidade de ferir. Aqui, como um historiador, eu as examino pudessem, não voltariam esta noite para a pessoa com quem são
minuciosamente e questiono, para compreendê-Ias e anular a sua casadas?
força.
1;\
Depois daquela fatídica manhã dos anos 1950, passei os 15 anos Os muitos heterossexuais de Epstein, obrigados a passar noites
seguintes envergonhado e isolado, torturado pela palavra homos- tristes e intermináveis ao lado de outros que não representavam
I, ' sexual e por meus sentimentos homossexuais. Contudo, profun- muito para eles, são de fato uma visão desalentadora.
damente imbuído de um espírito rebelde, examinei atentamente os Contudo, se a vida heterossexual tem parecido praticamente
Grandes Livros do cânone contrário à ordem preestabelecida. O impossível, garantia Epstein a seus leitores - e a si mesmo -, a
gabinete de estudo incentivava a leitura. No início dos anos 1960, vida homossexual parece ainda mais impossível. Escrevendo na-
marchei pela paz no Vietnã, apoiei (do lado de fora) a luta pelos quele estilo que faz a aversão parecer sinceridade, Epstein confessou
direitos civis dos negros e, mais tarde, o movimento pelo poder o seu ódio: Eu realmente acho que a homossexualidade é um
3
negro. anátema, e por isso os homossexuais são amaldiçoados ... Os
Mas no final dos anos 1960, ouvindo relatos ocasionais sobre homossexuais são amaldiçoados, repetiu Epstein mais tarde, atingi-
demonstrações de grupos de homossexuais espalhafatosos que luta- dos por uni mal não explicado ... cuja origem é tão desconhecida que
vam por seus direitos, eu me senti profundamente mal. Os homos- finalmente setomou um mistério.' O fato de os homossexuais serem
sexuais eram anomalia~ psicológicas, aberrações. Por que eles não atingidos de modo negativo por ensaios como esse era um mistério
calavam a boca e guardavam para si próprios o seu problema apenas para o seu autor.
constrangedor? Não ouvi nada sobre o levante de Stonewall, em Perto do final dessa presunçosa confissão, Epstein declara:
. .
junho de 1969 - o gabinete abafava os sons da mudança vindos do
Se eu tivesse o poder para tanto, desejaria banir a homossexualidade da
mundo lá fora.
face da Terra. Agiria assim porque acho que traz muito mais sofrimento
Em setembro de 1970, a revista H arper:S-publicou "Homo/He- do que prazer para aqueles que são forçados a conviver com ela; porque
tero: The Struggle for Sexual Identity," de Joseph Epstein, e um creio que não há fim para esse sofrimento em nossa vida inteira, apenas,
simpático hetero com quem eu fazia terapia de grupo me deu uma para a esmagadora maioria dos homossexuais, mais sofrimento e vários
cópia. O artigo de Epstein teve um profundo impacto sobre mim.' graus de exasperantes ajustes; e porque, de maneira egoísta, sou total-
mente incapaz de lidar com ísso.'
Seu ensaio pode ser estudado agora como um valioso documen-
to pessoal sobre a história da heterossexualidade em um momento
Lendo as palavras de Epstein em 1970, senti com nova e
de nova e consciente autodefesa. Os heterossexuais estavam enfren-
atordoante força a intensidade do ódio aos homossexuais. Mais
tando um desafio ao qual não estavam acostumados: ultimamente
tarde, notei que desejar é a única coisa que todos nós sempre pode-
os homossexuais parecem ter iniciado um ataque contra a heteros-
16 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL 17

mos fazer. Portanto, a confissão de Epstein de que desejaria banir Embora naquela época eu tivesse casualmente me identificado
a homossexualidade da face da Terra é uma mentira. Ele de fato ximo um gay, em minha mente estava afirmando os meus sentimen-
desejou banir a homossexualidade (e os homossexuais) da face da tos pelos homens, não um selfgay. No início dos anos 1970, apesar
Terra, mas não pôde dizer isso. O desejo de praticar o genocídio é do fato de não usar esses termos, comecei a adotar uma política de
constrangedor em um judeu. sentimento e prazer, não de identidade,"

u O ensaio - fomentador do ódio - de Epstein também teve um Minha participação no movimento gay logo me levou a imagi-
efeito revelador sobre mim. Eu compreendi: meus sentimentos nar algo como uma história homossexual. Em uma reunião do
homossexuais tornavam, a mim e a outros, objetos de preconceito omitê da rnídia da Aliança dos Ativistas Gays falamos sobre modos
- sujeitos a sermos estigmatizados como grupo, como os negros e de descrever o nosso novo movimento e eu resolvi escrever uma
as mulheres. É estranho, mas aquela era uma idéia nova. peça teatral sobre a vida e a liberação dos gays e das lésbicas. Isso
exigiria material histórico e literário americano para mostrar drama-
Lentamente, o início da percepção do que se passava em mim
ticamente o processo de mudança por que passava nossa situação,
me levou para o mundo. Com medo e trêmulo, comecei a freqüentar
assim como as nossas emoções e o nosso modo de ver as coisas."
os grupos de liberação gay recentemente fundados em Nova York.
A eloqüência de seus líderes ressoou em meus ouvidos. Vi o mundo A pesquisa para a minha peça teatral começou com apenas uma
com novos olhos. Participei de atos públicos e discussões acaloradas
suposição -a de que a História Gay Americana deveria existin'"
A idéia da história gay era de fato uma suposição - naquela época
de grupos privados. Marchei segurando um cartaz onde se lia: os
a homossexualidade estava bastante reduzida ao psicológico. A peça
HOMOSSEXUAIS ESTÃO SE REVOLTANDO. PODEM APOSTAR QUE SIM!
teatral Coming Out!, bastante divulgada, foi produzida pela Aliança
No inverno de 1971, com 33 anos, eu me sentia um pouco mais dos Ativistas Gays em junho de 1972 e reapresentada em junho do
em paz comigo mesmo depois de anos de psicoterapia com um ano seguinte em um minúsculo teatro de Chelsea." Os comentários
heterossexual gentil e humano que, quando garoto, observara dire- de Martin Duberman sobre aquela produção, na primeira página do
tamente o ódio dos nazistas. Anos antes, ele não aceitara a minha caderno de teatro do The N ew York Times de domingo, incentivaram
afirmação inicial de que a homossexualidade era o meu problema. um editor a me-conceder um contrato para um livro sobre a história
I Agora, comecei a ir às ruidosas reuniões semanais da Aliança dos homossexual. Gay American History: Lesbians and Gay Men in the
Ativistas Gays de Nova York e, em apenas alguns meses, sofri uma U.SA. foi publicado três anos depois, no final de 1976.
incrível mudança. Voltei para casa de uma daquelas reuniões muito
Aquele título anunciava um livro apropriado para o seu tempo.
animadas, exausto e atordoado com a mudança profunda e abrupta Gay declarava o seu ponto de vista liberal,American recolocava em
no meu modo de pensar e sentir pela qual estava passando," sua terra o homossexual e History proclamava a sua descoberta de
Acho que a minha experiência daquela mudança histórica foi um passado desconhecido. Aquele título tinha um apelo emocional
típica de muitos homossexuais da classe média que se tornaram e intelectual para os muitos seres humanos ansiosos por descobrir
adultos antes do levante de Stonewall, em 1969. Passamos por uma as suas raízes obscuras e afirmar os seus sentimentos homossexuais.
mudança básica - de uma imagem de nós mesmos como monstros- O objetivo do livro, imodestamente divulgado por mim do modo
aberrações para uma nova e partilhada imagem como opositores "agressivo daquela época, era nada menos que revolucionar o concei-
ultrajados." No movimento gay eu afirmei a minha afeição e os meus to tradicional da homossexualidade. Eu digo que como esse concei-
sentimentos eróticos pelos homens, as emoções particulares pelas to é tão pouco histórico, a própria existência da história gay pode
quais a minha sociedade me rejeitava - e pelas quais, 'durante ser vista com descrença. 12 Em 1976, a expressão história gay parecia
muitos anos, eu me rejeitara. de fato estranha. Embora, revendo o passado, um número surpreen-
18 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDAQE
A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL 19

dente de livros e artigos tivesse começado a mencionar uma mudan- (,'ay American History menciona rapidamente a idéia de que as
ça de atitudes em relação aos homossexuais na história, a existência 1I1111ÇÓCI; homossexuais e heterossexuais têm características his-
da história americana gay ainda era duvidosa. Até mesmo este 1I"1Ilcnsvariáveis.l'' Mas isso ao ponto em que eu naquela época
historiador militante gay achava essa expressão assustadora. Itwuva a história heterossexual- não longe. Meu principal objetivo
Quando o livro estava perto de ser publicado, muito depois de 1'11 demonstrar a existência de grandes quantidades de material
eu ter reunido pilhas de documentos, lembro-me de que me' sentei 111 lginal, esclarecedor e interessante sobre a história homossexual e
em um cais às margens do rio Hudson com um antigo namorado e íimular a pesquisa e a análise de uma história não contada.
I
lhe perguntei se realmente fora ousadia da minha parte dar ao livro ontudo, eu de fato sugiro que não é uma boa idéia encaixar as
o título de Gay American History. Minha preocupação não tinha tvlações passadas em um pólo ou outro da dicotomia hetero-homo
nada a ver com o efeito de universalização e negação da diferença tradicional. Um ano antes, a historiadora Carroll Smith-Rosenberg
de referir-me a quatrocentos anos de história como gay. Eu temia publicara um artigo pioneiro sobre as amizades profundas e cheias
que o título Gay American History confirmasse a existência de uma de erotismo das mulheres americanas do século XIX, "The Female
história sobre a qual eu não sabia ao certo se tinha a coragem de fazer World of Lave and Ritual". Para entender aquela intimidade, sugeria
tanto alarido.
Ia, precisamos ir além da divisão heterossexual/homossexual e
Entre as publicações que faziam a história homossexual parecer nccitar a idéia de um continuum dessas relações. Esse continuum,
possível e menos estranha, havia os novos livros e artigos daquela imaginava (seguindo o exemplo de Alfred Kinsey, de 1948), tinha
época sobre a história das mulheres - geralmente, as heterossexuais urna heterossexualidade praticada em um pólo e uma homos-
eram a suposta matéria de estudo. Lembro da enorme excitação que sexualidade assumida no outro.'?
senti quando os problemas encontrados e insights oferecidos por Em 1976, retificando a afirmação de Smith-Rosenberg, eu
aquelas primeiras e ousadas historiadoras feministas forneceram sugeri que A classificação das relações humanas como homos-
informações sobre a história lésbica e gay.
sexuais ou heterossexuais deveria ser substituída por pesquisas
Além disso, já havia uma desestabilização básica da dicotomia visando revelar os vários aspectos das relações privadas estuda-
heterossexua1!homossexual. No início dos anos 1970, vários mani- das.18 Assim como outros, eu começava a perceber o efeito detur-
festos de radicais gays e lésbicas previam um futuro em que a pador de empregar a distinção heterossexua1!homossexual na aná-
distinção heterossexual/homossexual seria rejeitada. 13 Em 1970, um lise histórica retrospectiva.!?
grupo de radicais lésbicas declarou: Em uma sociedade em que os
Como eu e muitos outros víamos aquilo na época, uma homos-
homens não oprimissem as mulheres e tossi! permitida a expressão sexualidade e uma heterossexualidade universais e eternas assumem
sexual dos sentimentos, as categorias da homossexualidade e hete- formas históricas diferentes. No momento em que estava escreven-
rossexualidade deixariam de existir+' Em 1971, em Homosexual do, ninguém que eu conhecia se preocupava muito com o efeito
Oppression and Liberation, de Dennis Altman, esse professor de deturpador de formular hipóteses sobre uma essência homossexual
política australiano disse: A minha visão da liberação é precisa- eterna. Muito menos ainda eu me preocupava com uma heteros-
mente a que tomaria a distinção homo/hetero irrelevanteP Naquele sexualidade eterna. Hoje, depois de duas décadas de investigação, a
início auspicioso e estimulante da liberação dos gays e das lésbicas, idéia de formas históricas variáveis de homossexualidade e heteros-
a abolição da heterossexualidade e o fim da homossexualidade sexualidade essenciais ainda funciona como a tendência dominante,
andavam no ar. Ousávamos imaginar um futuro sexual totalmente até mesmo de pesquisadores voltados para a história. Por exemplo,
livre e diferente. Ainda tínhamos de imaginar um passado sexual em 1988, sob a influência paralisante desse essencialismo, o autor
totalmente diferente.
de uma enorme história da construção social da homossexualidade
I
IIj
20 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL 21

se refere à homossexualidade no período Anterior à Homossexuali-


ra. Essa era a sua referência casual às relações heterossexuais e às
dade, sem aparentemente se importar com a contradição.ê' O modo
mulheres heterossexuais, em vez das costumeiras relações sexuais
como transcender a noção de uma essência heterossexual (e homos-
e mulheres. Sua especificação da heterossexualidade a distinguiu de
sexual) imutável é um problema que eu enfrento neste livro.
um modo novo como um problema. Eu comentei: A existência de
Em 1977, com grande excitação, li avidamente a primeira uma história da heterossexualidade, bem como de uma história da
história social da luta pela emancipação de gays e lésbicas na
homossexualidade, em geral ainda não tinha sido reconhecida, e
Inglaterra, Coming Out: Homosexual Politics in Britain, from the
tampouco as suas implicações foram analisadas+ Chamá-Ia de
Nineteenth Century to the Present, de Jeffrey Weeks. Esse livro
história heterossexual afirmava a existência de tal coisa, um passo
confirmou a direção do meu próprio pensamento, estimulando
necessário para analisá-Ia.
criativamente o meu trabalho.ê' Eu escrevi imediatamente para
No ano seguinte, 1978, em uma conferência na Universidade de
Weeks, ansioso por comunicar-me com um historiador gay de
Nova York sobre Poder e Sexualidade, meu discurso de abertura se
esquerda que pensava como eu, feliz com o fato de que um pequeno
concentrou nos problemas empíricos e teóricos que estavam surgin-
grupo internacional de gays e lésbicas iniciava calmamente um
do no trabalho recente sobre a história da homossexualidade. Essa
trabalho de recuperação da história da homossexualidade.
pesquisa, disse eu,27
Uma pesquisa pioneira sobre essa história também estava co-
meçando a ser publicada por vários estudiosos, incentivando o sugere a existência de uma história heterossexual que precisa ser reco-
nhecida e investigada, em vez de apenas tida como certa.
desenvolvimento de mais trabalhos sobre esse tema dentro e fora
das unívcrsídades.> Em 1980, a renomada University of Chicago
Press publicou o monumental Christianity, Social Tolerance, and Entrei em pormenores: .
Homosexuality: Gay People in West Europe from the Beginning of A pesquisa sobre o passado homossexual nos inspira a questionar a
the Christian Era to. the Fourteenth Century, de John Boswell.P necessidade da divisão atual de pessoas, atividades e sentimentos em
Esse autor exibiu belas notas de rodapé, seu domínio de múltiplas heterossexual e homossexual. Até mesmo o famoso continuum de
linguagens e uma profusão de dados empíricos sobre um tema de Kinsey das atividades sexuais e dos sentimentos mantém a divisão
gran,de interesse para muitos. As críticas positivas ao livro e o seu hetero-homo tradicional e agora dominante. A pesquisa sobre as re-
lações passadas entre o mesmo sexo questiona a aplicabilidade desse
sucesso de vendas foram um fato importante que legitimou o de- modelo hetero-homo para sociedades que não reconheciam essa pola-
senvolvimento da pesquisa da história sexual em geral e da homos- ridade. Se tivermos dificuldade em imaginar um mundo sem heteros-
sexual em particular. No ano seguinte, Surpa.~sing the Love of Men: sexuais ou homossexuais, uma perspectiva histórica será útil. O termo
Romafltic Friendship and Love Between Women from the Renais- homossexual só foi inventado em 1869 [agora o ano tem sido recuado
sancé to the Present, de Lillian Faderman, ratificou mais uma vez o para 68]. O primeiro uso de heterossexual incluído no Oxford English
estudo da história do Iesbianismo.ê' Dictionary Supplement data de 1901. [O mais recente Oxford En-
glish Dictionary Supplement volta o ano para 1892, mas este também
Mas em geral ainda não era dada a devida atenção a uma história tem sido estabelecido como sendo 1868.]28 Os termos heterossexual e
especificamente heterossexual. Contudo, algumas historiadoras fe- homossexual aparentemente passaram a ser de uso comum apenas no
ministas estavam começando a situar a heterossexualidade no tem- primeiro quarto deste século; antes disso, se as palavras representam
conceitos, as pessoas não concebiam um universo social polarizado em
po. Uma delas era Mary P. Ryan, que escreveu Womanhood in
heteros e homos. Se não quisermos impor a nossa visão moderna ao
America: From Colonial Times to the Present.ê passado, teremos primeiro de perguntar que termos e conceitos as
No invernode 1977, fiz uma crítica ao livro de Ryan na imprensa pessoas de uma determinada era costumavam aplicar às relações sexuais
gay, fascinado com a inovação conceitual simples dessa historiado- e afetivas entre mulheres e homens. Teremos de transcender a divisão
hetero-homo.ê?
22 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUAL/DADE
A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL 23

Desde a tradução de 1978 do primeiro volume de The History formulações incentivaram o meu interesse em questionar essas
ofSexuality, de Michel Foucault, a obra desse pensador tem influen- categorias.
ciado muito a interpretação da história sexual por parte dos pesqui-
Em 1981 eu ouvira uma jovem historiadora feminista e amiga,
sadores que falam a língua inglesa.ê" Como eu mais tarde deixarei Lisa Duggan, ler o rascunho de um ensaio sobre as mulheres, a
claro, minha análise da história da homossexualidade e da heteros- - sociedade americana na década de 1920 e a imposição social da
sexualidade deve muito a Foucault. Mas, como os estudiosos mais heterossexualidade.é Alguns dias depois suas palavras me fizeram
jovens agora freqüentemente escrevem como se Foucault tivesse ter uma revelação. De repente caí em mim e até mesmo falei em voz
iniciado a pesquisa sobre a história da sexualidade do alto de sua alta comigo mesmo: A heterossexualidade não foi apenas 'imposta',
posição na academia francesa, eu noto que a pesquisa sobre a história foi 'inventada'. Alguns meses depois daquela revelação, li para o
da homossexualidade deve o seu principal impulso aos movimentos nosso pequeno grupo de estudo do sexo na história a primeira versão
de gays, lésbicas e feministas, não a este único grande homem." de um ensaio, "The Invention of Heterosexuality" que explorava a
Ainfluência de Foucault está clara no amplamente lido "Sexual hipótese de que a heterossexualidade, como a homossexualidade,
Matters: On Conceptualizing Sexuality in History" (1979), de Ro- fosse uma construção social e histórica." O grupo me incentivou a
bert A. Padgug, que avisou: As categorias sexuais que são tão ir em frente.
óbvias para nós, as que dividem a humanidade em heterossexuais e O comentário sobre a invenção histórica da heterossexualidade
homossexuais, não parecem ter sido conhecidas pelos antigos gre- foi incorporado a três ensaios analíticos em meu segundo livro sobre
goS.32 Esse autor nos preveniu de que precisamos evitar projetar as a história americana da homossexualidade. Mas quando Gayll.es-
nossas categorias atuais sobre as sociedades passadas, que organi- bianAlmanac surgiu em 1983, poucos leitores pareceram tão exci-
zavam as pessoas e a sexualidade seguindo linhas muito diferentes. tados quanto eu com a sua revelação mais surpreendente: o discurso
Anecessidade de evitar o anacronismo quando se lê ou escreve sobre histórico sobre a heterossexualidade era uma invenção moderna.
a história da sexualidade - reiterada por vários autores - indica Nosso termo heterossexualidade, que pretendia descrever um sexo-
uma forte tendência a essas projeções retrospectivas enganadoras. amor mais velho que Matusalém, era de origem bastante recente e
Padgug também.crítícou especificamente a noção comum de linha uma história de definições variáveis e contestadas."
que a essência sexual define pessoas chamadas de homossexuais e Minhas idéias sobre a invenção da heterossexualidade torna-
heterossexuais. Na sociedade grega antiga, disse ele, Os homos- ram-se mais claras no início dos anos 1980, quando li atenta-
sexuais e heterossexuais no sentido moderno não existiam. Essas mente alguns artigos de jornais de medicina da última década do
palavras admitiam que heteros e homos 'em um sentido antigo século XIX. Neles, os psiquiatras primeiro descreviam o homos-
poderiam ter existido. sexual. Eu comecei a perceber que vários desses médicos também
se referiam ao heterossexual- mas como um depravadol'" Obser-
Ele também questionava, ambiguamente, a aplicação de homo
vei que apenas gradualmente a palavra heterossexual passou a
e hetero a atos de gregos antigos. Para os gregos do período clássico,
significar o suposto ideal erótico de sexo diferente que conhecemos
Homossexualidade e heterossexualidade ... eram na verdade grupos
hoje. Buscando a formação da homossexualidade ao longo do
de... atos, mas não necessariamente atos intimamente relaciona-
dos... 33 tempo, eu me deparara inesperadamente com outro episódio pri-
mário e não notado, a ocasião em que a heterossexualidade foi
Esse historiador finalmente negou que heterossexual e homos- concebida.
sexual tiveram uma existência operante na Grécia antiga: Aquelas No início dos anos 1980, presumi que os termos heteros-
próprias categorias ... não tinham significado na Antiguidadeé' Tais sexualidade e homossexualidade significavam modos historica-
24 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL 25

mente específicos de dominar, pensar sobre, avaliar e organizar


a invenção histórica da heterossexualidade para contestar direta-
socialmente os sexos e seus prazeres. Este livro mostra as minhas
razões. mente a nossa admissão comum da hipótese de que a heteros-
II sexualidade é eterna, para sugerir o status histórico relativo e instável
de uma idéia e uma sexualidade que geralmente supomos que foram
É perigoso fazer a apresentação deste livro sobre a história da
- há muito tempo esculpidas em pedra.
u heterossexualidade com a história pessoal de um homossexual, que Geralmente supomos que a heterossexualidade é tão antiga
diz respeito à história da homossexualidade. Posso fornecer muni- quanto a procriação e a luxúria de Eva e Adão, eterna como o sexo
ção para aqueles ansiosos por abarê-Io a tiros sob a alegação de que e a diferença entre os sexos daqueles primeiros seres humanos.
é um discurso tendencioso e extravagante de um interesse especial Imaginamos que é essencial, imutável e não tem uma história. Essa
- como se um escritor heterossexual fosse escrevê-lo do ponto de hipótese é o nosso ponto de partida comum e não examinado quando
vista universal. Dada a minha confissão inicial, pode-se pensar que pensamos sobre a heterossexualidade - se pensamos.
este livro é sobre a homossexualidade. Mas isso não é verdade. Quando contestados, tendemos a apoiar com três argumentos a
Eu concentro esta história na qualidade mundana da palavra nossa idéia de uma heterossexualidade antiga:
heterossexual, porque um debate sobre o erotismo do sexo diferente
freqüente e facilmente se transforma em um debate sobre a homos- (1) a sobrevivência da espécie humana torna a heterossexuali-
sexualidade, deixando a heterossexualidade - mais uma vez _ dade uma necessidade constante;
esquecida. Insistindo na palavra heterossexual, tento insistir nesse (2) todas as sociedades reconhecem as diferenças básicas entre
'1,11
I tema indefinível. O termo heterossexual fornece uma prova concreta os seres humanos dos sexos masculino e feminino - essas
de mudanças surpreendentes na idéia e no ideal heterossexual _ diferenças biológicas e culturais são a fonte de uma sexua-
nos modos como o sexo e o amor têm sido compreendidos e lidade perpétua que é hetero;
avaliados.ê? E como, desde o final do século XIX, o heterossexual e (3) o prazer físico proporcionado pela união entre um homem
o homossexual têm estado intimamente ligados na dialética, refiro- e uma mulher continua a ser a base imutável de uma heteros-
me ao mesmo tempo à história da homossexualidade. sexualidade eterna.
( Também me concentro na aparentemente simples palavra hete- ___ o
Ao chegar perto do final deste livro espero ter abalado a sua
rossexual porque qualquer discussão sobre a heterossexualidade
crença em que esses argumentos são simples, óbvios e inques-
ameaça ampliar-se assustadoramente e incluir tudo sobre os relacio-
tionáveis. Apesar do que nos tem sido dito, sugerirei que a heteros-
namentos de mulheres e homens. A nOç&9 intimidadora de que a
sexualidade não é análoga ao ato sexual reprodutivo dos sexos; não
heterossexualidade engloba tudo que diz respeito à atração e ao
é o mesmo que as diferenças sexuais; não é igual ao erotismo de
erotismo entre sexos diferentes se revela um dos subterfúgios con-
mulheres e homens. Eu argumento que a heterossexualidade signi-
ceituais que impede que ela se torne o alvo de uma anãlfse crítica
constante. Não se pode analisar tudo. fica um arranjo histórico particular dos sexos e de seus prazeres.
Ilil Eu reconheço que muitos leitores podem considerar coisa de
Sem dúvida uma necessidade reprodutiva, as distinções e o
erotismo entre os sexos existem há muito tempo. Mas a reprodução,
maluco o fato de eu me referir à heterossexualidade como "inven-
a diferença entre os sexos e o prazer sexual têm sido produzidos e
tada". Embora a palavra heterossexual possa ter sido inventada há
combinados em vários sistemas sociais de modos totalmente diver-
pouco tempo, ,certamente os sentimentos e atos não o foraun, Ques-
sos. Afirmo que apenas há cem anos esses modos passaram a ser
tionar a nossa, crença em uma heterossexualidade universal vai
heterossexuais. Apresento provas de que a diferença entre os sexos
totalmente contra o nosso critério atual.t" Ainda assim, eu falo sobre
(o hetero) e o prazer sexual (o sexual) nem sempre definiram a
26 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL 27

"

essência ratificada socialmente das uniões entre os sexos. Um ideal Falamos sobre raça (dando-lhe esse nome) e muito freqüente-
erótico dominante de sexos diferentes - uma ética heterossexual mente especificamos: afro-americanos ou negros, não-brancos.
- não é de modo algum antigo, mas sim uma invenção moderna. Falamos sobre uma história americana negra, mas raramente sobre
Nossa crença mística em uma heterossexualidade eterna - nossa uma história americana branca. Ser da raça branca e ter uma
hipótese heterossexual - é uma idéia que só foi amplamente - tradição cultural branca apenas recentemente foi tornado objeto de
partilhada nos últimos três quartos do século XX. . um estudo sistemático, do modo como ter uma tradição afro-ameri-
Eu lhes garanto, a idéia de uma heterossexualidade primordial cana é agora estudado - depois de uma longa e árdua luta por
é poderosa em nossa sociedade, um forte sinal sob cuja influência visibilidade. Embora a maior parte da história tenha sido escrita
todos nós ainda conduzimos as nossas vidas, não importa o que nos como a história dos brancos, raramente tem se concentrado em sua
dê prazer," Ao contrário da desacreditada teoria vitoriana de uma organização histórica variável, seus usos e abusos. Essa categoria
masturbação perigosa que representava uma ameaça à vida, um racial e estrutura de poder dominante continua a ser privilegiada,
abuso cometido contra a própria pessoa, a hipótese do final do século tornada normal e natural e esquecida, como a heterossexualidade.f
XIX de um prazer sexual universal masculino-feminino ainda é para Falamos sobre a história das mulheres, mas com muito menos
a maioria de nós uma verdade eterna. Por isso é muito surpreendente freqüência sobre a dos homens. Porque a história dos homens não
e esclarecedor examinar a história da idéia sexual e hetero. tem levantado as mesmas questões que a das mulheres, estimulada
recentemente pela pesquisa compensadora das feministas. Como a
Entretanto, abalar o nosso conceito sexual convencional é uma
maior parte da história passada escrita tem se concentrado nas
tarefa difícil. Raramente nos concentramos durante muito tempo no
atividades dos homens e ignorado as das mulheres, o impulso inicial
enigma da heterossexualidade - nossa atenção volta-se rapida-
das feministas deu ênfase à recuperação da sua história. Somente há
mente para oproblema da homossexualidade. Aheterossexualidade
pouco tempo a organização social variável dos homens começou a
resiste bravamente a ser um problema como vários outros modos
ser alvo do mesmo escrutínio hístórico."
peculiares de sentir, agir, falar e pensar.
A não ser que pressionados por vozes fortes e insistentes, não
- Falamos sobre travestismo (dando-lhe esse nome) problemáti-
damos nome à norma, ao normal e ao processo social de normali-
co; o desejo de vestir roupas do sexo oposto. Geralmente não
zação, muito menos os consideramos desconcertantes, objetos de
falamos sobre o forte desejo de vestir roupas do nosso próprio sexo estudo.f A análise do anormal, do diferente e do outro, das culturas da
(ou damos a isso um nome ).42 Mas por que a maioria de nós se minoria, aparentemente tem despertado um interesse muito maior.
sentiria profundamente mal vestindo public.amente roupas do sexo
Ainda assim, o forte desejo que muitos de nós temos de vestir
oposto? O nossoforte desejo de vestir roupas do próprio sexo não
sugere um mistério a ser explicado? roupas do nosso próprio sexo e a convicção profunda de que nos
sentimos bem com o nosso sexo - se pensarmos sobre essas
Falamos sobre transexualismo (dando-lhe esse nome) proble- emoções - são tão intrigantes e complexas como o travestismo e o
mático, a sensação de ser do sexo oposto, o desejo de ter o corpo do transexualismo, Por que normas externas de vestir e ter sexo deve-
outro sexo. Não falamos muito sobre a sensação de ser do próprio riam ser repressivas para tantos de nós? Afinal de contas, o que é ser
sexo (ou damos a isso um nome) - o sexo que acreditamos ser o do nosso sexo? Como iremos saber? Realmente achamos que exis-
nosso, o que a maioria de nós deseja conservar. Mas o fato de nos tem emoções específicas de um sexo e não de outro? Quem diz isso?
sentirmos relativamente bem com o nosso sexo e o forte desejo de E por que isso importa, e importa tanto? Parece que precisamos saber
manter a nossa integridade sexual não indicam algo que precisa ser mais sobre a produção histórica e social de sentimentos, corpos e
explicado, tanto quanto o transexualismo? roupas de cada sexo.
28 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL 29

Acho que um estudo crítico profundo da instituição social e Iieo, cultural e pessoal de qualquer eros é independente da biologia
histórica dos brancos e da masculinidade também revelará muito de suas origens construídas individual e socialmente.
sobre a construção social da supremacia branca e do domínio Concentro este livro em dois períodos importantes da história
masculino- tanto quanto o estudo crítico da história erótica do sexo da heterossexualidade. O primeiro é o final do século XIX, quando
diferente revelará sobre a criação cultural do predomínio heteros- - () termo e o conceito foram criados e ainda eram variáveis. O
sexual. O exame dessas normas e desses sistemas institucionaliza- gundo é a época, que teve início nos anos 1960, em que a hete-
dos socialmente e nunca antes questionados pode proporcionar uma rossexualidade foi novamente desestabilizada - dessa vez, por
nova e surpreendente visão de um universo social normal anterior- fcrninistas e depois liberalistas homossexuais.
mente invisível que coexiste com o mais estudado mundo diferente Também me concentro na influência de vários homens sobre a
- talvez até mesmo mudar para sempre a nossa idéia de regra e 'riação da idéia e do ideal heterossexual. Como Karl Maria Kertbe-
exceção.
Ily, Richard von Krafft-Ebing, Sigmund Freud e quase todos os
A essa altura, os heterossexuais podem estar nervosos porque primeiros teóricos da heterossexualidade eram homens, não parece
um livro que contesta as suposições tradicionais sobre à heteros- improvável que o ponto de vista particular desse sexo tivesse
sexualidade também questiona a legitimidade de suas emoções, seus influenciado muito as suas - e as nossas - idéias sobre a heteros-
comportamentos, seus relacionamentos e suas identidades hete- sexualidade. Por isso, levanto a questão de como as teorias sobre a
rossexuais. Por isso, deixem-me dizer: este livro não duvida do valor hcterossexualidade desses médicos (e mais tarde das feministas)
da heterossexualidade de ninguém. E tampouco representa a vingan- influíram em suas idéias diferentes a respeito da heterossexualidade
ça do homossexual, uma difamação que opera em sentido contrário. feminina e masculína/?
Outro dos motivos de ansiedade que menciono aqui é que a Todos os pais da heterossexualidade eram também brancos, e
história de uma heterossexualidade construída socialmente pode dar como a sociedade da Europa Ocidental e a anglo-americana têm
a impressão de que visa desprestigiar a heterossexualidade. Esse insistido em classificar as pessoas de cores e culturas diferentes por
medo surge porque os deterministas biológicos têm convencido raça, o resíduo de uma perspectiva branca também pode ser encon-
muitos de nós de que o sentimento sexual real de um indivíduo é trado nas teorias sobre a heterossexualidade. A associação freudiana
estabelecido fisiológica e imutavelmente e portanto natural, normal de civilização e heterossexualidade, de primitivo e homossexualida-
e bom. de vem à mente, e as interseções complexas de raça e heteros-
De igual modo, alguns sexólogos. têm insistido em que as sexualidade são sugeridas."?
emoções eróticas de um indivíduo, emboi-a,apenas convergidas para Este pequeno livro sobre um tema amplo faz uma primeira
um foco após o nascimento em um processo de interações sociais, tentativa exploratória de trazer à luz as implicações de uma heteros-
são estabelecidas em uma tenra idade e pelo resto da vida - e sexualidade historicamente específica." Aqui eu faço um rascunho
portanto imaginamos que são autênticas e boas. A idéia de que os da história difícil e experimental da heterossexualidade que ainda
sentimentos hetero e homo são legitimados através desses determi- precisa de pesquisas empíricas detalhadas e de ser mais analisada.
nismos biológicos ou sociais constituiu uma crença popular muito Meu objetivo é dar continuidade à análise crítica da heterossexuali-
comum nos Estados Unidos do final do século XX. dade que começou a ser feita nos anos 1960 e 1970 pelas feministas
Muitos acham que a idéia de que a heterossexualidade e a e por liberalistas homossexuais. Ficarei feliz se este trabalho es-
homossexualidade são construídas historicamente desafia a reali- timular mais investigações históricas sobre a heterossexualidade e
dade, a profundidade e o valor de seus desejos. Eu penso que essa novas interpretações baseadas nessa recapitulação extrema - mes-
percepção é errada. A qualidade emocional, os valores estético, mo se essa pesquisa revisar e alterar as minhas próprias conclusões.
30 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

Mas se, como eu disse, a heterossexualidade foi inventada,


2
quem foram os seus inventores? Onde eles empreenderam a sua
tarefa? Quando e como ela foi inventada? O que, exatamente, foi "
A ESTRElA DO HETEROSSEXUAL
inventado? E finalmente - a pergunta mais difícil - por quê?
Enquanto procuramos indicações e examinamos algumas res= NA SOCIEDADE
postas para essas perguntas, peço-lhe que esqueça temporariamente
lU a nossa hipótese de uma heterossexualidade universal. Venha comi-
go agora em uma viagem ao passado sexual dos homens e das Richard Von Krafft-Ebing e os Médicos da Mente
I
mulheres para observar e refletir sobre a invenção da heteros-
sexualidade.

Nos Estados Unidos, na última década do século XIX, o instinto


sexual era geralmente identificado como um desejo de procriação
de homens e mulheres. Masaquele ideal reprodutivoestava come-
çando a ser contestado, de modo tranqüilo mas insistente, na teoria
e na prática, por uma nova ética do prazer do sexo diferente. Segundo
aquele padrão totalmente novo, o instinto sexual dizia respeito ao
desejo erótico de homens e mulheres uns pelos outros, independente
de seu potencial reprodutivo. Aquelas duas moralidades sexuais
fundamentalmente opostas inspiraram as primeiras definições ame-
.·l ricanas de heterossexuais e homossexuais. Sob a influência do velho
padrão reprodutivo, o novo termo heterossexual a princípio nem
sempre significou o normal e bom.
O primeiro uso conhecido da palavra heterossexual nos Estados
Unidos ocorreu em um artigo do Dr. James G. Kiernan, publicado
em um jornal de medicina de Chicago em maio de 1892.1
Heterossexual não era equiparado aqui a sexo normal, mas a .
perversão - uma tradição que se manteve na cultura da classe média
até a década de 1920. Kiernan ligou heterossexual a uma de várias
manifestações anormais do apetite sexual - .em uma lista de
perversões sexuais - em um artigo sobre perversão sexual. A
'111,
32 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALIDADE
A ESTRÉIA DO HETEROSSEXUAL NA SOCIEDADE 33

breve nota de Kiernan sobre heterossexuais depravados atribuía a A PSICOPATIA SEXUAL DE KRAFFT-EBING
sua definição (incorretamente, como veremos) ao Dr. Richard von
Krafft-Ebing, de Viena. I ) 1(( )VO termo hetero-sexual apareceu a seguir no início de 1893, na
Aqueles heterossexuais eram associados a uma condição men- IIIIHH.lira publicação em inglês, nos Estados Unidos, de Psychopa-
tal, hermafroditismo psíquico. Essa síndrome presumia que os sen- - IMII Sexualis, with Especial Reference to Contrary Sexual Instinct:
timentos tinham um sexo biológico. Os heterossexuais sentiam a A Medico-Legal Study, de Richard von Krafft-Ebing, Professor de
chamada atração física masculina por mulheres e a chamada atração I'Hlquiatriae Neurologia na Universidade de Viena." Esse livro seria
física feminina por homens. Ou seja, aqueles heterossexuais perio- uxxlitado posteriormente várias vezes nos Estados Unidos, tornan-
d()~HC um dos mais famoso textos sobre a sexualidade patolágica?
dicamente tinham inclinações para ambos os sexos? O hetero neles
:-1ll11S exemplos perturbadores (e fascinantes) de um sexo considera-
se referia não ao seu interesse por um sexo diferente, mas ao seu
desejo por dois sexos diferentes. Sentindo um desejo supostamente do doentio começaram a definir uma nova idéia de um sexo visto
inadequado para o seu sexo, eram culpados daquilo que agora rumo sadio."
consideramos um desvio sexual e erótico. Nesse livro, o instinto sexual patológico e o instinto sexual
ronirârio são os mais importantes termos que se referem ao desejo
Os heterossexuais também eram culpados de desvio reprodu ti- uílo reprodutivo. Seu oposto, chamado simplesmente de instinto
vo. Isto é, eles revelavam tendências a métodos anormais de gratifi- sexual. é reprodutivo. Mas aquela velha norma reprodutiva não era
cação - modos de ter prazer sem reproduzir a espécie. Também mais tão absoluta para Krafft-Ebing quanto o foi para Kiernan. É
apresentavam traços do apetite sexual normal- um certo desejo de notável no grande livro do médico vienense sobre todas as varie-
reproduzir-se.
dades de sexo doentio a ausência de qualquer referência ao que
O artigo do Dr. Kiernan também incluiu a mais antiga publi- ulguns outros médicos chamavam de onanismo conjugal, ou fraudes
cação conhecida da palavra homossexual nos Estados Unidos. Ele na realização da função reprodutiva - o controle da natalidade?
disse que os homossexuais absolutos eram pessoas com um No ardor do desejo do sexo diferente, declara Krafft-Ebing,
estado mental geral do sexo oposto. Aqueles homossexuais foram homens e mulheres geralmente não estão pensando em conceber:
definidos explicitamente como invertidos, pessoas que se rebela- No amor sexuàl o verdadeiro objetivo do instinto, a propagação da
ram contra a própria masculinidade ou feminilidade. Ao contrá- ispécie, não penetra na consciências Um objetivo reprodutivo
rio, seus heterossexuais contrariavam especificamente as normas inconsciente inspira a sua idéia de amor sexual. Seu instinto sexual
eróticas e reprodutivas dos sexos. EB1'§ua estréia na sociedade é uma predisposição com um objetivo reprodutivo incorporado.
americana, sua anormalidade pareceu serro triplo da dos homos- Esse instinto é reprodutivo - o que quer que seja que os homens e
sexuais." as mulheres envolvidos em atividades heterossexuais estejam dese-
jando. Colocando à parte o reprodutivo, no inconsciente, Krafft-
Embora o artigo de Kieman empregasse os novos termos hete-
Ebing criou um pequeno espaço obscuro no qual começou a surgir
rossexual e homossexual, seu significado era estabelecido por um
uma nova norma de prazer.'
velho e absoluto ideal reprodutivo. Seu heterossexual descrevia uma
O instinto sexual reprodutivo de Krafft-Ebing, erótico e de sexo
pessoa mista e um impulso complexo - a6 mesmo tempo de sexo .•
diferenciado, estava presente por definição em seu termo hetero-
diferenciado, erótico e reprodutivo. No ensaio de Kieman, o desejo
sexual- seu livro apresentou essa palavra para muitos americanos.
reprodutivo ambivalente dos heterossexuais os tornava totalmente'
Um hífen entre o hetero e o sexual de Krafft-Ebing combinou de um
anormais. Sua primeira definição de heterossexual descreveu um
modo novo a diferença dos sexos e o erotismo para constituir um
inequívoco pervertido. ,
prazer definido explicitamente pelos sexos diferentes de suas partes.
11
. ~'"' I:

11
(--' I',
35
r N.!! 34 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
A ESTRÉIA DO HETEROSSEXUAL NA SOCIEDADE

ql ,
v,.! '
1(,
lI' ill"
Seu hetero-sexual, ao contrário do de Kiernan, não deseja dois sexos, femininos pode ir tão longe a ponto de o homem ser totalmente
l\iVI' ,li mas apenas um e oposto. , dominado pelas mulheres, avisa o Dr. MoU aos seus colegas amea-
c: 1',1, ," ' O termo hetero-sexual, de Krafft-Ebing, não faz qualquer refe- " çados.
'D P~1'li "'1,,",1 ' ' rência explícita' à reprodução, embora implicitamente sempre in- Essa reversão no relacionamento de poder homem-mulher cos-
tumeiro poderia não ser desagradável para as mulheres vitorianas
;~II'IIII' clua o desejo reprodutivo. Por isso, significa da mesma forma-
uma normalidade erótica. Seu termo gêmeo, homo-sexual, sempre que viam a si mesmas - e aos seus lenços - como objetos de um
u,11I'I1 interesse masculino fetichista. MoUcita uma dessas mulheres:
significa um desejo pelo mesmo sexo, patológico porque não é
I I' li

reprodutivo.
II;I!"" Eu conheço um certo cavalheiro, e quando o vejo a distância somente
Ao contrário da conotação anterior de Kiernan, Krafft-Ebing preciso puxar o meu lenço um pouco para fora do meu bolso para ter
' li,' I
'li usa constantemente hetero-sexual para referir-se ao sexo normal. certeza de que ele me seguirá como um cão segue o seu dono. Onde
Por outro lado, para Kiernan e alguns outros sexólogos do final do quer que eu vá, ele irá atrás. Mesmo que esteja em uma carruagem ou
\
l'I'l ,"I! I

século XIX e início do século XX, um simples padrão reprodutivo fazendo algo de importante, ao ver o meu lenço interromperá tudo para
'::11
. -ISto., e, seguir. ao meu Ienç 0.
10
I era absoluto: os heterossexuais no texto de Krafft-Ebing pareciam seguir-me
I
I II ,li,,: .
II :11 t
culpados de ambigüidade procriativa, e portanto de perversão.
I

Essas distinções entre termos e definições sexuais são his- Nos exemplos acima, o termo hetero-sexual significa um ero-

11" toricamente importantes, porém complexas, e podemos achar difícil tismo normal de sexo diferente, embora intimamente ligado ao
I !li,;I' I'.
I
i entendê-Ias. A norma heterossexual dominante de nossa própria fetichismo e ao desvio não reprodutivo. Nos exemplos que se
sociedade também ajuda a formar um bloqueio em nossas mentes a seguem o hetero-sexual de Krafft-Ebing é associado, como fre-
' .. r
outros modos de classificação. qüentemente ocorre, à perversão que ele chama de homossexua l-
11, '1
I Leitores como o Dr. Kiernan também poderiam por associação I dade e instinto sexual contrário.
considerar os heterossexuais de Krafft-Ebing pervertidos. Porque a
t ~I li
palavra hetero-sexual, embora significando normalidade, aparece
II lI,i, :--, SR. Z
I
freqüentemente no livro do médico vienense ligada ao desvio não
11,,1111 reprodutivo - ao instinto sexual contrário, ao hermafroditismo
A história de um certo Sr. Z, um holandês de 36 anos, tem o título
"1"1,, psíquico, à homo-sexualidade e ao fetichismo. .:»
"Contrary Sexual Instinct-with Sexual Satisfaction in Hetero-Se-
1,11111 Por exemplo, o primeiro uso que Krafft-Ebing faz de hetero-
I, ,I

sexual ocorre em uma discussão de .vários casos de hetero- e


xual lntercourse".'!
Por motivos familiares e de negócios, o Sr. Z precisa casar-se e
\ homo-sexualidade em que um certo tipo de vestimenta se torna um
"i ·lil
fetiche? O hetero-sexual, assim como o homo-sexual, estréiam
, consulta Krafft-Ebing, ansioso em relação à sua futura virilidade I
"
II como marido. A família e as obrigações sociais do Sr. Z estão em
'I
como indivíduos que fazem das roupas um fetiche.
desacordo com as suas inclinações eróticas. Na fantasia, diz o Sr. Z
)1 1'11
O fetiche do segundo hetero-sexual apresentado é um lenço. I

ao médico, o seu maior prazer é abraçar e apertar-se contra um I


11' Krafft-Ebing cita um relatório sobre esse impulso nos heteros-
homem da classe operária.
li' , sexuais, de autoria do Dr. Albert MoU, outro famoso e antigo
A beleza da forma feminina, diz Krafft-Ebing, não impres-
sexólogo. O lenço da dama vitoriana aparentemente tinha um forte
,11'11 siona o Sr. Z. Apesar de sua falha estética, seu paciente aprecia o
apelo.erótico para muitos homens daquela época. Ao que tudo indica
::111:
uma forte atração pelos lenços das mulheres poderia, mesmo tem- coito com prostitutas. Ele visita regularmente bordéis - para
12
11'11, porariamente, diminuir o poder patriarcal. Uma paixão pelos lenços curar-se da masturbação e satisfazer totalmente a sua libido.
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37
A ESTRÉIA DO HETEROSSEXUAL NA SOCIEDADE
36 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

Enviado a Krafft-Ebing para ser curado de sua peculiaridade


Através de terapia Krafft-Ebing garante ao Sr. Z que ele é viril
II/fal, o Sr. von X garante ao médico que quer ser curado. Contudo,
e provavelmente o será no sexo conjugal com a sua futura esposa.
IIllfoscenta que nunca havia considerado anormal sua inclinação
A autoridade científica patriarcal das exortações desse médico à
l/ora o seu próprio sexo. O médico tenta convencê-Io do contrário.
virilidade são claramente parte da medicina que ele exerce. O Sr. Z
orno von X mostra rudimentos de emoções hetero-sexuais,
é incentivado a declarar guerra aos seus sentimentos eróticos põr
rllfft-Ebing dá início à hipnose, sugerindo a seu paciente:
homens, abster-se totalmente da masturbação e satisfazeros seus
desejos sexuais normais - aparentemente, continuar a freqüentar 1. Eu tenho horror ao onanismo, porque me repugna e faz com
bordéis. Ele também é incentivado a tentar o hipnotismo, a hidrote-
que eu me sinta péssimo.
rapia (banhos) e a faradização (a aplicação no corpo de pequenas 2. Não tenho mais interesse pelos homens; porque o amor pelos
correntes elétricas).
homens é contra a religião, a natureza e a lei.
Outros usos que Krafft-Ebing faz de hetero-sexualligam esse 3. Eu me sinto atraído pelas mulheres; porque a mulher é
termo à forma de perversão chamada de hermafroditismo psíquico encantadora, desejável e criada para o homem.l''
- desejo erótico por ambos os sexos." Discutindo possíveis trata-
mentos, o médico observa que indivíduos que se sentem atraídos por Vários anos depois dessa lavagem cerebral, o relatório sobre o
ambos os sexos são os melhores candidatos à conversão à normali- paciente:
dade heterossexual. O que havia de óbvio nesse ponto de vista não Ele ainda sentia uma certa atração por alguns homens, mas nada
o impediu de ser repetido como um profundo insight por vários parecido com amor. Ocasionalmente tinha prazer no ato sexual com
psiquiatras posteriores. mulheres e agora pensava em casàmento.P
No caso dos pacientes com algum claro interesse pelo sexo Várias das histórias de tratamento de Krafft-Ebing terminavam
oposto, os médicos achavam premente enfatizar esse potencial. Por com sinos de igreja tocando-ou, ao menos, com a idéia de casamento.
isso, os psiquiatras submetiam os seus pacientes interessados em
ambos os sexos a uma censura moral especialmente severa quando SR. VON Z
eles continuavam, voluntariamente, a satisfazer os seus desejos pelo
mesmo sexo. ' Em várias conversões de Krafft -Ebing uma forte pressão social para
o casamento tem um 'papel importante. A visita do Sr. vou Z ao
psiquiatra é motivada por pressão externa para que ele se case, não
SR. voN x pelo próprio desejo do paciente de heterossexualidade exclusiva."
O Sr. von Z, de 29 anos, um homem alto e esguio de modos
Como ele tem sentimentos hetero-sexuais, Krafft-Ebing evidencia
aristocráticos e decididamente másculos, consulta Krafft-Ebing
para o Sr. von X uma predileção descrita como algo não completo
mortificado por seus sentimentos sexuais em relação a outros ho-
e irremediável (outro nome para homo-sexual). Os problemas
mens _ e especialmente porque a sua família insiste em que ele se
sexuais do Sr. von X começaram depois que ele completou 18 anos,
case. O Sr. von Z só se interessa pelas mulheres mentalmente, não
quando tornou-se uma fonte de ansiedade para os seus pais muito
fisicamente, e sonha apenas com homens. Sua atividade sexual inclui
respeitáveis. Naquela época ele começou a ter um caso amoroso
masturbação passiva ou mútua com homens e solitária.
com um escritor, que o enganou e o expôs ao ridículo. Em casa, o
O sofrimento do Sr. von Z comove Krafft-Ebing. Com esse
Sr. von X tinha relações com criados, livrou-se de uma tentativa de
paciente, tão digno de pena, o médico também tenta a hipnose,
chantagem e, segundo o seu severo terapeuta, continuou a exibir
vergonhosas inclinações para os homens. sugerindo ao Sr. von Z:
38
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
A ESTRÉIA DO HETEROSSEXUAL NA SOCIEDADE 39

Sempre despreze a masturbação e o amor dos homens; encontre mu-


lheres bonitas e sonhe com elas.'? R: Eu considero o instinto hetero-sexual do paciente a criação
artificial de seu excelente médico. Embora geralmente considerado
inato, ao que parece o desejo heterossexual poderia às vezes ser
Depois dessas instruções, o Sr. von Z descobre que pode resistir ao
desejo homo-sexual. induzido artificialmente - inventado. A ingenuidade dos médicos
não tinha limites.
Redirecionando o seu erotismo, o Sr. von Z rapidamente muda
O Sr. R, um oficial de 28 anos, disse: Nas relações sexuais eu
de atitude em relação ao seu sexo - e à sua casa, às suas roupas e
aos seus livros. me sinto completamente feminino. Sentir-se feminino significava:
Desde muito jovem, em meus atos e fantasias sexuais sempre tive
Seu antigo boudoir toma-se um escritório; em vez de apreciar adornos diante de meus olhos apenas imagens de homens e órgãos genitais
e leituras frívolas, ele passou a caminhar pelas montanhas e florestas.18 masculinos.ê Aqui, o sentimento é considerado distinto em homens
e mulheres. '
Como um fiasco prematuro no ato sexual com uma mulher Depois de algumas sessões com Schrenk-Notzing, foi induzido
poderia sabotar as perspectivas de tratamento do Sr. von Z, a o sonambulismo, sendo sugerida uma indiferença pelos homens e
iniciativa de tentar ter sexo com uma mulher foi deixada para o um interesse pelas mulheres. O Sr. R passou então a sentir prazer
pacieniet" Depois da décima quarta semana de hipnose, diz Krafft- com a visão das mulheres. Na sétima sessão, foi sugerida a consu-
Ebing, o Sr. von Z aventurou-se a praticar o ato sexual com uma mação do ato sexual-o que veio a ocorrer.
mulher, foi muito bem-sucedido, tornou-se feliz e sadio de corpo e Contudo, depois de três meses de sexo comandado, o Sr. R teve
mente e até mesmo pensou em casamento. 20 uma recaída induzida, segundo foi dito, por seu companheiro.
Sentindo-se perfeitamente normal ao praticar o ato sexual com Na próxima sessão com o seu médico o Sr. R sentiu remorso e
uma mulher, o paciente parou com o tratamento. Quando Krafft- vergonha. Como expiação, mais tarde praticou o ato sexual com
Ebing o viu, cerca de um ano depois, o Sr. von Z ainda considerava uma mulher na presença de seu sedutor. Essa expiação aparente-
a sua vida sexual perfeitamente normal; porque praticava o ato mente incluiu o prazer homossexual e erótico inconsciente da con-
sexual regularmente com prazer eplena virilidade, sonhava apenas templação deseu companheiro.
com mulheres e não Úndia mais a masturbar-se. Após 45 sessões, diz Schrenk-Notzing:
Contudo, depois do ato sexual o Sr. von Z admitiu que freqüen-
temente ainda sentia uma atração passageira por homens, embora
o Sr. R considerou-se curado. O tratamento terminou. Ele ficou noivo
de uma jovem algumas semanas depois e apresentou-se novamente,
fosse fácil controlar-se. Ele se consideravâ tkfinitivamente curado, após seis meses, como um recém-casado feliz.24
e estava (ainda) ocupado pensando em casamenmã O desejo do
paciente de dizer ao médico o que ele queria ouvir certamente está A qualidade mecânica e pouco convincente do ponto de vista
presente em relatórios desse tipo. psicológico dessas copulações heterotransfiguradas é típica de mui-
tas relatadas em textos psicológicos posteriores - uma forma de
SR. R literatura de conversão.

