Você está na página 1de 81

RONALDO LARANJEIRA

HUGO LEAL
(ORGS.J

HSTOR AS DE SUCESSO CONTRA


A /

ADEPENDENC AOU MCA


RON~LDO LARANJEIRA
Proft::!Jr Tttll.'~rit f~irrJi::rk d~ &cd~ ?~ulié êe Mtc~ - UNJFESP
Col>n:tl'~c"« '" /Jr.N;':de o'e fe;q• ~ iu'cool e Df'!lpt -1./N!/..D

-llJC-D LEAL
P.ei::.X.jxr.~ : ~=-~
lld"t>bJk:~:u:r~!'!

ASABEDORIA DA
RECUPERAÇÃO
HISTORIAS DE SUCESSO CONTRA
ADEPENO~NC.A OUIMICA

Versão impressa desta obra: 2017


© Artmed Editora Ltda., 2017.
Gerente editorial: Letícia Bispo de Lima
Colaboraram nesta edição:
Coordenadora editorial: Cláudia Bittencourt
Capa: Paola Manica
Preparação de originais: Antonio Augusto da Roza
Projeto e editoração: TIPOS – design editorial e fotografia
Produção digital: Loope - design e publicações digitais | www.loope.com.br
15 A sabedoria da recuperação : histórias de sucesso contra a
dependência química [recurso eletrônico] / Organizadores,
Ronaldo Laranjeira, Hugo Leal. – Porto Alegre : Artmed,
2017.
e-PUB.

Editado como livro impresso em 2017.


ISBN 978-85-8271-429-4

1. Psiquiatria. 2. Dependência química. I. Laranjeira,


Ronaldo. II. Leal, Hugo.

CDU 616.89
Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094

Reservados todos os direitos de publicação à


ARTMED EDITORA LTDA., uma empresa do GRUPO A EDUCAÇÃO S.A.
Av. Jerônimo de Ornelas, 670 – Santana
90040-340 – Porto Alegre – RS
Fone: (51) 3027-7000 Fax: (51) 3027-7070
SÃO PAULO
Rua Doutor Cesário Mota Jr., 63 – Vila Buarque
01221-020 – São Paulo – SP
Fone: (11) 3221-9033
SAC 0800 703-3444 – www.grupoa.com.br
É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,
sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação,
fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora.
AGRADECIMENTOS

Agradecemos a todas as pessoas que colaboraram com suas histórias pessoais, que foram divulgadas para que outras pessoas e
famílias possam inspirar-se. Sua força pessoal, sua coragem e determinação são absolutamente apreciadas.
PREFÁCIO

Centenas de conceitos foram criados nos últimos dois séculos tentando explicar o abuso de álcool e drogas. Em uma revisão da
literatura até o começo de século XX, mais de 150 teorias são encontradas, principalmente nos países europeus e na América do
Norte. Algumas delas tiveram impacto maior, como explicar pela dipsomania a persistência do consumo. Outras tiveram somente
impacto local no país de origem dos autores. Apesar dessa diversidade de teorias, o que predominava na sociedade era o modelo
moral, segundo o qual as pessoas bebiam em excesso e permaneciam bebendo, apesar da infinidade de problemas causados,
por uma falha moral, e isso não teria como mudar. Esse modelo explica, em boa parte, como até hoje o ceticismo prevalece
quando discutimos a dependência química de maneira geral.
A maior reação a esse ceticismo ocorreu com a criação dos Alcoólicos Anônimos (AA), que impactou a forma de se ver o
fenômeno. Jellinek escreveu um livro seguindo essa tendência, O conceito de doença do alcoolismo, propondo a ideia de
alcoolismo como doença que se apresentaria, inclusive, de diferentes formas. Esse novo modelo influenciou a criação de serviços
para proteger os usuários, bem como motivou ainda mais a criação de grupos de AA e, em seguida, de Narcóticos Anônimos (NA)
pelo mundo todo.
Na década de 1970, Griffith Edwards desenvolveu, na Inglaterra, o conceito de síndrome de dependência do álcool, tornando o
conceito de doença um pouco mais complexo ao adicionar componentes psicológicos, biológicos e sociais. Nos estudos derivados
desse conceito, mostrou-se que a evolução da dependência variava desde alta mortalidade em grupos específicos até
estabilidade na abstinência comparável a uma cura. Na realidade, a palavra cura é muito controvertida nessa área, e poucas
pessoas aceitam que, após anos de uso de uma substância, possa haver um desaparecimento total do comportamento.
Mais recentemente, a área da saúde mental fez uma distinção importante entre tratamento e recuperação. Tratamento, na
dependência química, seria uma série de ações, sobretudo na área da saúde, que incluiriam desde medicamentos para estabilizar
o cérebro, técnicas motivacionais para envolver e manter as pessoas em tratamento, técnicas de prevenção de recaída,
profissionais que ajudam no aconselhamento, técnicas para recuperar o dano cerebral causado pelas drogas, sem falar nos mais
diferentes locais de tratamento, entre eles ambulatório, hospital-dia, internação para desintoxicação, internação psiquiátrica e
comunidades terapêuticas. Com certeza, o tratamento ficou mais técnico e diversificado. Apesar de toda essa evolução na área de
tratamento, o conceito de recuperação ainda não recebeu toda a atenção necessária. Recuperação é uma série de
comportamentos que o indivíduo precisa promover após o tratamento estabelecer o mínimo de estabilidade mental combinada
com abstinência. Após a estabilidade mínima, as pessoas precisam recuperar sua autoestima, mudar a autoimagem, recuperar
laços familiares, refazer a vida profissional, recriar uma rede social que seja compatível com a abstinência de longo prazo, etc.
Todas essas ações são difíceis de implementar, principalmente sozinho. Não é por acaso que grande parte das histórias de
recuperação ocorre nos grupos de ajuda mútua, como AA, NA, grupos religiosos, etc. Auxilia muito na recuperação ter apoio
social, pois se trata de um processo que leva anos.
As histórias deste livro são bons exemplos de como a recuperação ocorre. Há um grande componente individual nesse
processo. Cada pessoa que luta pela recuperação constrói uma nova linha de vida, que, apesar de ter componentes em comum
com as linhas de vida de centenas de outros indivíduos, é sempre uma experiência de cada um. Faz-se necessário que a pessoa
em recuperação desenvolva uma sabedoria. Não basta conhecer todas as teorias, ou saber de cor todos os 12 Passos dos AA, ou
até mesmo ser um grande conselheiro para que outros fiquem abstinentes. O indivíduo tem que construir uma série de atitudes
mentais que se sustentem por anos, novos comportamentos, manter a moral mesmo nos piores momentos, etc. Tudo isso faz com
que a recuperação seja uma viagem individualizada, mesmo que possa ser apoiada e estimulada por grupos de recuperação.
O principal objetivo deste livro é inspirar. Inspiração a partir de histórias reais, de pessoas reais, com problemas reais e com
uma recuperação real. Apesar do ceticismo existente na área de dependência química, milhares de pessoas conseguem se
recuperar. Estima-se que, nos Estados Unidos, mais de 5 milhões de pessoas estão vivendo plenamente em recuperação.
Esperamos que cada vez mais possamos, no Brasil, conhecer pessoas vivendo suas vidas construindo essa recuperação.
SUMÁRIO

1HISTÓRIAS SIMBÓLICAS SOBRE O QUE É RECUPERAÇÃO


2ERRAR É HUMANO, SÓ NÃO ERRA QUEM NÃO FAZ
3NÃO JULGUE, OLHE-SE PRIMEIRO, DEPOIS OLHE-SE DE NOVO
4A SERENIDADE ESTÁ EM PRIMEIRO LUGAR
5ENCONTRE SEU PRÓPRIO CAMINHO!
6CAIR NÃO É O PROBLEMA. O QUE VALE É SE LEVANTAR
7ESTE É UM PROGRAMA PARA APRENDER
8NÃO LAMENTE OS ERROS, SÓ PARE DE REPETI-LOS
9AS MUDANÇAS DOS NOSSOS MODOS DE VIDA SÃO AS REPARAÇÕES MAIS SIGNIFICATIVAS QUE PODEMOS FAZER
10A VIDA EXISTE PARA VOCÊ CRESCER
11NÃO ESPERE PERFEIÇÃO
12TOME DECISÕES COMPLETAS
13NÃO LAMENTE O PNEU FURADO. AGRADEÇA PELO TELEFONE PERTO!
14O EXEMPLO NÃO É A MELHOR FORMA DE CONVENCER. É a ÚNICA!
15ACOMODAÇÃO NÃO É SERENIDADE, É DEFEITO
16HUMILDADE NÃO É HUMILHAÇÃO, É FORÇA
17ACEITAÇÃO É A SOLUÇÃO
18FOI BOM VOCÊ TER VINDO
19ENCONTRE SEU PRÓPRIO CAMINHO
20PODEMOS VER UM POUCO DE NÓS EM CADA ADITO E UM POUCO DELES EM NÓS
Ã

A vivência do alcoólico no Alcoólicos Anônimos (AA) vai muito além do intercâmbio de experiências individuais sobre o
desenvolvimento da doença ou o fortalecimento do propósito de se manter abstinente por meio de uma disciplina comportamental
comum de mútuo apoio. Na verdade, o que acontece é uma relação de cumplicidade no processo de crescimento e
aprimoramento das consciências, que dá, a cada um, ganhos na qualidade de vida e na realização pessoal psíquica e material
que realmente compensam as dores da abstinência, com uma nova cosmovisão e novos objetivos de vida.
Nesse caminho, a criatividade e o repertório simbólico das buscas individuais se somam e formam uma cultura própria, na qual
elementos de diversas expressões se reúnem de modo a convergir em um caminho único, que mostra alegoricamente saídas para
angústias e indefinições comuns no cotidiano. Essas histórias, muitas delas refletindo máximas de filosofia perene (conjunto de
verdades universais presentes em diversas civilizações de todas as eras), são contadas pelos membros da irmandade quando
expõem suas reflexões e acabam funcionando como ícones, indicando o que se fazer ante distorções emocionais ou
encruzilhadas nos rumos da existência.
Neste texto introdutório, veremos 12 dessas histórias. Contudo, existem mais de uma centena delas, as quais surgem
individualmente nos grupos e são consolidadas quando se tornam parte também do acervo de outras salas.
Vamos começar com uma fábula que se refere às interferências do Poder Superior e suas maneiras pragmáticas, mas
paradoxais, de nos auxiliar tremendamente por meio de acontecimentos que, a princípio, podem parecer trágicos. Esta historinha
representa o que nossa cegueira em relação ao real valor das coisas pode provocar no processo da vida.

1
Nossa primeira história é a de um rei que adorava caçar, tendo nomeado um mestre caçador veterano, considerado um filósofo da
natureza, para cuidar de suas armas (na época arco, flechas, lanças e adagas) e garantir a plena eficiência delas. Durante anos, o
rei e o mestre caçador saíam todas as semanas para caçar, e as armas sempre se mostraram extremamente precisas,
estimulando ainda mais a paixão do soberano pela atividade, que se tornou essencial para relaxar e manter seu cérebro livre dos
desgastes do dia a dia.
Então, aconteceu. Extremamente ocupado com seus afazeres, o mestre caçador deixou de verificar pessoalmente o estado de
um dos arcos. Essa arma específica raramente era utilizada, porque tinha uma potência maior, era de difícil manejo e visava só à
caça de animais a uma grande distância. Então, quando estava em plena floresta com seu séquito, o rei avistou ao longe, na copa
de uma árvore no emaranhado da mata, uma ave magnífica, a mais exuberante que já havia visto e que sempre tinha sido seu
sonho de caçador.
No entanto, a distância era grande, e se aproximar na mata fechada em silêncio não seria possível. Tentar fazer isso era arriscar
deixar a ave fugir, perdendo aquela oportunidade única. O monarca optou, então, pelo arco de maior envergadura, para um tiro de
longe. O mestre caçador lhe passou a arma, e o rei mirou o alvo, com muita calma. Tudo parecia perfeito.
Contudo, o aprendiz que tinha cuidado do arco sem a supervisão do mestre deixara a corda com um nível de tensão alto
demais. Quando o rei a esticou para o tiro, ela se rompeu e decepou o dedo polegar de uma de suas mãos. Sangrando, ele
desceu do cavalo esbravejando e pedindo explicações ao mestre caçador. Afinal, como ele havia permitido que isso acontecesse?
Era o responsável pela segurança do equipamento, e tinha cuidado perfeitamente disso por anos!
O mestre caçador se desculpou, dizendo que não havia verificado aquele arco justamente no dia, o que nunca tinha acontecido
antes, e completou dizendo que aquela tragédia parecia coisa do destino, mas pediu ao rei tranquilidade, porque Deus sabia o que
estava fazendo.
O rei, enfurecido e indignado pela calma do mestre caçador, pensou primeiro em executá-lo, mas, em seguida, pensou que isso
seria rápido demais. O mestre caçador precisava sofrer por tanto atrevimento! Como podia dizer assim, na sua cara, que um fe-
rimento tão sério era uma interferência de Deus contra ele, um rei justo, amado por seus súditos, e justamente durante a caça,
único hobby que podia aliviá-lo de seus afazeres?
O soberano mandou que jogassem o homem para sempre na masmorra, onde teria tempo para refletir sobre o que havia dito e
se arrepender de sua ousadia e irresponsabilidade.
Quando o ferimento cicatrizou, o rei voltou a caçar, substituindo o mestre caçador encarcerado por outros empregados, mais
obedientes, ameaçando-os com a decapitação no caso de qualquer incidente com as armas.
Os meses correram e, quase um ano depois, quando estava em mais uma caçada, o rei e sua equipe, explorando território
selvagem em busca de presas, foram cercados e dominados por uma tribo de canibais. Um a um, todos os integrantes foram
sacrificados e devorados, menos o rei. Ao perceber a mutilação em sua mão, os canibais o soltaram imediatamente: sua crença
fazia da antropofagia um sistema para absorver as qualidades das vítimas, não suas fraquezas e limitações. Como seria um
ultraje aos seus deuses oferecer-lhes um aleijado, o libertaram e o expulsaram de suas terras por ser defeituoso.
Caminhando de volta para o castelo, o monarca se lembrou do mestre caçador e compreendeu a lucidez e o realismo de sua
posição. Não tinha sido um castigo, e sim um presente; foi uma troca: o dedo por sua vida. Deus realmente sabe o que faz e é
extremamente misericordioso.
Chegando ao palácio, o rei foi imediatamente até o cárcere onde o mestre estava acorrentado, libertou-o e, ajoelhado, pediu-lhe
perdão pelo ceticismo e pelo sofrimento que tinha lhe causado. O mestre caçador, que era um sábio verdadeiro, calmamente lhe
disse: “Tudo certo, meu rei, não se desculpe. Assim como Deus lhe tirou um dedo para salvar sua vida, colocou-me aqui para
salvar a minha. Se não estivesse preso, estaria com meu rei, como sempre, e, não tendo mutilação alguma, os canibais
certamente me teriam sacrificado!”.

2
Outra historinha que ressalta o objetivo positivo oculto em uma aparente desgraça é a do náufrago, único sobrevivente do
soçobramento de um navio durante uma tempestade no oceano: nadando desesperadamente, ele conseguiu chegar a uma ilha.
Depois de recobrar as forças com algumas horas de descanso, saiu para explorá-la e descobriu que era diminuta, embora
permitisse sua sobrevivência frugal com alguns frutos e peixes. Sua localização, no entanto, parecia a de um ponto no meio do
nada, e, por todos os lados, só se avistava o oceano compondo o horizonte.
Resolveu, então, usar todos os materiais que, após a embarcação ter afundado, as correntes marítimas tinham levado até a
praia. Pegou cordas, madeira de escombros e, junto com cipós, folhas, pedras e ramagens da ilha, construiu uma cabana, onde
colocou todas as ferramentas e os víveres que conseguira encontrar e recolher daquilo que o mar lhe trouxera.
Quando terminou, já era noite, e o céu estava fechado, com as estrelas encobertas, prenunciando outra tempestade. Não deu
outra. Dali a pouco, começou a relampejar de tal forma que o náufrago correu para se abrigar na cabana. Porém, antes que
conseguisse entrar, um raio caiu sobre ela e provocou, por causa das folhas secas, cordas, madeiras e outros materiais
inflamáveis, um incêndio incontrolável, transformando o lugar em uma pira imensa, que consumiu tudo durante horas, deixando
apenas cinzas.
O náufrago, desesperado, blasfemava injuriado o tamanho de seu azar, que de uma só vez lhe tirava todas as condições de
sobrevivência prolongada naquela ilha deserta perdida na imensidão.
Quando o dia começou a raiar, ele estava prostrado, desesperado e desesperançado. Então, olhando em direção à praia, viu um
escaler vindo em sua direção e, ao longe, um navio. Estava sendo resgatado!
Conversando com os marinheiros que vieram buscá-lo, eles lhe disseram que, na noite escura, alguém da tripulação tinha visto
um foco luminoso que brilhou durante muitas horas e, como sabiam que não havia nenhum território naquela direção, resolveram
fazer um desvio e verificar. Era a cabana em chamas! O que momentaneamente lhe pareceu o máximo do azar, tinha sido, na
verdade, providencial para salvá-lo!
3
Outro alerta dado pelo fabulário incorporado à cultura dos anônimos se refere, por exemplo, aos sinais que a mente humana emite
sobre seu conteúdo, permitindo que se reconheça, pela observação, o seu real conteúdo, aquele que extrapola as convenções
sociais e mostra o funcionamento da alma das pessoas.
Uma das histórias é a do índio que está ensinando seu filho a perceber os acontecimentos por meio dos sinais do ambiente.
Conta-se que ele pediu ao garoto que encostasse o ouvido na terra e dissesse o que estava percebendo. O menino obedeceu e,
após alguns instantes, levantou-se, dizendo ao pai que uma carroça estava vindo na estrada. O pai repetiu o gesto do filho, como
que para verificar o relato, e, em seguida, confirmou que era mesmo uma carroça, e que estava vazia. O garoto, meio confuso,
perguntou ao pai como ele sabia disso. O índio, então, respondeu ao filho que sabia isso porque a carroça estava sacolejando
muito e fazendo muito barulho, o que não acontece com carroças carregadas, que ficam mais assentadas no chão.

4
Outra é a história dos dois monges, com votos de castidade e silêncio, que viajavam por um caminho em direção ao mosteiro,
voltando de uma peregrinação a um lugar sagrado. A trilha seguia beirando um rio que, devido às chuvas, estava caudaloso e
difícil de atravessar.
Os dois passaram por uma linda mulher que precisava passar para a outra margem, mas estava receosa, com medo de ser
arrastada pela correnteza. Um dos monges pegou-a nos braços, atravessou o vau e a deixou do outro lado. Depois, retornou e
seguiu seu caminho com o companheiro de viagem, ambos sempre calados.
Depois de algumas horas, já próximos do destino, um dos monges parou e disse ao outro:

– Irmão, sei que não devíamos falar um com o outro, pois nos comprometemos a ficar com os lábios selados durante toda a
viagem, mas não posso mais me calar. Desde que você pegou aquela mulher em seus braços e a levou para o outro lado do
rio, estou constrangido por não ter impedido seu gesto, que considero um risco enorme de tentação pelos prazeres da carne
aos quais nós renunciamos. Terei que denunciá-lo ao Mestre.

O outro escutou tudo e, sorrindo, lhe respondeu:

– Meu irmão, você carregou esta mulher até aqui, por tantas horas! Eu a deixei lá, do outro lado do rio!

5
Outra historinha, esta quase uma parábola, fala de um jovem herdeiro de uma fortuna imensa, que preferiu ficar se divertindo e
gastando em prazeres, bebida e mulheres, em vez de se preparar para administrar os seus bens quando o pai morresse.
O pai sempre insistia para que seu filho, que era o único, tomasse juízo, amadurecesse, garantisse uma vida próspera e serena,
sem tantos excessos e abusos.
Embora amasse seu pai e o ouvisse calado, seus conselhos se dissipavam no ar. Um dia, já velho, o pai adoeceu gravemente e
morreu. Junto com seu testamento, havia uma carta, dirigida exclusivamente ao filho. Ela dizia o seguinte:

Filho, durante minha vida tentei lhe passar minha experiência, que era o melhor que eu tinha para dar, fora o dinheiro. Mas,
pelo que percebi, você não vai seguir meus conselhos.

Tudo indica que beberá, farreará, se divertirá com mulheres, dissipando esta fortuna que eu lhe deixo em prazeres, jogatinas e
outros vícios que já estão instalados em você, embora não enxergue.

Chegará um momento em que não terá mais nada, e ninguém mais ficará lhe bajulando, porque você não terá recursos para
comprar aplausos, falsos amigos ou os favores de mulheres. Estará sozinho, ou quase, sem perspectivas e com muitas
decepções, pois ninguém vai aturar sua arrogância, irresponsabilidade e egoísmo de graça.
Quando o sofrimento se tornar insuportável, tenho um último presente para você. Aqui perto da cidade, vou lhe deixar uma
pequena chácara, cuja documentação preparei de forma a impedi-lo legalmente de vendê-la.

Como vai ver, é uma terra estéril, como sua vida foi, e nela só existe uma grande árvore, já morta, e uma corda pendurada em
seus galhos secos. Faça bom proveito. Será, com certeza, a saída que vai restar para você.

Embora muito triste por saber a opinião de seu pai sobre seu futuro, o jovem logo se esqueceu disso, motivado pela riqueza que
era agora inteiramente sua. Então, mandou ver, gastando a rodo e vivendo como um rei, sem preocupações nem limites.
Exceder as medidas foi se tornando um hábito que dominou cada vez mais seu modo de ser. Muito mais rapidamente do se
podia prever, ele conseguiu perder tudo que tinha. Viciado em álcool, o jovem logo chegou a um estado de quase mendicância, só
lhe restando a pequena chácara que não podia vender.
Sem ter para onde ir, foi para lá. Jogou seus trapos no casebre que era a única edificação existente no terreno e, da janela,
olhou a grande árvore ressecada ao fundo do quintal, na beira de um pequeno barranco, com a corda pendurada, balançando ao
vento brando, quase brisa de fim de tarde.
A carta de seu pai, de repente, lhe veio à lembrança em todos os detalhes, e ele compreendeu, com absurda clareza, o que seu
velho tinha profetizado antes de morrer.
Não havia mais lugar para ele no mundo. O presente e o futuro acenavam com miséria, agonia e o desprezo de todos. Tinha
acabado o sonho, e começado o pesadelo. Sabia que não ia aguentar.
Aproximou-se da árvore, fez uma laçada na corda, colocou-a no pescoço e se atirou para a morte. Mas ela não veio. O galho,
aparentemente sólido, partiu-se, e ele foi ao chão.
Levantou-se, meio atordoado, e viu, pela cavidade que havia surgido na árvore, que o galho tinha sido cuidadosamente serrado
pela metade e que, dentro do buraco aberto pelo impacto, havia uma bolsa de couro. Ao abri-la, descobriu surpreso que guardava
uma pequena fortuna em ouro. Junto ao metal estava um envelope, dentro do qual um bilhete com a letra de seu pai e os
seguintes dizeres: “Meu filho, não perca esta segunda chance”.

6
Outra história frequente entre os anônimos é a do sujeito que resolveu trabalhar por conta e abriu uma peixaria, assinando
contrato com pescadores para que lhe fornecessem todos os dias pescado fresco.
Na frente do estabelecimento, colocou uma enorme placa com os dizeres; VENDE-SE PEIXE FRESCO AQUI.
Assim que instalou a placa, um homem que passava parou, leu e lhe recomendou que diminuísse o tamanho da frase, dizendo
que ficaria melhor se deixasse só VENDE-SE PEIXE FRESCO, porque o AQUI estava obviamente implícito, não poderia ser em
outro lugar.
O jovem o escutou e resolveu acatar sua sugestão, retirando a palavra do letreiro. Quando a placa já tinha sido simplificada,
outro homem comentou que, na verdade, não era preciso dizer que o peixe era fresco, porque obviamente não se vende peixe
podre.
Mais uma vez, o comerciante modificou a placa, que ficou só com dois dizeres: VENDE-SE PEIXE.
Um terceiro transeunte, no entanto, imediatamente retrucou, argumentando que, como evidentemente se tratava de uma
peixaria, o verbo da frase, o VENDE-SE, era dispensável, pois esse tipo de estabelecimento não faz outra coisa senão
comercializar peixes. Assim, uma única palavra bastaria para informar do que se tratava. O comerciante, novamente, alterou a
placa, que ficou somente com a palavra PEIXE.
Mal acabara de reinstalar o letreiro quando surge um quarto indivíduo, que diz achar aquela placa muito insípida, pouco
chamativa e, portanto, sem eficiência comercial. Então, sugeriu que escrevesse uma frase inteira, que interessasse quem a lesse
e, assim, abrisse a possibilidade de bons negócios. Tal frase, na opinião dele, deveria ser VENDE-SE PEIXE FRESCO AQUI.
Foi o que o homem fez, e tudo voltou a ser como ele queria antes. Assim, o jovem comerciante aprendeu que as opiniões têm
sempre a aprovação daqueles que as emitem, mas que, se você também já pensou no assunto, é melhor seguir o resultado de
suas próprias conclusões.

7
Um homem morreu e, chegando na “triagem celeste”, teve a chance de conhecer o céu e o inferno. Ao chegar ao inferno, viu
pessoas infelizes, angustiadas, desesperadas de fome. Havia comida, mas as colheres eram compridas, enormes! Os
condenados podiam pegar o alimento com elas, porém a distância dos cabos os impedia de levá-lo à boca.
No céu, uma surpresa: a comida e as colheres imensas eram iguais às do inferno, mas as pessoas estavam sorrindo, em paz e
satisfeitas. O tratamento, no entanto, era o mesmo! Aí, percebeu a diferença: no céu, as pessoas se alimentavam umas às
outras, estendendo as colheres para os lábios do outro e vice-versa. A mútua ajuda era é o que tornava a situação um paraíso!

8
Outra máxima oculta em uma história singela: um guerreiro chinês visitou um eremita considerado sábio e lhe perguntou, após
cumprimentá-lo polidamente, quais eram as definições de inferno e paraíso.
O eremita o fulminou com um olhar de ódio e indagou rispidamente: “Você veio até aqui para fazer uma pergunta tola, típica de
um ignorante com cérebro de avestruz, com palavras que parecem fezes de um jumento, como se meu tempo fosse lixo? Onde
conseguiu se tornar tão idiota?”.
O guerreiro surpreendeu-se com a reação do eremita. Suas palavras foram tão ofensivas que, enfurecido, o guerreiro levou as
mãos à espada, pronto para matá-lo. Ao vê-lo completamente alterado, o eremita disse: “Isso é o inferno”.
Ao compreender o que tinha acontecido, o guerreiro, comovido pela inteligência do sábio, desculpou-se e lhe fez uma
reverência, feliz com o aprendizado. Então o eremita, apontando para o coração do guerreiro, murmurou: “E isso, meu senhor, é o
paraíso”.

9
Há também a história de um devoto de São Francisco, um crente fanático dos poderes do santo. Um dia, conta a lenda, começou
a chover muito na região em que o sujeito morava, tanto que, em pouco tempo, estava tudo alagado, e a água não parava de
subir.
O devoto, vendo aquilo, rezou, dizendo: “Salve-me, São Francisco!”.
Então se sentou, confiante, certo de que o santo o salvaria. Dali a pouco, um vizinho bateu à porta, chamando-o para aproveitar
a carona em sua caminhoneta, porque ele e a família estavam indo para um lugar seguro. Mas ele agradeceu e dispensou a
ajuda, porque, afinal, confiava no santo, e este logo viria tirá-lo dali.
A água continuou subindo e já estava na altura das janelas quando os bombeiros passaram em uma canoa, recolhendo os que
ainda não estavam em segurança. Mais uma vez, o homem recusou a ajuda, porque confiava no santo e ele, tinha certeza, não ia
abandoná-lo ali.
Como a água ainda subia, após algum tempo subiu para o telhado, com a inundação já nos calcanhares. Estava lá, esperando a
interferência do santo, quando um helicóptero da defesa civil sobrevoou sua casa, e os tripulantes lhe jogaram uma corda,
fazendo sinal para se amarrar nela a fim de que pudessem içá-lo. Novamente, dispensou o socorro, sempre confiante na
intervenção de São Francisco, seu santo predileto.
A água, subindo sempre, cobriu o teto, e ele, que não sabia nadar direito, morreu afogado. Tudo ficou escuro. Quando deu por
si, era apenas sua alma, em um hospital astral, ainda cuspindo água. Um frade capuchinho, que em seguida identificou como São
Francisco, estava a seu lado.
Revoltado por não ter sido salvo, o crente despejou uma torrente de queixas sobre o santo, reclamando por ter morrido apesar
de ter rezado, acreditado e mantido a confiança total no taco do frade até o fim.
São Francisco o olhou fixamente, meneou negativamente a cabeça e disse:

– Mas eu tentei muito, meu filho. Muito mesmo. Primeiro, mandei seu vizinho, mas você recusou. Depois, os bombeiros, e você
não quis outra vez. Aí, mesmo com as coisas já bem complicadas, ainda dei um jeito de mandar a defesa civil com um
helicóptero, e de novo você disse não. Então, vi que não queria mesmo ser salvo e entreguei os pontos!

Esta historinha, claro, é um puxão de orelhas especialmente para megalomaníacos, que estão aos montes no AA, e pensam que
as intervenções divinas precisam ser bombásticas para que todos vejam que somos “amiguinhos do Chefe”. Esquecem-se que, na
maioria das vezes, o Poder Superior age por meio de coincidências, ou seja, de milagres nos quais a Inteligência Absoluta prefere
manter o anonimato.

10
Para nos lembrar da arrogância e da presunção dos egos delirantes e pseudo-onipotentes que parecem comandar a
personalidade dos alcóolatras, uma dica é simbolizada na fábula de um intelectual que precisa atravessar um rio de forte
correnteza e, para tanto, contrata um homem simples e ignorante para levá-lo em seu barco até a margem oposta.
Começa a travessia, e o erudito, orgulhoso, olha as vestes do condutor e seu tecido grosseiro. Então lhe pergunta se já usou
roupas de seda ou outros materiais finos.
O barqueiro acena negativamente a cabeça, e o passageiro lamenta, comentando que o fato de alguém não ter essa
experiência era como se este alguém tivesse perdido um terço da vida. Meio humilhado, o homem disfarça seu mal-estar
mordendo um pedaço de pão seco, que trouxe como uma espécie de lanche. O intelectual, então, lhe pergunta se já comeu caviar
e outras iguarias, ao que o barqueiro novamente responde com uma negativa. O comentário do orgulhoso erudito é o mesmo de
antes, dizendo que isso é uma pena e que alguém sem essa experiência é uma pessoa que perdeu um terço de sua vida.
Antes de qualquer reação do barqueiro, as águas do rio se encapelam, seu curso se alarga e a correnteza aumenta de repente.
O barco, atirado contra rochedos ocultos, fica com a lateral destroçada e começa a afundar. O barqueiro, já na água, pergunta ao
intelectual se sabe nadar. Quando este, apavorado, demonstra que não, o barqueiro lhe diz que isso é uma pena, porque significa
que ele vai perder cem por cento da vida.

11
Esta historinha demonstra o que nossa cegueira em relação ao real valor das coisas pode provocar no processo da vida.
O ensinamento fala de um homem que está viajando na estrada, à procura de um trabalho que possa equilibrar suas finanças,
abaladas por algumas ações comerciais infelizes. Quando anoitece, o sujeito chega na beira de um lago. Começa a chover, o céu
fica escuro. O homem pega a lanterna e, ao tentar acendê-la, a deixa cair. Uma vez que não consegue achá-la, fica no breu total.
Devagar, apalpando os rochedos, que demarcam as margens do lago, ele consegue encontrar pelo tato uma reentrância nas
pedras e decide ficar ali até a aurora, pois se mover, devido à proximidade das águas profundas, era muito arriscado, e um tombo
cego poderia ter resultados trágicos. Senta-se no chão e, tateando, encontra pedrinhas pequenas, as quais ele não consegue
enxergar, mas percebe, com os dedos, seus tamanhos e contornos.
O tempo começa a passar, a chuva continua, e a espera fica desgastante. Para se distrair, o homem atira as pedrinhas para a
frente, uma a uma, bem devagar, as ouvindo bater nas águas do lago e até ressoar. Enquanto isso, sua cabeça, preocupada com
as dívidas, girava sem parar, elaborando planos, estudando hipóteses, torcendo para que os deuses o abençoassem...
De quando em quando, outra pedrinha no lago, sempre com o ruído dela caindo na água cortando a escuridão profunda.
Quando a luz da alvorada tornou novamente o mundo visível, o homem percebeu que sua mão ainda guardava uma pedrinha, a
última. Aproximando-se da claridade, a examinou de perto. Perdeu o fôlego. Aquela pedrinha, assim como as outras que agora
estavam no fundo do lago, era um diamante perfeito, e representavam uma riqueza incalculável. E foi ele quem, literalmente por
falta de visão, jogou a maior parte delas fora para sempre!

12
Esta historinha tem um tom de anedota, mas talvez seja a mais séria de todas. Ela fala de uma convenção de mosquitos jovens,
uma espécie de mestrado para a vida adulta.
No dia do encerramento do curso, após todos os mosquitos terem recebido seus diplomas, o mestre de cerimônias avisou que o
Mosquito-Mor, venerado por sua profunda sabedoria, iria encerrar o dia com um pronunciamento. Todos fizeram silêncio enquanto
o sábio mosquito se aproximou da tribuna. Pigarreando antes de iniciar, a fim de deixar sua voz-zumbido ainda mais clara,
declarou:

– Senhores mosquitos machos e fêmeas graduados, meus parabéns! A vida de vocês, a partir deste momento, é de inteira
responsabilidade de cada um. Nunca se esqueçam, no entanto, do que vou lhes dizer agora. Vocês e os humanos são
inimigos, mas devem temer e se proteger de um perigo que é letal tanto para vocês quanto para eles. Portanto, CUIDADO
COM AS PALMAS!

E nada mais disse nem lhe foi perguntado.


