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Ciências Sociais em Saúde Coletiva r:i.:. ,


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Marcela Eduardo Pfeiffer Castellonos Maric Andréo Loyolo
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INTRODUçAO inscrição nesse câmpo, e, finalmente, problematizar a de-


As Ciências Sociais em Saírde (CSS) consisteru, ao finição de necessidades em saúrde. A segunda parte, de
mesmo tempo, em ulna área do conhecimento e em um responsabilidade de &Íaria Andróa Loyola, apresenta e
eixo da Saúc1e Coletiva. As CSS são compostas por prá- discute algur-rs conceitos centrais para a análise da re-
ticas científicas e de ensino, com grandes desdobramen- laçào indivíduo-sociedade a partir de três grandes en-
tos para a estruturação de respostas sociais organizadas foques das CSS. A terceira parte, de responsabilidade
para os problernas e necessidades ern saúde. Vale 1em- de Jorge lriart, âpresenta alguns temâs ciássicos, assim
brar que não há um ponto cle vista homogôneo e consen- corno noyos objetos e qu.estões emergentes que desafiam
sual sobre os objetos e questões enfrentados pelas CSS, a reffexâo e as práticas das CSS na contemporaneidade.
tampouco sobre seu próprio processo de constituiçâo e Com isso acreditamos introduair o leitor em ideias ê con-
desenvolvimento. Um conjunto de estudos, publicados textos fundamentais das CSS, assim como em questões
no Brasil nos últimos 20 anos, procura descrever e anali- e contribuições dessa área no ca*1po c1a Saúde Coletiva.
sar as práticas científicas e pedagógicas das CSS sob di-
veÍsos aspectos e interessesl. Alguns desses estudos per- CIÊNcIAs SocIAIs EM SAÚDE: sITUANDo
fazem amplos pânoramas, enquanto outros se dedicam ALGUNS CONTEXTOS, IDEIAS E
ao aprofundamento de qtiestões específicas. Recorrere-
coNTRIBUrÇÔES
mos a alguns desses trabalhos ao longo deste texto, mas
sem a pretensão de apresentar sistematicamente seus Origens do pensamento social em saúde
resultados e análises. nem sequer r.efazer o caminho por O surgimento do pensamento sacial em saúde, na
eles percorrido. Acreditamos que o ieitor encontrará nas modernidade, pode ser identificado em análises e ques-
referências bibliográficas valiosas indicaçôes para arn- tões enfrentadas por autores ciássicos da sociologia e da
pliar e aprofundar sua visão sobre a área. antropologia, de meados do século XIX a meados do sé-
Este capítulo, organizado em trôs partes pr.incipais, culo XX, ainda que não tenha recebido por parte desses
se dirige, principalmente, àqueles que iniciam suas lei- uma atenção sistematizada. Também podemos localizar
turas e aproximações com as CSS. Cada parte foi elabo- a origem desse pensamento em um momento anterior,
rada por urn dos autores, o que não afastou eventuais no contexto de estruturação da medicina social, da higie-
contribuições dos outros. A prirneira parfe, de respon- ne social e da saúde púhlica, especialmente na Europa e
sabilidade de NIaycelo Castellanos, ptocurâ situar o nos EUÀ (Itiunes, 1992, 1999).
contexto cle surgimento das CSS; introduzir algumas
Poltanto. a incorporação das questões sociais no cam-
de suas formulações e autores, destacar sua contribui- po da saúde não á nenhuma novidade, ainda que seja
çào para formuiações fundamentais do campo da Saúde constante foco de debates e controvérsias. Pode-se apon-
Coietiva e apontar algumas questões reiativas à sua
târ o texto "Medicina Social", escrito por Jules Guérin,
em 1848. como um pi€cursor da ideia de que as práticas
1"r"brar cle Alves & &Iina5,o (1994), Á1ves (2006), Bar-
""d.r"--
ros & Nur:es (2009), Canesqui (1995, 1997, 200ã, 2007), Gonre-* & e serviços rnédicos deveri.am ser vistos como trens pú-
Goldenberg (2003), Nlarsiglia et al. (2003), llinavo (2006). Nunes blicos e, portanto, objeto privilegiado de reflexôes e in-
(1992, 1999, 2003, 2006). dentre outros. tervenções da esfera púb1ica (Nunes, 1999). A saúde do

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568 Seção VI e ESTADOS DA ARTI
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povo como um assunto de Estado ó uma noção hásica da sionalização e tecnificação do trabalho em saúde. A-",ança
medicina social, desenvolvida no processo de consolida- com a estruturação de sistemas formais de saúde poucr:,
ção dos Estados nacionais, na Europa (Foucault, 1979; permeáveis ao pluralismo terapêutico (Tesser & Barrr:;.
Nunes, 2000). l.ío transcorrer dos sécu1os XVII, XVIII e 2008) e às diferentes racionalidades que fundamenta*;
XIX, firmou-se uma importante aliança entre a rnedici- as práticas em saúde (Good, 1994; Luz, 1996, 2005i.
na e o Estado, quando se tonra o "social" como espaço muitas vezes etn arranjos hítrridos e compiexos (Barr*.o"
primeiro focalizado peios saberes e práti.cas em saíide. 2000). Avança enfim com o processo de racionalização d*
saberes e práticas operacionalizados por médicos e ou- vida social.
tros profissionais inscriios comc agentes institucionais Na antropologia, podemos identificar refiexões im-
nos apareihos estatais em fornação. portantes sobre o tema da saúde em autores ciássic**"
Traçada inicialmente na Eurcpa e reproduzida em corno W. Rivers, E. Evans-Pritchard, V. Turner e R,
outras partes do mundo (inclusive no Brasil). essa alian- Benedict e C. Leyy-Strauss. entre outros. A antropologin
ça garantiu aos profissionais de saúde um largo poder de enfoca centralmente a dimensão cuitural da vicla social,
intewenção sobre a vida individual e social. ao mesmo Assim, a partir de ciiferentes correntes teóricas" ela con-
tempo que viabilizou a implementação de estratégias de sidera as práticas sociais enquanto práticas simbólica=
controle do Estado sobre a sociedade. Essa intervenção que delimitam possibilidades interpretativas e signific*-
se dá mediante a normatização da vida social e da inter- dos atribuidos aos fenômenos sociais. As práticas cuire-
nalizaçãc de dispositivos disciplinares que se inscrevem rais articulanr representações sabre diversas esferas sr'
no agir, no sentir e no pensar dos indir,íduos e grupos ciais (econômicas, política etc.)" entre as quais se inclue::
sociais (Foucault, 1979). Esses dispositivos alcançaram, representações sobre corpo, saírde e doença, formanril
inclusive, aquilo que nos parece mais emblemático do uma matriz cultural ou url1 sistema simbólico. Não e ie
dominio privado * nosso corpo e dinâmicas familiares. se estranhar que esses autores tenham se interessadr.
Assirn, por exemplo, as tramas familiares tornaram-se pelas concepções de saúde e doença e práticas de crira *
um ohjeto privilegiado de investirnento do Estado - no cuidado (rnedicina popular, xamanismo etc.), dada su:*
campo do direito (tril:unal de menores), do ensino (es- declicação à compreensão de interpretações "natir.a{"
colas/pedagogia) e da saúde (pediatria). no sentido de sobre a vida sociai e individuai. Essas concepçôes e pra-
regular o cuidado dirigido às crianças. Nesse processo, ticas foram analisadas em relação aos sistemas socia:.
as dinâmicas, papéis sociais e relações de cuidado cons- e sirnbólicos que as integram. São estudos que enfocam
tituídas nas tramas familiares passararn a ser intelpe- as interpretações dadas por mernbros de determinadar
iados por profissionais e instituições de saúde. Nesse sociedades aos fenômetros de saúde e doença, delimit*;:"
sentido, o corpo infantil e a famíiia convertern-se em um do sua natureza e suas causas. A deÍinição da natur"eax
hibrido público-privado, regulado por nornras e disposi- desses fenômenos é dada pelo acionamento de diferenr"*
tivos disciplinares {Donzelot, 1986). categorias sociais que delimitam as distinções e/ou r*i*-
Assim, a saúde deixa de set'um assunto circunscrito ções etrtre o domínio físi.co, mental, espiritual, ou arnc r
ao âmbito privado e cle dominio individual para ser con- entre o natriral e o sotrrenatural, o presente e o passad;:,..
siderada um objeto de interesse pirblico (em particular, As explicações causais fundamentam-se em reiações d*
do Estado). As consequências dessa mudança são vastas sentido estabelecidas entre esses domínios ou em ur
e profundas: entre o nascer e o morrer ternos nossas vi- mesmo domínio, podendo se dirigir a confli.tos, inr,ej*;
das e formas de viver enredadas em linhas de preocupa- magia, falha rnoral, aiimentação, micróbios, agentes !, -
ções e atenções instauradas por práticas e agentes insti- xicos, modo de vida e trabalho. Essas interpretaçôes sÀ*
tucionais, dentre os quais se destacam os profissionais de acionadas por categorias como quente-frio, seco-úuriii;:
saúde. Assirn, via de regra, nascemos e Inorremos nos ser- infortúnio, mau-olhado, sangue ruim, nervoso, infecçÀ,.-r,.
viços de saúde. No entanto. mais importante do que isso, clano etc.
tudc o que fazemcs fora dos serviços de saúde interessa Os estudos mostram que o "maVsofritnento^' n+*:
aos profissionais que 1á trabaiham. lrião por mera curiosi- semple é identificado no indivíduo, rnâs atinge e p*r-
dade, mas por obrigação profissional. Assim, as práticas tence a um grupo social específico. A}ém disso, o qu* ô
sociais relativas à alimentação, à sexualidade, aos rela- considerado doençalpatológico em rim dado contextc r:-
cionamentos famiiiares, ao trabalho. ao lazer. dentr.e ou- cial nem sempre o é em outro contexto. Assim, advogs.-
tros aspectos da vida, sãs iomadas couro objeto legítimo a defesa de um relativismo cultural na abordagem is,*
de investigação e intervenção dos profissionais de saúde, questões e práticas de saúde - como de resto da vicla +:-
ern u§r contexto de intensa medicaiização social. cia1. Defende-se, também. que as práticas de saírdr rr--
Esse processo de medicalizaçào social avança com plicam pi'incípios, conceitos, regras e significados quÉ. i' .a'a,

a expansão e o fortalecimento dos sistemas formais de selem acionados pelos indivídrlos e grupos sociais. rucd"-
saúde, apoiados na racionalidade científicâ e na profis- lam e se expressam nas formas como eles vivem. §es*q*
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. Ciências Sociais em Saúde Coletiva
569
{apítulo 38

