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Revista Capacitando para Missões Transculturais #1

http://www.apmb.org.br

EDUCAÇÃO TEOLOGICA ALTERNATIVA


José Rosifran C. Macedo

Definição do Nosso Papel


Ao analisarmos o modelo de treinamento da maioria das profissões seculares,
achamos as seguintes características:
• O objeto do estudo é passivo, como por exemplo, o corpo humano, doenças, leis,
cálculos.
• O conhecimento do objeto está concentrado em certas instituições que detêm o poder de
habilitar os profissionais em cada área.
• O indivíduo que almeja certa habilitação precisa associar-se a estas instituições para que
o conhecimento e a habilitação lhe sejam dados.
• A habilitação para o exercício da profissão é dada quando a pessoa obtém certo nível de
conhecimento requerido. O individuo recebe o diploma e estará apto para ser um médico,
advogado ou engenheiro.
O resultado deste sistema é que há um depositário do conhecimento (a faculdade)
e, há um receptor (o aluno). Há uma dependência do último para com o primeiro e o
ensino é uma estrada de mão única que vai de cima para baixo.
Apenas certa porcentagem (10%?) do treinamento teológico deve ter as
características descritas acima; a sua maior parte deve divergir drasticamente do que foi
descrito. Como instituições de educação teológica, nós precisamos ter consciência do
nosso papel na formação dos obreiros da seara de Deus, se quisermos ser achados como
"obreiros fiéis" no uso dos dons entregues a nós pelo próprio Senhor. Para isto
precisamos de respostas para as seguintes perguntas:
• Qual o resultado que queremos obter no final dos anos de treinamento que oferecemos?
• O que ensinamos?
• Quem são as pessoas que treinamos?
• Qual é o papel que desempenhamos no treinamento?
• Qual é a nossa filosofia e atividades de trabalho?
1. O Alvo errado
Nós pecamos ao achar que o nosso alvo como instituição teológica, ou
missiológica (já que não há missiologia sem teologia, daqui por diante irei me referir ao
treinamento teológico incluindo as duas áreas), é formar pastores e missionários. Há
muito debate atualmente tentando definir se isto é função do seminário ou da Igreja. Na
realidade não é nem de um nem do outro. Quem forma obreiros para a sua seara é o
próprio Senhor. É Ele quem escolhe, chama, capacita e envia (Mt 9.38; Rm 1:1; At 13.2).
O seminário e a Igreja precisam zelar para que estes obreiros tenham certa maturidade
no Senhor antes que comecem a exercer o ministério de tempo integral. Esta maturidade
inclui relacionamento com Deus, conhecimento da Palavra e testemunho de vida diante
dos outros.
O nosso alvo não é formar ou habilitar pastores e missionários. Se assim
definirmos o nosso alvo, como no modelo secular, nos veremos como os depositários e
guardiões do saber onde os alunos precisam ser submergidos para que obtenham este
conhecimento. O ensino será uma estrada de mão única, haverá uma superioridade nossa
em relação aos alunos, uma dependência destes para conosco, e o nosso papel será
definido, simplesmente, como transmissores de informação.
A cada ano falamos para os nossos alunos que o nosso alvo é ver na vida de cada
um uma maturidade que deve ser demonstrada numa atitude de aprendizagem. Isto
encrue uma aprendizagem em relação a Deus, às informações e às circunstâncias.
Uma vez definido o nosso alvo teremos uma visão precisa de quem somos, o que
ensinamos e quem são os nossos alunos.

2. Sujeito e não Objeto


O treinamento teológico diverge drasticamente do secular no que se refere ao
Objeto de estudo. Na realidade Ele não é o Objeto de estudo, mas o Sujeito do
treinamento. Se virmos Deus como Objeto de estudo, sobre quem relemos o
conhecimento que precisa ser transmitido aos nossos alunos, de certa maneira, estaremos
assumindo o lugar de Deus na vida deles. O conhecimento de Deus, e a revelação da Sua
Palavra e vontade só podem ser adquiridos quando o próprio Deus se revela aos homens.
Embora a verdade acerca de Deus seja uma só, a revelação dela aos homens é feita por
Ele de uma maneira altamente individualizada. Precisamos reconhecer aceitar e respeitar
a maneira como Deus está se revelando á cada um dos nossos alunos e encorajá-los, com
os dons que nos foram dados por Ele mesmo, a que continuem crescendo.
A visão do que ensinamos influencia diretamente a visão de quem são os nossos
alunos e como os tratamos. Quando colocamos Deus no lugar apropriado, sujeito e não
objeto, nos livramos de pesos e responsabilidade inalcançáveis, temos uma visão correta
de quem são os nossos alunos, do nosso papel no treinamento deles, e desenvolvemos
uma humildade genuína no nosso relacionamento com eles.

3. Colaboradores em Cristo
No modelo secular o aluno é visto como um noviço, um desconhecedor do saber
que precisa ter sua mente iluminada e treinada através da transmissão do conhecimento.
Na educação teológica temos que ver os nossos alunos como colaboradores de Cristo a
serviço do seu reino que estão num período de treinamento intensivo, antes de assumirem
o ministério integralmente. Temos que reconhecer que eles podem adquirir este
treinamento sem nós, porém num prazo mais longo, e talvez com conseqüências bem
negativas para eles e para a Igreja. Os seminários precisam fornecer o ambiente
apropriado para que este treinamento aconteça num prazo menor e cuidar das feridas que
ocorrem durante este período.
Por vermos os alunos como colaboradores de Cristo e nossos colegas de
ministério, na nossa escola só recebemos pessoas que têm consciência de um chamado
para o ministério, e que de alguma forma já estão envolvidos na obra. Aqui entra a
colaboração que a Igreja e o seminário precisam ter quanto ao treinamento dos obreiros.
A visão do "aluno" como membro do corpo de Cristo e colega de ministério
modifica radicalmente o nosso tratamento para com ele, O ensino é visto como um
caminho de duas mãos, pois muitos têm dons e experiências diferentes das nossas e um
relacionamento individual com o Senhor. Por isto eles têm muito a contribuir para a vida
da escola e muito a nos ensinar. É isso mesmo - eles podem nos ensinar muitas coisas
importantes. Um exemplo clássico deste tipo de "ensino" é o apóstolo Paulo, o grande
"mestre" da igreja cristã. Ao escrever para os romanos, ele declara que tem algo para
ministrar a eles, mas também tem algo a receber deles: "Porque muito desejo ver-vos, a
fim de repartir convosco algum dom espiritual, para que sejais confirmados; isto é, para
que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos, por intermédio da fé mútua,
vossa e minha" (Rm 1.11-12).

4. Um só Mestre
Tendo definido o nosso alvo, o que ensinamos e quem são os nossos alunos, o
nosso papel fica claramente evidenciado. Nosso papel não é de depositários da verdade
nem fornecedores do saber. Somos apenas catalisadores e estimuladores da
aprendizagem. O nosso papel é promover situações e experiências onde o ensino e a
aprendizagem acontecem. Quem ensina é o Mestre. Quem aprende é o aluno. Como
irmãos mais velhos e mais experientes (em certas áreas), devemos estar acompanhando e
auxiliando aqueles a quem o Mestre está treinando.
Somente nos vendo desta forma, como auxiliadores e colaboradores, é que
podemos entender as palavras de Jesus em Mateus 23.8 "Vós, porém, não sereis
chamados mestres, porque um só é o vosso Mestre, e vós todos sois irmãos."

5. Estimulando a aprendizagem
Tendo o nosso alvo e o nosso papel bem definidos fica mais fácil desenvolver
uma filosofia e um programa de ensino. Como já falamos antes, a cada ano enfatizamos
aos nossos alunos que nosso alvo não é fornecer todas as informações que eles precisam
para serem bons obreiros. Isto é uma tarefa impossível de ser realizada por qualquer
instituição. Nós deixamos bem claro que o nosso alvo é ver na vida de cada um o
desenvolvimento de uma atitude de aprendizagem em relação a Deus, às informações e às
circunstâncias.
Se virmos nos alunos uma aprendizagem no relacionamento com Deus através da
oração, do estudo da Palavra, da prática de uma vida santificada, da vitória de uma vida
de fé e na batalha espiritual, podemos ter certeza de que serão obreiros bem sucedidos
(2Tm 2.2). A formação do caráter de Cristo na vida do obreiro cristão é a marca mais
importante que ele precisa no ministério. Tendo isto sido demonstrado durante o período
de treinamento, podemos descansar na certeza de que eles continuarão aprendendo do
Senhor durante o decorrer de toda a sua vida.
A segunda área em que o indivíduo deve demonstrar uma atitude de
aprendizagem é em relação às informações, em especial às informações a respeito da
Palavra (2Tm 2.15). É apenas nesta área que uma pequena parte do nosso programa se
assemelha ao treinamento secular. Mesmo assim, o nosso papel é providenciar uma base
e apresentar as ferramentas disponíveis com as quais os próprios alunos poderão aprender
e continuar aprendendo mesmo depois de deixarem o seminário.
Nenhuma escola pode se propor a fornecer todas as informações que os alunos
necessitarão para desempenharem um ministério frutífero. Esta é uma tarefa impossível,
pois cada aluno tem sua própria história, irá exercer um ministério individual e confrontar
situações variadas, as quais são imprevisíveis. Além destas particularidades, a gama de
informação que há em cada área de estudo é tão grande que seria impossível em quatro
ou cinco anos passar tudo para os alunos. Por outro lado, fornecer o básico e ver nos
nossos alunos uma atitude de aprendizagem é um alvo mais atingível.
Na nossa experiência temos descoberto o sistema educacional brasileiro como o
maior empecilho nesta direção. A maioria dos nossos alunos não foram treinados para
pensar por si mesmos. A experiência de "aprendizagem" que tiveram nos anos de escola
foi apenas a de absorção de informações. Cada nova turma vem para o seminário com a
expectativa de que iremos fornecer todas as informações necessárias e que eles
simplesmente irão absorvê-las sem muito esforço. No primeiro ano gastamos muito
tempo no esforço de estimular a pesquisa, o questionamento, a análise, conclusões
próprias e a aplicação do material aprendido. Se dermos o básico e os virmos
desenvolvendo um pensamento lógico, crítico e pesquisador, podemos ter a certeza de
que eles irão sempre buscar as respostas para as diversas situações que irão enfrentar no
ministério.
A terceira área é a aprendizagem em relação às circunstâncias. Precisamos ver os
nossos alunos crescerem no decorrer de cada experiência, positiva ou negativa, vivida
durante o tempo de treinamento. Precisamos acompanhá-los e auxiliá-los durante os
momentos em que sofrem tensões, confrontam relacionamentos, diferenças de opiniões,
batalhas espirituais e até mesmo tentações. Nesta área não há situações nem regras
previsíveis. Cada aluno é um cosmos individual e tem reações diferentes. Por isto
precisamos estar atentos e sensíveis a cada situação. Isto só é possível com um
relacionamento íntimo com os alunos e confiança mútua.
Para atingir nosso alvo nós procuramos promover três tipos de atividades:
• Formal - E aquela que acontece na sala de aula.
• Não Formal - Atividades programadas que ocorrem fora da sala de aula. Auto disciplina
nos estudos, trabalho prático, devocional individual, oração, etc.
• Informal - Acontece na interação cotidiana. Não é prevista nem controlada.
Nós enfatizamos para os alunos que os três tipos de atividades são importantes.
Não há uma mais importante do que a outra, e não é uma ou a outra. Todas são
importantes. Entretanto, no pouco tempo que temos de ministério nunca ouvimos falar de
alguém que abandonou a obra por falta de conhecimento acadêmico. A maioria das
razões que temos visto é enquadrada nas áreas espirituais, moral, emocional ou de
relacionamentos. Daí a razão de procurarmos investir nestas áreas.

A Ditadura do Modelo
Um dos grandes problemas na educação teológica é o modelo que temos herdado.
Este modelo segue basicamente o modelo secular. Ele é altamente acadêmico. O
seminário é visto como o guardião da verdade, os mestres são os conhecedores desta
verdade, os alunos são apenas aprendizes, e há uma grande dependência destes para com
a instituição. Este modelo é fruto da grande influência acadêmica e intelectual que
dominou a cultura ocidental. Ela atingiu a Igreja e os seminários e consequentemente foi
levada para os outros países pelos missionários. Nós brasileiros somos exímios em copiar
modelos sem antes fazer uma avaliação e "contextualização".
A nossa tarefa na formação de líderes é prejudicada por três razões:

1. Filosofia Distorcida
O ensino é executado em uma só direção (do professor para o aluno) e ele é
definido simplesmente como a transmissão de informações sem se preocupar com a
aplicação prática, nem mesmo na vida dos professores. Certa vez, um colega estava nos
mostrando o catálogo de uma grande instituição teológica ocidental na qual ele tinha
estudado, o qual apresentava as qualificações dos mestres. Nós então lhe dirigimos a
seguinte pergunta: "Quantos destes mestres, você acha, já ganharam alguém para
Cristo?" A resposta não foi muito animadora, apenas uma pequeníssima porcentagem.
Como pessoas se prontificam a serem treinadores de "pescadores de homens" enquanto
eles mesmos não pescam? A resposta só pode ser explicada tendo em vista a concepção
que a instituição tem de si mesma e de seu alvo.
Um resultado deste problema é que está havendo o treinamento de pessoas que só
conseguem sobreviver num meio intelectualizado, e a produção de um "evangelho
acadêmico". Só se consegue transmitir o evangelho se a pessoa tiver a mesma experiência
acadêmica do transmissor. Daí a razão porque damos tanta ênfase em programas de
alfabetização. Não é simplesmente o fato positivo de querermos ver as pessoas
alfabetizadas, mas principalmente por não podermos transmitir o Evangelho se elas não
tiverem a mesma experiência que a nossa. Esta é a razão porque as denominações
históricas brasileiras tiveram tão pouco impacto sobre as massas da nossa nação. O
Evangelho que a liderança prega é segundo o modelo desenhado para a massa
intelectualizada da classe média "ocidental". Já quando surgiram as denominações
pentecostais sob a liderança de pessoas leigas, estrangeiras ou brasileiras, o poder do
Evangelho estava liberado para alcançar o coração das massas, por estar despido de uma
tranca cultural.

2. A Massificação dos Discípulos


Além de ter uma filosofia de treinamento não bíblica, o modelo peca em não
considerar a individualidade de cada aluno, o seu universo particular. Por ser um modelo
empacotado ele não leva em consideração a experiência, os dons, nem o estágio de
maturidade em que cada um se encontra. Não há um acompanhamento pessoal que
auxilie cada aluno a crescer a partir do ponto em que se encontra. Isto é simplesmente
impossível quando temos centenas, se não milhares, de alunos em apenas uma instituição.
Daí a situação onde tantos possuem "diplomas" teológicos e poucos exercem o
ministério. Há simplesmente a exposição massificada das informações e é a tarefa de
cada um aplicar isto à sua realidade.
O resultado deste modelo é a frustração dos alunos, já que o modelo projetado é
um ideal não realizável, ou realizado apenas na experiência de alguns indivíduos. Uma
das características básicas, e frustrantes, dos líderes que temos encontrado é que estão
simplesmente tentando imitar alguém de sucesso no ministério. Eles perdem muito
esforço e energia neste empenho, se sentem frustrados por não serem iguais ao modelo,
ou não conseguirem os mesmos resultados. Mais triste ainda é que esta atitude bloqueia
nas pessoas a sensibilidade ao Espírito para descobrirem os seus próprios dons e
ministérios. Eles não estão somente tentando fazer a coisa "errada" (para eles), mas
também estão deixando de fazer a coisa "certa".

3. Modelo Alienígena
Além de desconsiderar a individualidade dos alunos, o modelo que herdamos foi
projetado na base geral da cultura "ocidental". Na sua maior parte, ele desconhece a
realidade da cultura brasileira. Somos conscientes, e gratos pelo fato, de que os
missionários tentaram dar ao mundo o melhor que eles tinham. Mas nesta aspiração
muitas vezes desconsideraram cegamente a cultura receptora. Queremos deixar bem claro
que não temos nenhum sentimento antipático contra estes estimados irmãos, pelo
contrário, temos grande apreço e amor para com estes (na realidade o autor é casado com
uma missionária americana). Porém precisamos reconhecer os erros cometidos e tentar
modificar a situação atual.
No passado, o Ocidente se sentia como possuidor do Evangelho e tinha a
necessidade de compartilhá-lo com os povos pagãos. Eles fizeram uma grande obra, no
entanto cometeram grandes erros os quais estão tentando evitar no presente. Na
atualidade temos visto o mesmo fator que causou erros na obra de evangelização se
manifestando na obra de treinamento de pastores e missionários. É muito comum
encontrarmos entidades missionárias e indivíduos cujo alvo é treinar os nacionais, para
que eles possam fazer a obra de evangelização ou a obra missionária. A implicação deste
movimento é que o conhecimento do treinamento está retido nas entidades ocidentais
onde os não-ocidentais precisam ir para receberem as informações, ou os missionários
ocidentais precisam levá-las até as entidades do terceiro mundo. Isto só é possível devido
ao fato do modelo de treinamento local (no ocidente) ser secular. O resultado tem sido a
aplicação do modelo secular de treinamento na Igreja numa escala mundial.
Não somos contra a interação de culturas, caso contrário, não estaríamos
envolvidos no treinamento de missionários. Somos contra o modelo de treinamento
teológico e missiológico unidirecional, onde há a desconsideração dos dons e experiência
dos indivíduos, onde há um fornecedor e receptor, onde o ensino é visto apenas como a
transmissão de informação e há sempre a dependência do receptor para com o fornecedor.
Não importa se ele é brasileiro ou chinês. No momento são os ocidentais quem mais o
estão aplicando no mundo, mas infelizmente nós, os brasileiros, já o estamos levando
conosco a outras nações.
Um dos resultados negativos deste modelo é a dificuldade que muitos pastores e
missionários, que estudaram em escolas ocidentais, estão sentindo em ministrarem de
uma maneira eficaz entre o seu próprio povo.

