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E
B

A instalação sonora como espaço de arte plural: a questão A


da interpretação de obras onde a electrónica e a interação T
humanas se encontram ao serviço da sua determinação
E

Helena Santana S
Universidade de Aveiro

Rosário Santana
Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico da Guarda 14

Resumo: a interação entre o humano e o instrumental, o instrumental e o electrónico, o pré-


gravado (fixo) e o interativo (modulável), despoleta uma nova forma de criação artística onde a
interação reciproca se trona fundamental. Quando a esses espaços se sobrepõem outros de
texto e imagem, e quando estes se manipulam e regem mutuamente, os criadores desenvolvem
espaços de arte que se tornam abertos e plurais. Neste fazer, uma interpretação de obra não se
rege mais pelos cânones mais convencionais, adquirindo uma outra forma de se ser, e, estar.
Por outro lado, e porque tem sido frutífera a relação criativa que ocorre entre o compositor
português António de Sousa Dias e muitos outros artistas, na produção de obras de arte plurais,
espaços de arte interativos onde a componente sonora e visual sobressai, decidimos dedicar a
nossa atenção a toda a sua produção artística, nomeadamente para duas obras deste
compositor onde a interação entre criador, intérprete e fruidor, se revela fundamental na
determinação da sua interpretação. Simultaneamente, a questão do estudo e desenvolvimento,
através da arte, dos espaços arquitectónicos da sala de concerto, nomeadamente em função da
sua capacidade de modulação dos estratos de significação de uma obra, são relevados em
muitas das suas propostas artísticas. Neste trabalho, analisaremos as obras Tonnetz 09-B (2010)
e A Dama e o Unicórnio (2013) para demonstrar como se formam enquanto espaços de arte,
bem como os problemas de interpretação e criação que encerram. Através deles, queremos
perceber como são manifestos os seus conteúdos sonoros, musicais, imagéticos e visuais, bem
como se relacionam, e no caso de A Dama e o Unicórnio, com os conteúdos poéticos de Maria
da Teresa Horta e o espaço físico da sala de concerto - O Jardim de Inverno do Teatro de São
Luíz em Lisboa. Pretendemos ainda verificar como se constituem, e através da interpretação, em
novos espaços de arte.

Palavras-chave: António de Sousa Dias. Música Eletrónica. Música Eletroacústica.


Interpretação Musical. Instalação multimédia interativa. A Dama e o Unicórnio. Tonnetz 09-B.

Sonorous and multimedia installation as a plural art space: the question


of interpretation of artistic works where the electronic and human
interaction are at the service of its determination

Abstract: The interaction between the human and the instrumental, the instrumental and the
electronic, the pre-recorded (fixed) and the interactive (modular), triggers a new form of artistic
creation where the reciprocal interactions are fundamental. When these spaces overlap other
text and image, and when they manipulate and govern each other, the creators develop art
spaces that become open and plural. In this way of making an interpretation of one work, this is
not ruled by more conventional canons, acquiring another way of being, and existence. On the
other hand, and because it has been fruitful creative, the relationship that occurs between the

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HELENA SANTANA; ROSÁRIO SANTANA.
A instalação sonora como espaço de arte plural: a questão da interpretação de obras onde a electrónica
e a interação humanas se encontram ao serviço da sua determinação
DEBATES | UNIRIO, n. 14, p.136-149, jun. 2015.

Portuguese composer António de Sousa Dias and many other artists in the production of plural
works of art, the interactive art spaces that occurs when the sound and visual component
stands out, we decided to dedicate our attention to all of these artistic production, in particular
for two works of this composer where the interaction between creator, performer and spectator,
is crucial in determining their interpretation. At the same time, the question of the study and
development through art, architectural spaces of the concert hall, especially in terms of their
ability to modulate the meaning of a work of strata, are included in many of its artistic proposals.
In this paper, we analyze the works Tonnetz 09-B (2010) and The Lady and the Unicorn (2013)
to demonstrate how their form creates art spaces and also how the problems of interpretation
and creation enclosing in the art product that results. Through them, we realize how obvious is
their sound, music, imagery and visual content and relate, and in the case of The Lady and the
Unicorn, with the poetic content of Maria Teresa Horta and the physical space of the room
Concert - The Winter Garden of the Sao Luiz Theatre in Lisbon. We also want to see how they
are, and through interpretation, they come new art spaces.

Key-words: António de Sousa Dias. Electronic Music. Electroacoustic Music. Musical


Interpretation. Multimedia Interactive Installation. A Dama e o Unicórnio, Tonnetz 09-B

Introdução congregam e interagem vários elementos


A proliferação, ao longo dos últimos provenientes de mundos heterogéneos e
anos, de um conjunto de instrumentos e aparentemente incoerentes.
ferramentas de produção, manipulação, Simultaneamente, podemos afirmar
gravação e difusão de som permite aos que o homem, enquanto criador, representa
criadores de obras, nomeadamente as um mundo interno produto de uma educação
musicais, a criação de novos espaços de som e interação com o meio. Assim sendo não fica
e arte. Estes novos espaços de som e arte, indiferente às evoluções científicas e
quando de natureza electrónica, eletroacústica tecnológicas que se processão tendendo a
ou mista, permitem a difusão de espaços de integra-las no processo de criação quer ao
som que podem adquirir características nível da composição como da interpretação e
interativas, onde a questão da realização, fruição da sua obra. Fruto de uma sociedade
produção, manipulação e interpretação se em transformação, o homem representa essa
torna fundamental. A existência, ou não, de mesma sociedade através da obra feita, uma
uma partitura prévia, a existência, ou não, de obra representativa e reflexo da sua visão e
um texto literário, a existência, ou não, de vivência nesse mesmo mundo, uma obra que
vários estratos de significação e ação criativa será em seguida alvo de uma prática e ação
e interpretativa, bem como a possibilidade, ou interpretativa que se manifestará reflexo de
não, de uma manipulação e criação em tempo um outro autor, um outro possuidor e fazedor
real de um, ou mais, estratos de significação de obra. Essa representação, mais ou menos
de obra, permitem ao criador, intérprete e ousada, revela-se assim um reflexo também
fruidor da mesma, uma outra realidade de quem cria, interpreta e frui. A obra de arte
criativa, operacional e fruitiva; a abertura de adquire assim diferentes rostos, evoluindo
espaços de diálogo entre os três, revelando-se numa multiplicidade de formas e conceitos,
fundamental na definição das estruturas muitos deles, ainda hoje, por explorar. A
materiais, linguísticas, formais e diversidade de caminhos propostos no século
interpretativas. Por outro lado, a coexistência XX e início do século XXI refletem a
em palco de diferentes formas de expressão diversidade cultural de uma sociedade que
artística alarga os horizontes da criação tenta responder a questões fundamentais que
levando vários autores a realizar e conceber se poem ao ser humano desde todo o sempre.
espetáculos multimédia e interativos onde se O criador, um investigador, tenta através da