Nos parágrafos a seguir, tento passar a noção de como a dependência química de qualquer droga, mesmo que lícita, como o
álcool, pode se manifestar e destruir muito mais do que simplesmente o dependente.
Eu fui (ainda sou) esposa de um alcoólico que bebeu por muito tempo. Em consequência, sou também uma codependente de
carteirinha, com todos os comportamentos de quem desenvolveu essa condição. Além disso, venho de uma família neurótica, e os
comportamentos hoje descritos como neurose foram meus companheiros desde a infância, mantendo-se por perto durante a
adolescência, a juventude e o que chamam de idade adulta; estando presentes e se manifestando em todos os momentos
importantes do caminho, sem exceção.
Assim, posso dizer com segurança que as consequências lógicas de reações ilógicas – raiva, desconfiança, tentativas de
controle, críticas aos outros e julgamentos precipitados – assinaram praticamente todos os passos que dei desde o início da minha
história. Porém, tudo isso estava sempre vestido com uma roupa de coerência, porque o mesmo ritmo interno e a rapidez de
raciocínio que me tornavam uma “angustiada insatisfeita” também faziam de mim uma pessoa de percepção ágil, pragmática,
sempre disposta a transformar hipóteses em fatos e aspirações em realidades concretas, sem vacilo, passando como um trator
sobre os obstáculos e descobrindo soluções espertas para meus problemas e – por que não? – para as dificuldades dos outros
também.
Desde que me lembro, sempre fui assim, frequentemente me envolvendo e resolvendo questões que apenas passavam em
minha frente, mas pelas quais não tinha responsabilidade direta. Ajudar os outros a destrinchar complicações e desatar nós se
tornou, por assim dizer, minha praia, proporcionando um rumo que se casava comigo completamente, me gratificando e dando um
sentido para existir.
Querer ver atrás do que se mostrava no espelho das atividades humanas e da procura da espécie por motivos e respostas do
processo de existir foi uma constante que ficou cada vez mais nítida, influenciando fortemente, por exemplo, a escolha de minha
carreira profissional, a advocacia.
Ainda jovem, comecei a namorar aquele que seria meu marido, em nossa cidade natal, e, embora nada apontasse para o que
aconteceria depois – o alcoolismo –, havia algo na maneira de beber dele que me incomodava, causando uma sensação
indefinida que só vim a traduzir muito mais tarde, quando o problema já tinha aparecido, crescido e prejudicado todos nós. A essa
altura, a questão já estava até com a solução encaminhada, com o início da abstinência sistemática e dos esforços de
recuperação.
Ele bebia sem apreciar, com pressa. Não havia prazer no ato, só uma constância meio compulsiva, mesmo que, ao menos na
época, não causasse consequências sérias. Meu marido sempre foi um homem inteligente, líder do centro estudantil, responsável
por eventos festivos e outras atividades estudantis na cidade, o que fez de mim, quando namoramos firme, uma espécie de
primeira-dama na comunidade de jovens que frequentávamos. Muito divertimento, entusiasmo, sonhos, ousadia. Vivíamos na
fronteira entre a adolescência e a vida adulta, já com metas de médio prazo e uma noção de compromisso com o futuro mais viva
na mente e no coração. Então, casamos e viemos para São Paulo, com a intenção de nos formarmos na faculdade – no meu
caso, de direito, que me atraía fortemente desde a infância – e iniciar uma carreira na profissão.
Como com qualquer casal jovem não nascido em berço de ouro, o começo não foi nada fácil. Nem para mim, nem para ele.
Pouquíssimo dinheiro, muitas despesas, os primeiros filhos, o ingresso dele no funcionalismo público, salário baixo, seu esforço
adicional de estar sempre correndo atrás de um reforço financeiro por meio de aulas particulares e em escolas, pesquisas de
mercado e o que mais pudesse engordar a conta bancária da família. Embora trabalhasse com muita competência, meu marido
continuou bebendo, ainda sem dar vexames nem perder sua reputação com os colegas, que sempre o estimaram e respeitaram
muito. Isso não quer dizer que a bebida não estivesse prejudicando sua vida, pois estava – e muito.
Um exemplo? Sua relação com os estudos. Quando nos mudamos, ele ingressou com facilidade na faculdade de economia da
USP. Era o início da década de 1960, e os tempos já apresentavam os primeiros sinais do reboliço que caracterizou a época. Mas
meu marido, desde o primeiro dia de aula, trocou as matérias curriculares por um “livre estudo” nos bares, onde estava toda noite
com mais ou menos uma dezena de colegas igualmente rebeldes à programação universitária e que, conforme a coqueluche da
época, haviam se especializado em debates regados a álcool sobre as filosofias de esquerda em geral, deixando totalmente de
lado a chamada vida escolar normal. Na verdade, o que ele fez foi apenas manter sua rotina de beber todas as noites, o que seria
impossível caso frequentasse o curso de fato. Quando veio 1964, com seus radicalismos e intolerância política, aproveitou a
ocasião e foi debater as questões entre o legalismo e a ditadura, sempre à noite, já que de dia trabalhava. Aí as aulas sumiram no
esquecimento, até que, em 1969, foi jubilado da faculdade. Os anos foram passando, e suas bebedeiras com entradas sorrateiras
em casa após o expediente foram acirrando dentro de mim as reações neuróticas que estavam lá já fazia tempo, acordando
totalmente o estilo agressivo, confrontador, interventor e controlador que identifico no meu comportamento desde que me conheço
por gente.
Assim, gritos, xingamentos, ameaças e outras formas de ataque emocional, todas vindas de minha parte ou em consequência
das atitudes que tomava, aconteciam frequentemente em nossas discussões de marido e mulher. Além disso, as ações que eu via
como educativas para meus filhos foram, na realidade, mais ofensas, acusações, atribuição de culpas e julgamentos
destemperados meus para com seus atos, causando mágoas e ressentimentos sem que eu percebesse.
Aliás, perceber rápida e nitidamente o que está acontecendo, – o que eu considerava uma das minhas melhores qualidades –
nunca foi exatamente a realidade. Hoje, sei que sempre fui muito ruim nesse negócio de perceber os fatos, só tendo alguma
competência para distorcê-los e focá-los sob a luz de meus delírios de arrogância e minhas ilusões de verdade. Prova disso é que,
embora meu marido bebesse pesado desde que o conheci, ainda bem jovem, eu nunca atinei para a possibilidade de que fosse
portador de uma doença cerebral que impedia o controle da ingestão do álcool. Pior que isso, mesmo me enraivecendo e
perdendo a paciência com suas bebedeiras, jamais enxerguei o perigo que o cercava. Achava que era um defeito dele, que não o
atrapalhava tanto assim, até porque ele trabalhava o tempo todo, não deixava faltar nada de essencial, era presente – se não
fisicamente, no apoio afetivo a todos os seus filhos. Além disso, seguia princípios éticos condizentes com uma pessoa digna,
nunca me instigava para a briga, não era propenso a discutir e sempre optava pelo silêncio, mesmo quando eu tentava tirar a
saca-rolha algo de seu interior. A minha cegueira mental chegou ao ponto de tranquilizar minha mãe, quando ela perguntava se
não era um exagero o garrafão de 5 litros de pinga de alambique que ele pegava no interior. Eu respondia como se essa
preocupação fosse absurda: “mas ele não vai tomar tudo de uma só vez, mãe, vai ser aos poucos”.
Depois disso, passei aproximadamente 15 anos repetindo como um papagaio que, a próxima vez que ele bebesse, retiraria a
chave do carro de suas mãos – sem jamais fazê-lo. Nunca me passou pela cabeça que ele era um alcoólatra, e olhe que, no
trabalho, eu vivia orientando mulheres de bêbados violentos para levá-los à delegacia para receber uma “conscientização
intimidadora” do delegado ou da delegada de plantão, preservando sua integridade física.
Mantenho escrita em minha mente, em letras bem grandes, a advertência que recebi de uma das mulheres presentes na
primeira reunião de Neuróticos Anônimos de que participei: “é uma doença, e você não tem culpa por isso, mas tem, caso não se
trate, responsabilidade pelas consequências”.
Até mesmo quando conheci a irmandade de Neuróticos Anônimos, em 1998, me identifiquei de imediato com seus membros,
ingressei e passei a frequentá-la assiduamente, colocando em prática o Programa dos 12 Passos para um melhor
autoconhecimento, a ficha não caiu. Á medida que o alcoolismo dele foi crescendo, eu fui reagindo com intensidade neurótica aos
acontecimentos.
Nem quando o expulsei de casa em 1996, e ele foi morar por aí, sempre bebendo, consegui perceber a gravidade do que estava
ocorrendo. Só quando a situação chegou perto do fim do poço – ele passou uma semana bebendo sem avisar ninguém, nem no
trabalho – é que percebi que algo realmente muito ruim estava acontecendo.
Mas a luz veio mesmo quando fomos visitar uma clínica especializada cuja equipe o convenceu a finalmente se internar. Foi
então, fundamentada com informações ainda inéditas para mim, que compreendi que ele era portador de uma doença, que nunca
mais poderia beber nem mesmo um gole com garantias de não perder o controle, e que o convívio com pessoas nesse estado
ativa um processo de codependência, caracterizado pela mudança de foco do indivíduo, que deixa de cuidar da sua vida e passa
a priorizar o controle do comportamento do outro.
Fácil de compreender, mais fácil ainda de negar; além disso, dificílimo de administrar, estabilizar e manter assim, sem muitos
altos e baixos, cuidando as coisas um dia de cada vez, sem pressa, aceitando os fatos como são, e não como gostaríamos que
fossem. Uma pedreira, como dizem os mais jovens, mas que não me paralisou.
Como já disse, sou uma neurótica codependente pragmática, e sei que preciso descascar direito o abacaxi que me tornei. Para
isso, participei e cheguei a coordenar, como voluntária na clínica, um grupo de familiares de dependentes internos, o que me deu
a chance de usufruir ainda mais dos resultados dessas partilhas, que são realmente muito bons.
O início de tudo consiste em reconhecer o estrago e orçar o conserto psíquico, para poder agir e reestruturar o próprio interior do
ser. Após muita negação, lamúria e angústia, escolhi a ação de ver em detalhes todos os componentes da história, sem passar a
mão na cabeça de ninguém – o que incluía a minha.
Portanto, hoje já posso dizer, sem medo de errar, que a maioria dos problemas que passamos juntos e cuja culpa eu atribuía ao
meu marido aconteceu por causa de comportamentos meus, como compras desnecessárias e aspirações de conquistas materiais
fora de hora, tudo motivado pela minha dinâmica neurótica de tentar apagar a sensação de vazio provocada pela insatisfação
abstrata que tinha da vida.
Mesmo olhando para trás e vendo os muitos ganhos que tivemos apesar das loucuras que cometemos sem sequer suspeitar
disso, agradeço muito a essa Força Inteligente que está em tudo e que, se examinarmos detidamente o desenrolar das coisas na
linha do tempo, veremos ter a autoria de uma sequência ímpar de acontecimentos, os quais asseguraram as condições exatas
para tudo no aqui e agora, inclusive nós, nossas perguntas, descobertas e respostas.
O Programa dos 12 Passos se tornou o norte da minha recuperação emocional, que começou parcialmente quando percebi a
similaridade de meus comportamentos e sentimentos com os partilhados pelos integrantes da irmandade que cuida de pessoas
com neuroses diversas. Acredito mesmo que, se não fosse esse mergulho no meu próprio interior, o reconhecimento da
negatividade de minha visão das coisas e a aceitação de que meu enfoque se apoiava, muito mais do que nos fatos em si, no
conjunto de dificuldades inerentes à parcialidade de meus julgamentos e critérios viciados em mágoa e ressentimento, que
produziam opiniões preconceituosas disfarçadas de conclusões naturais, teria sido muito mais custoso para eu lidar com a
codependência, assumir uma posição honesta e deslocar o fantasma da culpa para sua verdadeira praia: meus próprios atos e
reações, e não para os fatos ligados à doença do meu marido e os obstáculos que pudessem existir no caminho da sobriedade.
Somos consequência do funcionamento de mecanismos neurológicos complicados, em que as quantidades de substâncias
neuroquímicas e seu tempo de ação em cada parte do cérebro determinam as sensações e as ações psíquicas, sendo, portanto,
fatores importantes na definição do comportamento humano.
Hoje, a ciência médica e o arsenal de medicamentos psiquiátricos são recursos para reequilibrar situações perceptivas
descompensadas, e são muitos os tratamentos que os utilizam para criar neuroquimicamente condições especiais de percepção e
clareza de raciocínio.
No entanto, a questão é mais complexa, e uma série de gatilhos mnemônicos ou não pode, por assim dizer, ativar circuitos
criados para administrar situações com que a pessoa não sabe lidar, desfazendo em parte a aura protetora construída pela
medicação para facilitar a administração pela mente dos incômodos provocados por esses condicionamentos psicológicos. Por
isso, está de bom tamanho, para quem quer ficar bem consigo próprio, se manter sempre alerta, como diriam os escoteiros, para
perceber e gerenciar problemas de ansiedade, raiva, autoritarismo e outras tentativas da compulsão neurótica, de “autobagunçar”
os neurônios e repetir padrões variados de insanidade passageira.
O Programa dos 12 Passos é um conjunto selecionado de dicas para manter ou recuperar a serenidade diante das
problemáticas possíveis – e são muitas – que podem afetar um portador de neuroses. Sem esse apoio, essas neuroses estariam
quase sempre no comando das ações, sobretudo naquelas circunstâncias que mexem com as emoções e despertam respostas
impulsivas e impensadas, capazes de gerar resultados indesejados aos montes.
Gradualmente, um dia de cada vez, vou melhorando, devagarzinho, e deixando para lá comportamentos alheios que me irritam,
sem escândalo nem olhares de fúria – o que não quer dizer, de forma alguma, que minha recuperação é integral ou permanente.
Às vezes, por mais que tente controlar meu gênio, ainda não consigo me gerenciar e repito os velhos caminhos, se bem que,
agora, com um lugar dentro de mim onde a serenidade é automaticamente relembrada e o “personagem de plantão” é identificado
– provavelmente Catarina, a Grande, dominadora do império e dona da verdade.
Quanto a ganhos, houve muitos, tanto concretos como abstratos. Conseguimos, eu e meu marido, criar todos os filhos e
prepará-los para enfrentar a vida com instrumentos vinculados às preferências (vocação) de cada um.
Desde criança, nunca acreditei muito em um Poder Superior vertical, personalizado, com um temperamento completamente
humano, humor instável, autoridade mantida pelo arbítrio, dando ordens e mais ordens, como mostra a caricatura mais comum do
Deus tradicional, embora fosse este o lado social da religiosidade e eu tenha convivido com isso sempre, incluindo hoje. Sou mais
inclinada a definir o Poder Superior como uma conexão entre a consciência do indivíduo e a consciência do Incriado, absoluta e
sem limites. Não me preocupo mais, e isso já faz algum tempo, com o que exista ou não na concepção dos credos. Uso o instante
para me relacionar com Deus e com as pessoas, que também são Ele, buscando paz e serenidade com muita gratidão. Afinal, não
podemos duvidar de tudo. As pessoas precisam acreditar em alguma coisa, mesmo que improvável, e é por isso que os cultos e
as causas sociais são abundantes nos dias de hoje.
Desse modo, a fé também é abundante, em um mundo de corrupção e de cinismos espalhados por toda parte. A fé não é algo
que se mostra dentro de um modelo de certo ou errado, como uma aposta. É um ato, uma intenção, um projeto. Ela nos faz saltar
para o futuro, avançar; nos lança para muito além do tempo em direção à eternidade, que não é o fim dos tempos ou um tempo
imenso e infinito, mas sim o que existe perenemente como valor de referência ao espírito.
Desde que passei a aplicar os 12 Passos, em todos os setores da existência, algumas alterações no meu modo de ser já estão
evidentes para mim e para aqueles que me cercam. Para começo de conversa, mudei minhas atitudes e o modo de enfrentar as
coisas. Além disso, enquanto praticava os passos, senti várias mudanças acontecerem como por milagre. Muitas das minhas
atitudes negativas e defeitos de caráter, que eram marcas constantes de minhas ações antes do processo de recuperação, hoje
foram substituídas por um esforço contínuo de revitalização da vida, por meio de rumos antes impensados. O constrangimento
que tinha diante dos outros e a insegurança financeira que me acompanhava desapareceram com os sentimentos de medo, raiva
e depressão, desarmando os pseudomotivos que me levavam a ser arrogante ou frustrada.
Por meio do meu inventário, comecei a enxergar e combater minhas principais falhas humanas, cobrindo características como
ira, orgulho, intransigência e tendência para a desonestidade com relação aos meus próprios defeitos, com o vício intuitivo de
mentir para não assumir a realidade dos fatos quando esta não correspondia à imagem que eu pretendia passar.
Perdi gradualmente o receio de lidar com gente e voltei a me socializar. Minha vida financeira se tornou muito mais estável do
que era, e tudo indica que se organizará ainda mais com meus avanços. Intuitivamente, aprendi a contornar situações que antes
me deixavam perdida. Adquiri também o hábito de dar continuidade ao inventário, corrigindo novos erros que surgissem.
Hoje, a espiritualidade é uma presença em todos os momentos. Sei, embora ainda só por momentos, o que é desfrutar da paz
do espírito. Não vivo mais no passado nem no futuro, porque o presente me ocupa integralmente, até para preparar meus
movimentos de amanhã. E, como o programa indiscutivelmente funciona, deverei continuar renascendo para uma consciência
mais abrangente a cada dia.
Se os defeitos de caráter por ventura insistirem em voltar, pedirei imediatamente a Deus que os remova. Discutirei os problemas
com outras pessoas e, se causar danos, vou repará-los na hora. Aí está o milagre. Não estou lutando contra nada. Fui colocada
em uma posição de neutralidade, segura e protegida. Os problemas foram simplesmente removidos. Eles não existem para mim.
Não estou orgulhosa, nem com medo.
Sou Angelina, uma alcoólica que não bebe há muito tempo – desde que cheguei aos Alcoólicos Anônimos (AA) e compreendi a
natureza de minha doença.
Comecei a desenvolver o alcoolismo com 9 anos de idade, tomando uma groselha “batizada” com cachaça no almoço junto ao
meu pai, que sempre tinha uma branquinha como complemento da comida. Ele acabou morrendo em decorrência de sua
dependência do álcool, que foi minando sua saúde até derrubá-lo de vez, por causa da cirrose, que a gente no interior de Minas
chamava de “barriga d’água”.
Quando isso aconteceu, minha mãe, à beira do caixão dele, se virou para mim e disse que tinha aguentado o meu pai porque
era seu marido, e achava que tinha sido seu dever de esposa segurar todo o sofrimento provocado pelas bebedeiras dele. Em
seguida, disse que não tinha mais forças nem sentia ter a obrigação de segurar a barra das minhas bebedeiras, que já estavam
ficando comuns, e me mandou sair de casa e ir cuidar da minha vida longe dela, pois não pretendia participar de uma história que,
certamente, em seu modo de ver, acabaria tão mal como a de meu pai.
Então, saí de Minas com 19 anos e fui para o Rio de Janeiro morar com uma tia, mas não demorou nada para que nos
desentendêssemos. Eu queria festas e diversão, e ela, séria e rígida demais, não aceitou meu modo de ser e agir.
Acabei vindo para São Paulo, onde me casei. Meu marido bebia muito, e eu segui na mesma balada. Aos 32 anos, bebia para
dormir, para levantar, para trabalhar, ou seja, bebia para fazer qualquer coisa. Constantemente embriagados, eu e meu marido
tivemos muitos episódios de violência doméstica.
Por mais estranho que pareça, a vinda de sua filha com outra mulher, então uma criança de apenas 4 anos, contribuiu demais
para que continuássemos juntos: nos apegamos uma à outra, e a menina se tornou mais filha minha do que se tivesse meu
próprio sangue. Ela teve uma importância enorme na minha recuperação.
Ele, talvez até pela responsabilidade, parou de beber nos fins de semana, pois sábado e domingo eram dias de trabalho como
vigia, e enfrentava o emprego completamente abstêmio. Nas folgas, no entanto, enchia a cara, como sempre.
Eu, contudo, não tinha parado. Quando ficava sozinha, acabava saindo para comprar mais bebida e, muitas vezes, nem voltava,
deixando a criança sozinha em casa.
Para evitar que eu fizesse isso, ele, antes de ir trabalhar, passou a me acorrentar a um pequeno poste de ferro que havia
instalado na sala. As correntes eram compridas o suficiente para que eu pudesse me movimentar até o quarto, o banheiro e a
cozinha, mas não mais do que isso.
Assim, se eu acabasse com a bebida disponível (minha sede não tinha limites), teria que esperar ele voltar do serviço e me
soltar, o que se tornou uma rotina.
Eu estava tão mal mentalmente, tão atordoada e tão fora de mim, que suportei esse suplício por mais de cinco anos. Gritava,
chorava, mas nunca tentei ir embora – em parte porque amava demais minha enteada, em parte porque estava entregue à bebida
e não tinha para onde ir.
Trabalhar também era impossível, porque eu bebia direto até desmaiar. Por diversas vezes, meus porres aconteceram na casa
de meus patrões, me levando a perder, por irresponsabilidade e incapacidade de fazer o mínimo, boas possibilidades como babá
e empregada doméstica – isso sem falar do hálito, do odor azedo do corpo, impregnado de álcool, da falta de higiene pessoal, da
ausência de banho, do desleixo com o asseio nos períodos de menstruação e outras coisas vexatórias, mas absolutamente
comuns para mulheres bêbadas.
Um dia, numa divulgação de AA na escola, minha enteada conheceu um senhor que foi lá dar seu testemunho sobre a doença e
sobre como a irmandade poderia ajudar qualquer pessoa que quisesse realmente enfrentar o problema. Ela o chamou de lado e
falou de minha situação desesperadora, e o Sr. Melinho (uma figura quase lendária entre os anônimos) a acalmou e se propôs a ir
até minha casa conversar comigo, desde que eu consentisse.
E apareceu mesmo. Falou carinhosamente comigo e me convidou a visitar o Grupo que ele frequentava, o Jardim Pedreira,
instalado na paróquia de mesmo nome, embora o AA não seja uma instituição ligada a religiões – ainda que coopere com serviços
de utilidade pública sempre que é chamado.
Fui ao Grupo, um primeiro dia, entorpecida pela pinga e sem saber bem o que estava acontecendo. No segundo dia, porém,
comecei a entender melhor. Ingressei e fui apadrinhada pelo próprio Sr. Melinho, que pacientemente foi me introduzindo nos 12
Passos, os quais, conforme fui praticando, mudaram completamente minha vida e a própria imagem que eu fazia de mim.
A partir da dica inicial – evitar o primeiro gole –, fui numa escalada de atitudes cada vez mais profundas para me conhecer de
verdade e chegar a outro degrau de compreensão da minha vida.
Admiti minha impotência e me rendi a ela. Percebi e aceitei que minha insanidade e confusão precisavam da interferência de um
Poder Superior, um Deus que satisfizesse minha visão das coisas, para que a lucidez voltasse e eu começasse a saber quem
realmente era. Depois, entreguei a minha vontade, que era a primeira sempre a ficar bêbada, aos cuidados desse Deus,
permitindo também que Ele fizesse o que fosse necessário para me livrar do alcoolismo e da angústia que vivia comigo.
Fiz uma lista de meus defeitos, medos e qualidades, criando um retrato mais ou menos exato de quem achava ser. E fui além:
abri o jogo com meu padrinho, mostrando para ele e para Deus a natureza exata de minhas mentiras, falhas, fraquezas,
justificativas e desonestidades, mas também das coisas boas que existiam dentro de mim.
Claro que fiz isso aos poucos, com muitas idas e voltas, fuçando na alma, às vezes demorando para aceitar comportamentos
que, vistos assim de perto, causam vergonha e desconforto em quem os praticou. Tento, também, na medida do possível, me
desculpar pelas mágoas que causei e reparar os danos que provoquei, desde que isso não vá bagunçar as coisas ainda mais.
Em resumo, fui em frente, e minha vida, hoje, é muito mais serena.
Quando parei de beber, já estava há 22 anos sem ver nem falar com minha mãe, e meu padrinho me lembrou do 8º e do 9º
Passos da programação, que falam em admitir e reparar os danos cometidos contra outras pessoas ou empresas. Então, saí atrás
do endereço da minha mãe. Depois de uma pesquisa persistente, consegui finalmente saber onde ela morava, ainda em Minas,
mas em outro lugar, que eu não conhecia. Peguei um ônibus e fui visitá-la. Chegando lá, conversamos. Foi um diálogo pesado,
franco, sem papas na língua de nenhuma das duas, botando pingos nos is e deixando as coisas em pratos limpos.
Hoje nos damos muito bem e mantemos contato constante pelo telefone. Ainda ontem falamos, e ela, como sempre faz, outra
vez perguntou se eu continuo frequentando “aquele lugar de parar de beber”. Disse que sim, e ela aprovou, recomendando (outra
vez também) que eu nunca me afaste do pessoal da irmandade, porque eles são importantes para que minha vida continue boa.
Um dia desses me lembrei de uma frase que minha enteada havia dito, ainda criança, quando me viu embriagada e
cambaleante pela casa: “a senhora pensa que está bebendo a cachaça, mas é a cachaça que está bebendo você”. Essa menina,
filha única no meu coração, foi tão importante na minha felicidade e ajudou tanto na minha recuperação que peço sempre ao meu
Poder Superior que lhe dê tudo de bom a vida inteira, sem limite de bênçãos ou recompensas, porque ela realmente merece.
Acho que Ele concorda comigo. Do ponto de vista profissional, ela é uma contadora extremamente competente e trabalha em
uma posição de responsabilidade em uma grande empresa de alimentos.
A cada dia que passa, ficamos espiritualmente mais próximas, e nosso afeto parece se irradiar no ambiente. Antes de ela se
casar, nossa despedida foi uma choradeira dos dois lados: eu chorava, ela também. Agora isso já não acontece tanto, porque
volta e meia ela vem me visitar, às vezes só para jogar prosa fora, sozinha ou com o marido. Aliás, ela é casada com um rapaz
muito correto, de excelente caráter, alegre e trabalhador, que a cada instante demonstra seu amor por ela – um amor que já me
deu três netinhos. Um deles, de 4 anos, me chama de vovó, e sempre vem com ela me visitar.
No AA, já exerci todos os encargos existentes na estrutura de serviços do Grupo que frequento e, além disso, tento sempre levar
a mensagem para mulheres como eu, que estejam pagando as consequências de uma doença confundida com “sem-vergonhice”
e imoralidade, pois é isso que ainda acontece com o alcoolismo feminino, mesmo com os avanços da ciência, já que o preconceito
e o machismo são muito fortes em nosso país. Por isso, já há alguns anos, faço um trabalho voluntário em presídios femininos,
onde muitas detentas têm problemas sérios com o álcool e outras drogas. Também ajudo na Casa de Acolhida da Mulher,
administrada pelo Serviço Social da Prefeitura.
Moro sozinha, e todas as pessoas das proximidades me tratam com respeito e admiração, e os companheiros e companheiras
de AA sempre estão presentes quando alguma coisa acontece e dificuldades precisam ser enfrentadas.
Essa sou eu, Angelina, uma alcoólica de bem com a vida e agradecida pelos caminhos de aprendizado que seguiu e pela paz,
serenidade, sobriedade e experiência que adquiriu, acumulou e, hoje, coloca à disposição de outras pessoas com problemas
semelhantes.
Meu nome é Maria Luísa, sou esposa de um alcoólico e entrei para o Al-Anon há 27 anos. Entrei, mas não entendi nada. Apesar
de ser formada em psicologia e trabalhar na área, minhas noções do que era o alcoolismo ainda beiravam a ignorância total.
Como consequência, me afastei da irmandade, que enxergava, na época, como um grupo de velhos conservadores e puritanos.
Minha família tinha muitos festeiros – a grande maioria bebedores sociais que, de vez em quando, bebiam um pouco além do
que aguentavam e ficavam meio “alegres”, alterados, mas sempre em um clima amigável, sem problemas reais de atitude ou de
relacionamento. Então, minha relação com o álcool era sempre considerando o beber demais – fazer escândalo, dizer besteiras,
dar mancadas, causar acidentes dirigindo, etc. – como culpa da imaturidade, de descontroles emocionais ou da fraqueza de
caráter do bebedor. Jamais tinha passado pela minha cabeça a possibilidade de que a situação dos “bons de copo” não poderia
ser resolvida com conselhos ou até “chamadas na chincha”, que lhes despertassem “vergonha na cara”. Mas até isso, na verdade,
meu código social só colocava como ação válida em situações de alto prejuízo material, ético ou de estrutura familiar – afinal,
tomar um porre aqui, outro lá, mesmo que essa situação aumentasse gradualmente em frequência e intensidade, era normal para
quem trabalhava, sustentava a família, encarava a dureza da vida e se estressava com desafios financeiros ou maus casamentos,
falta de apoio e outros incidentes nada raros entre a população em qualquer nível social, principalmente entre os menos
favorecidos.
Essas opiniões, que eu ainda tratava como valores, eram apenas o ranço da visão popular da época, e facilitaram bastante o
começo de meu relacionamento com quem seria meu futuro – e único – marido, dando início a uma situação que foi ímpar e
importantíssima na minha vida.
Por quê? Simples. Quando conheci o José, ele estava bêbado. Não alegrinho, de pileque. Bêbado mesmo. Não conseguia nem
ficar em pé. Embora isso tenha me chocado um pouco, foi só um pouco. Como já disse, eu não considerava alguém de porre uma
pessoa fracassada, sem chances, a não ser que caísse nas ruas, dormisse nelas, se vestisse como mendigo e toda aquela
parafernália que imaginamos retratar como o visual do alcoólatra e seu posicionamento na escala social: a escória.
José não era nada disso. Ao contrário, era engraçado, inteligente, sedutor... um autêntico “sucesso” social. Todos gostavam dele
e o viam como um vencedor na profissão que escolhera.
Namoramos, noivamos e casamos com a mesma pressa que tínhamos para descobrir o que a existência nos reservava. Eu
continuava sem enxergar o cerne da questão – a relação perigosa de José com o álcool –, não obstante acontecessem, volta e
meia, um acidente, uma batida de carro em que ele estava “altamente calibrado” e outras variações sobre o tema, o que poderia
servir de alerta para uma pessoa ligada no que era a dependência química.
Mas essa pessoa com certeza não era eu. Seis anos de faculdade de psicologia, prática em psicanálise como paciente e como
profissional e nenhum conhecimento, ou muito pouco, sobre o tal do alcoolismo, para mim ainda sinônimo de “pé redondo”.
Nunca havia tratado de alguém que sofresse da doença e, provavelmente, se o fizesse, seria enganada um bom tempo,
analisando-o sob o olhar convencional das diversas vertentes que tinha estudado, pois esse é um problema cujo manejo exige
conhecimento e experiência.
Para mim, meu marido tinha aquele comportamento por causa de quem ele mesmo era, não em consequência de uma doença
cerebral, etc., como aprendi depois.
Os dias correram, se transformaram em meses, depois em anos; exteriormente, tudo parecia igual, com fins de semana de altos
festejos por coisa nenhuma, típica rotina de ter muitos amigos e amigas, com problemões que eu chamava de probleminhas
acontecendo porque – eu acreditava nisso! – ele era esse “cara” mesmo, tipo Dr. Jekill e Mr. Hide, egocêntrico e endurecido para
mim, mas não para os amigos, às vezes cordeiro e às vezes lobo.
Aí, de um dia para o outro, tudo mudou radicalmente. Os churrascos e a intensa inteiração social desapareceram por completo:
José simplesmente “congelou” o filme da vida e parou de beber. Informou o fato laconicamente para mim, na lata, após alguns
dias de abstinência. E falou sério. Isso mexeu comigo de modo direto e me afetou de verdade.
Aquelas festas, o contato com a turma, todo o esquema, contavam com minha participação ativa. A movimentação toda diminuía
a sensação de solidão, era importante para meu cotidiano humano e propiciava uma melhor conexão com aqueles que
frequentavam os churrascos que fazíamos, inclusive eu mesma.
A ida do pique de mil para zero fez um estrago enorme nas muitas “adequações” que eu, meus filhos e o próprio José tínhamos
adotado tacitamente, sem contatos nem contratos verbais, visando tornar mais suportáveis as muitas indagações sem resposta
que a situação deixava no ar.
Os próprios amigos dele nos perguntavam o que tinha acontecido, por que aquele gelo inesperado, qual a explicação para um
afastamento tão radical de todos. Mas ele não me permitiu vazar o motivo para ninguém.
Aí a vida – ou melhor, a minha vida – virou um inferno. Com ele entrando em recuperação, começou a querer retomar também
funções que tinha deixado de lado ou, mais exatamente, abandonado para ter mais tempo e oportunidade para beber.
Simultaneamente, quis também participar e ter voz nas questões e decisões da casa e da família, entrando em conflito com minha
maneira de agir e propondo modificações, etc. Até o cardápio das refeições começou a ser mote para discussões em que ele
tentava recuperar o espaço perdido e eu procurava manter a conquista do território, dominado por abandono dele, tipo usucapião.
Como consequência, passamos a ter uma relação muito mal resolvida, que durou 10 anos, ele indo ao AA, eu insistindo em repetir
comportamentos de forma cada vez mais negativa, criando um clima no qual o fim do casamento ficou muito próximo de
acontecer, devido à péssima qualidade do relacionamento. Mas nenhum dos dois queria isso, e começamos a procurar maneiras
de equacionar o impasse.
Fizemos terapia de casal, que ajudou bastante, mas a chave do equilíbrio foi meu reingresso, 17 anos depois da primeira vez, à
irmandade de Al-Anon, bem como ter passado a utilizar o Programa dos 12 Passos. Aí, tudo começou a mudar.
Para recuperar a lucidez, primeiro tive de aceitar a falta dela, como sugere o primeiro dos 12 Passos desenvolvidos pelas
irmandades anônimas, em cima de pontos da chamada filosofia perene – aqueles princípios de inquestionável sabedoria e bom-
senso presentes em todas as vertentes de pensamento e em todas as religiões, com poucas variações até mesmo nas
expressões com que são colocados. Na verdade, são quase axiomas (soluções evidentes por si mesmas) disfarçados com uma
roupagem que, embora pudesse sem grandes prejuízos ser chamada de religião (qualquer uma delas), atinge uma profundidade
além dos dogmas e teologias, entrando em campo muito mais abrangente: o da espiritualidade.
Aprendi, com o passar do tempo em que os 12 Passos foram atuando sobre mim, a “complexidade do simples” e a riqueza dos
resultados obtidos quando abandonamos as firulas e vamos direto à questão. Também aprendi que isso incluía liberar a cabeça
de comportamentos que me faziam pisar várias vezes na mesma casca de banana, cair de cara no chão do mesmo jeitinho dos
tombos anteriores e morrer de vergonha dos danos que isso provocava à minha imagem. Em outras palavras, aprendi a mudar o
filme, apagar aquelas reações das quais já tinha necessitado, mas não precisava mais, e modificar o modo (e o custo psicológico)
dos comportamentos que já não funcionavam, mas que insistia em repetir teimosamente, como uma gravação neurótica.
Redirecionar essa teimosia e persistência para a alteração do que não me serve mais já gerou efeitos salutares em muitos
aspectos do meu dia a dia, e sei que muitas outras coisas serão transformadas enquanto eu continuar nesta ação positiva, sem
remoer ressentimentos nem paralisar meu movimento com desalentos ou depressões imaginárias que, se eu for uma pessoa
diferente, têm pouquíssimas chances de se concretizar.
Hoje, vejo com clareza o buraco em que me enfiei quando a vida que sonhava ter no meu casamento desmoronou,
desmontando a “utopia” com ferramentas afiadas com o desencanto e a frustração que povoavam os dias.
Por mais maluco que pareça, saber que eu estava desequilibrada e sem conhecimento real do que acontecia na minha vida foi o
ponto de partida para uma mudança completa de visão e de atitude.
Comecei a aprender, pela vivência no Al-Anon, o que era efetivamente a doença do alcoolismo, que ela não exige falta de
caráter, rolo emocional ou qualquer alteração “abstrata” para se manifestar, e que, pelos fatores genéticos envolvidos, pode
funcionar na carga hereditária da família quase como um “carimbo” daquelas características que facilitam seu desenvolvimento.
Era algo muito mais complexo do que qualquer observação psicológica ou até psiquiátrica consegue isoladamente explicar, pois
a questão exige a contribuição da neurobiologia, já que nessa confusão entram neurônios, neurotransmissores de diversos tipos e
outros fenômenos estudados por diversos setores da ciência médica.
Parece complicado? É e não é, porque o ensaio e erro criou uma bagagem de atitudes pragmáticas visando lidar, controlar e
dissolver os muitos obstáculos provocados pelos conflitos na relação, os quais, muitas vezes, faziam os envolvidos não acreditar
na possibilidade de sanar a “baderna interior”.
O Programa dos Anônimos me forneceu tudo o que eu precisava saber para enfrentar as distorções provocadas pela minha
doença – a codependência, ou, se vocês preferirem, minha “neura” controladora, que dificultava minha vida enquanto eu me
autoenganava, racionalizando minhas atitudes como lógicas e até ”democráticas”, quando apenas repetia o que depois aprendi
serem comportamentos típicos de um codependente.
Um exemplo disso foi o papel permissivo que eu desempenhava ante as ações autodestrutivas de meu marido, aceitando o que
ele fazia como normal. Meu processo de negação estava com tudo! Nem sei quantas vezes assumi a figura de salvador da pátria,
criando desculpas para o que José fazia ou tirando-o de situações que poderiam colocá-lo em uma saia justa, constrangido ou
envergonhado.
Babá do mundo eu sempre fui, cuidando de todos os aspectos da estrutura doméstica, inclusive do dinheiro ou qualquer outra
coisa que mantivesse a família unida.
Em outros momentos, eu racionalizava o comportamento irresponsável dele, argumentando para que os outros achassem tudo
absolutamente normal – e, para provar isso aos conhecidos, participava da encrenca, festa ou fosse lá qual fosse o canal da
loucura dele.
Tomei um choque quando enxerguei, já com algum tempo em recuperação, o tamanho da insanidade por trás dos atos que
realizava – uma hora como uma heroína superpoderosa que mantinha a imagem da família, outra xingando e culpando meu
marido por todos os problemas do mundo, às vezes saindo do ar e me desligando dele e da situação, como se não estivesse nem
aí com nada.
Minha falta de percepção e de foco em mim mesma fazia com que minhas preocupações “verdadeiras” parecessem ser
provenientes dele, que eu definia como fonte de todos os meus problemas e, simultaneamente, defendia com garra da reprovação
social.
Parecia óbvio que a melhor solução era aquela que havia adotado – “controlar” sua falta de controle –, e pensei que estava
conseguindo fazer isso sem problemas, até a “ingrata” hora em que ele resolveu parar de beber.
Mas depois de enxergar, não adianta a gente tentar se convencer de que não viu. Isso seria pura birra, e birra não move
ninguém de lugar. Tive que encarar o fato como ele era: tentávamos conversar com cada um falando uma língua diferente, e o
resultado era uma Babel alucinada de mal entendidos aflitivos que tinham como único ponto em comum a impossibilidade de
encontrar um ponto em comum capaz de sustentar a comunicação sem desarticulá-la com traduções enganadas do que dizíamos
e queríamos.
Os 12 Passos e as 12 Tradições ajudaram bastante depois que venceram minha negação cheia de recalcitrâncias. E continuam
ajudando, já que são ações a realizar, permanentemente, todas as vezes que surge uma necessidade de alteração de caracterís-
ticas ou de administração de situações que se complicaram em virtude de focos viciados de minha neurose-base.
Essa “neura que mencionei agora, a mania de controlar tudo em minha volta e, às vezes, até fora do meu entorno,
comportamento herdado dos meus familiares de duas ou três gerações anteriores à minha, facilitou demais desenvolvimento da
minha codependência, além de ter uma influência clara nos meus objetivos profissionais.
Tanto os 12 Passos como as 12 Tradições exigem ações concretas em sua prática, e nada pode transformar mais uma pessoa
do que isso: agir, reelaborando as coisas que se deseja transformar. Comigo não foi diferente.
Feri muita gente com minhas atitudes, então tentei, como ensina o programa, fazer reparações, o que foi possível com um bom
número de “vítimas” da minha autossuficiência e do tempero de onipotência sutil com que eu condimentava tudo, livrando-me por
antecipação da acusação sobre qualquer falha na receita utilizada nos meus julgamentos. Porém, outras pessoas não permitiram
que me aproximasse, e outras eu arrumei desculpas para não chegar perto; no duro, o que me impediu de fazê-lo foi o
constrangimento que sentiria ao me retratar.
Algumas das reparações que não consegui fazer nas primeiras vezes, consegui depois, quando avancei no entendimento do
que significa a humildade e eliminei definitivamente qualquer vínculo dela com a humilhação.
Hoje, estou muito mais perto do que concebo como Deus – uma força superior a tudo, que abrange o todo e o nada e que rege
todas as coisas eternamente em direção ao amor absoluto que emite, é, ativa e alimenta.
Venci, ou ao menos amenizei bastante, os sentimentos que me feriram sem que eu entendesse bem, como o fato de não ser a
preferida para nenhum dos meus pais. Vivi em um sanduíche afetivo entre meu irmão (mais velho) e minha irmã (mais nova) que
só vim a aceitar recentemente, quando as definições de igualdade e superioridade deixaram de ser lineares para mim. Até então,
aceitar era sinônimo de humilhação, e fazer as coisas como eu queria era direito meu, pouco importando o que isso dissesse aos
outros.
A própria aceitação de que estava tudo na mão de Deus, ou Poder Superior, como define o programa dos 12 Passos, também
foi meio encrencada e levou algum tempo para se clarificar na minha mente.
Minha profissão era e é ajudar os outros, resolver seus problemas. Logo, eu me sentia habilitada para solucionar minhas
dificuldades e desafios; Deus não devia fazer por mim o que, na minha opinião, era obrigação minha, e não Dele. Precisei apanhar
muito para compreender Seu controle sobre a vida, e por que era tão importante não querer carregar o caminhão nas costas ao
subir o morro.
O milagre acontecia sempre que o desespero perdia terreno, o que ocorria toda vez que eu entregava os pontos e admitia que
não dava conta, deixando na vontade Dele a construção do destino a partir dali. É impressionante como cada vez que entrego em
Suas mãos, surge do nada uma situação que soluciona o imbróglio ou encaminha tudo para uma resolução muito melhor e
notadamente mais promissora. Isso aconteceu tantas vezes na minha vida em recuperação que duvidar, hoje, seria o equivalente
a demonstrar uma burrice enorme.
Agora, já é quase automática a entrega, e até penso, quando ela ocorre, o que é que tinha na cabeça quando entregava algo ao
Poder Superior e, na primeira onda da tempestade, já queria tomá-lo de volta. Boa coisa não era, com certeza.
Sei que a recuperação da codependência consiste em compreender e administrar a doença com serenidade, vivendo e
deixando viver, mas nunca considerando o trabalho finalizado. O quarto passo, um inventário honesto do que há no meu interior e
dos comportamentos que adoto para fugir das consequências daquilo que faço sob a influência de minhas mazelas, medos,
mentiras, postergações e outras desonestidades, é a prova irrefutável disso.
Ainda no fim do último ano fiz uma versão atualizada de quem sou e fui, e olha que faltou caderno para tantas anotações.
Paradoxalmente, eu estou hoje muito mais tranquila, feliz, focada e realizada do que antes dessa viagem ao inferno-purgatório-
paraíso de quem fui, sou e, quem sabe, ainda serei enquanto houver tempo para crescer em espírito.
Estou também me preparando para ser pioneira de mim mesma e dar um passo inédito, o quinto, que consiste em “confessar” a
alguém de confiança, verbal e pessoalmente, a natureza exata do que levantei como meu interior; proferir cara a cara um discurso
completíssimo sobre o conteúdo do inventário feito, abrindo-se para responder a perguntas e esclarecer pontos nebulosos que o
interlocutor detecte no contexto.
Estou ansiosa porque sou mesmo assim, agoniada com o daqui a pouco, mas totalmente serena em relação ao que vier.
Tenho um ótimo relacionamento com o Deus que concebo, e vejo Sua mão objetivamente clara nos lemas populares que os
grupos adotaram para simplificar a visão coletiva do Programa. Sei que tudo ocorre somente pela graça de Deus e que cada
acontecimento, por mais doloroso que seja, não é um capricho do acaso, e sim parte de um encadeamento de ações cujos
resultados finais são sempre para o melhor.
A vida, para mim, agora sem expectativas infantis de uma mente imatura, não tem espaço para frustrações. Com os 12 Passos,
a lucidez de aprender na jornada torna a existência sempre a favor.
Para nós do Programa, a alegria e a aceitação caminham juntas, embora, vez por outra, a chuva prometa vir com força,
enlameando a estrada. Contudo, por mais ruidosa que seja a precipitação, o instante seguinte é sempre propício à bonança.
Meu nome é Alexandre Araújo. Sou o filho do meio de mãe alcoólatra; fui adotado e criado pela minha avó. Cresci em uma família
conturbada de dependentes químicos que chegaram ao estado extremado da doença, com três de seus membros vítimas do
álcool – meu pai, meu irmão e minha irmã mais velha, já falecidos.
Quando meu pai se uniu com minha mãe, na década de 1960, ela já tinha uma filha com outro homem, e todos nós crescemos
juntos. Nessa época, ele era uma pessoa legal, boa gente, que nem mesmo bebia exageradamente. Era um típico jovem do início
da era rock and roll, com sonhos de liberdade e autenticidade, procurando novas respostas nos chamados anos rebeldes.
Mas ele também sempre foi um pai extremamente irresponsável e imaturo, que me deixou absolutamente solto a maior parte da
infância e da adolescência, sem controle maior. Até frequentei, no começo, bons colégios, como o Sion, e gostava bastante de
estudar e aprender, mas fui obrigado a abandonar as aulas porque meu pai teve problemas com a justiça em relação a dívidas,
colocando a família em dificuldades, com recursos minguados, que nem davam para suprir direito os gastos diretos da simples
sobrevivência.
A bebida foi uma presença constante na minha vida, e a data de meu contato inicial com ela se perdeu no tempo. Sempre tive
uma atração intensa por seu efeito – tanto que adorava tomar Biotônico Fontoura e Xarope São João, muito mais do que as doses
recomendadas, mesmo sem saber de seu forte teor alcoólico.
Analisando a situação com o olhar de hoje, vejo que já bebia nas festas na minha casa desde os 7 ou 8 anos. Uma vez,
inclusive, no meu aniversário de 9 anos, fiquei muito bêbado tomando uma “farmácia” feita com o restinho dos copos das bebidas
dos adultos e cismei de brincar fazendo aviõezinhos de papel e jogando-os no ar depois de incendiá-los com fósforos. O
resultado: toquei fogo na casa, e os bombeiros tiverem que vir apagar as chamas. Rolo geral!
Quando parei de estudar, minha irmã mais velha já estava envolvida com drogas, e eu, um moleque na faixa dos 10 anos,
andava solto no bairro, com meu pai e minha mãe tentando me controlar sem sucesso. Logo me enturmei com um grupo de
jovens da mesma faixa etária que costumava cheirar benzina, uma maneira de ficar “balão”, o que era então bem popular. Aderi
com entusiasmo, e rapidamente chegamos a uma frequência de uso em que ficávamos de barato uma boa parte do dia.
Com 12 anos, comecei a fumar maconha. Também passei a andar com gente da família, parentes mais velhos, e conheci as
anfetaminas, que eram a febre dos malucos, o grande lance, também chamadas de “bolas” ou “rebites”. Eu gostei e caprichei no
uso. Lembro que tomei muito Artane, apelidada pelos usuários de “LSD de baiano”, um sucesso do meio.
Como eu era pequeno, o menor da gangue, me encarregavam de comprar nas drogarias Optalidon, Hipofagin, Dexamil e outros
alteradores de humor, já que não se exigia receita e minha carinha infantil era uma espécie de atestado de inocência quanto ao
motivo do pedido, tipo uma maneira de aliviar a consciência dos atendentes quanto à possibilidade do uso ilegal dos
medicamentos.
Essas substâncias eram todas destiladas para injetar nas veias, o famoso “esquentar os canos” na gíria da malandragem. As
pessoas que me pediam para comprar não me deixavam injetar em mim mesmo, com receio de que as consequências físicas do
meu uso pudessem colocá-los em complicações diante da lei. Mas não adiantou muito; apenas demorou um pouco mais para que
eu, de tanto observar, aprendesse a destilar os medicamentos e a injetá-los nas veias.
Embora assim, loucão, eu era também bem “bunda mole” e morria de medo de andar com bandidos de verdade, como aqueles
com quem convivia estavam se tornando. Por isso, para “disfarçar”, entrei também para a turma do rock e passei a andar com
eles. Mas foi nessa fase que a encrenca melou mesmo, com muito uso de drogas injetáveis, maconha, cocaína, comprimidos e, é
claro, o sempre presente álcool, além de pequenos furtos e paranoias de ser preso por causa deles.
Então veio a primeira internação, feita por meu pai a pedido meu, mais por causa do pavor imaginário de ser preso do que para
me tratar de fato. Eu estava com 16 anos, e a gente tinha um monte de truques para continuar o uso dentro da clínica. Várias
vezes encenamos brigas para chamar atenção dos enfermeiros e da segurança a fim de saquear a farmácia e distribuir
“democraticamente” o produto obtido com a confusão.
É claro que fiquei mais tempo louco do que limpo, e a conscientização do problema que eu estava vivendo, que era o objetivo
formal do tratamento, foi muito próxima de zero.
Depois da internação, tentei também viver com uma tia em Goiás, mas minha rebeldia, em contraste com a rigidez dela, acabou
fazendo a tentativa gorar rápida e completamente. Então, fiquei uns dois anos circulando tipo “easy rider”, sem destino, pelo
centro-oeste do País – tudo bem no estilo “hiponga”, procurando os segredos da Nova Era, do Terceiro Milênio, dos discos
voadores, com alto consumo de cogumelos alucinógenos, maconha, medicamentos tarja preta e, é claro, o bom e velho