O casamento é um resultado fenomenal do tratamento no caso do Sem rejeitar a velha norma reprodutiva, Krafft-Ebing introduziu o
Sr. R, citado por Kra:fft-Ebing como tendo sido relatado pelo Dr. von novo termo heterossexual. No século XX, ele passou a significar
Schrenk-Notzing, antigo especialista em hipnose como cura para o uma sexualidade relativa ao sexo oposto totalmentedesvinculada da
desejo sexual não reprodunvo.> Krafft-Ebing diz a respeito do Sr. reprodução. Seu uso do termo heterossexual começou a afastar a sua
40 A INVENÇÃO D~ HETEROSSEXUALlDADE
A ESTRÉIA DO HETEROSSEXUAL NA SOCIEDADE 41

discussão sobre o sexo do ideal reprodutivo vitoriano e a levá-Ia na O modelo de transição de Krafft-Ebing da sexualidade foi
direção da norma erótica moderna do sexo diferente. Seu texto é de ambíguo em relação ao prazer - um conflito básico sobre o valor
transição, situando-se em um espaço entre o vitoriano e o moderno. do erotismo é evidente nessee em muitos textos posteriores sobre a
O uso de KrafftEbing da palavra hetero-sexual para significar heterossexualidade.
um erotismo normal de sexo diferenciado indicou um primeiro - Por outro lado, na primeira página de Psychopathia Sexualis,
afastamento histórico da centenária norma reprodutiva. Seu uso dos Krafft-Ebing se refere bastante positivamente ao prazer associado
termos hetero-sexual e homo-sexual ajudou a tomar a diferença com a expressão do instinto sexual reprodutivo:
entre os sexos e o eros as características distintivas básicas de uma
nova ordem social, ~ngüística e conceitual do desejo. Seus hetero- Na gratificação desse impulso natural são encontrados não apenas o
prazer sensual e fontes de bem-estar físico, como também uma profunda
sexual e homo-sexualofereceram ao mundo moderno dois erotismos
satisfação por estar-se perpetuando a vida única e não eterna através da
de sexo diferenciado, um normal e bom, outro anormal e ruim, uma transmissão de atributos mentais e físicos para um novo ser.26
divisão que viria a dominar a nossa visão do século XX do universo
sexual.
A alegria que o sentimento sexual provoca, acrescenta ele, parece
Como eu me concentro em Psychopathia Sexualis, de Krafft- incomparável e infinita emcontraste com todas as outras sensações
Ebing, como um texto básico sobre a heterossexualidade, os leitores agradâveis/?
podem presumir que a palavra hetero-sexual domina o seu livro. Mas a sua primeira página também parece ameaçadora: No
Mas em suas 436 páginas o termo aparece apenas 24 vezes e não é amor sensual obsceno, no impulso lascivo de satisfazer a esse
considerado suficientemente importante para ser indexado.> Os instinto natural, o homem se coloca no nível do animal. Esse é de
heterossexuais são de menor interesse explícito para esse médico do fato um nível baixo. Apenas através de muito esforço os seres
que os pervertidos não reprodutivos nos quais ele se concentra. humanos civilizados se distinguem das bestas sensuais e controlam
Esse texto sobre oimpulso sexual patológico começa a apresen- seus desejos naturais.
tar uma nova idéia do instinto sexual sadio. Falando sobre a patologia O natural aqui não é de forma alguma o bom. O homem pode
não reprodutiva, ele faz uma distinção entre atos supostamente elevar-se a Uma altura em que esse instinto natural não mais o
causados por uma anormalidade inata, biológica - perversão se- escraviza. Nesse pináculo moral, são despertados sentimentos mais
xual congênita - e atos voluntários que constituem uma perversão nobres, que apesar de sua origem sensual se expandem para um
sexual adquirida. Aquela distinção entre "átosdeterminados biologi- mundo de beleza, magniftcência e moralidade.
camente e atos realizados individualmente serviu como um final Esse médico sugere que controlando os impulsos sensuais o
ético e legal. homem supera o seu instinto natural, e de uma fonte inesgotável tira
material e inspiração para obter uma satisfação maior, realizar um
Segundo essa teoria moral-biológica, os indivíduos não são
trabalho melhor e atingir a perfeição.ê A canalização produtiva ,
responsáveis por sua perversão sexual não reprodutiva inata _ ou,
adequada da sensualidade natural era uma responsabilidade in-
conseqüentemente, por sua atração erótica pelo outro sexo voltada dividual e social.
para a procriação e isata. A idéia de uma determinada orientação
Uma hierarquia moral está muito presente aqui, com o prazer
sexual fisiológica (sadia ou doentia, normal ou anormal) tomou-se
sensual considerado uma emoção secundária e a espiritualidade
uma hipótese dominante da teoria sexual moderna. No século XX,
considerada sagrada. Desde os tempos coloniais da Nova Inglaterra
essa bioética deterrninsta afirma que a heterossexualidade é um fato
até a época atual, um sistema de valores que condena o hedonismo
imutável da natureza - uma norma estabelecida naturalmente.
e os prazeres da carne tem se oposto a um princípio pró-prazer.
A ESTRÉIA DO HETEROSSEXUAL NA SOCIEDADE 43
42 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

fosse assim o mundo inteiro se tomaria um bordei, e o casamento e a


A introdução do termo heterossexual proclamou a sexualidade família seriam ímpossíveis."
- o prazer sensual de homens e mulheres -, um elemento essencial
para a sua intimidade. Mas a nossa sociedade tem rara e inequivo- Mulheres e homens também são basicamente diferentes sob
camente afirmado o valor independente do prazer sensual. Por isso nutres aspectos. Segundo ele, a mulher permanece passiva. Sua
o ideal heterossexual mostra, desde o começo, uma tensão fun- - .
passividade inata está em sua estrutura orgânica sexual [natureza]
damental. A afirmação heterossexual se depara com um conflito
r não se baseia apenas nos preceitos da boa educação [criação].33
básico entre os prazeres da carne e a ânsia por um espírito puro e
A necessidade de amor também é considerada inata e maior na
sem corpo. O sexual no hetero ideal era desde o início problemático.
mulher do que no homem. E o amor da mulher não é neces-
O desejo pelo sexo oposto é outro elemento essencial da teoria ti riamente sexual: A sensualidade desaparece no amor de uma mãe,
de Krafft-Ebing do hetero em seu hetero-sexual. Ele repetidamente nlirma Krafft-Ebing.34 Essas diferenças entre os sexos se estendem
se refere a homens e mulheres como opostos - as diferenças 11 todas as funções e a todos os desejos sexuais.
35

anatômicas e genitais significam um antagonismo básico que abran-


A diferença inata entre o erotismo de homens e mulheres
ge tudo. Do mesmo modo como ele pensa no desejo homossexual
significa que cada sexo parte de um ponto diferente em relação à
como um instinto sexual contrário, pensa nas mulheres e nos
nova norma heterossexual em desenvolvimento. Devido ao seu
homens como sexos opostos. Os homens e as mulheres não são
diferentes apenas em algumas estruturas e funções biológicas, iguais suposto maior erotismo, os homens são considerados mais próxi-
em outras, dependendo do critério de avaliação. Os dois sexos desse mos da heterossexualidade. Quando as mulheres se moveram na
médico são antitéticos. Essa pretensa oposição aparece repetida- direção da paridade erótica com os homens, no século XX, elas se
mente na história heterossexual, inspirando várias explicações enge- tornaram mais heterosseXuais e, supostamente, mais parecidas com
nhosas de como esses sexos opostos conseguem conviver. 29 s homens em seus desejos sexuais. Devido às suas posições dis-
tintas no que diz respeito ao prazer hetero, as histórias da heteros-
Embora Krafft-Ebing fale sobre a igualdade de mulheres e
sexualidade masculina e feminina diferem muito do princípio ao fim
homens, seu conceito da diferença essencial entre os sexos isola as
mulheres e não as considera iguais." Os homens são o seu tema do século XX'.
principal; seu ponto de vista é claramente masculino." Esse médico O discurso de Krafft-Ebing sobre heterossexual revela um
relega as mulheres a outra esfera, mais pura, fora do alcance de suas teórico do final do século XIX durante o primeiro estágio do
histórias perturbadoras. Esse patriarca. paternalista as protege da processo de heterossexualização, para o qual o seu próprio trabalho
sensualidade perigosa, complexa e excitante do mundo. foi uma contribuição importante.
Uma das diferenças básicas entre mulheres e homens é exem- O breve período heterossexual da história americana discutido
plificada por esse médico pela força relativa de seu desejo erótico. aqui, os últimos anos do século XIX, representa os primeiros anos
Sem dúvida, diz ele, o homem tem um apetite sexual muito mais da época heterossexual. Nesse período, os médicos damente, alguns
intenso do que a mulher - uma noção dominante, embora não ainda empunhando a bandeira da fertilidade, outros tentando ir um
universal, do século XIX. Krafft-Ebing sugere que tipicamente ele pouco além, formularam publicamente pela primeira vez a idéia de
ama sensualmente, ela em geral ama espiritualmente. Ele é agres- heterossexual e homossexual.
sivo e violento em sua paixão: Mas que outros fatos históricos e relativos ao sexo levaram
àqueles novos termos e àquele novo modo de avaliar?Vamos olhar
Com uma mulher isso não ocorre. Se ela tiver um desenvolvimento
mental normal e for bem criada, seu desejo sexual será pequeno. Se não um pouco para trás.
3

ANTES DA
HETEROSSEXUALIDADE

Olhando para Trás


\
\

Se a palavra heterossexual não existia nos Estados Unidos até 1812,


como os americanos falavam e pensavam sobre - e organizavam
socialmente - as diferenças entre os sexos e a sua sexualidade? Eles
empregavam termos equivalentes ou uma linguagem totalmente
distinta? É possível que, antes da estréia do termo heterossexual, os
americanos do século XIX tratassem das diferenças entre os sexos,
do erotismo e dá reprodução de modos muito diversos dos nossos?
Podemos imaginar que eles constituíram um sistema sexual quali-
tativamente distinto - uma sociedade não apropriadamente des-
crita por nosso termo moderno heterossexual?
" ,~

Do presente, olhando para trás, para tempos anteriores ao uso do


termo heterossexual, 'podemos, é claro, encontrar exemplos bem
documentados de atos eróticos e emoções de sexo diferente. Con-
tudo, do ponto de vista dos que viveram e amaram no passado,
aquelas mesmas atitudes e emoções podem não ter se referido de
um modo essencial à mesma combinação de diferença entre os sexos
c erotismo a que chamamos de heterossexualidade. Os modos de
organizar os sexos e a sexualidade variaram muito. Essa variação
contesta a nossa suposição comum de que uma heterossexualidade
essencial e imutável assume formas históricas qualitativamente
diferentes. Eu sugiro que a própria palavra heterossexual significa
ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 47
46 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

dos gregos antigos. Nossa distinção se baseia na diferença entre os


uma forma histórica ligada ao tempo - um modo historicamente
específico de organizar os sexos e os seus prazeres. sexos e a sexualidade:

Os gregos não viam o amor pelo mesmo sexo e pelo outro sexo como
opostos, como duas escolhas exclusivas, dois tipos totalmente diferentes
AMOR TERRENO E CELESTIAL
de comportamento. As linhas divisórias não seguiam esse tipo de limite.'

Um exemplo de uma sociedade não heterossexual é a da Grécia


'zc antiga, analisada pelo historiador francês Michel Foucault, em uma
Segundo Foucault, os escritores gregos antigos poderiam às
discussão que inclui os seus comentários mais longos e explícitos vezes reconhecer que as inclinações de um homem eram para as
mulheres, as de outro para os rapazes. Mas aquelas tendências
sobre a heterossexualidade.'
emocionais não incluíam a mesma organização social de diferença
Foucault repetidamente avisa aos leitores de hoje do perigo de
entre os sexos e erotismo que dá origem ao nosso par heteros-
projetar as nossas categorias heterossexual e homossexual no pas-
sexcal/homossexual. Tampouco a inclinação dos homens gregos
sado. O passado específico a que ele se refere é a Grécia antiga,
pelas mulheres e o seu desejo por rapazes eram um mais comum do
representada nos textos que discutem as intimidades problemáticas
que o outro, e os dois podiam facilmente coexistir no mesmo
e prazerosas dos homens livres com mulheres e rapazes.
individuof Ele pergunta:
Em uma passagem que analisa um discurso famoso de Pausâ- ----
nias no Symposium de Platão, Foucault diz que: Os gregos eram então bissexuais? Sim, se quisermos dizer com isso que
um grego [homem livre] podia, simultânea ou altemadamente, apaixo-
Vê-se ali uma teoria de dois amores, o segundo dos quais - Urânia, o nar-se por um rapaz ou uma moça ... Mas se quisermos voltar a nossa
amor celestial - é dirigido [pelos homens livres] exclusivamente a atenção para o modo como os gregos concebiam essa prática dual,
rapazes. Mas a distinção que é feita não é entre um amor heterossexual precisaremos prestar atenção ao fato de que não reconheciam dois tipos
e um amor homossexual [grifo meu]. Pausânias traça a linha divisória de desejo, dois impulsos diferentes ou opostos, cada qual reclamando
entre o amor que os homens mais desprezíveis sentem - cujo objeto uma parte dos corações ou apetites dos homens. Podemos falar sobre a
são as mulheres e os rapazes e que vê apenas o ato em si (to diaprattes- sua bissexualidade, pensando na liberdade de escolha que se permitiam
thai) - e o amor 'mais antigo, nobre e razoável que é dirigido ao que entre os dois sexos, mas para eles essa opção não dizia respeito a uma
tem mais vigor e inteligência, o que obviamente só pode significar [para estrutura de desejo dual, ambivalente e bissexual. De acordo com o seu
os homens livres] o sexo masculino? modo de pensar, o que tomava possível desejar' um homem ou uma
mulher era simplesmente o apetite que a natureza implantara no coração
do homem por seres humanos belos, de qualquer um dos dois sexos ...s
Foucault salienta que Pausânias fe~' uma distinção hierárquica
entre o amor terreno inferior dos homens livres, concentrado nos
Podemos olhar retrospectivamente para a origem dos termos
atos, e o seu amor celestial, definido por uma apreciação da beleza
sexuais e da organização da nossa própria sociedade - sua genea-
dos rapazes, objetos superiores. Aquela distinção entre amor terreno
1:1,. logia, como a chama Foucault. Mas ele sugere que não deveríamos
'I e celestial é muito diferente do nosso contraste entre heterossexual
, empregar os nossos termos bissexuaZidade, homossexualidade e
e homossexual.
heterossexualidade de um modo que indique que esses eram os
Discutindo a sociedade da Grécia antiga, Foucault generaliza:
conceitos usados no passado.
A noção da homossexualidade é claramente inadequada como um
Foucault teme que seus leitores projetem no passado as catego-
meio de referir-se a uma experiência, formas de avaliação e um
sistema de classificação tão diferentes dos nossos. Nossa polaridade rias e os arranjos sexuais de sua própria sociedade, porque essas
projeções inconsciente e injustificavelmente afirmam a similaridade
homossexual/heterossexual não condiz com esses pontos de vista
48 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE " ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 49

de presente e passado. Desse modo, seus leitores não perceberiam a 'riação (como a sodomia, a bestialidade e a masturbação), ou
diferença e a mudança - o caráter historicamente específico das contrariavam a ordem reprodutiva dominante (como o adultério).
prescrições antigas sobre o prazer do homem livre, e a organização Na Boston colonial, depois de confessar ter cometido adultério com
social historicamente particular do erotismo que lhes dá origem. 12homens, Mary Latham, de 18 anos, foi enforcada com um de seus
A teoria da relatividade sexual do historiador francês nos mostra- amantes. Pelo menos dois outros colonos da Nova Inglaterra foram
uma tendência básica presentista na visão que os leitores e es- nforcados por adultério, para servir, segundo um historiador, C011UJ
tudiosos têm das sexualidades e dos prazeres passados - isto é, nós lembretes da punição que poderia ser dada àqueles que violassem a
necessariamente os vemos de uma posição particular no presente. exclusividade sexual do casamento. Embora todas as antigas colô-
É significativo que o pensamento de Foucault seja necessário nias da Nova Inglaterra punissem com morte o adultério, muito
para prevenir repetidamente até mesmo os seus leitores requintados poucas execuções ocorreram sob esses estatutos. (Talvez porque,
e intelectuais contra as projeções anacrônicas - um notório erro como o crime era um dos mais comuns, a pena de morte teria
histórico." Os repetidos avisos dele e de outros contra o anacronismo provocado mais óbitos do que nascimentos.) Entretanto, mais de
na análise da história sexual afirmam não tanto o nível primitivo dos trezentas pessoas (entre mulheres e homens) consideradas culpadas
intérpretes da história sexual, ou de seus leitores, como o contínuo de adultério na Nova Inglaterra foram severamente punidas com
e enorme poder de nossos conceitos da sexualidade atuais e domi- vinte a 39 chibatadas. (Um homem casado só era severamente
nantes. Sem que o percebamos, em geral estamos todos profun- punido se tivesse cometido adultério com uma mulher comprome-
damente imbuídos de uma distinção heterossexual/homossexual tida ou casada com outro homem. Considerava-se que uma mulher
institucionalizada.
noiva ou casada havia cometido adultério qualquer que fosse o
estado civil de seu parceiro.)"
PROCRIAÇÃO MAXIMIZADA E PECADO SODOMíTICO A sodomia deveria ser punida com a morte, declarou o reverendo
John Rayner, embora pudesse não envolver o mesmo grau de pecado
Para um segundo exemplo de uma sociedade não organizada ao contra afamília e aposteridade que outrospecados capitais de lascívia.
longo de linhas heterossexuais podemos nos voltar para uma cultura William Plaine mereceu a morte por sodomia na Inglaterra, e por incitar
mais próxima da nossa - a das colônias da Nova Inglaterra nos anos a juventudede Guilford, na Colônia New Haven, à masturbação,
1607 a 1740.7 explicou John Wmthrop. Porque os crimes de Plaine foram contra o
Nesses anos formativos, a organização dos sexos e de sua matrimônio e colocaram em risco aperpetuação da espécie humana.'
atividade erótica na Nova Inglaterra eI-a·1dominada por um ditame A pena de morte por sodomia, comum em todas as colônias, e
reprodutivo. Essas economias agrícolas frãgeis e subdesenvolvidas a execução pública de alguns homens por esse crime, representava
ansiavam por aumentar os seus números e a sua força de trabalho. violentamente o grande pecado de qualquer eros considerado con-
Por isso o antigo sistema colonial de procriação foi estruturado para trário à reprodução. O contraste operante nessa sociedade era entre
otimizar a produção de novos colonos. Os colonos da Nova Inglater- a fecundidade e a esterilidade, não entre o erotismo de sexos
II1I ra se casavam mais cedo do que os da antiga Inglaterra, e a sua norma . diferentes e iguais.
de maximizar a procriação deu origem a uma taxa de nascimentos: Dentro desse sistema de procriação as mulheres e os homens
colonial mais elevada do que na Inglaterra ou na Europa da época. eram considerados essencialmente diferentes e desiguais. Especifi-
Essa maximização da procriação era incentivada por exortações camente, o homem fecundo era uma fonte de descendentes. A
religiosas a que os colonos se multiplicassem e por punições legais mulher fecunda gerava os seus filhos e era do sexo fraco. Um homem
para atos que a sociedade considerava que interferiam com a pro- que desperdiçava a sua semente em atos prazerosos e não procria-
50 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 5,1>

tivos esgotava uma fonte procriativa preciosa e limitada tão crucial desperdiçasse energia no pecado não produtivo. Por outro lado,
para a sobrevivência da comunidade como as sementes que os desde o primeiro quarto do século xx, a ordem dominante de prazer
colonos plantavam na terra. Embora fosse compreendido que as de sexos diferentes de nossa sociedade tem incentivado ,0,qSQ da
mulheres tinham sementes, seus atos eróticos com outras mulheres mergia em várias atividades heterossexuais. Essa incitação aos
aparentemente não eram considerados um desperdício que compro- prazeres hetero totalmente separados da procriação constrói uma
metia a sua capacidade de gerar filhos. Portanto, essas eram vio- heterossexualidade cada vez mais congruente com a homossexuali-
lações menores da ordem reprodutiva.
1,1 dade. Na Nova Inglaterra, a sodomia era um paradigma ruim de
Contudo, os homens e as mulheres eram considerados iguais na energia desperdiçada no prazer não produtivo.
luxúria. Como pregou o reverendo Thomas Shepard em um sermão: Os atos reprodutivos e eróticos das mulheres e dos homens da
Todos os seres humanos nascem cheios de pecado, seus corações Nova Inglaterra estavam entre aquelas atividades que se considerava
transbordando de ateísmo, sodomia, blasfêmia, devassidão, adulté- que influíam basicamente na força de trabalho da comunidade, na
rio, feitiçaria feJ bestialidade ... Como uma tentação universal, não sua segurança e sobrevivência. Por outro lado, no século XX, a
o impulso de uma minoria, o desejo erótico de um homem por outro atividade erótica das mulheres e dos homens foi oficialmente colo-
homem não o torna um tipo particular de pessoa, um sodomita." Os cada na esfera da vida privada, na esfera separada de nam~ro, amor
indivíduos poderiam desejar ardente e constantemente um sexo ou romântico, casamento, domesticidade e farmlia. Até Kate Millett e
outro e ser reconhecidos como tendo esse desejo. Mas essa socie- outras feministas questionarem essa separação ideológica das esfe-:
dade não deu origem a um sujeito definido basicamente por sua ras sexual e política, considerava-se que a heterossexualidade per-
atração pelo mesmo sexo ou por um sexo diferente.
tencia a uma esfera privada de intimidade distinta do mundo público
'I Dentro da antiga organização do prazer na Nova Inglaterra, o, do trabalho, freqüentemente alienado.
desejo carnal comumente incluía o desejo mútuo de um homem e Na Nova Inglaterra o erotismo das mulheres e dos homens
uma mulher e o desejo ocasional de um homem por um homem. estava publicamente ligado à sodomia e à bestialidade no âmbito dos
Uma figura de linguagem colonial dominante opunha o desejo por prazeres pecaminosos. A luxúria colonial se situava em uma arena
uma criatura terrena ao amor por um Deus celestial. Nessas colô- de julgamentos, um universo reconhecidamente moral. Supõe-se
pias, o desejo erótico por membros do mesmo sexo não era visto que a heterÓ~sexuaIidade se situa na esfera de natureza, biologia,
como um desvio, porque o desejo erótico por um sexo diferente não hormônios e genes - uma questão de fato fisiológico, uma verdade
~ra visto como uma norma. Mesmo dentro do casamento, nenhum da carne. Apenas secretamente ela é um valor e uma norma, uma
o~jeto erótico do outro sexo era por si mesmo totalmente legítimo. questão de moralidade e gosto, de política e poder.
'- Nessa Nova Inglaterra, a capacidade do corpo humano de Os valores tradicionais da Nova Inglaterra colonial, sua orga-
funcionar como um meio de prazer carnal representava umafas- nização dos sexos, seu erotismo e sua reprodução, fornecem um
tamento muito problemático de um Deus celestial, um afastamento ótimo exemplo americano de uma sociedade não dominada por uma
"1
pelo qual os corpos de homens e mulheres igualmente ansiavam. distinção heterossexualJhomossexual.
Dentro do sistema de procriação da Nova Inglaterra, as partes
privadas do corpo eram consideradas oficialmente órgãos reprodu-
tivos, não instrumentos de prazer heterossexual. A ORGANIZAÇÃO DO VERDADEIRO AMOR
NO INíCIO DO SÉCULO XIX
Em um sermão sobre os pecados de Sodoma, o reverendo
Samuel Danforth ligou a sodomia a doença. Usar energia nos atos A América do século XIX, de cerca de 1820 a 1850, é uma terceira
reprodutivos, uma forma importante de produção, impedia que se sociedade não organizada segundo a nossa lei heterossexual, Vê-se
ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE
5g'
52 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

que tampouco era o estereótipo da sociedade pudica. As evidências muitas cartas de amor sensuais do século XIX, opondo-se firme-
oferecidas recentemente por historiadores contestam a noção co- mente ao estereótipo dos vitorianos. Ela analisa as cartas íntimas de
mum de que a classe média do século XIX era reprimida sexual- cem casais brancos das classes média e alta,e a literàtura de aconse-
mente. A origem do princípio pró-heterossexual não pode então ser lhamento sexual de 1830 até 1890.15 Lystra demonstra que, sob a
explicada simplesmente como um rompimento brusco com um forte influência legitimadora do amor, mulheres e homens das
passado vitoriano anti-sexual. Embora os historiadores recentes nem classes média e alta, em seus comportamentos e em suas conversas
sempre distingam adequadamente os acontecimentos do início e do particulares uns com os outros, afirmavam muitos sentimentos e
final do século XIX, suas análises podem nos ajudar li compreender atos eróticos - embora em geral não o coito antes do casamento.
as origens sociais de heterossexual como um termo e um relaciona- Resumindo a aprovação vitoriana do sexo quando associado
mento historicamente específico. ao amor, Lystra declara:
Eu direi que na América do início do século XIX a classe média
Os mais altos valores da expressão individual e da personalidade
urbana ainda tentava distinguir-se das classes superiores supos- independente eram cheios de erotismo. Os vitorianos não denegriam o
tamente decadentes e das inferiores supostamente sensuais. A classe sexo; eles o guardavam.16 /'
média defendia a pureza sexual como uma importante característica
distintiva. Nenhuma ética da classe média ratificava a luxúria sepa- Ela enfatiza: O sexo tinha um lugar de honra e destaque na cultura
rada do amor e da reprodução de homens e mulheres. Somente no vitorianaP Reitera: Os vitorianos usufruíam dos prazeres do sexo
final do século XIX a classe média conquistou o poder e a es- quando acreditavam que a carne era uma expressão do espirito-"
tabilidade que tornaram-na livre para afirmar publicamente, em A idéia do erotismo como uma experiência religiosa inspirada
nome da natureza, a sua própria heterossexualidade. A criação da romanticamente, um sacramento do amor era, diz ela, talvez o
classe média e a invenção da heterossexualidade caminharam de significado mais importante culturalmente ligado à sexualidade
mãos dadas." vuorianoP A visão positiva de Lystra do sexo vitoriano também foi
Ellen Rothman, em seu Hands andHearts: A History ofCourt- formada, segundo ela, através da pesquisa de mais de cinqüenta
ship in America, contesta o estereótipo vitoriano anti-sexual.P Ela livros de 'àconselhamento do século XIX. Ela afirma que os conse-
analisa os diários, as cartas de amor e as reminiscências de 350 lheiros mais importantes daquela época incentivavam um profundo
pessoas (entre mulheres e homens) americanas, brancas, protes- w
erotismo como uma expressão do amor.
. tantes e de classe média que viviam nos núcleos coloniais do Norte Para um pequeno grupo de entusiasmados pelo sexo, os radicais
\ e chegaram à idade de namorar entre 1770 e 1920. Conclui que os daquele tempo, o verdadeiro amor era um amor livre. Intimate
.casaís de namorados do início do século XIX definiam o amor Matters: A History of Sexuality in America, de John D'Emilio e
romântico de modo a incluir a atração sexual, mas excluir o coito. Estelle B. Freedman, descreve os amantes que ousavam justificar a
Rothman chama aquela norma particular de namoro de a invenção expressão erótica mesmo fora do casamento." Os casais que prati-
das caricias.ê que em sua opinião permitia à classe média uma cavam o amor livre iam contra a idéia de que o matrimônio legal era
grande expressão erótica particular que excluía o ato sexual. Ela necessário para que houvesse o ato erótico entre os sexos. Os
salienta: Os casais de namorados do período entre 1820 e 1830 se defensores do amor livre argumentavam que o amor - não a Igreja
sentiam bem com vários tipos de comportamento que expressavam ou o Estado -legitimava as uniões conjugais. Contudo, como eles
a sua sexualidadel" eram extremamente românticos, não defendiam o sexo sem amor.
Em seu livro Searching the Heart: Women, Men, and Romantic Do mesmo modo como a tendência marcante daquela época era
Love in Nineteenih-Century America, Karen Lystra também reúne condenar firmemente a sensualidade fora do casamento legal e do
54
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 55

amor, os defensores do amor livre condenavam a sensualidade sem


o romance.P dominantes de um sistema sexual que definia a identidade sexual e
pessoal do indivíduo e regulava normativamente o desejo e o
Steven Seidman, um sociólogo voltado para a história, faz
comportamento íntimo.29. ( "
algumas ressalvas à visão dos historiadores revisionistas do erotis-
mo do século XIX. Uma nota em seu próprio estudo, Romantic- Como foi observado, os historiadores revisionistas da sexuali-
Longings: Love in America, 1830-1980, rejeita o argumento de dade americana do século XIX não costumavam fazer uma distinção
Lystra de que o erotismo vitoriano era inequivocamente legitimado cuidadosa entre os acontecimentos do seu início e do final. Um
como símbolo de amor.23 Seidman admite que: exame atento da sociedade do início do século XIX mostra sua
diferença da ordem do final desse mesmo século que deu origem à
Embora os conselheiros sexuais do século XIX reconhecessem o papel categoria heterossexual.
benéfico do sexo no casamento, o amor era interpretado como sendo No início do século XIX, foram defendidos ideais particulares
basicamente espiritual. O sexo, na melhor das hipóteses, simbolizava
de masculinidade e feminilidade, o que criou um culto do homem e -:
uma união espiritual, ou funcionava como um ato espiritual. Em nenhum
desses discursos ... o erotismo foi considerado essencial para a intimi- da mulher de verdade. O Culto da Verdadeira Feminilidade, segundo
dade, ou uma base do amor [grifo meu]. a historiadora Barbara Welter, exigia a pureza -'- significando a
assexualidade - para as mulheres respeitáveis da classe média.ê"
Historiadores mais recentes contestam essa interpretação da pureza.
A ênfase de Lystra na apreciação vitoriana do erotismo é, em sua
opinião, grosseiramente exagerada= Karen Lystra, por exemplo, cita várias cartas que se referem à
expressão erótica de mulheres e homens como pura por associação
Sem dúvida, um erotismo que precisava ser santificado pelo
- isto é, pela ligação do desejo com amor. De fato, purificar o desejo
amor era originalmente profano. Entre os vitorianos da classe média,
era uma importante função do verdadeiro amor ideal da classe
sensualidade era uma palavra suja. Lystra de certa forma admite
média. Segundo essa visão, a pureza especial exigida das mulheres
isso: O sexo era absolutamente aprovado como um ato de amor e
daquele tempo não se referia à assexualidade, mas a um maior
absolutamente reprovado pela maioria dos vitorianos quando os
controle por parte delas, em vez de pelos homens da classe média,
prazeres da carne não eram atos permitidos de revelação pessoal
sobre os seus impulsos carnais, freqüentementeconsiderados
- isto é, quando o prazer erótico não era a expressão do amor.25A
mais fracos. Os homens de verdade, que de acordo com a menta-
luxúria não santificada pelo amor, reconhece ela aqui, era totalmente
26 lidade de sua época eram mais sensuais e tinham menos controle
reprovada. Sua interpretação da sensualídad, do século XIX como
dessa sensualidade, idealmente aspiravam pela mesma regula-
legítimada pelo amor põe fim ao estereótipqc;omum, embora ela crie
um mito contrário de vitorianos eróticos. mentação da sensualidade tal qual as respeitáveis mulheres de
verdade.'!
Em seu próprio livro, Seidman salienta com propriedade o
O ideal dos homens e das mulheres de verdade estava intima-
caráter historicamente específico da oposição heterossexual/homos_
mente ligado a outro termo, o amor verdadeiro, usado repetidamente
sexual. Ele diz que durante a maior parte do século XIX o termo
naquele tempo. Ater-se apenas ao amor verdadeiro era um modo
heterossexualidade e o que hoje consideramos a sua antítese natu-
importante pelo qual a classe média se distinguia da supostamente
ral, a homossexualidade, estavam ausentes dos discursos sobre os
sexos e o erotísmo." O heterossexual e o homossexual não eram promíscua classe alta e da animalesca classe b~ixa. Aquelas classes
considerados categorias mutuamente exclusivas de desejo, identi- inferiores dominadas pela luxúria incluíam um elemento estrangeiro
dade e amor.ê Apenas no início do século XN os conceitos de supostamente vicioso (freqüentemente irlandês, italiano e asiático)
heterossexualidade e homossexualidade surgiram como categorias e um grupo étnico de pele escura supostamente sensual que viera da
África para a América como escravos.F
ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 57'
56' A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

o verdadeiro amor era um sistema hierárquico dominado por na imaginação da classe média do início do século XIX, provavel-
um sentimento espiritual suficientemente forte para justificar o mente porque não havia muitos deles e porque não eram considera-
casamento, a reprodução e a sensualidade, que de outra forma era dos uma grande ameaça ao amor de homens e mulheres.r'" :.
pecaminosa. O padrão sexual vigente fazia uma distinção não entre Apenas raramente era feita referência àquelas outras figuras
o erotismo de sexo diferente e igual, mas entre o verdadeiro e o falso eróticas ilícitas, o sodomita e a safista (ao contrário do posterior
amor - um sentimento não suficientemente profundo, permanente homossexual, esses termos não tinham um oposto heterossexual, um
e sério para justificar as práticas sensuais de namoro habituais, ou o antônimo). As leis do estado relativas à sodomia definiam um ato
quase imutável casamento habitual. obscuro particular, não um criminoso comum, um tipo patológico
ou psicológico, uma identidade pessoal definida por si mesma e, até
Dada a forte influência legitimadora do verdadeiro amor, inú- 36
meros escritores de cartas citados por Lystra, Rothman e outros o final do século XIX, não um grupo sexual particular.
revisionistas despendiam muitas energias tentando provar a au- Como a classe média do início do século XIX comumente não
tenticidade de seus sentimentos. De fato, a principal função des- sonhava com os prazeres legítimos do sexo diferente, tampouco era
sas cartas era garantir à pessoa amada que o próprio amor era atormentada por pesadelos de prazeres pervertidos do mesmo sexo.
verdadeiro.P O pervertido sexual só se tomou uma obsessão dos novos sexuados
Naquele tempo, considerava-se que o corpo humano constituía normais da sociedade nas últimas décadas do século XIX. Embora
diretamente o homem e a mulher de verdade, e os seus sentimentos. a classe média do início do século XIX pudesse se preocupar com
Não era feita qualquer distinção entre o sexo proporcionado biolo- pensamentos eróticos separados do amor, ainda não se preocupava
gicamente e a masculinidade e feminilidade construídos social- com um ideal de uma sexualidade básica e normal de sexo diferente.
mente. Sob o domínio do verdadeiro amor, o corpo humano era Na América do início do século XIX, não se achava que um eros
considerado o seu meio de expressão. De acordo com a norma de universal constituía o núcleo fundamental de todas as intimidades
reprodução do início do século XIX (como na Nova Inglaterra da paixão. Nesse mundo pré-freudiano, o amor não implicava eros.
primitiva), o pênis e a vagina eram meios de procriação - órgãos Por isso, mulheres e homens vitorianos respeitáveis freqüente e
reprodutores- não partes prazerosas. Somente depois do casamen- explicitamente se referiam a seus sentimentos apaixonados sem
to podiam unir-se no amor. perceber que aquelas emoções intensas estavam muito relacionadas
A energia humana era considerada muito limitada e sujeita a com a sensualidade. As mulheres direitas da classe média podiam
exaustão, portanto devia ser usada para produzir filhos e manter o falar sobre a sua paixão profunda umas pelas outras sem se sentirem
amor e a família, não desperdiçada em prazeres libidinosos não comprometidas pelo erotismo.'? Ao contrário da paixão pós-freu-
produtivos. diana, a paixão do início do século XIX habitava em um universo
O local onde o amor era consumado - de procriação - era o separado do mundo erótico da sensualidade.
santuário do.verdadeiro amor do século XIX, o lar do homem e da Dada a distinção do início do século XIX entre o caráter moral
mulher de verdade. Esse templo de amor puro e espiritual escondia do amor apaixonado e o caráter imoral do desejo sensual, grandes
uma ameaça interna do monstro masturbador, aquele antigo arqué- amizades românticas cheias de paixão podiam florescer erotica-
tipo vitoriano da luxúria não procriativa ilícita porque excluía o mente entre membros do mesmo sexo sem um grande temor de que
amor," beirassem a sodomia ou o safismo. O raro uso daqueles termos
O lar era ameaçado externamente pela prostituta, outro arquéti- sugere. a falta de qualquer ligação pública entre a sensualidade e a
po da luxúria que excluía o amor. (Os homens que dormiam com paixão pelo mesmo sexo. As amizades românticas entre pessoas do
homens. em troca-de dinheiro não parecem ter sido figuras comuns mesmo sexo poderiam até mesmo existir sem complicações, e o
58 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 59

conhecimento de muitas relações de sexo diferente - obcecadas A CONSTRUÇÃO DO INSTINTO SEXUAL


como estas poderiam ser pela própria diferença entre os sexos que DO FINAL DO SÉCULO XIX
os constituía como opostos - portanto, como amor, objetos de ..
casamento e parceiros sensuais possíveis um para o outro. Até os_ Todos os historiadores revisionistas da sexualidade do século XIX
anos 1880, dizem os historiadores da sexualidade americana, apresentam um ou vários exemplos memoráveis de casais voluptuo-
John D'Emilio e Estelle B. Freedman, as amizades românticas sos. Os mais entusiasmados pelo sexo tipicamente datam de seu
entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas sem conteúdo final, embora com freqüência sirvam a generalizações sobre a
sexual. Os termos modernos homossexualidade e heterossexua- sexualidade vitoriana ou o erotismo do século XIX.
lidade não se aplicam a uma era que ainda não articulara essas Um dos casais apresentados por Ellen Rothman é formado
distinçôesê" por Lester Ward e Lizzie Vought. Em 1860, em Myersburg, Pensil-
O amor e a paixão espiritual habitavam em uma esfera longe da vânia, Lester, de 19 anos (mais tarde um sociólogo famoso) começou
terrena da sexualidade. O verdadeiro amor era vivido legitima- a escrever um diário sobre o seu namoro com Lizzie. Esse diário
mente apenas dentro do casamento, o modo legal de procriação sugere que Lizzie era tão ativa sexualmente quanto ele."
adequada. O ato sexual, como um sinal de consumação do amor, Em 1861, quando Lester e a garota (como ele a chamava)
tinha um significado especial e profundo. Homens e mulheres freqüentemente estavam separados, o diário dele indica que Lizzie
comumente concordavam em que a união do pênis e da vagina era fazia questão de que, sempre que possível, eles se encontrassem a
algo que eles não podiam fazer antes do casamento, se quisessem sós. Depois de um sábado passado com a garota e amigos, Lester
continuar a ser respeitáveis. O ato sexual distinguia a mulher de ficou para um pernoite feliz com Lizzie:
verdade, virtuosa, da desonrada. A abstenção do ato sexual era o teste
Nós ficamos abraçados e nos beijamos a noite toda (só fomos para a
final do valor do homem de verdade, de seu status de cavalheiro
cama às cinco da manhã). Nunca tínhamos agido assim. Não contarei
cristão bem-educado.
aqui tudo que fizemos, mas foi muito carinhoso e nada vergonhoso."
A fixação da classe média do início do século XIX na união do
pênis e da vagina sugeria que vários atos prazerosos que não A recusa déLester em descrever todos os atos eróticos do casal e o
envolviam a penetração dessa parte específica da mulher por essa seu defensivo nada vergonhoso dizem muito. Até mesmo aquele
parte específica do homem não eram considerados proibidos, ou ao jovem que mostrava entusiasmo pelo amor físico evidentemente
m,enos sexuais. Muitas atividades eróticas eram então permissíveis sentia a força do julgamento de um padrão rígido de conveniência
em um relacionamento amoroso, precisamente por não serem o sexual.
coito.
Cerca de um ano depois, em 1862, Lester e Lizzie se casaram.
Esse culto ao coito foi formulado mais claramente pelos ideo- Rothman diz que o diário de Lester Ward sugere que aquele casal
logistas do sexo mais restritivos, como foi discutido por Lystra: os tinha poucos conflitos emocionais a respeito de suas atividades
promotores de uma ética procriativa. Mas eles estavam travando sexuais, até mesmo de seu ato sexual atípico antes do casamento.f
uma batalha perdida. O número de nascimentos legítimos por família Lester e Lizzie proporcionam no texto de Rothman uma visão
de classe média mostra um contínuo e grande declínio durante o atualizada dos vitorianos como eróticos quando a sós e discretos em
século XIX.39 No final desse mesmo século o antigo padrão do público.
verdadeiro amor cedia lugar a um novo ideal erótico de sexo Em 1860, o mesmo ano em que Lester Ward começou o seu ,
diferente chamado de normal e heterossexual. Um exame cuidadoso diário, um intérprete eloqüente da nova luxúria de homens e mu-
do final do século XIX sugere como isso ocorreu. lheres, Walt Whitman, publicou a sua terceira edição de Leaves of

.-.
L.,.,:
60 ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 61
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

Grass. A versão daquele ano incluiu pela primeira vez um caderno homens é, significativamente, uma narrativa do final do século XIX,
"Children of Adam", que evocava e promovia publicamente o ato embora Gay não enfatize esse po,nto.
sexual procriativo e erótico de homens e mulheres. Como um \ Essa história do final do século inclui o caso amoroso dupla-
pioneiro radical quanto ao sexo, Whitman rejeitou a idéia do início mente adúltero, que durou treze anos, de Mabel com Austin Dickin-
do século XIX de que a paixão das mulheres pela maternidade excluía son (o irmão casado de Emily) em Arnherst, o externamente pacato
o eros. Seus poemas proclamaram publicamente a luxúria femini- .' e internamente fervilhante centro estudantil da Nova Inglaterra."
na, sua participação entusiástica com os homens no ato de conceber Peter Gay usa a história de Mabel, David e Austin para contestar a
bebês robustos. Outro dos novos cadernos de Whitman, "Calamus", idéia de que os vitorianos eram puritanos. Como outros revisionistas,
detalhou vividamente atos de comunhão erótica entre homens. ele insiste em que a classe média do século XIX era secretamente
Como mostra a pesquisa de Michael Lynch, Whitman tomou sexual, embora publicamente puritana."
emprestado termos dos psicólogos populares de sua época, os As evidências oferecidas por Gay e outros revisionistas sugerem
frenólogos, evocando e dando nome às relações amativas ardentes que, à medida que o século XIX avançava, as práticas de prazer .
entre homens e mulheres, e às intimidades adesivas entre homens." particulares da classe média se afastavam cada vez mais do ideal
Sob a perspectiva da história heterossexual, o fato de ele chamar público.do verdadeiro amor. No final do século, quando a classe
essas intimidades de amativas e adesivas foi uma tentativa de média assegurou a sua posição social, seus membros sentiram
colocar juntos os erotismos masculino-feminino e masculino-mas- menos necessidade de distinguir a pureza sexual de sua classe do
culino como uma divisão natural e sadia das respostas eróticas erotismo dos ricos e da sensualidade dos pobres, dos negros e dos
humanas. (Assim como a maioria dos outros escritores de seu estrangeiros." No final do século XIX, quando a classe média
tempo, Whitman ignorou quase totalmente o erotismo feminino- I branca protestante buscava 'a felicidade terrena, sua atitude em
feminino - uma forte indicação de uma regra fálica: os atos relação ao trabalho mudou a favor da procura do prazer. No final do
eróticos que não envolviam o pênis eram insignificantes.) Embo- século o ideal do verdadeiro amor se opunha cada vez mais à
ra talvez agora seja mais conhecido como um amante de homens, atividade sensual da classe média. A luxúria prevalecia por toda a
Whitman também é um precursor do final do período vitoriano parte.
de uma luxúria não revelada em público e freqüentemente difa- Peter Gay menciona a necessidade de Mabel Loomis de encon-
mada entre os sexos." trar equivalentes expressivos para as suas emoções eróticas, mani-
Os primeiros dois grandes volumes do-historiador Peter Gay festadas em seu diário/ê Eu acho que aquela necessidade de Mabel
sobre The-Bourgeois Experience [A experiência; burguesa], na Eu- era típica da sua classe. No final do século XIX, as cartas pessoais
ropa Ocidental e nos Estados Unidos do século XIX, constituem e os diários de Mabel forneceram um local particular para pôr em
uma enorme defesa - 980 páginas de texto e notas da classe média, palavras e justificar -literalmente, chegar a um acordo sobre - as
seu Education of the Senses e Tender Passion (que são os subtítulos práticas da classe média que não podiam ser mencionadas publica-
desses volumes). Gay resgata a reputação erótica da classe média mente sem censura. Como Mabel, a classe média do final do século
vitoriana, tão frequentemente caracterizada como reprimida ou XIX precisava nomear e justificar as práticas eróticas particulares
hipócrita. que se tornavam mais comuns e conhecidas. O interesse especial
A apresentação de Gay dos vitorianos como campeões ardentes daquela classe se revelaria na proclamação de uma heterossexuali-
do eros (até mesmo atletas sexuais) em sua discussão de "Erotic dade universal. A invenção da heterossexualidade nomeava publi-
Record" documenta o namoro de 1877, o posterior casamento e o camente, normalizava cientificamente e justificava eticamente a
adultério de Mabel Loomis e David Todd. A história de Mabel e seus prática da classe média de prazer de sexo diferente.".
62 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 63

CHEGANDO A UM ACORDO era um sentimento masculino, o amor sexual por um homem, um


sentimento feminino. Um amor sexual feminino podia existir em
o heterossexual e o homossexual não surgiram do nada em 1892. um corpo masculino, um amor sexual masculino podia existir
Aquelas duas categorias eróticas de sexo diferenciado estavam erh em um corpo feminino.
formação desde 1860. Na Alemanha, na Inglaterra, na França, na Segundo essa teoria, existia apenas um desejo sexual, concen-
Itália e na América do final do século XIX, nossa idéia moderna e - trado no outro sexo. (Nos termos de hoje, havia apenas uma orien-
historicamente específica do heterossexual começou a ser 'cons- tação sexual de sexo diferente, não dois desejos distintos, heteros-
truída; a experiência de uma devida luxúria de sexo diferente da sexual e homossexual.) Dentro desse sistema conceitual, um Urning
classe média começou a ser publicamente nomeada e documentada. (homem) sentia um desejo erótico feminino por homens, uma
Na parte inicial da história da categoria heterossexual podemos Urninde (mulher) sentia uma atração masculina por mulheres. Em
ficar surpresos ao descobrir o papel importante representado pelos ambos os casos, um desejo por um sexo diferente era sentido por
primeiros teóricos e defensores do amor pelo mesmo sexo. Em 1862, uma pessoa do sexo errado. Seu desejo era portanto contrário ao
na Alemanha, um desses pioneiros, o escritor Karl Heinrich Ulrichs, instinto sexual único e normativo. Ulrichs aceitou essa idéia de
começou a criar novos nomes sexuais e teorias defendendo o amor instinto único, mas argumentou que as emoções dos Urnings eram
do homem que amava homens, o Uranier (ou Urning). O oposto do biologicamente inatas, portanto naturais para eles, e que por isso os
Urning, o homem de verdade (que amava mulheres), ele chamou de seus atos não deveriam ser punidos por qualquer lei contra a forni-
Dionãer (ou Dioning). Sua teoria mais tarde incluiu a Urninde, a cação antinatural.
mulher com um impulso amoroso masculino - sua expressão para
Em uma carta para Ulrichs datada de 6 de maio de 1868, outro
a mulher com sentimentos masculinos -, isto é, a mulher que amava
antigo reformador sexual, o escritor Karl Maria Kertbeny, usou
mulheres.
privadamente quatro novos termos que inventara: Monosexual;
Ulrichs argumentou que o desejo erótico do Urning por um
Homosexual; Heterosexual; und Heterogenit - a estréia na socie-
homem de verdade era tão natural quanto o amor Dioning do homem
dade do homossexual e heterossexual, e dois termos agora esqueci-
e da mulher de verdade. Seus Dioning e Urning são os antecedentes
dOS.51 Embora a carta de Kertbeny não tivesse definido o seu
do heterossexual e do homossexual. Começando em 1864, Ulrichs
quarteto, seus outros escritos indicam que monosexual se refere à
apresentou as suas' teorias em 12 livros com o título coletivo de
masturbação praticada por ambos os sexos; heterogenit, a atos
Researches on the Riddle of Love Between M en, escrito e impresso
eróticos de seres humanos com animais; homosexual a atos eróticos
a suas próprias expensas." .
praticados por homens com homens e por mulheres com mulheres;
Na versão moderna erotizada deUlrichs do antigo homem de
e heterosexual a atos eróticos de homens e mulheres, da mesma
verdade vitoriano, o homem de verdade possuía um corpo masculino
forma que outro de seus novos termos, Normalsexualitãt, que se
e um amor sexual masculino pelas mulheres. O Urning era um
refere à sexualidade normal.
homem de verdade com os sentimentos de uma mulher de verdade.
Possuía um corpo masculino e um amor sexual feminino pelos Ele definiu a heterossexualidade e a sexualidade normais como
homens. a forma inata de satisfação sexual da maioria da população. Aquela
Como vimos, o conceito vitoriano de verdade ligava automa- ênfase nos números como a base do normal marca um rompimento
ticamente a biologia à psicologia. Os sentimentos eram considerados histórico com o velho padrão qualitativo e procriativo.
femininos ou masculinos exatamente no mesmo sentido que pênis Mas o heterossexual de Kertbeny, e o seu sexual normal, não
ou clitóris: a anatomia era igual à psicologia, a fisiologia do sexo são de modo algum normativos. Tanto um como o outro são carac-
determinava o-sexo dos sentimentos. O amor sexual por uma mulher terizados por sua irrestrita capacidade de degeneração - quem

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64 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 65

inventa os termos tira vantagem.S O impulso sexual dos sexuais Urnings, em 1869 os psiquiatras começaram a representar o seu
normais é considerado mais forte do que o dos que se masturbam próprio papel distinto especulando sobre a normalidade e a anorma-
ou o dos homossexuais, e isso explica a sua complacência, o seu lidade sexual, e dando-lhe nomes. Embora os artigos médicos legais
desregramento e a sua liberdade. sobre o crime sexual tivessem aparecido entre 1850 e 1860, apenas
perto de 1870 os profissionais da medicina começaram a reclamar
Os homens e as mulheres heterossexuais de Kertbeny praticam uns com
um novo direito à especialização em assuntos relativos à diferença
os outros o chamado coito natural [procriativo] e antinatural [não
procriativo]. Também são capazes de cometer alguns excessos com o entre os sexos e ao erotismo, e a dar nomes aos objetos de sua
mesmo sexo. Além disso, os indivíduos normais tendem igualmente a preocupação. Uma pequena história da rotulação psiquiátrica da
masturbar-se se não tiverem oportunidades suficientes de satisfazer os sexualidade anormal sugere como a especificação explícita por
próprios impulsos sexuais. E também tendem a estuprar meninos, mas parte desses médicos da perversão sexual promoveu a sua es-
especialmente meninas ...; a praticar o incesto; a cometer atos de bruta-
peculação implícita a respeito da sexualidade normal.ê
lidade ...; e até mesmo a se comportar depravadamente com cadáveres,
se os seus princípios morais não controlarem a sua luxúria. E é apenas Em agosto de 1869, um jornal de medicina alemão publicou um
entre eles que surgem os chamados tipos sanguinários, aqueles que, artigo do Dr. K. F. O. Westphal que deu nome pela primeira vez a
sedentos por sangue, só satisfazem a sua paixão ferindo e torturando.P uma emoção - Die contriire Sexualempfindug (instinto sexual
contrário ).,Aquela emoção era contrária ao instinto sexual adequado
Os heterossexuais e os sexuais normais de Kertbeny certamente não e procriativo de homens e mulheres/" O instinto sexual contrário de
são exemplos de virtude. Considerando a posterior escolha dos Westphal foi o primeiro e um dos mais conhecidos participantes da
psiquiatras do termo heterosexual para afirmar a superioridade do disputa do final do século XIX pelo nome das perversões.
erotismo de sexo diferente, a invenção de Kertbeny do termo
heterosexual a serviço da emancipação homossexual é uma das
Em 1871, uma crítica anônima ao ensaio de Westphal
Journal of Mental Science, de Londres, traduziu pela primeira vez
no
\ ~
grandes ironias da história do sexo. o instinto sexual contrário alemão para o inglês como inverted sexual
(
Kertbeny usou publicamente pela primeira vez o seu novo termo ~ proclivuy,' Esse impulso invertia a tendência sexual adequada e
homosexuality no outono de 1869, em um folheto anônimo contra a procriativa de homens e mulheres/"
adoção'da lei da fornicaçãÓ antinatural em toda a Alemanha unída." I Em 1878, um artigo em uma revista de medicina italiana, escrito
A proclamação pública da existência do homossexual precedeu a por um certo Dr. Tamassia, usou pela primeira vez a expressão
revelação pública do heterossexual. O primeiro uso público da inversione sessuale. Traduzido para o inglês, sexual inversion tor-
palavra de Kertbeny heterosexual ocorreu ~a Alemanha em 1880, nou-se um segundo participante ilustre da disputa do final do século
em uma defesa publicada da homossexualidade.em um livro de um I pelo nome das perversões.?'
zoólogo, The Discovery of the Soul.55 Heterosexual fez a seguir Em 1897, Havelock Ellis, um estudioso da medicina, usou pela
quatro aparições públicas em 1889, todas na quarta edição alemã de primeira vez sexual inversion em um livro inglês publicado. Um
Psychopathia Sexualis, de Krafft -Ebing. 56 Via Krafft- Ebing, hetero- reformador sexual liberal, Ellis tentou usar termos e conceitos
sexual passou em três anos para o inglês, como eu observei, chegan-
do pela primeira vez à América em 1892. Naquele ano, o artigo do
Dr. Kiernan, "Sexual Perversion", mencionou os heterossexuais de
i
'r
médicos para a causa da expressão sexualf?
Antes da invenção da heterossexualidade, o termo instinto
sexual contrário pressupunha a existência de um instinto sexual não
Krafft -Ebing, associando-os à perversão não procriativa.>? .~ contrário, e o termo inversão sexual, um desejo sexual não inver-
Influenciados em parte pelos anos de agitação pública de
Ulrichs em prol da reforma da lei da sodomia e do direito dos * Em português significa tendência sexual invertida. (N.T.)
I

l'l, "1
66 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

tido. Desde o início dessa abordagem médica a sexualidade con-


4
trária e invertida foi considerada um problema, e o instinto sexual
aceito como axioma. Isso deu início a uma tradição de um século na "
qual o anormal e homossexual foram apresentados como um enigma
CRIANDO A MISTICA
e o normal e heterossexual presumidos. HETEROSSEXUAL
Nas últimas décadas do século XIX, o novo termo heterossexual
ganhou o mundo, às vezes ligado à perversão não procriativa e em
outras ocasiões ao erotismo normal e procriativo de sexo diferente. Os Conceitos Seminais de Freud
A teoria de Sigmund Freud ajudou a fixar, tornar público e norma-
lizar o novo ideal heterossexual.