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procura incessante de novos caminhos, utilização dos espaços envolventes e,


conduzir o homem e a criação para outros também, emergentes1.
níveis de entendimento, conhecimento e
existência. A nós, cabe-nos a missão, se assim Neste fazer, António de Sousa Dias usa
o entendermos, de entrar nesses mundos, predominantemente sons, ferramentas, meios
seguir, explorar e investigar os novos e processos que saem do universo da música
universos de som, deixando-nos invadir por electrónica e eletroacústica, processos esses
realidades sonoras e artísticas que nos que se transpõem também para a realização
transformam, de forma mais ou menos dos espaços de arte de natureza plástica e
marcada, depois de imergirmos e emergirmos luminar que proliferam em muitas das suas
desse oceano de sons (SANTANA, 2005). obras. Este tipo de sons, e processos, ocorre
também no caso de instalações multimédia
A obra, vivendo ainda do, e para o interativas, um novo tipo de projeto artístico
espaço, potencia novas formas de vivificar a que Sousa Dias cria nos últimos anos de
Arte. A instalação, integrando por vezes o forma regular e fundamentada.
espectador enquanto elemento definidor das Simultaneamente, a questão do estudo e
suas estruturas discursivas e conceptuais, desenvolvimento e transformação, através da
diversifica a aproximação e a integração de arte, dos espaços arquitectónicos da sala de
um património cultural e artístico diverso e concerto, nomeadamente em função da sua
pluridisciplinar, um património que, capacidade de modulação dos estratos de
potenciando a arte, dignifica uma ação que se significação de uma obra, são relevados em
revela não só performativa, como igualmente muitas das suas propostas artísticas. A
educativa quando não interventiva. Assim, um componente sonora e visual presente em
novo património artístico e cultural se muitos espaços de arte, nomeadamente em
desenvolve, sendo que, na sua forma e Tonnetz 09-B (2010) e A Dama e o Unicórnio
conteúdo, surge como paradigma de novos 1
ideais de arte e criação. A possibilidade de Neste sentido gostaríamos de referir o espaço da
cidade enquanto elemento físico e material, bem
interação entre o humano e o instrumental, o
como elemento delineador e constituinte da obra
instrumental e o electrónico, o pré-gravado de arte. A cidade desconstrói-se, construindo-se
(fixo) e o interativo (modulável), despoleta outra no decorrer de uma ação performativa e
uma nova forma de criação artística onde a artística. A cidade enquanto multidão, transforma-
interação reciproca se trona fundamental. se de ser passivo e apático em ser ativo,
Quando a esses espaços se sobrepõem outros delineador e criador de novos símbolos,
de texto e imagem, e quando estes se estabelecendo um diálogo onde o espectador
interage com a arte e os espaços de arte. Esta
manipulam e regem mutuamente, os criadores intervenção quer atenção, objectivo e sensibilidade
desenvolvem espaços de arte que se tornam voltados para o que é a cidade, o que esta
abertos e plurais. Neste fazer uma representa, cria, desenvolve e dissolve enquanto
interpretação de obra não se rege mais pelos objecto material e sobretudo imaterial. Notamos
cânones mais convencionais, adquirindo uma que a cidade enquanto tela se recria
outra forma de se ser e estar; uma outra continuamente, sendo que “A cidade, com seus
cartazes, placas de trânsito, fachadas de lojas e
forma de se manifestar ser e arte. Interagindo
outdoors, transforma-se e renova-se, então, como
muitas vezes de forma direta com o meio, a lugar de troca simbólica” (MAZETTI, 2006, p.5).
arte, através da instalação (sonora e visual; Nela surge a arte, refletindo-se espaço de arte.
interativa, ou não), diversifica-se nesse Nela, a relação entre espaço e lugar ganha
mesmo meio adquirindo e redimensionando as centralidade, na medida em que a cidade, no
suas inúmeras valências. O homem, exato momento dessas experiências fugazes, se
potenciando a estrutura física das salas e dos constitui um lugar atravessado por dois tipos de
espaço que são: o espaço físico e o espaço virtual.
espaços de fruição da arte, faz, (SANTANA & SANTANA, 2014) Não se
obrigatoriamente, uma nova leitura e determinará assim também um espaço de fruição
de arte menor? Não procedemos assim numa
galeria, num café-concerto, num auditório, etc?

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(2013) do compositor português António de espaços de arte. Representado pelos autores