sentido, as concepções de saúde e doença (e o conjunto de tema simbó1ico, na medida em que opera linguagens,
práticas sociais em que estas são formuladas) estariam saberes. perspectivas, interpretações. Forém, ela procu-
:empre relacionadas com concepções e sistemas sociâis ra incessantemente se distinguir de outros saberes ou
mais amplos, implicados nas situações específicâs en- formas de produção de conhecimentos, afirrnando-§e e
írentadas pelos indivídLlos e grupos sociais. sendo legrtitnada cottto superior a estes, ao se autorre-
Essas análises indicam a existência de urna relação presentar corno sistemática, rigorosa, objetiva, em con-
estreita entre nattlreza e câu§a do "ma1/sofrintento", de lraposição e outros conhecimentos representados como
um lad.o, e o tipo de intervenção ou resposta socialmen- fragmentados, infundados, subjetivos. Devemos iernbrar
íe acionada e legitimada para aquela situaçáo, de ou- que nem a cultuva nem a ciência devem ser apreendidas
tro. Parte das análises empreendidas por esses e outlos coÍmo um conjunto homogêneo e completamente çoerente
autores mostram que a eficácia terapêutica das inter' de significações, mas como linguagens dinâmicas, coru-
venções está intimamente relacionada com os processos plexas e multifacetadas que corrtportarn contradições e
de legitimação sociai dos agentes e práticas de cura e a coexistência, no rnesmo contexto social, de diferentes
cuidado. Lev-rr-Strauss (1975) retoma essa questào com o visôes de mundo e quadros de referência.
conceiio de eficácia simbólica, a partir do qual ele propõe Como mostra Bourdíeu (1989), a produção cultural se
que a efetividade terapêuti.ca assenta-se na regulação dá em meio a uma rlisputa pelo poder simbólico, ou seja, o
estrutural que o sistema sociai exerce sobre as posições, pocler de produçãc e legitimaçáo de significados culturais
ações a interpretações assumidas pelo doente/sofredor dominantes. Muitas vezes, esses sigrrificados represen-
e pelo curadorlcuidador em contextos específicos de in- tam a legitimação da hierarquia social e de privilégios de
teração social. Ao se perguntar como pode o xamã rea- determinados grupos clominantes na sociedade' O Estado
lizar uma intervenÇão terapêutica efetiva sem manter e a ciência operâm nessas disputas procurando regular
{ontato físico com o doente/sofredor, e1e propõe que essa e legitimar discursos que §ustentarn determinados "regi-
efetividade assenta-se em um sistema de crenças - do mes de verciade" (Foucault, 1996, 1999, 2000)'
d.oente no xamã, do xamã na sua intervenção e da so- Essas ideias nos mostram que, seja inseridas em um
derlade naqueias práticas de curaicuiclado. Os processos sistema de saúde forrnal, seja em um sistema social mais
rituais (gestos, palavras, cantos etc.) empreendidos pelo ampio. as práticas em saúde podem ser referidas a siste-
xamã restituem posiçôes e lugares simbólicos que inter- rnas sociais e simbólicos eü1 que se travam relações entre
r,êm sobre as condições de saúde do doente. interpretações, saberes e pr:áticas sociais distintas, sem-
Estudos sobre a eficácia simbóiica das intervenções pre inscritas em relações de poder.
em saúrle (Lev5'-5x.urrss, 1975; Bibeau, 1983) e tantos Da mesma rnaneiva que na antropologia, podemos
autros estudos antropológicos mostrâm a importância identificar contribuições importantes dos autores clássi'
de superarmos uma posiçâo etnocêntrica sobre contextos cos da sociologia à reflexão e análise do tema da saúde,
culturais estranhos âo nosso, evitando assim lermos o ainda que este nâo tenha recebido ur:ra atenção específi-
arundo à nossa medida. ltíesse sentido, ao inl'estigarmos ca e sistematizada. Assim, Durkheim analisa o suicídio
a áimensão cultural da vida social, clevemos "suspender" como uma patologia sociai que deve ser explicada por
ou colocar entre parônteses alguns dos pressupostos e causas sociais, relacionadas com íragilid'ades nas rela-
ções de solidariedade e coesão social. Ele mostra
como
categorias que orientam nosso oihar. para nos abrirmos
fenômenos aparentemente individuais, como o suicídio,
à compreensão do Outro (aiteridade), à compreensào de
iógieas que diferem da§ nossas, mâs que netn por isso podem ser analisadôs como "fatos sociais". Marx analisa
*ão menos válidas e efetivas socialmente. Além disso, as condições de trabalhc e a inserção social da classe tra-
esse tipo de análise mostÍa que as práticas científlcas balhadora no modo de produção capitalista, apontaudo
também se constituern culturalmente. enquanto normas suas implicações para as condições de vida do proletaria-
legitimadas e negociadas em processos sociais específi- do e possibilidacles de superaçâo. Fara ele, o que define
a condição humana é sua capacidacle de projetar e trans-
.o.. É i*p*ttante lernbrar que a relação entre a eficácia
simbólica e o caváter ritual das práticas de cura e cuida- formar o real, através do processo de trabalhtl' Quando
do se estatrelece não apenas no contexto da magia, mas o trabalhador não pode definir os sentidos dos processos
também da ciência (Bonet, 2004). de trabalho em que está inserido, ele é desumanizado
A antropologia deflne cultula como um sistema sim- em um processo que o "coisifica"' Weber dedicou-se a
bólico; formas de pensar que conformam uma visão de anâlisar a ação social em ulna perspectiva compreensiva
mundo; valores e motivaçÔes conscientes e inconscien- interessada pelos sentidos atribuidos a tal ação, com-
les. Para a antropologia interpretativa, a cultura é uma preendidos em termos de tipos ideais - isto é, espécies de
espécie de lente através da quai as pessoas interpretam earicaturas em qlle os principais traços são exagerados
' e dão sentido a seu mundo (Geertz, i989). A ciência não parâ serem mais bem compreendidos em suas relações
Êscapa a essâ dinâmica, podendo ser vista como um sis- com outros elementos do quadro' Weber analisou as re-
l

570 Seção Vl r ESTADOS DA Àâí{

lações entre diferentes esferas da vicla {econômica, polí- fragilizadas, foi:mou a base par:a um novo pacto sor:id
tica, religiosa etc.) e fcrrmas de dominação, sem assuurir em favor do Estado de Bern-Estar Sociai. Os sisten--as
umâ hierârquização predefinida de uma esÍ'era sobre a públicos de saúde representarâm um componente estrlí*
outra. Assim, o imperativo econômico, afirmado de modo tural desse pacto, elevando o interesse científico so"b *
contundente na abordagem marxista, é relativizado por as questões de saúcle. lJos EUA, os traumas de guerr'e
Weber. Desse modo, outras formas de dominaçào ga- impulsionaram o interesse e o iavestimento público *::;
nham relevo em suas análises. No que se refere às ques- estudos da chamada Ciências da Conduta. Dando r**-
tões de saúde, podemos destacar processos de dominação tinuidade à análise sobre o "papel do cioente" (Farscr:.-r,"
operados na organização burocrática, eada vez mais im- 19õ1). novos estudos irão revisitar a visão parsonian.
portante em sociedades que vivenciam forte processo de buscando arnpliá-la e aprofundar algurnas questões, co:;:
raeionalização da vicia sociâl. forte interesse no contexto hospitalar e no desenvchi-
Aigumas ideias weberianas exerceram larga in8uên- mento de conhecimento aplicado sobre práticas presÊr"
cia sobre as bases da sociologia da sairde, por intermédio tivas. dentre outra§. Esses estudos não focalizaram ar
de um de seus precursores. Taicott Parsor:s, principal relações tle poder e contradições sociais presentes **;
representante do funcionaiismo norte-americano" dedica práticas de saúde. De modo coerente com o contexto rin
um capítulo inteiro de seu principal livro. O Sistema So- "Guerra Fria", as análises empreendidâs procura\:â?§
cial, à análise do papel sociai da medicina na sociedacle identi§car fatores de mediação social que conduzisseç:
urbana dos EUA nos anos 1950. Trata-se, provavelmen- a uma rápida intervenção sobre os "desvios" e conflit*s.
te, do primeiro textr: da sociologia c1a rnedicina/saúde sem mexer nas contradições que os sustentavam.
propriamente dita. Sua anáiise, fortemente influenciada Essa ênfase começará a mudar, ainda na mesma de,.-

por Weber (Gerhardt, 2002, 2011). incide sobre o contex- cada, com estudos riue exploraram â relação entre pr*-
to marcado pelo racionalismo individualista. Nesse tra- blemas mentais e classe social (Holligshead & Redlicli.
balho, ele propõe que a medicina cumpre uma função de 1958), por exemplo. hÍas será no decorrer dos anos 196úi
reguiaçào social, na rnedida em que atua na normaliza- e 1970, cientro cle um contexto social mais ampio de cor:-
çào de situações desviantes. A patologia é vista como um testaçâo das instituições, dos saberes e dos poderes, qu*
desvio sociai, pois, muitas vezes. limita a realização das ganharão frlego algurnas críticas à anáiise das ciências
atividades cotidianas. l.iesse sentido, a medicina deve c1a conduta e clo funcionalismo sociológico na saúde. 8.."
ser analisada em relação ao sistema social. Para ele. o sas críticas foram especi.almente feitas por autores do i-n-
médico é um agente social que culrpre um papel social teracionisn:o simbólico norte-americâno, com destaque
específico. O médico deve julgar a reaiidacle (legitimiria- para Eiliot Freidson. Crilica-se a análise (e se questiona
de) da situação desviante e restabelecer a normajidade, a existêncial) de relações sociais entre Ggentes uniuersqis.
com base na autoridade de um saber esotér'ico (mono- tal qual concebida por Parsons, quando este pressupô*
pólio do conhecimento especializado) e por meio de uma uma reiação completamente assimétrica e consensuai
atuação neutra e ética. O paciente. por sua vez, tarn- entre arédico e paciente. Para Freidson ([1970] 2009). a
bém exerce um papel social especíÊco. Ele úeve desejar análise parsoniana não considera os conflitos entre mé-
a curâ e/ou restabelecimento, aderindo ao diagnóstico e dico e paciente. pois não considera a heterogeneidade
tratamento indicado pelo módico. perfazendo â car.l.eira social e as relações de poder presentes nos ccntextos de
dc paciente. Isto é, sritlmetendo-se ao conjunto de encoa- interação er! que esse encontro se estabelece. Em outi:os
tros, procedimentos e intervençôes ploporcionados peJ.os terrnos. poderíamos dizer que não considera a dimen-
profissionais e instituições de saúde. são (micro)política das diferenças de gênero, de classe
social, de geração, de raça/etnia presentes na relaçãc
médico-paciente. Segundo o interacionismo simbólico, o
Desenvolvimentos das ciências sociais em encontro entre "o médico e o doente se caracteriza por
saúde - breves notas um conflito resultante da divergência de perspectivas e
Se as reflexões das ciências sociais sobre as questões de interesses [...] O medico enxerga o paciente e suas
de saúde podem ser identificadas antes do século XX. é necessiilades a partir das caiegorias cie sua especialida-
a partir do fim daII Guerra Mundial que elas tomam de [...] O doente. em compensaçào, entende sua doença
a saúde como objeto específico e sislemático de estudo em {'unçâo das exigências da vida quotidiana e de acor-
(Nunes, 1992, 1999). E ,.***u momento que âs CSS co- do com seu contexto cultura. Ele gostaria que o médico
meçâm a consolidar-se no mundo enquaÍrto área especí- aceitasse a sua própria definição do problema" (Adam &
fica, estruturada em departamentos. associações e tex- Herzlich. 2001: 96-7). Esse "modelo conflitivo" é sensíve1
tos acadêmicos. às relações entre estrutura social, cultura e poder. Por
A necessidade de reconstrução das nações europeias, isso mesmo. tem grande pertinência em contextos epide-
cujas estrutur'âs produtir.as e sociais esiavâm bastante miológicos com forte presença de doenças crônicas. Isso
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Capítulo 38 Ciências Sociais em Saúde Csletiva

