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Ai flores, ai flores do verde pino,

Português 10º ano - se sabedes novas do meu amigo!


Ai Deus, e u é?
Poesia trovadoresca - Cantigas de amigo
__ Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
Como vivo coitada, madre, por meu amigo, Se sabedes novas do meu amigo,
ca m'enviou mandado que se vai no ferido, aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?
e por el vivo coitada!
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do qui mi á jurado!
Como vivo coitada, madre, por meu amado, Ai Deus, e u é?
ca m'enviou mandado que se vai no fossado,
__ Vós me perguntardes polo voss'amigo,
e por el vivo coitada! e eu bem vos digo que é san'vivo.
Ai Deus, e u é?

Ca m'enviou mandado que se vai no ferido, Vós me perguntardes polo voss'amado,


e eu bem vos digo que é viv'e sano.
eu a Santa Cecilia de coraçón o digo, Ai Deus, e u é?
e por el vivo coitada!
E eu bem vos digo que é san'vivo
e seera vosc'ant'o prazo saído.
Ca m'enviou mandado que se vai no fossado, Ai Deus, e u é?

eu a Santa Cecilia de coraçón o falo, E eu bem vos digo que é viv' e sano
e seera vosc'ant'o prazo passado
e por el vivo coitada!
Ai Deus, e u é?

D. Dinis, in 'Antologia Poética'

Ambos os poemas começam com uma anáfora “como vivo coitada” e “ai flores, ai
flores do verde pino”, estas constituem o Paralelismo. E ambos incluem uma
frase ,que é repetida no fim de cada estrofe, o refrão ( “e por el vivo coitada” e “Ai
Deus e u é?” ) este transmite o sentimento principal do poema que ,normalmente,
se associa ao lamento e tristeza, pois o sujeito poético desconhece o paradeiro de
seu amigo/amado (normalmente na guerra - época das Cruzadas).
O sujeito poético é sempre do sexo feminino, apesar dos autores dos poemas
serem homens pois imaginam a perspetiva feminina e no século XIV maioria das
mulheres não tinha acesso à alfabetização. Para expressar a tristeza e indignação
perante a situação do seu amigo, o eu lírico recorre a confidentes (poema 1 -
“madre” e “Santa Cecília” - a mãe e Deus ou figuras religiosas; poema 2 - “ai flores
do verde pino” - a Natureza e “Ai Deus” refere-se também à religião).
Como justificar o apelo a estas entidades? Atráves dos vocativos ( “Ai flores,” )
Nestes poemas, deparamo-nos com rima pobre (“fossado” e “digo”), esta costuma
ser cruzada e os versos dos refrões NÃO CONSTITUEM RIMA, são considerados
versos soltos.
Português 10º ano -
Poesia trovadoresca - Cantigas de amor

Estes meus olhos nunca perderán, Senhor, eu vivo coitada


senhor, gran coita, mentr’eu vivo for. vida des quando vos nom vi;
E direi-vos, fremosa mia senhor, mais pois vós queredes assi,
por Deus, senhor bem talhada,
destes meus olhos a coita que han:
querede-vos de mim doer
choran e cegan quand’alguén non veen,
ou ar leixade-m’ir morrer.
e ora cegan per alguén que veen.
Vós sodes tam poderosa
Guisado tẽen de nunca perder de mim que meu mal e meu bem
meus olhos coita e meu coraçón. em vós é todo; [ e ] por em,
E estas coitas, senhor, minhas son; por Deus, mia senhor fremosa,
mais-los meus olhos, per alguén veer, querede-vos de mim doer
choran e cegan quand’alguén non veen, ou ar leixade-m’ir morrer.
e ora cegan per alguén que veen.
Eu vivo por vós tal vida
E nunca ja poderei haver ben, que nunca estes olhos meus
pois que Amor ja non quer, nen quer Deus. dormem, mia senhor; e por Deus,
Mais os cativos destes olhos meus que vos fez de bem comprida,
morrerán sempre por veer alguén: querede-vos de mim doer
choran e cegan quand’alguén non veen, ou ar leixade-m’ir morrer.
e ora cegan per alguén que veen.
Ca, senhor, todo m’é prazer
Interpretação - * quant’i vós quiserdes fazer.

Contrariamente às cantigas de amigo, as cantigas de amor têm sempre um eu lírico


de sexo masculino, este tem uma relação de vassalagem amorosa - o eu poético
coloca a amada, referida como “a Senhor”, num pedestal, ou seja, tem uma relação
de idolatria com ela porque esta é inacessível “e eu vivo por vós” (devido a ser
casada, ou pertencer a uma ordem social superior). Por ser inacessível, o sujeito
poético nunca identifica “A Senhor”.
Outra caraterística destas composições poéticas é a Coita de amor, onde o sujeito
poético exprime os sentimentos amorosos e não correspondidos, de maneira
desolada.
Relembrar finda (2º poema - caixa azul), que enfatiza a entrega total do eu lírico à
“Senhor”.

* - O poema baseia-se numa contradição: ao mesmo tempo que o eu lírico presta


vassalagem amorosa à Senhor e gosta dela, os olhos dele cegam-se quando a vê por
ser bonita demais, ao mesmo tempo cegam-se quando não a vê porque sente falta
dela. Porém, o sujeito poético não culpa a Senhor, pois os olhos e os sentimentos
não são dela. Ainda enfatiza a vontade divina (“ nen quer Deus”), que também não
coopera com a vontade dele.
Português 10º ano -
Poesia trovadoresca - Cantigas de escárnio e maldizer

Maldizer Escárnio

Foi um dia Lopo Jograr Un cavalo non comeu


á seis meses nen s’ergueu
a cas d'um infançom cantar mais prougu’a Deus que choveu,
e mandou-lh'ele por dom dar creceu a erva,
três couces na garganta; e per cabo si paceu,
e já se leva!
e fui-lh'escass'a meu ciudar,
Seu dono non lhi buscou
Segundo com'el canta. cevada neno ferrou:
. mai-lo bon tempo tornou,
Escasso foi o infançom creceu a erva,
e paceu, e arriçou,
em seus couces partir entom, e já se leva!
ca nom deu a Lopo entom Seu dono non lhi quis dar
mais de três na garganta; cevada, neno ferrar;
mais, cabo dum lamaçal
e mais merece o jograrom,
creceu a erva,
Segundo com'el canta. e paceu, e arriç’ar,
e já se leva!

+ direta (Lopo) ironia e ambiguidade


Linguagem mais depreciativa (implicitamente sabe-se quem é)
Ironia - 6 meses + específica
Refrão - “já não se leva”

Ambas visam satirizar e ridicularizar a corte e seus


costumes e, principalmente, o amor cortês