Sousa Dias, redimensiona esses mesmos que compõem o Groupe de Recherche d’Art
espaços físicos da sala ou local de concerto da Visuel (Horacio Garcia Rossi, Julio Le Parc,
obra, atirando a atenção do espectador, não François Morellet, Francisco Sobrino, entre
só para as estruturas discursivas do objeto de outros), concebem em conjunto com a criação
arte, como para o espaço envolvente. musical, a instalação sonora. Assim, a
A forma física desse espaço, bem instalação sonora, nomeadamente a instalação
como a maneira como este é apreendido sonora interativa, é um espaço ou um objecto
aquando da fruição do espaço de arte, de arte que reúne em si mesma diversas
condiciona a forma de propagação e formas de arte. Simultaneamente, a
percepção dos seus materiais e das suas concepção de uma arquitetura, bem como dos
diferentes nuances a nível tanto objetos de arte que potenciam o objecto
composicional, como discursivo, criativo e arquitetural, constitui um desafio maior para
artístico. Neste sentido, surgem diversos graus todo o criador (A Dama e o Unicórnio).
de aproximação à obra de arte, consequência Enquanto catalisadores dos elementos visuais
não só do espaço físico onde se localiza a obra e sonoros, a arquitetura e os espaços físicos,
de arte, mas também da capacidade de permitem o gozo controlado do objecto de
interação dos seus interlocutores; a arte arte que, inserido, reavaliado e
determinando objetos sociais e de redimensionado à luz do espaço arquitetural,
sociabilidade humana; o som determinando-se reflete, muitas vezes, o objeto que
imagem, e a imagem, som. O público, redimensiona2.
usufruindo da obra e do espaço de arte, reage Potenciando os espaços físicos onde se
aos diversos conteúdos de forma sequencial inserem, as instalações sonoras (interativas ou
ou simultânea integrando-se neles, e na obra, não) sobrepõem várias realidades sonoras e
que se desenvolve no espaço e no tempo das visuais. Diversos factores interagem no
suas formas, dimensões e espaços de arte. momento da sua concepção e criação
Através de Tonnetz 09-B (2010) e A englobando um conjunto de materiais, dados,
Dama e o Unicórnio (2013) iremos refletir na conceitos e funções que se caracterizam por
forma como os seus conteúdos são uma interdisciplinaridade e multiculturalidade
mutuamente manipulados, tanto material, assinaladas. A comunicação e fruição da obra
como técnica e estilisticamente pelo permitem a interação com o público que
compositor e pelos seus intérpretes e existe nela, e para ela, agindo e reagindo por
fruidores; neste fazer e dizer, as práticas ela. Por outro lado, a partir do momento em
interpretativas e criativas fundamentais. que reconhecemos o espaço através da
audição, compreendemos o grau de
A instalação sonora como espaço importância que a acústica tem nos espaços e
de arte plural de que forma podemos identificar um lugar
Ao longo do século vinte pelo seu som, ou seja, a forma e o volume de
reconhecemos três grandes eixos criativos que um espaço constitui uma fronteira para o som,
exploram diversas formas de fazer e e a matéria delimitando o espaço, reflete-o ou
dimensionar o objeto de arte. Por um lado
2
encontramos aqueles autores que procuram Uno, total e sublime, o objeto de arte, neste
conciliar a arte com a tecnologia, a caso as obras Tonnetz 09-B e A Dama e o
Unicórnio de António de Sousa Dias, traduzem a
informática e a vida. Por outro, aqueles que
grandiosidade de um pensamento formatado
exploram o universo resultante do uso de uma unicamente pelos limites da imaginação.
técnica e uma estética que se desenvolve a Determinando-se em diversas obras chave de
partir da corrente futurista de início do século uma arte do espaço e do tempo, onde o tempo
XX. Por último, encontramos um eixo produtor rege e se submete ao espaço, onde o espaço é
de estruturas em movimento onde se procura ordenado para revitalizar o tempo, nestas obras,
espaço e tempo confrontam-se e unem-se numa
a luz e a energia imaterial, elementos
coreografia própria.
difundidos e projetados por esses mesmos

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absorve-o, conduzindo a novas formas que criação musical. O uso das novas tecnologias
proporcionam novas audições e, no caso da revela-se igualmente um facto. Pertinente
componente visual, novas imagens (Tonnetz revela-se a sua menção, constituindo, este
09-B). Podemos afirmar que a configuração da estudo, uma referência a duas obras do
instalação interativa propicia o acesso, compositor António de Sousa Dias, bem como
participação ou manipulação do sistema ou o estudo das técnicas utilizadas na sua
obra de arte pelo público, e pode utilizar concepção e criação. O seu estudo, leva-nos a
tecnologias electrónicas ou digitais como é o vastos domínios da criação e interpretação
caso das obras em análise. Por outro lado, musical. Desenvolvendo-se em vastos e
podemos perceber que a interdisciplinaridade diversos campos do conhecimento, tanto
predomina nestes espaços de arte, seja no técnico, como científico e artístico, a sua
campo das instalações interativas, seja no música, e a sua arte, utilizando e integrando
campo da produção multimédia e audiovisual, processos de formalização provenientes de
propondo uma nova forma de atuação e de outros domínios do conhecimento, permite-
relação entre arte, ciência e tecnologia. nos a abordagem de matérias e materiais
diversos, materiais esses usados na concepção
Por outro lado, o movimento e o corpo do universo sonoro, musical, visual e artístico
foram dos primeiros factores a contribuir do compositor (SANTANA, 2005).
diretamente para a instalação sonora. Em A produção musical de António Sousa
1971, em Los Angeles, na exposição “Arte e Dias3 revela-se bastante extensa e
Tecnologia”, os artistas consumaram uma 3
viragem na arte mundial. O período do artista António de Sousa Dias nasceu em Lisboa em
1959. Enquanto compositor, possui o diploma do
engenheiro tinha chegado ao fim. Todavia,
Curso Superior de Composição atribuído pela
persistiam alguns artistas que, embora Escola de Música do Conservatório Nacional de
influenciados pela tecnologia, movimentos e Lisboa. tendo sido aluno da classe da
novos materiais, não aderiram diretamente ao compositora Constança Capdeville (1937-1992).
vídeo criando esculturas que contribuíram Mais recentemente obteve o grau de doutor em
muito para a criação da futura instalação. Musicologia na Universidade de Paris VIII,
Neste sentido, Jean Tinguely constrói diversas realizando um trabalho de investigação sob a
orientação de Horacio Vaggione. Para a sua
obras que, pela sua dimensão e interação com realização obteve a ajuda financeira da Fundação
os espaços e o público, são já uma instalação para a Ciência e Tecnologia/MCES. Encontra-se
arquitectónica, onde o visitante se funde com atualmente a desenvolver trabalho de
a própria escultura e, deambulando entre ela, investigação no CICM - Université Paris VIII /
se apercebe dos diferentes recantos MSH Paris Nord, na área da criação musical e
sensoriais, principalmente visuais e auditivos. ambientes virtuais. Antes de iniciar a sua
atividade profissional no ensino superior, António
Iremos perceber que António de Sousa Dias
de Sousa Dias foi professor no Conservatório
irá dimensionar de uma outra forma, com Nacional entre 1985 e 1987. Entre esta data e o
consequências visuais e sonoras distintas, os ano de 2001, exerceu atividade profissional na
seus espaços de fruição de obra, tanto em A Escola Superior de Música de Lisboa onde
Dama e o Unicórnio, como em Tonnetz 09-B, exerceu igualmente funções de subdiretor. Foi
sendo que, neste caso, os espaços de arte são membro do grupo ColecViva, dirigido por
fruto de uma interação entre espectador e Constança Capdeville, do qual fez parte como
assistente de direção, técnico de síntese de som
espaço de arte. e percussionista desde o ano de 1985. Desta
colaboração surge um considerável número de
António de Sousa Dias obras sendo clara a influência da compositora
neste momento da sua produção enquanto
compositor. Colabora desde 1992 com o Grupo
Em Portugal, e ao longo do século XX, Música Nova, grupo este que se encontra sob a
verificamos que a arte e a música se direção do compositor Cândido Lima (DIAS, s.d,
desenvolvem de forma diversa e significativa. s.p.). Atualmente coordena as Licenciaturas em
Vários são os autores que utilizam as mais Produção Multimédia Interativa e em Design
diversas e atualizadas técnicas de suporte à Sonoro no Instituto Superior Autónomo de

