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RESISTINDO AO CEO

1ª EDIÇÃO
2020

Revisão: Sara Rodrigues


Diagramação: AK Diagramação
Capa: L.A. Creative

Esta é uma obra fictícia. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos


descritos são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com
pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.
Todos os direitos são reservados e protegidos pela lei nº 9.610, de 10 de
fevereiro de 1998.
É proibido o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte desta obra,
através de quaisquer meios - tangíveis ou intangíveis -, sem o consentimento
por escrito do autor.
Dedicatória
Playlist
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Epílogo
Contato
Biografia
Creio que essa possa ser a minha dedicatória mais longa, então vamos
lá...
Primeiramente quero dedicar esse livro a todas as pessoas que
acompanham o meu trabalho. Vocês sabem o quanto é complicado trabalhar
com prazos, falta de ideias, entre outras coisas. Obrigado por estarem comigo
nessa caminhada.
Quero dedicar o livro também ao meu grupo de WhatsApp “Romances
G.R. Oliveira”. Obrigado pela paciência e por confiarem no meu trabalho.
Apesar de ficar um pouco sumido, saibam que é por uma boa causa, e que
sempre estarei trazendo novas histórias para vocês rirem... ou chorarem.
Não posso esquecer de dedicar essa obra à minha revisora, Sara
Rodrigues. Além de eu entregar muita coisa em cima da hora, recebi um
áudio de 4 minutos “bem amigável” para eu parar de alterar os nomes de
alguns personagens, e isso me fez sentar e respirar, tentando focar em tudo e
não vacilar. Não queria correr o risco de outro Podcast, haha.
Quero agradecer e dedicar esse livro a todos os meus amigos autores.
Me considero um afortunado por ter conhecido tantos autores na Bienal do
Rio de Janeiro que agora posso chamar de amigos. Zoe X, obrigado por falar
quando alguma coisa tá errada em minhas capas e pelas indicações em geral;
Yule Travalon por me acolher nas minhas visitas a SP e por me ajudar sempre
quando surge alguma dúvida ou estou receoso sobre algo; Nana Simons, por
me indicar alguns filmes sem pé nem cabeça e me fazer ver séries aleatórias
na Netflix; Lucy Foster, por me defender quando falam que fico matando
personagens sem necessidade, haha; Clyra Alves por espalhar o terror no meu
grupo com as figurinhas (eu contei 45 figurinhas minhas e boa parte são de
sua autoria que eu sei); Crys Carvalho por sempre me cobrar as capas
lambíveis, mas dessa vez cortei o seu barato com essa.
Como sempre disse aos meus amigos próximos, antes de me tornar autor
eu li inúmeras histórias na Amazon, e por isso quero dedicar esse livro
também a Nana Pauvolih (Proibida), Anne Marck (Luz da Manhã), Camila
Moreira (8 segundos), Dani Assis (Sem Vida) e Sofia Silva (Sorrisos
Quebrados). Os livros que coloquei na referência me marcaram
profundamente, sendo assim uma fonte de inspiração para eu ingressar nesse
mundo que até então era desconhecido por mim. Enfim, perdão se esqueci
alguns autores, mas vários de vocês me inspiraram a começar essa empreitada
anos atrás na plataforma.
Dedico esse livro também às minhas betas: Mérice, Nane e Má Bonfer
do (@loucuras_resenhas_spoilers); Bia, Bruna e Talita, minha assessora.
Obrigado por aguentarem a minha chatice com essa correria toda, e por
olharem meu livro de uma forma diferente. Mérice, obrigado pelas roupas da
Luiza e os toques nas cenas eróticas haha. Obrigado a todas vocês por me
ajudarem a incrementar esse trabalho, sem vocês esse livro estaria só no
rascunho.
Esse livro é dedicado também a Ivaneide, Thalisson, Jheniffer, Júlia,
Mariane, Maurício, Melissa e Bianka, os integrantes do grupo (Respeita
Nossa História) ao qual faço parte no WhatsApp. Lembro até hoje o
perrengue que foi terminar o primeiro livro em pleno carnaval com todo
mundo lá curtindo, e foi inevitável colocar algumas frases aqui imaginando
as pessoas falando (né, Ivaneide).
Quero fazer uma menção também ao meu clã [KCTE] no Call of Duty -
Warzone. Lioni, Pablo, Pagode, Chris, Maninho, Renato, Lynniker 5kill
(você vai entender, haha). Obrigado por desviarem meu foco que estava
exclusivamente no livro, havia momentos em que eu estava ficando maluco.
Obrigado pela parceria e por passarem raiva junto comigo no jogo!
PLAYLIST
“E quando tudo parece estar correndo bem...”

Não consigo expressar do modo que gostaria o quanto estou feliz com a
minha vida atualmente.
Normalmente já me considero uma mulher alegre — até demais em
certas ocasiões —, mas esse mês está tudo esplêndido, por incrível que
pareça estou vivendo o ápice da minha vida, em todos os sentidos.
Quando saí da Argo’s tomei uma decisão arriscada, principalmente por
ser consciente de que iria trocar um emprego confortável e garantido, por
algo novo. Mas quando seguimos nossos sonhos, precisamos arriscar, e assim
o fiz.
Entrei na GCR Turismo ocupando o cargo de Gerente Administrativa, o
que era bom, pois não fugia tanto da realidade em que vivia na Argo's,
mesmo assim dei um duro danado para me adaptar e me superar a cada dia,
tinha o objetivo de subir de cargo, e hoje estou na posição de Gerência Geral,
por competência e mérito próprio. Esse cargo não é um dos maiores da
empresa, já que os diretores possuem muito mais poder que eu, mas estou
feliz pelo meu crescimento, já que em praticamente um ano consegui um
cargo melhor financeiramente do que na minha última empresa.
Meu sonho sempre fora trabalhar em uma agência de turismo, e por isso
abdiquei do convívio diário com minha melhor amiga e um ótimo salário
para estar aqui, e hoje, olhando para trás, posso afirmar que não me
arrependo de nada, e pretendo continuar alçando voos maiores.
Natanael havia acabado de solicitar que eu comparecesse em sua sala.
Ele é CEO da agência, e a pessoa com quem mais tenho contato aqui, já
que basicamente preciso prestar conta de tudo a ele. Para mim é até melhor,
porque alguns diretores da GCR...
Prefiro nem comentar, só Jesus na causa!
— Cheguei! — Dei duas batidinhas na porta que estava entreaberta e
logo ele pediu para que eu prosseguisse.
— Olá. Conseguiu fechar os relatórios que pedi?
— Sim. Já até enviei por e-mail — sorri.
— Ah, tudo bem — falou e logo olhou na direção de sua janela.
Ele é um homem normalmente alegre, porém hoje não estava se
parecendo em nada a pessoa que me acostumei a notar no último ano na
empresa.
— O senhor está triste — quebrei o silêncio.
— Um pouco, menina.
Ele me chama de menina desde que entrei na empresa, tem 65 anos de
idade e sempre foi muito respeitoso comigo, e por incrível que pareça nunca
me cantou. Mas vez ou outra o vi reparando na minha bunda, não o culpo,
realmente sou um espetáculo de mulher e não passo despercebida pelos
homens, e nem por mulheres.
Sim, minha autoestima é um pouquinho elevada. Coisa pouca.
— E o que houve?
Percebi que ele esboçou um sorriso que nem chegou aos seus olhos, e
logo depois abaixou a cabeça, levemente chateado.
— O que acontece na maioria das empresas. Fui substituído.
Espera um pouco...!
Levei alguns segundos para assimilar o que ele tinha acabado de me
contar, e até me sentei em seguida.
— Mas... tudo está indo bem — gaguejei. — A empresa está crescendo,
os lucros aumentam a cada dia, a taxa de demissões caiu... Não entendo por
que isso agora, não faz sentido outra pessoa em seu lugar se tudo está em
perfeita ordem.
Essa informação não me agradou em nada, achei tudo isso muito injusto.
Natanael sempre fez tudo pela empresa, e foi uma das pessoas que me
deu auxílio, quando fui promovida pedi conselhos a ele, e foi por causa dos
seus vários ensinamentos que fiz cursos e mais cursos para me aperfeiçoar e
desempenhar o que o cargo exigia de modo satisfatório.
— Eles querem sangue novo, alguém mais jovem, com perspectivas
diferentes. Bom, pelo menos é o que eu acho, mas nunca vou saber de fato.
— Eu... nem sei o que dizer — pontuei, cabisbaixa.
— Luiza, só continue o belo trabalho que vem executando até agora
— sorriu — Nesse último ano você foi a pessoa que mais se destacou na
empresa e confio em sua capacidade, pois você é a melhor gerente que
temos. Sei que irá se dar bem com o novo CEO.
— Qual o nome dele?
— Não me disseram, mas ele começa essa semana mesmo. Amanhã já
não serei mais necessário aqui.
Não terei tempo nem de preparar meu psicológico pelo jeito, irei sentir
muita falta dele, pois era um ótimo CEO e orientador quando preciso.
Apesar de tudo, sou uma pessoa que me adapto com facilidade e tento
me dar bem com todo mundo. Tenho certeza de que isso irá acontecer com o
próximo CEO, afinal eu sou Luiza Goulart...

Após sair da empresa fui direto para a nova casa da minha amiga.
Antes de Daniel e Beatriz se casarem, eles compraram um imóvel perto
da minha residência, e nem preciso dizer que seremos um trisal, porque
basicamente todos os dias encho a paciência de ambos, graças à internet, mas
agora serei figurinha carimbada em sua casa também.
— Amor, a Luiza veio beber com a gente, e pela cara feia está chateada
— minha amiga falou, e logo ouvimos seus passos vindo em nossa direção.
Daniel e Beatriz se casaram mês passado e voltaram da lua de mel na
semana passada. E sim, eu já estou na casa deles, nem dei tempo para se
acomodarem. E sim, eles são recém-casados e parecem cansados, mas não
ligo.
Sou entrona e não me importo. Daniel não se casou só com Beatriz, eu
vim no pacote, e ele vai me aturar, queira ele ou não.
— Também estou chateado — Daniel falou ao se aproximar para me
cumprimentar. — Eu queria dormir e ela me atrapalhou — completou em
seguida e logo lancei uma olhar desdenhoso em sua direção.
— Vou ignorar esse comentário — pontuei com a cara fechada.
— Foi uma brincadeira. O que houve?
Contei a eles sobre a notícia da iminente demissão de Natanael, bem
como a forma que éramos alinhados trabalhando juntos. Devo boa parte do
meu crescimento a ele, já que como Beatriz, me espelhei bastante no meu
chefe, me tornando uma profissional bem mais capacitada.
— Espera... você não me falou o nome da empresa que Luiza trabalha
— ele voltou-se para Beatriz quando terminei minha lamúria.
— Falei sim! — ela retrucou.
— Não, você só disse que era algo relacionado a turismo, e mais nada.
Beatriz puxou pela memória e logo depois me olhou, acenando
positivamente.
— É, acho que não.
— Mas não entendi o motivo de estar tão chateada. CEO’s vem e vão
com uma frequência maior que imagina, e você já é ciente disso — Daniel
falou.
— Sim, eu sei, o problema é que tudo está indo bem, a empresa está
crescendo e tendo um bom desenvolvimento, foi por isso que não entendi
nada. O pior é que eu nem sei quem vai assumir o lugar dele.
— Qual é o nome da empresa que trabalha? — Daniel perguntou.
— GCR Turismo.
E foi só eu falar esse nome que Daniel fechou a cara e um vinco se
formou em sua testa.
Fiquei confusa com seu choque momentâneo, e essa sua reação me
deixou um pouco preocupada.
— Merda! — falou após algum tempo, já fechando os olhos e passando
a mão pelo rosto.
— Ah, meu Deus! Fala logo, homem, você está me deixando aflita... eu
sou cardíaca!
Ele respirou fundo e logo se sentou conosco.
— Se lembra de um homem que entrou no nosso casamento com uma
garrafa de whisky?
— Se eu me lembro?! Claro! Gostoso daquele jeito eu queria dar até
meu...
— Amiga, foco! — fui interrompida por Beatriz, que estava com cara de
poucos amigos.
— Tá bom — sorri sem graça. — Eu estava longe de vocês, mas reparei
sim, lembro que Daniel até conversou com ele, e logo o vi indo embora.
— Então vou resumir a história pra você...
Daniel me contou que ele e esse tal homem, que se chama Victor Hugo
Avelar, foram treinados juntos por Arquimedes, um grande CEO, e por causa
da competitividade acabaram se tornando rivais.
Depois, ele falou um pouco sobre a vida do meu futuro chefe, bem
como as empresas que ele passou. O que não achei nada demais, ele parecia
uma pessoa normal para mim.
— Vamos ser sinceros aqui... — Daniel juntou as mãos me analisando
metodicamente. — Quero que você me fale qual era sua visão em relação a
mim quando eu era o CEO da Argo’s?
— Olha...
Dei uma olhadinha para Beatriz do tipo: “vou poder xingar seu marido
mesmo?”
— Tem certeza que quer saber?
— Pode falar, amiga.
— Você claramente foi um excelente CEO, naqueles 6 meses reergueu a
empresa e a fez ser reconhecida novamente e tal, mas... comigo foi sempre
um escroto, babaca, ditador, tirano, grosso e outros lindos adjetivos que não
caberiam em uma folha.
— Imaginei. Agora... multiplique esses lindos adjetivos com a falta de
responsabilidade e você terá o espécime Victor Hugo Avelar como resultado
— deu um sorriso cínico.
— Isso é... impossível!
— Ah... te garanto que não é — debochou. — E será isso que vai
encarar, se o que o próprio disse for realmente verdade.
— Como é...?
— Ele é extremamente inteligente, e sabe usar como ninguém as
pessoas. Ele não é do tipo que trabalha, só em último caso. Eu pego no
batente, ele dificilmente faz isso.
— Que merda é essa?! Ele nem deveria ser CEO, tá no cargo errado.
— Falei a mesma coisa! — Beatriz pontuou e Daniel balançou a cabeça
discordando.
— Ah... ele está aonde deveria! — disse com o semblante sério. — Ele é
um dos melhores, ou o melhor dependendo do ponto de vista de quem
analisa. Mas vou te dar uma dica bem importante: tome bastante cuidado!
— Cuidado?!
— Sim. Pelo que Beatriz me disse, você está na empresa que sempre
desejou trabalhar, e que pretende permanecer lá.
— Isso mesmo.
— Saiba que Victor Hugo Avelar não vai estar nem aí com isso. E fique
ciente de que ele demite pessoas simplesmente por respirar ao lado dele.
Então meu conselho é que o evite ao máximo.
— Mas eu preciso trabalhar lado a lado com o CEO, sou a gerente geral.
— Então você terá problemas se o santo dele não bater com o seu, e
Luiza... — Daniel fez uma pausa dramática, o que fez minha preocupação ser
elevada ao nível máximo, já que ele não é assim tão expressivo. — O santo
dele não bate com o de 90% das pessoas.
— E o que eu faço em relação a isso?
— Foque no trabalho e o ignore, senão... — respirou fundo olhando para
Beatriz e para mim em seguida. — Ele vai fazer da sua vida um inferno!
Pode apostar!
“Não tenha medo de viver loucamente quando é necessário...”

Trabalhar de ressaca é uma merda!


Na verdade não é, por isso faço isso corriqueiramente. O problema é que
hoje é o meu primeiro dia na empresa, e estranhamente estou com preguiça e
desanimado.
Não, isso é mentira também! Geralmente isso acontece.
Olhei a fachada da GCR Turismo e logo suspirei fechando os olhos.
Eu deveria me aposentar. Ultimamente tenho preguiça de fazer as coisas
que mais gosto e claramente estou perdido. Essa vida de baladeiro está me
fodendo.
Mal tinha passado pela porta de entrada, e para minha surpresa, logo fui
abordado por um homem que aparentemente estava me aguardando. Ao olhar
para o seu crachá vi que ele trabalhava aqui.
— Bom dia, Victor Hugo. Meu nome é Carlos, sou o gerente
administrativo e vou te apresentar a GCR...
Até parece que o homem estava de plantão ali, só esperando eu chegar.
— Tudo bem, meu filho, só agilize o processo e me mostre o escritório,
Marcos — interrompi o homem, já sem paciência pela sua fala longa e
desnecessária.
— É Carlos, senhor.
— Isso mesmo que falei — Dei de ombros.
Entramos na empresa e fui analisando rapidamente as instalações. Não
via nada demais. Já trabalhei em locais maiores e bem mais chamativos.
— Como pode ver aqui é um local arejado, amplo, com uma boa vista
e...
— Pare! — Retirei meus óculos escuros e coloquei minha mão, — a
que não estava ocupada —, no bolso da minha calça, e o fitei incrédulo.
— O que foi?
— Você é gerente, arquiteto, engenheiro, urbanista, e o que mais? Eu lá
quero saber de como é o espaço dessa espelunca, só me mostre meu
escritório, Marcos.
— Meu nome... — suspirou — Tudo bem.
Não caminhamos por um minuto sequer e já estava em minha suposta
sala. Pelo visto aqui é bem menor do que imaginei, e agora me pergunto se
realmente a GCR Turismo é a empresa mais famosa da região.
Claro que fiz minhas pesquisas, mas tudo parece básico demais. Nem ao
menos um banheiro eu tenho em minha sala. Isso é inadmissível, e...
Respirei fundo.
É o meu primeiro dia, preciso me acalmar e ser gentil.
O problema é ser “uma pessoa gentil”, já que basicamente sou assim em
dois locais somente.
— Precisa de algo mais?
— No momento não — sorri, ou ao menos tentei.
— Eu já vou indo, senhor. Qualquer dúvida estarei à disposição.
— Ah, espera, vou te falar outra coisa. — Controlei minha respiração,
mas logo em seguida abri um largo sorriso. — Senhor tá no céu, me trate por
Victor Hugo.
— Tu-tudo bem.
— Agora que estamos resolvidos... vamos pra cima, Marcos! —
Mantive o sorriso.
— Como?!
— Meu deus! Que homem lento... vá embora, vaza!
LUIZA

O novo CEO já ocupou a sala que antes era de Natanael.


Beatriz que me perdoe, mas ele é mais bonito e gostoso que o seu
marido.
Minha libido está apitando aqui só porque quando o vi de costas percebi
que perto da sua nuca tinha uma “amostra" do começo ou término de uma
tatuagem. Em seguida, ele girou sua cadeira e se levantou, e logo pude vê-lo
de frente.
A manga da sua camisa estava dobrada, e notei que ali em seus braços
havia algumas tatuagens aleatórias. Provavelmente ele tem várias delas
espalhadas nesse monumento chamado Victor Hugo, que graças aos deuses, é
composto por cabelos negros e compridos, que estavam presos no estilo
coque samurai, olhos castanho-escuros, e claro, um corpo que aparentemente
foi esculpido à mão.
É nítido que atrás de sua roupa formal há músculos e mais músculos, e
isso atiça ainda mais a minha curiosidade. Isso porque nem mencionei aquela
boca... É melhor eu parar de ficar reparando, porque essa tentação já está
desequilibrando meu chakra, e meu foco na GCR é outro.
Dei leves batidas em sua porta e aguardei, até ser permitida a minha
entrada. Ao me ver ele logo parou seus afazeres, ou seja lá o que estivesse
fazendo em seu celular.
Realmente era o mesmo homem que vi no casamento da minha amiga, e
que homem, diga-se passagem.
— Bom dia — falei.
— Bom dia. Você é...?
— Meu nome é Luiza Goulart e sou a Gerente Geral da empresa —
disse com firmeza. — Eu trabalhava em conjunto com Natanael, e tudo
passava antes por mim. Depois do aval dele, eu repassava aos diretores da
GCR.
— Hmm. Interessante.
Pelo visto ele achou mais interessante meu corpo, já que em momento
algum desviou seus olhos da minha roupa. Sempre fui vaidosa e hoje não
seria diferente, eu usava uma calça quadriculada escura de boca larga, que
subia justa pelas coxas e quadril, em combinação com uma blusa preta colada
ao corpo de mangas compridas com detalhes de renda na gola e nas mangas.
— Então, Luzia, do que acha que vou precisar? Como era o seu trabalho
com o outro CEO?
— Meu nome é Luiza — reforcei. — E eu auxiliava ele em basicamente
tudo, desde a organização de palestras e reuniões, até serviços simples, como
remanejamento de pessoal, atividades administrativas ou qualquer outra
eventualidade.
— Entendo.
— Se quiser ficar por dentro dos assuntos e projetos antigos da empresa
sugiro que contrate um auditor.
— Acho que eu posso fazer esse serviço. — Cruzou os braços todo
sorridente.
— E um advogado.
— Eu também faço esse papel quando necessário.
— E de alguém que te ajude a...
— Meu bem, na maioria dos casos, eu me basto. Não entendeu ainda?
— me interrompeu, com um sorrisinho sacana no rosto.
Então por que raios me perguntou, infeliz?
Ainda bem que só pensei, do contrário poderia estar enrolada.
— Então, o que você não faz?— perguntei, tentando ser educada.
— Sexo... de um jeito carinhoso — deu uma piscadinha. — Quando
quiser colocar à prova estou disponível...
Era só o que me faltava...
— Não, eu não quero.
— Hmm... que pena. — Girou sua cadeira, parecendo estar brincando.
— Acho que por enquanto é só — complementou.
— Precisando de alguma coisa de trabalho, me chame — dei ênfase.
— Certo.
Saí da sala e sei que seus olhos percorreram meu corpo. Quando dobrei
o corredor ouvi sua voz um pouco mais alto: — Luzia, lembrei que preciso de
algo urgente — ele falou, mas nem me dei ao trabalho de voltar.
Não fui batizada com esse nome, então não sou obrigada!
Fui em direção à cozinha e logo peguei uma xicara de café. Depois de
sorver um gole, pensei por alguns segundos como seria essa experiência com
o novo CEO. Provavelmente terei alguns problemas, mas não posso me
deixar abalar.
Quando dei por mim, Victor Hugo entrou na cozinha e seu semblante
não estava nada convidativo.
— Caralho! Você é surda ou o quê? Não me ouviu te chamando,
cacete?
É... minha paciência durou menos do que eu planejava!
— Um: não sou surda! E dois: — Me aproximei dele. — Meu nome é
Luiza, e não Luzia. Então, vou te dar um conselho: quando quiser falar
comigo, me chame pelo nome correto, do contrário vai ficar atrás dessa tal
Luzia por muito tempo. Entendeu?
Victor Hugo estreitou os olhos e sorriu, logo depois passou o polegar na
minha bochecha, me deixando sem entender o que tinha acabado de
acontecer: — Olha... até que enfim gostei de alguém nessa espelunca. Pelo
visto iremos nos divertir bastante. Até breve, gracinha.
Saiu do nada e eu continuei como estava antes, não entendendo nada.
O cara me chamou, não falou nada de útil e simplesmente virou as
costas.
Está difícil acreditar que esse cara é realmente o CEO inteligente que o
Daniel falou...
Arrumei uma nova amiga já que Beatriz não está na solteirice, e o lado
bom é que ela é exatamente meu clone... mais novo.
— E então, Renata, como estão as coisas lá na Argo’s?
— Você quer saber sobre os assuntos pessoais ou profissionais? —
questionou.
— E como seria a parte pessoal? — me empertiguei, não entendendo.
— Digamos que, no meu caso, os homens não param de me olhar,
porque a cada dia que passa fico mais bonita e gostosa, e infelizmente para
eles, sou inalcançável. — Tomou um gole de cerveja. — Então... eles que
lutem!
— Eu já te disse que te amo hoje?!
— Hoje não. Mas como sempre falo... tem como não me amar?
Melhor pessoa...
Acho que nunca em minha vida encontrei alguém tão parecida comigo, e
nos damos muito bem, por mais que tenhamos quase dez anos de diferença.
— Quando você completa 20 anos?
— Em dois meses. E você, quando completa 45? — Fechei a cara e
imediatamente apontei o dedo do meio para ela, que riu muito.
— Como você pode ver, em sua frente tem uma mulher com 29 anos de
idade bem distribuídos nesse corpinho lindo, e quando eu realmente chegar
aos 45, estarei mais gostosa ainda.
Ela gargalhou, era gostoso ouvir o som da sua risada.
Após diminuir a empolgação, começou a me analisar atentamente, e
quando ela faz esse gesto de forma tão incisiva a sessão perguntas e
respostas começa.
— E o novo CEO da empresa, como ele é?
Viram o que eu disse...?
— Um tarado, que mais parece um psicopata bipolar — resumi.
— Olha... já gostei dele — Renata pontuou.
— Ele se chama Victor Hugo Avelar.
— Espera... é o rival que o Daniel tinha no passado?
— Como sabe? Ah... — Fechei meus olhos. — Esqueci que estou
falando com a stalker do Daniel Falcão.
— Eu sempre sei tudo sobre ele, até mesmo que Beatriz está grávida de
4 semanas — deu uma piscadinha.
— Como é?! — Fiquei branca.
Beatriz grávida e não me contou?!
— É brincadeira! — sorriu e logo levou um tapa bem dado, pra largar
de ser besta.
— Vamos deixar de piadinhas: o que sabe sobre aquele gostoso
problemático?
— Bom, basicamente que ele é gostoso e problemático — Renata disse
e logo fechei a cara.
— Renata... — ponderei.
— Não estou brincando dessa vez. — Seu rosto tornou-se sério. — Você
definiu muito bem ele em suas palavras. Ele é um gênio incompreendido da
sociedade moderna, pelo menos ele se vê assim. Polêmico, boêmio e
misterioso.
— Misterioso?!
— Sim, é o ponto em que ele mais se parece com Daniel. Ele some
alguns períodos e tal, mas não sei de mais detalhes, sempre foquei em Daniel
como empresário, sei muito pouco de Victor Hugo.
— Entendo.
Emendamos alguns assuntos corriqueiros, e logo em seguida falei um
pouco mais do andamento do meu trabalho, mas Renata dessa vez só ouviu.
— Agora vamos falar da parte profissional. Como está o seu trabalho na
Argo’s?
— Estou quase mudando de cargo... novamente. Beatriz está se saindo
uma ótima CEO, e faço alguns projetos com ela, então me interessei pelo
setor de vendas, e acho que em breve serei promovida e assumirei o antigo
cargo que era dela.
— Gerência?! — estreitei os olhos, surpresa.
— Sim. Estou lutando pra isso.
— Ahh... que orgulho do meu bibelô!
Renata odeia... deixa eu enfatizar um pouco mais: ela ODEIA que a
chamem de bibelô. Mas eu não tenho culpa de ela ser tão baixinha e lindinha.
— Vou te dar um aviso que meu querido Diego já recebeu há muito
tempo: um dia irei te matar e fazer parecer um acidente!
Gargalhei, levantando as mãos, rendida. Me divirto bastante com essa
maluca.
O Diego, que é amigo de Daniel, voltou para a cidade e está na Argo’s
há três meses ajudando Beatriz em alguns assuntos que não sei do que se
trata, já que de tecnologia não sei quase nada.
— E as brigas de vocês?
— Do mesmo jeito de sempre, ele continua me irritando mesmo
trabalhando em outro setor.
— Então, pelo jeito, só mudou o corpo do rapaz, porque a mentalidade...
Renata não falou nada, mas claramente estava imaginando algo quando
terminei de falar.
— Sim, mudou, até estranhei.
Ele voltou outro homem, bem mais forte e gostosão. Um dia precisei ir à
Argo’s e o observei, e olha... fiquei chocada, até que enfim ele está com rosto
e corpo de homem.
— Sabe... vai que um dia você tenha uma aventura com ele. Já pensou?
— sorri sarcasticamente, falando algo que até então é normal para nossos
assuntos.
— Para com isso! — Virou o rosto, enrubescendo em seguida.
Renata com vergonha?! Ah, tem coisa aí...
— Por que você ficou tão sem graça?
— Não fiquei!
— Ficou! — retruquei e logo ela fez careta.
Essa garota claramente está me escondendo alguma coisa, e acho que até
posso saber do que se trata.
— Renata, Renata, Renata... acho que quer dar pra ele!
— Minha cara Luíza... eu não quero dar pra ele, eu quero matar ele, é
diferente. Diego me irrita e sabe como ninguém fazer isso. Ele tem esse dom.
— Hmm. Sei...
Resolvi não me alongar no assunto, mas em breve eu conseguiria mais
informações sobre esses dois.
Isso ela pode ter certeza...
“A família é o nosso alicerce em tudo...”

— Pai! Mãe!
Não dei nem tempo para que eles dissessem alguma coisa e logo os
envolvi em um abraço aconchegante.
Um dos motivos para que eu aceitasse esse emprego em Florianópolis
foi a saudade que estava deles. Fui um filho ausente nos últimos anos, mas
não quero mais ficar longe, não mesmo. As poucas pessoas que realmente me
conhecem, sabem do meu amor e carinho para com eles, e que
indiscutivelmente meus pais são a minha vida.
— Seu pai e eu ainda não acreditamos que voltou, meu filho — minha
mãe disse, um pouco emocionada.
— E irei ficar! — dei ênfase. — Estava esperando uma oportunidade em
Florianópolis, e ela apareceu.
— Filho... isso me deixa muito feliz. — Novamente minha mãe me
abraçou e fechei meus olhos a aninhando em meus braços.
Estava com saudade, e agora quero compensar minha ausência de
alguma forma. E cortar essa distância é o primeiro passo.
— Seu pai preparou a janta, e pelo cheiro está uma delícia.
— Não esperava menos do meu velho! — Envolvi seu pescoço e beijei
sua bochecha. — E qual é o cardápio?
— Arroz branco, feijão tropeiro, salada de alface e tomate, chuchu,
batata frita e de sobremesa um gateau de chocolate.
Por mais que eu tenha dinheiro para poder comer nos melhores
restaurantes, o que realmente gosto é de comida simples, caseira.
— Meu Deus! Acho que eu irei voltar a morar aqui com vocês! — falei
e logo gargalhamos.
É incrível... senti bastante falta dessa energia. Nós nos damos super
bem, e desde que saí de casa, parece que um vazio se apossou de mim, e
dificilmente ele será preenchido.
Depois que nos sentamos à mesa, conversamos sobre inúmeros assuntos.
Ao sair de Florianópolis trabalhei em muitas cidades, e cheguei a ficar
quase um ano sem vê-los. Apesar disso, sempre estive presente no aniversário
deles, em Setembro, mas as outras datas eu deixei a desejar, e sei bem disso.
— Você é famoso, filho. Sua mãe e eu vimos várias notícias na televisão
e na internet do que faz nas empresas.
— Isso nós chamamos de trabalho duro, Sérgio — minha mãe falou, e
fiquei levemente sem graça.
Não vou falar nada, mas Victor Hugo e trabalho duro não combinam,
preciso destacar. Independentemente disso não vou entrar nesse mérito, é
bom que pensem assim.
— E então, como está a vida nessa cidade maravilhosa? — tratei de
mudar de assunto.
Por quase duas horas conversamos sobre assuntos pessoais relacionados
a eles, independentemente disso, nem preciso dizer que relembramos algumas
velhas histórias da minha adolescência, e gargalhamos em várias
oportunidades. Sempre fui um garoto levado e aprontava bastante. Minha
mãe que o diga, volta e meia estava em minha escola conversando com a
diretora sobre o meu comportamento.
Olhei para o meu relógio e já se passava das 21h.
— O que fará hoje à noite, filho? — minha mãe questionou ao notar
meu gesto.
— Estou pensando ainda. Provavelmente irei para um bar e...
— Filho... você não voltou a beber muito, né?
— Se acalme, dona Ana Maria... — Me levantei e logo dispus um beijo
em sua testa. — Estou comemorando minha volta, nada mais que isso.
De vez em quando a chamo pelo nome. Não sei o porquê, mas isso a
acalma em determinados momentos.
Não gosto de mentir para eles, mas tenho certeza de que não aprovam a
minha conduta. Prefiro não falar nada quando isso acontece, pois sei que os
machucaria, contudo infelizmente todos nós temos demônios constantes, e
não sou diferente. A bebida é a única coisa que me ajuda a esquecer uma
parte do meu passado.
— Espero que continue nos visitando, filho — foi a vez do meu pai falar
e logo abri um largo sorriso.
— E você tem dúvidas disso?
Me despedi dos dois com outro longo abraço.
Já na rua, respirei fundo.
Acho incrível e reconfortante voltar para Florianópolis após rodar a
maior parte do Brasil. Sempre achei que o meu lugar é aqui, e agora
finalmente posso voltar as minhas raízes...

Meu corpo está mole...


Com muito custo abri meus olhos, e a minha consciência foi no mesmo
embalo.
Onde caralhos estou?
Ainda não sabia onde estava, mas em minha casa não era, a não ser que
eu estivesse no chão, pois o contato das minhas costas com algo duro e frio
era notório nesse segundo.
Me levantei e ajeitei minha postura, e ao olhar para frente tive uma
certeza...
Eu fiz isso de novo... pra variar!
Suspirei de forma pesada, e por alguns minutos não me movi. Acho que
até dei uma pequena cochilada nesse meio tempo, já que senti uma mão
tocando no meu ombro em seguida.
— Cara, você dormiu no meu banco!
Olhei para o homem que havia encostado em mim. Era um mendigo.
Fui recobrando a consciência aos poucos e agora sei que estou em
alguma praça, e pelo jeito dormi no banco desta.
E tem dono!
— Foi mal! — falei e logo olhei para cima, mas o sol quase me cegou.
— Que horas são? — perguntei e o homem mal vestido riu.
— Cara... sou um mendigo, moro em um banco de praça e nem comida
tenho para comer, você acha mesmo que eu teria um relógio?
Automaticamente olhei para o meu pulso e pude notar meu Rolex
intacto.
10 da manhã.
Que legal, realmente bebi demais.
Me levantei e tentei ajeitar meu terno, tentando identificar qual praça era
essa e onde inferno deixei o meu carro.
— Qual o nome dessa praça?
— XV de Novembro — disse logo se deitando no banco onde eu estava.
— Em que lugar você dormiu? — perguntei.
— No chão. Eu te disse que tava no meu banco — deu ênfase, mas não
estabeleceu contato visual.
Respirei fundo e fechei meus olhos.
Que tipo de pessoa me tornei...
— Mil desculpas! — Abri a minha carteira e logo peguei uma nota. —
Pegue! Acho que isso pagará a minha estadia.
Entreguei a nota para ele, e logo dei as costas, ainda tentando identificar
onde meu Maserati Quattroporte estaria, mas novamente senti o toque de
alguém em meu terno, me fazendo virar.
— O que houve? — perguntei.
— Acho que... me entregou a nota errada — disse, gaguejando. — Isso
são... 100 reais!
— Verdade.
Peguei novamente minha carteira e retirei todos os meus documentos
dela, colocando-os na parte de trás da minha calça.
— Tome! É sua!
— Você está me dando sua carteira?!
— Sim. E todo o dinheiro que está aí também, se não gastei tudo acho
que deve ter uns... 1000 reais. Minha carteira custa mais de 2000 reais, então
venda ela por um preço adequado.
— Por que...?
— Você precisa mais do que eu. — Toquei seus ombros. — E quero te
pedir um favor.
— Qual?
— Lute pelas suas coisas, não deixe as pessoas dormirem no seu banco
sem mais nem menos — dei uma piscadela e logo saí de sua presença.