Ao passarmos da formulação da heterossexualidade de Krafft-Ebing


para o seu conceito clássico de Freud, avançamos de uma teoria
sexual relativamente simples' e ultrapassada para uma das mais
complexas e ainda preponderante. As obras de Freud fornecem o
princípio heterossexual com alguns de seus textos mais desenvolvi-
dos intelectualmente e ambíguos. Porque Freud atua como o princi-
r: pal criador moderno do modelo médico a histórico dá heteros-
sexualidade e como um teórico que subverte a construção social da
heterossexualidade - sua invenção histórica. Suas teorias cons-
i. ~ tituem o mais complexo esteio da norma heterossexual e instrumen-
".,
'- ,, tos importantes para contestar o domínio heterossexual.
Todos os objetos de estudo de Freud - o homem e a mulher, o
adulto e a criança, o heterossexual e o homossexual- procuram a
satisfação do desejo erótico. Quando a sua busca pelo prazer entra
em conflito com as regras da sociedade, a pressão para que se
adaptem a elas produz fagulhas.
Por exemplo, Dora (na verdade Ida Bauer, o tema de uma das
histórias de casos mais fascinantes de Freud) habita em um mundo
eletrizado por desejos conflitantes - dela e por ela.' Dora, de
dezoito anos, na descrição extasiada de Freud - na flor da idade
- uma jovem bonita e inteligente - é atormentada por seus
68
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 69

próprios desejos libidinosos, conscientes e inconscientes.2 A ânsia


de Dora e de outros por gratificação sensual _ e a dúvida básica a Além disso, os fortes sentimentos positivos e negativos de Dora
respeito dessa ânsia +-Ievam a intimidades profundas e polêmicas. pelo próprio Freud são analisados pelo primeiro psicanalista do
mundo, embora os sentimentos complexos de Freud por Dora não
A história detalhada de Dora contada por Freud ilustra o papel
tivessem sido alvo de estudo.'?
ativo dele como um construtor da norma heterossexual, deixando
claro o efeito sobre uma jovem mulher da suposição heterosseXual. Freud interpreta os sintomas que Dora apresenta - entre eles
tosse, aperto na garganta, incapacidade de falar, desmaios e uma
Não é uma grande surpresa o fato de Freud ter sido culpado de
tendência heterossexual em seu trabalho terapêutico com Dora. Mas ameaça irresoluta de suicídio - como sinais de conflito psicológico
o seu papel na criação dessa suposição heterossexual é menos causado por seus desejos eróticos complexos e inconscientes."
conhecido. Freud se dispõe a conseguir uma trégua psíquica da aflição de Dora
e de seus outros pacientes com as suas paixões conflitantes e
A história de Dora mostra a visão que Freud tinha da vida como libidinosas.
um melodrama com um elenco brilhante formado por pessoas livres
de conflitos que buscavam o prazer: Passando de Krafft-Ebing e seu instinto sexual reprodutivo para
Freud e sua libido, percebemos a mudança histórica da ética de
Freud diz que Dora se sente atraída inconscientemente por seu procriação do final do período vitoriano para o princípio de prazer
. pai, um sentimento heteroerótico refletido pela ligação do irmão de moderno.P
Dora com a sua mãe.' Pelo amor do pai Dora compete com Frau K, O prazer sexual é mais valorizado no universo da classe média
com quem ele está tendo o que ela de forma ciumenta chama de um de Freud e a reprodução menos valorizada - a taxa de nascimentos
caso amoroso comum.'
decrescente indica uma rejeição histórica da antiga ética de procria-

Dora, salienta Freud, também se sente atraída pelo marido de ção. Freud afirma que no final do século XIX a obrigação de procriar
Frau K, Herr K, descrito pelo admirador Freud como ainda bastante já deixara em grande parte de influenciar as práticas privadas da
jovem e cativante. Esse Herr K se insinuara sexualmente duas vezes classe média:
para Dora, a primeira quando ela tinha treze anos."
Se fizermos um estudo amplo sobre a vida sexual do nosso tempo e em
Pela jovem e bela Frau K Dora nutre sentimentos homoeróticos. particular das classes que mantêm a civilização humana, seremos ten-
Elas têm uma grande intimidade, freqüentemente dividindo um tadosa declarar que é apenas com relutância que a maioria daqueles que
quarto e uma cama e falando sobre sexo, Herr K e a possibilidade vivem hoje obedece à ordem de multiplicar-se ... \3
,
de divórcio dos KS.6 " ',
,,"

Ajovem governanta dos filhos dos Ks diz a Dora que Herr K Como um defensor secreto dessas classes civilizadas que não
insinuou-se sexualmente para ela e depois de ter sido bem-sucedido desejam multiplicar-se, o cientista Freud promove não uma ética,
a rejeitou, despertando sua ira - e a de Dora.? mas um instinto ou impulso sexual que não tem como o seu principal
A astuta Dora percebe que a sua própria governanta _ que objetivo a reprodução, mas a busca de tiposparticulares de prazerl"
secretamente lê obras avançadas sobre sexo e as mostra para Dora, O objetivo do instinto sexual de Freud é a satisfação, não a reprodu-
prevenindo-a de que todos os homens são frívolos e desprezíveis- ção. Ele salienta que o enfoque na fertilidade é uma manifestação
está apaixonada por seu pai." posterior e secundária na longa procura da vida pela felicidade." O
prazer, enfatiza Freud, é o objetivo principal de nosso aparato
Dora também gostara muito da irmã de seu pai, a quem adotara
mental - uma máquina cuja missão é o prazer,"
como modelo. Ela havia morrido depois de uma vida destruí da por
um casamento infeliz.9 Freud atribui o prazer, uma finalidade humana, a corpo, mente
e desejo. Sua mente é a de um moralista, embora ele se apresente ao
70
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 71

mundo como um observador que não julga. Como um moralista, Freud propõe de forma inovadora a independência original e
Freud oferece descrições do trabalho da mente que com freqüência completa do desejo e do objeto erótico. O único objetivo do instinto
incorrem em julgamentos normativos sobre como essa mente deve- sexual é a sua própria satisfação. O instinto erótico deseja inatamente
ria trabalhar,
não a procriação ou o ato sexual, e tampouco o homem ou a mulher,
Em muitos textos Freud sugere que os impulsos perversos são mas apenas a satisfação. Para a ávida libido de Freud todo o corpo
aqueles que provocam sentimentos desagradáveis _ não os que' se toma uma possível área de prazer. Freud tem um papel importante
impedem a procriação.'? O instinto sexual de Freud rompe com os na .transformação do sexo de um dever reprodutivo em um ato
remanescentes do padrão reprodutivo de Krafft-Ebing. A essência prazeroso.
das perversões, explica Freud, é unicamente a exclusividade' com Contudo, Freud não é um defensor incondicional do prazer.ê"
que esses desvios são praticados e como um resultado dos quais o Ele fala criticamente sobre os escravos do hedonismo+ O teórico
ato sexual com o objetivo da reprodução é posto de lado (destaque do sexo que tomou uma repressão problemática e uma sublimação
meu).18 Segundo esse padrão de exclusividade, os atos devem difícil termos comuns, de modo algum defendia o fim de todas as
desviar-se completamente da reprodução antes de se tomarem per- inibições eróticas. Ele tipicamente recomendava o controle social e
versos - um padrão reprodutivo realmente generoso. 1 a canalização da libido primitiva, natural e livre. Dadas a reputação
O prazer é colocado por Freud como a essência da intimidade de Freud e a sua real influência como um liberalista sexual, é
humana, do casamento, da vida familiar e até mesmo da civilização, surpreendente vê-Io às vezes discutindo sobre as virtudes positivas
embora os prazeres civilizados estejam sujeitos às restrições da da vergonha e da repulsaP
sociedade. Os termos prazer, satisfação e gratificação aparecem em, Freud critica clarª"ment~ as repressões excessivas e desneces-
todos os seus textos, significando o seu compromisso com a busca sárias que em nossa civilização ocidental tão comumente causam
secular da felicidade neste mundo - sem dúvida qualificados por profundo sofrimento psíquico:
sua crença na necessidade da sublimação.
A escolha de um objeto é restrita ao sexo oposto e quase todas as
A centralidade do erótico é presumida por Freud. Desde a sua satisfações extragenitaís são proibidas como perversões. A exigência ...
época, .il importância do prazer tomou-se um axioma ético do de que haja um único tipo de vida sexual para todos não leva em conta
Ocidente modemo - que, como eu direi mais tarde, poderíamos as diferenças, inatas ou adquiridas, na sexualidade dos seres humanos;
separa várias delas do prazer sexual e portanto toma-se a fonte de
nos esforçar mais para honrar na prática. Como um primeiro autor
grandes injustiças ... o próprio amor genital heterossexual, que conti-
da proposta de modernização sexual, Freud' rejeita a antiga ética nua a ser aceito, está sujeito a outras limitações, na forma da insistência
vitoriana na qual o mal carnal se opunha ao béin espiritual _ a na legitimidade [o casamento legal] e na monogamia. A civilização
odiosa distinção corpo/alma. A satisfação física e psicológica, eró- moderna deixa claro ... que não aprecia a sexualidade como uma fonte
tica e de outros tipos - e os impediméntos a essa satisfação _ são de prazer por si só e está preparada apenas para tolerá-Ia porque até
a preocupação consciente de Freud. agora não há um substituto para ela como um meio de propagação da
espécie humana.P
Freud cria um novo e amplo conceito do desejo sexual como
libido, instinto, ou impulso - o desejo de satisfação psíquica sentido Freud previne apenas contra as repressões extremas e as subli-
na carne. Esse desejo de prazer, sugere Freud em talvez sua idéia mações desvirtuadas que causam grandes conflitos."
mais revolucionária, não tem qualquer ligação inata com a procria-
Ele defende a troca de uma repressão inconsciente por um
ção ou qualquer.ate particular - e nem mesmo com um determinado
objeto ou sexo. controle consciente: a consciência. A psicanálise', diz ele em certo
ponto,
72 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 73

substitui o processo de repressão, que é automático e excessivo, por um


mentindo. Ela é entregue a Freud por seu pai, que pede ao médico
controle moderado e intencional. por parte das maiores forças da
mente." que a traga à razão - isto é, que a faça calar a boca. Herr K a acusa
de uma excitação excessiva devido à leitura de livros eróticos e
o endosso de Freud do princípio do prazer é limitado por sua discussões impróprias sobre sexo. Aquelas eram acusações sérias
aprovação de uma ética de conformidade com as normas dominantes, • contra uma jovem de uma classe respeitável.
da sociedade. Isso é claramente ilustrado pelos conselhos que ele dá A dificuldade em falar abertamente sobre o sexo - mesmo o
aDora. hetero - é documentada em uma passagem confusa e reveladora
em que Freud analisa um sonho de Dora. Freud afirma que o sonho
revela uma fantasia de Dora de que o seu pai é impotente e outra
PRAZERES PARTICULARES, SILÊNCIO PÚBLICO
sobre a sua atividade heterossexual particular com Frau K
A centralidade do erotismo de homens e mulheres uns em relação Freud pergunta a Dora como, se imagina que o seu pai é
aos outros foi presumida por Freud e a maioria dos outros modela- impotente, ele poderia ter um caso amoroso com Frau K Dora
dores médicos da heterossexualidade. Freud não foi de modo algum responde: Ela sabia muito bem ... que havia mais de um modo de
o único defensor do heteroerótico. Mas falando publicamente em obter satisfação sexual. Freud pergunta a Dora se ela se referia ao
defesa dos relacionamentos sexuais satisfatórios de homens e mu- uso de outros órgãos além dos genitais para o ato sexual, e ela diz
lheres ele se viu lutando contra os defensores de um silêncio que sim. Freud diz a Dora que ela deve estar pensando precisamente
tradicional. No despontar da era heterossexual, Freud e os outros naquelas partes do corpo que no seu caso estavam em um estado de
promotores de um novo e público debate heterossexual foram irritação -sua garganta e boca.r ,
Dora a princípio nega fantasias
veementemente condenados pelos defensores de uma reserva res- orais-genitais. Mas Freud afirmà que mais tarde ela aceitou a sua
peitável. Não foi apenas o debate homossexual que foi censurado. interpretação e que, muito pouco tempo depois, sua tosse desapare-
Afamosa cura através da conversa de Freud, as suas publicações e ceu.
a sua doutrina visaram quebrar um silêncio geral. Freud diz a seus leitores que a jovem Dora imaginava Frau K
No mundo de Dora, o heteroerótico e o homoerótico não eram fazendo sexo oral com o seu pai. A possibilidade de Dora fantasiar
discutidos com freqüência em público. Os problemas de Dora que o seu pai fazia sexo oral com Frau K não é considerada, e a
surgiram em parte de sua incapacidade de falar sobre todo aquele cunilíngua nunca é claramente mencionada em nenhuma das obras
erotismo perturbador no ar ao seu redor. Apenas na terapia de Dora publicadas de Freud (o prazer sexual das mulheres é subordinado ao
com Freud ~~ e no . relatório médico de Freud sobre Dora - o eros dos homens).
começou a ser discutido aberta e até mesmo entusiasticamente. Freud começara perguntando a Dora que tipo de satisfação
Freud, com a ajuda de Dora e de seus outros pacientes, ajudou a criar sexual o seu supostamente impotente pai poderia fornecer a Frau K
um dos primeiros fóruns científicos semipúblicos (a sessão de Termina discutindo o tipo de sexo que ele fantasia que Frau K
psicanálise) e um dos primeiros gêneros literários semipúblicos proporciona ao pai de Dora.
respeitáveis (o relatório psicanalítico) nos quais a conversa sobre Sua conversa sobre sexo causará ao leitor médico ... surpresa e
sexo era constantemente necessária.
horror, antecipa nervosamente Freud. Pênis em bocas eram temas
A resistência ao debate heterossexual público é bem documen- fortes. A idéia de que uma garota inexperiente poderia ter co-
tada na história de Dora. Quando aquela jovem começou a falar nhecimento dessas práticas e ocupar a sua imaginação com elas
abertamente, acusando o seu pai de um caso amoroso com Frau K, pode provocar horror em seus leitores, reitera Freud." Defenden-
e Herr K de urna tentativa de sedução, ambos a acusaram de estar do-se, ele diz que a sua conversa sobre sexo com Dora apenas traduz
74 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
CRIANDO A MÍSTICA HETEROSSEXUAL 75

em idéias conscientes o que já era conhecido no inconsciente.ã Ele sexuais. Embora a categoria heterossexual tenha passado a significar
afirma que o tratamento da histeria em particular exige conversas o padrão dominante, permaneceu estranhamente dependente da
sobre a sexualidade.
categoria homossexual subordinada. O heterossexual e o homos-
Freud adverte aos seus colegas médicos: Devemos aprender a sexual apareceram em público pela primeira vez como gêmeos
falar sem indignação sobre o que chamamos de perversões siameses, o primeiro bom, o segundo ruim, ligados por toda a vida
28
sexuais. A dificuldade em falar sem indignação é ilustrada pela em uma simbiose antagônica e inalterável.
própria referência de Freud a essa fantasia muito repulsiva e per- Na discussão de Freud, homossexual funciona como um termo
vertida de sugar umpênis. 29 A necessidade terapêutica de falar sobre assustador, e heterossexual é algo de que a pessoa se distanciou. A
uma perversão sexual problemática foi para Freud um fundamento homossexualidade pode resultar dos perigos do coito heterossexual.
lógico para começar a falar publicamente sobre um novo e normal No século XX a ameaça da homossexualidade foi freqüentemente
erotismo homem-mulher.
usada pelos liberais como um motivo para a educação sexual e uma
maior liberdade heterossexual.P
FREUD A RESPEITO DA HETEROSSEXUALlDADE Freud usa heterossexual para referir-se a uma emoção, a vários
impulsos, instintos ou desejos eróticos e a um tipo de amor. Seu
Mas o que Freud diz explicitamente sobre a heterossexualidade? E heterossexual também se refere a um tipo de atividade e pessoa.
por que isso importa? Por que deveríamos nos concentrar no uso de Esses usos tendem a fazer o sentimento, não o ato, definir o
Freud do termo heterossexual quando o seu desenvolvimento da heterossexual. Isso contrasta com o antigo modelo reprodutivo que
idéia e do ideal pareceriam mais importantes? se concentrava nos atos. No uso moderno de Freud, o sentimento
Os comentários explícitos de Freud sobre a heterossexualidadef hetero define o ser hetero, se a pessoa praticar ou não atos heteros-
fornecem uma ótima pista para a história do discurso heterossexual.. sexuais. Freud promoveu a criação de uma identidade heterossexual.
E essa história fornece um insight da normalização do erotismo de Esse médico também ajudou a formar a nossa crença na existência
sexo diferente à parte da reprodução. de algo unitário e monolítico com uma vida e um poder determinante
O primeiro uso publicado que Freud fez do termo heterossexual próprios: a heterossexualidade.ê
foi em 1905, em seu Three Essays on the Theory of Sexuality, Os usos explícitos de Freud da palavra heterossexual ajudaram .
Falando sobre as causas dos desvios sexuais, Freud menciona que a constituir um erotismo de sexo diferente como a norma dominante
osperigos do coito heterossexual (aparentemente, as doenças vené- da sociedade moderna.
reas) podem resultar em uma fixação da honUJssexualidade.30 Embora os seus usos da palavra heterossexual sejam revela-
Freud emprega heterossexual aqui e em outros lugares sem dores, surpreendentemente não são muito freqüentes. O Concor-
explicação, sugerindo que o termo já era de uso bastante comum dance para os 24 volumes dos escritos completos de Freud indica
entre os médicos.ê' A grande rapidez com que essa palavra foi que ele usa heteroerotismo, heterossexual, ou heterossexualidade 29
integrada ao discurso médico sugere que indicava uma idéia e um vezes. Em comparação, usa uma versão de homossexual 316
ideal cujo tempo chegara - uma norma que os médicos do sexo vezes.ê"
masculino estavam ansiosos por adotar.
Como podemos explicar a relativa ausência da palavra heteros-
O uso inicial de heterossexual em uma discussão sobre a homos- sexual em textos da mais absoluta importância para a definição
sexualidade é uma prática típica de Freud que mais tarde tomou-se heterossexual?
típica de outros. Os heterossexuais devem quase todas as menções Freud introduziu discretamente a norma heterossexual, como a
explícitas e públicas à sua existência ao debate sobre os hornos- que todas as pessoas modernas presumem. Sob o feitiço desse silên-
76 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUAUDADE CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 77

cio peculiar, a heterossexualidade tomou-se o fantasma dominante Falando com Freud sobre o' evento cinco anos depois, Dora
que assombrava esse e outros textos modernos sobre sexo. Durante diz que ainda pode sentir na parte superior de seu corpo a pressão
a maior parte dos mais de 100 anos de norma heterossexual his- do abraço de Herr K.38 Depois daquele beijo, Dora se recusou a
toricamente específica, um tabu verbal impediu um debate muito participar de uma expedição na qual seria acompanhada pelos Ks, e
explícito sobre a heterossexualidade, tornando-a outra das paixões evitou ficar a sós com Herr K. Mais tarde, a ambivalente Dora
que não ousavam dizer o seu nome. " ; começou a ficar novamente a sós com Herr K durante passeios. Ela
O tabu a respeito do debate sobre a heterossexualidade retardou não contou a ninguém sobre o primeiro avanço de Herr K até
o desenvolvimento de um discurso indagador sobre esse tema. contá-Io para Freud.
Porque é difícil analisar criticamente o discurso heterossexual sem Analisando a reação de Dora ao beijo, Freud garante a seus
usar a palavra. Nomear abertamente a heterossexualidade, e falar leitores: Aquela era certamente uma situação que provocaria uma
longa e explicitamente sobre esse tema, tira-o da esfera daquilo que clara excitação sexual em uma garota de 14 anos de quem nunca
é tido como certo, sujeitando-o aos perigos da análise - e à alguém se aproximara (Dora na verdade tinha 13 anos)."
possibilidade de crítica. Um ideal erótico de sexo diferente foi Como Dora não teve conscientemente uma excitação heteroe-
introduzido silenciosamente na consciência moderna, construído rótica, sua reação foi totalmente histérica, afirma Freud. Uma
como o termo principal da ideologia sexual dominante, a norma que ocasião para excitação sexual, salienta o médico, provocou senti-
todos conhecemos sem refletir muito sobre ela. mentos exclusivamente desagradáveis. Freud enfatiza a incapaci-
Se a quantidade das referências de Freud é uma indicação dade de Dora de experimentar a sensação genital que uma garota
precisa, a homossexualidade pareceria ser muito mais interessante sadia teria naquelas circunstâncias/"
para ele do que a heterossexualidade." Aquelas referências distintas I
Discutindo a questão da doença psíquica de Dora, Freud inventa
são uma indicação precisa de que Freud considerava o homossexual um cenário fantasioso para explicar a sua reação supostamente
problemático e supunha o heterossexual. Essa suposição toma a inadequada. Ele especula que quando Herr K beijou Dora ela sentiu
heterossexualidade não-problemática. Ao mesmo tempo, o proble- o pênis dele ereto contra o seu corpo e isso lhe causou nojo.
ma da homossexualidade foi uma expressão explícita de Freud e,
Houve um tempo, não muitos anos antes, em que a falta de
posteriormente, um clichê daqueles seguidores que o tomaram
reação erótica de uma mulher provava a sua pureza. Agora, a
popular."
suposição heterossexual moderna de Freud tornava-a uma doença
mental. Freud claramente afastou-se muito do ideal do século XIX
". da mulher como anjo do lar.
O trabalho implícito de Freud como um promotor da heteros-
sexualidade, e o efeito deturpador disso, está claro em sua análise A suposição freudiana da resposta heterossexual feminina en-
da reação de Dora ao primeiro avanço heterossexual de Herr K. dossa o desejo erótico feminino em geral apenas para depreciar uma
Nessa ocasião, Herr K dera um jeito para que a sua mulher e Dora, reação particular de uma jovem. Ele ignora a exclusividade da
então com 13 anos, fossem ao seu escritório - ironicamente, para situação emocionalmente complexa e assustadora enfrentada por
assistir a uma procissão religiosa. Ele então persuadiu Frau K a ficar uma jovem inexperiente sozinha com um homem mais velho.
em casa, dispensou os seus funcionários e, segundo Freud nos diz, A tendência de Freud à resposta heterossexual também distorce
estava sozinho quando a garota chegou. Tendo premeditado o seu a sua análise do segundo encontro de Dora com Herr K. Dois anos
gesto, Herr K fechou as venezianas da janela, subitamente puxou a depois do seu primeiro avanço a garota, então com 15 anos, estava
garota para si e a beijou. Dora sentiu uma profunda sensação de visitando os Ks em sua residência de verão. Dora lembra que ajovem
nojo, livrou-se do homem e correu para a porta da rua." governanta dos filhos dos Ks se comportava de um modo muito
\
f#'

1:1

78 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 79

estranho com Herr K, nunca falando com ele e tratando-o como se consentimento de K para o caso amoroso com Frau K. Freud afirma
não existisse." que a interpretação de Dora estava certa. Mas então limita des-
Um dia essa jovem governanta levou Dora para um canto e lhe trutivamente o seu apoio. Dora estava bastante consciente, diz ele,
contou que Herr K se insinuara sexualmente para ela em uma de que fora culpada de exagero ao falar assim.48 Seu pai, explica,
ocasião em que a sua esposa estava fora. Herr K implorava-lhe que não se sentara em uma mesa para negociar e oferecer a sua filha para
atendesse às suas súplicas, dizendo que nada recebia de sua esposa. Herr K em troca de seu consentimento para o caso amoroso com
A governanta contou a Dora que se entregara ao seu patrão, mas Frau K. O argumento de Freud é irrelevante e só serve para pôr em
depois de algum tempo ele parara de se interessar por ela e desde dúvida mais uma vez a interpretação de Dora.
então o odiava. Os pais da jovem governanta respeitável, informa- Freud sugere seriamente a Dora que o caso de Frau K com o seu
dos por sua filha da situação, tinham ordenado que deixasse imedia- pai tornava certo que Frau K concordaria em divorciar-se de Herr
tamente o seu emprego. Quando ela não conseguiu fazer isso, K. Diz à sua cliente que ela ficaria então livre para representar a sua
esperando uma renovação do interesse de Herr K, seus pais lhe fantasia inconsciente de casar-se com Herr K. Insinua que o seu
disseram para nunca mais voltar para casar? casamento com ele é a única solução possível para todas as partes
Um dia ou dois depois de Dora ter ouvido essa história dramá- envolvidas. Seu plano não era inviável enfatiza esse casamenteiro."
tica, Herr K fez o seu segundo avanço, dizendo-lhe: Você sabe que Em vista dos relacionamentos emocionais particulares envolvidos,
eu nada recebo de minha esposa. Logo que aquelas palavras saíram esse plano me parece totalmente maluco.
de sua boca, Dora o esbofeteou e saiu correndo= Herr K lhe A narrativa que Freud faz de Dora é estruturada com uma
implorou para não mencionar o incidente= história de mistério. O mistério, segundo ele, é porque Dora reagiu I1

Contudo, daquela vez Dora contou a sua mãe que Herr K tivera com tanta indignação à última proposta de Herr K quando, segundo I

a audácia de fazer-lhe uma proposta, e sua mãe obsequiosamente o psiquiatra, a maioria das jovens ficaria feliz em recebê-Ia e até 1.111
contou a seu marido. Na próxima ocasião em que o pai de Dora mesmo excitada com ela. Se nós não concordarmos com a premissa
encontrou Herr K exigiu que este se explicasse. de Freud, de que Dora deveria ter reagido positivamente ao avanço
Herr K negou nos termos mais enfáticos ter feito quaisquer de Herr K, não haverá um mistério a ser explicado.
avanços, e depois começou a lançar suspeitas sobre a garota. Frau A história de Dora termina com a resposta para o mistério - a
K lhe dissera que Dora havia lido livros sobre sexo durante uma revelação de que ela sabia da frase que Herr K usara para seduzir a
visita à sua casa. Aquela leitura a excitara em demasia e ela apenas governante de seus filhos: Você sabe que eu nada recebo de minha
fantasiara o seu avanço." '.j esposa - a mesma que usou com ela. O mistério, segundo Freud,
Freud apresenta Herr K da melhor forma possível. Referindo-se está resolvido: Dora ficou indignada porque Herr K usou com ela a
mesma frase que usara com uma mera governanta."
rll:
ao seu segundo avanço, garante aos leitores que ele não havia
encarado a sua proposta para Dora apenas como uma frívola Mas a esposa de quem Herr K nada recebia era a mesma Frau
tentativa de sedução= Isso é mera conjetura. Freud não apresenta K a quem Dora tinha sido e ainda era muito ligada. A queixa de Herr
quaisquer indícios dos sentimentos de Herr K por Dora, ou de sua K da mulher corri quem ele não estava dormindo pode ter provocado
seriedade. Contudo, sabemos da frívola sedução de Herr K e da uma mistura de sentimentos muito conflitantes em Dora."
subseqüente rejeição da governanta de seus filhos."? A análise que Freud faz da intimidade de Dora com Frau K, do
O pai de Dora também é apresentado por Freud da melhor forma mesmo sexo que ela, é bastante distorcida pelo fato de que ele
possível. Freud também diz que Dora compreendera que fora en- privilegia o heterossexual e deprecia o homossexual. Em seu texto,
tregue pelo pai a Herr K para promover o seu objetivo: obter o Freud constantemente apresenta a intimidade entre Dora e Frau K

I~
80 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 81

como pouco importante para as relações de Dora com Herr K e seu resultado bom é o heterossexual. Resultados homossexuais não são
pai. Contudo, o próprio Freud admite em uma nota de pé de página os preferidos, como mostram muitas referências de Freud.
que a jovem Dora tivera durante anos um alto grau de intimidade Por exemplo, ele tipicamente fala sobre os homossexuais como
comFrauK: pessoas fixadas em um estágio imaturo do desenvolvimento -
inferior porque menos evoluído, menos civilizado e mais perto da
Quando Dora ficava com os Ks, costumava dividir uma cama com Frau
sexualidade natural perversa epolimorfa da criança não socializada
K e o marido ficava em outro lugar. Ela tinha sido a confidente' ê
e do selvagem primitivo. Os termos críticos de Freud, fixadas e
conselheira da esposa em todas as dificuldades de sua vida conjugal.
Não havia coisa alguma sobre a qual elas não conversassern.S imaturas, impuseram julgamentos negativos dolorosos e até mesmo
devastadores a gerações de homossexuais que assimilaram a nar-
rativa do mestre psicanalista.
Dora tinha adorado Frau K, dissera o seu pai para Freud.P Dora
falava sobre Frau K, diz Freud, como de uma amante, elogiando o A teoria de Freud de uma homossexualidade negativa fixada
seu belo corpo branco. 54 implica uma heterossexualidade positiva e ideal. Freud apresenta a
Discutindo a intimidade de Dora com Frau K, Freud se refere à sua história de um desenvolvimento psicossexual individual como
tendência a um sentimento homossexual encontrada em muitos umajornada ética, com os conceitos de fixação e revelação comple-
adolescentes de ambos os sexos: Uma amizade romântica e senti- ta, infantilismo e maturidade, homossexualidade e heterossexua-
mental com uma de suas colegas de escola, diz ele, comumente lidade impondo julgamentos enfáticos a respeito do modo correto
precede a primeira paixão de uma garota por um homem. Freud de sentir-se erótico - isto é, heteroerótico. Mas, como costuma
sugere que o sentimento homoerótico de Dora por Frau K é uma fase ocorrer, sua mensagem é confusa.
passageira da puberdade - uma etapa no caminho para a heteros- \ Por um lado, Freurl sugere que os homossexuais, por definição,
sexualidade. 55 Por outro lado, o suposto sentimento heteroerótico de se fixam em uma fase inicial de desenvolvimento.
Dora por Herr K é tratado por Freud como a realidade. Por outro; ele sugere que a maioria dos heterossexuais também
Em duas outras notas de pé de página, Freud se refere ao amor é fixada, embora em um sentido diferente. Amaioria dos heteros, co-
homossexual profundo de Dora por Frau K.56 Em ainda outra nota, mo a maioria dos homos, se fixa em um sexo particular e exclusivo.
admite que sua técnica imperfeita na análise de Dora resultou em
Em um ensaio de 1905 Freud diz: O interesse exclusivo do
sua incapacidade de descobrir e dizer à garota que o seu amor
homem pela mulher também é um problema que exige uma explica-
homossexual por FrauK era a tendêncig inconsciente mais forte em
ção, não é algo evidente por si mesmo/" (O interesse exclusivo das
sua' vida mental." Embora Freud admita, que lidou mal com a
mulheres pelos homens não é mencionado.)
tendência inconsciente mais forte na vida emocional de Dora, ele
em parte alguma mostra o efeito deturpador de sua própria tendência Em uma nota de pé de página acrescentada a um ensaio de 1915,
à heterossexualidade. Freud salienta que uma restrição da liberdade da primeira infância
do indivíduo de ter acesso igualmente a objetos masculinos e
[emininos.: é a base a partir da qual... se desenvolvem os tipos
A CRIAÇÃO DE UM HETEROSSEXUAL normais e invertidos. Ele então reitera:

A tendência de Freud à heterossexualidade inspira a sua teoria do [O] interesse sexual exclusivo dos homens pelas mulheres também é
desenvolvimento erótico e o enfoque na escolha do objeto sexual. um problema que precisa ser esclarecido e não um fato evidente por si
Embora o resultado da formação inicial de qualquer indivíduo seja mesmo, baseado em uma atração que em última análise é de uma
definitivamente imprevisível, Freud não deixa dúvidas de que o natureza qutmlca/"
'111
~
82 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 8~

E em um ensaio de 1920, sobre o desenvolvimento psicológico atingido. A sexualidade normal dos adultos surge da sexualidade
da homossexualidade em uma jovem mulher, Freud repete: Preci- infantil através de uma série de acontecimentos, combinações,
samos nos lembrar de que a sexualidade normal também depende divisões e repressões que quase nunca são conseguidos com uma
de uma restrição na escolha do objeto. 60 perfeição ideal.63
Os pensamentos repetidos de Freud são necessários para chamar Para Freud, a heterossexualidade é sempre um arranjo concilia-
nossa atenção para um fenômeno repetidamente reprimido, ou seja'i tório, como todas as sexualidades. Contudo, um heterossexual ideal
os homossexuais não são os únicos cujos objetos eróticos são e plenamente desenvolvimento é o padrão segundo o qual o homos-
restritos a um sexo. Os heterossexuais também são limitados. sexual é sempre julgado fixado.
Seus repetidos comentários sobre a necessidade de analisar o A idéia de Freud de que os heterossexuais são criados, não
caráter circunscrito da heterossexualidade exclusiva é uma de suas natos, ainda é uma de suas teorias mais provocantes e, possivelmen-
sugestões mais revolucionárias e menos seguidas. Freud não é o te, mais revolucionárias. Mesmo se não concordarmos com os
único que não conseguiu analisar as limitações da heterossexua- modos específicos pelos quais ele desenvolveu essa idéia, o insight
lidade exclusiva. Essa incapacidade de analisar se origina de uma básico continua a ser um ótimo ponto de partida para a análise da
moralidade dominante que exige a heterossexualidade (e apenas a criação ~_istoricamenteespecífica do heterossexual.
heterossexualidade) do normal e bom. Esse absolutismo moral Freud sugere que a criança, partindo inicialmente de um desejo
representa um peso maior para os heterossexuais do que para os de prazer não ligado a um determinado sexo ou objeto, passa por um
homossexuais, porque um único sentimento ou ato homossexual os processo em grande parte inconsciente de seleção de objeto erótico
coloca diante da ameaça anormal. Por outro lado, um ligeiro avanço e identificação sexual. Nesse processo, suas reações àqueles que
do homossexual na direção da heterossexualidade tem uma conota- f
cuidam dela, e as reações dessas pessoas a ela, determinam o
ção moral positiva.
interesse posterior dessa criança arquetípica em sexos e objetos de
Freud considera a' heterossexualidade exclusiva o resultado prazer particulares. ,
limitado socialmente de um instinto sexual primitivo. Sua heterosse- Segundo Freud, na formação do erotismo, a vida amorosa em
xualidade normal não é de modo algum natural. É o produto social desenvolvimento da criança originalmente polimorfa se concentra
limitado de um processo de desenvolvimento difícil. nas satisfações tiradas de seu próprio corpo, no prazer oral associado
Segundo a teoria freudiana, a criança chega à heterossexualida- à mãe, à boca, aos seios e aos encantos do ânus e, mais tarde, nos
de através de estágios, de polimorfo a exclusivo, de natureza a prazeres associados ao pai e ao falo - geralmente uma passagem
cultura, de biológico a social, de primitivo a civilizado, de infantil a do oral, anal e genital, através do autoerotismo, para o heterossexual
maduro. Em sua teoria, é atribuído à maturidade um sentido ético; ou homossexual.
a maturidade e a imaturidade têm significados muito profundos. A Freud também fala ocasionalmente de um objeto do mesmo
heterossexualidade é madura e boa, a homossexualidade, imatura e sexo ou de sexo diferente como o alvo bissexual original do desejo
ruim." A influência da teoria evolutiva de Darwin e a idéia do de uma criança. Mas essa idéia de um determinado objeto bissexual
progresso têm um papel importante nessa imputação de valores ao contradiz a sua teoria dominante de um eros originalmente não
processo de desenvolvimento. Embora Freud reconheça claramente comprometido, polimorfo.
o engano de imputar valores humanos a evoluções de valor in-
Em sua versão esquemática mais simples, Freud conta a história
definido, ele é uma primeira vítima desse pensamento teleológico.s-
de mãe e pai, menino e menina, os personagens genéricos em uma
Apesar do fatode que a heterossexualidade é o ideal operativo peça sexual familiar arquetípica, um melodrama situado em uma
de Freud, ele admite que esse ideal quase nunca é totalmente civilização que exigia a repressão dos instintos sexuais básicos -
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------- 85
84 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE CRIANDO A MÍSTICA HETEROSSEXUAL

ou a sua sublimação em objetivos que proporcionavam prazer e mulheres eram muito menos importantes para ele, centrado nos
eram produtivos (embora não necessariamente reprodutivos). homens e na heterossexualidade, do que as relações entre homens e J
Anarrativa de Freud do progresso do garoto enfatiza o primeiro mulheres. ~
e eterno amor sexual desse homem paradigmal por sua mãe e Apenas cerca de 20 anos depois de analisar, Dora, quando a sua (
pelo sexo oposto. Enfatiza a identificação do garoto com o pai e o teoria já estava em um estágio bastante avançado, Freud parou de
mesmo sexo, e a sua competição até a morte com o pai e o mesmo pensar muito no desenvolvimento da garota e percebeu uma impli-
sexo pela exclusividade do amor erótico da mãe. (Freud presume cação surpreendente de sua própria teoria." A trama de sua história
uma economia de amor sexual regida por uma escassez e uma das origens sexuais enfatiza o poder determinante do primeiro amor
propriedade particular exclusiva das figuras paternas.) Na luta titâ- da criança. Segundo Freud, o primeiro tem um papel importante.
nica do garoto com o pai pela mãe, cheio de culpa, ele teme por seu Portanto, a criação de uma mulher heterossexual não é igual à do
pênis. (Ameaças explícitas de castração eram rotina na Viena de homem hetero. A primeira ligação íntima da garota é com a mãe e
Freud - em seu estudo de caso "Little Hans", por exemplo, até o mesmo sexo. O primeiro amor da futura mulher heterossexual é
mesmo a mãe sofisticada desse garoto de cinco anos o ameaça.)" homossexual.
O garoto vence os seus medos de castração, se identifica com o pai Portanto, diz Freud, a chegada bem-sucedida da garota à hete-
e procura triunfantemente um objeto erótico de sexo diferente na rossexualidade exige duas outras tarefas difíceis não necessárias
pessoa de uma mulher que não é a sua mãe. Portanto, ele resolve o para o garoto." (Nunca fica bem claro quem determina as tarefas
seu problema de amor incestuoso e sua profunda hostilidade para sobre as quais Freud freqüentemente fala - que pressupõem um
com o pai e, se for bem-sucedido em seu trabalho de aperfeiçoamen- imperativo heterossexual.)
to, será heterossexual. Segundo Freud, a garota, percebendo o estado inferior de cas-
l
Durante muitos anos o patriarcal Freud presumiu a universali- tração da mãe, fica muito ofendida e rejeita zangadamente o seu
dade do desenvolvimento sexual do garoto, descrevendo a criação amor homossexual primitivo por ela, desenvolvendo um amor he-
erótica da garota genérica como seguindo o mesmo caminho da do teroerótico pelo pai, o orgulhoso possuidor de um pênis. Ela então
garoto genérico. Por exemplo, Dora e seu irmão são apresentados compete com a mãe pelo pai, e resolve o problema dessa rivalidade
como buscando um relacionamento primário com o genitor do outro encontrando em um marido o seu próprio homem heteroerótico que
sexo." não é o pai.
O relacionamento de Dora com a sua mãe também é descrito A passagem da garota de seu amor homossexual primitivo pela
por Freud apenas nos termos mais negativos- e críticos. A mãe, mãe para um amor heterossexual pelo pai também inclui, segundo
diagnosticada por ele (que não a viu) como sofrendo de uma típica Freud, seu repúdio ao seu antigo uso prazeroso de seu clitóris ativo
psicose de dona de casa, está sempre limpando e tornando a vida da , emasculino. (A atribuição de características sexistas a partes priva-
farm1ia um inferno em um mundo cruel. Freud, sem demonstrar das é uma criação de mito pela qual Freud foi mais tarde repetida-
qualquer sinal de empatia, não observa que Dora sabe que a mãe mente criticado pelas feministas.j'"
fora infectada por seu marido com uma doença venérea (gonorréia, Freud afirma que a futura heterossexual deve sublimar o seu
~
que Dora parece ter confundido com sífilis). 66 Ambas as doenças desejo original por um pênis e a sua inveja de seus orgulhosos
eram sérias, e uma grave violação da pureza feminina, a principal possuidores, e adotar a sua vagina feminina epassiva como o único
qualidade das mulheres respeitáveis. local adequado de prazer erótico. (A penetração de uma vagina \I

O próprio Freud também admite não ter dado muita atenção aos passiva por um pênis ativo continua a ser o ato sexual normativo de
sentimentos profundos de Dora por Frau K. As intimidades entre as Freud, um remanescente da velha ética reprodutiva.)

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86 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 87

o conceito de Freud do clitóris como masculino e ativo e da Por que esse mito grego em particular deveria aplicar-se univer-
vagina como feminina epassiva atribui a esses órgãos um significa- salmente a todos os indivíduos em desenvolvimento não é explicado,
do inato universal. Segundo o determinismo clitoriano, vaginal e e a referência ao alegado complexo de Édipo de Freud tornou-se
peniano de Freud, essas partes do corpo possuem um caráter es- talvez o jargão psicanalítico mais comum do final do século XX.
sencial,que se origina supostamente de sua estrutura e função Contudo, o poder do sistema heterossexual é tal que geralmente não
fisiológica - por isso sua agora abjeta anatomia é destinol" Segun-' notamos o paradoxo no centro da teoria edipiana de Freud da
do essa teoria, a falta de pênis de uma garota automaticamente gera heterossexualidade. Sua história de Édipo atribui à heterossexuali-
uma consciência de sua castração e a sua subseqüente inveja do dade a mais desconcertante das origens. O fato de essa tragédia
pênis, do mesmo modo como o orgulho do garoto em possuir um grega em particular ter se tomado o paradigma freudiano aceito para
pênis gera automaticamente um medo de perder o seu símbolo o heterossexual normal e superior é mais uma grande ironia da
básico. Na teoria freudiana, o poder de provocar desejo e medo história da heterossexualidade.
dessas partes do corpo está dentro delas, não em sua posição Freud afirma que apenas a resolução bem-sucedida do complexo
estratégica em uma organização social de poderes, corpos e sím- de Édipo da criança permite ao adulto passar para a heterossexuali-
bolos que é historicamente específica, dominada pelos homens e dade normal." A resolução bem-sucedida dos primeiros amores
aprova o falo. apaixonàdos do bebê e dos ódios assassinos evidentemente anula
Freud apresenta a conquista da heterossexualidade normal co- qualquer efeito residual de sua participação ativa na guerra da
mo o resultado de uma guerra titânica, muito problemática e comum família nuclear. Só o homossexual permanece eternamente fixado
da família nuclear. Segundo ele, o caminho normal para a normali- em um drama edipiano inaca?ado.
\
dade heterossexual é aberto com o desejo incestuoso do menino e Segundo Freud, a preferência homossexual se baseia na fixação.
da menina pelo genitor do sexo oposto, com o seu desejo de matar Mas tanto as preferências heterossexuais como as homossexuais se
o genitor rival do mesmo sexo e irmãos ou irmãs rivais. O caminho baseiam em um trauma profundo. Dadas as origens complicadas de
para a heterossexualidade é aberto com desejos sanguinários. Apeça ambos, Freud não fornece um motivo convincente pelo qual os
sexual sobre a família arque típica é apresentada por Freud como um heterossexuais deveriam ser capazes de resolver os seus antigos
grande'melodrama, cheio de amores ardentes e ódios profundos. A problemas e os homossexuais deveriam permanecer fixados eterna-
família tradicional, como representada por ele, não é um belo mente em um desenvolvimento interrompido. Ele não apresenta um
quadro. Na visão do psicanalista, a invenção do heterossexual é uma fundamento lógico plausível para considerar a heterossexualidade
produção bastante perturbadora.'· 1"1
preferível.
A análise freudiana de Dora salienta a tenra idade em que a É fácil desdenhar da fabricação freudiana de fatos, entre eles os
atração sexual surge entre pais e filhos. Ele continua a sua explica- rígidos princípios de sua explicação edipiana do desenvolvimento
ção: a lenda de Édipo provavelmente deve ser considerada como heterossexual, e as suas grandiosas suposições universais. Mas
uma representação poética do que é típico nessas relações." Freud Freud realmente chama a nossa atenção para os modos particulares
mais tarde ficou totalmente certo de que a criança típica na família como aquelas crianças ativas e cheias de desejo se relacionam
típica tem a mesma sorte do pobre Édipo, o garoto sendo destinado, inicialmente com as pessoas que são importantes para elas, desen-
segundo o antigo mito grego, a matar o seu pai, casar com a sua mãe volvendo padrões específicos de reação erótica. Ele nos mostra
e, como punição, arrancar os seus próprios olhos. Freud diz que toda utilmente os nossos padrões de resposta inconscientes e prepon-
criança, seguindo o mau exemplo de Édipo, se apaixona pelo genitor .derantes que têm início na primeira infância e freqüentemente reapa-
do sexo oposto e deseja matar o ou a rival do mesmo sexo." recem de várias formas, construindo-nos como sexuados e sexuais.

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88' A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
CRIANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 89

Embora Freud simplesmente presuma que a heterossexualidade Freud, sua cura através da conversa encorajou aquela jovem mulher
é o melhor, ele também especula sobre um processo de desenvolvi- a enfrentar os Ks. Ela até mesmo teve a satisfação de ouvir os Ks
mento eterno em que o heterossexual é incerto, não inevitável. No finalmente admitirem que ela não fantasiara as suas atitudes sexuais
final do século XX, seu legado moderno ambíguo influencia muito - de Herr K com Dora e de Frau K com o pai de Dora.
a nossa compreensão da heterossexualidade. Suas teorias ainda
Dora voltou a ver Freud um ano depois de sua análise inicial,
fornecem incitações revolucionárias a análises do papel que sis- "
dessa vez por vontade própria, para pedir-lhe ajuda. Mas Freud agiu
temas sociais ligados a uma época específica têm na criação de
como um pretendente abandonado, recusando-se vingativamente a
heterossexuais e homossexuais.
prestar-lhe os seus serviços e enviando-a de volta para o mundo com
os seus aflitivos sintomas psicossomáticos e conflitos psíquicos
No diagnóstico de Freud da histeria de Dora e de sua incapacidade intatos. Uma recente biografia de Dora/Ida indica que ela viveu o
de ter uma reação positiva a Herr K (um homem mais velho), como resto de sua vida profundamente infeliz dedicada à doença -
vimos, ele privilegia a reação heterossexual. Freud (outro homem inclusive com a honra duvidosa de ter sido um personagem triste e
mais velho) não nota a sua própria hostilidade para com a jovem neurótico de uma das famosas histórias de casos de Freud."
Dora, a sua própria atração heterossexual e o efeito dessa atração
O malquea suposição heterossexual de Freud fez a Dora em
sobre a análise de Dora. Ele só então estava percebendo a importân-
1900 é apenas um pequeno exemplo do mal que a supremacia do
cia de os psicanalistas analisarem as suas próprias reações emocio-
nais a seus pacientes.74 ideal heterossexual faria durante todo o século.

Talvez o indício principal (e mais estranho) do caráter invasivo


da reação heterossexual hostil de Freud a Dora seja o fato de ele A MAGIA DO NORMAL

imaginar-se como o seu ginecologista. Essa metáfora reveladora


aparece na história do caso de Dora e em seu aviso inicial aos leitores Do início ao fim de seus ensaios Freud proclama o ato sexual normal
de que em .seu relatório' sobre Dora as questões sexuais serão de homens e mulheres normais como o' objetivo normal do desen-
discutidas com o máximo de franqueza possível. Freud será mos- volvimento sexual normal desses indivíduos normais. Embora a
trado discutindo sexo abertamente mesmo com uma jovem mulher. palavra heterossexual não seja muito empregada por ele, o termo
Ele deve justificar essa conversa sobre sexo? - pergunta o defen- normal é repetido inúmeras vezes referindo-se ao amor sexual de
sivo Freud, Se for assim, simplesmente reclamarei para mim o mulheres e homens uns pelos outros. Ao mesmo tempo que o rebelde
direito do ginecologista, referindo-se ao direito de fazer um exame Freud questiona freqüentemente de modo devastador a idéia da
completo.75, '- sexualidade normal, o conformista Freud foi um grande defensor da
sexualidade normal. Nessa era de valorização da ciência, a palavra
Trinta e nove páginas depois, Freud ainda defende a sua conver-
normal substitui natural como o termo com o qual evocar uma nova
sa explícita sobre sexo com garotas e mulheres - e o reprimido volta
ética heterossexual.
mais uma vez em sua ainda mais reveladora analogia de si mesmo
Freud vem e diz que está interessado na sexualidade anormal
com um ginecologista [que). .. não hesita em fazer as suas pacientes
pelo que ela revelá sobre a vida sexual normal - sua admitida
se submeterem a descobrir todas aspartes possíveis de seus corpos."
principal preocupação.?' Isso torna explícito o que eu sugeri que é
O médico que fq,z as garotas e as mulheres se submeterem é a
metáfora perfeita para o relacionamento de Freud com Dora.?? implícito em Krafft-Ebing e na maioria dos teóricos da sexualidade
perversa do final do século XIX e início do século XX. O enfoque
Não é de espantar que Dora pare abruptamente de fazer análise
/' desses psiquiatras em alguns pervertidos sem poderes é mais bem
com ele depois de apenas três meses. Mas apesar da hostilidade de explicado por seu interesse primário na sexualidade normal. Seu
"r
I~

90 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

interesse especial é em definir e defender a sua sexualidade normal 5


- a heterossexualidade.
A obsessão desses médicos com o sexo normal tinha uma o HETEROSSEXUAL
origem social. A idéia oficial de um decoro sexual da classe média TORNA-SE CONHECIDO
estava mudando. A velha ética reprodutiva morrera na prática antes
de uma nova norma erótica de sexo diferente triunfar na teoria. Por;
isso, Freud e outros psiquiatras estavam ansiosos por estabelecer a Do Discurso Médico para os
base conceitual para uma nova distinção entre o que era bom e mau
Meios de Comunicação de Massa
do ponto de vista sexual. O dilema desses médicos era como
explicar publicamente as suas próprias práticas de prazer hetero não
reprodutivo.
Freud e outros sexólogos fizeram isso afirmando a diferença
entre o heterossexual e o homossexual, e a superioridade do heteros-
sexual. Seu modelo foi de supremacia heterossexual desde o dia em
que o termo foi eleito. O homossexual serviu como o totem dos
médicos que representava o anormal monstruoso, uma certeza da
normalidade benigna do heterossexual. Os homossexuais de Freud No século XX, as criaturas chamadas de heterossexuais surgiram
eram culpados de uma fixação em um estágio imaturo do desenvol- das sombras do mundo médico do século XIX para se tomarem tipos
vimento. Aqueles homos fixados, não reprodutivos e que procura- • comuns vistos à luz brilhante dos tempos modernos.
vam o prazer afirmavam aos heteros não reprodutivos e que procu- A heterossexualidade começou este século na defensiva, como
ravam o prazer a sua diferença - e a sua própria sexualidade normal
a prática privada não sancionada publicamente da classe média
madura e plenamente desenvolvida. Durante todo o século XX
respeitável, e a prática de prazer depreciada publicamente dos jovens
Freud e os freudianos continuaram a ser os influentes defensores da
trabalhadores urbanos, dos negros sulistas e dos boêmios de Green-
norma heterossexual.
wich Village. Mas no final dos anos 1920 a heterossexualidade se
Nos primeiros anos do século XX, com a ajuda de Freud e outros
tomara uma cultura dominante e consagrada.' No primeiro quarto
médicos; o conceito heterossexual ambíguo e experimental do sé-
do século XX o heterossexual tomou-se conhecido, fazendo uma
culo XIX•.foi firmado e amplamente difundido, como a ortodoxia
estréia solene na sociedade que o homossexuaI repetiria perto do
sexual dominante - A Mística Heterossexual -, a idéia de uma
heterossexualidade essencial, eterna e normal. Quando o termo final do século.'
heterossexual saiu do pequeno mundo do discurso médico para o O discurso sobre a heterossexualidade adiou a sua estréia na
grande mundo dos meios de comunicação de massa americanos, a cultura popular americana até os anos 1920. Somente aos poucos a
idéia heterossexual passou de anormal para normal, e de normal para heterossexualidade se firmou como um sinal estável do sexo normal.
normativa. A associação da heterossexualidade com a perversão continuou até
uma grande parte do século XX.
Em 1893, por exemplo, Charles Hughes, um médico famoso de
St. Louis, garantiu aos seus colegas que, através de tratamento
médico, a mente e os sentimentos poderiam voltar a ser normais, o
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92 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 93

baseia-se na teoria de que todos os homens têm direito à satisfação


homo e o hetero transformados em seres de inclinação erótica
sexual. Se esse direito é concedido ao heterossexual, não vejo como
natural, com impulsos normais?
pode ser negado aos invertidos ... Mas em minha opinião, nenhum
Como um tratamento para seus heteros e homos anormais, o Dr. homem tem o direito de exigir a satisfação sexual de seus desejos."
Hughes sugeria medidas extremas - hipnose e às vezes cirurgia.
Para Hughes, como para o Dr. Kiernan em 1892, o heterossexual, Esse escritor está certo de que os homossexuais não deveriam
como uma pessoa de tendência ao mesmo tempo reprodutiva e não desfrutar de um amor sexual que os heterossexuais acham difícil
reprodutiva, ainda permanecia com o homo não procriativo no obter. Ele salienta que para os heteros não é fácil encontrar uma
panteão dos pervertidos sexuais. pessoa que satisfaça ao mesmo tempo ao sexo, à alma, à sociedade
Embora a nova terminologia heterossexual/homossexual tenha e à família. Portanto, por que, pergunta ele um pouco rancorosa-
começado a tomar-se popular muito rapidamente, não distinguiu de mente,
imediato o bem do mal. Em 1895, um jornal de medicina americano
o invertido deveria ter o que o heterossexual encontra com tanta
publicou uma tradução do francês de um artigo do poeta e ensaísta dificuldade? Quantos heterossexuais estão infelizes com as suas vidas
Marc-André Raffalovich, um judeu russo que mais tarde se con- sexuatsz'"
verteu ao catolicismo." Baseando-se moralmente na antiga norma
reprodutiva, Raffalovich emprega os novos termos heterossexual! Ele sugere que os homossexuais deveriam resignar-se com a mesma
homossexual para criticar a ética em ascensão do prazer de sexo infelicidade dos heterossexuais.
diferente. Sua avaliação deformada da heterossexualidade fornece Raffalovich está se opondo à inovação moral que colocou o
um insight surpreendente da relatividade histórica do padrão hete- erotismo no núcleo da personalidade moderna, posicionando uma
rossexual vitorioso de nosso tempo.
sexualidade valorizada no centro da vida moderna. Ele é contra a
Se a heterossexualidade não é reprimida, argumenta ele, a modernização do sexo, refletida em seus próprios termos heteros- I
homossexualidade deveria ser igualmente aceita. Ele não defende sexual e homossexual- categorias que ajudaram a tomar a satisfa-
aqui a expressão homossexual ou heterossexual. A repressão da ção erótica um valor dominante e oficial. Em seu artigo observamos I
heterossexualidade, salienta agourentamente, é um dos problemas a primeira manifestação dos termos hetero e homo antes do pleno
para o futuro.i desenvolvimento da mística pró-heterossexual.
Ambos os erotismos são suspeitos: A sexualidade não pode ser Como salienta Raffalovich, se a heterossexualidade não repro-
o objetivo da existência para pessoas superiores, homossexuais ou dutiva é legítima, é difícil entender por que uma homossexualidade
heterossexuais': Os heteros e homos sexualmente ativos são idênti- não reprodutiva não poderia também ser aceita. De 1890 a 1900, os
cos em vício: Não existe uma linha de demarcação entre o heteros- que eram contrários ao homossexualismo ainda não tinham ido além
sexual e o homossexual. 7 de uma norma reprodutiva e apoiado uma heterossexualidade não
Raffalovich afirma que, achando que a heterossexualidade é reprodutiva. Ainda não tinham condenado a homossexualidade por
I. tratada com indulgência e entusiasmo, a consciência do invertido alguma outra falha básica.
não o incomoda. Ele confirma os problemas de consciência e a Esse ensaio mostra a convergência da heterossexualidade e
indignidade do sexo: É apenas aprendendo a... desprezar ou superar homossexualidade não reprodutivas, julgadas segundo um padrão
a sexualidade e a sensualidade que o invertido inato pode fugir da reprodutivo do final do século XIX. Uma convergência similar de
homossexualidade. 8 heterossexual e homossexual pode ser notada no final do século XX,
II julgada segundo o padrão de prazer de hoje. Agora, o valor decres-
Na época-de Raffalovich alguns homossexuais já desejavam ter
direitos iguais. Ele diz que esse desejo de.igualdade cente da procriação e o valor crescente do prazer sexual fazem o

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94 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 95

heterossexual e o homossexual parecerem ainda mais similares. agora levar ao amor, que levava ao casamento, que levava às relações
Como veremos, isso enfraquece os antigos fundamentos lógicos sexuais - que poderiam ou não levar à reprodução.
para o tratamento desigual e, finalmente, a própria base da distinção Em muitas de suas antigas versões populares, o imperativo
heterossexual/homossexual. heterossexual do século XX continuou a associar o erotismo de sexo
Nos primeiros anos do século xx, heterosexual e homosexual _ diferente a uma suposta necessidade humana, ou a um impulso ou
ainda eram termos médicos obscuros, não usados correntemente na: . instinto de propagação da espécie. Esse desejo reprodutivo estava
língua inglesa. Na primeira edição de 1901 do volume "H" do grande agora inexoravelmente ligado ao desejo carnal - como nunca
Oxford English Dictionary, heterosexual e homosexual ainda não estivera antes. Por exemplo, o desejo da mulher do século XIX de
tinham sido incluídos. ser mãe não estava ligado ao erotismo. Mas no início do século XX,
A heterossexualidade também ainda não tinha o status de nor- a taxa de natalidade decrescente e a de divórcios crescente da classe
mal. Em 1901, o Dorland's Medica IDictionary, publicado na Fila- média, e a guerra dos sexos, eram motivo de grande preocupação
délfia, continuou a definir Heterosexuality como desejo sexual pública. A expressão das emoções heteroeróticas foi então incenti-
anormal ou pervertido pelo sexo oposto. H A heterossexualidade do vada por aumentar a capacidade reprodutiva, a intimidade conjugal
Dorland, um novo desejo, era claramente identificada por uma ânsia e a estabilidade da família.
pelo sexo oposto. Mas aquela ânsia ainda era uma aberração. A Um homem que teve uma influência sobre a nova heteros-
definição que o Dorland faz da heterossexualidade como anormal sexualidade foi, como vimos, o Dr. Sigmund Freud, que viajou para
ou pervertida é, segundo o primeiro Suplemento (1933) do Oxford Worcester, Massachusetts, e falou sobre sex-love e o prazer sexual
EnglishDictionary, mal empregada. 12 Mas ao contrário da do OED, de homens e mulheres em 1909, e cujo importante ensaio, Three
a do Dorland é uma compreensão legítima da heterossexualidade Contributions to the Sexual Theory, foi publicado pela primeira vez
segundo uma 'norma reprodutiva. em Nova York em uma tradução inglesa em 1910.13 No século XX,
O século XX testemunhou a legitimidade decrescente do impe- em nome de Freud e da psicologia popular, a heterossexualidade foi
rativo reprodutivo e a aceitação pública crescente de um novo proclamada na terra dos livres como, simplesmente, a perfeição.
princípio de prazer hetero. Pouco a pouco, a heterossexualidade Outro antigo e influente criador da mística hetero foi Havelock
passou a referir-se a uma sensualidade normal relativa ao sexo Ellis, cujo Studies' in the Psychology of Sex, em vários volumes,
oposto, livre de qualquer elo básico com a reprodução. Mas somente começou a ser publicado na Filadélfia em 1900.14 Embora formado
nos meados dos anos 1960 o heteroerotismo seria totalmente sepa- em medicina, Ellis nunca exerceu essa profissão, mas usou o seu
rado da r~Rrodução, e o prazer sexual de ho~ens e mulheres seria título de médico para justificar o fato de falar pública e aprovadora-
por si só justificado. mente sobre o amor sexual de homens e mulheres.
Como o verdadeiro amor do início do século XIX não fora No volume de Ellis de 1910, Sex in Relation to Society, ele
ligado à luxúria, os reformadores do eros e do afeto do final do século defende aquele amor sexual normal do cristianismo que, em sua
XIX e início do XX começaram a referir-se a um novo sex-love. (O opinião, condenou tanto as expressões do sentimento que todas as
hífen freqüentemente usado em sex-love registrava visualmente a palavras que usamos para nos referirmos ao sexo são consideradas
nova ligação horizontal do sexo e do amor em um forte e mútuo obscenidades=
abraço.) A cunhagem da palavra sex-love visou distinguir o amor Mas em 1915, na edição americana daquele apo do volume de
heteroerótico da classe média, cada vez mais comum e aceito Ellis Sexuallnversion, ele usa heterosexual no estilo moderno como
publicamente, de seu antigo verdadeiro amor espiritual. Com a uma palavra simples, precisa e natural para o amor sexual de homens
criação de sex-love, a atração- erótica de homens e mulheres devia e mulheres."

