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EXCELENTÍSSIMO (A) SENHOR (A) PROCURADOR (A)

PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DO


MINISTÉRIO PÚBLICO – CNMP

“A justiça pode irritar porque é precária.


A verdade não se impacienta porque é eterna.”
RUI BARBOSA

LUIS CARLOS BARRETO DE OLIVEIRA


ALCOFORADO, brasileiro, casado, advogado, inscrito no CPF sob o nº
671.090.557-87, residente e domiciliado na SHIS QL 28, conjunto 01, casa
09, Lago Sul, CEP º 71.665-215, Brasília/DF, vem, respeitosamente, à
presença de Vossa Excelência, por intermédio de seus procuradores
signatários, com fundamento no art. 130-A, § 2º, III, da Constituição Federal
c/c arts. 36 e 74 a 89, do Regimento Interno do CONSELHO NACIONAL DO
MINISTÉRIO PÚBLICO, apresentar

REPRESENTAÇÃO

em face da Il. Procuradora da República, MELINA CASTRO MONTOYA FLORES,


que atua no bojo da Ação Penal nº 1016326-71.2019.4.01.3400 (Operação
Panatenaico), em trâmite na 12ª Vara da Seção Judiciária do Distrito Federal,
pelas razões de fato e de direito a seguir expostas.

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I – PRELIMINARMENTE

1. A presente Representação disciplinar se destina à apuração de


faltas funcionais perpetradas pela REPRESENTADA no âmbito de investigações
instauradas pela Procuradoria Geral da República para averiguar a
fidedignidade das leniências celebradas por CARLOS JOSE DE SOUZA e
RODRIGO LEITE, ambos executivos da empreiteira ANDRADE GUTIERREZ S/A.

2. O expediente ora ajuizado se centra, ademais, na indicação de


supostos fatos, em tese delituosos, que não se revelam compatíveis com mister
constitucional tão relevante exercido por membro do Parquet, cuja disfunção
pode descambar para a responsabilização administrativa e correcional da
Procuradora ora REPRESENTADA.

3. Nesse diapasão, impõe sejam apuradas supostas faltas éticas


perpetradas pela REPRESENTADA, cujos núcleos se reúnem, precipuamente, na
(1) falta de adoção das providências cabíveis em face de irregularidades de
que tomou conhecimento e que ocorreram nos serviços a seu cargo (art. 236,
VII da Lei Complementar 75); e na (2) ausência de zelo e probidade no
desempenho de suas funções (art. 236, IX da Lei Complementar 75), a serem
investigadas consoante os fundamentos de fato e de direito a seguir aduzidos.

II – BREVE EXPOSIÇÃO DOS FATOS


4. Preliminarmente, mister se faz explanar que a presente
representação não possui caráter defensório, haja vista que não visa à defesa
do REPRESENTANTE, razão pela qual não se pretende discutir sua suposta
culpabilidade, competência delegada ao juízo federal.

5. Aqui não se busca flertar com as teses de defesa segundo as


quais abrangeriam premissas conducentes à absolvição do REPRESENTANTE,
pela ciência de que o juízo de mérito será realizado pela 12ª Vara Federal da
Seção Judiciária de Brasília/DF.

6. Contudo, diante do manuseio, pela REPRESENTADA, de


expedientes, no curso do processo penal, que extrapolam os limites da

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acusação, convertendo-se em mecanismos ilegais – e em tese criminosos –
para atingir determinados objetivos desconhecidos, urge seja averiguada a
conduta de membro do Parquet Federal que, a pretexto de cumprir sua função
institucional, esbarra em predicados jurídicos que não se coadunam com o que
se espera de um agente público, notadamente um fiscal da lei.

7. Em síntese, trata-se, naqueles autos, de denúncia formulada em


ação penal instaurada com o objetivo de apurar supostas fraudes licitatórias e
atos de corrupção que teriam sido praticados pelas construtoras ANDRADE
GUTIERREZ e VIA ENGENHARIA, em conluio com agentes públicos,
empresários e o advogado ora REPRESENTANTE, na obra de construção do
Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília/DF, com a finalidade de
albergar jogos para a Copa do Mundo de 2014.

8. Segundo as afirmações dos lenientes/delatores, havia um ajuste


entre as empresas concorrentes no procedimento licitatório, e que, diante do
suposto conluio praticado, as citadas empreiteiras sagraram-se vencedoras do
certamente, formando Consórcio Brasília 2014.

9. Instaurou-se, então, o Inquérito Policial n. 1.095, o qual deu


origem à deflagração da Operação Panatenaico (Processo n.
0007161.85.2017.4.01.3400), de responsabilidade da Delegacia de Inquéritos
Especiais, que investigara a imputação de crimes de quadrilha, organização
criminosa, corrupção ativa e passiva, fraude à licitação e lavagem de capitais,
supostamente cometidos entre os anos de 2008 a 2014.

10. Após o cumprimento de todas as diligências no IP, em


18/8/2017, foram indiciados JOSÉ ROBERTO ARRUDA, AGNELO SANTOS
QUEIROZ FILHO, NELSON TADEU FILLIPELLI, MARUSKA LIMA DE SOUZA
HOLANDA, NILSON MARTORELLI, FERNANDO MÁRCIO QUEIROZ, JORGE LUIZ
SALOMÃO, SÉRGIO LUCIO SILVA DE ANDRADE, AFRÂNIO ROBERTO DE SOUZA
FILHO, LUIS CARLOS BARRETO DE OLIVEIRA ALCOFORADO, ora
REPRESENTANTE, e JOSÉ WELLINGTON MEDEIROS DE ARAÚJO.

11. Na exordial acusatória, o parquet federal, por meio da


Representada MELINA CASTRO MONTOYA FLORES, acusa o REPRESENTANTE

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de, na qualidade de advogado do denunciado AGNELO QUEIROZ e da
Construtora ANDRADE GUTIERREZ, ter supostamente recebido valores
indevidos em favor do então governador (Doc. 01), conduta que, segundo a
denúncia – lastreada em colaboração premiada dos delatores RODRIGO LEITE
(Doc. 02) e CARLOS JOSÉ DE SOUZA (Doc. 03), ambos da AG –, teria sido
materializada por meio da formalização de contrato de prestação de serviços
de advocacia fictícios, firmados entre o REPRESENTANTE e aquela empreiteira,
conforme TERMO DE LENIÊNCIA firmado junto ao MPF (Doc. 5 – “a”).

12. Convém aqui replicar os termos utilizados pelo leniente


CARLOS JOSÉ DE SOUZA, in verbis:

“QUE também foram realizados pagamentos a pedido


de AGNELO para o advogado LUIZ CARLOS ALCOFORADO
oriundo de caixa 2; QUE também foi formalizado um contrato de
LUIZ CARLOS ALCOFORADO, sem prestação efetiva de serviço,
apenas para realizar pagamento de valores que haviam sido
solicitados pelo governador.”

13. A empresa leniente corroborou a mentira perpetrada pelos


colaboradores, quando em 9/5/2017, apresentou petição em que mantinha a
afirmação de ter sido celebrado um contrato e que não houve qualquer
prestação de serviços (Doc. 5 – “b”), utilizando-se dos seguintes termos:

“Documentos 28 – Contrato de Prestação de Serviços


com Alcoforado e Barreto, Consultores Jurídicos Associados, no valor
de R$ 50.000,00 mensais*. Trata-se de contrato de prestação de
serviço fictício.”

14. Ocorre que, após a demonstração cabal, pelo REPRESENTANTE,


com provas acerca da efetiva prestação dos serviços, e, pois, flagrada a
inverdade insculpida no bojo das tratativas, a ANDRADE GUTIERREZ
apresentou, em nova manifestação (4/7/2017) (Doc. 5 – “c”), documentação e
esclarecimentos adicionais corroborando a efetiva contratação do escritório,
cuja formalização se dera por meio de contrato de prestação de serviços
reais, fato esse que, obviamente, é de pleno conhecimento da REPRESENTADA.

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15. Convém ressaltar as afirmativas feitas pela AG na petição que
se cita acima:

“Documentos 13 – Contrato de Prestação de Serviços


com Alcoforado e Barreto, Consultores Jurídicos Associados, no valor
de R$ 50.000,00 mensais. Trata-se de contrato de prestação de
serviços reais, porém utilizado também para a transferência de
recursos, especificamente nas notas anexadas.
Circunstâncias do pedido: entre os meses de julho e
agosto do ano de 2012, na residência oficial, o governador AGNELO
solicitou que fosse repassado ao sr. Luis Carlos Alcoforado o
montante de R$ 800.000,00. Tendo em vista a dificuldade da AG em
atender à esta demanda por meio de disponibilização do valor em
espécie, a AG operacionalizou o repasse solicitado utilizando-se de
um contrato de consultoria firmado com o Escritório Alcoforado e
Barreto. Assim, em depósitos mensais, com emissão de notas fiscais
superiores ao valor mensal contratado (R$ 50.000,00) conseguiu-se
atender o repasse.”