Demorei uma eternidade para achar meu carro, e por isso cheguei
bastante atrasado. Não que eu ache isso ruim, já que ao ser contratado fui
bem claro sobre esse meu probleminha.
— O dono da empresa está lhe esperando há algumas horas.
Foi só eu entrar na GCR, que Marcos veio em minha direção, falou essas
palavras e saiu de perto. No fundo ele tem medo de mim, e acho uma pena.
Não gosto de ter horários definidos, e isso não mudará tão cedo.
— Victor Hugo Avelar, é um prazer te ver pessoalmente. Não te dei as
boas vindas ontem, pois estava finalizando alguns planos inacabados —
Luigi, o dono da empresa disse ao apertar vigorosamente minhas duas mãos.
— Sem problemas! Quero te agradecer pela oportunidade de estar em
uma grande empresa — falei, tentando não transparecer que já trabalhei em
locais melhores.
— Queremos o melhor para a GCR.
— Claro. Espero desempenhar um bom papel aqui.
— E você vai!
Não sei se isso foi algo espontâneo ou uma intimidação, mas estou
acostumado a não me abalar com nada.
— Quero que saiba que estarei de férias a partir da semana que vem.
Ficarei fora por dois meses, depois de tantos anos só me dedicando a
empresa, vou aproveitar e viajar.
É por isso que é bom ser o dono de uma empresa que está voando alto.
Pelo jeito ele nem está muito preocupado com as finanças de longo
prazo, mas por sorte dele estou aqui para qualquer eventualidade.
Que profissão glamorosa tem um CEO...
— Espero que aproveite bastante. Para onde vai?
— Caribe.
— Mentira! Nunca vi um lugar mais bonito... — Cruzei os braços e
sorri, parecendo interessado.
Ficamos conversando por alguns minutos, e acho que contornei o
homem, já que lhe mostrei o quanto estava interessado naquelas baboseiras
de passeio que ele falava. Coisa típica de gente que não tem nada o que fazer.
— Acho que sabe, mas qualquer dúvida, Luiza irá te ajudar. Ela era o
braço direito de Natanael.
Hmm. Pelo visto a morena gostosa tem bastante prestígio com Luigi...
Olhei pra o meu lado esquerdo e lá estava ela, a alguns metros de mim.
Algo me diz que será difícil manter a concentração com ela constantemente
ao redor, principalmente de um homem complexo como eu...
Victor Hugo pode ter enganado Luigi, mas sei bem que a maioria de
suas palavras foram para engabelar o homem. O dono da GCR Turismo gosta
de falar e ser ouvido, e como o novo CEO não é bobo nem nada fez
exatamente isso.
Depois que Luigi saiu da empresa, Victor Hugo me analisou de uma
forma demorada, e seus olhos se estreitaram, me encarando fixamente.
— Venha em minha sala daqui cinco minutos.
Depois que ele se distanciou notei uma pessoa se aproximando de mim.
— Qual é o problema desse cara? — Juliana, a gerente de vendas,
perguntou.
— Não sei. Mas é melhor tomarmos cuidado. Na minha última empresa
tive um chefe carrasco, e pelo andar da carruagem, esse segue pelo mesmo
caminho.
Muito pelo contrário, elas podem piorar...
— Anotado — falou, saindo.
Depois que rapidamente passei pela cozinha, fui para a sala do meu
chefe, e percebi um cubo mágico em sua mão. Quando entrei ele fixou os
olhos em mim, mas sua mão direita ainda movimentava aquele pequeno
objeto.
— Sente-se! — pediu, e fiz o que me fora ordenado.
— O que deseja?
— Qual a sua relação com Luigi?
— Como assim? — perguntei, confusa.
— Em uma escala de 1 a 10, qual o seu grau de amizade com ele?
Que tipo de pergunta maluca é essa?
Pensei por um tempo, mas notei certa impaciência no seu olhar.
Além de tudo, eu não sabia bem no que prestar atenção, já que ele
continuava girando aquele brinquedo, me tirando o foco.
— 7 — disse, por fim.
— Então... digamos que é a protegida dele — pontuou como quem não
quer nada.
— Eu não diria isso. Eu só faço o meu trabalho da melhor maneira
possível, e ele sabe reconhecer.
— Bom, bom... — respirou fundo. — Comigo você vai precisar fazer
mais do que isso, já adianto. Não sou muito de pegar no pesado, sabe? —
falou do nada, como se fosse uma coisa normal.
Bem que Daniel mencionou naquele dia, mas não sabia que ele estaria
tão certo nesse ponto, ou que o próprio homem falasse em minha cara.
— Alguma coisa terá que fazer. Você é o chefe aqui.
— Sim. Eu mando, você obedece, e todos ficamos felizes. Basicamente
será isso.
Sorri, não acreditando em suas palavras. Esse cara é inacreditável.
— Falei alguma piada por acaso?
— Não sei. Falou?
Victor Hugo agora estava com um sorrisinho debochado no rosto, e a
forma com que ele me olhava era... estranha.
— É melhor que seja boa como todos falam, do contrário você não
passará da primeira semana aqui. Entendeu?
Fiquei em alerta.
Não há motivos para ele estar falando dessa maneira. Eu sequer errei
alguma coisa.
— Eu...
— Vá! Quando precisar te chamarei — falou.
Me levantei da cadeira com seus olhos ainda fixos em mim, e ainda
ouvia aquele barulho dos seus dedos girando o maldito cubo mágico.
— Outra coisa! — Levantou-se, chegando mais perto. — Eu sou um
tanto insolente, problemático e perfeccionista. Isso será problema para você?
Que cara doido!
Por mais que seja sexy e gostoso pra caralho, há momentos que
aparentemente tenho medo dele, e isso porque hoje é somente o segundo dia
que estamos conversando.
— Acho que não — sorri da forma mais vexatória que consegui.
— Não? — questionou claramente surpreso.
— Da mesma forma que é assim, eu sou uma mulher íntegra,
competente e direta. Então, pode ter certeza de que conseguirei lidar com
você.
Um lindo sorriso brotou na sua face, e se ele não tivesse debochando de
mim, eu diria que era verdadeiro.
— Excelente, gracinha! — Esticou as mãos me entregando o cubo
mágico... completo!
Como esse cara fez isso olhando só para mim?!
“É necessário medidas drásticas ante uma situação inevitável...”

LUIZA

Precisei levar inúmeros documentos na sala de Victor Hugo, e entre idas


e vindas percebi o quanto ele me olhava com curiosidade.
Não tenho tempo para sabe-se lá o que ele esteja pensando, e graças a
Deus estou terminando meu expediente.
— Luiza, já que vamos trabalhar juntos, quero que me fale sobre você
— perguntou quando me preparava para sair da sua sala.
— O que deseja saber?
— Tem namorado?
Esse cara só pode estar de sacanagem...
— Não gosto da ideia de ter alguém no meu pé, muito menos dar
satisfações para qualquer homem que seja — fui sucinta.
— Uau! Você é quase eu... em outro corpo — sorriu, debochado.
— Então, entende o que estou falando.
— Claro! Admiro pessoas assim, que não se deixam abater por nada,
decididas por natureza.
Não sei até onde ele quer chegar com essa conversinha fiada, mas não
posso dar muito papo para esse cara, a beleza dele me deixa aérea em certos
momentos, e isso não é nada bom. Não quero que ele sequer desconfie sobre
isso.
— Sabe... confesso que será muito difícil te ver desfilando na empresa
tão... — olhou para o meu corpo, mordendo o lábio inferior em seguida. —
Magnífica!
Sorri e cruzei meus braços.
Galanteador nem um pouco...
— Não tenho culpa se a minha beleza te incomoda.
— Incomodar?! — gargalhou alto. — É justamente o contrário, e por
isso ainda está aqui.
— Como é?!
— Eu te demitiria se não atendesse minhas expectativas.
Fechei um pouco meus olhos, não acreditando no que esse cara estava
falando.
— Espera um pouco... você está querendo dizer que se eu fosse feia ou
algo do tipo iria simplesmente... me demitir sem mais nem menos?
— Não é bem assim... — Desviou os olhos, encarando o nada por certo
tempo. — Quer dizer, na verdade é isso mesmo! Gosto de observar a beleza,
onde quer que eu esteja. — Pegou uma maçã que estava em cima da sua mesa
e mordeu, em seguida colocou seus pés sobre a mesa.
Não há dúvidas, esse homem é um idiota que se acha um Deus. Nunca
pensei que poderia pensar isso, mas estou com saudades de Daniel!
— O que é que você está pensando? Pode falar na minha cara!
Se ele soubesse o tanto de merdas sobre ele que rondam a minha cabeça
eu seria demitida hoje mesmo, mas é melhor ficar quieta.
— Acho que isso não é da sua conta!
— Bem esperto da sua parte. — Levantou- se deixando o restante da
maçã em sua mesa. — Você deve me achar um babaca idiota, não é?
Acho que pela primeira vez ele falou algo que concordei.
— Talvez.
— Bom, deixa eu te falar uma coisinha... — Se aproximou, ficando a
centímetros do meu rosto. — Eu sou um babaca idiota! Mas infelizmente
para você, Luigi me contratou porque sou o melhor.
— Será?! Trabalhei com Daniel Falcão, e até hoje ele é o melhor CEO
que...
Merda!
Parei de falar quando me dei conta do nome que mencionei, e nem
preciso dizer o quanto sua face tornou-se furiosa ao ouvir o nome.
— É melhor tomar bastante cuidado! Vai falar na minha cara que meu
rival é melhor que eu? — O homem se aproximou mais um pouco,
praticamente encostando seu rosto irado ao meu.
— E- eu...
— Calma, é uma brincadeira.— Seu rosto se suavizou e logo ele pousou
suas mãos em meus ombros. — Mas vou te dar um aviso de leve. — Chegou
pertinho e sussurrou no meu ouvido, o que fez com que um tremor se
irradiasse pelo meu corpo. — Daniel é uma criança se comparado a mim,
porque ele apenas fala o que pensa doa a quem doer, já eu tenho outros
meios, e se quiser reduzo a pessoa a pó e ela nem desconfia, então melhor
escolher com cuidado o que vai falar, gracinha.

A semana de trabalho me deixou esgotada. Literalmente.


— Tá pra nascer alguém mais preguiçoso que aquele Chewbacca
gostoso — Lenna, uma das meninas que trabalha na empresa disse ao passar
do meu lado.
— Concordo — disse, rindo desse novo apelido que deram para o CEO
traste.
Eu trabalhei feito um camelo para tentar de alguma forma auxiliar
Victor Hugo, mas tudo estava ruim no seu ponto de vista.
Além do infeliz não fazer nada, ainda preciso ouvir que o estou
decepcionando. Para piorar mais um pouco, houve dois momentos em que fui
à sua sala e ele estava dormindo.
Dormindo!
Sem condições contratar um cara como ele para ser o CEO de uma
empresa tão grande como a GCR Turismo, ainda não sei o que Luigi tinha na
cabeça para fazer algo assim.
— E ele ainda sai nas terças e quintas duas horas antes do expediente. É
muito fácil trabalhar como ele — falou novamente.
Não sei o motivo de ele fazer isso, mas nas terças e quintas ele sai da
empresa às 16h, impreterivelmente. Acho que é a única hora em que ele é
pontual, porque seu horário de chegada é um caos. Já o vi entrando na
empresa 12:15h, e levemente embriagado, porém não disse a ninguém.
Apesar de vários pedidos direcionados a mim, não o vi de forma
corriqueira nessa semana. Ainda assim, hoje preciso resolver algumas
questões urgentes com ele, e não estou com um bom pressentimento.
— Não temos outra opção a não ser aceitar, amiga — falei.
— Sim, infelizmente.
Voltei para o meu setor e quando abri a caixa de e-mail uma raiva
descomunal se apossou de mim.
Não... esse idiota só pode estar brincando com a minha cara!
Ele me pediu incontáveis documentos para hoje, e com toda a certeza
não teria tempo para tal. Além do que, tenho mais serviços para fazer e nem
repassando para a minha equipe conseguiria terminar.
Resolvi tomar uma atitude e minutos depois já estava em sua sala, com
os braços cruzados.
— O que houve, gracinha? — perguntou, e pela primeira vez ele parecia
estar concentrado no trabalho, porque digitava freneticamente no computador
em sua frente, o que realmente é um milagre, preciso destacar.
— Seu e-mail — fui direta. — Tenho outros trabalhos, isso que me
mandou foi muito em cima da hora, meus serviços estão acumulados, e...
— E eu com isso? Você está aqui para trabalhar.
Filho de uma...
Não vou xingar a mãe dele, ela não tem culpa de ter um filho tão
imbecil!
— Sim, estou aqui para trabalhar, e você? Veio trabalhar em uma
empresa de turismo justamente por ser um turista? — retruquei, já no limite
da minha paciência.
— Luzia...
— Ou veio para a GCR ficar com os pés em cima da mesa, sair mais
cedo e só repassar o seu trabalho para nós? E entenda de uma vez por todas:
Não é LUZIA, merda! É Luiza, LUIZA, deu para entender?
Não aguentei e falei o que estava entalado em minha garganta.
Esse cara não fez absolutamente NADA desde o primeiro dia em que
colocou seus pés aqui.
Enquanto Natanael vivia atolado de serviço, e em alguns momentos saia
da GCR por volta das 21h, esse bosta só fica brincando com um os inúmeros
cubos mágicos que possui.
Ele é um zero à esquerda!
— Uma curiosidade interessante: ontem mesmo eu resolvi um cubo
mágico sem olhar para ele em 1 minuto. Foi o meu recorde, sabia?! — abriu
um largo sorriso, me deixando mais puta ainda.
Ele realmente muda de assunto quando lhe convém. Demente!
— Isso não me interessa.
— Mas me interessa! Deixe-me explicar uma coisa, gracinha: faça o seu
trabalho, pelo qual você é muito bem paga para fazer, e me esqueça um
pouco, não sou um homem que gosta de ser questionado. Meu cargo é
superior ao seu, se alguém deve satisfações aqui, é você a mim e não o
contrário.
— E eu não recebo para trabalhar em casa, e foi o que fiz nos últimos
dias. Então, se quer o trabalho bem feito, ou faça uma parte ou não vou me
responsabilizar pelo que faltar. — Cruzei os braços.
— Anotado! — Bocejou e olhou para o lado esquerdo, admirando o
ambiente. — Acha que vai chover hoje? O clima aqui está diferente do que
me acostumei...
O quê?! Inacreditável!
Eu não tenho nem palavras para expressar o quanto estou puta da vida.
Posso dizer que esse é o primeiro homem que desperta tantos sentimentos
ruins em mim, que a vontade de gastar meu réu primário com ele é absurda.
Ele pode ser gostoso o tanto que for, mas suas atitudes o tornam um homem
babaca pra caralho!
Novamente respirei fundo, estava precisando de um ar, mas ainda
preciso falar algo, e tenho certeza de que ele nem deve estar sabendo, já que
essa pessoa não se preocupa com porcaria nenhuma!
— Não sei se está ocupado o suficiente fazendo nada, mas amanhã terá
reunião, e será você quem irá ministrá-la — caçoei, mas ele nem sequer
mudou o semblante.
— Passe para outro! Odeio reuniões.
Imaginei.
Fechei meus olhos e respirei mais uma vez.
— Essa reunião foi marcada para as pessoas te conhecerem melhor.
Como outra pessoa irá fazer isso, se é você quem irá se apresentar?
— Sei lá, se vira! Peça para alguém pesquisar sobre mim, sou um livro
aberto. Me surpreenda, gracinha!
— Victor Hugo...
— E, pensando bem, acho que vou me divertir. Nunca fui a uma reunião
onde alguma pessoa falou de mim na terceira pessoa. — Olhou para mim
maravilhado ao abrir os braços.
— Jura?! — debochei.
— Sim. Eu falo de mim na terceira pessoas às vezes, não que se importe,
mas é bom enaltecer nossas próprias qualidades já que dificilmente as
pessoas nos elogiam.
— Por que será, né? — usei de cinismo para questioná-lo.
— O fato é que não gosto muito de ouvir as pessoas, sabe? E nem me
importo com o que pensem ou deixem de pensar quando meu nome está
envolvido. Elas sempre são más quando falam sobre mim...
Victor Hugo forçou uma cara triste, mas eu sabia que era fingimento,
pois logo em seguida abriu um grande sorriso.
Eu realmente acho que ele tem problemas mentais. Sérios problemas
mentais, diga-se de passagem.
Não falamos nada durante um tempo. Eu nem tinha o que falar.
Além de mudar de assunto quando estou falando sobre serviço, ele usa
de cinismo em basicamente tudo, e é praticamente impossível dialogar com
uma pessoa assim.
— Enfim... boa sorte em encontrar alguém para ministrar a pequena
reunião, do contrário, seu último dia de trabalho será amanhã.
— Como é?! — falei, incrédula, mas dessa vez seu cenho estava
bastante intimidador, e não vi traços de brincadeira no mesmo.
— Não gosto de repetir as coisas, e você entendeu bem. — Cravou seus
olhos nos meus. — Será necessário escolher alguém da empresa que não seja
você para essa apresentação, e espero que seja uma sábia decisão, pois seu
emprego dependerá exclusivamente disso!

Não consegui trabalhar focada durante o restante do dia.


A palavra demissão martelava constantemente em minha cabeça, e não
sabia qual decisão tomaria. Eu precisava de uma pessoa que entendesse sobre
a vida dele, mas quem dentro da GCR sabe a fundo sobre Victor Hugo?
No fim do meu expediente fui à sala de Renato. Ele é auxiliar
administrativo e trabalha em conjunto com Carlos, o gerente administrativo.
Nas oportunidades que conversamos notei o quanto ele é desenvolto
para falar. Não vi um nome melhor.
Meu queridíssimo chefe sabia que me esforçaria ao máximo para não
perder meu emprego, e por isso está fazendo com que eu terceirize a escolha.
Babaca!
Conversei por cerca de trinta minutos com Renato, e expliquei a minha
situação. Praticamente implorei para que ele me ajudasse, já que não era
obrigação dele esse trabalho, pois além de apresentar amanhã pela manhã, ele
precisava estudar a vida do traste o restante da tarde e noite.
— Não se preocupe. Vou te ajudar.
Suspirei aliviada.
— Obrigada, Renato. Você nem sabe o quanto isso é importante para
mim.
Depois que saí da empresa fui direto para a casa de Beatriz.
Enquanto dirigia imaginei vários cenários que poderiam ocorrer amanhã.
Na maioria deles eu estaria na rua!
Não sou uma pessoa pessimista, mas é inevitável pensar no pior, já que
o Chewbacca do mal é um enigma ambulante, e nunca sei o que ele pode
estar pensando.
Depois que estacionei meu carro, logo toquei o interfone.
5 vezes!
Quando a porta se abriu notei Daniel, um pouco vacilante, e ao notar seu
rosto, percebi que eu o havia acordado.
— Beatriz não está em casa, e...
— Não me importa! — fui entrando. — Meu assunto é com você!
— Comigo?! — se assustou. — Ah, já até sei... — suspirou.
— Seu amigo CEO é um merda! Babaca! — reforcei ao me sentar no
sofá, sendo acompanhado por ele.
— Primeiro: ele não é meu amigo; e segundo: eu disse que ele poderia
ser difícil.
— Difícil?! Seria bom se ele fosse só difícil, mas ele é impossível.
— O que ele fez?
Contei a ele tudo o que me fora pedido, bem como a ordem de outra
pessoa apresentá-lo, e no fim Daniel não parecia surpreso.
— Considero isso leve vindo dele, prepare-se para coisas piores se
conseguir manter seu emprego.
— Piores?! Não acredito! — bufei. — Minha situação está tão crítica
que estou com saudades de você! Isso mesmo, de um tirano como você! Será
que agora consegue entender o meu nível de desespero?!
Daniel sorriu.
— Eu posso te ajudar em algo, minimamente, mas posso.
— Que seria...? — me interessei.
— Uma dica, faça algo que deixe ele fora da sua zona de conforto.
Victor Hugo gosta de jogos, de se sentir desafiado. Acho que percebeu que a
maior parte do tempo ele está entediado, mas quando alguém o desafia em
algo...
— Mas isso seria pior, não?
— Não se você estiver no controle da situação — me lançou um
sorrisinho venenoso. — Dê o benefício da dúvida a ele. Agora, se não quiser
fazer isso, não duvido nada que ele cause a sua demissão propositalmente. Ou
até mesmo faça você se demitir.
— Eu nunca me demitiria!
— Luiza... eu já disse, você não conhece ele como eu o conheço. Foque
na apresentação amanhã. Se tudo correr bem, faça o que eu te disse e esteja
um passo à frente dele. Victor Hugo odeia perder ou ficar no escuro, e essa
será a sua vantagem ao lidar com ele...
“Não basta somente entender sobre a dinâmica de uma empresa, você
deve ir além se deseja bater de frente com alguém gabaritado... ”

Confesso que para garantir que tudo saísse da melhor maneira também
precisei fazer pesquisas a respeito da vida do grande Deus CEO ontem pela
noite. Tive medo de ele direcionar alguma pergunta para Renato e não ser
respondido. Se isso acontecesse eu poderia estar muito encrencada.
A GCR em peso estava na sala de reuniões, pelo menos as pessoas com
cargos maiores. Contei no mínimo umas 100, mas ainda faltava alguém...
Eu sabia que marcar uma reunião para as 9h não seria uma boa ideia,
ainda mais sabendo da “pontualidade” de Victor Hugo.
— Aposto que ele não chega no horário — Juliana disse.
Olhei em meu relógio e são 8h58m.
— Também acho que não — sorri, tentando disfarçar meu nervosismo.
— Calma, amiga, vai dar tudo certo, e...
Juliana parou de falar e seu rosto tornou-se um pouco mais sério. Ao
perceber em seus olhos a direção que ela olhava, logo fiz o mesmo e... vi que
ele chegou.
Adiantado!
— Bom dia, pessoal! — falou, e algumas pessoas responderam.
— Vocês estão muito desanimados. Bom dia, pessoal! — dessa vez
praticamente gritou e quase todos em coro disseram ao mesmo tempo: —
Bom dia!

Victor Hugo entrou e foi passando pelas pessoas, com um sorrisinho


cínico no rosto, ficando na frente de todos. Logo em seguida pegou o
microfone.
— Agradeço a todos por disporem um tempinho do trabalho para
estarem aqui. Como disse para Luiza ontem pela tarde, estou com um grande
incômodo em minha garganta, doente e com 39° de febre. Estou custando a
terminar essa simples fala para vocês terem ideia. Acho que eu conseguiria
falar uns 5 ou 10 minutos no máximo.
Meu Deus... que cara dissimulado!
Se eu tinha dúvidas de que ele era bipolar, agora tenho a confirmação
diante dos meus olhos.
— Disso você não me falou, amiga!
— Claro! É mentira! — A fuzilei com meus olhos.
— Ahh...
— Tenho certeza de que a pessoa escolhida desempenhará um bom
papel falando sobre mim, não é, Luzia? — continuou seu discurso inventado
e voltou-se a mim e logo dei meu sorriso mais falso acenando a cabeça em
seguida.
Esse cretino burro troca meu nome de propósito só para me irritar.
Se eu fosse a dona disso aqui ele estava ferrado!
— Bom, vamos acabar com isso logo.
Depois que ele deixou o microfone em cima da mesa, Renato logo se
levantou e foi em direção ao pequeno palco, e Victor Hugo veio para mais
perto de mim.
— Qual é o seu nome? — perguntou para minha amiga.
— Juliana.
— Eu poderia sentar-me no seu lugar, Juliana? Preciso conversar com
Luiza.
— Ah, claro. — Levantou-se imediatamente.
— Muito obrigado — com um lindo sorriso ele agradeceu, sentando-se
logo em seguida.
Minha vida se tornou uma tragédia ambulante nos últimos dias graças a
ele.
— O que deseja?
— Nada. Ficar ao seu lado. Vim analisar seu comportamento e ver se
está nervosa com a possibilidade de deixar a empresa, além disso, não
perderia a oportunidade de admirar sua beleza.
Sorri fechando os olhos em seguida.
— Podemos ter alguns problemas por eu ser um babaca na maior parte
do tempo, mas como já disse anteriormente, você é linda, a mulher mais
bonita na empresa, e não me canso de te olhar, sabia?
Fixei meus olhos nos dele, mas dessa vez havia algo diferente ali. Não
percebi deboche, tom de superioridade ou até mesmo tentativa de me
intimidar, já que parecia uma coisa genuína, e fiquei confusa por ele falar
assim.
— Obrigada — disse, o analisando por um curto período.
O problema foi que ao olhá-lo para falar isso prestei atenção em alguns
detalhes, bem como o cheiro que ele emanava, seus olhos, boca, a tatuagem
perto do seu pescoço, a barba por fazer...
Se controle! Seu emprego está em jogo e ele não é confiável...
— Então... que comece o show!

Renato começou falando um pouco da empresa, do quanto a GCR


Turismo era sortuda em ter Victor Hugo Avelar como CEO.
Acho que isso o deixou feliz, já que percebi em seus olhos certa alegria.
— Victor Hugo Avelar trabalhou em 25 empresas dos mais variados
ramos. Conseguiu êxito em todas, e até mesmo no seu último desafio, o que
julguei o mais difícil, conseguiu encontrar uma solução, praticamente
triplicando os rendimentos da empresa em poucos meses.
Palmas!
As pessoas olharam maravilhadas para ele, e... eu não sabia o que
pensar.
— Esse cara é bom, não é? — questionou.
— Sim. Renato sabe como ninguém...
— Não ele, mas a pessoa de quem ele está falando. — Deu uma
piscadinha ao me interromper.
Realmente...
Certas pessoas têm a autoestima elevada, e ele superou a minha, com
toda a certeza do mundo.
— Agora fale da minha vida fora das empresas que trabalhei! — gritou,
cruzando os braços.
— Como?! — Renato claramente se assustou com sua afirmação.
— Diga sobre as polêmicas, brigas e processos que rondam a minha
vida.
— Eu... não acho uma boa ideia.
— Quem deve achar isso sou eu. Anda logo e não enrola! — bradou.
Percebi o exato momento que Renato me olhou e logo assenti meneando
a cabeça.
Se ele quer assim...
— Alguma específica?
— Me surpreenda, Roberto.
Ele erra os nomes das pessoas para provocá-las, e isso agora está bem
claro para mim. Pensei que era algo dele, mas não, ele não o faz sem um
motivo bem definido em sua mente.
Esse homem é comprovadamente maluco!
Agora sim essa apresentação está se tornando interessante, e vou me
certificar que seja um show à minha altura.
— Ainda estou esperando, Roberto.
— Li algumas notícias dizendo que você constantemente chegava
embriagado nas empresas em que trabalhou.
— Sério?! Onde?! Quando e de qual empresa estamos falando?!
Todos estavam bastante incrédulos ouvindo isso, há de se destacar, mas
eu não me importava. Essa empresa precisa de alegria, energia nova, assuntos
que serão lembrados pela eternidade.
— Na IBM Confecções. Um dia você chegou na empresa com uma
garrafa de whisky vazia e beijou a esposa do dono... na frente dele!
Caralho!
Dessa nem eu me lembrava direito. Eu devia estar bem chapado.
— Muito leve! Me conte algo mais... forte! — Levantei-me e coloquei
as mãos nos bolsos o encarando de forma divertida.
— Eu me recordo que...
— Não comece assim — o interrompi e dei alguns passos em sua
direção. — Não use a palavra recordar, você não estava lá para começo de
conversa, diga: eu li que...
Renato estava incomodado e a intenção era essa.
— Eu li que demitiu 90% dos funcionários da JBT Informática, isso
gerou vários processos, e a empresa perdeu 10 milhões em processos, já que
vários ganharam a causa depois das demissões.
— Bom, isso foi bem lembrado — meneei o indicador de acordo, e logo
em seguida passei a mão pela minha barba.— E o que aconteceu depois com
a empresa?
Ele olhou para Luiza e logo depois para mim.
— Seu foco é em mim, e não nela! Se quer voltar para a sua casa com
um emprego, preste atenção exclusivamente no homem em sua frente, que no
caso sou eu, entendeu?
— Sim.
— E então... cadê a resposta da minha pergunta?
— A empresa perdeu esse valor, mas nos três meses seguintes eles
ganharam mais de 50 milhões de reais, e isso nunca tinha acontecido.
— Uau! — Olhei para a plateia. — Esse CEO é bom demais, não
acham? Ele demitiu 90% do quadro de funcionários e trabalhou com 10% e
ainda assim fez essa... mágica! O que acha disso, Roberto?
— Eu acho incrível!
— Temos a mesma opinião! — sorri. — Mais alguma coisa que queira
destacar? Me surpreenda dessa vez, quero um assunto novo e polêmico.
Renato desviou seu olhar por alguns segundos, claramente pensando em
qual assunto abordar, e logo voltou-se a mim, com a expressão tensa.
— Você fingiu ser amigo do presidente da Tech Motors, gravando tudo
que falaram dentro da empresa, e depois deu um golpe nele, fazendo com que
ele perdesse tudo. A empresa veio a falência em seguida — disse por fim.
— Termine! — ordenei.
— Mas eu disse tudo.
Suspirei e cheguei mais perto.
Estava cansado de gritar e peguei o microfone da sua mão.
— Estranho... qual foi a primeira coisa que falou sobre mim quando
começou essa reunião?
Renato pensou por um tempo, mas não emitiu som algum dos seus
lábios.
— Eu...
— Vou relembrar para você, meu amigo: Victor Hugo Avelar trabalhou
em 25 empresas dos mais variados ramos. Conseguiu êxito em todas, e até
mesmo no seu último desafio, o que julguei o mais difícil, conseguiu
encontrar uma solução, praticamente triplicando os rendimentos da empresa
em poucos meses — sorri de forma vexatória. — Então como você me
explica dizer a todas essas pessoas que levei uma empresa a falência? Parece
uma contradição bem séria!
— É que... você reergueu a Tech Motors antes de ela ir à falência, e...
— Então porque caralhos disse que levei ela a falência, porra?! Você é
burro ou o quê?!
Ninguém falou nada.
Olhei para a multidão, e eles pareciam assustados. Pelo jeito sou demais
para a cabecinha pequena deles. Então, eu mesmo terei que explicar algumas
coisas...
A reunião tomou um rumo que não poderia imaginar.
Victor Hugo resolveu falar, e não contava que isso pudesse acontecer.
Agora, se tratando de um homem imprevisível que nem ele, posso dizer
claramente e com toda a certeza que não sei o que esperar.
Depois da bronca que Victor Hugo deu no Renato, ele analisou
metodicamente a sala de reuniões durante alguns segundos.
— Você aí...! — apontou para uma pessoa aleatória. — Qual o seu nome
e a palavra que mais odeia na sua vida?
— Sou o Josué, a palavra que mais odeio é morte.
— Hmm... morte.
Victor Hugo olhou para o seu lado esquerdo, e apontou o indicador para
uma mulher que estava perto dele.
— Seu nome e palavra que mais odeia.
— Me chamo Margarida e a palavra que mais odeio é sexo — disse com
convicção.
— Caralho! Por essa não esperava, me fez até perder o raciocínio.
Sorri e logo percebi que todos na sala fizeram o mesmo.
Ainda não sei como ele consegue a proeza de deixar as pessoas tensas e
relaxadas em um espaço tão curto de tempo.
— Não sei como vou dormir depois de ouvir o que Margarida disse, mas
tudo bem... sexo — sorriu e passou certo tempo andando de um lado a outro.
— Se eu fizer essa pergunta a vocês, todos terão uma opinião diferente, salvo
algumas exceções.
Observei o semblante de Victor Hugo, e ele esbanjava confiança. Será
que ele já havia preparado tudo?
Acho que não.
Não teria como ele saber o que Renato diria.
— Querem saber a palavra que mais odeio?
Olhou para a plateia e todos pareciam atentos, mas não responderam.
— Eu fiz uma pergunta, caralho!
Disse tão alto que sua voz literalmente pareceu ter “entrado” no meu
cérebro.
— Sim! — disseram quase instantaneamente.
— Então... a palavra que mais odeio se chama: roubo! — parou,
admirando o rosto de cada um, principalmente o meu. — Odeio também as
derivadas dela, que fique claro. Posso ter todos os defeitos do mundo, entre
eles trabalhar de ressaca, bêbado, de chinelo, enfim... estou pouco me lixando
para a opinião de vocês sobre minha vida pessoal!
Onde esse homem está querendo chegar?
— Voltando ao assunto, o exemplo que foi dado é verídico. Eu
realmente gravei todas as minhas conversas com Ronaldo, o presidente da
Tech Motors. Eu fiz de tudo e mais um pouco para ocupar o cargo de CEO da
empresa na época, e sabem o porquê? Porque eu queria desmascarar ele
pessoalmente!
— Como assim? — ouvi alguém do fundo perguntando.
— Até que enfim uma alma viva me questionou alguma coisa. Qual o
seu nome?
— Demétrio.
— Pois muito bem, Demétrio... para quem teve a curiosidade de
pesquisar sobre mim, sabe que gosto de analisar o mercado, vi que havia algo
errado nessa empresa específica, e fiquei tão interessado que cheguei ao
ponto de me oferecer para trabalhar lá com um salário abaixo do normal. O
que eu posso dizer sobre mim? — abriu um sorrisinho. — Eu gosto de
desafios e estava entediado!
Então Daniel tem razão.
O problema é que também estou percebendo o que ele disse sobre a
inteligência dele, e agora posso ver uma amostra dela.
— Então, vou deixar claro aqui. A empresa não foi à falência, ele sim!
Eu recuperei a empresa, centavo por centavo!
Novamente ele desfilou pela sala, porque meu chefe não anda, ele
praticamente desfila em um tapete vermelho.
— Percebam o quanto é estranho... Ronaldo está preso porque roubou e
estou rico porque não roubei.
Seus olhos passearam pela extensão da sala e sua postura ficou mais
rígida, bem como o seu rosto.
— Então, vou deixar claro: eu sou a porra do CEO da GCR! E se eu fui
contratado mesmo fazendo todas essas merdas, é porque sou excelente no
que faço, o melhor. Então, deixarei um aviso para todos vocês: não pensem
que estão acima de mim, e muito menos que meu passado irá ajudar alguém.
Parem de se preocupar comigo e cuidem do trabalho de vocês. Outra coisa...
Ele percorreu a sala com os olhos, nos olhando atentamente.
— Se eu descobrir que algum de vocês está desviando um mísero
centavo dessa empresa ou até mesmo ajudando um terceiro. podem ter
certeza de que farei a pior coisa para essa pessoa! Garantirei que nunca mais
trabalhe em uma empresa sequer na vida. Quando ela ou ele estiver em sua
casa, eu estarei lá. No banho, eu estarei lá. Na porra dos pensamentos, eu
definitivamente estarei lá. Então, é bom refletirem bem sobre o que eu falei.
Fui claro o suficiente?
— Sim — algumas pessoas responderam.
— Não ouvi. Fui claro o suficiente?
— Sim! — todos nós dissemos.
— Excelente! — pontuou — Agora que falei tudo que eu queria... vamos
cear todos juntos! — abriu um largo sorriso entregando o microfone para
Renato, o abraçando de lado.
Eu realmente não sei o que pensar sobre esse homem...
“Medidas drásticas são necessárias para ambos os envolvidos...”