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96 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 97

Em uma oposição consciente à libido originalmente descom- aberrações psicossexuais das mulheres aumentavam quando elas
promissada de Freud, Ellis afirma que o desejo pelo sexo diferente paravam de ser donas de casa e mães."
e pelo mesmo sexo geralmente é inato, um aspecto da dinâmica Em 1897, The New York Times publicou uma crítica severa do
determinada biologicamente de tumescência e detumescência, seus Reverendo Charles Parkhurst à andromania, uma doença feminina
termos para os altos e baixos do sentimento erótíco.'? Ellis rejeita que provoca uma imitação obsessiva de tudo que é masculino. Ele
nervosamente a idéia de que a espécie depende para a sua tumes- chamou de andromaníacas as mulheres que tentavam minimizar as
cência e, em última análise, para a sua reprodução, da guerra distinções entre a masculinidade e a feminilidadel?
intrafamiliar eterna e do processo de desenvolvimento falível Em 1913, a crítica do The New York Times de The Nature of
propostos por Freud.
Woman, um livro do biólogo J. Lionel Taylor, o elogiou como um
Apesar da discussão de EIlis e Freud a respeito das origens estudo científico cuidadoso que mostrou que a campanha pelo voto
fisiológicas e familiares da heterossexualidade, os dois homens feminino era um esforço de certas mulheres ...para dar à mulher um
foram grandes divulgadores da nova norma erótica de sexo diferente status que corresponderia ... ao seu conceito dela como nada mais
entre um público progressista. Contudo, no final do século :XX, o nada menos que 'uma mulher masculinizada '.20
modernismo um tanto superficial relativo ao sexo de EIlis foi Mais tarde no mesmo ano, The Times fez a crítica de um livro
esquecido, enquanto os estudos profundos de Freud do melodrama do cientista Walter Heape que afirmou que o movimento feminino
familiar da classe média continuam a fornecer uma grande fonte de atual tem as suas origens no antagonismo do sexo e no desejo de
análise psicológica e debate social. alterar as leis que regulam as relações, e portanto os poderes
A primeira parte da nova norma sexual - hetero - pressupôs relativos dos sexos. Se fosse dado poder às mulheres, este ficaria nas
uma divergência sexual básica. A oposição dos sexos foi declarada mãos das insatisfeitas, e podemos entender como tal as solteironas=
a base para uma atração erótica universal e normal entre homens e A ansiedade desses homens em relação à diferença entre os
mulheres. Essa ênfase na oposição dos sexos, que remonta ao início sexos foi uma reação conservadora à divisão social-sexual mutante
do século XIX, de modo algum registrou apenas características de atividade e sentimento que deu origem à nova mulher indepen-
biológicas, funções únicas e distinções entre os sexos determinadas dente que surgiu nos anos 1880 e à melindrosa dos anos 1920,
, socialmente de mulheres e homens. O enfoque do início do século arquétipo da nova- mulher que tem prazer, companheira do novo
:xx no dimorfismo fisiológico e dos sexos refletiu as ansiedades homem que tem prazer.P
profundas dos homens a respeito das mudanças no trabalho, nos A segunda parte da nova norma hetero se referia de maneira
papéis sociais, no seu poder sobre as mulheres e nos ideais de positiva à sexualidade. Esse novo enfoque otimista nas possibilida-
I' ! feminilidade e masculinidade. des hedonistas das uniões físicas entre homens e mulheres também
Por exemplo, em 1895, o Dr. James Weir Jr. escreveu, em The refletia uma transformação social - uma reavaliação do prazer e da
AmericanNaturalist, "The Effect ofFemale Suffrage on Posterity", procriação, do consumo e do trabalho na sociedade comercial e
avisando que se as mulheres votassem, mudariam física e psiquica- capitalista. Vários historiadores têm analisado a queda do trabalho
mente, e passariam patologias para seus filhos. Isso provocaria uma agrícola e artesanal e a antiga ética profissional, o crescimento do
revolução social, em que a forma atual de governo seria rejeitada trabalho assalariado, o consumismo, e uma nova ética de prazer.P
a favor do matriarcado. Ele declarou que as mulheres já têm A atribuição democrática de uma luxúria normal às mulheres
liberdade demais. Reiterou: Eu vejo no estabelecimento dos direitos (assim como aos homens) serviu para justificar a sua satisfação com
iguais o primeiro passo para um abismo de horrores imorais que os seus próprios corpos, uma atitude que ainda é parte de sua luta
vão contra o nosso sentido ético apurado. Weir preveniu que as (como salientam as feministas radicais quanto ao sexo). O ideal do
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O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 99
98 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

século XX da mulher heteroerótica acabou por suplantar o ideal e indefinido. A pergunta de Lund também lhe deu 'um nome para
do século XIX da mulher de verdade pura. A nova mulher hete- uma identidade baseada em seu desejo.
rossexual também suplantou a afirmativa das feministas do século Na época de seu encontro esclarecedor com Lund, diz Ackerley,
XIX da superioridade moral das mulheres, e suspeitou da existência salvo algumas tentativas desajeitadas de aproximar-se de colegas da
de desejo carnal nas amizades românticas apaixonadas com outras escola, ele não tivera qualquer contato físico com ninguém, nem
mulheres. mesmo um beijo, e conservou a virgindade até Cambridge, onde a
Amulher recém-heterossexualizada tomou possível o seu opos- perdeu. A pergunta de Lund, homo ou hetero?, mostrou-lhe a
to, um monstro feminino ameaçador, a lésbica/" Sob a perspectiva necessidade do século XX de ser uma coisa ou outra - ou uma
da história heterossexual, o aparecimento no início do século XX da combinação bissexual.
lésbica na cultura popular deriva do interesse em definir o contrário Ackerley acrescenta: Lund me emprestou ou recomendou livros
da lésbica - a nova mulher heterossexual. para ler, Otto Weininger, Edward Carpenter, Plutarco - e com o
Entre 1877 e 1920 os americanos se dedicaram à busca da seu jeito malicioso, abriu a minha mente. Em encontros desse tipo,
ordem, documentada no livro do historiador Robert H. Wiebe (The heteros e homos passaram a fazer parte da consciência, da cultura e
Search for arder). Embora Wiebe não o tivesse mencionado, essa do debate do século XX.
busca de regularidade deu origem na arena do sexo ao novo modelo Nos Estados Unidos, durante toda a década de 1920, muitos
de heterossexualidade. Isso se equiparou às tentativas do início do novelistas, dramaturgos, educadores sexuais, editores e produtores
século XX de padronizar as vias férreas, os fusos horários e os de teatro lutaram pelo direito legal de discutir e distribuir um novo
procedimentos relacionados com o comércio e a indústria (discuti- produto, o drama heterossexual explícito (para o seu tempo), a
dos por Wiebe), assim como de testar e padronizar a inteligência, a novela e o livro de aconselhamento. Os escritores incluíram novelis-
feminilidade e a masculinidade.P tas como James Branch Cabell, Theodore Dreiser, F. Scott Fitzge-
Algumas evidências surpreendentes do outro lado do Atlântico rald, Elinor Glyn, James Joyce, D. H. Lawrence, e educadores
sugerem que na segunda década do século XX os termos hetero- sexuais como Mary Ware Dennett. 27
sexual e homosexual estavam sendo lentamente incorporados à Sob a perspectiva da história heterossexual, essa luta do início
língua inglesa. Por volta de 1918, J. R. Ackerley, um jovem inglês do século XX pela descrição mais explícita de um eros de sexo
inteligente de vinte e poucos anos, filho de um importador de banana, diferente aparece a uma nova e curiosa luz. Ironicamente, encontra-
conheceu na Suíça um rapaz divertido, Amold Lund, com uma mos os conservadores em relação ao sexo, os defensores da pureza
risada demoniaca que o tomava a alegria e o terror da comuni- social, da censura e da repressão, lutando contra a descrição não só
dade/" Ackerley conta: da perversão sexual, como também da nova heterossexualidade
normal. O fato de que uma descrição mais clara do sexo normal teve
Uma das primeiras perguntas maliciosas que ele me fez foi: Você é homo
de ser defendida contra forças sociais confirma que o predecessor
ou hetero? Eu nunca tinha ouvido esses termos; eles foram explicados
e pareceu haver uma única resposta ... da heterossexualidade, o verdadeiro amor do século XIX, sancionara
o amor e a reprodução, mas não um eros público e oficial de sexo
Ackerley se identificou como homo. Já admitira para si mesmo a sua diferente.
atração pelos homens. Mas não lhe ocorrera dar-lhe um nome. O Em 1923, heterosexuality fez a sua estréia emNew International
uso público dos termos heterossexual ou homossexual, feito pela Dictionary, de Merriam- Webster. Curiosamente, homosexuality fi-
primeira vez diante dele por seu amigo hetero avançado, deu a zera a sua estréia 14 anos antes, em 1909, definida como um termo
Ackerley um nome para o seu desejo sexual anteriormente particular médico que significava paixão mórbida por uma pessoa do mesmo
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11

100 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 101

sexo. O anúncio de uma homossexualidade doentia precedeu o de casar. Se parecia tão desagradável os órgãos sexuais estarem tão
uma heterossexualidade doentia. Em 1923, Webster:S definiu hete- perto ... de nosso 'sistema excretor', Dennett garantiu à desgostosa
rosexuality como um termo médico que significava paixão mórbida juventude que essa localização era provavelmente protetora. (Seja
por uma pessoa do sexo oposto. Somente em 1934 heterosexuality como for, é aí que estão, e nosso dever é... cuidar bem deles ... ) Em
apareceu pela primeira vez na grande Second Edition do Webster:S, seu folheto não apareceu a palavra heterossexual.
definida do modo moderno ainda dominante. Ali, é finalmente uma Mas em 30 de abril de 1930, em The New York Times Book
manifestação de paixão sexual por uma pessoa do sexo oposto; Review, uma crítica descreveu o personagem de André Gide em The
sexualidade normal. A heterossexualidade finalmente atingira o Immoralist como indo de uma ligação heterossexual para uma
status de normal. homossexual/r A capacidade de incluir-se entre essas categorias
No mesmo Webster:S de 1934, homosexuality também mudara. sexuais foi mencionada um tanto casualmente como uma pos-
É simplesmente desejo erótico por uma pessoa do mesmo sexo.28 As sibilidade humana. Essa também é a primeira referência conhecida
origens médicas dos dois termos não são mais citadas. H eterosexua- em The Times ao duo hetero/homo. A partir daí, nos meios de
lity e homosexuality passaram a ser termos de uso corrente da língua comunicação de massa americanos, o heterossexual passou a ser
inglesa. definido pelo homo-Estranho, o homossexual pelo hetero-Outro.
Em 1924, em The New York Times, heterosexuality tomou-se No mês seguinte, em maio, uma segunda referência ao duo
pela primeira vez um amor que ousava dizer o seu nome. Em 7 de hetero/homo apareceu em The New York Times Book Review, em
setembro daquele ano a palavra hetero-sexual fez a sua primeira um comentário sobreLove in the MachineAge,33 de Floyd DeU. Essa
aparição conhecida em The New York Times Book Review, de obra revelou um proeminente antipuritanismo dos anos 1930 usando
maneira significativa, em um comentário sobre Sigmund Freud. Ali, a terrível ameaça homossexual como o seu fundamento lógico para
em uma longa e bombástica crítica de Group Psychologyand the uma maior liberdade heterossexual - um artifício comum dos
Analysis of the Ego, de Freud, uma certa Mary Keyt Isham falou liberais daquele tempo.
sobre a heterossexualidade reprimida e o amor heierossexualP The Times cita a advertência de DeU de que as condições sociais
Tentando compreender o estilo bombástico de Isham, parece anormais vigentes mantêm os jovens dependentes de seus pais,
que ela se preocupou em afirmar que até mesmo a heterossexuali- causando infantilismo, prostituição e homossexualidade. Também
dade sublimada é boa: serve à reprodução/" Sua crítica também liga é citada a crítica de DeU à ênfase na pureza que leva a uma falta de
a heterossexualidade à maturidade - desconstruindo-a como uma confiança no sexo oposto. DeU diz que deveria ser permitido aos
morbidez, cbnstruindo-a como o alvo final apropriado do desenvol- jovens desenvolver normalmente a sua heterossexualidade até a
vimento humano. A americanização de Freud e da heterossexuali- idade adulta. Mas, enfatiza o crítico de The Times, essa condição já
dade andaram de mãos dadas. existe, aqui e agora.
Mas antes de 1930, nos Estados Unidos, a heterossexualidade E foi assim que aconteceu. A heterossexualidade, uma nova
ainda enfrentava uma difícil batalha. Em 1929, um tribunal federal categoria erótica de sexo diferenciado, deixou o campo limitado do
no Brooklin julgou Mary Ware Dennett - autora de um folheto de discurso médico para tomar-se um aspecto citado nacional e inter-
educação sexual dirigido aos jovens - culpada de enviar-lhes um nacionalmente da vida da classe média.
material obsceno." O folheto de Dennett criticava outros materiais Em 1933, segundo nos diz o Oxford English Dictionary, a
de educação sexual por não incluírem uma declaração franca de abreviação coloquial hetero fez uma de suas primeiras aparições
que o clímax da emoção sexual é um prazer insuperado, algo a que públicas, em Ordinary Families, de Eileen A Robertson, uma
todo o ser humano normal tem direito - depois de se apaixonar e novela satírica inglesa reeditada nos Estados Unidos."

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O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 103


102 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALIDADE

com o significado de não-homossexual. Passar a ser straight é parar


Aqui, Marnie Cottrell é uma aluna de Cambridge com uma com as práticas homossexuais e dedicar-se - em geral voltar a
vocação para a medicina, cujo problema de adenóide tornou o seu dedicar-se -às heterossexuais/t'
nariz tão pequeno e a sua boca tão aberta que provavelmente
ninguém iria querer casar-se com ela.35
O não-homossexual, uma nova criatura, definida pelo que não é,
Mamie, quegosta de falar melancolicamente sobre si mesma,
surgiu entre os personagens eróticos no palco do século XX. Aqui,
diz a Lallie, sua melhor amiga: O estranho em mim é que, como um- -
straight é uma condição não necessariamente inalterável que uma
tipo pitoresco, deveria ser puramente 'hetero', apesar da falta de
pessoa pode experimentar ou não, dependendo de suas práticas (o
oportunidade." As aspas simples em hetero sugerem a novidade do
sentimento não está em questão ).41 Agora, as variantes do sexo estão
coloquialismo. Mas o uso do jargão sugere que a classe média
fazendo a definição, a classificação é um jogo do qual duas prefe-
moderna estava bem familiarizada com o hetero nos dois lados do
Atlântico. rências podem participar.
O culto à domesticidade que se seguiu à Segunda Guerra
Mamie claramente queria ter um caso amoroso, conclui a sua
Mundial- a reassociação das mulheres com o lar, com a materni-
amiga Lallie, embora tenha dúvidas em relação às suas perspectivas.
dade e com a criação dos filhos, dos homens com a paternidade e
Os pais de Marnie não tinham percebido que nenhuma liberdade de
com o trabalho assalariado fora do lar - foi uma era em que a
pensamento que tivessem se esforçado por incutir em Marnie iria
predominância da norma hetero praticamente não era contestada.
ajudá-Ia a ter uma vida sexual normal, enquanto a liberdade de
No final dos anos 1940, e nos 1950, os profissionais da área de saúde
escolha continuasse a ser privilégio dos homens. (Uma vida sexual
mental conservadores reafirmaram a antiga ligação entre a heteros-
hetero normal era agora algo que os pais progressistas se esforçavam
sexualidade e a procriaçâo.S Opondo-se a eles, os liberais quanto
por incutir, mesmo em suas filhas.)
ao sexo se esforçaram por expandir o ideal heterossexual para
Em um mundo moderno cheio de mulheres atraentes em busca
incluí-lo nos limites dos ideais relativos aos sexos mais variados do
do sexo hetero, é dito que Marnie estava em uma posição mais
que nunca e do comportamento não procriativo, pré-nupcial e
desvantajosa ... do que estaria no início do período vitoriano, em que
extraconjugal. Mas aquela reforma liberal quanto ao sexo na verdade
a bondade, o dinheiro ou o berço possivelmente teria compensado
ajudou a assegurar o domínio da idéia heterossexual, como veremos
a sua respiração ofegante e a sua pele esmaecida.ê
quando chegarmos a Kinsey.
À custa da pobre Marnie, a novelista Robertson descreve per-
A tendência conservadora no que diz respeito ao sexo é ilustrada
feitamente a difícil situação historicamente, particular da mulher
em 1947, no livro de Ferdinand Lundberg e da Drª Marynia Far-
heterossexual feiosa, depois da ascensão e do domínio da heteros-
nham, Modern Woman: The Lost Sexo A masculinidade e a femini-
sexualidade do século XX.
lidade impróprias são exemplificadas, segundo os autores, pelas
Em dezembro de 1940, quando um musical malicioso intitulado relações heterossexuais ... em que são tomadas providências para
PaU oey fez a sua estréia na Broadway, uma canção com o nome de que não haja reproduçãor' Essa ideologia de fecundidade do pós-
Zip satirizou a artista de strip-tease Gypsy Rose Lee, através de um guerra resultou no grande número de nascimentos dessa época.
personagem que, despindo-se, falava de sua aversão por uma mulher
A idéia da mulher feminina e do homem masculino como
de voz grossa e um homem de voz fina e proclamava a sua heteros-
prolíferos também se refletiu na ênfase, que teve início no final dos
sexualidade. Essa canção registrou o aparecimento na cultura popu-
anos 1940, no homossexual como um símbolo lamentável de es-
lar de uma identidade heterossexual." I
terilidade - esse termo constrangedor foi usado repetidamente nos
Em 1941, o glossário de um livro sobre variantes do sexo
afirmou que straight estava sendo empregado pelos homossexuais fecundos anos 1940 e 1950.44

II _ ..
104
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
o HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 105

Em 1948, em The New York Times Book Review, o liberalismo 1I111I11i,lVI.la divisão hetero/homo, dando-lhe uma nova vida e legiti-
sexual começava a predominar. O Dr. Howard A. Rusk declarou qu 1I111l1ull.l.
o relatório de Alfred Kinsey, Sexual Behavior in the Human Ma/e, Klnscy também contestou explicitamente a idéia de uma antí-
que acabara de ser publicado, descobrira grandes variações nos lelil' nhsoluta entre as pessoas heterossexuais e homossexuais. En-
conceitos e comportamentos sexuais. Isso levantou a questão: O qUI' ".IU/llndoas variações entre os comportamentos e sentimentos ex-
é "normal" e "anormal"? Em particular, o relatório descobrira qu 1II141vos do hetero e do homo, ele negou que os seres humanos
a experiência homossexual é muito mais comum do que anterior- /I'II/I'.\'I'ntamduas populações distintas, heterossexual e homos-
mente se pensara, e que freqüentemente há uma mistura de expe- " \/1(11. A população mundial, disse ele, não deve ser dividida em
riências homo e hetero/ê
..nuclros e bodes. (Aquela metáfora bíblica posiciona os heteros-
A contagem de Kinsey dos orgasmos de fato enfatizou a grand 1111
is como carneiros, ligados à conformidade, e os homossexuais
variação de comportamentos e sentimentos que se situavam entre os IIUIIObodes, ligados à licenciosidade.)
limites de uma heterossexualidade e homossexualidade quantitati-
A divisão hetero/homo de pessoas não é obra da natureza,
vas e avaliadas estatisticamente. A reforma liberal de Kinsey do
1I111111ta Kinsey, mas da sociedade. Como um reformador liberal
dualismo hetero/homo ampliou a categoria hetero para corresponder
Ijllllllloao sexo, ele contestou a divisão social e histórica de pessoas
melhor às variedades da experiência sexual."
1'/11heterossexuais e homossexuais, porque achou que esse rótulo
Embora Kinsey tivesse questionado explicitamente se os termos 111usado para denegrir os homossexuais. Motivado por um impulso
"normal" e "anormal" fazem parte de um vocabulário científico, a 11'lunnista, rejeitou a realidade social e a grande força subjetiva de
intetpretação geral foi que a sua contagem dos clímax definia o sexo 111.111 tradição construída cientificamente que, desde o início do
normal como o da maíoría." Aquela norma quantificada constituiu III '1110 XX nos Estados Unidos, dividira a população sexual em dois
um grande rompimento, em nível de sociedade, com o velho padrão ajudou a estabelecer a realidade social e pessoal de identidades
reprodutivo definido qualitativamente. Apesar de considerado pura- lllltl.lrossexuaise homossexuais.
mente científico, o enfoque estatístico de Kinsey ajudou a substituir
A idéia de identidades heterossexuais e homossexuais - dois
a velha ética sexual qualitativa por um novo padrão moral quantita-
Upos essencialmente distintos de pessoas - é um legado político
tivo - outra vitória para o espírito do capitalismo:
1.IIHt ante ambíguo.
Esse cientista sexual popularizou a idéia de um continuum de
atitudes e sentimentos entre os pólos hetero e hSlIPO: Por um lado, o estabelecimento histórico de uma identidade
... '\. .·1 hvterossexual como universal, presumida e normativa favoreceu a
' "

Apenas a mente humana inventa categorias e tenta ordenar os fatos. O luunação da supremacia heterossexual. .
mundo vivo é um continuumíê
Por outro, o estabelecimento histórico de uma identidade hete-
IrJssexualfeminina incentivou as mulheres do século XX a buscarem
Sua nova reflexão sobre a polaridade hetero/homo realmente sugeriu prnzeres eróticos desconhecidos para muitas das suas antepassadas
que há graus de comportamento e emoção heterossexual e homos- do século XIX. Ao mesmo tempo, a busca das mulheres modernas
sexual. Mas aquele famoso continuum também reafirmou enfatica- pula felicidade heterossexual tem sido freqüentemente depreciada
mente a idéia de uma sexualidade dividida entre o hetero e o homo. pulo sexismo, incentivada pelo comércio (Você fez muitos progres-
A escala de avaliação heterossexual-homossexual de Kínsey, ",(J,,~querida! ) e tomada perigosa pelo assédio sexual e pela violên-
de O a 6, pareceu precisa, quantitativa e científica, fixando o binário 'ia dos homens.
hetero/homo na mente do público com uma nova convícção.t? O aparecimento histórico de uma pessoa especificamente ho-
Portanto, seu liberalismo sexual influente e aparentemente científico mossexual tevou, principalmente a partir de 1969, ao início de um
-

106 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE


o HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 107

rótulos,.deve necessariamente produzir um catálogo, no qual encontra-


grande movimento que afirmou pública e enfaticamente uma iden-
remos, devidamente relacionados, todos aqueles atributos com os quais
tidade gay e lésbica. Seguindo o modelo dos movimentos america- o rótulo está associado ...
nos que afirmaram as identidades raciais e étnicas, o aparecimento
em massa de pessoas gays e lésbicas livrou milhares de mulheres e Embora Baldwin não o mencione, um ótimo romance sobre um
homens de uma profunda e dolorosa sensação de inferioridade e ,.' heterossexual também pareceria impossível, pelos motivos que ele
vergonha, induzida socialmente. Esse movimento ajudou a causar
discute:
uma liberalização social das reações às pessoas identificadas como
homossexuais. 50 Um romance exige sempre a presença e paixão de seres humanos, que
Ao mesmo tempo, a contestação de Kinsey do conceito de não podem jamais ser rotulados. Quando o romancista· cria um ser
identidades homossexuais e heterossexuais foi uma primeira forma humano destrói o rótulo, e transcendendo o tema pode, pela primeira
vez, nos dizer algo sobre ele ... Sem essa paixão, podemos todos morrer
parcial de resistência ao uso anti-homossexual da distinção hetero-
asfixiados, trancados nessas prisões sem ar dos rótulos, que nos isolam
homo. Outro reformador sexual, Gore Vidal, há muitos anos procla- uns dos outros e nos separam de nós mesmos.P
ma alegremente:

Não existe algo como uma pessoa homossexual ou heterossexual. Há A diferenciação de pessoas homossexuais e heterossexuais,
apenas atos homo ou heterossexuais. A maioria das pessoas é uma sugere o jovem Baldwin, está inevitavelmente ligada a um sistema
mistura de impulsos, se não práticas, e o que é feito de comum acordo de julgamentos moralizadores sobre homens e mulheres:
com um parceiro não tem qualquer importância social ou cósmica.
Então por que toda essa confusão? Para uma classe dominante
Antes de sermos expulsos do Paraíso e de ser lançada a maldição, Eu
governar, devem haver proibições arbitrárias. De todas as proibições, o
porei inimizades entre ti e a mulher, o homossexual não existia; e
tabu sexual é a mais útil, porque o sexo envolve todos ... nós temos
tampouco, corretamente falando, o heterossexual. Estávamos todos em
permitido que os nossos govemantes dividam a população em dois
um estado natural.f
times. Um é bom, divino, straight; o outro é mau, doentio, vicioso."

Mas podemos levar a análise de Vidal da nossa divisão absurda um Baldwin sugere que a distinção homo/hetero não é natural, mas
pouco adiante? Podemos agora questionar, não só a divisão em social, implica um julgamento de valor e está sujeita a uma conexão
pessoas heterossexuais e homossexuais, mas a própria divisão het,e- cultural problemática de homens e mulheres. A degradação atual
ro!homo?\ '., do homossexual masculino, e a nossa obsessão por ele,' salienta
'- Baldwin, corresponde à degradação dos relacionamentos entre os
No início de 1949, James Baldwin, de 25 anos, iniciava uma sexoS.55
pesquisa sobre os rótulos sexuais consagrados de sua sociedade. Em A divisão entre homem e mulher, declara Baldwin, só pode
"Preservation of Innocense", publicado obscuramente em Tanger, revelar uma .divisão dentro da alma de ambos. A distinção ou/ou,
ele advertiu de um modo inovador que rotular as pessoas como homem/mulher é um problema para a psique. Não ajudará as nossas
homossexuais negava a complexidade humana - não só a dos almas declarar que os homens devem recuperaro seu status como
homossexuais, como a de todos.S homens e as mulheres exercer as suas funções como mulheres. Essa
atitude rígida acaba com qualquer possibilidade de união. De
É praticamente impossível escrever um ótimo romance sobre um judeu, qualquer maneira, tendo relacionado osfatos físicos, é difícil decidir,
um gentio ou um homossexual, porque infelizmente as pessoas se
de nossos múltiplos atributos humanos, quais são masculinos e
recusam a funcionar de um modo tão regular e unidimensional. Se o
romancista considerar que eles não são mais complexos do que os seus quais são [emininosi"

LJ...
o HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 109
rr~
108 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

humanos ...Não devemos testemunhar, continua ele, o sofrimento e


o reconhecimento dessa complexidade - essa ambigüidade os problemas que virão depois. Baldwin argumenta que esses par-
dos sexos e das divisões sexuais - é um sinal de maturidade, diz ceiros na heterossexualidade não estão preparados para essa expe-
Baldwin, da morte da criança e do nascimento do homem. riência, porque o rapaz não pode conhecer uma mulher,já que nunca
Mas, segundo Baldwin, os homens americanos desejam preser- se tornou um homem.ê
var a sua inocência, o seu sonho dos Rover Boys e seu ideal de O ideal inocente e perfeccionista da heterossexualidade feliz
castidadeéí Em sua tentativa de negar a complexidade e permanecer deve desaparecer, diz ele, e a conseqüência dessa insatisfação é a
inocentes, declara ele, esse monstro irracional; os rapazes rudes, violência masculina.
foram criados e aperfeiçoados. A masculinidade dos rudes é encon-
Baldwin sugere que o sonho americano de felicidade total no
trada na aparência elementar mais infantil. Sua atitude em relação
amor encontra compradores no grupo de mesmo sexo, com o mesmo
às mulheres é uma combinação do mais profundo romantismo e da
resultado violento. Ele cita o romance de Gore Vidal, The City and
mais implacável desconfiança. 58
the Pillar, no qual o o homossexual confesso ... mata o seu primeiro
Os homens e as mulheres têm tudo, mas desapareceram da e único amor quando finalmente eles se reencontram, porque não
nossa cultura popular, diz Baldwin, deixando apenas uma , pode suportar, em vez disso, matar aquele sonho triste e impossível.
série perturbadora de efígies com uma força motriz que nos dizem que De igual modo, em The Fali ofValor, de Charles Jackson,
é sexo, mas que na verdade é um anseio semelhante a um sonho, uma
insatisfação mais aflitiva do que a da Bela Adormecida esperando o Marine, como um deus, defende a sua masculinidade com um atiçador
toque vital do Príncipe Encantado. Porque o sonho americano de amor de fogo, matando o assustado professor que o desejava. Essas resoluções
insiste em que o Rapaz conquiste a Moça ...59 violentas ... são tomadas devido a um pavor que chega perto da loucura.
Esses romances não estão preocupados com a homossexualidade, mas
com o perigo sempre presente de atividade sexual entre homens/"
o sonho americano da felicidade heterossexual nega outros
desejos mais complexos e ambíguos, como sugere Baldwin. Por
O pavor do homem identificado heterossexualmente confron-
exemplo, o romance de James M. Cain, Serenade, contém um
tado pelo desejo homossexual inspira uma brutalidade comum na
curioso reconhecimento por parte do herói do fato de que há sempre
América, avisa Baldwin. Irá se passar um longo tempo de vingança,
em algum lugar um homossexual que pode vencer a resistência do
conclui ele, até que os americanos reconheçam a ligação entre o
homem normal sabendo que atitudes tomar'" Tendo-as tomado em
escoteiro inocente que sorri no cartaz do metrô e o mundo oculto
demasia, o invertido feioso dessa novela é prontamente morto a
que subjaz em toda a América - o mundo subterrâneo complexo
punhaladas pela amante do herói, uma sefiorita robusta.61
da ambigüidade erótica/"
Assim, essa masculinidade imaculada dentro de nós é protegi-
Vinte e dois anos depois desse presciente "Preservation of
da, diz Baldwin, assim, lidamos sumariamente com qualquer obs-
Innocence", Baldwin ainda refletia sobre os motivos sociais e psi-
táculo à união do Rapaz e da Moça.62
cológicos para o rótulo sexual e racial. Em um debate em 1971, ele
Ele alude ao final comumente feliz dos romances heterossexuais
diz:
populares (e nós nos lembramos dos tratamentos bem-sucedidos de
Krafft-Ebing). Eles terminam quando o Rapaz e a Moçafinalmente As pessoas inventam categorias para se sentirem seguras. Os brancos
ficam juntos, com o que os leitores devem imaginar ser um amor inventaram os negros para dar aos brancos uma identidade.
eterno: Porque quando o Rapaz e a Moça se tornam o Noivo e a
Noiva somos forçados a deixá-Ios; sem realmente supormos que a
Acrescenta:
história acabou, ou que testemunhamos a satisfação de dois seres
~
,

110 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO III

OS heterossexuais masculinos inventam os homossexuais masculinos Hetero/homo é uma divisão artificial, Baldwin diz: Não existe
para que possam dormir com eles sem se tomarem homossexuais. nada em mim que não exista nas outras pessoas, e nada nas outras
pessoas que não exista em mim. É claro que estamos presos à
Mas ele diz que os escritores são forçados a procurar por trás da linguagem, admite ele. Mas as complexidades da experiência huma-
palavra o seu significado. São responsáveis por descobrir o modo na - por exemplo, a própria experiência de Baldwin - lançam
I
!
de usar essa palavra para liberar a energia contida nela, para que -: .
',
dúvidas sobre os termos heterossexual e homossexual, que dividem
! tenha um efeito positivo nas vidas das pessoas= !
e tentam subjugar:
E em 1984, entrevistado em The Village Voice, Baldwin nova-
I mente protestou contra os equívocos causados pelos rótulosr"
Eu amei algumas pessoas e elas me amaram. Aquilo não teve nada a ver
com esses rótulos. É claro que o mundo tinha todos os tipos de palavras
I,
para nós. Mas esse é um problema do mundo.
Na verdade, a pessoa chamada de heterossexual não está mais segura
do que eu estou ... Amar e ser amado por alguém é um enorme perigo,
uma enorme responsabilidade ... Os medos que os homossexuais sentem Areação de Baldwin ao problema sexual do mundo se equipara
nesta sociedade não seriam tantos se a própria sociedade não sentisse à sua reação ao problema racial do mundo:
i! tantos medos que não deseja admitir. I

Em minha opinião, falando claramente da América negra, quando eu


tive de tentar contestar esse estigma, essa espécie de maldição social,
Baldwin dá nome ao grande medo que ele acha que é a origem do I
I seria um grande erro fazê-lo usando a linguagem do opressor. Se eu
ódio da sociedade ao homossexual: Pavor da carne. Afinal de reagir como um negro, provar as minhas alegações a respeito de
evidências ou suposições de outras pessoas, estarei simplesmente ,
contas, devemos mortificar a carne, uma doutrina que tem levado
reforçando essas suposições.

I
a horrores indescritíveis. j I

Um pavor particular do corpo é causado pelo sentimento ho-


mossexual do homem heterossexual infantil fixado na negação: Imaginando um sexo futuro totalmente novo, Baldwin diz:
II I
Ninguém terá de chamar a si próprio de gay. Talvez essa seja a causa da
Os machões - motoristas de caminhão, policiais, jogadores de futebol
minha impacíênclaõom o termo. Ele admite um argumento falso, uma
- são muito mais complexos do que desejariam. É por isso que eu digo
)

acusação falsa. Isto é, que você não tem direito de estar aqui, que tem
que são infantis. Têm necessidades que, para eles, são literalmente
de provar esse seu direito. Eu digo que não tenho coisa alguma a provar.
inexpriiníveis. Não ousam olhar-se no espelho. E é por isso que precisam
O mundo também me pertence.
dos homossexuais. Eles os criaram para representarem uma fantasia
~
sexual sob~ o corpo de outro homem, e não assumirem qualquer
responsabilidade por isso ... Eu acho que é muito importante para o Em um mundo no qual ninguém se identifica como gay, nin-
homossexual masculino reconhecer que é um alvo sexual para os outros guém se identificará como straight. Baldwin insinua que esse mun-
homens, e que por isso é desprezado, e chamado como tal. Porque os do, privado da divisão homossexual/heterossexual, pertencerá a
outros homens precisam dele.
todos pós.
I
O questionamento que James Baldwin faz sobre essa elas-
1 O Estado, a Igreja e a direita política estão interessados em síficação remonta aos anos de sua formação intelectual. Naquele
I controlar as pe,s~oas, declara Baldwin: tempo, todas as crianças eram ensinadas a admirar a grande mistura
I
de raças americana. As pessoas politicamente progressistas traba-
,I Tratam de fazer com que você tenha medo dos seus atos. Se você se
J sentir culpado, o Estado poderá govemâ-lo. Esse é um modo de contro- lhavam pela integração das minorias americanas em uma maioria
~ lar o universo, assustando as pessoas. humana única e universal. Essa mistura deveria incluir os persegui-
- _.
'"Ir I1

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--
i;
11.

112 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 113

J dos do país: negros, judeus e (mesmo, em raras ocasiões) homos- número maior de variações do que a mídia respeitável anterior-

I,I
,I
sexuais. Esse ideal de integração incentivou vários escritores extre-
mamente corajosos - Baldwin, Gore Vidal, o poeta Robert Duncan,
a novelista Ruth Seid (como Jo Sinclair) - a afirmar publicamente
a humanidade daqueles com tendências homossexuais, e a exigir a
mente admitira.
A liberalização do ideal heterossexual dessa época também é
ilustrada pela peça Tea and Sympathy, à qual foi feita uma crítica no
The Times, em 1953 - a história de um estudante sobre o qual foi
I sua integração/" lançada a falsa suspeita de homossexualidade.l' Mas o falso homo
~!
Mas essas pessoas ousadas freqüentemente demonstravam um se revela um verdadeiro hetero. Embora o nosso herói de 18 anos
constrangimento básico com a diferença - as características his- seja meigo, gentil, calado, tímido, intelectual, guitarrista e não
tóricas e culturais dos homossexuais que os isolavam. Nos anos I
conformista (e tenha decorado o seu quarto espartano na universi-
1940, os progressistas defenderam a assimilação. Apenas no final dade com uma colcha indiana e cortinas estampadas indianas), o
dos anos 1960 os defensores do poder negro declararam que os dramaturgo finalmente confirma a sua heterossexualidade. (Como
I
afro-americanos podiam reclamar a sua humanidade posta em dú- I
sempre, descobre-se que o vilão tem tendências homossexuais.)
: Mais sobre a heterossexualidade do que sobre a homossexuali-
vida afirmando ativamente a sua diferença cultural. Os liberais gays
e as feministas imitaram aquele modo radical de afirmação dos dade, a peça protesta contra o sexismo estúpido daquela época,
I
negros, e seus movimentos de protesto enriqueceram a política atual I
defendendo a ampliação da norma heterossexual para incluir os
, de diferença. jovens que não apresentam a característica considerada masculina
I
11
Contrapondo-se à rejeição de Baldwin dos rótulos, o movimento da insensibilidade. Um jovem sensível podia colocar cortinas em
moderno de liberação gay e lésbica - revertendo os usos negativos seu quarto e ainda ser heterossexual. Mas a ampliação progressista
da antiga categoria homossexual- tem incentivado muitos de nós
a identificar-se como gays, lésbicas e bissexuais. Nos últimos 20
. da heterossexualidade para incluir uma variedade maior do que
nunca de comportamentos sexuais e sentimentos apropriados serviu
anos, nós nos unimos sob a bandeira gay e lésbica, a nova inversão para fortalecer o domínio do hetero ideal. Amaior rede heterossexual
positiva do velha categoria homo negativa. . pegou mais peixes.
Em 1963, depois que o State Liquor Authority" cassou as
Então, por um lado, os ativistas gays e as lésbicas afirmaram
licenças de vários- lugares freqüentados assiduamente por homos-
enfaticamente a idéia de um mundo dividido entre homossexuais e
sexuais em Nova York, The Times examinou oproblema da homos-
heterossexuais. Por outro, um dos resultados menos esperados da
sexualidade (um problema de um suposto ponto de vista heteros-
organização de gays e lésbicas foi um incentivo ao trabalho intelec-
sexual). Descrevendo os homossexuais cada vez mais assumidos e
tual que 'q'llestiona radicalmente a necessidade de identidades hetero
organizados da cidade, o artigo de Robert C. Doty parece o relatório
e homo, e 'àté mesmo essas próprias categorias."
de um antropólogo sobre uma misteriosa tribo de nativos:
i Enquanto isso, em 1953, o antropólogo Clyde Kluckhohn fazia a Existe uma gíria homossexual, antes inteligível apenas para os
crítica do novo relatório de Kinsey sobre as mulheres em The New iniciados, mas agora incorporada à gíria de Nova York. A palavra gay
York Times Book Review, e a palavra heterossexual apareceu uma o
tem sido usada como adjetivo para homossexual.

vez.?" KIuckhohn lamentou o fato de o relatório não tratar da


freqüência do sexo anal heterossexual - sem dúvida a primeira Os homossexuais estão roubando a nossa linguagem, diz Doty,
menção explícita à sodomia hetero no decoroso Times de domingo, Ele continua:
Esse fato histórico ilustra como os relatórios de Kinsey e as reações
a eles ampliaram a discussão. sobre o sexo hetero para incluir um * Órgão do governo que concede licenças para a venda de bebidas. (N.T.)

~:!
- ~ -
114 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALIDADE O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 115

Ele é gay?, um homossexual poderia perguntar a outro sobre um meramente um disfarce para os seus medos da impotência. A peça,
conhecido de ambos. Eles falariam sobre um bar gay ou uma festa gay disse o sempre atento Barnes, mostra uma questão séria. Ele elogiou
e poderiam rir secretamente do emprego inocente da palavra em seu
sentido original pelos straights - isto é, pelos heterossexuaís.P
muito a atuação de Zero Mostel como o poeta homossexual: É o
humor do ator heterossexual fingindo ser homossexual, com manei-
rismos grotescos e exagerados que só são engraçados porque estão
A imagem de dois gays rindo juntos secretamente do uso da
muito longe da realidade.
linguagem desconhecida dos straights marca o aparecimento em
Sob a perspectiva da história heterossexual, a esperança de
The Times dos heterossexuais como uma maioria nervosa com o
Chayefsky de felicidade hetero para até mesmo a queen documenta
olhar crítico do Hemo-Outro."
a heterossexualidade na defensiva. Esse retrato da heterossexuali-
No final dos anos 1960, os participantes do movimento contra-
dade latente vencendo todos os obstáculos foi uma propaganda
cultura que se opunham às instituições, as novas feministas e os
nervosa de uma norma cada vez mais contestada pelas feministas,
ativistas dos direitos homossexuais começaram a fazer uma crítica
pelos participantes do movimento contracultural e pelos homos-
nunca vista - à repressão sexual em geral, à repressão sexual das
sexuais.
mulheres em particular, ao casamento, à família, à opressão dos
A nova defensiva hetero foi ilustrada novamente seis meses
homossexuais e a algumas formas de heterossexualidade. Essa
depois em The New York Times, em um documento clássico da
crítica teve o seu espaço até mesmo no The New York Times.
história 'heterossexual. Em setembro de 1968, a entrevista de Judy
Em março de 1968, no caderno de teatro desse jornal, a free
Klemesrud com o ator Cliff Gorman, que representou "The Defini-
lance Rosalyn Regelson citou uma cena satírica de uma peça de
tive Screaming Queen" em The Boys in the Band, teve como título
teatro de revista trazida de Nova York por uma companhia de atores
''You Don't Have to Be One To Play One".76 Klemesrud satirizou o
de São Francisco:
excesso machista da afirmação nervosa da heterossexualidade de
Um homem heterossexual entra inadvertidamente em um bar freqüen- Gorman.
tado por homossexuais. Antes de perceber o seu erro, envolve-se com Klemesrud começou: O papel de Gorman como Emory, o
uma queen agressiva que pede uma bebida para ele. Sendo um liberal e decorador de interiores homossexual, com os seus gestos efemina-
tentando manter a calma até poder sair diplomaticamente daquela dos, não foi exatamente o tipo de papel que se imaginaria para um
situação, ele pergunta: Como você se sente sendo um -ah -homos-
rapaz judeu daJ amaica, Queens. Mas Gorman o aceitara, e Boys in
sexual? Ao que a queen responde secamente e com uma voz arrastada:
Como você se sente sendo -ah -seja lá o que for?74 the Band tomou-se um grande sucesso. Gorman recentemente fora
, convidado para trabalhar na televisão no papel de um estuprador, e
'-
perguntou defensivamente, O que pode ser mais heterossexual do
Regelson continuou:
que isso?
As Duas Culturas em confrontação. A classe média liberal, desafiada Com uma lata de Schlitz na mão, disse Klemestud, Gorman
hoje em dia em muitas frentes, vê o seu último valor permanente, a sua conversou nervosamente com a repórter
heterossexualidade, posta em dúvida. Acena ... lembra as estratégias que
ela usa para lidar com essa ameaça final à sua visão do mundo ... a respeito de todos lhe perguntarem naqueles dias: Como um heteros-
sexual como você pode fazer o papel de uma bicha em uma peça gay?
É simples - eu precisava do dinheiro, diz ele com a sua voz real muito
Algumas semanas depois, em março de 1968, o crítico do Times
masculina. Realmente não ligo a mínima para o que as pessoas pen-
Clive Barnes escreveu sobre a nova peça de Paddy Chayefsky, The sam ... Não tenh'o qualquer dúvida quanto à minha virilidáde. E a minha
Latent Heterosexuallê Nela, um escritor de meia-idade e extrema- mulher também não ... Estou ganhando dinheiro agora. .. Se eu fizesse
mente efeminado descobriu que a sua homossexualidade era... o papel de um psicopata, isso não significaria que sou um ...

\
--
116 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE O HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO 117

Sua mulher incrivelmente bela, Gayle, entra silenciosamente na sala e apropriado hoje em dia... seus filhos se sentirão confusos a respeito
coloca a cerveja de Cliff em um copo ...
de seu próprio lugar no mundo." Vamos acabar com a confusão
Cliff ainda está nervoso: As pessoas acham surpreendente um sujeito
fazer o papel de um homossexual tão espalhafatoso e ainda assim ser entre os papéis dos sexos!
heterossexual. Acho que é dada tanta ênfase a esse fato porque promove Por outro lado, os liberais dos anos 1960 reconheceram tardia-
a peça e todos querem ver o espetáculo ... mente o fim das velhas e inabaláveis masculinidade e feminilidade:
Cliff desamarra a sua bandanna, joga-a sobre a mesa do café e atravessa Vários especialistas deploraram a divisão rígida demais dos inte-
a sala para colocar para tocar uma fita com o único tipo de música de
resses masculinos e femininos em muitas famílias.80 Os pais moder-
que realmente gosta - country ... Depois abre com um estalo a sua
segunda Schlitz. Eles me disseram que convidaram muitos atores gays nos partilham atividades, mostrando assim a seus filhos como
para o papel, mas ninguém quis ser Emory. Acho que um homossexual homens e mulheres se comportam de modos diferentes. Nos lares
de verdade poderia ficar muito inibido ... Eu não fiz nada de especial sexualmente normais, dizem os autores, a diferença básica entre
para me preparar para opapel, embora o modo de andar tivesse exigido mulheres e homens
muita prática ... Mas eu já sabia como falar, porque conto piadas sobre
gays desde que era garoto ... é ensinada naturalmente desde cedo. As meninas recebem bonecas para
brincar. É dito aos meninos: Os meninos não choram. Uma preocupação
Depois de ser bem-sucedido como ator, disse Gorman, quero ter excessiva no treino para usar o banheiro é evitada/'!
quatro filhos, um estéreo, um barco, morar em Baja, Califórnia,
pescar, mergulhar e todo esse tipo de coisa. A maioria dos especialistas em comportamento sexual, dizem
Junto com essa entrevista no Times foi publicada uma grande os Wydens, obcecados por autoridades, salienta que a heteros-
fotografia de Gorman abraçando fortemente a sua esposa, ambos sexualidade (fruto de uma criação sadia) é a melhor arma contra a
tristes e unidos, um retrato de um casal heterossexual assombrado homossexualidade= A luta pelo fim da homossexualidade exigia
pelo fantasma da homossexualidade - uma imagem clássica na que os jovens fossem incitados à atividade heterossexual, percebida
iconografia histórica da heterossexualidade. como um conselho dos radicais quanto ao sexo: Muitas pessoas
Perto do final dos anos 1960, o medo de terem um filho acham que essa é uma idéia nova e um pouco assustadora. É dito
pervertido dominou mães e pais ansiosos, que compraram o livro de que o Dr. Gebhard.'do Instituto Kinsey, afirmou aos conselheiros
Peter e Barbara Wyden, Growing Up Straight: What Every Thought- preocupados com as tendências homossexuais dos jovens:
fui Parent Should Know About Homosexualuy," Em 1968, esse
manual de cpmo criar um heterossexual é categórico: O estilo de O único modo de evitar isso é incentivar a heterossexualidade. É preciso
vida heterossexual não só é normal e correto, como também produ- lutar com as mesmas armas.83
tivo e divertido. 78
Criar um heterossexual significa incutir um sentido de mascu- Essas palavras, lembrou Gebhard, chocaram alguns dos conse-
linidade e feminilidade, dizem os Wydens, aos pais temerosos de lheiros." Esse' livro, e o gênero auto-ajuda que representa, mostra a
que seus filhos' se tornem homossexuais. O desvio sexual é o doença intelectual que embota as mentes e freqüentemente ainda
caminho para a aberração erótica. Os pais deveriam entender que a assola as discussões dos meios de comunicação de massa sobre a
aceitação da mãe de seu papel como uma mulher realmente femi- heterossexualidade e a homossexualidade."
nina influenciará a sua filha desde uma tenra idade. O respeito da A repetição não crítica desse tipo de banalidade relativa aos
mãe pelo papel do pai como chefe da família ajudará o garoto sexos foi interrompida nos anos 1960 pela mobilização das feminis-
pequeno a crescer sendo masculino. Mas se os próprios pais não tas liberais, pelo aparecimento das feministas radicais e lésbicas, e
tiverem certeza do que é o comportamento masculino e feminino por suas novas análises críticas da heterossexualidade.
~

118 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

Entre 1890 e 1970 os termos heterosexual e homosexual pas- 6


saram a fazer parte da cultura popular americana, construindo ao
longo do tempo um cidadão sexual estável e um estranho pervertido "
QUESTIONANDO A MISTICA
instável, um ser sensual enquadrado na sociedade e um fora-da-Iei
lascivo, um centro hetero e uma margem homo, uma maioria hetero HETEROSSEXUAL' ..
e uma minoria homo. Os novos e rígidos limites tornaram o novo
mundo erótico menos polimorfo. O termo heterossexual criou um
novo ideal de sexo diferenciado do que era eroticamente correto,
Alguns Veredictos de Feministas
uma norma que afirmou a superioridade dos homens sobre as Liberais e Radicais
mulheres e dos heterossexuais sobre os homossexuais. As feministas
questionaram essas hierarquias de sexos e prazer.

O movimento das feministas modernas deu início a uma nova era


na história da ordem heterossexual, acusando-a publicamente de ser
problemática. Um exame atento de vários comentários de feministas
liberais e radicais de 1963 a 1975 revela que todas elas analisaram
criticamente não só a supremacia masculina, como também o ar-
ranjo social da heterossexualidade.
Os primeiros 3fiOS da segunda leva de feministas americanas
incluem a publicação de 1963 de The Feminine Mystique, de Betty
Friedan, analisado aqui por seu comentário sobre a heterossexuali-
dade. Em 1966, a fundação por Friedan e outras da Organização
Nacional para as ·Mulheres iniciou o movimento feminista liberal.'
'-
Essas feministas, lideradas por Friedan, mostraram às mulheres
brancas, da classe média e com formação universitária as restrições
no lar, no serviço doméstico e na criação dos filhos, e lutaram para
integrá-Ias ao mundo maior do trabalho assalariado.'
Começando por volta de 1967, as feministas radicais argumen-
taram que as mulheres constituíam uma classe socialmente diferen-
ciada e sem poderes com base em seu sexo, cujo tratamentoofensivo
era análogo ao dispensado aos afro-americanos, com base em sua
raça. Como as feministas o viam, o problema das mulheres não era
causado apenas por preconceito ou informações incorretas, e por

I
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r",'

120 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE


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QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 121


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isso não seria resolvido reeducando-se os intolerantes ou mal infor- heterossexuais." Essas feministas começam a revelar a existência de
mados. Era uma parte integrante de uma desigualdade estruturada uma política reprodutiva, uma política de sexos e uma política de
social e culturalmente. prazer que apóiam a supremacia masculina e heterossexual.
Muitas feministas radicais foram para o movimento feminino As obras das feministas liberais e radicais discutidas aqui (e
da Nova Esquerda dos anos 1960, e suas análises sobre a posição muitas das análises das feministas lésbicas consideradas no próximo
social das mulheres enfatizaram a necessidade de mudanças subs- capítulo) influenciaram muito as feministas de seu tempo. Conti-
tanciais além até mesmo dos salários iguais e da integração à força nuam a ser importantes devido aos modos diferentes como ques-
de trabalho defendidos pelas feministas liberais. As feministas radi- tionam um sistema heterossexual que opõe muita resistência a ser
cais ligaram explicitamente o pessoal e sexual ao poder e à política, examinado.
iniciando a primeira crítica feminista aberta da estruturação social Muitas outras autoras poderiam ser analisadas em um estudo
da heterossexualidade.' abrangente da crítica das feministas modernas à sociedade heteros-
O que exatamente essas feministas da segunda leva dizem sobre sexual. Todos os textos discutidos se originam de um, contexto
a norma social da heterossexualidade? E como as suas análises político em grande parte branco e da classe média, e as feministas
contribuem para a nossa compreensão da heterossexualidade como negras, as do Terceiro Mundo, as socialistas e psicanalíticas (entre
um sistema historicamente específico? outras feministas) oferecem suas críticas de seus próprios pontos de
vista. As quatro escritoras discutidas merecem estudo por suas
Nas obras examinadas, a crítica de Friedan de The Sexual SeU
análises inovadoras, e pelo modo como começaram a trazer à luz o
(A Mistificação Sexual), que transforma as mulheres emSex Seekers
sistema heterossexual nem sempre visível. 8 Embora eu faça algumas
(Pessoas que Buscam o Sexo), pode ser vista como uma censura
objeções a essas análises, suas formulações corajosas, originais e
implícita à heterossexualização das mulheres americanas do século
4 provocadoras contribuíram para um fim histórico da suposição
XX. As feministas radicais começaram a tomar as críticas desse
irrefletida de heterossexualidade.
tipo explícitas, formulando novos conceitos para analisar a hete-
rossexualidade." Elas consideram o amor físico não só individual
e emocional, mas também preeminentemente social. Ti-Grace At- A:MíSTICA FEMININA DE FRIEDAN
kinson culpa The Institution of Sexual Intercourse (A Instituição do
Ato Sexual). Kate Millett denuncia uma política heterossexual Em 1963, Betty Friedan deu nome a The Problem That Has No
injusta dentro de uma política sexual mais ampla. Gay le Rubin usa N ame, (O Problema Que Não Tem Nome), chamando esse problema
pela primeira vez os termos heterossexualidade compulsória e particular das mulheres de The Feminine Mystique (A Mística
sistema de sexos. Esses novos conceitos, criados durante essa luta, Feminina). Dessa forma ela criou uma expressão e deu título a um
ainda são usados. livro que marcou uma nova era na política feminista." The Feminine
A análise da ligação problemática das mulheres à organização Mystique tomou-se rapidamente a bíblia das feministas da Organi-
social da reprodução humana tem um papel importante nas críticas zação Nacional para as Mulheres, pioneiras na luta por oportuni-
dessas feministas modernas à ordem heterossexual. Adistinção entre dades iguais de emprego.!"
um sexo determinado biologicamente e uma feminilidade e mascu- Friedan explica que a mística feminina é a norma historicamente
linidade determinadas socialmente e mutáveis é outra estratégia específica que definiu a feminilidade do final dos anos 1940 até o
central das análises dessas feministas do domínio dos homens e dos início dos 1960. Aquele ideal prescrevia que o lugar das mulheres
heterossexuais," Algumas salientam os efeitos negativos sobre as era no lar, sua função procriar e seu dever cuidar dos filhos, da casa,
mulheres do privilégio masculino mostrado nos relacionamentos e apoiar o seu marido provedor. O antídoto para essa prescrição fatal

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122 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 123

para as mulheres, segundo ela, é uma sociedade na qual as mulheres Para compensar as mulheres da classe média por sua vida
tenham liberdade para fazer todos os tipos de trabalho que os homens doméstica, diz ela, a mística feminina oferece-lhes o sonho de uma
fazem e sejam tratadas como suas iguais. O feminismo de Friedan, relação erótica satisfatória com os homens. Essa teoria de heteros-
colocado como uma questão de justiça, visa conquistar o maior sexualidade compensatória aparece em várias críticas ao hedonismo
número possível de adeptas para a causa feminista, que na época da vida social do Ocidente moderno.P O anti-hedonismo de Friedan
parecia estranha. rejeita a idéia de que as libidos heterossexualizadas das mulheres
No início dos anos 1970, Friedan criticou explicitamente a análise podem ajudar a promover a mudança social feminista.
da política sexual oferecida pelas feministas radicais. Ela disse que a Friedan avisa que a busca feminina de sexo com os homens para
ênfase das radicais na liberação erótica das mulheres reproduzia a resolver todos os seus problemas está afastando os homens america-
obsessão sexual das mulheres espoliadas pela mística feminina. Então nos," A falha do arranjo sexual também está afastando as mulheres
é surpreendente a freqüência com que em The Feminine Mystique a americanas, tornando-as insatisfeitas com os homens," Ela afirma que
própria Friedan se concentra na política de poder injusta que regula as
se fosse permitido às mulheres o trabalho satisfatório, elas apreciariam
relações heterossexuais de mulheres e homens.
muito mais os relacionamentos eróticos com os homens."
Contudo, Friedan nunca acusa claramente a norma heteros-
.Friedan critica uma organização da heterossexualidade his-
sexual- sua crítica continua a ser diplomaticamente implícita. Por
toricamente particular e socialmente dominante, mas quase nunca
isso, sua crítica à sexualidade é freqüentemente uma crítica discreta à
lhe dá um nome. Quando por acaso se refere criticamente às relações
heterossexualidade. O uso de sexual quando ela quer dizer heteros-
heterossexuais, seus comentários negativos são equilibrados por
sexual não é uma estratégia apenas de Friedan. É um dos principais
comentários igualmentecríticos sobre o homossexuall?
meios conceituais pelos quais as críticas modernas das relações eróticas
entre homens e mulheres evitam as implicações perturbadoras de seus Ela cria uma semelhança problemática entre heterossexual e
próprios relatórios, que questionam a heterossexualidade. homossexual para criticar o estado de conflito das relações de
mulheres e homens. Todas as suas referências conjuntas a heteros-
Para que você possa apreciar a tática de Friedan, tente acres-
sexuais e homossexuais enfatizam a sua semelhança. Mas Friedan
centar hetero aos seus comentários sobre o sexual, que se seguem.
deve compensar o fato de ter equiparado heteros a homos, e por isso
Isso mostrará a freqüência com que a heterossexualidade é o seu
faz um comentário um tanto exagerado: A homossexualidade que
objeto de crítica.
está se espalhando como um denso nevoeiro sobre a América não é
As mulheres, diz Friedan, despendem em ~fW ávida busca
menos nefasta do que a busca incessante e imatura de sexo das
sexual as energias agressivas que a mística feminina proíbe que
mulheres jovens ...l8
usem para objetivos humanos mais amplos." A culpa de todos
os problemas femininos é colocada em uma sexualidade desordena- As referências de Friedan a uma homossexualidade que é
da: Se uma mulher tiver uma sensação de vazio pessoal, se ela se masculina ou de sexo não especificado elimina a diferença cultural
sentir insatisfeita, a causa deve ser sexual. A solução para o proble- entre homossexualidade masculina e lesbianismo. As lésbicas não
ma de toda mulher, sugere a mística feminina, é uma sexualidade são sequer mencionadas em The Feminine Mystique. Friedan parece
bem ordenada. Mas até mesmo o sexo satisfatório com os homens preocupada com o fato de que as mulheres altivas como ela própria
não pode compensar a insatisfação das mulheres com o seu aces- há muito são chamadas de pervertidas sexuais.
so restrito ao trabalho assalariado fora do lar. Contrariamente a A perversão está na mente dessa feminista do século XX
essa mística, declara Friedan, as mulheres não podem viver ape- quando ela protesta contra a imagem estereotipada das feministas
nas de sexO.12 do século XIX:
124 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 125

É uma perversão da história estranhamente não questionada a inspiração mente a identidade da mulher como era então definida. Mas como
e o entusiasmo do movimento feminista terem vindo de solteironas Friedan aceitou totalmente a imagem diabólica das lésbicas e dos
amarguradas, com ódio dos homens e privadas de sexo, de mulheres
homossexuais masculinos, teme a acusação de que todas as feminis-
assexuadas e castradoras que sentiam tanta inveja do pênis que queriam
tirá-lo dos homens, exigindo direitos apenas porque não tinham a
tas são lésbicas. Está determinada a mostrar que é tão anti-homo
capacidade de amar [os homens] como mulheres. quanto os homens (ou as mulheres), e se recusa a falar sobre as lés-
bicas. O medo da palavra lésbica é mencionado repetidamente nos
ensaios das feministas radicais e lésbicas do início dos anos 1970.24
Friedan então menciona antigas feministas que amaram homens e
O estranho é que a anti-homossexualidade de Friedan é expli-
se casaram com eles.'? Ela assegura (falsamente) às suas leitoras que
cada pelas mesmas teorias psicanalíticas freudianas populares que
as feministas do século XIX promoveram a idéia de que a igualdade
ela critica veementemente para justificar a inferioridade das mu-
para as mulheres era necessária para liberar homens e mulheres
para a verdadeira satisfação sexual.ê lheres. Friedan introduziu um elemento importante na segunda leva
do feminismo - uma crítica de Freud e seus seguidores. Quase
De fato, a maioria das feministas do século XIX argumentou
todas as grandes feministas americanas criticam o sexismo de Freud
que apureza especial das mulheres, sua libertação - ou seu controle
~ dos freudianos.
- da sensualidade, era um bom motivo pelo qual elas mereciam a
igualdade cívica. Apenas um pequeno grupo de feministas radicais . Friedan critica implicitamente os efeitos nocivos da heteros-
favoráveis ao amor livre defendeu no século XIX a satisfação sexual sexualização das mulheres feita por Freud e seus discípulos no
de mulheres e homens - e ainda assim apenas quando sancionada século XX. Ela faz uma distinção entre o freudismo inicial e o
pelo amor. O prazer erótico de mulheres e homens continuou recente. No início do século XX, continua, a psicologia freudiana,
ilegítimo como um valor independente até a invenção da heteros- com a sua ênfase na libertação de uma moralidade repressiva, e na
sexualidade do século XX. satisfação sexual, foi parte a ideologia da emancipação feminina.
Mas na época de Friedan o pensamento freudiano tornou-se o
Além disso, e ao contrário de Friedan, muitas feministas da
baluarte ideológico da contra-revolução sexual.é
primeira leva continuaram solteiras e tiveram relacionamentos ro-
mânticos e às vezes eróticos durante as suas vidas inteiras com outras A nova religião psicológica que torna o sexo uma virtude (ela
mulheres." se refere ao sexo hetero) tem tido um efeito pessoal mais devastador
sobre as mulheres do que sobre os homens, argumenta.ê" Apopula-
Friedan afirma que a imagem das feministas do século XIX
rização da teoria freudiana deu às mulheres permissão para suprimir
corpo desumanas, devoradoras de home:{'s, se foi expressa como
as questões perturbadoras do mundo em geral e buscar os seus
uma; ofensa a Deus ou nos termos modernos da perversão sexual,
não é diferente do estereótipo do negro como um animal primiti- próprios prazeres pessoaisF'
VO,•.• 22 Essa menção da perversão sexual (feminina) é o mais perto Em. sua discussão sobre Freud, Friedan se concentra em como
que Friedan chega em The Feminine Mystique de falar explicita- as suas teorias sexuais culparam as mulheres de inveja do pênis. Esse
mente sobre as lésbicas. A palavra lésbica parece ter uma carga reducionismo psicológico nega que as mulheres que invejam o poder
emocional tão grande para ela que é literalmente indizível. que a sociedade deu aos homens têm um motivo justo para isso."
A causa do problema de Friedan é esclarecida por um de seus Ela se opõe repetida e eloqüentemente ao insulto essa anato-
comentários sobre as feministas americanas do século XIX: O ato mia é destino.
delas foi de revolta, uma negação violenta da identidade da mulher Friedan também acusa Freud de ligar feminilidade a passividade
como era então definida.ê O próprio ato de revolta de Friedan ao e masculinidade a atividade.ê? Uma máscara de verdade eterna
publicar The Feminine Mystique, em 1963, também negou firme- disfarça o caráter culturalmente relativo da análise de Freud das
2rl·l~ ~
126
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 127

mulheres.v Sua exigência implícita é de uma análise historicamente definições sexuais arbitrárias criadas socialmente e !imitadoras do
específica da norma da feminilidade e da situação das mulheres _ potencial humano. Friedan desmistifica a mística feminina, mas não
o tipo de análise oferecida aqui da norma e da ordem heterossexual. condena - e até mesmo defende - a mística heterossexual. Friedan
A crítica de Friedan às idéias da antropóloga Margaret Mead não amplia o seu insight e o de Mead para incluir um gênero
aumenta a nossa compreensão da heterossexualidade como uma !
culturalmente relativo e pôr em dúvida a aceitação social da heteros-
instituição historicamente específica e uma categoria criada cultu ..• sexualidade e a condenação da homossexualidade.
ralmente." .,
Levantando a bandeira antifeminista, Mead é a principal cria- II
dora de uma mística de maternidade moderna, acusa Friedan. Mead A ODISSÉIA AMAZONA DE ATKINSON

diz que todas as sociedades distinguem as mulheres e os homens


Amazon Odyssey, de Ti-Grace Atkinson, inclui ensaios que datam
com base na função procriativa das mulheres - e na inexistência
de 1967 a 1972, doisdecujos títulosilustramoseuestiloprovocador:
dessa função biológica nos homens. Segundo Friedan, essa análise
Vaginal orgasm as a M ass Hysterical Survival Response (O Orgas-
com base nas funções biológicas prende as mulheres à maternidade. .1
mo Vaginal como uma Reação Histérica em Massa de Sobrevivên-
Por outro lado, o relativismo cultural de Mead é famoso por
:I ciat e The Institution of Sexual Intercourse (A Instituição do Ato
enfatizar que, com exceção da gravidez, as prescrições de cada
Sexual)." Atkinson se posiciona como uma supermilitante amazo-
sociedade no que diz respeito à feminilidade e à masculinidade são
na: Estou sempre sendo criticada, mesmo dentro do Movimento
totalmente determinadas pela cultura. Por exemplo, nos Estados
Feminino, por ser tão guerreira."
Unidos, o feminino está ligado à passividade, e o masculino à
atividade - em outros lugares, essas prescrições são inversas. Sem mencionar com freqüência explicitamente a heterossexua-
lidade, a análise de Atkinson, oferecida do ponto de vista de uma
Friedan cita Mead: Por baixo das classificações superficiais de
feminista separatista (não uma lésbica), começa a mostrar precisa-
sexo e raça existem as mesmas potencialidades em todos os seres
mente a formação de uma sociedade heterossexual como um arranjo
humanos.P O relativismo cultural de Mead, diz Friedan,separa a
injusto imposto culturalmente. A instituição do' relacionamento
mulher biológica da feminilidade social, e o homem biológico da
homem-mulher; diz ela, tem uma estrutura formalizada bastante
masculinidade cultural. Essa separação enfraquece a base da mística
simples, incluindo classes desiguais definidas pelo sexo que limitam
que liga as mulheres à maternidade, à criação dos filhos e ao lar.
o desenvolvimento das mulheres."
A partir dessas observações antropológicas, diz Friedan, Mead
poderia \- Ela se opõe às feministas liberais da Organização Nacional para
','" as Mulheres que, em sua opinião, temem abordar temas sexuais
<
ter passado para a cultura popular uma visão realmente revolucionária polêmicos, como aborto e lesbianismo. Os temas sexuais são fun-
de mulheres finalmente livres para realizar tudo de que são capazes em damentais para a opressão das mulheres, declara Atkinson, e seus
uma sociedade que substituiu as definições sexuais arbitrárias por um exemplos são em sua maioria heterossexuais.
reconhecimento dos verdadeiros dons individuais presentes em ambos
os sexos." A instituição do ato sexual, continua, impõe o trabalho repro-
dutivo feminino, limitando as opções das mulheres." Falar do ato
sexual como uma instituição coercitiva afirmou o seu caráter es-
Mas Mead divulgou uma mística de maternidade determinada bio- truturado socialmente - uma nova idéia.
lógica e funcionalmente que manteve as mulheres em seu Iugar.>'
Essa feminista radical critica as lésbicas por aceitarem a própria
Podemos dizer de Friedan o que ela diz de Mead. Ela não premissa da opressão masculina: a dinâmica do. ato sexual. As
consegue se dar conta das implicações básicas de sua crítica às lésbicas aceitam a idéia de que os seres humanos são antes de tudo