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significativa comportando obras para la também nas ideias de espelho (há dois
instrumentos tradicionais, música electrónica, ou...), proporção, ritmo, dia-a-dia, na tela
eletroacústica ou mista, bem como a música ou videoconferência, na internet, nos
para filme, documentário ou animação. A sua canais de televisão, e assim por diante.
produção engloba ainda a Performance e o Assim se integra “...há dois ou...” nesta
Teatro Musical. Neste contexto compôs em cultura do dois-em-um, de um permanente
1989 Estilhaços, em 1996 Rumor e mais vai-e-vem entre global e local, uno e
recentemente, em 1998 …há dois ou…, um múltiplo, neste permanente zapping. De
espetáculo imaginado e concebido por António uma forma divertida, é um convite a que
de Sousa Dias para movimento, voz, piano, também se coloque a questão: no fim de
contrabaixo, percussão e desenho de luzes. A contas quem telecomanda quem ou... o
obra, concebida sobre textos e obras do quê? Afinal... há dois ou (...) (DIAS, s.d.,
compositor, de Constança Capdeville, António s.p.)
Lopes-Graça, Jorge Peixinho, Luciano Berio,
António Macedo, Fernando Pessoa, Breyner Esta interação constante entre as
Andresen, Almada Negreiros, entre outros, diferentes áreas do saber e do fazer artístico,
pretende ser um tributo aos oceanos e à bem como a interação entre diversos atores e
água4. Como nos afirma o autor, autores para produzir obra será constante ao
A água como conceito é uma, mas longo da sua produção.
por vezes referimo-nos a diferentes águas.
Esta apresenta-se em vários estados. Como exemplo mais recente, e
Mesmo a sua condição de única, torna-se revelador também da presença constante de
dois ao pensarmos que basicamente se Constança Capedille junto do autor,
constitui de Hidrogénio e Oxigénio, mas influenciando a sua atitude criativa,
estes elementos estão em quantidade de encontramos a obra Ce désert est faux de
três. Do ponto de vista da criação, também 2012. Esta obra, um espetáculo imaginado e
não me parece uma questão pacífica. Ao dirigido por António de Sousa Dias a partir de
transpormos a relação sujeito-objeto para o obras de Constança Capdeville5, surge
domínio criador-obra, estes, em certo
momento nos parecem indissociáveis mas, No ano em que Constança
logo a seguir, e sobretudo no caso de Capdeville comemoraria os seus
música, surge um terceiro, o executante. 75 anos, e em resposta ao desafio
Mesmo pensando que aqui há dois lançado pela Miso Music Portugal,
(compositor e executante), o circuito não de realizar um evento com obras
se completaria sem o ouvinte... Esta de Capdeville. [neste contexto],
relação um para/de dois para/de vários (ou pareceu-me importante propor um
mesmo nenhum) encontramo-la também espetáculo que, sem pretender ser
na ideia de heterónimos, ou na ideia de ao “estilo de”, procurasse ser em
versão de obra: há duas ou... Encontramo- tudo semelhante àquele que
Capdeville criava para as suas
Estudos Politécnicos (IPA) e é membro do CITAR obras: a integração destas num
(EA / Universidade Católica Portuguesa) dirigindo
pesquisas no doutoramento em Ciência e 5
Segundo informações do autor as obras em uso
Tecnologia das Artes [5]. Na sua produção são: Di lontan fa specchio il mare (Joly Braga
musical, a composição de música para cinema e Santos, in Memoriam) (1989); Amen para uma
televisão possui particular importância sendo que Ausência (versão contrabaixo Solo) (1986);
as suas obras têm sido executadas de forma Momento I (versão B) (1974); Border Line (1988);
continuada em diversos países (Portugal, França, Valse, Valsa, Vals; Keuschheits Waltz (1987); Um
Espanha, Itália, Rússia, Argentina, etc.). Quadrado em redor de Simbad (1988); Vocem
4 meam ("Quem é o Terceiro que caminha sempre
Não podemos esquecer que o ano de 1998
acolheu em Lisboa a Expo 98 cujo tema foi ao Teu lado?") (1986) e um excerto do filme “Rosa
precisamente esse - os oceanos. de Areia” (1988) de Margarida Cordeiro e António
Reis (DIAS, s.d.).