16. Ora, percebe-se a brusca alteração na versão da própria


empreiteira leniente, que contradiz as declarações do Sr. CARLOS JOSÉ.

17. Importa salientar, outrossim, a título de comprovação da


falsidade das declarações do leniente, e também dos esclarecimentos da
ANDRADE GUTIERREZ, que o contrato de prestação de serviços (Doc. 04) foi
celebrado em 20 de outubro de 2011, muito antes das datas em que a empresa
alega ter recebido solicitação do então governador para repasses.

18. Não obstante, a efetiva prestação de serviços, a pedido do


próprio CARLOS JOSÉ, iniciou-se em 1/6/2011 (Doc. 06), datas em muito
anteriores às supostas tratativas.

19. Ademais, há exaustivas provas de que o REPRESENTANTE atuou


como consultor, analisando editais de licitação, elaborando pareceres, além de
representar os interesses da ANDRADE GUTIERREZ na PPP da Saúde e nas

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tratativas da implementação de Centro Financeiro Internacional em
Brasília/DF (Doc. 07).

20. No curso de suas atividades profissionais, o REPRESENTANTE, e


membros do Alcoforado e Barreto, participaram de viagens para o exterior,
conferências e eventos no interesse da AG (Doc. 08), tudo quanto se mostrou
necessário para o fiel cumprimento dos serviços que prestara àquela
empreiteira leniente.

21. Assim, desmontada a farsa, a Ordem dos Advogados do Brasil,


Seccional do Distrito Federal, solicitou habilitação aos autos da ação penal
para atuar como assistente simples de defesa do REPRESENTANTE (Doc. 09).

22. Havia – e há –, no caso, flagrante e dissimulada


criminalização da advocacia!

23. Admitido o ingresso daquela entidade (Doc. 10), a


REPRESENTADA interpôs CORREIÇÃO PARCIAL (Doc. 11), recurso que, embora
tenha previsão legal e seja admitido no processo como corolário da ampla
defesa e do Estado Democrático de Direito, teria se prestado, em tese, à prática
delitiva, porque aviado com propósitos nitidamente estranhos, a fim de induzir
a erro o órgão julgador ad quem, o c. Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

24. Naquele instrumento, a REPRESENTADA sonegou do TRF/1


fatos relevantes, ao afirmar que as supostas condutas perpetradas pelo
REPRESENTANTE não estariam relacionadas ao exercício da advocacia, e que
“ALCOFORADO foi denunciado por ter intermediado repasse de propinas a
AGNELO QUEIROZ por meio de contratação fictícia com a empreiteira
ANDRADE GUTIERREZ”, malgrado, como cediço, já plenamente ciente
de que a empreiteira havia reconhecido a prestação de serviços reais.

25. Não obstante, aduzira – como forma de obstar o ingresso da


OAB naquele feito, e, repita-se, inovando, ao ocultar artificiosamente1 a
verdade real dos fatos – a seguinte premissa, in verbis:

1
Art. 347 - Inovar artificiosamente, na pendência de processo civil ou administrativo, o estado de lugar, de
coisa ou de pessoa, com o fim de induzir a erro o juiz ou o perito:

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“Assim, não é possível validar qualquer argumento
no sentido que haveria interesse da entidade de classe na proteção
do exercício da prática profissional quando os fatos denunciados
não envolvem a atuação profissional de ALCOFORADO, mas
apenas a sua conduta nos acordos de corrupção firmados para
favorecimento ilícitos dos denunciados.
Reforce-se que não são tratados nos autos quaisquer
atos ou pareceres de LUIS CARLOS BARRETO ALCOFORADO
realizados ou emitidos enquanto advogado, haja vista que as
contratações entre o denunciado e a ANDRADE GUTIERREZ
eram fictícias, inexistentes. A conduta criminosa atribuída a
ALCOFORADO consistiu no recebimento e no repasse de propinas
em favor de AGNELO QUEIROZ”.

26. Ora, as incongruências e mentiras assacadas pelos


lenientes/delatores em seus acordos de colaboração eram tão gritantes, que o
Representante, com a anuência da Polícia Federal, formulara pedido de
investigação sobre o teor das referidas tratativas (Doc. 12), os quais foram
encaminhados à PGR com o objetivo de apurar a traquinagem perpetrada,
consubstanciada nos falsos e criminosos depoimentos dos colaboradores.

27. Instauradas as sindicâncias, restaram estas tombadas sob os nºs


PGR-00058930/2018 e PGR-00676605/2018, atribuídas à REPRESENTADA
(Doc. 13) que, até o momento, não deu qualquer andamento à investigação,
como ato de ofício que lhe fora incumbido pelo Ministério Público Federal.

28. Os lenientes lançaram mão de narrativas fantasiosas, sem


qualquer respaldo documental, cujos depoimentos tiveram que ser alterados
ao logo das investigações, em face da ação defensiva que demonstrou
cabalmente, por provas documentais, as inverdades das delações.

29. A defesa acostou ao processo farta documentação


comprobatória de que havia relações profissionais entre a ANDRADE

Pena - detenção, de três meses a dois anos, e multa.


Parágrafo único - Se a inovação se destina a produzir efeito em processo penal, ainda que não iniciado, as
penas aplicam-se em dobro.

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GUTIERREZ e LUIS CARLOS ALCOFORADO, contratualmente ajustadas, com
serviços prestados e remunerados na forma da lei.

30. Mesmo sabendo que o delator CARLOS JOSÉ DE SOUZA não se


reconciliou com a verdade, como fez a ANDRADE – ao reconhecer
expressamente a existência real dos contratos, e, pois, da prestação dos
serviços –, a REPRESENTADA não tomou qualquer providência contra o
leniente mentiroso, e, confessadamente, criminoso.

31. Do contrário! A REPRESENTADA engoliu a mentira e a elevou à


categoria de prova processual, ao elencá-la, artificiosamente, no bojo da
CORREIÇÃO PARCIAL interposta junto ao Tribunal Regional Federal da 1ª
Região, com o nítido propósito de induzir aquela Egrégia Corte em erro.

32. Um verdadeiro absurdo, para não falar, desvio de conduta.

33. Ao invés de criminalizar fatos inexistentes, a REPRESENTADA,


se estivesse compromissada com a busca da verdade, imbuída do espírito da
lealdade e da integridade ética que deve permear a instituição MPF, requereria,
de imediato, o desfazimento do acordo de leniência fraudulentamente
entabulado pelos lenientes/delatores, ou, ao menos, procedido à devida
apuração dos fatos, sem que os expedientes permanecessem
absolutamente abandonados, cuja finalidade restou alçada à inocuidade.

34. No entanto, a REPRESENTADA aceitou a leniência fraudada,


utilizando-a como elemento de prova e de convicção para interpor recurso
manifestamente improcedente, temerário, aético e desleal.

35. Pior: sonegando a verdade real dos fatos ao TRF/1!!!

36. A REPRESENTADA fez um trabalho mal feito ao centrar a


acusação com suporte em dois acordos de leniência flagrantemente
fraudulentos (CARLOS JOSÉ e RODRIGO LEITE), ao tempo em que se mantém
inerte no que concerne à averiguação das condutas perpetradas no bojo da
delação reconhecidamente mentirosa, sem empreender quaisquer esforços na
busca da verdade e da punibilidade daqueles que falsearam as informações.

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37. Assim procedendo, a Representada, fiadora da tese malograda,
ao encampar uma narrativa nitidamente especulativa, sem objetividade e sem
um mínimo de lastro probatório, incorre em faltas funcionais – conforme
adiante se apontará –, porque abstrai-se de suas funções institucionais como
fiscal da ordem jurídica e da Justiça, insistindo em sua sanha persecutória
contra o REPRESENTANTE sem respaldo em qualquer elemento de prova.

38. Ao que se revela, a REPRESENTADA deu de ombros às lições de


moralidade e de impessoalidade, escolhendo a via obscura da manipulação de
fatos e da falsificação de argumentos, traindo a confiança depositada pelo
Constituinte de 1988 na instituição do Ministério Público.

39. Para alguns dos membros do MPF, pelo alto grau de


contaminação, a doença não tem mais cura, mas a instituição não pode ser
desmoralizada por atuações parciais e temerárias como as ora narradas.

40. Há, ainda, tempo para reflexões e correções, a fim de que o


Ministério Público Federal retome a história de seu trabalho na preservação
de suas funções constitucionais, de maneira eficiente, mas sem a manipulação
incontida da verdade.

III – DO CABIMENTO DA REPRESENTAÇÃO

41. O Conselho Nacional do Ministério Público, por força do art.


130-A, § 2º, II, da Constituição Federal, é órgão incumbido de fiscalizar, de
ofício, ou mediante provocação, os atos administrativos e financeiros do
Ministério Público, bem como a atuação funcional dos seus membros.