O assunto mais comentado desde que a semana começou foi a


apresentação de Victor Hugo, ou melhor, seu showzinho particular.
Algumas pessoas gostaram daquela reunião, outras já ficaram
preocupadas em ter alguém tão instável no comando da GCR. Já eu... não sei
o que pensar, sinceramente.
É claro que ele parece uma pessoa que não está nem aí com nada, como
se a empresa não fizesse diferença nenhuma, contudo ao mesmo tempo vejo
algo diferente nele, o quanto ele parece saber e entender os passos de cada
um aqui, bem como o que precisa ser cobrado para que as pessoas acordem.
Como Daniel disse, ele é considerado um dos CEO’s mais inteligente do
país, e percebo que ele usa uma máscara, não revelando de fato o quão
esperto e perspicaz ele pode ser.
— Alguma urgência nesse mês? — perguntou.
— Sim.
— Diga rápido. Estou sem tempo, vou sair em alguns minutos.
Esqueci que hoje é quinta-feira e ele sai mais cedo da empresa.
Que cara estranho...
— Luigi precisará que faça uma apresentação em uma semana. Você
precisará falar da empresa em geral, apresentar projetos, falar das finanças,
enfim... como é o CEO, precisa estar ciente do que acontece em todos os
setores, então, sugiro que estude o material que preparei. — Coloquei uma
pasta em cima da sua mesa, e logo ele me olhou bastante desconfiado.
— Uau! Mas que funcionária exemplar! — caçoou, colocando as mãos
atrás da cabeça, cruzando os dedos, me fitando atentamente.
— Sim, eu sou! — assenti. — Estou aqui para trabalhar, e é isso que eu
faço — complementei, claramente tirando sarro, já que ele não fazia o
mesmo.
— Como disse, não estou com muito tempo essa semana, então leve
embora seja lá o que é isso. — Pegou a pasta com desprezo e me entregou.
— Acho que ainda não entendeu. Sem isso você não vai conseguir
apresentar nada. São dados que coleto há meses, e ninguém teve acesso
ainda.
— Me entregue um dia antes.
Sorri, fechando meus olhos em seguida. Acho que ele não entendeu, mas
vou tentar explicar mais uma vez...
— O dossiê contém mais de 100 páginas. Se tentar lê-lo um dia antes
não será uma boa ideia. Tem alguns termos técnicos, bem como alguns
gráficos que precisará estudar antes da apresentação.
— Não tô nem aí! Leve essa porcaria embora, já disse! — falou, sequer
me olhando.
Minha paciência estava acabando e logo fui para mais perto, jogando o
documento em sua mesa.
Por alguns segundos ele me olhou sem entender muita coisa, mas em
seguida se levantou, me encarando profundamente.
Pensei que ele iria me dar uma bronca ou algo similar, mas notei seu
rosto tomando outra forma, e um sorrisinho debochado foi se abrindo
devagar.
— Luiza... não venha tão perto, posso não me controlar!
— Ah, é?!— falei, cética, nitidamente o desafiando.
Ele deu um passo, ficando a centímetros de mim.
— Isso mesmo. Sabe como é, né?! Adoro uma mulher brava, e posso
não controlar meu pau, ele costuma ter vida própria na maior parte do tempo.
— Ah, tem? — Cruzei meus braços.
— Sim, e com uma mulher tão gostosa em minha frente posso esquecer
que estou na empresa e... você sabe o que vem em seguida. — Tocou
levemente meus cabelos, e logo sorri.
Esse sinal fez com que eu chegasse um pouco mais perto do seu corpo.
— Você me deseja?— questionei com o rosto mais safado que consegui.
— Vamos deixar de jogos, porque isso está na cara — foi sucinto. —
Essa sua carinha de safada só faz com que eu fantasie mais em te ver sem
essas roupas… — Passou o polegar nos meus lábios.
— Victor Hugo...você não sabe do que sou capaz — tentei adverti-lo de
alguma forma.
— Por que não me dá uma amostra? — colou seu corpo no meu.
— Tem certeza?
— Claro, gracinha — mordeu o lábio inferior após proferir tais palavras.
— Com todo o prazer...
Minha boca foi em direção a sua, e quando percebi seus olhos fecharem,
logo fui com a minha mão direita em direção ao seu pau, e segurei bem firme
suas bolas, fazendo com que ele encolhesse instantaneamente, devido à força
que usei.
— Luiza... — arfou.
— O que foi?! Vai me demitir...?
Apertei com mais intensidade suas bolas, e seus olhos ficaram turvos.
— Tire essa mão daí agora!
— Estranho... você não está se parecendo em nada o homem cretino e
debochado que me acostumei a ver. O que houve?— Fiz questão de reparar
bem em seus olhos, e a cada vez que ele tentava se remexer, mais eu apertava
suas bolas.
— Por favor...
— Vou te dar um avizinho, meu amor: só encoste em mim quando eu te
der liberdade para tal. Fui clara?
— Luiza... — repetiu, com os dentes trincados.
— Fui clara ou não?!
— Clara como água cristalina! — falou com certa dificuldade.
— Ótimo!
Tirei a mão da região do seu pau, e logo ele fechou os olhos, aliviado.
— Você me pegou desprevenido, isso não vai acontecer novamente. —
Se recompôs e nem parecia que estava quase implorando para que eu tirasse
minha mão daquela região.
— Não duvide de mim — retruquei.
— Ah, gracinha. Eu duvido sim, e tem outra coisa que tenho certeza —
chegou mais perto com o ar vitorioso e eu não entendi nada. — Ainda iremos
nos divertir bastante, e não me importo se será na sua ou na minha cama.
Esse homem é inacreditável...
— Sabe... — fui para mais perto e mordi meu lábio. — Não tenho
dúvidas disso, mas você precisa saber de algo antes.
— Hm. O quê? — perguntou-me dando um sorrisinho sarcástico.
Ele realmente não sabe com quem está mexendo.
— Eu sou um pouco... como vou dizer... — repensei minhas próximas
palavras. — Bruta, sabe?! E às vezes posso extrapolar no quesito prazer.
Notei certa confusão, e tratei de me aproximar mais.
— Que tal me explicar melhor — adotou uma postura séria.
— Eu não controlo minha boca, e isso já me gerou alguns probleminhas
— sussurrei perto do seu ouvido. — Então, se por um acaso algum dia você
tiver o prazer de estar na minha cama, ou como você mesmo disse, na sua,
espero que eu esteja bem comigo mesma, não quero machucar seu pau, meus
dentes podem fazer um estrago quando assim desejo...
— É ótimo saber disso. — Lançou-me uma piscadela e logo tomou
distância de mim, parecendo acuado.
— Viu?! Foi uma conversa bem esclarecedora — falei, e logo virei
minhas costas, confiante pela minha vitória.
Agora tenho certeza de que esse infeliz não irá me assediar mais...
— E quem disse que nossa conversa acabou? Eu não terminei de falar,
gracinha.
Estou sendo testado... e gostando.
Luíza não é uma mulher delicada, longe disso, e sei que ela não está
blefando. Consigo observar nela características que me fazem crer que ela é
uma ótima jogadora, e finalmente eu terei um belo passatempo na empresa.
— Dizer isso não me afeta. Minhas intenções continuam as mesmas —
cruzei meus braços, analisando seu corpo de forma demorada.
— Palavras são palavras, mas na hora da verdade você pode ter uma
surpresa.
— Isso só me mostra que você está tão afim quanto eu.
— Posso estar. — Luiza deu de ombros. — Mas geralmente não saio
com babacas que se acham Deus. E pelo visto o esplendoroso Victor Hugo
Avelar se encaixa exatamente nessa descrição.
Realmente gostei muito de conhecer a Luiza...
— Tenho qualidades, você só não as descobriu... ainda.
— Veremos. — Cruzou os braços. — E então, tem algum serviço para
mim?
— No momento não. Mas leve a pasta.
Com o rosto furioso ela pegou o dossiê.
— Se não precisa dos meus serviços, com licença — disse, e logo saiu
da sala, rebolando aquela bunda gostosa e claramente me provocando.
Acho que me apaixonei pela Luiza...
Não, é claro que não. Mas, por outro lado, esse jeito rebelde e arisco
dela está mexendo com a minha cabeça, e se antes eu tinha vontade de levá-la
para a cama, agora tenho absoluta certeza dos meus próximos passos. Só
preciso usar minha inteligência ao meu favor, e sei exatamente o que e como
fazer.
Pobre, Luiza...
Minha cama ficou pequena para o tanto de sono que se apossou de mim.
Acordar determinados dias é um martírio!
Não que eu queira morrer, estou deixando claro.
Desculpa, Deus!
Fiz minha higiene pessoal e fiquei me admirando no espelho.
— Eu sou a mulher mais gostosa e bonita do planeta! — falei, e meu
espelho não disse o contrário, então ambos concordamos. Ai dele se não
tivesse a mesma opinião que a minha.
Apesar de ter uma casa pequena, com três cômodos somente, acho o
ideal para uma mulher solteira. Geralmente minhas festinhas são no meu
quarto. Nem tenho muita frescura com isso, quando quero liberar dou até na
rua. Pessoas mais próximas sabem...
Depois que me arrumei e fiquei mais bonita do que já sou, não perdi
tempo e fui trabalhar. Não é porque meu chefe gosta de chegar atrasado que
farei o mesmo. E por falar nele...
A cada dia que passa estou ficando mais preocupada.
Victor Hugo está me ignorando dia após dia, e todas as vezes que levo o
documento que ele precisa estudar sou repelida de alguma forma. Tenho
certeza de que ele não conseguirá entender tudo a tempo antes da
apresentação, e de alguma forma isso sobrará para mim.
A apresentação será amanhã e ele sequer tocou nos documentos. Mas
eis-me aqui de novo em sua sala, insistindo para ser ouvida.
— A apresentação é amanhã — reforcei, mas ele sequer tirou seus pés
da mesa.
— E daí, gracinha?! Você parece um gravador falando: “a apresentação
é tal dia, você precisa estudar, precisa ler, precisa blá blá blá— falou
imitando minha voz e se divertindo.
Esse infeliz me testa, não tem lógica!
Como ele consegue me irritar tanto? Nem mesmo Daniel Falcão me
deixava tão puta com seus pedidos impossíveis.
— Vou te falar pela última vez — respirei fundo, irritada. — Você tem
que ler isso até amanhã, do contrário...
— Do contrário o quê?! — me interrompeu, e percebi certa rudeza em
suas palavras.
— Você não irá conseguir apresentar. Simples.
— Sabe o que farei hoje quando chegar em casa?
— Não, e nem...
— Vou beber! Muito! Bastante! Pra caralho!
— Eu acho que devia...
— Cuidar da sua vida — me interrompeu. — Faça o seu trabalho e eu
faço o meu.
— Victor...
— Fui claro?! — reforçou, elevando a voz.
Agora tenho certeza de que o problema dele é comigo, mas se ele quer
foder o seu próprio emprego, que o faça. Se quiser ser um irresponsável o
problema é exclusivamente dele. Eu vou cuidar da minha vida que ganho
mais...

— O gato comeu sua língua ou o quê? — Renata me perguntou e logo


voltei minha atenção a ela.
— Desculpa! Estava aérea.
— Percebi.
Hoje é quinta-feira e eu estava precisando beber.
Chamei Renata para contar algumas novidades, mas no fim das contas
acabei não falando nada com nada. Estou bastante preocupada com o
andamento da reunião de amanhã, e como Victor Hugo não pegou os
documentos da minha mão, prevejo que um desastre irá acontecer.
— Desembucha logo! Vou ter que dar uns tapas em você?! — Renata
falou e logo sorri.
— Coisa do trabalho. Meu querido chefe está me testando e fazendo
birra.
— Acho que devíamos arrumar um apelido bem carinhoso pra ele —
meneou sua cabeça para cima, pensando em algo.
— Que tal demônio?
— Não... precisamos de algo mais específico, que exemplifique o que
ele é na empresa.
Por alguns minutos me permiti pensar a respeito, mas logo desisti.
Nunca fui boa em arrumar apelidos para as pessoas, e não será agora que
irá acontecer.
— Já sei... — Seus olhos brilharam. — Estrupício!
Olhei por alguns segundos o seu rostinho angelical e desatei a rir.
Não sei se eu já estava sob o efeito das várias cervejas que tomei, mas
gostei de verdade do apelido.
— Você é um gênio do mal!
— Eu sei. E você tem sorte em me ter como amiga.
— Disso não tenho dúvidas. — Levantei meu copo e brindamos a isso.
Ficamos conversando por quase uma hora, e quando bati o olho em meu
relógio vi que já se passava das 22h.
Por hoje é o suficiente. Amanhã preciso estar preparada para qualquer
situação que o estrupício armar. Por mais que o conheça pouco, não duvido
nada que ele repasse essa apresentação para alguém, e do jeito que estamos
um com o outro, eu posso ser a escolhida.
— Vou te levar embora, meu bibelô.
Nem preciso dizer que ela fechou a cara instantaneamente, e essa era a
intenção. Provocar Renata era a oitava maravilha do mundo, e isso consigo
fazer com maestria. Independentemente disso nos amamos, e ela não vive
mais sem mim, já que devo ser a amiga mais desbocada dela, e isso é uma
qualidade ímpar.
Depois que pagamos a conta, fomos em direção ao meu carro, mas foi
quando vi o demônio em pessoa.
Victor Hugo Avelar...
— O que aconteceu? Você parece ter visto um fantasma — Renata
falou, e logo olhei para ela colocando uma das mãos em minha testa
preocupada.
— Aquele ali é o meu chefe.
— Onde?!
Apontei para o lugar que ele estava, e até mesmo Renata ficou surpresa.
— Não pode ser verdade...
— Mas é...
Victor Hugo estava sentado com as costas apoiadas na parede, e em sua
mão direita ele portava o Johnnie Walker Odyssey, um dos whiskys mais
caros que já bebi.
Ele parecia estar dormindo, já que seus olhos nem mexiam.
— O que vai fazer? — perguntou.
— Eu sei lá!
Lembrei-me instantaneamente da reunião do dia seguinte, e se antes eu
tinha dúvidas de que ele não conseguiria estudar tudo, agora tenho absoluta
certeza.
— Amiga... — falou, me analisando. — Seu chefe pode ser a pior
pessoa do mundo, mas ele precisa de ajuda, ainda mais sabendo dessa reunião
de amanhã e seu cargo estando em risco. Descubra onde ele mora e sei lá...
faça ele ir para casa. Eu peço um Uber e me viro.
— Desde quando é tão boazinha?
— Eu não sou — foi sucinta. — Estou preocupada com você e tudo que
conquistou na empresa, e claramente esse homem pode muito bem te foder
pelo poder que possui. Então... acho que entendeu meu ponto.
Pensei por alguns segundos nas palavras de Renata, e vi que ela tinha
toda a razão.
Victor Hugo é uma incógnita, mas um homem que pode me ferrar de
inúmeras maneiras, mas se engana ele que não lutarei pelo meu trabalho. Vou
ajudá-lo dessa vez, mas ele vai me dever uma...
Pode ter certeza, estrupício!
“Lidar com pessoas levemente embriagadas é desgastante... mas
igualmente engraçado.”

Não queria perder tempo e logo caminhei à passos largos na direção do


meu chefe, que ao me ver pareceu despertar, lançando-me um sorrisinho
satisfatório e debochado, em seguida, fechou momentaneamente os olhos
antes de novamente voltar-se a mim.
— Luiza... meu anjinho da guarda.
— Me poupe! Onde você mora?! — perguntei com impaciência.
— Nos conhecemos há pouco tempo e já quer conhecer minha humilde
residência...? — tentou se levantar e caiu.
Que idiota...
— Não estou para brincadeira, Victor Hugo! — falei mais alto, só que
ele não respondeu, nem ao menos se mexeu.
— Relaxa... tô acostumado.
— Acostumado com o que exatamente? — Cruzei meus braços,
tentando observar pelo menos um pingo de vergonha em sua cara, mas não
foi isso que vi. Além de tudo, minha pergunta foi ignorada.
— Não é nada — resmungou e logo tateou seus bolsos por alguns
segundos, em seguida começou a gargalhar.
— Cadê a sua carteira? — questionei, já que presumi que era isso que
ele procurava.
— Acabei de lembrar, dei ela para um mendigo — riu de forma
debochada e logo coloquei minha mão direita em meu rosto, perplexa.
— Qual o seu problema? Onde foi isso?
— Nem sei, tem taaaantos dias.
Fechei meus olhos, não acreditando no que estava prestes a fazer.
— Vou te ajudar a se levantar.
Fui para mais perto dele, e com muito custo o levantei, fazendo com que
ele escorasse no muro mais próximo.
— Onde está seu carro?
— Quê?
Disse perto do meu rosto e meu nariz pôde sentir o quão embriagado ele
estava.
— Carro! — repeti impaciente. — Aquela coisa que tem 4 pneus e um
motor, que normalmente dirigimos.
Ele não falou nada por alguns segundos, mas quando resolveu abrir a
boca...
— Já te disse que você é linda?
— Eu sei disso, meu bem. Não precisa me falar.
— Quando tá nervosa fica mais gata ainda — fez beicinho e cambaleou,
momentaneamente fechando seus olhos.
— Eu não sei se te deixo aqui ou se chamo o caminhão do lixo para te
levar! Mas vou fazer minha boa ação do século e vou te ajudar.
— Ninguém se importa comigo, não finja que você é diferente.
Pela primeira vez o tom de sua voz não se parecia de um bêbado, ainda
assim, ele não me fitava nos olhos.
— Mas eu me importo com as pessoas que precisam de ajuda, e
infelizmente você é o meu chefe para piorar ainda mais a situação.
Percebi o homem dando de ombros.
— Foda-se!
Não sei lidar com pessoas que enchem o cu de cachaça, e para ajudar
meu pavio é curto.
— Meu carro é aquele — apontou para um Maserati Branco no fim da
rua.
Acho que é um Quattroporte olhando de longe.
Sim, eu gosto de carros, e para algumas coisas pareço homem, confesso.
— Eu moro na Av. Rio Branco, nº 6320. Satisfeita, gracinha?
Por sorte a casa dele ficava bem perto daqui.
— Pois grave bem onde seu carro está, porque amanhã é você quem irá
se virar e buscá-lo. Eu vou te levar na sua casa, e será no meu humilde
automóvel, e tem outra coisinha... — cheguei mais perto dele com o
indicador em riste. — Se você vomitar no meu carro, eu vou te castrar!
— Uau... que agressiva — disse e logo soluçou caindo na gargalhada.
— Você ainda não sabe o quanto posso ser agressiva...

Não demorei a chegar em sua casa.


Diferente do que pensei, não é um local grande, muito pelo contrário, é
uma residência simples, e não imaginei que seria assim.
Como excelente matemática que sou acho que aqui deve ter uns 100m2,
vi dois quartos, sala e cozinha de tamanho médio sem muito fru fru... aliás, a
cozinha não parece de alguém que vive sozinho, porque não havia nenhuma
louça suja, e o piso...
Que piso impecável!
Ou essa casa via uma faxina todo dia, ou ele é organizado, e duvido
muito da segunda hipótese, porque estamos falando de Victor Hugo Avelar, o
procrastinador.
Analisando essa pessoa realmente pensei que gostasse de algo mais...
como posso dizer... extravagante, com inúmeros cômodos, cozinheira,
faxineira. Enfim, pelo visto me enganei.
— Vá tomar um banho — pontuei após visualizar a porta do seu
banheiro.
— Tá bom, mamãe...
Victor Hugo retirou a camisa com certa dificuldade, e me permiti
analisar seu peitoral por alguns segundos, e que peitoral...
Não falo só pelos músculos torneados, mas vi a imensidão de tatuagens
em seu corpo, e aquilo mexeu de certa forma comigo.
De relance reparei em uma tatuagem nada convencional.
10/05/1992...
Por que uma pessoa tatuaria em seu tórax uma data? Resolvi relevar,
esse não era o foco aqui.
Depois que ele tentou tirar a calça, logo desabou na sua cama, não
conseguindo se despir. Eu poderia muito bem ajudá-lo, mas se vendo seu
tórax eu já me acendi, não quero nem imaginar o que aconteceria quando
visse ele praticamente nu.
Isso é errado, e ele está bêbado, para piorar!
Sim, muito.
Depois de quase um minuto ele conseguiu retirar sua calça e o seu
sapato.
Victor Hugo olhava para o nada, e quando me via mandava beijos ou
piscadinhas. Ele estava engraçado, confesso.
Não tenho culpa se rir da desgraça alheia é prazeroso, mas afirmo que a
culpa não é minha, foi ele quem se meteu nessa situação.
— Acho que já pode ir, amanhã você trabalha. — Esticou-se na cama, e
pelo visto ele apagaria em poucos instantes.
— Não vou! Só quando você entrar no chuveiro.
— Gracinha... não se preocupe comigo — disse com certa dificuldade.
— Meu bem, estou preocupada comigo e no que sua bebedeira pode
fazer com a empresa amanhã, então... rápido, vá para o banho! — ordenei.
Diante da falta de resposta por alguns segundos resolvi chegar mais
perto, e quando percebi, ele estava...roncando.
Estou pagando meus pecados, definitivamente é isso.
Dei dois tapas leves em seu rosto, na esperança de que ele acordasse,
mas não surtiu efeito. O problema é que novamente fui traída pelos meus
olhos...
Que coxas gostosas esse infeliz tem, e que tamanho...
— Acorde! — gritei perto do seu ouvido e ele se assustou.
— Luiza...
— A própria.
— Eu já te disse que você...
— Que sou linda? Sim, e eu sei! Agora a maravilhosa aqui vai te
colocar no chuveiro. Vamos, agora!
Com muito custo ele se levantou, depois da dificuldade de locomoção
do Mr. Cachaça, chegamos ao banheiro. Até mesmo empurrar um homem
desse tamanho é complicado.
— Você... pode me ajudar com a peça que falta? — perguntou e um
sorrisinho malicioso se formou em seus lábios.
— Não, não posso. — Liguei o chuveiro e me certifiquei de programar
para sair a água mais gelada possível.
Ao sair do box, dei passagem a ele, que fez beiço, me olhando triste.
— Você é má!
Saí do banheiro, mas fiquei o analisando por alguns segundos. Pelo jeito
ele não gosta de água fria...
— Merda! Odeio água fria.
Sorri. Eu tinha razão.
De soslaio, novamente olhei para ele, então percebi que ele havia tirado
a sua boxer e...
Valha-me, Deus! Bonito, gostoso e pirocudo!
Mas igualmente um babaca, imbecil e problemático.
— Boa noite. — Passei pelo banheiro e vi que ele estava sentado
enquanto a água caia em sua cabeça.
Pelo jeito ele apagou novamente, pois não falou mais nenhuma palavra.
Depois que cheguei em casa pensei um pouco sobre o que aconteceu
agora a pouco e comecei a gargalhar do nada. Sim, eu sou meio maluca e
tenho dessas algumas vezes.
Eu deveria na verdade era estar chorando, já que essa apresentação
amanhã vai ser a tampa do caixão do meu querido chefe, mas quem sou eu
para julgar ou desejar o mal das pessoas. Ele está cavando a própria cova, eu
só vou estar lá assistindo de camarote... com uma pipoca em mãos! Porque
sou dessas!

Não dormi nada.


Acho que brincar com a desgraça das pessoas só me deixou mais
preocupada, agora preciso confessar que minhas expectativas para o dia eram
as piores possíveis, e provavelmente o estrupício não apareceria na reunião. E
esse não seria o maior problema, já que ele não sabia nem mesmo a pauta.
9h30m.
Ótimo!
Tomei uma decisão, e eu mesma apresentaria o que foi delegado a ele.
Pelo menos eu tenho comprometimento no trabalho.
Quando fui para a minha sala, cruzei logo com a pessoa mais inesperada
possível.
Não acredito!
— Bom dia, gracinha.
Ao analisar sua expressão, notei que ele nem parecia estar de ressaca, já
que seu rosto estava visivelmente bem, e até mesmo seus olhos estavam
serenos, como se nada tivesse acontecido.
— Victor Hugo, você...
— Me acompanhe — me interrompeu e virou as costas. Fiz o que ele
disse e logo estávamos em sua sala.
Depois que entramos em seu escritório, resolvi me adiantar: — Irei fazer
a apresentação hoje. Você não teve tempo de olhar a pasta, e sei que...
— Eu farei. Me entregue a pasta. Agora!
O rosto dele estava estranho, e essa é uma das poucas vezes que estou
notando decisão em sua face. Ele não está brincando pelo jeito.
— Eu acho melhor...
— Você não é paga para achar nada, Luiza. Estou esperando, temos
trinta minutos até a reunião começar.
— Uau! Foi só agora que foi se preocupar? Tem uma semana que estou
falando disso.
Victor Hugo estreitou os olhos, e parecia dissecar a minha alma. Ainda
não sei o porquê desse gesto, mas há algo muito errado aí.
— Eu errei e adiei. No fundo você tem razão.
— Sério?!
Não é normal Victor Hugo admitir erros, muito pelo contrário. A
convivência me provou que ele sempre fará cagadas constantemente, mas em
todas às vezes jurará que estará certo em relação a tudo.
— Sim. Pelo jeito irei durar na empresa menos que pensei — esboçou
um sorriso pela primeira vez, e meneei a cabeça em acordo.
— É bem provável.
— Bom... o que me resta é tentar memorizar uma coisa ou outra.
— É melhor eu apresentar — falei de novo.
— Não. Eles querem ver o CEO apresentando, e por mais que ele seja
um irresponsável, é isso que eles terão.
Definitivamente ele está estranho.
— Infelizmente você não irá conseguir, mas foi bom trabalhar com você
— caçoei, e logo sua expressão tornou-se engraçada.
— Sabe... você está muito confiante de que eu não vou conseguir. —
Cruzou os braços, me analisando por completo.
— Vou ser bem sincera: sei que é considerado um dos melhores CEO’s
do Brasil, e até mesmo Daniel Falcão te elogia quando conversamos, mas...
— fiz uma pequena pausa. — Você não sabe de absolutamente nada do que
precisa ser falado nessa reunião. Essa pasta ficou comigo em tempo integral,
e você não teve acesso a nenhuma informação, já que insistiu que eu ficasse
com ela.
— De fato. — Andou pela sala, analisando o teto e visivelmente
preocupado. — Que tal uma aposta?
— Aposta?! — questionei, não entendendo o ponto.
— É. Vamos tornar as coisas mais divertidas. Se eu conseguir apresentar
tudo e responder todas as perguntas você me deverá um favor, do contrário...
eu faço o que você quiser.
Sorri.
Logo em seguida olhei meu relógio.
9h40m.
— Está me dizendo que em 20 minutos irá... sei lá, tentar entender o que
levei meses para fazer.
— Sim — sorriu graciosamente. — Se eu não conseguir, e ficar no
cargo mesmo assim, prometo não pegar mais no seu pé e deixarei você
trabalhar tranquilamente. Agora se eu conseguir...
— Você não vai! — dei ênfase. — Há muita informação que você
desconhece aí.
— Então, o que tem a perder?
Pensei por alguns segundos, e realmente não entendi o porquê de
tamanha confiança. Até pensei que ele poderia ter tido acesso à pasta, mas era
impossível. Eu não a deixava no serviço, já que precisei fazer algumas
pesquisas e colher dados em minha própria casa nesse último mês.
— Eu topo!
— Certo. Espero que saiba o que está fazendo, porque será você quem
vai me dever uma, e fará o que eu pedir.
— Essa é a minha menor preocupação.
— Excelente! Pegue a pasta e a traga até mim.
— Com prazer.
Saí de sua sala e logo peguei o documento. Dei uma pequena olhadela
no mesmo, e aquele tanto de informações...
Pelo visto será ao vivo essa vergonha, e não sei se me sinto bem ou
muito bem por isso.
Depois que adentrei a sua sala, logo entreguei a pasta a ele.
— Boa sorte.
— Vou estudar isso agora. Me espere, por favor.
Resolvi ficar de pé, e ele logo começou a folhear as páginas,
permanecendo por no máximo três segundos em cada uma. Tenho absoluta
certeza de que leitura dinâmica não irá ajudar nesse caso, mas se ele confia
tanto em seu próprio taco...
5 minutos...
Esse foi o tempo que ele levou para “ler” todo o documento. Em
seguida, me entregou a pasta e disse: — São quase 10h, melhor irmos para a
reunião, não quero deixar ninguém esperando.

Estou realmente sem palavras...


Eu não podia acreditar no que meus olhos vislumbraram nas duas horas
que se seguiram.
Victor Hugo não só apresentou como um veterano, como também
respondeu todos os questionamentos direcionados a ele. Como se não
bastasse isso, ainda foi além, se aprofundando em assuntos que até mesmo eu
desconhecia.
Esse conjunto de fatores me deixou realmente chocada, e a cada
segundo que se discorria eu tentava pensar em COMO ele conseguiu essa
proeza não sabendo de nada sobre a pauta.
Até pensei por alguns minutos que alguém da minha equipe poderia ter
confidenciado o assunto a ele, mas nem mesmo as pessoas que trabalhavam
para mim tinham total acesso a essas informações.
— Então é isso. Obrigado por virem e permanecerem até o final — disse
por fim e inúmeras palmas preencheram o salão.
Eu estava na primeira fila, atenta, caso ele não conseguisse desenvolver
os assuntos, e quando passou por mim, logo fechou a cara, dizendo em
seguida: — Minha sala! Agora!
Ainda estava chocada com o que presenciei. Isso não é normal. Ele
apresentou como se soubesse tudo de cor, e...
Não sei o que falar, ou o que pensar. Infelizmente não tenho
justificativas para o que presenciei.
— Como?!
Essa foi a única coisa que consegui perguntar após chegarmos no seu
escritório e fechar a porta.
— Se eu te contasse, teria que te matar. — Um sorrisinho debochado
transpareceu em sua face, quando ele passou por mim, se sentando logo em
seguida e começando a girar uma caneta em seus dedos, me deixando mais
impaciente.
— Victor Hugo... não me provoque.
A expressão dele estava engraçada, e um ar de vitória estampado em seu
rosto era bem visível.
— Eu tenho memória fotográfica — disse por fim, e logo arregalei meus
olhos. — Três segundos me bastam olhando algo escrito, e memorizo 100%,
independentemente do que seja.
— Isso... é trapaça!
— Sim, pode ser considerado uma. Mas... gracinha, você perdeu a
aposta, eu trapaceando ou não.
Bem que Daniel me alertou que Victor Hugo usa as pessoas, e até
mesmo pode manipulá-las, e eu caí em uma de suas artimanhas.
Merda!
— E o que você quer de mim?
Em minha cabeça eu tinha uma ideia do que ele desejava. Apesar de
tudo, preciso cumprir a minha palavra independentemente do que ele falar.
— Não se preocupe. Não é o que você está pensando. — Adotou uma
postura séria, e não entendi nada.
— Você não sabe o que estou pensando.
— Tenho uma ideia, mas isso será mais para frente, e não precisarei de
uma aposta para ter você em minha cama, o que desejo agora é diferente.
Quero ver você em ação e observá-la — mordeu o lábio inferior.
— O que está tramando? — questionei com cuidado.
— Eu e você iremos a um club de swing. Hoje!
— Espera... isso é sério?
— Sim. Eu ganhei, Luiza, então você me deve um desejo, e será esse.
Qual o problema?
Não me contive e comecei a rir de forma descontrolada, e esse gesto
incomodou bastante meu chefe.
Pobre coitado, ele realmente não me conhece.
— Não entendi a graça — fechou o cenho.
— Eu pensei que teria um pedido à altura de Victor Hugo Avelar, mas
se vai se contentar em me ver fodendo com outro homem na sua frente, não
posso falar nada.
— E você verá a mesma coisa — rebateu.
— Sim, mas a diferença é que eu não me importo — suspirei
profundamente. — Se esse é o seu desejo, por mim tudo bem.
— Sério?!
Não respondi à sua pergunta, somente cheguei um pouco mais perto do
homem, e ajeitei sua gravata.
— Você não me conhece mesmo! Esse pedido para mim não é nada!
Vou ter prazer e você vai ficar me desejando ao mesmo tempo, então se
achou que iria me botar contra a parede... achou errado!
“É chegado o momento da verdade...”

Luiza me surpreendeu com a sua assertividade quando falei da casa de


swing.
Não esperava que ela dissesse sim com tanta facilidade, e não para por
aí, ela me parecia até feliz em ouvir o meu pedido.
Devo admitir que planejei tudo nesses últimos dias para que ela caísse
na minha investida, e até consegui fazer com que ela apostasse sem saber do
meu segredinho, mas não estava preparado para tamanha decisão quando
revelei o meu pedido.
Vivendo e aprendendo...
Espero que ela não ache que inventei estar bêbado quando ela me
avistou na rua ontem, porque aquilo sim foi um acaso surpreendente.
— Já que estamos de acordo, às 21h passarei na sua casa.
— Eu tenho meios de chegar. — Cruzou os braços, aparentemente tensa.
— Eu não perguntei — falei. — Isso faz parte do pacote da aposta. E
sou o seu chefe, não é bom para você ficar retrucando o que eu falo.
— Isso que está fazendo é chantagem.
— Sim, e não estou nem um pouco preocupado.
Luiza se calou por breves instantes enquanto me fuzilava com seus olhos
castanhos, mas em seguida meneou a cabeça em acordo.
É claro que ela concordaria, não dei opções para o contrário.
— Rua das Algas, 6550. É bom não se atrasar, pelo jeito você gosta
dessa palavra.
— Não me atraso para esse tipo de compromisso, pode ter certeza.
Ainda mais sabendo que vou vê-la peladinha em minha frente — analisei seu
corpo de forma demorada, e não me contive em imaginá-la nua perto de mim.
— Me certificarei de ir com uma roupa adequada — disse, e não sabia
se de fato suas palavras eram uma provocação ou se realmente ela falava
sério.
— Em breve não terá nada mais no seu corpo. Vou poder observá-la
como gostaria — fixei meus olhos nos seus, e logo ela me lançou uma
olhadela maliciosa.
— Somente observar — deu ênfase. — E não se esqueça de que farei o
mesmo.
— Somente observar... — repeti ainda vidrado nela, mas um segundo
depois ela virou as costas.
— Tenho certeza de que irá se surpreender — disse, saindo da minha
sala em seguida.
Luiza Goulart...
Não entendo bem ainda, mas ela pode ser um dos belos motivos para
que eu permaneça na empresa, e será usada para o meu prazer, disso tenho
absoluta certeza...
De certa forma meu dia tornou-se interessante.
Antes do final do meu expediente mandei uma mensagem para Renata,
praticamente intimando ela a me encontrar no exato momento que ela pusesse
os pés fora da Argo’s, mas infelizmente ela ficaria algumas horas a mais na
empresa. Resolvi simplificar e liguei para ela, e ai dela se não me atendesse.
— Você não é a única que precisa conversar — falou do nada, me
pegando desprevenida. — Iria te mandar uma mensagem hoje mesmo.
— Boa tarde para você também, Renata. Qual conselho precisa dessa
expert que você tem sorte em ser amiga?
— Boa tarde, flor — usou de deboche. — Pessoalmente te conto melhor.
Pode ser hoje bem mais tarde.
— Digamos que hoje não é um bom dia. Tenho um compromisso
inadiável — pontuei já sabendo que ela daria uma pequena insistência.
— Para falar assim é porque vai dar.
— Sim, com meu chefe me observando. E digamos que ele fará o
mesmo.
— Pera aí... quer dizer que vai em uma casa de swing com o estrupício?
— Me espanta você ficar surpresa.
Do nada Renata gargalhou e quase me deixou surda. Essa garota é
estranha em alguns momentos.
— Meu bem... — falou. — Sua safadeza não tem limites, você já deu até
na rua com inúmeras pessoas te olhando e filmando. Lembro que recebeu um
convite para ser uma atriz pornô por causa do seu desempenho. Acha mesmo
que estou espantada por... isso? — desdenhou. — A questão é que odiava seu
chefe até semana passada.
Havia me esquecido desse pequeno detalhe erótico que Renata
mencionou.
Digamos que eu tive uma fase tarada em minha vida. Fiz sexo nos mais
variados lugares e certo dia isso escapou, já que nunca dei tanta bola em ser
ou não observada nesses atos. E, como ela mesma disse, fui filmada e o tal
vídeo caiu na internet, e ganhei certa popularidade com isso, sendo convidada
a ser uma estrela pornô.
Se enganam as pessoas que fiquei abalada ou abatida em ter minha
privacidade invadida, eu gostei mesmo foi da minha apresentação, e acho que
por isso pensaram que eu poderia ser uma boa aquisição na Porncats.
Entretanto, nunca pensei em me tornar uma atriz pornô. Por mais que eu
goste mais de sexo do que de comida, tenho minhas particularidades, e não
quero encarar sexo como trabalho.
— Victor Hugo me enganou. Fez uma proposta irrecusável e caí na sua
armadilha. O que ele cobrou foi ir à uma casa de swing comigo.
— Que idiota! Mal sabe ele o quanto você gosta disso.
Sorri. De fato, ele gastou seu pedido em algo que para mim é
irrelevante.
— Eu falei o mesmo.
— Agora me fala como ele te enganou, fiquei curiosa.
Nos cinco minutos que se seguiram contei a ela o que houve.
Nunca poderia pensar que esse infeliz poderia ter memória fotográfica, e
isso literalmente foi a minha ruína. É errado, mas já estava contando com a
demissão dele ao não conseguir discorrer sobre os dados que analisei.
— Amadora! — gargalhou por alguns segundos do outro lado da linha.
— Não me faça gastar todo meu arsenal de palavrão pelo telefone —
disse com certa raiva.
— Daniel te disse que a inteligência dele era fora do normal. Logo, tinha
algum motivo para isso.
— Espera um pouco... — fiz uma pequena pausa. — Você está me
dizendo que em meu lugar iria desconfiar?
— Claro! — disse prontamente. — Daniel sempre falou que Victor
Hugo não gosta de trabalhar, chega atrasado, fica bêbado quase todas às
vezes, é arruaceiro. Como uma pessoa fazendo tantas coisas erradas consegue
ser um dos melhores do Brasil?
— Eu sei lá!
— Eu gosto de você apesar de inteligência não ser o seu forte!
— Sua vaca! — gritei e logo ela disparou a rir.
— É brincadeira, mas toda brincadeira tem um fundo de verdade, né?
Enfim, no meu ponto de vista era de se esperar que ele tivesse uma carta na
manga, algum trunfo. Então, uma das primeiras coisas que eu pensaria é que
ele tem memória fotográfica, até porque ele acabou de ser contratado, não iria
fazer cagada logo na primeira apresentação, então, ele usou você para o que
ele desejava. E sim, eu sei, sou muito inteligente para essa geração.
Nesse ponto Renata tem razão.
Daniel me disse que ele não hesitaria em usar as pessoas, o que não sei
ainda é a motivação dele para tal.
Meu corpo talvez?
Mas ainda assim, se ele quisesse ele poderia me ter, e pediu outra coisa.
Apesar de tudo ele foi bem categórico que não pediria para estar comigo, que
isso partiria de mim. Bem... se esse homem está tão confiante, vou deixá-lo
pensar assim.
— Você me surpreende. Por isso somos amigas — falei.
— Na verdade eu te dei a chance de ser minha amiga — disse e caímos
na gargalhada.
— Ok. Agora o que deseja tanto falar comigo?
— Isso é conversa para outro dia. Você precisa se preparar para hoje à
noite.
— Renata... eu já nasci preparada. Você é esperta, mas na matéria prazer
e sexo dou aula.
— Prefiro ser inteligente — cutucou. — Mas te amo, amiga. De
coração.
— E eu te odeio. De coração — sorri.
— Boa sorte com o seu chefe.
O dia demorou a passar, mas cada minuto valeu a pena, já que ao
observar Luiza saindo com aquela roupa de sua casa...
Ela usava um body vinho de renda transparente com alças finas, uma
saia de couro curta e botas pretas cano longo que chegavam até suas coxas.
Os cabelos estavam soltos dando um ar selvagem para essa escultura, ela
estava realmente espetacular! Sua maquiagem escura e o batom vermelho só
complementavam todo um pacote já perfeito, seria praticamente impossível
prestar atenção em qualquer outra coisa.
Inferno!
Eu deveria ter colocado mais tópicos nessa aposta, e foder com ela
deveria ser obrigatório. Mas preciso me controlar. Será ela quem pedirá por
isso, e aos poucos irei me certificar de ajeitar essa situação.
— Chegou cedo. Seria ansiedade o nome disso? — Cruzou os braços ao
me encarar.
— Ansiedade em fazer algo que estou acostumado? De maneira alguma.
— Sei... — caçoou.
— Agora se me falasse que estou louco para te ver nua, aí poderia
concordar.
— Como disse, isso se chama ansiedade, independentemente do que
seja.
— Isso não importa, mas... sabe o que realmente é importante?
— O quê?
— Você está gostosa pra caralho! E minha vontade é te levar para a
minha casa e esquecermos essa história de casa de swing.
— Uma pena... geralmente cumpro minhas apostas quando perco, e isso
ficará para próxima.
— Isso é um convite? — arqueei as sobrancelhas, a provocando.
— Acho que nunca vai saber.
O caminho foi rápido, e estávamos na rua do nosso destino. Ao
descermos do carro entramos no club de swing, ao observar minha
companhia vi que ela não parecia estar nervosa.
— Lembre-se: somos um casal...
— ... a procura de outro casal do nosso agrado — completou. — Já
entendi, chefe.
— Excelente, gracinha!
— E já que somos um casal, qual sua preferência de mulher?
— Você!
Ela sorriu de um jeito sexy, mirando os olhos nos meus.
— Não estou no cardápio!
— Uma pena... — provoquei. — Apesar de tudo, sei que vamos nos
divertir.
Aqui dentro era amplo, com vários ambientes. Tinha espaço com pista
de dança, luz negra e bar. Além disso, tinha o que não pode faltar em uma
casa de swing: alguns corredores escuros para que a nossa imaginação tome
conta. Hoje não era o foco, mas geralmente quando venho em casas assim,
me divirto por lá.
Já fui em muitas casas de swing aqui na cidade, mas nessa, chamada
Casa Rosa, é a minha primeira vez.
Não foi preciso nem dez minutos para que chegássemos a um consenso.
Havíamos escolhido nosso casal, e pelo tanto que eles nos observavam de
longe, acho que não teríamos problemas em matar a nossa vontade.
Depois que nos apresentamos, conversamos alguns minutos. Antônio era
arquiteto, tinha 35 anos, era moreno claro e tinha a cabeça raspada e barba
cerrada. Já Angélica, sua esposa, tinha 33 anos e era médica. Confesso que
ela é uma mulher linda: alta, loira, olhos azuis e tinha imposição.
Basicamente a segunda mulher mais gostosa daqui, depois de mim, claro.
Tomamos alguns drinks, conversamos e falamos abertamente o que
queríamos. Nem foi preciso combinar muita coisa com meu chefe, já que nos
apresentamos como namorados à procura de um casal. Ao pé da letra
dissemos de fato o que viemos fazer aqui.
Além da atração mútua entre nós 4, ouvimos da boca deles que vieram
pelo mesmo propósito que o nosso, e não tivemos problema algum em marcar
a nossa pequena festinha. No mesmo quarto.
Sem enrolação fomos em direção ao ambiente, e chegando lá... de fato
começou a festa!
Eu sou uma pessoa que gosta de mais ação e pouco falatório, então eu
mesma retirei a roupa do homem em minha frente, e ao analisar o material
abri um largo sorriso, eu iria me esbaldar.
Tão rápido como eu, meu “namorado” havia despido a mulher
totalmente, e estava somente com sua boxer.
Gostei da visão panorâmica da sua bunda...
Percebi Antônio sedento, e foi logo retirando o pouco tecido que havia
em meu corpo. Nesse ponto os 4 estavam nus, e de fato o show iria começar...
Por algum tempo até tentei me concentrar na loira que gemia alto
quando a penetrava duro, mas as camas desse quarto me traíam, já que
estavam frente a frente.
Enquanto comia Angélica de 4, o homem executava a mesma posição de
frente a mim, foi inevitável imaginar Luiza no lugar dela. Olhar aquele
rostinho em minha frente exalando desejo mexeu comigo, confesso.
Angélica rapidamente mudou a posição e veio por cima do meu pau,
rebolando gostoso e rápido, a abracei e intensifiquei as estocadas sentindo
seus mamilos rijos em minha boca, os mordiscando e fazendo ela gritar.
Do outro lado... Luiza fazia o mesmo: gemia e gritava. Cada posição que
Angélica se propunha a fazer, o marido dela repetia com minha “namorada”.
Que situação!
Pelo visto já vi quem manda nessa relação. Só que em meu momento,
ela fará o que eu desejar...
Levantei-me da cama e prensei a mulher na parede, a fodendo em pé.
Levantei uma de suas coxas, e pude penetrá-la profundamente. Angélica
seguia rebolando em meu pau, e ver o quanto ela estava molhada só
aumentou meu ímpeto.
Eu até tentava me concentrar somente nela, mas observar aquela
escultura na cama ao lado traiu meus pensamentos. Luiza é de longe a mulher
mais gostosa que já vi nua, e a minha vontade foi mandar essa troca de casais
ir à merda e fodê-la.
— Vou gozar no seu pau!
— Então goze pra mim. — A apoiei na beirada da cama, e a fodi com
força, seus gritos preencheram todo o quarto, atraindo a atenção do seu
marido e de Luiza.
Preciso ser profissional, ao menos aqui...
Estava chegando ao orgasmo, e quanto percebi a mulher perto de mim
berrando descontroladamente, minha atenção se voltou a Victor Hugo, e...
O que era aquilo?!
O homem a fodia como um animal, e ela parecia estar desfalecida em
seus braços. Notar aquelas tatuagens espalhadas pelo seu corpo, o rostinho
safado que ele fazia quando comia a boceta daquela mulher...
Isso me distraiu, e os últimos minutos com Antônio foram mais no
automático.
— Luiza... — sibilou e eu já sabia o que viria em seguida.
Retirei a sua camisinha com a boca, e logo depois o chupei com
intensidade, e o inevitável aconteceu: ele me marcou. Já a festinha do outro
lado continuava a todo vapor, e me perguntei por quanto tempo mais ela
aguentaria aquelas estocadas duras e violentas. Outra coisa que me chamou a
atenção foi o dote do meu “namorado”.
Victor Hugo agora não olhava para nós. Como sou bem observadora,
percebi que no começo ele me observava com desejo, mas seu foco agora é
outro, propiciar prazer a sortuda.
— Caralho... — gritou, e logo ele retirou a camisinha, e enfiou boa
parte do seu pau na boca dela. — Anda, chupa gostoso! — segurou seus
cabelos e a fez engolir boa parte do seu cacete.
Enquanto movimentava sua cabeça, ela tentou de tudo para engolir o
pau do meu chefe, mas não conseguiu. Por sorte (ou azar) dela, Victor Hugo
gozou após alguns segundos, a marcando.
Agora falando um pouco de mim...
Não que Antônio tenha deixado a desejar, mas depois do que vi na cama
ao lado, eu queria mesmo era ser fodida daquele jeito pelo meu chefe...
“Independentemente do que ocorreu no passado, toda ação gera uma
reação...”