porque aquele que é acometido por uma condição crÔni- dos serviços cle saúde e sua justificativa ideoiógica (À{í-
ca vealtza intenso contato com a "cultula profissional/ nayo, 1997). hlas sociedades capitalistas, aponta'se a
institucionaÍ'dos serviços e proâssionais de saúde, em intensificaçáo da representação, muito presente entre
seu extenso itinerário terapêutico. Desse modo, muitas as classes trabalhaclora§, que iguala saúde à capaci-
vezes. ele incorpora conhecimentos e posturas bastante dacle para o trabalho (Boltanski, 1979)' Vários estudos
ativos na relação mantida com esses profissionais' Se- mostram como a organização das práticas e dos siste-
guindo o caminho aberto por Ivan liti.ch (i97a) e Erwing mas c1e sairde pode ser alralisada como uma resposta
Goffman (1963), urna série de trabalhos - também pro- à necessiclade de reprodução social de corpos e mentes
duzidos no mesmo colltexto socia] de contestação - irá de trabalhadores de setores estratégicos da economia
denunciar o caráter iatrogênico das ações dos profissio- (ainda que não consista na resposta nrais adequada
nais de saúde, especialmente daquelas realizadas nas às necessiclades soclais dos trabalhadores desses e
instituições asilares. Essas instituições sáo considera- de outros setores) (Donnangelo, 19?6; Cohn, 1996)' A
das por Goffman "instituiçôes totais", ou seja, lugares de mercantilização dos serviços de saúde, a estruturação
residência e trabalho em que inclivíduos classificados em da prática méclica em grandes organizações {hospitais
uma situação semelhante (doentes mentais' criminosos etc.) e a proletarização do trabalho em saírde também
etc.) são separados de outros espaços de sociabilitlade e foram analisados, com destaque para suas implicações
têm sua vida formalmente administrada pela institui- pala a autonomia profissional e para a relação terapêuti-
totais não re- ca, a qual se assernelha cada vez mais âo encontro entre
ção. O caráter iatrogênico das instituições
sicliria Llnicamente na reclusão a qtle os 'internos" estão um profissicnal que vende bens médicos e um pacierrte
impli'cações pâra a que os consome (Nlachado, 199?; Freidson, 1998)' Atriás'
submetidos, mas também em suas
submetidos ao buscar analisar as práticas dos profissionais de saúde
identidade social e pessoal desses sujeitos'
que estào a ritos institucionais que imprimem tnudanças em termos dos processos de trabalho em que se esttutu'
r-am, es§a autonomia mostra'se muito mais um ideal
do
em seus co pos e em suas interações sociais' Goffman que
(1961, 1963) e Scheff (1966) mostram como as pe§§oas qlle uma realidade técnica. Schraiber (1993) mostra
essa autonomia é ela própria umâ representação
que é
rctuladas como "doente§ mentais". por exemplo' passam e reprodu-
reafirmada em novos contextos cle produção
a ser objeto de intervenções institucionais' a partir das
ção cla prátíca rnéd.ica, renovando sua
centralidade na
quais sofrem inter:sos processos de rotulação e estigma-
icientidade profissional, ainda que não se traduza e1:1 um
tízaçào.
Outra or:dem de criticas também se impôs à ênfase nexo técnico de trabaiho autônotno'
cornportamentalista e funcionalista da primeira geração A reflexão sobre os instrumentos, saberes' modelos
de estudos em CSS' Dessa vez fundamentaclas ao mate- cle atenção enr saúde, clefinidos ern tertrlos cle tecnologias
rialismo histórico, essas críticas denunciavâm â sllposta socialmente d.efinidas (em suas articulações internas e
"neutralidade" d.a interpretação científica, uma ên{ase externas), possibiiitará a anáiise das relações entre a es-
truturação do processo de trabalho em saúde e os contex-
no estudo do espaço hospitalar e pouea ou nenhuma fo-
calização de processos tle transformação social das prá- tos sociais mais amplos em que se inserem' Vale lembrar
ticas e contextos analisaclos (Nunes' 1937)' Os estudos a defini.ção assumicla em importante trâbâlho da área
orj.entados pelo referencial marxista investiram' espe- sobre a questão: "Tecnologia refere-se aos nexos técniccls
estabeleci.d.os no interior clo processo de trabalho entre a
cialmente no contexto latino-americano dos anos 1970 e
1980, na análise das relaçôes entre saúde e estrutura so- atividade operante e os objetos de trabaiho, através da-
cial. Destacam-se tanto a investigaçáo de representações queles instrumentos [de trabalho] ["'] fsendo assim] um
e ccncepções da saúde e da dcença predominantes em conjunto de saberes e instrumentos que expre§sâ' nos
processos de produção dos serviços, a tede de relações so-
camadas populares como do processo de determinação
social da saúde, analisado a partir de snas relaçôes com ciais em que seus agentes articulam sua prática em uma
o modo de produção (lrlunes, 2000)' totalidade social" (ilIendes Gonçalves, 1994: 19 e 32)'
l{esses estudos, gera}mente, parte-se da ideia de A partir da ciécada de 1980, as análises passam a in-
que essas repre§entações, heterogêueas entre distintos cid.ir sobre relações de poder mais matizadas, explorando
grupos sociais, estáo intimamente ligadas ao contexto em profundidade processos de negociação entre o doente
social, político, econômico e aos valores vigentes na §o' e os proÊssionais de saúde, em diferentes contextos ins'
ciedade. Há um grande interesse na análise clas impli- titucionais e sociais. NIais uma vez, os estudos sociológi-
cos sobre o acloecimento crônico rendem formulações teó-
cações das relações de produção e de trabalho para as
condições de vida e saúde (Laurelt, 1983)' A necessidade
ricas relevantÊs parâ o debate sociológico no carnpo da
saúde. Nesse sentido, destaca-se o modelo da "ordem ne-
da restauração da capacidade produtiva clos corpos dos
gociada", desenvolvido por Anselm Strauss (1978), para
trabalhadores tornou-se um fator importante na repro-
duçáo do sistema capitalista, orientando a organização compreender os acordos e relações estabelecidas entre
572 Seção VI . ESTADOS DA ARTÊ

diferentes categorias profissionais, no contexto hospita- renciais teóricos. as análises empreendidas no campo da
lar, a propósito da definiçâo das práticas terapêuticas Saúde Coletir.a. ao mesmo tempo que produzem conheci-
e intervenções institucionais dingidas ac paciente com nrentos específicos â esse campo. Nesse sentido, as CSS
probleruas crônicos de saúde. Nessa análise, {lca eviden- no Brasil o1'a âparecem delimitadas em um recorte disci-
te que as hierarquias presentes não são totalmente d- plinar específico. or-a se confundem com a próplio campa
gidas e qrie os acordos firmados são setnpre provisórios. mais amplo da Saúde Coletiva.
em reiação & seus objetivos e termos (Adam & Herzlich, Essa inscrição torna possível uma abertula cla área
2001). Há um claro interesse na análise do adoecimento da saúde aos profissionais das ciências humanas e so-
e do cuidado enquanto experiôncias sociaj.s (Kleinman. ciais, ainda que delimitada e tensionada por questões
19801 Àlves, 1993). Os estudos narrativos, também, des- e inieresses mais específicos dessa gtande área. ){o que
pontarão a partir da crise das explicações totalizalltes se reíere especificamente à Saúde Coletiva, esses pro-
(positivismo, funcionalismo, marxismo etc.), explorando cessos de incorporaçâo e de delimitaçào. de aproxima-
as relações entre a experiôncia pessoal e social mais am- ção e distanciamento, de valorização e disputa se veem
p1a, ao anaiisar as formas de interpretação e processos presentes nas relações entre as ciências hLrmanas e so-
de signiflcação das experiências de acloecimento e cuida- ciais erri saúcie, epidemiologia e política, planejamento e
do em contextüs sociais específicos (Canesqtti, 2007). Es- gestão. Esses três componentes da Saúeie Coletiva são
ses estudos, muitas ysTg*c, sc interessam especiaimente apontados, muitas vezes, como seus principais eixos ou
pelo enfoque narrativo biográfrco (Bury. 1982; Roberts. "piiares c1e sustentação", configurando-a como Lln1 campo
2002; Casteilanos, 2011). A investigação dos itinerár:ios científico interdisciplinar' (Paim & Álmeida-Filho, 2000).
terapâttticos ganha reievância nessa linha de estudos. Assim, se cada quai contribui de maneira específica ao
promovendo a análise das lógicas que orientanl o ace-qso cân1po cia Sa.úde Coletiva, será nas complexas relações
e o uso cle determinados setores assistenciais (popr-ilar. estabelecirlas entve eles que encontraremos urnâ "tensão
informal cu profissional) ou tipos de busca cle ajuda acio- harmônica" desse campo ou o "tortr" da Saúde Coletiva,
nados pelos sujeitos adoecidos (Kieinman. 1978, 1980: para utilizar Llma metáfora musical.
Helrnan, 2003; Trad, 2010: Cabral, 2011). Ás contribuições das CSS foram, arnpia e proíun-
clamente. incolporadas nes$e campo, integrando algu-
mas cle suas folmulações centrais (liunes, 1994; Fleury.
Ciências sociais em saúde e Saúde Coletiva: 1997, 198õ; Paim e Almeida-Filho, 2000). Sem analisar
premissas e questôes fundamentais a questào profur:damente. destacarerlos de moclo taqui-
h{riito ernbora, as CSS se estruturelr como uma área gráfi co dessas incorporações.
específica do conhecimento, â partir de seu recorte dis- Considerar as ações de saúde como práticas sociais é
cipiinar, vimos que eia toma como objeto questões e pro- um plessuposto íundamenta] da Saúcle Coietiva que no§
cessos próprios ao carnpo da sa/rde (e, mais particular- obriga a incorporar - de diferentes maneiras e Iugares
mente, da Saúde Coletiva), sofrendo a partir claí diferen- ciesse campo - a análise do contexto social e da perspecti-
tes infiexões em suas práticas peciagógicas e cientíâcas. va histórica. Assiur, na Sairde Coletiva somos instados a
Assim, se nos EUÂ as CSS se estruturaram nos departa- considerar. ccm consistência teórica e consequência po-
mentoii cie ciência,c sociais, no Brasil se estru-rulam prio- lítica. a dimensão sociai e a perspectiva histórica clos
ritariamente nos departamentos de rnedicina preventj.va llrocessos e práticas de saúde. Em outras palavras. to-
e social {e congêr:eres) da escola r::édrca. Essa situação mar a saírde cofio um processo sociai e histórico é um
implicou aiguns tensionamentos e questões. De um presslrposto teórico da §aúde Cotretiva. Isso se verifica
lado, as CSS sâo dernandadas a produzir conhecimentr:s nas análises que relacionarr esse processos e práticas
"aplicados" e/ou "adequados" aos problemas e questôes com âs conjunturas e estruturas produtivas e de po-
enfrentados pelos profissionais de saúde. de outro 1ado, der em que se inserem: nas análises que buscam com-
elas adotam um posicionaüento crítico ao pararligma preender os sentidos e significados das ações e expe-
biornédico e às práticas dos proÊssionais e instituições riências sociais presentes no processo saúde-doença-
de saúde {Nunes, 1997, $52). -cuieladol ou ainda, na análise da organização social da-s
Parém, rnais tim elemento iruprime relevo específico práticas de saúde e das respostas socj"ais organizadas às
às CSS no Brasil. Sua inscriçãc| no campo da Saúde Cole- necessidacles de saúde; o1l mesmo. na análise da distri-
tiva implica a produção de uma reflexão teórica e crítica buição social do processo saúcle-doença e de seus deter-
cr:mprometida com a análise rle situações e práticas de minantes sociais, dentre outras.
saúde, visando à superação de problemas e lirnitaçôes aí Nesse sentido. os objetos de investigação e de in-
identificados, assim como implica a relação ince*qsante tervençào da Safide Coletiva não se confundem com o
cçm saberes fundametrtados em paradigmas distintos e corpo indirridual e biológico. tratâ-§e de um corpo de
conflitantes. Assim, as CSS enriquecem, com seus refe- objetos (indivíduos. populações; políticas e instituições;
Capítulo 38 . Ciências Sociais em Saúde Coletiva 573