Conclusão
Eu optei pela palavra "ALTERNATIVA" no título deste trabalho devido ao seu
uso atual em diversas ciências, como por exemplo, Medicina Alternativa, Agricultura
Alternativa e Alimentação Alternativa. A palavra alternativa tem sido usada no sentido
não de destruir o que tem sido feito, mas de oferecer uma outra opção. Esta opção
procura analisar a situação local e desenvolver uma proposta a partir daí, como por
exemplo, uma alimentação mais nutritiva, mais barata, mais acessível a todos e natural da
própria região.
Procuramos de uma maneira equilibrada reavaliar o modelo que temos recebido,
pesquisar a situação local e oferecer um modelo alternativo embasado nos princípios da
Palavra de Deus e na realidade cultural específica.
DICAS PARA TRABALHAR COM GRUPOS PEQUENOS
Bárbara Helen Burns

A. Os Propósitos e Alvos de Estudos em Grupos Pequenos


1. Verbalizar o conteúdo ajuda o processo de aprendizagem. Se o aluno não é
capaz de expressar em suas próprias palavras aquilo que ouviu, não aprendeu de
verdade.
2. Trabalhar em grupos ajuda a completar o aprendizado. Outros podem contribuir
com suas idéias para enriquecer e firmar o ensino.
3. Um bom processo intelectual depende de habilidade lingüística. Não é
suficiente "se sentir bem" sobre o assunto. O aluno tem que poder explicá-lo para
outros.
4. Grupos pequenos ajudam cada pessoa a se envolver no processo de
aprendizado.
5. A repetição nas conversas do grupo pequeno ajuda solidificar o aprendizado.
6. Grupos pequenos ajudam as pessoas a descobrir e valorizar verdades, coma
afirmação e valorização do grupo.
7. Grupos pequenos providenciam um ambiente aconchegante, no qual a pessoa
pode ser corrigida sem sentir vergonha.
8. Aprendizagem em grupos é importante por causa da própria natureza da Igreja -
uma comunidade.
9. Grupos estabelecem um fórum em que os dons podem ser exercidos.
10. Trabalho em grupos ajuda na solução de problemas; não é apenas decorar
listas.
11. Trabalhar junto com outros permite que o aluno faça uma interação pessoal
com leituras e conceitos em um contexto social, em vez de apenas ouvir a opinião
do professor.
12. Trabalhar em grupos pequenos ajuda o aluno mais inibido a se expressar.
13. Numa boa didática, as tarefas de casa devem ser discutidas na aula seguinte.
Trabalhos em grupos providenciam esta oportunidade.
14. Jesus, Paulo, a Bíblia e a história da Igreja são exemplos da importância dada
ao aprendizado em grupos pequenos.
15. Ninguém tem toda a verdade. Os grupos ajudam a completar os
conhecimentos e atitudes.
16. Pequenos grupos fazem. São ativos, não passivos.
17. Trabalhar com grupos é uma maneira de ajudar o aluno a focalizar-se num
certo objetivo e chegar a conclusões mais objetivas e concretas.
18. As conclusões são a propriedades do grupo. Isto faz com que haja um
compromisso sério pelo grupo ao conceito aprendido. É criada convicção própria
sobre a verdade.
B. O Tamanho do Grupo
1. Quatro a oito pessoas é o número ideal para grupos pequenos.
2. Quatro pessoas no grupo dão mais oportunidade para cada um compartilhar e
participar.
3. Duas ou três pessoas no grupo criam problemas. Duas pessoas sentem
vergonha; sentem a pressão de sempre estar falando, sem tempo de refletir. Com
três pessoas geralmente uma é freqüentemente deixada fora.
4. Se o grupo é grande demais, as pessoas geralmente não vão apreciar o que estão
ouvindo (eles mesmos têm menos oportunidade de participar). Eles vão preferir
ouvir do seu professor do que dos seus colegas; não querem uma aula de "trocas
de ignorância" de outras pessoas no grupo.

C. O Horário de Trabalho
1. Deve ser flexível.
2. Não se deve estender demais o trabalho dos grupos.
3. Não se deve pôr limite de horário no início. Ajuda o grupo a não sentir que o
tempo é limitado demais, algo que tende a inibir a liberdade de trabalhar. Procure
verificar como os grupos estão progredindo.
4. Se um grupo terminar antes dos outros, dê liberdade para eles fazerem um
intervalo ou outra atividade.
5. No final deixar alguns minutos para cada pessoa trabalhar sozinha. Isto satisfaz
qualquer desejo ou frustração do aluno de recompensar a demora do grupo ou a
não aceitação das suas idéias.
6. Levar em consideração os alunos lentos e os mais rápidos. Lembre-se que o
envolvimento em trabalhos de grupos faz com que os alunos esqueçam da hora.

D. A Liderança dos Grupos


1. Cada grupo pode trabalhar sem um líder indicado, na espontaneidade, ou
indicando seu próprio líder.
2. Deve ter somente uma pessoa escrevendo as descobertas do grupo. Escrever
interfere no processo de ouvir. Também faz com que o grupo entre em acordo
com aquilo que será escrito.
3. Durante o trabalho, o professor deve verificar se cada grupo está progredindo o
suficiente e duma maneira certa. Ele pode dar direção, ajudar e animar os grupos,
não ficando mais tempo com um do que com outros.
4. O professor deve intervir (com jeito) quando observa que alguém domina a
conversa, para que todos possam contribuir.
5. O professor deve se preparar bem para que os grupos entendam bem a direção e
os objetivos do trabalho. Ele também tem que estar preparado para todas as
direções possíveis que os grupos poderiam dar à aula.
6. Na conclusão do trabalho em grupos, não deve ter uma pessoa que seja porta
voz dos outros (lendo a lista de conclusões para o plenário depois). Geralmente
nem todos no grupo concordam com as conclusões escritas, e alguém pode querer
ter a oportunidade de compartilhar também. É melhor ter um período de
reportagem coletivo. Qualquer pessoa que adquiriu um discernimento ou
conhecimento novo poderia falar. Dê liberdade para o plenário todo.
7. O professor deve ser flexível e sem plano rígido para a aula. Pode ser que Deus
tenha uma novidade a ensinar para todos.

E. A Estrutura dos Grupos


1. O professor deve providenciar uma estrutura adequada para os grupos. Sem
estrutura e plano de ação, demora-se demais para começar a trabalhar. E se há
estrutura demais, a criatividade é inibida.
2. Devem dar uma tarefa de cada vez. Se der todas juntas, se torna confuso e cria
uma pressão de chegar ao fim.
3. A natureza do material e dos grupos determina o tipo de estrutura do trabalho.
4. Idéias para estruturas:
a. Responder perguntas.
b. Preencher espaços com idéias e informações.
c. Fazer listas de conceitos tirados da Bíblia ou de livros.

Grupos são bons porque refletem o fato


que a Igreja é uma Comunidade!

(Este estudo é resultado de aulas com Dr. Ted Ward, Trinity Evangelical Divinity
School, Deerfield, Illinois, EUA, Julho de 1981.)
IMPLICAÇÕES DA TEOLOGIA PARA A
PRÁTICA EDUCACIONAL
Robert W. Ferris

A educação envolve, inevitavelmente, propósito, conteúdo e método. Educadores


teológicos geralmente reconhecem a íntima relação entre o conteúdo de seu ensino, de
um lado, e seus propósitos e compromissos teológicos, de outro. Infelizmente, muitas
vezes os métodos de ensino são determinados de maneira menos racional. Marshall
McLuhan sugeriu que método e conteúdo tendem a se fundir, ao invés de permanecerem
distintos. Se isto é verdade, podemos esperar que a teologia tenha algo a dizer sobre
questões fundamentais da educação, como o propósito e o plano programático da
educação, o processo de planejamento de currículo, e a escolha de métodos de ensino. No
entanto, poucos de nós nos preocupamos em levantar estas questões. Já é tempo dos
educadores teológicos examinarem as práticas educacionais à luz de suas convicções
teológicas.

O Propósito da Educação Teológica


O propósito da educação, como é concebido, tem um efeito profundo sobre a
prática educacional. Seminários são vistos como instituições para o treinamento de
pastores e de obreiros cristãos, como sementeiras da renovação da igreja, como
transmissores de teologia e ritual, e como laboratórios para a exploração do potencial
humano. A teologia tem algo a dizer sobre o propósito da educação teológica?
A Bíblia ensina claramente que Adão foi criado à imagem de Deus. Na queda de
Adão, essa imagem foi deformada, mas não totalmente destruída. Como resultado, todo
ser humano que nasce neste mundo pecador ainda é portador da imagem de Deus. É a
imagem de Deus que torna a vida humana sagrada. E é esta mesma semelhança que
expõe a inconsistência de nos relacionarmos com Deus de maneira radicalmente diferente
da que mantemos com nossos próximos, bendizendo a Deus enquanto amaldiçoamos as
pessoas.
Hoje em dia, muitos vêem a educação como uma questão de estruturar o ambiente
de aprendizagem, para assegurar uma resposta determinada a estímulos específicos por
parte dos aprendizes. A analogia da produção (às vezes denominada de metáfora da
"fábrica") é frequentemente utilizada para descrever esta visão da educação. O educador
é um engenheiro que planeja um processo que transforma a matéria prima (o aluno) no
produto final (um pastor qualificado).
Entretanto, se todo aprendiz é uma pessoa que carrega a marca da imagem de
Deus, não deve ser tratado como "matéria prima" a ser manipulada para fins pré-
determinados. Todo aprendiz deve ser tratado como uma criatura de valor e importância
— como uma pessoa. Menos que isso seria negar na prática a doutrina da imago dei.
A Bíblia também ensina que Deus não fica satisfeito com a permanência da
humanidade num estado de pecado, mas deseja restaurar homens e mulheres à sua
imagem em Cristo Jesus. O Novo Testamento estabelece repetidamente o crescimento à
imagem de Cristo como norma para a vida humana.
Alguns vêem a estrutura do conhecimento como determinante dos objetivos da
educação. De acordo com este ponto de vista, a aquisição de informação e de habilitações
constitue a educação. Para outros, o propósito da educação é definido em termos de
resultados sociais. Outros ainda, principalmente aqueles que se denominam de
"educadores humanísticos", expressam o propósito da educação em termos da exploração
e desenvolvimento do potencial humano.
Como Deus deseja restaurar homens e mulheres à Sua imagem na semelhança de
Cristo, os alvos educacionais não devem ser definidos em termos de sistemas de
conhecimento, papéis sociais, ou teorias humanas. Nossa teologia reafirma o
compromisso dos humanistas seculares com o desenvolvimento como objetivo da
educação, mas nos adverte que eles erram em fazer do crescimento um fim em si mesmo.
O crescimento na semelhança de Cristo é nossa preocupação. Deve ser o propósito
central de nossos programas educacionais, também.
A Bíblia ensina que o Senhor ressurreto dá à Sua igreja líderes talentosos, cuja
tarefa é de equipar os santos para o trabalho do ministério. O trabalho do ministério
envolve a proclamação, o ensino, o serviço, a doação - resumindo, todas as funções
necessárias à congregação local para crescer e se edificar em amor. A provisão do próprio
Cristo para cada congregação é de líderes especialmente capacitados para "equipar"- ou
seja, auxiliar os santos a descobrirem seus dons espirituais e a desenvolverem esses dons
no ministério.
Muitos líderes denominacionais, missionários, fundadores de organizações para-
eclesiásticas, e educadores teológicos têm diagnosticado a impotência da igreja hoje
como evidência de que pastores e líderes nas congregações locais não estão cumprindo a
tarefa de equipar os santos. Programas alternativos são necessários, dizem, para treinar e
equipar os cristãos — programas que aumentarão os pequenos esforços de nossas
congregações. Institutos bíblicos, seminários de treinamento de leigos, retiros,
conferências e a educação teológica por extensão, todos são às vezes citados como fatores
que contribuem para este objetivo.
Se o Cristo ressurreto deu a cada congregação líderes capacitados que são
chamados a equiparem os santos, então nem a educação teológica, nem qualquer outra
agência deveria tentar usurpar esta tarefa divinamente designada. Há outra tarefa,
entretanto, que pertence propriamente aos educadores teológicos. Assim como os santos
precisam ser equipados para cumprir o ministério que Deus lhes designou, tanto a
inferência como a experiência nos sugere que aqueles a quem Deus deu dons e chamou
de "equipadores" precisam ser equipados também. Como educadores teológicos, nossa
teologia da igreja e do ministério nos ensina a evitar a tentação de nos engajarmos no
treinamento de leigos, e a focalizar nossos esforços, ao invés disso, na tarefa de equipar
os "equipadores".
A teologia tem implicações para o entendimento do propósito da educação
teológica? Sem dúvida que tem! O propósito da educação teológica é de equipar os
"equipadores". Este propósito não é concebido como um programa para produzir
indivíduos que se conformam a uma lista pré-determinada de objetivos comportamentais.
Ao invés disso, o propósito da educação teológica é de ajudar os líderes da igreja a
crescerem na semelhança de Cristo e a desenvolverem seus dons, dados por Deus para
que equipem outros.

Os Moldes Da Educação Teológica


Por muito tempo a questão dos moldes e da estrutura da educação raramente era
discutida nos círculos profissionais. Os educadores tinham aceitado tão completamente o
padrão de ensino formal, que outras alternativas nem eram seriamente consideradas.
Atualmente, os moldes de ensino sem-escola são reconhecidos como abordagens da
educação válidas e eficientes. Hoje, os moldes da educação são um tópico aberto à
discussão em muitos ambientes. A teologia tem algo a dizer sobre a questão dos moldes
da educação?
O Novo Testamento indica que o molde educacional adotado e ordenado por
Jesus foi o discipulado. De entre os muitos que O seguiam, Jesus chamou doze "para
estarem com ele" Embora outros continuassem a segui-Lo durante seu ministério, estes
doze tinham um acesso especial à sua vida particular e estavam profundamente
envolvidos em seu ministério público. A reprodução de Cristo, realizada por Ele mesmo
nas vidas destes homens, foi tão efetiva que seus inimigos mais tarde observaram a
respeito destes homens que eles "haviam estado com Jesus". Devemos levar a sério,
portanto, o fato de que a última instrução de Jesus aos que eram mais próximos a ele foi
de que deveriam ir pelo mundo afora e fazer discípulos, assim como eles mesmos haviam
sido feitos discípulos.
Recentemente, o molde de educação predominante na educação teológica tem
sido o modelo da escola. Estudantes são selecionados com base em critérios acadêmicos e
sua habilidade de irem à escola para receberem instrução. Instrutores discursam,
enquanto os alunos tomam notas, de modo a se prepararem para um futuro exame.
Aqueles que demonstram conhecimento de idéias e técnicas recebem certificados que
atestam seu êxito.
Jesus poderia ter adotado uma abordagem de escola, mas Ele não o fez. Embora
escolas tivessem produzido eficazmente escritores filosóficos, pensadores, e oradores
entre os gregos por mais de trezentos anos, o propósito de Jesus não era de treinar
acadêmicos. Seu propósito era de moldar as vidas de pessoas à sua própria imagem. As
escolas não servem para moldar vidas, são mais eficazes para a transmissão de
informação. Um relacionamento de discipulado, por outro lado, combina intimidade e
participação direta no ministério. O efeito é a reprodução da vida do professor na de seus
discípulos.
As diferenças entre a escolarização e o discipulado são tão grandes e seus efeitos
tão contrastantes que educadores teológicos não podem ignorá-las. Pelo menos
deveríamos buscar ativamente meios de mitigar os aspectos menos bíblicos da
escolarização - o espírito permeante de elitismo, e a construção de barreiras entre
professores e aluno, entre sala de aula e congregação, e entre biblioteca e vida.
Lembremo-nos de que a maneira de se treinar discípulos é discipulando. O exemplo de
Cristo e sua comissão nos impelem a buscar continuamente meios de afirmar os valores
do discipulado em nossas estruturas educacionais, e a explorar novas estruturas que
possam comunicar estes valores mais efetivamente; a questão teológica é a autoridade de
Jesus Cristo.
A Bíblia nos ensina que a igreja é uma comunidade educadora. Novos cristãos são
levados à maturidade em Cristo através do ministério corporativo dos santos. É assim que
a igreja "se edifica em amor". O amor, de fato, é a marca distintiva do discípulo de Jesus
Cristo, e se evidencia no relacionamento de cuidado e de mútuo apoio, carregando os
fardos uns dos outros. Os cristãos são admoestados a seguirem o exemplo de Cristo,
considerando os interesses de outros, ao invés dos seus próprios. E este relacionamento
de amor, cuidado e edificação que caracteriza a igreja bíblica.
Padrões tradicionais de educação teológica empregam a competição por honrarias
acadêmicas como uma motivação extrínseca para a aprendizagem. Alunos disputam entre
si, sabendo muito bem que só um pode receber a honra em cada classe. Compartilhar
informações e novos pontos de vista muitas vezes é considerado como uma trapaça, e um
conhecimento compartilhado geralmente resultam numa colocação pior em relação à
classe. Alguns argumentam que a competição é um ingrediente importante na educação,
que deve ser explorado para o benefício final do aluno. Não se pode negar que a
competição é parte integrante da maioria dos programas de educação teológica.
A competição em si não é má. O apóstolo Paulo muitas vezes empregou a figura
de um atleta em suas discussões sobre a vida cristã. Porém, as ilustrações de Paulo
sempre chamam a atenção para a singularidade de objetivo e para a disciplina, não para o
valor de se tornar um vencedor às custas de outrem. Moldes educacionais que incentivam
os alunos a competirem entre si são escancaradamente inapropriados para o treinamento
de líderes cristãos. A educação teológica precisa ser re-estruturada fundamentalmente
para levar os alunos a relacionamentos de edificação mútua, ao invés de competição.
Precisamos edificar líderes-em-treinamento se esperamos que eles edifiquem outros.
Com poucas exceções, o Novo Testamento emprega a palavra ekklesia ou igreja
de duas maneiras. Em algumas passagens o termo se refere ao grupo total de cristãos,
independentemente de localização geográfica ou histórica. É nesse sentido que a igreja é
o "corpo" e a "noiva" de Cristo. Entretanto, mais frequentemente, a palavra igreja é
aplicada aos cristãos de uma região — muitas vezes em uma cidade — que constituem a
expressão local do corpo de Cristo. O retrato da igreja apostólica no Novo Testamento
reflete uma grande diversidade. Cada congregação era reconhecida como uma expressão
ímpar do corpo de Cristo. Cada igreja local ministrava à sua própria comunidade, e
geralmente tinha problemas específicos, diferentes dos que igrejas em outras áreas
enfrentavam.
Uma instrução coletiva e uniforme para os líderes seria consistente com um ponto
de vista teológico que supusesse uniformidade de ministério e interações invariáveis entre
os cristãos e as sociedades onde vivem. De fato, o que acontece é justamente o oposto. A
teologia bíblica da singularidade de cada igreja local deveria nos alertar à
impraticabilidade de se remover líderes das congregações para treinamento. Os moldes
educacionais da educação teológica devem possibilitar aos líderes das igrejas um
treinamento no contexto dos ambientes distintos onde ministram. Esta proposta poderia
ser ampliada só um pouquinho para sugerir que as congregações locais deveriam treinar
seus próprios líderes ou, pelo menos, participar substancialmente do processo de
treinamento.
A nossa teologia tem implicações para os moldes da educação teológica? Como
educadores teológicos precisamos reexaminar nossas ligações com a abordagem escolar
da educação, se desejamos ser consistentes com o nosso compromisso com nosso Senhor
e sua Palavra. Nossa teologia exige que busquemos moldes educacionais que enfatizem
relacionamentos de edificação, e de discipulado e que os relacionem intimamente com a
congregação do líder-em-treinamento.