Minha noite anterior foi intensa...


Não tenho o que reclamar de Antônio, o homem que me proporcionou
um sexo extremamente satisfatório.
Gosto de ser surpreendida nas mais variadas situações em minha vida, e
agora afirmo que ontem foi uma noite que aproveitei bastante. Apesar de ser
enganada inicialmente pelo meu chefe, posso dizer agora que a situação que
me meti foi bastante... prazerosa.
O que ainda não saiu da minha cabeça foi a cena de Victor Hugo
fodendo com aquela loira praticamente ao meu lado. E o pior de tudo, ele
parecia estar transando comigo.
É, eu sei, muito confuso o que estou tentando explicar, mas no começo,
enquanto a fodia, seus olhos não desgrudaram dos meus, e claramente seu
desejo era outro naquela situação específica.
Acho que aquilo foi uma “punição”. Ele me mostrou do que é capaz, e
fez questão de o fazer encarando meus olhos.
Enfim... o que preciso é voltar ao trabalho, já que ao pensar em sexo fico
bastante distraída. Definitivamente esse é um dos meus pontos fracos.
— Luigi está na linha e quer falar com você — Clarice, uma das moças
que trabalha no setor, falou e logo em seguida tampou com uma das mãos
uma parte do telefone. — E ele está bastante nervoso — complementou, e já
esperei o pior.
— Passe a ligação para mim — sorri, e assim ela prontamente o fez.
Depois de alguns segundos com a linha muda, me preparei para falar
algo, mas Luigi foi mais rápido.
— Está me ouvindo?
— Sou eu, Luigi. Aconteceu alguma coisa? — perguntei, já sabendo a
resposta.
— Isso é você quem irá me falar! — pontuou com a voz alterada.
Apesar de ser o dono da empresa e vê-lo com certa constância, não me
recordo de muitas oportunidades em que o vi nervoso. É claro que isso
acontece, mas não era algo de praxe.
— O que houve?
— Tive informações que Victor Hugo fez uma apresentação importante
bêbado! Bêbado! — repetiu a palavra e logo fechei meus olhos. — Isso é
verdade?
Na verdade ele não estava bêbado, pensei comigo.
Claramente ele estava de ressaca, e pode até ter se enrolado em uma
palavra ou outra, mas no fim conseguiu passar tudo o que eu havia colocado
naquele enorme dossiê.
— A apresentação foi correta. Não houve nenhuma anormalidade, Luigi
— tentei soar o mais convincente possível, e para isso tive que defender
Victor Hugo, e não sabia exatamente o motivo de estar fazendo tal coisa.
Eu sabia que ficar pensando constantemente em sexo afetaria meu
emocional...
— Não é isso que quero saber! — vociferou do outro lado da linha. —
Te fiz uma pergunta simples: ele estava bêbado ou não?!
Não acredito que Luigi está me colocando nessa posição. E não estou
acreditando no que vou falar.
— Eu não sei! Mesmo se ele estivesse, não podemos julgá-lo pelo que
ele faz fora da empresa. Ele apresentou tudo perfeitamente.
Fez-se silêncio do outro lado da linha, e não sabia se ele tinha engolido
minha resposta. Mas o que me deixou mais surpresa foi o que ouvi de sua
boca em seguida...
— A partir de hoje você ficará responsável por ele!
— Espera... como assim responsável?! — questionei, mesmo tendo uma
ideia do que ele estava falando.
— Acho que sabe. Estou falando de vigiá-lo.
É o cúmulo...
Nunca precisei ser babá de ninguém em toda a minha vida.
Muito pelo contrário, saí de casa aos 15 anos e me virei desde então.
Aprendi basicamente tudo sozinha pelo simples fato de querer, nunca quis
depender do meu pai ou da minha mãe, e isso me fez crescer como mulher,
porque aprendi a dar valor nas pequenas coisas. Agora, Luigi vem em me
falar isso...?
— Isso é injusto, Luigi. Não sou uma babá, muito menos de um homem
crescido como Victor Hugo.
— A vida é injusta, Luiza. E agora você tem outro trabalho, controlar
Victor Hugo Avelar. Do contrário... as consequências serão para ambos.

Inacreditável!
Acho que um mundo habitado por mulheres ia ser melhor no fim das
contas, mas infelizmente precisamos de um pau para nos reproduzir, o que é
uma merda!
Não sei o que me deu, mas saí pisando duro da minha sala, e logo estava
em frente a Victor Hugo, que esboçou um largo sorriso ao me ver.
— Desculpe te desapontar, mas não podemos fazer o que nossa carne
pede aqui na empresa — falou, e logo me enfezei mais.
Esse cara se acha...
— Não vim aqui para falar de ontem, e sim...
— Ah, conta outra, gracinha — abruptamente chegou mais perto, e
segurou minha cintura, me colando na parede.
— O que está fazendo?! — questionei, com uma raiva crescente
inundando meu corpo.
— Te dando uma amostra do que sou capaz.
— Ah, é? — sorri, mordendo uma parte da minha boca.
Então vamos brincar, Victor Hugo...
— Então deixa eu te dar uma amostra do que sou capaz.
Fui para mais perto do homem, e quando meus lábios chegaram perto da
sua boca, logo ouvi sua voz macia: — Estou começando a gostar um pouco
mais de você, gracinha...
— É?! Então escute com atenção o que vou falar... — Segurei seu
queixo com força, e logo seus olhos automaticamente se tornaram frios. —
Eu dou muito valor ao meu emprego, e se você não faz isso é problema seu!
— parei, relembrando as palavras de Luigi. — Ou melhor, não só seu, porque
agora preciso cuidar de um marmanjo que pelo jeito parou de crescer.
— Cuidar de mim? O que está querendo dizer? — tomou distância,
ajeitando sua postura em sequência.
— Luigi pediu para eu ser a sua babá e impedir você de fazer merda, o
que é bem normal pelo visto.
— Isso quer dizer que ficará me vigiando? — Cruzou os braços, e não
sabia ao certo se ele estava impaciente ou se divertia com essa situação.
— É! Alguém fez certa apresentação bêbado, ou com bastante álcool no
sangue.
— Sim. E o que isso tem a ver? Já fiz esse tipo de coisa inúmeras vezes.
— Deu de ombros, e a sua indiferença com o trabalho só me irritava um
pouco mais.
— Você por acaso está se ouvindo? — vociferei. — Acha isso...
normal?!
— Sim. É o meu normal.
Meu Deus do céu! É incrível o quanto ele é irresponsável e sente prazer
em esfregar sua falta de escrúpulos na minha cara.
— Você não tem noção do tanto que estou com saudades de Natanael, o
CEO que substituiu. Ele sim é um homem que levava o trabalho a sério.
Minha frase claramente não foi bem recebida por ele, já que seus olhos
instantaneamente mudaram, e pude ver uma grande obscuridade nos mesmos,
bem como indiferença. Não entendi o ponto dessa reação, mas pelo visto ele
não gosta de ser comparado a ninguém.
— É melhor não me comparar a ele. Para o seu bem esse vai ser o seu
primeiro e último aviso.
— Victor Hugo...
— Saia da minha frente, porra! — praticamente gritou, e a vontade de
mandá-lo para a puta que pariu só aumentou, ainda assim, não o fiz. Só que
agora eu tinha certo poder em minhas mãos, e iria usá-lo. Se ele quiser
continuar na empresa, é melhor se portar de forma profissional.
— Eu vou, mas é bom começar a se comportar. Luigi foi bem claro
quando conversou comigo, e pelo jeito ele não está nem um pouco satisfeito
com o atual CEO da GCR Turismo.
Não dei tempo de ele responder e saí pisando duro de sua sala.
Apesar de ter me sentido melhor falando isso, sei que não conseguirei
controlá-lo, e isso no fundo pode ser um problema maior em breve...

Infelizmente meu dia caminhou feito uma tartaruga, e minha ida


constante na sala de Victor Hugo só piorou a situação.
É um saco conversar com ele sobre trabalho, já que claramente esse não
é o seu assunto preferido aqui dentro. Suas piadinhas em determinados
momentos só me tiram do sério, e quando ele me olha com desejo acaba me
tirando do eixo, já que na maior parte do tempo é complicado ignorar seu
sorriso destacado, bem como sua beleza estonteante e seu cheiro. Ah, seu
cheiro...
Inferno de homem gostoso!
Não posso ficar desejando alguém que me desperta tanta raiva,
principalmente quando preciso fazer o meu trabalho e o dele, além de
trabalhar como babá, diga-se de passagem.
Em uma das minhas pequenas visitas em sua sala reparei que ele estava
cantarolando enquanto desligava seu computador.
— Onde está indo? — perguntei no automático.
— Hoje é quinta-feira, gracinha. Esqueceu que saio mais cedo?
Ah, ainda tem isso.
Me esqueço do horário flexível do estrupício. Bom, melhor ficar calma e
me concentrar no trabalho...
Ah, quer saber, dessa vez não.
Irei falar exatamente o que desejo. Esse idiota pode ser o meu chefe,
ainda assim, ele precisa ouvir algumas verdades de vez em quando.
— Você vem de ressaca trabalhar e praticamente não trabalha, saí mais
cedo duas vezes na semana, parece estar em outra dimensão 24 horas por dia,
faz piadinhas inconvenientes na maior parte do tempo... o que mais falta dizer
sobre seu trabalho?
— Luiza... — falou meu nome encarando profundamente meus olhos e
me senti desafiada. — Hoje é um dos poucos dias da semana que realmente
me permito ser um homem feliz, então não me dê motivos para que meu dia
vire uma desgraça. Não hoje!
— Você precisa ouvir algumas verdades de vez em quando — pontuei e
logo percebi ele chegando mais perto de mim, com o olhar sério.
— E você também, então preste bem atenção... — chegou perto da
minha boca, mas parou, analisando minha face de forma demorada. — Cuide
da sua vida, porque você pode muito bem ser a queridinha de Luigi, mas é só
eu estalar meus dedos que irá parar na rua. Então é melhor pensar duas vezes
antes de me irritar, porque a partir do momento que eu me tornar um inimigo,
você não terá chance alguma de sair ganhando, e acho que tem uma leve
noção do que sou capaz!

Graças a Deus o restante do meu dia foi mais tranquilo.


Um brinde ao estrupício que saiu mais cedo da empresa! Irresponsável
do caralho!
Na verdade, brinde uma ova, já que o trabalho dele cai todo em minhas
costas praticamente. A todo o momento ficava remoendo a notícia de que
agora sou a babá de um homem crescido...
Eu sabia que minhas orgias no passado seriam castigadas por Deus uma
hora ou outra, e adivinhem? Começou cedo!
Pelo menos hoje posso relaxar um pouco mais. Beatriz havia me
convidado para ir em sua casa, e queria me contar algumas novidades, e uma
delas estava sendo revelada nesse exato momento...
— Daniel e eu planejamos um filho para daqui dois anos! — disse com
enorme alegria e logo balancei a cabeça em negação.
— Pelo visto até pra trepar vocês dois se comportam como empresários.
Isso é lamentável, e peço para que Deus tenha pena da pobre alma de vocês!
Fiz o sinal da cruz e logo Beatriz cruzou os braços, reprovando meu
comentário.
— Isso que disse não tem nada a ver.
— Planejamento... planejamento... e mais planejamento! Por que não
deixar as coisas fluírem normalmente?
— Porque como bem disse somos empresários e tudo requer disciplina e
tempo livre, o que não temos no momento.
— Amiga... sua frase não me convenceu, mas respeito sua opinião, e
estou ansiosa em conhecer o Daniel Júnior, ou Juninho se assim preferir.
— Credo! Esse nome jamais!
— Eu ouvi meu nome!
Daniel veio até nós, trazendo a minha cerveja. Já não era sem tempo.
— Sua linda esposa acaba de me contar os planos para terem filhos —
dei ênfase na palavra esposa e logo ele arqueou as sobrancelhas.
— Estamos pensando sobre isso — pontuou e logo Beatriz o fuzilou
com os olhos.
— Pensando uma ova! Tudo está decidido!
Daniel me olhou com aquela cara de “ainda estou em dúvida”, mas logo
sorriu para Beatriz.
— É claro, meu amor — disse por fim, e tava na cara que pelo visto
isso não é algo que está 100% decidido.
Acho que estou começando a gostar um pouco mais de Daniel agora que
ele parece humano...
No fim conversamos sobre assuntos triviais na maior parte do tempo, e
até me diverti com alguns relatos de Beatriz quando ela disse que Daniel se
embananava com os afazeres domésticos.
— Isso é mentira dela! Em minha defesa sempre fui um ótimo dono de
casa!
— Meu amor... aceita que dói menos!
Depois da frase dela nós três caímos na gargalhada, e vi que eu
realmente estava precisando sorrir um pouco, o meu trabalho que antes era
motivo de alegria constante está se transformando em uma longa jornada de
batalhas com o estrupício.
— Como anda as coisas na empresa, Luiza?
— Quer mesmo saber? — arqueei minhas sobrancelhas, duvidosa.
— Depois dessa sua cara fiquei um pouco mais curioso.
— Até eu estou, amiga.
Havia colocado em minha cabeça que não falaria de Victor Hugo com
Daniel, mas isso ficou complicado a partir do momento que o próprio me
questionou como anda o meu trabalho, então resolvi abrir o bico.
Resolvi falar que fui enganada por ele. Daniel não ficou nem um pouco
surpreso, e pelo jeito sabia da tal memória fotográfica do infeliz.
Contei também que Luigi disse que eu era a mais nova responsável pelo
marmanjo, e relembrar essa história só aumentou a minha dor de cabeça, leia-
se: raiva, ódio. Como preferirem.
— Se acha que não consegue trabalhar com ele é melhor procurar outro
emprego...
— Jamais! — retruquei Daniel. — Lá é o meu lugar e onde irei ficar!
— Então se acostume. E posso dizer que sua situação se complicou.
— Como assim? — Estreitei os olhos, preocupada e atenta.
— Seu erro foi falar para Victor Hugo que Luigi pediu para que o
vigiasse. Agora, mais do que nunca, ele irá te provocar, pois sabe que dá
valor ao seu emprego. — Daniel cruzou os braços e sorriu. — É só fazer uma
analogia com um menino birrento para entender melhor. Quando ele não tem
o que deseja, começa a chorar, fazer arruaça, chamar atenção, entre outras
coisas. Victor Hugo tem traços de um menino birrento. Ele irá te provocar,
testar seus limites, te ignorar quando quiser, entre outras coisas que já sentiu
na pele.
— Então... eu não tenho o que fazer — balbuciei.
— De fato — assentiu. — Apesar de tudo, há algo que pode tentar para
amenizar isso.
— O quê?! — me interessei.
— Acho que conhece esse ditado, mas vou reforçar: mantenha seus
amigos perto e seus inimigos mais perto ainda.
— E está querendo dizer...
— Seja amiga dele, ao menos tente. Finja se importar, não sei. Se o seu
emprego depende tanto de Victor Hugo, é bom não o considerar um inimigo,
do contrário, seu tempo na empresa irá acabar rapidinho.
— Não consigo essa proeza. Ele... me irrita — grunhi. — É
irresponsável, não executa as tarefas para o qual foi contratado, e... me irrita.
— Você disse isso duas vezes, amiga.
— Para você entender o nível que estou! — Voltei minha atenção a ela.
— Bia... você não entende, ele não consegue ter uma conversa séria com
alguém, e quando me vê parece que está observando uma torta de chocolate.
Beatriz do nada começou a gargalhar, e até mesmo Daniel abriu um
breve sorriso.
— O ponto fraco declarado dele sempre foi mulheres bonitas, então, a
não ser que passe despercebida aos olhos de Victor Hugo, isso irá continuar.
— Não vou ficar feia ou menos desejável por causa daquele estrupício!
— Então, você sabe exatamente o que fazer — pontuou.
Ninguém disse que a vida seria fácil.
Realmente estou em uma sinuca de bico, e a única coisa que posso fazer
é tentar seguir o conselho de Daniel, já que ele sim o conhece bastante. O
maior problema é se ele estiver errado e isso não adiantar nada...
“...e por um pequeno descuido nossos segredos podem ser parcialmente
revelados.”

Estou encarando mais esse dia de trabalho como algo normal, mas sei
que isso não irá acontecer de fato.
Ter uma conversa com Victor Hugo tentando explicar que não quero ter
problemas na empresa será extremamente complicado, e não me imagino
saindo bem de uma situação como essa. Enfim, terei que dar um jeito de
resolver isso.
Após adentrar no seu escritório sem aviso prévio, logo ele me encarou, a
espera de alguma palavra.
Eu ainda não sabia bem o que diria, ou como, mas foi aí que reparei
melhor no seu rosto e vi algo estranho.
— O que foi? Vai ficar me olhando assim por quanto tempo mais?
— Você passou maquiagem? — perguntei, tentando conter algumas
gargalhadas.
— Tá maluca?! Por que eu faria isso? — me olhou com certo espanto.
— Seu rosto... — cheguei mais perto dele, e logo o homem se levantou,
em seguida olhou para o espelho que ficava do seu lado. — ...está um pouco
sujo — complementei.
Logo Victor Hugo analisou sua própria face e tentou limpar no ponto
específico que vi. Apesar de ter falado que era maquiagem parecia ser outra
coisa, e não identifiquei bem do que se tratava devido à sua rapidez em
limpar a tal mancha.
— E eu sei lá que merda é essa! — Voltou-se a mim, claramente
impaciente. — Do que precisa?
Eu ainda não estava acreditando que falaria isso, mas preciso de uma
preocupação a menos em meu trabalho.
— Preciso de uma trégua!
— Trégua?! — Sentou-se sobre a mesa e me encarou com
incredulidade.
— Isso mesmo. E quero fazer uma proposta.
— Hmm... estou começando a gostar do rumo que essa conversinha
despretensiosa está nos levando, sabia?
Fechei meus olhos.
Infelizmente nunca conseguirei ter um diálogo sério com esse homem.
— Não pense besteira um momento sequer — franzi o cenho, e logo
cruzei meus braços, impassível. — Eu só desejo que... sejamos amigos. Nada
mais, nada menos!
— Como é?!
Ele me olhou de soslaio, me analisando de forma metódica. Em seguida,
levantou-se e abriu o whisky disposto na pequena mesa ao seu lado,
colocando o líquido em um dos copos.
— É isso mesmo que ouviu. Precisamos trabalhar juntos, meu emprego
depende do seu, e pelo visto o contrário também. Eu só quero facilitar as
coisas para os dois, não quero inimizade com você, não tenho nada contra sua
pessoa, mas entenda que não tenho a favor também. Então, espero que
sejamos... amigos. Só isso.
Essa palavra saindo da minha boca e sendo direcionada para Victor
Hugo era estranha.
— Certo — disse com cuidado, ainda me fitando. — E sobre essa
suposta amizade, eu terei algum... benefício? — lançou-me uma piscadela e
sorri.
Victor Hugo nem disfarça o quanto é safado e vagabundo de carteirinha.
Não sou puritana, ainda assim sei como separar as coisas em um ambiente de
trabalho. Ou pelo menos estou me controlando para tal.
— Não. Amigos sem benefícios.
— Assim não tem graça nenhuma! Eu passo! — Tomou um gole de
whisky, mas antes fez uma careta.
Apesar de ser um cafajeste, considero ele um cara que tem atitudes
engraçadas e até certo ponto verdadeiro, pois ele fala na cara quando não está
gostando de algo, ou até mesmo quando não concorda com alguma opinião.
Mas não posso me esquecer do que Daniel me falou, e não sei até que ponto
ou exatamente quando estarei sendo manipulada, até porque ele já o fez
naquela aposta de dias atrás.
— Mas é assim que será! — disse por fim, séria.
— E por que isso agora?
— Eu...
— Espera... deixa eu adivinhar, gosto de joguinhos de adivinhações. —
Tomou outro gole de whisky, fixando seus olhos nos meus, e dessa vez
estremeci, pois ele parecia enxergar a minha alma ao fazer tal gesto. —
Daniel te falou que não sou uma pessoa confiável; que gosto de manipular as
pessoas ao meu redor; deve ter te falado também que não sou de me abrir
com ninguém; e que não gosto da maioria das pessoas que me cercam. Além
do mais, você me conhecendo pouco percebeu que não sou alguém fácil de
lidar, e isso vem de encontro a minha primeira frase, sabe por quê? — Uma
risadinha debochada surgiu em sua face.
— Por quê?
— Pois você foi falar de mim para ele! Acertei, não é? — sorriu, mas
não parecia abalado ou surpreso.
Por alguns segundos fiquei sem fala.
Daniel não iria dizer nada do que conversamos para Victor Hugo, até
porque eles nem parecem ser amigos. Sua descoberta é até certo ponto...
chocante para mim.
— Sua convivência comigo foi e está sendo difícil para você, e por isso
resolveu se abrir com Daniel, que com todo o seu jeito metódico e firme de
ser, acabou te dando alguns conselhos sobre mim, pensando que ajudaria.
Como ele em alguns momentos tem complexo de Deus, sugeriu algumas
ideias, e acho que se tornar minha amiga é uma delas.
— Isso que perguntou...
— Não é uma pergunta, gracinha — fechou o rosto. — Estou te
contando fatos, e contra fatos não há argumentos!
Dito isto, ele se aproximou de mim, ainda com o copo em mãos.
Eu sinceramente queria saber como ele consegue captar tantas coisas
sem estar no presente momento em que elas foram ditas, mas sei que não
conseguirei entender nunca a percepção que ele possui.
— Ele me deu conselhos — disse por fim.
— Bom... se isso te deixa feliz, siga-os. Mas fingir ser minha amiga não
me agrada nem um pouco. Sou uma pessoa verdadeira apesar de ser um
babaca.
— Verdadeira? — debochei. — Percebi mesmo quando me enganou ao
ler os arquivos da reunião.
— Ah, gracinha... eu fiquei louco com a ideia de te ver nua, e confesso...
não me arrependo de nada, faria tudo de novo e me arrependo de não ter
colocado umas coisinhas a mais na aposta — mordeu seu lábio inferior, e
aquilo foi sexy pra caralho!
Se comporte, Luiza...
— Você teve o que desejava. Agora, eu que faço a pergunta: eu terei o
que desejo?
— Se o seu desejo for me ter por uma noite inteira, quando quiser. Estou
livre para você!
Novamente fechei meus olhos, balançando a cabeça em desacordo.
— Você sabe muito bem do que estou falando, não mude de assunto.
— Então... quer tentar mesmo ser minha amiga? Minha amiga! —
repetiu, desdenhando da situação.
— Sim, e espero que faça o mesmo.
Victor Hugo me lançou uma olhadela e logo virou as costas, sentando-se
em seguida.
— Eu topo! Não quero te ver tristinha, e acho que isso será bom para
nós dois.
— Excelente!
— Mas tem um pequeno porém.
— Que porém?! — questionei duvidosa.
— Não mudarei meu jeito, vou te provocar de todas as formas possíveis,
e tenho certeza que um dia irá ceder ao meu charme, e a partir daí... você não
conseguirá me tirar da sua cabeça!
— Isso é o que veremos!
Hoje resolvi trabalhar, e não fingir.
Apesar de focar no serviço, as palavras de Luiza não saíram da minha
cabeça.
— Que garota abusada! — disse para mim mesmo ao me espreguiçar,
relembrando seu pedido inusitado.
É estranho falar assim, mas sempre me gabei de não ter amigos.
No fundo sou um homem solitário, e no máximo considero que tenho
colegas, e olhe lá. As únicas pessoas que realmente tenho sentimentos fortes
são meus pais, isso é um fato.
Não gosto que puxem meu saco, odeio que sequer pensem que estão
tirando vantagem de mim. Provavelmente estou errado nesse pensamento,
mas como uma das mulheres que saí muito tempo atrás disse: no lugar do
coração tenho uma pedra de gelo, que é dura feito aço!
Apesar de tudo, estou fazendo algumas amizades pela cidade, e certa
pessoa me encantou quando a vi pela primeira vez. Ainda me lembro do
sorriso de Vitória, e isso me deixou alegre.
— Victor Hugo! — ouvi uma voz, e logo meus olhos voltaram-se a
porta do meu escritório, onde avistei um homem de óculos que me olhava e
desviava suas íris de mim constantemente.
Por um segundo tentei puxar em minha cabeça se o notei na empresa,
mas realmente nunca o vi pintado de ouro.
— Quem é você e o que quer?— vociferei.
— Meu nome é Jarvas, e sou o responsável por...
— Não quero saber do que é responsável Jarbas. O que quer?
— Eu preciso sair mais cedo — falou, voltando-se ao chão. — Estou
com problemas... pessoais.
É o cúmulo pedir logo para mim dispensa do trabalho. Logo eu, um
homem que não respeita essa regra, ainda assim, Luigi sabe muito bem disso,
e eu ter passe livre para chegar e ir embora quando quiser foi um dos meus
pedidos. O mais importante deles.
Horário flexível, melhor dizendo. Não pega tão mal.
— Todos nós temos problemas pessoais. A reposta é não! Volte a
trabalhar!
— Mas... eu não consigo trabalhar!
Bufei, contrariado.
Odeio falar duas vezes a mesma frase, e prevejo uma demissão nesse
exato momento.
— Me dê um bom motivo para não te demitir agora. — Cruzei os
braços, e logo percebi algumas lágrimas se formando em seus olhos.
— É que minha filha está no hospital, e... não consigo me concentrar,
ela é tudo para mim.
Por alguns segundos não falei nada.
Encarei o homem em minha frente e sequer me mexi. Até mesmo os
meus olhos voltaram-se para o nada, e não me recordo o que passou pela
minha cabeça nos segundos que se seguiram.
— Quantos anos ela tem e o que houve?
— 6 aninhos. Minha mulher disse que ela subiu na escada e caiu.
— De qual altura? — perguntei afoito.
— Uns dois metros.
Meu Deus!
Algumas lembranças percorreram meu corpo, e logo senti um calafrio.
— E o que está fazendo aqui ainda?! Quando for assim nem precisa me
procurar! — bradei.
— Eu... posso ir?
— Sim. E eu quero notícias atualizadas de como ela está, o que
aconteceu, como aconteceu, o que o médico falou... tudo!— fiz uma pausa —
Entendeu bem?
— Sim, muito obrigado.
— Ande, vá logo e não enrole!
Depois que Jarvas saiu da minha sala uma onda de tristeza percorreu
meu corpo, e meus olhos ficaram marejados.
Logo fui ao banheiro da minha sala e reparei meu rosto. Pude perceber
uma pequena mancha no mesmo, e logo sorri, limpando a pequena sujeira.
Luiza é uma mulher bem observadora no fim das contas...

— Você está pensativo demais, filho. O que houve?


— Não é nada, mãe.
Havia combinado de jantar na casa dos meus pais, e como de praxe
várias perguntas foram direcionadas a mim, principalmente após minha mãe
notar que eu estava pensativo demais. Isso não é nada normal.
— Victor Hugo Avelar...
Se tem uma coisa que não posso é quando minha mãe “recita” meu
nome inteiro. Não há escapatória a não ser revelar segredos ocultos em meu
lindo coração.
Bem poético. Nada a ver comigo.
— Aconteceu um acidente com a filha de um dos funcionários da
empresa.
— E como ela está? — perguntou preocupada.
— Isso saberei em breve — analisei meu celular e fiquei tentado a ligar
para o número que fiz questão de pegar no RH antes de ir embora.
— Como assim?
— Tenho o telefone do pai dela, e farei a ligação daqui a pouco.
Percebi um sorriso se formando no rosto da minha mãe, e logo ela
pousou sua mão esquerda sobre o meu rosto.
— Você tem um bom coração, filho.
— Não, mãe. É que crianças são... o meu ponto fraco. Só isso.
De alguma forma tentei encerrar o assunto, indo em direção ao sofá da
casa dos meus pais, mas logo em seguida ela veio até mim, ainda com o
sorriso destacado, sentando-se em seguida.
— Na verdade, crianças são o seu ponto forte.
Repensei por breves momentos sua frase, e logo fechei meus olhos
momentaneamente, relembrando alguns acontecimentos de vários anos atrás.
— É. Pode ser.
Novamente minha mãe me olhou com ternura, mas em seguida se
levantou.
— Vou te deixar à vontade, acho que precisa fazer algo — disse e logo
saiu da sala sem mais explicações.
Fiquei encarando meu celular por longos segundos.
Ligar para uma pessoa que mal conheço não é uma boa ideia,
principalmente alguém que tratei mal quando vi inicialmente. Apesar disso,
resolvi parar de pensar e agir, fazendo a ligação, sendo atendido momentos
depois.
— Jarvas?
— Sim, quem é?
— Victor Hugo. Seu chefe.
— Me desculpe, não reconheci sua voz.
— Tudo bem. Qual é o nome da sua filha?
— Andressa.
— E como ela está?
— Melhor, graças a Deus. Ela quebrou a perna e fraturou a bacia, mas
os médicos disseram que ela irá melhorar.
Fechei meus olhos e passei a mão pelos cabelos, um pouco irritado.
Eu verdadeiramente queria ser um homem desprovido de sentimentos,
não me importar como próximo ou qualquer pessoa que seja, mas
felizmente(ou infelizmente) pareço ter um coração, e isso não combina com o
cara durão que desejo mostrar às pessoas em geral. É uma merda não saber de
que lado está quando estamos falando da razão e da emoção.
— Precisa de quantos dias afastado? — tentei mudar meus pensamentos,
já que só imaginava sua filha deitada em uma cama de hospital.
— Nenhum, chefe. Minha esposa ficará aqui, preciso terminar um
relatório importante...
— Você não precisa terminar porcaria nenhuma, Jarvas! Sua filha está
no hospital e isso é prioridade! — disse com a voz firme. — Não quero te ver
na empresa até Andressa estar em casa.
— Mas...
— Se eu te ver na GCR antes disso acontecer você estará na rua. Fui
claro?
Depois de alguns segundos de hesitação ouvi novamente sua voz: —
Tudo bem.
— Excelente.
— Victor Hugo... muito obrigado. De verdade.
— Não precisa me agradecer, e agora que tem o meu número me
mantenha informado. Diariamente.
— Pode deixar.
Desliguei meu telefone e me esparramei no sofá.
Por longos minutos fiquei pensando em alguém que eu sequer conhecia,
e aquilo me matava por dentro. Acho que preciso beber, e esquecer os
pensamentos que vieram acompanhados aos de sua filha...
“E em momentos inesperados floresce uma amizade verdadeira...”

Como de costume acordei com uma tremenda ressaca.


Isso é tão normal que mesmo enchendo o rabo de cachaça consigo
acordar cedo, e hoje não foi diferente. Antes mesmo da 7h já estava de pé e
pronto para trabalhar.
Cheguei na GCR antes das 8h, e adiantei o serviço acumulado em minha
mesa, que não era pouco.
Tenho um lema bem definido em um ambiente de trabalho: nunca deixe
para hoje o que se pode fazer amanhã, e por isso sempre tenho trabalho em
excesso, independentemente do dia.
Confesso que esse pensamento não agrada a maioria dos gestores que
me contratam, mas eles precisam saber que no fim do mês irei entregar tudo
que eles pedem, então minha teoria está se provando eficaz até hoje.
Após ir ao refeitório, acabei cruzando por acaso com minha funcionária
favorita: Luiza Goulart. Claro, não perdi a oportunidade de puxar papo com
ela, afinal, agora somos amigos.
— Como você está, gracinha?
— Bem — foi sucinta e mal me olhou. Pelo jeito ela está bastante
atarefada, já que evitar meu rosto bonito é bem difícil para a maioria das
mulheres.
— O que fará hoje?
— Olha... — puxou algo pela memória e finalmente me encarou. —
Preciso resolver alguns probleminhas em meu setor, tenho que modificar o
relatório que Gilson me enviou, há também...
— Pode ir parando! — fechei meus olhos. — Estou falando depois do
serviço. Quer saber... aqui não me interessa muito como ou quando irá fazer
as coisas, executando é o que importa.
Acho que nem preciso falar sobre a incredulidade estampada em sua
cara ao ouvir essas palavras. Mas é como eu disse, sou um CEO um tanto
quanto diferente. É bom não cair na mesmice.
— Sair com uma amiga — falou por fim, um quanto duvidosa na
resposta.
— Certo. E aonde irão?
— No Fábrica’s Bar.
— Por volta das 20h? — questionei. — É um horário bem
movimentado.
— Isso. Marcamos esse horário. Por que a pergunta?
— Simples, porque farei companhia a você e sua amiga.
— Opa, calma aí, do que tá falando?! — questionou com incredulidade.
— Agora somos amigos, e como bons amigos sairemos juntos algumas
vezes para nos conhecermos melhor, então te encontro lá às 20h. Não sou
uma pessoa que se apega a horários, por isso devo chegar um pouco mais
tarde. Vai ser até melhor, já que pode preparar o psicológico da sua amiga e
me apresentar.
Luiza começou a rir e me empertiguei.
— Qual o motivo da graça?
— Ela não vai gostar de você, e pelo visto nem você dela.
— Todos gostam de mim.
— Sim, até abrir a boca.
Mas que...
Não vou revidar, ela está coberta de razão.
— Você me pegou. Enfim, o recado está dado — pontuei, já saindo do
refeitório. — Te encontro lá.
Depois que voltei à minha sala, percebi uma mensagem do Jarvas no
WhatsApp:

Minha filha está se recuperando. Está forte e em breve voltaremos para


casa. Obrigado por me deixar cuidar dela.

Logo abaixo ele enviou uma foto, onde Andressa sorria junto com ele e
sua mulher.
Fiquei olhando para aquela foto por alguns minutos, e quando coloquei
meu celular no bolso, foi inevitável um sorriso se destacar em minha face...
Eu não sei bem o que pensar quando Victor Hugo solta suas pérolas do
nada.
Se convidar para sair comigo é uma coisa, mas em um ambiente que
Renata estará presente é outra totalmente diferente, ainda mais ela que fala na
cara o que está pensando.
Bem, estou torcendo bastante para que isso seja uma brincadeira dele, já
que além do bibelô ser fã de carteirinha do Daniel, não acho que o santo dos
dois irá bater.
— Pelo jeito ela irá reduzir Victor Hugo a pó — pensei comigo.
Por enquanto é melhor focar no meu trabalho, pelo jeito minha noite
ficará para a história...
Totalmente sem controle!