42. Dispõe o art. 74 do Regimento Interno do CNMP, in verbis:

Art. 74. A reclamação disciplinar é o procedimento


investigativo de notícia de falta disciplinar atribuída a membro
ou servidor do Ministério Público, proposta por qualquer
interessado, nos termos do artigo 130-A, § 2º, III e § 3º, I, da
Constituição Federal.

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43. Logo, o REPRESENTANTE, indiscutivelmente, como cidadão e
advogado, possui legitimidade para representar suposta infração cometida por
integrante do MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, exercício esse que lhe alberga,
outrossim, o § 3º do artigo 7º da Lei Federal nº 8.906/94 (Estatuto da OAB).

44. Por outro lado, a Lei Complementar nº 75 de 20 de maio de


1993, que versa acerca da organização, atribuições e o estatuto do Ministério
Público da União, assim preconiza, in verbis:

Art. 236. O membro do Ministério Público da União,


em respeito à dignidade de suas funções e à da Justiça, deve observar
as normas que regem o seu exercício e especialmente:
[...]
VII - adotar as providências cabíveis em face das
irregularidades de que tiver conhecimento ou que ocorrerem nos
serviços a seu cargo; [...]
IX - desempenhar com zelo e probidade as suas funções;

45. Ao se manter completamente inerte no bojo do procedimento


instaurado sob sua responsabilidade, a REPRESENTADA infringe o estatuto legal
que rege a sua atuação, ao tempo em que se utiliza das delações/leniências
objeto da obstada investigação para acusar indevidamente o
Representante, lançando mão de recursos manifestamente improcedentes e
legitimando a fraude perpetrada pelos criminosos confessos.

46. Conforme bem asseverado no pedido apresentado pela


OAB/DF, a figura do assistente de defesa possui arrimo legal na lei federal nº
8.906/94, posto que, diante do seu papel institucional, cabe à OAB promover,
com exclusividade, a representação de advogados em todo o território
nacional, como prescreve o art. 44, II, da lei em comento.

47. Segundo o escólio do jurista PAULO LOBO, “A intervenção será


sempre necessária quando a imputação atribuída a advogado tiver relação
com sua atividade profissional.” (Comentários ao novo estatuto da advocacia
e da OAB, 1994, Livraria e Ed. Brasília Jurídica Ltda., pág. 161).

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48. Em obra mais atualizada, assim prossegue o referido Autor:

“A defesa da classe dos advogados, dos direitos


humanos, da justiça social e do Estado Democrático de Direito,
encartada nas finalidades da OAB previstas no art. 44 do Estatuto,
supõe o virtual conflito com o Poder Público. Se este impede,
dificulta ou viola o exercício da advocacia, ou se malfere ou
contraria os valores pelos quais deve ela pugnar, o confronto é
inevitável e o conflito de interesses se instala”.2

49. A denúncia atribui fatos que estão inarredavelmente


conexos ao exercício da advocacia, situação corroborada pelo robusto acervo
documental acostado aos autos da ação penal, inclusive por meio de
declarações dos lenientes, o que reforça a tese segundo a qual é perfeitamente
cabível e necessária a intervenção da OAB naquele feito para salvaguardar o
livre exercício da profissão, bem com as prerrogativas dela inerentes.

50. O mais grave, ademais, é a forma dúbia com que se comporta a


REPRESENTADA, porque age negligentemente – quiçá dolosamente – nos
expedientes abertos para investigar as gritantes fraudes perpetradas e
inverdades contidas nos acordos de leniência/delação entabuladas pelos
mentirosos CARLOS JOSÉ e RODRIGO LEITE, objeto de apuração aberta pela
PGR, completa e absolutamente inerte e paralisada, fato que pode configurar,
em tese, o crime de prevaricação, inserto no artigo 319 do CP.3

51. Não obstante, ao interpor a malsinada CORREIÇÃO PARCIAL, a


REPRESENTADA sonega do órgão julgador ad quem, fatos relevantes que, a um
só tempo, malfeririam e deslegitimariam a ação penal instaurada, porque
calcada em elementos de prova sabidamente fraudulentos, dissimuladamente
reconhecidos pelos delatores/lenientes, qual seja a premissa segundo a qual o
contrato de prestação de serviços de advocacia era real, ao contrário do que
afirmado pela REPRESENTADA no bojo do recurso interposto.

2
Lôbo, Paulo Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB, 10ª ed. – São Paulo : Saraiva, 2017.
3
Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição
expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

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52. Assim, não se há cogitar em exercício regular de um direito,
porque fundado em incidente manifestamente desleal e improcedente, cujos
fundamentos se divorciam das provas produzidas nos autos. E mais grave: sem
levar ao conhecimento do julgador a verdade real dos fatos.

53. Por tais e outras razões, conforme se passará a expor, incorre a


REPRESENTADA na vedação contida nos incisos VII e IX do artigo 236 da Lei
Maior do MPU, devendo o presente expediente ser recebido e processado nos
termos da lei, aplicando-se a penalidade cabível, conforme o caso.

IV – DA LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ E DA FRAUDE


PROCESSUAL
54. Todos os conceitos de fraude ou litigância de má-fé equivalem
à malícia, à dissimulação, ao engano dirigido a um aproveitamento injusto
para si ou para outrem.

55. Em nenhum outro ponto, dizem os estudiosos, se revela tão


nitidamente, como no caso da lesão por fraude penal, a conexão entre o direito
civil e o direito penal.

56. Quer seja no direito penal, quer seja no direito civil, ou mesmo
no administrativo, haverá sempre uma reprimenda, um reproche, em desfavor
da conduta que se alicerça na fraude, quer processual penal, quer para tipificar
a litigância de má-fé, ou para impor sanções funcionais.

57. O Código de Processo Civil disciplina bem o dever de lealdade,


boa-fé e urbanidade que deve permear as relações processuais entre as partes
litigantes – dentre as quais se incluem os membros do Ministério Público –,
seja no processo civil, administrativo, ou penal, in verbis:

Art. 77. Além de outros previstos neste Código, são


deveres das partes, de seus procuradores e de todos aqueles que de
qualquer forma participem do processo:
I - expor os fatos em juízo conforme a verdade;
II - não formular pretensão ou de apresentar defesa
quando cientes de que são destituídas de fundamento;

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VI - não praticar inovação ilegal no estado de fato
de bem ou direito litigioso. [...]
§ 2º A violação ao disposto nos incisos IV e VI
constitui ato atentatório à dignidade da justiça, devendo o juiz,
sem prejuízo das sanções criminais, civis e processuais cabíveis,
aplicar ao responsável multa de até vinte por cento do valor da
causa, de acordo com a gravidade da conduta. [...]
§ 6º Aos advogados públicos ou privados e aos
membros da Defensoria Pública e do Ministério Público não se
aplica o disposto nos §§ 2º a 5º, devendo eventual responsabilidade
disciplinar ser apurada pelo respectivo órgão de classe ou
corregedoria, ao qual o juiz oficiará.

58. Sobre a aplicabilidade do CPC ao Processo Penal – no bojo do


qual foram praticadas as condutas irregulares e ilegais – assim dispõe o CPP:

Art. 3º A lei processual penal admitirá a


interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o
suplemento dos princípios gerais de direito.

59. No que concerne à aplicação da regra de infração nos campos


do direito o Prof. Luiz. A. Bramont Arias4 afirma que: “el delito, como la
infracción civil, caen en el ámbito cómun de lo injusto culpable; o sea, que
lo injusto civil administrativo o penal tienen un mismo origen y sólo se
separan al llegar a las consequencias. Ricardo C. Nuñez, expresa que “debe
sostenerse firmemente el concepto de la unidad de la antijuridicidade en
todo el campo del derecho, sin distinción de sus temas. Un hecho es o no es
antijurídico en si mismo, sin que pueda serlo para una rama jurídica y no
serlo para otra. Esto, sin perjuicio de que siendo antijurídico el hecho,
produzca efectos en una de ellas y en otras no;…”5

4
Artigo da Enciclopédia Jurídica Omeba, Tomo XII, pág. 692, ed. Driskill S.A. – Buenos Aires.
5
“o delito, como a infração civil, caem no âmbito comum do injusto culpável; ou seja, o injusto civil,
administrativo, e penal têm a mesma origem e somente se separam nas consequências. Ricardo C. Nuñez,
expressa que ‘deve manter-se firmemente o conceito de unidade da antijuridicidade em todo o campo do
direito, sem distinções de matérias. Um fato é ou não é antijurídico em si mesmo, sem que possa ser em uma
e não possa ser para outra área do direito. Isto, sem prejuízo de que, sendo antijurídico, o fato produza
efeitos em uma das áreas e em outras não;”

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60. Nesse contexto, a REPRESENTADA interpôs recurso
manipulando a realidade dos fatos, com o objetivo de induzir o Tribunal
Regional Federal da 1ª Região a erro, pura e simplesmente em razão de o
REPRESENTANTE ter advogado para as partes envolvidas na ação penal a que
responde, ao afirmar, levianamente, que os contratos eram fictícios.