Planejamento Curricular
O planejamento curricular denota o procedimento pelo quais as decisões
estruturais são tomadas com relação ao planejamento de atividades de ensino. O que
precisamos ensinar? Como o ambiente educacional deve ser estruturado, para que a
aprendizagem se desenvolva até atingir determinados alvos? Como podemos avaliar o
progresso da aprendizagem mais apropriadamente? Estas são decisões de currículo. Por
trás destas perguntas específicas está a questão mais fundamental sobre o procedimento
pelo qual buscamos respostas. Nossa teologia tem algo a dizer sobre o planejamento
curricular?
A Bíblia ensina claramente que dons espirituais são concedidos pelo Espírito
Santo de acordo com sua escolha soberana. No entanto, o processo não é errático, porque
dons diferentes são dados a vários indivíduos para o bem das comunidades em que
ministram. Embora esta seja a descrição da distribuição de dons espirituais em geral, ela
também se aplica à capacitação de "equipadores". Além disso, os dons dados aos líderes
eclesiásticos em cada congregação não são os mesmos. O Espírito Santo dá a cada líder o
dom particular, ou a combinação de dons, que complementará os dons que já tenham sido
dados aos outros líderes da comunidade. Desta forma os líderes da congregação são
equipados particularmente - como um time - para edificar os cristãos de seu grupo e para
lidar com os desafios que Deus já sabe que encontrarão.
Há alguns anos me envolvi com outros educadores e líderes de missões num
projeto de planejamento curricular para um novo programa de educação teológica. A
primeira coisa que fiz foi elaborar uma "descrição de tarefas" de um pastor. Com base
nesta descrição, raciocinamos que poderíamos planejar um currículo que prepararia
líderes da igreja para realizar as várias funções necessárias para o crescimento da igreja.
Embora o planejamento curricular da educação teológica não seja sempre tão deliberado
assim, as pressuposições por trás de nossas decisões são bem antigas. Em primeiro lugar,
presumimos que houvesse um único papel básico de liderança da igreja, designado
"pastor". Depois supusemos que se pudesse planejar um programa de instrução para
preparar todos os seminaristas para funcionar efetivamente neste papel. Sobre estes
fundamentos prosseguimos no planejamento de um currículo. Mas estas pressuposições
são válidas?
Nossa teologia da soberania do Espírito em distribuir dons de liderança deveria
nos exortar a não presumirmos que todos os líderes de igreja sejam iguais. O Espírito
concede aos líderes dons que diferem de acordo com suas personalidades e necessidades
de suas congregações. Além destes fatores óbvios, devemos conjeturar que haja outros
fatores que são discerníveis apenas por um Deus onisciente. Educadores teológicos não
deveriam se envolver em um planejamento curricular sem referência a líderes
particulares, que devem ser treinados. Nossa teologia exige que planejemos currículos
teológicos com as pessoas, ao invés de para as pessoas. Só assim podemos ter a esperança
de desenvolver os ministérios para os quais o líder é capacitado pelo Espírito Santo.
O livro de Atos revela que o crescimento da igreja foi acompanhado pela escolha
de presbíteros em cada congregação. Este processo, naquele tempo e hoje também,
afirma a promessa do Cristo ressurreto de dar a Sua igreja líderes capacitados necessários
à tarefa de equipar os santos para o ministério. Nesta doutrina está implícito o
reconhecimento de que o Espírito conhece os dons específicos de liderança necessários a
cada congregação. Também estão implícitos o chamado e a capacitação de líderes
eclesiásticos, tendo em vista as necessidades e oportunidades de uma determinada
congregação.
Tradicionalmente, educadores teológicos têm visto o planejamento curricular
como uma responsabilidade acadêmica. Certamente eles são sensíveis às necessidades
das congregações que podem perceber. Discussões sobre o progresso da igreja e os
impedimentos para tal progresso despertam o interesse de educadores teológicos por toda
parte. Nossas percepções são condicionadas por nossas experiências, é claro. A estrutura
de nossas disciplinas teológicas também exerce uma grande influência sobre nossas
atividades de planejamento curricular. Como educadores teológicos, nossas percepções
da igreja e do ministério, a estrutura das disciplinas, e nossas experiências em escolas e
seminários, como alunos e professores, tudo isso junto, têm nos dado as determinantes
básicas de nosso planejamento curricular para a educação teológica.
Nossa eclesiologia reconhece o trabalho soberano e onisciente do Espírito Santo
de chamar e conceder dons aos líderes da igreja para o ministério em situações
congregacionais específicas. Se dons de liderança espiritual são dados para suprir as
demandas de congregações específicas, então educadores não deveriam planejar
currículos teológicos independentemente de líderes individuais e de suas congregações.
Somente o próprio líder sabe como Deus tem trabalhado em sua vida, suas aspirações, as
visões que Deus tem lhe dado. Somente uma congregação local conhece intimamente os
pontos fortes desenvolvidos por seus líderes, assim como as áreas do ministério de cada
líder que ainda precisam ser desenvolvidas. Nossa teologia da variação dos dons de
liderança espiritual para suprir as demandas de congregações específicas requer que
reestruturemos nosso conceito de educação teológica para que líderes da igreja e suas
congregações sejam participantes do processo de planejamento de currículo.
Como seres humanos somos limitados em nosso conhecimento. Deus escolheu
revelar-nos aquilo que precisamos saber, mas muito ficou retido para seu bom conselho.
Cristo preferiu não revelar seu conhecimento das bênçãos e provações particulares que
estão em nosso futuro, como indivíduos e congregações. Ele conhece nossa tendência a
sermos ou orgulhosos ou ansiosos, e deseja nos ensinar o significado de andar pela fé.
Instituições precisam planejar de modo a assegurar sua sobrevivência bem como a
realização de objetivos compartilhados. O planejamento, assim concebido, não é errado; é
parte de nossa responsabilidade como dispenseiros. Na educação teológica, o currículo
toma a forma do esboço do programa e dos horários dos cursos. Alunos ingressantes em
um seminário geralmente podem prever o programa de estudos do período todo. E parte
do contrato oferecido pelo seminário ao aluno, e a maioria das escolas procuram não
violar esse contrato pela alteração dos requisitos no meio do curso. Entretanto, através
dessa lógica e tática, podemos solidificar e antecipar uma série de decisões que deveriam
ser tomadas passo a passo, pelo aluno e pelo educador.
Nossa teologia das limitações do conhecimento humano e da natureza da jornada
de fé cristã está relacionada diretamente aos nossos procedimentos de planejamento
curricular. Porque Cristo não nos revela o futuro de nossos alunos e das congregações a
quem eles servem, deveríamos ter o cuidado de não antecipar o planejamento curricular.
Deveria ser um processo. Somente o Senhor conhece as exigências e as oportunidades
que vão se desdobrar diante de nossos alunos — os desafios que encontrarão amanhã, e
daqui a três anos! Se permitirmos que a teologia determine o planejamento curricular a
este respeito, devemos incorporar em nossos currículos oportunidades de avaliações e
ajustes incrementativos. Dentro da ampla abrangência de compromissos que orientam
nossos programas de educação teológica — base sólida nas Escrituras, edificação
espiritual para crescimento na semelhança de Cristo, e desenvolvimento de dons para
equipar — providenciemos oportunidade e flexibilidade para responder à dinâmica do
crescimento pessoal e dos diferentes contextos de ministério.
Nossa teologia tem implicações para o processo de planejamento curricular?
Nossa teologia dos dons espirituais implica que o planejamento curricular deve ser
individualizado. Nossa teologia da natureza da igreja implica que o planejamento
curricular deveria envolver as congregações e seus líderes-em-treinamento. E nossa
teologia da limitação do conhecimento humano e da jornada de fé cristã implica que o
planejamento curricular deveria ser incrementável e flexível, ao invés de abrangente e em
longo prazo. Se nossa abordagem de planejamento curricular não tem caracteristicamente
levado em conta estas aplicações da nossa teologia, temos motivo de reflexão. Podemos
bem concluir que mudanças são necessárias para alinhar nossos procedimentos de
planejamento curricular à nossa teologia.

Pedagogia
"Pedagogia" é o ramo da educação que se preocupa com as relações professor-
aluno e com os métodos específicos aplicados a situações de ensino-aprendizagem. Este
aspecto "muito prático" da educação tem atraído a atenção de educadores teológicos há
muito tempo. Conquanto a maioria dos educadores teológicos tenha adotado o discurso
como seu estilo pedagógico, muitos confessam insatisfação com a suposição de que
discursar seja ensinar. De vez em quando aparecem artigos em revistas teológicas
sugerindo "novos métodos para o ensino teológico". Alguns professores experimentam
encenações, discussões em grupo, e trabalhos de campo. Mesmo os orçamentos precários
da maioria dos seminários ainda reservam espaço para uma porção de materiais vendidos
como "recursos pedagógicos". Resta ainda discutir uma questão: A teologia tem algo a
dizer sobre a questão da pedagogia?
Quando Jesus quis instruir Seus discípulos sobre padrões de liderança para a
igreja, as instituições religiosas Judaicas daquela época supriram exemplos negativos em
abundância. Em Mateus 23.8-10, Jesus advertiu Seus seguidores sobre três erros comuns
entre os escribas e fariseus: 1) eles aceitavam o título de "Rabi", uma designação que
implicava que a pessoa era um proeminente mestre da lei (v. 8); 2) eles tinham outros
homens como seus mestres (v. 9); e 3) eles se colocavam no papel de mestres e guias para
outros (v. 10). Todos esses erros, Jesus advertiu, devem ser evitados pelos cristãos por
uma boa razão: Somente Cristo é o mestre e guia de todos os que crêem. O
relacionamento entre cristãos é o de irmãos. Nossa atenção e lealdade deveriam ser
dirigidas a Deus e não aos homens.
As afirmações de Cristo não negam o fato de que o ensino é um dos dons que o
Espírito Santo dá à igreja. Um líder eclesiástico deve ser "apto para ensinar". O que deve
nos preocupar não é o ensino em si, mas a estrutura de autoritarismo que às vezes o
sustenta. Alguns professores defendem seu direito de dirigir a aprendizagem do aluno,
com base na sua posição de instrutores. Outros sugerem que sua liderança na sala de aula
é justificada por seu conhecimento mais extenso da matéria. A maioria dos professores se
preocupa com os interesses de seus alunos; pretendem assumir com humildade as
distinções que consideram inerentes no relacionamento entre professor e aluno. As lições
de Jesus sobre a humildade têm sido levadas a sério pela maioria dos educadores
teológicos.
Embora Jesus tenha falado diretamente sobre o assunto de humildade, suas
implicações vão muito além disso. Jesus estava preocupado com nossos relacionamentos.
Ele desejava que não nos impuséssemos como autoridades; que apenas ele tivesse a
permissão de ocupar a posição de autoridade em nossas vidas. O relacionamento
apropriado entre nós — "professor" ou "aluno" — é o de irmãos, indicando uma
igualdade que não permite nenhum argumento a favor de um elitismo na igreja. Nem
status, nem conhecimento podem justificar nosso exercício de domínio ou autoridade
sobre outros na igreja de Cristo. Se tomarmos as palavras de Cristo em Mateus 23
literalmente, elas implicam que a indumentária acadêmica (e a mentalidade que ela
representa) não tem lugar na educação teológica.
Qual é então, poderíamos perguntar, a função apropriada de um "professor" na
igreja? No contexto de Mateus 23, Jesus imediatamente fala do papel de servo. O
apóstolo Pedro lembrou aos seus leitores da impropriedade de uma atitude autoritária, e
recomenda, ao invés disso, uma postura de modelo (1Pe 5.3) O resto do ensino sobre
liderança na igreja no Novo Testamento é consistente com estas passagens. Como
educadores teológicos deveríamos desviar a atenção de nós mesmos, indicando Cristo aos
alunos, como único Mestre aos pés de quem , juntos, nos sentamos para aprender. Mais
ainda, nossa metodologia de ensino é de dar exemplo e servir. Aos Filipenses, Paulo se
descreve como uma libação derramada sobre o sacrifício de sua fé. Aos Coríntios ele
escreveu, "Sede meus imitadores, como também sou de Cristo".
A doutrina da criação afirma que o Deus da Bíblia é a fonte tanto da existência
física quanto da verdade. Por esta razão os hebreus, diferentemente dos gregos, nunca
separaram o saber do ser, nem valorizaram uma coisa mais que outra. Em termos de
integridade bíblica, uma pessoa não conhece a Deus a não ser que se comprometa com
Ele, de tal forma que o caráter de Deus remolde o seu. Conhecer a Palavra de Deus é
incorporar seus princípios no mais profundo de seu ser e demonstrá-los no curso de sua
vida. A distinção entre o conceito hebraico de integridade holística e o ponto de vista
grego de verdade como conhecimento intelectual não pode ser deixada de lado como
meramente cultural. Nas pressuposições hebraicas, e, portanto nas cristãs, há
teologicamente subjacente uma integridade de natureza, verdade e existência que
pressupõe uma integração entre a cognição e a experiência.
Educadores teológicos são sensíveis à falsa dicotomia entre o saber e o ser, porém
a maioria se sente impotente para derrubá-la. A orientação acadêmica de nossas
instituições exige a avaliação de conhecimentos (informação) adquiridos por nossos
alunos, mas tende a ver demonstrações vivas de conhecimento como "não-acadêmicas" e,
assim, fora dos limites da instituição. As diferenças entre a vida acadêmica e a "vida no
mundo real", o foco estreito e a intensidade das matérias acadêmicas, e o fato de que a
maioria dos seminaristas não tem uma experiência significante de ministério, cooperam
juntamente para a falta de integração significativa entre o saber e o ser (entendimento e
ministério).
As doutrinas da criação e da verdade precisam ser vividas em nossos programas
de educação teológica. Certamente devemos renovar nosso compromisso de evitar
métodos de ensino que incentivem líderes da igreja a separar a teoria da prática. Devemos
nos comprometer a empregarmos somente métodos de ensino que estimulem a reflexão
no contexto da revelação e da experiência, e que permitam que a reflexão teológica
desafie e informe as atividades do ministério, num processo contínuo que integre
entendimento e vida.
A doutrina da salvação pela graça tem sido um tema unificador no protestantismo
desde a Reforma, mas a doutrina dos meios pelos quais a graça é distribuída tem
ocasionado muitos debates teológicos. Anabatistas disseram que o Espírito Santo age
sobre as almas dos homens sem o uso de meios. Luteranos e Calvinistas tradicionalmente
falaram da Palavra e dos sacramentos como o meio empregado pelo Espírito. Outros
ampliaram o conceito dos meios da graça para incluir a oração, a comunhão, e o serviço a
Cristo como instrumentos pelos quais o Espírito trabalha nas vidas de indivíduos cristãos.
Além dos debates, podemos afirmar com confiança que nosso Pai celeste, cheio de amor
e sabedoria, lida com homens e mulheres através de meios apropriados a suas pessoas e
disposições. Assim Deus atrai os que crêem a si mesmo e leva-os à maturidade em Cristo
Jesus.
Com grande freqüência, os métodos de ensino dos educadores são escolhidos
segundo suas próprias personalidades, ao invés das de seus alunos. Às vezes pressupõe-se
que o valor seja inerente ao método. Alguns consideram o discurso como método
eficiente de se transferir um grande corpo de informações em um curto espaço de tempo.
Outros dão valor às discussões em grupo, asseverando que elas proporcionam um
ambiente de aprendizagem inerentemente melhor do que o discurso. Recentemente,
alguns defendiam cegamente que lições programadas, combinadas a seminários
periódicos, representam o melhor método de se conduzir a educação teológica.
A doutrina dos meios da graça deveria nos impressionar com a disposição de
Deus de adaptar seus métodos para alcançar as pessoas onde estão. Pedro fala da
"multiforme graça de Deus". Se Deus não se comprometeu com apenas um método para
lidar com o homem, então educadores teológicos deveriam reavaliar suas tendências a
fazer isto. Alguns métodos elaborados por educadores são extrinsecamente inapropriados
a nós cristãos. Porém, não há métodos pedagógicos que tenham validade intrínseca. A
validade de qualquer método é específica para os alunos. Educadores teológicos têm a
responsabilidade de seguir o exemplo de nosso Deus, desenvolvendo uma variedade de
métodos de ensino. Desta forma seremos mais capazes de descobrir os métodos que são
mais apropriados a líderes da igreja em particular e às preocupações que lhes ocupam a
atenção.
A teologia tem implicações para a pedagogia? Nossa postura como professores,
deve ser a de irmão/irmã para nossos alunos, demonstrando através de nossas vidas e
nosso serviço que juntos olhamos para nosso Senhor Jesus como único Mestre, de quem
aprendemos. Nossos métodos de ensino deveriam ser selecionados com base na sua
adequação a líderes eclesiásticos individualmente e aos seus interesses particulares, mas
devem sempre proporcionar um processo interativo de reflexão teológica e envolvimento
ministerial. Quando essas qualidades caracterizarem nossos métodos de ensino, podemos
reconhecer que nossa teologia começou a informar nossa pedagogia. Oremos diariamente
para que alcancemos esse alvo.