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espetáculo concebido como um obra proposta por António de Sousa Dias


todo, acolhendo e convivendo com surge como uma instalação que, na sua
as obras e momentos que o essência, procura ir mais longe que o filme
constituem. O título, “Ce désert que se encontra na sua génese, Natureza
est faux”, tirado de um texto de Morta da autoria de Susana de Sousa Dias
Breton e Eluard e empregue num com música do compositor. Os elementos
espetáculo de Capdeville, pode ser propostos pela, e na instalação, aprofundam,
interpretado livremente ou tomado segundo o autor, questões que se prendem
à letra: este lugar que nos querem com o espaço, o tempo e a narrativa,
por vezes fazer crer de deserto, explorando ainda outras formas de escrita
como deserto é falso, pois “as musical (DIAS, s.d.). No desenvolver de uma
sombras que escavo deixam produção, surgem diversas propostas de obra
transparecer as cores como tantos que tentam, de forma continuada, responder
segredos absurdos” [dirige o a questões de ordem técnica, estilística e
imaginário do ouvinte de forma estética propostas, refletidas, expressas e
subtil mas eficaz, e o imaginário aprofundadas no fazer de obra.
do autor de forma concreta e Os espaços de arte, e da arte,
material] (DIAS, s.d., s.p.). revelam-se pela obra e no sentir dessa mesma
obra. O estudo das faculdades,
Sendo profícua esta relação de discriminativas, visuais e sonoras de um
produção que se verifica entre o compositor espaço de arte, e do seu fazer, leva o artista,
António de Sousa Dias e diversos outros o compositor, o criador, a estabelecer relações
artistas, notamos que a mesma nunca se de reciprocidade entre diversas áreas do saber
esbate, sendo numeroso o conjunto de ações e do fazer propondo, as mais das vezes,
que se manifestam de forma contínua e útil. espaços de arte plurais. Estas relações
Deste conjunto destacamos ainda aquelas próprias ao fazer da arte fundam-se e
produzidas utilizando sons e/ou processos de fundamentam-se em conhecimento e em
produção e manipulação próprios da música intuição, revelando, quantas vezes, faces de
electrónica e eletroacústica, bem como aquela uma mesma moeda, uma moeda de troca e
conducente à realização de projetos artísticos de reversibilidade entre o imaginário e o
mais vastos como é o caso da instalação poético, entre a imagética e a poiética da
artística interativa. Neste sentido referimos obra, e do seu feitor. Som e cor, textura e
por exemplo as obras Natureza Morta – luminância, harmonia e equilíbrio, forma e
Stilleben (2010-2011), obra onde sem recorrer conteúdo, som e palavra, música e texto,
a um texto, o compositor cria, em colaboração narração e narrativa, todos concorrem para a
com diversos outros artistas, um universo concretização de uma ideia, para a definição
imagético recorrendo a um conjunto de de um organismo que traduz o ser e o ter de
elementos visuais e documentais selecionados quem faz, e se manifesta, arte. Nos últimos
de um conjunto mais vasto e decorrente dos anos o interesse de António de Sousa Dias
materiais de arquivo registados durante pela criação de diversas instalações
quarenta e oito anos de ditadura fascista de audiovisuais interativas despertou em nós o
António de Oliveira Salazar em Portugal6. A interesse pelo estudo da sua obra sendo que,
6
e do seu conjunto de propostas visuais e
Esta obra tem a conceção e realização de
Susana de Sousa Dias; a música de António de Exército, da Cinemateca Portuguesa - Museu do
Sousa Dias; Imagem de Vasco Riobom; Cinema, do Instituto dos Arquivos Nacionais /
Montagem de Susana de Sousa Dias; Mistura de Torre do Tombo e da Radiotelevisão Portuguesa.
som de João Ganho; Programação de António de Para a sua produção os autores obtiveram o apoio
Sousa Dias; Produção de Ansgar Schäfer; os da Fundação Calouste Gulbenkian, do CICM
meios técnicos foram disponibilizados pelo Kintop, (Universidade Paris 8 - MSH Paris Nord), tendo
pelo Light Film e O Ganho do Som. Para a sido financiados pelo Ministério da Cultura/
produção da obra foi inquestionável a colaboração DGArtes (DIAS, s.d.).
dos arquivos do Centro de Audiovisuais do

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sonoras, destacamos as obras Tonnetz 09-B e flexibilidade ao nível da estruturação da obra.


A Dama e o Unicórnio, esta última com textos O fruidor/intérprete surge como elemento
da autoria da poetisa Maria Teresa Horta. fulcral na interpretação e realização das suas
escolhas materiais, formais e interpretativas.
Tonnetz 09-B Segundo Umberto, uma Obra Aberta, resulta
numa
Tonnetz 09-B revela uma necessidade
e inquirição criativa manifesta pelo compositor proposta de um “campo” de
ao longo dos últimos anos que se prende com possibilidades interpretativas,
a convergência e interação entre música, som como configuração de estímulos
e imagem7. Esta obra, uma instalação dotados de uma substancial
audiovisual interativa multicanal foi dada em indeterminação, de modo que o
concerto no KINTOP / Museu Nacional de Arte fruidor seja levado a uma série de
Contemporânea – Museu do Chiado. Como o “leituras” sempre variáveis;
próprio autor afirma “Tonnetz 09-B é uma estrutura, enfim, como
instalação audiovisual interativa multicanal “constelação” de elementos que se
que nasce do [seu] desejo de criar espaços prestam a diferentes relações
musicais, sonoros e, mais recentemente, recíprocas (ECO, 1989, p. 173-
audiovisuais, onde [propõe] aquilo que 174).
[designa] como um espaço de liberdade.
Lugares onde o espectador possa, apenas, Não resulta assim Tonnetz 09-B ?
estar, divagar, encontrar-se, projetar-se,
pensar(-se)” (DIAS, s.d., s.p.). Em Tonnetz Por outro lado, para Helena Barranha,
09-B, imagem e som criam um mundo onírico,
abstrato e difuso, através de uma constante Entre a ideia de série e a obra em
influência mútua. As relações estabelecidas construção, a instalação Tonnetz
entre as diversas componentes da imagem 09-B revela a pesquisa
atuam sobre o resultado sonoro e, a análise desenvolvida, ao longo dos últimos
do som, que se processa em tempo real, é anos, por António de Sousa Dias,
usada para modificar parâmetros da imagem, na área de convergência entre a
um elemento que se encontra a ser difundido música e a imagem. Baseada no
continuamente (DIAS, ). E, “À medida que se conceito de rede tonal (em
navega neste espaço fechado mas sempre alemão, Tonnetz), a obra
renovado, as formas que se vão apresentando reinterpreta alguns temas
apelam a que cada um aí projete as suas fundamentais na génese da arte
próprias sensações, impressões à maneira de contemporânea, como a relação
um teste de Rorschach ou, porque não, de um entre valores sonoros (altura,
dia passado a olhar e a ouvir as nuvens” direção, timbre) e valores visuais
(DIAS, s.d., s.p.). (forma, textura, cor, luminosidade)
A adopção por parte do compositor de ou a diluição dos paradigmas
uma estética, que nos permitimos considerar harmónicos e tonais. Nesse
de obra aberta, conduz a uma maior sentido, para além da sua filiação
7 teórica em L. Euler e H. Riemann,
Tonnetz 09 – B é uma obra que tem a conceção
e programação de António de Sousa Dias; a Tonnetz 09-B pode evocar a obra
programação adicional de Tifanie Bouchara; a de compositores como Scriabin e
consultadoria científica de Christian Jacquemin; a Schoenberg ou a pintura de
produção de Kintop (Ansgar Schaefer) e so MNAC Kandinsky, associando a estas
– Museu do Chiado (Emília Tavares); o apoio ao referências históricas uma reflexão
desenvolvimento do CICM (Universidade Paris 8 - atualizada sobre a dimensão
MSH Paris Nord), do LIMSI (Universidade Paris
11), bem como o apoio financeiro do Ministério da
sinestésica e tecnológica da obra
Cultura/DGArtes. (DIAS, s.d.)