doenças e agravos; necessidades de saúde etc.) instados saber é outra contribuiçáo a ser destacada. Trata-se, de
nessa relação com o social e o histórico. Ào investigar. um lado, da análise das políticas de saúde e do processo
sob diferentes pontos de vista, as situações de saúde que de estrutulaçâo da rede assistencial, com clara influên-
afetam indir'íduos e populações, a Saúde Coletiva deve' cia marxista, a qual está intel'essada na relação "capitai-
rá analisá-1as como uma produção material e simbólica -tra.balho". ?rata-se, de outro iado, da análise dos pro-
existente na tensâo "biossocial". Aqui, estamos diante de cessos de trabalho em saúde e das tecnoiogias em saúde,
outra contrihuição fundamental das CSS, pois essa cltt- interessada na relação "saber-traba1ho". Procura-se, nesse
pla determinação ("biossocial") se reflete tanto em práti- caso. analisar processo de trabalho ern saúde rnostrando
cas corporais culturalmente definidas quanto em perfis a íntima relação existente etttre os diferentes arranjos
epidemiológicos socialmente determinados. Assim. por teenológicos (tecnoioglas materiais e imateriais), seus
exemplo, estrutul'âs de poder micro e macrossociais têm obietos e a constituição de sujeitos (com maior ou menor
especial reler.ância paÍâ a análise dos processos r:rate- grau de ar-rtonomia para definir as finalidades do traba-
riais e si.r:rbóiicos de estratificação social das crianças, tho). Ern ambos os câsos. busca-se estudar es§as ques-
dos adultos, dos idosos, do trabalhador' do morador de tões em suas relações com o contexto político, econômico,
rua, dentre outros. Devemos iembrar qtle os proce§sos institucionai e científico.
de estratificação social se expressam tanto na deiermi- Àinda que outros pontos possanr ser levantados,
naçào das condições de vida dos grupos ou segmentos cabe destacar a tendência a criticar ttm ponto de vista
sociais col11o llos proÇessos de negociação das i.dentida- tecnocrático e autoritário para se definir o que vêm a ser
des e valores clesses grupos e segmentos no âmbito clas necessirlaci.es ern saúde que legitimaü1ente requisitem
interaçôes sociais. Assim, por exemplo, as populaçôes etn urÍra resposta social organizada expressa pelas institui-
situaçãa de rua têm sua vulnerabilidade social extrema- ções de saúcle reguladas pelo Estado'
mente aumentada não apenas ern decorrência das más
condições de vida, mas tambérn em vista dos estigmas Necessidades, problemas de saúde e
que a{etam sua identidacle, mui.tas vezes reforçados por
respostas sociais problematizadas à luz das
mârcas rnateriais e sirnbó1icas relacionadac com âs es-
tratégias de sobrevivência na rua (roupas, cheiro, ges-
Ciências Sociais em Saúde Coletiva
tualitlade, r,ocabtilário etc.). A varieclade e o cal'áter frequentemente restrito e
Entender a saúde como política é outla incolpora- restdtivo das conceptualizaçôes do cr:letivo/social
ção fundamental das CSS no câmpo da Saúde Coletiva. não invalidam o fato de que as práticas saaitárias
ciestacada recentemente em importante publicação in- se viram constantemente invadidas pela necessi-
ternacionai sobre o Sistema Único de Saúde no Brasil, a clade de construção do social como objeto de análise
quall,;razem suâ capâ â seguinte afirmativa: "Em ú1tima e como canlpo de intervenção. Nem devem induzir a
análise, o <lesafio é político, exigindo um engajamento suposi.ção de que a vicia social concreta acabe por tor-
contínuo pela sociedacle brasileira como um todo' para 11ar-se mero produto dessas opções conceituais. Ela
âssegurâr o direito à saúde para todos os brasileiros" irromperá, certamente, sob outras formas, também
(Paim eÍ at., 2011). Levar em consideração as relações no catnpo do sakrer, quando as malhas conceituais e
de pocler que orientam o acesso a bens e serviços, assim sociais se revelarem estreitas em face da concretude
Çomo os sentidos das práticas de saúrie, ó um fundamen- dos processos sociais. (Donnangelo, 1983)
to da Saúde Coletiva qlle renovâ seu investimento na
análise dos processos de determinação social em saúde [...] Tanto o mundo natural como o mundo social se
e seu compromisso cüm a identificação e superação dos encontram deternrinados e em constante devir, pc'
mecanismos de reprodução social e de aprofundamento rém sua ciiferença radica em que no segundo o conhe-
clas iniquidades em saúde. Nos leva assiur a analisar cimento se transforma em consciência e sentido de
criticanente as ideologias, 1ógicas e relações de poder necessidade e necessidade de ação. (Granda, 1994)
reproduzidas nas práticas de saúde. Nos leva a identi-
ficar e criticar diferentes estratéççias de opressão e de As CSS mantêm uma posiçáo crítica em relação ao
dominaçâo inscritas nos corpos e nos modos de agir em processo de metlicalização sociai, à biomedicina e a tec-
saúde, sejam elas relacionadas com questões de gênero, nocracia que, rnuitas vezes, caracteriza a ação de insti-
à nedicalização social, à hegemonia de determinaclo tipo tuições e proÊssionais de saúde, inclusive, ao longo da
de racionalidade médica ou de saberes em saúde. enfim, história cla Saúde Pública. Essa crítica. evidenternente,
relacionadas com os processos de "colonização" da vida não deve substituir um prôcesso de "colonização módiea"
sociai efetuada pelos discursos e práticas em saíide' da vida social por um "imperiaiismo sociológico" sobre as
Analisar a saúde enquantc setor produtivo relacio- práticas de saúde (Gerhardt, 1990). Feita essa ressalva,
nado com as estruturas sociais mais ampias e o campo do cabe afirmar que se trata de uma posiçâo crítica valio-
Seção VI r ESTADOS DA ARTI
s74

sa para a construção cle contextos e práticas em sairde sidades em saúde sem entrar nesse campo de disputar.
que fragilizem ou mininizem o "agir prescritivo" da área I'Iostram também que essâ definição resulta não apen*s
das posições sociais e relações rie poder em que os su'
áa saúde (Castiel & Dardet-Diaz, 2ÜÜ7)' privilegiando
jeito; estão sobredeterminadamente inscritos' mas tan-"-
trocas e relações pautadas peio diálogo' autonomia' pac-
compronletirnento dos ator-es sociais envolvidos' bém das identidacles sociais e posicionamentos po}íticti-
tuação e
Trata-se de utna crítica ao autoritarisno social clue atigamente produzidos por esses sujeitos. lrTesse senticil -
as necessidades em saúde se definem no entlecruzamen'
ainda rivaliza fortemente com a recletaocratização pc-
to entre as estrululas e os suieitos' Para identificá-las
Iítica cotrquistada recentemente no Bvasil' Assim' essa
devemos olhar para a determinação social do
process:
crítica ganha força no movimento de Reforma Sanitária in*
saúde-doença-cuidado' -cem perder de vista as ações e
Brasiieira e na defesa do controle social e da participa-
tamtréÍr nos investi- terações sociais que atribuem sentidos e clireções a ess'
çáo popular no SUS. Ganha força
processu.
;o;ot teóricos e políticos realizados a partir da bandei-
Ao investigarem a experiência de adoecirnentc *
ra cla "humanizaçáo" (Deslancles, 2004, 2006) e da "inte-
cuidado de deterrninados suieitos ou grupos sociais' a'*
gralidade" (Pinheiro & Matos, 2005), quando se colocam
longo de seus itinerários terapêuticos, as CSS aponta*r
ã* .*1"ro a experiência, â p€r'spectiva e os interesses de
perspectiva para diferentes perspectivas e interesses clue se lntert-
usuários e trabatrhadoles em sairde, em tlma
-relacionam, não sem confiitos, na definição do que ven:
mais horizontal e loagitudinal' e gru-
a ser o "problema" vivenciado por aqueles sujeitos
I.lesse sentido, a identificação de problenras Ê nêces-
de res- pos dus melhores estratégias de intervençào sobre es=+
sidades de saúde e a conseqllente estruturação "
consideraÇão problerna. Assim, ccnceitos cono experiôncia de enfer-
postas sociais organizadas devem levar em
rnidacle, itinerário terapêutico, modelos explicativos'
sa"
rliferentes interesses e perspectivas <los individuos e
relevantes par'â
tores da assistência, dentre outros, sáo
gl'upos sociais envolvidos. fortalecendo os processos de
assumirmos um ponto de vista não tecnocrático sobre
negociaçáo e pactuação social (Silva et al" 20A7)'
Assim'
as realidatles que pretentlemos conhecer e intervir'
Sã*
que é problema, do que é necessiclade e ile
u a*Arr;iao do
quais são as respostas mais adequarlas e efetilrâs ilara valicsas as análises que incidem soble os contextos clt
interaçáo social (família, escola, serviços de saúde'' bair-
enfrentá-1os não pode ser realizada rinilateralmente'
Aqui se questiona tanto uma suposta neutralidade e sL1-
ro etc,i, perguntando-se sobre os sentidos das práticai
c1e saúcte e sua relação coÍl a definição
cle necessidade*
perioridade do saber científicc iquanclo este §e apresenta que esses sentid*s
.rm ponto de vista puramente "técnico e objetivo" em saúiLe (Trarl. 2006). Vale lembrar
"o*o os interesses e per"spectivas que pro- sâo definidos em relações intersubjetivas, na medida eru
soirre o real) quanto
que os sujeitos se definem sempre de maneira relacionatr"
curam iegitimar-se unicamente na defesa da "experiên-
cia subjetiva" de quem vive o problemâ aa "pele" (vocali-
tendo por referência o Outro (por sua vez, dinâmico *
que se reapresenta de diferentes maneiras e circunstân-
zâdo em tevmos de demandas inclividuais)' Assim' nem
os prol:lemas cle saúde "objetivados" pela epidemiologia
cias). Por Yezes. es§as aaálises perguntam petros limites
ou pela clínica nem a demanda espontânea "vocalizada"'
entre os sentidos clo "êxito técnieo" e do "sucesso prátic*""
pelos usuários de saúde devem isoladamente definir as das ações de saúde (A-vres, 2001) e nos nlostram que nem
necessidades etn saúde. Essas necessiciades Cevem sei:
sempre as necessidades em saúde se dirigem central-
definidas mediante a interiocuçâo entre saberes e sujei- mente a problemas de saúde ou doenças, mas també*
ao acesso a bens e serviços e relações interpessoais c1t
tos e a pactuação cle modos cle superação clos conflitos aí
cuidado (Ceciiio. 2001: Cecí1io & Matsumoto, 2006)'
surgidos.
Ao procurarem identificâr esse§ problemas' neces§r- Essas análises levantam questões sobre a ética t
dades e respostas sociais por meio de análises que levam a politicidade c1o cuidado' dos modelos cle atenção' c1*:
progrârnas e políticas de saúde. Perguntarn quem sác
em consideraçâo as dimensões macro e micropolíticas
das conilições e práticas de saírde. as CSS defendem
que os sujeitos e a partir de quais i.ugares, critérios e pro"
cessos deÊnem as necessidades, situaçôes e problema"'
devemos identificar difelentes perspectivas' satreres e
interesses em ciisputa na formulação e a.cionamento le- de saúdel os profissionais, os pesquisadores, os ges'
gítimo cle recursos sociais (por exemplo, ações, selviÇos' tores da saúde? Intiividualmente ou a pârtir de sua;
progrrrou, e po1íticas ôe saúde)' Nessas situações' os in- deferentes formas organizativas?
àioíd,,o*, gÍupos e instituições se constituem em "sujei- Àssim, recusatrdo a neutralidade clas práticas e sa'
beres em saúde, as ÜSS fovnecem elementos teóricas
tos coletivos" ou atores sociais em disputa e estabelecem
para analisar os processos tie construção e iegitimaçãt
c{iferentes sentidos para a§ necessidades singulares'
particulares e gerais em saúde' As análises das questões social dos probleraas, situações e necessidades a serem
ãu clusse social, gênero, de raça/etnia, de geraçáolidade'
enfrentarlas e clas estratégias de enfrentamento det-
sas realidades. Ao fazê-lo, refletem criticamente sobre
dentre outras, rnostram que não é possível deflnir lleces-
s75
Capítulo 38 + Ciênciat Sotillu't'!u''ld:
Cnl"tiuu