Resumo
Os cristãos sempre insistiram que a fé faz diferença. Faz diferença na maneira de
vermos a vida e na maneira de a vivermos. Poucos afirmaríamos que integramos nossa fé
a todos os aspectos de nossas vidas, mas nos comprometemos a sermos obedientes,
dentro dos limites de nosso entendimento.
Como educadores teológicos, temos sido diligentes em permitir que nosso
entendimento teológico molde o propósito e o conteúdo de nosso ensino. As práticas
educacionais que empregamos também devem ser selecionadas e moldadas com base em
nossas doutrinas. A maioria de nós está apenas começando a reconhecer as implicações
de nossa teologia para a prática educacional. Mas as implicações existem. Agora
precisamos examinar essas implicações, individualmente e como corpos docentes, para
determinar nossas responsabilidades à luz das práticas educacionais vigentes e de nossos
compromissos teológicos.

(Apresentada na reunião anual da Associação para a Educação Teológica Evangelical


na Índia, em Bangalore, de 20 a 23 de Janeiro de I988.)
A IMPORTANCIA E O PERIGO DE
CONTEXTUALIZAÇÃO NA INTERPRETAÇÃO
DAS ESCRITURAS
Lars Bertil Ekström

Introdução
A seguir, eles se reuniram ao pé da cruz para a primeira Ceia do Senhor, enquanto
os outros olhavam. Depois de tomar o pão - uma batata-doce cozida, fria - e parti-
lo em pedacinhos, John colocou-os sobre uma folha de bananeira e passou-os a
todos os que foram batizados. Então ele tomou o vinho - suco de framboesa
silvestre em copinhos de bambu - e distribuiu entre os treze.(1)

A Contextualização na interpretação das Escrituras é um tema atual e polêmico.


Desde os anos 70 quando o termo "contextualização" começou a ser usado, (2) a palavra
vem recebendo uma variedade de aplicações no meio teológico e missiológico.
Um dos motivos para a escolha deste tema, em meu presente estudo, está
justamente em tentar buscar definições para o termo em relação à interpretação do texto
bíblico e a aplicação dos princípios encontrados nas Escrituras.
Um segundo motivo, e não menos importante, é o de avaliar a possibilidade e a
importância da contextualização na comunicação transcultural. Até que ponto se pode
"contextualizar" a mensagem sem perder o seu conteúdo essencial e supra-cultural.
O terceiro aspecto é o da evangelização em si, isto é, qual a necessidade e
obrigatoriedade do evangelista em transmitir uma mensagem de acordo com o
conhecimento de seus ouvintes, mesmo sendo da mesma cultura que o pregador.
A tradução da Bíblia para os nossos dias, é também uma razão suficiente para um
estudo assim. É possível traduzir e interpretar a Bíblia, de forma compreensível ao leitor,
sem contextualizar?
Intimamente ligado aos motivos acima, que têm muito a ver um com o outro, está
a preocupação de uma teologia autóctone. E possível existir uma teologia autêntica e
válida para cada contexto cultural?
Certamente, minha abordagem terá o colorido transcultural já que esta é a minha
principal preocupação ministerial. Não resta dúvida, no entanto, que a questão
hermenêutica é crucial e fundamental para as missões. Trata-se do conteúdo da
mensagem, sua fidelidade ao Evangelho de Cristo e do lançamento da base doutrinária de
novas igrejas, às vezes, de povos e culturas inteiras que pela primeira vez recebem o
impacto da Verdade. Não seria exagero dizer que, dependendo de nossa capacidade de
interpretar e comunicar o Evangelho, será formada uma igreja realmente evangélica (do
evangelho) e coerente com a vontade expressa do idealizador, o mestre Jesus Cristo. Não
estamos, em absoluto, negando a obra do Espírito Santo de Deus, que vem ao encontro de
nossas fraquezas e imperfeições e que zela pela Igreja e a orienta. Porém, devemos sentir
a responsabilidade na interpretação e na comunicação do Evangelho, como se tudo
dependesse disto.
Na questão específica da contextualização na interpretação das Escrituras, creio
que tem havido uma adaptação inconsciente e impensada a certos contextos regionais e
culturais. Na defesa da tradição e de possíveis mudanças, é importante se fazer uma
diferença entre aquilo que é essencial ao Evangelho, como a salvação em Cristo, e aquilo
que é secundário, como a posição dos bancos no templo. Quando aspectos fundamentais
estão em jogo e a tradição se mantém de um lado claramente anti-bíblico, isto precisa ser
denunciado e corrigido.
Portanto, a abordagem deste artigo será a partir de uma abertura para a
contextualização, respeitando-se tanto a época como o contexto cultural. Não significa
algo sem critérios - estes iremos buscar ao longo deste texto.
Em partes, o artigo pode ser bastante técnico, principalmente na análise das
palavras chaves dos textos escolhidos. Creio, no entanto, que poderá ser útil na
compreensão das conclusões que foram tiradas.

Definições de Contextualização
Antes de entrarmos no estudo propriamente dito de textos sobre a
contextualização na interpretação das Escrituras, vamos alistar algumas definições de
Contextualização.
A definição inicial da palavra, quando primeiramente cunhada no início dos anos
70, era a de que contextualização se referia a "capacidade de responder de modo
relevante ao evangelho dentro do arcabouço da situação da própria pessoa".(3)
O próprio Bruce Nicholls define como "a interpretação (translação) do conteúdo
imutável do evangelho do reino em forma verbal compreensível aos povos em suas
diversas culturas e em suas situações existenciais peculiares".(4)
Harvie Conn diz que contextualização é "o processo de conscientização de todo o
povo de Deus das reivindicações hermenêuticas do evangelho".(5)
George Peters diz: "Contextualização aplicado adequadamente significa descobrir
as implicações legítimas do evangelho em cada situação. Vai mais fundo que aplicação”.
(6)

Hesselgrave dá uma definição mais completa:


...contextualização pode ser vista como uma tentativa de comunicar a mensagem sobre a
pessoa, a obra, a palavra e a vontade de Deus, numa forma que é fiel à revelação divina,
especialmente como é apresentada nos ensinamentos das Sagradas Escrituras, e que é
relevante aos receptores em sua respectiva cultura e contexto existencial.
Contextualização é tanto verbal como não verbal e tem a ver com a teologização;
tradução, interpretação e aplicação da Bíblia; estilo de vida de encarnação; evangelização;
instrução cristã; plantação e crescimento de igrejas; organização eclesiástica; estilo de
adoração - de fato, com estas atividades que envolvem o cumprimento da Grande
Comissão. (7)
Bárbara Burns resume a contextualização como "a expressão do verdadeiro
Evangelho em termos relevantes à cultura receptora". E cita Kraft dizendo que é uma,
“...adaptação de idéias, conceitos, ações, interesses, preocupações e costumes de uma
cultura para outra. É apresentar a mensagem ou desenvolver um programa de tal forma
que as pessoas da cultura receptora encaram como atingindo suas necessidades e
preocupações". É um processo dinâmico de 2 forças: uma cultura em mudança e uma
mensagem ou programa de fora da cultura.(8)
Como vemos nas definições acima, contextualização tem muito a ver com a
comunicação transcultural, o que é natural por se tratar de interpretar para uma linguagem
diferente da original, a mensagem bíblica. Sem dúvida, ocorre já na própria escrita do
texto sagrado, uma contextualização das verdades eternas e espirituais para uma
linguagem compreensível ao ser humano. Para isto, Deus escolhe uma cultura e uma
época específica, dentro das quais comunica a sua intenção salvífica para com a
humanidade como um todo.
Queremos, agora, passar para o estudo de alguns textos que são freqüentemente
mencionados em relação à interpretação contextualizada das Escrituras.

Textos Bíblicos Relacionados com a Interpretação Bíblica


Existem muitos textos bíblicos que poderiam ser estudados neste assunto. Não
existe, no entanto, nenhum texto, que eu conheça ou tenha visto na literatura sobre o
tema, que trate diretamente do problema da contextualização utilizando este termo ou
algo parecido. A contextualização, como princípio na interpretação bíblica, parte de
exemplos concretos na divulgação do Evangelho pelos apóstolos e de conclusões, até
lógicas, de textos sobre a aplicação da Palavra de Deus.
Vamos, para o nosso estudo mais exegético, escolher 3 textos, analisando-os
parcialmente: Atos 14.8-18; 1Co 9.19-23; e 2Tm 3.16.(9)
O primeiro é um exemplo das situações concretas vividas pelo apóstolo Paulo na
comunicação do evangelho entre gentios. O segundo é uma declaração do apóstolo sobre
o seu ministério, em termos de levar em conta o contexto onde está. E, o terceiro é uma
afirmação genérica de Paulo sobre o uso das Escrituras.

1. Atos 14:8-18 - Paulo e Barnabé em Listra


Contexto geral: Barnabé e Paulo estão em sua primeira viagem missionária, narrada pelo
médico amado, Lucas, nos capítulos 13 e 14 de Atos dos Apóstolos. Saindo de Antioquia
da Síria, o caminho tomado foi para o ocidente, passando por Chipre, Perge, Antioquia da
Psídia, e dali rumo ao oriente para Icônio, Listra e Derbe, voltando depois basicamente
pelo mesmo caminho.
A Igreja vive um forte momento de expansão após os anos de "curtição da
comunhão fraternal" em Jerusalém. Os contatos com os gentios ainda eram poucos em
termos de evangelização direta e a equipe de Barnabé e Paulo é pioneira neste tipo de
avanço. Alguns gentios já tinham sido alcançados, ou porque foram ganhos através de
judeus presentes em Jerusalém no dia de Pentecostes (que possivelmente gerou igrejas no
mundo romano, como a de Roma).(10) Green descreve assim o momento histórico narrado
em Atos:
Na primeira parte de Atos Lucas mostra os estágios de desenvolvimento desta
expansão. Primeiro o evangelho foi pregado em Jerusalém (1.1-6.7), depois ele espalhou
pela Palestina e por Samaria (6.8-9.31), a seguir alcançou Antioquia (9.32-12.24). A
segunda parte forma um belo equilíbrio com a primeira, relatando a difusão do evangelho
através da Ásia Menor (12.25-16.5) e da Europa (16.6-19.20), até chegar em Roma
(19.21-28.31).(11)
Mesmo com a pregação aos samaritanos e aos prosélitos religiosos (ou "tementes
a Deus") como o eunuco etíope e Cornélio, é a partir da chegada forçada em Antioquia
que os seguidores de Cristo, logo chamados de cristãos, começam a evangelizar os
gentios.
Portanto, o texto em questão é tremendamente interessante por colocar, pela
primeira vez, de forma declarada e registrada, os apóstolos diante da questão de
contextualizar a mensagem.
Contexto próximo: A visita em Listra começa com a cura de um homem aleijado,
paralítico desde o seu nascimento, que jamais pudera andar (v.8). O milagre alvoroçou a
cidade e os apóstolos foram identificados com deuses pagãos, dando oportunidade ao
testemunho. A pregação na cidade quase termina em tragédia, sendo Paulo apedrejado
pelas multidões instigadas por judeus (!) que vieram das cidades vizinhas para atrapalhar
o avanço da "seita nazarena". Segundo os vv. 21 e 22 e 16.1 e 2, fica claro, entretanto,
que surgiu uma igreja na cidade.
A cidade de Listra ficava numa região agrícola e atrasada. Seus habitantes
falavam a língua licaônica e não o latim ou o grego, utilizados pelos mais cultos no
Império Romano. Dominava a idolatria tendo entre seus deuses principais a Zeus e a
Hermes (ou Júpiter e Mercúrio, equivalente romano). Uma lenda local dizia que estes
deuses já haviam, em ocasiões anteriores visitado a terra em forma humana. Segundo o
panteão grego, Zeus (Júpiter) era o deus chefe, enquanto que Hermes (Mercúrio) era o
porta-voz dos deuses.(12)
É, portanto, neste ambiente de zona rural e de idolatria que os pioneiros se
encontram para, de forma clara e correta, explanar o Evangelho de Cristo. Um detalhe
interessante é que Timóteo era desta cidade (At 16.1,2).

Palavras e expressões chaves:


Versículo 8 - a tríplice afirmação da paralisia do homem em Listra, marca claramente que
não se tratava de um milagre apenas psicológico:
• "aleijado" - adunatos tois posin - fraco nos pés, sem forças para andar
• "paralítico" - cholos - manco, que tem um só pé, paralítico (Hb 12.13)
• "jamais pudera andar" - oudepote periepatēsen
O médico Lucas realmente enfatiza a situação clínica do homem, certamente para
dar um claro contraste ao ocorrido e à reação do povo no v. 11.
Versículo 9 - Paulo se interessa pelo homem e, ao estilo de Jesus, olha-o atentamente, se
compadece e vê sua fé para ser curado.
• para ser curado - sōthēnai - para ser salvo (de sōzō) -salvar, ajudar, guardar, curar.
Sem forçar o sentido da palavra ou a situação específica, parece que há uma
preocupação por parte de Paulo que vai além da cura física. Isto indicaria já um aspecto
interessante da contextualização do evangelho - a mensagem vem de encontro às
necessidades do homem paralítico em Listra, curando-o em primeiro lugar de sua
enfermidade e sendo-lhe anunciada, juntamente com os demais na cidade, também a
libertação da idolatria e da "paralisia" espiritual.
Versículo 10 - O próprio homem dá testemunho de sua cura. Trata-se de um evangelho
que age, que transforma situações. Não é a primeira vez que Marcos 16.17,18 se cumpre
no ministério dos apóstolos e parece que de forma muito natural faz parte do avanço do
Reino mesmo no meio dos povos gentios.
Versículo 11 - A reação do povo não se deixa demorar. O milagre alvoroçou a cidade.
Bruce destaca a questão do idioma:
O fato das multidões terem gritado em língua licaônica sendo destacado por Lucas (que
deve ter recebido esta informação de Paulo) se deve provavelmente a duas razões: em
primeiro lugar, Paulo e Barnabé reconheceram que era um idioma diferente da dos frígios
que tinham ouvido dos lábios da população nativa em Antioquia da Psídia e Icônio; em
segundo lugar. o uso da língua licaônica explica porque Paulo e Barnabé não entenderam
o que estava passando até que estavam já avançados os preparativos para pagar-lhes
honras de divindades.(13)
A interpretação do povo foi de acordo com seu conhecimento, certamente usando
seu referencial de lendas já mencionado acima. Só poderiam ser deuses (no caso Zeus e
Hermes) que estavam daquela forma milagrosa aparecendo.
Versículos 12-13 - A explicação que Lucas dá da reação positiva do povo aos visitantes e
os preparativos para a adoração a eles. Mostra a religiosidade do povo, seu anseio e sua
veneração, frutos de uma idolatria impregnada na sociedade gentia da cidade.
Versículo 14 - A reação, um tanto atrasada, dos apóstolos é tipicamente judaica: rasgam
suas vestes em sinal de horror e protesto (cp. Mc 14.63), mas que certamente, foi
compreensível para os habitantes da cidade.
Versículo 15 - A pregação propriamente dita, inicia aqui com alguns termos chaves:
• "anunciamos o evangelho" - euavggelizomenoi -evangelizar
• "cousas vãs" - mataio - de matē - vão, ineficiente, inútil, infrutífero, fútil, sem base,
louco, tolo (Cp 1Co 3.20; 1Co 15.17; Tt 3.9).
• "vos convertais" - epistrephein - mudar de direção, dar meia volta, significando mudar
de caminho de vida, uma transformação completa. Diz Laubach:
Atos freqüentemente descreve os resultados da proclamação missionária pelos
primeiros cristãos. Sempre fala da conversão como um evento "uma-vez-por-todas" e
com conteúdo próprio (At 9.35; 11.21). De At 15.3 fica claro que a palavra "conversão"
logo se tornou um termo técnico que não necessitava mais explicação; é usado para a
conversão de um homem que envolve uma completa transformação de sua existência sob
a influência do Espírito Santo.(14)
Paulo deixa claro para que eles tinham vindo. Sabendo do confronto que sua
mensagem poderia causar mas também reconhecendo a urgente necessidade que o povo
tinha de mudar sua vida, ele expõe, da forma mais inteligível que pode, as boas novas de
salvação. A conversão, a mudança de rumo, deveria ocorrer da idolatria, que em nada
tinha valor, para o verdadeiro e único Deus. Sem dúvida, uma mensagem forte e nova
para os de Listra. Existe uma lógica na exposição de Paulo, tentando criar uma ponte com
os ouvintes para que eles se sentissem participantes da mensagem e da oferta salvadora.
Ele começa com o Criador comum de todos, incluindo os de Listra, que deixou os
povos andarem nos seus próprios caminhos, mas que manteve um controle e uma
presença no meio dos povos abençoando-os através da natureza. Não se deveria, portanto,
adorar a criação ou a criatura, mas o Criador que está por trás de tudo.
Eerdman comenta:
Em Listra Paulo dá um exemplo admirável da adaptação necessária da mensagem
missionária ao auditório, não alterando sua essência, mas o enfoque. Paulo se dirige a
excitada multidão de pagãos. Não começa recorrendo à Escritura, que seus ouvintes
desconhecem por completo, mas fala-lhes de Deus cujo poder e amor se manifesta nas
obras da natureza e de sua providência. Diante da bondade de um Deus vivo e verdadeiro
como esse, Paulo convida a seus ouvintes a se arrependerem, e prepara o caminho para a
mensagem acerca de Cristo, o Salvador.(15)
Versículo 16 - Até no aspecto de "permitir que os povos andassem nos seus próprios
caminhos", Deus é o agente, o que controla. Existe aqui uma valorização, por parte de
Deus, das diferentes culturas, resultantes do processo de "enchimento da terra" proposto e
exigido pelo próprio Criador. A natural diferenciação em culturas e em línguas ocorreria
mesmo sem a confusão de Babel, já que cada povo teria seu ambiente a que se adaptar e a
distância entre os povos causaria também um distanciamento lingüístico.
Versículo 17 - sem testemunho - amartupon - sem testemunho, no sentido de preservar
algo de si na cultura e na vida do povo, que dá suficiente razão para condenar mas que
também cria um elo para a propagação do evangelho (Cp Rm 1.18-20).
Resumindo o breve estudo desta passagem, podemos dizer que o apóstolo mostra uma
contextualização da interpretação das Escrituras nos seguintes aspectos:
1. A cura do homem paralítico, demonstrando um evangelho integral de poder e de
esperança, dando resposta à necessidade mais patente do ser humano.
2. O claro rechaço às homenagens e à adoração como deuses, que se aceita teria criado
grande dificuldade mais tarde para a pregação sobre Cristo e causaria um sincretismo
indesejável.
3. A mensagem não ficou só no milagre, mas mostrou a situação pecaminosa dos
habitantes de Listra, o problema da idolatria e o caminho de volta a Deus.
4. Utilizando o argumento da natureza e identificando o Criador comum a todos, e não
usando o Antigo Testamento, Paulo é sensível ao conhecimento do povo e consegue
comunicar de forma compreensível.

2. 1Co 9.19-23 - O ministério de Paulo


Contexto geral: A primeira carta do apóstolo Paulo aos Coríntios foi escrita logo após
sua visita a cidade de Corinto, estando ainda em Éfeso, por volta do ano 54. A "carta
prévia" (5.9) não tinha gerado os frutos desejados e Paulo volta a escrever sobre os
problemas na igreja. Ele trata de questões como a necessária unidade na igreja,
maturidade e moralidade cristã, a disciplina na igreja, o problema do litígio entre irmãos,
a sensualidade e o casamento, o "pode e não pode" na vida do cristão, a ordem na liturgia,
os dons espirituais, a ressurreição e, naturalmente, o famoso capítulo do amor que é a
base de toda a comunhão no Corpo de Cristo.
A fase do ministério de Paulo é de muita atividade, expansão e implantação de
igrejas, mas também de fortes críticas contra o seu apostolado. 9.3 deixa claro que existe
a necessidade de defesa (gr. aupologia), e que, mesmo contrariado, ele precisa
argumentar a favor de sua atuação junto às igrejas. Esta defesa fica ainda mais forte e
clara na sua segunda carta, principalmente nos capítulos 10 a l2.
Contexto próximo: Nosso texto segue o capítulo 8 onde Paulo tem falado dos limites da
liberdade cristã em relação aos fracos, tema que continua no capítulo 10. Para dar um
exemplo prático e pessoal do que isto significa, ele descreve a sua própria visão de
ministério e de vida cristã. Ele também tem direitos, sendo livre e podendo reivindicar
alguma comodidade, da forma como outros faziam. Mas, para não causar tropeço e
escândalo, ele abriu mão de seus direitos legítimos: "Entretanto não usamos desse direito;
antes suportamos tudo, para não criarmos qualquer obstáculo ao evangelho de Cristo" (v.
l2b). Sua preocupação está em mostrar, não o seu sacrifício pessoal com auto-
condoimento, mas um exemplo digno de imitação de alguém que coloca os interesses do
Reino de Deus em primeiro lugar. A prioridade era que o evangelho tivesse êxito.
Nosso texto é tremendamente rico e não temos condições de esgotá-lo neste
estudo. Queremos destacar alguns aspectos que tem a ver com a contextualização. Trata-
se, principalmente, da visão de Paulo quanto ao seu ministério e até que ponto ele está
disposto de se adaptar para levar a mensagem a outras pessoas.

Palavras e expressões chaves:


Versículo 19
• "livre" - eleutheros - livre, no sentido de não escravo, livre para agir, livre da lei.
Paulo já começa o capítulo com esta expressão, marcando, que no fundo não tem
obrigação de se amarrar a pessoas nem a regras humanas.
• "fiz-me escravo" - edoulōsa - doulōsō - fazer-se escravo. O verbo está no indicativo
aoristo ativo na 1a pessoa do singular - indicando uma ação voluntária de Paulo, uma vez
por todas e com conseqüências para o seu ministério. Odeberg comenta:
Provavelmente chegamos mais perto do sentido de Paulo se dissermos: exatamente
porque sou livre, tenho me feito servo de todos. Isto não é para Paulo uma forma piedosa de dizer
as coisas, mas algo que foi cumprido na prática em todo o seu ministério.
• A palavra doulos que compõem este verbo é um termo chave na apresentação do
apóstolo de si mesmo (Rm 1.1; 1Ts 1.1, etc). Fala de sua relação diante de Cristo Jesus
mas também diante da Igreja de Cristo.
• "ganhar" - kerdēsō - ganhar, ter lucro, ganhar alguém para o seu lado. A idéia de Paulo
não é de um lucro pessoal mas uma vitória para o evangelho. Enquanto outros pensavam
em sua posição e quanto poderiam "ganhar" com isto, ele abria mão de seus direitos para
que o evangelho saísse lucrando.
• Versículo 20 - "procedi" - egenomēn - de gívomai - proceder, fazer, nascer, estar, vir,
etc. Um verbo comum com muitos significados dependendo do contexto. Aqui também
está no aoristo indicando que o procedimento de Paulo não era teórico apenas mas tinha
de fato ocorrido em seu ministério.
A continuidade do verso traz um paralelismo entre judeus e "debaixo da lei", onde
Paulo diz ter-se identificado com estes para ganha-los (mesma palavra que acima). A
mesma forma de se expressar encontramos no v. 21, agora em relação aos gentios, ou os
"sem lei". Como Paulo poderia se tornar um judeu já sendo um? (Cp 2Co 11.22; Fp 3.5).
Barrett responde:
Ele podia se tornar um judeu somente se, tendo sido anteriormente um judeu,
tinha deixado de sê-lo e agora era outra coisa. Seu Judaísmo já não pertencia mais a sua
pessoa, mas uma aparência que ele podia adotar ou deixar conforme seu desejo. Não
significava um desrespeito à lei ... mas se baseava na convicção de que o judaísmo tinha
sido cumprido em Jesus Cristo e a lei levada ao seu alvo previsto (Rm 10.4).
Concordando ou não em todos os aspectos com Barrett, é interessante notar este
desprendimento do apóstolo em relação a sua cultura materna. Sem dúvida a infância em
Tarso, numa atmosfera bicultural tinha tido sua influência. Mas, certamente, também sua
compreensão que, em Cristo, as barreiras caiem e a lei tem o seu cumprimento final.
Algumas pequenas palavras têm importância nestes versículos:
A- para com - os judeus
B- como - judeu
C- a fim de- ganhar os judeus
A- para - os que vivem sob o regime da lei
B- como - se eu mesmo assim vivesse
C- para - ganhar os que vivem debaixo da lei

A- para os sem lei


B- como - se eu mesmo o fosse
C- para - ganhar os que vivem fora do regime da lei
A- para com - os fracos
B- como (subentendido) - fraco
C- para - ganhar os fracos

A- para com - todos


B- como (subentendido) - eles
C- com o fim de - ganhar alguns

Este esquema, de A + B = C, que se repete nos versos 20 a 22 mostra um


paralelismo e um jogo de palavras (utilizando no grego coerentemente as palavras hōs
(como) e hina (para, a fim de) que enfatiza a conclusão do v. 23.)
Versículo 23 - A conclusão é a mais clara possível, sendo tanto uma confissão como um
desafio aos seus oponentes: "Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar
cooperador com ele".
• cooperador - sugkoinōnos - ter parte em, participante, cooperador. Expressão utilizada
mais três vezes no N.T. nesta forma, e algumas vezes na forma verbal.
• Rm 11.17 - participante da raiz e da seiva - falando sobre o "enxerto" dos gentios em
Israel;
• Fp 1.7 - sois participantes da graça comigo - Paulo falando aos filipenses sobre a nova
vida que eles têm em Cristo; e
• Ap 1.9 - irmão vosso e companheiro na tribulação - João falando de si mesmo.
Outras palavras da mesma raiz são mais comuns no N.T., como koinoneō, koinōnos e
koivōnia.
Barrett diz sobre a utilização da palavra "cooperador":
Paulo não quer dizer "um participante com o evangelho" (na obra de salvação);
nem "um que faz sua parte (pregando) o evangelho". Suas palavras significam
participação nos benefícios do evangelho. É no cumprimento de sua vocação como
evangelista que ele se apropria do evangelho a si mesmo.(16)
E Morris concorda:
Toda a conduta era determinada pelo Evangelho. Era isso que importava, não o pregador.
Todavia, ele não está desatento à sua própria necessidade, e introduz pequenina referência a ela.
Espera tornar-se "um participante", isto é, partilhar com outros as bênçãos da salvação. Mesmo
aqui ele pensa nos outros, pois a sua palavra salienta a idéia de co-participação.
A questão é: até que ponto Paulo está falando sobre contextualização da
interpretação das Escrituras e adaptação do evangelho às diferentes culturas, judaica e
gentia?
Creio que podemos resumir a resposta em alguns pontos:
1. Paulo, como cristão e mensageiro do evangelho, está sempre disposto a se adaptar ao
meio onde irá comunicar a mensagem. Sua pessoa é secundária, enquanto que o
evangelho é prioritário.
2. O evangelho é um só, independente do contexto, sendo o caminho da salvação o
mesmo para todos, isto é, através de Jesus Cristo (Cp 1Tm 2.5; Rm 1.16)
3. A forma como o evangelho é apresentado pode variar dependendo da cultura a ser
alcançada. Isto é visto nos exemplos da vida do apóstolo, e na expressão enfática: "por
todos os modos, salvar alguns" (v. 22). Em outros termos, ele se faz servo, se coloca
debaixo de uma cultura, mesmo não sendo a sua inicialmente, nem a sua "preferência",
no momento.
4. A contextualização se dá, portanto, na pessoa do missionário e na forma como
apresenta a mensagem, mas não no seu conteúdo. Paulo sabe, que somente fiel a vocação
e ao conteúdo do evangelho, obterá os benefícios prometidos.
5. Não podemos ir longe demais nas conclusões destes versículos, que deixam um desafio
para nós de colocarmos o Reino de Deus em primeiro lugar, acima de nossa posição e
bem-estar pessoal, porém não dá suficiente margem para um relativismo na adaptação do
evangelho à uma cultura, contextualizando-se até ao extremo a Palavra de Deus.
O relatório de Willowbank resume bem a questão aqui, incluindo este texto:
Às vezes esses dois erros (falta de sensibilidade a cultura e apresentação de um
evangelho por meio de formas culturais alienígenas) de ordem cultural são cometidos ao
mesmo tempo, e mensageiros do evangelho são culpados de um imperialismo cultural,
que tanto mina a cultura local desnecessariamente como procura impor uma cultura
alienígena em seu lugar. Contrastando com isso, o apóstolo Paulo continua sendo o
exemplo supremo da pessoa a quem Jesus Cristo primeiro despiu do orgulho de seus
próprios privilégios culturais (Fp 3.4-9), e depois ensinou-o a adaptar-se às culturas
alheias, fazendo de si mesmo escravo em meio a elas e se tornando "tudo para com
todos", a fim de, por todas as formas possíveis, salvar alguns (1Co 9.19-23).

3. 2Tm3.16- A Utilidade das Escrituras


Contexto geral: O texto de Paulo a Timóteo faz parte das "cartas pastorais", escritas
mais para o fim do ministério Paulino. Certamente a segunda carta a Timóteo, pastor em
Éfeso, é a última que Paulo escreve, nos dando a idéia até de um testamento final deixado
para o seu filho na fé. Paulo está preso em Roma, porém o evangelho é livre e continua
avançando dentro do Império Romano, e fora dele, mesmo não tendo registros
específicos sobre isto. Timóteo é visto, por Paulo, como um dos líderes na nova geração
que está prestes a substituir a dos apóstolos. Trata-se da segunda geração de pregadores e
missionários que tem a tarefa de levar as boas novas além das fronteiras romanas.
Sabemos que no fim do primeiro século grande parte do mundo conhecido na época, de
alguma forma, a presença do testemunho cristão, e segundo a tradição indiana, até lá a
Igreja tinha sido implantada.
Contexto próximo: Na epístola do apóstolo para seu afiliado espiritual, uma das
preocupações é a fidelidade do jovem obreiro à doutrina ensinada por sua mãe e avó e
pelo próprio Paulo. "Permanece naquilo que aprendeste" (3.14) é um tema que volta. O
outro cuidado que o discipulador tem com seu discípulo é o do bom procedimento em sua
vida pessoal e em seu ministério. Exortações e conselhos enchem esta carta, dados com
base em longos anos de experiência pastoral e missionária. "Tu porém" é uma expressão
que mostra o que o apóstolo espera de Timóteo (3.10, 14; 4.5): uma mentalidade
diferente da mundana e corrupta, um viver irrepreensível e exemplar, uma fidelidade à
verdade do evangelho e uma sobriedade distinta da de tantos outros "doutrinadores".
Nosso texto segue a conselhos definidos sobre a continuidade aos ensinos
recebidos de pessoas idôneas e fidedignas. É o padrão estabelecido pelo próprio apóstolo
para o verdadeiro discipulado (2.2). A questão agora é como utilizar as Escrituras e até
que ponto podem ser adaptadas às divergentes necessidades apresentadas pelas pessoas.
A finalidade está clara. Todo o ensino e toda a aplicação das Escrituras deve levar à
perfeição e habilitação para a boa obra (v. 17). Analisemos o texto:

Palavras e expressões chaves:


• "Escritura" - graphē - escrito, livro, Escritura. Diz Kelly:
Não precisa haver hesitação acerca do substantivo, pelo menos no que diz
respeito à sua referência geral. Embora literalmente signifique "escrito" ou "livro" e possa
concebivelmente abranger escritos ou livros em geral, tanto o contexto quanto o uso no
N.T. requerem que tenha o sentido mais restrito de Escritura, isto é, AT.
Mais adiante Kelly discute sobre a expressão "toda Escritura" que deixa margem
para outras interpretações, mas ele chega a conclusão que o mais provável aqui é que, de
fato, Paulo se refere a todo o Antigo Testamento, as sagradas letras, ensinadas a Timóteo.
(17)

Stott tem uma interpretação alternativa:


Não me parece de todo impossível que com esta expressão ele está incluindo as
duas fontes do conhecimento de Timóteo há pouco mencionadas, quais sejam. "aquilo
que aprendeste (de mim) e as sagradas letras".
• "inspirada por Deus" - theopneustos - soprada por Deus. Um termo que somente
aparece aqui em todo o N.T., porém usado em outra literatura grega. Fala da presença por
trás e em sua palavra. Não vamos entrar na discussão pormenorizada das possíveis
alternativas de tradução que surgem aqui. Optamos por: Toda a Escritura é divinamente
inspirada e...
• "útil" - ōphelimos - útil, de proveito. (Cp Tt 3.8 e 1Tm 4.8). A utilidade de toda
Escritura vem especificada nos exemplos que seguem:
• "para o ensino" - didaskalian. O ensino é a fonte positiva de doutrina cristã.
• "para a repreensão" - elegmon - refutação do erro e repreensão do pecado.
• "para a correção" - epanorthēōsin - melhora, restabelecimento, correção. Convencer os
mal-orientados dos seus erros e colocá-los no caminho certo outra vez.
• "para a educação" - paideian - disciplina, educação. Aqui educação na justiça, na
retidão, isto é, educação construtiva na vida cristã.(18)
O que o versículo tem a ver com a contextualização da interpretação das
Escrituras?
Independente se Paulo se refere ao Antigo Testamento somente ou inclui o seu
próprio ensino, que em parte, mais tarde, será incluído no Novo Testamento (questão em
si importante), fica nítida sua confiança na palavra inspirada por Deus. É ela que é a base
para todo o ensino, repreensão, correção e educação em justiça. Esta valorização das
Escrituras é sumamente importante na questão da contextualização. Se abrirmos mão da
autoridade bíblica com princípios supra-culturais, válidos tanto em Éfeso como em
Roma, ou em qualquer outro lugar, caímos num relativismo perigoso e desorientador.
Voltaremos a este perigo na conclusão do trabalho.
Outro aspecto importante neste texto é a utilização da palavra em si no trabalho
ministerial. Não são apenas as idéias registradas na Bíblia que são relevantes mas a
escolha das palavras, a ordem em que se encontram, etc. Não que tenham, em si, um
poder mágico ou que devam ser usadas como fórmulas, mas pela riqueza e profundidade
que contém, incapazes de serem entendidas por um único intérprete e leitor. Uma fraca
comparação poderia ilustrar a questão. Durante muitos anos a Igreja Católica Romana
não permitiu aos fiéis comuns o acesso às Escrituras - a única interpretação possível era a
dada pelos padres, com direções claras vindas do Vaticano. A leitura bíblica era vista
como perigosa -poderia trazer novas interpretações, o que também ocorreu na reforma. A
contextualização precisa levar em conta a necessidade e a possibilidade dos povos que
estão sendo alcançados com o evangelho de poderem ter acesso direto às Escrituras e não
a paráfrases baratas. E verdade que, num primeiro momento pode ser difícil (e até
impossível) utilizar uma linguagem bíblica na pregação. A linguagem precisa estar de
acordo com o auditório. A preocupação está mais em termos de não privar pessoas da
riqueza que o texto tem dentro do seu contexto histórico e cultural, que, de qualquer
forma, irá transparecer na proclamação da pessoa de Cristo, mais cedo ou mais tarde.
Nelly relata um destes momentos concretos quando a palavra tinha que ser
traduzida corretamente pelo missionário Dekker:
Tinha também que "traduzir" os símbolos para coisas que os danis conhecessem e
compreendessem. "Como explicar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo
quando os danis jamais viram ou ouviram falar de ovelhas? Tenho de explicar primeiro as
características das ovelhas, e, então contar por que Jesus foi chamado de Cordeiro de
Deus". Somente depois é que ele poderia falar em sacrificar um "leitãozinho", algo que os
danis conheciam.
O exemplo mostra a possibilidade de partir do conhecido para o desconhecido e
ao mesmo tempo introduzir uma nova idéia sem ferir a cultura de um povo.
Beekman e Callow dão outros exemplos de como se precisa ter o cuidado de
manter o significado original ao se fazer traduções, levando em conta o que está explícito
e implícito num texto e até que ponto um novo leitor pode entender o texto bíblico. (19)
Resumindo o texto estudado, podemos afirmar que:
1. A Bíblia é a autoridade fundamental para o cristão e para a proclamação do evangelho.
Nela toda a doutrina precisa se espelhar e encontrar respaldo.
2. Em todas as situações da vida, em qualquer época e em qualquer cultura, a Palavra de
Deus é útil e suficiente para conduzir a pessoa no caminho do Senhor.
3. Qualquer contextualização de interpretação precisa respeitar a inspiração divina das
Escrituras.
4. Saber qual a fonte da interpretação tem grande valor para discernirmos sua fidelidade à
Palavra e a intenção por trás (Cp 3.14).

A Importância e o Perigo da Contextualização


Vamos de forma resumida colocar alguns aspectos referentes a importância e aos perigos
da contextualização de interpretação das Escrituras, tentando assim concluir nosso
trabalho.

1. A Importância da Contextualização
1.1. Uma mensagem compreensível - a contextualização é importante, primeiramente,
para dar aos ouvintes da Palavra, a chance de entender a mensagem. Evangelizar não é
somente recitar versículos bíblicos de cor, mas também de explicar o conteúdo do
evangelho de forma compreensível.
1.2. Uma mensagem relevante - o povo que recebe o evangelho precisa sentir que a
mensagem tem algo de atual e útil para o momento que vive. Sturz lembra que um dos
aspectos interessantes e aplicáveis da Teologia da Libertação, é a procura de relevância
na mensagem.(20)
1.3. Uma adaptação cultural do mensageiro - o missionário precisa se contextualizar o
máximo possível, tendo a mentalidade serviçal de Paulo. Isto trará credibilidade ao
evangelho e dará o devido valor à cultura nativa receptora da mensagem.
1.4. Uma liturgia contextualizada - a forma de expressar a fé e de realizar o culto a Deus
precisa ser contextualizada, dando possibilidade as pessoas se identificarem com a
adoração e as expressões litúrgicas. Existe em cada cultura elementos aproveitáveis na
adoração ao Criador.
1.5. Uma teologia contextualizada - não no sentido de se afastar das doutrinas básicas
bíblicas, mas na aplicação destas verdades para o seu contexto. Grande parte da
interpretação que seguimos hoje na América Latina, por exemplo, vem de contextos
completamente alheios ao nosso, com uma forte coloração de sua época e de seu
ambiente.
Existem, sem dúvida, doutrinas supra-culturais que precisam ser detectadas e
preservadas. Porém, também há elementos culturais tanto no texto bíblico como na
interpretação da Igreja durante a história, que precisam ser discernidos e contextualizados
com sabedoria.
1.6. Uma eclesiologia contextualizada - dando a cada povo e cada cultura a oportunidade
de formar o seu modelo de liderança, de governo e de disciplina.
David Bosch cita, entre outros, duas vantagens com a contextualização:
Missão como contextualização é uma afirmação de que Deus tem se movido em direção
ao mundo. Missão como contextualização envolve a construção de uma variedade de
"teologias locais".
Em suma, pode-se dizer que o importante na contextualização é que cada povo,
em cada geração, em cada cultura, sinta que o evangelho lhes pertence. Que não se trata
de algo judaico, ou ocidental, americano ou europeu. Nem algo do homem branco ou
apenas do primeiro século. O positivo com a contextualização é justamente esta
atualidade e relevância do evangelho.

2. Perigos com a contextualização


Como quase sempre existem "good news and bad news". Ao mesmo tempo que
muitos aspectos são positivos com a contextualização, existem perigos. Citemos alguns:
2.1. O sincretismo cultural - é um dos perigos mais citados pelos autores que tratam do
assunto. Diz Nicholls:
No debate contemporâneo sobre o evangelho e a cultura há dois tipo perigos
sincretistas - sendo que um é cultural e o outro é teológico. Os antropólogos são mais
sensíveis ao primeiro, e os teólogos ao segundo.
Sincretismo cultural adota duas formas, segundo o mesmo autor. A primeira é a
entusiástica tentativa de utilizar acriticamente os símbolos e as práticas religiosas da
cultura receptora para expressar a fé cristã, criando uma fusão de crenças. A segunda, é a
de forçar formas culturais sobre os receptores querendo mudar sua cultura. Leva também
a uma confusão e uma mistura, onde no templo no domingo, as práticas "de fora" são
seguidas enquanto que no dia a dia continua a prática nativa.
Ao perguntar a um guia turístico em visita a Macchu-Picchu no Peru sobre a
questão religiosa do povo quechua, ela disse: "somos católicos no domingo porque nos
obrigaram a isto, mas durante a semana continuamos com nossa crença inca".
2.2. Q sincretismo teológico e doutrinário - citando Nicholls, novamente:
O sincretismo teológico vai para o próprio âmago da cultura, por que é a ligação
de conceitos e imagens nas profundidades da cosmovisão e da cosmologia, e dos valores
morais e éticos. E mais destrutivo do que o sincretismo cultural...
O sincretismo teológico e doutrinário leva a uma perda dos princípios básicos da
fé cristã e precisa ser evitado a todo o custo. Uma contextualização que chega a este
ponto trai ao Mestre da obra e à sua palavra.
2.3. O relativismo das Escrituras - a grande crítica que se pode fazer a etnoteologia de
Charles Kraft é seu relativismo na interpretação e aplicação das Escrituras colocando a
cultura receptora como normativa para a teologia. (21)
Uma discussão mais ampla e comparativa sobre o assunto mostra que Kraft tem
boas intenções em seu desejo de tornar as Escrituras relevantes aos receptores. Porém,
utiliza a Bíblia como um livro de casos onde exemplos, apenas, são dados daquilo que é a
vontade de Deus. Supra-cultural é somente Deus.(22)
2.4. O absolutismo das Escrituras - Bosch nos chama a atenção para este aspecto. Ele diz:
Não existe somente o perigo do relativismo, quando cada contexto forja a sua
teologia, feita sob medida para o seu contexto específico, mas também o perigo do
absolutismo.
Ele cita como exemplo o ocorrido na Conferência de Melbourne da CWME em
1980, quando representantes da América Latina queriam promulgar a sua teologia
contextualizada, a teologia da libertação, como universalmente válida e como foi
fortemente rejeitada pelos representantes da Ásia.
Certamente existem outros perigos, porém, podemos condensá-los todos na
preocupação de que a Palavra de Deus seja respeitada como autoridade máxima, não
subjugada a aspectos antropológicos ou culturais. A interpretação contextualizada precisa
verificar quais são os elementos supra-culturais e quais são os relativos a cada cultura.
Qualquer tipo de sincretismo é prejudicial e leva, com o tempo, a uma distorção da fé e a
um afastamento do autor da fé, Jesus Cristo.

Conclusão
Sinteticamente, a divergência que existe entre a prática de muitos contextos
eclesiásticos e os ensinos bíblicos extraídos dos textos estudados e das ponderações aqui
feitas são:
1. Falta um trabalho sério e profundo na busca de modelos litúrgicos que atinjam o
âmago das pessoas nas diferentes culturas de nosso país e no exterior.
2. Falta um espírito autocrítico que discerne onde estamos reproduzindo costumes e
tradições importadas e deixando de avaliá-las, visando uma atualização para o nosso
contexto histórico e cultural.
3. Existe pouca ênfase no preparo transcultural para os obreiros que irão para outras
culturas no Brasil e fora. Nossos cursos precisam equipar os futuros missionários para a
difícil tarefa da contextualização correta.
4. Ao mesmo tempo em que existe um profundo respeito pelas Escrituras e se diz que ela
é a "única regra de fé e prática", há também um desleixo com o seu estudo e sua
aplicação integral. Fazemos uma seleção dos textos que confirmam nossa tradição
doutrinária e litúrgica.
5. Precisamos buscar mais da sensibilidade e da direção dada pelo Espírito Santo,
pedindo sabedoria e discernimento, para poder comunicar o evangelho tanto ao homem
secularizado, como ao devoto às inúmeras seitas e religiões existentes em nosso país.
Concluindo, é importante se fazer um "check-up" de nossa tradição comparando-a
com as Escrituras, com a intenção de corrigir desvios, fortalecer pontos fracos e descobrir
ênfases perdidas. A humildade, e não a jactância deveria nos caracterizar como servos de
Deus e líderes da Igreja, a fim de que, mais do que nós contextualizarmos a Palavra, nós
possamos ser contextualizados (colocados dentro de) na Palavra, sendo transformados
por ela, através do poder de Deus e da direção de seu Espírito, conforme o desejo
expresso de Paulo em 2Co 3.18.
Uma tarde Bobby começou a fazer perguntas. Estávamos sentados ao redor do fogo. A
luz do fogo refletia levemente sobre ele. O seu rosto estava sério.
- Como posso eu andar no caminho de Jesus? - perguntou. Nenhum motilone já fez isso.
É algo novo. Não há outro motilone que possa dizer como se faz isso. - Bobby - eu
disse - você se lembra de meu primeiro Festival das Flechas, da primeira vez que vi todos
os motilones reunidos a fim de cantarem as suas canções? O festival era a cerimônia
mais importante na cultura dos motilones.
Ele assentiu com a cabeça. O fogo brilhou por uns instantes e eu pude ver os seus olhos
atentamente fixos em mim.
- Você se lembra de que eu estava com medo de subir nas redes tão altas, para cantar,
pois tinha medo de que a corda se partisse? E que eu lhe disse que somente cantaria se
pudesse ter um pé na rede e outro no chão?
- Sim Bruchko. E que foi que você me disse?
Ele riu. - Eu lhe disse que você precisava ter os dois pés na rede. Você precisava estar
suspenso, foi o que lhe disse.
- Sim - eu disse. - Você precisa estar suspenso. É assim que se deve estar quando se segue
a Jesus, Bobby. Nenhum homem poderá dizer-lhe como você deve andar na trilha de
Jesus. Somente ele poderá fazê-lo. Porém, para descobrir isso, você terá que atar as
cordas de sua rede nele, e estar suspenso em Deus.
Bobby não disse palavra alguma. O fogo dançava em seus olhos. Levantou-se e saiu,
andando pela noite escura. No dia seguinte ele tinha um vasto sorriso na face.
- Bruchko, eu atei as cordas da minha rede em Jesus. Agora falo uma nova língua.
Não compreendi o que ele queria dizer.
- Você aprendeu a falar um pouco de espanhol, como eu falo? Ele deu uma gargalhada,
feliz e gostosa.
- Não, Bruchko, eu falo uma nova língua. Então compreendi. Para os motilones, língua é
vida.
Se Bobby tinha uma nova vida, ele possuía um novo modo de falar. A sua fala seria
orientada por Cristo.

Referências
1 Dekker, John . Tochas de júbilo (Miami, Editora Vida, 1988) 116.
2 Bosch, David. Transforming mission. (Maryknoll, Orbis Books, 1993) 420. Utilizado
inicialmente nos círculos da Theological Education Fund para designar a educação e a
formação de pessoas para o ministério da igreja local.
3 Nicholls, Bruce. Contextualização: uma teologia do evangelho e cultural (São Paulo,
Edições Vida Nova, 1983) 18.
4 Hesselgrave, David. Communicating Christ cross-culíurally, (2a ed., Grand Rapids,
Zondervan, 1991) 136. O livro de Hesselgrave foi traduzido para o português e o
primeiro volume de três já se encontra à disposição. Ver Bibliografia.
5 Idem, p. 137.
6 Idem, p. 136.
7 ldem, p. 143, 144.
8 Burns, Barbara Helen. "Contextualização", (apostila de aula mestrado dada na
Faculdade Teológica Batista de São Paulo, 1991), p. 1.
9 Naturalmente existem outros textos paralelos que poderiam ser estudados, como o caso
de Atos 10 - Pedro na casa de Cornélio, At 17- Paulo em Atenas , ou textos que falam da
necessidade de mudanças no hábito de vida quando se aceita a Cristo, como Ef 4.17; 1Jo
2.15-17, etc. Escolhemos estes por tipificarem três classes de textos, um sobre uma
situação concreta, outro sobre uma declaração de visão ministerial e um mais teológico.
10 Guthrie, Donald. New Testament introduction (Leicester, IVP, 1978) 394. Uma das
teorias sobre o surgimento da igreja em Roma, que certamente não foi fundada nem por
Pedro nem por Paulo.
11 Green, Michael. Evangelização na igreja primitiva (São Paulo, Edições Vida Nova,
1984) 137, 138.
12 Bruce, F.F. The Book of The Acts (na série TNICNT, Grand Rapids, Eerdmans, 1977)
291, 292.
13 Bruce, op. cit., p. 291.
14 Laubach, Frank. "Epistrpho", em The new international dictionary of New Testament
theology (Colin Brown, ed., Grand Rapids, Paternoster e Zondervan 1975) 355.
15 Erdman, Carlos R. Hechos de los Apóstoles (Grand Rapids, T.E.L.L., 1974) 133, 134.
16 Odeberg, Hugo. Korintierbreven (Estocolmo, Suécia, SKD, 1944) 171.
17 Barrett, C.K. A commentary on the first epistle to the corinthians (2a ed., Londres, A
& C. Black, 1971) 211.
18 Idem, p. 216.
19 Morris, Leon. I Coríntios - introdução e comentário (série Cultura Bíblica, São Paulo,
Mundo Cristão e Edições Vida Nova, 1981) 111.
20 Relatório de Willowbank , em O Evangelho e a Cultura, (série Lausanne, São Paulo,
ABU e Visão Mundial, 1983) 20.
21 Kelly, J.N.D. I e 11 Timóteo e Tito - introdução e comentário (série CulturaBíblica,
São Paulo, Mundo Cristão e Edições Vida Nova, 1986) 186.
22 Idem, ver discussão p. 186.
23 Stott, John. Tu Porém - A mensagem de 2 Timóíeo (São Paulo, ABU, 1982) 96.
24 Kelly, op. cit., comentários sobre as expressões, p. 187.
25 Dekker, op. cit., p. 100.
26 Beekman, John & Callow, John. A Arte de interpretar e comunicar (São Paulo,
Edições Vida Nova, 1992) 50 ss.
27 Conn, Harvey & Sturz, Richard. Teologia da libertação (São Paulo. Mundo Cristão,
1984) 168.
28 Bosch, op. cit., p. 426, 427.
29 Nicholls, op. cit., p. 25.
30 Idem, p. 25.
31 ''O assunto é vasto e o tratamos num trabalho a parte numa comparação entre Kraft,
Conn e Richardson. A etnoteologia é tratada por Kraft em seu livro Christianity in
Culture, p. 293, 294. Harvie Conn acusa Kraft de se basear em idéias de E. Nida mas ir
além em suas extremadas conclusões. Uma discussão sobre isto encontra-se no livro de
Conn, Eternal World and Changing Worlds, págs. 151 ss.
32 Ekström, Bertil. "Contextualização'" (monografia apresentada no Mestrado, São
Paulo, Faculdade Teológica Batista de São Paulo, 1991).
33 Bosch, op. cit., p. 428.
34 Olson, Bruce. Por esta cruz te matarei (Miami. Editora Vida, 1979) 143, 144.