61. Assim procedendo, além de litigar de má-fé, a REPRESENTADA


incorre, em tese, no ilícito penal de fraude processual, caracterizado pelo
dolo de quem, enquanto integrante do próprio Estado, inova ao artificializar
demanda inquinada pela mácula do falseio, da sonegação, da fraude.

62. Nesse sentido, preconiza o art. 347 do Código Penal:

Art. 347 - Inovar artificiosamente, na pendência de


processo civil ou administrativo, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa,
com o fim de induzir a erro o juiz ou o perito:
Pena - detenção, de três meses a dois anos, e multa.
Parágrafo único - Se a inovação se destina a
produzir efeito em processo penal, ainda que não iniciado, as penas
aplicam-se em dobro.

63. À acusação se impõe a obrigação de zelar pelos fatos, sem


que lhe assista o direto de sonegar total ou parcialmente a verdade, já
consolidada no campo da contenda conforme exprimem os documentos
fartamente acostados à ação penal, fato reconhecido pela Andrade Gutierrez.

64. A falta de compreensão sobre as balizas que definem a atuação


regular é sintoma de excesso, que leva o sujeito ao campo inconstitucional do
autoritarismo, mesclado com casuísmos incompatíveis com a função
institucional do Ministério Público Federal.

65. Para o eminente e saudoso jurista HELENO FRAGOSO, “O objeto


da tutela jurídica é, porém, a Administração da Justiça, enquanto se procura
assegurar a autenticidade dos meios de convicção oferecidos ao julgador, e,
pois, a correção do pronunciamento jurisdicional”.6

6
FRAGOSO, Heleno Cláudio, em Lições de Direito Penal, p. 528.

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66. CEZAR ROBERTO BITENCOURT professa: “Tutela-se o interesse
de que a justiça não seja desvirtuada, por qualquer fator estranho ao seu
desenvolvimento válido e regular, assegurando a lisura de suas decisões”.7

67. O lendário NÉLSON HUNGRIA, em sua obra “Comentários ao


Código Penal”, vol. 9, Forense, Rio de Janeiro, 1959, p. 500, com a
percuciência de sempre, afirmou, ao comentar a fraude processual: “inspirado
no artigo 374 do Código Italiano, o dispositivo visa a coibir os artifícios
tendentes ao falseamento da prova e, consequentemente, aos erros de
julgamento, seja em favor, seja em prejuízo de qualquer dos interessados.”

68. Os fatos postos naquele processo compõem a realidade, razão


por que o poder de acusar tem compromisso com a totalidade do objeto do
conhecimento, que serve de fundamento para a decisão a ser tomada.

69. Ocultar, esconder, mutilar, eclipsar, adulterar ou sonegar os


fatos ao órgão julgador não constitui conduta leal, ética e moral, muito menos
legal, caracterizada pela prática de litigância de má-fé e/ou de crime.

70. Urge calibrar a vontade ou a disposição acusatória do MPF,


com base em valores essenciais ao Estado civilizatório, sobretudo em respeito
ao direito à cidadania e à dignidade da pessoa humana.

71. Nem se diga que os fatos sonegados poderão ser levados ao


conhecimento do Tribunal Regional Federal da 1ª Região por meio do
contraditório, porque, segundo a jurisprudência do c. SUPERIOR TRIBUNAL DE
JUSTIÇA, “A fraude processual é crime comum e formal, não se exigindo
para a sua consumação, que o Juiz ou o perito tenham sido efetivamente
induzidos a erro, bastando que a inovação seja apta, num primeiro
momento, a produzir tal resultado, podendo o crime ser cometido por
qualquer pessoa que tenha, ou não, interesse no processo.” (HC 137.206/SP,
Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, QUINTA TURMA,
julgado em 01/12/2009, DJe 01/02/2010).

7
BITENCOURT, Cezar Roberto, Tratado de Direito Penal, 11ª Ed. Parte Especial, Crimes Contra a
Administração Pública, Volume 5, Saraiva, 2017, pág. 385.

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72. Consuma-se o crime com a alteração, a inovação artificiosa,
não sendo necessário, para a integração da fraude processual, que o juiz seja
levado a erro ou que o processo tenha chegado à fase de julgamento.

73. Basta a fraude, idônea, que provoque o erro, o engano.

74. Acerca da forma de induzimento ao juiz ou perito, o jurista


CEZAR ROBERTO BITTENCOURT assim leciona, in verbis:

“Artificiosamente, aqui, sem equipará-la a ardil ou ‘a


qualquer outro meio fraudulento’, se satisfez o legislador com uma
conduta do agente irregular, anormal, desproposital, inadequada e
imprópria no curso do processo, isto é, não condizente com a ética
processual, com a finalidade de induzir em erro o juiz ou o perito,
que nem exigiu que atingisse o nível de ardil ou qualquer outro meio
fraudulento. Em outras palavras, na ótica do legislador a inovação
artificiosa, isto é, não natural, na pendencia de processo, para induzir
em erro juiz ou perito, é tão grave que não necessita revestir das
características de meio fraudulento. Aliás, fraude ou ardil, não
exigíveis, representariam uma simples progressão negativa da
conduta artificiosamente inovadora no processo. Por tudo isso,
concluindo, embora não exigíveis, fraude ou ardil na inovação do
processo também tem o condão de tipificar a conduta incriminada de
inovar. Erro é a falsa representação ou avaliação equivocada da
realidade. A vítima supõe, por erro, tratar-se de uma realidade,
quando na verdade está diante de outra; faz, em razão do erro, um
juízo equivocado da relação proposta pelo agente. A conduta
artificiosa do sujeito leva o juiz ou perito a incorrer em erro. O agente
coloca o juiz ou perito numa situação enganosa, fazendo parecer
realidade o que efetivamente não é, ou seja, em razão do artifício
utilizado pelo agente, é levado a erro”.8

8
BITENCOURT, Cezar Roberto, Tratado de Direito Penal, 11ª Ed. Parte Especial, Crimes Contra a
Administração Pública, Volume 5, Saraiva, 2017, pág. 389.

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75. Nesse interim, nem se fale que se trata de exercício regular de
um direito, visto que provocar a jurisdição deturpando a verdade dos fatos
constitui crime, abuso intolerável pelo Estado de Direito Democrático.

76. Mesmo diante da robustez das provas acostadas à ação penal, a


REPRESENTADA preferiu insistir nas acusações infundadas e já desmentidas
pela empreiteira leniente, levando ao conhecimento do Tribunal Regional
Federal interpretações elucubradas de fantasias e assertivas mentirosas.

77. Nem se diga, ainda, que teria havido mera desatenção, desídia
ou descuido, posto que, como demonstrado ad nauseam, conhecia a
Representada – ou ao menos deveria conhecer – o inteiro teor das
leniências/delações, bem como dos termos aditivos subsequentes, já que
ao tempo em que acusa, também preside o inquérito aberto para
averiguação das mentiras lançadas no bojo dos instrumentos premiados,
abertos pela Procuradoria Geral da República e apensos ao IPL 807/2017.

78. Para além do que preconiza a doutrina penalista, os civilistas


amparam o entendimento de que os deveres éticos constituem os pilares
fundamentais da função social do devido processo legal, como não poderia
deixar de ser, consoante escólio de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR:

“A configuração da litigância de má-fé decorre de


infração praticada sobretudo contra os deveres éticos que não podem ser
ignorados na função social do devido processo legal. Não seria um
processo justo aquele que deixasse de exigir dos participantes da relação
processual a fidelidade à boa-fé, à veracidade, ao uso regular das
faculdades processuais e aos fins privados e sociais da lei. Todos os
incisos do Art. 80 correspondem a quebras do princípio da boa-fé no
domínio do processo. Assim, a pretexto de se defender, não é permitido
ao litigante deduzir pretensão que, prima facie, vai de encontro à
literalidade da lei ou ao fato que, nos autos, se revela juridicamente
grave quando a parte, de forma intencional, mente acerca dos fatos que
irão influir de maneira decisiva na solução judicial do litígio. A
infração do dever de veracidade, nessa perspectiva, é punida sempre
que, maliciosamente, a parte falseia a verdade para confundir o

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adversário ou iludir o juiz da causa, seja na descrição manipulada dos
fatos fundamentais do pedido (objeto do processo), seja na inovação
deformada de citações doutrinárias e jurisprudenciais, seja mesmo na
deturpação de depoimentos ou documentos dos autos, a exemplo do que
se prevê no art. 34, XIV, do Estatuto da OAB (Lei 8.906/1994).”9

79. Bem se amoldam ao presente caso os comentários de CELSO


AGRÍCOLA BARBI, que, reproduzindo CARNELUTTI, assevera:

“[...] a temeridade pode resultar de dolo ou de culpa.