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HELENA SANTANA; ROSÁRIO SANTANA.
A instalação sonora como espaço de arte plural: a questão da interpretação de obras onde a electrónica
e a interação humanas se encontram ao serviço da sua determinação
DEBATES | UNIRIO, n. 14, p.136-149, jun. 2015.

de arte, em contextos interativos de sons manifestam uma torsão que se


(DIAS, s.d., s.p.). desenvolve da classe <0, 3, 7> à classe <0,
1, 4> como nos afirma o seu autor (DIAS,
Concebida como um espaço musical s.d.).
navegável, a instalação configura um A cada classe de sons, e nós, vimos
ambiente imersivo, estruturado através de associado um ficheiro sonoro. Pese embora a
dois sistemas intercomunicantes - um motor diversidade de objetos sonoros em uso,
de geração sonora e um motor de criação existem somente 12 ficheiros sonoros de
visual - em contínua interferência. Estes dois diferentes durações que se encontram
processos interdependentes delimitam um disseminados em loop. António de Sousa Dias
campo abstrato e difuso, propício a uma apela, para formar os acordes resultantes do
leitura subjetiva por parte do espectador que, uso das classes de sons <0, 3, 7> e <0, 1,
em limite, pode recusar a possibilidade de 4>, aos princípios técnicos e científicos
interagir com a obra, optando por deixar-se desenvolvidos e explorados por Jean-Claude
conduzir pelo ambiente programado, em vez Risset. Segundo nos afirma ainda, desenvolve
de condicionar a modelação musical e visual. nesta obra 4 tipologias de som: 1 – som sem
Em qualquer situação, ações idênticas podem oitava fixa; 2 – som obtido através de síntese
desencadear efeitos distintos, o que alia a granular (FOF); 3 – som obtido por filtragem
ideia de imprevisibilidade à contínua mutação de um som ruído (de forma a obter um som
do espaço (DIAS, s.d.). granular); 4 – som harmónico cuja envelope
A obra constrói-se assim, de amplitude forma um trémulo de oitava não
desenvolvendo uma instalação audiovisual fixa (DIAS, s.d.). A economia de meios
interativa multicanal, recriando um espaço evidencia-se, repousando a obra sobre um
musical e visual avassalador que contém duas pequeno reservatório de material base.
componentes, dois sistemas geradores de Empregue de forma diferenciada, não perde,
conteúdos visuais e sonoros. O resultado no entanto, as características estruturais que
proposto para fruição permite o despoletar de o regem, tanto micra, como média ou macro
um universo subjetivo próprio, e detentor do estruturalmente, e que, extrapoladas para
que é de cada um, e que se constrói, se o níveis superiores de composição, regem a
fruidor assim o entender, num trabalho forma e a estrutura global da obra. O
interativo entre este e o projeto proposto pelo resultado final mostra-se sempre o obtido pela
autor. A obra surge sempre diversa contendo resultante da execução e interação com a
um certo grau de indeterminação fruto do tipo instalação proposta.
de interação proposta e ativada aquando da
realização da mesma. Para Helena Barranha,
“A improbabilidade da repetição dissipa, A Dama e o Unicórnio
assim, o fator de reconhecimento que T.
Adorno considerava fundamental na perceção A Dama e o Unicórnio de António de Sousa
musical e garante a singularidade da cada Dias, obra criada em 2013 sobre textos de
experiência. Talvez por isso o autor o designe Maria Teresa Horta, é um projeto artístico
como um espaço de liberdade” (DIAS, s.d., multidisciplinar8. Da interação entre música e
s.p.). Musicalmente Tonnetez 09-B baseia-se
num diagrama (Tonnetz), que representa um 8
Este projeto surge sob a Direção artística de
espaço sonoro a duas dimensões inicialmente António de Sousa Dias; Poema de Maria Teresa
proposto por Léonard Euler (1723) e Horta; Interpretação de Ana Brandão; Conceção
desenvolvido mais tarde por Hugo Riemann visual, sonora e programação de António de
Sousa Dias; Design de Luzes de Daniel Worm
(1877) como já referido. O diagrama propõe
d’Assunção; Gestão administrativa e financeira de
uma trama sonora a cujos nós corresponde António Câmara Manuel; Produção de Horta Seca
uma classe de sons, encontrando-se o seu – Associação Cultural; Co-produçãode DuplaCena,
desenvolvimento realizado segundo um O Espaço do Tempo, Miso Music Portugal,
processo próprio. Em Tonnetz 09-B as classes Publicações Dom Quixote, Kintop Lda. e São Luiz