Referências Auxiliares do Grego


ALAND, K. & outros. The greek New Testament.. Londres, United Bible Societes, 1975.
BAGSTER. Analytical greek lexicon. Londres, Bagster & Sons, 1977.
FRIBERG, Barbara e Timothy. O Novo Testamento grego analítico. SãoPaulo, Edições
Vida Nova, 1987.
HEIKEL, Ivar & FRIDRICHSEN, Anton. Grekisk-Svensk Ordbok till Nya Testamentet.
Lund, Suécia, Liberlãromedel, 1975.
YOUNG. Young's Analytical Concordance of the Bible. Grand Rapids, Eerdmans, 1977.
ZERWICK, Max & GROSVENOR, Mary. A grammatical analysis of the greek New
Testament. Roma, Biblical Institute Press, 1974.
O CONCEITO DA GLÓRIA DE DEUS
COMO BASE DE MISSÕES
Antônia Leonora van der Meer

Introdução
A glória de Deus ocupa um lugar chave na Bíblia, desde o Gênesis até o
Apocalipse. Essa glória se revela nas ações de Deus, na sua criação e manutenção do
universo criado, mas especialmente nos seus atos salvadores e na sua auto-revelação
expressa através dos profetas, e mais perfeitamente através de Jesus Cristo.
O pecado afastou o homem da glória de Deus, e a sua mente obscurecida já não a
reconhece claramente, nem mesmo nas suas obras criadas. O homem, criado para gozar
da vida abundante e da comunhão íntima com Deus, conhece agora as trevas, a morte, o
temor, a carência da glória de Deus. E em vez de atribuir a Deus a glória que lhe é
devida, prefere glorificar a própria criatura, seja a si, ou a outros seres ou objetos criados.
Veremos então que a glória de Deus é um conceito profundamente missionário.
Através da obra missionária Deus está restaurando a humanidade para que novamente
viva em harmonia com o objetivo para o qual foi criada.

O Significado dos Termos


A base do conceito de kâbhôd no Antigo Testamento é o de glória ou honra. Esse
vem traduzido como doxa na LXX. Significa a manifestação luminosa da presença de
Deus, sua auto-revelação gloriosa.(1) A noção de glória no Antigo Testamento é de peso,
ou substância visível.(2) Nesse sentido implica-se uma realidade substancial em contraste
com os ídolos descritos como coisas vãs. No grego a palavra doxa na literatura clássica
tinha um significado subjetivo, "o que eu penso sobre um assunto, ou o que pensam sobre
mim", e um objetivo "fama, honra". Quando foi usado para traduzir kâbhôd, que
significava "honra, status, eminência, importância", passou a ter um conceito unicamente
objetivo de "glória, esplendor, majestade, grandeza".(3) Percebemos assim que se
procuram os termos que designam um máximo de grandeza, honra e dignidade, os que se
separam mais e mais do uso comum, para consagrarem-se à descrição de glória de Deus,
conceito sempre superior à possibilidade da definição humana.

A Glória Como Revelação de Deus


1. A Revelação do Caráter de Deus
No Antigo Testamento a expressão a "glória e o poder de Deus" (Sl 24.7-10; 29.3)
é usada especialmente para a manifestação de uma pessoa, enfatizando a impressão
causada sobre outros.(4) Os céus proclamam a glória de Deus (Sl 19.1). A soberana
majestade de Deus está sempre presente na mensagem de Isaías, como em Isaías 40: "a
quem, pois me comparareis?"(5) Significa a revelação dos atributos e do ser de Yahweh.(6)
2. A Revelação da Presença de Deus
A coluna de nuvem e de fogo manifestavam especialmente a glória e o poder
,(7)
Divino presentes com o seu povo (Ex 16.10; 40.35; 13.21; 14.9). Eram a expressão da
presença de Deus no Santuário, de maneira especial (Ex 40.34-35; 1 Rs 8.10-11). (8)
Acompanhava sua presença no Monte Sinai (Ex 24.16), especialmente no lugar de
adoração.(9) O fato mais importante da experiência da nova nação de Israel é que Deus
veio habitar no meio dela (Ex 29.43-46). Uma promessa repetida freqüentemente é que
"Habitarei no meio deles. Serei o seu Deus. Serão o meu povo". Havia um novo
sentimento da proximidade e da presença ativa de Deus. Em Êxodo 33, Moisés pediu a
Deus que lhe mostrasse sua glória (v. 18) para ter certeza de que sua presença iria de fato
com eles (v. 14-15). A realidade da presença de Deus foi verificada por Moisés quando
via os efeitos posteriores do brilho da presença de Deus (v. 21-23).(10)
Sendo a glória a revelação do caráter de Deus, e sua impressão causada sobre os
homens, vemos que está diretamente ligada com o objetivo de missões, que é o de revelar
claramente esse Deus que os povos buscam, tateando (At 17.27), mas nunca conhecerão
plenamente porque o pecado obscureceu os seus olhos, a não ser que esse brilho os
ilumine. Como revelação da presença de Deus, acessível ao homem, para viver em
comunhão com este, para protegê-lo e guiá-lo, é vinculado ainda mais diretamente com o
objetivo das missões.
3. A Revelação Mais Plena em Jesus Cristo
Em Mateus e Marcos a glória é vista como propriedade de Jesus como ser
celestial, e relacionada com o aparecimento escatológico no juízo final (Mt 19.28; 24.30;
25.31; Mc 8.38). Em Lucas manifesta-se também por ocasião do seu nascimento (2.9) e
na transfiguração (9.28-32). Também nas epístolas de Paulo e Pedro indica-se o caráter
celestial da sua glória. Sua é a glória e o domínio para sempre (1Pe 4.11), e foi recebido
em glória (1Tm 3.16). É Senhor da glória (1Co 2.8), Deus o ressuscitou dos mortos e
deu-lhe glória (1Pe 1.21). Ele voltará em glória (Tt 2.13; 1Pe 4.13). João também atribui
glória a sua vida terrena (1.14; 2.11). A doença de Lázaro glorificou a Deus e ao Filho de
Deus. O objetivo de João é mostrar e testemunhar que Jesus é o Filho de Deus. A glória
manifesta no Jesus humano é de qualquer forma uma glória celestial .(11) Principalmente
em Hebreus 1.1-3 fica claro que em Jesus a glória de Deus se manifesta mais plena e
definitivamente aos homens. Jesus é considerado o resplendor da glória de Deus, seu
máximo brilho e beleza (ver Cl 2.9).
Se no Antigo Testamento a glória de Deus se manifestava para revelar seu caráter,
seu amor, e sua presença aos homens, muito mais esses objetivos se cumprem em Jesus
Cristo. E é nele que agora a glória de Deus está ao alcance de todos os povos, visto que
nele o véu que nos separava da presença de Deus já foi removido (Hb 10.19-22). Após
sua morte a salvação é oferecida sem distinção a todos os povos (Ef 2.11 -22).

A Revelação na História da Salvação


A glória de Deus expressa-se especialmente na história da salvação, nos grandes
atos de Deus (Ex 14.17ss.; Sl 96.3). Também em João a glória significa a revelação de
Deus, ou a sua intervenção na história.(12) Na história do Antigo Testamento a glória de
Deus se manifesta através de sua atividade a favor de seu povo.(13)
A glória de Deus se manifesta em Cristo e em sua obra salvadora (Mt 17.2-5; Jo
1.14; 2.11; 2Co 4.4). A presença dessa glória de Deus em Cristo significa a presença da
salvação (2Co 4.4, 6)(14). Os hinos do Apocalipse também confirmam essa manifestação
da glória na obra de Jesus, que resulta em um imenso coro de glória a Deus e ao Cordeiro
(Ap 5.9-13; 7.10, 12.10-11).
João é quem mais enfatiza a manifestação da glória de Deus na obra salvadora de
Jesus (Jo 1.14; 12.23-28; 17.3-5), mostrando como foi justamente através da sua
humilhação, cheia de dignidade e de amor verdadeiro, com o grande objetivo de
completar a obra da salvação, que Jesus manifesta de maneira única a glória de Deus.
Assim, há sempre uma ligação direta entre a glória de Deus e a sua graça,
manifesta em atos salvadores, a favor do homem que nada merece senão o seu juízo. E é
por isso que essa glória se relaciona diretamente com a obra de missões, que visa
embarcar todos os povos nos efeitos salvadores dessa maravilhosa e gloriosa obra de
Deus.

O Homem Criado para Participar da Glória de Deus e para


Celebrá-la
1. O Homem Criado para Glorificar a Deus
O principal dever do homem é o de glorificar a Deus em adoração, palavra e ato
(1Co 6.20; 10.31).(15) Glorificar a Deus é dever do homem, que o realiza através das boas
obras (Mt 5.26), na produção de frutos (Jo 15.8), quando confessa a Cristo (Fp 2.11) e
quando sofre por Cristo (1Pe 4.14, 16). Os ímpios têm aversão a isso (Rm 1.21; 3.23) e
por isso merecem o castigo de Deus (At 12.23; Dn 5.23, 30).(16) Em Ezequiel vemos como
a glória de Deus retirou-se do templo pelas abominações praticadas ali, em vez de
cumprirem seu dever de glorificar a Deus (Ez 10.18).(17) Em Isaías o povo provoca a
desonra da glória de Deus (3.8; 59.19). Os homens são convocados a glorificarem a Deus.
Os pastores o fizeram, por ocasião do nascimento de Jesus (Lc 2.20). Por causa do
pecado o homem não consegue refletir a glória de Deus, como deveria fazer. Por meio da
justificação, mais uma vez pode compartilhar da glória de Deus (Rm 5.2). Há uma
interação entre a glória de Deus e a glória compartilhada com os cristãos (2Co 3.18).
Tudo o que o homem faz deve fazê-lo para a glória de Deus (Rm 15.7; 2Co 4.15; Fp
1.11; 2.11). A destruição eterna é a exclusão da presença e da glória do Seu poder (2Ts
1.9). Obscurecer a glória de Deus é o pior acontecimento da experiência humana. O
objetivo principal da vida humana é o de glorificar a Deus (1Pe 2.12; 4.11). No Novo
Testamento há suficiente ar de mistério para lembrar o homem de sua compreensão
limitada de Deus, mas também se mostram meios pelos quais alguns aspectos desse
mistério tornam-se perceptíveis. Pela revelação do Espírito o homem recebe suficiente
compreensão dos propósitos salvadores de Deus e um conhecimento verdadeiro, mas
limitado da realidade divina.(18)
Aqui vemos como toda a Bíblia enfatiza que o homem só cumpre o verdadeiro
propósito de sua criação quando glorifica a Deus, e que só é verdadeiramente realizado e
feliz quando compartilha dessa glória. Infelizmente o pecado afastou o homem dessa vida
plena, cheia de gozo e brilho, e a perversão do pecado mostra-se no fato do homem sentir
aversão a esse seu dever, e não perceber essa carência. E por isso que a glória de Deus,
que é também a luz que penetra as trevas, deve ser transmitida pela palavra da pregação
do Evangelho (2Co 4.3-6), para trazer o homem de volta ao seu direito perdido de
compartilhar de tal glória, e de atribuí-la a Deus. Se não obedecermos ao chamado
missionário, continuarão nas trevas e na frustração; se obedecermos, a glória os
alcançará, e o nome de Deus será glorificado por eles.
2. Os Crentes Compartilham da Glória de Deus
Os crentes compartilham dessa glória hoje (Jo 17.22; 2Co 3.18) e o farão na
eternidade (Rm 8.17; 2Co 4.17; Pe 3.21). A esperança cristã é a esperança da glória (Cl
1.27; Ef 1.18).(19) Em João 17.22 Jesus fala dessa glória como recebida e transmitida para
os seus. Que tipo de glória é essa que produz uma unidade por meio da qual os homens
são levados a reconhecer que Cristo é o Enviado do Pai? É um conceito bastante
escatológico. É o poder do Espírito operando nos apóstolos; são os dons espirituais
manifestos no corpo de Cristo; é o poder de amor e do auto-sacrifício liberado pela
pregação do Evangelho. A glória do ministério do Evangelho está especialmente nas
operações do Espírito. Uma glória que transforma o crente de acordo com a imagem de
Cristo, de uma glória que já existe a uma glória que será revelada, efetuada pelo Espírito
Santo (2Co 3.18).(20) Há uma relação especial entre o crente que sofre por causa do nome
de Cristo e a glória. Sobre estas repousa o Espírito da glória e do Senhor (1Pe 4.14; 2Co
4.17). O sofrimento no presente fica insignificante quando comparado com a glória
prometida.
Para entender essa glória devemos nos lembrar do exemplo de Jesus que na sua
atitude constantemente digna, perdoadora, justa e amorosa em todo o sofrimento, rejeição
e desprezo manifestou a glória de Deus. A glória que os crentes compartilham é essa
glória, e não a fama e o brilho do mundo. Mas é quando os crentes entregam sua vida por
amor de Jesus e do Evangelho que descobrem, recebem e experimentam a verdadeira
vida plena (Mc 8.34-35). Essa dimensão da vida nenhum homem pode descobrir ou
alcançar por sua própria inteligência e esforço (1Co 1.18-29); é por isso que precisamos
pregar o Evangelho.

Missão e a Glória de Deus


1. A Dimensão Escatológica da Glória de Deus
No Novo Testamento a glória de Deus significa a realidade divina escatológica da
existência. A salvação está em que o homem e a natureza tenham parte nessa forma de
existir, com o seu objetivo de transformar o homem e o mundo criado (Mt 24.30; Fp
3.20-21; Cl 3.4; Rm 8.20-23). Também no Antigo Testamento esperava-se para os
últimos dias uma manifestação plena da glória de Deus (Is 60.1-2).(21) Essa glória será
universal (Sl 86.9; Ap 5.13).(22) No glorioso fim dos tempos Jerusalém será colocada em
posição privilegiada como centro das nações, para que recebam instrução do Senhor (Is
2.2-4). O Senhor da glória descerá triunfalmente no Dia Final para completar o seu plano
de salvação e para triunfar definitivamente (Dn 7.13; Zc 14.4-5). O mensageiro que
preparará o caminho do Senhor será o próprio Messias (Ml 3.1-2).(23)
Em Mateus e Marcos a glória de Cristo está relacionada com a sua vinda
escatológica, no juízo final (Mt 19.24; 24.30; 25.31; Mc 13.26). Relaciona-se também
com a glória do Pai, na qual virá para julgar (Mt 16.27; Mc 8.38). Lucas fala também da
glória escatológica da Segunda Vinda (9.26; 21.27). João fala da glória que Jesus tinha
antes da fundação do mundo (17.5) e manifestou ao mundo. E fala de uma glória que
ainda estava para receber (7.39; 12.33; 17.5), que já considerava como sua e como
pertencente à Igreja (17.22). Essa glória que Cristo recebeu do Pai, e que efetua a unidade
da Igreja, e por meio da qual as pessoas são levadas a reconhecê-lo como aquele que o
Pai enviou, é um conceito altamente escatológico (17.22).
Paulo fala de uma conexão íntima entre a glória, o Espírito, a ressurreição dos
crentes e a de Cristo. A glória do estado ressurreto é colocada no mesmo nível que o
Espírito e o poder (1Co 15.41s; Rm 8.11; 1.4). João também relaciona a glória, o Espírito
e a ressurreição de Cristo (Jo 7.38-39); na ressurreição o Espírito foi dado a Jesus e ele o
deu à Igreja como rios de água viva.(24)
Vemos assim que a glória relaciona-se à restauração de todas as coisas pela obra
consumada por Cristo e aplicada na vida dos homens por meio do Espírito. Assim, mais
uma vez nota-se que missão é o meio pelo qual essa glória se estende a todos os povos,
que assim participarão daquela glória e renderão a Deus a glória que lhe é devida. Ou
seja, missão é o meio da graça; os que a recusarem serão obrigados a glorificar a Deus
por meio do Juízo Final.
2. A Glória de Deus como Grande Objetivo Missionário
A glória de Deus é o objeto da esperança religiosa, o conteúdo da revelação
universal vindoura. Isaías é o profeta da glória que virá. Esta glória está no contexto da
disseminação universal da graça de Deus. Para Isaías a salvação futura das nações e a
honra de Israel são aspectos indispensáveis da glória de Deus. O Filho do Homem
glorificado (12.23) transmite a vida no Espírito a todas as nações. Está a raiar o dia em
que o Espírito será enviado para colher a Igreja universal através dos embaixadores
proclamadores do Evangelho. Em 2 Coríntios 3, Paulo fala do ministério da Antiga e da
Nova Aliança, contrastando com sua glória. Paulo mostra a superioridade do Novo
Testamento em relação ao Velho Testamento e a conexão íntima entre glória, Espírito e a
Igreja proclamadora. A glória de Deus era uma revelação do ser divino, e isto se aplica de
maneira mais ampla ao ministério do Espírito. Em que consiste essa glória? Não numa
luz radiante e visível, mas na glória imaterial do Evangelho. A ousadia da proclamação
dos embaixadores de Cristo em contraste com a glória que Moisés escondia dos filhos de
Israel (2Co 3.12-13). É a manifestação da verdade, a luz do Evangelho da glória de Cristo
brilhando sobre todos os homens (4.1-6). A glória de Cristo é manifesta através da vida
do Espírito no corpo de Cristo, a Igreja, e é resultado do seu testemunho do Senhor
crucificado e ressurreto. A unidade da Igreja não consiste na habitação passiva do
Espírito, mas na proclamação do Evangelho e na vida cristã que flui da aceitação do
mesmo. A unidade e a vida da Igreja testemunham a glória de Cristo.
Em João 17.2 a glória tem o propósito de transmitir a vida eterna aos homens.
Jesus menciona seu desejo de transmitir a vida eterna em conexão com sua glória e sua
autoridade; é um paralelo com a Grande Comissão dado com base na autoridade
concedida a ele. Em João 17.2 Jesus glorifica o Pai ao dar a vida eterna a todos os
homens que Deus lhe deu, por meio da sua autoridade e glória. Em Mateus 28.18-20 os
discípulos proclamam o Evangelho a todas as nações por meio da autoridade concedida a
Ele. A verdadeira unidade da Igreja é baseada e resultante da glória de Cristo; e essa
glória é o poder do Espírito Santo manifesta na vida e no testemunho da Igreja. É um
poder ativo, expresso, que surpreende o mundo. A unidade da Igreja é um grande
instrumento missionário. (25)
Assim, a glória de Deus é manifesta na sua graça salvadora que alcança ao
homem perdido, sem limites geográficos, nem temporais, nem de mérito. A glória de
Deus é expressa na vida nova da Igreja, salva pela sua graça imerecida, e na proclamação
do Evangelho, que ilumina os que estão nas trevas (há uma conexão profunda entre glória
e luz). A Igreja, a nova humanidade redimida, também renderá a Deus a glória devida ao
seu nome. O cristão agradecido pela graça imerecida que recebeu, movido pelo poder do
Espírito Santo, preocupa-se com a glória de Deus que está sendo negada pelos homens
perdidos, e preocupa-se com os homens que perecem porque carecem da glória de Deus.
A glória de Deus é a grande motivação missionária, que nos faz voltar para Deus, que
merece a dedicação e obediência incondicional do homem salvo, mobilizando-nos para o
próximo que necessita do brilho e do calor dessa glória, e da vida transbordante que ela
produz. Sabendo ainda que o propósito de Deus é alcançar toda tribo, língua, povo e
nação, jamais poderemos nos contentar ou acomodar enquanto não chegarmos a essa
proclamação ampla, profunda e clara a todos os homens de todas a gerações.