lias ciências sociais, essa contraposição se traduz


demanclas e necessicla-
os próprios conceitos de sujeito' a sociedade' dentre as
carnpo cia er::r interpretações teóricas sobre
à*, uáotuaos nas aná1ises elnpreendidas no profunda mais conhecidas, a estttúuralista' a
iruteracít:illsmo sim-
umâ ampla e
Saircle Coletiva. Sem recuperar colocadas em
consistentes foranr bó1ico e a canstrtLdíuisnzo - frequentemente
discussáo, vale lembrar que críticas e mu-
noção de indir'ídur"r' de oposição, mas qlle na realidade se complementam
i*itu. a equivalência de sujeito à
estruturalisla acentua
probiemas t.ror.."nt" se constituem' A visão
a"*rrldu. a carências e de necessidades a segunclo o âspecto determinante e coercitivo
rlo tnunclo social e
sociaislcle saúde tecnicamente objetivadosl as cüssificações historicamente construídas
que hierar-
frequentes
S,"r, trggr)- equivalências ainda bastante posiçÔes sociaiss' Na
emtraba}hosproduzidosnoitrteriordopróprioCa[1p0
l.,iru* r:s incli','ítiuos em cliferentes a indivíduo octipa
linrite e â pos- oi.ão corsÍr utiuist{t ou ittdíuídualista'
Saúde Coletiva. A ídentificação desse
da proelu-
o enfrentamento lugar d.e destaque, sendo a sociedade consid'eracla
sibiiiclad.e cle sua superação irnplicam to das decisões, clas ações e dos âtos de
conhecimento de
dirigicias à aná1ise
de grancles questões teórico'políticas indivíduos conscientes, aos qr:ais o mundo
é dado como
e estri'rturas (Bcds-
clas relações entre sujeitos -sociais 2003; imediatamente familiar e significar-rte'1'
tein, 1992; Minayo, 2001; Gornes & Golclenberg'
e às inter-relações Essa','isáomaisgeralctesubjetívidade'comoasacte-
Pires, 2005; Zionni e Whestfal' 200?) dacle lnteríorizad,ç' corao diriam
os sociólogos' ou como a
a Saúde
as CSS e os outl'os saberes que compôem não
entre utltttrct irt-corporada, col1to rlrriam os antropólogos'
Coletiva (Nunes, 2003)' necessariamente nos esclarece sobre
os tipos de socieda-

de ou de cultura qne são incorporados''


ESTRUTU RA SOCIAL: INDIVÍDUO, Algurrs estudicsos clessas áreas' localizados
especial-
cientistas sociais' filóscfos'
SOCIEDADE E SAÚDE irente na Saiide Coletir"a -
Dssde seus primórdios' as ciências
humanas e so- fsicólogos e psieanalistas infiuenciaclos por Foucault
*' enfrentar esse problema'
ciais se pÍeocupam com a difícil relação
entre o sulojetivo irgua, 1g'ie) vêtn tentando forma de do-
e o objetivo ou, nos ternros
dessas cj'ências' com a relação enfatizanclo os conteirclos de ileterminacla
os {enôlnenos psi- socied"ade oci'clental con-
lnir-ração presente na cultura d'a
entre o indir''ítiuo e a sociedade' entre de reintrocluzil
cológicos e os fenômenos sociais'
Arnda que o resultaclo tefttporâllea. Se esse esfolço ten: o mérito
uma climensáçr de poder e de
de históricas divisões cle trabaiho nesse câtr-rpo ctro conhe- or rro.u.ro. subjetivos em
de transformaÇão
.l*urrro tenha conferitlo urna forte autonomia àqueles realinhá-los ãos processos históricos
das culturas contemporâneas' aitrda
fenôrrrenos-levandoapsico}ogiaaseespecializarno das sociedacies e
e à slra sub- assim. eles pern:anecem e111 um nír'el bastante geral e
trato rlas questões referentes ao inclivíduo cleixarem a impressão
e a sociologia e a antropologia às
re-
questões abstrato, u for.to t1e muitos r1eles
i"ti"ia*d" *' a cultura oci-
f*rur,tuu à coletivid'ade social e cultural
tanto em sua§ de que a cr-lltura (ou' mais especiflcamente'
posteriores' es' c1e existência própria e de
capacidade
origens corlo e111 seus clesenvolvimentos àu*tufl é dotarla
simples fato de existir e' talvez' o
mais
sas rlisciplinas não têm conseguido
evitar essa questão' t1e coerção pelo
que só é possivel
0 que vem caracterizando mtiitas dessas
abordagens importante. deixancio a impressáo cle
(externa' prática' up.uurlá*rocaráterdanormaatvar'ésdapróprianomâ
é a cnntraposição entre "r'lcla objetiva" e institucionais'
(interna' emocionaf indivi- não cle suas manifestações inclividuais
coletiva) e a "vida subjetiva" e
são distrihuí-
cluai). sencio o aspectomais congruente
da maioria delas o que ple§supoe que âs normâs culturais
e *'ociedade implica ,1u* .,*tifor'*e e hcmcgeneamente
em toda sociedade ou
o rle que a reiação entre inclivícluo da me§ma 111âne1-
otrjetividaCe na que todos os intiivíCuos a incorporam
u .or.ridurnção da sribjetividade a éa normas dominantes
perspectiva d"e sria constituição recíproca:
o inclivíduo ::a. Entretanto' mesmo no caso das
pela societlade' nras etrraisuniversais.elasnãosãohomogêrreâsnemhomo.
,.ao à op*rlos afetado externarnente
u* .orr*ii*.ri por ela, isto é' por suâ
introjeção' Quanto a geneamente abson'idas pelos indivíduos'
(skinner' 1998) comct
isso. tanto o behaviorismo radical
tidos como mais representativos desta
côrl'en-
1969) estác de acorclo: é Çr= *- **res
a p"i..r.á1ire uroderna (Freud' suas aborclagells pÔsisaxü diferir,e
disponibilizando te nas ciências sociais' etnbora
a cultura que modela a subjetividarle' encontram-se Emile
pa-
costlllnes' valores' rlesrlo contraditar-se sob diverscs aspect{}s'
para os indir'ídu':s seus hábitos e
Dulkherrr (2üO3. ?t10) e Claude Lévi-Strar'rss (2008)' e enlre os
sociais etc'2' l{arx (19?ô), principalrneBte
clrõe-" de comportamento' normâs âutore§ rnarxista-s. além do próprio
Louis Âlthus-cer (198ã)'
psico}ogia e na
,P""-ú*.1"'*. tânto nâs ciências scciais rotlo na lPara essa perspectiria consultar' principaimente' Peter Berger &
nzecnnism2s por meio dos Louis'Dumont (1985')' Georg Simnel
psiranálise' tém se preocupado corn os Thomas Luckmann i#tlt
criilurais (valores' regras eic') são incorpo::adas (2011) e Clifford Geeltz (1989)'
;;;;i;';;"t-as com os relculos
(estímtilos,,*p'u"ao''"tuções famiirare:)l':Yttot isem esquecer, de*tre oàr.u.. u* ciássicasdescrições da sociedacle
na iamília' esco- Durkheim {2010)'
desta incorpoluçao (*tp"'ii'''cias de"sociabiiid-arle
ocide.iai dos -*éculos VlII e XIX feitas por Ér:rlie
local' p'-oflssionâl etc'): outros lIars (1976)'
;á, ;;, ;;;"- à" o*igo"' cor, unidade com a§ normâs'
llax Weber {198?) e Karl
tr conleliclos'
.o"t sens ou seja'
uir'rãu,
ii:
:it,
Seção VI r ESTADOS DA ARTE