Aquele se traduz na consciência da própria sem-razão, por quem
sustenta ter razão, quando o litigante espera ganhar a demanda mais
por erro do juiz do que pela verdade da causa”.10

80. Nesse sentido, leciona NELSON NERY JR. conceituando a má-fé


e litigância de má-fé, respectivamente, como:

“A intenção malévola de prejudicar, equiparada à


culpa grave e ao erro grosseiro. “É o conhecimento do próprio erro,
mais precisamente a consciência do descabimento da demanda ou da
exceção; pode consistir, também, no saber agir deslealmente,
abusando do direito de ação (ou de defender-se em juízo) ou, enfim,
na consciência e vontade de utilizar o instrumento processual para
alcançar escopos estranhos aos fins institucionais” (...)
A parte ou interveniente que, no processo, age de
forma maldosa, com dolo ou culpa, causando dano processual à
parte contrária. É o improbus litigator, que se utiliza de
procedimentos escusos com o objetivo de vencer ou que, sabendo ser
difícil ou impossível vencer, prolonga deliberadamente o andamento
do processo procrastinando o feito”.11

81. Sobre a litigância de má-fé, é o escólio de RUI STOCO:

9
JÚNIOR, Humberto Theodoro, Código de Processo Civil Anotado, Ed. Forense, 20ª ed., 2016, pág. 98.
10
BARBI, Celso Agrícola. Comentários ao Código de Processo Civil. 10. Ed., Forense, 1998, vol I, p. 127.
11
Nery Junior, Nelson. Código de Processo Civil comentado [livro eletrônico] / Nelson Nery Junior, Rosa
Maria de Andrade Nery. -- 3. ed. -- São Paulo : Thomson Reuters Brasil, 2018.

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“A novel alteração possui virtude e defeito. Virtude de dar
ao julgador instrumento eficaz para coibir os abusos, as chicanas e a
fraude processual, impondo, desde logo, e sem delongas a reprimenda
necessária, de modo a colocar o procedimento de volta aos trilhos, na
consideração de que a litigância de má-fé ofende mais o Estado-Juiz e
a dignidade da justiça do que a outra parte litigante”.12

82. Outro não é o entendimento da jurisprudência pátria, in verbis:

“A doutrina, por sua vez, costuma apontar três condutas


reprováveis dos litigantes, no campo do dever de veracidade exigível em
processo: a) firmar fato inexistente; b) negar fato existente; c)
descrever os fatos sem correspondência exata com a realidade” (Araken
de Assis, Dever de Veracidade das Partes no Processo Civil, Ver.
Jurídica, 391/25). (...)13
***
“[...] considerando ainda a temeridade de seu
comportamento, continuando a defender direito manifestamente
improcedente antes as provas cabais anexadas à lide, de maneira a
induzir o juízo a erro, correta a condenação da recorrente ao
pagamento de multa por litigância de má-fé”14

83. A REPRESENTADA, ao abusar do exercício do direito de ação,


lesionando a jurisdição e o cidadão, deve ser punida em igualdade de
condições, pois, do contrário, criar-se-ia um estado de impunidade,
inadmissível em vista do princípio da isonomia e da paridade de armas.

84. Assim, denota-se temerária, desleal e, em tese, criminosa a ação


da REPRESENTADA, ao interpor CORREIÇÃO PARCIAL “deixando de
desempenhar com zelo e probidade as suas funções” (art. 236, IX da Lei
Complementar 75), porque calcada em inverdades já devidamente retratadas,
ao dizer que os contratos de prestação de serviços eram fictícios,
diferentemente do que afirmara a ANDRADE GUTIERREZ, empreiteira leniente.

12
STOCO, Rui. Abuso de direito e má-fé processual, RT, 2002, p. 100.
13
REsp 373.847/MA, DJ 24.02.2003, JÚNIOR, Humberto Theodoro, CPC Anotado, 20ª Edição, 2016, p 99.
14
0006017-42.2017.8.07.0016, Relator: ALFEU MACHADO, 6ª Turma Cível, DJE: 1/10/2019.

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85. Urge, pois, seja reprimida a conduta da REPRESENTADA, porque
desprezou o dever de cautela, de lealdade e de cuidado objetivo que deve
permear as relações processuais, ao interpor recurso sonegando a verdade real
dos fatos, notadamente aquele em que afirmado, categoricamente, que os
serviços de advocacia prestados eram reais, havendo, conseguintemente,
justa causa para a deflagração de processo administrativo disciplinar.

86. Por tais razões, a REPRESENTADA incorreu nas vedações


contidas no Estatuto maior do MPF (art. 236, IX), razão pela qual a presente
Representação deve ser recebida em sua integralidade, a merecer a reprimenda
necessária – a ser estabelecida pelo Egrégio Colegiado deste insigne Conselho
– em caráter pedagógico, a fim de obstaculizar condutas que venham
causar novos gravames dessa natureza à administração da Justiça!

V – DO ABUSO DE AUTORIDADE – DUPLO


COMPORTAMENTO DA REPRESENTADA

87. A Lei nº 13.869/2019 visa a coibir o abuso de autoridade


decorrente do direito ou do poder de se fazer obedecer, que é conferido aos
representantes do Estado, responsabilizando-os na ocorrência de abuso ao
exercício do direito que lhe foi atribuído.

88. A novel legislação revogou a lei nº 4.898/1965, ampliando os


sujeitos ativos que podem perpetrar os novos delitos elencados na mencionada
lei, aplicando-a a agentes públicos ou não, ainda que transitoriamente, dos
Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo, em qualquer esfera de atuação,
como preceitua o art. 2º.15

89. Nesse contexto, o exercício regular de um direito não confere


ao titular da denúncia – no caso, à REPRESENTADA –, o poder de abusar da
prerrogativa de que se acha investida, porque a carga acusatória,
potencializada pelos holofotes, pode – e vem – gerando efeitos nefastos à vida

15
Art. 2º É sujeito ativo do crime de abuso de autoridade qualquer agente público, servidor ou não, da
administração direta, indireta ou fundacional de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito
Federal, dos Municípios e de Território, compreendendo, mas não se limitando a:
[...]
V - membros do Ministério Público;

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íntima, pessoal e profissional do REPRESENTANTE, cuja reputação ilibada
sempre se mostrou irretocável, porque pautada pela ética e pela legalidade.

90. Todo direito deve ser exercido com limites, principalmente


éticos e morais, sem que a dosagem do equilíbrio se transforme num abuso,
consistindo em anomalia, refugada pelo ordenamento jurídico pátrio, que
rejeita a conduta do sujeito quando ultrapassadas as balizas que demarcam a
legalidade e a legitimidade.

91. O abuso de direito é uma das modalidades de esvaziar a


qualidade da atuação do agente público investido do poder.

92. Esse modelo jurídico está errado! Aliás, não é o modelo que
está errado, é a forma abusiva com que a REPRESENTADA o exerce, porquanto,
ciente da fraude perpetrada pelos lenientes/delatores – objeto de apuração no
âmbito da Polícia Federal, em relação à qual preside, como membro do MPF,
mas cuja investigação mantém absolutamente paralisada, praticando, em
tese, o crime de prevaricação (art. 319 do CP)16 –, insiste em acusação
respaldada por provas forjadas, ignominiosas, angariadas com objetivos
nitidamente persecutórios, albergando os delitos praticados pelos criminosos
confessos para, em razão do vínculo negocial legítimo mantido entre o
Representante e os demais corréus, a ele atribuir culpabilidade inexistente.

93. A conduta perpetrada pela REPRESENTADA se amolda com lição


objeto de pontual incursão da procuradora THALITA BRAZ BERNARDINO:

“Percebemos que, em alguns casos, os membros da


carreira não têm o cuidado e o zelo de verificar previamente os
acontecimentos ou de prever as consequências que o ajuizamento
de uma ação pode causar na vida dos envolvidos e na sociedade.
Essa falta de diligência se dá, provavelmente, pelo fato de que
dificilmente eles serão responsabilizados por seus atos ou
sofrerão com a repercussão da demanda, vez que estão
amparados por prerrogativas funcionais.
16
Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição
expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

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Nessas situações, falta ética profissional. O Ministério
Público age no campo processual como se fosse um jogo de
apostas, em que não há nada a perder. Na dúvida, o órgão ajuíza
ações e se ao final do processo forem julgadas procedentes, vitória,
se forem julgadas improcedentes, azar. Ele não sopesa as
implicações de sua atuação na comunidade, na boa gestão
pública e na reputação das pessoas envolvidas”.17 (destacamos).

94. A dignidade da pessoa humana não é categoria constitucional


apenas fora do processo, porque as relações processuais exigem respeito
mútuo, recíproco, para que não se esvazie tão importante postulado.

95. Aqui não se desconhece o teor do Enunciado Sumular nº 234


do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, segundo o qual “A participação de
membro do Ministério Público na fase investigatória criminal não acarreta o
seu impedimento ou suspeição para o oferecimento da denúncia”.