companheiro de sempre, o álcool, inseparável em todas as jornadas.
Na sequência, voltei para São Paulo e comecei a andar de novo com a turma de antes, que era da pesada e que, dessa vez, era
já da pesadíssima. Também comecei a namorar a filha de uma médica e entrei numas de falsificar o seu receituário azul. Comprei
uma resma de papel da cor exata das receitas dela, imprimi receitas falsas e falsifiquei um carimbo do CRM. Essa prática
delituosa, feita com total mau caráter e nenhuma consciência dos prejuízos que podia causar à profissional cuja identidade
“clonei”, me abriu as portas para comprar os medicamentos que quisesse e, além de garantir meu uso próprio, serviu também
para ganhar algum dinheiro, fornecendo para terceiros.
Não preciso dizer que a essa altura a dependência química ativa tinha rompido todos os limites do bom-senso, e eu vivia
praticamente fora do ar, delirante, com um percebimento muito precário da realidade e em estado de deterioração física e mental
realmente preocupante.
Um dia, logo depois de fazer 18 anos, despertei de maneira súbita, sem entender onde estava, nem o que fazia, altamente
atordoado. Levantei assustado e percebi que minha roupa estava ensopada de gasolina e que algumas pessoas estavam em
minha volta, uma delas com um fósforo aceso. Saí correndo, assustadíssimo, e só depois compreendi o que havia acontecido.
Eu tinha ido com uma turma para o Autódromo de Interlagos, usei além do que podia, convulsionei com a overdose, apaguei de
repente e, por mais que me sacudissem e tentassem me fazer voltar, fiquei inerte, sem nenhum tipo de resposta física aparente.
Os outros pensaram que eu estava morto, ficaram apavorados e resolveram atear fogo no “cadáver”, queimando o arquivo do que
parecia ser uma baita complicação policial para todos. Acordei segundos antes que isso acontecesse! Com toda certeza, uma
intervenção direta de meu Poder Superior salvou minha vida, mas, naquele instante, estava somente aterrorizado, chocado com a
possibilidade de morrer daquela maneira horrível.
Aí começou um processo interno de percepção de onde eu havia chegado. Tomei consciência do tamanho da encrenca em que
estava e tentei sair fora das drogas injetáveis. Estava, contudo, muito por baixo para estruturar um caminho de saída. Tinha virado
um sujeito em situação de rua, sem perspectivas, constantemente em geladas, vítima de agressões constantes e também um
agressor de grande violência.
Fui assim até os 21 anos aproximadamente. Tive mais duas internações, além de alguns atendimentos de emergência. O
desalento era muito grande. Mas a dor cresceu de tal forma dentro de mim que provocou, graças ao sofrimento insuportável,
aquilo que pensei ser um insightpara iniciar meu retorno das cinzas: resolvi parar de tomar remédios via oral ou via injetável. Iria
me restringir “apenas” ao álcool e à maconha. Foi aí que a coisa, em vez de melhorar como eu pensava que ia, piorou, e a porca
torceu de vez o rabo.
Comecei a beber de um jeito que ficava de porre três vezes ao dia! Bebia de manhã durante algumas horas, apagava, depois de
algum tempo acordava, bebia de novo até dormir outra vez, despertava, bebia outro tanto, desmaiava... e assim ia; praticamente
um pinguço em período integral, que só parava quando era derrubado pela embriaguez.
Um pouco antes de tudo ficar assim, incrivelmente ruim, eu tinha conseguido um emprego na Secretaria do Menor, mas perdi
qualquer condição de exercer minhas obrigações. Todos percebiam que eu ia trabalhar bêbado, faltava muitas vezes, tinha
resultados performáticos sofríveis.
Em casa, a adição de meus irmãos e de meu pai – esta de surgimento tardio, porém muito intensa e acelerada – criou um clima
infernal, com brigas diretas entre todos nós. Mesmo assim, eu não parava. Desesperado, não conseguia sequer amenizar minha
dependência do álcool.
Aí, quando cheguei aos 24 anos, minha mente começou a dar “tilties” graves, com atitudes que misturavam na minha percepção
fatos com delírios e manifestações psicóticas, tornando inviável conviver com a chamada normalidade. Mas, mesmo nessa
loucura toda, eu continuava buscando um sentido na vida, tentando participar de movimentos civis, como o da abertura
democrática nos últimos anos da ditadura militar, o das Diretas Já. Evidentemente, como o uso continuava, minhas atitudes ante
as situações políticas e sociais tinham um tempero insano de esquerda festiva, e minha credibilidade como cidadão não era das
melhores.
Então, como a doença se caracteriza por evolução progressiva, minha vida ficou ainda pior do que estava. Subitamente,
comecei a ter convulsões em lugares e horários inesperados (no Museu da Arte e do Som, dentro de um ônibus, na rua); vomitava
à noite; acordava com dores, enjoos e mal-estar.
Continuei bebendo, até que, em 1990, o medo de morrer me fez buscar um tratamento sério, em uma clínica de Jacarezinho, no
Paraná. Foi uma internação difícil, de nove meses, na qual me reencontrei com o Programa dos 12 Passos, assimilei a mensagem
e decidi realmente pela abstinência e pela sobriedade.
Alguns meses antes, mexendo em gavetas, tinha achado uma ficha de ingresso que havia recebido quando fui ao AA muito
tempo atrás, ainda sem ter condições de entender a proposta da irmandade. Lembrei até que havia zombado dela, colocando a
ficha dentro do copo de pinga e dizendo a todos que estava evitando o primeiro gole.
Então, ao sair da internação em Jacarezinho e ir para casa, deparei com a dureza dos fatos. Minha irmã estava presa, meu
irmão Álvaro havia contraído HIV e meu pai agora acompanhava meus antigos amigos de boteco em porres homéricos e já
começava a demenciar. Para não recair, me apeguei aos Toxicômanos Anônimos (TA), nome inicialmente utilizado no Brasil para
o programa dos Narcóticos Anônimos (NA), cuja estrutura de serviços só mais tarde chegou a nosso país, incorporando sob sua
sigla as dezenas de grupos existentes do TA.
O Programa de 12 Passos ajudou muito, servindo como um norteador no meu trabalho de autoconhecimento e aprimoramento
como ser humano. Também foi muitíssimo importante saber que a dependência química é doença e não simples falha moral, bem
como que havia muitos como eu. Posso ter cometido vários erros, mas eu não sou um erro.
Comecei, então, a trabalhar na FEBEM. Graças a meu regime de trabalho (12 horas por 36), pude também me dedicar ao TA e,
depois, ao NA, fazendo viagens e abrindo grupos que foram crescendo. Por fim, passei a ser procurado para ajudar outros
dependentes químicos.
A autoestima aumentou, fui alçando voos mais altos como terapeuta de dependentes químicos e conheci a Rose, mãe de minha
filha, com quem fui morar. Infelizmente, a relação não deu certo. Éramos muito jovens e sem experiência para um convívio afetivo
equilibrado. Eu me separei dela e aluguei uma quitinete para morar sozinho. Hoje, penso que a usei inconscientemente para me
auto-obrigar a ficar longe de minha família, com quem conviver de forma mentalmente saudável estava muito difícil, para não dizer
impossível.
Segui em frente, continuei fazendo palestras, ajudando na recuperação de dependentes e, por causa do meu sucesso na área,
fui promovido na FEBEM, saindo de uma função administrativa para me tornar um conselheiro, um educador de Rua da
Fundação.
Em 1995, saí da FEBEM e fui trabalhar no Hospital Bezerra de Menezes, uma instituição psiquiátrica de orientação kardecista
especializada em dependência química. Lá conheci Donald Lazo, um dos pioneiros no tratamento de dependentes de drogas no
Brasil e responsável pela implantação da estrutura de diversas irmandades anônimas no Estado de São Paulo. Ele estava
introduzindo no País uma nova técnica, a intervenção orientada, cuja função era persuadir o usuário a buscar tratamento antes de
alcançar o fundo do poço – no qual as previsões de sucesso, devido aos prejuízos perceptivos, são bem menores do que nos
casos em que a internação acontece mais cedo. Aprendi muito com ele sobre tratamento e dependência química. Foi um
belíssimo treinamento, que me tornou um profissional altamente capacitado.
Criei a Intervir e, de início, dividi meu tempo entre o emprego na Clínica e o funcionamento da minha empresa, mas surgiram
conflitos e acabei saindo do Bezerra de Menezes e ficando só com a Intervir, que ainda estava em fase de implantação. Mesmo
assim, meio na base de uma mão na frente e outra atrás, encarei o desafio.
Criei, em seguida, a primeira Moradia Assistida do Brasil, que percebi ser o modo perfeito para fechar o ciclo da recuperação
positivamente, dando ao dependente condições seguras para uma ressocialização sem sustos. Também comecei a montar
cursos, somando esforços com outros pioneiros da área, como os fundadores do Programa Recuperação da Rede Boa Nova de
Rádio, que completou agora 15 anos de sucesso contínuo em todo o País e até em nações vizinhas. Nos últimos 10 anos, estive
permanentemente com eles, em uma “sociedade branca” muito gratificante.
Participei também, a partir de 2008, do Projeto Amigos de AA, promovido pela Central de Serviços de Alcoólicos Anônimos de
São Paulo, com o objetivo de aproximar cada vez mais profissionais e interessados na questão da dependência química da
experiência pragmática e única dos grupos anônimos em suas atividades nacionais e internacionais.
Acabamos por consolidar, por meio de seminários periódicos desenvolvidos pelos Amigos de AA, um grupo de profissionais e
dependentes em estado de sobriedade progressiva com objetivo de divulgar os verdadeiros significados do processo de
recuperação, ainda meio nebulosos devido à proteção que o anonimato dá aos integrantes do grupo do que acontece em suas
fileiras. Com isso, pretendemos fortalecer a consciência de que é importantíssimo não abandonar o tratamento, mesmo que
fissuras e transtornos compulsivos levem a recaídas passageiras e à sensação de que se está andando para trás.
Hoje, presido no Brasil um braço da instituição Faces e Vozes da Recuperação, um movimento internacional para combater com
efetividade os estigmas ainda existentes sobre a dependência química e seus portadores, preconceitos esses que atingem
também a reinserção dessas pessoas na sociedade economicamente ativa.
Eu sou um retrato vivo da possibilidade de retornar das cinzas. Há 25 anos estou sóbrio e limpo; depois de um declínio quase
inacreditável por causa do uso descontrolado de substâncias psicoativas, dei a volta por cima. Fiz uma série de cursos e -
especializações de nível acadêmico sobre minhas áreas de interesse no universo das compulsões e ainda me formei em Filosofia
Pura pela Universidade São Bento, um sonho de minha juventude que resgatei.
Desde 2009, quando conheci minha atual esposa, vivo um relacionamento afetivo, feliz, sereno e espiritualmente transparente, e
nossa qualidade de vida, individual ou conjuntamente, é para lá de satisfatória.
Vivemos o dia de hoje, e produzimos nosso amanhã. Tudo graças a um Poder Superior amantíssimo, uma força inexplicável e
protetora que para nós é Deus.
Não há motivo para escondermos quem fomos, porque mudamos, nem quem somos hoje. Por isso, digo, em alto e bom som,
para quem quiser escutar: eu sou o Alexandre, dependente químico cruzado, estou sóbrio e limpo há 25 anos e pretendo
continuar a fazer o melhor possível para todos os que passaram pela mesma situação que eu.
É o mínimo que posso fazer diante do muito que recebi da vida, por meio de um Poder Superior a tudo e a todos, que eu
concebo como a essência do amor, da paz e da generosidade existentes no Universo.
Meu nome é Isabel e sou filha de alcoólatra, alcoólico ou alcoolista, já que as três palavras definem exatamente o mesmo
conteúdo: uma pessoa que se torna dependente do álcool e acaba perdendo o controle de sua vida. Sou formada em psicologia e
me especializei, muito mais por circunstâncias ocasionais do que por planejamento próprio, no tratamento de portadores de
dependência química e codependência, o que me levou a outra área do mesmo problema básico: pessoas com comportamentos
compulsivos.
A convivência com o alcoolismo de meu pai tornou nossa família disfuncional, e a codependência se tornou a característica de
todos os que a integravam, como geralmente ocorre. Minha irmã, minha mãe e eu apanhamos a vida toda desse problema, e
tenho que agradecer a uma Força Maior por ter percebido isso e, já adulta, começar um processo de consciência e livramento,
deixando gradualmente de agir, ao menos em parte, conduzida pelos condicionamentos, mágoas e ressentimentos que pautaram
as atitudes de meus outros familiares.
Mas não foi fácil, principalmente pelas marcas invisíveis que meu pai deixou em mim. A pior delas foi uma espécie de
entorpecimento emocional em relação a ele e seus atos na ativa, que simplesmente apaguei da memória, deixando no lugar uma
indiferença, que, apesar do vazio que trazia, me manteve neutra, sem raiva nem amor por aquele homem; embora fosse meu pai,
ele não significava nada para mim. Esse estado psíquico de distanciamento perdura até hoje, embora menos incisivo, graças ao
trabalho que tenho feito sobre mim mesma já há algum tempo.
Já a codependência de minha mãe, como é comum com esposas (ou maridos, porque a doença pode atingir homens e
mulheres) de dependentes químicos do álcool e de outras drogas, foi impactante demais, transformando-a em uma pessoa
amarga e ressentida com o marido, supercontroladora, que teve de enfrentar e resolver sozinha as dificuldades provocadas pelo
comportamento errático de meu pai.
Para lidar com o dia a dia e sustentar quatro crianças, ela se concentrou nas questões práticas e materiais, cuidando de nós
objetivamente, mas sem nenhuma aproximação afetiva, até para que a fragilidade emocional não a derrubasse na jornada, que
era muito dura e desgastante. Isso vale também para meu relacionamento pessoal com ela, o qual foi cheio de confrontos e
conflitos durante muito tempo.
Então, foi nos primeiros sete anos de minha infância, um período sem lembranças, que os problemas com a figura masculina,
que me acompanham até hoje, surgiram e se instalaram sem alarde. Eles me protegiam com uma anestesia psicológica que, na
verdade, era uma agonia branca, indefinida, uma espécie de dor solitária, sempre presente, sem formato e sem explicações
concretas que permitissem uma ação palpável sobre ela.
Morávamos, então, no interior do Paraná, e os desafios da sobrevivência se agravaram tanto que minha mãe, farta das
bebedeiras e da irresponsabilidade de meu pai, separou-se dele e se mudou para São Paulo com os filhos. Alguns meses depois,
meu pai parou de beber e veio atrás de nós. Acabou morando com a gente até morrer, vários anos depois.
Ele e minha mãe, no entanto, se mantiveram fisicamente separados, vivendo na mesma casa, porém sem nenhum vínculo
afetivo real. Vale lembrar que meu pai parou de beber, mas não modificou sua maneira de ser. Continuou mulherengo,
manipulador, uma espécie de parasita que não contribuiu com nada para o sustento ou para a estrutura do lar. Com isso, é claro,
os conflitos continuaram, mesmo que ele não bebesse. Para piorar, um dos meus irmãos também desenvolveu o alcoolismo (o
caçula dos quatro) e passei a adolescência em contato com a doença dele, lidando com a coisa mais ou menos como tinha lidado
antes, com meu pai, durante sua ativa no copo.
Aliás, até ficar adulta, eu não tinha opinião nenhuma definida sobre meu pai. Apesar de muitas vezes ter tomado posições
contrárias ao seu comportamento, principalmente quando aprontava com minha mãe, tinha só pena dele, não raiva.
Minha mãe, no entanto, tinha raiva dele por nós duas. Era extremamente ressentida, uma verdadeira mordedora de correntes, a
ponto de habitualmente fazer chantagem com os filhos, colocando-se como vítima das ações de meu pai, sem enxergar as carac-
terísticas destrutivas que sua mágoa emprestava a todo o entorno, principalmente nós, frutos dos dois, que éramos afetados de
modo direto e diário pela relação de guerra surda entre ambos.
Mas eu, como já disse, optei por não enxergar a realidade, uma atitude comum na codependência.
Queremos salvar o outro de si mesmo, sem perceber que ninguém salva ninguém. Pode-se ajudar alguém a mudar, mas só se
essa pessoa quiser mudar. É preciso que essa vontade exista ou surja no indivíduo, pois ele é quem é, não quem eu quero ou
idealizo que seja.
Essa verdadeira “arte de não ver” me acompanhou a vida inteira nos relacionamentos com a figura masculina, incluindo todos os
meus namorados e até os pais de minhas duas filhas, que hoje têm 20 e 17 anos. O fato é que eu nunca consegui enxergar os
defeitos deles. No primeiro momento, tenho a tendência de negar qualquer coisa ruim no homem de quem estou próxima, o objeto
do meu amor. No início da relação, fico totalmente cega a suas atitudes e comportamentos, mesmo que sejam evidentes para os
outros.
Esse fato só ficou claro para mim depois que me formei em psicologia e a terapia se transformou em uma ferramenta habitual (e
essencial) do meu autoconhecimento. Foi só então que percebi que a codependência era a marca registrada da família. Eu tinha
uma inclinação enorme de repetir, ipsis literis, a história da minha mãe. Minha irmã mais velha, que tem 10 anos a mais do que eu,
fez exatamente isso: casou-se duas vezes, com dois alcoólatras, e teve um filho que morreu em consequência do mesmo
problema.
No meu caso, meus primeiros namorados foram pessoas que não trocavam afeto comigo, tampouco me ajudavam
financeiramente em meu caminho para obter uma vida melhor. Eram, na verdade, cópias exatas da relação de minha mãe com
meu pai: pessoas que precisavam de minha ajuda e suporte de forma doentia, sem nenhuma recíproca.
Eu entrava de cabeça nas relações e me iludia, não enxergando o que estava realmente acontecendo. Acabava constatando
que, na verdade, não estava sendo amada, mas isso sempre depois de um longo investimento, que nunca rendia dividendos
afetivos nem mesmo pragmáticos. Aí, terminava com tudo, frustrada, vivendo uma amargura que sempre acabava em outra
tentativa, com uma pessoa diferente, mas repetindo as mesmas ilusões da vez anterior.
Nas relações afetivas, tive duas filhas com homens diferentes. O primeiro era um grande amigo que, em um momento de dupla
carência afetiva, comecei a namorar. A relação durou três meses, e eu terminei com ele porque ficou claro que tínhamos muitas
diferenças e porque o que sentíamos uma pelo outro não era uma atração homem-mulher suficientemente intensa. Logo após
terminarmos, descobri que estava grávida e assumi integralmente minha filha, mas me recusei a casar com ele por causa disso.
Isso deixou nossa relação meio difícil por algum tempo, porém gradualmente se encaixou, e ele é um pai excelente até hoje.
Quando minha filha mais velha tinha 3 anos, conheci o único homem com quem desenvolvi uma relação marital duradoura. Ele
era um médico que tinha desenvolvido dependência química, mas estava em uma recuperação aparentemente sólida e trabalhava
justamente no tratamento de alcoólatras, aditos e familiares. Comecei a participar com ele, avaliando psicologicamente os
pacientes e unindo nossos conhecimentos e especialidades para ajudar portadores desse tipo de transtorno. Acabamos por
estruturar uma série de atividades planejadas que conseguiram um bom êxito na obtenção de abstinência e sobriedade daqueles
que a elas se submeteram, e isso nos deu uma significativa credibilidade profissional.
Minha carreira, que antes já caminhava para isso, definiu-se por essa área de atuação, o que parece ter sido sempre o desejo
do Poder Superior, pois, embora inicialmente eu quisesse atender crianças, o destino me levou só para serviços ligados aos vários
aspectos da dependência química.
Não tenho queixas dos 11 anos que vivemos juntos. Engravidei de minha segunda filha, e ele era um marido carinhoso,
presente e companheiro – quer dizer, era isso que eu via (ou queria ver), e foi isso que vi durante mais de 10 anos.
Nesse tempo, algumas vezes ouvi insinuações veladas sobre o comportamento dele com algumas mulheres. Deixei para lá,
porque realmente não queria ver, mas houve uma ocasião em que não foi possível fazer de conta que estava tudo bem. Descobri
que meu marido tinha assediado uma funcionária do nosso consultório com tanta intensidade que ela pediu as contas. Fiquei
extremamente mexida, mas um amigo em comum me convenceu a lhe dar uma nova chance (depois soube que fez isso a pedido
dele).
Tentei, mas em poucos dias outras histórias surgiram: fiquei sabendo de outros casos semelhantes dele por pelo menos cinco
anos.
Então, enxerguei tudo. Ele sempre tinha sido assim! Eu, com a minha mentira codependente e defeituosa de enxergar as coisas,
tinha mais uma vez criado um homem imaginário e vivido como se fosse real. Ele assediava todas as mulheres em minha volta:
psicólogas, empregadas domésticas, funcionárias e até pacientes.
Ao ver que tinha sido vítima de mim mesma mais uma vez, fiquei muito mal. Saí de casa com minhas duas filhas enquanto me
separava dele e só voltei para onde morava quando a Justiça o fez sair de lá.
Essa “decepção-constatação” terminou dentro de mim o serviço que já tinha começado depois que consegui romper as barreiras
da negação graças a anos de terapia. Por meio de uma metodologia que “roubei” de meus pacientes dependentes – o 4º Passo –,
consegui mapear minha psique e ver como a codependência me capturava nas situações do dia a dia, me fazendo agir dentro de
padrões controladores e centralizadores, inclusive nas relações profissionais.
Contudo, não posso nem quero negar que, enquanto existiu a relação com meu marido, foi bom para todos: para ele, para mim
e para minhas duas filhas. Durante esse período, aquele padrão de ressentimento, mágoa, vitimização e autopiedade não esteve
presente em nenhum momento.
O fato de ter conseguido deixar minhas filhas fora da vibe da codependência, a mesma que destruiu minha mãe, minha irmã e
tantas pessoas no mundo, foi uma vitória que atribuo a meu crescimento psíquico e espiritual, produto de uma intensa luta para
ser uma pessoa melhor, com a paz e a serenidade propostas pelo Programa dos 12 Passos, que aprendi trabalhando com as
irmandades anônimas e “incorporei” como parte da minha essência.
Antes de minha mãe morrer, conversei com ela e nos limpamos do peso dos desentendimentos, colocando os sentimentos com
clareza e resgatando nosso amor mutuamente. A culpa que carregava desde criança, quando ela me disse que estava naquela
situação por minha causa, hoje desapareceu completamente. Com meu pai, não pude fazer isso. Não o conheci direito, ele se foi
e não nos colocamos um para o outro. Ainda vivo, embora não com tanta intensidade, aquele vazio gritando indiferença.
No trabalho, minhas inadequações não me atrapalham. Muitas delas sublimei, porque simultaneamente me ajudam a
compreender o que minhas pacientes sentem e a vivenciar, de uma distância segura, o que existe em suas realidades correlatas.
Isso me obriga a lidar com essas deficiências de frente, para poder ser uma profissional melhor.
Desde que me separei, há nove anos, tive dois namorados, e as relações mostraram que continuo meio sonhadora e que,
apaixonada, não enxergo um centímetro diante do nariz, ainda delirando com criaturas imaginárias. Mas estou muito mais esperta,
e retorno ao mundo real muito mais rapidamente.
Estou feliz sozinha. Amo demais minhas filhas e agradeço à vida por elas estarem livres da codependência e de seus limites
espirituais.
Eu sou a Marli, uma dependente do álcool, hoje abstêmia (é assim que me mantenho sóbria há 25 anos, cuidando de um dia de
cada vez), graças ao que aprendi com o Programa dos 12 Passos e as experiências de inúmeros companheiros de Alcoólicos
Anônimos (AA), todos com problemas semelhantes ao meu.
Para nós, a maneira compulsiva de beber de quando estávamos na ativa é apenas o sintoma mais evidente de uma doença em
parte hereditária, em parte desenvolvida pelo consumo, que atinge cerca de 10% da população do mundo. Estou falando do
alcoolismo, que, no meu caso, foi terrível, a ponto de eu me considerar resultado de um verdadeiro milagre. Com toda certeza,
sem a ajuda do AA, o resultado dessa doença seria minha morte prematura, a loucura, a prisão ou, na melhor das hipóteses, uma
existência miserável, promíscua e de muito sofrimento.
Meu pai e minha mãe já tinham problemas com a bebida. Eu mesma, ainda no início da adolescência, já demonstrava
descontrole quando bebia em festinhas. O primeiro porre que deixou marcas foi já aos 14 anos, no Natal, quando outra
característica minha, uma carência afetiva angustiante, também se manifestou para valer pela primeira vez. Frustrada porque uma
pessoa que eu esperava ansiosamente não apareceu, bebi até passar muito mal; vomitei e desmaiei, completamente embriagada.
Ter enjoos fortes, náuseas e outras sensações desagradáveis foi um ponto comum em outras ocasiões em que bebi depois
disso. Só que, na época, eu atribuía meu mal-estar a um estômago fraco, e não tinha a menor noção da minha falta de limites e de
que bebia demais. Para mim, a razão das ressacas brutais, que ocorriam sempre que eu bebia, era a fragilidade do corpo, não a
quantidade de bebida consumida.
Essas lembranças, inclusive, fizeram que, durante anos, eu tivesse até receio de beber, evitando ocasiões sociais em que isso
fosse habitual. Ainda assim, estimulada pelo uso constante de meus pais, comecei a acostumar um pouco meu corpo com o
álcool, bebericando em casa mesmo, mas de leve, sem grandes continuidades.
É claro que, em uma casa onde marido e mulher bebem acima do aceitável, os conflitos familiares começam a se tornar cada
vez mais fortes, e o ambiente fica insuportável. Para fugir dele, engravidei aos 16 anos e fui morar com quem seria, depois do
nascimento do meu segundo filho (aliás, uma menina), meu marido de papel passado. Como os semelhantes se atraem, escolhi a
dedo um homem também com problemas de alcoolismo, com uma mãe codependente, neuroticamente contra a presença de
bebida em sua casa, o que, inicialmente, fortaleceu demais meu comportamento abstinente.
Meu marido, no entanto, bebia todas. Com o tempo, foi ficando grosseiro e violento, me maltratando a princípio verbalmente,
depois fisicamente. Aguentei o quanto pude. Tivemos mais três crianças, totalizando cinco, mas isso não melhorou nosso
convívio.
Para suportar, voltei a bebericar, como fazia quando solteira, só que agora às escondidas, com uma vizinha que também tinha
problemas com o marido. Dessa vez, com a frequência cada vez maior do uso, o álcool começou a ser um remédio para minha
tristeza e depressão: eu ficava alegre, solta, irresponsável, e fugia com minha “companheira de copo” para dançar em bailes e me
divertir – tudo pelas costas de meu marido, que saía para trabalhar e voltava tarde. Um dia, após ter sido agredida por ele, dei um
basta e, apoiada por um rapaz que me paquerava a distância, e que eu mantinha interessado em mim, me separei. Eu tinha 36
anos; meu filho mais velho já estava com 18 anos, e o mais novo, com 4.
Foi um tempo tenebroso, sem dinheiro, bebendo direto, sem saber o que fazer.
O desespero chegou a um ponto em que, ameaçada de morte, saí de casa e mudei para uma cidade do Interior do Paraná com
meus filhos e aquele meu quase namorado, agora amigado comigo, e arrumei um emprego como costureira numa fábrica de jeans
da região.
Continuei bebendo direto, numa insegurança doentia e um medo incontrolável de ficar sozinha, sustentando todos, é claro que
muito mal, com meu trabalho.
A garrafa, agora, era indispensável, e estava sempre comigo.
Minha apatia e falta de dignidade pessoal fez com que meu namorado começasse a cantar de galo, regulando meus horários, o
que eu vestia, me humilhando em várias oportunidades.
Um dia, quis mandar embora meus filhos, e isso não suportei. Deixei o rapaz falando sozinho e, depois de 10 meses na cidade,
voltei de mala e cuia para São Paulo.
Um pouco antes, o Juiz do processo de separação tinha me cedido a casa em que morei com o meu marido para eu ficar com
os filhos, e isso me salvou e uma penúria maior.
Sempre bebendo, fiz um curso no SENAI de modelagem industrial e o próprio coordenador me ajudou a arrumar um emprego na
Alpargatas, onde a princípio, mesmo com muito álcool, consegui me destacar e ser reconhecida profissionalmente.
Nesta época, o rapaz com quem eu tinha morado no Paraná voltou para São Paulo e eu, sem perceber, meio atordoada com a
cachaça, deixei que minha dependência afetiva dominasse minha mente e regesse minhas ações.
Ele ficou comigo na minha casa e, exatamente como tinha sido antes, deixou nas minhas costas o peso de sustentar tudo.
Não ajudava em nada, e nem me dava conta de que era só eu que trazia o dinheiro e pagava as contas, sendo explorada por
causa do medo que tinha de ser abandonada e ficar sozinha. Minha loucura me impedia de enxergar outra coisa. Achava que,
sem alguém do meu lado, eu não conseguiria aguentar.
A essa altura do campeonato, minha família era um caos, com meu filho mais velho se drogando e eu permanentemente
bêbada. Mesmo oportunista como era, o rapaz não suportou a pressão e saiu fora. Foi quando meu desespero chegou ao auge.
Comecei a misturar cachaça com antidepressivos. Tive um problema sério no emprego e saí da firma. Arrumei outro emprego,
mas aí já estava completamente entregue, os pés inchados de tanto beber, sem nenhuma condição de acompanhar o ritmo do
serviço.
Foi quando tive a ideia de trabalhar por conta e montei uma oficina de costura em casa, em sociedade com uma mulher que
morava perto. O marido dela entrou com o dinheiro para iniciar o negócio, além de comprar três máquinas em prestações.
Começamos, mas eu estava com a cabeça atrapalhada. Com todas as carências e a dependência do álcool juntas em um só
balaio, impaciente, fui ficando totalmente insatisfeita com o desempenho de minha sócia, que não tinha uma mentalidade
profissional. Acabamos discutindo e desmanchamos nossa sociedade. Eu fiz um acordo de ressarcir o que o esposo dela havia
investido e arquei com o pagamento das prestações das máquinas. Botei a mão na massa e trabalhei muito, conseguindo pagar o
que havia prometido.
O álcool, porém, ficou ainda mais presente, e eu literalmente enlouqueci, chegando a vender uma das máquinas para custear
festas que fazia embriagada, com o objetivo insano de satisfazer minha insegurança afetiva e conseguir um homem para ficar
comigo e me sustentar.
Nesse período, meu filho André – que morreu há quatro anos, vítima do crack e outras drogas –, então com 11 anos de idade,
começou a desenvolver sua dependência. Eu, na verdade, nem tomei conhecimento disso na época. Estava mergulhada na
insanidade, vivia ansiosa, angustiada, solitária, sem perspectivas, anestesiada pelo álcool.
Enfiei na cabeça que aquele inferno todo era produto do estresse do trabalho, da responsabilidade demasiada. Nunca da
bebida, que era minha grande amiga, aliviava o peso da vida, me permitia ir em frente. Acabei vendendo o que restava da oficina
e parti para outro emprego, dessa vez na cozinha de um restaurante internacional. Milagrosamente, me dei bem no início, criando
vários pratos e tendo o trabalho reconhecido. Fiquei lá sete meses, mas continuava bebendo, agora ainda mais. Levava uma
garrafa já de casa para o serviço e, depois do expediente, ia a um bar próximo e terminava o dia completamente bêbada,
começando o outro de ressaca.
Acabei brigando feio com um encarregado, provavelmente por causa do meu comportamento e estado alterado (estava
embriagada quase o tempo todo), mas na época cismei que era implicância dele, uma puxada de tapete por inveja. Acabei
pedindo demissão e indo embora, apesar de o pessoal do restaurante querer que eu continuasse.
Como meu filho mais velho e minha filha já trabalhavam e sustentavam a casa pelo menos no indispensável, fiquei direto sem
fazer nada, só bebendo todas. Acordava de madrugada e ia imediatamente para a garrafa, secando em média um litro de pinga
por dia. Não tinha condições de fazer mais nada, a não ser beber.
Agora, estava com 45 anos. A trajetória entre os primeiros e inocentes vermutes e o consumo de uma garrafa diária de pinga
levou pouco mais de nove anos. Quase uma década de bebedora ativa, até o estágio de beberrona, sinônimo de bêbada, pé
redondo e outras classificações ainda mais pejorativas.
Tentei conseguir outro emprego, mas era impossível trabalhar. Quase todo domingo acabava no pronto-socorro para tomar uma
injeção tipo “sossega leão”, porque a síndrome de abstinência ia me deixando incontrolável, e essa era a única maneira que meus
filhos e vizinhos conheciam de evitar coisa pior.
Foi nessa época que começaram a mostrar, no Fantástico e em outros programas, uma série de reportagens sobre os
Alcoólicos Anônimos. Era o final de 1989. Embora dopadíssima, eu assisti algumas delas estirada no sofá, embora com um
registro meio enevoado do conteúdo.
Aí, uma noite, quase de madrugada, acordei angustiada, com uma ressaca de bebida misturada com os calmantes que tinham
ministrado no hospital. Atordoada, lembrei de alguns depoimentos femininos que havia visto nas reportagens e, não sei
racionalmente dizer por que, me caiu a ficha de que precisava parar de beber, pois aquilo estava me matando.
Lembro que na mesma hora fiz a promessa de não mais beber – mas a descumpri logo em seguida, porque veio a compulsão e
eu falei comigo mesma: vou tomar uma só agora e depois parar. Não sei quantas doses bebi, mas por volta das 10 horas da
manhã apaguei e só fui acordar às 16 horas, indo, como sempre, de imediato para a garrafa. Porém, antes de beber, o desespero
foi grande demais, e conversei com Deus, pedindo sua interferência direta, porque eu não tinha condições de suportar a situação.
Então me veio à cabeça a lembrança dos Alcoólicos Anônimos. Corri até a vizinha (ou melhor, me arrastei até lá) e pedi que me
levasse, pelo amor de Deus, a uma reunião do AA. Ela estava fazendo o jantar e vacilou um pouco, mas seu marido, que tinha
ouvido o que eu disse, falou para não perder a chance, que largasse a janta que ele se virava e me levasse até um Grupo
próximo.
Cheguei lá com dificuldades, amparada pela minha vizinha, e fui atendida por um companheiro. Estava destruída, barriga
inchada, olhos fundos – uma mulher no fim da picada, que nem conseguia entender o que estava acontecendo, envergonhada,
preocupada em não ser vista por lá por algum conhecido.
Apesar de estar passando mal por causa da abstinência (eu tinha que beber alguma coisa de 30 em 30 minutos, se não
começava a transpirar e a tremer), aguentei firme. Era uma reunião temática, na qual um companheiro convidado fala sobre um
determinado tema previamente combinado, e não uma reunião normal de depoimentos, em que o novato tem mais facilidade de
se identificar com as pessoas.
Por isso, arrumaram um carro e me levaram, junto com minha vizinha e outros dois companheiros, para outro grupo, onde
estava acontecendo a reunião tradicional. Ali eu poderia ter, no entender deles, um melhor aproveitamento.
Acabei ingressando. Em seguida, fui para casa, dormi a noite inteira e nunca mais bebi. Mas para ficar 25 anos sóbria de forma
ininterrupta, tive que me esforçar. No dia seguinte, voltei ao grupo em que havia ido pela primeira vez, o tal da reunião temática, e
assisti a reunião, essa “normal”. Peguei também o endereço de outros grupos relativamente próximos e cumpri rigorosamente a
sugestão de, durante os 90 dias seguintes, frequentar 90 reuniões.
Durante esse tempo, a loucura da síndrome de abstinência e da desintoxicação do corpo aconteceu e, embora tenha sido
angustiante, passou. A cabeça começou a melhorar, a lucidez voltou e, com ela, um pouco da minha capacidade empreendedora.
Deu vontade de costurar para mim, então fiz uma blusinha. O resultado foi muito bom, com as pessoas elogiando e perguntando
se eu faria algo parecido para elas. Topei e, de repente, estava começando a trabalhar novamente com costura, e agora muito
melhor do que antes, pois não tinha mais o álcool para atrapalhar a execução e o talento natural que sempre tive para isso. O
movimento foi aumentando, comecei a ter bastante serviço, comprei uma máquina melhor, voltei a sustentar minha casa, arrumei
gente para trabalhar comigo e, hoje, tenho um serviço que prosperou bastante e que apresenta, mesmo na crise, aspectos
promissores.
Meu filho André, um adito dependente de crack no último estágio, foi um desafio constante para minha recuperação, até morrer
com 42 anos.
Em sua existência, esteve internado em várias ocasiões inclusive em hospício, foi preso e condenado três vezes, passou
períodos limpo, teve um número ainda maior de recaídas, até que veio o desfecho, há quatro anos.
Foram 22 anos de batalha, tentando ajudá-lo a se recuperar, sempre ali, presente, mas não permitindo que a codependência
comandasse o relacionamento, e sempre mantendo a sobriedade, sem beber. Não foi uma tarefa fácil, mas, quando ele faleceu, o
entreguei aos cuidados de Deus com serenidade, sabendo que fiz o possível dentro de minhas fragilidades e falhas. Meus
companheiros e companheiras da irmandade me ajudaram em todos os momentos, me dando forças para não deixar a peteca
cair.
Nunca parei de frequentar os Grupos de AA, nem de me conhecer melhor graças à aplicação constante de todos os 12 Passos e
dos princípios e dicas da literatura dos Anônimos e de outras fontes éticas que me indiquem caminhos espirituais para uma melhor
qualidade de vida.
Quando entrei no AA, já estava com o primeiro passo feito: ter admitido que era uma doente para o álcool e que não tinha mais
nenhum controle sobre ele. O restante do programa eu fui praticando dentro do possível. Bebi muito mesmo, e as sequelas disso
me prejudicam até hoje. Uma delas é que tenho uma memória imediata muito curta, e me esqueço com facilidade das coisas que
leio ou digo poucas horas depois.
Estou em tratamento neurológico e tenho melhorado significativamente, mas a técnica da repetição ainda é o carro-chefe da
minha recuperação. Então, reler a literatura tornou-se um hábito, e, por isso, consigo retomar com eficiência meus processos de
autoconhecimento e modificação de falhas de minha personalidade.
O 2º e o 3º Passos – aceitar a existência de um Poder Superior a mim mesmo, confiar que Ele pode me fazer retornar à
sanidade e entregar minha vida a Seus cuidados – também aconteceram automaticamente, porque eu não tinha nada a perder e,
para me manter viva, precisava assumir meu descontrole e incapacidade de gerenciar fosse o que fosse. Por isso, também, deixei
nas mãos dessa Força Maior o destino de meu filho e toquei minha vida adiante, sempre tentando me aprimorar e ser uma pessoa
um pouco melhor.
Indispensável mesmo, até para conseguir me aprofundar no significado desses três primeiros passos, foi fazer o quarto:
inventariar – ou melhor, clarificar para mim mesma – as marcas que a vida foi deixando na minha alma, os pontos fracos que me
faziam desacreditar do próprio espírito, as distorções de minha visão quanto ao certo e ao errado, bem como os preconceitos que
me impediam de viver e gostar disso.
Não foi fácil olhar assim de frente meus medos e mentiras. Consegui fazê-lo aos poucos, esperneando diante daquelas coisas
que me envergonhavam, indo e voltando na admissão de quem eu realmente era, e ainda luto contra características (minha
carência afetiva, por exemplo) que, de vez em quando, retornam para me assombrar.
Mantenho uma relativa serenidade porque essa vigilância se tornou naturalmente constante em mim e, antes de recair
emocionalmente nos velhos buracos, adquiri a disciplina de identificá-los com rapidez e sair deles por meio de uma avaliação pelo
menos diária de como andam as coisas dentro de mim.
O fato de fazer meu 5º Passo na própria cadeira de depoimentos, sem escolher uma pessoa definida, também foi importante
para que me livrasse do casulo de minha autoestima baixa e passasse a aceitar que ser quem sou não significava ser inferior nem
superior a ninguém. Sou apenas mais uma criatura de Deus ante os problemas de um aprendizado para compreender e vivenciar
com mais intensidade os aspectos espirituais da existência. Esse Poder Maior que eu concebo, o Poder Superior mencionado no
Programa, ama a todos e concede também a todos a oportunidade de escolher livremente seu caminho de crescimento, o qual
geralmente segue a estrada do sofrimento e, depois, a da gratidão pelo milagre da vida.
Sempre que posso, leio e relembro o que está exposto na somatória de sabedorias da filosofia do AA, e isso me acalma muito,
mesmo não conseguindo reter integralmente aquilo que li.
Como já comentei, ainda dou minhas pisadas no tomate e me esqueço, graças a Deus apenas temporariamente, de que sofro
de uma doença crônica que provoca distúrbios físicos, psicológicos e espirituais. São ocasiões em que deixo de praticar o
programa direito e sofro com mágoas, ressentimentos, culpas, acusações de pessoas e julgamentos apressados que faço sobre
elas. Mas aí me lembro que o peso de tudo tem uma forte influência da imaginação, então recupero a sanidade e, com ela, a
serenidade indispensável para ver o que acontece sem as lentes de aumento do egoísmo ou da autopiedade.
Na medida em que amadureço, só tenho mais a agradecer ao Poder Superior pela vida que tenho e por tudo que recebi. Estou
em paz e, hoje, tiro de letra situações que antes me tiravam do sério e me faziam meter os pés pelas mãos.
Minhas duas filhas estão casadas e felizes, os meninos também superaram seus desencontros iniciais e caminham de forma
segura como homens de bem. Pude, ainda, ajudar meu ex-marido, que passou seu último ano de vida em minha casa, cuidado
por mim até falecer, alguns meses atrás. Momentos antes de ele ir para o hospital por causa de uma crise da qual não voltou
mais, agradeceu por eu ser quem sou e elogiou minha fibra, minha disponibilidade e o carinho com que o tratei. Nós dois
pudemos, enfim, passar uma borracha e apagar as muitas lembranças ruins que tínhamos um do outro.
Já há algum tempo, caiu a ficha de que aquilo que eu procurava na minha carência afetiva, fazendo loucuras para ter um
homem tipo “príncipe de contos de fadas”, que me amasse e cuidasse de mim, existia sim, e morava muito perto, dentro de mim:
se chamava autoestima. Junto, veio a conclusão, então bem óbvia, de que viver na boa não dependia de ter ninguém. Só eu
mesma, sozinha, gostando de mim e de quem eu era, consciente das minhas virtudes, qualidades e dificuldades, poderia ser feliz,
com ou sem alguém.
Hoje, embora sozinha, está tudo ótimo. Tenho um comprometimento forte com meu trabalho e com minha família. Meu filho mais
jovem, hoje quarentão, é um deficiente físico, com limitações neurológicas que continua vencendo. Atualmente, por exemplo, está
na faculdade, além de trabalhar e ganhar seu próprio sustento.
E pensar que, durante meu alcoolismo ativo, todos os meus filhos se drogavam! É realmente uma benção inestimável termos
superado tudo isso. Às vezes, nem acredito na vida que eu levo, considerando o fundo de poço a que consegui chegar.
Nesse caminho, grandes homens e mulheres, companheiros e companheiras de AA, me ajudaram muito, tendo paciência e
perseverança para me apoiar durante os longos anos em que, sem beber, apanhei da própria loucura, correndo atrás de um
homem que “premiasse” minha abstinência.
Hoje, só por hoje, estou sóbria, feliz e em paz. Ontem já passou, e o amanhã não existe ainda. De qualquer forma, trabalho
agora para que, independentemente do que possa acontecer, eu siga consciente de quem sou, para que a bebida e as outras
mazelas não tão visíveis do alcoolismo nunca mais tenham chance de dominar minha vida porque cedi ao primeiro gole.
Meu nome é José. Sou conhecido no AA como Zé Pequeno, um alcoólico em reparação, extremamente grato a um Poder
Superior, que eu mesmo defini em minha cabeça como Deus, bem como a vários companheiros da irmandade que me auxiliaram
– e até hoje auxiliam – a enfrentar e vencer as dificuldades de se manter em sobriedade. Além disso, também sou grato pelo
entendimento cada vez mais amplo do Programa de 12 Passos, que é a base do trabalho dos Anônimos em irmandades voltadas
para assegurar a chance de uma vida com qualidade a portadores de mais de 100 transtornos diferentes. Sou vítima de uma
doença cerebral crônica que, se eu não me mantiver totalmente abstêmio, vai sempre me levar a uma dependência (tenho certeza
disso, porque vi acontecer com muitas outras pessoas) e cujas consequências em geral oscilam entre prisão, loucura ou morte
prematura.
Minha relação com a bebida começou mais ou menos nos mesmos moldes de outros portadores. Nasci e vivi até o início da
minha adolescência em uma cidade do interior do Ceará onde todos, ou quase todos, tomavam lá sua talagada de cachaça, em
geral produzida nos alambiques das fazendas e sítios das redondezas. Meu pai também se encaixava no modelo, e bebia bem,
principalmente nas festas e confraternizações, muito comuns por lá.
Nessas ocasiões, no entanto, mesmo tendo tomado todas, nunca o vi mais do que alegre, muito menos metido em alguma
confusão, discussão agressiva ou desagravo com alguém por uma bobagem qualquer, tampouco presenciei algum momento
ríspido demais com minha mãe ou qualquer um de seus filhos. Com toda certeza, ele não tinha problemas de alcoolismo. Quando
o médico o proibiu de beber por sua pressão estar nas alturas, foi como se ele tirasse com a mão: parou, largou de mão, não
mudou em nada seu humor nem seu jeitão de levar a vida, homem de paz e não de guerra, sossegado mesmo.
Eu sou seu filho, mas puxei a genética de outros parentes, todos da pá virada, alcoólicos de carteirinha, que bateram com as
dez em oportunidades regadas com muita pinga, cerveja e outros tipos de bebidas fortes. Um deles morreu atropelado em estado
de embriaguez, outro por cirrose, e o mais jovem, meu primo, ao se arrebentar na estrada, dirigindo bêbado, levou com ele sua
mulher e uma filha de colo.
Meu primeiro contato com a bebida alcoólica aconteceu em uma festa com forró, aos 12 anos de idade. Na verdade, eu era um
moleque tímido, não tinha namorado ninguém ainda. Estava me sentindo deslocado, comecei a ficar com sono e já queria ir para
casa dormir. Foi quando meu pai, observando meu constrangimento, me deu uma dose de aguardente e sugeriu que eu fosse
dançar, porque estava cheio de mocinhas no lugar.
Quando a pinga “bateu na moleira”, o sono sumiu, a vergonha também, e o Super Zé tomou conta do baile. Eu sentia que podia
tudo, que era invencível, bom de papo, inteligente, que estava no céu, cheio de pique. Aprendi até a fumar! Era uma fórmula tão
eficaz para me sentir feliz e realizado que a registrei imediatamente na memória física e, dali por diante, me soltar virou sinônimo
de beber uma, ou duas, conforme a intensidade da “soltura” desejada.
Aí, a doença traçou seu caminho. Aos 17 anos, já tinha no currículo diversos porres com cuba libre, cachaça, conhaque, etc.
Nessa idade, pela primeira vez, fiquei em um fogo tão grande que caí e não consegui levantar. Estava junto com um amigo, e o
motivo que uniu os dois na bebedeira foi dor de cotovelo.
Ficamos para lá de Bagdá, Marraquexe ou sei lá onde, e quando um tentava ajudar o outro a levantar, ambos caíam no chão de
novo, porque estávamos bêbados demais para ficar de pé.
Aos 18 anos, vim para São Paulo com meu primo, tentar uma vida melhor. Era março de 1978, e assim que cheguei consegui
um emprego. Claro que fiquei feliz. Arrumar uma chance assim de cara me empurrou positivamente para a frente, em direção ao
meu sonho de crescer profissionalmente, ganhar dinheiro, melhorar de vida, virar alguém respeitado pela comunidade. Além
disso, a grana começou a entrar! Infelizmente, junto com ela, veio um contato ainda maior com o álcool e a mulherada, que mais
tarde cobraria um preço alto para mim.
Mas, nessa fase, tudo era alegria! Descobri que tinha uma grande vocação para vendas e comércio, e rapidamente, mesmo com
um pé (às vezes os dois) na boemia, construí uma grande rede de clientes e amigos, gente que gostava de verdade de mim. Só
que pinga e alcoólico não dão samba, e a decadência começou a ficar séria. Comecei a beber cada vez mais e a curtir cada vez
menos.
Isso não se limitava ao meu dia a dia no bairro de Santa Ifigênia, onde trabalhava com produtos e serviços no setor de elétricos
e eletrônicos e, na última década, também com produtos digitais. Naquela época, a loucura me acompanhava onde eu fosse, me
tirando completamente a noção de certo, errado, conveniente ou inadequado, com o cérebro bêbado de dar dó, fazendo asneiras
e pagando micos inacreditáveis.
Lembro-me que, em 1981, quando fui visitar meus pais e irmãos no Ceará, enchi a cara direto e tive vários apagamentos
escandalosos. Um deles foi quando alguns parentes de uma cidade vizinha vieram me visitar, e me encontraram desmaiado de
tão bêbado na sala da casa de meu pai. Dizem que fizeram de tudo para me despertar, até jogaram baldes de água gelada,
ensopando minha roupa inteira, mas nada. Continuei apagado, até que eles desistiram e voltaram para o vilarejo em que
moravam, obviamente muito chateados comigo. No dia seguinte, quando acordei, meu pai falou sobre o acontecido. Eu não
lembrava de nada! Nada mesmo! Esse apagamento, um dos primeiros de muitos que vieram depois, foi completo e permanente,
de forma que, até hoje, um branco total me acompanha quando tento recordar qualquer coisa daqueles fatos, anulando toda
memória sobre o que houve ali.
Voltei a São Paulo e continuei na balada. Em 1982, namorei bêbado e casei bêbado, bêbado fiz filhos e destruí meu esboço de
lar igualmente bêbado, entrando em uma fase na qual o alcoolismo começou a dar todas as cartas.
A coisa piorou tanto que fui ao fundo do poço em termos físicos e psicológicos, me arrastando, derrotado e ressentido, bem
como culpando os outros pelo que eu mesmo chamava de “minha desgraça”. A essa altura, não aguentava mais conviver um
segundo que fosse com a realidade e, ironicamente, ainda não sabia nada sobre a doença, seu processo e as suas
consequências.
Um dia, em 1989, na pior (minha mulher já tinha pedido a separação, mas ainda estava comigo), morando em um cortiço que,
apesar de eu ganhar bem, era o que dava para pagar com o que sobrava depois de saldar a dívida nos bares, entrei em coma
alcoólico e fui levado a um hospital público. O médico, então, disse a quem tinha me levado lá que não havia muito o que fazer
comigo, nem sequer esperar uma reação minha, porque eu já estava no “bico do corvo” e não deveria durar muito.
Então me levaram de novo para casa e, quando acordei, dois dias depois, as pessoas com quem eu tinha uma relação de
amizade, com pena de mim, me levaram a um médico particular, de crença espírita. No consultório, sentei em uma cadeira, as
mãos cruzadas no meio das pernas, a cabeça péssima, atordoada, pensando coisas negativas o tempo todo, praticamente louco,