-.-- -- --"--_. . -
128 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUAUDADE QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 129

seres sexuais/" Aqui Atkinson contesta um princípio importante da Mas por que, pergunta ela, a sociedade deve continuar a usar a
ética sexual moderna: o da centralidade e do valor do erotismo. diferença física entre os órgãos reprodutores femininos e masculinos
Ela afirma que a heterossexualidade feminina e masculina e o como a base para as distinções entre dois sexos, dois tipos de tra-
lesbianismo são muito problemáticos: A nossa sociedade nunca co- balhadores? Em sua opinião, isso faz tanto sentido quanto dividir
nheceu uma época em que o sexo em todos os seus aspectos não foi seres humanos segundo as suas características físicas como cor da
explorador e as relações baseadas nele, como por exemplo, o relacio- pele e dos cabelos, ou altura."
namento homem-mulher, não foram extremamente hostis. Portanto é Ela afirma que a classificação em sexos é assimétrica: as mu-
difícil compreender como o ato sexual poderá ser um dia resgatado lheres são definidas e limitadas por sua classificação sexual; a classe
como uma prática, mesmo se abolido como uma instituição.ê dos homens está livre da classe sexual. 47 Por isso as mulheres devem
A liberação das mulheres, como ela a vê, é uma luta por uma contestar radicalmente a sua classificação política segundo o sexo."
sociedade em que o sexo não seja fundamental, pessoal ou politica- Para melhorar a sua condição, as pessoas definidas como mulheres
devem acabar com a sua próprio. definição - essa classificação está
mente:" Então, as relações sexuais seriam determinadas individual-
em desacordo com a sua humanidade e individualidade. As mu-
mente, não socialmente= Em sua opinião, com os arranjos atuais a
lheres, declara ela, devem, em um certo sentido, cometer suicidio/"
sexualidade de todas as pessoas está sujeita a um sistema de seleção
psicolágicoP .Em sua análise, as mulheres são uma classe oprimida que, para
livrar-se da perseguição, deve cavar os túmulos, não só para a classe
Atkinson imagina uma sexualidade não institucionalizada que
dos homens, como para a sua própria. A liberação feminina exige o
não tem uma função social, uma sociedade na qual a reprodução não
fim de mulheres e homens como categorias socialmente significati-
mais exija o esforço cooperativo de mulheres e homens. Então, as
vas, o fim não só dos papéis dos sexos, como também das distinções
possibilidades físicas da sensação sexual poderiam ser plenamente •
entre os sexos.
realizadas por si sós, totalmente separadas da procriação. Mas em
Se isso parece absurdamente utópico, a sociedade que Atkinson
uma sociedade assim, pergunta ela, você poderia ter algo remota-
imagina é uma em que o sexo não mais serviria como um critério
mente parecido com o que conhecemos hoje como relações se-
principal parI!determinados tipos de trabalho - uma sociedade cega
xuais?" Depois de uma revolução desse tipo, sugere ela, precisaría-
aos sexos agora imaginada tanto pelas feministas liberais como pelas
mos de um novo vocabulário e de novos conceitos para expressar
radicais. Esse ideal também implica o fim da diferença heterosse-
os nossos novos prazeres.
xual/homossexual, porque esses termos se baseiam, em parte, na
EI'1 mostra o processo histórico pelo 'qual o orgasmo vaginal distinção homem/mulher. (Ela ainda não faz uma distinção entre sexo
(heterossexual] foi apontado para as mulheres 'como o único modo determinado biologicamente e gênero determinado socialmente.)
adequado de ter prazer. Como o casamento foi ameaçado no final A desconstrução do sexo como uma categoria socialmente
do século XIX pela crítica feminista às suas injustiças e pela cres- notável, reconhece Atkinson, seria uma mudança revolucionária.
cente independência econômica das mulheres, a teoria do orgasmo Ela admite que a passagem da feminilidade para uma sociedade
vaginal foi inventada por Freud para coagi-Ias a continuarem a sua de indivíduos é difícil.5o De igual modo, eu sugiro que a superação
participação no ato sexual e na reprodução.v' da divisão hetero/homo é igualmente difícil e também deve ser
Ela argumenta que a divisão de seres humanos em mulheres e considerada.
homens se baseia em U~divisão de trabalho sexual basicamen- Por que as mulheres se unem a homens qUe as dominam?-
te desigual: as mulheres reproduzem a espécie, e os homens fazem pergunta Atkinson. As feministas radicais precisam de uma teoria
todo o resto. de atração para explicar por que as mulheres, até mesmo as feminis-
.' 130 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
QUESTIONANDO A MÍSTICA HETEROSSEXUAL 131

tas, se unem ao inimigo. Fazem isso por sexo? Ela duvida. O que J Jean Genet. As citações que Millett faz desses autores mostram com
quase todas as mulheres respondem é: por amor," extrema clareza como a supremacia dos homens e dos heteros-
Atkinson salienta que como o amor das mulheres pelos homens sexuais permeia até mesmo os encontros eróticos mais íntimos dos
I envolve um relacionamento de desiguais do ponto de vista social, é j
sexos, constituindo uma política do sexual.
muito problemático. Talvez a característica mais condenatória das A idéia de uma política sexual foi surpreendente em 1970,
mulheres seja que, diante da terrível evidência de sua situação, elas contrariando a noção dominante de política como voto, e de sexual
continuam a afirmar teimosamente que, apesar de tudo, amam o seu 1
como individual, psicológico ou biológico. Embora a idéia de uma
Opressor. 52
i política pessoal tivesse sido parte da retórica da Nova Esquerda, a
O amor, insinua Atkinson, é opivô psicológico na perseguição idéia de uma política sexual foi estarrecedora.
às mulheres, a corrente que prende as mulheres oprimidas aos i O conceito de que as relações sexuais são organizadas social-
homens opressores, mantendo-as em seu lugar.53 Seu amor pelos mente, podendo assim ser reorganizadas, e até mesmo de um
homens é uma reação típica dos subordinados, uma reação tradicio- movimento de política sexual, existira brevemente na Alemanha
nal à profunda opressão, refletindo a identificação das mulheres e entre os sindicalistas, os esquerdistas e as feministas antes da subida
sua renúncia à sua própria autonomia." Seu amor pelos homens é ~
dos nazistas ao poder. Mas depois que, em 1933, os fascistas
uma malograda tentativa de se tornarem humanas. Unindo-se a um I queimaram livros sobre sexo e fecharam o Instituto Magnus Hir-
homem a mulher espera tornar indistinta a dicotomia de papéis
I masculinos e femininos, e fundir-se com o universal. 55
schfeld de Ciência Sexual, a idéia de uma política sexual e a história
do movimento de política sexual foram esquecidas, e o sexual e o
Não nomeando explicitamente e nem especificando a heteros- político se separaram. 57 O livro de Millett trouxe de volta abrupta-
sexualidade em seus ensaios, Atkinson toma a sua análise um pouco I mente a política sexual. ,
i
vaga. Mas o fato de ela ter mostrado a problemática das relações No início de Sexual Politics, Millett cita uma descrição surpre-
eróticas entre mulheres e homens toma o seu texto uma crítica endente de sodomia heterossexual forçada, do livro de Norman
inovadora à sociedade heterossexual. j Mailer, An American Dream (1964):
1I
I
1 Eu enfiei O pau no cu dela e gozei gostoso. Ela deu um grito de ódio.58
A POLíTICA SEXUAL DE MILLETT
I

Em todo o seu livro SexualPolitics, publicado em 1970, Kate Millett Millett, ironicamente, monta o cenário: O herói de Mailer, Stephen
Rojack, acabou de matar a sua mulher e está agora extravasando
mostra- uma ligação estreita entre a supremacia masculina e um t os seus sentimentos tendo sexo anal (àforça) com a sua empregada.
sistema 'de casta heterossexual. Ela também se refere a uma orto-
doxia heterossexual problemática, a uma postura heterossexual e a Mailer, afirma Millett se identifica claramente com o seu herói, um
um ativismo heterossexual fanâtico= Sexual Politics é um dos homem motivado para matar por sua incapacidade
primeiros textos feministas modernos importantes a incluir uma I
[

de dominar a companheira por outro meio que não o assassinato. O


crítica totalmente explícita à heterossexualidade. O uso repetido que
desejo por esse domínio é bastante compreensível para Mailer e até
Millett faz desse termo é fundamental para a sua descoberta das mesmo desperta a sua símpatta."
ligações entre a supremacia masculina e heterossexual.
A sua denúncia famosa se baseia em exemplos do domínio A revelação anterior da esposa desafeiçoada de Rojack de que
masculino e heterossexual tirados da literatura de ficção de quatro havia praticado a sodomia com seus novos amantes é, segundo
autores famosos, D. H. Lawrence, Henry Miller, Norman Mailer e Millett, o golpe final para a sua vaidade, o seu sentimento de

t.:::::""-=-
~ ,~ J

132
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE ~J
QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 133

propriedade e... o seu suposto direito inato de estabelecer as regras.


Por isso, ele reage prontamente estrangulando a esposa rebelde= o texto de Mailer, comenta Millett, mostra os velhos dualismos,
MilIett afirma que o estupro sodomítico da empregada é igual- homem e mulher, virilidade e efeminação, enfrentando o duplo
mente motivado pelo desejo de Rojack de admitir a morte e o mal, perigo da diminuição do domínio masculino e do fascínio perigoso
simbolizados por Mailer pelo reto. (MilIett diz que Mailer atribui da homossexualidade ... Nesse momento difícil

li ,
um significado profundamente moral, até mesmo religioso, ao ânus
e à vagina.) Ela afirma que Rojack deseja conseguir através da
penetração anal a capacidade natural de autopreservação da classe
:~ o Machismo ficá acuado, temendo a ameaça de uma segunda revolução
sexual que, acabando com o medo da homossexualidade, contestaria
todas as categorias do temperamento (masculino e feminino) da cultura
inferior atribuída à sua empregada proletária - porque essa mulher patriarcal...6S
possui o conhecimento de um rato da cidade (ela cita Mailer).61 m
A sodomia, continua Millett, Millett até mesmo inicia experimentalmente uma abordagem
.11 histórica da heterossexualidade. Ela se refere a uma ligação temporal
tem vários significados possíveis na mente de Rojack: a homos- entre a masculinidade, a violência e a sociedade heterossexual. Em
sexualidade (ele confessa para Cherry [sua amante] que tem algumas
~ um clima de contra-revolução sexual, uma era de reação contra os
dúvidas em relação à sua vocação heterossexual); um tipo proibido de
avanços feministas, que Millett situa entre e 1950 e 1970,
sexualidade em que ele é especializado e do qual tem direitos exclusivos;
ou estupro anal, que é o seu modo de expressar um desrespeitoso
domínio.62 a homossexualidade é uma grande ofensa à ortodoxia heterossexual; um
pecado imperdoável que leva inevitavelmente os pecadores para as
regiões sombrias em que habitam os amaldiçoados. E essa equiparação
A análise que Millett faz de Mailer mostra repetidamente uma de homossexualidade e não violência a efeminação é... do próprio
Mailer, ou de uma época e um lugar (a América nas últimas duas
ligação problemática entre a masculinidade, a violência viril e a
décadas).66
dúvida a respeito da identidade heterossexual masculina. Para os
homens de Mailer, diz ela, o verdadeiro abismo é
11' Eu acho que a sua especificação de uma estrutura de tempo particular
I,
o medo da não existência. Isso, ou o medo secreto da homossexualidade;
é bastante apropriada. Por exemplo, as antigas colônias americanas
uma mistura de pecado, fascínio e medo que orienta Mailer para sua formam um nítido contraste com a era moderna que ela discute; nelas
postura heterossexual. Ser bicha, amaldiçoado, leproso _ deixar de ser não se achava que o ato sodornítico de um homem com outro
viril - era também ser, ou tomar-se, a forma mais grotesca de inferio. desmasculinizava qualquer uma das partes, mas esse ato era con-
ridade feminina - homossexual.63
.,
" '- denado como um desperdício de esperma procriativo .
Essa feminista radical até mesmo discute a invenção de uma
A descrição de Millett da postura heterossexual dos homens conti- atitude histórica mutante em relação ao amor heterossexual. Dessa
nua a ser uma análise sugestiva da mente do macho hetero. forma, ela começa a especificar uma história de reações mutantes a
No código de masculinidade de Mailer, diz Millett, heteros- uma essência heterossexual eterna:
sexual é igual a masculino, que é igual a brutal. A definição que
Se uma atitude positiva em relação ao amor heterossexual não existe
Mailer faz de masculinidade, afirma ela, depende de
realmente no famoso dito de Seignebos, uma invenção do século XII,
ainda pode pretender ser uma novidade. Quase todos os patriarcados
um ativismo heterossexual fanático e da violência que ele imagina ser fazem o possível para excluir o amor [entre mulheres e homens] como
parte da natureza masculina. Se ele não tiver uma das duas coisas, base da seleção de consortes. Os patriarcados modernos tendem a fazer
deixará de existir.64
isso através de fatores sociais, étnicos e religiosos. O pensamento
clássico ocidental tendeu a ver no amor heterossexual um golpe fatal de

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134
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 135

má sorte destinado a terminar em tragédia, ou uma união desprezível e


irracional com seres inferiores. A opinião medieval foi firme em sua por um mundo do crime homossexual que imita perfeita e brutal-
convicção de que o amor era pecaminoso se sexual, e o sexo pecaminoso mente a sociedade heterossexual burguesa.
se amoroso.67
A explicação de Genet do código homossexual se toma uma sátira ao
heterossexual. Em virtude de sua seriedade, a comunidade de homos-
Millett diz que a história de Adão e Eva é, entre outras coisas,
sexuais de Genet ridiculariza o comportamento que tão bem imita ... 73
uma narrativa de como a humanidade inventou o ato sexual. As
narrativas folclóricas, como a de Adão e Eva, nos impressionam
agora como histórias divertidas de inocentes primitivos que exigem Seus comentários ligam a construção social do gênero (a masculi-
muita instrução para serem compreendidas.68 Uma noção embrío- nidade e a feminilidade) à produção social do erotismo de sexo
diferenciado (da heterossexualidade e da homossexualidade).
nária da construção social e histórica da heterossexualidade está se
formando na mente dessa feminista. A análise que Millett faz de Genet indica como a sociedade usa
as distinções sexuais biológicas para criar a desigualdade civil de
Os comentários de Millett sobre a sociedade heterossexual são
homens e mulheres. Ela concorda com a interpretação de Genet de
bem desenvolvidos em sua análise da sociedade homossexual des-
que a própria distinção homem/mulher da sociedade é
crita por um homossexual. Nos romances e nas peças de Jean Genet,
os personagens desse escritor francês homossexual servem como o protótipo de uma desigualdade institucionalizada. Ele está convencido
espelhos críticos dos heterossexuais da vida real da sociedade: de que dividindo a humanidade em dois grupos [homens e mulheres] e
Devido à perfeição com que os homossexuais masculinos de Genet apontando um para dominar o outro por direito inato, a ordem social já
imitam e exageram o "masculino" e "feminino" da sociedade estabeleceu e ratificou um sistema de opressão que inspirará e cor-
heterossexua~ seus personagens representam o melhor insight romperá todos os relacionamentos humanos, assim como todas as áreas
de pensamento e experíência."
contemporâneo de sua constituição e suas crenças.69
Analisar os homossexuais para entender os heterossexuais é
Ao longo de toda a sua peça The Balcony, conclui Millett, Genet
uma tática anteriormente adotada por Freud. Mas a análise freudiana
do homossexual para o heterossexual freqüentemente serviu à causa explora a patologia da virilidade, a quimera das relações sexuais como
da normalização heteroerótica. Millett analisa do homossexual para um paradigma de poder.sobre outros seres humanos. Ele parece ser o
o heterossexual para revelar a subordinação feminina típica da único escritor vivo de primeira linha que transcendeu os mitos sexuais
li' SOciedade heterossexual dominante. 70 da nossa era. Sua crítica à política heterossexual mostra o caminho para
uma verdadeira revolução sexual, que deve ser explorado para haver
Os ~ersonagens
'- homossexuais masculínos de Genet, salienta qualquer mudança social radical. 75
Millett, penetraram infalivelmente na essência do que a Sociedade
heterossexual imagina ser a qualidade característica do "masculi-
Millett termina o seu livro com a esperança não só de uma
no" e "feminino ", e que confunde com a natureza do homem e da
revolução sexual, como de uma luta conjunta pelo fim do papel
mulher, preservando assim a relação tradicional dos sexos. 71 Aqui
social ou predeterminado, liderada pelos grupos expropriados -
Millett critica a confusão de distinções entre os sexos, injustas e
negros, jovens, mulheres e pobres. As lésbicas e os militantes gays
construídas socialmente com as diferenças sexuais determinadas
biologicamente.72 ainda estavam muito mal organizados e envolvidos em debates
polêmicos para que essa feminista radical os incluísse em sua lista
A literatura de ficção de Genet, enfatiza ela, constitui uma
de possíveis revolucionários.
descrição detalhada do bárbaro tributo das ordens sexuais, a es-
Não é possível mudar a qualidade de vida e a personalidade,
trutura de poder de "masculino" e "feminina" como é mostrada
", insiste Millett, sem livrar a humanidade da tirania da categoria
-rr- j

136 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE I


QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 137
1:1

sexual social e da conformidade com o estereótipo sexual _ e l


Uma sociedade neutra no que diz respeito ao gênero e indiferente à pre-
acabar com a classe racial e econômica. 76 ferência sexual foi um sonho declarado publicamente das feministas
Desconstruir os binários homem/mulher, masculino/feminino li
radicais e dos liberais gays e lésbicas do início dos anos 1970.
e hetero/homo é uma pretensão descabida, diz Millett, uma tarefa
ligada ao fim das distinções entre brancos e negros, capitalis-
tas e trabalhadores assalariados, e a outras transformações revo- "THE TRAFFIC IN WOMEN" DE RUBIN

!II'
lucionárias.
I. I, Em 1975, Gayle Rubin publicou o seu ousado ensaio. ''The Traffic
Na análise de Millett, os relacionamentos heterossexuais são
in Women: Noteson the 'Political Economy' ofSex", propondo um
profundamente problemáticos. E contudo a sua análise crítica da
novo modo de pensar a organização social do sexo biológico e a
ordem hetero é incompleta. Ela contesta as limitações das psicolo-
criação social da feminilidade e da masculinidade - o sistema
gias masculina e feminina, a rigidez da distinção homem/mulher e
sexo/gênero, como inovadoramente o chamou.
o caráter hierárquico da divisão heterossexual/homossexual. Mas
Seu ensaio também ofereceu idéias originais sobre o que ela
não vai um passo além para contestar radicalmente as próprias
categorias heterossexual e homossexual. chamava de heterossexualidade obrigatória e heterossexualidade
compulsória. A produção da heterossexualidade se revelou sob o
Na revista Time de 8 de dezembro de 1970, um artigo intitulado
escrutínio de Rubin.
"Women's Líb: A Second Look", noticiou a crítica recente ao I
As feministas liberais e radicais tinham anteriormente tentado
movimento feminista. As feministas podem pensar claramente?,
perguntava o artigo: i denunciar a configuração social da biologia do sexo e do gênero.
Mas quando Rubin publicou o seu "Traffic in Women", o sexo, o
Elas sabem alguma coisa sobre biologia? E sobre a sua maturidade, sua gênero e a sexualidade ainda eram com freqüência considerados
moralidade e sua sexualidade? Ironicamente, a própria Kate Millett essencialmente biológicos.
contribuiu para o crescente ceticismo em relação ao movimento, Quando se refletisse sobre a masculinidade e a feminilidade,
IlI! admitindo em uma reunião recente que é bissexual. Essa revelação há
~ estas poderiam ser compreendidas, vagamente, como definidas so-
de desacreditá-Ia como uma representante da sua causa, lançar mais
dúvidas sobre as suas teorias e reforçar as opiniões dos céticos que cialmente, diversas e relativas. As variações culturais nas caracterís-
comumente acham que todas as liberais são lésbicas. n ticas de personalidade de homens e mulheres foram amplamente
,I;. anunciadas pelos escritos de Margaret Mead. Mas as feministas
J modernas chamaram mais atenção para o uso social de indicadores
Em resposta à crítica desagradável a Millett publicada no Time em
visíveis, físicos, e das diferenças entre os sexos produzidas social-
todo o país, as feministas radicais e liberais formaram uma rara
mente. A referência de Rubin a um sistema de sexo/gênero discutiu
frente unida. Em uma grande reunião da imprensa em 18 de dezem-
~ as diferenças de sexo e gênero como produtos de um arranjo social
bro de' 1970, várias escritoras feministas importantes se uniram à
específico. Sua nomeação inovadora do sistema sexo-gênero ajudou
diretoria da Organização Nacional para as Mulheres, e à diretoria de
a aprovar um novo método de reflexão.
sua sede em Nova York, para apoiar Millett enquanto ela lia uma
declaração contra a acusação de lesbianismo lançada contra as Rubin era então uma estudante universitária trabalhando em seu
feministas. Eis parte da declaração: ~ doutorado em antropologia e lecionando no programa Estudos
Femininos da Universidade de Michigan, onde conhecera muitos
A liberação feminina e a liberação homossexual estão lutando por um tipos de política [eminina/" Seu ensaio teórico discute três ins-
objetivo comum.Uma sociedade que não defina e classifique as pessoas tituições implícitas na análise do antropólogo Claude Lévi-Strauss
por seu gênero e/ou sua preferência sexual."
li da organização social dos sexos. Essa organização, diz ela, se apóia

II '"~ , ,."
,,.--
QUESTIONANDO A MÍSTICA HETEROSSEXUAL 139
138 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

1
satisfeitas pelo outro. Isso produz um forte incentivo social para
Ilill no gênero, na heterossexualidade obrigatória e na repressão da
mulheres e homens unirem forças em relacionamentos heteros-
sexualidade feminina. 80
sexuais estabilizados pelo casamento legal. Rubin avisa com ironia
Rubin explica as três bases do sistema de sexo:
que Lévi-Strauss
(1) O gênero é uma divisão dos sexos imposta socialmente, o
III!
produto de um processo cultural em que os homens e as mulheres chega perigosamente perto de dizer que a heterossexual idade é um processo
biológicos são transformados em homens e mulheres domesticados: i instituído. Se os imperativos biológicos e hormonais fossem tão irresistíveis
"I.
(Sua metáfora da domesticação sugere machos e fêmeas selvagens como afirma a mitologia popular, não seria necessário garantir uniões
1I
heterossexuais por meio de interdependência econômica."
transformados em mulheres e homens dóceis.)
É claro que homens e mulheres são diferentes, diz ela, mas a
idéia de que são duas categorias mutuamente exclusivas não surge Rubin diz que a criação de uma heterossexualidade obrigatória
de uma diferença natural. Os sexos não são naturalmente opostos. I também cria uma anti-homossexualidade obrigatória. Porque a pri-
11I1
meira envolve a supressão do componente homo da sexualidade
Os sexos opostos são construídos socialmente pela supressão
das semelhanças naturais, afirma Rubin. Os homens devem repri- humana e a concomitante opressão dos homossexuais."
mir qualquer que seja a versão local de características 'femininas'. Mas o sistema social que coloca os heterossexuais acima dos
As mulheres devem reprimir a definição local de características homossexuais produz, em sua opinião, imagens mais complexas do
"masculinas" .81 que é sugerido por qualquer hierarquia simples superior/inferior. Um
A divisão social do trabalho por sexo, explica ela, é a causa da exame atento dos sistemas sexuais específicos indica que as regras
oposição entre os sexos. Essa divisão do trabalho exacerba as das relações humanas adequadas apenas incentivam a heteros-
sexualidade em detrimento da homossexualidade. Essas regras es-
diferenças biológicas entre os sexos, separando mulheres e homens •
I"" em duas categorias mutuamente exclusivas. Assim, a divisão sexual
do trabalho cria gênero, um contraste fundamental entre mulheres
timulamformas específicas de heterossexualidade. Por exemplo,

alguns sistemas de casamento têm uma regra obrigatória de união com


11, e homens.F primos. Uma pessoa nesse sistema não é apenas heterossexual, mas
86
(2) A heterossexualidade obrigatória é reforçada por vários também sexual nesse tipo de união.
11'
meios, argumenta Rubin. Seu termo nomeia de forma inovadora a
criação sistemática e coercitiva de um eros de sexo diferente - a De igual modo, formas particulares de homossexualidade ins-
1"11;1
heterossexualidade. titucionalizada são produzidas pelos sistemas sexuais de diferen-
Ela ~gumenta que a criação da heterosseiualidade obrigatória ça.87Rubin cita um costume mojave que permitia que uma pessoa
está ligada à separação anterior do trabalho por sexo. Inspirada pela mudasse de um sexo para o outro. Nessa sociedade o sexo não era
análise de Lévi-Strauss, Rubin diz que o objetivo social da divisão visto como anatomicamente determinado. O sexo de uma pessoa era
sexual do trabalho é garantir a união de homens e mulheres fazendo criado socialmente pela escolha do trabalho, do comportamento e
a menor unidade econômica viável conter pelo menos um homem e do modo de vestir do outro sexo. Na sociedade mojave, um homem
uma mulher. Ela cita Lévi-Strauss: a divisão sexual do trabalho não anatõmico podia tornar-se uma mulher [social] por meio de uma
I 11 1

é nada mais que um artifício para instituir um estado recíproco de cerimônia especial. Uma mulher anatômica podia tomar-se um
dependência entre os sexos. 83 homem [social]. A pessoa que optara por essa troca
II,i
Rubin questiona a simetria da dependência de um sexo do outro,
mas sua dependência mútua é um tema repetido. A divisão sexual arranjava então uma mulher ou um marido do seu próprio sexo anatô-
mico e do sexo social oposto. Esses casamentos, que rotularíamos como
do trabalho cria necessidades em cada sexo que só podem ser

,-
QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL 141
140 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

homossexuais, eram heterossexuais segundo os padrões mojave, uniões de uma garota é dirigida primeiramente à mulher, sua eventual
de sexos definidos socialmente como opostos.ê" suposição de heterossexualidade é algo a ser explicado." Ela diz
que Freud e Lacan explicam que uma garota internaliza o sistema
Illil Rubin questiona a idéia de uma homossexualidade e heteros- de hierarquia sexual e de poder de sua cultura, percebe que não tem
sexualidade absolutas e imutáveis, salientando as suas formas so- o órgão genital mais valorizado, rejeita o seu amor original pela mãe
ciais muito diferentes. Ela emprega heterossexual e homossexual e o direciona para o pai e outros possuidores de pênis."
como categorias trans-históricas com manifestações históricas par- A regra da heterossexualidade que domina o cenário, diz
ticulares."
Rubin, toma a posição de uma garota insustemâvel'" Ela está
(3) A repressão da sexualidade feminina resulta de uma orga- sempre dependendo de um homem para o seu próprio sentido de
nização social em que as mulheres são, de fato, possuídas, controladas poder e valor. O relato de Rubin da criação dos heterossexuais
e trocadas como presentes pelos homens, um sistema com um efeito femininos mostra o quanto esse processo é destrutivo para o sentido
profundo na configuração social das relações heterossexuaís.v de autonomia das mulheres. Contudo, ela enfatiza que esse processo
Se o tráfico de mulheres praticado pelos homens soa como um é determinado socialmente, e portanto mutável.
raro ritual nativo, ela sugere que os leitores se lembrem do curioso
Em um importante ensaio publicado em 1984, Rubin reviu e
costume pelo qual o pai conduz a noiva ao altarP' Ao que parece,
aperfeiçoou o seu conceito original do sistema sexo/gênero. Ali ela
o filme O Pai da Noiva documenta o estranho ritual dos americanos
distinguiu mais enfaticamente a estruturação social do gênero (mas-
protestantes anglo-saxões.
culinidade e feminilidade) da organização sistemática do erotismo
O pai conduzir a noiva ao altar, trocar a sua filha por um genro,
(ou desejo).97 Distinguir as histórias diferentes de feminilidade,
presume que ela era sua propriedade. Mesmo se o direito de proprie-.
masculinidade e prazer sexual é fundamental para a história em
dade da filha é agora uma mera formalidade nos Estados Unidos,
andamento da heterossexualidade como um sistema específico.
Rubin afirma que as mulheres ainda assim não conduzem ao altar,
trocam e traficam homens. Mesmo as mulheres modernas não são Adescrição que Rubin fez em 1975 de um sistema de sexo/gê-
incentivadas a se entregarem - a dispor de seus próprios corpos e nero contrário ao desenvolvimento da mulher sugere que essa ordem
de sua sexualidade - tão prontamente quanto os homens. As opera com uma certa autonomia, à parte da economia e de outros
relações de homens e mulheres ainda são assimétricas.P Rubin sistemas importantes. Seu sistema de sexo/gênero não pode ser
afirma que a troca de mulheres é um conceito analítico importante, entendido apenas como determinado por esses outros sistemas."
porque fofoca a opressão das mulheres dentro dos sistemas sociais, Cada sistema de sexo/gênero tem a sua própria estrutura interna e
em vez de na biologia= De igual modo, contradizer a idéia biológica uma lógica operacional única. Precisamos separar sexo e gênero,
dominante de heterossexualidade nos ajuda a situá-Ia dentro de um diz ela, do modo de produção econômica.
sistema histórico particular. Por outro lado, Rubin é explicitamente a favor de uma economia
Em um parágrafo sobre as teorias psicológicas de Sigmund política do sexo que nos mostrará as ligações entre normas de
Freud e Jacques Lacan, Rubin reflete sobre a construção do desejo relações íntimas, sistemas de casamento e arranjos econômicos e
heterossexual feminino. Aqui, ela descreve como as noções de sexo políticos maiores." Porque os sistemas sexuais não podem ... ser
e gênero, formuladas primeiro como regras sociais externas, pene- entendidos em total isolamento. Nós precisamos, diz ela,
tram no fundo de nossas mentes.
O reconhecimento anterior de Freud de que a menina-filha de uma economia política de sistemas sexuais. Temos de estudar cada
primeiro ama a mulher, sua mãe, contesta, segundo Rubin, a idéia sociedade para determinar os mecanismos exatos pelos quais as
de uma heterossexualidade primordial [feminina]. Como a libido convenções particulares de sexualidade são produzidas e mantídas.l'"
142 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUAUDADE

Nós precisamos, sugere ela, de um relato histórico sistemático que 7


reconheça a interdependência mútua de sexualidade, economia e ,.
política sem subestimar a grande importância de cada uma na A AMEAÇA LESBICA REVIDA
sociedade humana.r" Eu acho que para compreendermos a história
da heterossexualidade é preciso que haja uma análise de sistemas
similares. Algumas Críticas de F eministas-Lavanda *
O final do ensaio de Rubin de 1975 discute as mudanças
estruturais da sociedade necessárias para a realização de seu sonho
de uma sociedade sexualmente igualitária, uma sociedade sem
hierarquia de gênero.102 Seu sonho do sexo futuro inclui a elimina-
ção das sexualidades obrigatórias e dos papéis dos sexos, e a criação
de uma sociedade andrógina e sem gênero (embora não assexuada).
Sua visão é claramente feminista pró-sexo. Em sua utopia erótica a
anatomia sexual de uma pessoa é irrelevante para quem ela é, o que
faz e com quem faz amor. 103 Rubin ainda questiona muito a heteros-
sexualidade.
As feministas liberais e radicais heterossexuais, bissexuais e
Em março de 1970, Betty Friedan foi citada em The New York Times
lésbicas foram as primeiras a fazer uma crítica à sociedade heteros-
Magazine, mencionando a ameaça lavanda, as feministas lésbicas
sexual. Até mesmo Friedan, contrária como era à ênfase das feminis-
tas no erotismo, e temendo como temia criticar explicitamente a • que, segundo ela, davam uma má reputação às outras feministas.' O
ansioso epíteto de Friedan apoiou a acusação antifeminista de que o
ordem heterossexual, exigiu uma análise historicamente específica
das intimidades dos sexos. E ela criticou as definições sexuais movimento feminino era composto apenas por um monte de lésbi-
injustas em nome de um maior desenvolvimento humano. Sem cas. Mas mesmo então as ameaças lésbicas estavam começando a
revidar. .,
nomear precisamente a heterossexualidade, a análise de Atkinson
situou de maneira nova o ato sexual de mulheres e homens dentro Por volta de 1970, análises de uma perspectiva claramente
de u~a instituição social. Millett falou explicitamente sobre a hete- feminista lésbica começaram a mostrar a combinação da supremacia
rossexualidade como um arranjo social. Rubin, lançando a idéia de masculina e heterossexual, algumas até mesmo enfatizando a contri-
um sistema de sexo/gênero, insinuou que a heterossexualidade é um buição causal do domínio heterossexual para o domínio masculino.
processo instituído socialmente. Mais tarde escritoras falando de um As feministas lésbicas enfatizaram o efeito controlador da norma
ponto de vista explicitamente feminista-lésbico aumentaram o nosso heterossexual sobre as mulheres heterossexuais, assim como sobre
insight da organização social e até mesmo histórica do sistema as lésbicas.
heterossexual.
As críticas explícitas das feministas lésbicas à ordem heteros-
sexual favoreceram o rompimento inspirado nas feministas com a
suposição. comum e irrefletida de heterossexualidade. As lésbicas

*Grupo de feministas lésbicas que se distingue por usar camisetas de cor lavanda.
(N.T)
144 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 145

que eram feministas começaram a representar um momento his- paredes cheias de cartazes: LEVE UMA LÉSBICA PARA ALMO-
tórico em que a heterossexualidade foi publicamente questionada. ÇAR; ... O MOVIMENTO FEMININO É UMA CONSPIRAÇÃO DE
LÉSBICAS ... Cercando a estupefata platéia havia 17 mulheres sor-
Revendo o passado, não é de espantar o fato de que as feministas
ridentes usando camisetas cor de lavanda onde se lia em letras vermelhas
lésbicas contribuíram sensivelmente, de seu posto de observação AAMEAÇALAVANDA. Naquele momento o movimento de liberação
particular, para a análise feminista do arranjo social da heteros- feminina se viu enfrentando o medo que o dominara desde o seu início?
sexualidade. Sem refletir muito a respeito, tanto o antí-homossexual
fanático quanto o defensor dos gays e das lésbicas podem presuÍnir Interrompendo o programa da conferência, as críticas estampadas
que toda a crítica feminista à ordem heterossexual tende a ser uma nas camisetas ironizavam a referência de Betty Friedan às lésbicas
criação especificamente lésbica. Mas eu observo que a crítica femi- no movimento feminista.
nista à heterossexualidade não foi totalmente obra de lésbicas, e até Como parte dessa ação, um grupo de lésbicas radicais entregou
mesmo o feminismo anti-homossexual de Friedan inclui uma crítica o seu ensaio ''The Woman-Identified Woman" [A Mulher Identifi-
implícita à ordem heterossexual. cada com Mulher], e esse manifesto foi publicado logo depois no
As mulheres identificadas como heterossexuais, bissexuais e jornal de lésbicas e gays Come Out!, e posteriormente reeditado no
lésbicas contribuíram para as análises feministas liberais e radicais feminista radical Notes from the Third Year - tomando-se um
anteriormente discutidas. Entretanto, mesmo quando feitas por mu- clássicomuito citado do início do feminismo moderno," As lésbicas
lheres que se identificavam como lésbicas ou bissexuais, essas radicais contestaram a ordem heterossexual questionando a divisão
críticas não se posicionavam claramente de um ponto de vista do mundo em mulheres e homens, lésbicas e gays, homossexuais e
feminista lésbico. O debate público sobre a questão permitiu o heterossexuais.
desenvolvimento de uma crítica mais detalhada ligando a suprema- , Os. papéis dos sexos definidos socialmente .e as categorias
cia heterossexual ao domínio masculino. .,
sexuais, dizem as escritoras, são grandes forças.ideológicas que
Esse exame atento de alguns comentários importantes de femi-
levam a relações reprodutivas e eróticas com os homens. A hete-
nistas lésbicas sobre a heterossexualidade - um comunicado lésbi-
rossexualidade e a homossexualidade são proeminentes entre essas
co radical, uma antologia editada por Nancy Myron e Charlotte
categorias suspeitas. A homossexualidade, explicam elas,
Bunch, com análises de Monique Wittig e Adrienne Rich - põe em
foco os insights especiais' e os aspectos problemáticos desse femi- é um subproduto de um modo particular de estabelecer papéis (ou
nismo em particular.ê padrões de comportamento aprovados) com base no sexo; como tal,
,
''',\. " .., é uma categoria que não é autêntica (não corresponde à realidade). Em
, ~~ uma sociedade em que os homens não oprimem as mulheres e a
"O WOMAN-IDENTIFIED WOMAN" DAS LESBICAS RADICAIS expressão sexual pode acompanhar os sentimentos, as categorias da
homossexualidade e da heterossexualidade desapareceriam,"
º
Em' 1 de maio de 1970, trezentas feministas de cidades e opiniões
políticas diferentes se reuniram em uma escola de Nova York para
As escritoras defendem a desconstrução de todos os comporta-
a abertura da segunda Conferência Anual para a União das Mulheres.
mentos rotulados e padronizados, que dizem respeito aos sexos e
Uma narrativa tirada de reportagens da imprensa alternativa des-
sexuais, inclusive da heterossexualidade (masculina e feminina), da
creve o início dramático e inesperado daquele final de tarde his-
homossexualidade masculina e do lesbianismo - deixando espaço
tórico.
para os sentimentos não categorizados. Elas imaginam uma libera-
Subitamente, as luzes do auditório se apagaram. Houve gritos e sons de ção em que os sentimentos, livres das restrições, do condicionamen-
passos arrastados. Logo. as luzes voltaram a ser acesas, revelando to social e dos rótulos, se manifestarão espontaneamente. As lésbicas
146 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 147

radicais rejeitam a reforma da categoria sexual a favor de sua opinião popular, a diferença entre uma mulher de verdade e uma
abolição. Como eu disse, a idéia de uma sociedade sem as categorias lésbica se baseia em sua orientação sexual. Segundo esse modo de
homossexual e heterossexual foi discutida freqüentemente pelos pensar, a essência de ser uma "mulher" é ter relações sexuais com
movimentos de lésbicas e gays no início dos anos 1970. os homens.'
As lésbicas radicais desafiam todas as mulheres a despender as Mas; perguntam as escritoras, as mulheres no movimento femi-
suas energias com as mulheres e o seu movimento de liberdades nista vão manter o sistema de classificação dos homens que define
todas as mulheres em relação sexual com uma outra categoria de
Se o movimento feminino tentar liberar as mulheres sem enfrentar a
pessoasi'" Na análise das lésbicas radicais, a própria classificação
estrutura heterossexual básica que nos prende a relacionamentos com
os nossos opressores, muitas energias continuarão a ser despendidas sexual é feita pelos homens e suspeita.
. tentando consertar cada relacionamento particular, descobrindo como Até mesmo a categoria mulher é suspeita. Como fez Atkinson
ter uma vida sexual melhor e mudar a maneira de pensar de um homem anteriormente, as lésbicas radicais insistem em que as mulheres
- tentando fazer dele o novo homem, na ilusão de que isso nos permitirá rejeitem essa categoria. É preciso descartar esse termo, argumentam
ser a nova mulher.6
elas, para que o grupo ao qual é dado o nome de mulheres possa
afirmar o seu autêntico self. Se nos apegamos à idéia de "ser uma
A nomeação de uma estrutura heterossexual básica, uma ordem
mulher", dizem as escritoras, as mulheres entrarão em conflito com
institucional específica de erotismo de sexo diferente, evidencia o
a sua própria personalidade. Ser feminina e ser uma pessoa inteira
desenvolvimento de uma análise de sistemas sociais da heteros-
é inconciliável, dizem elas. As mulheres devem trabalhar com outras
sexualidãde, um conceito fundamental para a exploração da heteros-
mulheres para criarem um novo sentido de self.l1 Essa nova identi-
sexualidade como histórica.
dade abandonará a mulher. como o seu princípio organizador básico.
As lésbicas radicais rejeitam todas as classificações feitas pelos As escritoras se referem durante todo o seu ensaio a autenticidade,
homens. Elas dizem que até mesmo a lésbica é uma das categorias personalidade, self e humana, usando esses valores a favor da causa
através das quais os homens dividiram a humanidade.' O lesbianis- ., feminista lésbica.P
mo, declaram as escritoras,
Mostrando que as feministas não tinham motivos para temer o
é uma categoria de comportamento possível apenas em uma sociedade lesbianismo, isse ensaio analisa o grande poder de produzir medo
sexista caracterizada por rígidos papéis dos sexos e dominada pela da palavra lésbica, tão freqüentemente usada como uma acusação
supremacía masculina. Esses papéis dos sexos desumanizam as mu- contra as mulheres arrojadas na América do século XX. O poder da
lheres, definindo-nos como uma classe servil em relação à classe
linguagem e da política de classificação é uma parte importante
dominante dos homens ...',s ., -v
, . dessa crítica das feministas lésbicas do início dos anos 1970.
Essas escritoras analisam como a linguagem é usada pelos
As lésbicas radicais sugerem implicitamente o fim da sua própria
homens para manter a supremacia masculina e heterossexual: Lés-
categoria - e o da dos heterossexuais.
bica é um rótulo inventado pelo Homem para toda mulher que ousa
O uso social dominante, dizem as escritoras, distingue uma
ser sua igual, questionar os seus privilégios ... afirmar que as suas
lésbica de uma mulher. Isso quer dizer que uma mulher de verdade
próprias necessidades são prioritâriasP
depende de um homem. A que não depende de um homem não é
uma mulher de verdade. Inclui-se em outra categoria, a das lésbicas, A função política da palavra lésbica é rotular e dividir:
é alguém diferente de uma mulher. Rotular como lésbica não só uma mulher que deseja ser uma pessoa,
\- As lésbicas radicais observam que a distinção entre lésbica e como também uma 'situação de amor verdadeiro, solidariedade e prima-
mulher revela a posição inferior das mulheres heterossexuais. Na zia feminina, é uma forma elementar de dividir as mulheres: ... o termo

"f~
148 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 149

pejorativo e assustador que as impede de formar ligações primárias,


uma crítica para a qual as lésbicas radicais contribuíram com a sua
grupos ou alianças umas com as outras."
proclamação eloqüente e provocadora.

As autoras insistem em que o poder negativo da palavra lésbica


deve ser ativamente contestado, não só pelas feministas lésbicas, o LESBIANISMO DE MYRON E BUNCH
como por todas as feministas:
A antologia Lesbianism and the Women~ Movement, editada por
As mulheres no movimento ... fizeram o possível para evitar discutir e Nancy Myron e Charlotte Bunch, inclui artigos publicados pela
enfrentar o tema do lesbianismo, o que tem feito as pessoas se sentirem primeira vez em 1972-73 por um grupo de feministas lésbicas em
ansiosas. Elas são hostis e evasivas, ou tentam incorporá-Io a um tema Washington, D.C., em seu jornal The Furies.ê
mais amplo. Prefeririam não falar sobre esse assunto. Quando precisam
Esses ensaios nos lembram de que grande parte da crítica
fazê-I o, tratam-no sumariamente como a ameaça lavanda. Mas essa não
é uma questão secundária. É absolutamente essencial para o sucesso do pioneira à heterossexualidade como ideologia e instituição foi de-
movimento de liberação feminina. Enquanto o rótulo lésbica puder ser senvolvida e publicada pela primeira vez na imprensa popular da
usado para assustar uma mulher que não é uma participante tão ativa do facção lésbica e gay do movimento feminista, antes de influenciar
movimento, mantê-Ia afastada de suas irmãs, impedi-Ia de dar priori- CÍrculos maiores através de publicações como a do jornal acadêmico
dade a qualquer outra coisa que não seja os homens e a família - ela
das feministas Signs e dar fama a autoras como Adrienne Rich. O
será controlada pela cultura masculina.P
feito de Rich e Signs não é tomado menor se reconhecermos que
ambos foram incentivados a fazer uma crítica à sociedade heteros-
As lésbicas radicais incitam as mulheres no movimento femini- sexual por debates anteriores em jornais alternativos, feministas e
no não necessariamente a se tomarem lésbicas, mas a ver umas na~ de lésbicas e gays.
outras a possibilidade de um compromisso primordial que inclui o A história pessoal de uma mulher toma concreta a crítica à
sexo. Elas avisam: Enquanto a aquiescência com os homens for ordem hetero feita mais abstratamente por outras escritoras de
primordial-tanto para as mulheres individualmente como para o Furies:
movimento como um todo - o termo lésbica será efetivamente No inverno de 1969-70, diz Coletta Reid, eu me uni a um grupo
usado contra as mulheres. 16 de conscientização ea
um jornal feminino recém-formado. Ela
As escritoras salientam a importância para todas as feministas nunca fizera parte de um movimento político. Com 27 anos, casada
de ~- mulheres se livrarem dos padrões t!e.resposta definidos pelos com um homem a quem ajudara a completar o curso universitário,
homêns - embora não necessariamente de todos os homens: Por-
~ .f.
grávida e com uma criança que estava aprendendo a andar, eu entrei
que não importa a quem dedicamos o nosso amor e as nossas para o movimento feminino- e imediatamente começou a ter idéias
energias sexuais, se em nossas mentes estivermos identificadas com extravagantes:
os homens não poderemos nos dar conta da nossa autonomia como
seres humanosl" Se "The Mylh of lhe Vaginal Orgasm" (O Mito do Orgasmo Vaginal)
era verdadeiro, então o ato sexual não era necessário ou mesmo rele-
De passagem, as autoras observam que a lésbica geralmente vante para a minha satisfação sexual." Se "Sexual Politics" (A Política
conhece mais cedo que as suas irmãs straight (heterossexuais) a Sexual) estivesse certa quando afirmava que a sexualidade masculina
solidão essencial da vida (oculta pelo mito do casamentotP A era uma expressão de poder e domínio, então eu estava escolhendo a
necessidade de esclarecer entre parênteses que straight significa minha própria opressão tendo um relacionamento com um homem. Se
os papéis dos sexos eram uma invenção da sociedade, então as mulheres
heterossexual coloca esse ensaio no passado, em uma sociedade em
- não apenas os homens - podiam ser amadas, no sentido mais amplo
que a crítica pública à heterossexualidade estava apenas começando, dessa palavra.ê!
150 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 151

Se os papéis dos sexos fossem vistos como uma invenção, não de- uma instituição opera em benefício dos homens.ê Dada a natureza
moraria muito para a sexualidade, e até mesmo a heterossexuali- institucional da heterossexualidade imposta, as mulheres apenas
dade, serem vistas como tal. pareciam escolher .a heterossexualidade. Na verdade, eram pres-
.Como o homem com quem ela estava casada realmente consi- sionadas para fazê-Ia. Ela percebeu que devido a essas pressões o
derava os homens superiores, Reid logo pediu ao seu marido para lesbianismo é um ato de rebeldia individuol.ê
ir embora; ele ficou com o nosso filho e eu fiquei com a nossa filha:22 O mundo futuro que Reid imagina é um universo que não se
Na época' em que deixou o marido, diz Reid, ela não se via como preocupa com as divisões eróticas de mesmo sexo e sexo diferente:
uma separatistallésbica.ê Enquanto estava casada, ouvira o termo
Em um mundo livre do poder masculino e, portanto, dos papéis dos
privilégio heterossexual, mas nunca entendera realmente como
sexos, com quem você vive, faz amor e está comprometido seria
aquilo funcionava. Contudo, quando começou a se assumir como
irrelevante. Todos nós seríamos iguais e teríamos o mesmo poder de
lésbica, viu sua denominação anterior de heterossexual do ponto de decisão a respeito da sociedade e de como ela satisfaz às nossas
vista de uma pessoa privada dela: necessidades.

Quando eu era heterossexual, era aceita como normal por minha família,
meus amigos e conhecidos. Mas quando comecei a pôr a mim mesma Ela conclui: até isso acontecer, como usaremos a nossa sexualidade
e a outras mulheres em primeiro lugar em minha vida, fui vista como e os nossos corpos é tão relevante para a nossa liberação quanto
antinatural, imoral, pervertida, repugnante, doente ou uma fascista como usamos as nossas mentes e o-nosso tempo.ê"
sexual.i" (00') Quando tentei viver explicitamente como uma lésbica,
comecei a perceber os privilégios aos quais não dera valor quando
No caso de Reid, o pesadelo do ultraconservador tornou-se
casada. realidade. A esposa heterossexual se transformou em uma militante
+.
feminista lésbica indignada.
Reid começou a questionar a naturalidade dos arranjos construídos O ensaio de Margaret Small, condensado de uma palestra dada
em torno do erotismo, dos sexos, da reprodu~ão e do trabalho: no início dos anos 1970, discute a ideologia heterossexual como um
apoio à supremacia masculina." Small mostra o trabalho sem nome,
Os homens usaram o fato natural de que a mulher reproduz a espécie gratuito e pouéo valorizado que as mulheres fazem para os homens
para construir uma ideologia que afirma que a maternidade, a heteros-
no casamento. Ela diz que o trabalho feminino é especificamente a
sexualidade, o casamento, a família, o serviço doméstico e uma posição
inferior no mercado de trabalho são naturais.P procriação e a socialização dos filhos, a dedicação física e emocional
,.. \. aos maridos - alimentando-os e praticando o ato sexual com eles.
.·i

Reid diz que o insight de que a heterossexualidade, em particu- Os homens justificam essa organização do trabalho feminino
lar, é construída socialmente era uma idéia nova: favorável a eles por meio de um princípio, a ideologia da heteros-
sexualidade, que afirma que é natural para as mulheres ... cuidar
Nas primeiras análises feministas, todas essas construções naturais
dos homens. Aheterossexualidade não é apenas relacionada com a
foram contestadas, exceto a heterossexualidade. O início do feminismo
aceitou como axioma que sexualidade natural era heterossexualidade;
fecundação, mas também com a ideologia dominante que define as
que a relação sexual natural era vaginal; e que a sexualidade feminina mulheres como apêndices dos homens. Não é a reprodução em si
devia ser direcionada para os homensr" que determina a organização social que coloca os homens acima das
mulheres. A ideologia da heterossexualidade é que faz isso, não o
Mas Reid aprendera que a sexualidade feminina não é de forma simples ato sexual,32Ver a heterossexualidade como uma ideologia
alguma natural ou necessariamente ligada ao pênis ou à penetração - uma idéia política influente - foi um passo importante para
penianaF' Passou a compreender que a heterossexualidade como questioná-lá. E distinguir uma heterossexualidade definida social-
152 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A AMEAÇA LÉSBICA REVI DA 153

mente dos atos sexuais reprodutivos de mulheres e homens é fun- As lésbicas revolucionárias, admite Small, ainda não criaram uma
damental para a análise da história heterossexual. visão alternativa das relações de homens e mulheres.
A ideologia: heterossexual, continua Small, A mudança que ela deseja não exige que as mulheres se tornem
lésbicas:
é a estrutura básica que determina a vida de uma mulher desde os
primeiros momentos em que ela aprende a observar o mundo, o qual lhe ,. Eu acho que a questão é como todas as mulheres irão se entender. Se a
diz o que é natural fazer e ser. ideologia da heterossexualidade puder ser posta à mostra e criticada, e
for possível criar uma ideologia alternativa, não sei ao certo o quanto
seria importante todas as mulheres pararem de ser heterossexuais.
Small acrescenta: Porque o modo como uma mulher entenderia o que significa ser
heterossexual seria totalmente diferente.