Como o de subjetividade, o conceito de ciasse social âtor age de maneira livre, consciente, sâo prejudiciais a*
§
é complexo e varia de acordo com as teorias qLle o cons- conhecimento. A ciência sociâl não tem de escolher en-
í! troem. Mas. ao contrário dos conceitos de indivíduo e de tre esses dois polos, porque a reaiidade histórica, tanta
t subjetividade, plenamente atuais e amplamente utiliza- a do indivíduo eomo a da sociedade, resicle nas relações
',i
dos, o conceito clássico de ciasse social constitui, hoje, entÍe âmbos, e estas sim constituem o verdadeiro foc*
um conceito em desuso nas ciências humanas e sociais. da análise sociológica. Para lidar com essas relações sem
Sabemos que as classes sociais se estruturam em fun- recair na fa]ácia rlas antinomias sociais mencionadas"
ção de yários fatores, inclusive culturais, e que denotam Bourdieu constyuiu alguns conceitos-chave, tais como Gs
classificação, estratificação, hierarquízaçáo. Em ciências ccnceitos de campo, habitus, rupítal econômíca, cu.ltur*]
sociais, a expressão classe social, para muitos. é indisso- e social.
ciável de um sistema de dominação (mais precisamente Um campa econômico, poiítico, culturâl, cientíS-
do sisterna de dominação capitalista), aspecto facilmente
-
co, -iornalístico. médico etc.-, é um sistema estruturactr*
esquecido quando se utiiiza apenas o conceito de hierar- de forças objetivas, uma configuração relacionai que, à
quia6. Por isso, grande parte dos pesquisadores da atua- maneirâ de um campo magnético, é dotado de uma gra-
lidade prefere usar categorias como cantadas, estrutos. vidade específi,ca, capaz dê irnpor sna lógica a todos os
grupasl poiiticamente menos marcadas, ou seja, não ne- agentes que nele penetram.
cessariamenie vinculadas a uÍn sistema de dominação Íjm campo é tarnbém urn espaço de conflitos e dr
como 0 de cfuzssa sociç"r.l.
concorrência no quâ1 os cütlcorrentes lutam para esiâ-
Para autores como Pierre BourdieuT, uma sociedade belecer o monopóiio sobre a espéci€ especí§ca do capital
diferenciada não forma uma totajidade única, integrada pertinente ao câmpo {a autoridade €ulturai no cami:cf
por funções sistemáticas, uma cultura comum, conflitos artístico, a científica no campo cientÍfico, a definição d,_,-
entrecruzados olr uma autoridade global, mas consiste minante de saúdeldoerçâ, no campo da saúde etc.). N*a;
ern urn conjunto de espaços de jogos relativamente autô-
cliferentes câmpos! existe uma correspondência entre *i
nomos, que não podern ser remetidos a uma lógica social
divisões objetivas do mundo social * notadâmente ent]:*
única, seja aquela do capitalismo, da modernidade on da
dominantes e dominados - e os princípios de visào e de
pós-modernidade. Para ele, a oposição entre a sociedade
divisão que os agente§ thes aplicam. A posição e o sLrces-
e o indivíduo e sua tradução na antinomia do estrutu-
so dos indivíduos e grupos que atuâm em determinad*
rqlismo e o canstruíiuisrno entre o determinismo social
campo dependem do tipo e do montânte de capital acri,
e o individualismo metodológico, entre o mecanicismo
mulado: capital econômico (riquezas ou bens econômicü.
que percebe a ação como o efeito mecânico das pressôes
acsmulados), capital ctr,ltural (relaçào privilegiada com
exercidas pelas causas externas e o finalisrno que, nota-
a cultura eruclita e escolar), cupital soclal (red.e de r$a-
damente com â teoria da ação racional, acredita que o
ções sociais que franqueiam o acesso ao poder) e capit*i
%t" * .**"*m grande pârte. âo fato de a clefinição dominan- simbólica (formado pelo conjunto de signos e símbol*p
te de classe social, durante quase todo o -séeulo passado. ter sido que situam o indivíduo no espaço social) (Loyola, 200?:
aquela dada por À,1arx e utilizada pelos rnovimentos socialistas e 66). Depende também do tipo de capital mais valoriza-
comunistas que entram em declínio com a queda do muro de Ber-
do ern um campo; o que é valorizado em uÍn, poderá ser
lim. Na definição marxista de classes, estas se constroem nâs re-
lações de prodtição, ou seja. no âmbito econômico. para ele. as depreciado em outro: os vâlol.es do campo dos negócics.
relaçôes de produção constituem as relaçôes de classe, marcadas por exemplo, onde preilomina o capital econômiÇo, sã[i
fortemente pelo antagonisno entre os detentores dos meios de inversos àqueles do carnpo culturai, onde o que impo].tà
produção e os portadores da força de trabalho, representados, na
é a estima dos pares. o desinteresse e a distância apa-
sociedade capitalista, pela br-uguesia e o proletariado. respecti.
vâmênte (cf. il{arx, 19?6). Entre os marxistas. Louis À}thusser rentes em relaçào aos valores mercantiss. IJm campo *-
(198ã) e Á.ntónio Gramsci (2001) se destacam por pensar âs re- assim, üm espaço de relações em movimento, cujo esta-
Iações entre cuitura e economia ou, mais especificamente. a de- do o pesquisador deve permanentemente construir e/clu
terminação tlaquela pelas relaçôes econôrnicas de produçâo seni leconstruir.
conseguir, errtretanto, superar o mecanicismo e/ou a fltidez desta
cleterminaçâo. A expressão classe sccial é hoje amplamente uti" Nos diferentes campos, existe umâ correspondê*-
lizada como instrumeàlo para venda-*. morketing e pesquisa de cia entre as dir,,isôes objetivas do mundo sociai - nç-
rnercado. Com base em dados sobre o poder aquisitivo. a popula- tadamente entre dominantes e dominados * e os prin-
çáo investigada, por meio de pesquisas quantitativas, é classi6- cípios de visão e de divisão que os agentes thes apli-
cada segundo seu potencial e nível de consumo, em A, B. C. D. E
etc. Esta classificaçâo é usada também nas pesquisas de opiniáo.
cam. As divisões sociais e os esquenras mentais -{â+
como âs de tipo eieitoral. estruturalmente homólogos, pois são geneticâmenr*
?Em sua extensa obra. Bourdieu aborda. de maneira ligados. A exposição repetida às condições sociais cleli,
exaustiva e
exemplar. as relações entre essas rliferentes e complexas dimen-
sões da realidade social - indivirlual, econômica, cultural ou simbó- -4,.*1r*"t"..
Iica. Par:a uma relação de seus principais livros e artigos. incluindo ". subcampo universitário
vem sendo principalmente
<1o espaço cultural, o qri*.
valorizado é o número de publicaç*i:*
traduções em português, consultar Bourdieu (2002). em perióclicos internacionais (Loyola. 2008, 2010).
Capítulo 38 . Ciências Sociais em Saúde Coletiva 577

nidas imprime nos inc{ivíeiuos uru conjunto de disposi- As representações dc corpo. da saúde e da doença dos
ções duráveis e transferíveis, que são a i::teriorização clientes dessas rredicinas intervinham constantemente
da realidade externa, das pressões de seu meio social ern sua relação com o sisiema de ofertas terapêr.tticas -
inscritas no organismo (Loyola, 2002). liisso constitui seja na maneira como se cuidavam, seja na escolha que
o habitus, que conjuntamente cofl o conceito de campo faziam de uma ou outrâ categaria de especialistas. Os
são relaciernais, no senti.do de que só podem funcionar clientes cla medicina popular tinhan: em comuffr cüIr1
um err relação ao outro. O habitus constitui um sis- aqueles da horneopatia o fato de negarem os dualismos
tema de esquelnas de percepção, de apreciação e de corpo/espirita ou carpo/alma, objetiuismolaújetíuísm.a e
ação; um conjunto de conhecimentos práticos adqui- o mec{trzicisma argônico da medicina científica ou oficial.
ridos ao longo do teftpo que nos permitem perceber. Os primeirr:s, mais riependentes dos serviços de cura
agir e evoluir com naturalidade em um universo social oferecidos pela-" religiões, enfatizavâm, sobretudo, as
dado. Enquanto coletivo individualizado pela incor- categorias espírito/matéría - negatrdo a existôncia da
poraçâo do social, ou indivíduo bioiógico coletivizado doença mental (iclentificada em seu universo simbó1ico
peia socializaçào, o hsbitus não é uma invariante an- coiao doença espiritual); os clientes da homeopatia enfa-
tropológica. mas unla matriz geradora, historicamen- tizavam. principaimente, âs categorias corpo/cabeça e a
te constituida, institucionalmente enraizada e sociai- participação do próprio indivíduo naqueie processo, em
mente variável. O lzabítus é um r:perador de raciona- um tipo de voluntarisrno earacterístico das camadas que
iic{ade, mas de uma racionalidacle prática, inerente a se orientam fortemente por umâ conduta de mobilidade.
unr sistema histórico de relações sociais; o l'tabitus é As representações sobre saúde e doença dos clientes
criacior, inveniivo, mas nos limites de suas estruturas dessas medicinas se apoiavam. também, em um si,çten:a
(Lo5'ola. 2002: ti8-9), de cposições organizado a partir da visão e da utilização
Ern síntese, tanto âs construções como as traciuções do ccrpo, que refietia ern grande parte sua posição de
e retraduÇões dos valores e nürmas sociais passam por classe. Exercendo atividâdes que denrandavam um uso
uru sistema de estratificaçáo social e simbólico que se intensivo clo corpo, os clientes da metiicina popular defi-
organiza em d-iferentes cümpas, mediante as relações en- nianr saírde e doença peia oposição tlas categorras farça/
tre os diferentes atores sociais que os integram - âgen- fraqueza, contrapondo situaçôes que passibilitavam ou
tes e clientela *, sendo em ambos os casos determinadas impossibilitavain o uso clo corpo parâ o trabalho. Fara os
pelo ftoôirus de classe (e este pelo rnontante de capital clientes da homeopatia, saúde e daença erârn represen-
econômico, cultural ou social acumulado) que os aproxi- tadas como situações d,e equiltbrío/deseqttiííbrio fisico e
ma ou riistancia. mental. categorias que reprociuziam, no plano simbóiico,
A ideia de lzçbitus ó especialmente importânte no sua posição equilibrada e equilibrante entre as camadas
campo da saiide, porque ele ó ern grande pârte respon- socialmente mais privilegiadas e/ou mais desprovidas.
sável pelas escolhas em matéria de saúde, pelas itine- Entretanto, as relações entre medicina popular e
rários terapôuticos que deterrninada população efetua, I*edicina científica oficiai e enrre esta medicina e homeo-
em íunção dcs serviços de saúde disponíveis em deter- patia não el'âm estáticâs: âo contrário, nos dois casos,
minado campo. No campo médico estudado por Lo5.oia o recurso alternativc, e mesmo concomitante aos dois
(1984, 1987, 1991) e utilizado para exempliflcar o tipo de sistemas de tratantento. produzia efeitos sobre ambos,
anáiise descrito, tanto a oferta como a demanda de ser- reforçando-os mutuamente. A oposição entle elas se tra-
viços de cura, relativas às rnedicinas consideradas - me- duzia. ao mesmo tempo, coü1o oposições de classe * as
dicirua popular e hom.eopatia -, transcorriam segrrndo as representações da doença sendo determinadas por urn
crençâs e a visão d.e mundo preconizadas pel:s especia- conjunto de características sclciológicas que podiam ser
iistas dessas meclicinas e compartilhadas por sua clien- resumidas na noção de lzaàiÍus mais ou menos "letra-
tela. Em função dessas crenças e de suas teorias sobre do" ou "corporal". Tanto na meilicina populal como na
a saúcle e a doença, essas medicinas se hierarquizavam a homeopatia, o sistema de relaçôes ccm a medicina cien-
partir de sua proximidade maior ou menor cam as ciên- tífica era caracterizado. simultaneaffIente, pela comple-
cias ou com religiões, presentes Ro carnpo - catolicismo mentaridade {reconirecirnento cia medicina oficial e de
popular, igrejas pentecostais, umbanda e candomblé, no seu sisterna terapôutico) e pela oposição (de visões do
câsú dâ medicina popular; espirit smo kardecista. igi'eia corpo, da saírde e da doença).
metodista, i:udista e messiânica, no caso da homeopatia. Assim. ao mesmo tempo que rejeitavam e reivindica-
Elas se hierarquiza\,âm tâmbém ern funçâo da classe ou vam o âcesso às telapias oferecidas peia medicina cien-
posição sociai de sua clientela. Quanto mais perto da me- tífica, os clientes da medicina popuiar e da homeopatia,
dicirzct cientílica oficia1, mais elevada a classe sociai dos n:ais próximas de suas repi:esentações do coÍpo e de sua
agentes e de seus clientes; quanto mais perto da religião, reiação com o mundo podiam, através delas, subtrair
mais baixa. parcialmente à iraposição da visão do mundo das classes
Seção VI + ESTADOS DA ARTE
578

cliscurso subjetivo do paciente sobre sua doença, atribuin-


dominantes veiculada pela medicina científica oficial e s'
cio credibilidade clistinta às duas fontes de informação
pela biornedicina e contrabalançar' assim' a relação de paciente'
muitas vezes, cleslegitirnando a qtieixa do
àominaçáo que Íesulta da prática médica científica oÊ-
Os conceitos de drlsease, illness e sickruess, desenvol-
cial. Eles podem, inclusive. afirmar sua própria identi-
vidos pela antropologia médica anglo-saxã (Kleinmar:"
dade e reivindicar um saber própric sobve o corpo e a
mé- 1980: Young 1982), ajudam a comp?eender didaticamerl-
doença e, por esta via, se contrapor às interpretaçôes
te essâs climensões objetiva e subjetiva da doença' Dise«'
dicas clominantes'
se, que nós porleríamos associar a patolcgia, refere-se
à
doença tal como concebida peia biomedicina' designandc'