96. Todavia, referido comando não se aplica ao caso concreto,


porquanto há atritos manifestos no duplo comportamento da Representada,
não sendo razoável nem admissível que, ao tempo em que ela sustenta a
acusação com base em acordo de leniência viciado por mentiras, se investe
do papel de investigação desse mesmo acordo no âmbito da Polícia Federal.

97. Não há como negar que, em um dos dois expedientes a


REPRESENTADA será desleal com a sua própria consciência.

98. No processo penal ela desenvolve argumentos convalidando a


delação e o acordo de leniência, ao qual se apega como único balão de
oxigênio para garantir a sobrevida de uma grande farsa.

99. Na investigação criminal, ao contrário, a REPRESENTADA não


poderá advogar tese oposta quanto à consistência do acordo de leniência
dos colaboradores, sob pena de litigar de má-fé.

17
BERNARDINO, Talitha Braz. O Abuso de Poder na atuação do Ministério Público. Belo Horizonte. Fórum
Conhecimento Jurídico. 2019. Págs. 96/97.

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100. Há completa incompatibilidade entre a conduta de quem
investiga fatos em tese criminosos para, de cujo mesmo objeto – utilizado
como elemento de prova –, tentar obter sucesso na seara judicial acusatória.

101. O dual e antinômico exercício acusatório e investigatório,


no caso concreto, demonstra o concurso de condutas que se revelam
fortemente antagônicas, caracterizando falta ética e funcional.

102. A REPRESENTADA deixa de zelar pela função constitucional do


MPF, em desprestígio ao compromisso da busca da verdade real dos fatos,
conduta ensejadora de censura por parte de tão prestigiosa, importante e
relevante classe para a sociedade.

103. Ora, o processo não tem espaço para criações intelectuais que
acarretem excesso na carga acusatória.

104. O “poder de acusar” não é ilimitado, razão por que o agente


que abusa das suas prerrogativas deve sofrer sanções e penalidades,
notadamente quando as restrições do bom senso e do bom uso se divorciem
da ótica do direito para se albergar em expedientes não republicanos.

105. Até nas mortíferas guerras, há regras de tratados internacionais


que vedam o uso de determinadas armas para derrotar o adversário, situação
em decorrência da qual em um Estado Democrático de Direito não se tolera o
abuso de poder, muito menos perpetrado mediante a utilização indevida do
aparelho estatal.

106. Ora, o REPRESENTANTE tem o direito de não ser acusado com


base em provas falsas, indiscutivelmente falsas, reconhecidas no próprio
inquérito, conforme fartamente demonstrado nos autos da ação penal.

107. A REPRESENTADA tem usado regras proibidas e vedadas no


ordenamento jurídico penal extravagante, bem como no sistema processual,
porque se utiliza do cargo e do poder que lhe é conferido para, em uma
verdadeira sanha persecutória, abater o adversário.

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108. As armas de que se vale a REPRESENTADA são proibidas pela
lei, pela ética, e pela moral, completamente contrárias aos direitos da pessoa
humana, consubstanciadas na sonegação de fatos à cognição do julgador, sem
narrar a verdade real, o que significa fazer uso de armas proibidas,
materializadas no ordenamento jurídico, inclusive, como injusto penal.

109. Cabe ressaltar que o inquérito que investiga o acordo de


leniência foi requerido pela própria delegada que presidiu as investigações,
porque ciente da intoxicação das informações falsas provenientes dos
delatores/lenientes “superpremiados”, os quais, estranhamente, não tem
sofrido qualquer restrição de direitos, ou sanção de natureza penal.

110. É grave também o fato de que não se identifica,


materialmente, no inquérito, qualquer ato de volição da REPRESENTADA
conducente à ultimação da investigação.

111. Ela não tem se mostrado operativa, eficiente, dedicada, voltada


ao cumprimento do seu papel constitucional.

112. Pressupõe-se que há desídia ou omissão na apuração dos


fatos, para não dizer prevaricação, ou interesse no resultado da ação penal.

113. Ao assim proceder, a REPRESENTADA incorre na vedação


descrita no inciso VII, do art. 236 da Lei Complementar nº 75, porque deixa
de “adotar as providências cabíveis em face das irregularidades de que tiver
conhecimento ou que ocorrerem nos serviços a seu cargo”, ao manter
absolutamente inerte o procedimento de apuração da fidedignidade das
colaborações premiadas firmadas pelos lenientes mentirosos.

114. Espera-se, portanto, que esse eg. CONSELHO cumpra o papel


legal que justificou a sua criação no âmbito constitucional, sem agir com
descomunal distanciamento para examinar as condutas da procuradora
Melina, que abusou – e continua abusando – de suas prerrogativas legais.

115. Desvios de conduta foram flagrados expressamente,


textualmente, formalmente, condutas que desonram o MP como instituição
que deve primar pela insuspeição da função institucional.

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116. Acerca dos limites dos poderes exercidos pelo Ministério
Público, muito bem já pontuou o eminente ministro MARCO AURÉLIO do
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, para quem:

“O fato de estar impossibilitado de investigar de forma


autônoma não conduz ao desconhecimento do que for apurado. O
Ministério Público, como destinatário das investigações, deve
acompanhar o desenrolar dos inquéritos policiais, requisitando
diligências, acessando os boletins de ocorrências e exercendo o
controle externo. O que se mostra inconcebível é um membro do
Ministério Público colocar uma estrela no peito, armar-se e
investigar. Sendo o titular da ação penal, terá a tendência de utilizar
apenas as provas que lhe servem, desprezando as demais e, por óbvio,
prejudicando o contraditório e inobservando o princípio da paridade
de armas. A função constitucional de titular da ação penal e fiscal
da lei não se compatibiliza com a figura do promotor inquisitor. O
direito alienígena também não auxilia na solução da questão, pois os
órgãos e atividades envolvidas possuem regras constitucionais
próprias, bem estabelecidas, que não deixam margens a
interpretações evolutivas”.18

117. Que o esprit de corps não adormeça a consciência desse


Egrégio CONSELHO, para acobertar condutas com graves marcas obscuras e de
litigância de má-fé, de modo que o corporativismo não possa imperar em
detrimento da legalidade institucional.

118. A capacitação ética moral não pode ser exigida apenas dos
sujeitos que são perseguidos pelo MINISTÉRIO PÚBLICO, porque o dever se
estende para alcançar os membros que traem seu dever legal.

119. Preceitua o Estatuto Político (art. 37) que todos os agentes


estatais devem exercer o seu múnus em estrita observância aos postulados da
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência:

18
RE 593.727/MG, Tribunal Pleno, voto vista Marco Aurélio Mello, DJe: 14/5/2015.

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“A administração pública direta e indireta de qualquer
dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.”

120. Segundo a Carta Magna, pois, o Ministério Público “é


instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos
interesses sociais e individuais indisponíveis” (art. 127, caput, CF).

121. Na jurisdição penal, incumbe ao Parquet (i) promover, na


forma da lei, a Ação Penal Pública, (ii) exercer o controle externo da atividade
policial, (iii) requisitar (iii.1) instauração de inquérito policial e (iii.2)
diligências investigatórias:

Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:


I promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei;
VII exercer o controle externo da atividade policial, na forma da
lei complementar mencionada no artigo anterior; VIII requisitar
diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial,
indicados os fundamentos jurídicos de suas manifestações
processuais.

122. Também pertinentemente à previsão do Estatuto de Roma,


internalizado no direito pátrio pelo Decreto nº 4.388/2002, o qual,
verdadeiramente, coloca o Parquet em posição de estrita e religiosa fidelidade
à Ordem Democrática, com o encargo de apurar as circunstâncias
interessantes à Acusação e também à Defesa:

Artigo 54 Funções e Poderes do Procurador em Matéria


de Inquérito 1. O Procurador deverá:
a) A fim de estabelecer a verdade dos fatos, alargar o
inquérito a todos os fatos e provas pertinentes para a determinação
da responsabilidade criminal, em conformidade com o presente
Estatuto e, para esse efeito, investigar, de igual modo, as
circunstâncias que interessam quer à acusação, quer à defesa.

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123. Embora seja óbvio que em uma sociedade civilizada o dever
acusatório seja pautado pelas balizas normativas, cabe aqui registrar tais
conclusões, pois, nas acusações promovidas contra o REPRESENTANTE, não
houve o menor respeito a tais postulados.