sem conseguir concatenar as ideias, trêmulo, olhos vermelhos injetados, o próprio retrato da ressaca. O médico, um senhor de
idade, simpático, olhou para mim e perguntou o que eu tinha. De imediato, respondi que não, não tinha nada, estava tudo bem
comigo, minha mulher que enchia o saco porque achava que eu bebia demais, mas que isso não era verdade, eu bebia normal,
como qualquer pessoa. Ele me olhou e falou que ia pedir uma bateria de exames para ver como estava o nível de glicose, o
coração e o rim. Em resumo, para fazer um levantamento geral a fim de descartar qualquer doença oculta, etc.
Com jeito, sem forçar a barra, fez que eu realizasse todos os exames solicitados, em um laboratório privado, com dinheiro
reunido pelas pessoas próximas. Em uma semana, os resultados estavam em minhas mãos, e eu voltei ao consultório. O médico
olhou os exames, ficou alguns minutos pensativo e me perguntou se tinha bebido alguma coisa na semana dos exames. Eu disse
que não. Aí, fitando meus olhos, disse que não ia me receitar nenhum remédio. O que eu devia fazer era frequentar o Alcoólicos
Anônimos (AA).
Fiquei indignado. Falei que não precisava disso, porque não era alcoólatra. Aí, ele me mostrou os exames, me mostrou que meu
fígado estava parcialmente destruído, que tinha já deficiências renais, que minha pressão estava na lua e que meu sangue
apresentava um alto teor de álcool. E arrematou: “Você diz que não é alcoólatra, mas garanto que sofre de alcoolismo crônico. A
coisa está muito ruim para o seu lado, e, se continuar bebendo, avise sua família para comprar um caixão, porque será um
homem morto. Seu caso não permite que você beba mais nada. Quem pode lhe ajudar é o AA, passando dicas para que pare de
beber. É isso ou então nem apareça mais aqui, porque eu não vou mais perder tempo com você”.
Dias antes, minha mulher resolveu me deixar e foi, com meu filho de 4 anos, morar na casa de uma irmã, porque não aguentava
mais o cachaceiro aqui, que até os médicos tratavam como um caso perdido. A sensação de vazio, por mais que eu culpasse os
outros, estava me pegando forte e, lá no fundo, havia aquela vontade enorme de parar de sofrer.
Uma semana depois, sem beber, mas com muita vontade de xingar aquele médico mal-educado, porém incomodado com o que
ele dissera, resolvi ir a um grupo de AA na zona norte de São Paulo. Cheguei e entrei na sala, onde estavam quatro pessoas.
Foram os primeiros companheiros que tive na irmandade.
A primeira surpresa foi o modo como fui recebido. Disseram que eu era bem-vindo e que, naquele dia – 6 de março de 1989,
quando ingressei na irmandade e nunca mais bebi –, era a pessoa mais importante da sala. Fiquei meio sem saber o que fazer.
Importante, eu? Será que estavam me gozando ou será que estavam falando sério? Afinal, lá fora, na rua, eu era um Zé Ninguém,
um fracassado, viciado em cachaça, totalmente sem eira nem beira... e ali eu era importante? Que papo louco era esse?
Lembrei que ninguém me convidava mais para nada, nem para festa de criança. Convidavam minha mulher e meus filhos, mas
escondiam de mim, pois sabiam que se eu descobrisse ia chegar lá, chapadaço, arrumar uma baita confusão, tirar as pessoas do
sério, muitas vezes tomar um couro bem dado e voltar murcho para casa. E o grupo de AA, todo cordial, me dando força? Não
entendi nada, mas fui ficando.
E os mistérios da mútua ajuda foram acontecendo. Quando ingressei e peguei a fichinha amarela, a primeira, elegi como meu
padrinho na irmandade um sujeito meio estranho que, sei lá por que, eu achei que era um policial e, portanto, podia me proteger
de qualquer confusão em que me metesse. Mas não era policial, era um civil que a mão do Poder Superior, Deus conforme eu o
concebo, colocou ali para me ajudar – e muito – nos três primeiros meses, o tempo que precisei para começar a aceitar que era
um alcoólatra, com todas as implicações que isso representa.
Para isso, precisei me livrar do preconceito que tinha com essa definição, que para mim significava reconhecer que não
prestava, que não valia nada, que era um sujeito sem caráter e sem dignidade. Sair fora disso exigiu um trabalho gradual e
persistente para vencer minha arrogância e meu orgulho, atrás dos quais eu escondia meus muitos medos e inseguranças. Não
foi uma tarefa simples, mas insisti e saí atrás. Minha rotina passou a ser ir ao trabalho, voltar para casa – ainda aquele muquifo
cercado por traficantes –, tomar um banho e correr para a reunião sempre que tinha.
Foi assim, sempre vivendo o hoje, que consegui abrir a mente e mantê-la aberta, enxergando e admitindo meus defeitos, mas
também percebendo e sendo grato pelas minhas qualidades.
O Programa dos 12 Passos foi fantástico para me aprumar como ser humano e para determinar meus objetivos reais na vida.
Fantástico, mas nada fácil. Aliás, muito difícil. A maior dificuldade que tive foi justamente com o 1º Passo, que fui fazendo por
etapas, aos pouquinhos. Primeiro, depois de espernear e fugir do óbvio, admiti que era impotente perante o álcool. Depois,
quando me acostumei com a ideia, aceitei também que, com o desenvolvimento da doença, eu tinha perdido totalmente o controle
sobre a vida.
Foi então que a desesperança checou o tamanho de minha vontade de sair mesmo daquela gelada. Sem ter mais como mentir
para mim mesmo, compreendi que, sozinho, eu sempre perderia da demência e que a necessidade de encontrar um caminho para
recuperar a sanidade da mente não podia mais ser adiada.
Era hora de sair da escuridão de minha descrença, resultante das muitas decepções comigo mesmo; como justificador fujão que
eu era, sempre me enganei, dizendo que eram frustrações diante das injustiças de Deus.
Percebi finalmente que a encrenca toda era resultado de minha própria insegurança e covardia diante dos desafios da vida, e
que Deus, se visto como um Poder Superior absolutamente amoroso com todos os seres que criou, não poderia nunca ostentar
tanto rancor e promover punições pesadas para falhas cometidas por seus filhos no aprendizado para conquistar mais
consciência.
Então entendi que não existia essa de negociar, na base do toma lá dá cá, por recompensas e vantagens, e que a única relação
possível era a de respeito, amor e gratidão pela dádiva de estar aqui e poder ser feliz e sereno em todas as situações, desde
que acreditasse e confiasse na atuação dessa Suprema Inteligência, bem como na sabedoria de todos os seus procedimentos,
inclusive aqueles que meu egoísmo e estreiteza me impediam de aceitar.
Há 26 anos, quando me tornei abstêmio e comecei a caminhar para a sobriedade, era muito mais complicado acessar a
literatura de AA e o significado da experiência conjunta de milhões de alcoólicos como eu, tanto que levei seis meses para
conseguir os livros com os 12 Passos e com as 12 Tradições – que, ao contrário do que acontece atualmente, não eram
publicados juntos, mas em separado – e ter à disposição tantas dicas e respostas para o porquê e o como não beber mais,
administrando a doença dia a dia, cuidando só do hoje e deixando o ontem para o antes e o amanhã para o depois.
À medida que ia mais fundo no Programa e trabalhando meus defeitos com o desejo sincero de ser uma pessoa melhor, tudo na
minha vida começou a andar realmente para a frente, e mais rápido do que eu poderia imaginar. Um ano e meio depois, saí
definitivamente do barraco em que tinha vivido tanto tempo, sofrido tanto com minha própria estupidez e arrogância e feito tanta
gente sofrer.
Um amigo de longo data – um padre que cresceu comigo e manteve contato durante todas essas mudanças – me falou, em uma
visita que lhe fiz, de uma casa muito boa, apesar de simples, que tinha sido colocada à venda próxima de onde ele morava. Fui
vê-la e, então sem as vacilações do alcoolismo ativo, decidi comprá-la. Apesar de ter só uma pequena parte do dinheiro
necessário, saí atrás. Mais uma vez, fui abençoado pelo Poder Superior, e meu patrão, que apoiava com entusiasmo minha
recuperação e em cuja loja eu trabalhava há muitos anos, me emprestou o montante que faltava, fazendo um cheque na hora e
me dando condições mais do que justas para quitar a dívida. Imediatamente comprei a casa e mudei. De lá para cá, apesar de
sempre enfrentando desafios, como é o normal da vida, continuo crescendo em todos os sentidos.
Várias vezes, no entanto, achei que ia desmontar. A parte sexual, por exemplo, complicou muito quando parei de beber e ainda
estava ruim da cabeça. Primeiro porque nos últimos tempos de alcoolismo ativo nada funcionava mais, e a impotência terminava
com qualquer tentativa de relações, mesmo com prostitutas.
Depois, porque quando recuperei a virilidade, o vazio que habitava todos os meus dias agoniava demais, e o sexo compulsivo
se transformou em uma válvula de escape doentia. Eu queria ficar o tempo todo com mulheres, indo a bordéis, pulando a cerca,
incomodando até as casadas com quem convivia, o que, é claro, causou várias encrencas com elas e seus maridos.
Quando comecei a me controlar mais ou menos, e esses aspectos diminuíram de intensidade, a loucura vestiu roupa nova.
Voltei a ver vultos, ouvir vozes e ter acessos de medo inexplicáveis. O som de uma sirene, mesmo de ambulância, me colocava
apavorado, pensando que vinham me prender. Daí corria para o banheiro da loja e ficava trancado lá, até o pânico passar.
Quando algum colega de trabalho perguntava o que tinha acontecido, eu mentia, inventando uma diarreia súbita ou pontadas no
estômago, mas nunca falava o que realmente acontecia dentro de mim.
Para sair do parafuso, foi preciso um tratamento ambulatorial, com meio ano de duração, em hospital especializado nos
transtornos de comportamento, cujos resultados foram otimizados, na opinião dos psiquiatras e médicos envolvidos, pelo meu
comprometimento com os 12 Passos e outras sugestões do AA para um autoconhecimento eficaz.
Durante todos os altos e baixos do processo, continuei evoluindo na minha visão das coisas, inclusive no que se refere a meu
posicionamento profissional. O dinheiro, atualmente, é algo necessário para mim, mas de forma alguma o mais importante. Minha
atenção está focada em aprimorar meu aspecto emocional e, principalmente, minha espiritualidade. Trabalho nisso a cada minuto,
e meus companheiros de AA me ajudam muito nessa tarefa, “mostrando sem mostrar”, pelo exemplo próprio, o que é realmente
essencial para minha sobriedade e, consequentemente, para minha serenidade, realização pessoal e felicidade. Se conseguir
realizar 5% das sugestões da irmandade, serei certamente uma pessoa ética, íntegra e feliz.
Quando cheguei à irmandade, achei que era só parar de beber. Hoje, sei perfeitamente que isso só representa o mínimo, é a
ponta do iceberg daquilo que preciso fazer para ser o homem que quero.
Estou envolvido com os serviços de AA, principalmente na transmissão de uma mensagem positiva aos alcoólicos que ainda
sofrem e seus familiares. Faço isso desde meu sexto mês na irmandade, ou seja, a um quarto de século inteirinho.
Nessa balada, já atuei em todos os encargos da estrutura de apoio da irmandade, e atualmente participo do Comitê de Apoio a
Conferência Nacional de Serviços Gerais de AA, que reúne representantes de mais de 5 mil grupos brasileiros, e acontece todo
ano em alguma cidade grande do País. O lucro dessas ações, que faço com todo o prazer e dedicação do mundo, me fez, faz e
fará sempre um bem enorme, indescritível por palavras. Mas os benefícios de ser um AA não acabam aí.
Os chamados princípios de ouro, disponíveis para nortear e moderar as ações dos AA o tempo todo, foram e são determinantes
para me estimular o equilíbrio quando é hora de mudanças. São lembretes tanto daquilo me derruba como daquilo que me
fortalece: viva e deixe viver, primeiro as primeiras coisas, só por hoje, cuidado com a raiva e com os ressentimentos, que comece
por mim – eis alguns exemplos de lemas que vão me salvando de encrencas e trapalhadas sempre, enquanto a vida continua.
Definitivamente, aprendi, entre outras coisas, que não tenho o direito de julgar o outro. Certamente, se estivesse no lugar dele,
com a mesma problemática e na mesma situação, teria pensado – e feito – coisas iguais ou piores. Também estou esperto – bem
esperto – com a intolerância, o orgulho, a preguiça e a luxúria, uma companhia muito nociva para a paz que busco, apesar de
meus pensamentos loucos. Eles aparecem, mas desaparecem diante de outros princípios presentes nos meus procedimentos.
Só quero o necessário e aceito as coisas como são. Por isso, identifico sem espernear meu potencial negativo e positivo,
facilitando a determinação de não cometer besteiras, ou pelo menos minimizar ao máximo os efeitos delas, me conscientizando
dos recursos mentais, emocionais e espirituais que tenho a meu dispor para ajudar, conviver e participar da caminhada com meus
semelhantes.
Quanto à ação do Poder Superior, nenhuma reclamação mais. Agradeço todas as Suas aparições indiretas para me proteger,
não importa a aparência que tenha assumido na ocasião. Assim, o vejo nos cafetões e até traficantes que mexeram os pauzinhos
para que outros elementos não atirassem em mim, ou esfaqueassem, quando eu, na zona do baixo meretrício ou no ponto de
fumo, exagerei na dose e estraguei seus negócios com minhas interferências de bêbado. Também vejo o Poder Superior como o
anjo de muitas caras que se retratou em tantos amigos, conhecidos e familiares que me ajudaram no dia a dia, bem como – é
claro – em meus companheiros de AA, amigos-irmãos de todas as ocasiões, apoio essencial nas batalhas para ser um homem
melhor.
Católico não praticante e espiritualista muito praticante, gosto muito também de ir à missa com minha mulher atual, sem sombra
de dúvida enviada pela Suprema Inteligência, conforme a concebo, para me auxiliar com todos os detalhes da nova vida.
Mantenho, ainda, uma relação real de pai com meus filhos, compensando, dentro do possível, minha falta e minhas falhas durante
o alcoolismo ativo.
Em resumo, sou um alcoólatra, ou alcoólico, abstêmio e sóbrio. O resto é como a lapidação de um diamante, detalhe a detalhe,
aperfeiçoando até o que já está bom, mas ainda pode ser melhorado.
A história do meu envolvimento com a dependência química, expresso principalmente por meio do contato e ingestão de álcool, só
pode ser contada com o resgate de inúmeros capítulos, muitos deles tão condensados em minha mente e meu espírito que levei
anos para decifrá-los. Isso só foi possível depois que consegui, como dizemos no Alcoólicos Anônimos (AA), deter a doença, que
continua aqui, comigo, crônica e incurável, mesmo após os 20 anos de absoluta abstinência que caracterizam minha vida a partir
do contato inicial com a irmandade, em 1994.
Mas o texto existencial da minha dependência começou muito antes, sem uma razão lógica clara. Basta dizer que, com pouco
mais de 2 anos e meio de vida – quase 3 –, em um almoço comemorativo com amigos da minha mãe, o garçom, para “brincar”
com o quase bebê que estava na cadeirinha, perguntou o que eu queria beber, e eu respondi de pronto: “uma caipirinha”. Todos
acharam graça, e o episódio virou uma curiosidade relembrada em outras festas similares. Depois, caiu no esquecimento. Até
hoje, ninguém, incluindo eu, tem a menor ideia de que lugar da minha mente infantil saiu a frase, até porque minha mãe não
bebia, nem outras pessoas de meu convívio, e não havia nenhum histórico de beber contínuo no nosso grupo social.
Algum tempo mais tarde, quando eu tinha 7 anos, veio o primeiro pilequinho real. Também em uma festa, fui bebendo todos os
fundinhos de copo que os adultos deixaram. Aí já me recordo da sensação de euforia, de achar o mundo ótimo, de ter entrado em
uma dimensão feliz e sem problemas, que eu adorei. Dormi e, quando acordei, estava fantasticamente bem, elétrica, alegre, sem
o menor sinal de ressaca. Minha tolerância, aliás, sempre foi um motivo de orgulho para mim. Passava a certeza de que era
forte para bebida e que, portanto, podia tomar todas sem dar escândalo ou perder o controle e fazer bobagem. Isso, somado aos
efeitos de confiança que beber despertava, me encaixando com as outras pessoas, fizeram do álcool minha primeira opção
quando, de alguma forma, tinha que me relacionar com alguém, não porque eu fosse tímida – pelo contrário, sempre fui “mais eu”
em qualquer situação, pelo menos na época.
A verdade é que era arredia a contatos com gente. Talvez pela situação de rejeição que sempre vivi, já que era filha de uma
mãe solteira que, por razões que hoje nem importam mais, nunca disse a ninguém de sua família – toda do interior do Estado e,
acredito, bem preconceituosa, considerando a época – que havia tido uma filha (eu!) com um homem casado. Meu pai tinha
constituído a família dele e faleceu pouco tempo depois, quando eu tinha 2 anos, sem nunca ter desejado assumir a paternidade.
Nem chegou a conhecer sua filha cara a cara.
Estranhamente, essa situação ficou submersa em uma couraça de sentimentos anestesiados, o que possibilitou – ou pelo
menos pensei assim – a criação de uma separação na mente entre os acontecimentos que marcaram a vida dela e a visão que eu
tinha da minha, que considerava absolutamente alheia, sem nenhum tipo de causa-consequência com esse passado penoso – a
ponto de ter se tornado invisível, um segredo carregado silenciosamente para sempre, inclusive nos dias de hoje. Essa negação
da realidade fez que eu me visse – e agisse – como alguém com notável autoestima, confiante, simpática, inteligente e bonita,
muito bonita. Esse foi o quadro que eu “vendi” de mim a todos em meu entorno, principalmente até os 12 anos, que foi o último
aniversário que passei no internato de freiras, que fez as vezes de meu lar até então.
Sair da cadeia! Foi essa a sensação que tomou conta de mim quando saí de lá, onde cada instante era um sacrifício para
alguém que, como eu, tinha um amor inato pela liberdade e se rebelava diante de qualquer procedimento que soasse arbitrário ou
como ordem de uma autoridade, o que era cotidiano no internato, tornando meu estado de espírito aberto a confrontos internos
que eu disfarçava bem para manter minha fama de garota esperta, estudiosa, alegre e líder. Então veio a libertação e, com ela, a
chance de botar para fora, sem limites etiquetados pelas freiras, pensamentos e emoções que, na época, tinham já todo o sabor
da adolescência, dos primeiros estados físicos e psicológicos que normalmente diferenciam mulheres de meninas.
Comecei a frequentar bailinhos regados a cuba libre, e aquele sentimento de confiança feliz e divertido, a sensação de domínio
do pedaço que tinha me tomado durante aquele primeiro pilequinho aos 7 anos, passou a acontecer muito mais vezes,
acompanhado sempre pela velha resistência aos efeitos da bebida, que me deixava de pé quando todos – ou quase todos –
caíam, levando-os para suas casas, fazendo pose de responsável pelos amigos, etc.
E foi tudo assim, divertimento e uma enganosa percepção de ser especial, principalmente quando bebia; sempre livre,
audaciosa, tomando a frente das coisas e curtindo a vida. Eu julgava estar no estado que sempre tinha pedido a Deus, sem
nenhum tipo de obstáculo; parecia um sucesso entre a turma, popular, no comando da minha vida, mas já não era bem assim.
Comecei a trocar meus sonhos por outros que não causassem prejuízos à minha tarefa de beber e curtir. A primeira vítima foi
minha meta de estudar medicina, que logo de cara mostrou que ia dar trabalho, limitar minha liberdade, etc. Troquei por uma
licenciatura em administração, área cujos rudimentos já conhecia, porque, a partir dos 14 anos, trabalhei direto em empresas de
porte, bancando minhas despesas, orgulhosa de não depender de ninguém para sobreviver.
Aí, aos 22 anos, outra loucura: cismei que era hora de casar e o fiz, de papel passado e tudo, com um psicólogo do time,
embora não dependente químico. Foram oito anos juntos, em um relacionamento que começou ótimo e foi, gradualmente,
degringolando, até que o que sobrou não valia o suficiente para nenhum dos dois continuar investindo. É claro que todos esses
anos foram devidamente curtidos no álcool e mais ou menos dentro do mesmo roteiro de antes: alta tolerância (embora já não tão
alta assim), domínio dos aspectos emocionais da coisa, sucesso profissional (eu ganhava mais do que meu marido), etc.
Quando a nova fase começou, pensei: “Agora sim vou viver a vida”. Estava com 30 anos, uma boa grana na mão, proveniente
do meu trabalho, sem aquela de pensão ou outras confusões de divorciados, e solteira. Solteiríssima! Podia realmente fazer o que
me desse na telha, sem ninguém nem nada para botar areia. “Areia? Isso mesmo! Vou morar na praia, abrir uma loja, com meu
próprio capital, trabalhar na boa, uma caipirinha de quando em quando, sossego, alegria, pouca ou nenhuma encrenca para
resolver, comercializando uniformes para empresas, hotéis e restaurantes, além de roupas para o varejo! Agora vou acertar na
mosca!”
Foi esse o discurso que fiz para mim mesma, ainda com o senso de empreendedora botando minha cabeça a mil, preparando
tudo para começar a desenvolver o lance em termos concretos, botando a mão na massa. Então o imprevisto mostrou suas
garras. Melhor, para todos os brasileiros! Aconteceu a tristemente famosa retenção de capitais do Governo Collor, e o mundo caiu
para todo o País. De um dia para o outro, não havia mais ninguém para comprar e, logo depois, ninguém para vender. Fiquei ali,
em plena Ubatuba, com uma casa grande alugada para ser moradia e loja sem previsão de uso, apenas com uma parte razoável
da minha poupança na mão, pois havia retirado algum dinheiro para as despesas necessárias. Fiquei ali, tipo esperando Godot,
sem nada a fazer, apenas aguardando as coisas voltarem relativamente ao lugar. Sem nenhuma atividade me ocupando, comecei
a beber continuamente. O meu drinque predileto era cachaça, que usei em quantidades respeitáveis, enquanto sobrevivia no dia a
dia gastando o dinheiro inicialmente reservado para o empreendimento.
Nessa época, além do álcool, eu já era usuária de maconha e, periodicamente, mandava ver um LSD. Nem percebi exatamente
quando a resistência para o álcool baixou de vez. Vivia a maior parte do tempo me arrastando bêbada, sofrendo um cansaço
enorme, resultado do desgaste físico, quando um conhecido de São Paulo, que ficava em minha casa quando vinha à praia, me
apresentou a cocaína, pó, farinha, não importa o nome que se der a ela. Foi como uma injeção de ânimo na alma. Fiquei esperta,
minha tolerância ao álcool já não parecia tão baixa, minha cabeça andava a milhão e a vida tinha retornado aos dias de ouro...
Infelizmente, só enquanto a droga estava agindo, o que me tornou uma cheiradora compulsiva, permanentemente angustiada e
atrás de mais uma carreirinha.
Foi quando todo o dinheiro acabou. Sem grana para me drogar e, algumas vezes, nem para beber, entrei em um estado de
desespero enorme e, sem nenhuma alternativa, voltei para a casa de minha mãe, em São Paulo, com a firme convicção de que
iria parar com tudo, pois agora sabia para onde a loucura, o barato, ia me levar caso eu continuasse.
O milagre veio, mas não por inteiro. Mesmo convivendo diretamente com usuários de pó e de maconha e tendo queimado
baseados diariamente durante pelo menos sete anos, consegui sair fora da cocaína e da erva, que abandonei completamente,
embora tenha continuado a frequentar a mesma turma de antes, porque era a única que eu tinha. Já com o álcool, nada feito.
Simplesmente não consegui parar de beber nem por uma semana, entrando de cabeça na cachaça a cada fracasso em manter
um mínimo de abstinência.
Os noias todos foram se afastando de mim, dizendo claramente o porquê: eu era uma bêbada chata, agressiva e inconveniente,
que ninguém suportava nem conseguia mais aturar. Eu já era a popular pinguça, que passava a noite toda em um canto do bar,
bebendo sozinha e não aceitando a proximidade de ninguém, em parte pelo isolamento que eu queria mesmo ter e em parte pela
desconfiança que tinha de todos, já que era uma mulher embriagada e sozinha, em um canto de balcão, quase um convite para o
assédio dos bebuns do boteco. Estava louca, sem saída e violenta, agredindo as pessoas por qualquer motivo ou palavra que eu
achasse torta. Mas a agressão maior foi com minha mãe, em que soltei todos os cachorros presos no meu espírito, atribuindo a
ela e aos perrengues que marcaram sua história a culpa por tudo que tinha acontecido comigo – isso aos berros, palavrões e até
ameaças, graças a Deus nunca cumpridas, de machucá-la fisicamente. Um caos interno e externo, que fez da vida dela um
verdadeiro inferno.
Nossos vizinhos de apartamento foram ficando cada vez mais indignados com minhas constantes baixarias e sugeriram várias
vezes que minha mãe me internasse em um dos recursos disponíveis para gente com meu problema. Era o fim dos anos 1980, as
clínicas especializadas em dependência química eram pouquíssimas e caríssimas. Em termos de atendimento à população,
praticamente não existiam, tampouco as comunidades religiosas que hoje se contam às centenas por aí. A alternativa para quem
não era milionário se resumia aos manicômios tipo Pinel, onde os alcoólicos e dependentes de outras drogas viviam dopados e
isolados da sociedade.
Minha mãe, às vezes, quando o desespero se transformava em fúria, ameaçava ir embora da cidade e me deixar lá sozinha,
bebendo até o final, só voltando quando a notícia de minha morte chegasse a ela. Claro que nunca fez isso. E eu continuei na
mesma toada, só que cada vez mais descontrolada. Fui presa inúmeras vezes, desafiando a polícia e me achando no direito de
xingar, em frente do filho, a mãe do delegado. Três dessas detenções se transformaram em inquéritos. O primeiro e o segundo
não deram em nada, mas, no terceiro, peguei o mesmo juiz que cuidou do segundo processo, e ele não perdoou: condenou-me a
seis meses de cadeia na penitenciária feminina, pena que não cumpri somente porque fui considerada ré primária; paguei fiança e
tive direito a sursis, mas foi por pouco.
Mesmo atordoado pela quantidade – e má qualidade – das bebidas que ingeri, meu cérebro registrou que eu estava muito
próxima da derrocada final. Sem força e sem ânimo, muito envergonhada e constrangida pelo que conseguia perceber da minha
derrocada, passei a beber mais perto de casa e a esconder minha embriaguez como podia.
Em um viaduto quase ao lado do prédio em que morava, havia um grupo de mendigos, e eu acabei indo terminar a noitada com
eles, tomando umas e outras ali mesmo. Um dia, uma moradora do edifício me viu lá, interagindo com os mendigos, e, mais tarde,
quando nos encontramos no elevador, disse que tinha me visto com eles às seis horas da manhã e perguntou o que eu estava
fazendo. A resposta brotou na hora: “Estou fazendo um trabalho social”. Ela me olhou como quem não entendeu direito, e eu
aproveitei a deixa para sair de mansinho e voltar a meu apartamento, em pânico pelo flagrante e com a chance de isso acontecer
mais vezes, mostrando a todos como eu estava ruim. Em casa, lembrei que tinha anotado na contracapa de um livro o telefone
dos AA. Sem pé e desacorçoada, liguei, e uma voz respondeu a minhas perguntas indicando o endereço do grupo mais próximo e
o horário da reunião.
No dia seguinte, fui lá. Tinha na cabeça a imagem de um lugar onde especialistas ensinavam pessoas descontroladas como eu
a beber moderadamente, sem “causar” para ninguém. Antes de almoçar e sair para a reunião, tomei uma dose – a única – para
segurar a compulsão e fui para lá, sem noção real do que encontraria no grupo.
Por acaso, cheguei justo no meio de uma reunião temática, que só acontecia periodicamente, em que um companheiro de AA
ou um profissional conhecedor da irmandade discorria sobre um assunto importante para o autoconhecimento dos participantes. O
tema, dessa vez, eram “os três estados do ego”, o que me surpreendeu bastante, até pelas memórias que eu tinha sobre o
assunto graças ao meu ex-marido, e intuí que havia alguma coisa diferente, misteriosa mesmo, acontecendo por ali.
Pela primeira vez na vida, percebi um carinho de família entre as pessoas e senti vontade de me integrar com todos. Eu tinha 36
anos de idade e conheci, na ocasião, um veterano da irmandade que tinha bebido em excesso durante 37 anos – mais do que
meu tempo de vida! – e estava abstinente há 17 anos, cabeça no lugar, em paz, alegre e brincalhão, enfrentando as dificuldades
numa boa, sem desespero, angústia ou depressão. Resolvi fazer dele meu exemplo. Queria ver acontecer comigo a
transformação que o havia tornado um homem realizado e sóbrio, sem medo de ser feliz.
Parti para a luta. Mergulhei no serviço de cabeça, assumindo a responsabilidade pelo abastecimento de água no filtro, limpeza
da sala e o que mais se fizesse necessário no lugar. E comecei a ler, devorando pouco a pouco a literatura produzida pela
irmandade, bem como livros sobre a dependência química do álcool e o comportamento humano.
Porém, uma vez, o mundo caiu. Tudo por causa de um relacionamento que eu mantinha com um sujeito que nem tinha nada a
ver comigo e que, quando eu estava com quase um mês de abstinência, aprontou alguma coisa – nem lembro mais direito! –, que
soltou dentro de mim todos os demônios, me deixando furiosa, fora de mim, querendo eliminá-lo da existência. Tomei uma só para
me acalmar, e só parei quando desmaiei de bêbada na minha cama, sem ter matado ninguém nem resolvido o problema.
Quando acordei, caiu a ficha da bobagem feita. À noite, fui até o Grupo e passei por uma experiência terrível. Ali havia o
costume de só permitir que o recaído falasse se ele reingressasse no grupo, reconhecendo de público sua falha. Eu era
tremendamente orgulhosa, buscava ser perfeita em tudo. Aí tive que engolir a pretensão, reconhecer minha fraqueza na frente de
todos e “retomar pelo começo” o processo de recuperação, que até então, para mim, se resumia a manter a abstinência.
Foi então que entraram na minha cabeça dura algumas dicas que, embora tivesse ouvido, não tinha de fato assimilado seu
significado e conteúdo. Primeiro, aceitei definitivamente que a dependência era mais forte que eu e que ficar abstinente era a
única forma segura de reaver o controle de minha vida e abrir perspectiva para uma existência de qualidade. Segundo, vi que,
sem sombra de dúvida, continuar deixando minhas neuras e ansiedades dominarem minhas atitudes era uma maneira líquida e
certa para não sair do lugar para valer, enveredando por outra realidade. Isso queria dizer que, por mais que esperneasse, tinha
de trabalhar minha personalidade, diminuindo a importância dos objetivos materiais e indo atrás do abstrato, daquela serenidade
que eu nem sabia mais se havia experimentado um dia, daquele aspecto invisível de tranquilidade do espírito que, como percebi
durante o aprimoramento da sobriedade, sempre foi o objetivo final da maioria de nós, “cachaceiros abstêmios”.
Falando assim parece fácil, mas foi um trabalho árduo, em que a persistência diante das reações do ego teve que ser enorme,
sem intervalos, porque uma paradinha que fosse resultava sempre em recuo da consciência e fortalecimento da parte psicológica
da doença, com ataques megalomaníacos de subjetivismo que, para serem administrados, me obrigavam a um diálogo duríssimo
com a realidade externa, machucando os delírios instalados na minha personalidade e provocando uma alteração profunda na
chamada visão do mundo.
Foi assim, lentamente, aplicando o pragmatismo do programa de recuperação do AA – 12 Passos, Princípios de Ouro, Tradições
e outros pequenos “truques” para driblar a compulsão e a instabilidade emocional –, que mudei gradualmente não só meu modo
de agir como minha maneira de ser, virando a meu favor situações que pareciam integralmente perdidas.
Uma das mais importantes, essencial para meu crescimento, foi o levantamento de todas as agressões e injúrias que marcaram
o relacionamento com minha mãe e que causaram para nós duas mágoas e ressentimentos muito fortes. Esse “mapeamento” das
minhas sujeiras internas para com a pessoa mais importante e presente em toda minha jornada culminou com a passagem a
limpo do meu interior, feita em particular com ela, em uma conversa que durou a noite inteira e me fez entender muitos pontos que
não estavam claros nas atitudes dela.
Essa amostragem mútua de almas, que continuou dali em diante em todas as nossas atitudes, significou um contato límpido
com ela pela primeira vez. Em todos os anos de convivência, estávamos presentes porém ausentes, encouraçadas em silêncios e
opiniões que serviam apenas para mascarar como reais uma indiferença ou uma discordância falsas, modos de, como disse um
companheiro ao partilhar uma condição semelhante, gritar mudamente nossa impotência perante as travas de nosso próprio
sofrimento. Nessa conversa de confessionário, pedi sinceramente perdão pelos estragos causados a ela pela loucura raivosa
provocada pela sensação de rejeição que sempre me acompanhou, mesmo que oculta por outras justificativas. Foi então que
conheci verdadeiramente quem era minha mãe, uma vencedora apesar de todos os obstáculos, reconhecida como uma grande
mulher por todos que acompanharam sua vida profissional como enfermeira, em que cresceu sempre por sua competência e
esforço, e também por todos os que participaram de suas tentativas pessoais, muitas de ensaio e erro, nas quais sempre se
mostrou digna e equilibrada, apesar da “contribuição” negativa de meus comportamentos. Descobri, com surpresa, que boa parte
de minha agressividade com ela era resultado de um forte sentimento de inveja do que ela tinha obtido individualmente em ganhos
éticos, sociais, profissionais e humanos, sem precisar, como eu, se afogar no álcool para se sentir segura de quem era.
Nossas vidas, então, se aproximaram muito, e sempre que enxerguei uma chance, mostrei o carinho, o amor e a gratidão que
sentia por ela. Quando ela adoeceu de modo fatal, durante seus últimos seis meses voltei-me inteiramente para tornar seus
instantes mais confortáveis e serenos, sem nenhum tipo de atribulação maior. Lembro-me, como se fosse agora, de uma noite em
que ficamos abraçadas, unidas, quase que uma parte da outra.
E houve também meu filho. Ele foi, é e será sempre uma força imprescindível para que eu possa continuar mudando, pensando
e concluindo com mais abrangência, serenidade e qualidade ética. Ele foi gerado quando eu tinha três anos incompletos de AA,
quando engravidei de um companheiro de grupo, servidor como eu na estrutura da irmandade. Nunca foi um relacionamento fácil,
porque ele era casado e ficou bem confuso e indeciso com a situação.
Embora não superficiais, as relações que eu mantinha com os homens tinham, como depois percebi, um forte componente
sexual, isso desde as primeiras experiências. Assim, meus elos com os parceiros não eram, por assim dizer, profundos, o que
tornava os afastamentos não muito traumáticos para mim, já que via o prazer físico como aspecto principal das convivências e a
satisfação desse objetivo não era complicada como criar e gerenciar um sentimento. Em virtude disso, nunca sofri
demasiadamente com os desfechos que, por uma razão ou outra, encerravam experiências afetivas interessantes, mas
claramente dispensáveis.
Meu filho, hoje um adolescente de 17 anos, agora já ingressou na faculdade de educação física, que sempre foi sua meta
profissional primordial. Tenho orgulho de dizer que o criei mais do que satisfatoriamente. Desde que nasceu, sempre foi a razão
primordial de minhas ações. Por isso, deixei seu pai de lado com os conflitos internos que o atormentavam e parti para a
descoberta de meu universo de mãe, claro que com uma grande ajuda da minha própria, agora muito mais próxima graças à
intensa lavagem da roupa suja emocional existente entre nós duas, além de “pilhada” pela dádiva de estar se tornando avó.
Depois, o pai dele se decidiu e veio morar conosco, até recair alguns anos após e eu tê-lo mandado embora de casa por uma
questão de me manter estável. Até gostava dele como pessoa, desenvolvendo uma amizade por ele, além da gratidão pela sua
ajuda e experiência nos serviços do AA, que foram muito importantes para disciplinar a minha recuperação.
Minhas companheiras e companheiros de AA foram – são – fundamentais para que eu pudesse “segurar a onda” e avançasse,
passo a passo, para onde estou atualmente em minha estrada. Suas experiências e seu enorme carinho não me deixaram
sozinha em nenhum momento difícil do caminho – e olha que foram muitos!
Hoje, o AA é minha família. A única, porque quando minha mãe faleceu, há mais de cinco anos, mantive intacto seu isolamento
dos parentes do interior e, ao ligar para dar notícias do acontecimento, disse ser sua afilhada, que era como ela me apresentava
aos que não eram exatamente próximos.
E, no dia do enterro, foram eles, meus irmãos e irmãs da irmandade, que carregaram o caixão dela até o túmulo, mostrando
que, mais uma vez, eu não estava sozinha. E isso foi sempre, em todas as crises, fracassos, acertos e vitórias. Que o Poder
Superior abençoe a todos, dando-lhes a inestimável força que, por meio deles, Ele deu para mim.
Sou José Carlos, um dependente químico do tipo que popularmente chamamos de cruzado. Tenho 62 anos, e desenvolvi
principalmente o uso de álcool e de anfetaminas na época de “ativa”. Hoje, conto 26 anos de sobriedade, graças a uma
abstinência contínua obtida pela frequência em Alcoólicos Anônimos (AA) e pelo aprofundamento consciente nos ensinamentos
da espiritualidade.
Sou o filho mais velho de uma família de oito irmãos, com um pai disfuncional, expulso ainda criança de sua casa por causa de
seu comportamento rebelde – peralta demais, um verdadeiro traquinas, conforme na época, ou com transtorno da conduta,
conforme a pedagogia atual. Meu pai seguiu assim pela vida afora, sempre trabalhando por conta própria, sem patrão; era um
camelô profissional que desenvolveu o alcoolismo e teve todo tipo de problemas.
Evidentemente nós, seus filhos, passamos dificuldades extremas por causa da falta de dinheiro e de uma estrutura psíquica que
nos desse um norteamento com relação ao comportamento social normal. Eu, por exemplo, desde muito cedo fui pressionado
pelo meu pai a trabalhar e ajudar na subsistência familiar.
Minha infância foi muito mais na rua que na escola, e o impacto da carência material e emocional que fez o pano de fundo até o
início da adolescência – ganhei meu primeiro par de sapatos aos 14 anos – gerou uma pessoa com autoestima baixíssima, cheia
de complexos e ressentimentos, com dificuldades sérias de relacionamento com qualquer tipo de autoridade e outras
inadequações sociais.
Ignorante e precisando trabalhar, acabei seguindo os passos de meu pai e, ainda criancinha, comecei a me virar como camelô,
fazendo o que podia para levar dinheiro para casa.
O esforço físico era muito grande, e, quase que naturalmente, como um produto do meio, me transformei em usuário de rebites
– bolinhas, ou anfetaminas – para ter pique e segurar a onda de trabalho incessante, todos os dias da semana, sem folgas; a
cabeça a mil, repetindo com a velocidade de um locutor esportivo a “propaganda” dos produtos que vendia (raladores, cortadores
de legume, descascadores e outras miudezas do gênero), em feiras livres, proximidades de supermercados, praças públicas de
diversos bairros de São Paulo e, com o passar do tempo, de outras cidades também.
O álcool, presente desde que me conheço por gente em minha vida, passou também a ser habitual e, depois, indispensável,
pois tirava um pouco da loucura ansiosa do uso crônico de bolinhas, que foram, sem dúvida, a mola mestra da minha insanidade,
porque, ao contrário de outros estimulantes, como a cocaína, elas permaneciam atuando em meu cérebro o tempo todo, fazendo
que minha percepção distorcida se tornasse permanente e, consequentemente, me parecesse normal.
Normal, porém muito dolorosa, difícil, insuportável mesmo, a ponto de provocar depressões profundas, com ideias suicidas que
acentuavam ainda mais meus conflitos, já que, mesmo vivendo miseravelmente quase o tempo todo, desde pequeno – talvez por
influência de minha mãe – tive uma atração pela doutrina kardecista e, embora sem estudo formal, lia todos os livros espiritualistas
que caíam nas minhas mãos. Assim, me matar, embora parecesse a única maneira de me desligar da dor, era para mim um crime
enorme, uma covardia que me tornaria mais agoniado ainda, uma vez que a morte não era o fim de tudo. Então, tinha que
continuar vivo, com uma autoestima muito precária, me achando a pior das criaturas, com raiva do destino e muito, muito medo do
futuro e até do presente.
Essa fórmula só podia funcionar com muita pinga e muita bola, corroendo o que havia de bom em mim e distorcendo meus
instintos de modo a deixá-los muito próximos da animalidade, com a sexualidade desregrada e com relações sociais típicas do
submundo.
Próximo dos 30 anos, a luta interior chegou a seu auge. Eu já tinha conseguido fazer um número absurdo de bobagens, com
três passagens pela cadeia, e minha depressão já podia ser classificada como desespero. Sem saída e sem forças para continuar,
tive uma crise espiritual tremenda.
Um tempo antes, havia pedido ajuda em um Centro Espírita, onde fui tratado com preconceito e arrogância, como se fosse um
lixo humano, embora todos sorrissem, achando que eram piedosos, sem perceber que o que me deram foi desprezo. Foi no Rio
de Janeiro, onde fui com meu irmão mais jovem trabalhar como camelô, buscando uma nova praça para os produtos de sempre.
Estávamos na frente de um supermercado no Leblon, com uma banca portátil, fazendo a divulgação dos raladores e, depois de
algum tempo, paramos e sentamos na calçada para descansar perto da praia. Alguns momentos antes, eu havia entrado em uma
loja e roubado um uísque vagabundo, que começamos a dividir aos goles, no gargalo. Então, de repente, a miséria daquela
situação toda, como um raio, atingiu minha alma, e eu chorei copiosamente, como nunca tinha feito antes. Meu irmão, chocado
com a minha reação, disse apenas: “Nossa, você precisa se tratar”.
Voltamos a São Paulo, e, depois de algumas semanas, meu irmão apareceu no barraco em que eu morava. Disse que tinha
parado de beber em um lugar ali perto e que ia me levar lá. Lembro que vesti uma roupa boa, penteei meus cabelos, crente que
iria falar com médicos, psicólogos, gente especialista. Ele me levou a um Grupo de AA.
Lá, não encontrei nada do que tinha imaginado. Gente simples, alguns quase analfabetos. Aquele que, a princípio, achei que
seria o “chefe”, porque estava coordenando a reunião, tinha evidente dificuldade em ler o roteiro escrito. Lembro ter pensado que
eu, “um ignorante autodidata”, era muito mais instruído do que ele, e que com certeza meu irmão tinha me colocado em uma
roubada. Mas fiquei, precisava tentar alguma coisa. Durante os depoimentos, um senhor, bem humorado e inteligente, se colocou
como um alcoólatra e disse que se tratava de uma doença.
Alguma coisa nele me impressionou, e, quando perguntaram se algum dos visitantes queria fazer parte, eu me levantei, escolhi
o senhor do depoimento como padrinho e ingressei na irmandade do AA. Dali por diante, nunca mais bebi. Meu irmão, ao
contrário, recaiu em seguida e bebeu por mais cinco anos, entre idas e vindas. Eu insisti com ele até que conseguisse também
uma abstinência duradoura.
Quando ingressei e fiquei, minha vida mudou radicalmente. O potencial que havia em mim, aprimorado e lubrificado por muito
sofrimento e frustração, começou a se expandir rapidamente, e as coisas boas aconteceram em sequência.
Eu tinha um tio delegado de polícia que, na época de ativa, por três vezes me tirou da cadeia, onde eu havia parado por
transtornos causados, meio alucinado pela mistura de álcool, anfetamina e, às vezes, maconha. Ele gostava de mim e, quando viu
que eu estava sem beber nem me drogar, tentando me reerguer, me arrumou um emprego como vigilante da FEBEM. Foi meu
primeiro trabalho regular com carteira assinada.
Eu, por minha vez, pus a mão na massa e fiz o primeiro e o segundo graus no supletivo, comprando livros no sebo e estudando
em cada minuto de folga. Em seguida, quase que sem acreditar, consegui entrar na faculdade de história. Foi lá, por meio de meu
desempenho ante os colegas, que finalmente percebi que não estava abaixo de ninguém. Pelo contrário, até me destacava por
minha capacidade intelectual, motivação e disciplina, sendo um dos melhores da turma, ao passo que a grande maioria dos
alunos era mediana ou medíocre, sem nada de especial.
Aí comecei a acreditar realmente em mim, e meu sentimento de insegurança e inferioridade começou a desvanecer
gradualmente, à medida que minha autoestima ficava mais alta e eu tentava voos mais altos.
Claro que não foi fácil. Estava cheio de marcas interiores, medos diversos, que continuaram pautando minhas reações e
comportamentos. O uso constante de anfetaminas faz um estrago psíquico enorme, porque é uma substância psicoativa de efeito
prolongado. Essa droga habitua o cérebro a funcionar capenga, integrando comorbidades psicológicas e psiquiátricas na
percepção cotidiana, de modo que perceber um mundo enlouquecido e ilógico se transforma em uma rotina difícil de abandonar,
mesmo abstinente.
Depois, para conseguir dizer coisa com coisa, é preciso uma reforma íntima, uma identificação de características emocionais e
espirituais defeituosas, bem como um trabalho perseverante sobre elas de modo a retificá-las e diminuir suas manifestações
descontroladas a um ponto aceitável para a convivência saudável e feliz com os outros.
A recuperação, na minha opinião, tem tudo a ver com o sofrimento e o que você faz para torná-lo um fundamento para um
crescimento pessoal sereno e permanente, essencialmente presente em cada instante e em cada experiência – uma espécie de
“educação continuada” do espírito.
Como tudo em nós é intermitente, e os “barulhos” vão e voltam, embora com intensidade cada vez menor, o Programa dos 12
Passos, comum a todas as irmandades ditas anônimas, é imprescindível para manter a vigilância sobre o turbilhão que é a mente
do dependente químico e do portador de qualquer transtorno compulsivo. Ele permite a aplicação organizada de uma série de
princípios e metodologias de autoconhecimento e autotransformação, que podem ser encontrados em diversas outras tradições da
chamada Filosofia Perene – o que alguns definem como “axiomas da vida plena”.
Independentemente dos deuses e dogmas, o que os 12 Passos propõem ao dependente que quer ser feliz é que acredite na
Vida e na força natural dela, comparando sua ação com o resultado obtido pela vontade individual que ele mesmo desenvolveu.
Depois, com base nas conclusões obtidas, defina o que é melhor para você mesmo: conviver com o poder da natureza, ou Vida,
ou tentar se guiar pela própria personalidade, sujeita a limites, enganos, fantasias, medos e fugas da realidade, como sucede
necessariamente com o ponto de vista de qualquer pessoa.
Foi justamente isso que os 12 Passos e a experiência pragmática dos AA me deram, junto com uma opção real de escolher
livremente meus caminhos, admitindo quem sou e quem quero ser, aceitando os outros como são (o que sempre é difícil, pelos
condicionamentos que temos) ou, como diz um dos lemas populares integrados à programação, vivendo e deixando viver.
Isso permitiu que eu me livrasse das cobranças subjetivas que eu mesmo me fazia e abriu campo para que fizesse o que foi
sempre meu grande interesse: aprender o que pudesse sobre o mundo abstrato dos conceitos e dos processos psicológicos que -
envolvem o homem. Por isso, me aprofundei em autores espíritas, espiritualistas, literatura em geral, filósofos, historiadores, livres
pensadores e outros ramos da intelectualidade.
Junto a isso, fiz dois cursos de extensão universitária sobre dependência química, um no Grupo de Estudos de Álcool e Drogas
(GREA) da Universidade de São Paulo e outro na Unidade de Álcool e Drogas (UNIAD) da Escola de Medicina da Universidade
Federal de São Paulo, me atualizando com as descobertas científicas sobre efeitos do uso e abuso de substâncias alteradoras do
humor. Ou seja, decidi me preparar para andar com segurança em minha própria praia. Mesmo antes de me aposentar como
funcionário público federal, após mais de 20 anos de trabalho já em sobriedade, utilizei essa bagagem para fazer palestras em
centros espíritas, escolas e empresas – algumas vezes como membro de AA, outras como um estudioso do tema.
Simultaneamente, meu envolvimento com a filosofia kardecista e seus trabalhos acabou abrindo as portas para um programa de
rádio na emissora oficial da doutrina espírita, a Rede Boa Nova de Rádio. Voltado exclusivamente para a divulgação de infor-
mações sobre dependência química e prevenção da doença, esse programa, com o nome de Recuperação, está acontecendo
sem interrupção desde dezembro de 1999 e vai ao ar todo sábado ao meio-dia, um dos horários nobres; tem uma hora de duração
e é, hoje, o programa de maior audiência sobre o tema em todo o País, indo ao ar em AM e FM. Daqui a meses, completaremos
16 anos de jornada.
Eu sou o âncora e trabalho com uma série de pessoas igualmente apaixonadas pelo assunto, muitas delas dependentes
químicos também em recuperação. Tenho o orgulho e o prazer de ter participado, graças à rádio, da história de muitos
renascimentos de gente de todas as classes, raças, sexos e condições culturais, que, nos ouvindo, ganharam a chance de um
recomeço e se agarraram a ela, com resultados extremamente bons.
Atualmente, estou começando a desenvolver também seminários e cursos sobre sobriedade, recuperação, crescimento
espiritual e qualidade de vida. Como se diz no AA, o amanhã a Deus pertence. Só posso cuidar do aqui e do agora. Mas, se o
futuro depender do hoje, será sempre consequência do melhor que consegui colocar do meu coração no mundo.
Sou Esperidião, um alcoólico, dependente também de outas drogas, que conseguiu entrar em recuperação porque escolheu o
único caminho absolutamente seguro para estacionar o crescimento da dependência química de substâncias psicoativas lícitas ou
ilícitas: a abstinência, acompanhada de um sistema para melhorar a qualidade de vida. Esse sistema, além da abstinência
completa, leva o indivíduo a um conhecimento amplo e dinâmico de seus problemas físicos, psicológicos, éticos e espirituais, por
meio de uma observação permanente de seus motivos e atitudes consigo próprio e com a sociedade com quem se relaciona.
Embora conheça outras formas de tratar minhas dependências, como as tentativas de controlar o consumo ou a utilização de
medicamentos aversivos, já apanhei demais da embriaguez e dos “baratos de noia” para deixar em aberto qualquer possibilidade
de voltar ao uso. Por isso adoto os 12 Passos dos Anônimos, um programa com oito décadas de experiência acumulada que,
hoje, atende milhões de pessoas no tratamento de mais de 100 transtornos diferentes. Sua proposta se enquadra em uma lógica