A hegemonia heterossexual assegura que as pessoas acharão natural o


homem e a mulher formarem uma unidade sexual/reprodutiva por toda Uma crítica à ideologia heterossexual, argumenta ela,
a vida com a mulher pertencendo ao homem ... Agora você vai e Ihes diz
que poderia haver outro objetivo na vida, que a sexualidade pode ser em última análise reduz a heterossexualidade a um ato no momento da
totalmente separada da reprodução, que a reprodução poderia ser orga- fecundação. Se você for ter um bebê, haverá um papel para a heteros-
nizada de um modo completamente diferente, e elas apenas riem e dizem sexualidade. Se desenvolvermos outros modos de ter bebês, então o que
que você está falando sobre marcianos. A hegemonia heterossexual a heterossexualidade é se tomará irrelevante.i"
assegura que as pessoas nem mesmo perceberão que poderiam haver
outras possibil!dades.33
Em minha opinião, Small está certa em relação ao quanto é
difícil nos livrarmos da forte sensação de que a heterossexualidade
As lésbicas, afirma Small, estão fora da realidade que a ideo- é inevitável. Mas eu acho que ela está errada em sua afirmativa
logia sexual explica. Por isso as lésbicas têm o potencial para histórica de que as suposições da ideologia heterossexual existem
desenvolver uma ideologia alternativa, não limitada pela heteros- há muito mais tempo do que a ideologia burguesa." Nossa forte
sexualidade/" sensação de que a heterossexualidade é necessária deve-se não à
A ideologia heterossexual limita a nossa visão de uma comuni- longa existência da categoria heterossexual, ou à eternidade do
dade erótica alternativa, salienta ela, do mesmo modo que a ideolo- sistema heterossexual. Deve-se simplesmente à força da estrutura
gia burguesa aceita naturalmente a organização social do capitalis- social vigente da heterossexualidade, e ao poder de seu dogma de
mo, impedindo a consciência de uma possível alternativa viável para tornar as nossas mentes incapazes de pensar em arranjos alternativos
esse sistema de produção. E como as suposições da' ideologia dos sexos, e em ordens eróticas alternativas.
heterossexual, diz ela, existem há muito mais tempo do que a Small sugere que a heterossexualidade deixe de designar gene-
ideologia burguesa, são ainda mais difíceis de questionar: ricamente todos os tipos de intimidade entre homens e mulheres.
Dessa forma, ela quer reduzir a heterossexualidade a um nome para
Você tem de criar o espaço que fica fora de todas as suposições da um arranjo da atividade reprodutiva limitado historicamente. Sua
heterossexualidade - sobre a família, o casamento, a maternidade, o idéia é privá-Ia de seu status misterioso e eterno, deixando claro que
serviço doméstico, a criação dos filhos, o estupro, a ilegitimidade, o
é um indicador de um arranjo histórico particular da reprodução
estado de solteira, tudo que tem a ver com os relacionamentos entre
homens e 'mulheres. Ficar fora da ideologia sexual, e desenvolver um
humana. Não lhe ocorre que a heterossexualidade pode significar
modo alternativo em que os relacionamentos homens-mulheres pode- um sistema distinto da ordem reprodutiva - um 'àrranjo historica-
riam existir, é um ato extremamente críatívo." mente específico dos sexos e de seus prazeres.
(
\
I~:~~~ - --- -
154 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 155

Small termina seu ensaio dizendo que novas idéias sobre a identidade humana. A heterossexualidade feminina está ligada à
sexualidade não mudarão, por si sós, as nossas mentes em relação negação da mesma identidade/" As mulheres heterossexuais são
ao seu poder eterno de permanência. Somente a luta coletiva contra treinadas para buscar nos homens aprovação e uma compreensão
II1I1111
a supremacia masculina e o domínio heterossexual farão isso." básica de si mesmas.
I1
"The Normative Status of Heterosexuality" (O Status Normati- Nossa cultura faz a heterossexualidade parecer um destino
i,,: vo da Heterossexualidade) é o título audacioso de um ensaio incluído inevitável, dizem as holandesas. Então você não pode convencer
nessa antologia por um grupo de feministas lésbicas holandesas que alguém de que é heterossexual por opção/? Mas se a heteros-
editam um jornal chamado Purple September/" sexualidade fosse inevitável como afirma a ideologia dominante,
I Nos anos 1970, a idéia de que a heterossexualidade possuía um ninguém se daria ao trabalho de condicionar os filhos a serem
status normativo era nova. O quanto o era é indicado pela neces- heterossexuais, e a cultura não precisaria de seus tabus com rela-
sidade das ensaístas de afirmá-Ia repetidamente e insistir em que as ção... à homossexualidade/ê
feministas lésbicas e heterossexuais a analisassem. Ser gay não determina a sua visão da heterossexualidade como
1,11'" Desde a primeira metade dos anos 1970 as feministas (es- uma norma, dizem as autoras:
pecialmente as lésbicas) têm feito pressões para que seja desenvol-
I rejeitar os relacionamentos heterossexuais em sua vida pessoal não é o
I
vida uma análise da heterossexualidade como uma norma. Podemos
mesmo que analisar a norma que tomaria todas nós mulheres heteros-
então perguntar por que, nos meados dos anos 1990, a análise ainda sexuais. Mas do modo como as coisas estão agora, nem todas as
se encontrava tão pouco desenvolvida. O efeito de um grande tabu, lésbicas-lavanda nem as suas correligionárias heterossexuais parecem
argumento eu mais tarde, mantém a heterossexualidade fora da prontas para ao menos discutir criticamente a heterossexualidade nor-
análise. mativa. Em vez disso, elas se unem na luta contra as conseqüências de
uma norma que por um acordo tácito não é díscutida."
As feministas lésbicas doPurple September sugerem um moti-
I .. vo pelo qual a heterossexualidade normativa da sociedade é sis-
tematicamente excluída das análises feministas da opressão das As holandesas
mulheres. As feministas não analisam essa norma porque a pressão
rejeitam o statusnormativo da heterossexualidade, mas não a heteros-
social para a heterossexualidade não é dirigida exclusivamente às sexualidade como um tipo de relacionamento entre outros tipos pos-
mulheres: síveis. Nós não duvidamos de que há relacionamentos heterossexuais
que tiram o seu significado e conteúdo das pessoas envolvidas, e não
Os garotos são tão condicionados para a heterossexualidade quanto as apenas da norma.
garotas-Um homem e uma mulher 'de verdade' são heterossexuais. Um
gay é (supostamente) efcrninado, uma lésbica (supostamente) masculi-
nizada. A norma hetero se aplica a ambos os sexos e por isso não é Mas mesmo nesses relacionamentos o homem sempre tem a opção
considerada parte do condicionamento feminino." de recair no comportamento "masculino", forçando assim a mulher
a recair no condicionamento [eminina= O privilégio masculino é
Mas a pressão para tornar-se heterossexual, argum~ntam as uma opção tentadora mesmo para os homens liberados.
escritoras, só é aparentemente semelhante para homens e mulheres. As autoras concluem que a norma straight não é realmente uma
I
I Embora ambos os sexos sejam expostos a um condicionamento norma sexual; mas um meio eficaz de perpetuar o relacionamento
I heterossexual, isso não impede que o conceito de heterossexua- de poder entre os sexos." Elas não consideram que a heteros-
lidade tenha significados opostos para mulheres e homens. A hete- sexualidade funciona simultaneamente como um incentivador da
rossexualidade masculina está ligada à prerrogativa masculina de supremacia heterossexual e um provedor da supremacia masculina.
l~'",-IP ~ """"
II
A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 157
156 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

Em sua introdução para essa antologia, suas editoras, Myron e da heterossexualidade é complexo e abstrato, mas suas especulações
Bunch, salientam que as lésbicas foram pioneiras na análise do audaciosas podem nos ajudar a ver a ordem heterossexual como
ti III1 domínio heterossexual: histórica.
,11/1
No primeiro de seus ensaios, "The Category of Sex", Wittig já
As lésbicas foram as primeiras a perceber que contestar a heteros- nomeia explicitamente a sociedade heterossexual e a sua economia
sexualidade era necessário para a sobrevivência das feministas. Con-
tudo, as feministas heterossexuais também podem analisá-Ia e lutar
.. heterossexual, definindo-as como organizações desiguais de poder
r.
contra ela como uma ideologia e uma instituição que oprime a nós todas. "! de sexos diferentes. 51 Esses termos rejeitam o status supostamente
O problema é que poucas têm feito isso, o que perpetua o medo das não-problemático da heterossexualidade, levando adiante o projeto
lésbicas de que o fato de as mulheres permanecerem presas aos homens intelectual de muitas feministas: tirá-Ia da esfera do que não é
as impeça de perceber a função da heterossexualidade e tentar dar um discutido, da arena do exclusivamente individual e psicológico, e do
fim a ela.47 domínio do biológico. Ela rejeita a idéia da heterossexualidade como
algo-no-corpo para analisá-Ia como um sistema social problemático.
'IIII!
I "
Myron e Bunch estão menos preocupadas com se cada mulher "f
Na análise de Wittig, a distinção entre os sexos feminino e
se torna pessoalmente uma lésbica do que com a eliminação da
masculino, embora se refira a indicadores biológicos, é basicamente
heterossexualidade como uma parte crucial da supremacia mascu-
social. Ela questiona a distinção feminista usual entre o sexo deter-
lina.48 Sua hipótese de que a heterossexualidade pode ser eliminada
minado biologicamente e o gênero determinado socialmente. Insi-
presume o seu caráter não essencial.
nua que o sexo anatômico e o gênero feminino e masculino são
As editoras afirmam que a Liberação Feminina está sem rumo
distinções produzidas socialmente com efeitos negativos para as
agora porque não conseguiu compreender a importância da hete-
chamadas mulheres. Isso contesta a nossa suposição comum e
rossexualidade na preservação da supremacia masculina." Eu
sensata de que a categoria do sexo e as características físicas
creio que, nos anos 1990, contestar a organização social da heteros-
particulares constituem uma distinção natural necessária entre os
sexualidade continua a ser uma tarefa política importante, assim
seres humanos. Nós presumimos a diferença entre os sexos como se
11!1i
como um desafio intelectual.
ela surgisse automaticamente dos corpos, da biologia ou da natureza,
:11' como se as práticas e os julgamentos humanos não servissem de base
"THE STRAIGH MIND" DE WITTIG para as nossas distinções. Presumimos erradamente que as diferen-
ças entre os sexos são simples, evidentes e ínequívocas."
Em 197.1, Monique Wittig, novelista e teórica feminista lésbica,
Nossa suposição de sexos diferentes, salienta Wittig, exclui
começouuma série de pequenos e provocadores ensaios sobre a
, indagações sobre a base social dessa diferença, e a sua necessidade
heterossexualidade como regime político. Essa série de ensaios
eterna. Presumindo a existência de sexos diferentes, deixamos de
constitui um dos maiores e mais explícitos comentários críticos : questionar a variedade de padrões que os seres humanos têm usado
sobre a heterossexualidade como uma prática organizada de poder
para distinguir os sexos, com objetivos diferentes e em sistemas
desigual em que os homens dominam as mulheres e os heteros-
'1Iji' sociais e épocas diferentes. Por exemplo, não usamos a diferença
sexuais dominam os homossexuais. Suas especulações sobre o
entre os sexos como uma distinção operativa nas práticas de contra-
império heterossexual visam nos conduzir para fora dele, para que
tação de empregados independentemente de seu sexo determinadas
possamos subitamente vê-lo como algo estranho e intrigante.
pelas proibições recentes de discriminação sexual.
Uma leitura atenta de seus ensaios esclarece os pontos de vista
corajosos e que se opõem à intuição sustentados por essa teórica, e Ela argumenta que o nosso uso de características biológicas
mostra alguns aspectos problemáticos de sua análise. 50 Seu exame particulares para indicar os sexos faz a diferença entre homens e

tlJ,1 ,
['fflil

158 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 159

!L"
['
, I. mulheres parecer natural e inevitável, e ajuda a manter o poder social fêmeas e machos: A distinção sexual está na base da sociedade
,~
desproporcionado dos homens sobre as mulheres. Em particular, a (heterossexualj/" O contraste homo/hetero presume e esconde a
distinção homem/mulher confirma o lugar restrito das mulheres - oposição entre mulheres inferiores socialmente e homens superiores
determinado culturalmente - na divisão sexual do trabalho repro- civilmente. Então a eliminação das diferenças entre os sexos signi-
dutivo. As diferenças entre os sexos se originam de uma ordem ficaria o fim do binário homo/hetero.
ideológica, econômica e política, diz Wittig.53 Mas qual será o destino das lésbicas quando as distinções
A categoria do sexo, conclui ela, relativas aos sexos e a oposição hetero/homo forem eliminadas?
Wittig explica que as mulheres são definidas apenas em relação aos
domina as nossas mentes de tal modo que não conseguimos pensar fora
homens. As lésbicas não são definidas em relação aos homens." Sua
dela. É por isso que devemos destruí-Ia, começar a pensar além - se é
que queremos começar a pensar - e eliminar os sexos como uma
conclusão lógica foi anunciada dramaticamente em 1978, na última
realidade sociológica. A categoria do sexo é a categoria que determina frase de uma palestra dada na Associação de Linguagem Moderna:
a escravidão para as mulheres ...54 As lésbicas não são mulheres=
O lesbianismo é algo mais que sexo, explica ela, muito mais que
Wittig reconhece que pôr fim à ênfase social em feminino e a homossexualidade e a sexualidade= Ela acrescenta: O lesbianis-
masculino também poria fim a mulher e homem. Para as feministas mo se abre para outra dimensão do humanos" Separando as lésbicas
que desejam manter a categoria mulher, ela pergunta: do sexo e da sexualidade, ela as coloca fora da sociedade heteros-
sexual, em um outro universo."
Podemos resgatar escravo? Podemos resgatar negro, negra?
Em que mulher é diferente?55 Wittig diz que a equiparação de heterossexualidade a reprodu-
ção é um meio social e conceitual importante de normalizar a
Ela argumenta que mulher, primeira, fazendo-a parecer inevitável. Ela argumenta que identifi-

como escravo, é... um conceito irrecuperável. A verdadeira mulher deve


o
car heterossexual com o reprodutivo e o normal foi o trabalho
particular de um modelo científico freudiano relativamente recente
desaparecer, assim como o verdadeiro escravo depois da abolição da
escravatura ...56
de sexo procriativo adequado. O conceito da heterossexualidade foi
criado na língua' francesa em 1911 e, afirma ela, admite como
o homem, indica ela, teria de seguir o caminho de dono de escravos normal apenas a sexualidade que tem um fim reprodutivo. Acres-
e senhof57 As oposições homem/mulher, senhor/escravo, sugere, centa: Tudo o mais é uma perversão ...66
resultam.dos sistemas sociais de domínio e os'apõíam." Mas a própria análise de Wittig é vítima da equiparação de
Mas o que aconteceria com a liberação feminina se mulheres heterossexualidade a reprodução. A sociedade heterossexual se ba-
e mulher não estivessem disponíveis como um ponto de reunião seia na procriação obrigatória das mulheres, insiste ela.67 Wittig diz
para as tropas feministas? Wittig responde distinguindo mulheres que a heterossexualidade é dominada por sua causa final; a repro-
que lutam pelas mulheres como uma classe (um conceito feminis- dução.68 Eu acho que essa é uma interpretação fundamentalmente
ta estrategicamente útil) e mulheres que lutam por "mulher" errada da história heterossexual e que o aparecimento da norma de
como um conceito essencialista (um movimento antifeminista, prazer hetero rompeu com o modelo anterior de reprodução. ,
porque a mulher eterna é uma idéia inseparável da subordinação Aordem heterossexual cultua não a procriação, mas a diferença
femininaj.t? entre os sexos e o erotismo. Wittig de fato analisa essas diferenças
Wittig também reconhece que a distinção homossexual/heteros- de sexo e gênero, a parte hetero da heterossexualidade.Mas ela não
sexual depende da distinção anterior entre mulheres e homens, apresenta uma análise adequada da parte sexual, erótica. Discutindo
;;11"

160 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUAL1DADE A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 161

a heterossexualidade como um regime político, afirma ela, oprazer contrato heterossexual. Quando nós meramente vivemos na hete-
sexual não é a questão aqui.69 Eu creio que é metade dela.?" rossexualidade, concordamos com esse contrato e suas regras."
O prazer, diz Wittig, está essencialmente fora do sistema repro- Ela começa a mostrar com precisão a estranha propriedade de
dutivo heterossexual, dentro da ordem erótica homossexual. O visibilidade e invisibilidade do sistema heterossexual. Por exemplo,
prazer pelo prazer, sugere ela, distingue a subjetividade das lésbicas os códigos de casamento americanos tradicionalmente se referem a
e dos homossexuais masculinos da dos heterossexuais, envolvidos um marido e uma esposa (pessoas de sexos diferentes). Mas apenas
'://i" I
',' como estão com o seu sistema reprodutívo." Para os homossexuais a partir dos anos 1970 muitas contestações legais de defensores dos
li a sexualidade não tem outra finalidade... além do seu próprio direitos de gays e lésbicas atraíram atenção para os privilégios
exercício; está acima de tudo que diz respeito à busca do prazer e à implícitos de relações heterossexuais em função da restrição do
criação de um ser únicoí? Mas eu acho que a sexualidade como casamento aprovado pelo Estado para sexos diferentes (e, ostensi-
II
busca do prazer e da subjetividade não fornece uma base clara para vamente, para os com desejos heterossexuais). Aheterossexualidade
I distinguir heterossexual de homossexual.
O ensaio de Wittig, "The Straight Mind", expondo e desmis-
como uma instituição não tem uma existência clara, e no entanto
funciona poderosa e invisivelmente como qualquer lei escrita." O
tificando as formas de pensamento heterossexual proeminentes, foi heterossexual de Wittig imita o personagem principal do filme The
a palestra com a qual ela provocou a Associação de Linguagem lnvisible Man. Quando ele remove as bandagens que definem a sua
forma, desaparece.
III"
Moderna em 1978. Seu título se refere ironicamente a The Savage
Mind, de Claude Lévi-Strauss, mas reverte satiricamente a as- Wittig diz que quando tentamos definir a heterossexualidade
sociação usual de civilizado com heterossexual. Aexistência de algo descobrimos que ela nos escapa: Eu enfrento ... uma forma ideoló-
como uma mente straight -um conglomerado mental de todos os I gica que não pode ser alcançada na realidade, exceto através de
I' tipos de disciplinas, teorias e idéias atuais - foi uma idéia nova.P seu efeito, cuja existência está na mente das pessoas, mas de um
t
Essa amazona das letras deu nome à guerra que precisa ser modo que afeta todas as suas vidas, o modo como agem, se movem
travada contra a suposição da mente straight - a suposição não e pensam.t?
I1 questionada de heterossexualidade." Anos depois de seu apelo Ela argumenta,que tratamos a heterossexualidade como axio-
original, a suposição de heterossexualidade ainda ilustra o poder do mática, e essa suposição impede que ela seja examinada, o que
pensamento straight. provoca um silêncio constantemente repetido na prática. Salienta: A
Os discursos sobre a heterossexualidade, diz ela, impedem que heterossexualidade é tratada como se sempre tivesse estado presente
Iésbicas.igays e feministas falem, a menos quç falemos em seus em todas as categorias mentais - por isso nunca é questionada.ê"
termos. Esse discurso dominante nega a esses' grupos todas as Normalizar a heterossexualidade é outra medida conceitual que
II possibilidades de criarmos as nossas próprias categorias. Tudo que ajuda a evitá-Ia como um estudo especificamente social. O relacio-
põe em dúvida o discurso dominante é imediatamente menos- namento heterossexual, diz ela, é sempre excluído do social na
prezado como elementar. Quem põe em dúvida o discurso heteros- análise, tratado como uma parte essencial da natureza que resiste
sexual, insinua ela, é desprezado pela crueza analítica que demons- a ser examinada."
tra, e a acusação de ingenuidade põe fim às indagações.P Universalizar a heterossexualidade é outra manobra mental
Wittig começa a mostrar os modos particulares como ideologias comum que impede a sua análise crítica. A mente straight não
l
II específicas protegem a heterossexualidade de indagações básicas.?" concebe ... uma sociedade em que a heterossexualidade não regula-
Ela mostra as regras e convenções que nunca foram formal- 'I ria não só todos os relacionamentos humanos, como também a sua
mente declaradas, mas que ainda assim constituem os termos do própria produção de conceitos e todos os processos que escapam à

lJ ~.
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162 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE A AMEAÇA LÉSBICA REVI DA 163


111"1'1·-
consciência= Como o feminino eterno, o heterossexual eterno instituição na .qual os homens e os heterossexuais exercem poder
presume que a heterossexualidade é a base de toda-sociedade= E sobre as mulheres e os homossexuais.
'::1 I
,
A grande opressão dos indivíduos através dos discursos é
se a heterossexualidade é inevitável, não vale a pena pensar nela,
i'l porque nadá pode ser feito quanto a isso.
O poder da tendência a universalizar é ilustrado pela própria
ilustrada, por Wittig, pela pornografia, que ela apresenta como uma
forma de violência contra as mulheres." Ela diz que a pornografia
"iillll tem um significado, um só significado. Para as mulheres, o discurso
Wittig sucumbindo a ela quando equipara o relacionamento heteros- .
.1111,1 sexual ao de homem e mulher= Com essa equiparação o universaÍ' pornográfico... humilha, degrada. A pornografia é uma tática de
I, :11
retoma com o biológico. Identificar os relacionamentos homem-mu- ~ agressão, que funciona como aviso, nos ordena que fiquemos na
,! lher com a heterossexualidade admite as noções mistificadas domi- linha, provoca medo.
nantes do século XX. Essa equiparação ignora o sistema histórico Quando as feministas se manifestam contra a pornografia, diz
'11"['111 específico que determina os relacionamentos na instituição particu- Wittig, são criticadas pelos acadêmicos por confundir discursos com
I",,
lar a que chamamos de heterossexualidade. a realidade, imagens com a vida. Os críticos acadêmicos das femi-
nistas antipornografia, declara ela, não percebem que a pornografia
I ~I"II O universal também retoma na análise de Wittig quando ela
é realidade para nôs'"
equipara sociedade a heterossexualidade. Embora ela a princípio
rejeite a suposição de que a base ou o início da sociedade está na Em 1978~ quando Wittig discutiu a pornografia publicamente
heterossexualidade, mais tarde afirma que viver em sociedade é pela primeira vez, o movimento feminista antipornografia estava
11111'11

viver em heterossexualidadeP Mas se uma heterossexualidade ge- apenas começando. Mas nos anos 1980 e 1990 uma análise como a
nérica for equiparada a uma sociedade genérica será difícil ver o dela tomou-se o argumento típico das feministas antipomografia que
1:1 se uniram aos ultraconservadores e ao Direito Cristão para tentar
heterossexual como uma construção histórica específica, e imaginar { ~
aprovar leis antipornografia e engajar o Estado (e seus represen-
uma ordem alternativa. 'r
)11"1111'
tantes em sua maioria do sexo masculino) em uma cruzada de pureza
I I,' !II Wittig também protesta contra a interpretação conjunta de 1
social.P Mais recentemente, as feministas pró-sexo, anticensura e
história, realidade social, cultura e linguagem, que eterniza a hete- -i
\ os defensores da liberdade de expressão salientaram que a porno-
rossexualidade - outra manobra comum para impedir a reflexão." grafia, em suas múltiplas variedades e com os seus efeitos com-
'~111
! .1 Mas a sua própria análise fica sujeita a uma heterossexualidade plexos (por exemplo, para as feministas e os chauvinistas, os homos-
1
'~~'II eterna." Às vezes ela escreve como se o conceito e a ordem social sexuais e heterossexuais, os sadomasoquistas e as pessoas com
da heterçssexualidade fossem antigos, referindo-se, por exemplo, a ~ preferências sexuais comuns, educativos e objetivadores), fornece
Ovídio fazendo Safo entrar na linha ao torná~la a heroína de um um exemplo bastante ambíguo da grande violência praticada pelo
romance heterossexual= Wittig cita a existência de uma cultura discurso heterossexual. As donas de casa heterossexuais felizes,
L~
lésbica.na Grécia antiga para demonstrar que existia naquela época descritas como estúpidas em milhares de comerciais da TV, po-
111111,1
uma alternativa para o que chama de sociedade heterossexual - dem ser citadas como exemplos mais freqüentes, insidiosos e pre-
uma ordem aparentemente eterna.ê? [udíciais.P
, 111\'.1

"1,1
Ela salienta que a heterossexualidade também escapa às in- Wittig salienta que a sociedade straight se baseia na neces-
I"
I: dagações, através de uma estratégia conceitual que a desmaterializa, sidade do outroldiferente." Para os heterossexuais se verem como
11
reduzindo-a a Idéias Irreais. Essa desmaterialização é conseguida normais, os homossexuais devem continuar a ser-anormais. Ela diz
111:ti,
quando as pessoas falam sobre a heterossexualidade como apenas que a sociedade hetero exige vários outros diferentes - não apenas
', uma questão de palavras e _conceitos, e não também como uma um desejo sexual diferente, mas um sexo e uma raça diferentes. Mas
llll
1 li
I
I
,.I!
u
A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 165
164 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

embora as mulheres e as pessoas de cor sejam constituídas como dados como uma instituição política, através da economia, como
diferentes, os homens não são diferentes, assim como não o são os também da propaganda cultural da heterossexualidade.102
brancos e os senhores. Wittig argumenta que todas essas diferen- Como sugere o "Compulsory" no título de Rich, ela se concentra
ças são estabelecidas pela relação social original de dominador e nos muitos tipos de intensa pressão que a sociedade exerce sobre as
dominado." mulheres para garantir que a heterossexualidade se torne o destino
Wittig sugere que aqueles que não aceitam o contrato social. comum de seu sexo.
heterossexual podem quebrá-Io --'- esposas podem fugir de maridos, Por exemplo, um romance heterossexual ideal é representado
mulheres podem tornar-se Iésbicasf" Ela insiste em que as mulheres como a grande aventura feminina, dever e realização.103 Isso signi-
(e os homens?) abandonem a sociedade heterossexual uma a uma, fica que os aspectos negativos dos relacionamentos íntimos das
se necessário, como os escravos que fugiram da escravidão." Mas mulheres com os homens são muito menos divulgados. A revolu-
os escravos americanos tinham um lugar para fugir: os estados livres ção sexual e o seu ideal de mulher erótica também sujeita as mu-
e o Canadá, fora do sistema escravista. Onde fica a zona livre fora lheres a seus dominadores.
da supremacia heterossexual? Os homens também negam às mulheres o seu próprio prazer
Ela diz que a idéia da heterossexualidade como uma obrigação único e autônomo, prendendo-as a eles. Rich cita a remoção cirúr-
é afirmada por todo o mundo. Opondo-se a essa obrigação está gica do c1itóris e também a negação deste pelos freudianos; a pena
apenas a visão efêmera e indistinta da heterossexualidade como de morte para o adultério feminino e a sexualidade lésbica; as críticas
uma armadilha, um sistema político forçados" O poder dessa obri- à masturbação feminina e a destruição de provas documentárias da
;gação é tanto que mesmo essa feminista lésbica iconoc1asta não história do lesbianismo.l'"
escapa totalmente dele. Uma compreensão historicamente especí- Alguns homens impõem às mulheres atos agradáveis apenas
fica da heterossexualidade fornece uma consciência de uma alterna- para eles. Além de estupro e incesto, Rich cita descrições pornográ-
tiva possível. ficas de mulheres reagindo satisfatoriamente a violência sexual e
humilhaçãoF"
Rich diz que com essa coerção a heterossexualidade não é
"COMPULSORY HETEROSEXUALlTY" DE RICH
adequadamente chamada de escolha ou preferência. Esses termos
"Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence" (A Heteros- sugerem um livre acesso a possibilidades alternativas. Aidéia de que
sexualidade Compulsória e a Existência Lésbica), da poeta e ensaísta a heterossexualidade é escolha das mulheres esconde as forças
Adrienne ~ich, foi publicado em 1980 em Signs;,g periódico femi- sociais que convergem para as mulheres com o intuito de heteros-
nista.?? Um dos primeiros ensaios em um periódico tão respeitável sexualizá-las.P"
e acadêmico, de uma autora tão conceituada, a colocar heteros- Rich critica especificamente o modelo construcionista-social
sexualidade em seu título e torná-Ia o tema principal e explícito de freudiano segundo o qual uma garota se torna heterossexual quando
análise crítica, o Heterosexuality de Rich foi uma palavra provoca- interage livremente com outras pessoas importantes em sua vida.
dora - totalmente à parte de Compulsory. Pelo simples fato de Como as mulheres estão sujeitas ao poder maior dos homens e dos
nomear a heterossexualidade o seu principal objeto de análise, Rich heterossexuais, esse processo na verdade é coercitivo.
contestou o usual tratamento silencioso dessa norma.P' Ela também critica o modelo biológico que coloca a heteros-
. Adrienne Rich menciona repetidamente a instituição da hete- sexualidade como uma orientação inata predeterminada.
rossexualidade e o poder saturado da ideologia da heterossexuali- Isto nega efetivamente as pressões sociais sobre as mulheres,
dade.l'" os quais, assim como' a maternidade, precisam ser ... estu- que as empurram para a heterossexualidade.v"

~
1I
A AMEAÇA LÉSBICA REVIDA 167
166 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

no que diz respeito à grande variedade de relacionamentos que


Em contraste com essa heterossexualidade imposta, ela des-
creve uma existência identificada com mulher resistente e voluntá- envolvem intimidade e apoio entre mulheres.
ria, caracterizada por várias formas de intensidade primária entre Em uma sociedade heterossexual dominante, um silêncio es-
as mulheres. 108 Ela apresenta a identificação com mulher como uma pecialmente profundo nega a grande intimidade existente entre as
escolha para as mulheres, livremente mantida contra a compulsão mulheres chamadas de lésbicas.1l2 Ela diz que até mesmo a heteros-
hetero dominante. Como opostas, as alianças íntimas com mulheres sexualidade sádica é apresentada como mais "normal" que a
se baseiam em seus próprios sentimentos autênticos. Mas essas sensualidade entre mulheresP?
intimidades resistentes das mulheres não são também determinadas Rich salienta que a heterossexualidade deve ser situada no
fundamentalmente pelo regime heterossexual compulsório contra o tempo: Os historiadores precisam perguntar em todos os pontos
qual elas lutam? como a heterossexualidade como instituição foi organizada e man-
Rich chama o problema principal das mulheres de heteros- tida.1l4Mas ela equipara heterossexualidade à união de mulheres e
sexualidade compulsória, sugerindo a possibilidade de uma heteros- homens, uma relação encontrada em todas as sociedades. De igual
sexualidade liberada.l'" Mas eu acho que sempre que heterossexual modo, a identificação com mulher e o lesbianismo continuam a ser
e homossexual operam como uma distinção social dominante im- fenômenos universais que, como diz, aparecem em toda a his-
põem às pessoas um ou outro desses dois erotismos relativos aos tória.1l5 Ela enumera as múltiplas variedades das relações de mu-
sexos - ou uma combinação bissexual. Qualquer separação que a lheres identificadas com mulheres através do tempo e das culturas.
sociedade faça de heterossexual e homossexual é compulsória. A Mas considera as intimidades, a resistência e as atribulações das
heterossexualidade. compulsória de Rich é redundante. mulheres como isoladas dos sistemas históricos particulares em que
\

Rich questiona a idéia de que o homem e a mulher em um • ocorrem.


relacionamento erótico, embora ambos sejam chamados de heteros- A história e o tempo existem na análise de Rich como o meio
sexuais, são iguais em status social e poder. Contrariando a suposi- que torna possível, geração após geração, uma heterossexualidade
ção democrática de equivalência heterossexual, ela mostra as muitas compulsória absoluta e a ocasional resistência ativa e organizada de
desigualdades sociais que tornam a heterossexualidade uma as- mulheres identificadas com mulheres. Mas o tempo não fornece um
sociação socialmente assimétrica, com as mulheres em uma posição meio de abolir o compulsório em heterossexualidade abolindo a sua
inferior. Rich critica claramente várias análises feministas do status institucionalização, e a própria designação heterossexual.
social das mulheres que não examinam o efeito negativo sobre todas Em uma palestra dada em uma conferência feminista em 1979,
as mulheres dessa desigualdade típica do arr~rtjq heterossexual.l'" a poetisa lésbica negra Audre Lorde avisou que ''The Master's Tools
Ela argumenta que como a organização social da heterossexualidade Will Never Dismantle the Master's House" (As Ferramentas do
reproduz a desigualdade das mulheres, as feministas deveriam Mestre Nunca Destruirão Sua Casa).116Sua frase serviu como uma
consideràr a heterossexualidade não um problema secundário, mas crítica interna àquela conferência, outra reunião acadêmica na qual
o problema principal. a negritude e o lesbianismo significavam diferenças excluídas.
Em sua opinião, a idéia da heterossexualidade como a inclina- A idéia do mestre de diferença como inferioridade deve ser
ção emocional e sensual" natural" das mulheres, faz a identificação rejeitada, sugere Lorde:
de mulheres com mulheres parecer um desvio e patológica, impe-
dindo a aliança política das mulheres com as mulheres.!" Porque as ferramentas do mestre nunca destruirão sua casa. Elas
Ela afirma que o sistema de identificação obrigatória com podem nos permitirvencê-lo temporariamente em seu próprio jogo, mas
ll7
homem também produz um silêncio, uma lacuna no conhecimento, nunca nos permitirão fazer verdadeiras mudanças.
168 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

Lorde celebra como uma força valiosa e criativa as distinções 8


entre mulheres negras e brancas, e entre feministas homossexuais e
heterossexuais. Contudo, não questiona fundamentalmente a pola- PARA UM NOVO
ridade homossexuallheterossexual.
Mas no século XX, o conceito heterossexual tem sido desenvol-
SISTEMA DE PRAZER
vido como uma das melhores ferramentas do mestre. Sua casa era
heterossexual, e os homossexuais a habitavam como parentes pobres
Olhando para Frente
e inferiores, com as lésbicas sendo uma classe ainda inferior a essa.
O aviso de Lorde sobre o efeito nocivo das ferramentas do mestre
pode ser considerado um incentivo a questionar os limites do
pensamento e das opiniões políticas dentro dos parâmetros da
divisão hetero/homo. Suas palavras nos incitam a inventar novas
ferramentas analíticas, e a deixar as do mestre para trás.
As análises ousadas de feministas lésbicas da ordem heteros-
sexual e as análises entusiasmadas de feministas liberais e radicais,
animaram os liberais gays e as lésbicas do início dos anos 1970 a
cavar a sua própria história oculta. E essa escavação do passado de Noventa anos depois da estréia da heterossexualidade na América,
gays e lésbicas tem levado, gradualmente, a um novo exame da em 1982, The New York Times ,mostrava regularmente sinais de
história heterossexual: Agora isso está nos fazendo imaginar um
novo sistema de prazer. l
,: apreensão com um erotismo de sexo diferente contestado dentro e
fora de seu próprio jornal. Em agosto, a novelista Margaret Atwood
fez a crítica dos poemas de Marge Piercy, chamando-os de

o produto de uma mente muito parada no tempo e no lugar e envolvida


, com os dilemas principais de sua situação. Por exemplo, como uma
feminista heterossexual deve reagir (a) aos homens como eles são e (b)
às feministas mais radicais que querem que ela se afaste deles?'
... .-i
'- l
\
Em outubro, a crítica de John Osborne daDiaries, de Noel Coward,
anunciou que Coward contestou a heterossexualidade como uma
falha de estilo. Acrítica estética de Coward (a tática de oposição do
homossexual culto) tem as suas raízes no passado, no tempo de
Oscar Wilde. 2 Em dezembro, The Times descreveu Tootsie como um
filme sobre a grande importância da amizade como um pré-requi-
sito para o amor entre um homem e uma mulher? O diretor de
Tootsie, Sydney Pollack, foi citado: Não é um comentário triste
sobre os relacionamentos sexuais o fato de que é muito raro ver um
homem e uma mulher que são ótimos amigos? Os problemas da

/'
,.~
rf1i/t1f

PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 171


170 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

heterossexualidade se tornaram um clichê. Naquele ano a oposição veio aAIDS - E para as pessoas como eu, tudo que dizia respeito
à norma hetero foi tão forte que um psicólogo da Califórnia (que se aos homossexuais mudou outra vez ... Agora, afirma ele, a distância
sentia ameaçado) publicou o primeiro livro do mundo In Defense of entre os heterossexuais e os homossexuais parece estar aumentan-
Heterosexuality (Em Defesa da Heterossexualidade ).4 do, em vez de diminuir. Porque, como outros que conhece, Hamill
Mesmo antes do herpes e da AIDS se tornarem motivo de. não pode evitar culpar os gays pela epidemia (eles aparentemente
ansiedade para os heterossexuais, seu amor sexual começara a saíram à procura de um vírus para matá-Ios ).10
perder a antiga segurança, o status não questionado. Crisis: Hetero- Suas confissões são um exemplo do aparecimento público do
sexual Behavior in theAge of AIDS (1988) de Masters e Johnson de heterossexual. Nestes momentos difíceis no que diz respeito ao sexo,
fato nomeou uma situação crítica antedatando a AIDS.5 Contudo, a Hamill e muitos outros homens freqüentemente sentem neces-
reação da mídia à AIDS tem provocado um grande aumento das sidade, em várias circunstâncias, de afirmar a sua heterossexua-
referências explícitas à heterossexualidade, uma quantificação que lidade.
promoveu uma mudança qualitativa na opinião pública. Embora em
li A afirmação da heterossexualidade é mostrada em março de
geral a AIDS tivesse sido em princípio ligada nos Estados Unidos a
1989, na primeira página do New York Newsday, que traz uma
homens que tinham sexo com homens, os relatórios sobre a migra-
grande foto do antigo prefeito de Nova York e o título: Koch: "I'm
ção do vírus provocaram agora uma mudança na opinião pública:
Heterosexual" .11
os atos heterossexuais e outros que envolvem troca de fluidos são
um modo de transmissão do vírus - o heterossexual é uma das Um mês depois, Bruce Weber, um editor de TheNew YorkTimes
espécies eróticas em risco. Negando a existência de uma ameaça Magazine, escreve em uma coluna "About Men" (A Respeito dos
especial da AIDS aos\ heterossexuais, The Myth of Heterosexual Homens) sobre "My Best Friend's Girlfriend" (A Namorada do Meu
Melhor Amigo ).12 Ele começa confessando o seu medo de que a
AIDS (1990), de Michel Fumento, distorceu a realidade."
Naquele ano "Confessions of a Heterosexual" (Confissões de um I mulher que agora mora com o seu melhor amigo acabe com a
intimidade que existe há muito tempo entre ambos. Então afirma de
Heterossexual), de Pete Harnill, deu o selo de aprovação de Esquire à
raiva desse homem, que se declarava heterossexual, dos gays e dos imediato (embora timidamente) a sua orientação sexual: Nós somos
participantes do movimento em prol das vítimas da AIDS (jogar os os dois heterossexuais mais velhos que eu conheço que nunca
homossexuais ruins contra os bons é uma tática diversiva clássica)? viveram com uma mulher. Essas confissões públicas de heteros-
Como um jovem marinheiro, revela Harnill, ele entrara em atrito sexualidade sugerem um sexo-amor privado de sua muda certeza
com alguns homos: Éramos muito jovens, por isso presumíamos anterior. Em 1990, o título de uma peça de teatro de revista of!
arrogantemente que todos nós éramos heterossexuais, mas eles Broadway, "Heterosexuals in Crisis", resume satiricamente a sen-
eram homossexuais ...8 Mas muitos anos mais tarde, depois da sação geral da crise do erotismo de sexo diferente.P
revolta de Stonewall, em 1969, ele conhecera gays tão dignos quanto Em 1992, um século depois da estréia discursiva americana da
os heterossexuais: heterossexualidade, pela primeira vez na história a palavra hetero-
sexual apareceu quase diariamente nos jornais e em outros meios de
gays que tinham relacionamentos monogâmicos, de princípios morais
rígidos e com grande coragem ... eu soube que havia milhares de gays
comunicação dos Estados Unidos, geralmente na companhia explí-
que tinham vidas burguesas respeitáveis." cita de homosexual. Essas palavras foram empregadas com muita
freqüência nas reportagens sobre o movimento pelos direitos civis
Contudo, a respeitabilidade não forneceu uma cura definitiva para dos homossexuais e o movimento dos ativistas que protestavam
a sua profunda anti-homossexualidade. Porque então, diz Hamill, contra a reação inadequada do governo à epidemia de AIDS.

II
172 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 173

Quando os defensores da igualdade de gays e lésbicas lutavam em Freud, de que a reação típica da sociedade capitalista à sexua-
pelo direito de seu grupo a oportunidades iguais de emprego (o lidade tem sido negá-la.P Foucault argumentou que em vez de .re-
exército dos Estados Unidos era o empregador mais famoso critica- ! primir o erotismo, essa sociedade se manteve ocupada produzindo-o
do), ao casamento legal e aos benefícios da parceria doméstica para - de diversos tipos e em grande quantidade. Entre os múltiplos
os casais solteiros de todas as tendências sexuais, apelavam muitas erotismos dessa sociedade, um eros reprimido e censurado é apenas
vezes para o contraste social entre homossexual e heterossexual --.:... um tipo particular e não dominante.
enfatizando a posição inferior de gays e lésbicas como cidadãos. O Se a repressão sexual não é o que está errado, libertar um sexo
aparecimento de ativistas desses grupos e a reação da mídia a eles supostamente natural de seus grilhões sociais não é a tarefa que está
toma agora as categorias homo e hetero muito comuns. No final adiante. Com um olho no futuro, precisamos em vez disso nos
deste século o hetero e o homo se firmaram como dois objetos concentrar nos modos pelos quais o erotismo é produzido agora e o
concretos da vida diária pós-moderna. foi no passado, observando como esses sistemas sociais-sexuais
Mas nesse mesmo momento, as pessoas classificadas por sexo, regulam e controlam indivíduos e populações.
gênero e tendência erótica estão em atividade e prontas para ques- Ele questiona a idéia popular do século XX de que a sexualidade
tionamento. Intelectuais gays, lésbicas e feministas estão ques- tem uma essência que nos constitui, inequivocamente, como pessoas
tionando muito a perenidade do feminino e do masculino, da mulher com um sexo e sexuais: mulher ou homem, homossexual, heteros-
e do homem, do macho e da fêmea, da lésbica e do gay, e a essência sexual, ou bissexual. Ele se opõe aos modos pelos quais todos nós
da homossexualidade e da heterossexualidade. somos agora pressionados pela sociedade para acreditar privada-
No final deste século, o mundo está passando por mudanças mente em nossas identidades sexuais e a anunciá-Ias publicamente
contínuas. Muitas coisas arites consideradas eternas estão sendo como a verdade sobre quem somos. Argumenta que esse rótulo
declaradas construções sociais e invenções - portanto, mutáveis. problemático colocado em nossos selves sexuais é um meio impor-
Isso contribui para um debate político sobre os limites e as pos- tante pelo qual nós, pessoas modernas, somos controladas.
sibilidades de mudança na apresentação social da reprodução, das Foucault examina as regras sociais mutantes que fazem as afir-
diferenças entre os sexos, do gênero e do erotismo. Até mesmo .mações sobre homossexualidade e sexualidade parecerem óbvias,
alguns historiadores estão apoiando essa desconstrução construtiva. sensatas e axiomas. Ele sugere que pesquisemos as genealogias
dessas categorias em discursos historicamente particulares e nas
instituições poderosas ligadas a eles.l" Insinua que categorias tão
~O QUESTIONAMENTO DE CATEGORIA DE
ostensivamente descritivas como homossexualidade e sexualidade
'- MICHEL FOUCAUL T
são tão cheias de valor e ética, e servem tanto ao poder, quanto as
No final dos anos 1980 e início dos 1990, preparando este livro, prescrições sexuais moralizadoras dos antigos pregadores puritanos
estudei os volumes de Michel Foucault sobre The History ofSexua- a respeito da sodomia e dos atos procriativos adequados.'?
lity (A História da Sexualidade, ed. Graal, em três volumes), seus Esse historiador se recusa a aceitar como axioma a questão da
ensaios e suas entrevistas.!" Como um dos principais céticos em perversão sexual ou o problema da homossexualidadeí" Em vez
relação ao sexo do século XX, esse historiador e filósofo francês disso, faz indagações básicas a respeito da sexualidade de quem está
questionou o conhecimento sexual recebido da sua sociedade e da sendo questionado, e de que prazer é considerado um problema.
nossa. Quais são as regras e qual é a rnobilização de poder que leva as
Em particular, esse cético criativo examinou meticulosamente pessoas a fazerem perguntas sobre alguns praz~res e não sobre
a hipótese repressiva - seu nome para a noção comum, inspirada outros? Ele nos avisa que a transformação da sexualidade em um
Tr'"

PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 175


174 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

problema tem uma política e uma história. Lembra que a política de caráter histórico que ele atribui radicalmente ao desejo carnal
solução do problema sexual está ligada à política de nomear o contesta a idéia de um destino erótico predeterminado. Ele apresenta
problema sexual. a possibilidade de uma nova e revolucionária organização social do
Assim como outros estudiosos anunciaram um processo de prazer.
modernização, esse historiador anuncia o processo de normalização Mas o que, exatamente, Foucault diz sobre a heterossexuali-
social-sexual. Isso produz a nossa experiência de alguns prazeres dade? As melhores sugestões que esse historiador dá para analisá-Ia
I{ , físicos como normais e bons, e de outros como anormais e ruins.'? estão, significativamente, implícitas ~ contidas em sua análise da
,11
Seu History ofSexuality está cheio de referências às funções norma- homossexualidade.
lizadoras da psicanálise, e às intervenções normalizadoras na se- Seu comentário mais conhecido sobre esse assunto aparece em
xualidade feitas por vários médicos moralizadores.ê" A norma um capítulo sobre "The Perverse Implantation" (A Implantação
sexual, a normalidade e a normalização são de fato a sua idéia fixa. Perversa), no qual ele fala sobre uma perseguição historicamente
nova e uma especificação dos indivíduos como tipos de pervertidos
Questionando a nossa suposição tradicional de que a sexuali-
, sexuais. Ele compara a especificação e desqualificação dos homos-
dade é determinada biologicamente e não tem uma história, Foucault
sexuais do final do século XIX com a antiga proibição cristã dos atos
afirma provocadoramente que a sexualidade data do final do século
XVIII e início do XIX. Ele fala sobre a produção da sexualidade desodomià:
como uma construção histôrica.ê Salienta que a sexualidade do A homossexualidade aparece como uma das formas de sexualidade
nosso tempo, tornada científica, é muito diferente da afrodisia dos quando foi transposta da prática de sodomia para um tipo de androginia
gregos antigos (e, portanto, do desejo carnal dos antigos puritanos interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita tinha sido uma
da América e dos gostos1eróticos do Iluminismoj.P Foucault argu- aberração temporária; o homossexual era agora uma espécie.25
menta que a sexualidade é um fenômeno e um conceito moderno,
constituído por uma prática institucionalizada e uma ideologia his- Inspirados pelos comentários de Foucault, sobre "A Implan-
toricamente específicas. tação Perversa", não podemos agora perguntar sobre "A Implanta-
Pondo em dúvida a nossa idéia comum de sexualidade como ção Normal"? No final do século XIX a heterossexualidade também
algo basicamente privado que existe nos indivíduos, Foucault dá não foi implantada corno uma forma de sexualidade? Eu lembro que
nome a uma economia de prazeres, colocando o prazer dentro de o sodornita tinha sido uma aberração temporária de uma norma
um arranjo mutante de poder social e históricc.P Ele diz que sistemas procriadora; o procriador seu companheiro constante. O homos-
de prazer'humanos diferentes dão aos nossos corpos capacidade de sexual e o heterossexual eram agora permanentes, inferiores e
~ . .
apreciar configurações históricas particulares, isolando o erotismo superiores, espécies de tipos eróticos de sexo diferenciado.
de outro,s prazeres.ê" Em outro comentário importante sobre a homossexualidade,
A análise de Foucault da história do prazer contesta estudos Foucault se refere ao momento histórico específico em que, no final
Irll anteriores na área da sexualidade, questionando por exemplo as do século XIX, as pessoas com tendências homossexuais começa-
limitações de uma história de repressão vitoriana, de atitudes em ram a falar abertamente em defesa de seu prazer difamado:
relação à homossexualidade, de uma homossexualidade essencial e
o aparecimento na psiquiatria, na jurisprudência e na literatura do século
até mesmo uma história de uma sexualidade básica. Sua própria XIX de toda uma série de discursos sobre as espécies e subespécies da
história da organização social dos prazeres da Grécia e da Roma homossexualidade, da pederastia e do hermafroduismo'psiquico tomou
antigas (que inclui "Dietetics", "Erotics", "The Body", "Marriage", possível um grande aumento dos controles sociais nessa área da perver-
e "Boys") compara os sistemas de prazer passados com os atuais. O sidade, mas também a formação de um discurso reverso: a hemos-
176 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 177

sexualidade começou a falar em sua própria defesa, a exigir o reco- A explosão discursiva dos séculos XVIII e XIX, diz ele, estava
nhecimento de sua legitimidade ou naturalidade, freqüentemente com ligada a uma modificação no sistema de casamento (uma organi-
o mesmo vocabulário, usando as mesmas categorias através das quais zação social de relações de parentesco, de aliança econômica, de
era medicamente desqualificada.ê?
transferência de propriedade e de prazer). Ele declara que de 1700
a 1900 o padrão de monogamia heterossexual foi
Aqui Foucault questiona o discurso "reverso" que ainda é uma.
das táticas políticas básicas dos gays e das lésbicas Iiberais.F Rever- cada vez menos mencionado, ou mencionado como uma crescente
tendo o julgamento do intolerante de que homossexual é ruim, os moderação. Os esforços para descobrir os seus segredos foram aban-
liberais afirmam gay é bom, e organizam milhares sob a bandeira donados; nada mais foi exigido dela além de definir-se dia a dia [ele
parece estar se referindo à prática social, não ao discurso explícito]. O
dessa afirmação.
casal legítimo, com a sua sexualidade regular, tinha direito a mais
Mas Foucault insinua que essa afirmação reversa é uma inver- discrição. Isso tendeu a funcionar como uma norma, talvez mais rígida,
são mecânica, limitada pelos termos opressivos estabelecidos origi- mas também mais silenciosa. Por outro lado, o que foi examinado foi a
nalmente pelo intolerante. Ele admite que o discurso reverso dos sexualidade das crianças, dos loucos e dos criminosos; a sexualidade
daqueles que não gostavam do sexo oposto; fantasias, obsessões, pe-
liberais tem usos práticos na luta importante pelos direitos e pela quenas manias ou grandes ataques de raiva. Foi o momento de todas
igualdade dos homossexuais - a luta por um tratamento melhor essas pessoas, que quase não eram notadas no passado, darem um passo
dentro do sistema dominante. Mas a afirmação reversa não contesta à frente e falarem, fazerem a difícil confissão de quem eram.
explicitamente a profunda estrutura social da opressão homossexual
em que as categorias hetero e homo estão envolvidas como termos Ele acrescenta: se a sexualidade regular por acaso fosse ques-
básicos. \ tionada mais uma vez, o seria através de um movimento de refluxo,
Esse historiador mostra o momento no final do século XIX em , originando-se nessas sexualidades periféricas. 28 (Em nosso próprio
que o discurso a favor e contra a homossexualidade se tornava mais . tempo, o questionamento da sexualidade regular do ponto de vista
público e comum. Mas nós também não podemos perguntar o que das sexualidades periféricas é exemplificado pelas. críticas das
estava acontecendo naquela época com o discurso sobre a heteros- feministas lésbicas e dos liberais gays à ordem heterossexual.)
sexualidade? O heterossexual não estava sendo definido publica- Falando sobre o que anacronicamente chama de norma de
mente, embora de forma mais reservada, nessa mesma ocasião? Essa monogamia heterossexual, Foucault chama a nossa atenção para
discussão.mais reservada do final do século XIX não é pelo menos uma mudança histórica - do uso de uma lei externa e aplicada pela
tão importante quanto a discussão sobre o pervértido homossexual comunidade de comportamento reprodutivo adequado no casamen-
e sexual? O'discurso dos médicos sobre o homos~hual e o perver- to para o uso de uma norma interna observada pela própria pessoa
tido não é na verdade um modo indireto de discutir o heterossexual? que define a experiência adequada do erotismo.
Se for assim, por que Foucault concentra os seus comentários O sistema anterior de aplicação da lei de sodomia tinha pública
explícitos no homossexual e no pervertido e ignora quase totalmente e dramaticamente usado o medo da morte, da punição física ou da
o heterossexual? condenação ao ostracismo. O sistema em desenvolvimento de nor-
Eu acho que o próprio modo de Foucault falar reflete de modo ma sexual da classe média usou sentimento de culpa e vergonha
não crítico algo peculiar a respeito da idéia heterossexual como a como autopunição, e o medo pessoal e secreto de ser sexualmente
conhecemos. Desde o início essa idéia foi constituída como, simul- anormal. Esse sistema da classe média de regularidade sexual
taneamente, uma presença influente e uma ausência poderosa. Fou- mostrado por Foucault certamente é o antecessor de nosso subse-
cault começa a sugerir isso. qüente padrão heterossexual historicamente específico."

II~,:
I:'
1",1
178 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 179

A análise de Foucault sugere que o discurso crítico e explícito desses arranjos fornece insight a respeito dos meios pelos quais a
do final do século XIX sobre o homossexual e o pervertido sexual norma hetero continua a escapar de indagações explícitas.
foi um modo dos médicos respeitáveis da classe média falarem Em primeiro lugar, o poder que durante tantos anos foi usado
veladamente em defesa do heterossexual, ambíguo do ponto de vista contra o estudo sério da história da homossexualidade recentemente
procriativo e portanto ainda polêmico. Falando sobre o pervertido resultou em uma reação de interesse de estudiosos fora e dentro das
sexual, os médicos não precisavam se arriscar a falar freqüente-e academias por esse tipo de pesquisa. Desde os anos 1970, o desen-
abertamente a favor do heterossexual. . volvimento de todo um novo campo intelectual, os estudos sobre
Ele insinua que a norma heterossexual iniciou a sua existência lésbicas e gays, deve-se ao grande interesse das pessoas com ten-
como um persuasor oculto e mistificado que poucas vezes recebeu dências homossexuais em se verem no mundo, em uma descoberta
um nome e continua a sua ação um tanto secreta nos dias atuais. de suas vidas sociais anteriormente pouco conhecidas. A história e
Apesar de sua grande influência, a norma heterossexual em geral os estudos da homossexualidade estão surgindo como um modo de
ainda age tranqüilamente, sem ser mencionada, nos bastidores. resistir àquela invisibilidade que despedaça a alma.
,ill Embora centenas de manuais sobre como ser um heterossexual Então não é de espantar que Foucault e outros de predileção
melhor tratem-na como uma realização problemática, a própria homossexual eperversa tenham sido pioneiros nos estudos e na história
norma em geral não é questionada. da homossexualidade. Um profundo interesse pessoal motivou a sua e
A ação dessa norma heterossexual implícita também pode ser a nossa preocupação de complicar a problematização por parte dos
vista na ausência, até recentemente, de referências à heterossexua- estudiosos da heterossexualidade dos homos e pervertidos.
lidade em muitos textos psicológicos, sociológicos e históricos onde O que não é tão óbvio é que, continuando a concentrar-se nos
de fato está presente e ativa. Por exemplo, a palavra heterosexual homossexuais e pervertidos, os objetos de estudos dos especialistas
aparece raramente nas obras de Freud, embora ele admita que só em sexualidade, Foucault, como o resto de nós, reproduziu uma
está interessado nos homossexuais como uma pista que leva aos problemática tradicional. Começando como uma ação afirmativa e
heterossexuais. Heterosexuality também está tipicamente ausente compensatória, a pesquisa. da história da homossexualidade e de
dos índices dos livros modernos em que essa norma é dominante. Em outras sexualidades marginalizadas reverteu o silêncio histórico em
.todos esses volumes a ausência física da palavra heterosexual não é relação a esses grupos, opondo-se à sua difamação. Mas, concen-
de modo algum sem importância - é uma evidência da ação da trando-nos na construção histórica da categoria e do grupo homos-
norma heterossexual como um sedutor subliminar não questionado. sexual, não questionamos o suficiente o sistema básico de aliança
Eh observei que o enfoque de Foucault ria normalização é uma desigual em que um termo e uma prática especificamente heteros-
de suas realizações mais originais como historiador. Portanto, é sexuais foram produzidos como dominantes."
estranho que ele nunca tenha estendido a sua análise explícita da Uma história compensatória dos homossexuais não estuda os
normalização até a heterossexualidade - afinal de contas, o nome heterossexuais em igual profundidade, e por isso não analisa metade
da norma erótica dominante de nossa sociedade. Por que Foucault do problema. Concentrando-nos nos homossexuais e em outras
não falou em detalhes sobre a heterossexualidade, apesar do grande minorias sexuais, continuamos a deixar a maioria sexual de fora da
prazer que sentia em criticar outras normas e instituições prezadas análise (e a não questionar a idéia de minorias e maiorias eróti-
pela sociedade? Como ele pôde, de fato, ter falado tão pouco sobre caS).31É assim que a heterossexualidade continua a livrar-se do
esse assunto? status de uma instituição enigmática e peculiar.
Que arranjos específicos de poder impediram Foucault de pro- Alguns grupos reacionários que agem de má-fé e recentemente
blematizar explicitamente. a heterossexualidade? A especificação têm exigido os direitos e a liberação dos heteros não têm um
"I,

180 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE


PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 181

interesse sério no estudo crítico da história heterossexual. Por isso Em segundo, o poder que nos impede de confrontar diretamente
são os liberais homossexuais, as feministas lésbicas e heterossexuais as condições desiguais de homens e mulheres impediu Foucault de
e seus aliados que tendem mais a afirmar que o enfoque na história tornar as mulheres ou o gênero o seu próprio objeto de estudo
homossexual à parte da história heterossexual repete a idéia de gays teórico. Sua análise da história da sexualidade e do prazer indica a
e lésbicas como Outros Aberrantes, Mutantes Marginais. Contudo, sua falta de interesse na problematização das feministas das diferen-
tomando clara a visão da margem sexual, também precisamos de ças entre os sexos e do poder desigual das mulheres.
obras que questionem a idéia de uma margem e um centro do sexo, Eu acho que a heterossexualidade escapou da mente extrema-
um eros homossexual e uma classe padrão. mente indagadora de Foucault porque o estudo do hetero (como
Sem estudar a palavra, a idéia e o sistema social, os estudiosos oposto ao sexual) não o interessou particularmente. Isso o levou a
da sexualidade - homossexuais e heterossexuais - continuam a uma falta de empatia com as mulheres e as feministas - e a uma
privilegiar o normal e o natural à custa do anormal e antinatural. falta atípica de curiosidade intelectual. Enquanto os estudos das
Privilegiar a norma é aceitar o seu domínio, livrá-Ia de indagações. mulheres, dos homens e do gênero não forem levados tão a sério
Tomando o sexo normal o objeto de estudo histórico, ao mesmo quanto outras áreas acadêmicas tradicionais, não seremos estimula-
tempo perseguimos a verdade e um objetivo revolucionário e radical dos a questionar profundamente o uso social das diferenças entre os
no que diz respeito ao sexo: contestamos idéias preconcebidas. sexos, inclusive das metades hetero e homo da distinção heteros-
Descobrimos que o sexo normal e natural, o erotismo de sexo sexual/homossexual. O fato de Foucault ter tomado uma sexuali-
diferente e o especificamente heterossexual têm uma história de dade genérica e um prazer geral seus objetos de pesquisa excluiu a
definições mutantes, freqüentemente opostas, contraditórias e con- nossa heterossexualidade distinta do sexo e dividida em gênero de
testadas socialmente. Os sexos e os seus erotismos foram ordenados, seu campo de visão.
compreendidos e nomeados em uma grande variedade de modos
nem sempre hetero,ssexuais.
Em 20 de novembro de 1980, eu fui sozinho ao auditório lotado da
Estudando a 'norma sexual, aprendemos que ela não é sempre
Faculdade de Direito da Universidade de Nova York para ouvir
ou necessariamente aceita como axioma, apesar dos comentários
Michel Foucault falár sobre "Sexuality and Solitude" (Sexualidade
casuais em contrãrio.F Como o "heterossexual" é considerado a
e Solidão ).33Mais tarde, participei de uma manifestação anunciada
norma, não é notado, afirma John Boswell. Embora a norma hetero
durante a palestra contra o assassinato recente de dois gays que
tenha passado despercebida durante boa parte de sua história, em
levaram dois tiros diante do The Rarnrod, um bar em Washington
outras ocãsiões é notada e contestada veementemente - como por
Street, em Greenwich Village. (The New York Post noticiou que o
exemplo, p'elas feministas. De fato, conflitos em relação às normas
assassino, um cafetão de homens que se prostituíam, dissera antes
sexuais são muito comuns na história dos Estados Unidos e nas
do assassinato ao chefe espiritual de sua igreja: Os homos são
histórias' de outras nações. Mas em algumas eras o poder dos serpentes, e afirmara ter matado as serpentes porque estas haviam
defensores da norma sexual consegue normalizar o padrão domi-
tocado nele.)34 '
nante, colocando-o além de indagações.
Entre as centenas de pessoas que se reuniram em protesto
Enquanto nós, como Foucault, não nos concentrarmos especi- naquela rua de West Village estava Michel FoucauIt, em pé sozinho
ficamente na história heterossexual (bem como na homossexual), os na multidão. Eu também estava sozinho, e tive um impulso de me
gays e as lésbicas continuarão a parecer unicamente contingentes, apresentar a ele como um colega estudioso da sexualidade.
problemáticos e esquisitos. Os heterossexuais continuarão a parecer Mas o primeiro volume de Foucault sobre a sexualidade tinha
espécimes perfeitos e totalmente transparentes. me desagradado muito com as suas referências constantes ao poder