124. Quanto à posição axiológica em que tais valores se situam no


nosso ordenamento jurídico, pede-se vênia para lembrar o abalizado
magistério do Professor CELSO ANTÔNIO BANDEIRA DE MELLO, para quem:

“[É] o princípio capital para configuração do regime


jurídico administrativo. Justifica-se, pois, que seja tratado – como
o será – com alguma extensão e detença. Com efeito, enquanto o
princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse
privado é da essência de qualquer Estado, de qualquer sociedade
juridicamente organizada com fins políticos, o da legalidade é
específico do Estado de Direito, é justamente aquele que o
qualifica e que lhe dá a identidade própria. Por isso mesmo é o
princípio basilar do regime jurídico-administrativo, já que o
Direito administrativo (pelo menos aquilo que como tal se concebe)
nasce com o Estado de Direito; é uma consequência dele. É o fruto
da submissão do Estado à lei. É em suma: a consagração da ideia
de que a Administração Pública só pode ser exercida na
conformidade da lei e que, de conseguinte, a atividade
administrativa é atividade sublegal, infralegal, consistente na
expedição de comandos complementares à lei”.19

125. Sobre o princípio da legalidade, “cumpre atentar para o fato de


que ele é a tradução jurídica de um propósito político: o de submeter os
exercentes do poder em concreto – o administrativo – a um quadro normativo
que embargue favoritismos, perseguições ou desmandos”.

126. Leciona mais o celebrado Autor que tal princípio contrapõe-


se, radicalmente “a quaisquer tendências de exacerbação personalista dos
governantes”. Opõe-se “a todas as formas de poder autoritário, desde o
19
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. 33ª ed. São Paulo: Malheiros,
2016, p.101/102.

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absolutista, contra o qual irrompeu, até as manifestações caudilhescas ou
messiânicas típicas dos países subdesenvolvidos”. E é “o antídoto natural do
poder monocrático ou oligárquico, pois tem como raiz a ideia de soberania
popular, de exaltação da cidadania”20 (grifos nossos).

127. Na esfera penal, é o princípio da legalidade “o mais importante


instrumento constitucional de proteção individual no moderno Estado
Democrático de Direito”.21

128. Cotejando-se, portanto, a força normativa do princípio da


legalidade, nas órbitas penal e administrativa, tem-se que tal valor, constitui,
em síntese, relevantíssimo instrumento de proteção individual que se
contrapõe a qualquer inclinação de vocação autoritária, de modo a não
admitir perseguições ou práticas personalistas.

129. Já o princípio da impessoalidade, consectário da legalidade,


veda aos agentes da autoridade do Estado dispender-se às pessoas tratamento
discriminatório (benéficas ou perniciosas), impedindo que quaisquer
simpatias ou animosidades interfiram em sua atuação, sempre exercida
impessoalmente em nome do Estado:

“[Traduz] a ideia de que a Administração tem que tratar


a todos os administrados sem discriminações, benéficas ou
detrimentosas. Nem favoritismo nem perseguições são toleráveis.
Simpatias ou animosidades pessoais, políticas ou ideológicas não
podem interferir na atuação administrativa e muito menos
interesses sectários, de facções ou grupos de qualquer espécie. O
princípio em causa não é senão o próprio princípio da igualdade
ou isonomia. Está consagrado explicitamente no art. 37, caput, da
Constituição. Além disso, assim como “todos são iguais perante a
lei” (art. 5º, caput), a fortiori teriam de sêlo perante a
Administração”.22

20
BANDEIRA DE MELLO, Celso. Curso de Direito Administrativo. 33ª ed. SP: Malheiros, 2016, p.102.
21
CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal Parte Geral. 8ª ed. FL: Tirant lo Blanch, 2018, p. 22.
22
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. 33ª ed. São Paulo: Malheiros,
2016, p.117.

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130. Ao se valer de modo reiterado e taxativo da expressão “na
forma da lei” em todas as funções ministeriais, quis o Constituinte
indiscutivelmente vincular as suas atividades ao comando legal. Tal conclusão
decorre do basilar princípio hermenêutico de que a Lei não contém palavras
inúteis (verba cum effectu sunt accipienda).

131. O soberano Poder Constituinte determinou a todos os órgãos da


administração pública, nos quais se inclui o Ministério Público Federal, a
irrestrita obediência aos postulados da legalidade, impessoalidade,
moralidade, publicidade e eficiência.

132. A fim de corroborar os atropelos perpetrados no bojo da ação


penal retratada, outrossim, importante registrar o fato de que, a despeito de
instada a apresentar as ERB’s objeto de medida cautelar deferida, que se
referiam às datas nas quais o delator RODRIGO LEITE teria afirmado que
estivera no escritório ALCOFORADO ADVOGADO ASSOCIADOS para entrega das
supostas propinas intermediadas em favor de AGNELO QUEIROZ23, a
REPRESENTADA se recusou a fornecer tais dados, porque confrontariam a tese
acusatória, razão por que alternativa outra não lhe restara se não limitar-se a
dizer que o ônus de tal prova incumbiria à defesa, malgrado tenha ela
própria solicitado a quebra dos sigilos telefônicos (Doc. 14).

133. Obviamente, a MM juíza que preside o feito a desautorizou,


porque, efetivamente, o ônus da prova cabe a quem acusa (Doc. 15).

134. Ora, não se olvide que o Ministério Público é órgão que deve
defender os interesses públicos e jamais responder aos meros interesses da
vítima ou da pessoalidade de seus membros.

135. Representantes do órgão estatal acusatório jamais podem agir


conforme seus interesses particulares ou idiossincrasias, sejam de natureza
política, moral, ou qualquer outra.

136. O interesse público e social deve ser sempre o norte da


acusação, razão pela qual é inconcebível que se tentem justificar posturas
23
Antinomia entre a acusação promovida na Ação Penal retratada, com as teses adotadas na Ação de
Improbidade Administrativa 0712540-52.2019.8.07.0018, que tramita na 7ª Vara da Fazenda Pública, TJDFT.

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desrespeitosas às garantias constitucionais sob o falso discurso de que o
Parquet é incondicionalmente acusatório, o que tudo estaria a permitir.

137. A jurisprudência também cuidou de delimitar o perímetro


dentro do qual o instituto gravita, como se extrai dos seguintes excertos:

“Ocorre que, quando o MP atua como parte processual,


ele não atua como defensor dos interesses particulares da vítima
— nem se seus próprios —, mas, sim, de acordo com o interesse
público, e isso diz muito acerca de sua atuação jurisdicional. Sua
função acusatória é limitada pelo interesse social e pela defesa do
Estado 191 LC 93, art. 1º e 5º, caput. 138 Democrático de Direito
(consequentemente, pelos direitos fundamentais), pois esta é a sua
função institucional. Se ainda há dúvidas disso, voltemos ao artigo
127 da CF! Tanto é assim que, nas ações penais públicas
incondicionadas à representação da vítima, os interesses
particulares desta sequer importam para o ingresso da ação penal.
(...) Isso significa dizer que, se dentro do procedimento houver a
realização de uma prova ilícita, por exemplo, o MP também
possui o dever de apontá-la, haja vista que a utilização de prova
ilícita vai contra o devido processo penal e pode contaminar
outras provas do processo. A ideia de que o Ministério Público
deixa de ser fiscal da lei quando se torna parte do processo
representa um perigo à própria essência do órgão estatal e de sua
razão de existir, pois ele não se reduz a ser, meramente, parte
acusadora; é, sobretudo, defensora do interesse público, e isso
engloba tanto um devido processo legal quanto a ideia de uma
instrumentalidade garantista do processo penal. (...) É de
interesse público que o processo não contenha prova ilícita, pois
essa é uma garantia fundamental do acusado, construída a partir
do texto constitucional, e que é aplicável a todos os cidadãos que
constituírem a parte passiva (ou, até mesmo, ativa) de um
processo.”24 (grifos nossos)

24
https://www.conjur.com.br/2019mar30/diarioclassepossivelministeriopublicosejaimparcial

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138. Quadra realçar os importantes conceitos contidos no direito
comparado, no que toca à conduta de um agente estatal incumbido do
gravíssimo dever de acusar em uma sociedade que respeite e observe, irrestrita
e impessoalmente, os direitos individuais e as garantias constitucionais.

139. Inúmeros precedentes, hauridos do direito pretoriano


americano, merecem realce.

140. No caso State v. MONDAY25, assentou-se que “Um julgamento


justo certamente implica um julgamento onde o promotor representando o
estado não joga fora o prestígio do seu cargo (...) e a expressão da sua
própria crença de culpa na balança contra o acusado” (tradução livre).

141. No caso State v. CASTENEDA-PEREZ26, e State v. HUSON27,


elucidou-se que “Embora o promotor tenha liberdade para arguir
inferências acerca das provas, ele deve ‘buscar sua convicção baseada
exclusivamente no conjunto probatório e na razoabilidade’”.

142. Ainda, o célebre caso BERGER v. United States, julgado em


1935 pela Suprema Corte dos Estados Unidos:

“O promotor não é parte na controvérsia, mas


representante da soberania do Estado, cuja obrigação de governar
imparcialmente é inerente à própria obrigação de governar; e cujo
interesse, portanto, em uma acusação criminal, não deve ser
ganhar a causa, mas fazer justiça. Assim sendo, ele funciona
precisamente como servo da lei, para assegurar que o culpado não
escape, e que o inocente não sofra. Ele pode processar com
seriedade e vigor de fato, ele deve fazê-lo. Mas, embora possa
acusar com firmeza, ele não tem liberdade para acusar sem lastro.
Absterse de utilizar métodos aptos a produzir uma condenação

25
171 Wn.2d 667, 677, 257 P.3d 551 (2011).
26
61 Wn. App. 354, 363, 810 P.2d 74 (1991).
27
73 Wn.2d 660, 663, 440 P.2d 192 (1968).