infalível: manter distância completa e permanente de seu problema compulsivo.
Em relação ao alcoolismo, por exemplo, o princípio básico é evitar o primeiro gole, pois quem não ingere a dose inicial, não tem
como ficar bêbado e, portanto, não corre o risco de deixar a bebida atrapalhar seu raciocínio a ponto de cometer atos impensados,
produzidos por um humor alterado quimicamente.
Chegar aí, no entanto, foi uma conquista que custou muito esforço, honestidade, disciplina – para observar e identificar
características e gatilhos que me levavam até os porres –, humildade, boa vontade e disposição para me autotransformar em
outra pessoa, alguém para quem não beber nada em nenhuma circunstância pudesse ser um estado normal em qualquer estágio
ou situação de vida.
Uma das razões para que o alcoolismo atinja os brasileiros com tanta força é a ignorância geral do povo sobre o que é essa
doença cerebral, que se faz de conta que é um problema moral, uma falha de caráter, uma fraqueza de princípios, quando, na
realidade, é uma combinação de fenômenos físicos, psíquicos, genéticos e abstratos, mexendo com as emoções, os pensamentos
e a espiritualidade de seus portadores.
Como já disse, eu sou um alcoólatra ou, melhor, um dependente cruzado. Minha atração pelo chamado estado alterado de
consciência, também conhecido como “chapar o coco”, se manifestou claramente pela primeira vez quando eu tinha 14 anos. Era
Natal, e eu enchi a cara de ponche, abrindo caminho para, nos anos seguintes, experimentar – e gostar muito disso – uma bateria
de drogas, que foram, em um crescente, se tornando imprescindíveis na minha vida, temperando com uma sensação de confiança
eufórica todos os meus comportamentos. Na época, estava em moda a rebeldia da “juventude transviada”, e o limite do barato
oscilava entre o céu e o inferno, com a utilização de todos os recursos que existissem no pedaço para obter sensações diferentes,
vivenciar uma tal de loucura, meio indefinida em sua base, mas que servia bem como sinônimo de sair do ar, entrar em outras,
etc.
Lembro que, alucinado, experimentei todas as drogar lícitas e ilícitas, amontoando seus efeitos na cabeça de uma forma que a
única consequência possível era a insanidade, a incoerência, o delírio e a “viagem mágica pela maionese”, na qual entrei muitas
vezes só com a passagem de ida.
Cada vez com maior frequência e intensidade, ficar na maior exigia o consumo, de preferência conjunto, de pinga, maconha,
cocaína, benzodiazepínicos, anfetaminas – estas, inicialmente, por via oral e, com o avanço da doença, na forma injetável –,
assim como o pó, farinha ou outros apelidos da coca.
Contudo, o álcool sempre foi o carro-chefe de minhas incursões na loucura.
Quando cheguei ao que hoje defino como meu “primeiro auge” – depois vieram outros –, eu tinha começado a estudar à noite,
frequentando o terceiro colegial. Embora de segunda a sexta não bebesse nada, quando saía da escola após as últimas aulas da
semana, começava imediatamente a encher a cara. Ia para o centro da cidade, onde frequentava boates, saía com mulheres,
tomava e usava todas e fazia no sábado e no domingo um verdadeiro plantão na região boêmia de São Paulo. Na segunda,
iniciava um repeteco do ciclo, que se tornou rotineiro.
Mesmo assim, entrei na faculdade – nunca deixei de estudar, nem de me interessar por aprender – e me formei em ciências
contábeis. Durante o curso, bebi muito, tanto que comecei a ser internado após porres prolongados e contínuos, que começaram
a cobrar um preço físico.
Em 1981, ingressei no AA pela primeira vez, mas a cabeça embotada de dependente só entendeu uma parte mínima do aspecto
intelectual da questão, e nem cheguei a experimentar ficar sem beber. O embotamento serviu como ativador da angústia e
impediu qualquer possibilidade de enxergar saídas para minha situação. Comecei a pirar. O consumo de várias drogas ao mesmo
tempo – álcool, maconha, cocaína, rebites, injetáveis – foi demais para a neuroquímica do meu cérebro, e meu desempenho
social e profissional, já sofrível, teve uma queda vertiginosa.
Comecei a ter problemas de emprego. Uma vez, quando ainda tinha uma boa reputação no mercado, saí de um trabalho e
comecei em outro, em um banco, onde era um dos responsáveis pela abertura do cofre, portando uma das duas chaves utilizadas
simultaneamente para isso. Um dia, bebi todas e ainda usei alguns “adendos”, e o resultado foi que apaguei completamente ao
voltar para casa. Só acordei às 11 horas da manhã seguinte, com o gerente da agência batendo na porta do meu quarto para
pegar a chave do cofre que estava sob minha responsabilidade, pois tinham me aguardado até então, e o banco, na época, abria
às 9h30min. Depois desse e de mais três empregos perdidos por motivos semelhantes, consegui uma oportunidade muito boa, de
modo que continuar bebendo poderia pôr tudo a perder. Decidi parar.
Depois de tentar fazê-lo sozinho – e até conseguir uma abstinência temporária –, estabilizei um pouco e ingressei no AA pela
segunda vez, mas só para inglês ver, ainda sem perceber nem o tamanho nem a localização do buraco, muito mais embaixo do
lugar em que minha negação dizia que eu estava. Deu a lógica: um tempo, nova recaída; outra parada, essa de quatro anos,
motivada pelo meu ingresso em uma faculdade de economia privada, reconhecida como uma das melhores do País. Nesse caso,
a abstinência veio por medo, meu e de meus colegas, já que o aproveitamento era medido e a aprovação era feita sobre um
trabalho de equipe. Algumas experiências iniciais de boca livre convenceram a todos de que eu, bebendo, era garantia de
fracasso coletivo, mesmo tendo ingressado com facilidade no curso e tendo “fama” de inteligente.
Depois desses anos careta, me formei e, em 1987, com a mesma cabeça de bagre de sempre, bebi de novo. Entrei para o AA
pela terceira vez, e pela terceira vez fui empurrando a situação com a barriga, sem deixar de beber nem de usar outras
substâncias psicoativas, principalmente as anfetaminas, ou rebites, que eram de fácil obtenção (ainda não havia necessidade de
receitas médicas para sua compra).
A empresa em que eu trabalhava começou a pressionar para que eu me internasse, mas fui postergando, bebendo muito,
praticamente de segunda a segunda, sem intervalos para recuperação da carcaça. Foi quando meu corpo deu um basta e me
colocou no hospital com uma hepatite C, contraída por causa dos injetáveis, mas não percebida já havia anos.
Cheguei a uma situação-limite, e a empresa – em que exercia cargos de confiança que me renderam até uma pós-graduação
totalmente paga por meu empregador e que cursei bêbado – fez uma intervenção especializada para dependentes como eu,
reunindo minha família, os colegas de trabalho, meu chefe e profissionais da psicologia e da psiquiatria. Nos primeiros dias de
internação na clínica, tive uma síndrome de abstinência fortíssima, que me levou a ficar na UTI durante um tempo. Depois,
retornei para o trabalho de conscientização inicial.
As coisas estavam realmente complicadas. Devido a meu modo alucinado de beber e de usar, já tinha sofrido vários acidentes e
múltiplas fraturas, que me renderam, na ponta do lápis, oito cirurgias durante todo o período em que fiquei bebendo, parando,
bebendo de novo, entrando e saindo do AA, ganhando muitas oportunidades profissionais apenas para depois perdê-las, sempre
em função dos comportamentos compulsivos descontrolados. Cheguei até a experimentar crack, mas só uma vez, pois não tinha
mais condições de me viciar e iniciar um novo pesadelo.
Fui a outro Grupo de AA, dessa vez bem mansinho, e finalmente ouvi o que sempre tinha me recusado a assimilar: o alcoolismo
era uma doença com tendência para se tornar crônica e agredir seu portador até destruir ou danificá-lo física, emocional, psíquica
e espiritualmente, tirando todas as características que diferencia o homem dos animais. Foi então que tive uma noção do vínculo
entre meus problemas físicos e meus abusos com álcool – a essa altura, eu ia é de pinga mesmo – e cocaína, e comecei a aceitar
minha condição e a necessidade de mudar minha forma de ser, pensar e agir.
Cinco meses depois, entrei para valer nos serviços de AA, cujas atividades visam levar uma mensagem de esperança a todos
aqueles que estão bebendo descontroladamente e não sabem da doença que está por trás daquela autodestruição desenfreada
que impede seu desenvolvimento como homem e sua prosperidade profissional.
A riqueza de argumentos existentes para isso é produto da experiência acumulada por alcoólicos em recuperação, espalhados
pelos 80 anos da irmandade, desde que foi fundada, em 1935. Participar dela mudou integralmente a direção da minha vida,
dando a minha existência um novo sentido e uma importância ímpar. O mistério e a magia dessa mudança drástica de minha
forma de ver o mundo e a mim mesmo me fizeram, como tantos outros antes, um apaixonado pelo AA e sua energia.
Quando comecei, gradualmente, a entender a mecânica das coisas e o interior dos companheiros de recuperação, minhas
fichas foram caindo uma a uma, e a lucidez voltou com a sobriedade.
Nesse processo, pessoas que conheci e de quem me aproximei fizeram toda a diferença, devido ao jeito como me acolheram.
Foi um apoio como nunca havia recebido, que permitiu que eu mantivesse comigo muitas das coisas que tinha conquistado ainda
na ativa e fortaleceu meu ânimo para substituir por algo melhor o muito que tinha perdido. Esses companheiros especialíssimos
foram me dando, desde o início, dicas para consolidar a abstinência e a sobriedade, evitando as muitas armadilhas de minha
“egolatria”, que existe até hoje, embora quase sempre sob controle. Foram também eles que, percebendo minha natural
curiosidade e entusiasmo para aprender, me introduziram na literatura de Alcoólicos Anônimos (AA), um manancial inesgotável de
sabedoria perene, que aplica o simples ao complexo e o deixa compreensível a qualquer um, independentemente de seu nível
cultural, visão social ou credo religioso.
O Programa dos 12 Passos é voltado para fazer que o dependente pare de mentir para si mesmo ou criar desculpas que
ocultem suas mazelas éticas, neuroses e fragilidades psíquicas. Além disso, existem as 12 Tradições, um verdadeiro tratado de
engenharia social, com uma mecânica extremamente eficaz para garantir harmonia e efetividade em relações de grupos com
pessoas, pessoas com grupos e grupos entre si.
Aprendi a empregar esses princípios no meu dia a dia e nos meus relacionamentos com pessoas, empresas e comunidades.
Quanto mais me aprimoro nisso, mais me espanto com o êxito obtido nas proposições que faço e nos desafios que enfrento,
gerencio ou deixo para lá, sem permitir jamais que qualquer coisa me desequilibre emocionalmente e colocando sempre cada fato
em sua importância e lugar.
Estou aposentado de minha carreira contábil, mas a vida continua a todo o vapor, pois não é meu momento de parar de vez.
Estou com 56 anos de idade, 17 de sobriedade contínua.
Estudei e me formei em psicologia e me especializei em dependência química, com atualizações curriculares feitas por meio de
cursos do Grupo de Estudos de Álcool e outras Drogas (GREA), da Universidade de São Paulo, e da Unidade de Álcool e Drogas
(UNIAD) da UNIFESP, bem como da Federação Espírita. Além disso, trabalhei um bom tempo, já formado, em clínicas voltadas
para o tratamento de transtornos compulsivos. Por fim, forrei minha bagagem com o teor de temáticas e palestras dadas por
profissionais do segmento e veteranos membros de AA, conhecidos em toda a sociedade civil como detentores de notório saber
na área.
Entendo o Programa dos Anônimos, para ser curto e grosso, como um sistema desenvolvido para fortalecer qualidades e
enfraquecer defeitos. Por isso, suas propostas, separadas ou coletivamente, visam sempre o autoconhecimento do membro
alcoólico, fuçando em todos os aspectos de sua psique e de sua alma, cujos desajustes se manifestam em gula, como
possessividade, sexo doentio, desonestidade material e psicológica, jogo compulsivo, ilusões delirantes e muitos outros
transtornos além do beber descontrolado ou do consumo excessivo de outras drogas lícitas ou ilícitas.
Minha grande vitória sobre o “maluco interior” e suas doidices foi conseguir fazer o 1º Passo por completo, entender que “beber
não me pertence” e ponto final.
Entregar a minha vida aos cuidados de um Poder Superior, da forma que o concebo; levantar meus podres e meus acertos;
colocar isso para Deus e para outro ser humano; me dispor a me livrar desses problemas; rogar aos Céus para que me ajude
nisso; levantar ofensas e prejuízos feitos para as pessoas; tentar com empenho reparar os danos cometidos; ficar esperto e
autovigilante para com possíveis repetições dos mesmos erros; entrar em contato com o Absoluto pela prece e pela meditação;
levar essa mensagem que me deu tanta qualidade de vida a quem tem o mesmo problema – algumas dessas ações eu já fazia,
mas não com a consciência e a firmeza que tenho agora.
No frigir dos ovos, sou um abençoado pela ajuda de Deus. Hoje, me dou bem com minhas ex-esposas, tenho outra
companheira, e uma forte e verdadeira amizade dá a tônica de nossos contatos, todos com afeto e carinho. Atuo hoje como
psicólogo e me considero um profissional realizado. Também por proteção divina, sempre tive grandes chefes em todos os meus
empregos e em todas as funções que exerci nas várias áreas em que atuei.
No AA, foi a mesma coisa. Sempre me aproximei de quem fazia a diferença e me beneficiei com muito aprendizado, estudando
a maneira de ser, a personalidade, o coração e a competência de cada um, bem como incorporando em mim, dentro do possível,
a essência dessas qualidades.
Como profissional, trabalho e cobro bem. Sou um alcoólico, mas antes disso um ser humano que não faz porcarias e que dá
sempre o melhor de si. Já como AA, dou de graça algo de valor inestimável, que recebi também de graça.
A irmandade dos AA é uma organização cujos segredos levarão ainda séculos para ser compreendidos e devidamente
assimilados. Em outras palavras, contém uma magia que ainda não conseguimos alcançar, digerir e incorporar para todas as
expressões do cotidiano humano.
Minha gratidão pela irmandade é gigantesca. Se pudesse, daria em troca muito mais do que dou. Mas não posso, porque o
próprio AA não deixa.
Sou um dependente químico multidisciplinar, membro ativo das chamadas irmandades de Alcoólicos Anônimos (AA) e Narcóticos
Anônimos (NA). Graças a isso, hoje 30 anos me separam da última insanidade que o álcool, a maconha, as anfetaminas, a
cocaína e o tabaco, reunidos, provocaram – alimentaram – durante as três primeiras décadas da minha vida, que gradualmente se
tornou um inferno delirante, que eu já não me acreditava capaz nem de suavizar.
Na verdade, na época eu não tinha a menor noção do que estava acontecendo comigo. Nem sequer percebia quem era, o que
fazia e o porquê de tudo. Encasquetei que era um cara diferenciado, acima das convenções e das caretices do pessoal da minha
geração. Eles, na minha opinião, eram um bando de retardados sem nenhum atributo que os fizesse especiais.
Por motivos que, na época, julguei ligados às intervenções bem humoradas que eu fazia quando em meio aos ditos adultos, e a
uma vivacidade que eu, espertamente, fingia ser capacidade intelectual, fui consolidando em meus parentes, em especial meu avô
general e seus irmãos igualmente conceituados, esperanças de que estivessem diante de um grande futuro gênio de alguma área
– científica, religiosa ou artística –, o qual elevaria a honorabilidade familiar às alturas.
Hoje, sei que foram criações imaginárias de um moleque inconscientemente galgado, por seus parentes, à posição dos
destinados aos grandes feitos, com uma convicção coletiva que tornava isso uma função definitiva, que não podia ser de modo
algum descumprida. Esse dever acarretava um peso insustentável para um garoto arrogante, que tremia de medo diante da
possibilidade de ser desmascarado em sua mentira sobre uma competência que não tinha, mas que se tornara, ante a
insegurança que tinha, de manter iludidos quanto à tendência à grandeza imaginária e quase épica de sua atuação pela vida.
A primeira vez que bebi além da conta foi quando ainda tinha 9 anos. Já carregava, como um fardo bem pesado, o dever de
atender às expectativas familiares, sendo, de mais, uma criatura ímpar do clã. Foram alguns goles em uma garrafa plástica cheia
de cachaça vagabunda, que nem lembro de quem era, junto a um amigo de 12 anos, curioso como eu e repleto de desajustes
familiares no currículo. Logo uma sensação maravilhosa de confiança, tipo vinda sei lá de onde, diminuiu para quase zero a
angústia de não crer poder sustentar, diante do mundão, o retrato que minha megalomania construíra de mim mesmo. A alegria e
a certeza de que conseguia e de que não havia tanta diferença assim entre a imagem vendida e a realidade plausível
aconteceram como ações naturais legítimas, verdadeiras, totalmente lógicas (apesar de mágicas), sem necessidade de
comprovações objetivas. Havia apenas uma sensação de tudo certo, sem problemas, uma energia de liberdade e ausência de
limites pulsando dentro de mim, sem nenhum tipo de dor física e psíquica antes, durante ou depois do “tuim” que me apresentou
pela primeira vez ao álcool, que hoje vejo como o mais corrosivo inimigo que enfrentei no universo das substâncias psicoativas.
Em resumo, pareciam haver só benesses no uso dessa droga lícita poderosíssima, que vi destruir, ao passar dos anos, dezenas
de milhares de homens e mulheres que não tiveram a sorte de conseguir abandoná-la a tempo.
No princípio, libertado artificialmente de meus medos e conseguindo efeitos espetaculares na comunicação publicitária,
jornalística e literária, tive a sincera impressão de que havia tirado a sorte grande e que era mesmo alguém predestinado a ter
sucesso e prosperidade. De fato, as coisas andaram bem, muito bem, incluindo-se aí uma facilidade de, com a cabeça “turbinada”,
persuadir muitas mulheres de que eu era realmente um sujeito legal, uma possibilidade bem forte de ser o homem da vida delas,
etc., como costuma acontecer com os conquistadores nos filmes.
Foi em minha tripla profissão – jornalista, redator publicitário e professor, o que eu insistia em salientar como uma consequência
pura e simples da genialidade – que começou a minha queda e os primeiros sintomas de que havia algo de podre no reino da
Dinamarca.
Primeiro, minha alta tolerância na busca dos efeitos do álcool me levou a adicionar outras drogas ao meu ritual para ficar
chapado, mas no máximo de criatividade. Esse objetivo era alcançado apenas temporariamente, com a tolerância do organismo
provocando um efeito cada vez menos gratificante e exigindo doses cavalares para um barato cada vez mais sem vergonha, que
um dia simplesmente desapareceu. Não havia mais nenhum tipo de sensação que lembrasse euforia, confiança ou bem-estar. A
impressão de que estava sempre faltando mais uma dose, mais uma carreira de farinha, mais umas pedras – na época não
existia crack, e a terminologia citada se referia ao consumo de anfetaminas – se tornou corriqueira, um vácuo que qualquer
tentativa de suprir com doses maiores acabava sempre em ressacas e revertérios monstruosos, que praticamente me
incapacitavam para coisas simples, como levantar e ir a qualquer um dos meus trabalhos.
As ausências cada vez mais constantes foram minando a fé na minha eficácia, que, até então, era comum a todos os meus
clientes, empregadores, colegas freelances, alunos e professores da Universidade de São Paulo e da Cásper Líbero, onde eu
dava aulas.
Depois de mais algumas bobagens, abandonos, atrasos, trabalhos ruins e acessos de ira etílica, qualquer sinal de respeito das
pessoas por mim se extinguiu por completo, e eu cheguei naquele ponto aparentemente sem volta, em que tudo foi para o espaço
e só resta, como no poema de Manuel Bandeira, tocar um tango argentino.
O meu estado espiritual e psicológico estava rasteiro, e eu, completamente atordoado pelos desmantelamentos progressivos de
metas e setores da minha vida. A derrota fragorosa de meu ego baixou minha armadura e a pretensão, imatura e totalmente
improvável, de vir a ser um homem abençoado, dono de uma inteligência primorosa e imune tanto ao erro como à ignorância.
Então, minha companheira me sugeriu ir aos Alcoólicos Anônimos (AA), como já tinha feito em vários momentos de bebedeiras,
muitas vezes acompanhadas do consumo simultâneo de várias drogas ilícitas, sempre com minhas negativas e sarcasmo,
recusando qualquer tipo de cura ou controle da constante embriaguez. Dessa vez, no entanto, a dor psicológica e física foi tão
forte que fez cair a ficha. Com ajuda da minha mulher, fui enfim a uma reunião, escutei com a mente ainda atordoada, mas o
coração aberto, tudo o que aquelas pessoas diziam em seus depoimentos. De repente, não sei dizer o porquê em termos lógicos,
alguma coisa mudou dentro de mim, e enxerguei, com clareza e muita vergonha, o estado deplorável e insano em que me
encontrava, sem conseguir me livrar do alcoolismo que há tempos me dirigia.
Compreendi que a sensação de pertencer ao álcool, que me acompanhava desde um tempo já esquecido da jornada, podia ser
eliminada se eu utilizasse a ferramenta adequada e percebesse que a visão de fracasso era ilusória e que meu comportamento
podia fazer que sumissem, junto com a bebida, as explosões de impotência que regiam minha vida.
Marinheiro de primeira viagem no universo da sobriedade, me apeguei à ação dos outros tripulantes do barco, ou seja, os
companheiros mais antigos da irmandade, cuja experiência e conjunto de ações fui repetindo, um dia de cada vez, por semanas,
meses e anos, até os dias de hoje.
Sempre considerando o conteúdo prático de outra sugestão básica, evitei qualquer gole a cada 24 horas – o que, de muito difícil,
mas possível, se tornou gradualmente mais fácil, até que não beber se incorporou ao meu cotidiano. Talvez tenha conseguido isso
pela disciplina espartana de minha abstinência, apagando do “hemisfério racional” as lembranças mais doídas, escandalosas ou
humilhantes de meu etilismo atroz, sem, entretanto, deixar de lado os muitos alertas ligados à manutenção de uma completa
sobriedade.
Mas isso foi só o começo das alterações. Em pouco tempo percebi, conversando com outros alcoólicos em diversos estágios de
sobriedade contínua, que parar de beber não tirava de cena aqueles defeitos que, quando banhados com álcool, me exacerbavam
até a loucura. Mesmo a seco, sem nenhuma cachacinha, eles estavam ali, dentro da alma, impávidos, porém mais fracos pela
ausência de psicoativos. Contudo, estavam prontinhos para gerar mágoas, ressentimentos e culpa, o que, caso acontecesse,
seria um reforço notável para ações de raiva, depressão ou mesmo o retorno ao uso, já que a cuca estava lotada de memórias
prazerosas ou gratificantes nascidas nos momentos eufóricos de uso, quando a desgraceira do fundo do poço ainda era uma
hipótese longínqua e quase implausível.
Lidar com isso foi extenuante e doloroso, porque significou entrar fundo nas causas de minha arrogância e luxúria. Eu tinha me
separado da minha mulher, e assim fiquei durante quase 20 anos, 15 deles já sem beber, mas ainda era aquela figurinha egoísta
e delirante, incapaz de entender o que era respeito real pelo outro – principalmente pela outra. Tentei possuir – o termo é esse
mesmo – sete mulheres, cronologicamente enfileiradas como companheiras de festas e farras. Cada uma delas ocupou um
período de tempo na minha história, algumas com o sentimento enganoso de um relacionamento estável e seguro, algo que eu
nunca tive nem a possibilidade nem a vontade de tentar fazer.
Ao constatar o tamanho de meu buraco ético, complementado por impropriedades profissionais em todas as minhas opções
para ganhar dinheiro e por um desejo fortíssimo de ser reconhecido como um cara especial, legal, imprescindível socialmente,
caiu uma nova ficha: parar de beber era muito pouco, principalmente levando em conta as mazelas psicológicas e éticas que
ainda estão dentro de mim, com um perigoso poder de destruição. Aí entendi que, enquanto existissem no meu comportamento
ações decorrentes do que eu tinha de pior, nada mudaria significativamente no chamado conjunto da obra nem nas manifestações
dos meus defeitos de caráter (os AA batizam assim esse aspecto da personalidade, mas eu prefiro a expressão “características
psicológicas inadequadas”), me tornando um bêbado seco, que pode até se transformar em molhado.
Cumpre dizer que, paralelamente a tudo isso, eu sempre senti uma forte inclinação para os mistérios religiosos e sobrenaturais,
e que a procura de um contato mais profundo com o chamado mundo espiritual sempre foi uma preocupação na minha vida. Fui
seminarista dos 13 aos 17 anos, e minha saída do caminho do sacerdócio contribuiu bastante para que, embora de forma meio
megalomaníaca, eu enveredasse pelas religiões afro-brasileiras e me destacasse como um babalaô temi carreteiro, “função”
importante para os terreiros de candomblé de caboclos e para o candomblé de voduns, em cujos afazeres a sensação obtida pelo
álcool me tornou muito mais espontâneo nos diálogos com as energias simbolizadas pelos orixás e outras entidades presentes no
culto. Isso também possibilitou (me encorajando a transgredir) que a minha predileção pelas ciências exatas pudesse atravessar
os “tabus” da teologia africana e kardecista, gerando uma visão diferenciada dos processos espiritualistas, quase que uma
caligrafia ímpar, que me tornou um magista de prestígio, chefiando uma casa que ficou bastante conhecida na baixada santista e
também aqui em São Paulo.
No entanto, tudo isso – reputação, prestígio e credibilidade – se desmantelou quando a dependência química assumiu o controle
da minha vida, e o caminho para recuperar a honestidade espiritual foi um dos mais difíceis desafios que enfrentei, porque incluiu
a minha ressurreição ética. Para viabilizar uma trilha nessa direção, precisei cavar ainda mais fundo dentro de mim mesmo,
checando cuidadosamente o que era e o que não era real na imagem que eu ainda me autovendia, o que seria praticamente
impossível de fazer se eu estivesse, como estava sempre antes, para lá de Bagdá.
Claro, porque para que alguém possa se ver, precisa ter um eu não alucinado, sem as viagens imaginárias dos embalos e
baladas, com a percepção buscando o arroz e o feijão da consciência e enxergando as coisas como elas são ante os limites dos
olhos e da mente. Em outras palavras, para viver a lucidez foi preciso, antes, apagar todas as mentiras sonhadoras e todas as
ilusões da imaginação, deixando apenas as coisas normais na parada, sem incursões delirantes ou farsas burlescas. Uma tarefa
para um super-homem que eu não era nem agia como se fosse.
A coragem para iniciar a mudança em meu interior foi consequência do que podemos chamar de certeza irrefutável de que, se
não modificasse na teoria e na prática meu modo de ser, seria fatalmente presa de meus condicionamentos psíquicos mais
antigos e de seus conceitos sobre aquilo que é útil e aquilo que é inócuo. Trata-se quase de um trabalho de alquimia,
transmutando um indivíduo fraco e trapaceiro, como era enquanto cachaceiro, em um homem na legítima acepção da palavra.
Até hoje continua a luta, cotidiana e perene, e o espaço da libertação é conquistado pouco a pouco, minuto a minuto, a cada
reflexão validada como produtora de mais qualidade de vida para mim.
Adotei os 12 Passos, estruturados por Bill Smith, fundador do AA, como carta de navegação dos alcoólicos abstinentes em seu
oceano emocional, como normas para aprimorar constantemente minha fragilidade física e minha grosseria ética, psíquica e
espiritual.
Os resultados estão ótimos, mas nada é milagroso, e transtornos de todo o tipo continuam agindo em mim, provocando
instantes em que, mesmo sem beber, meus atos parecem os de alguém embriagado, culpando os outros por coisas que só
ocorreram porque lidei com elas sem pensar em todos os envolvidos, dirigindo tudo para satisfazer a vaidade do meu ego, me
lixando para as necessidades e dificuldades dos outros. Mais recentemente, quando me enveredo por essa viela estreita, não
espero ficar entalado ou atolado em meus subjetivismos nem ter ataques de megalomania, como era costumeiro, e até me
desculpo com os companheiros atingidos por meus desequilíbrios.
Diminuir ao máximo a pressão dos acontecimentos que surgem quando a ligação possibilitada pela bebida desaparece e o
mundo se faz sombrio também é muito importante.
O caminho é ter só atitudes que não conflitem com aquilo em que se acredita e seguir no lance de melhorar sempre, aplicando o
conteúdo dos Passos em todos os setores que compõem a existência: profissional, social e espiritual, seja lá o que for isso,
porque é por aí que a religiosidade de pessoas como eu lança a âncora, longe dos sinédrios e concílios, e também com uma
distância saudável de doutrinas, credos e proibições fundamentadas no estrabismo filosófico e lógico das religiões, que, a meu
ver, chamam de verdades o que são apenas opiniões.
Junto ao nosso convencimento da necessidade obrigatória de efetuar um relatório minucioso e pessoal de falhas, pecados e
fraquezas, os Passos oferecem outras sugestões igualmente inusitadas, embora comuns para a filosofia perene. Além disso, o
inventário ético só vai ser realizado após três procedimentos indispensáveis, dos quais a admissão e aceitação da impotência
completa no que concerne ao controle do uso é o primeiro. Outro é a procura de contato com uma Inteligência Superior, conforme
as crenças de cada um, cuja ação é voltada para nos tornar pessoas melhores e mais felizes. Na sequência, os 12 Passos nos
pedem coragem para entregar diretamente a essa Inteligência o controle global da nossa vida, sem querer pegá-lo de volta
quando a insegurança sobre o que pode vir bater forte na cuca.
Então chega a vez do mencionado relatório ser utilizado, como rota do dependente químico que fui, na tarefa de me desculpar
com os muitos prejudicados por minhas ações, ressentimentos, oportunismo, egocentrismo e hipocrisia. Demorei anos para me
enxergar e reconhecer os danos causados. Até hoje, a lista das questões do que devia me arrepender e tentar consertar é
incompleta – ou porque esqueci, ou porque as circunstâncias não me permitiram fazê-lo, bem como porque não tive peito mesmo
de enfrentar as vítimas de situações fantasticamente constrangedoras que criei com minha insanidade durante pelo menos 15
anos ininterruptos.
Partindo do princípio de que a fé em meu progresso e o trabalho duro poderiam me levar a outro patamar de consciência,
continuei a praticar a disciplina de levantar diariamente os defeitos que eu cometia no período, a aceitação do outro e de si mesmo
plenamente e o agradecimento a um Poder Superior por estar vivo física e psiquicamente. Além disso, segui fomentando em mim
a disposição de colocar aos dependentes em geral toda a mecânica para a recuperação desenvolvida pela experiência do AA,
cujas reuniões até agora foram e são, para mim, autênticos repositórios de sabedoria popular, multiplicando-se nas dezenas de
irmandades que empregam a mesma metodologia para diferentes problemas e compulsões.
Durante essa transmutação de alcoólico para gente, que levou anos para me tornar alguém integralmente aceitável, muitas
outras coisas aconteceram, todas elas com idas e vindas na recuperação e uma assustadora proximidade do álcool e de outras
drogas, ilícitas, lícitas e farmacêuticas, que, mesmo sem beber, me deixavam como bêbado ou como um doido em surto.
Meu relacionamento de usuário ativo com outras drogas ainda durou cinco anos após o último gole de álcool, mas acabou detido
de vez. Isso fez de mim, como o jargão dos anônimos diz, um dependente químico finalmente limpo.
Enquanto tudo isso acontecia, minha reestruturação no campo profissional como redator, jornalista e professor me transformou
em um freelancer ocupadíssimo. Foi esse trabalho sem patrão que durante duas décadas garantiu, de modo ora pródigo, ora na
corda bamba, o meu sustento e o sustento (compartilhado com as mães) de meus três filhos, gerados com duas diferentes
mulheres, todos, hoje, na casa dos quarenta anos.
Simultaneamente, consolidei minha posição no magistério, dando cursos de lógica, lógica matemática e filosofia da metodologia
quântica, e fui um dos líderes indevidamente perenes do AA. Com algumas pessoas na mesma situação – criando esforços e
projetos que não podiam delegar a substitutos, porque não existiam membros capacitados –, surgiu um grupo de membros do AA
com funções quase perpétuas, representando a irmandade junto a acadêmicos, professores universitários, responsáveis por
relações humanas nas empresas, industriais e autoridades governamentais e religiosas, além, é claro, dos órgãos oficiais e
privados de comunicação televisiva, radiofônica e impressa. Nessa fase desgastante, mas produtiva, alguns de meus defeitos, ou
características emocionais não apropriadas, tiveram momentos críticos, nos quais quase fracassei no objetivo de me tornar uma
pessoa confiável. Entreveros com companheiros de jornada nos grupos anônimos botaram frente a frente personalidades doentias
(sendo a minha uma delas, na época) e irreconciliáveis pela intensidade da arrogância e teimosia.
O esforço contínuo em identificar e gerenciar meus problemas com a tal da serenidade e uma forte atenção às dicas dadas por
todos em seus depoimentos nas salas impediram um destrambelhamento concretamente ruim. Consegui ultrapassar as crises,
transformando-as em oportunidades de adquirir mais conhecimento sobre meu próprio interior e aprender comportamentos que
me impediram de chutar o balde nas horas desagradáveis e desafiantes, principalmente diante de sentimentos de descaso ou
indiferença, quando ficavam em primeiro plano.
Uma miscelânea de outros fatos e experiências também fez parte do meu esforço de recuperação. Se fosse enumerá-los agora,
precisaríamos de uma biblioteca inteira para registrá-los. Posso dizer o mesmo de minhas atividades espiritualistas religiosas,
que, agora, exerço de modo muito mais leve, sem necessidades de me afirmar como guru de ninguém nem de convencer as
pessoas de algo. Sei que todas as crenças são apenas opiniões pessoais, e que todas as verdades são, na melhor das hipóteses,
enormemente relativas.
Hoje, aquilo que digo ser a disciplina do ego já é uma constante na maioria de meus contatos com os outros, exatamente como
aprendi nas reuniões: vivendo e deixando viver, sem julgamentos ou preconceitos, evitando qualquer possibilidade do primeiro
gole ou da primeira compulsão e entregando o que puder para o Chefe, sem esquecer quase nunca que tudo é só uma graça
divina e que nada acontecerá a quem não mereça. A causa e a consequência são indispensáveis ao andamento do show da vida,
que, no meu caso, começou com apupos, mas o próprio tempo transformou em aplausos. Leves, porém aplausos.
Meu nome é José Alves e sou um alcoólico em recuperação. Minha relação com a doença não resultou da hereditariedade, pois
na minha família não havia bebedores, e, mesmo socialmente, o consumo se resumia a quantidades mínimas – meu pai e minha
mãe, por exemplo, dividiam um copo pequeno de vinho uma vez por ano, na festividade do Natal –, e o mesmo comedimento
caracterizou também os hábitos de meus avós de ambos os lados, tios, tia, primos e outros parentes. Posso dizer que, talvez com
exceção de um ou outro familiar distante, que histórias meio lendárias diziam ser bons de copo, eu fui o fundador da dinastia dos
cachaceiros no clã. Mas as coisas não surgiram assim do nada, como ouço vários companheiros do Alcoólicos Anônimos (AA)
narrarem.
O sistema lá em casa era rígido, mas amoroso. Meu pai era um homem simples, mas com grande descortínio das necessidades
do futuro, e fez de tudo para que eu e meus irmãos tivéssemos estudo, que considerava imprescindível para uma vida melhor.
Isso importava tanto para ele que assegurou nosso acesso à informação, mesmo morando distante da cidade: conseguiu, do
prefeito, carteiras, que colocou em um cômodo de nossa casa, montando uma sala de aula, e até uma professora, que morava
conosco e almoçava em nossa mesa, ensinando às crianças durante o dia e alfabetizando os idosos durante a noite.
De quando em quando, em alguns fins de semana, tirava folgas e vinha até São Paulo, onde estava toda sua família. Foi assim
que fiz o equivalente ao ensino fundamental. Depois, sempre encorajado por meu pai, comecei a estudar à noite na cidade, indo à
escola a cavalo; voltava para casa tipo 23h e acordava muito cedo, junto com todos da família, para o trabalho diário, que envolvia
cerâmica e, portanto, tinha na temperatura da madrugada o melhor horário para ser realizado.
Aos 17 anos, mudei para São Paulo, onde já estava uma irmã mais velha, e arrumei um emprego, começando como contínuo de
uma empresa. Ali, o matuto que eu era foi impactado com uma nova visão da vida e outro tipo de relacionamento com as pessoas.
Peguei o hábito de jogar futebol com os colegas da firma, a tomar uma cervejinha com a turma, a ter um relacionamento social
mais intenso. Foi quando o processo comum ao desenvolvimento do alcoolismo deu gradualmente as caras no meu dia a dia. A
cervejinha diária virou duas, três, quatro... primeiro uma vez ou outra, depois permanentemente. Isso não chegou a ser um
problema. Comecei a frequentar festas, bailes e reuniões sociais, mas, embora já bebesse bem, não estava ainda dependente do
álcool.
Paralelamente, fui crescendo na empresa. Fiz cursos, me aprimorei, passei a auxiliar de escritório, subchefe, chefe; continuei
galgando posições, ganhando mais dinheiro, tive várias namoradas e, aos 22 anos, conheci uma moça por quem me apaixonei e
com a qual casei, com ela grávida de meu primeiro filho. Na época, o álcool já estava pegando forte, mas tudo parecia andar bem,
porque eu ocupava um cargo de confiança em um grande banco, como assistente de diretoria, e entre minhas funções estava
fazer o meio de campo – as relações públicas – com grandes clientes e empresas, investigando e analisando os pedidos de
empréstimos de vulto, de modo que tinha a palavra final na realização de importantes negócios. Minha aprovação, ou não, fazia a
diferença para o sucesso de empreendimentos e transações financeiras, o que me rendeu muitas “caixinhas” gordas, a ponto de
meu salário, nada desprezível, ter pouquíssima importância, parecendo quase uma merreca mesmo, diante do total da minha
conta bancária. Foi uma fase que eu via como de ouro, gastando dinheiro (do banco) a rodo, promovendo e frequentando festas,
divertimentos, noitadas e espetáculos, tudo para agradar os grandes investidores e convencê-los a continuar entregando a
administração dos recursos que representavam à estrutura de meus empregadores.
A “farra” foi se tornando cada vez mais intensa, e a presença de grandes quantidades de bebida foi crescendo. Absolutamente
deslumbrado com a função, fui deixando a família gradualmente de lado, sempre com a alegação, inclusive para mim próprio, de
que o desregramento era parte do trabalho, imprescindível para o encaminhamento de minha própria carreira.
Quando nasceu minha filha, eu estava entregue a uma boemia desenfreada. Bebia demais, chegava de madrugada, era
totalmente ausente do cotidiano familiar; fazia de conta que não ouvia as queixas de minha mulher, que se sentia – e com razão –
desassistida afetivamente. Éramos jovens e imaturos. O silêncio e a cara de paisagem com que eu reagia diante de sua
insatisfação fizeram com que ela fosse perdendo a paciência, até que não aguentou mais, pegou meus dois filhos e voltou para a
casa do pai.
Agora, tudo estava dando errado. O álcool em excesso não me deixava acordar mais no horário, minhas mancadas como
funcionário se multiplicaram e, para completar a tragédia, a diretoria do banco foi substituída. A nova direção, de posse do
relatório de meu desempenho pífio, me deu um ultimato, exigindo uma performance aceitável, que simplesmente não consegui ter.
Acabei na rua – e em um momento péssimo: crise geral no País, muita dificuldade de se conseguir emprego. Tive que me
sujeitar a bicos, trabalhei como servente de pedreiro, auxiliar de encanador, sempre com a cara cheia, tomando todas. A situação
chegou a um ponto que ficou inviável até morar com os parentes que tentaram me ajudar. Bêbado permanentemente, entrei em
choque com o marido da minha irmã, que tinha princípios rígidos, e perturbei tanto minha tia com meus porres que ela também me
mandou embora de sua casa.
Foi quando conheci o Instituto Fraternal Laborterápico, uma instituição de apoio a alcoólicos e outros dependentes químicos,
que comecei a frequentar no mais absoluto desespero. Na mesma época, conheci também uma mulher, com mais idade do que
eu, que me apoiou no retorno à abstinência.
Sem beber, e em uma época já bem melhor para o País como um todo, comecei a trabalhar novamente e, em pouco tempo,
criei condições para iniciar, com alguns outros conhecidos, uma empreitada na área de tecidos. Um investidor entrou com o
capital, ficando com 50% da sociedade, e os 50% restantes foram divididos entre os quatro que puserem a mão na massa,
incluindo eu. Outra vez a sorte me sorriu, e os negócios andaram maravilhosamente bem. Consegui comprar um apartamento,
depois outro, em seguida um carro novo. O futuro parecia promissor, mas a burrice doentia e compulsiva que sempre destruía
meus sonhos venceu de novo. Literalmente, folguei com o sucesso, e a euforia me fez esquecer das muitas marcas destrutivas de
minha maneira de beber. Voltei para a vida de boemia, e rapidinho tudo se desvaneceu no ar.
Quebrei a empresa, perdi os apartamentos, o carro, a poupança em dólar. Sem nenhum dinheiro, mergulhei de cabeça na
depressão e na pinga, tentando anestesiar a dor da frustração e acabar com a apatia, que me deixava horas deitado, alcoolizado,
me lastimando e botando a culpa no azar e na injustiça divina.
Foi quando a mulher que estava comigo, uma pessoa superbacana, falou dos AA. Eu praticamente nem registrei o que ela
disse, pois estava voando baixo demais para conseguir enxergar qualquer possibilidade de sair da escuridão que me cercava.
Mesmo assim, sei lá por que, pedi que ela visitasse o lugar, pegasse informações, porque eu estava muito ruim para me
decepcionar com algo que não funcionasse.
Ela foi a um grupo e voltou dizendo que havia conversado com o pessoal e que eles tinham proposto vir me visitar, ali em casa
mesmo, na boa, sem compromisso, só para conversar sobre o que pensavam, como agiam, de que maneira estavam
conseguindo viver bem sem beber. Meio descrente, vacilei um pouco, mas depois aceitei falar com eles. Dois dias depois,
estavam lá comigo, na sala, cordiais, sem impor nada. Não senti ali nenhuma expressão de fanatismo religioso, nem de moralismo
puritano. Na verdade, falaram sobre eles mesmos, os problemas que enfrentaram com a bebida, a montanha-russa que o álcool
estabeleceu em suas vidas.
Mesmo com uma parte de mim se recusando a enxergar qualquer ponto em comum entre nossas experiências, não tive como
negar que muitas situações batiam com o que eu tinha passado, e que não estavam falando de teorias, mas sim de prática. Então,
aceitei o convite para ir até eles, conhecê-los mais de perto – mas, ainda assim, dei uma de difícil: disse que tinha compromissos
inadiáveis no dia seguinte, que iria com certeza na noite seguinte.
Fui. Desde então, não bebo mais. A vida tomou uma direção que eu nunca teria acreditado antes, e as dádivas de Deus (para
mim um Poder Superior, uma Inteligência Suprema que a estreiteza de nossa consciência não consegue nem de leve conceber)
se acumulam a cada instante, provocando novas descobertas sobre a vida e o meu papel como ser vivo.
Compreendo, agora, diante de tudo que passei e de tudo que ouvi de meus iguais no AA, que, tendo cruzado a invisível fronteira
entre um forte hábito de beber e o alcoolismo compulsivo, como inegavelmente fiz, serei sempre um alcoólico. Não acredito que,
algum dia, poderei voltar ao hábito social “normal” de beber. Sei que, tivesse continuado a beber, meus problemas teriam se
tornado progressivamente ainda mais graves, me colocando no caminho da sarjeta, dos hospitais, das prisões ou dos
manicômios, isso se não sofresse de uma morte prematura.
Assim, a alternativa segura é parar de beber completamente. Pelo que mostram os inúmeros exemplos práticos, seguir esse
rumo e aproveitar ao máximo as sugestões do Programa dos Anônimos pode abrir uma vida inteiramente nova para cada um na
irmandade. No meu caso, como acredito que também no de todos os membros, aceitar e praticar os 12 Passos é a essência da
coisa. Até porque o AA não é brincadeira. Ou você abraça e luta pelo que ele oferece, ou você dança.
Para quem tem um problema como o alcoolismo, que atinge todos os aspectos de um ser humano, causando mazelas físicas,
mentais, espirituais, econômicas, sociais e muitas outras, a convivência no AA é uma completa surpresa. Compostos por gente
marcada por tantas adversidades, seria previsível encontrar nos grupos um clima de intensa dor, pesado, de tragédia humana.
Mas não é assim. As pessoas, em geral, estão bem, frequentemente alegres, limpas, vestidas com dignidade e gerando um
ambiente de grande cordialidade. Isso é muito importante, porque, para ouvir os depoimentos, é preciso estar aberto, aceitar sentir
dor. Em geral, as pessoas evitam desconfortos, mas, fazendo isso, não desenvolvem a compaixão que pode torná-las especiais.
Aprendi no AA que aqui as pessoas são vitoriosas, não derrotadas. Vivem a realidade de que não são pessoas que “não podem
beber”, mas sim que são pessoas que “podem não beber”, e isso faz toda a diferença. São homens e mulheres que não estão
sendo levados sabe-se lá para onde por um furacão descontrolado. Em vez disso, é gente que começou a ter poder sobre si
mesma, a comandar os seus barcos e a ser dona dos seus destinos. São seres humanos que não podem tudo, mas que podem
algumas coisas. Se, no passado, eram muitas as perdas, agora são muitas as vitórias. Se, com todas essas dificuldades, se pode
imaginar alguma lógica para a existência de tristeza, o sentimento predominante é outro.
Com o tempo, entendi que todos têm consciência profunda do sofrimento relatado por quem faz o seu depoimento e o escutam
atentamente, em silêncio, desejando ajudar o companheiro no sentido de aliviar seu sofrimento. Esse sentimento se chama
compaixão, e se desenvolve em plenitude no ambiente de silêncio respeitoso do grupo. É a resposta espontânea daquele que
está aberto para quem faz a partilha...
Essa dor é amplificada, posteriormente, pelas lembranças que surgem do depoimento feito; são ecos que reforçam a compaixão
e que, por sua vez, elevam a dimensão humana de quem ouve, despertando amor ao próximo e sentimentos de fraternidade e de
solidariedade.
Mas compaixão não é o mesmo que tristeza, não é o mesmo que ter pena. É muito mais que isso. As pessoas se sentem bem
nos grupos, são felizes no convívio com seus iguais.
A doença do alcoolismo, incurável, representa uma crise constante, o que torna permanente também a resposta emocional
correspondente, que é a solidariedade.
Além disso, quando me entrosei com o grupo, iniciei de pronto todo um conjunto de novos relacionamentos, alicerçando o
processo de socialização que funcionou como um escudo de proteção para mim, me colocando em contato com pessoas
vitoriosas, felizes, equilibradas, que se aceitam e aceitam os outros e que admitem estar em um processo de crescimento sem
hora para terminar.
A sobriedade é indispensável para que haja uma evolução favorável no quadro do alcoolismo. Ela é o alicerce, mas não se faz
um alicerce para nada. Em cima da sobriedade, vem a serenidade, que leva à construção de um novo ser a partir de uma
profunda mudança, que, por sua vez, garante uma melhora significativa e duradoura. Nesse processo, o segredo, sem dúvida
alguma, consiste em se doar. Viver na irmandade é procurar ser cada vez mais consciente do porquê da própria existência, bem
como mais próximo desse Poder Superior que rege todas as coisas.
Assim, participar dos serviços oferecidos pelo AA aos portadores da doença, divulgando uma mensagem de esperança e
ajudando a conscientizá-los do verdadeiro significado do alcoolismo e dando de graça o que de graça se recebeu, é o caminho
para quem, como eu, faz do Programa dos 12 Passos, como eu fiz, a rota para uma vida melhor.
Nessas mais de duas décadas de sobriedade, já ocupei praticamente todas as funções e encargos da estrutura de serviços do
AA, tanto no nível de grupo, como no de distrito, de área e do órgão nacional que administra e apoia suas atividades no Brasil.
Recentemente, terminou meu prazo no encargo de diretor financeiro da irmandade, e, embora sem nenhuma função, estou à
disposição para qualquer tarefa necessária, por menor que seja, para que a sobriedade, a serenidade e a recuperação sejam a
tônica de mais e mais alcoólicos abstêmios.
Consegui bons resultados porque segui à risca as dicas de meu padrinho, um AA veterano e de grande espiritualidade, quando
me introduziu nos serviços. Parece que foi ontem que ele me disse para ver cada encargo na irmandade não como uma posição,
e sim como uma oportunidade de ser servidor, com tudo o que isso representa, não importa o que isso signifique em termos
práticos. Graças a esse norte e a alguns puxões de orelha sabiamente dados por ele mesmo no meu ego, sempre saí das funções
com a cabeça erguida, satisfeito com o trabalho e com os resultados alcançados, principalmente no que dizia respeito a melhorar
as chances de alcoólatras na ativa, permitindo-lhes o fim de seu sofrimento. Fico extremamente feliz pelo que recebi todos os dias
em que estive no AA e com o AA. A amizade, o conteúdo, a experiência e o apoio dos companheiros de jornada me tornaram uma
pessoa muito melhor, consistente e verdadeira.
O Poder Superior me deu, nesses anos sem beber, bem mais do que eu poderia imaginar ser merecedor. A mulher que estava
comigo quando ingressei no AA, embora pessoalmente superbacana e bom caráter, nunca teve comigo uma relação de atração, e
nosso convívio, que já era muito mais de amizade fraterna, terminou sem traumas, de forma pacífica. Milagrosamente, quase que
ao mesmo tempo, reencontrei minha primeira mulher, que eu nunca tinha conseguido esquecer totalmente. Nos aproximamos,
começamos a namorar e, dois anos depois, reatamos. Estamos juntos até hoje, e imensamente felizes.
Há alguns dias, estávamos passeando de mãos dadas, como dois adolescentes, depois de passar a tarde cozinhando juntos, na
maior alegria, e, conversando, fizemos um levantamento de como fomos abençoados, apesar das encrencas. Hoje, tenho três
netos, de 19, 15 e 12 anos, com quem me dou muito bem, sempre na ótima. Não tem coisa melhor. O respeito e a admiração de
meus irmãos, que hoje são completamente abstêmios em consideração a mim, mesmo sendo pessoas capazes de beber