— Pode ir abrindo a boca, quero saber logo o que não disse naquele dia,
coisa fofa.
Havia saído da GCR uma hora atrás. Renata e eu já estávamos no bar, e
abrimos os trabalhos.
— Ah, não é nada demais. É só que está olhando para a mais nova
gerente de vendas da Argo’s. Coisa irrelevante.
Arregalei os olhos e por um momento não acreditei no que meus
ouvidos captaram.
— Mentira!
— Verdade!
Tão novinha e crescendo tanto...
— Ah, não acredito...
Não sei o que deu em mim, e logo pulei da minha cadeira para dar um
longo e apertado abraço em minha amiga, que automaticamente fez cara feia.
Ela não é muito fã de ser apertada, mas não tenho culpa de ela ser apertável,
uma fofinha de carteirinha.
— Tá bom, né. Já deu! — disse e logo me afastei, rindo muito. — Não
te contei antes por que sabia que faria esse showzinho.
— Deixa de ser ranzinza. Essa notícia merece uma comemoração à
altura. Iremos beber todas hoje! — Levantei meu copo, mas logo percebi o
indicador dela meneando de um lado para o outro em negação.
— Preciso estudar alguns assuntos que a Beatriz me pediu. E começo no
cargo semana que vem. Nada de ficar bêbada, pelo menos não nesse mês.
Preciso de foco.
Sorri. Ultimamente foco é o que não estou tendo, e a culpa é toda do
estrupício do meu chefe. E por falar nele...
— Quer ouvir algo engraçado? — perguntei.
— O quê?
— Meu chefe disse que viria aqui hoje quando perguntou quais eram
meus planos para a noite. — Tomei um gole de cerveja.
— E você acreditou? Pelo jeito ele estava tentando te cantar.
— Não acreditei. E sim, ele tenta me cantar quase toda hora.
— Quem te viu, quem te vê... — desdenhou — Luiza Goulart
dispensando homem! Logo a mulher mais safada que conheci.
— São coisas diferentes — pontuei. — Estou no trabalho que sempre
almejei, subindo de cargo periodicamente e muito feliz por isso. Não quero e
nem vou botar tudo a perder por causa de um homem... — repensei algumas
características de Victor Hugo e foi inevitável lembrar dele peladão em sua
casa.
Gostoso, pirocudo e sarcástico ao extremo.
— Faz sentido. E, vindo de você, algo que faz sentido é bem difícil de
acontecer.
Fiz cara feia para Renata e apontei meu dedo médio a ela, que desatou a
rir.
Quando me preparei para entrar em outra conversa, eis que o Universo
resolveu conspirar contra mim, e meus olhos voltaram-se ao peladão...
Não é possível...
Perceber que Victor Hugo caminhava em nossa direção foi um choque.
Não achei que ele estava falando sério quando mencionou que viria ao bar.
Quando olhei para o lado, percebi Renata meneando a cabeça em negação. Eu
nem mesmo precisei dizer a ela como meu chefe se parecia, — já que ela o
tinha visto da última vez mais pra lá do que pra cá —, só que ela reparou
aquele espécime de homem desfilando com seu terno em direção a nós duas.
— O quê?! Eu pensei que era brincadeira! — Levantei as mãos, rendida.
— Pelo visto não era — grunhiu com a cara fechada.
Caminhando a passos lentos, onde mais parecia estar em um desfile, ele
veio até nós, sorrindo ao colocar os olhos em mim. Meu dia estava bom
demais, é lógico que uma tragédia iria acontecer...
— Boa noite, Luiza — ele parou na nossa frente, colocando as mãos nos
bolsos em seguida.
— Victor Hugo...
— Espera... — A atenção de Victor Hugo se voltou para Renata. —
Nossa... sua amiga também é uma gracinha — disse, e logo colocou uma de
suas mãos na cabeça de Renata, que o fuzilou com os olhos.
— Victor Hugo... — ponderei, meneando minha cabeça para o lado e
esperando o pior.
— Sabe... eu pensei que Diego era a pessoa mais insuportável que
conheci, mas seu chefe parece ser bem pior. E tire a mão da minha cabeça,
além de não ser um pet, não te dei essa liberdade!
Renata se esquivou e logo comecei a rir. Não esperava menos do meu
bibelô.
Preciso destacar que a culpa é exclusivamente de Victor Hugo, que veio
em um local que não foi chamado. Eu acho é pouco ele ser tratado assim.
— Você é arisca demais. Quantos anos têm? — perguntou e logo cruzou
os braços, a olhando de uma forma divertida.
— Não é da sua conta. Outra coisa: não gosto de você!
— Nem nos conhecemos direito — Victor Hugo sorriu e colocou as
mãos nos bolsos continuando a encará-la de um jeito bem engraçado.
— Ah, eu te conheço sim. Você é o rival do Daniel Falcão!
Ele logo fechou a cara ao ouvir esse nome, em seguida suspirou
adotando uma postura desleixada.
— Eu não tô nem aí para ele.
— Acho que não sabe, mas ele é meu ídolo — Renata sorriu, mas com
certo deboche.
— Percebi, mas ele só é o seu ídolo porque não me conheceu antes,
baixinha.
— Baixinha?!
— Eu chamo ela de bibelô — resolvi abrir a boca e logo Renata fechou
a cara. — É muita fofura para uma só pessoa.
Victor Hugo começou a gargalhar do nada, sentando-se. Isso porque ele
nem convidado foi.
É claro que ele faria isso...
— Acho que no fim não vou me arrepender de ter vindo encontrá-las.
— Só que o problema é que ninguém te chamou.
— Isso é verdade — reiterei.
— Não se preocupem, sou uma boa companhia quando quero.
— Basicamente... nunca — falei, e logo foi a vez de Renata sorrir.
— Na GCR estamos trabalhando, então tenho que me manter daquele
modo. Aqui é outra história.
— Victor Hugo... — Renata disse mansamente, e logo fiquei
preocupado com o que viria. — Já que falou da empresa e atrapalhou a minha
noitada e da Luiza, precisamos falar sobre algo.
— Renata! — usei o tom mais forte, sabendo o que viria em seguida,
mas ela simplesmente me ignorou. Minha amiga é boa nisso.
— Fiquei sabendo que você é preguiçoso; pega no pé das pessoas; erra
nomes de propósito; e que é impossível viver em sua presença. Por que não
dá uma melhoradinha em si mesmo e deixa minha amiga em paz?
— Sabe... é até engraçado você bancando a guarda-costas sendo desse
tamanho.
Fechei meus olhos.
Renata com toda a certeza vai agredir Victor Hugo, e isso não vai
demorar para acontecer.
E com uma faca!
— Olha aqui...
— Espere! — meneou o indicador. — Deixa eu me defender, depois
você me xinga. Primeiro, não gosto das pessoas em geral, vamos começar por
aí para entender o restante do meu pensamento. Segundo, não nasci para
agradar ninguém, muito menos ser agradado. E terceiro, eu sou o chefe dela,
e ela terá que lidar com isso. Mas agora somos amigos, e isso partiu dela.
Estranho, não?
Renata me olhou desconfiada, e só assenti com a cabeça um quanto
duvidosa.
Não havia falado para ela que Daniel havia me dado tal conselho, e nem
julguei tão importante, mas com ele praticamente vomitando essas palavras
vou precisar contar a história inteira, do contrário ela dirá que preciso ser
internada.
— Você não precisa ser um babaca por causa disso — Renata disse.
— Daniel Falcão sempre foi um babaca com as pessoas que trabalharam
para ele e no fim você o admira, então é melhor repensar sua opinião a
respeito de mim. Defender sua amiga é uma coisa, mas não entender meu
lado por ser assim é outra totalmente diferente.
Renata o encarou por um longo tempo, mas não disse nada. Em seguida,
balançou a cabeça para cima e para baixo.
— Nisso você pode estar certo.
Automaticamente olhei para o lado, não acreditando que tais palavras
haviam saído da boca do meu bibelô. Ela dificilmente admite estar errada em
algo.
— Eu sei, fofinha.
— Dá pra não me chamar desses apelidos melosos ou diminutivos?! —
grunhiu.
— Me desculpe. É que quando te olho dá vontade de te apertar. No bom
sentido.
Não aguentei e comecei a rir. Victor Hugo logo em seguida fez o
mesmo, e quando olhei para Renata percebi um pequeno sorriso se
configurando em sua face.
— Não tenho culpa de ser bonita e ter o rosto jovem e desejável.
— Não mesmo. E pelo seu gênio forte, sei que já destruiu o coração de
vários marmanjos por essa cidade. Aliás, é provável que gosta de fazer isso.
Ao ouvir essa frase, logo ela voltou-se para mim, e no mesmo segundo
balancei minha cabeça em negação, indicando que eu não havia falado nada.
O problema é isso... esse infeliz sabe ler muito bem as pessoas, e mesmo
em uma conversa informal ele solta algumas verdades sem querer querendo.
— Ela não me falou nada. Eu só... sei. Consigo identificar mais do que
pensa ao olhar e falar com uma pessoa.
Confesso que a conversa ficou um pouco mais leve nos minutos que se
seguiram. Acho que Renata deu uma chance a ele, já que não o expulsou de
nossa mesa, e isso vindo dela é algo e tanto. Pode apostar.
Victor Hugo falou muito pouco sobre ele, e parecia mais interessado em
ouvir sobre os nossos assuntos. Entramos até no tema maquiagem, e claro, ele
deu pitaco. Enfim, o homem sabia conversar quando desejava, e isso me
deixou um pouco surpresa.
— Tem um homem...
— ...que não para de olhar pra cá — Victor Hugo completou o
raciocínio de Renata, que logo assentiu.
— Bom, não estou fazendo nada — falei, e logo ele me lançou um
sorrisinho bem sacana.
— Se não está fazendo nada, podemos fazer algo na minha casa. Você
pelada ainda não saiu da minha cabeça, gracinha.
— Vocês dois! Meu Deus! — Renata falou. — Já não basta eu ser
obrigada a ouvir Luiza falando das orgias que já fez?
Um olhar desconfiado tomou conta da face do meu chefe, e logo ele
levantou o seu copo de cerveja simulando brindar com alguém, tomando um
gole do líquido.
— Luiza, Luiza, Luiza... o que mais vou descobrir sobre você?
— Nada mais! Eu só...
Parei de falar no exato momento em que uma mão tocou meus ombros.
Ao me virar, notei um homem moreno sorrindo para mim.
— Olá.
— Oi — respondi.
— Estava te admirando há algum tempo, e finalmente vim até você. Me
chamo Juan.
— Prazer, Luiza. — Ele me deu um beijo no rosto e logo olhei para
Renata que me analisava atentamente. Já Victor Hugo não parava de fitar o
homem, e ele logo percebeu.
— Vocês não são...?
— Namorados? Claro que não! Creeeedo! — Victor Hugo respondeu
com uma voz bem esquisita e logo mordeu os lábios. — Digamos que eu
prefiro outra coisa — deu uma piscadinha para o homem, e logo olhei para
Renata, que estava tão perplexa quanto eu ao observar tal cena.
Que raios esse ser está fazendo?
— Espera, você está dizendo...
— Gatinho... — falou. — Não vai rolar nada com a minha amiga, e sabe
o porquê?
— Por quê?
— Bom... desde o momento que te vi, eu disse a ela que você era o meu
número, e estou te elogiando faz tempo aqui na mesa. Você deveria ter
abordado a mim e não ela. Uma pena...
Após ele terminar a frase, Renata abaixou a cabeça e começou a rir, não
me segurei, e soltei uma gargalhada, deixando o homem sem graça.
— Então... por que não vai ao banheiro, dá uma arejada na cabeça e
depois volta aqui e convida a pessoa certa para sair? — Victor Hugo juntou
as mãos, e logo passou uma delas pelos cabelos, fazendo charme. — Vou
esperar ansioso e posso até relevar você ter chegado nela primeiro.
Eu não acredito que estou presenciando algo assim!
— Eu gosto de mulher — disse e se recompôs, ficando ereto.
— Nossa... que peninha! — fez beiço, e logo o homem saiu de perto da
mesa sem dizer nada mais.
Tanto eu quanto Renata ficamos encarando Victor Hugo, que voltou a
tomar sua cerveja como se nada tivesse acontecido.
— Vão ficar me olhando como se eu fosse uma aberração até quando?
— Não sabia desse seu lado — debochei.
— Não tenho esse lado, só improvisei para ele ir embora. Não gosto que
me atrapalhem quando estou com minhas amigas.
— Não sou sua amiga! — Renata afirmou categoricamente.
— Ainda! Já percebi que gostou de mim, e será questão de tempo para
sermos bons amigos. E não se preocupe, não quero te comer. Já você, Luiza...
— Meu Deus! — Renata sibilou colocando a mão na testa.
Ele não muda.
Apesar dos pesares, na empresa ele pode até ser uma pessoa difícil de
lidar, mas fora dela parece ser um homem divertido, confesso.
— Vamos mudar de assunto já que espantou o único cara que veio até
mim.
— Do que falaremos?
— Acho que...
Ouvi um pequeno barulho, e logo percebi ele colocando seu celular
perto do ouvido. Em seguida, suas feições ficaram um pouco mais sérias, e
ele se levantou.
— O que houve com ela?
Victor Hugo ouviu atentamente o que era dito por alguns instantes, e
logo depois disse: — Irei para aí agora! Acho que posso ajudar com isso...
— desligou o telefone e imediatamente se voltou a nós.
— O que houve? — perguntei.
— Não se preocupe, foi um imprevisto e irei lidar com isso agora —
sorriu e foi em direção à Renata. — Foi um prazer te conhecer, lady Renata.
— Pegou sua mão direita e deu um pequeno beijo na mesma, deixando-a
levemente surpresa.
— O prazer foi meu — riu brevemente.
— Até amanhã, Luiza. — Se aproximou e beijou minha bochecha, mas
claro, pegou a parte lateral dos meus lábios.
Feito esse gesto saiu andando, e logo olhei para Renata, que me
analisava bem desconfiada.
— Bom, acho que devo um pedido de desculpas a você.
— Pelo quê? — questionou.
— Eu pensei que ele não viria, sem falar que te provocou, e pode muito
bem estar trabalhada no ódio.
— Não, muito pelo contrário. Gostei do seu chefe. Ele fala o que pensa,
é desbocado, e não tá nem aí com o que as pessoas estão achando dele. Tipo
eu.
Soltei uma risadinha maliciosa encarando a minha amiga.
— Se quiser...
— Nem sequer pense em completar essa frase!
— Nossa! Eu só iria te chamar para um ménage, ele, você... e eu. Que
tal?! Posso te ensinar umas coisinhas que jamais irá esquecer...
Renata me olhou com certo nojo, e logo caí na gargalhada.
— Você é horrível, Luiza. Uma péssima pessoa e amiga.
— Foi brincadeira, bibelô. Amorzinho da minha vida.
— Vou deixar claro que vocês dois não fazem o meu tipo, e jamais
ficarei enrolada com alguém que se pareça comigo, eu mataria a pessoa ou o
contrário. Preciso de alguém oposto a mim.
— Tipo o Diego?
E foi só eu falar o nome dele que ela revirou os olhos, mas de um jeito
todo diferente do habitual.
— Seria uma pessoa com o estilo parecido sim, mas não
necessariamente ele.
— Aham...
— Dá pra parar de me olhar desse jeito?!
É incrível o quanto ela fica desconcertada quando toco no nome dele.
— Sei como é... se apaixonar é complicado.
— Eu não estou apaixonada por homem nenhum! — me fuzilou com o
olhar e vi que ela estava sim balançada de alguma forma por ele. Mas quero
manter minha integridade física, e não vou discutir.
— Tudo bem. — Levantei as mãos. — Ele ainda está na Argo’s, né?
— Sim — grunhiu.
Devido ao seu desconforto não me aprofundei no assunto.
Resolvi focar no que aconteceu em meu dia, e não contive um sorrisinho
ao relembrar a cena de Victor Hugo repelindo o homem que havia chegado
em mim. No fim, ele pode não ser um babaca completo...
“É bom ser surpreendida no trabalho...”

Minha vida na empresa está mudando pouco a pouco...


Nos dias que se seguiram, Victor Hugo não pegou no meu pé, e achei
isso estranho. Ele em algumas oportunidades até me tratava como se eu fosse
verdadeiramente uma amiga, conversando coisas triviais, e até mesmo
fazendo piadinhas sobre outros assuntos.
O que não mudou — e dificilmente mudaria — foram as suas constantes
cantadas direcionadas a mim. Até me acostumei, mas o problema nisso é que
sei o quanto é complicado um homem como ele passar despercebido, e meus
pensamentos constantemente me traem, já que a imagem dele seminu aflora
em minha cabeça com certa frequência.
Quando isso acontece acabo fazendo uma das coisas em que sou boa:
sexo.
Tenho meus contatinhos fixos, e em determinados dias estou mais
carente que o normal, então acabo unindo o útil ao agradável.
Transar com meu chefe não é opção no momento, mas de uma coisa
estou certa: seria prazeroso, ah... disso tenho certeza absoluta.
Enfim, é melhor afastar isso da minha cabeça, além de tudo hoje é sexta-
feira, e finalmente irei passar o fim de semana sem trabalho acumulado. Eu
só preciso conversar com Victor Hugo sobre um relatório específico.
A fim de acabar logo com o sofrimento me encaminhei para a sua sala,
com o tal documento em mãos. Ao notar sua porta aberta, entrei.
— Victor Hugo, precisamos falar sobre esse...
— E nessa loucuuuuura... — me interrompeu, falando alto.
— Como?!
— De dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando
as evidêeeencias...
Meu Jesus amado!
Ele não estava cantando, estava gritando com um grampeador em mãos
simulando ser um microfone. Mas nem tudo está perdido, a voz dele até que é
bonita.
— Para de passar vergonha, por favor! — olhei para os lados e fechei a
porta, na esperança de que esse vexame não fosse visto por muitas pessoas.
— Mas pra que viver fingindo, se eu não posso enganar meu
coraçãaaaaao...
Chegou mais perto de mim e fechei meus olhos, morrendo por dentro...
— Victor Hugo!
— Eu sei que te aaaaamo!
Meu Deus, há quanto tempo eu não sentia tamanha vergonha? Eu nem
sei, essa palavra não existia no meu dicionário... até agora!
Pelo jeito ele levou a música Evidências – do Chitãozinho & Xororó a
outro nível.
— Chega de mentiiira, de negar o meu deseeeejo, eu te quero mais que
tudo, eu preciso do seu beijo, eu te entrego a minha vida, pra você fazer o
que quiser de miiiiim, só quero ouvir você dizer que sim.
Ele parecia um surtado declamando algo para sua amada, e no caso ele
me pegou para Cristo, já que era eu a pessoa que estava em sua frente.
A fim da reputação dele não piorar um pouco mais na empresa coloquei
o dossiê em sua mesa e rapidamente bati palmas para o seu show particular.
— Fabuloso! Você seria um ótimo cantor se não fosse CEO.
— Sou talentoso, gracinha.
— E a que se deve a felicidade?
— Nada demais.
Fixei meus olhos nos dele, tentando encontrar algum traço de hesitação,
mas acabei reparando em outra coisa... novamente.
— Por que parece que você anda passando tinta na cara?
— E lá vem você com essa história de novo...
Fui para mais perto e toquei seu rosto, e logo ele recuou. O que será que
ele está escondendo?
— Na primeira vez pensei que isso era maquiagem, mas vendo de
perto... é tinta.
Victor Hugo parecia confuso, ou estava fingindo bem.
— Eu durmo em locais inapropriados às vezes como já deve ter
percebido, e ontem mesmo acabei adormecendo em um banco de praça.
— E o que o cu tem a ver com as calças? — cruzei meus braços,
desconfiada.
— Digamos que ele foi pintado... no dia anterior — me lançou um
sorriso malicioso.
Coloquei a mão na boca e comecei a gargalhar.
— Isso tem que ser mentira!
— É, acredite se quiser. — Foi em direção a sua mesa e abriu o
documento que deixei no mesmo. — O que é isso?
— Serviço. Para você.
— Plena sexta-feira? Sério?
Se tem algo que não mudou em nada foi a sua preguiça aparente.
Cheguei até a cogitar certo dia se ele levava serviço para casa, mas
terminei rindo alto só de pensar a respeito. É basicamente impossível. Só vejo
ele reclamando que tem bastante serviço, contudo agir que é bom... nada!
— Sim, plena sexta-feira, e agradeceria bastante se fizesse isso hoje, já
que segunda-feira preciso entregar essa papelada para o RH de manhã, e você
não sabe o quanto eles pegam no meu pé. Estou cansada de levar trabalho
para casa.
— Uau! E eu pensando em te demitir esses dias atrás.
Fechei a cara.
— Isso não é mais uma opção. Mesmo a contragosto eu faço
basicamente todo o seu serviço, e sem mim... você não duraria nada. Fato.
— Olha o que está falando... — balançou o indicador se divertindo. —
Já te provei que não é bem assim que as coisas funcionam.
— Ter memória fotográfica pode ajudar em algumas coisas, mas não
tudo. Você precisa de dados para gravar coisas, e olha só... eu forneço esses
dados — reforcei minha ideia. — O trabalho duro cai em minhas costas, você
só precisa entendê-lo.
— Sim, é por isso que sou o CEO, e você está abaixo de mim na cadeia
hierárquica. Você faz o serviço bruto e eu fico lapidando ele.
E ele continua um babaca...!
— E, antes que me xingue, se é que já não fez isso mentalmente, não
estou te diminuindo. Sempre existe alguém acima de outra pessoa.
— Tipo o Luigi em cima de você? — perguntei com malícia.
— Justamente.
Depois que ele respondeu isso, logo sua cara se fechou, e acho que ele
entendeu a pegadinha.
— Olha... gostei da visão ampla sobre isso — provoquei.
— Essa resposta não pegou nada bem — suspirou.
— Não mesmo. Mas confesso que até imaginei um cena aqui, e olha...
ficou excelente!
— Que nojo! — fez cara feia, sentando-se. — Saia da minha sala e pare
de falar bobeira! — disse, mas seus lábios se curvaram com um pequeno
sorriso.
— Eu vou, mas antes de ir embora passo aqui para pegar os documentos
prontos.
— Boa sorte...
— O que falou?
— Nada. Volte ao trabalho e pare de me traumatizar.

Por alguns minutos fiquei girando em minha cadeira enquanto apertava


a caneta freneticamente pensando sobre algo que Victor Hugo me falou.
Às vezes Renata fica me zoando que me falta inteligência, e agora
prestando mais atenção nas coisas, acho que fui passada para trás na questão
da tinta no rosto do estrupício.
Não é a primeira vez que observo a mesma coisa, e a menos que ele seja
muito idiota — o que não posso descartar em hipótese nenhuma —, é
complicado acreditar que ele dormiu em mais de um banco de praça que foi
pintado no dia anterior.
Tem caroço nesse angu...
Além do que a tatuagem no seu peito marcando uma data especifica me
deixou curiosa. Há várias coisas intrigantes e estranhas quando relacionadas
ao meu chefe, e estúpidas também, claro.
O fato é que preciso pegar meu documento, e farei isso agora.
Depois que entrei em seu escritório, fiquei o admirando por um tempo.
Intimidar ele não adiantaria... perguntar também não... chantagem... talvez,
mas não faria isso.
— Tá me achando bonito ou o quê?
— Por que não para de me enrolar e me fala qual é dessa tinta?
— Caralho! De novo essa história?
— Não vou engolir seu papinho de banco de praça.
— Você não precisa trabalhar? — perguntou ignorando o meu
questionamento.
— Sim, mas não se esqueça de que agora somos amigos e fiquei curiosa.
Não se deixa uma mulher como eu assim! — fingi descontentamento com
leves traços de tristeza ao cruzar meus braços.
— A verdade é que continua não sendo da sua conta. Você me ignorou
quando cantei evidências para você. Então... não temos o que conversar!
Eu ri e ele fez o mesmo.
— Victor Hugo...
— Anda! Vá! Isso não é nada. Ocupe sua cabeça com assuntos mais
importantes.
Pelo jeito não irei ter informação alguma do homem.
Saco!
Odeio ficar curiosa e não descobrir a fonte das minhas teorias.
— Tudo bem, você venceu, mas cadê o relatório finalizado que deixei
na sua mesa?
— Não fiz!
Dei um suspiro bem longo. Deus está claramente me testando em plena
sexta-feira.
— Olha...
— Antes de começar o sermão desnecessário, olhe para o seu relógio,
agora são 15 horas e você fica na empresa até às 18:30h. Temos tempo. Passe
aqui às 18h e todo mundo vai embora feliz.
— Mas...
— Não tem mas, nem meio mas. Beijo, gracinha. Suma da minha frente!
Diante de sua má vontade, voltei à minha sala e adiantei o serviço da
semana seguinte.
— O que foi, amiga? — Estela perguntou ao perceber o nervosismo em
meu rosto.
Sou uma mulher bem transparente quando estou estressada ou irritada.
Até demais para o meu gosto. Quando algo me aperreia — como diz minha
vó —, não fico de sorrisinho falso, e quando a situação foge do controle,
como é o caso — já que estou de mãos atadas esperando o estrupício fazer a
parte dele — fico com o semblante raivoso bem destacado.
— Só Victor Hugo procrastinando. Como sempre — bufei.
— Ninguém gosta dele, né? E estou falando de todas as pessoas, de
todos os setores. Ele sempre atrasa documentos, nenhum departamento se
salva, e o RH basicamente come o nosso cu com areia!
Comecei a rir desenfreadamente com a sua frase. Pelo menos isso foi
algo bom para tirar a seriedade do ambiente.
— Precisamos nos acalmar — pontuei. — Como diria um sábio filósofo:
vai dar tudo certo!
Matei um pouco mais o tempo com os afazeres da semana seguinte, e
quando olhei meu relógio, percebi que já se passava das 18h.
Levantei-me da cadeira e fui encontrar o estrupício, mas adivinhem só: a
sala dele estava fechada, e após Morgana — sua secretária — notar a minha
incredulidade ao ver essa cena, logo falou: — Ele foi embora mais cedo. Às
15h30m.
— Puta que pariu! Me conta uma novidade! — vociferei. — Ele deixou
algum documento com você? — perguntei na esperança de ter uma resposta
positiva e nem tudo estar perdido, mas...
— Não.
Virei minhas costas e saí pisando duro.
Que tipo de idiota contrata um CEO dessa laia, totalmente
irresponsável para comandar uma renomada agência de turismo?

Como dizia alguém que não me recordo bem: segunda-feira é o pior dia
da semana, e o meu estava superando as expectativas.
Além de não relaxar no sábado e domingo devido a preocupação com o
único relatório que eu deveria entregar, ainda de quebra estou sendo
pressionada por Marlene, a cobra do RH.
— Você sabe muito bem que trabalho com prazos, Luiza. E o seu
estourou. De todas as pessoas, você é a única que não me entregou os
documentos até agora, e segue me enrolando.
— Eu já disse, deixei com Victor Hugo.
— Simples: então vá buscar e me entregue! Preciso disso
imediatamente.
Inferno na Terra!
Nem me dei ao trabalho de responder, e quando dei por mim estava na
sala do preguiçoso que ao me ver esboçou seu sorriso costumeiro. Só que
hoje não estava para brincadeira.
— Você me enganou semana passada! Saiu mais cedo e não fez nada a
respeito do relatório.
— Sabe... eu já disse que você fica linda quando está nervosa? Suas
bochechas ficam vermelhinhas, e tenho vontade de te apertar demais,
gracinha.
— Seu babaca! Estou falando sério, você pode parar com essa
palhaçada e prestar atenção no seu serviço só um pouco pra variar?!
Acho que exagerei em minha tonalidade, já que várias cabeças se
voltaram para a nossa direção, e só aí fui perceber que não havia fechado a
porta. Muito pelo contrário, ela estava escancarada.
Victor Hugo não falou nada, mas fechou a cara na hora, e não sei bem o
motivo, mas fiquei preocupada.
— Bom... bom... bom... — disse, levantando-se em seguida e vindo para
mais perto, pelo menos foi o que pensei, mas na verdade ele simplesmente
fechou a porta.
— Victor Hugo...
— Quietinha, eu falo agora! — Seu tom me deu medo. — Eu nunca
gritei com você, e confesso ter me controlado bastante agora para não fazer,
então com que direito acha que pode entrar na minha sala e falar como bem
quiser comigo?
— Ah, vai pro inferno!
— Como é?! — colocou as mãos nos bolsos, me fitando com
incredulidade.
— É isso mesmo que ouviu. Estou cansada da sua preguiça, das suas
desculpinhas esfarrapadas para adiar tudo. E outra coisa, não me venha com
esse papinho de: que direito acha que pode entrar na minha sala e falar
como bem quiser comigo?, porque isso vale para as duas partes, e você me
canta frequentemente.
— Sim, e eu disse que não mudaria isso.
— Incrível, você é um babaca!
— Acertou de novo!
— Sabe de uma coisa: você é um péssimo CEO! O pior!
— Ah, e quem é um bom CEO? Daniel Falcão? — questionou, e vi ódio
aparente crescendo em seu rosto.
— Sim, eu considero ele um bom CEO, mas estou falando de Natanael,
o homem que você substituiu. Ele sim era alguém com índole e caráter, além
de dar valor no trabalho, ao contrário de você.
Eu realmente não esperava o que aconteceu em seguida, mas suas duas
mão se chocaram violentamente contra a parede, meio que me prensando
nela, por mais que eu não tivesse sido tocada.
— Já chega! — gritou, e tenho certeza de que toda a empresa ouviu, já
que sua voz foi tão alta que quase me deixou surda. — Quantas vezes eu
tenho que dizer para não me comparar a Natanael?! — continuou com o tom
elevado, mas não me intimidei.
— A verdade dói, não é? Ser um homem totalmente oposto a ele é o seu
karma.
Automaticamente sua mão direta se fechou, socando a parede
violentamente em seguida, me olhando como se fosse me matar. Logo depois
ele meneou seu indicador com a outra mão, balançando-a na minha frente,
simulando dar um aviso sem sequer abrir a boca.
Não falei nada, mas percebi o exato momento que ele chegou perto dos
meus lábios, mas eu sabia que não era para me beijar, tinha algo escondido
em seu gesto.
— Na próxima vez que eu for comparado a um homem que desviou
dinheiro dessa empresa, e principalmente molestou uma funcionária menor
de idade, você irá pagar com a sua vida, porque vou garantir que além de ser
demitida da GCR, você nunca mais irá arrumar um emprego decente.
NUNCA. Tá me escutando?! — vociferou.
— Co-como é?
Fiquei branca, e sequer consegui formular uma frase melhor.
— É isso mesmo que ouviu. Seu exemplo perfeito de CEO saiu daqui
pela porta dos fundos porque ficou cantando a Débora, nossa estagiária. E
sabe o pior? Ela tem 15 anos! 15 anos, porra! — berrou.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor.
O que ele falou ainda não havia descido pela minha garganta, mas ao ver
o seu cenho, bem como a maneira que ele havia dito suas palavras, não
duvidei.
Ele colocou as duas mãos no rosto, esfregando o mesmo repetidas vezes.
Pensei que ele se distanciaria de mim, já que deu alguns passos para trás, mas
não, novamente ele encurtou nossa distância, me olhando com bastante raiva
e desprezo.
— Você queria poder, Luiza?! Então considere-se satisfeita, porque te
entreguei de bandeja isso!
— Do que está falando?
Senti-o respirando profundamente perto de mim, e em seguida ele
colocou as mãos na cabeça, visivelmente nervoso. Conforme os segundos
foram passando, ele proferiu alguns xingamentos que não ouvi bem,
ajeitando sua postura em seguida. Pelo que percebi isso o acalmou.
— Luiza, preste bem atenção: eu assinei um acordo de confidencialidade
sobre o que acabei de te falar. E, se alguém souber desse pequeno
segredinho... eu vou para a rua sem receber um tostão, e para piorar meu
nome vai ser manchado como um homem de negócios. É isso!
— Isso que disse sobre Natanael é mesmo verdade?
— Sim, Luiza. Eu não mentiria sobre algo que envolve uma criança.
Não tenho respeito algum por quem molesta menores de idade. Posso ser o
pior sacana de todos, ter todos os defeitos do mundo, mas jamais vou tolerar
ser comparado a um ladrão ou um... pedófilo. E outra coisa... — Colocou o
dedo em riste, ainda com a expressão séria. — Se fosse só um pouquinho
mais atenta no seu serviço, iria saber que você já assinou a porra dos papéis
que deixou na minha mesa, e os entreguei na sexta-feira mesmo!
— Mas sobre os documentos você falou...
— Não! — espalmou uma das mãos. — Já sei o que vai dizer, e em
momento algum falei que esse documento estava hoje aqui comigo.
Verdade. Sobre isso ele tinha razão. O que ele fez foi mexer comigo, e
acabei surtando em seguida.
Merda! Odeio estar errada quando se trata de serviço.
— Não estou entendendo porque o RH veio me cobrar hoje pela manhã.
— E eu sei lá, caralho?! Por acaso tenho cara de adivinho?! Vai na
porra do RH e se informe melhor, mas não chegue gritando aqui comigo ou
me comparando com mais ninguém sem me conhecer, porque você já sabe
qual será o seu destino!
Ficamos nos olhando por alguns segundos, e pude ver o seu rosto se
suavizando.
— Tudo bem, chefe.
Saí do seu raio de ação, um pouco cabisbaixa. Não sei o que mais me
afetou, mas ouvir aquilo sobre Natanael não caiu bem para mim. Eu o
admirava tanto...
Quando me preparei para cruzar a porta, eis que ouvi a voz dele
novamente: — Luiza!
— Sim.
— Antes de ir saiba que... eu te devo um pedido de desculpas por gritar
com você — falou, encarando meus olhos. — Nada justifica essa reação, nem
mesmo eu estar certo sobre alguma coisa.
Tentei notar algum traço de hesitação em sua face, mas não vi. Havia
sinceridade em seu cenho, e ele mesmo viu o quanto se descontrolou.
— Tudo bem — falei, logo saindo de sua sala.
Eu não estava preparada emocionalmente para tudo que essa segunda-
feira está me proporcionando...
“Precisamos segurar o desejo acumulado em nosso corpo... ou não”

Não sei o motivo, mas a minha raiva por Victor Hugo foi amenizada.
Uma parte dela, que fique claro.
Na realidade acho que seu pedido de desculpas ajudou, já que percebi
em seu rosto que ele foi sincero. Mas algo que não diminuiu em nada foi a
minha ira em relação a esses papéis, e agora mesmo estou indo no RH da
empresa.
— Eu estava na esperança que tivesse trazido o que foi pedido, mas pelo
jeito não foi isso que veio fazer aqui — Marlene falou antes mesmo de eu
abrir a boca.
— Só um minuto! — falei, indo em direção a uma das mesas do RH,
onde Bianca e Marcos trabalhavam.
Geralmente é para eles que entrego esse arquivo específico. Depois de
uma rápida olhada não encontrei a minha pasta, e logo fiquei nervosa.
— O que está procurando? — Novamente a voz da histérica se fez
presente, mas a ignorei.
Não quero pensar na hipótese de que Victor Hugo me enganou, por isso
andei pela extensão da enorme sala, procurando algo chamativo.
Esse dossiê tinha uma cor diferente das demais, e pelo menos em gravar
características de objetos e pessoas sou muito boa.
Depois de quase estar desistindo, fui para um local isolado, ainda no
setor, e foi aí que tive uma bela surpresinha.
Logo fui na direção daquela gostosura de dossiê, o pegando e
praticamente jogando no peito de Marlene, que me olhou assustada.
— É o seguinte: Victor Hugo entregou isso na sexta.
— Mas... isso não é possível.
Marlene parecia perdida, e logo “achou” Valadares, que voltava do seu
café da manhã e sentou-se na mesa em que achei os documentos.
— Valadares! O que significa esse dossiê em sua mesa?
— Ah, eu não avisei antes. Victor Hugo me entregou na sexta-feira antes
de ir embora
— Como é?! Eu estava procurando isso! — berrou, o acuando.
Eu, como não tinha nada a ver com o problema dos outros, fui para mais
perto da megera.
— Da próxima vez preste atenção no seu serviço antes de cobrar o meu!
Dito isto simplesmente fui embora.
Meu dia está começando a melhorar...

Meu fim de semana foi relativamente agitado.


Saí com Renata (óbvio), e me encontrei com algumas amigas que
trabalharam comigo na Argo’s. Tentei esquecer o trabalho, porque
ultimamente só ando vivendo para isso, e a minha sanidade mental vai se
esvaindo cada vez mais.
Amo o que faço, mas é desgastante na maior parte do tempo.
Enfim, acho que consegui clarear bem as ideias no fim de semana, o
problema mesmo é que as surpresas na segunda-feira começaram cedo...