I
I··"
PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 183
182 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

fazendo coisas - seu menosprezo, até mesmo sua obliteração, das Acabei concluindo que essa nossa suposição comum distorce e
pessoas ativas e que manifestavam resistência (entre outras; ele, o simplifica muito o relacionamento histórico da palavra heteros-
escritor; eu, o leitor; e nós, que protestávamos naquela rua). Seu nível sexual com o conceito, o sentimento, a atividade e o sistema. Agora
de discurso extremamente abstrato, seu estilo evasivo e suafalta de eu acho que esses relacionamentos são muito mais ativos e compli-
desejo de deixar claro o que queria dizer com exemplos concretos cados.
suficientes me aborreceram como se ele demonstrasse a indulgência Para ser o mais claro que posso a respeito dessa complexidade:
do grande mandarim, de alguém em uma posição tão elevada no eu não creio que a invenção da palavra heterossexual, e do conceito,
meio intelectual que não sentia necessidade de explicar-se para as criou um erotismo de sexo diferente.
pessoas comuns. Por isso não o cumprimentei. Eu realmente creio que a apropriação por parte dos médicos da
Treze anos depois, ao me preparar para escrever este livro, palavra e da idéia da heterossexualidade legitimou recente e publi-
relendo o primeiro volume de Foucault sobre a sexualidade e suas camente o que já existia, mas condenou oficialmente o erotismo de
outras crônicas e entrevistas sobre a história do prazer, eu me sexo diferente da classe média. A palavra heterossexual, e o concei-
surpreendi com a profunda inspiração demonstrada em sua análise, to, então ajudaram a recriar esse erotismo dos sexos como, especi-
com a sua insistência em modos novos de ver as coisas que se opõem ficamente, heterossexual, dentro de uma nova sociedade especifica-
à intuição, e até mesmo com a clareza quase livre de jargões (embora mente heterossexual.
abstrata) de sua apresentação. Hoje lamento muito não tê-lo cum- Essa análise construcionista-social radical contradiz a nossa
primentado, nunca ter rido da sexualidade com esse revolucionário hipótese oposta, em que acreditamos firmemente, de que a heteros-
que tão obviamente gostava de tirar a nossa paz intelectual, cuja obra sexualidade simplesmente é, não-mediada pela linguagem e pelas
brilhante para nós foi tão prematuramente interrompida pela praga idéias, ou mediada apenas superficialmente. Segundo essa hipótese
atual. Agora, só posso lamentar a perda desse grande homem e de simplesmente é, a heterossexualidade é uma coisa à parte da
honrar a sua obra, usando-a como uma ferramenta neste projeto que palavra e do conceito, um fato objetivamente existente do corpo
questiona a heterossexualidade.
masculino e feminino.-,
Aidéia de que uma coisa heterossexual existe à parte do discurso
é em si um estratagema que impede que o discurso histórico sobre
o discurso provocador de Foucault sobre a sexualidade como
a heterossexualidade seja examinado atentamente. Porque a idéia de
construção histórica, a discussão de outros estudiosos sobre a
simplesmente é torna uma história da palavra heterossexual, e do
construçõosocial da sexualidade e da homossealalidade e o discur-
conceito, algo sem importância. Se o sexo hetero simplesmente é, a
so das feministas sobre a criação do gênero, incentivaram-me a
história da palavra e do conceito é superestrutural, um revestimento
pesquisar a história da invenção da heterossexualidade.P Mas exa-
no topo da coisa heterossexual real, básica e autêntica. Mas não é, e
tamente o que eu quero dizer comA Invenção da Heterossexualida-
de? Em que sentido eu acho que a heterossexualidade foi inventada? eu escrevi este livro para mostrar isso.
Eu agora acho que a heterossexualidade é inventada no discurso
Quando eu comecei esta pesquisa, acreditava, como a maioria
de nós, que os sentimentos, os atos e os relacionamentos heteros- como o que está fora dele. É criada em um discurso particular como
o que é universal. É construída em um discurso historicamente
sexuais existiam completamente à parte da palavra e do conceito.
Achava que a palavra e o conceito eram reflexos de uma coisa em específico como o que não se restringe ao tempo. Foi construída
si heterossexual. Presumia que essa coisa viera muito antes da bastante recentemente como o que é muito antigo: a heterossexua-
palavra e da idéia. lidade é uma tradição inventada.ê"
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184 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE


PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 185

Aheterossexualidade, afirma a nossa hipótese dominante, defi- com passividade e domesticidade. Apesar dos salários mais baixos
nitivamente não é apenas uma norma, uma visão possível do lugar para o mesmo cargo, dos empregos inferiores e do domínio dos
do eros nas intimidades dos sexos diferentes, uma idéia que deveria homens no local de trabalho, os salários tornam as mulheres mais
ou não continuar a ser dominante na prática. Não é apenas um independentes dos homens, promovendo novas relações entre os
sistema erótico de sexo diferenciado histórico e particular. O discur- sexos, e uma nova idéia de feminilidade totalmente igual à mascu-
I.r' !
so de que a heterossexualidade simplesmente é nega a política e á linidade. Dispondo de seus corpos no mercado de trabalho, essas
história dessa produção da verdade. Finalmente, esse discurso afir- novas mulheres afirmam o seu direito a dispor do seu erotismo,
ma que, como a heterossexualidade simplesmente é, não há nada que anteriormente uma prerrogativa apenas dos homens. Os historiado-
possamos fazer em relação a isso.
res da sexualidade americana John D'Emilio e Estelle B. Freedman
Mas se 11msistema especificamente heterossexual não existiu dizem que a grande proporção de mulheres que trabalham em troca
no passado - por exemplo, na Nova York de Walt Whitman -, não de um salário está ligada a mudanças ... nas relações heterosse-
tem de existir no futuro - embora um sistema hierárquico poderoso xuais."
de desigualdade heterossexual certamente exista no presente. Mas Durante a campanha presidencial de 1980, a Nova Direita torna
como, então, podemos abolir esse sistema, e instituir uma nova e a sexualidade, a feminilidade e a masculinidade temas políticos
mais justa organização de prazer?
nacionais. No ano seguinte os conservadores republicanos no Con-
Os conflitos políticos atuais a respeito das formas adequadas de gresso tentam proibir o envio de fundos para as escolas que negam
sexo e gênero, reprodução e erotismo, estão até mesmo agora as diferenças de papéis entre os sexos como eles têm sido his-
determinando a forma do sexo futuro. toricamente conhecidos nos Estados Unidos. Os mesmos políticos
{

Os números nunca antes vistos de mulheres que integram a força tentam negar benefícios governamentais a qualquer um que apre-
de trabalho despertam impulsos rebeldes em mulheres não neces- sente a homossexualidade como um estilo de vida alternativo acei-
sariamente identificadas como feministas. Essas muitas mulheres, tável.38 Mas mesmo esses conservadores mantêm as diferenças
cheias de uma nova coragem, exigem o fim da discriminação sexual sexuais e a sexualidade no centro da consciência pública.
por parte dos empregadores e oportunidades iguais de emprego para Durante a campanha presidencial de 1992, os conservadores do
ambos os sexos, o que ajuda a derrubar os velhos mitos relacionados Partido Republicano tomam as aventuras (hetero) sexuais de Bill
com os sexos. Diante dos olhos fascinados da nação, uma das novas Clinton um assunto nacional, junto com os direitos dos gays, os
mulheres, Anita Hill, acusou Clarence Thomas, candidato a um valores da família tradicional, e a política do ódio. Anteriormente,
cargo eletivo no Supremo Tribunal, de assédio (hetero) sexual, o Senador Gary Hart fora eliminado da corrida presidencial devido
criando uma consciência nacional desse problema. Logo. outras a um deslize (hetero) sexual. Mais tarde, o adultério (heterossexual)
novas mulheres protestaram publicamente contra o anuário da Mari- do pai de família de Long Island Joey Buttafuoco com a adolescente
nha que fechou os olhos ao assédio (hetero) sexual na convenção de Amy Fisher é reapresentado em três programas nacionais de televi-
Tailhook, revelando os anos de (hetero) sexualização indesejada do são. A revelação pública de escândalos heterossexuais torna agora
Senador Bob Packwood. Em seguida, Lorena, uma esposa maltra- difícil afirmar a grande base moral desse amor sexual particular.
tada, tomou uma atitude direta em relação a Bobbitt (seu marido,
A queda da velha ética reprodutiva também elimina um fun-
John Wayne). Tomando o patriarcado em suas próprias mãos, ela
damento lógico da distinção entre homossexual e heterossexual.
contestou, de seu próprio modo literal, a lei do falo.
Como a maior parte do mundo ocidental, os fundamentalistas cris-
As muitas mulheres que integram a força de trabalho finalmente tãos e a grande maioria dos católicos usam regularmente intensifi-
colocam um fimàs associações vigentes no século XIX de seu sexo cadores do prazer (eufemisticamente, controle de natalidade). Pou-

I...
186 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 187

cas pessoas agora, exceto o Papa, julgam a qualidade dos relaciona- bicas, engravidam com a ajuda de um homem obsequioso e tubos
mentos heterossexuais por sua fecundidade. de plástico condutores de esperma .
. Como descrevem D'Emilio e Freedman, desde o início do Enquanto a lacuna do gênero entre mulheres e homens diminui,
século XIX, quando as amarras reprodutivas das relações sexuais ocorre o mesmo com a lacuna da orientação sexual. A convergência
se afrouxaram para a classe média urbana, muitos americanos da heterossexualidade e da homossexualidade se toma ainda mais
tiveram de descobrir timidamente o significado e o objetivo das visível. A instabilidade dos relacionamentos homossexuais (não
relações sexuais. 39 Agora, a universalidade próxima do controle da apoiados pela lei e pela cultura dominante) não serve mais para
natalidade põe em foco a separação do procriativo do erótico." distingui-Ios essencialmente dos muitos relacionamentos heteros-
Hoje, o significado de sexualidade não parece mais residir, sexuais desestabilizados pelo divórcio.
evidente por si mesmo, dentro de nossos corpos ou na natureza, mas Começando nos anos 1970, a coabitação de números crescentes
depende de como a usamos. As descobertas surpreendentes de de jovens solteiros de sexos diferentes tomou-se muito visível,
biólogos que estudam a sexualidade, e o desenvolvimento de novas fazendo a coabitação de pessoas do mesmo sexo parecer muito
tecnologias reprodutivas, contestam os antigos fatos indiscutíveis comum. D'Emilio e Freedman dizem que enquanto os americanos
relacionados com a ligação entre sexo eprocriação. Quaisquer que adiavam o casamento e a vinda dos filhos e se divorciavam com
sejam as idéias a respeito da sexualidade que a maioria dos ameri- mais frequência, e as feministas e os liberais gays questionavam a
canos tem na teoria, quase todos agora comumente agem como se ortodoxia heterossexual, a sexualidade não conjugal se tornava
não houvesse um elo necessário entre fazer amor e bebês.41 comum e explícita. Outra distinção tradicional entre heteros e homos
Ao mesmo tempo, os membros conservadores da legislatura e desaparece."
os ativistas de direita lutam para manter o velho elo entre o ato sexual Os atos sexuais particulares que antes achava-se que distin-
e a reprodução. Eles negam fundos federais para abortos a mulheres guiam heterossexuais e homossexuais não servem mais claramente
pobres, e os fanáticos antiaborto tentam negar a todas as mulheres para essa função. Embora Kinsey tenha encontrado poucos heteros-
a opção de interromper uma gravidez. Impedem a divulgação de sexuais que praticaram relação ou cunilingua, dizem os historia-
informações sobre controle de natalidade para muitas moças e dores, no final dos anos 1970 essa era uma experiência comum entre
rapazes que têm vida sexual ativa, e negam aos heterossexuais e as pessoas na casa dos vinte.45 Nos anos 1970, acrescenta, até
homossexuais a educação sexual que pode salyar suas vidas. mesmo o "ato sexual" supostamente imutável foi redefinido de
, .~ modos que enfraqueciam um monopólio masculino da natureza do
A dese&.tabilizaçãopública atual da tradição hetero também é
sexo/" A variedade dos atos eróticos mencionados nos manuais da
visível no aumento da taxa de divórcio e na criação de novas heterossexualidade de hoje também enfraquece o velho monopólio
famílias. Entre 1960 e 1980, dizem D'Emilio e Freedman, o número heterossexual da definição do sexo. .
de pessoas divorciadas subiu quase duzentos por cento; a própria
A convergência dos estilos de vida hetero e homo é provocada
taxa de divórcio subiu noventa por cento. Os segundos casamentos
pela ascendência da economia de consumo e de sua ética de prazer.
tinham ainda menos chance de sobreviver.42 Nos anos 1980 afamília
(Duplique o seu prazer e o seu divertimento ...) Isso contesta a velha
tradicional com filhos e os dois pais presentes representava apenas
ética de trabalho, ajudando a promover uma grande mudança dos
três quintos de todas as uniões/ê A idéia e a realidade da família
valores sexuais. Enquanto a ética de trabalho vitoriana apregoava o
estão se ampliando diante dos olhos atônitos dos americanos. Casais
valor da produção econômica, a ética de procriação desse tempo
de lésbicas e gays criam seus filhos de casamentos anteriores, ou os exaltava as virtudes da reprodução humana. Por outro lado, a ética
adotam; mulheres heterossexuais solteiras, assim como muitas lés- econômica moderna apregoa os prazeres do consumo, enquanto a

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PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 189

188 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

nizado movimento nacional pela igualdade civil. E isso, surpreen-


ética sexual moderna defende um princípio de prazer erótico para dentemente, promove um igualamento fundamental da antiga dis-
os homens e atémesmo para as mulheres. tinção homo/hetero. Porque a afirmação explícita da igualdade
Como dizem D'Emilio e Freedman, a dinâmica de uma econo- homossexual - o aparecimento em massa dos homossexuais -
mia voltada para o consumo vende o prazer para aqueles que podem basicamente põe em risco a supremacia heterossexual, e a própria
comprá-lo. Não vai demorar muito para os preservativos sert:m divisão hetero/homo. .
vendidos em todos os supermercados. A comercialização do sexo e O homossexual e o heterossexual foram nomeados pela primei-
a sexualização do comércio colocam opeso das instituições capita- ra vez na tentativa dos reformadores da lei alemã de fornicação
listas do lado de uma visível presença pública do erotismo." No antinatural de opor-se à posição inferior desse ato na hierarquia
final do século XX, grande parte da corrente principal da cultura social-sexual. Adivisão homo/hetero foi então eleita pelos médicos
estava promovendo o erotismo.ê como um meio de afirmar a supremacia dos heterossexuais. His-
A comercialízação do prazer acaba ainda mais com as velhas toricamente, o motivo para nomear e distinguir o heterossexual e o
distinções entre hetero e homo. Como a cultura dominante da classe homossexual era refutar a inferioridade do homossexual ou afirmar
média passou a dar mais valor à satisfação sexual e ao prazer, a superioridade do heterossexual.
dizem os historiadores, toma-se difícil preservar o casamento hete- Não haveria um motivo para a divisão hetero/homo se os heteros
rossexual como um meio legítimo de expressão sexual." não estivessem acima dos homos em uma hierarquia social de
Aestimulação comercial desvenda os velhos mistérios do sexo. prazeres superiores e inferiores. Se os homossexuais conquistassem
A venda do prazer e do sexo para todos que podem comprâ-los ajuda a igualdade social com os heterossexuais, não haveria um motivo
a pôr fim a antigos fundamentos lógicos para a supremacia heteros- para distingui-los. A distinção homossexual/heterossexual cairia em
sexual- até mesmo à diferença hetero-homo, Porque, como uma desuso, do mesmo modo como foi um dia inventada.
busca pelo prazer, a heterossexualidade e a homossexualidade têm Em certo sentido, a direita está certa. Os fundamentalistas
muito pouco para distingui-Ias. Os heterossexuais são cada vez mais religiosos e os ultraconservadores estão corretos em acusar o movi-
como os homossexuais, exceto pelo sexo de seus parceiros. O mento pelos direitos de gays e lésbicas de uma homogeneização
-,
cientista político do sexo Dennis Altman chama a crescente legiti- ameaçadora. A afirmação política de igualdade dos homossexuais
midade da heterossexualidade prazerosa de homossexualização da pode ser concebida pelos gays e pelas lésbicas liberais como uma
América. Ele insinua que os estilos de vida heterossexuais basica- estratégia para igualar o status civil de heteros e homos. Essa
mente não diferem mais dos homossexuais.ô'Ahomogeneízação de igualização pode até mesmo ser acusada de confirmar a diferença
heterossixual e homossexual anuncia o aparecimento de uma ten- hetero/homo, Mas sejam quais forem os seus objetivos conscientes,
,- .

dência paradoxal: a de ser dada menos importância à orientação se os gays e as lésbicas liberais algum dia conseguirem a total
sexual. igualdade, acabarão com a necessidade social da divisão hetero/ho-
D'Emilio e Freedman dizem que em meados do século XX os mo. O segredo do movimento principal e mais moderado pelos
liberais quanto (!.O sexo tinham celebrado o erotismo, mas tentado direitos civis de gays e lésbicas é a sua promessa de transformação
mantê-lo dentro de uma estrutura heterossexual de relações mono- radical (ou a sua ameaça, dependendo de nossos valores).
gãmicas de longo prazo que continuavam a ter no casamento o seu O mundo do sexo está agora virado de cabeça para baixo.
objetivo final.5l Agora não existe mais aquele consenso liberal em Influenciados pelos muitos movimentos sociais, os heteros e homos
relação ao erotismo.
. ", 'tlr'
se tornam ainda mais parecidos. Daí a corrida là~ca da mídia para
Atualmente, milhares de homossexuais e seus simpatizantes divulgar todos os novos estudos científicos que demonstram
,
;..•.
que o
participam ativamente com os heterossexuais de um grande e orga-
190 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE PARA UM NOVO SISTEMA DE PRAZER 191

desejo homossexual, e o heterossexual, está nos genes, no hipotála- do sentimento heterossexual ou homossexual quanto o faz procurar
mo, nos hormônios ou seja lá onde for, e que as orientações nunca os determinantes fisiológicos da mentalidade do escravo ou do
devem juntar-se. Mais uma vez a linha fisiológica segura é traçada. senhor. O determinismo biológico é mal interpretado intelectual-
Os homossexuais e os heterossexuais de convicção biológica deter- mente, bem como abominável politicamente. Porque coloca o nosso
minista suspiram de alívio: os heterossexuais porque os seus senti- problema em nossos próprios corpos, não em nossa sociedade.
mentos não são homossexuais, e portanto são bons, e os homos- Agora comumente pensamos, Bem, é claro que a biologia e a
sexuais porque os seus sentimentos são naturais, e portanto bons. sociedade determinam juntas os nossos destinos. Mas isso apenas
Mas então a diferença hetero/homo passa novamente desper- coloca o velho fatalismo bio dentro de uma estrutura sociobiológica.
cebida, e amantes ansiosos de um sexo diferente e amantes nervosos Somente a extrema arrogância do olhar heterossexualizador nos
do seu próprio sexo são forçados a afirmar o seu desejo sem a ajuda permite ver a divisão hetero/homo da sociedade ocidental moderna
da ciência e da biologia. como baseada na biologia, na natureza ou na evolução, e as catego-
Os deterministas biológicos e os seus críticos lutam hoje por rias, os sexos e os prazeres de outros tempos como construções
valores, política e a possibilidade de criar um mundo sexual total- superficiais. A idéia de que a biologia determinou a nossa heteros-
mente novo. Mas exatamente que tipo de novo mundo sexual sexualidade e homossexualidade historicamente particulares é in-
esperamos? fundada e ~ega as diferenças.
Embora seja agradável a idéia de especificar o sexo futuro, eu Ao contrário do que julga a crença atual na biologia, o binário
recuso o papel de profeta do prazer. heterossexual/homossexual não está na natureza, mas é construído
Em primeiro lugar, precisamos procurar menos por profetas, e socialmente, e portanto desconstruível. Com a abolição da escrava-
confiar mais em nossos próprios desejos, nossas visões e nossa tura, as relações de domínio indicadas pelos termos senhor e escravo
organização política. perderam a sua proeminência imediata e pouco a pouco se tornaram
Em segundo, a forma do sexo futuro não pode ser conhecida arcaicas, embora o racismo continue a existir. Com a abolição do
agora, porque será determinada por todos nós. Isto é, nós cons- sistema heterossexual, os termos heterossexual e homossexual po-
truímos a forma do sexo futuro do modo como agimos no presente dem tornar-se obsoletos.
-,
em resposta à AIDS, aos direitos de gays e lésbicas, aos benefícios E então o que acontecerá? Então, depois de todas as pessoas
da parceria doméstica, à educação sexual, ao aborto, ao controle da desprezadas se unirem para aumentar o prazer de sua curta perma-
natalidade, à saúde mundial, às oportunidades iguais de emprego e nência no planeta, finalmente nos tornaremos uma nação, não
às definições de homossexual e normal, lésbica'egay, homossexual apenas fundada, mas de fato operando segundo os princípios de vida,
e heterossexual. Quando nos esforçamos para coar uma sociedade liberdade e busca da felicidade. Desses três valores tradicionais, a
com menos sofrimento e mais prazer, inventamos a sexualidade do busca da felicidade é, nas palavras de Gore Vidal, o verdadeiro
futuro. ' coringa do baralho. Ele acrescenta que a busca da felicidade e de
Mas esse sistema fará uma distinção entre heterossexual e alguns prazeres mundanos exige o fim da sociedade egoísta e do
homossexual? Se a heterossexualidade foi construída no passado, e princípio da ambição particular, a criação de um novo sistema de
continua a ser construída no presente, também poderá ser descons- prazer.
truída no futuro. Quais são as perspectivas da heterossexualidade? Eu afirmo aqui o meu compromisso com o prazer. Mas a busca
Heterossexual e homossexual se referem a um sistema de da felicidade é um valor tradicional não limitado ao erotismo.
domínio historicamente específico- de sexos e erotismos desiguais As feministas recentemente nos mostraram que a anatomia
socialmente.S Então faz tanto sentido procurar na biologia a causa sexual não determina os nossos destinos sexuais, nossa feminilidade
192 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

e masculinidade. Agora, a análise da história heterossexual e homos-


EPÍLOGO
sexual sugere uma outra liberação: a biologia também não determina
os nossos destinos eróticos. A organização social das interações
eróticas não é fixa, a economia política do prazer mudou muito com Lisa Duggan
o correr do tempo - e pode mudar novamente. Podemos lutar juntos
para fazer com que os relacionamentos e o mundo social aceitem
mais a diversidade erótica e o prazer carnal. Dentro dos limites e das
possibilidades de nossa situação social, podemos ser os agentes da
nossa própria felicidade, acabar com a supremacia heterossexual e
a distinção hetero/homo.
Em outras palavras, os seres humanos fazem os seus próprios
arranjos diferentes de reprodução e produção, de diferenças se-
xuais e erotismo, escrevem a sua própria história de prazer e felici-
dade. Mas eles não a escrevem como desejariam, em circunstâncias
escolhidas por eles próprios, mas nas com que se deparam direta-
mente, herdadas do passado.
Com essa qualificação, o sistema de prazer futuro é uma questão
de debate político e organização ativista. A busca da felicidade no Amissão de Jonathan Ned Katz neste livro - apresentar a heteros-
século XXI cabe a você. sexualidade como uma convenção social histórica, em vez de como
um dom natural e eterno - pode fazer muitos leitores se sentirem
constrangidos, senão diretamente hostis. Para alguns liberais, dis-
postos a tolerar a homossexualidade nos outros desde que a sua
própria heterossexualidade continue intocada, este livro pode pare-
cer absurdo em suas críticas a essas categorias de identidade evi-
dentes por si próprias. Para alguns conservadores, as afirmativas de
Katz podem parecer uma ameaça imoral que leva ao colapso do
, centro da civilização, a família. Mesmo para alguns defensores dos
" .-1
direitos dos gays e das lésbicas, esses argumentos podem parecer
"- .,
'-
prejudicar as estratégias políticas baseadas nas noções de identidade
fixa.
Mas os argumentos de Katz não são tão absurdos e novos como
podem a princípio achar muitos leitores; Ele está seguindo uma
longa linha de argumentos apresentados por movimentos sociais e
políticos que tentam desestabilizar as hierarquias e acabar com as
injustiças e desigualdades na vida social, cultural e política.
Quando as feministas dos Estados Unidos começaram a contes-
tar a crença generalizada de que as mulheres são naturalmente
diferentes dos homens de modos que justificam desigualdades sis-
194 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE EPíLOGO 195

temáticas, foram ridicularizadas e desacreditadas. Por exemplo, os preensivelmente, esses defensores da igualdade acham que o seu
sufragistas do século XIX foram representados por seus oponentes tipo de argumento funciona melhor contra os conservadores que os
como defensores de um ataque à própria natureza, assim como' à baniriam do planeta. Se as lésbicas, os gays e os bissexuais nascem,
família, à igreja e ao Estado. Quando os afro-americanos con- não são criados, então o desejo de bani-los ou puni-los é em si contra
testaram a escravatura, e no final do século passado lutaram por a natureza, e portanto errado e indigno.
igualdade política, foram atacados com evidências científicas de que Mas esses argumentos são insensatos e a-históricos. Tudo que
os negros eram biológica e culturalmente diferentes dos brancos de podem conseguir é a tolerância para a minoria supostamente fixa
modos que justificavam um tratamento desigual. chamada de lésbica e gay. O que não podem é mudar a noção de que
Entretanto, com o passar das décadas, tomou-se possível afir- a heterossexualidade é normal para a grande maioria das pessoas, e
mar que quase tudo, senão tudo, que era considerado diferenças mudar práticas sociais, culturais e políticas baseadas nessa suposi-
entre os sexos e as raças, era histórico e político, sem ser margina- ção. Tampouco podem desestabilizar as rígidas noções de gênero
lizado e posto à margem do pensamento e da crença. É claro que que sustentam as categorias de identidade sexual.
ainda há muitos debates. E não são apenas os que se opõem à Argumentos inteligentes como o de Katz são difíceis de criar no
mudança progressiva que defendem as categorias fixas de identi- atual clima cultural e político. Como salientou a antropóloga Carole
dade. Por exemplo, algumas feministas e alguns centristas afro-ame- S. Vance, nós, vemos manchetes anunciando a existência de um
ricanos argumentariam que o gênero e a raça realmente constituem cérebro gay, mas não reportagens sobre os estudos históricos, cada
vez em maior número, que mostram que a identidade sexual é
linhas de diferença expressivas e fixas, apesar do fato de que
variável cultural e historicamente. Esperamos abrir um exemplar de
reverteriam as avaliações relativas dessas categorias propostas pelos
conservadores. Uma feminista essencialista poderia argumentar que
USA Today e ler Estudo descobre que a heterossexualidade não é
as mulheres são naturalmente mais pacíficas e protetoras do que os
"natural", não é "normal". As chances são de esperarmos muito
homens, e governariam melhor o mundo; alguns centristas afro- tempo por isso.
É por isso que este livro é tão importante. Colocando no discurso
americanos acreditam que as pessoas com descendência africana
público os argumentos dos historiadores da sexualidade de que as
estão mais preparadas para promover a democracia e a vitalidade
categorias heterossexual/homossexual são históricas e mutáveis,
cultural do que os caucasianos descendentes de povos frios e vicio-
Katz nos prestou um grande favor. Se esses argumentos permaneces-
sos. Em resposta, os antiessencialistas reconhecem que as diferenças
sem dentro dos limites das salas de aula das universidades e das
existem (embora freqüentemente discordem sobre o seu conteúdo e'
\ ", conferências acadêmicas, não dariam um impulso ao debate público
significado]; mas argumentam que elas são cultrir\ais, históricas e
e à política como precisamos que façam.
políticas, não naturais ou fixas. ."
Katz sem dúvida será criticado e ridicularizado pelos argumen-
Jonathan Ned Katz entra na briga aqui com o argumento de que tos que apresentou aqui, mas ao apresentâ-los se une a uma longa e
as categorias heterossexual e homossexual são históricas, e portanto distinta linha de pensadores que contestaram o senso comum de seus
mutáveis. Ele encontrará oposição por parte dos conservadores, que contemporâneos e pagaram por isso. Outros de nós serão gratos por
poderiam achar que a homossexualidade pode e deveria ser mudada, seu espírito pioneiro.
mas estão apegados ao caráter natural e eterno da heterossexuáli- Deixem o debate começar!
dade. Os homossexuais, para esses fanáticos, não são apenas infe-
riores como deveriam ser rechaçados com desprezo e punição. Mas
Katz também será contestado pelos existencialistas homossexuais
que acreditam que a identidade sexual é fixa, talvez inata. Com-

/
NOTAS

CAPíTULO 1
A GENEALOGIA DE UM CONCEITO SEXUAL

1. Joseph Epstein, "Horno/Hetero: The Struggle for Sexual Identity", Harper's


Magazine 241:144 (set. de 1970),37-51.
2. Epstein 46.
3. Epstein 43.
4. Epstein 43. <,

5. Epstein 51.
6. Jonathan [Ned] Katz, Gay American History: Lesbians and Gay Men in the
U.SA. (NY: T. Y. Crowell, 1976) 1; doravante, Katz, GAH.
7. Katz, GAH 1-2.
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.. .~,
'
8. Eu creio que o conceito de uma identidade baseada nos sentimentos eróticos e
"
afetivos de uma pessoa, e uma política que afirma essa identidade, não explicam
o ativismo de muitos daqueles cujas energias têm estimulado os movimentos de
gays, lésbicas e, mais recentemente, as organizações que tratam do problema da
AIDS. Os conceitos de identidades gays e lésbicas, e de política de identidade são
os principais termos que temos usado para explicar a afirmação clara e em massa
do sentimento erótico e afetivo que estimula os movimentos modernos de gays e
lésbicas. Precisamos de vários outros termos analíticos.
r,) 9. Anteriormente, Martin Duberman escreveu uma peça teatral de sucesso, In
WhiteAmerica, a partir de documentos históricos sobre o conflito entre afro-ame-
ricanos e brancos. Eu provavelmente tive aquele modelo em mente, embora não
houvesse assistido à peça de Duberman. Inspirado pelo grande interesse de meu
pai pela história afro-americana, no final dos anos 1960 eu havia pesquisado dois
documentários de rádio-teatro e em 1973 e 1974 publicaria dois livros sobre a
resistência dos negros na época da escravatura. Com meu pai, Bernard Katz,

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198 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
NOTAS 199

escrevi Black Woman: A Fictionalized Biography of Lucy Terry Prince (NY: agora saliente as atitudes e reações históricas e os arranjos de poder político
Pantheon, 1973). Além disso, veja meu Resistance at Christiana: The Fugitive totalmente diferentes com que a essência se depara.
Slave Rebellion, Christiana, Pennsylvania, September 11,1851 (NY: T. Y. Cro- 21. Jeffrey Weeks, Coming Out: Homosexual Politics in Britain, from the Nine-
well,1974).
10. Katz, GAH 8. teenth Century to the Present (Londres: Quartet Books, 1977; revisado e atualiza-
do. Londres: Quartet Books, 1990). Também li avidamente e aprendi com Sex,
11. Jonathan [Ned] Katz, Coming Out!: A Documentary Play About Gay and Politics and Society: The Regulation ofSexuality Since 1800 (Londres: Longman,
Lesbian Life and Liberation (NY: Amo Press, 1975). Isso inclui reediçóes fac-sí- 1981); Sexuality and Its Discontents: Meanings, Myths & Modern Sexualities
miles da maioria das críticas na imprensa hetero e homo. (Londres: Routledge & Kegan Paul, 1985); Sexuality (Tavistock Publications,
12. Katz, GAH 6. 1986); e Against Nature: Essays on History, Sexuality and Identity (Londres:
13. Veja, por exemplo, Marty Anderson, "Is Heterosexuality 'Natural'?" The Rivers Oram Press, 1991).
Ladder, junho/julho 1969,4-7; reeditado em Barbara Grier e Coletta Reid, eds., 22. Para uma lista desse trabalho pioneiro, veja Lisa Duggan, "Lesbianism and
The Lavender Herring: Lesbian Essays from the Ladder (Baltimore, MD: Diana American History: A Brief Source Review", Frontiers 4:3 (outono de 1979),
Press, 1976), 55-60, atribuído a Martha Shelley. Também reeditado em "The 80-85; e Randolph Trumbach, "London's Sodomites: Homosexual Behavior and
Causes and Cures of Heterosexuality", de Rita Laporte, 43-49. Western Culture in the 18th Century", Journal of Social History 11 (outono de
14. Radicais lésbicas, "The Woman-Identified Woman" (1970), em Anne Koedt, 1977), 1-33.
Ellen Levine, e Anita Rapone, eds., Radical Feminism (NY: Quadrangle 23. John Boswell, Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality: Gay People
Books/New York TImes, 1973),241. Veja a discussão sobre esse ensaio em meu in West Europe from the Beginning of the Christian Era to the Fourteenth Century
capítulo "The Lesbian Menace Strikes Back." (Chicago: University of Chicago Press, 1980).
15. Dennis Altman, Homosexual Oppression and Liberation (NY: Outerbridge & 24. Lillian Faderman, Surpassing theLove of Men: Romantic Friendship andLove
Dienstfrey, 1971), especialmente o capítulo 7, "The End of the Homosexual?": Between Women from the Renaissance to the Present (NY: WilIiam Morrow,
216-28. Em 1972, o escritor gay Allen Young declarou: As categorias artificiais 1981).
heterossexual e homossexual nos foram apresentadas por uma sociedade sexista. 25. Mary P. Ryan, Womanhood inAmerica: From Colonial Times do the Present
Allen Young, "Out ofthe Closets, Into the Streets", Karla Jay e Allen Young, eds., (NY: New Viewpoints/Franklin Watts, 1975).
Out of the Closets: Voices of Gay Liberation (NY: Douglas Book Corp., 1972), 26. Jonathan [Ned] Katz, "Womanhood in America", The Body Politics (Toronto),
29.
dez./jan. 1977/78, 19, 21. Também me interessei muito pela ligação estabeleci da
16. Katz, GAH 6. Em GAH meu ataque à ditadura heterossexual representa uma por Ryan entre os ideais femininos variáveis e a organização variável do trabalho
primeira interpretação da heterossexualidade como uma instituição social coerci- feminino. TIve um contrato para um segundo livro sobre a história americana de
tiva, mas ainda não totalmente percebida como histórica (6). Um comentário sobre gays e lésbicas e .rne perguntei se não poderia igualmente correlacionar conceitos
o amor pelo mesmo sexo afirma que as relações sexuais diferentes também históricos diferentes da homossexualidade e da heterossexualidade com variações
deveriam ser estudadas, um primeiro chamado vago para o estudo da heteros- na organização da produção. Fiz essas análises em Gay/LesbianA lmanac: A New
sexualidade (446). O estudo da história da homossexualidade, também digo, Documentary (NY: Harper and Row, 1983); doravante, Katz, G/M.
levanta questões sobre ... as relações entre os sexos ... (8).
27. Essa conferência, "Constructing a History of Power and Sexuality", foi
17. Carroll Smith-Rosenberg, "The Fernale World of Love and Ritual", Signs 1:-1 organizada por membros da Sociedade dos Bacharéis em História e do Centro
(1975), 28-29treeditado em seu Disordely Conduct: VisionsdjGender in Victorian Feminino da universidade, e ocorreu em 31 de março de 1978. Meu discurso,
America (NY: Alfred A. Knopf, 1985), 53-76. ";' " "Homosexual History: Its Import and Implications", foi mais tarde revisado e
[I 18. Katz, GAH 446. publicado como "Why Gay History?" The Body Politic (Toronto), agosto de 1979,
19. Gay American History rejeita a idéia dos homossexuais como indivíduos fora 19-20.
de um determinado contexto histórico, como o modelo psicológico os imaginava. 28. James A. H. Murray, Henry Bradley, W. A. Craigie, C. T. Onions, eds., Oxford
A importância de situá-Ios no tempo é muito enfatizada como um antídoto para a English Dictionary Supplement (Oxford: Clarendon Press, 1933), 460; e R. W.
idéia do homossexual fora de um contexto sociotemporal (6). Veja também 4, 7, Burchfield, ed., A Supplement to the Oxford English Dictionary, Volume ll, H-N
130.
(Oxford: Clarendon Press, 1976), 85.
20. Veja David F. Greenberg, The Construction of Homosexuality (Chicago: The 29. Katz, "Homosexual History", 12-13. Em 1993, relendo esse discurso de 1978
University of Chicago Press, 1988). John Boswell mostrou essa contradição em pela primeira vez em 15 anos, eu fiquei pasmo ao constatar há quanto tempo refletia
uma crítica arrasadora ao livro de Greenberg, "Gay History", TheAtlantic, fev. de sobre o problema da história da heterossexualidade.
1989,74-78; veja especialmente 75. Exemplos desse essencialismo complacente 30. Michel Foucault, The History of Sexuality, Volume I, An Introduction, trad.
continuam a ser comuns, mesmo entre os que se declaram antiessencialistas. A Robert Hurley (NY: Pantheon, 1978).
maioria dos pesquisadores ainda concebe uma essência eterna da homos- 31. A história pioneira de Jeffrey Weeks da homossexualidade na Grã-Bretanha,
sexualidade e da heterossexualidade que não muda ao longo do tempo, embora Coming Out (1977) cita brevemente Madness and Civilization; veja Weeks,

/
200 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE NOTAS 201

Coming Out, 23. Acho que li pela primeira vez o primeiro volume de History of 43. A categoria racial branco está agora começando a ser problematizada; veja,
Sexuality, de Foucault, no início de 1978. por exemplo, David R. Roediger, The Wages ofWhiteness: Race and the Making
32. Robert A. Padgug, "Sexual Matters: On Conceptualizing Sexuality in History", oftheAmerican Working Class (NY: Verso, 1991).
Radical History Review, Nº 20 (primavera/verão 1979), 3-4; reeditado em Kathy A raça também tem sido recentemente tida como um problema (de novo) sob
Peiss e Christina Symonds, com Robert A. Padgug, eds., Passion and Power: uma perspectiva crítica: veja Henry Louis Gates, Jr., "Editor's Introduction:
Sexuality inHistory (Filadélfia: Temple University Press, 1989), 14-31. No mesmo Writing 'Race' and the Difference It Makes", na antologia que ele editou, "Race",
ensaio sobre a sexualidade de RadicalHistory Review eu também reparei na análise Writing and Difference (Chicago: University of Chicago Press, 1986), 1-20; e
meticulosa de "The Historical Construction of HomosexuaIity" de Bert Hansen Anthony Appiah, "The Uncompleted Argument: Du Bois and the Dlusion of
(uma crítica a Coming Out, de Jeffrey Weeks), 66-73. Race", no mesmo volume, 21-37. Esse volume foi originalmente publicado em
33. Padgug 12-13. uma forma um pouco diferente, como dois números de Criticallnquiry, 12:1
34. Padgug 12-13. A dificuldade que todos nós temos em pensar em nós mesmos (outono de 1985) e 13:1 (outono de 1986).
fora de nossos conceitos sexuais não históricos é indicada pelas ambigüidades e 44. Veja, por exemplo, E. Anthony Rotundo, American Manhood: Transforma-
contradições nas afirmativas de Padgug. A tentativa de tomar histórica uma tions in Masculinity from the Revolution to the Modern (NY: Basic Books, 1993);
sexualidade concebida no início como basicamente a-histórica resulta em algumas J. A. Mangan e James Walvin, eds., Manliness and Morality: Middle Class
mensagens confusas. Masculinity inBritain andAmerica, 1800-1940 (NY: SI. Martin's Press, 1987); e
35. Minha cópia manuscrita do ensaio de Duggan data da primavera de 1981. Foi Michael Ropere John Tosh, eds.,ManjuIAssertions: Masculinities in Britain Since
publicada como "The Social Enforcement ofHeterosexuality and Lesbian Resis- 1800 (NY: Routledge, 1991).
tance in the 1920s", em Amy Swerdlow e Hannah Lessinger, eds., Class, Race, 45. A transformação da norma, do normal, da normalização em um problema
and Sex: The Dynamics ofControl (Boston: G. K Hall, 1983),76-92. também está começando. Veja Foucault, The History of Sexuality Volume I, espec.
36. Eu li aquele ensaio, "The Invention of Heterosexuality", para Duggan, John 89, 105, e The Use of Pleasure, Volume 2 of The History of Sexuality (NY:
D'Emilio, Carole Vance e Paula Webster, os membros do grupo de estudo de cuja Pantheon, 1985), especialmente 12. Veja também Georges Canguilhem, The
presença agora me lembro. Disse ao grupo que queria ver até onde eu poderia levar Normal and Pathological, Introdução de Michel Foucault (NY: Zone Books,
de forma plausível a idéia de uma heterossexualidade construída socialmente e 1989), e Ed Cohen, Talk on the Wilde Side: Toward a Genealogy of a Discourse
específica historicamente. Nos doze anos seguintes falei sobre "The Invention of on Male Sexualities (NY: Routledge, 1993), especialmente a sua análise histórica
Heterosexuality" para inúmeros grupos universitários de gays e lésbicas na Costa de masculinidade normativa, a normalização da sexualidade masculina, e seu
Leste. capítulo "Legislating the Norm: From 'Sodomy' to 'Gross Indecency"'.
37. Katz, G/LA 13, 16, 147-50, 153-53. 46. As histórias distintas de heterossexuais dos sexos feminino e masculino
38. Muitos desses textos médicos que discutem a heterossexualidade são reprodu- continuam a ser temas para investigações detalhadas futuras.
zidos em G/LA. 47. Veja Sander L., Gilman, Difference and Pathology: Stereotypes of Sexuality,
39. Apesar de meu enfoque nas palavras, nas idéias e nos ideais, essa história do Race, and Madness (Ithaca: Cornell University Press, 1985), e The Case of
discurso heterossexual pretende nos levar além do discurso para levantar questões Sigmund Freud: Medicine and ldentity at the Fin de Siêcle (Baltimore: Johns
difíceis sobre a invenção histórica da heterossexualidade como sentimento, ato, Hopkins University Press, 1993). As intersecções de raça e heterossexualidade
relacionamento, identidade e um sistema social intimamente ligado à linguagem, continuam a ser uma tarefa para futuros pesquisadores.
às idéias, à ética, ao poder e à hierarquia - a supremacia dos heterossexuais e dos 48. Vários livros e artigos têm começado em anos recentes a investigar a sexuali-
homens, a subordinação dos homossexuais e das mulhe"res~ zação da sociedade americana do século XX - o comportamento histórico e as
40. Embora à. invenção da heterossexualidade apresente claramente as minhas mudanças emocionais que também poderiam ser chamadas de a heteros-
razões, vários estudiosos estão agora falando sobre a invenção (ou a construção, sexualização da América. Para um bom resumo disso veja Intimate Matters: A
produção, ou criação) do corpo, da posição social, das emoções, dos sexos, da History of Sexuality in America, de John D'Emilio e Estelle Freedman (NY:
loucura, da 'raça, da realidade, do sexo, da sexualidade, da tradição, da homos- Harper & Row, 1988).
sexualidade e até mesmo da heterossexualidade, como mostrará uma olhadela na Alguns escritores inovadores, baseados principalmente em departamentos
bibliografia. ingleses, também recomeçaram recentemente a questionar os usos sociais da
41. O termo heterossexualidade primordial é tomado emprestado com gratidão de divisão heterossexual/homossexual. Eu me refiro principalmente a Between Men:
Gayle, Rubin, "The Traffic in Women: Notes on the 'Political Economy' of Sex", English Literature and Male Homosexual Desire, Eve Kosofsky Sedgwick (NY:
em Rayna R. [ap] Reiter, ed., Toward an Anthropology of Women (NY: Month1y Columbia University Press, 1985) e, especialmente, seu Epistemology of the
Review Press, 1975), 186. Closet (Berkeley: University of Califomia Press, 1990); Judith Butler, Gender
42. Nós poderíamos, seguindo o modelo médico, chamar essa síndrome de Trouble: Feminism and the-Subversion of ldentity (NY: Routledge, 1990). Diana
homovestismo, um termo no qual pensei há alguns anos. Louise J. Kaplan, em Fuss, ed., lnside/Out: Lesbian and Gay Theories (NY: RoutIedge, 1990); e Ed
Female Perversions: The Temptations of Emma Bovary (NY: Doubleday, 1991), Cohen, Talk on the Wilde Side (NY: Routledge, 1993). Mas o livro é a primeira
também fala scotehomovesusma, descrição e análise empírica e histórica do discurso sobre a heterossexualidade.
202 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
NOTAS 203

CAPÍTULO 2
de título o ano da publicação é citado como sendo 1893. The National Union
A ESTRÉIA DO HETEROSSEXUAL NA SOCIEDADE
Catalogue of Pre-1956 Publications afirma que essa edição foi publicada pela
primeira vez em 1892, e a primeira citação de hetero-sexual incluída no Oxford
1. Dr. James G. Kieman, "Responsability in Sexual Perversion", Chicago Medical English Dictionary (Suplemento de 1976, p. 85) é, para essa edição de Krafft-
Recorder 3 (maio de 1892), 185-210; Lido diante da Sociedade Médica de Ebing, atribuída a 1892. Aquele ano está incorreto. Embora a edição tenha sido
Chicago em 7 de março de 1892, mas é difícil imaginá-Io lendo a sua nota de evidentemente preparada por volta de novembro de 1892, a data do seu prefácio,
rodapé sobre Krafft-Ebing. A nota de Kieman das páginas 197-98 cita as elas- só foi oficialmente publicada em 1893.
sificaçõesdeKrafft-EbingemPsychopathiaSexualis,traduçáodeChaddock(sem Para Krafft-Ebing e seu Psychopathia, veja Peter Gay, The Bourgeois Expe-
data). A publicação americana em 1893 da tradução de C. G. Chaddock de rience: Victoria to Freud, Volume Il, The Tender Passion (NY: Oxford University
Psychopathia Sexualis, de Krafft-Ebing, seguiu-se ao artigo de Kieman (veja nota Press, 1986), 221, 223-24, 226, 229, 230-32, 286, 338, 350; Gert Hekma, "A
4, abaixo). Por isso há uma certa confusão a respeito da fonte exata da nota de History of Sexology: Social and Historical Aspects of Sexuality", em Jan Brem-
Kieman sobre os termos hetero-sexual e homo-sexual, de Krafft-Ebing. Tal- mer, ed., From Sappho to De Sade: Moments in the History of Sexuality (publi-
vez Kiernan tivesse visto a tradução de Chaddock antes da publicação. Também cado pela primeira vez em 1989; NY: Routledge, 1991), 173-93; e Amold I.
é possível quê tivesse visto um artigo anterior de Krafft-Ebingou a tradução inglesa Davidson, "Closing Up the Corpses: Diseases of Sexuality and the Emergence of
de F. J. Rebman da décima edição alemã de Psychopathia Sexualis, publicada em the Psychiatric Style ofReasoning", em George Boolos, ed., Meaning andMethod:
Londres em 1889 (não examinei aquela edição). Kieman parece ter baseado o seu Essays in Honor of Hilary Putnam (NY: Cambridge Vniversity Press, 1990),
breve comentário sobre a definição de Krafft-Ebing de heterossexual e homos- 295-325. Também devo muito a conversas com Harry Oosterhuis e a um exemplar
sexual em uma leitura superficial das páginas 222-23 da edição de 1893 da antecipado <teseu ensaio "Richard von Krafft-Ebing's Step-Children of Nature:
tradução de Chaddock de Psychopathia Sexualis, parágrafos 1-4.
Psychiatry and the Making of Modem Sexual Identity", apresentado como um
2. Os hermafroditas mentais às vezes tinham o sentimento errado por seu sexo discurso na Segunda Conferência Carleton sobre a História da Farrulia, em 12 de
biológico; seu desejo erótico era inadequadamente invertido. Um julgamento maio de 1994, em Ottawa, Canadá.
moral criou o conceito científico aparentemente objetivo de hermafroditismo 5. O enfoque de Krafft-Ebing, como um psiquiatra, nos estados de perturbação
psíquico.
mental contrasta com o enfoque anterior dos neurologistas do século XIX nos
Aidéia de Kieman de hermafroditismo psíquico não é exatamente a mesma cérebros perturbados. Agradeço a Lisa Duggan por essa observação.
da atração que agora rotulamos como bissexual, referindo-se, como o fazemos, ao 6. Nesse texto as descrições do médico de sexo doentio e sadio substituíram os
sexo do sujeito e aos dois sexos diferentes pelo qual ele ou ela se sente atraído. O velhos julgamentos morais de sexo ruim e bom, introduzindo o modelo médico
hermafroditismo psíquico se referia ao sexo mental, enquanto a nossa bisse- moderno da sexualidade para vários americanos.
xualidade se refere ao sexo de um parceiro ou uma parceira. O hermafroditismo 7. Veja, por exemplo, L. F. E. Bergeret, The Prevention Obstacle, or Conjugal
mental poderia levar a ambos os sexos como parceiros eróticos, mas o termo Onanism. The Dangers and Inconveniences to the Individual, to the Family, and
estabelecia como causa o sexo mental do sujeito (como o conceito de inversão). to Society, of Frauds in-the Acccomplishment of the Generative Functions, trad.
A nossa bissexualidade não envolve uma ligação necessária com o sexo mental. da terceira edição francesa por P. De Marmon (NY: 1870; reimpressão fotográfica
Sou grato a Lisa Duggan por esse esclarecimento.
NY: AmoPress, 1974).
3. Mas o fato de os heterossexuais parecerem apresentar o triplo da anormalidade 8. Krafft-Ebing 9.
dos homossexuais era decepcionante. Para Kieman, o.desvio dos homossexuais 9. Krafft-Ebing 169.
indicava qqe eles ao mesmo tempo tinham se rebelado contra uma norma repro- 10. Krafft-Ebing 174.
dutiva e erótica. Porém, é significativo que Kieman enfatize explicitamente a 11. Krafft-Ebing 234-36.
rebelião dos homossexuais, não o seu desvio erótico ou reprodutivo. George 12. Krafft-Ebing 234-36.
Chauncey Jr. discute a ênfase do final do século XIX na inversão dos sexos em 13. Krafft-Ebing 230-55.
"From Sexual Inversion to Homosexuality: Medicine and the Changing Concep- 14. Krafft-Ebing 341.
tualization of Female Deviance", Salmagundi 56-59 (outono-inverno 1983), 114- 15. Krafft-Ebing 342.
46.
16. Krafft-Ebing 344-47.
4. R. von Krafft-Ebing, Psychopathia Sexualis, With Especial Reference to 17. Krafft-Ebing346.
Contrary Sexual Instinct: A Medico-Legal Study, trad. Charles Gilbert Chaddock 18. Krafft-Ebing 347; um erro tipográfico no original foi, sem ser mencionado,
(Filadélfia: F. A. Davis, 1893), da sétima e revisada edição alemã; prefácio corrigido.
datado de novembro de 1892. Doravante citado como Krafft-Ebing. O U.S. 19. Krafft-Ebing 346.
Copyright Office recebeu e registrou essa edição em 16 de fevereiro de 1893 (Co- 20. Krafft-Ebing 346.
pyright Office para Katz, 25 de maio de 1990).
21. Krafft-Ebing 347.
Há uma certa dúvida a respeito do ano de publicação desse livro, porque sua 22. Krafft-Ebing 351-57.
página de copyright e o seu prefácio são datados de 1892, enquanto em sua página 23. Krafft-Ebing 351.
204 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE NOTAS 205

24. Krafft-Ebing 354. ries", de John Boswell, em MartinDuberman, Martha Vicinus e George Chauncey,
25. Seus usos de hetero-sexualligam-no especificamente a tentativas, 346; dese- eds., Hidden from History: Reclaiming the Gay and Lesbian Past (NY: New
jos, 323; sentimento, 231,250,251,321,324,333,340_41 (dois usos); instinto, American Library, 1989), 17-36. O construcionismo social também é contestado
iill 222,231,319,320 (dois usos), 356; indivíduos, 174; coito, 234, 256,338,347; em vários dos ensaios em Edward Stein, ed., Forms of Desire: Sexual orientation
amor, 255, 280. Krafft-Ebing usa uma vez hetero- e homo-sexuality (seres eróticos and the Social Constructionist Controversy (NY: Garland, 1990).
de sexo diferenciado), 169. 2. Foucault, The Use of Pleasure II, 188-89.
26. Krafft-Ebing l. 3. Foucault, The Use of Pleasure II, 187.
27. Krafft-Ebing 9. É até mesmo sugerido um elo positivo entre sentimentos 4. Foucault, The Use of Pleasure II, 188.
sexuais e religiosos (9-10). E é dito que um fator sexual positivo provou-re- uma 5. Esse historiador sugere que nós podemos legitimamente usar o termo e conceito
influência sobre o despertar dos sentimentos estéticos. O que seria da poesia e da bissexualidade, de nossa própria sociedade (ou, implicitamente, homossexuali-
arte sem uma base sexual? No amor (sensual) é obtida a excitação da fantasia dade ou heterossexualidade) quando queremos traduzir e descrever para nós
sem a qual é impossível uma verdadeira criação artística ... Portanto, pode-se mesmos, em nossos termos, as emoções de indivíduos à parte de suas estruturas
entender por que os grandes poetas e artistas têm naturezas sensuais (10). históricas particulares, seus conceitos e suas linguagens (Foucault, The Use of
Uma falta de sensualidade suficiente é problemática, sugere esse médico: quando Pleasure II, 188). "
o elemento sensual é fraco, o amor é sentimental e corre o risco de tornar-se uma 6. O primeiro volume de History of Sexuality, de Foucault, foi publicado pela
caricatura. Esse amor sentimental é suave enfadonho, podendo até mesmo ser primeira vez na França em 1976, e o segundo e terceiro volumes foram publicados
tolo (11). em 1984.
28. Krafft-Ebing l. 7. Veja Jonathan Ned Katz, "The Age ofSodomitical Sin, 1607-1740", um ensaio
29. Devo esse ponto de vista a Lisa Duggan, que o discute em seu estudo "The em Gayll.esbian Almanac: A New Documentary (NY: Harper & Row, 1983),
Social Enforcement of Heterosexuality and Lesbian Resistance in the 1920s", em 23-65; e documentos, 66-136. Veja também Michael Wamer, "New English
Amy Swerdlow e Hannah Lessinger, eds., Class, Race, and Sex: The Dynamics Sodom", em Jonathan Goldberg, ed., Queering the Renaissance (Durham, N. c.:
ofControl (Boston: G. K Hall, 1983),75-92. Duke University Press, 1994), 330-58; Goldberg, "Sodomy in lhe New World:
30. Krafft-Ebing 4. Anthropologies Old and New", em Michael Wamer, ed., Fear of a Queer Planet:
31. O discurso de Krafft-Ebing a favor da igualdade das mulheres emprega a teoria Queer Politics and Social Theory (Mineápolis: University of Minnesota Press,
evolutiva (veja 2, 3, 4). 1993),3-18; Goldberg, "Part Three: "They Are AlI Sodomites': The New World",
32. Krafft-Ebing 13. em seu Sodometries: Renaissance Texts, Modern Sexualities (Stanford, CA:
33. Krafft-Ebing 13. Stanford University Press, 1992), 179-249; e John D'Emilio e Estelle B. Freed-
34. Krafft-Ebing 14. man, "Part I. The Reproductive Matrix, 1600-1800", em seu Intimate Matters: A
35. Krafft-Ebing 13. History of Sexuality in America (NY: Harper & Row, 1988), 3-54. E observe as
fontes citadas em todos esses textos.
8. Veja Lyle Koehler,iSearchfor Power: The "Weaker Sex" in Seventeenth-
CAPÍTULO 3 Century New England (Urbana): University of llIinois Press, 1980), 146-52.
ANTES DA HETEROSSEXUALlDADE 9. Katz, G/LA 3l.
10. O termo sodomita foi usado nessas colônias, mas referia-se diretamente a
1. Os cornentârios de Michel Foucault estão presentes-do princípio ao fim dos pessoas de Sodoma e a todo o seu conjunto de pecados, não a uma pessoa definida
segundo e terceiro volumes de seu History of Sexuality, Veja 'lhe Use of Pleasure: essencialmente' pelo ato da sodomia. Minha interpretação dos usos do termo
Volume 2 oftheHistoryofSexuality, trad. por Robert Hurley (NY: Pantheon, 1985); sodomita nessas colônias difere da análise de Michael Warner em seu "New
e The Care oftheSelf: Volume 3 ofTheHistory ofSexuality, trad. por Robert Hurley English Sodom".
(NY: Pantheon, 1986). A publicação dos três volumes no Brasil é da editora Graal, 11. Sobre a formação da classe média americana, veja: Mary P. Ryan, Cradle of
sob o título A História da Sexualidade. the Middle Class: The Family in Oneida County, New York; 1,790-1865 (Cam-
A abordagem básica de Foucault da Grécia e da Roma antigas é apoiada bridge, MA: Harvard University Press, 1981); Karen Halttunen, Confidence Men
eloqüentemente por David M. Halperin em One Hundred Years of Homosexuality and Painted Women: A Study of Middle-Class Culture in America, 1830-1870
and Other Essays on Greek Love (NY: Routledge, 1990); John J. Winkler, The (New Haven: Yale University Press, 1982); Stuart M. Blumin, "The Hypothesis
Constraints of Desire: The Anthropology of Sex and Gender in Ancient Greece of Middle-Class Formation in Nineteenth-Century America.A Critique and Some
(NY: Routledge, 1990); e em David M. Halperin, John 1. Winkler e Froma I. Proposals", American Historical Review 90 (1985), 299~3$8; e Blumin, The
Zeitlin, eds., Before Sexuality: The Construction of Erotic Experience in the Emergence of the Middle Class: Social Experience in the American City, 1760-
Ancient Greek World (princeton: Princeton University Press, 1990). 1900 (NY: Cambridge University Press, 1989). Veja também Paul Boyer, Urban
A interpretação de Foucault e a construcionista social da sociedade da Grécia Masses and Moral Order in America: 1820-1920 (Cambridge, MA: Harvard
e Roma antigas são contestadas em "Revolutions, UniversaIs, and Sexual Catego- University Press, 1978).
206 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE NOTAS 207