socialmente, é outra dádiva impagável que recebi por ter me transformado naquilo que sou.
É a sabedoria do AA, posta em prática e dando outra escala de valor a tudo que ocorre. Aprendi bem aprendido, para não
esquecer nunca mais, a viver bem em qualquer situação. Se observar, mesmo em situações críticas, vou encontrar muita gente
bem pior do que estou. A aceitação é difícil, mas também é ótima. Facilita extremamente se lembrar de que as pessoas não são
iguais, que cada um tem seus limites, que ninguém é melhor nem pior do que ninguém.
Então, o caminho sensato é aprender a cada dia algo novo, e passar o que aprendi aos que me cercam. Sempre quis – e
continuo assim – saber a fundo tudo sobre cada coisa de que participava. No AA não foi diferente.
A sabedoria dos amigos e dos veteranos da irmandade é enorme, imensurável mesmo. O que o próprio programa me ensinou é
a tentar aproveitar nosso convívio ao máximo. Afinal, tudo é só por hoje, e todos morrem. Por isso, vou pela vida aproveitando
cada instante dessa convivência.
Meu nome é José, sou um alcoólatra, e só por hoje não bebi. É assim que eu inicio meus depoimentos – partilhas – nos grupos de
AA e é também assim que me apresento a mim mesmo, para nunca me esquecer de quem sou e de tudo que isso significa.
Meu ingresso no AA pode ser registrado com uma frase: acordei de madrugada, passando mal de novo, e concluí que estava na
hora de parar de beber. Fui a um grupo e, a partir daí, nunca mais bebi. Uma história em que grande parte do texto está no
preâmbulo.
Bebi dos 13 aos 40 anos e, na casa dos 18, a chamada maioridade, já era um “profissional do porre”, com várias entradas quase
fora do ar no pronto-socorro, inúmeras aventuras etílicas e uma série de abusos e besteiras nem sempre aceitas pela comunidade
na boa. Tudo isso exigia, algumas vezes, um trabalho de “diplomacia” para serenar os âmbitos e promover uma relativa harmonia
entre as partes, ou seja, eu e as outras pessoas envolvidas nas minhas maluquices.
Isso durou um bom tempo, já que até quando estava em uma bebedeira leve eu era um sujeito conversador, simpático,
envolvente, rápido no gatilho e bom de raciocínio. Em outras palavras, uma promessa que passava a todos a imagem de um
jovem que, apesar das bobagens que fazia e da falta de limites que marcavam seus momentos de cara cheia, teria com certeza
um futuro brilhante, um sucesso profissional enorme, faltando para deslanchar apenas um pouco mais de maturidade.
Enquanto la nave va, tudo é alegria. Aos 22 anos, fui o calouro mais jovem da faculdade de engenharia em uma turma de 300
alunos, todos candidatos potenciais aos mais altos cargos executivos. No trabalho, repeti a dose de “brilhantismo”. Aos 26 anos,
era o mais jovem executivo sênior na maior multinacional do mundo, e o céu era o limite. Mas, promessa ou não, continuei a
beber, cada vez mais pesado.
Posso dizer que, quando casei, aos 31 anos, fui conduzido ao altar por força de uma visão fantasiosa e delirante do amor, com
teor de folhetim, e a insegurança silenciosa, porém já impactante, me alertando de que, caso não mudasse meu modo desregrado
de viver, a esbórnia e os destilados iam me levar, em breve, a ser um cliente nada vivo do serviço funerário.
De fato, como dizem os mais jovens, eu estava “causando” direto, e a intervalos cada vez mais curtos, fazendo da possibilidade
de uma besteira gigante um evento razoavelmente provável. De certa forma, então, casei para parar de causar e sobreviver a mim
mesmo, virando gente e tomando as rédeas, a fim de controlar o galope desenfreado de minha atração por farras e pela boemia,
com todos os seus ingredientes.
Deu certo, ou melhor, mais ou menos certo.
A fera sossegou, baixou um pouco o facho, mas a contabilidade entre o lucro representado pela diversão e os prejuízos
simbolizados pelos excessos, que eram minha característica, se apresentava ainda com lista de danos pouco significativa, com o
prazer superando disparado os momentos de “deprê” ou constrangimento. Mas a doença é progressiva e nunca para de crescer.
Três anos depois, com a situação preta de novo, decidi dar um tempo sério na ingestão alcoólica, e realmente dei.
Contudo, não cheguei a ficar contente com a vitória, porque desenvolvi uma fortíssima psicose alcoólica, motivada, entre outras
coisas, por minha síndrome de abstinência, que veio de modo abrupto e me tirou dos eixos. Foram nove meses de tratamento
psiquiátrico, com medicamentos que não se davam bem com o álcool e que, caso fossem utilizados com o paciente bebendo,
provocariam reações perigosas no organismo, havendo, inclusive, risco de morte.
Era esse o estado vigente – a sobriedade forçada –, até que consegui, depois de muita argumentação, uma alta do psiquiatra
para beber moderadamente. O que, é claro, logo se mostrou uma missão impossível.
A essa altura do campeonato, eu já tinha alguns quilômetros de estrada, misturando tentativas, erros, acertos, etc. Além disso,
minha caminhada pela existência ostentava um jeitão de montanha-russa, com períodos em que a montanha-russa se tornava
uma roleta-russa, e, se não fosse o que hoje chamo de interferência do Poder Absoluto, minha passagem por aqui já teria se
encerrado muitas vezes.
A aventura começou cedo. Depois de poucos anos na multinacional mencionada, saí da empresa por razões que não tinham
nada a ver com o meu desempenho, ainda considerado ótimo, nem com meu problema de bebida, que já provocava algumas
estranhezas, porém sem produzir opiniões que afetassem a mensuração de meu padrão profissional – até porque, de início,
minhas atitudes casavam perfeitamente, para análises sem profundidade, com o padrão esperado de um executivo jovem e
ambicioso, ansioso para subir. Isso, aliás, se enquadrava plenamente com minha transferência para outra organização, também
em um alto cargo, em que muitas chances promissoras se desenhavam.
O ruim foi que, a essa altura, meu alcoolismo já estava a todo vapor, deixando marcas e mais marcas nas minhas performances:
chegar atrasado, ir a reuniões despreparado, faltar, dar uma imagem inconveniente à própria equipe e outras coisinhas do mesmo
naipe passaram a ser habituais.
Fui para outra empresa, em uma função ainda importante, mas não tanto, e as derrotas para o álcool continuaram acontecendo,
repetindo meus desajustes e deficiências oriundas da ingestão descontrolada de bebida. Apesar disso, todos gostavam da minha
figura e de meu modo de ser quando não estava “mamado”; além disso, ficavam com pena de deixar um boa-praça como eu ficar
na rua, ainda mais naquela situação.
Para matar dois coelhos com uma só cajadada, tornou-se comum me tirarem do lugar em que trabalhava, mas me mantendo
empregado em outro cargo menor na própria empresa que me havia tirado da função que eu exercia, o que me tornou um dos
poucos empregados a ser “demitido com outro emprego de carteira assinada”.
Isso se explica porque sempre fui socialmente bem-sucedido, pertencendo e frequentando muitas turmas diferentes ao mesmo
tempo e interpretando para cada uma delas um personagem específico, mentindo o tempo todo. Às vezes, confundia alhos com
bugalhos, representando um papel elaborado para um dos grupos na turma errada e, depois, consertando a confusão resultante
com a introdução de desculpas baseadas em novas lorotas. Aliás, criar personagens e agir, ao interpretá-los, como se eles
fossem meu “eu” autêntico era uma compulsão quase inconsciente, provocando situações complicadas nas quais a mentira se
voltava contra o Pinóquio, que, claro, era sempre eu.
Lembro-me até hoje de uma noite, ainda na época áurea de meu alcoolismo ativo, em que encontrei em um bar de Moema um
sujeito estranho, que andava com o auxílio de muletas e levava consigo para onde fosse um menininho frágil, sujo, com o nariz
escorrendo e um ar de abandono. Entabulei uma conversa com ele, que estava mamadão, como eu. Após alguns minutos de um
autêntico papo de bêbado, o milagre do álcool aconteceu mais uma vez, e, em um estalar de dedos, eu me transformei em “amigo
de infância” do senhor em questão. Emocionado, coloquei os dois no carro e os levei para minha casa, dizendo que eles moravam
no meu coração, que a situação em que estavam era uma injustiça abominável, que no outro dia de manhã eu ia acionar meus
contatos mais influentes para reverter o quadro e fazer renascer a esperança de dias melhores para eles. Comovidos, nos
abraçamos; sua muleta caiu no chão, com um barulho estrepitoso, e o menininho começou a chorar. A algazarra foi tanta que
minha mulher acordou, assustada. Ao ver aquela criança fungando, ficou com pena, deu-lhe banho e trocou suas fraldas e roupas,
utilizando algumas que já não serviam em nosso filho há tempos. Em seguida, preparou uma mamadeira caprichada e colocou o
menino no colo, enquanto ele tomava o leite, dormindo em seguida.
A essa altura, eu e meu amigo já tínhamos jogado na goela algumas doses de um dos uísques que eu guardava na sala. Após
mais alguns instantes, eu saí, peguei o carro e os levei de novo para Moema, deixando-os em um lugar próximo ao que tínhamos
nos encontrado. Dei-lhe o número de meu telefone e pedi incisivamente que me ligasse no escritório de manhã, sem falta, pois
provavelmente alguma saída já teria surgido.
Na manhã seguinte, derrubado por uma ressaca monstruosa, fui para o escritório amaldiçoando minha dor de cabeça. O
telefone tocou, a secretária atendeu, pediu um instante e me disse que era Fulano, meu amigo de infância. Num átimo, apesar da
cabeça rodando, atinei que era ele, o da muleta e do menininho! Aí sussurrei para a secretária: “Diga que não estou e que não
devo voltar para cá nos próximos dias!”. Ela deu o recado, claro que com mais polidez, e eu saí para a rua. Desde então, carrego
comigo a vergonha da minha mentira e, principalmente, da vacilada do meu caráter. Ele? Não telefonou mais.
Esse era eu antes de abandonar a bebida. Em parte, ainda sou, ostentando em minhas atitudes o mesmo grau de ansiedade
que me fez propor uma parceria com o álcool para amenizar, como um remédio, minha agonia permanente. Ter paz com esse
padrão de arrogância, vaidade, parcialidade e egoísmo, entre outros atributos negativos que nem vamos citar, é inviável.
Conseguir manter a serenidade e o equilíbrio de percepção indispensáveis para enxergar a vida e quem sou dentro dela com mais
nitidez exige uma disposição real de detectar os delírios e as trapaças psíquicas que povoam a existência, e, para isso, nada é
melhor do que os 12 Passos de Alcoólicos Anônimos (AA).
Como já comentei, entreguei os pontos porque a aflição da dependência ficou insuportável, e o sofrimento de cada minuto
desgovernado e ao “Deus dará” do acaso terminou com minha resistência, deixando a mudez acabar com a tagarelice desconexa
de uma mente que não sabia quem era, por que existia e o que queria. Então, no dia 1º de maio de 1988, fui ao mesmo Grupo
que tinha ido com um amigo muitos anos antes, mas, dessa vez, não fugi. Ingressei a sério na irmandade e, de lá até os dias de
hoje, nunca mais bebi um gole sequer.
Não foi fácil. Aliás, foi muito, muito difícil mesmo. O álcool tinha se tornado o elemento preenchedor dos meus vazios, os quais,
sem ele, ficavam ainda mais patentes e gritavam internamente para que eu os embriagasse e diminuísse o enorme vácuo
existente no espírito.
Contudo, mesmo com a sensação intermitente de confusão e falta de indicações para um melhor norteamento, continuei
frequentando o Grupo. Paralelamente, comprei e li toda a literatura de AA, que, ao contrário do que se pensa, é bem vasta,
abordando todas as situações possíveis no cotidiano de um alcoólico (alcoólatra, etilista, é tudo a mesma coisa) e apresentando
uma compilação dos erros e acertos de centenas de milhares de membros do AA desde o seu início, em 1935.
De lá para cá, entre as muitas atividades que me ajudaram de verdade, está a de acompanhar o 5º Passo, ou a colocação
verbal que o dependente em recuperação faz para outra pessoa, particularmente, a respeito das mazelas, deficiências e defeitos
de caráter que recolheu em uma autoanálise. Do primeiro momento da abstinência até hoje, participei desse passo como ouvinte
de mais de cem vezes, tanto com companheiros de irmandade como com internos de clínicas especializados que também utilizam
o Programa. Ver o funcionamento da mente do alcoólico em tantas versões diferentes, algumas só tendo em comum o descontrole
com o álcool, me fez notar aspectos e condicionamentos da minha cabeça que até ali eu sempre tinha negado pela
racionalização.
Então, comecei a elaborar, bem lentamente, o que seria o conteúdo do meu 4º Passo, o desmembramento dos vários
personagens caricatos que se moviam dentro do meu cérebro como se fossem eu. Esse é um trabalho que começa, mas não
termina para ninguém, porque é inacreditável quantas historietas e fábulas um homem pode criar para continuar bebendo sempre,
apesar do castigo social do isolamento e dos valores chamados morais com que é julgado! Lógico que eu sou mais um “fuçador
de interiores”, a começar pelo meu próprio, e não me arrependo de ter entrado com tudo nessa dinâmica de olhar e reolhar minha
alma, percebendo sempre aqui e lá mais uma sujeirinha que acorrenta meu espírito e agindo para manter limpa a essência de
quem sou.
O AA, como um organismo vivo que se move e se consolida pelo entendimento de suas propostas, volta e meia desenvolve
contradições provocadas por interpretações pessoais equivocadas de seus princípios, e muitos membros acabam prejudicados
por assumir posicionamentos enganosos em cima de sua própria visão individual. No começo, isso me incomodou, mas a
orientação de companheiros veteranos de quem me aproximei sempre me fez ficar, nesses casos, com o que a literatura dizia, e
ter tomado essa atitude ajudou muito o caminho da recuperação.
Minha sorte foi não contestar nada: aceitei tudo sem reticências, não banquei o inteligente cheio de arrogância e ilusão de
superioridade, recusando-se a concordar com aquela certeza idiota de que poderia encontrar outras respostas, opção constante
na descrição de recaídas de todos os tipos e em todos os lugares.
Isso não quer dizer que gerenciei uma realidade totalmente de pernas para o ar sabiamente. A insegurança e a irritação eram
constantes. Mesmo sem beber, a vida estava difícil. Insuportavelmente chato e negativista, eu exasperava minha mulher com
minha amargura e meu pessimismo quase permanentes, causando na relação um estrago quase sem volta. Mais uma vez, o
Poder Superior me tirou da gelada, porque, mesmo com o clima ruim, o afeto falou mais alto. Começamos uma terapia de casal
que possibilitou consertar alguns desvios de rota.
Ao mesmo tempo, minha esposa retornou ao Al-Anon, que ela já conhecia, mas não frequentava, e encarou sua codependência
para valer. Isso permitiu que retomássemos e aperfeiçoássemos nosso diálogo, aprendendo a ser claros, francos e espontâneos
um com o outro. Logo a situação começou a melhorar; as discordâncias passaram a ser administradas, e a liberdade de cada um
ser como é tornou-se gradualmente o ponto-chave de nosso “sistema” particular de comunicação.
É importante dizer que me aprofundei nos meandros do Programa, tanto no que diz respeito ao trabalho de crescimento
individual, expresso nos 12 Passos, como no trabalho de aceitação, cooperação e integração de cada um com os variados níveis
de relacionamento comunitário e vice-versa, seguindo as sugestões do que denominamos as 12 Tradições. Graças a esses
ensinamentos e ações, me tornei um indivíduo muito mais útil, cordial e amoroso para com meus companheiros de grupo, minha
família e também aqueles que convivem comigo na cidade em que resido, no trabalho e nas várias atividades sociais de que
participo.
E vejam: eu, que no começo da sobriedade ia uma ou duas vezes por semana ao Grupo, hoje vou todos os dias, ou quase
todos, descobrindo sempre horizontes novos e interpretações mais refinadas das minhas próprias percepções, alargando a
abrangência do que vejo e penso e me afastando de qualquer tendência ao fanatismo e à cristalização de opiniões.
O Programa dos Anônimos, para mim, é muito mais do que um sistema para garantir a temperança e a abstinência. Essas, por
si mesmas, não dizem nada. Meu desafio não está no fato de que não posso beber, e sim no poder adquirido de “poder não
beber”. Isso transforma completamente a ideia de proibição em opção de escolha, o que faz toda a diferença para aqueles que
estão na mesma posição que eu.
Hoje, o cotidiano consiste em tornar ainda mais claro para mim o enorme potencial de felicidade contido além dos delírios
egocêntricos que ilusoriamente compõem o mundo concreto.
O Programa dos Anônimos facilita muito.
Com a abstinência e sua sequência, deixei de ser uma pessoa que “precisava” beber, mas “não podia”, para ser alguém livre
para beber que escolheu a liberdade de não beber, o que era impossível com a doença a todo vapor.
Já sou veterano nessa irmandade de homens e mulheres que ganharam a liberdade de não querer beber e caminham, só por
hoje, como sugere um de nossos lemas, rumo a uma qualidade de vida e de consciência que não para de crescer. Eles me levam
consigo para um lugar mental sereno, grato e vigilante, apesar das armadilhas de meu ego insanamente inflado – tudo ao mesmo
tempo, instante a instante. Mas isso não é saber tudo sobre a recuperação, nem conhecer tudo e todos no AA.
O Programa dos 12 Passos e das 12 Tradições é muito amplo e complexo, exigindo de todos nós uma constante e apurada
investigação, para que destrinchemos os segredos de sua sabedoria pelo resto da vida.
Eu, que era uma pessoa desonesta emocionalmente, hoje compreendo muito melhor o que significa retidão e integridade. Ser
íntegro é ser inteiro. Definindo de outro modo, é não ser dividido internamente. Divisões geram tensão e instabilidade emocional.
Portanto, sem integridade, não há paz interior, muito menos autenticidade, que também se desenvolve a partir dessa virtude.
Integridade é pensar, dizer e fazer uma só coisa, ser coerente em todos esses planos, em uma harmonia entre nossos
pensamentos, atos e palavras. Significa ficar em paz, tendo optado por viver vidas transbordantes de verdade e se dispondo a
viver com total honestidade.
Ainda tenho altos e baixos, mas já consigo vislumbrar e até sentir a chegada de uma nova liberdade e alegria. Não tenho mais
necessidade de esconder o meu passado, nem quero esquecê-lo inteiramente.
Os resultados do trabalho sobre mim mesmo mostram, como fizeram e fazem com muitos na irmandade, que não importa muito
até onde vai o fundo de poço que alcancei. Seja o que for, ele também dá e dará a experiência para beneficiar outros portadores
da doença. Sumiram, inclusive, as sensações de autopiedade e inutilidade que me acompanharam por anos. O interesse egoísta
pelas coisas também está desvanecendo, sem ter mais forças para comandar o jogo.
Hoje, me interesso especialmente em ajudar meus semelhantes, conversando com eles sobre minhas inseguranças e sobre o
medo de pessoas que tanto me feriram e paralisaram na época do alcoolismo ativo, mas que, agora, são apenas traços frágeis da
memória. Ainda não consegui inteiramente mudar minha atitude e meu medo antigo de enfrentar a vida, mas negocio com os fatos
de maneira muito mais eficiente, e a neura da insegurança financeira é só uma pequena preocupação. Não estou lutando contra
nada, nem evitando as tentações.
O autoconhecimento me colocou, assim como a muitos outros, em uma posição de neutralidade, com segurança e proteção. Os
problemas aparentemente sem solução se equacionaram ou sumiram. O certo é que não existem mais para nós.
Sem medo nem orgulho doentio, vou tranquilo pela estrada, porque já percebi que, se eu entregar tudo nas mãos de Deus
(naturalmente, da forma em que O concebo), as coisas que não conseguir realizar sozinho, Ele se encarregará de fazer, e Sua
solução sempre será muito melhor do que aquela que eu imaginava.
De maio de 1988 até o presente instante. Esse é o tempo – quase 30 anos – que estou sem beber, reorganizando a minha vida
e lhe dando um ritmo do tamanho que é sensato. O executivo morreu faz três décadas, com a última maracutaia dos meus amigos
para me deixar-tirar do jogo. Depois, não deu mais. Como autônomo, abri uma revenda de produtos químicos que gradualmente
deixou de ser uma boa maneira de viver. Dei mais uma virada e me tornei aquilo que sou até hoje: um fornecedor de empresas de
serviços, razoavelmente bem remunerado, com uma bela casa própria. Caminho a passos largos, mas bem medidos, em direção
aos desafios da aposentadoria.
O Programa dos 12 Passos e as 12 Tradições continuam aqui, comigo, firmes, me indicando, por meio de frases curtas e
incisivas, as melhores rotas para enfrentar as loucuras internas e externas da vida. Graças a isso, sou alertado para verdades que
emoções mais intensas me fazem esquecer, tipo “viva e deixe viver”, “primeiro as primeiras coisas”, “evite o primeiro gole só por
hoje”, “a honestidade é a melhor forma de vida”, “ação é a palavra mágica”, “a aceitação é a solução”, “não se leve muito a sério”,
“tome decisões completas”, “ninguém começa por cima” e o mais objetivo de uma infinidade de princípios popularizados, que diz,
simplesmente, “pense”.
Além de descrever com precisão o que fazer para não cair nas malhas de um ego atrapalhado como o meu, o Programa dos
Anônimos me permite acessar um cabedal inigualável de sabedoria pragmática, me equipando para enfrentar as loucuras internas
e externas da vida. E eu sigo em frente, sempre mais grato do que antes – pois meu entendimento também aumenta dia a dia – a
esse Poder Superior, que acredito ser Deus, e à misericórdia, ao amor e aos ensinamentos que irradiam pela linguagem do
cotidiano.
Todos os meus companheiros de irmandade, familiares, amigos e conhecidos do mundo me chamam de Lutt, e eu sou um doente
alcoólico. Bebi durante décadas e estou em recuperação desde 2001, graças ao programa dos Anônimos, uma passagem por
clínica especializada e trabalhos com diversos psicólogos “avulsos”. Estou prestes a completar 78 anos de idade, e, hoje, tudo vai
bem comigo. Minha vida segue um ritmo normal, com percalços, pequenos perrengues de saúde e também êxitos, inclusive na
tarefa de ajudar outros dependentes químicos, tanto do álcool como de outras drogas, em seus caminhos de recuperação.
Quem me vê (já disseram isso), na maioria das vezes, não consegue imaginar as estradas que segui no desenvolvimento da
doença. Tenho características que me acompanham desde a juventude, comportamentos que talvez sejam resultantes da criação
e do jeitão familiar. Sempre fui uma pessoa, se não fechada, com certeza calada, econômica em palavras, embora não
exatamente travada nem depressiva. Talvez por meu “comedimento corajoso” – ponderação natural, mais ousadia regada á álcool
–, sempre ocupei posições de liderança na comunidade estudantil e em todo seu entorno social, bem dentro do conceito de “rapaz
popular”: bem visto, simpático com todos e para todos, sempre à frente de eventos festivos, comemorações, homenagens a
pessoas ilustres da cidade, etc.
Em 1958, recém-formado no então curso secundário, meu namoro com minha mulher atual (aliás, a única que tive) ficou sério o
suficiente para pensar em casamento e decidir fazê-lo, um pouco pelo entusiasmo dos dois, já que as condições financeiras de
ambos, ainda estudantes pré-universitários, não tinham folgas que facilitassem as consequências naturais – despesas, etc. – de
um matrimônio. Nos casamos em 1960 e viemos para São Paulo, ambos com o objetivo de ingressar na universidade, fazer um
curso superior e assegurar, assim, melhores oportunidades profissionais de crescimento.
Depois de algum tempo, consegui também um emprego como funcionário público estadual, visando sustentar a família que se
iniciava. Foi uma experiência decepcionante que posso resumir em uma frase: ganhava muito mal e não fazia nada. Para acelerar
ainda mais minha doença, consegui um cargo de prestígio, até com carro oficial me trazendo e levando todos os dias para casa.
Mas o salário não correspondia à pretensa importância da função, e eu, que já não fazia nada, passei a fazer menos ainda. Assim,
continuei com meus bicos aqui e ali, dando aulas, fazendo pesquisas, complementando do jeito que dava os ganhos para cobrir as
despesas domésticas.
A grande novidade da época diz respeito à faculdade. Entrei em economia, na Universidade de São Paulo (USP), mas não a
frequentei quase nunca, afinal, eu precisava de tempo integral para vivenciar melhor o “etilismo cultural” da época, presente em
todos os botecos próximos às instalações.
Isso não significa que não aprendi nada: consolidei minha predileção pela cachaça, lhe dando na hora da ingestão prioridade
total sobre qualquer outro tipo de bebida. Isso foi importantíssimo, pois passei a fazer parte de um grupo de intelectuais – ou
“intelectualoides” – inconformados com o status quo da política brasileira no início nos anos 1960 e estudiosos imaturos, mas
adeptos barulhentos, das proposições das filosofias materialista e marxista-leninista, uma coqueluche estudantil comum na
“esquerda festiva” em cada um dos seus surgimentos cíclicos.
E aí veio a “Revolução” de 1964, ótimo motivo para não assistir à aula alguma do currículo e continuar na minha
“clandestinidade pública”, toda noite calibrado, discutindo estratégias e questões de ordem, em uma desordem típica de alguém
sem objetivos próprios, que vai durando, durando, à espera de um Godot que lhe diga para onde ir, lhe dê algum sentido,
liberando a psique da prisão representada por horizontes muito curtos na prática.
Minhas ausências da faculdade continuaram até 1969, com uma participação que se resumia na renovação de matrícula e um
ou dois cursos avulsos, que não significavam compromissos de longo prazo e diminuíam um pouco minha sensação de
“passeante” nas lides universitárias. Foi então que alguém resolveu analisar com alguma seriedade o comparecimento dos alunos
e mandou um ultimato para o time dos “fantasmas”, intimando-os a comparecer na diretoria e regularizar, seja lá o que fosse isso,
sua situação. Não vi importância no fato, o que me levou a ser jubilado com “meus semelhantes” de modo quase sumário, sem
grandes embromações. Mas minha passagem pela faculdade de economia deixou marcas na realidade cotidiana.
Um dos meus conhecidos de lá, por essa época já tinha se formado há algum tempo e era professor em uma faculdade de
economia particular, mas conceituada por sua qualidade. Sei lá por que – talvez eu passasse, com meu jeitão lacônico, uma ilusão
de seriedade –, ele me convidou para dar aulas, o que aceitei sem largar o funcionalismo público. Em pouco tempo, passei a fazer
nada em dois lugares.
Todos sabiam onde me encontrar nos fins de tarde – em um barzinho próximo do meu “novo emprego”, sentado em uma
mesinha, junto a um professor de matemática que também enxugava bem, os dois jogando prosa fora entre um lance ou outro de
uma partida de xadrez – havia um tabuleiro – que começava e acabava como um acontecimento supérfluo, pois claramente
estávamos lá “obedecendo a instâncias superiores” de nossos cérebros, nos quais o álcool era uma presença frequente, pelo
menos naquelas horas.
Em 1974, outro broto de minha semeadura nos tempos da faculdade surgiu, da mesma maneira. De repente, do nada, um antigo
companheiro de classe, do 1º ano de economia, também formado, ficou responsável pela criação de uma empresa para que a
Secretaria da Fazenda negociasse e comercializasse títulos do governo, mas sem a morosidade vigente nos órgãos
eminentemente públicos. Logo me convidou para ser o administrador do empreendimento, o que topei prontamente.
Fiquei 19 anos nessa organização, ocupando a posição mencionada e realizando de maneira eficaz os serviços que me
competiam. Mas aí – aliás, desde 1970 –, minha maneira de beber começou, de modo gradual, a me comprometer mais
seriamente, até porque, no mercado de capitais, os drinques faziam parte ativa do status, sendo considerado normal um
pilequinho de quando em quando, mesmo que acompanhado de um inconveniente ou outro, desde que não escandaloso demais.
Paralelamente a isso, em 1982, minha filha, já uma jovem mulher, decidiu fazer a faculdade de direito. Para estimulá-la, comecei
a estudar as matérias do vestibular com ela. Aproveitei também para me inscrever e participar do exame; ao ver meu índice de
acertos, descobri que tinha conseguido ingressar na famosíssima São Francisco, pertencente à USP, e repeti a dose.
Disse “repeti” porque, exatamente como na faculdade de economia, simplesmente não cumpri o currículo obrigatório, já que a
prioridade continuava sendo a bebida. Para não dizer que não aprendi nada, fiz várias matérias e cursos da faculdade e da Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB), como medicina legal, direitos autorais, estágios e tudo o mais. Contudo, não cumpri nunca o que
pedia o currículo em termos de conteúdo e, nove anos de ausências e embromações depois, em 1991, fui novamente jubilado.
Devo ser um dos raros indivíduos que, após obter duas vezes a chance concreta de se formar pela USP, jogaram ambas as
oportunidades pela janela, sem se formar em nenhuma.
Enquanto isso, a vida foi continuando, eu sempre fiel à cachaça, e a fama de bebedor permanente aumentando.
Assim, a história de viver calibrado passou de fofoca a fato, e todos sabiam que, no fim do expediente – e, algumas vezes, cada
vez mais constantes, antes –, eu estaria no “escritório nº 2”, um barzinho, fazendo hora extra até ir para casa bem mais tarde,
quase sempre muito bêbado, falando pastoso e trançando as pernas, o que, é claro, não agradava nem um pouco minha mulher
nem meus filhos, embora minhas reações diante das queixas nunca tenham sequer se aproximado da violência física ou verbal.
Mas as marcas foram ficando cada vez mais acentuadas, principalmente no relacionamento com minha esposa, cujo histórico
psíquico e emocional sempre a predispôs a intransigência e manifestações de contrariedade bastante fortes, levando a
estremecimentos significativos na relação, muito embora sua codependência (que não conhecia por esse nome na ocasião) e
minha habilidade de manipulação levassem à amenização do clima e até à volta da cordialidade entre nós.
Em 1992, com o advento da era Collor, os resultados financeiros da empresa despencaram e, apesar de a equipe ter esperado
pacientemente uma melhora que não veio, acabamos obrigados a fechar as portas. Acompanhei até o fim as atividades, com o
alcoolismo cada vez mais a mil.
Um exemplo? Fui fechar a filial do Rio de Janeiro, que tinha uma série de picuinhas a resolver, e levei para me auxiliar um
funcionário evangélico, que eu desdenhosamente chamava de “crente”. Na hora do jantar no hotel, cismei porque cismei em
convencê-lo a beber, embora soubesse que ele era abstêmio. Insisti por horas, inclusive o ameaçando e diminuindo por suas
crenças, mas ele não bebeu. No dia seguinte, a seco, não continuei a torturá-lo, mas até hoje me lembro da minha agressividade,
intolerância e arrogância com um subalterno, e tudo por nenhum motivo a não ser a pretensão de ser dono da verdade, o
“Napoleão manicomial do pedaço”, recusando-me a descer do pedestal construído sobre garrafas.
A mania de onipotência e a interiorização do personagem de doutor “sabe tudo” preconceituoso – principalmente quanto ao
aspecto cultural das pessoas e suas crenças religiosas – sem dúvida se tornaram a marca registrada deste pseudointelectual,
preocupado com sua aparência física, sempre arrumadinho em termos de vestes, mas esculhambado, medíocre e atordoado
emocional e psiquicamente.
Lembro também de diversos episódios em que minha “superioridade” mentirosa dirigiu meus comportamentos, provocando
atitudes de zombaria com relação à simplicidade de alguns funcionários subalternos, vítimas constantes de minhas grosserias
sobre suas crenças religiosas, e de pessoas que participavam de meu dia a dia indiretamente, como, por exemplo, os motoristas e
cobradores de ônibus que trabalhavam nas linhas que eu utilizava para ir ao serviço e voltar para casa, isso quase sempre
“mamado”, agressivo e com o rei na barriga, desqualificando sem nenhuma polidez suas ideias e maneiras de ver o mundo.
Hoje, vejo claramente que foi quase um milagre nenhum deles ter perdido a paciência comigo nem partido para as vias de fato,
porque aturar um bêbado e sua megalomania delirante é dose para leão, e eu muitas vezes ultrapassei os limites e invadi
aspectos íntimos da vida de incontáveis pessoas. Fazia tudo somente para impor como verdade minha opinião, mesmo quando a
qualidade dela beirava o deplorável.
Mesmo com a cara cheia, eu era – embora não saiba como – um funcionário competente, e acabei desenrolando o imbróglio
que a filial tinha se tornado.
Corria o ano de 1994, e voltei para São Paulo, onde, em 1995, me aposentei. Ficar em casa no sossego e no ócio do “dever
cumprido” não se mostrou uma boa alternativa para mim. A essa altura, o anormal era eu não estar bêbado ao fim do dia,
incomodando, discutindo e prejudicando as atividades de minha esposa, que advogava em um órgão público.
Um ano foi o limite para ela. Um dia, com 59 anos de idade e mais de 36 de casado, após um diálogo pesado, saí de casa, em
um claríssimo sintoma de pré-loucura anunciada, e comecei minha expedição para beber sossegado. Passei por várias pensões e
encontrei um porto seguro no apartamento que meu irmão, então morando nos Estados Unidos, mantinha nos Jardins, região
nobre da capital paulistana. Mudei para lá. Mas ficar sem fazer nada foi aumentando ainda mais o vácuo interior, o ceticismo e o
afastamento de propostas ou esperanças vinculadas à espiritualidade, que, para mim, naqueles dias, era o sinônimo de religião.
Fiz alguns concursos públicos, buscando algo para ocupar o tempo e lutar contra a sensação subjetiva de inutilidade. Em 1997,
consegui passar, dentro do número de vagas para início imediato, em um concurso da Justiça Federal. E lá fui eu de novo, agora
já em uma etapa mais avançada do alcoolismo, a mão tremendo quando não bebia e quase sem qualquer possibilidade de
controle. Sempre fiel à velha e boa companheira de aventuras, a pinga, eu então já bebia em todos os horários e vivia
integralmente meio alto, mole, sem iniciativas.
Mas mais uma vez, não sei exatamente por que, desenvolvi uma significativa popularidade no emprego, sendo claramente
estimado por colegas e também pelos chefes, que facilitavam não minha vida, como pensavam, mas a piora galopante de meu
alcoolismo. Por exemplo, me tiraram do balcão de atendimento a advogados porque, conforme me disseram, o bafo de cachaça
revelava meu estado etílico, prejudicando o que qualificaram como imagem do serviço.
E assim as coisas foram indo, eu sempre protegido pelos colegas, isolado em uma pequena sala ao lado da diretoria do Fórum,
graças à intervenção daquela chefe que se tornou minha amiga, mas seguia bebendo. Recebi várias sugestões de me internar,
todas descartadas por uma conveniente mudez quando se tocava no assunto.
Em 2001, extrapolei de vez. Tomei um porre de seis dias, sem avisar ninguém no trabalho. Comecei em uma quarta e só voltei
para o Fórum na terça-feira seguinte. Quando cheguei, o esquema estava armado. As assistentes sociais, depois de meu quarto
dia de sumiço, contataram minha família, que estava lá quando cheguei, nas pessoas de minha esposa e de meu filho. Então, fui
literalmente “convocado” a tirar uma licença e sair atrás de um tratamento especializado. Senti que a coisa estava feia.
Minha mulher me levou a uma clínica renomada, que desenvolvia um trabalho aliando o programa dos anônimos, que eu
desconhecia completamente, a técnicas terapêuticas e acompanhamento médico e psicológico. Sem muita alternativa, com a
família e a chefia fazendo pressão, acabei convencido, depois de muito espernear, a ficar lá pelo tempo necessário. Isso ocorreu
em 17 de julho de 2001, dia que guardo como divisor de águas entre a morte de meu corpo e espírito, não sei qual dos dois
primeiro, e a possibilidade de recuperar a saúde psicológica e retomar minha busca de qualidade de vida.
No período em que fiquei internado, aprendi as características e a mecânica de funcionamento dessa doença cerebral letal para
a sanidade e mesmo para a sobrevivência de dezenas de milhões de seus portadores em todo o mundo. Além disso, compreendi,
mesmo com os comportamentos condicionados para continuar bebendo, que essa opção não existia mais, pelo menos para mim.
Embora em aparente contradição, por um bom tempo essa consciência não foi mais forte do que a compulsão pela ingestão do
álcool. Mesmo sabendo para onde apontava o fim da história, durante meses continuei bebendo diariamente, conseguindo apenas
controlar a quantidade. Isso mostra a enorme dificuldade que representava lutar permanentemente contra a força das gravações
mentais da doença, que queria continuar até a bebedeira, como acontecia antes da minha internação. E eu estava fazendo tudo:
indo a Alcoólicos Anônimos (AA), acompanhando as reuniões de manutenção da clínica e frequentando sessões periódicas com
psicólogos, além de ter “pedido água” para minha família e retornado para casa, depois de engolir o orgulho e ter solicitado que
me aceitassem de volta.
Gradativamente, já que estava desintoxicado pelo tratamento da clínica, que me reequilibrou do ponto de vista físico, fui me
livrando da obsessão mental. Não saía mais com os bebuns que eram figurinhas carimbadas; voltava direto para casa, porém,
antes de subir no ônibus e, algumas vezes, no meio do percurso, entrava em uma padaria ou em um boteco do caminho e tomava
uma única dose, sempre de aguardente.
Um dia, finalmente, saí do trabalho, passei pela padaria e decidi não beber nada. Peguei o ônibus, desci perto do Grupo de AA,
assisti à reunião e fui para casa. Era dia 2 de junho de 2002. Nunca mais bebi. Decidi também parar de ficar sofrendo, cheio de
ressentimentos e autopiedade, como tinha ficado durante meses após a internação. Entrei de cabeça na programação dos 12
Passos, voltando o olhar para meu próprio interior e definindo o que era verdade e o que não era.
Uma análise contínua e aprofundada do que eu pensava ser revelou a existência de mentiras, projeções, encobrimentos de
minha insegurança como ser humano e, não obstante uma lógica de ateu, um medo profundo e contínuo da possibilidade de que
aquele Deus clássico, irado e vingador, pudesse existir de fato e me castigar pela minha postura materialista e pelas ironias
dirigidas a seus seguidores.
Lentamente, digladiando comigo próprio e vencendo confrontos internos de todo tipo, fui limpando a casa até enxergar o que era
realmente minha essência. Percebi, nesse processo, que minha arrogância, pretensão de superioridade e orgulho só
representavam um grande receio de que os outros vissem minha limitação de percepção, meu egoísmo cavalar e minha
megalomania ridícula, sem o mínimo fundamento, uma estratégia de fuga superutilizada para driblar situações que pudessem
denunciar minha incompetência emocional e minha incapacidade de me observar com clareza.
Esse processo de auto-observação permitiu, via ensaio e erro, que eu identificasse falhas e defeitos de minha personalidade.
Quando a gente se vê com honestidade, sem querer tapar o sol com a peneira, e não gosta do que enxerga, um pouquinho de
lucidez já basta para iniciar uma reforma interna, aprimorando sua consciência e compreendendo que a sobriedade passa
inevitavelmente pela serenidade; esta, por sua vez, só vem com a aceitação daquilo que a gente de fato é, somada à
determinação de fazer todo o possível para chegar ao que se pode ser. Isso, aliás, é uma excelente explicação do que seria viver
com humildade, sem permitir que a inércia acorde o fantasma da auto-humilhação.
A sabedoria da “colcha de retalhos” que une variadas propostas da filosofia perene é o grande atributo do programa básico dos
Anônimos, que hoje atende um montão de irmandades focadas em vários tipos de compulsão e transtornos, obtendo resultados
eficazes, mas não infalíveis, que dependem de uma série de quesitos para assegurar a alguém sobriedade permanente.
As doenças cerebrais, como o alcoolismo, tecem uma infinidade de armadilhas, e, se a vigilância do dependente em
recuperação para se aprimorar continuamente for relaxada, a obstinação em repetir o modelo antigo tornará inviável a modificação
do que precisa ser alterado – que fatalmente será aquilo que lhe diz respeito exclusivamente, já que ninguém pode fazer pelo
outro alguma ação de conscientização da qual aquele não participe.
Nas reuniões, os princípios que representam instantes para aplicação do programa em circunstâncias específicas são
comentados em linguagem cotidiana, mas poeticamente objetiva, traduzindo em expressões do dia a dia direções para a
administração de problemas afetivos, profissionais, familiares e até mesmo grupais. Eu gosto muito de alguns deles, pois me
ajudaram bastante na tomada de resoluções difíceis. “Siga seu próprio caminho” é um exemplo; outro é “Evite o primeiro gole só
por 24 horas”; um terceiro é “Primeiro as primeiras coisas”, e assim por diante, com inúmeros comentários para nortear nossas
ações em todas as horas.
Meu orgulho morreu quando vi uma pessoa modesta, falando em um Grupo da cidade em que meu pai mora e que eu visitei de
passagem, colocando em palavras simples, mas com exatamente o mesmo conteúdo e significado, os mesmos aspectos da
espiritualidade que eu acabara de ouvir, aqui em São Paulo, de um filósofo religioso conhecido nacionalmente.
O estado de graça em que essa partilha me colocou me ensinou a insignificância dos rebuscamentos intelectuais na expressão
das verdades da alma, aquelas realmente vitais, além de crenças e de credos.
Hoje, vivencio um Poder Superior (terminologia típica dos Anônimos) horizontal, que se manifesta e rege todas as coisas, e sei
que as estradas que se dirigem ao amor e à solidariedade, quando se voltam para a espécie humana, são todas rotas válidas,
com mais ou menos curvas, para o objetivo final da vida, que é a obtenção da consciência plena.
Mas isso é minha maneira de ver as coisas. No programa, existem muitas outras, desenvolvidas por pessoas que frequentam as
reuniões ou apenas conhecem de diversas maneiras o conteúdo delas, e aceito com respeito todas, sem exceção.
Minha vida, hoje, se desenvolve com trabalhos de divulgação dos princípios das irmandades para o público em geral, abrindo,
por meio da informação, portas para dependentes químicos do álcool ou de outras drogas que desconhecem o funcionamento de
sua doença, em encontros e reuniões de apoio em hospitais, clínicas e equipamentos médicos que atendam casos referentes a
esse problema.
Estou desde 2002 auxiliando os pacientes da mesma clínica em que iniciei minha recuperação a compreender objetivamente as
trilhas da doença também nas etapas finais do tratamento, acompanhando seus esforços de observação de si próprios e lhes
dando alertas no caso de “bebedeiras secas”, que são o caminho das recaídas.
As coisas que fiz, graças ao papel que desempenharam na minha jornada para o agora e para as ações que realizo hoje, não
precisam mais ser suprimidas e esquecidas, porque sei colocá-las em seu lugar e aproveitar positivamente sua experiência.
Conheci uma nova liberdade e uma nova energia, que atuam incessantemente empurrando minha vida para o melhor,
aprimorando meus atos e objetivos. Aquelas sensações de inutilidade e autopiedade desapareceram inteiramente. Não me
interesso mais por resultados egoístas e, melhor que isso, tenho interesse total em ajudar como puder meus semelhantes a
desfrutar de serenidade e qualidade de vida. De vez em quando, “balanço” em minhas imperfeições, mas elas não comandam
mais minha existência. Essas são apenas algumas das promessas de AA para aqueles que aplicam o programa em todos os
aspectos da vida. E estão fartamente cumpridas
O pessoal que lida com dependência química me chama de Marco, e ser identificado assim já está bom. A vida, para mim –
acredito que para todos –, tem altos e baixos, e descer e subir muitas vezes na existência não é de forma alguma uma novidade
na estrada. Minha dependência química cruzada – álcool, medicamentos, cocaína e outras drogas eventuais – aconteceu meio
que naturalmente, repetindo a história geral dos dependentes.
O início de tudo hoje está meio nebuloso na memória, e não lembro o dia exato do “evento de estreia”, nem qual foi exatamente.
Digamos, no entanto, que as coisas começaram a piorar quando cheguei aos 24 anos, época em que passei a tomar porres pe-
riódicos em uma frequência cada vez maior. Quando vi, minha maneira de beber estava bem mais intensa, deixando de merecer o
rótulo de “social”. Comecei a perder o prumo aqui e acolá, tomando porres eventuais, mas ainda mantinha, na maioria das vezes,
alguma compostura, sem participar de confusões e levando tudo na maciota, tipo “vamos nos divertir”.
Nesse tempo, me casei e separei rapidamente de minha primeira esposa, mas isso depois de engravidá-la, gerando, assim, o
primeiro filho. A relação acabou, e eu fui morar sozinho em um apartamento muito próximo da região em que cresci e passei toda
a adolescência, voltando a frequentar o bar da esquina e reativando recordações prazerosas, quase todas com lembranças do uso
de álcool. Foi quando um dos frequentadores do bar me apresentou a maconha. Na verdade, reapresentou, porque eu já a
conhecia, mas não era “um freguês” rotineiro.
Quando descobri que a união dos efeitos me fazia ficar esperto, solto e calmo – ou entorpecido – ao mesmo tempo, incorporei a
“fórmula” ao dia a dia. Passei a viver em um estado que era ótimo, pois me deixava “balão”, mas também limitante, porque a
“lombra” do duplo uso me apagava antes do fim do “expediente”, impedindo que eu curtisse boa parte do programa da turma. Daí,
entrou a cocaína na história, e o barato triplo se tornou um hábito permanente e costumeiro.
Eu usava as três drogas – álcool, Cannabis e coca – para ficar em um nirvana que, mesmo sendo artificial, era um nirvana. Elas
reduziam, junto com o senso de responsabilidade, a vontade e a disciplina, produzindo um pequeno caos que rapidamente se agi-
gantou e passou a representar problemas profissionais.
Mas não parei por aí. Experimentei heroína e gostei muito da experiência de “sair do corpo”, ir a outras dimensões e outras
loucuras, em que os devaneios do subjetivo ocupavam o espaço da realidade.
Ir trabalhar doidão, speed e delirante, faltar ao serviço, chegar atrasado a reuniões, ter atitudes desconexas e produzir nada ou
muito pouco não era exatamente a opção adequada para passar uma imagem confiável aos empregadores. Além disso, a
situação era agravada por uma incompetência promovida pela insanidade de me comunicar com o universo “careta”, o que
reduziu meus contatos só ao povo da “turma” – usuários como eu, cada um em sua viagem particular.
A princípio, eu, que tinha me formado em economia e trabalhava no setor de planejamento de uma multinacional do mercado
de marketing e merchandising, alcancei um sucesso profissional ímpar. Fiz campanhas de promoção superpremiadas e grandes
trabalhos de criação, localizando novos nichos e penetrando neles pioneiramente, bem antes da concorrência.
Tudo isso, é claro, literalmente muito louco, até que as drogas, que de início me ajudaram a propor caminhos novos para os
clientes, começaram a me travar, e a minha competência desapareceu, amortecida por consumo descontrolado de narcóticos,
álcool e maconha, cujo uso cada vez mais alucinado acabou me colocando na pior, sem condições para nada.
Menos de dois anos após o término de meu primeiro casamento, eu estava do jeito que o diabinho gosta: louco, altamente
ligado, passando pelas coisas com uma voltagem muito maior do que a necessária. Também estava, na mesma época, tentando
ficar mais com meu filho e criar um vínculo maior, mas era um enorme sacrifício, porque uns dois dias antes do encontro eu
precisava desacelerar, ficar sem usar, limpo, durante toda a visita. Porém, a maior parte do meu tempo estava louco, e todo meu
entorno era de usuários. Assim, cada vez que eu ia ficar com a criança, tinha também que me afastar de todos com quem convivia
diariamente, porque eram dependentes na ativa, como eu, e sentia um verdadeiro pavor de não aguentar o tranco e usar na frente
do meu filho, arrebentando de vez os frágeis laços que ainda mantinha com ele. Aí, após devolver meu filho para sua mãe, saía
correndo para usar, em uma espécie de surto entre Dr. Jekyll e Mr. Hyde – aquela história de duas figuras habitando o mesmo
corpo, com o “bonzinho” sempre alerta quanto à possibilidade de interferências do “mauzinho”.
Essa situação agônica de conflito interno foi minando minhas resistências, e comecei a me preocupar seriamente comigo. Tentei
parar com a coca e com a heroína – esta foi mais fácil, porque era mais difícil de encontrar, tinha um custo mais alto e, embora
estivesse usando assiduamente, não era algo colocado pela minha mente maluca como gênero de primeira necessidade.
Já sair fora da cocaína foi um sufoco, porque atuava em mim como “motor de arranque”. Sua ausência me tirava o pique,
fazendo com que eu ficasse meio abobalhado na fita, entorpecido pela soma dos efeitos da maconha e do álcool, sem nenhuma
contrapartida que me desse aquele diferencial de energia artificial que agilizava o corpo e o cérebro.
Por isso, minha abstinência da “farinha” era algo cíclico, que durava em média uma semana, até que o desconforto me
fragilizasse e eu voltasse ao uso para mais uma “bateria de loucuras”. Esse quadro me incomodava cada vez mais, trazendo
pensamentos negros de derrota definitiva e fim das oportunidades de ser feliz.
Mesmo nessas ocasiões de contenção, eu continuava a toda no uso das substâncias com as quais comecei tudo: o álcool e a
maconha, que jamais pensei em abandonar, de tão entranhados que estavam sensorialmente em minha vida.
A essa altura, minha mãe já tinha percebido o tamanho do buraco e, após tentar me ajudar sem resultados, foi conhecer o Al-
Anon, que imediatamente lhe deu um norte a seguir, dando um basta nos conselhos e choradeiras que me exasperavam e me
afastavam mais dela, não obstante enxergar suas intenções.
Em uma hora em que eu estava bem ruim, sem eira nem beira, já há algum tempo sobrevivendo com a pouca grana que minha
mãe me passava para garantir minimamente a sobrevivência, ela interrompeu o caos mental do meu desespero e perguntou se eu
precisava de ajuda.
Essa intervenção me fez pensar, e muito. Eu já estava um insano de carteirinha, usando muitas drogas injetáveis, e tinha
aprendido também a destilar cocaína para colocar direto no cano – gíria comum dos usuários para se referir às veias. Os
traficantes usavam minha casa para estocar seus produtos e “racionalizar” as vendas. Eu, no meio de tudo isso, ou estava loucaço