Luigi, o dono da empresa, estava me esperando na linha, e já tinha ideia


do que ele falaria comigo.
— Como andam as coisas, Luiza?
— Tudo nos conformes.
— Victor Hugo aprontou mais alguma coisa?
Se tem algo que me irrita é passar esse tipo de informação para Luigi.
Ele não para quieto na cidade, e o erro é dele. Nunca precisei vigiar
ninguém, e isso está me incomodando.
— Luigi... não tenho como supervisionar o trabalho do meu chefe. Na
verdade é ele quem faz isso.
— Não pedi para fazer isso. Quero saber do comportamento dele na
empresa, se está indo trabalhar de ressaca, chegando atrasado ou saindo cedo,
coisas assim.
— Pelo que sei, ele sair mais cedo da empresa dois dias da semana foi
de comum acordo com você.
— Infelizmente, sim. Foi um pedido dele. Nunca vi um CEO tão
preguiçoso, para que ele quer sair mais cedo? Para continuar fazendo nada?
— murmurou, com a voz levemente alterada.
— Você concedeu essa regalia a ele. O que ele faz após o horário de
trabalho não é da nossa conta, a vida é dele e não temos nada a ver com isso.
Quando vi já havia dito essa frase, e nem sei ao menos o porquê.
Eu, Luiza Goulart, defender Victor Hugo não é normal. Então, minhas
palavras foram surpreendentes até para mim, ainda mais sabendo como é sua
rotina dentro da empresa.
— Eu duvido muito disso. Ele sempre foi taxado como preguiçoso.
— Bom, foi você quem demitiu Natanael, ele vinha fazendo um bom
trabalho, e...
Cessei a fala ao lembrar do que me foi confidenciado.
Elogiar um homem que pode ter feito o que Victor Hugo me contou não
é algo do qual me orgulho. Ele pode ser o bom profissional que for, mas isso
tudo cai por terra se ele fez o que ouvi.
— Foi preciso, Luiza. Não tive outra opção.
— E você pode me contar o que aconteceu?
A linha ficou muda por alguns segundos, e claramente ele deu pra trás.
— É um assunto delicado e confidencial, mas envolve assédio a uma
pessoa menor de idade, entre outras coisas. É isso que posso falar.
Então Victor Hugo estava certo.
Pela forma como ele havia ficado nervoso, bem como a maneira que ele
disse as palavras naquele dia, eu nem precisava fazer esse questionamento.
— Entendo.
— Sei que era próxima a ele, até porque Natanael te ensinou muita
coisa, mas passou. Ele foi embora e não voltará. Por mais que Victor Hugo
tenha todos os defeitos do mundo, ainda assim é um CEO acima da média, e
espero que ele te ensine as coisas até...
Novamente cessou a fala, e aquilo me deixou preocupada.
— Até o quê?
— Até ele botar tudo a perder!
Sua última frase me preocupou de certo modo.
Não que eu não esperasse tal comportamento do meu atual chefe, mas a
forma com que Luigi expressou sua opinião foi... sei lá, diferente. Ele parecia
ter certeza de que Victor Hugo aprontaria algo.
— Enfim, liguei também para avisar que ainda não tenho previsão para
voltar. Estou tentando fechar alguns contratos no exterior, e preferi eu mesmo
fazer isso. Em breve te dou mais informações.
— Tudo bem.
Depois que ele desligou o telefone, fiquei pensando alguns minutos
sobre o que conversamos.
Fico apreensiva em pensar que o gostoso pode ser uma bomba-relógio
igual Luigi pintou.
Ou não estou querendo acreditar?
Me levantei e fui encontrá-lo. Eu precisava fazer algo.
Quando o avistei em sua sala, notei ele divagando em pensamentos,
levou um tempo até ele realmente me notar.
— Eu passei aqui para confirmar que tudo está certo, a papelada
realmente estava com eles desde sexta-feira.
— Sim, como te falei — esboçou um pequeno sorriso, mas diferente do
seu habitual sarcasmo.
— Então, também te devo um pedido de desculpas por não ter prestado
atenção em algo tão importante, já que assinei sem sua avaliação.
— Não se preocupe. Achei até melhor e confio no seu trabalho.
Essa frase sim me pegou de surpresa. Ele não elogia pessoas, pelo
menos não me recordo de tal gesto.
— Não precisa me falar que confia em meu trabalho, disso eu sei, já que
praticamente faço o meu e o seu, né? — Cruzei os braços e sorri, e logo
Victor Hugo fez o mesmo.
Confesso que gosto de provocá-lo um pouco, e por mais que na maior
parte do tempo estejamos brigando, não consigo odiá-lo, sabe? Acho que ele
é sarcástico e palhaço por natureza, e não pretendo nem quero mudar nada
nele. Quer dizer... na verdade queria mesmo é que ele fosse menos gostoso,
isso me desconcentra pra caralho.
— Justo. E, já que estamos acertados, espero que continue sendo minha
ouvinte quando eu cantar alguma música. Posso estar bastante inspirado em
um dia qualquer desses.
— Pensarei no seu caso — dei uma piscadinha e logo fui embora dali.
Victor Hugo tem o dom de me desestabilizar, e realmente preciso focar
em meu trabalho, principalmente hoje...

Tive uma das melhores semanas que posso recordar na GCR.


Adiantei todo o meu serviço, não tive problemas com Victor Hugo e de
quebra resolvi alguns assuntos pessoais que estavam me incomodando.
Ao passar pelo refeitório, ouvi alguns burburinhos e em todos eles o
nome do meu chefe estava envolvido. Confesso que fiquei mais atenta para
ouvir o que ele havia aprontado dessa vez.
— Ficou sabendo da novidade? — Gisele, uma das mulheres com quem
eu mais conversava na empresa, já chegou falando, e como não sou boba nem
nada comecei a dar corda.
— Não. Mas sei que tem a ver com Victor Hugo e estou extremamente
curiosa. Desembucha!
— Ele tá todo feliz hoje! — arqueou as sobrancelhas e voltou a tomar
seu café.
— Sério?! — fechei a cara. — Isso é a notícia?!
— Mais ou menos. Já viu ele feliz e cumprimentando as pessoas aqui
dentro?
— Não. Mas esperei algo mais... chocante, sabe? Vi algumas meninas
falando sobre algum equipamento, sei lá, e até estavam maravilhadas.
— Ah, é mesmo. Deve ser o violão que ele trouxe.
— Pera aí. O que disse?!
Isso sim me surpreendeu, fez até com que eu perdesse o raciocínio.
— Sério mesmo, amiga. E algumas pessoas juram de pé junto que além
de tudo ele ainda estava cantarolando até chegar em sua sala. Por isso esse
burburinho, porque além dele ser grosso com as pessoas e não dar nem ao
menos um bom dia, o cara do nada chega cantando na empresa e conversando
com todos. Se isso não é estranho para você...
— Concordo. Mas vamos relevar um pouco, já estamos no fim da
semana. Ele deve estar animado, sei lá.
Nem preciso mencionar que Gisele me olhou com desdém balançando a
cabeça, não concordando com o que eu disse.
— Aham... animado não sei com o quê! A felicidade desse cara é irritar
a gente, amiga.
— Isso concordo.
Após sair do refeitório, arrumei alguns papéis e levei para a megera do
RH. Logo em seguida passei na sala do meu lindo chefe sem nenhum motivo.
Eu queria ver o violão. Ou vê-lo, tanto faz. O que importa mesmo é a minha
curiosidade, já que fiquei alheia a esses acontecimentos.
Não fiz cerimônia, e logo fui entrando, o observando com os pés na
mesa (novidade), e suas mãos no famoso violão.
Ele nem me deu bola, só foi realmente me olhar quando dei algumas
batidinhas em sua mesa, chamando sua atenção.
— Oi, gracinha. Como você está?
Até mesmo a sua voz ao me cumprimentar estava diferente. Devido ao
meu doutorado em psicologia, posso afirmar que ele é bipolar.
Sorri com a ideia que uma louca como eu sequer cogitei fazer
psicologia, mas costumo imaginar que esse doutorado existe na minha vida.
— Estou bem — disse, voltando minha atenção ao instrumento disposto
em suas mãos. — Então, é verdade que você trouxe um violão para a
empresa. Estou chocada.
— Sim. Eu que mando aqui, esqueceu?
— Eu sei disso, quero saber mesmo é o porquê.
— Ou trouxe ele para cantar uma música para você ou só para deixar de
enfeite mesmo. O que acha? — perguntou e ficamos nos encarando por um
tempo sem falar nada, mas em seguida começamos a rir quase no mesmo
instante.
— Não vou entrar novamente na sua sala, estou deixando isso claro.
— Não importa o que está me dizendo agora. No momento que eu
quiser, irei te chamar, e como hierarquia é poder, você irá me obedecer.
— Victor Hugo Avelar!
— Não, nem de longe você se parece com a minha mãe para falar meu
nome completo.
Cruzei meus braços, o encarando.
— Enfim... vamos parar de conversa fiada: o que temos pra hoje?
— O que temos pra hoje é saudade... — cantou, tocando algumas cordas
do violão.
Sorri.
— Eu desisto de você.
— Por favor, não faça isso. Estou me esforçando para melhorar como
pessoa para que os outros gostem de mim — abaixou a cabeça, e fiquei
levemente comovida.
— Sério?! — questionei, e logo ele a levantou.
— Não! Foda-se a opinião dos outros! Já disse que não preciso agradar
ninguém.
Novamente sorri. Eu deveria ter desconfiado.
— Tá certo...
— Mas já que me perguntou... — Abriu uma das gavetas e logo pegou
um pequeno dossiê. — Preciso que confira o que circulei no papel avulso que
está aí dentro. E, se fizer para ontem eu agradeceria bastante. Estou tentando
cumprir prazos.
Fui para mais perto e peguei o documento de sua mão, mas logo deixei
uma alfinetada básica: — Quem te viu quem te vê... o que deu em você para
resolver trabalhar?
— Me poupe das suas gracinhas e tire sua bunda gostosa da minha
frente.
— Você não a provou, não tem como saber.
— Eu gosto das suas mensagens subliminares, sabia? Mas tudo tem o
seu tempo, gracinha.
Mordeu o lábio inferior e não falei nada. Pensar em sexo no ambiente de
trabalho me desconcentra, e ultimamente ando muito desconcentrada.
— Melhor eu ir — falei, já me voltando a saída.
— Sim, realmente é melhor...

Fui intimada a voltar na sala do meu chefe antes do expediente acabar.


Quando cheguei lá com o relatório pedido, logo percebi ele com o violão
em mãos me olhando de um jeito esquisito.
— Feche a porta, por favor.
Ótimo...
Qual será a música da vez?
— Pronto! — coloquei o dossiê em sua mesa e ele só me olhou... com
desejo. — Mais alguma coisa?
— Não. Pode ir.
Expectativas foram criadas. Expectativas foram frustradas.
Quando dei meia volta e coloquei a mão na maçaneta, eis que...
— Vai, senta aqui do meu lado, me deixa te olhar e sentir o seu cheiro,
pra me renovaaar, fale do que você quiser, eu quero ouvir sua voz, fale do
mundo, dos seus planos, me fale de nós...
Eu sabia que ele estava esperando a oportunidade certa para cantar
alguma coisa para mim, e quando ele começou a entoar Minha Herança, do
João Neto e Frederico resolvi me virar, me permitindo admirá-lo.
Victor Hugo Avelar...
O homem de muitas faces. Se fosse para defini-lo, eu não saberia como
o fazer. Ele se mostra uma pessoa complexa demais para ser taxada, e até
prefiro não tentar.
— Parabéns! — bati palmas.
— Gostou mesmo?
— Deu pro gasto.
Não vou elevar o ego dele, já que o mesmo é muito alto.
— Vindo de você é um elogio e tanto — dispôs o violão com cuidado
em sua cadeira, e veio até mim. — Digamos que essa região minha é bastante
talentosa.
— Região?! — Cruzei os braços, desconfiada.
— Isso mesmo. Estou falando das cordas vocais, boca, língua...
Abaixei levemente minha cabeça e comecei a rir.
— E o que eu tenho a ver com isso? — entrei na provocação.
— Ah... no momento nada, mas daqui a pouco vou querer saber sua
opinião sobre meus outros dons.
À medida que os segundos passavam, mais ele se aproximava, e isso
estava ficando perigoso.
— Victor Hugo...
— O que foi? — perguntou, mas continuou chegando perto, até que
ficamos a centímetros um do outro, já que não recuei.
Não sou uma pessoa que dá passos para trás, prefiro encarar de frente
qualquer problema.
— Sua boca está perto demais da minha.
— Isso não é problema meu, Luiza.
E foi quando uma de suas mãos segurou com brutalidade meu cabelo
que meu inferno astral começou de fato...
Não tive muita escolha quando sua língua entrou dentro da minha boca.
Dificilmente nego beijos, e além de tudo partiu do próprio gostoso tal gesto,
então... eu simplesmente retribuí.
O tesão acumulado era tanto que eu mesma fiz questão de colar nossos
corpos, e quando sua mão direita passeou pelo meu corpo, uma chama se
acendeu em mim, e... droga, estávamos no trabalho.
O problema é: como vou pensar em trabalho quando nossas línguas
estão se confrontando? E, para piorar um pouco mais, a voracidade com que
ele discorria suas mãos em mim foi me deixando cada vez mais sem ar,
contudo eu não queria que o momento cessasse. Se ele começou, é bom que
termine.
— Te beijar é mais prazeroso do que imaginei — falou, e quando fui
responder, seus lábios novamente se conectaram aos meus e agora uma de
suas mãos foi disposta em minha nuca, e logo fechei meus olhos. — Se
entregue... — sussurrou perto do meu ouvido, e a merda foi feita.
Não sei quanto tempo o beijo durou, o que sei é que nossas mãos
passearam com expectativa no corpo um do outro. Quando esse momento
cessou, nós dois parecíamos ter rolado no chão, já que nossas roupas estavam
amassadas e nossa respiração ofegante.
Depois de me olhar durante um tempo, Victor Hugo disse: — Quando
eu quero algo, eu vou e pego, gracinha, passe o tempo que passar! Não se
esqueça disso...

Saí um pouco afobada e desnorteada da sala do meu chefe.


Precisei até passar no banheiro antes de voltar para a minha sala. Meu
cabelo estava uma calamidade, e... inferno!
Vulnerabilidade é uma palavra bem infeliz, e fui pega desprevenida.
Olhei para o espelho do banheiro e vi que eu parecia estar do avesso. E isso
porque tudo não passou de uns belos amassos.
Tudo culpa daquela música...
Não devia ter beijado esse gostoso, porque agora in(felizmente) quero
dar pra ele...
“... e descobrimos a verdade quando menos esperamos.”

Foi complicado inibir a minha libido nos dias seguintes.


Victor Hugo literalmente fodeu com a minha vida após aquele beijo.
Não! Isso não quer dizer que estou apaixonada, ou que o pirocudo fez
algo que nunca havia acontecido comigo. Nada disso.
É que eu estava naqueles dias, estou, aliás, e isso somado ao fato de
querer transar descontroladamente não é legal. Pensar em sexo e não fazer é
horrível, e sou uma mulher necessitada e carente nesse quesito da minha vida.
E o pior é que após aquele beijo ele nem deu outra investida, e isso sim
foi complicado, pois quando os homens me beijam, geralmente não perdem a
oportunidade de fazer de novo, mas até agora nada.
Enfim, uma pena... pra ele.
— Aposto 10.
— Aumento pra 20.
— Cubro seus 20 e já vou logo colocando 50.
Tanto Madalena quanto Estela me olharam assustadas quando coloquei
um valor tão alto.
— Não acho que o pau dele é tão grande, Luiza.
— Amiga... o apelido do Jerônimo é tripé. Me ajude a te ajudar!
Madalena começou a rir, e logo Estela ficou um pouco mais pensativa.
Gosto bastante das meninas que trabalham comigo, principalmente
porque mesmo eu sendo a chefe delas, nossa convivência é serena, além de
tudo elas não puxam meu saco, algo que realmente me deixa confortável.
— Recapitulando... — entonei. — Estela, 15cm... amadora! — revirei
os olhos. — Madalena, 19cm... razoável. A perita em piroca que vos fala...
25cm.
— Ainda acho que exagerou, Luiza.
— Talvez. Mas essa aposta será finalizada quando a Lorena voltar de
suas férias. Ela foi categórica quando disse que iria contar só pessoalmente,
então o que nos resta é esperar.
— Uau! 25 centímetros... — Estela pegou a régua e logo depois nos
olhou. — Se entrar em mim sai pela boca!
Quase caí da cadeira com seu comentário. Se elas soubessem o que já
encarei nesta vida...
Melhor não falar nada, tem certas coisas que precisamos manter em
segredo.
— E ele...? — Madalena apontou a cabeça e logo notei Victor Hugo
passando por nós, indo em direção à sua sala.
— 7cm duro.
— Não seja tão má, Estela. Vou de 7,5cm — Madalena complementou,
gargalhando em seguida enquanto segui com os olhos o gostoso.
— Se for menos de 20cm eu peço demissão amanhã mesmo — falei no
automático e logo elas se voltaram para mim, perplexas.
— Espera aí, você...
— Não dei pra ele! Só tenho um bom feeling. Vocês me conhecem,
meninas!
Isso não deixava de ser verdade.
Não preciso falar que já vi o tamanho da giromba do homem, mas isso
pode muito bem ficar subentendido.
— Vamos apostar também, Luiza?
Me levantei, sorrindo para as duas.
— Vocês não vão querer apostar essa comigo, garotas. Aliás, vou
encarar a fera, volto já!
Acho que o comentário delas mostra bem como é a relação de Victor
Hugo com os funcionários da GCR Turismo. Ele não é dos mais queridos, e
devo destacar que a culpa é 99% dele.
Resolvi dessa vez não entrar abruptamente na sala do meu chefe
gostoso, e não sei por que fiz isso, mas foi bom já que percebi algo diferente
em seus olhos quando me aproximei.
Ele não tinha visão de mim no corredor, mas eu conseguia notar a sua
face, que estava radiante. Ele parecia hipnotizado com o que observava na
tela do seu celular, já que ele nem piscava.
Eu, como uma boa estraga-prazeres, resolvi adentrar ao recinto, mas ele
nem me deu tanta moral, já que ainda estava focado no seu aparelho
eletrônico.
— Aposto que é mulher pelada — puxei assunto, fazendo-o me notar.
— Não, você está bem enganada — disse, e logo guardou o celular.
— Sei...
Vê-lo com o sorriso tão destacado me chamou a atenção, e a curiosidade
cresceu.
— É uma foto? — perguntei.
— Não. É só um vídeo que acabei vendo mais vezes do que deveria.
Olhou para mim, ainda com um brilho enorme nos olhos. Isso realmente
é bem estranho.
— Você anda bem esquisito.
— Não estou. Você se acostumou a me ver de mau humor, o que é
basicamente em tempo integral.
— Sim. Eu posso ver o vídeo? — dei uma piscadela e ele sorriu.
— É claro... que não — fechou a cara. — Do que precisa, gracinha?
De você pelado para medir o tamanho do seu pau...
— Só perguntar se tem algo para mim. Terminei todo o trabalho que me
mandou.
— Sério? Foi muita coisa — ponderou.
— Sim. Como disse muitos dias atrás, sou eficiente.
— Excelente ouvir isso. Tire o dia de folga. Não quero ver sua cara na
empresa.
— Como é?!
— Isso que ouviu — colocou os cotovelos na mesa, me encarando. —
Você está liberada por ser uma excelente funcionária — falou com leve
deboche, mas percebi certa admiração em sua voz também.
— Já sei... tá me dando folga porque é quinta-feira e você sai mais cedo.
— Não — deu de ombros. — É só um prêmio por competência, mas não
se acostume.
— Tá certo. Não vou recusar, mas tenho uma reunião no setor às 14h.
Quando acabar irei embora.
— Como quiser.
— Até... — falei e me encaminhei para fora da sua sala, e foi só eu
fazer isso que ele logo pegou o celular e fez aquela carinha de cachorro pidão
novamente.
Que diabos está acontecendo com esse homem...?

Durante meu almoço me recordei o quanto meu chefe estava felizinho


ultimamente e não entendia bem o motivo disso. Algo que não mudou foram
as tais manchas em seu rosto. Não está tão recorrente quanto antigamente,
mas ainda as noto.
Resolvi parar de dizer isso a ele, já que queria observá-las melhor e
descobrir que raios é aquilo, mas não sou crânio que nem Renata, sou meio
burrinha para certos assuntos.
— Não combina com você pensar demais, amiga — Beatriz falou e logo
fiz uma cara triste.
— Logo você falando assim comigo... — coloquei a mão no rosto,
simulando mágoa. — Se fosse Renata me dizendo essas palavras eu até
poderia aceitar, mas você...
Beatriz caiu na risada, e a acompanhei. Como Renata sempre fala: foi
por isso que dei a oportunidade de ela ser a minha amiga.
— Como você é falsa! Sua cobra!
— Ah, pode parar com esse julgamento.
Eu já estava há algum tempo fora da empresa almoçando com Beatriz.
Isso não acontecia de forma corriqueira devido à agitação dos nossos
trabalhos. Afinal, ela é a CEO de uma grande empresa, e eu sou... a assistente
master do CEO, mas que faz praticamente todo o trabalho dele.
Sou meio que a reserva!
Então, convenhamos que o tempo é escasso, um simples almoço gera
conflito de agendas, e a prova viva é que esse está sendo um dos poucos
momentos que enfim nos encontramos para comermos juntas.
— E aí, pode desembuchar e ir falando o que está acontecendo.
— Só estou pensando demais no meu chefe.
O garfo que ia em direção a boca de Beatriz parou exatamente quando
terminei a frase, e nem preciso dizer que ela me olhou com extrema
curiosidade.
— Calma! Vou te explicar melhor as coisas antes de pensar bobagem.
Comecei contando desde o episódio de vê-lo bêbado caído na rua. Não
era necessário, mas falei dos seus dotes antes de emendar o assunto principal,
que era a maneira como ele se portava antes e como ele está agora.
Resolvi contar do beijo, e até das músicas aleatórias que ele cantava para
mim, e isso foi uma das coisas que a fez rir bastante. Falei que ele não me
tratava tão mal como de costume, e até me pediu desculpas quando gritou
comigo.
— Pelo jeito alguém levou ao pé da letra o que Daniel falou. Está
parecendo mesmo amiga dele.
— Sim, esse é o problema. O certo era odiá-lo e me manter atenta para
algo que ele possa aprontar comigo, mas sabe de uma coisa — coloquei as
mãos abaixo do meu queixo, não tirando os olhos da minha amiga. — Não
acho que ele seja uma má pessoa. Tem alguma coisa muito errada nessa
história. Eu sinto isso. Ele pode ser o babaca que for, mas parece fazer de
propósito, ele meio que esconde coisas, não sei, Beatriz. Isso está acabando
com a minha cabeça, porque estou muito curiosa, e sei que ele não vai falar o
motivo de ser tão complexo, sei lá. E além de tudo eu perco o foco quando
observo aqueles olhos.
— Seu chefe é um pedaço de mau caminho mesmo, preciso confessar.
— Como sabe se mal o viu no seu casamento? — perguntei curiosa.
— Daniel tem algumas fotos com ele do passado. Me mostrou algumas
e... uau!
— É... uau! — repeti, relembrando sua fisionomia.
Não falamos nada por alguns segundos, mas logo ela voltou-se a mim:
— Eu conversei algumas vezes com Daniel sobre seu chefe. E, por mais que
os dois tenham tido problemas no passado, ele me disse que Victor Hugo não
é uma má pessoa, só é bem misterioso e não gosta de estar por baixo em
alguma situação. Falando do trabalho como CEO é aquilo que já sabe, ele
parece ser meio... desligado.
— Não, a questão dele não é ser desligado — observei o vasto céu,
repensando um pouco os seus trejeitos.
— E o que é?
Sorri para minha amiga, e tive certeza do que iria responder.
— A palavra que se encaixa para ele é desmotivado. A questão é: por
que e há quanto tempo isso acontece? Qual a lógica disso?
— Entendo. Você pode até estar certa que ele possa estar trabalhando
desmotivado há algum tempo, mas não posso resolver isso, ou descobrir o
que se passa, acho que nem Daniel.
Novamente meus olhos voltaram-se ao céu, uma onda de confiança se
apossou de mim, e logo voltei minha atenção a ela.
— Não se preocupe. Eu irei.

Nada melhor do que chegar em casa mais cedo e se deitar em sua cama
quentinha. Olhei meu celular e era 15h. Eu poderia até tirar um cochilo se
quisesse.
A preguiça foi tanta que minha cama pareceu me abraçar quando me
esparramei, e... acho que apaguei.
Estou dizendo que acho porque tomei um belo susto quando meu celular
começou a tocar, e ao notar no visor dele que Beatriz estava me ligando, logo
atendi.
— Amiga, o que...
— Luiza! Por favor, me ajude! — A urgência nas suas palavras me
deixou alerta, e logo pulei da cama.
— O que houve?
— Meu pai, está no hospital e não acho o Daniel, e...
Beatriz começou a chorar ao telefone.
— Onde você está? Vou para aí agora!
— Saindo da Argo’s, preciso ir para o hospital, mas estou tremendo.
— Fiquei aí! Vou te buscar e vamos juntas. Não encoste no seu carro!
— Mas e o seu trabalho?
— Tirei folga no restante do dia. Não se preocupe, em menos de dez
minutos estarei aí.
— Obrigada, amiga.

Depois que peguei Beatriz na Argo’s e entramos no carro, pude reparar


melhor nela, e ela não estava bem, já que tremia bastante enquanto olhava
para o nada.
Não obtive muitas informações nos minutos iniciais sobre o que havia
acontecido, até porque não perguntei muita coisa.
— Amiga... você pode me contar com calma o que houve? — perguntei
com cuidado.
— Minha mãe me ligou e falou que meu pai foi internado. Depois, a
ligação caiu, e quando liguei de volta o celular dela estava fora de área.
Mandei algumas mensagens no WhatsApp e ela não visualizou, e... fiquei
desesperada.
— O celular dela deve ter acabado a bateria. Se acalme.
Beatriz voltou a olhar para o nada e aquilo me alarmou.
Dei um jeito de acelerar mais e rapidinho chegamos no Intermedical
Center, o hospital que o pai dela estava internado.
Depois que adentramos ao local, Beatriz ficou ainda mais nervosa, já
que os funcionários eram incapazes de falar o exato local que seu pai se
encontrava.
— Inferno de lugar que manda a gente de um lado para o outro e não
temos informação alguma! — vociferou para um dos atendentes enquanto
nos encaminhávamos pela terceira vez a uma ala diferente do hospital.
Eu nem mesmo tentei apaziguá-la.
No lugar dela estaria pior, e se tentassem me acalmar aí que ficaria mais
nervosa ainda. Eu entendo seu lado.
Quando finalmente chegamos a um número de quarto específico, logo
avistei a mãe de Beatriz recostada em uma porta entreaberta. Depois que a
observei, não dei um passo sequer.
— Amiga... — Beatriz falou.
— Não. Vou ficar aqui esperando, é assunto de família, e se quiser
depois você me conta.
— Tudo bem — sorriu e foi na direção dela.
Depois que Beatriz encontrou sua mãe, as duas entraram no quarto, e me
sentei em uma das cadeiras, a esperando.
Acho que fiquei pelo menos trinta minutos aguardando Beatriz, e
quando ela veio até mim, seu rosto estava bem mais calmo.
— Meu pai desmaiou enquanto fazia compras — falou. — Graças a
Deus um médico estava no supermercado e fez os primeiros socorros, e como
ele trabalha aqui, o trouxe para esse hospital. Ele tem alguns probleminhas de
saúde, e por isso ele foi submetido a mais alguns exames, mas o resto está
tudo de acordo. Foi só um susto.
— Graças a Deus! — respondi aliviada. — Você vai ficar aqui no
hospital com a sua mãe?
— Sim, mas vou passar na empresa primeiro e falar que amanhã não
vou trabalhar, preciso deixar alguém responsável na minha ausência. Acho
que em trinta minutos volto pra cá.
— Então eu te levo e te trago aqui.
— Obrigada, amiga. — Beatriz me deu um abraço longo e apertado, e o
retribui. — Não sei o que faria sem você.
— Vamos ser bem sinceras... nada!
Nos encaminhamos para ir embora, mas aqui parecia um labirinto, e ao
passar por um dos corredores demos de cara com a ala da Oncologia
Pediátrica, e meu coração quase parou.
— O que foi? — Beatriz questionou vendo que meu rosto havia mudado
bruscamente.
— Acho que é errado o que vou falar, mas tenho pena dessas crianças
que mesmo com sua pouca idade já estão lutando bravamente contra um mal
tão grande como o câncer.
— Eu sei como é, amiga — abaixou a cabeça, consternada. — A vida
delas nem começou direito e já tem uma tremenda batalha para travar.
— Sim, e ainda podem... morrer.
Tentei afastar essa imagem da minha cabeça, mas logo ouvi uma
gargalhada bem alta perto da gente. Olhei para o lado e vinha de um leito há
aproximadamente uns cinco metros à nossa frente.
Eu nem sabia se poderíamos estar naquela ala, já que não vi muitas
pessoas andando por aqui.
— Pelo menos algumas delas se divertem com as brincadeiras dos
voluntários — ela sorriu.
Após Beatriz falar isso minha tristeza diminuiu um pouco, e logo
continuamos a caminhar pelo corredor, em busca da saída do hospital. O
problema foi quando passamos pelo quarto que deduzi ouvir a risada, de
forma automática olhei para esse respectivo leito, e...
Congelei.
— O que aconteceu, Luiza?
Não respondi, somente fixei meus olhos em um ponto específico. Até
mesmo estreitei os mesmos, não acreditando no que eu supostamente via.
Isso é uma miragem!
— Amiga... você está me deixando preocupada — segurou meu braço e
voltei a realidade.
Abruptamente a puxei para longe desse tal quarto.
— Luiza Goulart! Abre a boca, o que está acontecendo?! Você está
branca!
— A pessoa que está nesse quarto... — sibilei meneando a cabeça em
direção ao leito, mas não consegui completar a frase.
— O que tem? — Beatriz observou o lugar, e logo voltou-se a mim. —
Só estou vendo a menina. Ah, e o Capitão América que está cantando.
Sim. Justamente. Isso mesmo.
— E você reparou em quem ele é? — perguntei com certa rapidez,
atropelando as palavras.
Diante da forma que disse essa frase, ela disfarçadamente voltou ao
local, permanecendo no mesmo por alguns segundos. Em seguida, voltou-se a
mim, e parecia confusa.
— Luiza, aquele homem parece o...
— Meu chefe! Eu tenho certeza absoluta de que é ele!
“Dois é bom, três é... ménage”

Tudo agora faz sentido na minha cabeça!


Victor Hugo saindo nas terças e quintas-feiras mais cedo...
Ele trazendo o violão de casa há algumas semanas...
A tinta (que na verdade realmente é uma maquiagem) em seu rosto...
Ele é voluntário no Intermedical Center.
Antes de sair do hospital fiz algumas perguntas para um dos atendentes,
que me afirmou que na terça-feira e na quinta-feira alguns voluntários fazem
esse trabalho no hospital por algumas horas, e que isso não só ajuda o
psicológico das crianças, como podem recuperá-las de outras formas.
Me espreguicei na cadeira, perplexa.
Quando eu imaginaria que ele fosse capaz de uma atitude tão nobre e
bonita como essa?
Que Deus me perdoe por estar julgando ele dessa forma, não achando
que ele poderia ter um lado bom, mas a forma que ele interage com as
pessoas...
Eu nunca poderia pensar em algo assim, minha mente explodiu.
— Você está estranha — Estela falou, e logo voltei a realidade.
— São... coisas.
— Pervertidas...? — questionou e logo sorri.
— Não. Muito pelo contrário.
Na maior parte do tempo minha mente viaja a milhares e milhares de
quilômetros, mas dessa vez eu estava focada na empresa — por mais que a
maior parte dos pensamentos estivessem em Victor Hugo e no motivo de ele
ser tão misterioso —, junte isso a perplexidade de vê-lo no hospital, e as
coisas só pioram.
Nós, mulheres, temos esse defeito de fábrica de sermos curiosas em
excesso, e há momentos que isso não é nada bom, e estou experimentando
um desses.
Quando me preparei para dizer algo a Estela, vi que sua postura mudou
e seu semblante tornou-se mais sério, ao me virar notei meu querido chefe
andando até nós.
— É agora que a gente finge que está trabalhando e não fofocando? —
cochichou.
— Confesso que é um bom momento — falei e logo dei um pequeno
sorriso quando ele se aproximou.
— Luiza, minha sala... agora!
Essa é a famosa lei da atração reagindo aos meus pensamentos.
O que não sei ainda é como será o teor dessa conversa, já que não
consegui identificar com exatidão se ele estava nervoso ou não, já que
simplesmente despejou tal ordem e foi embora. De qualquer forma, essa é a
primeira vez que ele vem até aqui e me chama.
— Boa sorte, e se quiser levar a régua para medir... — Estela ironizou
balançando a mesma.
— Realmente... você não respeita sua própria chefe. Uma lástima que
vai para o RH quando eu voltar da sala dele — falei, retribuindo o sarcasmo.
— Credo!
Sorri, e logo me levantei, andando em direção à sua sala e pensando no
que ele pediria dessa vez.
— Veio rápido — disse, ao perceber que eu havia chegado.
Ele estava mexendo nos vários papéis dispostos em sua mesa, mas
quando me viu juntou boa parte deles e colocou-os do seu lado.
— Não é todo dia que seu chefe te chama pessoalmente no seu próprio
setor.
— Foi só para fazer drama... — arqueou as sobrancelhas. — Ou não.
Você pode ter cometido um erro e a chamei para te demitir. Nunca se sabe.
Sorri.
— Iremos descobrir — pontuei.
— Bom... — juntou as mãos me encarando com seriedade. — Luigi me
ligou agora pela manhã e me fez alguns pedidos, entre eles montar duas
apresentações para daqui quinze dias para alguns investidores importantes
que estão questionando a continuidade de um dos nossos projetos. Preciso
que elabore alguns relatórios e algumas outras coisinhas. Sei que já está
habituada com esses assuntos, mas adicionei outros tópicos nessa pasta. —
Esticou uma das mãos, me entregando a tal pasta.
Ele realmente tá bem estranho...
Acho que é a primeira vez que o vejo se comportando como um CEO de
verdade, e isso é bem esquisito.
— Preciso disso o quanto antes. Uma semana para ser exato, é
necessário me preparar de uma forma diferente, só gravar dados não será o
suficiente. Se achar que não irá conseguir, você está autorizada a parar suas
outras atividades e focar nessa.
— Certo
— Entendeu tudo, Luiza?
O estrupício está até me chamando pelo nome, e fico até balançada em
chamá-lo em pensamento desse apelido agora que descobri que ele é um
fofo...
— Aham.
— Tem outra coisa que esqueci, melhor, que faltou da última vez.
— Última vez?! — perguntei confusa.
— Isso mesmo.
Percebi Victor Hugo se levantando e passando por mim, em seguida,
fechou a porta, e quando dei por mim já estava pregada na parede.
Ele não falou nada. Absolutamente nada. Simplesmente segurou meu
pescoço me forçando para trás e literalmente enfiou sua língua na minha
boca.
Simples e prático, e me pegou tão desprevenida que deixei.
Não é bem assim...
Eu deixei porque eu queria... quero. Sei lá o que esse homem apronta
com a minha cabeça.
Eu gosto da maneira com que ele me toma, já que não pede nada, ele
simplesmente vai lá e toma para si. E são de homens assim que gosto.
— A cada dia que passa você vem mais provocante e gostosa para a
empresa, e não vou me controlar mais, que fique claro.
Ele simplesmente roçou sua mão em meu sexo e logo fechei os olhos.
— Isso não se faz, não aqui...
— Eu que mando aqui dentro, e faço o que bem entender!
Mordi meus lábios. Já que é assim, eu vou ceder pelo orgulho da
nação...
Sem cerimônias, logo sua mão entrou por dentro da minha lingerie, e
seus dedos habilmente chegaram em meu local proibido, e quando os senti
tocando meu clitóris...
— Você não sabe o quanto meus dedos podem fazer um estrago na sua
bocetinha! — falou isso no meu ouvido, beijando o lóbulo da minha orelha, e
descendo para o meu pescoço.
Não fui capaz de responder, já que sua boca novamente tomou a minha e
o seu dedo...
É uma delícia ser safada e gostar de sentir prazer, pois quanto mais ele
me estimulava, mas eu comprimia nossos corpos, e na verdade queria outra
coisa dentro de mim, e definitivamente não era o seu dedo.
De repente ouvi alguns barulhos altos fora da sala, e me lembrei de que
estava trabalhando. Sim, por um momento até me esqueci.
— Victor Hugo, o que está fazendo é gostoso demais...
Abri meus olhos e percebi um sorrisinho sacana em sua boca e logo ele
se afastou.
— Teremos tempo, Luiza. Isso foi só um aperitivo para não perdemos o
costume.
Ficamos nos entreolhando sem falar nada. Não posso acreditar...
— Esse foi um aperitivo e já acabou? Esperava mais de você, sabia?!
Acho que falar isso não foi uma boa ideia no fim das contas...
Pelo visto ele não gosta de provocações, já que praticamente pulou em
mim e tomou a minha boca, e foi dez vezes pior que o beijo de instantes
atrás, porque eu já queria tirar toda a minha roupa aqui e agora. Sentir sua
boca na minha, me chupando, mordiscando meus lábios, só fodeu mais a
minha sanidade.
Acho que preciso me corrigir do que pensei anteriormente: aos meus
olhos ele se tornou um fofo devasso depois dessa enquadrada!
Eu parecia aquele meme: o que tá acontecendo? Se tá acontecendo eu
não sei, só sei que tá acontecendo...
— Outra coisa, gracinha: seja discreta quando for analisar meu pau.
Quando quiser vê-lo ou prová-lo, é só falar.
— Eu só preciso medir... — sibilei, e logo Victor Hugo arqueou as
sobrancelhas, esperando que eu continuasse — Ah, esquece...
— Acho que é melhor voltarmos ao trabalho — suspirou e deu dois
passos para o lado, me deixando plantada com as costas coladas na parede.
Não, agora ele vai ter que achar um jeito de consumir esse fogo!
— Espera um pouco... você me dá um beijo desses, praticamente tira
minha roupa sem tirar, e simplesmente fala: melhor voltarmos ao trabalho?
— Justamente. Quando me quiser por completo, sei que fará o certo, já
que... — chegou um pouco mais perto e tocou o meu queixo. — Você é uma
mulher bem resolvida, e não tem vergonha alguma em tomar atitudes. No
mais... precisamos trabalhar. Estamos no fim do mês e geralmente deixo tudo
para última hora.
Inacreditável! Mas se ele quer brincar com fogo...
— E você tem toda a razão, sabia? — me recompus, indo em direção à
saída.
— Sobre o quê?
— Absolutamente tudo! Quando eu quiser seu pau, eu vou falar, mas
saiba de uma coisa... — analisei o homem por completo e logo mordi meu
lábio inferior. — Será do meu jeito!
Meu sábado estava um tédio, inversamente proporcional ao meu fogo,
que estava nas alturas. Quando isso acontece, costumo comentar “saudades”
nas fotos de alguns homens que fizeram minha noite mais feliz, e quem
responder primeiro leva o prêmio: eu.
Tática feminina, e funcionam pra mim. Pode soar depreciativo, mas
gosto de sexo, e quando eu quero... EU FAÇO!
E preciso desesperadamente transar hoje!
Lucas, um dos meus contatinhos, resolveu dar o ar da graça, mas ainda
havia um grande problema: estava pensando muito em Victor Hugo.
Nele todo peladão mesmo, entende?!
Então, como a safada que sou ainda habita em mim, resolvi unir o útil
ao agradável, e imediatamente liguei para Lucas, marcando um encontro, mas
ainda faltava a cereja do bolo...
Eu até tento controlar esse meu lado pervertido, mas não consigo. É
mais forte do que eu...
Estava tudo pronto para algo que aguardo há bastante tempo!
Já havia preparado todos os aperitivos necessários, e a minha série
favorita Mentes Insaciáveis seria maratonada nesse exato momento. É
melhor até desligar meu celular, não quero ser incomodado.
Quando pressionei o botão do aparelho para desligá-lo, eis que o nome
de Luiza apareceu na tela do meu celular.
Se a gracinha está me ligando para algo relacionado à trabalho...
Resolvi abrir uma exceção e atender.
— Luiza?! — questionei.
— Isso mesmo. Surpreso? — falou calmamente.
— Sim. Um pouco.
Luiza nunca me ligou, e essa voz dela ao telefone me deixou levemente
excitado.
— Eu não sou uma mulher que gosta de enrolações, então vou direto ao
ponto: estou um pouco safada hoje, então considere-se convidado para me
satisfazer, se quiser, claro.
Primeiro a surpresa em ela me ligar, e segundo em do nada ela falar
isso. Mas não iria deixar essa oportunidade escapar. Meu compromisso
inadiável pode esperar.
— Só me dizer onde.
— Minha casa. Chegue até às 21h. Não quero que chegue primeiro que
o Lucas, ou vice-versa.
Espera... eu ouvi o nome de outro homem.
— Quem é Lucas?
— Digamos que hoje estou um pouco insaciável, então não vou me
contentar com um homem só — pontuou. — Mas me diga... isso será
problema para você? Se for, eu consigo outra pessoa em um piscar de olhos...
— questionou com a voz mansa.
Mas que safadinha...
— Nenhum problema, apesar de que eu posso muito bem te satisfazer.
Sozinho — dei ênfase.
— Infelizmente um homem só não conseguiria apagar meu fogo hoje, e
isso pode ter parcela sua, já que começa algumas coisas e não termina. Mas
veja pelo lado bom... poderiam ser três homens, seu espaço seria encurtado.
— Eu só acho...
Quando me preparei para retrucar, eis que ela simplesmente desligou.
Em seguida olhei o horário que meu relógio marcava: 20h.
Pelo jeito a série foi pro saco...