TEMAS E QUESTÕES CLASSICA§ E anormaliciades na estrutura oLl função dos órgãos ou sis-
ternas orgânicos, e a estados patológçicos independente"
CONTEMPORANEAS
mênte de serem ou não culturalmente reconhecidos'
Olhar das ciências §ociais sobre a Já itlness, ou enfermidsde, refere-se à percepçât'
biomedicina e à experiência do paciente da patoiogia ou de outro*
O termo biomedicir"ra tem sido freqnentemente uti- estados "socialmente clesvalorizados", independente'
a me- mente de serem otl náo reconhecidos pela biomedicina
iizado nos trabalhos antropológicos para designar
como doença. O conceito d'e íllness rernete aos signi{i-
dicina moderna, lemetendo à estrutura institttcional áa
cadas que a pessoâ atribui aos sinais e sintomas cor"
medici:ra no Ocidente e enfatizando a primazia
de sua
porais, qne podem ou não ser interpretados por e1a r-
base epistemoiógica e ontológica centracla na flsiopato-
domi' por seu meio cultural corno doença' Uma pessoa que
logia (Kleinman, 1995)' Para o modelo biomédico
saúde e doença constituem' i'efira sentir peso llos ombros, desânimo, dores difusas
nJrotu em nossa sociedade, "so-
sobretudo, fenômenos de ordem biológica
que devem ser e acredite estar com "encosto tle morto", estado
tratados por meio cle uma ação de natureza técnlca' O
cialmente desvalorizado", cujos sintomas são explica'
"des- dos peio candomblé, umbanda e espiritismo karclecista
olhar das ciências soclais tem cantribuído para a
como causados pela ação nefasta de um espírito' estâ-
naturalização" do saber hiomédico, evidenciando a ínte-
ração complexâ entre biologia, práticas sociais e cultura
ria com illruess (enferr*iclade) sem disease (patologial
na produção da doença comr: objeto social e experiôncia A clisease tambóm pocle ocomer na ausência da illnes*"
como no caso de uma hipertensão não diagnosticacia e
oi ri lu. Assirr, o foco da doença como entidade biológi-
ca desloca-se para a experiêneia da enfern-ridade em um
assintcmática. O conceito de illrtess remete assim al
dado contexto social e cultural'
morlo como a cloença é trazida à experiêncla individual
e se torna significativa paÍa o paciente' pois,
para que a
Às preurissas básicas da perspectiva hiomédica in- que eia inter-
pessoa se reconheça doente, é necessário
cluem a racionalid aàe cientifrca. a ênfase nâ mensurâ-
bioquímicos' o mecani- prete os sintomas experienciados como sinais de uma
ção objetiva e numérica de dados
cismo (que tem comô rnetáfora clominante o corpo como .io"*çu. Essa interpretâção é fortemenie influenciada
o ciualismo colpo-mente' a visão pelo co:rtexto cultural em que o indivíduo está inserid*'
máquina bioquírníca),
da enfermiclade como entidade ontoiógica (atribuindo- É a cultura qr.te fornece as lentes através das quais será
-lhe uma identidacle mórbida que é inclependente do realizacia a leitr.rra clos sinais corporâi§' lnfiuenciandc
sujeito e do contexto sociocultural em que este está i"n- a apreensão cognitiva clos sinlornas, a cultura contri'
serido) e a ênfase do diagnóstico e tratamento sobre o bui para determinar se eles serão avaliados como irre-
indivíduo doente em cletrimento da famíiia ou da co§lu- levantes. naturais e não indicadores de doença ol1 se'
uidade (Helman,20ü3). ao contrário, serão percebidos como algo que detnanct*
Essas premissas se refletem de várias maneiras na ajuda terapêutica imediata'
prática médica. co111o. por exernplc' no §lomento em q$e Por firn, o conceito de slcÀness (doença), como prÚ-
posto por Young (1982), enfatiza a dirnensão sociai ria
* d"*ord"m orgânica é percebida como o verdadeiro obje-
to da medicina; quanclo a racionalidarle clentífica despre- enfermidade incorporando ao esqllema de Kleinman *
qüânclo o compreensão d.os falores sociais, polÍticos e eccnôn:ic+*
za as dimensões emocionais e morais da afliÇão;
que se encont::am na base da determinação social da:
médico se coioca:ra posição cle conhecedor ativo' deixando
doenças.
o paciente na posição cle conhecedor passivo; e tra desper-
sonalizaçáo dos pacientes' Em especial, a dificuldade dos
Parte da eiiÍlcu1dade encontrada pelos médicos r:a
médicos na escuta das queixas dos pacientes repercute reiação terapêutica deve-se ao fato de que o objetivo t*-
de modo negativo na qualiriade da relação terapêutica'
rapêutico do moclelo bir:médico é intervir no processo da
doença. visanrlo à cura da patologia {disease), sem con-
Como afii:mam Kirrnayer et al' (199ã), epistemologi-
siderav sua dimensão subjetiva {illness}' Nesse sentiel*"
camente, a biomedicina separa evidências objelivas
de

doença. a partir cle sinais físicos e testes laboratoriais'


do a biornedicina está voltada pâl'a a remissão dos sint*-
l
Capítulo 38 . Ciências Sociais em Saúde Coletiva
579

mas, o que Kleinman (1980) denomina curing (cura cla em que estão inseridos seus pacientes e estivessem mais
patologia) em oposição a ?tealing (cura da enfermidade),
atentos a cúrno difereaças na Jinguagerzl. l€presentaçôes
conceito que remete à percepção do paciente sobre seu e cód.igos cle ieitura do corpo se refletem no encontro te_
problerrra e se ele se considera curaclo. Heating designa
rapêritico. Estudos antropoiógicos têm discutido como,
então o objetivo terapêutico dos moelelos terapêuticos no diálogo eom os profissionais de sairde, a população
ci"rlturais que, diferentemente da biomedicina, nâo es_ incorpora termos e conceitos médicos. realizando, I1o en_
tão necessariamente voltados parâ os sinais e sintomas tânto. umâ releitura destes mesmos segundo sua matriz
e visam, sobretudo, tya.àet ao entendimento do paciente
cultural. Em estudo yealizad.o com rnulheres das classes
aspectos escondidos da realidade da enferruidade, trans- popuiares no Sul do Brasil. Leal (lgg5) mostra como o
forrnando-a e reformulando a maneira como são com_ discurso médico sobre a reprodução e a anticoncepção,
preendidos (Kleinman, 1SB0). As práticas terapêuticas
âpesaÍ de bastante disseminado, é ressignifi.cacio pela
populares e reiigiosas geralmenfe centram seus esforços população que não o identifica como a única possibiii-
na busca clo sentido da doença par.a o paciente. atuancLo dade de explicação de processos orgâni.cos, como a yepro_
sobre a illness (enfermidade). dução humana. A autora parte da evidência etnográfica,
Como mostra Montero (1985) em seu estudo sobre as recorrente entre âs mulheres das classes popuiares, se-
práticas terapêuticas na umbanda, a concepção religiosa gundo a quai o período fértii se sobrepõe ou está ime-
da doença transcende a finalidade puramente técnica da diatamente vinculado ao período menstrual. O traba-
cura. A mãe de santo, mediante a interpretação religiosa lho constante de orientação, realizaclo nos prog:râmas e
do infortúnio, busca articular a multiplicidacle de sensa- ações de planejamento familiar ou grlrpos de pré-natal *
ções e acontecimentos percebidos de maneira caótica e oferecidos nos postos de saúde locais a uma população
atomizada pelo indivídno doente" permitind.o_ihe cons- que, apesar <ie viver em precária situação socioeconômi-
truir um discurso que dê senrido à doença. A ordenação ca, tem acesso gratuito a serviços módicos efetivos e a di_
da experi.ência de sofrimento transforma a relação do Er.t ferentes métodos contraceptil,os
com o mundo, favorecendo urn certo rearranjo das relações -, não necessariamente
transforma as representações e práticas relacionaclas
pessoais e o enfrentamento das situaçôes-problema que se
com a contracepção. Leaj mostrâ, então" a necessidade
encontram associadas à enfennidade (X,Iontero, 1ggõ). de compreensâo el_a lógica que ordena âs represetltações
A dimensão cultural e intersubjetiva da enfermi- de rnulheres clas classes populares sobre seus col-pos,
dade é extremamente importante para a relação tera- fluidos e concepção, rnatriz cultural por meio da qual as
pêutica, pois todas as doenças estão envoltas em Lepr.e- mulheres realizam uma releitura do discurso rnédi.co. O
sentaçôes cuiturais que são apropriadas e reelaboradas modeio cutrtural de corpo inclui noçôes de uma dinâmica
pelos indivíduos quando vivenciam situaçôes cle doença.
de aberir.rra e fechamento, estados de umidade e calor e
Sobretudo nas doenças graves, existe a necessídade do circulação cle substâncias condutorâs, entre as quais o
paciente de buscay uma explicação existencial para a sangue assume grande importância simbóiica. para as
enfermidade. Para fazer referência a essa rede de sig- rnulheres, a fecundação é uma fonna de contágio na qual
nificados associada à doença, o antropólogo Byron Good ocorre o encontro de fluidos ccrporais: o sanguê (subs_
(1977) cunhou o conceito d.e rede semô,ntics da enfermi-
tância percebida co:no feminina) e o sêmem (substância
dade (illness semantic network). Essa rede constitui_se fértii masculina). O sangue seria então um fluido vitai
de paiavras, metáforas, situações, sintomas, experiên_ constl'utor do próprio feto e associado à fertilidade.
cias e sentimentos que estão associados à doença e que a
O estudo das diversas formas de racionalidades mé-
tornam significativa pârâ o doente (Good, lgga). dicas, concepções e representações sobre saúde e daença
Como mostram os estudos de Loyola (igg4) e Mon- torna possível reiativizat nosso ponto de vista e nossa
tero (1985). entre outros, a população combina cliferen- prática, enriqnecendo-os a partir de outras perspectivas.
tes alternativas terapêuticas em busca de dar conta das O conhecimento do modo corao âs pessoâs vivenciam,
distintas dimensões da doença. Essas autoras mostram atribuem significados e lidam com o mal-estar, o sofri-
tamtrém como o recrlrso às terapias popuiares represen_ mento e â dor em distintos contextos socioculturais pos-
ta um modo de relativização do sal:er médico e de re- sibilita expandir e aprofundar nossa ccmpreensão sobre
sistência das camadas populares à expropriação de seu o ser humano. Hoje, mais do que nuncâ, é necessári.o hu-
saber sobre a saúde e a doença. Em seu estudo sobre manizar a prática biomédica que. como observa Klein_
as práticas terapêrrticas na umbancla, hlontero discute man (199õ), apesar de ter alcançado um desenvolvimen-
como o saber religiosr: sobre a cura não se opõe direta- to tecnológico sern pai:alelo, quando comparada a outrâs
mente à biomedicina, mas constrói sua iegitimidade nos formas de medicina, teria o que ganhar ao aprencler com
espaços onde a biomedicina encontra seus limites.
as medicinas tradicionais, popuiares ou alternativas, em
Seria importante que os profissionais de saúde co_ termos de humanização de sua prática. O crescimento
nhecessem mais profundamente o coRtexto sociocultural nas sociedades ocidentais do recurso às medicinas alter-
580 Seção VI r ESTADOS DA ARTE

nativas refiete a busca pela população de outras racio- arte utilização está associada à educação e à iml-
cle sua