ou muito deprimido, um estado que ficou comum após cada uso.
Então, quando perguntou se eu queria ajuda, minha mãe teve a melhor atitude possível em relação a mim. De repente, caiu a
ficha: eu não ia conseguir sozinho.
Fui à reunião de Alcoólicos Anônimos (AA), enquanto ela ia ao Al-Anon, que ficava próximo. Lembro que os AA pareciam
marcianos, personagens de uma peça de teatro! Eu estava com muita vontade de beber, mas fui ficando, conhecendo pessoas.
Não demorou muito para me identificar com alguns membros, ver gente com problemas semelhantes. Paralelamente ao AA,
comecei a fazer também outras atividades, indo a um psiquiatra, conhecendo os trabalhos de prevenção do Hospital das Clínicas,
visitando outros grupos da irmandade. Tentei ocupar o tempo integralmente com atividades que tivessem a ver com a
recuperação. Estava com muito medo de mim mesmo.
Os dias foram passando, e eu fui entendendo melhor a espiritualidade tão mencionada nos 12 Passos e tantas vezes sugerida
para auxiliar a equacionar coisas que aparentemente não tinham solução. Eu já tinha um pé nisso. Era membro de uma
comunidade católica, praticava caridade, conhecia a teoria apostólica, até liderava as atividades de outras pessoas, mas andava
em um universo em que predominava aquilo que as religiões diziam. Eu não tinha percebido o que era a espiritualidade para o
Programa dos 12 Passos. Tudo era muito longínquo, e eu tinha um medo pavoroso de cair nas tentações da minha própria
cabeça, ter dinheiro no bolso, essas coisas.
Um dia em que estava mal, angustiado, conversei direto com Deus, pedindo que me desse mais uma chance, me livrasse das
drogas, me permitisse ser feliz sem elas. Foi minha primeira prece espontânea, sem ritualísticas, direto do coração. No outro dia,
já fui ao AA com outra cabeça, vendo as coisas de modo mais abrangente, assimilando bem mais o conteúdo dos depoimentos e
a melhora das pessoas, o seu sucesso como seres humanos. Também me municiei com conhecimentos, indo assistir mais
temáticas, me aproximando dos veteranos e aceitando, quando me sugeriram, coordenar uma reunião por semana.
Foi um aprendizado intensivo. Quando venceu o prazo do “mandato”, o Poder Superior estava atento, e recebi meio do nada
uma proposta de trabalho. Imaginem! Eu, que já não conseguia colocações há muito tempo, estava voltando ao mercado! O
emprego não era grande coisa, mas era um emprego – o dinheiro ia entrar, poderia me sustentar, mudar tudo!
E lá fui eu, agradecido a Deus, conforme o concebia, me dedicando com afinco à empresa, conhecendo outros profissionais
dentro dela e desenvolvendo, fora do expediente, campanhas de promoção que um colega achou muito interessante, vendeu para
uma empresa e abriu um canal que, seis meses depois, era a nossa empresa, vendendo o nosso talento e divulgando nosso
nome e trabalho no mercado. Rapidamente prosperamos, ganhamos muitos prêmios importantes e desenvolvemos cases de
absoluto sucesso para nossos clientes, cujo número não parava de aumentar. No caminho, ainda obtive outro título universitário:
me formei em promoções e marketing em uma faculdade de excelente reputação, me aparelhando ainda melhor para crescer e
chegar lá.
Eu estava a milhão, trabalhando sem parar. Foi quando conheci, no próprio meio profissional, a mulher que foi minha segunda
esposa e também a mãe de meu segundo filho. Ela tinha certas características que preocuparam meus companheiros de
irmandade, e, como tínhamos por princípio conversas francas, eles manifestaram sua estranheza com minha escolha, que
acharam precipitada.
Eu ainda era orgulhoso e arrogante, principalmente na ocasião, quando me tratavam como figurinha carimbada do álbum,
alguém raro e especial. Torci o nariz para a opinião dos companheiros e optei por me afastar inteiramente do Grupo, já que minha
quase mulher não suportava sequer a presença deles.
A empresa continuou crescendo e, em determinado momento, tínhamos oito filiais pelo Brasil. Minha vida se transformou em
uma correria desatinada e, sem o trabalho que desenvolvia no AA, o vazio voltou e ficou aqui dentro, gritando sua agonia e
ausência de rumos. E mais uma vez asfixiou minha alma. Em vão tentei resolvê-lo viajando pelo mundo, me separando da minha
mulher e me casando pela terceira vez, ou mesmo quando retornei às atividades espirituais da comunidade católica, dessa vez
sem os Anônimos e seu programa.
Sem observar a mim mesmo e, consequentemente, sem vigilância sobre meus defeitos e truques, acabei fazendo um brinde
com um dedinho de sangria, “achando porque achando” que estava protegido do perigo pela presença de outras pessoas da
equipe comunitária. Foi quando o alcoolismo – uma doença cerebral, não posso esquecer disso – pôs as manguinhas de fora e
fez rapidamente a situação se transformar em um retorno ao mundo etílico, que aconteceu comigo bebendo uns dias um pouco,
em outros mais que um pouco, depois uma garrafa inteira, em seguida um vinho e, para finalizar o recomeço, voltando
triunfalmente aos destilados.
Não, não retornei à cocaína nem às drogas injetáveis, mas o “recheio” da recaída foi mais do que o suficiente para abrir de novo
os portões do inferno. Depois de uma bebedeira no casamento de meu irmão, quando devia estar fazendo relações públicas,
atendendo os parentes distantes que aceitaram o convite e vieram prestigiar a festa, comecei uma nova queda livre, na qual o
paraquedas ameaçava não abrir.
O álcool não perdoou nem minha relação com minha mulher, que era uma pessoa muito legal e altamente sintonizada com meu
ritmo. Durante os anos de abstinência em que estivemos juntos, a vida valeu a pena, e tenho excelentes recordações de tudo.
Mas o alcoolismo não brinca em serviço, e mais uma vez provocou uma derrocada dos negócios, me fazendo perder tudo que
havia conquistado com o capital de meu talento e desempenho.
Mudei para um, digamos, miniescritório em Moema, e as burradas e loucuras dos meus atos fizeram minha mulher perder a
confiança e deixar de trabalhar comigo, passando a cuidar de jobs de pesquisa, que eram sua especialidade. Eu? Bem, bebia
direto e, quando ela chegava em casa, já estava sempre bem para lá de Marraquexe, e nosso diálogo ficou perto de zero.
Aí me toquei que tinha chegado de novo ao fundo do poço, repetindo o estilo de sempre: destruindo e perdendo tudo. Dessa
vez, inclusive ela. Senti que era o bico do corvo, que o destino não iria esperar mais. Eu tinha que voltar ao AA, e logo. Pesquisei
na internet um grupo próximo de onde morava e fui até lá, péssimo, cabisbaixo, podre, morrendo de vergonha dos companheiros
por ter recaído – e, junto com o constrangimento, sentindo a vontade automática de apagar a situação colocando álcool, muito
álcool para dentro. Mas fui e humildemente pedi a Deus, o Poder Absoluto que concebo como o criador de tudo, outra chance, a
graça de outro retorno à sanidade.
Comecei de novo a trilhar a estrada. Minha mulher ficou comigo ainda um ano para me ajudar no esforço de recuperação e,
depois, foi embora. Com tristeza, admito que nossa relação realmente não era mais possível, pois a credibilidade que minha
imagem representava para a confiança dela tinha se diluído e desaparecido. Então, veio a lógica e nos separou, felizmente
deixando incólume o essencial, que é o afeto amigo.
Dói muito ainda, mas já sinto, lá no fundo, que tudo tem seu tempo certo.
Aprendi a ver o que é estar longe de Deus quando estou perto, e minha grande meta é encurtar essa distância o quanto der.
Tenho uma enorme carência que, às vezes, retorna sem nenhuma razão real. Os companheiros de sala são vitais para que eu
não só recupere, mas também mantenha, a sanidade, diante dos muitos desafios apresentados a cada instante.
Em meu processo atribulado, mas produtivo, de recuperação emocional, psíquica e espiritual, só peço isso: ter sanidade em
todos os minutos da existência. Eu aceito, para conquistá-la, todas as dificuldades do processo. O preço a ser pago pode parecer
alto, mas é muito menor do que o tormento de estar insano. Sei que a parte da vida que não entregamos ao Poder Superior, ou
que entregamos mas pegamos de volta, é a fonte de todas as manifestações da insanidade humana.
A dor ajuda a compreensão dos porquês da sabedoria. Hoje, graças a isso, me conheço muito mais profundamente do que
antes, muito embora viaje feio na maionese em algumas oportunidades. Nós, alcoólicos em recuperação, temos na literatura de
AA uma explicação extremamente fundamentada sobre quem somos, e os textos falam disso em uma linguagem que
compreendemos bem.
O Programa dos Passos e Tradições, hoje diretrizes de mais de 100 irmandades diferentes, diz que “a verdade está no simples”.
A recuperação nunca tem fim. Para a evolução do espírito humano, nem o céu é um limite.
Em maior ou menor grau, minhas dificuldades para viver bem são praticamente as mesmas enfrentadas pelo restante da
população do planeta. Claro que existem diferenças. Para nós, alcoólicos, um gole é muito e mil não são suficientes, como escuto
alguém frisar em muitas reuniões. A doença cerebral que temos é crônica, e beber, como espero ter aprendido definitivamente
após tantas cabeçadas, é sempre sinônimo de ruína material, física, emocional e, o que é pior, espiritual também. Toda vez que
isso aconteceu, virei um peixe caído de um aquário quebrado, asfixiado pela falta de ar de um ambiente sem Deus (e aqui
dispenso qualquer interpretação dogmática) e, consequentemente, sem sentido nem liberdade para descobrir e aceitar o novo que
brota dos instantes.
Para viver sem “brincar de avestruz”, tentando me esconder da realidade nas “fantasias líquidas” paridas pela minha imaturidade
e estreiteza perceptiva, preciso estar sempre atento com as armadilhas que indiscutivelmente virão, distorcendo meus olhos.
O nó górdio do problema é parar de evitar a nossa responsabilidade para com o instante, por meio de mergulhos chorosos ou
eufóricos no passado e de delírios positivos ou negativos relativos ao futuro. Quanto ao ontem, nada podemos fazer; já o amanhã,
nunca chega. Só resta, portanto, agir sobre o hoje, que é, objetivamente, o único lugar que podemos vivenciar no momento.
Os princípios para garantir isso estão enfileirados muito claramente nos 36 Princípios de AA. Alertando para os desafios diários
– “vá devagar, mas vá”, “primeiro as primeiras coisas”, “viva e deixe viver”, “pense”, “somente pela graça de Deus” e todos os
demais –, esses princípios são provas de que, quando dedicamos atenção excessiva a coisas que não podemos modificar,
desperdiçamos energias físicas, emocionais e mentais que poderiam ser utilizadas em ações mais úteis, que levassem ao
crescimento.
Afinal, não faltam frentes de combate contra tanta insanidade. Estacionamento do crescimento emocional, desonestidade
conosco mesmo e com os que nos cercam, insatisfação existencial por causa de ressentimentos não resolvidos, culpa,
autopiedade, egocentrismo, agressividade, onipotência neurótica, medos silenciosos, depressão cíclica e substituição do álcool
por outras drogas ou comportamentos nocivos são apenas algumas expressões da loucura na parafernália de consequências da
dependência química.
Eu não sou o único alcoólico que parou de beber e continuou sendo o mesmo bebê emocional da época da ativa. Na briga
comigo mesmo para aceitar ser de fato um alcoólico que não devia beber nunca mais, continuei por bolsões de tempo em
negação interna, admitindo meu problema apenas intelectualmente. Do ponto de vista psíquico, continuava o mesmo de sempre e
agia como um alcoólico na ativa, ainda que abstêmio – estado chamado, hoje, de síndrome da bebedeira seca.
Essa forma de neurose, mais comum do que deveria em alcoólicos que se conformaram em deixar de beber – o que foi meu
caso por anos –, constitui uma das principais causas de recaída.
Foi difícil para uma pessoa amarga como eu era compreender o Programa dos 12 Passos de maneira global, assimilando que,
além da recuperação física, psicológica e social, deve haver também uma recuperação espiritual. Isso só pode acontecer se o
alcoólico recuperar a fé – em si mesmo, nos demais, no mundo e em um Poder Superior que todos nós temos, incluindo os
agnósticos.
Foi duro admitir que meu ceticismo disfarçado era resultado da minha arrogância intelectual e de uma autossuficiência
existencial que, hoje, me parece ridícula, mas é comum a alcoólicos que conseguiram alcançar um bom nível cultural, financeiro,
empresarial ou de prestígio social.
Alcançar a sobriedade implica praticar qualidades como a liberdade, a responsabilidade, a honestidade e a humildade. Além
disso, é preciso estar determinado a manter a mente aberta e vigilante contra nossos próprios dogmas e preconceitos pessoais,
bem como manter um crescimento emocional progressivo e sem limites, que conduz ao objetivo final do tratamento: alcançar a
felicidade.
Ao aplicar os ensinamentos das 12 Tradições no meu próprio dia a dia, consegui modificar meus relacionamentos pessoais,
profissionais e sociais para muito melhor.
Por meio do espírito de consciência coletiva, deixei de guerrear contra as opiniões alheias, baixei as armas e me concentrei em
ficar atento para ouvir e entender o que diziam. Por fim, a vivência nos 12 Passos me fez aceitar que somos todos diferentes, mas
que, ao mesmo tempo, estamos ligados aos outros seres humanos pelo fato de estarmos aprendendo a lutar lado a lado, em vez
de uns contra os outros. Aprendi a ouvir e analisar sem rejeitar. Essa foi uma das maiores lições de vida que chegaram a mim
pelos 12 Passos.
Hoje, continuo sóbrio, tal e qual nos últimos 10 anos. Como estou sempre buscando aprofundar meu conhecimento de quem
sou, não consigo ver a fé como um modelo pronto, seja qual for. A fé não é uma aposta: é um ato, um movimento, uma intenção,
que segue e incorpora a cada instante o que a própria caminhada nos revela. É algo que faz saltar para o futuro, avançar, ir muito
além do que já se alcançou, arranhando uma noção ainda maior dos segredos e mistérios que compõem o todo. Mas, nesse
esforço, não perco tempo com o ontem ou o amanhã. Quero só me aprofundar no agora, pelas ferramentas de uma sabedoria
cujo limite não é o céu, mas o eterno – e o eterno, para mim, começa hoje.
Meu nome é Raimundo e sou um alcoólatra em recuperação.
Nestes 38 anos como membro de Alcoólicos Anônimos (AA), perdi a conta das vezes em que me apresentei assim, seja nas
reuniões de grupo na irmandade ou fora delas, em partilhas feitas em empresas, igrejas, hospitais, albergues e outros lugares
onde fui, com outros companheiros, tentar transmitir uma mensagem de esperança tanto a outros dependentes do álcool como a
seus familiares, já que o desalento, o desespero e a frustração são presenças constantes nas vidas devastadas direta e
indiretamente pela doença.
Sou de Fortaleza, no Ceará, radicado em São Paulo desde 1953, onde cheguei aos 22 anos de idade, sem ter nunca
experimentado uma gota sequer do álcool na vida. Tinha até uma antipatia sem muita explicação, misturada com desprezo, pelos
bêbados que via cambaleando ou caídos na rua e, durante minha adolescência, cheguei mesmo a ser cruel com eles, roubando
meio de arrelia seus sapatos ou mesmo alguns trocados que encontrasse no bolso daqueles que desmaiavam de tanta pinga
ingerida, e que não eram tão poucos assim.
Também guardo lembrança, embora meio enevoada pelo tempo, de desentendimentos de meu pai com minha mãe por causa
de bebedeiras dele, embora não me recorde de vê-lo levantando a mão ou sendo grosseiro nem com ela nem com os filhos. Era
um homem de grande força física, mas pacífico, calmo, bom de conversa e cordial.
Essas lembranças são assim indefinidas porque eu tinha na época entre 5 e 6 anos, já que ele faleceu quando eu tinha 8 anos,
deixando minha mãe com a responsabilidade de sustentar toda a família. Ela fez isso com muita fibra e até certa dureza, embora
seu carinho estivesse presente sempre que realmente necessário.
Mas a vida era muito difícil, e nos acostumamos a fazer o necessário pela sobrevivência, ameaçada por todo o tipo de carência.
Eu, por exemplo, aprendi a ler e a escrever sozinho, sem nunca ter ido a uma escola. E cedo, também, arrumei emprego para
ajudar no orçamento doméstico, melhorando um pouco a situação da casa.
Apesar de tudo, cresci e atingi a maioridade como qualquer outro jovem, alegre e cheio de energia, dançando nos forrós e
frequentando a boemia, tudo isso sem beber absolutamente nada. Então, quando tinha 22 anos e estava namorando sério, tendo
até combinado um noivado para breve, a garota com quem estava me relacionando de uma hora para outra desmanchou nosso
namoro e se mudou para São Paulo com a família.
Não aceitei muito bem aquela rejeição repentina e, após alguns meses, aproveitando o convite de alguns vizinhos que também
estavam de mudança para o Estado, larguei meu emprego e, sem dizer que o motivo era ver de novo a antiga namorada, falei
para minha mãe que estava indo para São Paulo a fim de conhecer a cidade e ganhar algum dinheiro, mas que voltaria dentro de
um ano.
Ela olhou para mim e disse que, se eu estivesse indo para reatar com a garota e casar com ela, podia me considerar
amaldiçoado por ela desde aquele minuto. Desconversei e disse que não, mas pragas de mãe, no Nordeste, são levadas a sério,
e, no fundo, fiquei com muito medo de me desgraçar inteiro se levasse meu plano adiante.
Mas era jovem, estava tudo certo para a viagem, e cheguei – parece mentira! – em 1º de abril de 1953. Minha ex-noiva veio me
ver com o pai e a mãe, que gostavam muito de mim, e, embora não tivéssemos reatado de fato, ficamos de namorico, meio na
base do “quem sabe”, “vamos ver o que é que dá”, etc. Então, na noite do mesmo dia, bebi pela primeira vez.
Na casa em que estava hospedado, tomei um copo de cerveja preta e, em seguida, outro de caipirinha, que para mim foi uma
novidade completa. Sem resistência nenhuma ao álcool, fiquei completamente bêbado, fiz papelão, vomitei. Aí dormi e, no outro
dia, ao sair, passei em frente a uma padaria e, sem saber por que, senti uma vontade estranha de beber, então entrei para pedir
uma pinga. Lembro que, no entanto, ainda estava arraigada em mim a noção de que pinga era coisa de vagabundo, de quem não
prestava. Assim, com vergonha, comprei uma broa e saí, sem sequer pedir a cachaça.
Dia 14 de abril, exatamente duas semanas depois de minha chegada, arrumei meu primeiro emprego na capital, indo trabalhar
como assistente de marceneiro em uma fábrica de móveis na Mooca. No dia 25 do mesmo mês, peguei meu primeiro vale e armei
também minha primeira grande confusão. Era um sábado. Trabalhamos até o meio-dia e saímos, eu e meus colegas de serviço,
inclusive o encarregado, para almoçar. A essa altura do campeonato, a cerveja já estava incorporada ao meu dia a dia. Depois de
comer, ficamos mais ou menos até as 16h tomando todas e conversando.
Na hora de pagar, o chefe queria arcar com a despesa toda, mas eu já estava para lá de alegre e, com dinheiro no bolso, propus
que todos rachássemos a conta. Então um bicão, conhecido de alguém do grupo e que havia se juntado a nós na mesa, comentou
em voz alta que todos tinham ficado quietos quando o chefe falou em pagar tudo, porque, afinal, ele tinha grana para isso, e que
só aquele cabeça chata idiota (no caso, eu) tinha interferido e estragado tudo. Um segundo depois, ele estava estirado no chão,
sangrando, desmaiado com uma garrafada que lhe dei na cabeça, estilhaçando o vasilhame.
Ficou lá, inerte, parecendo morto. Assustados, meus colegas me tiraram de lá às pressas, e um deles, que tinha carro, me levou
para a pensão onde morava, a fim de evitar um flagrante de assassinato, já que todos pensavam que eu tinha matado o sujeito.
Já de noitinha, ele voltou ao local (eu fiquei no carro, estacionado a algumas quadras). Meu colega constatou que tinham levado
o sujeito ao hospital, bastante ferido, mas que ele ia se recuperar. Além disso, ninguém havia prestado queixa, para evitar
confusão. Fiquei aliviado, voltei ao bairro do Jabaquara, onde estava morando desde minha chegada à cidade. Na segunda-feira,
estava no emprego de novo, como se nada tivesse acontecido. Desde então, a violência fez parte do meu alcoolismo ativo, com
inúmeras brigas e encrencas povoando minhas aventuras etílicas.
Contudo, simultaneamente eu trabalhava muito, e bem, tanto que em pouco tempo consegui um patrimônio razoável, com
quatro propriedades no Jabaquara, bairro do qual nunca saí, todas com terrenos grandes e valor considerável.
Aquela primeira namorada sumiu da minha vida sem praticamente ter voltado comigo, em parte por meu comportamento brigão
e em parte por efeito da “maldição” de minha mãe sobre o relacionamento, que me deixou com um pé atrás quanto a qualquer
possibilidade de levar a coisa adiante. Mas acabei namorando uma morena lindíssima e, dois anos e meio depois de minha vinda
para São Paulo, me casei com ela, com o objetivo de parar com a zoeira e me tornar um sujeito sério, com responsabilidades.
A cerimônia foi no dia 31 de dezembro de 1955, e minhas ideias de seriedade e maturidade soçobraram ali mesmo, na festa de
casamento, quando, depois de beber da manhã até a noite, me embolei com meu cunhado na lama, ambos embriagados. Na
confusão, todo mundo apanhou – menos o padre –, e a noiva foi embora para nossa casa, ali perto, sem sequer se despedir de
mim.
Dali por diante, foram 22 anos de casamento e muitas bebedeiras. Na verdade, casei, mas continuei agindo como solteiro,
trabalhando, ganhando dinheiro e gastando. A farra, o álcool e a jogatina, de que eu também gostava muito, pouco a pouco foram
superando minha capacidade de faturamento, e minhas propriedades foram gradualmente vendidas para saldar dívidas e garantir
a esbórnia cotidiana. Das quatro que tinha, fiquei com apenas uma, na qual moro até hoje, e somente porque alguns medos
antigos, herdados da infância difícil sem meu pai, falaram mais alto. Em resumo, meu pavor de acabar na rua, totalmente sem eira
nem beira, freou minha loucura, impedindo que eu me desfizesse também da própria casa em que morava.
Tive muitas chances profissionais maravilhosas. Uma delas, por exemplo, foi nos anos 1960, em um emprego como montador
de caldeiras das Indústrias Matarazzo, onde me tornei um especialista hidráulico que ganhava o que queria, viajando para
diversas cidades para cuidar da instalação desse tipo de equipamento. Mas a bebida estava sempre presente, e volta e meia eu
estava metido em alguma confusão ou encrenca por estar alcoolizado. Em Araçatuba, por exemplo, acabei proibido de frequentar
a chamada zona da cidade, porque quebrei tudo em um prostíbulo juntamente com um cara – chamado significativamente de
“Paulo louco”; meu apelido, claro que dado por justa razão, era “O de guerra”.
Um mês antes, quando cheguei para montar a caldeira de uma fábrica de extrato de tomates, o jornal local tinha colocado em
destaque a seguinte manchete: “Mecânico da Matarazzo em Araçatuba para montar caldeiras”. Depois, por causa da baderna que
causei, saiu outra notícia: “Mecânico da Matarazzo preso como desordeiro”. Por sorte, o engenheiro que comandava meu
departamento providenciou minha libertação, mas tive que ir embora da cidade.
O uso de bebida, contudo, continuou cada vez mais constante e acentuado. Eu já não trabalhava tão bem como antes e
comecei a dar as primeiras mancadas, além de causar outros problemas, me indispondo com chefias, alguns colegas e até
clientes. Acabei saindo desse emprego e voltando a trabalhar como marceneiro, mas também nesse setor fui sujando minha
barra.
Fiquei nessa atividade até 1970. Enquanto isso, tudo continuou piorando, a vida cada vez mais prejudicada pela bebida. Um dia,
não deu mais e me mandaram embora. A partir daí, foram sete anos de sofrimento e miséria material e emocional, me arrastando
pelas ruas.
Graças aos conhecimentos de hidráulica, comecei a trabalhar como encanador autônomo, fazendo bicos com meus cunhados,
mas não dei conta do recado. Várias vezes começava o serviço na casa do cliente cedo, mas lá pelas 9h me batia uma vontade
louca de beber, e eu arrumava uma desculpa qualquer, alguma peça que precisava comprar ou uma ferramenta esquecida; saía,
deixando o banheiro ou a cozinha do cliente completamente desarrumado, ou quebrado, e sumia. Depois, não voltava mais.
Encontrava alguém no bar, saía com ele – cheguei mesmo a ir para a praia, abandonando tudo. Obviamente, não demorou nada
para que mesmo esse bico fosse para o brejo, pois ninguém mais confiava em mim nem queria entregar trabalhos na minha mão.
A única pessoa que ficou firme ao meu lado foi justamente minha esposa. Embora maltratada, aguentou a parada e ficou
comigo, embora eu e ela não nos relacionássemos maritalmente há algum tempo e dormíssemos separados, sem nenhum contato
físico, até porque a bebedeira contínua tinha me tornado impotente.
Eu não aguentava mais viver assim, e meu grande desejo era morrer. Nos últimos anos, muitas das brigas que arrumei, mesmo
não tendo força física para encarar ninguém, tinham como objetivo oculto criar situações para que alguém me matasse, já que
minhas crenças religiosas, vindas do tempo de criança, consideravam o suicídio um pecado imperdoável.
Minha última briga, não esqueço nunca, foi com minha vizinha de frente. Completamente bêbado, cheguei até ela, querendo me
engraçar, passar a mão, essas coisas. Ela tentou me convencer a ficar na minha, dizendo para eu parar com isso, pois conhecia
minha mulher. Ela se dava bem com seu marido, e me falou que eu estava embriagado, que era melhor eu ir embora. Como
continuei a assediá-la, ficou muito nervosa e me deu um soco no rosto, tão forte que caí de cara na lama. Levantei querendo
matá-la, mas algo dentro de mim disse para eu ficar quietinho e sair de lá rápido. Foi o que fiz. Entrei em casa mudo e
envergonhado, humilhado por ser um bêbado e querendo que o chão se abrisse e me engolisse para sempre.
Não foi por falta de tentativas que não parei de beber na época. Fui na macumba, em várias igrejas evangélicas, em
benzedeiras, mas não me encaixei nem me senti melhor em nenhum dos seus rituais, tampouco seus conselhos e orações
aplacaram minha sede.
Quando o desespero já estava se transformando em apatia, e eu estava me conformando em morrer daquele jeito, lentamente,
sem ver nenhuma saída, minha esposa ficou sabendo, por intermédio de um membro da pastoral católica de Vila Joaniza, que
havia na igreja do bairro um grupo de pessoas com o mesmo problema que eu.
Esse homem, o Sr. José, se dispôs a conversar comigo, me explicar melhor sobre o que se tratava. Aceitei, e ele veio até minha
casa, onde o recebi secamente, até porque, com a autoestima rasteira que estava, não compreendia por que ele, que nem me
conhecia, queria me ajudar. Fiquei desconfiado, na ocasião, que a verdadeira intenção dele era conquistar minha mulher, ainda
muito bonita, ou nossa filha, então na faixa dos 20 anos.
Ele, no entanto, me explicou de forma tosca, já que não era do time, que o grupo em questão seguia os princípios de AA, uma
irmandade mundial, presente em muitos países, em que alcoólicos em recuperação dividiam experiências e se ajudavam
mutuamente a ficar sem beber. Disse, ainda, que os participantes acreditavam que o alcoolismo era uma doença incurável que
dominava a pessoa após a primeira dose, fazendo ela beber até não aguentar mais. A única maneira de controlá-la era por meio
da abstinência total, um trabalho permanente de vigilância sobre a compulsão e a obsessão pelo álcool.
Não entendi direito, mas minha situação não permitia jogar fora chance alguma. Além do mais, ele já tinha levado ao AA dois
companheiros de copo, o Pé na Cova, cujo apelido dispensa explicações, e o Nilson, que, uma vez, só para afrontar sua esposa,
gastou todo o dinheiro que tinha e comprou, de uma paulada, 33 garrafas de pinga, com as quais tomamos um porre homérico.
Quem sabe funcionaria? Pelo sim ou pelo não, me comprometi a ir à próxima reunião, que ia ser na quinta-feira. Estávamos na
terça. Lembro que naquela noite bebi como sempre, na quarta idem, porém me sentindo estranho, inseguro, temeroso de beber e
não aguentar ir até Vila Joaniza no outro dia, o que inexplicavelmente me incomodava.
Mas fui, transpirando, sem tomar nada, vestindo roupas um tamanho maior do que o meu, “herança” de alguém mais gordo – se
para pagar uma pinga o dinheiro não dava, imaginem para comprar roupas. Na reunião, não havia nenhum conhecido. O Nilson e
o Pé na Cova não estavam, tampouco o Sr. José. Ainda assim, fui recebido pelos presentes com muito carinho e atenção – o que
é comum entre os AA, mas não para alguém na situação em que eu estava. Fiquei comovido pelo respeito com que me trataram
e, ao mesmo tempo, desconfiado, porque eu desconfiava de tudo, machucado na alma pelo desprezo e abandono que sofria de
todos os lados.
Escutando os depoimentos, tive a cada instante uma emoção diferente. Conforme o que diziam, ficava triste, alegre ou
espantado por alguém que eu não conhecia falar de coisas que pareciam ser minha própria história. Em alguns momentos, me
identifiquei com ideias e sentimentos que eram idênticos aos meus diante de situações quase iguais.
Lembro que, de repente, me peguei falando comigo mesmo: “Acho que encontrei meu lugar”. Em seguida, me vi corrigindo
imediatamente minha frase: “Acho, não; de fato encontrei meu lugar”.
Embora não tenha dito isso para ninguém, e não discuta se foi loucura ou arrebatamento espiritual – porque tanto faz o que
aconteceu, só o resultado que fez dentro de mim –, a verdade é que, naquela primeira reunião, vi, ou imaginei ver, em torno da
cabeça de alguns companheiros, uma áurea, tipo auréola de anjos, brilhando e iluminando o lugar.
No fim da reunião, uma companheira jovem, que hoje tem 40 anos só de irmandade, me convidou para ir conhecer outro grupo,
chamado Reconstrutores de Vida. Ao receber o convite, pensei imediatamente: é isso que eu quero, reconstruir minha vida.
Na despedida, ela me deu um abraço. Eu, confuso ainda com tudo, misturei as bolas no ato, achando que ela queria me
namorar. Mas, graças a Deus, fiquei em silêncio e não tive que pagar o mico de receber uma resposta à altura de meu
atrevimento mental. Somos grandes amigos até hoje.
Era setembro de 1977, eu estava com 45 anos de idade. Os grupos, bem menos estruturados do que hoje, em geral tinham uma
única reunião por semana. Graças ao estímulo de companheiros já antigos na época, dei um jeito de frequentar vários grupos
próximos uns dos outros e alguns menos próximos, preenchendo praticamente todos os dias com depoimentos e encontros com
novos companheiros.
Com o passar dos dias, me entrosei com dois companheiros, o Joaquim e o Fábio, hoje já falecidos, que tinham carro e
costumavam visitar grupos de AA em todas as regiões de São Paulo e da Grande São Paulo. De carona com eles, acabei me
aproximando de muitos membros da irmandade, visitando grupos conhecidos como Vila Rica, Jardins, Belém e outros, nos quais
recolhi experiências valiosas de nossa mecânica de funcionamento, que utilizo até hoje no Grupo que frequento.
Quanto ao trabalho profissional, 15 dias depois de meu ingresso na irmandade, abstêmio e com a síndrome de abstinência já
controlada, procurei um antigo parceiro, com o qual fiz algumas sujeiras feias enquanto bebia. Conversei com ele, disse que não
estava bebendo mais, pedi desculpas pelas “aprontadas” e, graças a Deus, esse colega acreditou em mim.
Começamos a trabalhar juntos em alguns serviços grandes que ele tinha em Alphaville. Após o expediente, ele me levava de
carro até minha casa, esperava que eu tomasse banho e me deixava na porta dos grupos que eu frequentava, argumentando que
eu não podia chegar atrasado no que ele chamava de “minha igreja”.
Fiquei com ele alguns anos, até que outro membro de AA, sabendo de meu descontentamento com a condição de empregado e
de meu desejo de me tornar autônomo, me ofereceu ficar com o lugar onde tinha sua oficina de alfaiate, em plena Avenida Berrini,
um ótimo ponto comercial. Como ia voltar para a Bahia, propôs passar o local para meu nome, com o mesmo aluguel e fiador, o
que aceitei na hora. Fiquei lá durante alguns anos, até parar de trabalhar comercialmente, quando passei a fazer só alguns bicos
para complementar o orçamento.
Pessoalmente, muita coisa aconteceu em minha vida depois que parei de beber. Minha esposa, que tinha passado todo o
casamento literalmente segurando como pode o torvelinho que nossa existência havia se tornado por causa dos meus excessos,
chegando até a beber bastante para tentar me entender melhor, sucumbiu ao desgaste e adoeceu gravemente. Desenvolveu um
câncer de pulmão, foi para uma cirurgia e, após um ano se alimentando por sonda, deitada em uma cama em nossa casa, acabou
falecendo em 1980.
Durante esse tempo todo, minha casa virou um Grupo de AA, com companheiros e companheiras se revezando para me ajudar
a cuidar de minha esposa e a manter minha cabeça boa, sem entrar em parafusos que pudessem prejudicar minha recuperação
naqueles momentos difíceis.
Eu tinha três anos de AA quando esse casamento, que durou 24 anos e 9 meses, foi encerrado pela morte de minha mulher.
Tínhamos uma filha, nascida em 1958, e mais dois meninos adotados, um deles logo depois de meu ingresso na irmandade, todos
legitimados no cartório pelo casal que éramos. Sem minha esposa, fiquei responsável pelos três, e de cara percebi que era muito
para um homem sozinho,
Naturalmente, sem pressa, comecei a retomar a vida social, indo a alguns forrós, mas logo me conscientizei de que não seria lá
que iria encontrar uma companheira e uma nova mãe para meus filhos. Devido ao meu modo de ser, também não me dei muito
bem com mulheres dedicadas às suas respectivas religiões, pois me pareciam pessoas com muitos preconceitos, inclusive em
relação ao álcool e aos alcoólatras, e minha vida estava relacionada principalmente ao convívio com eles, seja em recuperação ou
precisando conhecer a irmandade. Fiz o 3º Passo, entreguei meu destino a Deus, confiando que Ele equacionaria a questão da
melhor maneira possível, e segui em frente.
Em 1980, fui à Convenção Nacional de AA em Fortaleza e reencontrei minha mãe, após 17 anos de minha partida. Em 1977,
quando entrei para a irmandade, havia escrito a ela, contando sobre minha dependência do álcool, os problemas que tive e minha
gratidão por ter encontrado Deus no AA. Quando a vi, ela se virou para mim e disse: “Filho, você pensa que foi esse pessoal do
AA que te salvou, mas não foi não. Se não fossem as minhas orações aqui, você tinha é se ferrado”. Levei minha mãe até a
convenção e a apresentei aos meus amigos de AA. Ela recebeu inúmeros abraços e carinhos, saindo de lá enternecida e
totalmente de bem comigo, situação que perdurou até sua morte, em agosto de 2014, me deixando saudades e a paz de ter
conseguido seu perdão de mãe.
No processo de recuperação, ajudei na criação de diversos grupos de AA, mas o que mais me tocou foi minha participação na
criação, crescimento e consolidação do Grupo Jabaquara de AA. Quando comecei a mexer com isso, junto a outros
companheiros, existiam pelo menos sete grupos nas redondezas do Bairro do Jabaquara, todos funcionando de favor em locais da
Igreja Católica, órgãos de saúde ou escolas. No entanto, todos com poucas reuniões, no máximo duas por semana, e frequências
pequenas, algumas diminutas, tendendo a desaparecer de vez.
O maior problema disso é que os vácuos de tempo sem reuniões e o fato de serem obrigados a seguir horários e normas
condizentes com os estabelecimentos que cediam as salas eram obstáculos à assiduidade dos ingressantes, que perdiam, assim,
uma das maiores armas dos anônimos: o contato permanente com pessoas envolvidas no mesmo objetivo, o que ajuda demais a
quem precisa manter a abstinência.
Por isso, a grande maioria dos novatos não ficava sequer o tempo necessário para refletir com clareza sobre o caminho a
seguir, e o desânimo e os condicionamentos já instalados pela doença os levavam com muita facilidade ao primeiro gole.
Com muito sacrifício, campanhas de arrecadação entre os membros da irmandade toda e trabalho braçal de vários
companheiros, inclusive meu, que cuidei praticamente sozinho da reforma hidráulica e da pintura do imóvel, transformamos uma
casa abandonada e semidestruída na Rua dos Jornalistas, praticamente ao lado do Metrô Jabaquara, em um grupo
autossuficiente. Fizemos ao proprietário a proposta de realizar a reforma por nossa conta e descontar seu custo gradualmente do
aluguel, e ele topou. Isso nos deixou com um custo mensal relativamente baixo no primeiro ano e nos deu um prazo mais do que
razoável para construir uma reserva financeira segura, que garantisse a continuidade dos pagamentos nos anos subsequentes.
Foi assim que surgiu o Grupo Jabaquara, nome escolhido por consenso, que já funciona ininterruptamente há 26 anos, pagando
suas próprias contas e com duas reuniões por dia e reuniões de Al-Anon semanais para familiares. Além disso, o Grupo conta
com participação intensa nos esforços de divulgação e cooperação na comunidade da Zona Sul de São Paulo, alcançando
indústrias, hospitais, postos de saúde, albergues e diversos outros equipamentos sociais.
Foi no Grupo Jabaquara que, como não podia deixar de ser, encontrei a mulher que já está comigo há 32 anos, a companheira
Sílvia. Nos conhecemos – eu viúvo com uma filha e dois filhos, ela viúva com um filho – logo após seu ingresso no AA, em 1983.
Pouco depois, começamos a namorar e estamos juntos até hoje, ambos ativos na irmandade, ajudando outros alcoólicos e
participando intensamente da vida de nossos filhos e de nossa “família anônima”. Temos um número incontável de amigos e uma
enxurrada de coisas boas provenientes dessas amizades, e a intensidade e a qualidade afetiva que deixam claro que nunca vão
acabar.
Não tenho problemas financeiros, embora não seja rico. A propriedade que consegui manter foi grande o suficiente para
construir casas para todos os nossos filhos, e está tudo inacreditavelmente organizado e estruturado com muita alegria, paz,
harmonia e afeto, um prêmio dado por pura graça de um Poder Superior. Até um bisneto de 16 anos a vida me deu!
A Sílvia está aposentada, mas continua trabalhando com a mesma família faz mais de 40 anos. Muito mais do que empregada,
ela faz parte da família, e é respeitada como igual pelo desembargador, sua esposa, seus filhos e filhas, todos adultos e ocupando
posições de destaque em suas respectivas áreas profissionais.
Eu e o Programa de AA – não só os 12 Passos, como também as 12 Tradições e os princípios que regem nossas relações
pessoais quando nos serviços da irmandade – temos uma relação de simbiose que vai muito além da simples aplicação ou
entendimento. Essa relação não é nem pensada, é intuída. O AA é uma rédea que me faz parar no ato assim que ameaço pisar
na bola; breca minhas emoções negativas e mostra imediatamente o que é real e o que é delírio ou descontrole emocional.
Faço os 4º, 5º e 10º Passos, assim como todos os outros, diretamente com Deus, na velocidade Dele, por todo o tempo em que
me percebo vivo, porque sei que os meus limites não estão aí para serem ultrapassados, mas principalmente para serem
compreendidos, aceitos e destituídos de qualquer poder por meu ego.
É assim que sigo, só por hoje, minuto a minuto, de segundo em segundo, e o que me dá mais prazer é ver pessoas felizes.
Quando isso acontece, fico tão ou até mais contente que elas.
Minha dependência do álcool se manifestou desde cedo. Como ocorre com muitos de nós, alcoolistas, a bebida foi, de início, um
apoio notável para facilitar meu “enquadramento”, possibilitando um discurso social regado a álcool, em que dúvidas e medos
simplesmente não existiam. Meus problemas, com isso, eram relegados a um segundo plano, já que o estado de euforia,
confiança e grandeza pessoal me transformava em um personagem muito melhor do que eu era quando sóbrio.
O refúgio na fantasia foi criando um simulacro de realidade em que todos os desafios naturais para o crescimento “aconteciam”
no terreno da imaginação, sempre com um enorme sucesso de “mentirinha”, que eu até reconhecia como tal, mas, no plano dos
fatos concretos, negava, pois a imaturidade emocional me levava a fugir, pelos caminhos do devaneio, dos efeitos devastadores
de meu medo de fracassos. Assim, fui criando um círculo vicioso que se apertava cada vez mais, à medida que meu
comportamento trazia as consequências de praxe para quem tem problemas com a bebida.
Como esse processo de transformação foi gradual e passou despercebido por anos de sinais intermitentes de que minha
relação com o álcool não era normal, fui me envolvendo, sempre no mesmo “sistema” – fantasia, imaturidade, falta de controle e
de planejamento das ações –, com tudo o que uma pessoa faz naturalmente em seu caminho de adulto. Estudei (com o ritual
acadêmico do porre sempre em destaque) e me formei em ciências contábeis, até com certo destaque. Comecei a trabalhar,
conheci uma moça, que se tornou minha primeira esposa, e tivemos três filhos. O tempo foi passando a jato, meu grau de
comprometimento ainda mais rápido. A duração de meus empregos se tornou cada vez menor, problemas de relacionamento,
absenteísmo, produtividade, demissões sendo a regra do jogo. E a ingestão de álcool virando uma questão de oportunidade, não
importava quando ou quanto. Daí também a incompetência para fornecer o mínimo para a sobrevivência material das crianças,
seguida pela separação e o fim do matrimônio, após 11 anos de vida comum, a confusão mental e, finalmente, um colapso físico
completo.
Foi assim, com 1,76m de altura e 49kg de peso, que entrei no consultório de um médico, levado pelo meu pai, que estava
preocupadíssimo com a minha sobrevivência. E lá, pela primeira vez na minha vida – e quando esse tipo de informação ainda não
fazia parte do cotidiano clínico, que ouvi falar no alcoolismo como doença. Recebi, pela boca de um doutor especialista em clínica
geral, a sugestão de procurar os Alcoólicos Anônimos (AA) para controlar e estacionar minha dependência.
Ainda meio que “empurrado” pelos meus pais, mas com a percepção de que meu estado físico era de fato precário e que, sem
uma mudança de atitude, em breve estaria morto, cheguei finalmente ao AA, no Grupo Belém, hoje um dos mais antigos e, na
época, um dos poucos com reuniões todos os dias. De cara, uma enorme surpresa: a imagem que eu tinha do AA, de que iria
encontrar um conjunto de bêbados maltrapilhos e embriagados, cheirando mal e tomando uma “sopa” fornecida por uma
instituição de caridade, mostrou-se completamente equivocada. A grande maioria das pessoas presentes (a não ser algumas que,
depois, descobri serem novatos como eu ou exceções raríssimas) estava sóbria, serena, vestida dignamente – uns de forma
simples, demonstrando sua modesta condição econômica, outros com vestimentas mais caras. Mas todos eram evidentemente
alegres, participativos e vivenciavam uma fraternidade solidária, interessada realmente em apoiar os que fossem pedir ajuda para
deter sua doença e se recuperar das consequências físicas, sociais, profissionais e afetivas decorrentes dela.
A maneira dos AA atuarem uns com os outros – embora eu não estivesse nos meus melhores dias para compreendê-lo, o que
veio a acontecer após uns 3 ou 4 meses de “casa” – seguia alguns princípios tão democráticos que, se não fossem
contrabalanceados pelo comprometimento tácito de todos, poderiam facilmente ser considerados como um embrião anárquico. Na
verdade, não havia uma autoridade individual constituída, com poderes especiais, que controlasse a ação dos participantes.
Literalmente, ninguém mandava em ninguém, embora, de quando em quando, um conflito de egos parecesse ameaçar o
equilíbrio. Então, outros “produtos” de um “acordo prévio”, gerado pelo senso comum e “atualizados” através dos tempos,
entravam em ação de imediato, diluindo de forma arrasadora qualquer domínio de um ou do outro lado da questão. Isso porque,
como descobri espantado, uma das “regras do jogo” estabelecidas pelos resultados práticos e conflitos experimentados pela
irmandade através das décadas diz simplesmente que nenhum membro – ninguém mesmo – tem poder para expulsar outro
definitivamente, embora o arbítrio de alcoólicos momentaneamente “surtados” abra a possibilidade de recursos que vão até
intervenção policial para retirada da pessoa do local. Isso, no entanto, não significa que o “infrator” esteja expulso ou mesmo
“suspenso” da irmandade. Caso ele volte, depois disso, a qualquer reunião ou evento da irmandade, mantendo o equilíbrio e a
serenidade de seu comportamento, a coisa funciona como se nada tivesse acontecido, e ele é recebido de braços abertos, como
qualquer outro membro.
Diz a sabedoria do AA que, em se tratando de uma doença incurável, progressiva e mortal, caso não seja mantida estacionada,
a irmandade não pode decidir quem será salvo nem quem morrerá; sua função é apenas funcionar como uma porta aberta,
independentemente de qualquer razão externa, salvo o desejo do próprio alcoólico de abandonar a proposta.
Extremamente pragmático, o AA é uma compilação de filosofia perene – verdades e sugestões incontestáveis da filosofia e da
ética a partir das doutrinas e definições criadas pelas melhores mentes da História. Por isso, sugere, de forma simples,
procedimentos que envolvem aspectos significativos da alma humana, ou psique, cujo equacionamento é, na sua visão,
fundamental para minorar ou eliminar sentimentos de angústia, medo e ressentimento. Esses são três importantes fatores para o
surgimento da dor mental ou psicológica, razão comumente presente no impulso para uso de substâncias alteradoras de humor,
notadamente o álcool.
Para tanto, usa e divulga comportamentos expressos em frases simples e concisas, definindo ações a serem adotadas pelo
alcoólico em recuperação nos instantes de crises ou indagações perigosas para sua estabilidade emocional. Todas elas foram
importantes para mim, alavancando minha arrancada em direção à recuperação. Eis uma delas: “estude bem sua dor para que
não se transforme em ressentimento”. Assim, sozinha, parece superficial, mas foi me lembrando dela que, diversas vezes, não
entreguei o ouro nas mãos do bandido, já que uma atitude rotineira no meu alcoolismo ativo foi a de “construir culpados” para o
que não dava certo, apontando o dedo para os outros, mas nunca para mim, com certeza envolvido até as tampas, com a
participação de outros ou não, nas minhas histórias de fracasso.
Uma sugestão com roupagem abstrata, mas com um poderosíssimo efeito concreto: estudando paulatinamente minha “fome”
por culpados, acabei enxergando o vazio e a inviabilidade de justificativas, colocando os outros em posições e ações
malsucedidas que eram, isso sim, de minha total responsabilidade. A repetição desse conceito me trouxe a certeza de que a
mentira era quase um hábito, jogando para colegas de trabalho incautos ou pessoas do outro lado de meus relacionamentos
falsas acusações para o que, na real, eram apenas minhas inseguranças próprias, as quais paralisavam minhas ações por um
medo descomunal de fracassos e uma covardia em qualquer situação em que corresse riscos.
Mas teve mais, muito mais. Outro lema que me impressionou muito foi um que colocou, no contexto do meu início de AA, muitos
pingos nos “is” em minha formatação mental atabalhoada, sem direção nem perspectivas.
Eu tinha perdido tudo, e o caminho de volta para mim era bem longo. Eu não sabia com clareza o que precisava fazer para dar
um start com resultados satisfatórios. Ainda não havia trabalhado nem minha insegurança nem minha autoestima, e a culpa era
uma presença constante nos meus pensamentos. O principal era a vergonha de ter deixado meus filhos, que eram apenas
crianças, sem recursos mínimos para sobrevivência material, contando apenas com o salário minguado da mãe, em uma situação
de carência que só não foi extrema pela intervenção de meu pai e de minha sogra, que não tinham recursos financeiros a não ser
para paliativos temporários, que, em curto prazo, iriam terminar. Foi nesse estado, ainda vivendo os primeiros dias de abstinência
e sofrendo seus sintomas, que fui à reunião do Grupo, a cabeça um pandemônio, a vergonha pelo fracasso e pelas
consequências familiares dele ressoando no cérebro.
Os Grupos eram decorados, como são até hoje, com a bandeira do AA, uma toalha com seu signo, banners com os tópicos do
Programa de Recuperação dos 12 Passos e do conjunto que chamamos de 12 Tradições (filosofia desenvolvida para guiar o
relacionamento entre membros, grupos e entre a irmandade e todos os segmentos da sociedade organizada) e com muitos
cartazes, que lembram os lemas do AA. No Grupo Belém, esses cartazes eram móveis, sendo substituídos por outros
continuamente, em uma renovação que não parava nunca. Assim, era feito um rodízio das frases e, quando todas elas tinham
sido expostas, a dinâmica era repetida.
Justo no dia de meu ingresso, o lema na parede, bem na direção dos meus olhos, era uma frase simples que, não sei bem por
que até hoje, brilhou como uma luz de entendimento e clareou, com uma lucidez quase atemorizante, minha consciência do que
precisava ser feito quase que imediatamente para criar condições sólidas de sobriedade na existência. “Primeiro as coisas
primeiras”, dizia. Uma série enorme de sinapses juntou em minha mente as pontas soltas, e concluí firmemente que, para chegar
lá, eu tinha que cuidar primeiro das coisas que estavam em primeiro lugar nas minhas necessidades básicas: uma era não beber,
e a outra era voltar a trabalhar, para voltar a fornecer recursos materiais que garantissem a sobrevivência e a educação de meus
filhos.
Outro slogan veio em meu socorro: “ação é a palavra mágica”. Saí buscando uma colocação qualquer no mercado, deixando
meu “Napoleão interior” trancado em uma cela do meu “hospício interno” e evitando, assim, que sua arrogância me fizesse torcer
o nariz para ofertas que ele julgasse “indignas” de sua “enorme competência”. Aí, jogando com a bola baixa, de pé em pé, me
dispus a correr atrás da chance até que ela surgisse.
E ela surgiu relativamente depressa, com uma vaga de assistente em uma empresa de contabilidade – aquela mesma matéria
em que eu havia me formado quando tinha 20 anos de idade, mas com a qual nunca havia trabalhado. Parti para a luta, estudei
como gente grande. Quando me atualizei e me mantive assim, fui conquistando gradativamente a confiança do dono do escritório.
Por fim, me tornei seu braço direito, trabalhando nessa função por quase 12 anos, sempre auxiliado pela lembrança de mais
alguns slogans durante todo esse período.
Aqui estão listados alguns deles, como foram sendo utilizados na vida: sem uma sequência lógica, mas cobrindo
cuidadosamente as circunstâncias e abrindo portas para amenizar conflitos, descobrir modos mais eficazes de solucionar
pendências, se relacionar muito melhor com as pessoas e ser tranquilo e feliz:

– Viva e deixe viver


– Vá com calma... mas vá
– Encontre seu próprio caminho
– Não se deixe levar muito a sério!
– Só pela graça de Deus
– Não se desespere
– Pense
– Um dia de cada vez
– Isto também passará
– Ame ao seu vizinho, mas... faça a sua cerca
– Não espere nada dos outros
– A paciência pode mais que a sabedoria
– Faça as coisas fáceis
– Não espere perfeição
– É preciso perdoar
– Pare, olhe, pense
– O que não tem solução, solucionado está
– Sapateiro, aos teus chinelos
– O bom é o pior inimigo do melhor
– Esqueça os prejuízos
– Que comece por mim
– Dê tempo ao tempo
– O amanhã somente a Deus pertence. Faça-o HOJE
– O ignorante deprecia. O sábio investiga
– Não fique em cima do muro. Tome uma decisão
– Quem se precipita decide mal
– Não procure inventar a roda
– Quem esquece seu passado está condenado a repeti-lo
– A honestidade é a melhor forma de vida...

Tudo isso não me deixa esquecer que uma grande compulsão, como a minha pela bebida, é tão perigosa que não basta me
tornar um abstêmio para não ser tragado por ela. Como dizia o falecido Eduardo Mascarenhas, é necessário desenvolver uma
potencialidade, superar primitivismos, elevar o resultado da percepção para outros graus de excelência. É uma maneira didática
de procurar aperfeiçoamento, pensar grande, nutrir sentimentos belos, esforçar-se por abandonar os patamares do egoísmo e da
mesquinharia.
Os 12 Passos visam harmonizar melhor a pessoa consigo mesma, fazê-la conhecer-se mais profundamente e, assim, ter mais
sabedoria para lidar consigo e com os outros. Não tem nada disso de enquadrar, nem se trata de adaptar. Trata-se de sensibilizar
a inteligência, a sabedoria e a intuição, para seguir o caminho que cada um quiser, respeitando o ditado “cada cabeça, uma
sentença”.
Graças a uma ação constante baseada nos 12 Passos, figurados na prática por esses slogans que a irmandade chama de
“princípios de ouro”, hoje posso dizer que venci meus limites e me tornei um ser humano muito melhor, lidando com seres
humanos, companheiros de AA, questões profissionais e atitudes fundamentadas no meu próprio crescimento espiritual – o que,
para mim e para os AA, não se limita às religiões e não se manifesta apenas em doutrinas – com muito mais efetividade, respeito
ao próximo e um olhar social sobre os problemas e suas possíveis soluções.
Agradeço sempre pelos benefícios que ganhei nessa trilha, inicialmente com o retorno de meus três filhos, que aos poucos
voltaram a morar comigo, quando minha maneira de ser e agir tornou claro para eles que o Sílvio antigo, com seus porres,
distância psicológica e irresponsabilidade, simplesmente não existe mais, tendo dado lugar a um homem que ainda tem muitos
defeitos, limites e até estreiteza de visão em algumas oportunidades, mas que, com toda certeza, optou por olhar de frente o que
é, mudando para melhor o que for possível e minorando ao máximo os prejuízos causados pelo que ainda não conseguiu
modificar.
Os resultados positivos de minha vivência no AA são claramente visíveis em todas as áreas de atuação. Profissionalmente, fui
alçado pela meritocracia à posição de sócio de meu antigo patrão, cuidando do universo contábil de 22 grandes empresas, antes
de me tornar um empresário na fabricação de componentes industriais. Nos últimos anos, vivo de uma “aposentadoria branca”,
garantida por consultorias intermitentes sobre questões contábeis para clientes de vários segmentos, além de incursões nas áreas
de construção civil e comercialização de imóveis.
Do ponto de vista afetivo, nenhuma reclamação a fazer. Além de conquistar o afeto, o respeito e a amizade dos filhos de meu
primeiro casamento, encontrei a possibilidade de um relacionamento extremamente importante com a mulher que se tornou minha
segunda esposa. Com ela tive uma filha maravilhosa e com quem vivo até hoje, em grande parte pelos ensinamentos do AA sobre
relacionamento humano, os quais, com o passar do tempo, permitiram que eu reconhecesse quase instantaneamente o “estado
de espírito” vigente no instante em que ela retorna do trabalho, o que me permite não “atravessar a música” se o horizonte estiver
propenso a tempestades e ser um companheiro para quase todas as horas, já que, como mencionei anteriormente, melhorar,
mesmo que muito, não significa ser perfeito – verdade que, vale frisar, serve para os dois lados.
Finalmente, outro fator primordial para minha recuperação ética e espiritual foi a participação na administração de AA, gerindo
sucessivamente diversas atividades dos denominados serviços do Grupo, cujo objetivo único, como está explicitado nas
Tradições, é ajudar os alcoólicos que ainda sofrem com o problema. Para isso, toda uma estrutura de serviços foi montada
durante o crescimento da irmandade no mundo. Hoje, são quase 150 mil grupos, em pelo menos 160 países, e uma rede de
atividades, organogramas e planos de ação para garantir a manutenção dos princípios básicos em todos os lados em que o AA se
apresenta.
Com apenas alguns meses de irmandade, comecei a me oferecer para prestar serviços simples, como fazer café, limpar a sala,
esvaziar cinzeiros (fumar era permitido em todos os lugares) comprar a literatura de apoio (totalmente incipiente na época, com
uma tradução sofrível do inglês para o português do Big Book, livro “bíblia” do AA, aqui impresso em edição reduzida e divulgado
sob o “apelido” de Livro azul) e participar da abordagem de novos membros, sempre acompanhado de veteranos e tentando
“aprender” com sua experiência.
À medida que a névoa e o torpor de anos de bebida desenfreada foram se dissipando e a cabeça começou a ajudar um pouco
mais, fui assessorar “as lideranças” – ou, mais simplesmente, os “malucos” que trabalhavam de modo árduo e gratuito para
consolidar conquistas e ampliar a ação do AA em São Paulo.
Descobri que minhas habilidades profissionais poderiam “quebrar um galho” para fornecer à administração uma “cara” mais
convincente e confiável, e me pus também a organizar, junto com alguns companheiros de recuperação que tinham
conhecimentos na área, o fluxo de funcionamento legal, contábil, administrativo e editorial dos AA do Brasil, por meio da
organização daquilo que estava se formando mais aceleradamente em São Paulo.
Daí em diante, por todos os 37 anos em que estou na irmandade, exerci alguma função na estrutura de serviços ou de
divulgação em todos os níveis possíveis, com responsabilidades nacionais, estaduais, municipais ou distritais, debatendo e
participando de trabalhos em todos esses âmbitos e dos desafios concernentes a eles. Assim, cumpri todos os “mandatos” do
início ao fim, salvo nos casos em que as necessidades do conjunto obrigavam a minha transferência para esferas de maior
abrangência, dificultando ou impedindo uma ação efetiva em ambas as instâncias.
Devo dizer que minha circulação entre grupos, companheiros de diferentes cidades, Estados e estilos de serviços, junto com a
prática constante dos 12 Passos, constituiu-se como uma metodologia de checagem permanente de minhas atitudes emocionais,
intelectuais, psicológicas e profissionais. Isso permitiu que me mantivesse sob severa observação em todas as ocasiões, com uma
disciplina que blinda furos e evita interrupções de checagem.
A experiência acumulada pelo contato constante com pessoas de características notadamente diferentes em suas atuações,
muitas vezes com opiniões totalmente divergentes das minhas, me ensinou a utilizar de modo objetivo as muitas dicas fornecidas
pelo programa de AA e seu contexto de aplicações. Isso me possibilitou sustentar, na maioria das vezes, uma posição de
assertiva cordialidade, mostrando claramente o que cada situação pode causar aos relacionamentos e como uma pessoa
realmente integrada ao Programa reage quando adota o princípio de que a honestidade é a melhor forma de vida,
independentemente de seu grau de perspicácia e da efetividade de sua comunicação.
É possível realizar tudo isso, como mostra o programa de AA, com atitudes objetivamente lógicas, mas nunca frias, porque o
êxito completo parece vir (e foi assim no meu caso) da linguagem do coração, que é especialista no óbvio.

Evite pré-julgar.
Aprenda a escutar, pensar e esperar.
Acomodação não é serenidade.
Deus não exige que consigamos, espera apenas que tentemos.
Não lamente o pneu furado, agradeça a Deus pelo telefone perto.
Não precisamos lamentar os erros passados, basta não repeti-los.
Em vez de julgar as coisas erradas que os outros fazem, é melhor pensar nas coisas certas que você deixou de fazer.

Poucas palavras, esclarecedoras, indicadoras de ações a se realizar e de focos emocionais a serem estabelecidos em todos os
instantes da vida, direcionando-a para a sabedoria da simplicidade que existe em agir com vistas a sempre extirpar o medo e
todos os seus disfarces conhecidos – postergação, justificação, acusação, autopiedade, autoflagelação.
Foi prestando atenção nisso e encarando as coisas sem embromações nem delírios que eu e muitos outros deixamos de ser
bêbados e passamos a ser alcoólicos sóbrios, nos esforçando para vencer nossos medos, melhorar nossa autoestima e aprimorar
nossa personalidade, bem como dando um lugar melhor para as manifestações do espírito e sem deixar a autodestruição reger
nossos passos ou nos afogar na bebida. Pelo menos, é nisso que eu acredito, e é nisso que me pego para encarar dificuldades
serenamente e acreditar que tudo será melhor quando eu lidar melhor comigo também.
Sou Severino, alcoólatra, hoje em sobriedade conquistada, pelo menos nestas 24 horas, graças ao meu encontro com a filosofia e
a programação de Alcoólicos Anônimos (AA), e ao fato de ter aceitado, quando conheci a irmandade, que bebia
descontroladamente e, em virtude disso, tinha perdido totalmente o domínio sobre minha própria vida.
Aliás, há tempos que minha relação com o álcool estava me prejudicando cada vez mais. Meu desconhecimento total de que o
alcoolismo era uma doença, como hoje a ciência já comprovou inteiramente, e que as insanidades que eu cometia embriagado
não eram resultado de problemas de caráter, mas de um processamento neurofisiológico anormal, fazia minhas ressacas
provocarem uma dor moral insuportável. Inúmeras vezes tomei decisões de nunca mais beber que terminavam sempre em um
novo porre, consequência inevitável de uma armadilha de minha mente me convencendo de que ia “tomar só uma”. O resultado:
“apagamentos” que me faziam acordar no outro dia sem me lembrar do que e como aconteceram os fatos.
Não sou exatamente uma pessoa frágil do ponto de vista psicológico. Vim do Nordeste para São Paulo e ralei muito,
enfrentando dificuldades de todo o tipo, não apenas materiais. Sou homossexual assumido, e isso nunca foi um problema para
mim no que diz respeito a minha família de sangue, que sempre lidou com a questão de minha preferência sexual com
tranquilidade e respeito. Tenho um companheiro estável faz mais de 17 anos, e minha sobriedade atual tem uma relação direta
com meu casamento, porque foi para salvá-lo que procurei ajuda.
Minhas bebedeiras me tornavam um sujeito lúbrico e irresponsável, prisioneiro dos próprios instintos. Um dia, após ter saído e
tomado todas, despertei em um hotel ao lado de um desconhecido, sem a menor recordação de como tinha ido parar ali. Eu, que
sempre fui supercuidadoso com a saúde, tinha dormido e praticado sexo inseguro com alguém que nunca vi antes, apesar de meu
receio quase fóbico de contrair aids ou qualquer outra doença sexualmente transmissível. Esse descuido poderia ter prejudicado
seriamente a vida de meu companheiro, além da minha, caso tivesse acontecido o pior.
Mas percebi, no meio do atordoamento da ressaca, que o barco da existência estava desgovernado, e só o acaso havia evitado
que colidisse com recifes e soçobrasse, levando para o fundo tudo que eu sonhava, tudo que queria e tudo que achava que já
tinha. Embora não soubesse como, retomar o controle da vida agora era prioridade. O desespero de não ter a menor ideia de por
que tudo aquilo estava acontecendo me angustiava demais.
Sim, quando eu bebia não tinha controle. Mas como poderia mudar esse estado de coisas se, antes de começar a beber, eu me
comprometia comigo mesmo a tomar uma ou duas doses e parar, sem nunca cumprir essa determinação e terminava
inevitavelmente bêbado, muitas vezes perdendo a consciência dos fatos e me enfiando em situações constrangedoras?
Felizmente, tudo não passou de um susto. Porém, a possibilidade de destruir uma relação que já durava 12 anos por causa de
uma promiscuidade que não era nem minha, mas do bêbado que crescia em mim quando usava álcool, me desarticulou de vez.
Embora não fosse um católico praticante, fui à Igreja de São Judas para rezar e pedir uma luz que me permitisse enxergar um
rumo, um norte, a fim de aliviar a falta de perspectivas da minha vida naquele momento.
Tinha perdido a coragem e a esperança de conseguir sair daquela armadilha infernal da minha cabeça, capaz de, em um
instante, fazer uma decisão aparentemente forte de não beber desaparecer como se nunca tivesse existido, me convencendo, sei
lá como, que o resultado que sempre ocorria quando eu bebia (não ter limites) não iria se repetir daquela vez. E lá vinham as
consequências outra vez, e eu novamente prometia, para outra vez não cumprir, e assim por diante, em um círculo vicioso que
rodava cada vez mais rápido, gerando uma realidade psíquica e material cada vez pior.
Não sei se foi milagre ou coincidência, mas, naquele dia, a missa na Igreja não foi como as outras. Na hora do evangelho,
quando o padre normalmente faz uma preleção aos fiéis sobre um tema ligado à doutrina, ele chamou um senhor que estava nas
primeiras filas e pediu para que escutássemos o que tinha a dizer. O senhor pegou o microfone e se apresentou como um
membro de AA, frequentador de um Grupo instalado nas redondezas, e explicou sucintamente como seus integrantes faziam para
escapar das malhas do alcoolismo por meio de reuniões e de troca de experiências. Também deu um rápido depoimento de como
tinha sido sua vida bebendo e como estava agora, sem beber.
Não entendi direito uma boa parte do que ele falou, mas a ideia de que havia outras pessoas com dificuldades semelhantes e
que existia uma maneira de enfrentar o problema foi suficiente para mim. Na noite seguinte, no endereço e no horário
mencionados, lá estava eu, atento, absorvendo o conteúdo dos depoimentos e me identificando com várias das histórias contadas
pelos membros.
Quando um deles falou que se tratava de uma doença cerebral, reconhecida e até classificada pela Organização Mundial da
Saúde, e deu alguns detalhes científicos sobre seu funcionamento, entendi de súbito por que não conseguia gerenciar meu
consumo de álcool. Eu era doente, e minha doença tinha como mecanismo uma compulsão por beber cada vez mais a partir da
primeira dose, uma sede insaciável que só dava trégua quando derrubava o bebedor.
Aprendi também que a única maneira segura de tratar o alcoolismo era evitar o primeiro gole, não beber nunca nem uma gota
de bebida alcoólica, e me manter assim sempre – uma dificuldade quase intransponível para quem aprendeu a lidar com emoções
boas (euforia) e más (tristeza, raiva, medo, insegurança) com a percepção “turbinada” por uma substância psicoativa qualquer,
sendo o álcool a mais popular delas. Para tornar isso possível, a grande dica recebida da irmandade foi dividir essa “eternidade”
em períodos menores, de 24 horas, e cuidar da abstinência obrigatória um dia de cada vez. Ao mesmo tempo, aprendi que era
importante estabelecer uma metodologia de autoconhecimento contínuo, para avaliar com clareza nossas características
problemáticas e nossas qualidades, de modo a aprimorar pontos falhos e estimular nossos pontos positivos.
Para um alcoólico como eu, essa ação de enxergar e clarificar pontos nebulosos e mal aceitos de si mesmo é a essência do
Programa de Recuperação, um nome que não considero suficientemente exato para explicitar o que os Passos, Tradições e
outros princípios dos anônimos fazem pelos integrantes das quase 100 irmandades que cuidam de portadores de diferentes
transtornos compulsivos pelo mundo todo.
Na verdade, o Programa do AA e suas variações apontam em direção a uma vida inteiramente nova, com uma visão muito mais
abrangente das coisas e um posicionamento muito mais autêntico de cada um diante de si mesmo e dos outros. Tanto o começo
como a consolidação dessa nova realidade exigem uma limpeza completa, uma faxina caprichada na alma de cada um,
desenterrando os traumas secretos que nos atacam e desestabilizam subterraneamente, solapando os alicerces de qualquer ideia
de felicidade.
Eu, por exemplo, fui estuprado aos 6 anos de idade, e durante muito tempo pensei que levaria essa recordação horrível para o
túmulo. No entanto, ao fazer o 4º Passo, “um destemido e minucioso inventário moral de mim mesmo”, e depois o 5º, “admitindo
perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano a natureza exata de nossas falhas”, consegui avaliar
honestamente todos os fatos envolvidos e me livrei desse fantasma para sempre.
Também levei algum tempo para liberar informações sobre minha sexualidade para o Grupo. Como os grupos de AA no País
têm, como grande maioria, integrantes brasileiros, eles refletem também as características da cultura nacional, e havia um
evidente preconceito – não contra mim, pois eles não sabiam, mas contra relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Assim,
esperei eles me conhecerem melhor para abrir o jogo, e, hoje, todos aceitam naturalmente minha situação e minha união com
meu companheiro.
Na época em que ingressei no AA, meu relacionamento tinha apenas cinco anos e caminhava a passos largos para o seu fim,
devido aos meus comportamentos.
Estou no Grupo para cuidar de mim, e não tenho a menor vontade de deixar de frequentar a sala. Foi ali que descobri e continuo
descobrindo muita coisa importante. Antes, pensava que meu único problema era beber demais; achava que tinha uma vida
bacana, que só faltava o controle do copo. Hoje, sei que o buraco é muito mais embaixo e que existem inúmeras deficiências de
caráter na minha maneira de ver o mundo. Sei que, se não lutar para mudar esses limites e modificar a qualidade das minhas
ações, nunca conseguirei ser realmente feliz e ficar em paz de verdade. Achava que eu era uma coisa, o AA que mostrou que sou
outra, bem diferente.
Na medida em que fui participando mais do Grupo, os preconceitos foram aos poucos desaparecendo e, hoje, praticamente não
existem. Aliás, minha integração ao Grupo e minha postura em relação às muitas funções ou aos encargos existentes em sua
estrutura de serviços sempre foi a de colocar a “mão na massa” sem medo. Fui tesoureiro, secretário, representante de serviços
gerais, membro do comitê de divulgação, coordenador geral. Ainda hoje, apoio todas as atividades do Grupo junto à comunidade,
visito hospitais, albergues, clínicas especializadas e escolas, transmitindo a mensagem do AA: a de que existe esperança no
horizonte dos portadores da doença do alcoolismo.
Continuo praticando os 12 Passos ininterruptamente, e eles já fazem parte do meu cotidiano, espontaneamente e sem esforços
nas várias situações do dia a dia.
Recordo sempre que sou impotente perante o álcool, que perdi a sanidade, que um Poder Superior me ajudou a recuperá-la,
que tenho defeitos, medos, fraquezas e delírios, mas também boa vontade, persistência, honestidade e desejo de acertar. E que
tudo no universo, incluindo meu alcoolismo e as muitas facetas que ele pode apresentar para meu crescimento, estão sob o
comando de um Deus amantíssimo, em que eu confio e em cuja ação tento não interferir com minha ansiedade e falta de
entendimento.
Tudo que a experiência da literatura de AA recomenda eu faço. Sou obediente e coerente; sempre fui atrás, li, pesquisei. Além
dos livros, manifestos e ensaios do AA e das outras irmandades, leio também tudo que posso sobre as descobertas da ciência a
respeito da dependência química e da psique humana. Deepak Chopra e Eckhart Tolle são leituras igualmente importantes e
constantes. Todas as manhãs, dedico pelo menos uma hora a elas. Também não tenho problemas com Jesus, como homem
inspirado ou como filho predileto de Deus. Acredito que, se fizermos o que ele sugere, teremos uma vida ótima neste planeta.
Tenho ainda dificuldades, mas são menores. O meu companheiro não está em recuperação, porque nunca cuidou do problema
dele: a codependência. Hoje, está se tratando de uma depressão séria, que lhe tirou o pique e o jogou em uma apatia brava, da
qual está lutando para se livrar.
Recentemente, descobri que ele, alguém que eu considerava acima de qualquer suspeita, estava me passando para trás com
outra pessoa. Isso mexeu muito comigo, mas os Passos me ensinaram a lidar com os problemas com objetividade: conversamos
sobre a situação, e falei honestamente que minha vida era melhor com ele do que sem ele, e que dizer o contrário seria mentira.
Mas que se ele não me quisesse mais, poderíamos nos separar numa boa. Ele disse que precisava de mim, porque não estava
bem, e continuamos juntos.
A prática me mostrou que um alcoólatra e um codependente, juntos, representam o casamento perfeito para gerar um inferno,
pois o segundo desconhece os truques da doença do primeiro e precisa exercer sua compulsão pelo controle. Assim, muitas
vezes “boicota” os esforços de recuperação do dependente, reclamando da dedicação dele ao grupo, que inconscientemente vê
como um concorrente no domínio da situação, e pode chegar a chantagear o alcoólatra, a fim de manter sobre ele o “controle” que
a codependência exige.
Contudo, consegui limpar a casa de meu relacionamento afetivo e também limpei a casa de meu relacionamento com as
pessoas. Sou um comerciante muito bem-sucedido, o que mostra como anda minha integração com todos os que me cercam.
Vendo joias e roupas. Viajo para fora periodicamente para trazer mercadorias e visito grupos nos países por onde passo.
Consegui tudo que queria financeiramente e estou profissionalmente realizado, mas a felicidade não está na grana, e hoje sei
disso. Logo devo me aposentar e aí vou me dedicar ao AA ainda mais. Traço meus planos em conversas coloquiais com o Poder
Superior, um Deus abstrato que, na minha visão, arquitetou o universo para que todos nós aprendêssemos o valor existente no
amor incondicional e na procura do bem.
Antes de conseguir esse contato, rezava como um papagaio. Era quase uma anedota pedir, pedir e pedir coisas materiais e,
depois, encerrar dizendo “e que seja feita sua vontade”, quando, claramente, estava tentando impor a minha. Hoje, só peço para
ter forças e discernimento para aproveitar da melhor forma o ensinamento que Ele, através da vida, tiver para mim. Minha grande
bandeira é a reforma íntima. Para fazer qualquer coisa boa, você tem que estar bem também.
Meu nome é Mônica, e, neste momento em que faço meu depoimento, estou limpa há 1 ano, 6 meses e 23 dias.
Contando a história toda, já estive cinco anos sóbria em Alcoólicos Anônimos (AA), mas recaí em 2013, primeiramente em
medicamentos (benzodiazepínicos e anfetaminas) e, depois, também no álcool, na maconha e, de vez em quando, na cocaína,
que nunca foi exatamente minha droga de escolha.
Quando ingressei no AA, em 2008, pensando exclusivamente em me manter abstinente do álcool, alguns companheiros de sala
perceberam que eu usava medicações lícitas, com receita, por sintomas como tremedeiras nas mãos e certo alheamento. Eles até
fizeram comentários, abordando a questão da possível necessidade de que frequentasse o Narcóticos Anônimos (NA), mas eu
achava que não tinha nada a ver com esse outro grupo.
Quando parei de beber, já cheguei relativamente derrotada, porque o álcool me trouxe muitas perdas, todas dolorosas –
prejuízos que realmente senti na pele, então não briguei tanto contra a ideia de ingressar no AA. Já com os remédios, eu
simplesmente não queria parar. As anfetaminas me davam a sensação de estar funcionando muito bem, fazendo e acontecendo.
Driblava a possibilidade da doença com o pragmatismo dos resultados cotidianos, principalmente na disposição para o trabalho
profissional, e alegava para mim mesma que aquilo me fazia bem. Além disso, não era nada ilícito, afinal, eu apenas cumpria a
prescrição médica.
Mesmo assim, sem me aceitar dependente química cruzada, acabei ingressando também, já naquele início, em um grupo de NA
que ficava no mesmo prédio onde se localizava o grupo de AA. Assim, fiquei temporariamente limpa do álcool e dos remédios
também.
Então a vida foi correndo, os desafios surgindo, com vitórias, conquistas e também dificuldades.
Antes de ingressar, sofri também bastante com outra compulsão que sempre foi muito forte em mim: a dos relacionamentos
afetivos incontrolavelmente intensos. Durante os quatro anos que precederam meu ingresso, tive um namoro longo e intempestivo
com um homem muito problemático, assim como eu, o que foi extremamente desgastante. Quando decidi ficar sóbria, optei por
terminar com ele, pois sabia que haveria conflito entre as duas coisas e que não era possível gerenciar isso por muito tempo. Meu
medo de beber era enorme, e esse relacionamento trazia consigo um risco de recair que eu simplesmente não queria correr. Por
isso, minha decisão foi definitiva e sem vacilo.
Beber tinha sido tão prejudicial e causado tanto sofrimento que eu ia simplesmente bloqueando todas as possibilidades de voltar
ao uso. E não parei aí. Mudei muito minha rotina, introduzi o esporte na minha vida, cumpri todas as sugestões do Programa. Em
consequência, progredi rapidamente, meu prestígio como professora aumentou, a grana entrou com abundância.
Mas, até então, eu não tinha resolvido nada, apenas tinha descartado tudo que me parecia perigoso. Não havia olhado de fato
para dentro de mim, nem tentado conhecer melhor quem eu era interiormente. Então, como falava quando criança na escola,
“folguei com o sucesso”. Agi como se tivesse passado de ano, com aquela sensação de autoconfiança de que todos os problemas
tinham sido superados.
Foi quando comecei a me relacionar com outro homem, um companheiro de sala e, embora isso não seja aconselhável no
processo de recuperação, na época eu não levava muito a sério a proposta da espiritualidade, ficava satisfeita em manter a
abstinência.
Ele não bebia, mas fumava maconha sempre. Quando me disse isso, fiquei com um pé atrás. Afinal, não tinha nascido ontem, e
já frequentava as irmandades, inclusive o Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA) para controlar meu excesso de paixão
e minha impulsividade sexual, que não era pouca. Em resumo, sabia todos os leros, mas não tinha maturidade para lidar comigo
mesma e não consegui (ou não quis) cair fora do jogo. Entrei naquelas de arrumar justificativas tipo “ele me respeita, não fica
pedindo que eu também fume”, “quando usa fica maneiro”, “nunca fuma perto de mim”, etc. O tempo foi passando, o clima na
cama esquentando; o relacionamento com ele e com suas fantasias, que eram muitas, se tornou mais atrevido – ou, como a gente
diz no DASA, “mais pesado” –, e eu fui aceitando como se tudo aquilo fosse o normal. Afinal, nós nos amávamos, éramos adultos,
estávamos apaixonados.
Só que, em um determinado ponto, foi demais até para mim, que não sou nem era exatamente uma santa. Tentei dar um basta
naquilo. Ele, inteligentemente, aceitou meus limites, só que, pouco a pouco, foi se insinuando, e eu fui cedendo aos seus desejos.
As coisas foram se desvirtuando cada vez mais, e ele começou a sugerir que eu desse “um peguinha” na maconha antes de
rolar o sexo. Como ele fez esse trabalho de convencimento sem forçar, os comportamentos começaram a se tornar cada vez mais
habituais, e essa situação se perpetuou na relação.
Era como se ele tomasse Viagra para manter a potência, já que tínhamos idades diferentes (a dele bem superior à minha), e eu
tomasse outra coisa qualquer para segurar o embalo.
Estive um ano inteiro com ele, sempre mantendo esse pique. Aí, minha mãe desenvolveu câncer, e eu tive que dar uma
cobertura para ela, ajudando-a no tratamento, inclusive acompanhando suas sessões de quimioterapia. Foi uma enorme pressão,
e eu descompensei legal psicologicamente. Fiquei mal e manipulei a própria médica de minha mãe para que me ministrasse algo
para alterar o humor.
Rapidamente a dependência voltou e eu, em consequência, voltei ao psiquiatra e aos remédios de uso controlado. Comecei a
tomar Rivotril, o que me levou para a antessala do inferno. Eu tomava o medicamento, apagava quando tinha que apagar,
acordava, parecia que estava normal, mas ficava anestesiada, sem perceber a loucura do meu estado. Era uma droga que, no
início, me deixava ilusoriamente funcional, mas sem consciência do comportamento meio zumbi, quase automático. Por causa
dessas características é que existe tanta gente usando e perdendo o controle de uma infinidade de problemas.
Quando desenvolvi a tolerância, as circunstâncias eram sempre uma loteria. Eu estava fazendo alguma tarefa ou atividade e, de
repente, simplesmente adormecia; apagava em pé, sem tomar consciência de que tinha saído do ar. A essa altura, meu namorado
tinha recaído, e eu também estava muito próxima de uma bebedeira.
Aí, voltei para a sala e fiquei um mês limpa, mas com a cabeça atordoada, muito ruim. Foi quando apareceu a oportunidade de
viajar com meu irmão para a Alemanha, onde ele morava e de onde tinha vindo visitar a minha mãe. Pegamos o avião e, já
durante o voo, tomei vinho e recaí. Meu irmão estranhou, e eu dei uma desculpa qualquer. Cheguei à Alemanha pronta para tomar
todas com chucrute, mas, antes que fizesse isso, meu irmão já me enquadrou: aqui você não vai beber.
Sem opção, fui a diversos grupos de Munique, cujos endereços eu tinha levado de São Paulo por insistência de uma
companheira alemã que mora aqui. A partir daquele dia, 26 de dezembro de 2013, nunca mais bebi.
Minha mãe faleceu em fevereiro, e eu abandonei completamente os remédios. Passei por uma síndrome de abstinência muito
forte, brabíssima mesmo, mas consegui. Agora, vou fazendo tudo que o Programa sugere para me manter limpa, sóbria e em
recuperação contínua.
A sabedoria prática gerada no dia a dia dos grupos pela aplicação dos 12 Passos por milhares de pessoas em todos os cantos
do mundo chega a nós, integrantes das salas, como um manancial inesgotável de dicas para evitar que nos percamos nas
incontáveis dificuldades que enfrentamos enquanto observamos nossos próprios defeitos e virtudes. Nessa observação,
buscamos um grau maior de espiritualidade e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida.
Uma grande parte disso se foca em buscar sempre o mais simples, tocando a vida sem complicações desnecessárias. Mas a
nossa mente é uma mentirosa contumaz, e precisamos estar atentos para que ela não nos faça confundir o simples com o raso,
nem com a inconsciência, porque o raso não tem nada de simples, é apenas falho – e falso. Simplicidade também não é omissão,
nem falta de comprometimento, muito menos ocultar-se atrás da obscuridade. Muitas vezes, você tem que assumir posições,
defender ideias, contestar, ser enérgico para persuadir os outros de suas convicções, sem se atemorizar.
Como lidar com a minha vida agora, do jeito que estou e com as coisas que acontecem? Faço essa pergunta várias vezes,
porque é comum ter dificuldades com a percepção do que ocorre, visto que sou uma pessoa intensa, acelerada e propensa ao
descontrole e ao exagero, de modo que posso distorcer a minha própria constatação dos fatos.
Por isso é tão importante frequentar as reuniões e praticar os passos, revendo e corrigindo minhas posições, visões e opiniões
sobre a realidade. Limpa, quando falo das minhas loucuras, atitudes e relacionamentos, os companheiros e companheiras me
dão feedbacks altamente confiáveis, evitando que eu escorregue nas minhas próprias características ou pise inadvertidamente no
tomate.
Pelo meu próprio bem, tenho que lembrar em tempo integral de que as coisas não funcionam como eu acho que deveriam. Sou
uma “complicadora profissional” de minha própria vida.
O Programa, à medida que você pratica e vê os resultados, começa a acontecer de forma lisa, suave, entrosada e harmoniosa,
com você consciente do que deve fazer e do que o Poder Superior vai lhe dar como resultado.
Tenho que desconstruir minha loucura, e não consigo fazer isso sozinha. Preciso de outros “malucos” da mesma envergadura e
de suas experiências para alcançar esse objetivo.
Os 12 Passos são um programa de prática, não de teoria. Masturbação mental me joga na insanidade, não no entendimento.
Entender exige objetividade, e ser entendido também.
O NA me ensinou a não justificar. Diante de uma pergunta da vida, de uma situação ou de uma pessoa, não preciso fazer uma
longa digressão. Basta dizer sim ou não. Seja lá qual for a resposta, aprendi também que ela é primeiramente dirigida para mim, e
só depois para o outro.
De início, basta seguir o que é sugerido. As coisas são simples, mas, às vezes, não temos a capacidade de ser simples. Somos
complicados. Basta olhar nossas vidas para compreender e aceitar isso. Por isso, hoje, em todas as áreas da minha vida,
inclusive a profissional, estou concentrada em buscar o simples.
Fazer o inventário moral do 4º Passo, destrinchando os meus medos, mentiras, defeitos, fraquezas, compulsões e defesas
neuróticas foi um trabalho difícil; foi doloroso romper fronteiras internas e botar luz em sombras.
O 5º Passo, então, nem se fala, principalmente por causa da tarefa de explicitar para outra pessoa minhas experiências sexuais,
uma área em que eu julgava ter pegado muito pesado. Assim, tinha muita vergonha de comentar ou mesmo de estruturar essas
situações como fatos presentes na minha história de mulher.
Fiz, mas foi muito doloroso botar o dedo em uma ferida que, racionalmente, nem acho tão funda assim; porém, no contexto
emocional, o que ainda me vence é a culpa de condicionamentos morais que, mesmo sem muito sentido lógico, ainda estão
arraigados em mim.
Eu não saio muito do 6º e do 7º Passos, pois ainda estou me conhecendo, e muitos dos defeitos de caráter estou percebendo
aos poucos, gradualmente. A eliminação de alguns deles eu entrego ao Poder Superior e espero as circunstâncias para eliminá-lo.
Outros, como a luxúria, estou sempre entregando e pegando de volta; ainda fico negociando com eles.
Todos os dias dou o 1º Passo em relação a todas as compulsões obsessivas que compõem a minha, digamos, “grade de
dependências e carências”. Nela estão o álcool, as drogas e o sexo. Tenho que fazer isso. Tive que sofrer mais da conta para
“incorporar”, admitir e me render à minha impotência diante delas.
Outras, sinceramente, não sei se devo aceitá-las como mais fortes do que eu ou estudar novas estratégias para administrá-las;
além disso, ainda há outras que entrego a Deus porque me desagrada lidar com elas.
Não posso me esquecer de minha loucura e da possibilidade de estar tentando manipular até o Poder Superior, pois não
consigo ser sempre honesta comigo mesma. Talvez o negócio seja acreditar primeiro no 2º Passo e esperar que Ele me devolva a
sanidade para que eu possa entregar minha vida aos Seus cuidados, no 3º Passo, de maneira totalmente autêntica, sem
embromações.
Como já disse, é muito mais difícil lidar com a área emocional do que com a intelectual, embora esta também dê trabalho,
porque não sou nenhum gênio. Assim, preciso me esforçar. Mas o meu emocional sempre vem na frente. Ele pode me travar e
tirar do ar por sentimentos de inferioridade, até mesmo quando, racionalmente, sei que estou mais do que preparada para superar
com facilidade qualquer desafio, e mesmo quando, antes da interferência de qualquer pessoa, eu esteja dominando
completamente um assunto e seja reconhecidamente uma especialista no tema. Isso já aconteceu comigo em algumas
oportunidades. Em outras, disfarço bem, embora, por dentro, esteja em franca ebulição. Não consigo facilmente o desligamento
emocional e, às vezes, opto por chutar o pau da barraca em vez de engolir o sapo – mas nunca penso em usar drogas, como
acontecia antes.
Preciso ficar esperta com meu equilíbrio em ocasiões em que me testam, me rejeitam ou me contrariam, porque realmente lido
mal com a rejeição. Mas as coisas estão mais mansas, pelo treinamento proporcionado pela aplicação do Programa em todas as
circunstâncias da vida.
Hoje, em termos afetivos, estou só, mas em alerta, já que ando tendo vontade de sair atirando para todo lado, fazendo um jogo
de sedução com muitas pessoas diferentes que me atraem. É tipo uma brincadeira emocional imaginária comigo mesma, uma
fantasia para fugir da mesmice do dia a dia, acordar a alma, sorrir, me animar, aprender, saciar curiosidades, estudar.
Realmente, acho um saco a vida de monja. Sou uma pessoa ansiosa, ligada, atraída pelo sensorial e pela sensualidade. Mas
meu coração não é pinéu, nem xarope. Ele é autêntico, vibrante, generoso, bom e legal.
Pinéu é o pensamento de julgar alguém sem coração. O mundo é assim, cheio de vítimas de uma repetição de
condicionamentos mumificados, que matam o desejo de renovação.
Claro que tenho muito chão a palmilhar antes de poder me considerar uma pessoa plenamente recuperada. Mas estou a
caminho, devagar e sempre, como sugere o programa dos 12 Passos.
Não tenho a pretensão de eliminar, de uma hora para outra, as diversas características de personalidade que ajudaram minha
dependência química a se desenvolver, transformando minha vida em uma montanha-russa que foi do céu até o inferno e me
obrigou a ficar por lá. Porém, graças a companheiros, companheiras, partilhas e apoio dos membros de NA nos momentos em
que minha cabeça trabalha contra mim e as minhocas começam a aventar hipóteses que racionalmente sei que são suicidas,
consigo vencer as ondas de cada tempestade e sair do outro lado da encrenca um pouco melhor do que estava antes.
A vida, agora, não é um jogo na mão do acaso ou das sensações. O trabalho que fiz sobre a pessoa que eu era já me
transformou o suficiente para que eu opte, naturalmente, pela sobriedade, pela serenidade e pelo controle dos impulsos e
compulsões, e estou conseguindo uma existência que sinto como compensadora, embora, em alguns momentos, bastante difícil
de manter nos eixos – mas, com toda certeza, muito melhor e mais construtiva do que era nos tempos de loucura e descontrole da
drogadição ativa.
Conheça também:
DIEHL, CORDEIRO, LARANJEIRA & Cols. – Dependência química: Prevenção, tratamento e políticas públicas

DIEHL, CORDEIRO, LARANJEIRA & Cols. – Tratamentos farmacológicos para dependência química: Da evidência científica à
prática clínica

DIEHL, FIGLIE & Cols. – Prevenção ao uso de álcool e drogas: O que cada um de nós pode e deve fazer?

RIBEIRO & LARANJEIRA (Orgs.) – O tratamento do usuário de crack – 2.ed.

SOBELL & SOBELL – Terapia de grupo para transtornos por abuso de substâncias: Abordagem cognitivo-comportamental
motivacional

STAHL & GRADY – Transtornos relacionados a substâncias e do controle de impulsos: Ilustrados

ZANELLATO, LARANJEIRA (Orgs.) – O tratamento da dependência química e as terapias cognitivo-comportamentais: Um guia


para terapeutas

Você também pode gostar