Cheguei mais cedo que o normal, já que o nome Lucas ficava apitando
em minha cabeça.
Que ironia do destino!
Depois que toquei a campainha, logo fui recebido por Luiza... de
camisola, e puta que me pariu.
Ela usava uma camisola preta transparente com alças bem finas, fui
descendo meus olhos por seu corpo, e pude reparar que seus mamilos
estavam duros, marcando o tecido, e quando desci mais, a visão daquela
calcinha minúscula que ela usava, que mal cobria sua boceta, fez com que
minha boca enchesse d’água com a vontade de saboreá-la.
— Chegou cedo. Seria ansiedade?
Eu nem respondi, somente admirei aquela linda mulher em minha frente.
Não me fode assim, Luiza...
— Isso não importa, só quero provar seu corpo.
— Ah, mas você vai esperar, falta alguém... — sibilou e ficamos nos
olhando por alguns segundos, mas ela logo desviou seus olhos, e ouvi o
barulho de uma moto cada vez mais perto. — Agora não falta mais!
Depois de algum tempo um moreno alto passou pela porta.
— Oi, gata!
— Olá, Lucas. Então, rapazes, estou carente, conto com vocês para me
satisfazer!

Confesso que evitei olhar para o lado e foquei exclusivamente na mulher


gostosa que estava em minha frente.
Estou me sentindo culpado.
Se eu tivesse retribuído aquele fogo que a consumiu na empresa,
seríamos somente eu e ela, mas agora tem... esse Lucas!
Inferno!
Luiza estava deitada na cama, e mordia os lábios, enquanto retirava a
calcinha, se remexendo como uma gata manhosa. Caralho!
— Foda-se!
Eu simplesmente avancei sobre ela, e quando tocamos nossas bocas
aquela fagulha se acendeu, e eu só pensava em entrar nessa gostosa.
Eu preciso ser punido, então me puna por não terminar o que comecei
na empresa, Luiza!
Depois de uns belos amassos, ela se esquivou de mim com o rostinho
bem sacana.
— Temos que dar espaço para todos os convidados... — falou com a voz
mansa, e logo em seguida tive que observar ela virar o rosto e começar a
beijar o tal infeliz, que confesso nem tinha reparado que tinha se aproximado,
e não gostei nem um pouco, já que estava de pau duro, e queria ela só para
mim.
Aqueles segundos se tornaram uma eternidade, e vi que ela estava
fazendo isso justamente para me provocar.
— Que tal ficarmos mais à vontade? — perguntou, se ajoelhando na
cama e retirando a camisola sensualmente, a jogando em um canto qualquer
do quarto, e quando reparei no seu corpo...
Nunca mais vou olhar ela da mesma forma dentro da empresa.
— Vou ajudar vocês dois!
Luiza simplesmente retirou as nossas roupas, e quando meu pau foi
liberado ela lambeu os lábios.
Foda-se esse tal de Lucas!
Encaixei meu pau em sua boca, e logo ela começou a chupá-lo, me
fazendo fechar os olhos por alguns instantes devido ao intenso prazer do
momento. Quando novamente pude enxergar, percebi ela masturbando o
homem, e foi aí que tive a nítida sensação de que eu não teria prioridade em
nada, aqui ficaria no meio a meio, então, se ela quer assim, vou dar o meu
melhor...
Depois de revezar sua atenção, ela logo deitou-se na cama, e não perdi
tempo e fui em direção a sua boceta. Rocei minha língua em seu clitóris, e ela
fechou os olhos ao sentir a voracidade dos meus movimentos dentro do seu
sexo.
Luiza está mexendo com a minha cabeça, e quero aproveitar cada
segundo do seu corpo, e... porra!
O infeliz passou por cima de mim e está beijando a boca dela.
No automático, peguei a minha calça, um pouco atabalhoado, e logo
retirei uma cartela de preservativo, pegando um e jogando o restante em cima
da cama, depois que o abri e coloquei em meu pau, logo rocei o mesmo em
sua entrada, e sem prévio aviso meti fundo em sua boceta. Isso sim fez com
que seus gemidos ficassem um pouco mais altos.
— Se quer me foder, me foda como um animal raivoso! — sibilou, e
quando vi o seu rostinho daquela maneira, não contive o ímpeto, e
intensifiquei minhas estocadas, fazendo com que ela se calasse, só que ela se
calou por outro motivo, já que estava com algo na boca...
Me esqueci do quanto algumas orgias são difíceis quando se tem mais
homens. Não gosto da palavra divisão, quero tudo 100%, e dessa vez pelo
jeito não terei.
Enquanto metia em Luiza, o outro ficava lá fazendo outra coisa.
Me concentrei no corpo dela, e comecei a provocá-la ainda mais, ergui
suas pernas a apoiando nos meus ombros para conseguir entrar cada vez mais
fundo, e comecei a morder o interior das suas panturrilhas, enquanto meu
dedo acariciava seu clitóris, seu ponto duro e sensível. Com a outra mão ia
apertando um dos seus mamilos que estavam ainda mais intumescidos...
O outro cara agora estava de pé, e pelo menos eu tinha praticamente o
corpo dela para mim enquanto ela permanecesse deitada.
Foquei um bom tempo na região dos seus seios, e brinquei com seu
mamilo alguns minutos, chupando e o mordiscando repetidas vezes. Essa
safada gosta disso, está bem visível nesse rostinho...
— Eu quero te chupar! Agora! — falou, e não foi preciso pedir duas
vezes.
Ao me deitar ela veio na direção do meu pau, retirou a camisinha e o
abocanhou com uma fome feroz, e de relance vi o homem com um
preservativo em mãos se posicionando atrás dela, momentos depois começou
a estocá-la com violência.
Os gemidos da minha funcionária favorita aumentavam mais ainda o
meu tesão, e a forma que ela chupava minhas bolas ou abocanhava meu pau
só me deixou mais fodido.
Ela sabe o que faz. E faz questão de esfregar na minha cara o que perdi.
O sexo oral continuou por mais algum tempo enquanto ela era fodida, só
que seu rostinho se tornou travesso, ela tateou pela cama pegando outra
camisinha, e acho que nunca foi tão sexy ver uma mulher colocar uma
camisinha em mim, como Luiza fez, em seguida ela veio um pouco mais para
frente, e encaixou sua boceta em meu pau.
— Quero mais prazer! Acham que conseguem juntos...?
Falar isso para dois homens que já estão duros e prontos para o que der
e vier não foi um bom negócio, ou foi um excelente negócio, já que nos
minutos que se seguiram seus gemidos evoluíram para gritos, porque fodi
com tanto ímpeto sua boceta, e o tal Lucas fodeu tanto seu cu que Luiza se
entregou, exprimindo o tesão acumulado que sentia.
Se enganam vocês que ela pediu para maneirar, muito pelo contrário, o
que mais se ouvia era “mete com força”, “ gosto assim”, “ não é pra parar”.
Essa mulher definitivamente gosta de transar, e a partir de hoje, irei
observá-la de outro modo.
Depois que invertemos as posições, pude foder seu cu apertadinho, e
nem me recordo de quantas vezes minhas mãos atingiram suas nádegas com
força, a deixando vermelha. Ela gosta de apanhar, e eu a marcaria com a
palma da minha mão...
O sexo continuou por mais um tempo, suor escorria pelos nossos corpos
e tanto eu quanto o cara nos desdobramos nas várias posições que ela
ordenou.
Sim, Luiza não pedia, ela ordenava!
Ela tinha o poder, e não serei eu o homem que vou questionar uma
mulher no ápice do seu desejo.
Ela sabia o que queria, como queria, e na intensidade que queria.
Por várias vezes eu me segurei para não gozar, mas isso seria inevitável.
Quando o homem tirou o pau de sua boceta, jogou a camisinha longe e
chegou perto dela, vi que ele também estava em seu limite.
— Quero sentir o gosto de vocês! Juntos!
Como seu desejo é uma ordem, fui para mais perto, retirei o preservativo
e logo ela engoliu meu pau com aqueles lábios carnudos, e aquele boquete
maravilhoso me levou aos céus. Não aguentei por muito tempo.
Retirei o meu pau e logo gozei em sua boca, o homem que era
masturbado por ela fez o mesmo, e como uma garota travessa que cumpre a
sua palavra, ela tomou tudo. Dos dois.
— Obrigado, rapazes. Agora... vocês têm cinco minutos para saírem
daqui.
Olhei para o Lucas e ele sorriu, dando as costas para nós e pegando a
sua roupa, logo sumindo do quarto. Pelo jeito ele está acostumado a ser
dispensado assim, mas eu não sou qualquer um.
— Vai ficar me olhando até que horas? Seu tempo tá acabando — disse.
— E se eu quiser repetir, sem nenhum coadjuvante por perto?
— Querer não é poder — pontuou, espreguiçando-se em sua cama, e se
aquilo não foi um convite, claramente foi uma provocação.
Safada do caralho!
— Luiza...
— Eu chamei os dois para ‘me’ dar prazer! — deu ênfase. — Vocês
fizeram isso, agora... rua, gostosão! — mordeu os lábios, mas parecia estar
falando sério.
Eu mereço isso e dessa vez ela ganhou.
— Até, gracinha. Você não perde por esperar!
— Até breve, estrupício.
Ela definitivamente poderia ser uma estrela pornô se quisesse!
“O que pode acontecer quando as mulheres se juntam para falar de
dotes?”

Hoje é segunda-feira, mas posso dizer que minha semana esta


começando muito bem, digamos que estou de alma lavada e renovada.
É óbvio que isso se deve a minha noite de prazer, e não me arrependo de
nada. Sou uma mulher bem decidida, e preciso do sexo em minha vida, o meu
maior problema é que tenho fogo em excesso, e acabo deixando a minha
imaginação fluir... até demais.
— Você está bem estranha — Estela comentou. — Deu bom dia até para
os passarinhos na empresa.
— Digamos que me satisfiz. É bom deixar assim, mas se quiser saber
dos detalhes... — provoquei.
— Não, já entendi.
Resolvi voltar ao trabalho.
Algumas coisas se acumularam, e por mais que eu tivesse levado para
casa certos afazeres, não consegui agilizar muita coisa, e ainda de quebra
preciso falar com Victor Hugo sobre um relatório específico.
Victor Hugo...
Nem parece que ele topou participar da minha pequena festinha. Apesar
de tudo, sua presença foi essencial, porque senti-lo dentro de mim...
Melhor me desligar desses pensamentos e focar no trabalho.
Fui até a sua sala, e novamente ele parecia estar em outro ambiente
enquanto checava o seu celular. Ele é um homem bastante misterioso.
Preciso confessar que de vez em quando eu me recordava daquela
menina no hospital, e não sabia ao certo o que pensar. Não esperava esse
lado, e confesso que minha ficha ainda não caiu.
— Você tem todo um jeitinho macabro de me olhar, sabia? — Victor
Hugo disse, e pude voltar a realidade.
Não percebi que estava o encarando sem falar nada, e tentei me
recompor.
— Não é nada. São só pensamentos estranhos, sabe?
— Não, não sei. Mas se quer um conselho, procure um psiquiatra. É
saudável fazer algumas reavaliações de vez em quando.
Cruzei meus braços e fechei minha cara.
Ele logo pegou o seu celular, rindo em seguida.
— Acho que faz isso de propósito. Fica de sorrisinhos olhando para o
celular quando estou aqui. Isso se chama provocação, e ainda acho que é uma
mulher.
— Mas é. Minha amiga dessa vez me mandou uma foto.
— Hm. Amiga...
Não sei se estava com ciúmes ou o que, mas Victor Hugo percebeu meu
desdém.
— Ela é uma gata! E bem mais bonita que você — desdenhou.
— Mais gostosa também? — provoquei e logo ele fechou a cara.
— Não! Meu Deus do céu! — pareceu incomodado. — Ela é linda, mas
só minha melhor amiga. Nada mais!
Esse ser com uma melhor amiga?! Acho que não!
— Que tal me mostrá-la?
Percebi ele pensando bem no que diria ou no que faria, já que olhava
para mim e logo em seguida para o celular levemente desconfiado.
Acho que havia pego ele em alguma mentira, mas percebi sua face se
suavizando, e logo esticou uma de suas mãos.
— Pegue, mas seja rápida!
Um sorrisinho satisfatório desabrochou na minha cara, mas logo ele se
esvaiu quando visualizei a imagem no celular.
É a menina do hospital!
Meu susto foi tão grande que até deixei seu aparelho cair, em seguida
me abaixei o pegando.
— Meu Deus! Ela é uma criança, porque me deixou comparar quem é
mais gostosa?
— A culpa foi sua, não viu a minha cara? — retrucou.
Depois que a surpresa inicial havia passado pude focar no retrato e logo
sorri.
A menina fazia careta, enquanto piscava um de seus olhos. Como já a vi
anteriormente, sabia que aquela roupa era usada no hospital, mas ela passaria
despercebida para as outras pessoas. Algo que também havia reparado é que
ela usava uma peruca loira.
Não conheço tão bem a garota, mas já gostei dela, principalmente por
parecer feliz em meio a tudo que está passando.
— Por que gosta tanto dela? — perguntei, e aquilo pareceu ter sido um
questionamento arriscado.
— Isso não vem ao caso. Agora me devolve esse celular, seu tempo
acabou.
— Como ela se chama? — perguntei, o entregando.
— Vitória — sorriu. — E acho que os pais dela colocaram esse nome
porque sabiam que ela seria uma vitória de Deus!
Meus olhos se encheram de água, mas respirei fundo, tentando me
conter.
Saber de algo e ficar receosa de revelar nunca é bom, e sinceramente não
sei qual seria a reação dele quando eu falasse sobre o que presenciei.
— O que foi?
— Bem profundo... — disfarcei. — E muito bonito.
— Tudo que falo combina comigo. Então, me considero um homem
profundo, só que mais do que bonito, preciso destacar.
Sorri abaixando a minha cabeça.
Autoestima é tudo na vida...
— Acho que a palavra modesto e Victor Hugo não combinam nem um
pouco.
— Nunca combinaram, gracinha. — Levantou-se, e logo me alarmei.
Não sei o que acontece com meu corpo quando tenho a sensação que ele
pode ser usado por meu chefe. Principalmente porque ultimamente ser usada
por ele está sendo algo muito prazeroso.
— Agora me fala, anda sonhando acordada com meus beijos? —
perguntou bem na minha frente após colocar suas mãos nos bolsos.
— Estamos trabalhando e isso não pode fugir do nosso controle. É só
isso que posso falar.
— Não... pensando bem acho que deve estar sonhando comigo fodendo
a sua boceta ou seu rabo gostoso repetidas e repetidas vezes... — ignorou
minha frase, me atiçando um pouco mais.
— Victor Hugo, eu já disse que...
— Não minta para mim — tocou o meu queixo, ignorando o que eu
diria. — Você não precisa de mais um homem para te satisfazer, eu te basto,
e se quiser comprovar... — provocou.
Filho da mãe...
— Fizemos o que tínhamos que fazer. Foi só.
— Acho que não. Tem muitas coisas que desejo fazer com esse corpo
gostoso... — analisou meu vestido e aquilo só fodeu um pouco mais com a
minha cabeça, já que só a maneira dele falar ultimamente está me deixando
excitada pra caralho.
— Victor Hugo — uma voz diferente ecoou no ambiente, e sua
aproximação cessou.
— O que foi? — perguntou com nervosismo.
— Luigi está ao telefone e deseja falar com você.
— E por que não transferiram a ligação para a minha sala?! —
perguntou, nervoso.
— Seu telefone parece estar fora de serviço.
— Como é?!
O gostoso foi em direção ao telefone e logo o colocou no ouvido. Mexeu
em algumas coisas por alguns minutos, mas em seguida suspirou, levemente
irritado.
— Luiza, por favor, veja quem é o responsável por tentar arrumar essa
porcaria e peça para vir o mais rápido possível solucionar esse problema.
— Certo.
— Estou indo falar com Luigi. — Voltou-se ao homem que assentiu
com a cabeça e logo saiu.
Depois que só nós dois ficamos na sala, ele chegou bem pertinho do
meu ouvido e sussurrou: — Nossa conversa está longe de acabar, gracinha.
Odeio e adoro quando ele me faz arrepiar desse jeito!

Tenho um assunto urgente para tratar, e ele não pode esperar.


— E então, Lorena, qual o tamanho do pau do Jerônimo?
Estela, Madalena e eu parecíamos três lunáticas a espera da revelação da
nossa amiga.
— Olha... não deu para medir certinho, mas algo em torno de 24 e 25cm.
Dei um pequeno gritinho após sua revelação.
— Meu Deus! Eu sou muito expert em pau! Amadoras! — debochei
fazendo uma dancinha muito esquisita.
— Não acredito que perdemos a aposta, amiga. — Estela voltou-se para
Madalena, que claramente se decepcionou com a revelação.
— Espera... vocês apostaram entre si qual o tamanho do pau dele? — foi
a vez de Lorena questionar, incrédula.
— Digamos que nossa chefe é um tanto quanto pervertida — Estela
falou, e todas me olharam. Não pude conter um belo sorriso. De satisfação.
— Eu não quero saber de mimimi. Quero o dinheiro até o final de
semana ou todas irão para a rua.
De forma automática começamos a rir, mas logo a expressão das minhas
amigas ficaram sérias.
— Me desculpe interromper a reuniãozinha de vocês, que parece estar
bem animada, mas preciso falar com a Luiza. Agora! — Victor Hugo disse e
logo saiu do nosso setor.
— Meninas... voltem ao trabalho. Adiantem o que pedi e voltarei em
breve para conversarmos mais um pouco — dei uma piscadinha.
Acompanhei o trajeto que o pedaço de mau caminho fez, e percebi que
ele havia entrado no refeitório. Depois que o alcancei, logo fui perguntando:
— O que houve?
— Iremos sair hoje — ele não perguntou, basicamente falou o que
aconteceria. O problema é que ele escolhe os piores dias para isso...
— Não posso, combinei de me encontrar com a Renata de noite.
Percebi um sorrisinho sarcástico se formando no rosto do meu chefe, e
sabia que não viria boa coisa por aí.
— O que está tramando? Foi só ouvir o nome dela que seu rostinho se
transformou — ignorei o perigo e questionei.
— Iremos mudar o lugar já que o pequeno projeto de gente vai.
Gargalhei. Eu parecia ter feito planos com ele e incluiria Renata, e não o
contrário.
— Me fala: quem te falou que ela sairá conosco? Ou melhor... — fui
para mais perto. — Quem disse que eu vou com você há algum lugar?
— Eu disse — falou com confiança. — Precisamos nos divertir. Mas
antes me diga... quais os gostos musicais da baixinha?
— Renata?! Ela gosta de rock, hip hop, pop, algumas músicas
internacionais, e outras avulsas por aí.
— Farei algumas pesquisas, e provavelmente ela vai adorar o lugar que
iremos, mas será uma surpresa.
— Acho que não conhece Renata tão bem quanto eu. Ir onde ela não
conhece está fora de cogitação.
— Isso só nos dá uma opção.
— Qual?
— Mentir para ela!
— Ahaaaam! É porque não é você que vai ouvir um monte.
— Relaxa, gracinha. Te dou cobertura nessa.
Sorri.
— Sua ideia é péssima. Quando Renata descobrir que menti, ela vai
arrancar meu couro.
— Na verdade não é bem mentir, é algo como... omitir!
— Sem chances, querido chefe. — Cruzei meus braços, impassível.
— Por favor, faça isso por mim... — piscou os olhos repetidas vezes, e
fez aquela carinha de cachorro pidão que vi em algumas oportunidades.
— Não combina com você pedir com jeitinho.
— Sério?! — abaixou a cabeça, fingindo estar triste. — Pensei que
gostava de mim, sabe? Até deixei você empregada, e tal.
Logo dei um tapa em seu ombro esquerdo e sorri.
— Tá bom.
— Eu sabia que iria ceder!
— Mas tem uma coisa: só estou fazendo isso porque quero ver a reação
dela — pontuei.
— Combinado, amiga.

— Você está estranha.


Essa foi a primeira frase que a baixinha disse quando botou os olhos nos
meus.
— Eu?! É impressão sua.
Novamente seu olhar inquisitório se fez presente, e tive a absoluta
certeza de que ela não havia acreditado em mim.
— Vai falar logo ou preciso te chantagear?
— Eu tenho duas coisas para dizer.
— Meu Deus! Desligue o carro então...
Sorri e assim o fiz, havia algo que não tinha contado a ela quando vimos
meu chefe bêbado na rua, mas preciso do cérebro da minha amiga.
Resolvi não contar dos seus dotes, mas falei da tatuagem no alto do seu
tórax.
10/05/1992.
Minha amiga é esperta, ela deve pensar em alguma teoria interessante.
— É estranho... tatuar uma data de nascimento assim deve ter algum
propósito, isso é certo, mas não dá para saber, amiga. Podem ser inúmeras
coisas. Sei lá.
Bufei, contrariada. Acho que é mais fácil eu questionar ele, mas estou
com um leve pressentimento de que não terei a resposta.
— E o que é a segunda coisa?
— A segunda coisa é onde iremos e quem vai com a gente.
— Ah, meu Deus!
— Ele esta preocupado com você, até me perguntou seus gostos
musicais. Victor Hugo quer te deixar à vontade, bibelô.
— E te comer...
— Também, mas isso ele já fez, e nas mais variadas posições —
suspirei.
Renata me olhou com certo espanto, mas em seguida revirou os olhos.
— Eu já deveria ter imaginado. Mas, agora abra a boca: para onde
vamos?
— Pensei melhor e é bom que seja uma surpresa.
— Não é possível — revirou os olhos. — Por que começar um assunto e
não terminar?
— Ah, é possível sim, bebê. E não se preocupe, você irá amar.
— Odeio surpresas! Quer dizer... odeio suas surpresas, elas nunca dão
certo.
Mal sabe ela que essa tem tudo para dar errado...
“E com o tempo nossas amizades vão se tornando cada vez mais
verdadeiras...”

Os minutos foram passando e o trajeto até o local que iríamos estava


encurtando. Percebi que Renata volta e meia olhava para mim com
desconfiança, e o que podia fazer era segurar minha risada.
Nossa amizade é muito verdadeira, mas é uma pena que vou ficar sem
minha amiga depois que esse dia acabar.
— Estamos chegando, bibelô.
— É disso que eu tenho medo: chegar.
Sorri. É porque ela não sabe que a estou levando para um lugar
potencialmente odiável por ela.
Estacionei meu carro e logo os olhinhos curiosos da minha amiga se
voltaram ao barracão que entramos.
— Me sequestrar não é uma boa coisa. Aposto que os sequestradores
não iriam aguentar um dia sequer comigo — falou, e logo dei uma
apertadinha em sua bochecha.
— Eu te amo, amiga.
— Não posso dizer o mesmo — desdenhou e logo desceu do carro.
Conforme adentrávamos ao local, mais a música ficava alta, e quando
finalmente Renata entendeu o que estava tocando...
— Espera, eu não acredito que me trouxe numa roda de... pagode!
— Acalme seu coração, bibelô. Se eu falasse onde a gente iria, você não
estaria aqui, né?
— É óbvio que não! Tem alguma dúvida disso?! Mas o que quero saber
é: qual o motivo de me trazer aqui?
Eu ia falar alguma coisa, inventar alguma desculpa, mas não deu tempo,
já que Renata ouviu certa voz...
— Olha quem está aqui! Renatcheeeeeenha!
Minha amiga baixou os olhos e me analisou, suspirando em seguida.
— Esqueça agora o que eu disse sobre gostar de Victor Hugo, por favor.
Pelo visto a ideia foi dele.
— Sim. Tá aí o motivo de te obrigar a vir.
— Como você está? — Se abaixou ficando do mesmo tamanho dela.
— Com a minha vida? Bem. Em relação a você? Te odiando um pouco
mais a cada segundo.
— Ah, deixa disso. Você gostou de mim.
— Justamente. Gostei, no passado. Porque me trazer aqui...
Renata olhou ao redor e tinha gente sambando, cantando, fazendo
arruaça, gritando, se beijando...
Gostei do lugar, faz meu estilo.
— É para tirar o estresse acumulado. Um pagodinho é bom. Sabe
dançar?
— Não vou responder.
— Eu te ensino, qualquer coisa.
— Não, obrigada.
Depois que nos sentamos em uma das mesas, começamos a conversar,
ou tentar. Renata ainda estava incrédula.

— Como estão os assuntos na empresa, fã do Daniel Falcão? Soube que


foi promovida.
Automaticamente Renata olhou para mim, e fiz o mesmo com Victor
Hugo. Eu não tinha contado isso a ele.
— Sim. Mas Luiza só te contou o básico.
— Ah, ela não me contou nada. Eu deduzi, vocês duas são iguais nesse
ponto. Luiza subiu muito rápido, e você fará o mesmo na Argo’s, tenho
certeza.
Não sei como foi a recepção desse elogio na cabeça de Renata, mas seu
rosto se suavizou.
— Você me lembra muito uma pessoa — Victor Hugo falou com uma
das mãos no queixo.
— Quem?
— Meu rival e seu ídolo: Daniel Falcão.
— Por quê? — pareceu se interessar.
— É difícil explicar, mas estou falando de temperamento, maneira de se
portar, questão de trabalho, sabe? Então... — Tomou um gole de cerveja não
tirando seus olhos de nós. — Acho que está no caminho certo, porque ele é
um dos CEO’s mais famosos do país, e sabe disso.
— Sim — Renata logo tomou um gole de cerveja também. — Beatriz
está me ajudando bastante agora que ele saiu da Argo’s.
— E, no que precisar, pode contar comigo.
Após essa frase, Renata arqueou as sobrancelhas, desconfiada.
— Se está fazendo isso porque quer comer Luiza, saiba que não precisa
de mim, ela vai te dar quando tiver vontade, o que é praticamente toda hora.
— E o respeito por mim?! Onde foi parar?! — fingi nervosismo e logo
ela virou a cara.
— Amiga... me poupe, se poupe, nos poupe.
Nós três começamos a rir, e logo o ambiente ficou mais divertido.
— Eu gostei de você, Renata. E, além de tudo, pra piorar a situação um
pouco mais, tanto eu quanto Luiza temos algo em comum: adoramos de te
irritar.
— Nem percebi...
— Mas o que não sabe é que pretendo te ajudar no que precisar. Sei que
é fã logo do meu rival, que é bem menos inteligente que eu, diga-se de
passagem, mas um dia você pode precisar de mim.
— Quem sabe... mas, como quer conquistar uma pessoa como eu, me
trazendo em uma roda de pagode? — sorriu ao perguntar. — Não foi sua
melhor ideia.
— Isso é porque você não sabe da minha segunda ideia.
E pelo visto nem eu. O que esse homem esta tramando agora, meu
Deus?!
— Que seria...? — perguntou, receosa.
— Quando Luiza disse que vocês sairiam juntas achei até melhor, sabe?
Pesquisei algumas coisas e achei seu Facebook recentemente, e junto com ele
seu usuário no Spotify, e sabe o que me chamou a atenção.
— O quê? — perguntou, dividindo sua atenção comigo e com Victor
Hugo.
— Você tem 340 músicas salvas. São muitas.
— Sim, mas conheço pessoas que tem mais. Não entendi onde quer
chegar.
— Só que vi algo lá diferente... — lançou um sorrisinho debochado. —
Tem 1 pagode entre elas.
— Ah, e por isso você resolveu me trazer numa roda de pagode? Com
incríveis 1 música na minha lista!
— A resposta da sua pergunta é: sim.
— Victor Hugo... — um homem atrás de um dos bares o chamou. —
Você e a Renata são os próximos.
— Valeu por avisar, João.
Olhei para o meu chefe e Renata fez o mesmo sem entender o que estava
se passando.
— Ah... esqueci de contar, aqui temos um videokê, então a baixinha e eu
cantaremos a tal música que ela tem na lista. Juntinhos.
Quase cuspi a minha cerveja ao ouvir isso, e logo as bochechas de
Renata ficaram vermelhas.
— Isso só pode ser brincadeira! — Renata grunhiu. — Sem chance de
eu cantar pagode com você! Jamais!
— Renatinha, por favor! — falou, de forma melosa.
— Essa voz mansa pode até dar certo com a Luiza, mas comigo nem
pensar.
— Ah, que isso. O que posso fazer para aceitar? Deve ter alguma coisa
ao meu alcance, todos nós queremos algo.
De repente o semblante de Renata mudou, e sua postura ficou um pouco
mais ereta. Ele não devia ter perguntado isso.
— Você realmente acha que pode me chantagear, é?
— Todos podem ser chantageados, então... sim.
— Pois bem. Faça três coisas por mim e eu canto com você — pontuou
decidida.
— Fechado!
— Primeiro: recentemente saiu o curso do Mário Lustosa, um dos
melhores vendedores do país, e quero muito comprar ele, mas estou com
dinheiro em falta, ou seja, você seria o meu dinheiro. Segundo: tem um
assunto que tenho dificuldade na parte de vendas, e sei que Beatriz anda
muito ocupada, mas preciso de auxílio urgente sobre isso, e pode ser até você
me explicando, não me importo. Terceiro: nunca mais me leve a algum lugar
que eu não saiba onde é. Quarto...
— Opa, não eram três coisas?
— Sim, mas o meu quarto pedido não tem relação comigo. É uma
pergunta que farei a você. Só isso.
— Só?!
— Sim. E aí, estamos de acordo?
Eu estava literalmente boiando na conversa, porque não sabia que Victor
Hugo tinha planos de cantar com meu bibelô e nem que Renata tinha um
contra-ataque engatilhado.
— Claro que estamos. O curso será comprado hoje mesmo por mim;
quando quiser faremos uma vídeo chamada ou nos encontraremos
pessoalmente para te explicar o que precisa; e a partir de hoje vou te falar
onde vamos quando sairmos juntos.
— E a pergunta?
— Também. Você poderá me fazer qualquer pergunta.
— Excelente!
Vivendo e aprendendo...
Eu deveria imaginar que Renata iria descontar essa saidinha nada
convencional. O que me surpreendeu foi que nessa chantagem os dois saíram
ganhando, e nem sequer brigaram ou algo do tipo.
— É a sua vez — novamente ouvimos a voz do homem ao fundo.
— Preparada, Renatinha?
— Eu já nasci preparada, meu bem. E saiba que eu não canto, eu dou
show.
— É assim que se fala!
Eu não sei se a animação da minha amiga foi mais em relação ao curso
ou aos ensinamentos que ela ganhou de bandeja, mas a confiança dela foi nas
alturas em um curto período, e isso me deixou bastante feliz. Gosto muito do
meu bibelô, mais do que ela imagina.
Quando os dois foram ao palco improvisado, o show começou de fato. A
música escolhida foi Deixa em off, da Turma do Pagode.

Eu sei
Que não era pra gente se envolver
Que não era pra gente se encontrar
Mas esse amor bandido não posso evitar

É coisa de pele, um lance criminoso


Um frio na barriga, arrepio no corpo
Longe do mundo inteiro
Amor do nosso jeito

Deixa em off
Off, o nosso amor é mais gostoso em off
Proibido, escondido em off
Só eu e você perdido em love
Deixa em off
Victor Hugo até mesmo pegou um violão do nada para cantar junto com
Renata, e aquela cena tava engraçada, por isso filmei e não vou revelar para
ninguém.
Ao fim da música eles foram aplaudidos praticamente por todo mundo, e
vi meu bibelô visivelmente feliz.
— Foi difícil?
— Não. Ganhei várias coisas em menos de cinco minutos. Nem de longe
essa chantagem foi ruim para mim.
— Hmm. Acho que estava tramando algo desde o começo.
— Claro! Eu sabia que teria alguma piadinha nisso tudo. Eu só... —
sorriu de um jeito sarcástico para ele. — Queria tirar vantagem de você!
— Ah, é? Bom saber.
Continuamos a conversar e beber por algumas horas, e até me esqueci
que na verdade ainda falta uma coisa para ser feita.
— Acho que está na nossa hora.
— Também acho — Renata falou. — Mas antes preciso fazer a minha
pergunta.
— Claro. — Cruzou os braços a analisando.
— Já que Luiza não vai perguntar, eu irei. Em que dia e ano nasceu?
Automaticamente olhei desconfiada para Renata não entendendo o
motivo de tal questionamento.
— Essa era a pergunta importante?
— Iremos chegar lá. Me responda isso primeiro.
— 29 de maio 1985.
— Espera um segundo, deixa eu fazer algumas contas.
Por poucos momentos Renata pareceu contar algo mentalmente, e logo
me preocupei, já que tive um clarão do motivo de tal questionamento.
— Certo. Minha pergunta é: por que tem uma tatuagem no seu corpo
com a data de 10/05/1992? Nessa data você tinha 6 anos, 11 meses e alguns
dias. Não vejo sentido nisso.
Victor Hugo meio que travou alguns segundos ao ouvir esse
questionamento, e logo olhou para o céu repensando alguma coisa. Ele não
estava nervoso ou algo do tipo, parecia estar um pouco surpreso com essa
pergunta.
Não vou julgá-lo, eu mesma não esperava que logo Renata perguntasse
sobre isso, mas meu pequeno anjinho quer me ajudar em algo, e fiquei feliz.
— Não temos até amanhã. Desembucha!
— Bem... sobre isso não vou responder a você, querida aluna —
pontuou com o rosto amigável até demais.
— Você disse que poderia fazer a pergunta que eu quisesse! — falou,
nervosa.
— Exatamente! O que eu não disse é que responderia à pergunta, né,
baixinha?! — lançou uma piscadela e Renata ficou louca.
Sabe... apesar de não ter a resposta que tanto estava curiosa, no fundo
fiquei muito feliz. Meu bibelô se acha esperta na maior parte do tempo, e até
mesmo ela foi passada para trás agora.
— Eu te odeio tanto, Victor Hugo! Primeiro me traz no pagode, depois
me faz cantar um música com você, e agora me engana desse jeito!
— Que pena que me odeia, mas felizmente ou infelizmente gostei de
você e continuaremos amigos, queira ou não. Até porque... me tornei seu
professor particular a partir de hoje!
“Nossos demônios precisam ser confrontados diariamente...”

O clima na GCR ficava mais descontraído a cada dia que se passava.