12. ElIen K. Rothman,Hantb andHearts: A History of Courtship in America (NY: (veja Katz, G/LA, 140). Em 1852 o New York Herald referiu-se às mulheres
Basic Books, 1984).
ativistas como espécies híbridas, metade homem e metade mulher, que não
13. Rothman 54.
pertencem a qualquer um dos sexos. No ano seguinte o Herald se referia a mulheres
14. Rothman 51.
assexuadas, e vitupérios desse tipo foram lançados contra feministas e mulheres
15. Karen Lystra, Searching the Heart: Women, Men, and Romantic Love in e homens não conformistas até o século XX (veja Peter Gay, The Bourgeois
Nineteenth-CenturyAmerica (NY: Oxford University Press, 1989). Experience: Victoria to Fremi, Volume I, Education of the Senses [NY: .Oxford
16. Lystra 85. University Press, 1984], 190, 191).
17. Lystra 85.
32. Para a relação da classe média com a classe operária, veja D'Emilio e
18. Lystra 84. :
Freedman, xvi, 46, 57,130,142,152,167,183-84. Veja também Seídman.õ-õü,
19. Lystra 59.
117-118.
20. Lystra 101-02, 113, 117, 118. 33. O termo verdadeiro amor afirmava simultaneamente a existência e o valor do
21. D'Emilio e Freedman xviii, 111-16, 120, 138, 156-57. amor. O verdadeiro e o falso amor significavam um contraste essencial entre a
22. A obra de Rothman, Lystra, D'Emilio e Freedman, e Peter Gay (discutida autêntica e a não-autêntica afeição. O verdadeiro amor não se referia a qualquer
posteriormente) assinala a ausência nos Estados Unidos do século XIX de qualquer distinção entre erotismo do mesmo sexo e de sexo diferenciado.
ideologia pública que tomasse natural, clínico e justificado o erotismo de sexo 34. Seidman 23, 37; D'Emilio e Freedman 68-69, 71-72.
diferenciado em si, à parte do amor pelo sexo diferente. Uma heterossexualidade 35. D'Emilio e Freedman 130-38. O termo prostituto parece ter se referido no
normal, oficial, moldada clinicamente e psicológica ainda não havia sido anuncia-
da. século XIX ao homem que empregava prostitutas, não especificamente apenas ao
homem que se prostituía com outros homens em troca de dinheiro. Sou grato a
23. Steven Seidrnan, Romantic Longings: Love in America, 1830-1980 (NY: Timothy Gilfoyle por essa informação.
Routledge, 1991),208-09.
24. Seidman 208-09. 36. Michael Lynch, "New York Sodomy, 1796-1873", ensaio apresentado no
25. Lystra 84. Instituto de Humanidades de Nova York em 1º de fevereiro de 1985.
37. Ausência de paixão é um termo confuso de um historiador para as emoções às
26. Lystra nunca explora adequadamente esse lado obsceno do verdadeiro amor
quais mulheres e homens do século XIX se referiam constantemente como paixão
do século XIX - a idéia (e o forte sentimento) de que a sensualidade sem o
- e que eram apreciadas por sua intensidade. Veja Nancy F. Cott, "Passionles-
verdadeiro amor era profunda e basicamente problemática. Como Lystra separa
sness: An Interpretation of Victorian Sexual Ideology, 1790-1850", Signs 4
os seus capítulos sobre a sexualidade de seus capítulos sobre as tensões experi-
(1978),219-36.
mentadas por casais apaixonados, seus casais parecem apreciar o erotismo sem
sofrer com sentimentos profundos e prolongados de angústia, culpa, vergonha ou 38. D'Emilio e Freedman 121.
conflito em relação às suas emoções ou atividades eróticas. Algumas páginas de 39. Para o declínio da fertilidade veja D'Emilio e Freedman 57·59, 66,146, 151,
Lystra sobre as tensões nas relações sexuais de mulheres e homens não compensam 172,173-74,189,201,247,251-52,330-31. .
a sua ênfase na capacidade dos casais de justificar claramente a expressão sexual 40. Rothman 120-22, 128.
através do amor (veja 69-76). Por outro lado, Rothman sugere em todo o seu livro 41. Rothman 128-29.
que a tarefa de justificar um desejo carnal de outra forma injustificável realmente 42. Rothman 129.
causava uma profunda ansiedade em relação à quantidade suficiente ou fragilidade 43. Walt Whitman, Leaves ofGrass, Facsimile Edition ofthe 1860 Text (Ithaca,
do amor (veja Rothman) 52-53, 130, 135-37,230,233-41). NY: Cornell University Press, 1961).
27. Seidman 22-23. ' o.i 44. Michael Lynch, '''Here is Adhesiveness': From Friendship to Homosexuality",
28. Seidman 8.
victorian Studies 29:1 (outono de 1985),67-96. Embora Whitman nunca se refira
29. Seidman 189. Mas, então, Seidman usa o termo heterossexual como se ele aos atos eróticos entre mulheres, provavelmente ele ouvira falar de uma intimidade
realmente tivesse uma existência funcional e operativa na sociedade dos meados problemática entre mulheres que comparou ao seu próprio relacionamento tenso
do século XIX (veja 22-23). com Peter Doyle e Fred Vaughan. Veja Edward F. Grier, ed., Walt Whitman,
30. Barbara Welter, "The Cult of True Womanhood: 1820-1860", American Notebooks and Unpublished Prose Manuscripts, 11 (NY: New York University
Quarterly 18 (verão de 1966), 151-74; A análise de Welter é estendida aqui para Press, 1984), 890, n. 77. A referência é a Jenny Bullard, de New Ipswich, New
incluir Os Homens de Verdade e o Verdadeiro Amor. Hampshire, que é descrita como bela, generosa, cordial, forte, despreocupada,
31. As mulheres e os homens de verdade eram distinguidos das mulheres e dos risonha e vigorosa independentemente do modo de vestir ou f(a aparência pessoal
homens falsos, chamados de vários nomes depreciativos. Quem não estava à altura e que aprecia Leaves of Grass. Diz-se que BulIard viveu com duas mulheres e
da mulher e do homem-de verdade, ou se afastava desses padrões sexuais rígidos, nunca se casou.
era punido sendo considerado falso. Por criticar o papel feminino tradicional, Mary 45. Embora Gay não mencione as cartas de Emily Dickinson para Sue Gilbert,
WolIstonecraft, Frances Wright e Harriet Martineau foram condenadas por um elas documentam o próprio relacionamento anterior, intenso- e apaixonado de
clérigo em 1838 como sendo apenas mulheres pela metade, hermafroditas mentais Emily com a amiga que se tomaria a esposa infeliz do irmão Austin, Veja LiJlian
NOTAS 209
208 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

Faderman, "Emily Dickinson's Letters to Sue Gilbert", Massachusetts Review gratidão pelas cartas e pela maravilhosa pesquisa de Manfred Herzer. Também sou
18:2 (verão de 1977), 197-225. grato a John Lauritsen e David Thorstad por seu trabalho pioneiro sobre a história
46. Gay 89. do moyimento de emancipação homossexual na Alemanha do século XIX - veja
47. Kathy Peiss, CheapAmusements: Working Women and Leisure in Turn-of-the o seu panfleto The Early HomosexualRights Movement (1864-1935) (NY: Times
Century New York (Filadélfia: Temple University Press, 1986), Peiss, '''Charity Change Press, 1974) - e a James D. Steakley, por The Homosexual Emancipation
Girls' and City Pleasures: Historical Notes on Working Class Sexuality, 1880- Movement in Germany (NY: Amo Press, 1975).
1920," em Ann Snitow, Christine Stansell e Sharon Thompson, eds., Powers of 52. Féray e Herzer 34-35.
Desire: The Politics of Sexuality (NY: Monthly Review Press, 1983), 74-87;" e 53. Féray e Herzer 36.
Joanne J. Meyerowitz, Women Adrift: Independent Wage Earners in Chicago, 54. Féray e Herzer 25, 34-35.
1880-1930 (Chicago: University of Chicago Press, 1988), afirmam que a heteros- 55. Féray e Herzer 25,37; e Herzer para Katz, 16 de abril de 1989.
sexualidade teve as suas raízes nas atividades de lazer da classe operária nas áreas 56. Herzer, "Kertbeny and the Nameless Lave", 6,21, n. 6. O termo heterosexual
urbanas. Eu não discordo. Digo que a classe média reavaliou a cultura sexual da aparece na 4ª edição de R. von Krafft-Ebing, Psychopathia sexualis ... (Stuttgart:
classe operária, estrangeira, e afro-americana quando adotou publicamente o Ferdinand Enke, 1889),96,99. Heterosexual aparece quatro vezes em três frases
termo e a idéia da heterossexual idade para justificar as atividades da sua própria diferentes: heterosexuale Empfindung (sensação heterossexual); heterosexuale
classe. Veja também Christine Stansell, City ofWomen: Sex and Class in New York; Gefuhle (sentimento heterossexual); e heterosexualer Verkehr (ato sexual hetero);
1789-1860 (NY: Alfred A. Knopf, 1986). Herzer para Katz, 6 de julho de 1983 e 16 de abril de 1989. Eu agradeço a James
48. Gay 77. Steakley por ajudar com o alemão.
49. Minha compreensão das características históricas da normalização baseia-se 57. Veja minha discussão do artigo de Kieman no Capítulo 2.
nas investigações analíticas de Foucault, discutidas no Capítulo 8. 58. Havelock.Ellis, Studies in the Psychology of Sex, Volume Il, Parte lI, Sexual
Asexualização da cultura americana do final do século XIX e do século XX Inversion (NY: Random House, 1936),2-4.
é tema de vários livros e artigos; veja, por exemplo, D'Emilio e Freedman, ''Part 59. Dr. Karl Friedrich Otto Westphal, "Die contriire Sexualempfindung", Archiv
III: Toward a New Sexual Order, 1880-1930" e "Part IV: The Rise and Fali of für Psychiatre undNervenkrankheiten 2:1 (ago. 1869),73-108. Sou grato a James
Sexual Liberalism, 1920 to the Present", 171-343; Rothman, "Part III: 1870- D. Steakley pela data correta desse artigo importante. Eu faço comentários sobre
1920", 179-284; Seidman, "Patt Two: Modem Times (1890-1960)", 65-120; Westphal em Gay/Lesbian Almanac: A New Documentary (NY: Harper & Row,
Kevin White, capo 4, "Male Ideology and the Roots of the Sexualized Society, 1983),147,183,188-90,682 n. 14. Veja também Vem Bullough, Sexual Variance
1910-1930", em The First Sexual Revolution: The Emergence of Male Hetero- in Society and History (NY: John Wiley and Sons, 1976), 639, 670 n. 12.
sexuality in Modern America (NY: New York University Press, 1993), 57-79; e Comentários adicionais sobre Westphal e os termos e conceitos psiquiátricos
Peter Gardella, Innocent Ecstasy: How Christianity Gave America an Ethic of aparecem em Amold I. Davidson, "Closing Up the Corpses: Diseases ofSexuality
Sexual Pleasure (NY: Oxford University Press, 1985). and the Emergence of the Psychiatric Style of Reasoning", em George Boolos,
50. Hubert Kennedy, Ulrichs: The Life and Works of Karl Heinrich Ulrichs, ed., Meaning and Method: Essays in Honor of Hilary Putnam (NY: Cambridge
Pioneer of the Modern Gay Movement (Boston: A1yson, 1988),50, 56-58, 155. University Press, 1990),295-325; em Féray e Herzer; Gert Hekma, "A History of
Sobre Ulrichs veja também Manfred Herzer, "Kertbeny and the Nameless Lave", Sexology: Social and Historical AspectsofSexuality", em JanBremmer, ed., From
JournalofHomosexuality 12:1 (1985), 16. Em geral, veja GetHekma, " 'AFemale Sappho to De Sade: Moments in the History of Sexuality (NY: Routledge, 1989),
Soul in a.Male Body': Sexual Inversion as Gender Inversion in Nineteenth-Cen- 173-93; veja também a bibliografia de Hekman, 196-211; Herzer, "Kertbeny and
tury Sexolpgy", em Gilbert Herdt, ed., Third Sex, ThirdGender: Bayond Sexual the Nameless Lave"; e Kennedy, Ulrichs. Peter Gay, The Bourgeois Experience,
Dimorphism in Culture and History (NY: Zone Books, f99~), 213-39. Victoria to Freud, Volume II, The Tender Passion (NY: Oxford University Press,
51. O texto original alemão da carta de Kertbeny para Ulricli' de 6 de maio de 1868 1986),223-30, refere-se à mini-história de Havelock Ellis desses termos, publicada
é impresso em fac-símile e datilografado com uma breve introdução em alemão e pela primeira vez em seu Sexual Inversion na edição inglesa de 1897 e na edição
uma bibliografia feita por Manfred Herzer no periódico Capri: Zeitschrift for americana de 1900 (creio que Gay quer dizer 1901, a data da primeira edição
schwule Geschichte 1 (1987),25-35. Sou grato a Herzer por enviar-me uma cópia americana do livro Sexual Inversion); veja Ellis, Sexual Inversion, 2-4. Veja
e a Michael Lombardi-Nash por traduzir essa carta para mim e enviar-me cópias também Michel Foucault, TheHistory ofSexuality, Volume I, Anlntroduction (NY:
de sua tradução de obras de Karl Heirich Ulrichs, e a Paul Nash porresponsabilizar- Pantheon, 1978), 43.
se por essas cópias. Cópias dessas e de outras traduções podem ser adquiridas em 60. Ellis, Sexual Inversion, 3.
Urania Manuscripts, 6858 Arthur Court, Jacksonville, FL32211. Kertbeny e a sua 61. Em 1879, a discussão do Dr. A1len W. Hanenbach em um jornal de medicina
obra são discutidos em Manfred Herzer, "Kertbeny and the Nameless Lave", e americano sobre a rnasturbação referiu-se pela primeira vez ao caso de um jovem
Jean-Claude Feray e Manfred Herzer, "Homosexual Studies and Politics in the efeminado com uma atração mórbida por pessoas do seu mesmo sexo (embora
Nineteenth Century: Karl Maria Kertbeny", trad. por Glen W. Peppel, Journal of aquela atração ainda não tivesse recebido um nome apropriado; veja Vem Bul-
Homosexuality 19:1 (1990), 23-47. O significado dos termos de Kertbeny também lough, "Homosexuality and the Secret Sin in Nineteenth Century America",
é discutido em Manfred Herzer para Katz, 16 de abril de 1989. Eu reafirmo a minha Journal of the History of Medicine 28 [1973], 143-54). O primeiro artigo em um
210 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE NOTAS 211

jornal de medicina inglês sobre o terna da atração pelo mesmo sexo foi publicado o seu próprio investimento emocional no término bem-sucedido da análise de Dora
em 1881 (embora o sujeito fosse alemão e o médico vienense). Em 1883, o e a sua própria raiva de ter sido repelido ("Fragment" [1905e], SE 7:109) .
. emancipacionista sexual John Addington Symonds usou inversão sexual em sua 11. Sobre os sintomas de Dora, "Fragment" (1905e), SE 7:28.
pu blicação impressa privadamente, A Problem in Greek Ethics (veja Ellis, Sexual 12. O termo freudiano libido é discutido em uma nota em "Formulations" (1911b),
Inversion, 3). SE 12:219 n2 1; "Introductory" (1916-17), SE 15:75 nº 2; o termo freudiano
62. ElIis, Sexual Inversion, 3. princípio do prazer é discutido em notas em "Extracts" (1950a), SE 1:192 nº 4;
"Grounds" (1895b), SE 3:102 nº 1; "Encyclopedia" (1923a), SE 18:255 n21.
13. "Leonardo" (191Oc), SE 11:96.
CAPÍTULO 4 14. '"Civilized''' (19OBd), SE 9:188, 204.
CRIANDO A MÍSTICA HETEROSSEXUAL 15. ''Three'' (1905d) SE 7:199, 207; "Introductory" (1916-17) SE 16:328; "Ins-
tincts" (1915c) SE 14:138.
1. As citações dos escritos freudianos nesta parte se referem a The StandardEdition 16. "Introductory" (1916-17), SE 16:306.
of the Complete Psychological Works ofSigmund Freud, 24 volumes, editados por 17. "Three" (1905d), SE 7:178. Em outros textos Freud critica explicitamente a
James Strachey, publicados em Londres por Hogarth Press, a partir de 1953. Eu velha ética reprodutiva do ponto de vista de seu princípio do prazer. Ele salienta
incluo na lista aqui apenas a primeira palavra do título, seguida, entre parênteses, o julgamento limitador através do qual descrevemos uma atividade sexual como
pelo ano original da publicação (geralmente em alemão) e de uma pequena letra perversa se deixa de lado o objetivo da reprodução e busca a obtenção do prazer
que identifica o texto em Standard Edition. Por exemplo, "Fragment" (1095e), SE como um objetivo independente. De acordo com esse padrão reprodutivo conven-
7: 3-122 é a história de Freud de Dera/Ida Bauer, detalhada em seu "Fragment of cional toda a sexualidade que visa apenas à obtenção do prazer é rotulada como
an Analysis of a Case of Hysteria", escrito em 1901 e publicado pela primeira vez perversa e portanto proscrita.
em alemão em 1905, no 7º volume de Standard Edition. As referências completas 18. "Introductory" (1916), SE 16:322.
estão incluídas sob Freud na Bibliografia no final deA invenção.
19. "Introductory" (1916), SE 16:316.
Para uma maravilhosa bibliografia de Dora/Ida veja Hannah S. Decker,
20. "Introductory" (1905d), SE 7:191, 234.
Freud, Dora, and Vzenna (NY: The Free Press/Macmillan, 1991). Para alguns
21. "'Civilized'" (1908d), SE 9:204.
ensaios importantes sobre Freud e Dora, veja Charles Bemheimere Claire Kahane,
22. "Three" (1905d), SE 7:177,178.
eds.,In Dora's Case: Freud -Hysteria -Feminism (NY: Columbia University
23. "Civilization" (1930a), SE 21:104. Para o excesso de repressão sexual veja
Press, 1985).
"Five" (191Oa), SE 11:54 e "Three" (1905d), SE 7:172.
2. "Fragment" (1905e), SE 7:23. Não verifiquei se Freud começa com uma
descrição física as suas outras histórias de casos, especialmente as de homens. 24. "Five" (1910a), SE 11:54.
3. "Fragment" (1905e), SE 7:21, 56-58. 25. "Analysis" (1909b), SE 10:145.
4. "Fragment" (1905e), SE 7:32, 36, 48, 56. 26. "Fragment" (1905e), SE 7:47-48.
5. "Fragment" (1905e), SE 7:25, 27, 37, 38, 40, 46, 95, 105. 27. "Fragment" (1905e),SE49.
6. "Fragment" (1905e), SE 7:32, 60-62,107. 28. "Fragment" (1905e), SE 7:50.
7. "Fragment" (1905e), SE 7:105. 29. "Fragment" (1905e), SE 7:52.
8. "Fragment" (1905e), SE 7:84. 30. "Three" (1905d), SE 7:140.
9. "Fragment'[ (1905e), SE 7:19, 20. " .. 31. Com respeito aos primeiros usos da palavra heterossexual na literatura médica,
10. O sentimen.!os negativos de Dora por Freud eu deduzode ~;uaúltima sessão Freud se refere aos indivíduos heterossexuais, citando o Dr. Arduin (1900); veja
de análise depois de três meses. Seus sentimentos positivos por ele eu deduzo de "Three" (1905d), SE 7:143. Krafft-Ebing cita Moll referindo-se aos indivíduos
seu pedido para continuar a análise um ano depois. A hostilidade de Freud a Dora hetero-sexuais; veja Krafft-Ebing (1893), 174. O Oxford English Dictionary nos
é indicada pelo fato de ele ter agido como um pretendente abandonado e ter se diz que Charles Samson Féré (em The Sexual Instinct: Its Evolution and Dis-
recusado a aceitá-Ia outra vez como paciente. Sua hostilidade também é evidente solution ..., trad. H. Blachamp [Londres: The University Press, 1900], viii, 183) se
quando ele garantiu-lhe (como ele diz) que uma secreção vaginal não era um sinal refere ao hermafroditismo psicossexual no qual não existem traços de heteros-
de doença venérea herdada de seu pai, mas era principalmente um indício de sexualidade, embora predomine a homossexualidade. (Veja OED Supplement
masturbação ("Fragment" [1905e], SE 7:76). Freud imaginar-se o ginecologista [1976],11,85.) Veja também a minha discussão sobre a história do termo heteros-
de Dora é uma indicação de um impulso inconsciente, invasivo e heteroerótico na sexual no Capítulo 3.
direção de Dora (veja "Fragment" [1905e], SE 7:9, 48, e veja meus comentários 32. Veja os meus comentários sobre Floyd DelI no próximo capítulo.
no texto). Freud também fala em querer penetrar nos sonhos de Dora ("Fragment 33. Freud usa o termo heterossexualidade em "Hysterical" (1909a), SE 9:165.
[1905e], SE 7:92). A hostilidade agressiva de Freud em relação a Dora também é 34. Samuel A. Guttman, Randall L Jones, Stephen M. Parrish, The Concordance
revelada em sua afirmação de que a análise de Dora ultrapassou os limites impostos to The Standard Edition ofThe Complete Psychological Works of Sigmund Freud,
pela prudência médica ("Fragment" [1905e ], SE 7 :9). Freud defensivamente nega 6 vols., v. III (Boston: G. K. Hall, 1960): 194,227-29.
r.1~~

212 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE


NOTAS 213

35. O Index da The Standard Edition das obras de Freud (volume 24) inclui uma
inútil entrada de verbete para Heterosexuality que nos remete para Object-choice, 62. Para a discussão de Freud sobre teleologia veja "Three" (1905d), SE 7:156,
heterosexual- a única entrada indexada de heterossexualidade _ que inclui oito 184n, 188n; e "Contributions" (1912s), SE 12:247-48.
referências insignificantes. Veja "General Subject lndex" SE 24: Heterosexual 63. "Claims" (1913j), SE 13:180.
attraction (veja Object-choice, heterosexual, 295); e Object-choice, heterosexual, 64. Veja Freud, "Analysis of a Phobia in a Five- Year-Old Boy" (1909b), SE 10:7-8,
334. Por outro lado, a entrada principal de Homosexuality inclui uma coluna cheia 35, 106, 120. A mãe também ameaça bater na criança de cinco anos com um
de referências. Veja: "General Subject lndex", SE 24: Homosexuality, 295. Outra batedor de tapete, 87.
entrada de Object-choice, homosexual inclui 19 referências. Veja: "General Sub- 65. "Fragment" (1905e), SE 7:2-21.
ject Index", SE 24:334.
66. Decker 52. O pai de Dora realmente teve sífilis antes de se casar, mas não
36. Freud usa a expressão o problema da homossexualidade; veja Kenneth Lewis, parece ter infectado a sua mulher; veja Decker 51.
The Psychoanalytic Theory of Male Homosexuality (NY: Simon and Schuster, 67. "Psychogenesis" (1920a), SE 18:146 (a introdução do editor).
1988),35 nº 48, citando Freud, "The Psychogenesis" (1920a), SE 18. 68. Freud discute o complexo de Édipo nas garotas em "Psychogenesis" (1920a),
37. "Fragment" (1905e), SE 7:27-28.
SE 18:155, 157, 167-68, 192; "Beyond" (1920g), SE 18:106; "Dreams and"
38. "Fragment" (1905e), SE 7:29.
(1922a), SE 18:214-15; "Ego" (1923b), SE 19:31-32; "Dissolution" (1924d), SE
39. Decker xi. Dora na verdade tinha treze anos: durante toda a sua narrativa ele 19:173,177-79; "Some" (1925j), SE 19:244-47, 251-52, 256-57; "New" (1933a),
erroneamente acrescenta-lhe um ano, o que esconde um pouco a sua idade e a SE 22:118-19,120,128-30,133-34.
desproporção de poder entre o homem adulto e a adolescente, ajudando a não dar 69. Veja minha análise da discussão de Kate MiJlett de Mailer no Capítulo 6,
destaque ao caráter ameaçador do incidente. .
"Questioning the Heterosexual Mystique".
40. "Fragment" (1905e), SE 7:29.
70. "Universal" (1912d), SE 11:189.
41. "Fragment" (1905e), SE 7:105.
71. "Fragment" (1905e), SE 7:56.
42. "Fragment" (1905e), SE 7:105-06.
72. Veja as muitas referências ao complexo de Édipo no "General Subject Index"
43. "Fragment" (1905e), SE 7:98-99.
das obras de Freud.
44. "Fragment" (1905e), SE 7:98-99.
73. Sobre a dissolução do complexo de Édipo veja "Ego" (1923b), SE 19:31-39;
45. "Fragment" (1905e), SE 7:25-26. "Dissolution" (1924d), SE 173-74, 176-77, 179; "Some" (1925j), SE 19:244-45,
46. "Fragment" (1905e), SE 7:95. 256-57; "New" (1933a), SE 22:92,129.
47. "Fragment" (1905e), SE 7:105-06. ~
74. Veja Decker para a contratransferência no tratamento que Dora fez com Freud:
48. "Fragment" (1905e), SE 7:34. 116-23,136-36,147.
49. "Fragment" (1905e), SE 7:108. Hoje existe uma vasta literatura sobre a ten- 75. "Fragment" (1905e), SE 7:9.
dência homofóbica na psicoterapia americana e, em particular, na psicanãlise.Veja, 76. "Fragment" (1905e), SE 7:48.
por exemplo, Lewes (1988).
77. "Fragment" (1905e), SE 7:9.
50. "Fragment (1905e), SE 7:106.
78. Veja Decker.'
51. Veja meu comentário sobre Kertbeny no Capítulo 3. 79. "Three" (1905d), SE 7:148.
52. "Fragment" (1905e), SE 7:61.
53. "Fragment" (1905e), SE 7:26.
54. "Fragment" (1905e), SE 7:61. ~....
CAPíTULO 5
55. "Fragment" (1905e), SE 7:60. '.'.~ o HETEROSSEXUAL TORNA-SE CONHECIDO
56. "Fragmenf (1905e), SE 7:105. Em outra nota de rodapé Freud fala sobre o
grupo de pensamentos mais escondidos de Dora -os que se relacionavam com 1. Veja D'Emilio e Freedman,lntimate Matters: A History ofSexuality inAmerica
o seu amor por FrauK ("Fragment" [1905e), SE 7:110-11). (NY: Harper & Row, 1988), 194-201,231,241,295-96; Ellen Kay Trimberger,
57. "Fragment" (1905e), SE 7:120. "Ferninism, Men, and Modern Love: Greenwich Village, 1900-1925", em Ann
58. Lewes, 35 nº 49, citando Freud, "On Psychotherapy" (1905a), SE 7:255-68. Snitow, Christine Stansell, Sharon Thompson, eds., Powers ofDesire: The Politics
Infelizmente não inclui referências de páginas. ofSexuality (NY: Monthly Review Press, 1983), 131-52; Kathy Peiss, "'Charity
59. "Three" (1905d), SE 7:146. Girls' and City Pleasures: Historical Notes on Working Class Sexuality, 1880-
60. Freud, "The Psychogenesis of a Case of Homosexuali ty in a Woman" (1920a) 1920", em Powers of Desire, 74-87; e Peiss, Cheap Amusements: Working Women
SE 18:153. andl.eisure in Turn-of-the-CenturyNew York(Filadélfia: Temple University Press,
61. Para a avaliação moral de Freud de maturidade e imaturidade, veja Timothy 1986). Veja também Christine Stansell, "Conclusion", City of Woman: Sex and
Murphy, "Freud Reconsidered, Bisexuality, Homosexuality, and Moral Judg- Class in New York, 1789-1860 (NY: Alfred A. Knopf, 1986),217-21; Mary P.
ment", Journal of Homosexuality 9:2/3, espec. 73-75. Ryan, "The Sexy Saleslady: Psychology, Heterosexuality, and Consumption in the
Twentieth Century", em seu Womanhood in America, 2ª ed. (NY: Franklin Watts:

-:
~,
2'4
A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE
NOTAS 2'5

1979), 151-82; e Joanne l. Meyerowitz, WomenAdrift: Independelll


in Chicago, 1880-1930 (Chicago: University of Chicago Press, ICJHH) 11\1111 untlga equiparação de instinto sexual a instinto reprodutivo. Veja
2. O aparecimento do heterossexual, descrito em linhas gerais aqul, 111".,")·20. Veja também EIlis, Studies in the Psychology ofSex, Volume
dizer uma história em condições para ser mostrada no futuro. AIAlII/I Ir", "'I'ho Mechanism ofDetumescence", 115-200 (NY: Random House,
história já estão começando esse trabalho. Veja, por exemplo, Kovln
First Sexual Revolution: The Emergence of Male Heterosexuallly 'I 'li". Wolr, Jr., "The Effects ofFemale Suffrage on Posterity", American
America (1993) e Eflen Kay Trimberger, "Feminism, Men, and MI , )·1 145 (set. de 195),823-25.
Greenwich Viflage". A bibliografia no livro de White é útil. 'I""p,il que esse pregador faz de nomes depreciativos que pretendem
3. Dr. Charles H. Hughes, "Erotopathia _ Morbid Eroticism", 111111 'flfllllh'oHpara as mulheres que saíram da linha foi uma tentativa de dar
Congresso de Medicina Pan-Americano, setembro de 1893; AIII 11I1'"\lU!'do discurso do médico. Veja [Rev. Charles Parkhurst], "Woman.
Neurologist, 14:4 (outubro de 1893),531-78. 111Alltlromaniacs. Dr. Parkhurst So Characterizes Certain Women Who
4. Marc-André Raffalovich, "Uranism, Congenital Sexual InversiOll, 01 h'IV Ape Everything That Is Mannish. Woman Divinely Preferred. Her
and Recommendations", Journal of Comparative Neurology, vol .•1 (I 'li' V110MIn Her Womanliness, and She Should Make the Most ofIt - Her
1895),33-65. Sobre Raffalovich veja Brian Reade,Male Homosexutlllly II ",ItI1~1Uscfulness the Home",New York Times, 23 de maio de 1897, 16:1.
Literature from 1850 to 1900: AnAnthology (NY: Coward- McCallll, IV11 I'",A 'times Book Review, 30 de março de 1913, p. 175; fazendo uma
38, 40, 50, 53, e Richard Ellman, Oscar Wtlde (NY: Alfred A. Kllopl'. I 11"1Nature ofWoman, de J. Lionel Taylor. (NY: Dutton).
71n,94,112,218,253,263,282,388,462n,472,532,572.
5. Raffalovich 42. li,d Ttmes Book Review, 19 de outubro de 1913, p. 56, fazendo uma
6. Raffalovich 50. ,. \ Antagonism, de Walter Heape. (NY: Putnam's).
7. Krafft-Ebing 56. 1'1111011 Smith-Rosenberg, "The New Woman as Androgyne: Social
8. Krafft-Ebing 49. , 111111 ( lender Crisis, 1870-1936", em seu Disorderly Conduct: VLSionsof
9. Krafft-Ebing 52. , /11 1'1t'lorianAmerica (NY: Alfred A. Knopf, 1985),245-96,342-49. Para
10. Krafft-Ebing 53. 11111 'I1I1ltem prazer veja Jonathan Ned Katz, Gayll.esbian Almanac (NY:
I /li HIIW,1983), 169.
11. W[iIJiam] A[lexander] Dorland, TheAmerican lllustratedMedicnl /)/,
segunda ed. (Filadélfia: W. B. Saunders, 1901),300. • IMIIexemplo, D'Emilio e Freedman em "The Sexualized Society", na
12. Jarnes A. H. Murray, Henry Bradley, W. A. Craigie, C. T. Onloll", .11I//lI/mateMatters; Peter Gardella em "Redemption Through Se x", em
Supplement to the Oxford English Dictionary (Oxford, Inglatcnu: ('I ", lúw/fI,\y: How Christianity Cave America an Ethic of Sexual Pleasure
Press, 1933), p. 460. h 111I 11 University Press 1985); Stephen Seidman em "Sexualizing Love,
13. Sigmund Freud, Three Contributions to the Sexual Theory, trnd. A ,,11111 Hllx" e "Bringing Sex Back In: The Birth of a Culture ofEroticism",
introd. Jarnes l. Putnam (NY: The Journal of Nervous and MonJ1I1 ••IN do HOURomantic Longings: Lave in America, 1830-1980 (NY: Rout-
Publishing Company, 1910); retraduzido em TheStandardEditioll oltll IIJI)I); O Mary P. Ryan, "The Erosion of Woman's Sphere: Heterosexuality
Psychological Writings ofSigmundFreud, editado por Jarnes Strachoy, vIII I" tlIl!lIlInlined Home, 1910-1940", Capítulo 5 em seu Womanhood in
Os discursos americanos de Freud de 1909 são publicados Como "Flve I I''''''
/1" Colonial Times to the Present, 3ª ed. (NY: Franklin Watts, 1983).
on PsychO-Analysis" em SE 11:3-35. O quarto discurso se conccnnn '11' I" IIHIIDuggan, "The Social Enforcement of Heterosexuality and Lesbian
14. Hayelock Eflis, Studies in the Psychology of Sex;'Volume I, 111/'/\"'11/1 11""'111'111lhe 1920s", em Amy Swerdlow e Hannah Lessinger, eds., Class,
Modesty, The Phenomena ofSexuaIPeriodicy,Auto_Eroticism (Filad.: li, ,,,1S,,~: The Dynamics ofControl (Boston: G. K. Hall, 1983),75-92; Rayna
1900). Esse volume foi posteriormente incorporado ao quarto volume d 1/,II!l1l Ross, "The Twenties Backlash: Compulsory Heterosexuality, the
Studies in the Psychology of Sex (NY: Random House, 1936). 11111I" Fumily, and the Waning of Feminism", em Swerdlow antes; Christina
15. A'primeira edição de Sex in Relation to SOciety, de Eflis, foi p"h" I"II~, U( 'ompanionate Marriage and the Lesbian Threat", Frontiers 4:3 (ou-
Filadélfia por F. A. Davisem 1910, como o Volume VI de Studies inth« !l,' ,I•• 1'1'/9), 54-59; e Lillian Faderman, Surpassing the Love of Men (NY:
of Sexo Aquela edição foi reimpressa em Studies in the Psychology ol.\'(J)" 111""1MOfI'OW, 1981).
IV,Sex inRelation to Society (NY: Random House, 1936), e a citaçllo d d "," "','",-chfor arder, 1877-1920, de Robert H. Wiebe (NY: HiII and Wang,
16. A edição de 1915 de Sexuallnversion, de Ellís, foi reimpresso 1111 IIIJI I, IIoII'1I1110nta a regulamentação de linhas férreas, fusos horários e práticas
Random House de 1936; para o uso que Eflis faz do termo heterosscX""1" ,,111111: 22-23. Veja também os comentários de Wiebe sobre o controle
veja o seu Studies in the Psychology ofSex, Volume 4, Parte Dois, Scxlltll,,, 111', " ( '51, 154-55); "Battle of the Standards" de 1896 (prata e ouro como o
(NY: Random House, 1936),2,3,27,43,53,59, 68 (dois usos), 7 1,72 .: " utonotãrio, 100); o aparecimento de uma ética quantitativa (40); e a
17. Havelock Ellis, Studies in the Psychology of Sex, Volume I, I"lfl 111 I\~nllde Simon Nelson Patten por volta de 1900 de que uma escassez ou
"Analysis ofthe Sexual Impulse" (NY: Random House, 1936),25,63, M. I ''''1/1111 da Dor fora substituída por um excedente ou uma Economia do Prazer
tumescência, de Ellis, deriva de Mofl, outro antigo sexólogo alemllo. IlI" I I 14111111 bom se fosse assim. Para a padronização dos procedimentos de
"""'"1111,consulte controle científico e Taylorismo em Labor and Monopoly
NOTAS 217

216 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

33. Henry James Fonnan, crítica de Love in theMachineAge, de Floyd DeU (NY:
Capital: The Degradation of Work in the Twentieth Century, de Harry Bravennan Farrar & Rinehart), New York Times BookReview, 14 de setembro de 1930, 9.
(NY: Monthly Review Press, 1974). 34. Burchfield, ed.,A Supplement to the Oxford English Dictionary /1,80, citando
Para a tentativa de testar, quantificar, medir e padronizar a inteligência veja E. Arnot Robertson, Ordinary Families (copyright 1933; reeditado em Londres:
Stanford-Binet Intelligence Seale, de Lewis Tennan (Boston: Houghton Mifflin,
Virago Press, 1986),272.
1916). Para a tentativa de Tennan de fazer por um gênero insuficientemente
regularizado o que ele já fizera por uma inteligência padronizada, veja Sex and 35. Robertson 218.
Personality, Studies in Feminity and Masculinity, de Tennan e C. C. Miles (NY: 36. Robertson 270.
MacGraw-Hill, 1936). Para uma crítica feminista de Tennan e outras tentativas de 37. Robertson 272.
medir a masculinidade e a feminilidade, veja dois artigos de Mirian Lewin na 38. Robertson 272.
39. A idéia de algo como uma identidade heterossexual (e uma identidade
antologia que ela editou: In theShadowofthePast:PsychologyPortr aystheSexes: proclamada publicamente) documenta a incitação e proliferação da heteros-
A Social and Intellectual History (NY: Columbia University Press, 1984). sexualidade historicamente específica do século XX. O fato de essa declaração
26. J. R. Ackerley, My Father and Myself(NY: Coward-McCann, 1968; brochura lírica da identidade heterossexual ter sido escrita por Lorenz Hart, um homossexual
San Diego: Harcourt Brace Jovanovich), 117. Ackerley diz (101) que ficou na não assumido e cheio de culpa, é outra das ironias da história heterossexual.
Suíça até o final da Primeira Guerra Mundial, quando conheceu Lund. Sobre a Rodgers & Hart negou-me permissão para citar a letra da canção.
virgindade de Ackerley, veja 113. 40. Esse é o uso mais antigo de straight, significando heterossexual, catalogado
27. Veja David Loth, The Erotic in Literature: A Historical Survey of Pornography no OED; veja R. W. Burchfield, ed.,A Supplement to the Oxford English Dictio-
as Delightful as It Is Indiscreet (Londres: Secker & Warburg, 1962), capo IX, "The nary (Oxford: Clarendon Press, 1986), Volume IV, "Se-Z".) A fonte original citada
Bars Begin to Drop", 145-70. pelo OED é G. W. Henry, Sex Variants: A Study of Homosexual Patterns (NY:
28. Brett P. Palmer, de Merriam- Webster Inc., Springfield, MA, para Katz, 17 de
Paul B. Hoeber, 1941),2 volumes, 11: 1176.
setembro e 28 de outubro de 1993. O Sr. Palmer me garante que homosexuality e 41. Aqui, o que era apenas um ato erótico de homens e mulheres foi transformado
'homosexual aparecem na p. 1.030 da edição de 1909 do Websters New Interna- em heterossexualidade, uma coisa à qual podemos nos entregar ou voltar a nos
tional Dictionary, que heterosexuality aparece pela primeira vez na p. xcii do
suplemento de 1923 do Webster s New lnternational Dictionary, e que a definição entregar.
42. Veja Allan Bérubé, Coming Out Under Fire: The History of Gay Men and
contemporânea de heterosexual aparece pela primeira na.Segunda Edição de 1934 Womenln World War Two (NY: Macmillan, 1990), 107, 193.
do Websters. Sou grato ao Sr. Palmer por essa informação e por fotocópias dessas 43. Ferdinand Lundberg e Dr~ Marynia F. Famham, Modern Woman: the Lost Sex
páginas.
(NY: Harper, 1947),381-82.
29. Um hífen ainda ligava os recém-unidos conceitos de diferença dos sexos e 44. Para o termo estéril, veja Katz, G/IA, 630-32, 646-48.
prazer dos sexos, o hetero e o sexual. Veja Mary Keyt Isham, crítica de Beyond 45. Dr. Howard A. Rusk, New York Times Book Review, 4 de janeiro de 1948,3.
the Plesure Principie e Group Psychology and the Analysis of the Ego, N ew York 46. Ele assim foi contra a idéia mais antiga de um ato procriativo natural, uma
Times BookReview, 7 de setembro de 1924, 12, 16. É relevante notar que em Group experiência e uma pessoa monolíticos e definidos qualitativamente.
Psychology Freud fala sobre o poder realmente mágico das palavras. Elas podem 47. Kinsey e outros, Sexual Behavior in the Human Male (Filadélfia: W. B.
provocar as piores tempestades na mente do grupo (80). Freud também fala aqui Saunders, 1948), 199-203" e veja Normal no índice desse livro.
sobre o amor sexual (90-91), e a estrutura libidinosa da Igreja e do Exército
48. Kinsey, Male, 637, 639.
(93-99): veja SE 18. 49. Sobre a escala de avaliação heterossexual-homossexual, veja "The Hetero-
30. Suas palavras são: repetidamente na história da conquista um belo sentimento
sexual-Homosexual Balance", em Kinsey, Male, 636-66.
de amor maduro por uma pessoa do sexo oposto cuja reação é mínima ... final- 50. Veja Steve Epstein, "Gay Politics, Ethnic Identity: The Limits of Social
mente se transformava em um amor perfeitamente produtivo. Constructionism", Socialist Review 17 (1987), 9-54. Eu sou mais crítico do que
31. Mary Ware Dennett, The Sex Side of Life, An Explanation for Young People Epstein em relação ao conceito de identidade, tanto em seus usos psicológicos e
(Astoria, NY: Publicado pela autora, 1928). políticos quanto como um termo analítico usado na história. Precisamos de muitos
32. Louis Kronenberger, crítica de The Immoralist, de André Gide, traduzido por
outros termos analíticos.
Dorothy Bussy (NY: Knopt),New York Times BookReview, 20 de abril de 1930,9. 51. Gore Vidal, "Someone to Laugh at the Squares With" [Tennessee WilIiams],
O primeiro uso inglês não médico dos meios de comunicação de massa de New York Review of Books, 13 de junho de 1985; reeditado em At Home: Essays,
heterosexual, catalogado pelo Oxford English Dictionary ocorreu em 1º de outu-
1982-1988 (NY: Random House, 1988),48.
bro de 1927, na página 3 de Scots Observer, que explicava a seus leitores que 52. James Baldwin, "Preservation of Innocence", Zero 1:2 (verão de 1949);
Certas pessoas ... são tão instintivamente homossexuais quanto o indivíduo reeditado em Outlook2:2 (outono de 1989),40-45 (citado aqui de Outlook). Para
normal é heterossexual. A idéia de que o normal é o heterossexual estava sendo comentários sobre Baldwin e seu ensaio, veja Melvin Dixon, "This Light, This
passada aos povos de língua inglesa. Veja R. W. Burchfield, ed., A Supplement Fire, This Time", no mesmo número de Outlook, 38-39; e Katz, G/IA 161-62,171,
to the Oxford English Dictionary, Volume 11,H-N, (Oxford, Inglaterra: Clarendon
591,598,647-51.
Press, 1976), 80.
218 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE NOTAS 219

53. Baldwin 45.


77. Peter e Barbara Wyden, Growing Up Straight: What Every Thoughtful Parent
54. Baldwin 41.
Should Know About Homosexuality (NY: Stein and Day, 1968).
55. Baldwin 41.
78. Wyden 236.
56. Baldwin 42.
79. Wyden 237.
57. Baldwin 45.
58. Baldwin 43. 80. Wyden 237.
59. Baldwin 43. 81. Wyden 239.
60. Baldwin 44. 82. Wyden 245.
61. A vitória simbólica da heterossexualidade, sua conquista de um homem normal 83. Wyden 246.
[provavelmente branco] é apresentado através de uma mulher espanhola, certa- 84. Wyden 246.
mente útil para o crítico cultural. 85. Nos anos noventa é perigoso ler capítulo após capítulo do livro dos Wydens,
62. Baldwin 44. que afirma a sua fé total, abjeta e inquestionável no ajuste, ~~não
63. Baldwin 44. examinada no normal e sua deificação dos papéis essenciais de homens e mulheres
64. Baldwin 44-45. aos quais as crianças devem ajustar-se para não arriscar-se a ir para o inferno
65. Baldwin 45. homossexual. A trivialidade total desse livro causa morte cerebral: A criança que
66. James Baldwin e Nikki Giovanni, A Dialogue (Filadélfia: J. B. Lippincott, se torna homossexual geralmente é superprotegida e preferida por sua mãe. Em
1973), 88-89. Esse Dialogue é transcrito de uma conversa entre Baldwin e outros casos, pode ser pouco protegida (Wyden 48).
Giovanni gravada em Londres, em 4 de novembro de 1971.
67. James Baldwin, " 'Go the WayYourBlood Beats':Anlnterview ..." por Richard
Goldstein, Vil/age Voice, 26 de junho de 1984: 13-14, 16. CAPíTULO 6
68. Katz, G/IA 161,171,591-95,597-604. QUESTIONANDO A MíSTICA HETEROSSEXUAL
69. O conflito entre a tendência do movimento de liberação gay a rejeitar essas
categorias e o seu impulso de ratificá-Ias continua a produzir uma tensão constante 1. Alice Echols, Daring to Be Bad: Radical Feminism in America, 1967-1975
dentro desse importante movimento contemporâneo que visa à mudança social. (Mineápolis: University of Minnesota Press, 1989), 4-5; Betty Friedan, The
70. Clyde Kluckhohn, "TheComplex Kinsey Study and WhatItAttempts", Sétimo Feminine Mystique (NY: W. W. Norton, 1963; referências futuras são dessa
Caderno, New York Times Book Review, 13 de setembro de 1953,3. edição).
71. Brooks Atkinson,New York Times, 1º de outubro de 1953,35:1. 2. Veja Betty Friedan, lt Changed My Life: Writings on the Women~ Movement
72. Robert C. Doty, "Growth of Overt Homosexuality in City Provokes Wide (NY: Random House, 1976), especialmente "Introduction: Critique of Sexual
Concern",New York Times, 17 de dezembro de 1963, pp. 1,33. A reportagem de Politics (Nov. 1970)", 155-64.
Doty é reeditada em parte em Martin Duberman, About Time: Exploring the Gay 3. Echols 15. Echols também discute outra análise feminista e um ativismo
Past, edição revisada e expandida (NY: Meridian/Penguin, 1991). feminista intluenciadores: o feminismo cultural. A análise feita pelas feministas
73. A necessidade de explicar que straight significa heterossexual na linguagem culturais, que surgiram por volta de 1975, no final dos anos cobertos aqui, mostrou
gay coloca essa reportagem definitivamente no passado. E a menção em The Times uma diferença básica e importante entre homens e mulheres. Tentando aplicar a
de oradores straight (e de gays se divertindo) marca o aparecimento naquele jornal idéia do feminino eterno e da mulher essencial à causa da emancipação feminina,
dos homossexuais como uma minoria com uma linguagerft .especial, uma nova as feministas culturais se concentraram nos efeitos nocivos dos valores masculi-
voz e organizações próprias. ' nos. Elas salientaram a importância de criar urna contracultura feminista alterna-
74. Rosalyn Regelson,"Up the Camp Staircase",New York Times, 3 de março de tiva na qual os valores femininos seriam cultivados. Echols 6-8, 9, 2, 243, 257,
1968, Segundo Caderno, 1:5. 281-84.
75. Clive Barnes, New York Times, 22 de março de 1968, 52:1. 4. "The Sex-Seekers" é o Capítulo 11, e "The Sexual Sell" é o Capítulo 9 de The
76. Judy Klemesrud, "You Don't Have to Be One to Play One",New York Times, Feminine Mystique.
29 de setembro de 1968, Segundo Caderno, 1:2. O subtexto maldoso do humor de 5. Ti-Grace Atkinson, Amazon Odyssey (NY: Links Books, 1974); Kate MilJett,
Klemesrud sugeriu que o ator realmente protestou demais. Seu heterossexo Sexual Politics (NY: Doubleday, 1970; reeditado em NY: Avon 1971); Gayle
contrafeito, insinuou ela, revelou uma indicação do horno. Mas quaisquer que Rubin, "The Traffic in Women: Notes on the 'Political Economy' of Sex", em
fossem os psicodrarnas particulares da mente desse homem em particular repre- Rayna [Rapp] Reiter, ed., Toward an Anthropology of Women (NY: Monthly
sentados no palco, a estranha angústia do ator, ansioso por dissociar-se de um papel Review Press, 1975), 157-210. Sobre a heterossexualidade veja também Anne
homossexual, era apenas um exemplo extremo da nova necessidade de muitos Koedt, "The Myth ofthe Vaginal Orgasm", em Anne Koedt, Ellen Levine, e Anita
homens de proclamar'publicamente a sua heterossexualidade- de definir-se para Rapone, eds., Radical Feminism (NY: Quadrangle Books, 1973), 198-207 e
o mundo não como um daqueles pervertidos agora descritos mais claramente na Shulamith Firestone, The Dialectic ofSex: The Case for Feminist Revolution (NY:
mídia. O aparecimento do homo provocou o aparecimento do hetero. William Morrow, 1970).
NOTAS 221

220 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE

16. Friedan, Feminine Mystique, 294-305.


6. Em 1968, Atkinson já sugere que a distinção entre sexo biológico e social é 17. Friedan, Feminine Mystique, 257-58.
problemática. A suposição de dois sexos biológicos, argumenta ela, terá de incluir 18. Friedan, Feminine Mystique, 256.
as mulheres se tomarem humanas. Para outra antiga e brilhante desconstrução das 19. Friedan, Feminine Mystique, 75-76.
diferenças sexuais biológicas, veja Suzanne J. Kessler e Wendy McKenna, Gen- 20. Friedan, Feminine Mystique, 79.
der: An EthnomethodologicalApproach (John Wiley, 1978; reeditado em Chica- 21. Veja EIlen Carol DuBois e Linda Gordon, "Seeking Ecstasy on the Battlefield:
go: University of Chicago Press, 1985). Danger and Pleasure in Nineteenth-century Feminist Sexual Thought", em Vance,
7. Como a antropóloga feminista Carole S. Vance posteriormente explicou, a ed., Pleasure andDanger 31-49. Sobre as ligações íntimas entre as feministas do
resposta das mulheres modernas à sexualidade transpôs um campo difícil de desejo século XIX, veja Lillian Faderman, Surpassing the Love of Men: Romantic
e perigo, prazer e medo. Veja seu "Pleasure and Danger: Toward a Politics of Friendship and Love Between Women from the Renaissance to the Present (NY:
Sexuality", em Pleasure and Danger: Exploring Female Sexuality (Boston: William Morrow, 1981).
Routledge & Kegan Paul), 1-28. 22. Friedan, Feminine Mystique, 80.
8. Nesse capítulo e no seguinte eu não pretendo oferecer uma história completa 23. Friedan, Feminine Mystique, 74.
dos primeiros anos da análise feminista moderna da heterossexualidade. Não digo 24. Veja especialmente Lésbicas Radicais, "The Woman-Identified Woman" em
coisa alguma sobre o feminismo psicanalítico neofreudiano inspirado por Psy- Koedt, Levine, e Rapone, eds., RadicalFeminism, discutido no capítulo seguinte.
choanalysis and Feminism, de Juliet Mitchell (NY: Pantheon, 1974) e The Repro- 25. Friedan, Feminine Mystique, 97.
duction of Mothering: Psychoanalysis and the Sociology of Gender, de Nancy 26. Friedan, Feminine Mystique, 115.
Chodorow (Berkeley: University of Califomia Press, 1978). Não falo sobre as 27. Friedan, Feminine Mystique, 115.
implicações para a heterossexualidade de uma análise feminista especificamente 28. Veja o capítulo 5 de Friedan, "The Sexual Solipsism of Sigmund Freud",
socialista - embora "The Traffic in Women", de Rubin, tenha sido fortemente FeminineMystique,96-116.
inspirado em Marx, entre outros. Não discuto o feminismo antipomografia de 29. Friedan, Feminine Mystique, 110.
Andrea Dworkin, Catherine MacKinnon e outras, ou o feminismo radical quanto 30. Friedan, Feminine Mystique, 110.
ao sexo e anticensura representado nas antologias de Carole S. Vance e Ann Snitow, 31. Veja o capítulo 6 de Friedan, "The Functional Freeze, The Feminine Protest,
et aI. Tampouco refiro-me nesses capítulos à análise feminista afro-americana da and Margaret Mead", Feminine Mystique, 117-38.
heterossexual idade, e aos comentários mais recentes sobre a heterossexualidade 32. Friedan, Feminine Mystique, 126-27.
influenciados pela crítica literária e pela teoria crítica oferecida nas obras feminis- 33. Friedan, Feminine Mystique, 126-27.
tas singulares de Eve Kosofsky Sedgwick, Judith Butler e Diana Fuss. Também 34. Friedan, Feminine Mystique, 133.
não discuto a análise. feminista muItidisciplinar oferecida recentemente pelo 35. "Vaginal Orgasm" foi apresentado como uma palestra na Conferência Nacional
periódico canadense Resources for Feminist Research, em seu "Confronting do Comitê Médico para os Direitos Humanos, na Filadélfia; em 5 de abril de 1968,
Heterosexuality", edição dupla (setembro/dezembro 1990) ou no periódico inglês e reeditado em Atkinson 5-7. "The Institution of Sexual Intercourse" foi escrito
Feminism and Psychology em sua edição especial "Heterosexuality" (outubro de em novembro de 1968, epublicado por New York Free Press em 13 de dezembro
1992). Como os últimos textos indicam, obras sobre o feminismo e a heteros- de 1968; reeditado em Shulamith Firestone e Anne Koedt, eds., Notes from the
sexualidade do tamanho de livros já estão aparecendo, e espero que continuem a SecondYear (NY: New York Radical Women, 1970),42-47; e em Atkinson 13-23.
multiplicar-se. Os comentários oportunos de Atkinson sobre a organização social das
Os textos feministas nesse capítulo (e os analisados a seguir) discutem idéias relações eróticas de mulheres e homens também aparecem em seu "Radical
complexas.e são mais abstratos e elaborados do que alguns outros discursos sobre Feminism and Love" (12 de abril de 1969), Atkinson 41-45.Veja também os seus
a heterossexualidade examinados neste livro. Essas análises feministas podem artigos sobre os grandes conflitos entre feministas lésbicas e heterossexuais:
exigir muita atenção,. mas valem o esforço, porque ao criticarem a virtuosa "Lesbianism and Feminism" (21 de fevereiro de 1970), Atkinson 83-88; "Lesbia-
heterossexualidade começaram a pôr de lado o seu status sagrado, o seu misterioso nism and Feminism: Justice for Women as 'Unnatural' " (31 de dezembro de
caráter inquestionável. 1970), Atkinson 131-34.
9. "The Problem That Has No Name" é um capítulo de The Feminine Mystique, 36. Atkinson xxii. Atkinson ajudou a encontrar a sede de Nova York da Organiza-
de Betty Friedan. A edição em brochura do livro de Friedan (NY: Dell, 1964) o ção Nacional para as Mulheres e foi a primeira presidenta dessa sede; ela
chama de um bestseller e afirma que foram impressas mais de 1 milhão de cópias. abandonou o posto e a organização depois de uma tentativa fracassada de demo-
10. Judith Hole e EIlen Levine, Rebirth of Feminism (NY: Quadrangle, 1971), 85. cratizar radicalmente a sua estrutura de poder interna: Atkinsdn' 9-11. '
11. Friedan, Feminine Mystique 241. 37. Atkinson 66-67. Mas em sua opinião, à medida que as mulheres se tomam
12. Friedan, FeminineMystique 241. mais independentes, seu interesse nos homens e a sua necessidade deles diminui
13. Ve&or exemplo, Christopher Lasch, The Culture ofNarcissism (NY: W. W. (13-14). Em uma referência rara e explícita à heterossexualidade, Atkinson diz:
Norton, 1979). Em uma sociedade que é combativamente heterossexual, a homossexualidade
14. Friedan, Feminine Mystique, 242. deve ser, em algum ponto, uma escolha consciente (85). Ela sugere que uma
15. Friedan, Feminine Mystique, 251.
222 A INVENÇÃO DA HETEROSSEXUALlDADE NOTAS 223

decisão é tomada sempre que uma pessoa com sentimentos homossexuais tenta 69. MilIett 17.
ter uma vida homossexual ativa em uma sociedade dedicada oficialmente à 70. MilIett 17.
heterossexualidade. Mas Atkinson não estende o seu insight à imposição social da 71. MilIett 17.
heterossexualidade. 72. A distinção entre sexo biológico e gênero construído socialmente é básica para
38. Atkinson 13. o argumento feminista radical e feminista liberal de que a organização social, não
39. Atkinson 85. a anatomia feminina, oferece às mulheres destinos determinados culturalmente-
40. Atkinson 19. que elas podem ou não aceitar. A análise feminista radical de Milletl também
41. Atkinson 135. sugere, sem insistir no assunto, que a produção social dos sexos masculino e
42. Atkinson 20. feminino está ligada à hierarquização da sociedade do erotismo de sexo diferente
43. Atkinson 20. e sexo igual.
44. Atkinson 21. 73. MilIett 19.
45. Atkinson 13. 74. MilIett 20.
46. Atkinson 53. 75. MilIett 22.
47. Atkinson 71. 76. Millett 363.
48. Atkinson 49, 114. 77. Sidney Abbott e Barbara Love, Sappho Was a Right-On Woman: A Liberated
49. As idéias de Atkinson refletem as afirmativas iniciais do movimento de Vtew of Lesbianism (NY: Stein and Day, 1972), 121; Hole and Levine 241.
liberação gay de que para os homossexuais se liberarem devem acabar com as 78. Hole and Levine 241.
distinções homossexual/heterossexual (embora ela não faça essa ligação). (Veja, 79. Rubin 8.
por exemplo, as citações das Lésbicas Radicais e de Dennis Altman no Capítulo
80. Rubin 178.
1.) Todas refletem a idéia de Marx de que o proletariado da sociedade capitalista
81. Rubin 179.
é a classe que acabará com a classe capitalista, e com a sua própria.
82. Rubin 178.
50. Atkinson 49. Atkinson adapta a antiga ideologia de individualismo da classe
83. Rubin 178.
média à causa da liberação radical das mulheres da classe do sexo.
51. Atkinson 44-45. 84. Rubin 180-181.
52. Atkinson 105. 85. Rubin 180-181. Ela acrescenta: A divisão sexual do trabalho é envolvida em
53. Atkinson 43. ambos os aspectos do gênero -cria-os masculino e feminino, e heterossexuais.
54. Atkinson 105. Ela explica que a supressão do componente homossexual da sexualidade humana
55. Atkinson 44-45. e, em conseqüência, a opressão dos homossexuais, é portanto um produto do
mesmo sistema cujas regras e relações oprimem as mulheres.
56. Millett sobre o sistema de casta heterossexual, 275; sobre a ortodoxia heteros-
86. Rubin 181.
sexual, 333, 342; sobre a postura heterossexual, 331; e sobre o ativismo hete-
rossexual fanático, 333. 87. Rubin 180-81.
57. Veja Wilhelm Reich, Sex-Pol: Essays 1919-1934, ed., por Lee Baxandall, trad. 88. Rubin 181. Sua análise salienta a diferença entre o nosso padrão de heteros-
Anna Bostock, Tom DuBose, Lee Baxandall (NY: Vintage Books/Random House, sexual e homossexual, baseada no sexo anatômico dos parceiros, e a distinção
1972); e Wilhelm Reich, The Sexual Revolution: Toward a Self-Governing Char- mojave entre heterossexual e homossexual, baseada no papel social, no compor-
acter Structure, ed., rev. trad. por Theodore P. Wolfe ()lY: Farrar, Straus and tamento e no modo de vestir. O fato de que essa organização de