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indevida é tanto sua função quanto empregar os meios legítimos
para produzir uma justa”.28 (tradução livre).

143. De forma alguma, portanto, o exercício acusatório pode ser


norteado pela lógica da punição a qualquer custo, como se a procedência da
tese acusatória fosse uma causa a ser vencida a qualquer custo, razão pela qual
a REPRESENTADA deixa de zelar, durante todo o processo, pela higidez e
legitimidade da persecução criminal, furtando-se de seu papel institucional de
defesa da ordem jurídica, devendo, por isso mesmo, ser sancionada
disciplinarmente, de modo que seja coibida qualquer atuação que se aparte dos
limites impostos pela lei ou que com ela se choque.

144. Assim procedendo, ao manter paralisado, sem qualquer


andamento, o procedimento investigatório instaurado para averiguar a
fidedignidade das colaborações dos lenientes CARLOS JOSE DE SOUZA e
RODRIGO LEITE, ao tempo em que se utiliza destas mesmas provas – débeis e
reconhecidamente fraudulentas – para justificar a interposição de medidas
temerárias e que se divorciam das normas éticas e legais que devem permear
sua atuação, incorre a REPRESENTADA na vedação contida nos incisos VII
e IX do artigo 236 da Lei Maior do MPU, devendo o presente expediente
ser recebido e processado nos termos da lei, aplicando-se a penalidade
cabível, conforme a prudência e a situação assim determinam e exigem.

VI – CONSIDERAÇÕES E PEDIDOS

145. Naquilo que toca ao REPRESENTANTE, podem ser assim


sintetizadas as evidências que invalidam a utilização do acordo de leniência
como elemento de prova ou indiciário de que se vale a REPRESENTADA:

28
Tradução livre. Abaixo o teor original:
“[He] is the representative not of an ordinary party to a controversy, but of a sovereignty whose obligation
to govern impartially is as compelling as its obligation to govern at all; and whose interest, therefore, in a
criminal prosecution is not that it shall win a case, but that justice shall be done. As such, he is in a peculiar
and very definite sense the servant of the law, the twofold aim of which is that guilt shall not escape or
innocence suffer. He may prosecute with earnestness and vigor-indeed he should do so. But while he may
strike hard blows, he is not at liberty to strike foul ones. It is as much his duty to refrain from improper
methods calculated to produce a wrongful conviction as it is to use every legitimate means to bring about a
just one.”

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a) Embora tenha afirmado que não teria sido celebrado contrato
entre ALCOFORADO e ANDRADE GUTIERREZ, a prova trazida
pelo Representante revela solicitações oficiais e recebimento de
consultoria jurídica do leniente CARLOS JOSÉ, inclusive de
próprio punho;

b) É saliente a tergiversação dos colaboradores, haja vista que


primeiro afirmaram que a contratação teria sido fictícia (CARLOS
JOSÉ e ANDRADE GUTIERREZ), depois que não se teria
celebrado contrato (RODRIGO LEITE), e, após, reconheceram
que a empresa se valeu dos serviços prestados por ALCOFORADO
(ANDRADE GUTIERREZ);

c) A confrontação entre o tempo de prestação de serviços e o


escopo do instrumento contratual formalizado entre
ALCOFORADO e ANDRADE GUTIERREZ evidencia que os serviços
prestados transcenderam o objeto daquele instrumento,
situação em decorrência da qual se conclui não haver excessos
na remuneração ofertada ao Representante, se é que ao MP ou
ao Judiciário pode ser dado, no caso em espécie, a batuta de
árbitro dessa relação;

d) Os pagamentos realizados pela ANDRADE GUTIERREZ em favor


do escritório de advocacia do Representante decorreram,
exclusivamente, de efetiva e comprovada prestação de serviços
àquela empreiteira;

e) Há prova inequívoca de que o colaborador Rodrigo Leite,


embora afirme ter efetuado entregas de valores em espécie ao
Representante, não esteve no suposto local das entregas nas
datas por ele mencionadas;

f) Ao alterar a versão dos fatos, para reconhecer que o


Representante lhe prestou serviços em decorrência dos ajustes
firmados, a ANDRADE GUTIERREZ atestou a prolação de
mentiras e ocultação da verdade pelos colaboradores;

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g) Ao interpor Correição Parcial, sonegando a verdade real ao
Tribunal Regional Federal da 1ª Região, segundo a qual o
contrato de prestação de serviços de advocacia era real, ao
tempo em que afirma que se tratava de entabulação fictícia, a
Representada incorre, em tese, no crime de Fraude Processual
(art. 347 do CP), devendo ser sancionada disciplinarmente ao
malferir o inciso IX do Estatuto Legal que rege sua atuação;

h) A Representada se mantém absolutamente inerte no que


concerne à investigação originada na Procuradoria Geral da
República, cujo objeto é a averiguação da higidez e veracidade
dos depoimentos homologados no delação premiada/leniência
de José Carlos, Rodrigo Leite e a Andrade Gutierrez, ao tempo
em que se utiliza de tais provas sabidamente fraudulentas para
acusar o Representante, interpondo recursos e incidentes
manifestamente improcedentes, litigando, portanto, de má-fé,
razão pela qual incorre, em tese, no crime de prevaricação (art.
319 do CP), devendo ser sancionada disciplinarmente ao
malferir o inciso VII do Estatuto Legal que rege sua atuação.

146. Por tais razões, flagrada a mentira por parte de quem se


voluntaria a contribuir com as investigações em troca do perdão, se tem
enganosa declaração de vontade por parte de quem concede o benefício, com
cujas provas se vale a Representada para perseguir um inculpe, ao tempo em
que protege os verdadeiros criminosos confessos e “superpremiados”.

147. Para o inculpe, “Na verdade, a avalanche de pitos, reprimendas


e agressões só me estimulam a combatividade” (Caetano Veloso – Jornal A
Tarde, 13/10/2013, p. B9). “Os idealistas são tratados como cupins nas
instituições: todos tentam matá-los, com veneno, mas eles não morrem, ao
contrário, se organizam, olham um para a cara do outro e dizem: vamos roer!
Um dia o todo poderoso senta na sua cadeira e cai porque a pata da cadeira
está roída”. (Calmon de Passos – Congresso de Advogados, em 1992, em
Porto Alegre).

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148. Ao lume do exposto, postula o REPRESENTANTE seja instaurado
processo administrativo disciplinar a fim de se apurar os fatos descritos e, em
se confirmando as infrações funcionais, sejam aplicadas as sanções cabíveis.

149. Seja a Procuradora da República, MELINA CASTRO MONTOYA


FLORES intimada para tomar conhecimento acerca da presente Representação,
a fim de que, querendo, apresente defesa, oportunizando a juntada da
documentação que entender pertinente para a cognição do juízo administrativo
que se pretende instaurar.

150. Seja oficiada a Procuradoria Geral da República, a fim de


apurar o possível cometimento, pela REPRESENTADA, dos crimes de FRAUDE
PROCESSUAL (art. 347 do CP) e PREVARICAÇÃO (art. 319 do CP).

151. Por fim, seja a REPRESENTADA instada a se manifestar acerca


do atual andamento dos procedimentos apuratórios nºs PGR-00058930/2018
e PGR-00676605/2018, que se encontram sob sua alçada, instaurados para
averiguação da fidedignidade das colaborações premiadas firmadas pelos
lenientes/delatores CARLOS JOSE DE SOUZA e RODRIGO LEITE, fornecendo
cópia integral dos expedientes citados.

Termos em que pede deferimento.


Brasília/DF, em 22 de junho de 2020.

LUIS CARLOS ALCOFORADO


OAB/DF n. 7.202

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Rol de documentos:

1. Denúncia
2. Declaração do Rodrigo Leite
3. Declaração de Carlos José
4. Contrato de Prestação de Serviços AG
5. Petições da AG - 12.2016 - Acordo e as declarações dos lenientes
a) Petição AG 9.5.2017 - Contrato de Prestações Fictício
b) Pet AG 4.7.2017 - Contrato de Prestação de Serviços Reais
6. Solicitação dos Serviços por Carlos José
7. Documentos PPP Saúde, Pareceres Andrade Gutierrez e Solicitações de
Carlos José
8. Agenda Missões Internacionais
9. Pedido de Habilitação da OAB
10.Decisão de Deferimento para ingresso da OAB
11.Correição Parcial
12.Sindicância à PGR nºs PGR-00058930/2018 e PGR-00676605/2018
13.Despacho PRRDF
14. Manifestação do MPF acerca do encaminhamento para a análise das ERBs
15.Decisão ônus da Prova

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