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literatura, artes digital, visual e performativa, António de Sousa Dias parte assim do poema
surge esta proposta criativa: uma instalação de Maria Teresa Horta, A Dama e o Unicórnio,
audiovisual interativa multicanal, dada em para articular num mesmo projeto uma
concerto pela primeira vez no Teatro São Luíz performance para atriz e electrónica. Sabemos
em Lisboa no espaço do Jardim de Inverno, e que a componente musical se revela essencial
integrada no Festival Temps d’Images. para a interpretação e definição de uma obra
Segundo João Madureira, desta natureza. “A música empurra o ator na
sua sensibilidade e ajuda-o a declamar os
quando um compositor faz uma poemas com uma determinada carga
obra musical a partir de um texto emotiva"; a electrónica transformando e
literário, está a dar pistas muito modelando os seus conteúdos poéticos,
seguras para a interpretação, ou imagéticos e sensuais. Esta experiência,
seja, realiza uma interpretação de revela-se um desafio interpretativo: “Trata-se
uma interpretação. É então de apreender uma linguagem musical mais
necessário que se compreenda recente, contemporânea, mais difícil por esse
aquilo que o compositor quer dizer lado, mas ao mesmo tempo muito
ao pôr em música um determinado estimulante” (DIAS, s.d., s.p.); trata-se de
texto. [Por outro lado, e para o interagir com um suporte fixo, frio, não
mesmo autor], O escritor não modulável pelas emoções e emotividades de
pode apenas ser o veículo para uma presença e existência humanas. A partir
uma composição músico-poética. do universo das tapeçarias “La Dame à la
Se a intensidade de um poema é Licorne”, patente no Musée National du Moyen
grande, a palavra tem que ser Âge – Museu de Cluny, em Paris, António
dada a ouvir por inteiro, sem a Sousa Dias e Maria Teresa Horta colaboram
interpretação musical e apenas conjuntamente com a cantora Ana Brandão,
com a intervenção da leitura criando uma “Cantata Profana para voz e
(GOMES, s.d., s.p.). Electrónica”, num espaço de imagens sonoras
e visuais que surgem da interação entre
Anterior a esta experiência, mais poesia, música, performance e artes visuais.
propriamente em 2009, tinha havido entre o Estes elementos são transfigurados pelo uso
compositor António de Sousa Dias e a poetisa de meios tecnológicos para transformação e
Maria Teresa Horta, uma colaboração da qual desfiguração dos conteúdos pré-propostos
tinha surgido um livro de poemas e uma (DIAS, s.d.).
criação sonora-musical gravada em Cd-áudio9.
linguagens próprios do livro de contos infantil.
Teatro Municipal. Segundo informação dos Cada narração propõe uma viagem a um
autores, este projeto teve o apoio imaginário exclusivo, que se encontra dito no
DGartes/Governo de Portugal. Horta Seca, uma imaginário do escritor, e redito no do compositor.
estrutura financiada pelo Governo de Portugal – António Chagas Rosa inaugurou o ciclo, estreando
Secretaria de Estado da Cultura e DGartes (DIAS, a 29 de Março de 2006, no Théatre Des
s.d.) Bernardines, em Marselha, a sua versão musical
9
A colaboração da poetisa Maria Teresa Horta e do poema dramático, original, da poetisa Maria
diversos compositores tem levado à criação de Teresa Horta – Feiticeiras. Trata-se de um texto
diversas obras. Neste sentido, e no ano de 2006, e inebriante, que opõe magas a inquisidores, numa
sob o impulso de Roland Hayrabedian, teve início luta de vida e de morte, e que termina por um
a estreia de Sept Contes de Musicatreize – sete sacrifício ritual de fogo. A obra, para 10 cantores e
contos musicais sobre libretos e composições ensemble formado por trompa, trombone, harpa e
originais. Oriundos de sete países europeus, os percussão diversa, encontra-se articulada em
referidos contos foram concebidos tendo em conta quatro partes - I – Prólogo; II – Canto das
os textos de sete escritores e, a música, de sete Feiticeiras; III – Canto dos Inquisidores; IV – O
compositores de sete países diferentes. Reunindo Sacrifício -, tendo a duração de 50 minutos. Da
cantores e instrumentistas, comediantes e colaboração de Maria Teresa Horta e António de
bailarinos, as narrativas foram encenadas tendo Sousa Dias surge A Dama e o Unicórnio, um
em conta a simplicidade de conteúdos e poema musical.

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Sabemos ainda que, e segundo preponderante na obra do autor.