nalidades terapêuticas, fenômeno que Madel Luz (1997) tação. Â noção de habitus, presente no artigo de NÍaus*
situa no interior cle uma crise sanitária e médica na so- e depois retrabaihada por Bcurdiett, remete a ideia Co
cieclade atual. adquirido e sua variação é concebicla como resultado da
Para a humanização da prática médica e, particu- socialização a que estão submetidos os individuos. Nes-*e
larmente, para a melhoria da qualidade do atendimento processo, a sociedade inscreve-se no corpo, construindo a
à poprrlação pelo SUS, seria taml:ém importalte que os sensibilidade, os gostos, as formas de vestir, os modos de
profissionais de saúde adquirissem maior conhecimento caminhar, comeÍ etc. Consequentemente, culturas dife'
do contexto cultural no qual estão inseridos sells pacien- rentes engendrarão diferentes técnicas do corpo. Maus*
tes, o que ihes permitiria desenvolver maior sensibiiida- inaugura assim um novo olhar sobre a corporeidade hu"
de em sua atuação junto à pcpulação e assim melhorar a mana^ apreendida enquanto fenômeno social e cultural'
qualidade do encontro terapêutico e das ações de educa- objeto de representaçôes e de simbolismo'
entanto. que a Em outro esluclo ciássico, a antropóloga britânica
ção em saúde. É importante observar, no
postura dos profissionais da saúde com relação ao conhe- I'lar1' Douglas (1976) mostÍa como o corpo, enquanlt
cimento do contexto sociocultural de seus pacientes deve símbolo da sociedade, funciona como uI11 espeiho qu+
ser guiada pela recusa ao etnocentrisrno que caLacteriza reflete as tensões sociais. Enquanto símbolo natural' e
a perspectiva antropológica. Assim, não se trata c1e co- iócus no qual são reproduzidos os poderes e perigos atri-
nhecer para rnelhor dominar, mâs de se cleixar iransfor' buídos à estrutura sociai, o corpo cumpÍe o duplo papti
mar no diálogo com o saber do Outro' E necessário pro- de fonte de metáfora§ para a representação de e§trtltu-
curar compreender a aiteridade em sua própria lógica, ras sociais, ao mesmo tempo que serve como imagem d*
evitando projetar sobre ela no§§os conceitos e preconcei- sociedade.
tos, Como afirma Minayo (1997). seria importante pal'a o Yários estud.os etnogr:áficos têm mostrado, descle en'
profissional da saúde perceber o grau. de bom senso con- tão, como as concepçôes de corpo, de seus limites e da
tido nas queixas do paciente, procurando compreender noção de pes§oa variam ern diferente§ culturas. O dua'
esse discurso diferenciado à luz das condições de l'ida e lismo mente/corpo ou corpo/espírito, tão naturalizado ::*
trabalho dessas pessoâs e dcs significados culturais que pensamento ocidental, não é encontrado em numerosa§
formatam a percepção e expressão da doença' sociedades (Le Breton, 201i)' Em outras' a noção de
No atual contexto de construção do SUS' no qual a colpo não se restringe ao corpo físico ou biológico, as-
participação dos usuários, como sujeitos da saúde, é um scci.ando-se a uma coacepção de pessoa mais holista *
princípio fundarnentatr, torna-se importante conhecer relacional. Já a concepção de corpo dominante nas so-
com mais profundidade as experiências e concepções da ciedades ocidentais implica o "isolamen|o do sujeito en:
população com relação ao processo saúde-cloença e suas relaÇão aos otitros (uma estrutura social de tipo indivi-
expectativas sobre os serviços de saúrle' Como afirma dualista). em relação ao cosmo (as matérias-primas qu.
Vaitsman (1992), uma concepção arnpliada de saúde de- compõem o corpo não iêm qualquer correspondência en:
veria recuperar o significado do indivíduo em sua singu- outra parte) e em relaçào a ele mesmo (ter um corpo
laridade e subjetividade na relação com os outros e coín o mais do que ser um corpo)" (te Breton, 2011: 9).
mundo, o que não se expressa âpenas por meio do traba- Estudos socioantropológicos, sobretudo, na pers'
lho (o corpo produtivo), mas também do iazer, do afeto, peetiva fenomenológica, têm desenvolviclo uma no1:&
da sexualidade e das relações com o meio ambiente. forma de abordar o corpo, deslocando o enfoque de se';
simbolismo e enfatizando o eorpo como base existencial
Olhar so(ioantropológico sobre o corpo da cultura (Csordas. 1990). Csordas (1990), inspiraclr:r
em h{erleau-Ponty. propõe o paradigma da embodimeni
Nas duas última-q décadas, houve um renovado inte-
(corporificação) partindo do presscposto de que nossâ
resse das ciôncias sociais pelo estudo do ccrpo. Desde o
existência no mundo é corporal e que o corpo não é urn
seminal artigo de Marcel Mauss (20Ü3)e, cuja principal
simplesmente objeto da cultura, mas um agente prod*'
contribuiçâo foi, sem dúvida, a de mostrar como o coryo'
tor cle sentidc. biessa perspectiva. corpo e subjetividad'l
ionge d.e ser um dado natural' era produto de um aprendi-
estâo intimamente imbricados. Lio lugar do dualism*
zado social e cultural, muitos cientistas sociais passaram
corpo-consciência, temos o "cotpo vivido" que pas§a â s§r
a problematizar e discutir as relações entre a sociedade
pensado como sujeito da cultura, com capacidade ativa
e o corpo. Mauss (2003) def;niu o conceito de técnicas do
de reconstruir esquemas cor?orâis e subjetividades.
corpo como o modo como âs pe§soas em diferentes contex-
tos culturais se seÍvem de seus corpús. Para e1e, o corpo é
Culto aa corpo na cantemporsneidade
o primeiro e mais natural instrumento do ser humano e a
lria coutemporaneidade' a preocupâção com â âp**
ePtrblicado originalmente em 1936' no Journal dc Pslteh'ologie' rência corporai e a disseminação de cuidados corn o c*r'
í:.

&l

fi
. 581
Capítulo 38 Ciências Sociais em Saúde Coletiva

po é um fenômenc crescente. Cada vez mais mtllheres gráÊcos transcendem as fronteiras geográficas com im-
e hosrens dedicam tet:rpo e recursos financeiros com o pactos transnacionais, os probiemas de saúde assurneln
objetivo de alterar as configurações anatômicas e estéti- também uma dirnensào global. Doenças infecciosas, a
cas da forma fisica. exemplo do qu.e aconteceu com a AIDS, a glipe aviária
A ernergência do culto âo corpo contemporâneo está ou a SARS, podem se disseminar rapidamente por vários
intimartente ligada ao desenvolvimento da sociedade de países do mundo, c{emandando ações que u}trapassarn o
consumo, na qual o corpo tornou-se também um objeto níve1 1acal. O mestno vale para problemas emergentes,
que pcde ser gerido como um capital (Courtine, 1995; como âs rnudanças climáticas giolrais, as ameaças de
Goldemberg, 2006; Iriart eí ol., 2009)' conferindo poder bioterrorismo, o comércio internacional de órgãos ou a
simbólico a seus detentores. Essa supervalorização do poluição, que atravessam as fronteiras nacionais'
invólucro corporal se refi.ete na proliferaçáo úo que Cour' Iiovas formas de sociabilidade e de subjetivação
tine (1995) denominou técnicas de cuidado e gerencia- surgem cotn â rápida disseminação e popularização da
mento rlos corpos, como dietas, jogging, musculação, gi- internet. A intensificação do fluxo de pessoa§' de infor-
násticas e cirurgias estéticas. Valtada para os cuidados mações e intercâmbios culturais produz tensões entre
com o corpo, a chamada indústria da beleza movirnenta processos globais e identidades socioculturais locais
bilhões de clólares ao redor do mundo. flÁhitefortl & Manclerson, 2000)' Nesse contexto, as ciên-
O aumento do poder de influência dos meios de co- cias sociais têm um papel importante na reflexão e aná-
municaçáo contribuiu na disseminação de valores e de lise dessas transformações sociais e sell impacto sobre a
uodelos de corpos ideais com ênfase na beleza e na ju- saúde, ievando em conta as interações cornplexas existen-
ventude como atributos de um corpo desejávei' A prin- tes entíe as culturas, sistetnas econômicos' organizações
cipal mensagem disseminada por essa indústria é que, políticas e a ecoiogia do planeta (Iriart & Caprara, 2011)'
à medicla que se adquirem e utilizam os produtos e ser- No campo da inovação tecnológica, os avarrços da
viços adequados, o coÍpo se torna um bem atraente e biologia molecular, cla genômicâ e dâs hiotecnologias
valorizado no mercado de trabaiho e da atração sexual prometem transfornrar radicalmente o modo como pen-
(Featherstone, 1995). samos o corpo. a saúcle e a doença, suscitando também
A busca de padrões ideais de corpo socialmente va- importantes questões éticas que devem ser objeto de re-
lorizados tornou-se, no entanto, fonte de crescente insa- flexão d.os cientistas sociais em saúde'
tisfação e ansiedade. Na contertporaneidade, as pessoas O desenvolvimenlo da engenharia genética, ao me§-
são convidad.as a exercer um constânte monitovarnento mo tempo que aporta fantásticas promessas utópicas'
de seus corpos em busca de imperfeições e a investir traz também o temor do surgimento de novas desigualda-
tempo, energia e recursos flnanceiros na remodeiagem des sociais, o risco do retorno do fantasma da eugenia em
de seus corpos. Dissemina-se a concepção de um corpo projetos de aprimoramento da espécie humana' a cons-
p}ástico, senelo os indivíduos responsáveis por sua re- tituição de novos dispositivos rie biopoder e o perigo do
construçáo, segundo os padrões estéticos dorninantes' O esfacelamento das fronteiras entre as diferentes {ormas
corpo torna-se assim um acessório da pessoa' irnplica- cle vida nos proce§sos de transmutações gônicas (Sibilia,
?003; Iriart & Caprara, 201 1)- A nova genética abre a pos-
do ern urrra encenação de si (Le Breton, 2003)' Busca-se
cada vez mais a construção identitária na aparência cor- sibilidade de uma evolução artificial ou evolução pós-bio-
poral, que deve passar a refletir a essência clo sujeito em iógica em que novas espécies, organismcs geneticamente
urn esforço constante de exteriorização da subjetividatle modificados, tanto vegetâis como animais, são criados
(Le Breton, 2003). O discurso sobre o corpo per-feito está artificial:nente em um mercado florescente que registra
permeado tarnbém por um discurso moral que classifica intensa concentração de capitais (Sibilia' 2003)'
os col'pos segundo os padrões valorizados soclalmente e As terapias genéticas ttazem no horizonte a perspec-
exclui aqueles que náo se ajustam às ncrmas ideais' a tiva de uma medicina preditiva e personaiizada que pro-
exemplo dos ohesos, que são vistos como "desleixados" e mete diagnosticar a enfermidade antes de sua aparição'
culpados por sua condição. suscitando importantes transfarmações em nossâ concep-
reificação
ção de saúde e de áoença. Em um processo de
do risco genético, que pâssa a ser visto como â própria
Novos objetos e desafios para as ciências doença, suÍge umâ nova categoria social, a dos pacientes
sociais em saúde potenciais ou doentes pré-sintomáticos (Sfez, 1996)'
As transformações sociais associ.adas ao processo de O olhar das clências sociais mostra que as tecnologias
giobalização e o crescente desenvolvimento tecnológico não sâo neutras, mas estão permeadas porinteresses so-
levam à emergência de novos objetos de estudos para ciais, políticos e econômicos subjacentes à sua produção'
as CSS (Iriart & Caprara, 201i). Em um mundo globa- Nesse contexto, as ciências sociais têm um papel impor-
lizado, no qual processos políticos, econômicos e demo- tante tânto no desvelamento dos fatores mâcroestrutu-
Seção VI r ESTADOS DA ARTE

Cabral ALLV Martinez-Hemaez A, Andrade EIG, Cherchiglia ML itine-


rais, e nas relaçôes de poder e de dominação associadas rários terapêuticos: o estado da arte da produção científica no Bra-
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Cecilio LCO. As necessidades de saúde como conceito estruturante

quais procuramo§ aqui apresentar' Não privilegiamos
luta pela integralldade e eqÜidade na atenÇão em saúde' Irr: Pinh*'-
os âspectos metodológicos, nem procuramos apresentâr ro R, Mattos RA (orgs.) Os sentidos da integraiidade na atençãc *
o processo de institucionalização das CS§, em termos
de
no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: IMS, Uerj, 2001'
suas práticas científicas e de ensino' Optamos por situar CohnÂ.AsaúdenaPrevidênciaSocialenaseguridadesociâl:anti§tÉ
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