Referências
1 Brown, Colin, ed. New international dictionary of New Testament times (Grand Rapids,
Paternoster Press & Zondervan, 1986) 44.
2 Dyrness, William. Themes in Old Testament theology. (Madison, InterVarsity Press,
1979) 42.
3 Boer, Harry R. Pentecost and missions (Grand Rapids, Eerdmans, 1979) 189-190.
4 Brown, op. cit., p. 44.
5 Kaiser, Walter C. Teologia do Antigo Testamento (São Paulo, Vida Nova, vol. 2, 1966)
213.
6 Boer. op.cit., p. 191.
7 Shedd, Russell P., ed. Novo dicionário da Bíblia (2a ed.. São Paulo, Edições Vida
Nova, 1984) 672.
8 Brown, op. cit., p. 45.
9 Dyrness, op. cit., p. 42.
10 Kaiser, op. cit., p. 125.
11 Boer, op. cit., p. 193-194.
12 Brown, op. cit., p. 193-194.
13 Guthrie, Donald. New Testament theology (Leicester, IVP, 1981) 90.
14 Brown, op. cit., p. 48.
15 Brown, op. cit., p. 47.
16 Shedd, op. cit., p. 672.
17 Kaiser, op. cit., p. 246.
18 Boer, op. cit., p. 191.
19 Guthrie, op. cit., p. 90-93.
20 Brown, op. cit., p. 46-47.
21 Boer, op. cit., p. 194-198.
22 Brown, op. cit., p. 45-74.
23 Shedd, op. cit., p. 672.
24 Kaiser, op. cit., p. 214, 264.
25 Boer, op. cit., p. 192-196.
26 Ibid., p. 191-204.
Resenhas
HESSELGRAVE. David J. A comunicação transcultural do evangelho, vol. I. São Paulo,
Edições Vida Nova, 1994. 192 p. R$14.00. Titulo em inglês: Communicating Christ
Cross-Culturally. Resenha por Lars Bertil Ekström.

A tarefa missionária é de comunicar Cristo transculturalmente. Isso significa que


o missionário deve interpretar a mensagem bíblica sob os aspectos da(s) cultura(s) em
que a mensagem foi entregue e, evitando uma influência indevida de sua própria cultura,
transmitir aquela mensagem original em termos informativos e persuasivos era sua
cultura receptora (pág. 160).
Assim Dr. Hesselgrave resume o primeiro volume desta importante série sobre a
comunicação em missões.
O volume é dividido em duas partes, sendo que a primeira trata mais das teorias
de comunicação e a segunda dos desafios relacionados com a transmissão do Evangelho
dentro de uma nova cultura.
Hesselgrave parte do pressuposto de que a ordem missionária de Jesus de pregar a
todas as nações é válida também para os nossos dias e de que existe, da parte do
missionário, um compromisso com Cristo e com as Sagradas Escrituras (pág. 22).
Nos primeiros capítulos, o autor busca as bases bíblicas e históricas para a
comunicação do evangelho e os fundamentos científicos e práticos para uma boa
comunicação e uma eficiente retórica.
A questão interessante não é, em primeiro lugar o fato de que o missionário
precisa se comunicar mas, porquê e como o faz. O desafio não é tanto falar de Cristo mas
fazê-lo de forma que os ouvintes entendam e se identifiquem com a mensagem. Este é,
segundo o autor, o problema missionário por excelência.
Partindo do esquema simples de comunicação com Emissor que codifica uma
Mensagem que por sua vez é decodificada pelo Receptor, ele traça as implicações e as
dificuldades deste processo. Tornar-se relevante e eficaz na transmissão do Evangelho
numa cultura diferente não é fácil.
Um dos problemas levantados é o do sentido das palavras. Existe a possibilidade
das palavras terem um sentido inerente ou atribuído. Normalmente trata-se de sentido
atribuído, sendo que o sentido de um símbolo ou de uma palavra pode variar fortemente
entre um lugar e outro, assim como de uma época para outra. Isto precisa levar o
missionário a ter cuidado no emprego das palavras, gestos e símbolos descobrindo
primeiro qual o sentido acordado dentro do contexto no qual ele irá se comunicar. Sete
passos são dados para se chegar a compreensão do sentido dentro de uma nova cultura. O
missionário se comunica para persuadir pessoas a aceitarem a Cristo e não apenas para
transmitir um conhecimento teórico sobre a salvação. Segundo o autor esta é a verdade
bíblica nas "ordens missionárias" dadas por Jesus e o exemplo deixado pelos apóstolos.
Por isso, a eficácia na comunicação é essencial para o cumprimento da tarefa.
A segunda parte do livro inicia com uma ampla discussão sobre o papel da cultura
na comunicação. Diz o autor:
Existe um perigo bem real, à medida que nossa tecnologia avança e possibilita-nos
atravessar fronteiras geográficas e nacionais com especial facilidade e freqüência cada
vez maior, de nos esquecermos de que as barreiras culturais são as mais difíceis de
transpor (pág. 82).
Precisamos, portanto, entender a cultura antes de poder comunicar dentro dela. Na
verdade, trata-se de três culturas distintas que precisam ser analisadas e compreendidas: a
"cultura bíblica", a cultura do missionário e a cultura do receptor.
Com base no exemplo de Cristo e nos mandatos divinos dados à humanidade (o
mandato cultural ao primeiro casal, um mandato social à família de Noé e um mandato
evangélico aos discípulos), Hesselgrave opta por um alto conceito da Bíblia e um alto
conceito da cultura.
O livro ainda trata das raízes teológicas da Contextualização e das categorias e
dos paradigmas clássicos e contemporâneos da comunicação do Evangelho. Finaliza com
o desafio de se analisar a cultura receptora e do missionário se colocar na posição dos
receptores da mensagem. Uma árdua tarefa que requer muito estudo e dedicação, além de
humildade e dependência do Espírito Santo de Deus.
Hesselgrave, com muitos anos de experiência no campo missionário e no ensino
missiológico, se dirige primeiramente aos missionários no campo e aos candidatos a
missões que estão se preparando para ir a uma outra cultura com o Evangelho. Mas o
texto é importante também para todos os que querem compartilhar sua fé. Mesmo dentro
de sua própria cultura, o cristão enfrenta o problema da comunicação e precisa refletir
sobre seus aspectos.
Recomendamos a leitura e o estudo do livro assim como sua utilização nos cursos
missiológicos, principalmente nas áreas de comunicação transcultural e contextualização.
Esperamos ansiosamente pelo segundo volume da série.

(Bertil Ekström é presidente da AMTB, vice-presidente da APMB e professor de missiologia no Seminário


Batista Independente de Campinas. Está também cursando o Mestrado em Missões da Faculdade
Teológica Batista de São Paulo.)

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STEUERNAGEL, Valdir R. Obediência missionária e prática histórica. Em busca de


modelos. São Paulo, ABU Editora, 1993. 198 p. R$9.00. Resenha por C. Timóteo
Carriker.

Este livro é a reflexão missiológica mais importante que já chegou às nossas


livrarias até hoje. Eu ousaria sugeri-lo como leitura obrigatória para: 1) os missionários
estrangeiros que vem missionar na terra do pau-brasil; 2) os missionários brasileiros que
vão a outros países; 3) os dirigentes de agências e juntas missionárias e professores que
se empenham no preparo de missionários. Logo sou obrigado a me justificar.
Valdir nos traz uma reflexão crítica, aprofundada e criativa. Crítica, porque não
hesita em questionar a estrutura básica do empreendimento missionário norte-americano
como modelo para o movimento missionário brasileiro emergente. Aprofundada, porque
consegue afastar-se suficientemente dos modelos que nos apresenta para trazer à tona
tanto o recomendável quanto o desaconselhável. E criativa, porque lida com conceitos
complexos e controvertidos da missiologia sem teorizá-los excessivamente e sem se
perder nos seus pormenores. E depois, aplica-os concretamente ao momento que o
movimento missionário brasileiro vive. Conceitos, tais como, a ecumenicidade da igreja,
a contextualização, as estruturas missionárias, a tensão entre a institucionalização e a
renovação destas estruturas, e a abrangência da evangelização em abraçar a justiça do
Reino junto com a proclamação do perdão dos pecados. Em tudo isso, escreve com tática,
clareza e astúcia, reconciliando estas três características geralmente conflitantes.
Não digo que o prezado leitor não pode encontrar reflexões mais teorizadas, mais
quantificadas, e mais extensas nas suas anotações de rodapé. Certamente encontrará.
Entretanto, recomendo o livro da Valdir simplesmente por ser a análise mais perceptiva,
mais pessoalmente envolvente, mais pés-no-chão, e mais sob-medida para a reflexão
missiológica no Brasil que conheço.
Um ponto muito forte no seu livro é o fato de Valdir resgatar no diálogo com os
nossos antepassados missiológicos, a contribuição de alguns europeus. Na Itália
conversamos com o imperador Juliano e o frade Francisco de Assis. Mais para o norte,
encontramos com o Conde Zinzendorf e dois grandes missiólogos deste século da
Alemanha, Gustavo Warneck e Walter Freytag. Assim, Valdir nos ajuda a superar uma
lacuna na literatura missiológica brasileira cujos laços acadêmicos com a América do
Norte estão exagerados.
A certa altura o autor critica o empreendimento missionário norte-americano. No
que ele afirma, creio que Valdir grandemente tem razão. Digo "grandemente" porque
nem sempre a avaliação do Valdir cabe a todo o empreendimento missionário norte-
americano (se bem que mais tarde, ele diz isso). Só que, para basear sua crítica do
empreendimento norte-americano, ele cita logo um missiólogo britânico (Walls,
excelente, por sinal), que por sua vez se refere ao missiólogo americano Rufus Anderson
como evidência do espírito americano de associações voluntárias e livres. O problema
surge porque as idéias de Anderson eram praticamente sinônimas às do missiólogo
britânico Henry Venn, companheiro intelectual de Anderson. Ou seja, as associações
voluntárias e livres também caracterizam o empreendimento missionário britânico e as
estruturas que ele promovia. Aliás, o fenômeno das associações voluntárias e livres tem a
sua origem mesma nas guildas da Idade Média que se espalharam pela Europa. Portanto,
embora a crítica dirigida ao empreendimento missionário americano esteja
essencialmente correta no que diz, não diz o suficiente. Só que Valdir quer ser
historicamente concreto e todos nós sabemos que o grande peso da influência missionária
estrangeira no Brasil provém da América do Norte. Daí a razão da sua crítica dos
modelos de lá.
Valdir entende bem que a crítica, enquanto necessária é uma faca de dois gumes,
e por isso escreve com humildade. Adverte: "precisamos estar conscientes da nossa
própria ambigüidade na obediência cristã, e certos de que no futuro seremos criticados
com a mesma (e justificada) radicalidade com que hoje avaliamos os caminhos de ontem"
(pág. 94). Sabe que o diálogo precisa ser também construtivo, pois "nosso antepassados
merecem o nosso respeito e, com eles e como eles, queremos ser fiéis ao chamado
missionário" (págs. 97-98).
Por fim, este livro está literalmente cheio de pistas para a elaboração duma
missiologia evangélica e brasileira e por isso convida para a "conversa", como diz o
autor, os diversos grupos empenhados no desafio missionário mundial.

(C. Timóteo Carriker é presidente da APMB, professor de missiologia no Seminário Presbiteriano do Sul e
autor de vários artigos e livros.)

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FIFE, Eric S. A corrida contra o tempo: a história de Ray Buker, de corredor olímpico a
estrategista de missões, São Paulo, Edições Vida Nova, 1994, 199 p. Resenha por
Margaretha Nalina Adiwardana.

A biografia de Ray Buker contém lições preciosas; a primeira delas é quem


prepara os obreiros é o próprio Deus. Buker veio de uma família dedicada a Deus, onde
recebeu a disciplina que o preparou para a perseverança, tanto nas corridas de atletismo
como nas selvas da Birmânia, junto com seu irmão gêmeo que, igualmente dedicado
médico missionário, foi um parceiro valiosíssimo. Da sua vida, vê-se como uma
experiência ministerial preparou para futuros ministérios, cada vez influenciando mais
vidas. Foi um multiplicador, assim dos nacionais no campo em Birmânia, como de volta
aos EUA.
Há outras lições estimulantes sobre o preparo de obreiro transcultural e às
estratégias missionárias, tais como trabalhar nas igrejas antes de ir ao campo, o
treinamento que "deve apelar ao intelecto, à vontade e às emoções" (p. 172), preparo
especificamente da área aonde se vai, o princípio de igreja autóctone, a assimilação
cultural e o preparo de grupos inteiros para receber o Evangelho (bem antes que Donald
McGavran apresentou a idéia - p. 93). O respeito e a colaboração entre as missões no
campo, apesar das diferenças, é outro ponto enfatizado. Humildade marcou a vida de
Buker, porém firmeza e sabedoria de manter as convicções, e até de tomar o passo de se
separar de uma missão conceituada (se bem que Buker não queria se separar), ajudando
na formação de uma nova organização missionária quando princípios bíblicos
importantes estavam em jogo. E, não por último, interesse pessoal e genuíno para com as
pessoas no acompanhamento pastoral, tanto dos alunos como aos missionário no campo
mais tarde. Como secretário internacional da Missão Batista Conservadora e como
professor de missões no Seminário de Denver, soube incentivar a importância de
aprendizagem acadêmica aliada à vida.
O tempo da corrida de Buker foi numa época emocionante: a corrida olímpica
junto com Eric Liddel, Deus trabalhando no meio de tribos laú, uá e tai nas regiões
birmanesa e chinesa logo depois fechadas para a obra missionária, a Segunda Guerra
Mundial com retirada de missionários, e a disposição para servir transcultural de muitos
logo após. Marcante descobrir através da leitura a luta dos fundamentalistas no meio de
uma época marcada por liberalismo teológico nos EEUA. Buker teve coragem de estudar
em escolas liberais para poder manter e expor com conhecimento profundo a convicção
fundamentalista (que naquela época significava manter a fé nas doutrinas fundamentais
do Cristianismo).
Mais uma razão especial para ler o livro: a lista de missionários enviados pela
Missão fundada por Buker que marcaram a obra evangélica aqui no Brasil. E, no meio da
atual discussão sobre a educação teológica e missiológica quanto a academicidade e
prática, fica muita viva na minha imaginação a cena contada pela tradutora do livro: um
professor de missões que começou a sua aula ajoelhado em oração em plena sala de aula!
Foi o segredo de Buker completar bem a carreira que Deus propôs a ele.
(Margaretha Nalina Adiwardana é professora de Missões Transculturais na Faculdade Teológica Batista
de São Paulo e vice Presidenta da APMB.)