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“Quantas páginas tem?

” é provavelmente a primeira pergunta que nos passa a todos pela


cabeça quando estamos a escolher um qualquer livro para uma apresentação oral. Pergunta
para a qual, geralmente, a resposta ideal tem o menor número de dígitos possível. E também
eu fiz essa mesma pergunta à funcionária da Bertrand: “Muito boa tarde, será que me
conseguiria dizer quantas páginas tem o livro: “As velas (qlq coisa)?”

Click click click

-“153 páginas” respondeu

Bem, não são assim tantas… não são 50, mas eu tenho mesmo de escolher entretanto…
Encomendei e passados dois ou três dias fui buscá-lo. Ora qual não foi o meu espanto quando,
à medida que transpunha os limites físicos da folha para mergulhar na nova dimensão que as
palavras me ofereciam, o “Eia 153 páginas” se transformou num “Eia SÓ 153 páginas?”. Talvez
isto apenas signifique que gostei do livro… Mas porquê? Não conseguia encontrar uma razão
aparente. Um livro por si só de leitura algo confusa, carregado de duplos ou até triplos
sentidos, que obriga o leitor a prestar atenção a cada detalhe… Aprontei me a tirar esta ideia
da cabeça e rapidamente cheguei à conclusão de que nunca duvidara do porquê de ter
gostado desta obra, simplesmente não sabia como vos explicar. Não, perdoem-me, como vos
fazer sentir a magnitude destas 153 páginas… páginas que relatam a vida do General Henrik e
do seu melhor e único amigo Konrád… páginas que impõem questões importantes, filosóficas,
sobre os relacionamentos humanos, sobre o conhecimento da verdade, sobre o que
esperamos dos outros e o seu significado… páginas que, com um suspense que deixa qualquer
leitor num estado de nervos, escrevem aquilo que não temos coragem de admitir… páginas
que juntas formam um dos melhores romances do século XX – AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM,
de Sándor Márai.

Publicado em 1942, este livro transporta-nos para o final do século 19 e início do século 20 e
apresenta-nos uma longa reflexão sobre a amizade e a sua impossibilidade na desigualdade.
Ao longo do romance, o escritor húngaro constrói duas personagens cujo destino decide unir
na mais das verdadeiras amizades: Henrik, rico aristocrata e general, e Konrád, proveniente de
uma família polaca decadente. Esta relação prolonga-se no tempo até que, 22 anos depois,
Konrád desaparece para os trópicos sem deixar qualquer justificação.

Com uma encenação que arrepia, Márai prepara o reencontro de dois velhos amigos, passados
41 anos, onde um quase monólogo do general, apenas interrompido aqui e ali por perguntas
ou frases misteriosas, se estende pelos últimos 10 capítulos da obra, particularidade que não
impede o leitor de ficar agarrado até à última palavra. Não com o objetivo de confirmar a
traição que Konrád cometera ao fugir, nem de desvendar o segredo que entre eles se interpõe,
o monólogo aparece como uma descrição da sua vida, dúvidas e certezas que o tempo
alimentou ou fez esquecer. E para nós, o que é a amizade? Numa atualidade onde basta enviar
um pedido para fazer aumentar o número de “amigos”, quais são as fronteiras entre a
camaradagem, o companheirismo, e a tão banalizada amizade? Página 82.

E, no fim, o que parece importante não é a resposta a nenhuma destas perguntas porque, se
procurarmos bem cá no fundo, sabemos as respostas. O importante, é então o que fazemos da
nossa vida quando conhecemos e absorvemos a verdade.
Há pouco, logo no início da apresentação, receio ter cometido uma pequena mentira por
conveniência, pois, na realidade, acho que para alguns o mais importante na escolha do livro a
apresentar é o título. Aquela palavra, expressão ou frase que encerra em si o ponto de partida
para a realidade alternativa, mágica, escondida atrás de uma capa. Esse sim foi o grande
motivo por ter escolhido esta mesma obra. E quando me dirigi à funcionária da Bertrand,
perguntei: “Quantas páginas tem o livro “As velas ardem até ao fim”?” e não “Quantas páginas
tem o livro “As velas qlq coisa”” porque aquela frase, qual sentença, colou-se-me na cabeça e
tão facilmente não sairá. Numa primeira instância, podemos dar a este título inúmeros
sentidos, sendo que um deles é nem mais nem menos do que a interpretação literal. Sim,
durante o jantar entre Konrád e Henrik, as velas postas sobre a mesa em bonitos candelabros
extinguiram-se, esgotaram-se. Mas não penso que seja por esse motivo que o autor escolheu
esta frase e lhe deu tamanha importância. As velas ardem enquanto têm pavio, um caminho a
percorrer. E tal como as velas, também as nossas vidas são assim. Só vivemos enquanto ainda
tivermos o que fazer, objetivos pelos quais lutar, coisas para alcançar. Página 150

Obrigado.