informação do próprio compositor, que a Por outro lado,] “A concepção dos
inspiração para o projeto A Dama e o diferentes dispositivos toma como
Unicórnio, partiu da visualização e reflexão princípio uma interpretação livre
sobre o universo das tapeçarias10. Estas da junção de várias componentes
tapeçarias, datadas de cerca de 1490, (o poema de Maria Teresa Horta,
representam um dama nobre, por vezes a música de António de Sousa Dias
acompanhada de uma aia, um leão e um e as imagens das tapeçarias). […].
unicórnio carregando as armas do nobre que O facto de os poemas e a criação
as patrocinou. Redescobertas em 1841, estas sonora e musical (fixa e em tempo
obras têm suscitado, tanto a admiração, como real) combinarem várias técnicas,
a controvérsia, devido aos conteúdos que desde a “leitura branca” à leitura
expressam e ao seu significado. No entanto, a interpretada coloca-nos perante
sua inegável qualidade artística, não permite uma obra que, por um lado, se
que sejam manifestas quaisquer opiniões pode aproximar de concerto para
negativas aos seus conteúdos técnicos, recitante e ensemble, por outro, o
estilísticos, estéticos e artísticos11. facto de o poema ser dito (falado
O projeto A Dama e o Unicórnio ou em sprechgesange) permite
encontra-se, segundo António de Sousa Dias, aproximar o resultado do livro-
estruturado de acordo com três estratos falado. Esta arquitetura permite
construtivos interdependentes. São eles: 1 - assim, uma leitura/audição
uma instalação audiovisual interativa imersiva; enquanto áudio-livro, onde as
2 – uma performance para atriz, com vozes podem ser dramatizadas e
electrónica em tempo real; 3 – um livro de acompanhadas por efeitos
poemas acompanhado por um CD-áudio. sonoros, uma sonoplastia, numa
(DIAS, s.d.) Segundo o compositor, aproximação ao Hörspiel ou Radio
A necessidade de propor uma drama (DIAS, s.d., s.p.).
reflexão sobre o imaginário de
referência (as tapeçarias) levou ao
alargamento do conjunto de A versão presente no Jardim de
poemas e da correspondente obra Inverno do Teatro Municipal de São Luiz,
musical. A articulação com constituiu-se numa proposta no espaço do bar
aspectos visuais, performativos e do referido espaço, e que pretendeu ser não
tecnológicos, entre outros, invasiva desse mesmo espaço. Neste sentido,
conduziu à concepção de um a ambiência sonora constituída e construída
projeto articulando diferentes pelo autor, sobre poemas de Maria Teresa
meios de expressão, potenciando Horta, não interferiu com o usufruto do
sinergias entre diferentes formas espaço do bar enquanto local de lazer e
de criação artística, [facto convivência social. Por outro lado, a
10
característica provocatória, embora subtil, do
No conjunto das tapeçarias intituladas “La Dame espaço de arte proposto, viu-se, “por vezes, e
à la Licorne”, sobressaem cinco, onde notamos
dependendo de uma interatividade subtil,
que, e no conjunto das representações, estas
formam uma alegoria aos cincos sentidos. Estes interrompida pelo aparecimento de projeções
sentidos - o tato, o gosto, o cheiro, o ouvido e a alusivas às tapeçarias e da escuta da gravação
vista -, encontram-se simbolizados por diversos de poemas de forma clara e audível” (DIAS,
quadros representativos da vivência humana, no s.d., s.p.). Com o espaço de arte
cado de uma Dama do século XV, alusivos aos desenvolvido, António de Sousa Dias
conteúdos expressos. pretendeu que as mudanças concebidas nas
11
Estas tapeçarias são consideradas pelos
maiores críticos de arte da atualidade como um
projeções sonoras e visuais se tornassem
dos conjuntos mais representativos da arte agentes de modificação do espaço fruído bem
medieval. como do detentor da obra e, mesmo que de

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forma subtil, agir e interagir com a maneira de inconsciente ao visualizar, perceber, refletir e
perceber, entender e assimilar o espaço do compreender todo o universo imagético
Jardim de Inverno do Teatro de São Luiz em proposto, o compositor muda todo o
Lisboa, “concorrendo o som para criar uma paradigma da criação musical. O conceito aqui
situação de intimismo, através da proximidade apresentado é diferente do processo da
das fontes sonoras donde, para além da música composta nota a nota, onde se
música, se escuta o texto de forma quase expressa um sentimento do compositor. A
sussurrada” (DIAS, s.d., s.p.). construção de uma paisagem sonora existe no
Simultaneamente, ambiente (meio), e para o ambiente (meio),
A performance completa todos os podendo ser manipulada ou modificada.
aspectos já mencionados, A Dama e o Unicórnio, na sua forma e
colocando a tónica na conteúdo, surge como paradigma de novos
interpretação ao vivo. Baseando- ideais de arte. Interagindo de forma direta
se na estruturação do CD e em com o meio diversifica-se nele. A sua forma
algumas componentes cénicas espacial interage de forma direta com os
desenvolvidas para a instalação, a potenciais interlocutores trazendo e fazendo
performance possibilita outra uma nova leitura do espaço envolvente. A
forma de fruição, pelo facto de se componente sonora redimensiona o espaço
tratar de uma interpretação ao atirando a atenção do espectador para o
vivo com dois intérpretes (uma envolvente. A componente visual também. A
atriz e um músico) e onde a sua forma física condiciona a forma de
vertente performativa implicou a propagação e percepção dos materiais e das
construção de instrumentos diferentes nuances composicionais e criativas.
digitais concebidos para o efeito, Os estratos que se fruem adquirem dimensões
contribuindo para a flexibilidade diversas, consequência direta dos espaços
adequada a uma performance. onde se instalam e consequentemente da
A componente cénica da forma como são desfrutados. Neste sentido,
performance apoia-se na ideia de surgem diversos graus de aproximação à obra
uma alusão às tapeçarias através de arte, consequência não só do espaço físico
de alguns elementos presentes onde se localiza a obra de arte mas, e
mas de forma sempre estilizada. também, da capacidade de interação
Na sua conceção, a junção das manifestada pelos seus interlocutores. Neste
várias componentes (poema, sentido, permitimo-nos afirmar que a arte
música e imagens) num mesmo determina objetos sociais e de sociabilidade
meio (neste caso um multimeio), humana.
constituem-no uma obra de arte
híbrida no cruzamento do livro, da Considerações Finais
iluminura, do livro falado, do
áudio-livro, e do Hörspiel (“áudio A música, a literatura, a encenação e a
drama” ou “áudio theatre) (DIAS, arte digital revelam-se profícuas na
s.d., s.p.). descoberta de novos universos imagéticos,
universos esses, que se constroem na
Com esta proposta de alinhamento interação manifesta tanto a nível individual, de
sonoro e musical linear, António de Sousa si para consigo, como, e paralelamente, entre
Dias representa, no nosso entender, uma si e o outro. A obra constrói-se
forma autónoma de memória da experiência individualmente fundando-se naquilo que o
da instalação e da performance. Por outro artista nos apresenta, e naquilo que somos e
lado, ao encarar a recepção do som como nos propomos ser através dela.
uma experiência sensorial em que cada som Paralelamente, a reciprocidade das artes
tem um significado, uma identificação que permite a construção de objetos
remete as sensações guardadas no multidisciplinares, e de universos artísticos

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A instalação sonora como espaço de arte plural: a questão da interpretação de obras onde a electrónica
e a interação humanas se encontram ao serviço da sua determinação
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