Confesso que eu já havia me acostumado com a ideia de ter um chefe
tirano me ditando regras e me cantando, só que agora tudo está diferente, e
novamente voltei a amar cada parte do meu trabalho, e preciso dizer que
trabalhar com Victor Hugo me deixa feliz... e safada. Muito safada.
Fui para a sala do meu chefe, e quase entrei, mas percebi que outra
pessoa estava lá com ele: Jarvas.
Não ouvi a conversa dos dois, dei certa privacidade apesar de ficar
parada na porta, mas o vi agradecendo muito ao Victor Hugo, e ele parecia
até um pouco emocionado. Já o meu chefe estava... sorrindo.
Isso é algo inédito, pelo menos quando estamos falando de outros
funcionários da GCR. Seus sorrisos geralmente são voltados a mim, e a
maioria deles são sarcásticos.
Depois que Jarvas passou por mim, adentrei ao seu escritório.
— Gracinha... como você está?
— Bem, e parece que certa pessoa também.
— Eu recebi algumas notícias boas agora. É só isso — pontuou. —
Agora, vamos resolver as questões pendentes...
Hoje foi um dos poucos dias que trabalhamos em algo juntos. Ele até
parecia estar animadinho demais, e isso não é do seu feitio, já que Victor
Hugo e trabalho... bem, não vou ficar julgando, ele parece estar melhorando,
e agradeço aos céus por isso.
Ficamos em silêncio por vários minutos enquanto revisávamos alguns
documentos, mas acho que sabem que quando dois papagaios estão juntos, é
inevitável que um abra a boca.
— O que acha de eu ser o mais novo professor da sua querida amiga? —
mudou de assunto, girando a caneta entre os dedos.
— Sobre isso... fiquei pensando ontem em minha casa, e ainda não
acredito que Renata te enganou — disse para meu chefe, após terminar um
dos relatórios que seriam entregues ao RH.
— E quem disse que fui enganado? — perguntou. — Renata não se abre
muito, mas todos nós queremos algo no fundo, e ela não ia falar nada se eu
perguntasse diretamente, por isso armei uma coisinha pequena —
complementou dando uma piscadinha.
— Você e suas armações... — falei. — É horrível quando caímos nelas,
somos as últimas pessoas a saber.
— Isso não importa, gracinha. Não prejudico ninguém fazendo elas,
muito pelo contrário.
— Isso pode ser verdade... — sibilei, deixando de focar em seus olhos,
que às vezes me tiram do norte — Posso te fazer uma pergunta pessoal?
— Claro! Agora eu responder já é outra situação.
— Não sou a Renata — disse com o tom firme. — Sei que vai me
responder.
— Tente.
Analisei suas feições, admirando aquele homem que foi de pouco a
pouco mexendo com o meu psicológico. Sei que entendê-lo por completo
será difícil e requer tempo, mas quero descobrir pelo menos um pouco sobre
Victor Hugo Avelar.
— Por que você é assim?
— Assim como? — questionou.
— Ao mesmo tempo que não se importa, parece se importar. Ajuda
pessoas sem pedir nada em troca, consegue fazer amizades fácil, apesar disso
não parece ter amigos próximos... — parei repensando minhas próximas
palavras. — Acho que a pergunta certa é: o que significa a vida pra você?
Acho que minha pergunta está diretamente relacionada ao que presenciei
no hospital. Aquela imagem ainda permanece bem presente na minha
memória, e volta e meia recordo daquele gesto bonito, e por isso quero
descobrir mais algumas coisas. Sei que ele não é uma má pessoa, e até
mesmo ajudando Renata me prova que não estou ficando louca.
Meu chefe respirou fundo, e logo depois de maneira despojada colocou
seus dois pés na mesa.
Ele não é nada previsível, e até isso me chama a atenção.
— É como digo aos meus pais... — Me lançou um breve sorriso e voltou
sua atenção à janela, bastante pensativo. — Precisamos nos apegar de tal
forma a nossa mente e nosso corpo, que viver intensamente deve se tornar
uma obrigação, já que não sabemos se vamos acordar no dia seguinte. Posso
não aproveitar minha vida da forma que a sociedade julga ser o certo, mas se
tem algo que aprendi é que nem todos têm a oportunidade de sair de suas
casas ou dos hospitais e observar um simples por do sol; respirar o ar fresco
de uma montanha; dizer a alguém o quanto a pessoa é especial, então eu faço
o que tenho vontade na hora que tenho vontade, nem que seja beber até cair,
porque eu me considero um vencedor por tudo que passei na minha vida, e
queria que todas as pessoas que estão morrendo pudessem ter essa
oportunidade de desfrutar mais um dia de vida. Isso é o significado da vida
para mim, Luiza, uma oportunidade onde podemos fazer e ser o que bem
entendermos, onde não há espaço para arrependimentos. Por isso sou assim, e
vivo intensamente.
Não me segurei e meus olhos se encheram de lágrimas, contudo
disfarcei o mais rapidamente que pude.
— Não disse isso na intenção de fazer você chorar, é só... a minha
filosofia de vida.
Ele não sabe o motivo...
— Me sinto mal por saber algo tão profundo sobre você e fingir que não
sei.
— Luiza...?
— Espera, sou eu quem vou falar agora. Eu errei e erro muito ao julgar
as pessoas sem conhecê-las, e jamais imaginei que pudesse ter um lado bom,
se importar com as pessoas, pois na empresa você não demonstra isso. Faz
questão de ignorar isso. Sei que tem muitos segredos.
— Todos nós temos segredos — rebateu, com um pequeno sorriso em
seus lábios — E, o mais importante: motivos para guardá-los. Eu não sou
diferente, determinados assuntos prefiro manter comigo.
— Então seu erro foi me deixar tirar folga alguns dias atrás.
Percebi que sua expressão havia mudado, mas eu não queria guardar
mais isso comigo. Ele precisa saber que descobri algo que ele esconde.
— Por que meu erro?
— O pai de Beatriz, que é casada com Daniel, passou mal em um
supermercado da cidade, e ela me ligou desesperada, tremia muito e
dificilmente conseguiria chegar ao hospital. Como estava de folga, fui até a
Argo’s e fomos juntas para o Intermedical Center, e... — sorri, sem graça. —
Acho que pode saber o resto.
— Não. Não sei. Continue — falou impassível.
Respirei profundamente.
— Depois que vimos que o pai dela estava bem, fui à saída do hospital
para levar minha amiga na empresa, e foi aí que... — parei, analisando seus
olhos, que não exprimiam agitação alguma. — Eu te vi!
Um longo silêncio preencheu a sala, e não falei mais nada.
Eu queria muito saber o que ele poderia estar pensando.
— Seja clara. O que viu, Luiza?
— Você na Oncologia Pediátrica, vestido de Capitão América e
cantando para uma menina... a mesma da foto que me mostrou dias atrás. O
que faz nesse hospital é um gesto muito bonito, e sei que as crianças que
ajuda...
— Volte ao trabalho — falou ao me interromper, mas disse calmo
demais.
Ele não me olhava nesse momento, simplesmente voltou-se à janela
após proferir a frase.
— Victor Hugo...
— Luiza! — Me encarou profundamente. — Não vou falar de novo,
volte ao trabalho!
— Eu só queria... — fiz uma pequena pausa, tentando encontrar as
melhores palavras, mas não o fiz. — Esquece! Foi um erro falar que eu sabia.
Resolvi sair da sua sala.
Não sei se mencionar o que descobri foi uma boa ideia, e o que tínhamos
um com o outro pode mudar drasticamente após eu dar com a língua nos
dentes.
Durante a semana seguinte Victor Hugo sequer me dirigiu a palavra
dentro da empresa.
Eu não sabia bem o que pensar sobre tudo que estava acontecendo,
porque constantemente pensava nele, e a preocupação em meu peito só
aumentava. Inicialmente pensei que não, mas agora vejo que sinto falta das
nossas conversas diárias, e isso cessou.
Resolvi focar em meu trabalho, mas isso foi um pouco mais complicado
quando o vi recostado na porta do meu setor, me olhando com dureza.
— Luiza, quero tudo pronto até amanhã às 15h. Vou precisar de você
após esse horário — disse após permanecer no poucos segundos em meu
setor e logo virar as costas.
— Por causa desse tom prevejo problemas — Estela disse enquanto me
olhava assustada, logo respirei fundo e tentei imaginar o que ele queria.
Não sei se foi uma boa ideia expor o que eu sabia. Preciso manter certos
assuntos comigo e parar de tentar entender a cabeça das pessoas com quem
me importo. Um dia isso irá me deixar em apuros, tenho absoluta certeza
disso.
— Se você acha, eu tenho certeza.

Hoje meu dia se passou tranquilamente e pude deixar tudo bem


adiantado, já que ele tinha avisado que precisaria de mim...
Eu bem queria que ele tivesse minha ajuda em algo relacionado a prazer,
mas ao notar seu rosto ontem, pude ter a certeza de que isso não era a pauta.
Depois de respirar fundo inúmeras vezes, resolvi encarar a fera, e nesse
momento estávamos frente a frente.
— Terminou o que pedi? — perguntou, com o rosto fechado.
— Sim. Do que precisa agora?
— Que venha comigo!
— Para onde?!
— Você irá descobrir em breve. Vamos!
Eu pensei que iria com Victor Hugo em outra empresa, visitar algum
cliente, sei lá, então eu simplesmente fui até o carro dele e adentrei no
mesmo.
Nenhuma palavra foi dita até finalmente chegarmos ao destino, e agora
estamos tocando a campainha de uma residência, e não estou entendendo
nada do que está se passando.
— Eu segurei demais para falar. O que está acontecendo, e por que
parece que estou sendo sequestrada?
Um pequeno sorriso surgiu, e logo depois ele fixou seu olhar no meu por
um momento, me deixando desarmada.
— Vou te apresentar uma pessoa.
Quando me preparei para falar algo, eis que a porta se abriu, e um lindo
homão negro apareceu em nossa frente com um leque gigante.
— Meu beeem! Hoje você chegou cedo! — disse e logo me olhou de
cima a baixo. — Hmm. E essa gostosona, quem é? — perguntou do nada e já
veio perto de mim segurando a minha mão e me fazendo dar uma voltinha.
Logo depois deu umas apalpadas na minha bunda — o que me fez dar um
pulo no lugar —, e Victor Hugo sorriu.
— Minha amiga.
— Nossa, toda durinha ela! Que inveja! Entrem. — Abriu seu leque e
logo entramos.
Olhei para Victor Hugo sem entender nada, e percebi ele sorrindo em
seguida.
— Bom, gata, meu nome é Samuel ou Samantha, como desejar.
Provavelmente o gostoso aqui não falou nada sobre mim, já que é cheio dos
segredinhos, mas eu sou a maquiadora dele, maquiador, que seja.
Gargalhei.
Não foi preciso nem dez segundos para que eu gostasse de Samantha.
— Ele é gay, Luiza.
— Ah, não me diga — Samantha retrucou com uma das mãos na boca,
tirando sarro. — E por falar nisso, que dia faremos uma festinha particular?
Victor Hugo somente sorriu e balançou a cabeça em desacordo.
— Acho que sabe.
— Estraga-prazeres. — Novamente abriu seu leque, o abanando, e
começou a andar pela casa. — Me acompanhem!
— É ele que...
— Faz todo o procedimento antes de eu ir para o hospital — completou.
— Geralmente passo algumas vezes aqui no mesmo dia quando vou visitar as
crianças.
— Por que algumas vezes no mesmo dia? — questionei.
— Por causa das fantasias. Algumas gostam de super-heróis diferentes,
e preciso retocar a maquiagem, mudar minha roupa, entre outras coisas.
Naquele dia você me viu fantasiado de Capitão América, mas uma hora antes
eu estava caracterizado de Homem Aranha, sabe?
Não contive um sorriso em minha face.
— Eu sei, é difícil agradar as crianças ultimamente, os gostos são bem
diferentes.
— Vamos, gato. Você está atrasado. E me desculpe, qual o seu nome
mesmo, docinho? Eu sou uma bicha muito desligada!
— Luiza.
— O queeeê? Você é a Luiza que trabalha com ele? — Esbugalhou os
olhos.
— Sim — respondi, mas com certo receio, olhando diretamente para
Victor Hugo.
— Vamos ver se é você mesmo... — falou e me assustei, já que aquele
homão de quase 1,90m veio para mais perto e... apalpou meus peitos. Do
nada.
— Meu Jesus amado! E pelo jeito não é só a bunda dessa morena de
olhos claros que é durinha. Que bicha invejooosa me tornei! — gargalhou
alto abrindo seu leque e arqueou as sobrancelhas. — Agora tenho certeza de
que é a Luiza safadona que ele sempre comenta.
Comecei a rir do nada, e percebi meu chefe balançando a cabeça em
acordo.
— Vai ficar despejando todos os meus segredos para ela assim de mão
beijada?
— Depende... — Voltou-se a ele. — A nossa festinha vai acontecer ou
não? — lançou um beijinho a ele, e o vi fechando seus olhos.
— Pode revelar meus segredos. Não ligo.
— Foi o que pensei!
O meu dia estava atípico. Pensei até mesmo que seria demitida por dizer
a ele o que eu sabia, mas terminaremos juntos no hospital.
— Fique a vontade, meu amor. Vou preparar o gostoso, e em breve
vocês poderão fazer crianças felizes.
— Tudo bem.
Eu não sabia o que pensar, novamente. Victor Hugo é uma caixinha de
surpresas, e pelo jeito vai me surpreender bastante ainda.
— Bebê, você sabe que Victor Hugo vai negar até a morte, mas ele tem
muitos ciúmes de você, né?
— Isso é sério?
— Samuel...
— Ah, eu sou uma bicha fofoqueira mesmo. Então... acho que aquela
coisa horrível que amo chamada ménage, não vai rolar mais! — gargalhou
alto e quase tive um treco. — Ele é meio possessivo!
Samantha é o sinônimo de felicidade e deboche ao mesmo tempo, e não
estou conseguindo lidar.
— Nada como ter um amigo assim para revelar nossos segredos — foi a
vez de ele falar enquanto Samantha alinhava sua maquiagem.
— Ah, meu bem. Mas eu entendo seu lado. Se eu fosse hétero e tivesse
uma morena linda que nem você em minhas mãos, eu não deixaria que
escapasse de jeito nenhum, e ia te querer só para mim. Mas gosto de algo
grande e grosso. Acho que me entende.
— Obrigada — agradeci caindo na gargalhada. — E te entendo mais do
que imagina — complementei com o rostinho travesso.
— É como eu sempre digo: o que é bonito tem que ser visto, tocado,
chupado... — suspirou. — Aiii, não posso pensar nessas coisas. Vou me
atrasar toda aqui!
Se eu pudesse definir meu dia seria algo como: surpreendente.
Por mais que eu tenha ficado aqui quase uma hora, conversamos
bastante, e o tempo pareceu voar. Samantha é uma pessoa muita engraçada, e
conseguiu quebrar o gelo até mesmo de Victor Hugo, que até entrou na
brincadeira em algumas oportunidades.
— Você está pronto, gato!
— Então é melhor irmos, Luiza, estamos atrasados. — Olhou em seu
relógio, mas eu estava interessada em outra coisa.
— Espera um pouco! — falei. — Deixa eu admirar essa obra de arte.
Meu querido chefe estava caracterizado de Thor, e o seu martelo...
Só Jesus na causa...
Eu tinha que olhar para o martelo de plástico, mas quando Deus me deu
o dom da safadeza, passei inúmeras vezes na fila.
— Eu também quero admirá-lo! — Samantha abriu seu leque, e quase
me deixou surda. — Novamente arrasei, e você como modelo arrasou!
— Obrigado. Talvez eu volte hoje!
— Sem problemas. Vou te esperar peladona no sofá! — gargalhou e tive
que acompanhá-la.
Victor Hugo resmungou algumas coisas e sorriu, logo em seguida
saímos da casa dela, entrando no carro.
Por alguns segundos reparei meu chefe, e não sabia nem o que falar.
— Preste atenção: se ver Samuel de novo, pelo amor de Deus, não
comente em hipótese alguma que não tiro essa maquiagem de maneira
correta. Se ela souber que dou esse descuido, vai falar um monte no meu
ouvido, e ele estressado... — revirou os olhos.
Comecei a gargalhar, admirando aquele lindo homem em minha frente.
— Você tem uma fã. Duas agora contando comigo.
— Isso é porque ainda não viu as crianças. Está pronta?
— Você nem sabe o quanto...

— Eu vou poder mesmo entrar?


Estávamos na recepção do Intermedical Center, e o medo de não
acompanhá-lo já dava sinais.
— Já dei o meu jeito. Hoje você irá conhecer Vitória, e algumas outras
crianças.
Victor Hugo começou a andar, mas fiquei parada e peguei uma de suas
mãos. Após esse gesto ele parou, e me olhou com dúvida.
— O que foi?
— Eu pensei que estava irritado comigo. Depois do que falei não
conversamos mais. Não imaginei que me traria aqui, um lugar que tanto
esconde.
— Luiza, eu tenho meus motivos. Mas eu confio em você, e não só
confio como gosto de tê-la perto de mim. Só preciso que tenha paciência
comigo.
— Posso conviver com isso — falei e logo fomos juntos a um corredor
que eu me recordo muito bem.
Depois que Victor Hugo e eu aparecemos em um leito específico, logo
vi uma menina gritando ao observá-lo indo até ela.
Vitória!
— Ela estava eufórica aqui — uma senhora que estava sentada disse e
levantou-se.
— Luiza, essa é a dona Marlene, a mãe da Vitória.
— É um prazer, menina — ela me deu um beijo no rosto e voltou-se a
ele. — Vou deixá-los a sós.
Dona Marlene logo saiu do quarto, e quando Victor Hugo chegou perto
da menina, ela o abraçou apertado, e aquilo me deixou bastante emocionada.
Eu sou uma manteiga derretida pra certas coisas.
Apesar de tudo, após esse momento passar, a garota me olhou bem
desconfiada. Não sabia ao certo qual seria sua primeira impressão sobre mim.
— Ela é a minha amiga, Vitória — pontuou. — Trouxe a Luiza para te
conhecer.
— É um prazer, Vitória — falei, na esperança de que ela me desse uma
pequena abertura.
— O prazer é meu — disse e logo voltou-se a ele. — Ela é só sua amiga,
né? — perguntou, e logo sorri, entendendo o motivo desse questionamento.
— Sim, anjinho.
— Então quando eu for maior de idade ainda vamos casar, né?
Pelo jeito o charme dele cativa até mesmo as crianças daqui.
— Deixa eu pensar... — deu uma piscadinha. — Se obedecer à sua mãe,
fazer tudo que os médicos pedirem, mandar esse câncer pra longe, eu vou te
esperar de braços abertos. Só tem um probleminha, né? Infelizmente acho
que vai quebrar o meu coração e se apaixonar por algum garoto mais novo...
— disse, fazendo charme, simulando tristeza.
— Talvez, mas eu sou difícil.
Começamos a rir, e percebi que meu dia não poderia estar melhor.
Observar o que Victor Hugo se propunha a fazer me deixou fascinada,
de verdade. As conversas, a maneira com que ele interagia com Vitória, o
jeito com que os assuntos dos dois batiam...
Enfim, a cada segundo que passa estou mais feliz, e nem sei expressar
em palavras.
— Me diga, qual vai ser o seu pedido hoje?
— Mundo Paralelo, do Vitor Kley. — Seus olhinhos brilharam.
— É pra já!
Após Vitória pedir sua música, logo meu chefe tirou o violão de suas
costas, e começou a melodia...

Mãe, não tenho mais medo da roda gigante


Do carro veloz nem do filme de terror
Quando faltar a luz e eu tiver no elevador
Mãe, já vi que a vida é questão de instante
E em um piscar de olhos tudo pode desabar
E eu aqui me preocupando com o que vou postar
Cansei, já não quero mais brincar

Devagar, me desapego desse mundo paralelo


E sinto a falta que um abraço faz, ô, se faz
Devagar, me desapego desse mundo paralelo
E sinto a falta que um abraço faz, ô, se faz
Eu sei

O tempo vai passando, as coisas vão mudando


Ô, se vão mudando
Mas tenham a certeza
Que o amor é infinito
Um abraço é infinito
Não tem prazo de validade
Não tem um novo modelo
Não acaba a bateria
Um abraço é eterno
E o sorriso de quem ganha o abraço é mais ainda

Acho que todos nos emocionamos com a melodia, e a menina chorou.


Eu tentei disfarçar, mas uma lágrima escorreu do meu rosto.
— Gostou ou tô enferrujado?!
— Gostei.
— E cadê o meu abraço?
Logo ele chegou mais perto e os dois se abraçaram.
Aquele gesto me mostrava tanta coisa, e uma grande felicidade irradiava
em meu coração. A cada segundo que se passava, mais eu admirava meu
chefe, e acho que isso seria algo recorrente agora.
Depois que conversamos um pouco, Vitória percebeu que rapidamente
falamos sobre algo relacionado ao trabalho, e perguntou: — Ela trabalha com
você?
— Sim. Eu sou o chefe dela.
— Ah, você deve ser o chefe mais legal do mundo!
Não consegui segurar e soltei uma risada bem alta. Pobre Vitória, mal
sabe ela o que já passei...
— Digamos que...
— Ele tem os seus momentos bons — dei uma piscadinha para ela ao
interrompê-lo. — Mas tem hora que quero matar ele, sabe...? — revirei os
olhos sibilando essa frase, e logo Vitória começou a rir.
— Sério? Ele parece tão bonzinho.
— Não se engane com a aparência fofa dele. Ele é bem mau quando
quer.
— Não acredito! — Voltou-se a ele, perplexa. — Você disse que era
bonzinho pra mim!
— Mas eu sou, meu anjo!
— Não é nada — retruquei e logo Vitória e eu caímos na risada,
enquanto um sorriso leve desabrochava no seu rosto.
— Não acredito que vão se juntar para falar mal de mim... — disse,
simulando tristeza.
— Vamos! — Tanto eu quanto Vitória falamos no mesmo instante.
— Pelo jeito perdi essa batalha...
Um dos maiores medos que eu tive quando pisei no hospital foi que
Vitória não gostasse de mim, ou não me recebesse bem, mas foi o oposto.
Durante vários minutos pudemos nos divertir, conversar assuntos de
mulher, irritar um pouquinho meu chefe, e pelo menos por alguns instantes
esquecer que ela travava uma batalha contra a leucemia.
Eu nem sei expressar ao certo o que senti nas duas horas que fiquei no
hospital. Conheci inúmeras crianças, e todas as vezes que eu acompanhava
Victor Hugo, mais eu tinha certeza absoluta que ele estava deixando seu lado
bom aflorar perante a mim.
Aqui ele podia ser ele mesmo!
Acho que é difícil não se apaixonar por uma pessoa assim, e pela
primeira vez em minha vida não estou pensando nas consequências de me
entregar a um homem apenas...
“O que acontece quando seu chefe é um tarado, mas você é pior
ainda?”

Revelar para Luiza sobre o meu outro trabalho foi bom.


Na realidade não é bem uma revelação, já que fui pego no pulo, mas
estou bem, pois confio nela.
No primeiro dia fiquei um pouco irritado, não vou negar.
Sou muito reservado em relação às crianças, e tenho motivos para tal.
Posso ser o pior homem do mundo, mas sempre farei o meu melhor por elas.
Minha família e aquelas crianças vem em primeiro lugar na minha vida.
Trabalho eu arrumo em qualquer lugar, já família e amizades verdadeiras não
funcionam assim.
— Por qual motivo você é voluntário?
E, como se o Universo ajudasse, fui perguntado justamente sobre o que
pensava nesse momento.
— Não se apegue aos motivos, se apegue ao que eu faço. O porquê de
fazer isso não é importante.
— E todo esse mistério em torno do meu querido chefe, hein?
— Acostume-se, gracinha. Sou reservado. Pervertido, mas reservado.
Luiza sorriu ajeitando cabelo, e aquilo...
Porra!
É complicado lidar com essa mulher. Não sei o que se passa na minha
cabeça quando observo seu sorriso, a maneira que ela me olha, a nossa
proximidade.
Nunca sequer fiquei tão próximo a alguém como está acontecendo
agora. Geralmente quero comer as mulheres e pronto, mas com Luiza sinto
que tenho uma certa conexão, sei lá. Não sei explicar essas coisas, sou
emotivo e sentimental com as crianças, agora com ela... é diferente. Mas
quero e vou descobrir o que é isso. E começarei agora.
— Mas para mim você se tornou um fofo!
Nem tanto...
— Mas tenho um terrível defeito. — Levantei-me, dei a volta na mesa e
fui para mais perto da cadeira que ela estava sentada.
— Qual?
— Não me importo com as consequências de absolutamente nada que
faço.
Tomei sua boca, e vi o quanto ela ficou surpresa, mas em seguida se
entregou, e... inferno! Como é bom beijar essa boca carnuda...
Não consigo mais afastar essa mulher, e isso pode ser perigoso demais.
— Victor Hugo... você realmente me beijou do nada? — perguntou,
mordiscando seus lábios, ficando ainda mais sexy.
Quando estou perto dela só quero saber de sexo, sexo, e mais sexo...
— Sim. E estou me segurando, porque merecia mais que um beijo.
— E tá falando que...
— Luiza... — toquei sua bochecha. — Eu só consigo ficar mais safado
quando estou perto de você.
A travessura no rostinho dessa safada me mostrou que ela gostava desse
lado, mas não entendi quando ela mudou sua face bruscamente, me deixando
preocupado.
— O que foi?
— Só pensei outras coisas. Nada demais.
— Luiza... deixa de ser pervertida — provoquei, mas sabia que esse não
era o ponto.
— Victor Hugo... — respirou fundo. — Você merece o mundo inteiro!
O que desejar! Eu não te admirava, vou ser bem sincera, mas depois das
coisas que vi... eu não tenho palavras. De todas as pessoas no mundo, você
foi a que mais me surpreendeu. É isso.
— Obrigado, mas agora fiquei com vergonha! Eu estava pensando
sacanagem aqui — falei e ela logo mudou de novo, parecendo aprovar minha
ideia.
O que essa gostosa está tramando me confundindo assim?!
— Tudo em seu tempo, não acha?
— E agora, é tempo de que, gracinha...? — entrei na brincadeira.
— Não sei, que tal você me dizer...
Luiza logo pousou a mão perto do meu pau, e foi alisando o tecido da
minha calça. Ela realmente não tem limites.
— Garota... você realmente gosta de brincar com fogo.
— Sim, porque sou quente como o inferno, e agora chegou a minha vez
de mostrar que quando eu quero, eu pego.
Não precisei falar mais nada. Ela foi em direção a porta do meu
escritório, e a trancou.
— É melhor tirar essas calças! Agora!
Isso não foi bem um pedido, então fiz o que a gostosa me ordenou,
admirando seu rostinho, que de angelical não tinha nada.
— Vou te chupar de um jeito tão gostoso que você nunca vai esquecer.
— Melhor cumprir suas promessas! — meneei o indicador.
— E outra coisa: eu não vou parar até você gozar, independentemente do
que acontecer!
— Isso está começando a ficar interessante...
Luiza parecia estar com um bom apetite, porque logo me empurrou e
choquei minhas costas na mesa, fazendo com que meus cotovelos se
apoiassem no local. Em seguida, retirou minha boxer preta e logo segurou a
base do meu pau, olhando para mim, fodendo e abalando minhas estruturas.
— Sabe qual é a minha melhor qualidade?
— Sei que tem várias. Mas agora estou curioso.
— Sexo oral. Garanto que se eu te chupar aqui e agora, você nunca
mais vai esquecer. Aquilo na minha casa... foi só um aperitivo. Agora quando
tenho o foco somente em uma pessoa... — mordeu os lábios.
— Não me provoque — grunhi, mas não duvidei um segundo sequer de
suas palavras. Até imagino o que essa boca carnuda é capaz de fazer se
engolir o meu pau do jeito que gostaria.
— Verdade. É melhor fazer do que provocar...
Luiza roçou a língua em minha glande, e em momento algum tirou os
olhos dos meus.
Isso, fode um pouco mais o meu psicológico...
— Estou pensando se te chupo rápido ou devagar — sibilou com o
rostinho travesso.
— Devagar.
— Não fiz uma pergunta para você, Victor Hugo! Eu vou te chupar
como eu quiser, e vou parar quando eu quiser!
E foi só proferir tais palavras que Luiza literalmente engoliu meu pau,
ou tentou colocá-lo todo na boca. Além de me chupar, a safada ainda me
atiçava com aqueles olhinhos e isso me fodia, pois na maioria do tempo não
controlo meu ímpeto, e ela não sabe onde está se metendo.
— Luiza...
— O que foi? — perguntou enquanto me masturbava e chupava as
minhas bolas, fazendo por um momento eu fechar meus olhos, tamanho
prazer que percorria meu corpo.
— O que está fazendo vai ter volta.
— Ah, vai? — sua voz manhosa novamente veio à tona, e foi aí que ela
o engoliu com voracidade, me fazendo segurar firme na mesa.
Agora entendi o que ela quis dizer sobre a sua qualidade. Seu boquete é
do jeito que eu gosto, babado, intenso, alternando momentos lentos e rápidos,
e... eu iria gozar em sua boca. Definitivamente ela iria engolir tudinho!
— Não se segure, quando eu acabar com você irei tomar tudo que está aí
acumulado.
Sequer consegui responder, já que o ímpeto aumentou, aumentou mais
um pouco, e...
— Victor Hugo! Por que essa porta está trancada? — ouvi dois murros
na mesma, e automaticamente decifrei de quem era a voz: Luigi.
Que ótimo! O dono da empresa! Agora fodeu geral!
Até mesma Luiza ficou assustada, e logo se levantou.
— Victor Hugo! — novamente bateu na porta, e não sei o que fazia
primeiro, se colocava meu cinto, as calças, se tentava de alguma forma
esconder Luiza.
— O que eu faço? — questionou, preocupada.
Olhei para a minha sala, e a visão ampla dela só tornava mais difícil
tentar escondê-la, mas foi aí que reparei em minha mesa. Se alguém se sentar
em minha frente, a pessoa não consegue ver onde meus pés estão dispostos,
pois há uma parte de madeira que impede essa visão. Agora se alguém ficar
atrás de mim... ela terá visão de tudo!
— Se esconde debaixo da minha mesa! Rápido!
— Como é?!
— Anda, não temos tempo! — Fui em direção à cadeira e me sentei,
analisando se eu estava certo sobre a minha percepção — Não dá para ver
meus pés. Só do meu tórax para cima! É o lugar perfeito, o único!
Rapidamente Luiza fez o que pedi, se encolhendo em seguida.
— E o que vai falar sobre a porta trancada?
— Deixe comigo! Sou um bom ator.
Depois de me recompor, logo fui em direção à porta e respirei fundo.
Em seguida a abri e virei minhas costas indo rapidamente na direção da mesa.
— Por que essa porta estava trancada? — Logo veio perguntando, e
simplesmente sentei-me na minha cadeira. Ao olhá-lo diretamente pela
primeira vez abaixei meus olhos, simulando estar desanimado, e logo sua
expressão raivosa se suavizou.
— O que houve com você? — perguntou e fiz o rosto mais sofrível que
consegui abaixando um pouco a minha cabeça.
— Estou realmente mal! Minha cabeça está explodindo, estou com 39°
de febre e meu corpo está me matando! Eu precisei trancar essa porta hoje o
dia todo, porque está um inferno, todo mundo vindo aqui. Eu só preciso de
um tempo para me recuperar.
— E por que não foi ao hospital?
— Hoje é fechamento do mês, você sabe como é...
— Sim, é um problema — falou, adotando uma postura mais
descontraída, sentando-se.
— A que devo a honra...
Parei de falar no momento em que uma mão me tocou, mas se engana
vocês que foi de um jeito bom, foi de uma forma extremamente sacana.
Não. Luiza não está fazendo isso comigo...
— O que houve?
— Nada. Só quero saber o que veio conversar comigo — tentei me
recompor.
— Bom, nada demais. Quero saber o andamento dos assuntos na
empresa.
Sério?! Eu estava recebendo um oral maravilhoso e veio falar da
empresa agora, caralho?!
— Bom, pergunte o que dese...
Parei a frase e fechei meus olhos.
Não, essa safada não está masturbando...
— O que foi?
— Nada. Só uma pontada perto da minha barriga, e...
Inferno! Como se não bastasse me masturbar, ela realmente roçou a
língua na cabeça do meu pau agora?!
— Ainda acho que deve ir ao hospital.
— Eu vou — respirei fundo. — Hoje mesmo, só vou terminar algumas
coisas. O que deseja saber especificamente?
— Vi que a empresa está com novos investidores. Percebi um
crescimento, mas estou sentindo falta de captar novos perfis de pessoas.
— Sim, eu pensei sobre isso, e... ah... ah... porra! — grunhi, fechando
meus olhos.
— Victor Hugo, eu acho melhor cuidar da sua saúde.
Isso é por que ele não sabe como ela está boa agora.
E Luigi não sabe quem está cuidando dela...
Luiza simplesmente está ignorando a presença do seu chefe na sala, e
me chupando com um ímpeto tremendo, e eu não sabia o que fazer. Não
agora.
— Eu vou cuidar! São só pequenos probleminhas — falei e logo ouvi
uma risadinha baixa.
Safada do caralho! Ela vai pagar com seu próprio corpo por isso!
— Isso me lembra o que aconteceu comigo no passado. Fui operar de
apendicite, e...
Ótimo! O homem agora resolveu mudar o foco do assunto, e a pior coisa
do mundo é ser chupado olhando... pra ele!
Eu certamente vou me tornar um homem traumatizado, mas o problema
é se eu fechar meus olhos. Que sinuca de bico!
— ...aí fui parar no hospital.
— Uhum — falei, com os olhos entreabertos tentando absorver o que a
boca de Luiza fazia em meu pau. Sem sucesso. — Você fez o certo, eu... ah,
meu Senhor! — falei, respirando fundo, segurando uma parte da cabeça de
Luiza, tentando conter essa língua gostosa.
— Victor Hugo, estou realmente preocupado!
Eu não sabia no que prestava atenção, se nas suas ordens ou em sentir a
boca de Luiza engolindo meu pau com tamanha propriedade, o problema é
que ela se viu no direito de agilizar as coisas ao pensar que o homem iria
embora, e meu amigo...
Não consigo nem dizer o que suas mãos juntamente com a sua boca
fizeram nos últimos segundos. Eu simplesmente não aguentei...
— Oh, meu deus!
Gozei, e não foi pouco.
Quase me descuidei e voltei meu corpo para trás, e se isso acontecesse
meu chefe literalmente veria a cabeça do meu pau!
— Vá ao hospital! É uma ordem! — disse ao se levantar, e logo foi em
direção à porta. — Quando estiver bem conversaremos!
Assenti, e logo ele fechou a porta.
Nem preciso dizer o que aconteceu em seguida.
Segurei os cabelos dessa cachorra de um jeito firme, a trazendo para
mais perto. Não sabia ao certo como a observava. Raiva, excitação, paixão,
desejo. Ela fodeu a minha cabeça com esse boquete.
— Luiza, sua...
— Eu tomei tudo, sabia? — me interrompeu, passando os dedos pelo
excesso do gozo disposto em seus lábios. — Tem mais aí para mim? Ainda
estou com sede, sabia?
— Você gosta demais de brincar com fogo!
— Lembra da frase que eu disse: eu vou te chupar como eu quiser, e vou
para quando eu quiser! Eu só cumpri a minha promessa. Então... aproveite
seu dia — falou, em seguida simplesmente levantou-se do chão, arrumou sua
roupa de um jeito sexy pra caralho e... saiu da minha sala como se nada
tivesse acontecido.
O que ela não sabe é que ninguém me provoca assim e sai impune!

Eu tive dez minutos para me recuperar. O problema foi que isso não
aconteceu.
— Ele foi embora? — perguntei à minha secretária.
Muitas pessoas pensam que as secretárias dos CEO’s ficam perto deles,
mas a minha é diferente. Eu a deixo isolada, justamente para não ser
atrapalhado.
— Sim. Por que a...
Desliguei o telefone. Eu só precisava dessa informação.
Saí da minha sala e como um predador fui à procura da minha caça.
Luiza Goulart...
Não se deixa um homem como eu dessa maneira, com tanto tesão em
pleno horário de trabalho. Procurei pouco, já que percebi ela sozinha no
refeitório. Ótima oportunidade.
— Se recuperou? — perguntou ao me notar.
Não fiz cerimônia e segurei seu braço direito.
— Iremos dar uma voltinha.
— Voltinha para onde?!
— Digamos... que iremos ao médico!
— Médico?! — desdenhou.
— É. E não diga uma palavra sequer a partir de agora!
Eu não sei exatamente o que aconteceu, mas eis-me aqui fora da
empresa na companhia do meu chefe.
Estávamos em seu carro, e após entrarmos nele, Victor Hugo não abriu a
boca.
Pelo jeito eu seria sequestrada, o problema é que gostei bastante do meu
sequestrador...
— Dane-se! — falou e virou em uma rua que aparentemente não
conhecia bem.
Cerca de um minuto depois estacionou o carro no final de uma travessia
deserta, e logo observou meus olhos com um desejo fora do normal. Acho
que seria punida pela minha travessura...
— Vai falar agora ou preciso adivinhar? — provoquei, já sabendo onde
isso ia dar.
— O caminho para o motel é longe demais! Vou te comer aqui e agora!
— E tá esperando o que mesmo?!
Eu pensei que o homem avançaria em meu corpo, mas sua mão foi na
direção do meu banco, e logo ele se inclinou para trás abruptamente.
Victor Hugo logo foi retirando sua camisa social, e aquilo foi sexy pra
caralho. Pude vislumbrar a maioria das suas tatuagens, e aquilo só me deixou
mais fogosa.
Por mais que o espaço fosse pequeno, ele retirou toda a roupa, ficando
somente com a boxer preta à vista. Em seguida, chegou pertinho da minha
boca, fazendo menção de me beijar, mas parou no meio do caminho, e na
verdade sua mão foi subindo pela minha coxa, entrou pelo meu vestido, à
procura do meu ponto sensível.
— Eu gosto disso... — sibilei, e ele segurou com força meu queixo.
— E disso? — Me deu um tapinha na cara.
— Muito... eu fui uma menina muito má na empresa, mereço ser punida
de acordo.
— E será! Agora!
Com a ajuda do gostoso, fui subindo o vestido e joguei no banco de trás,
ficando somente com a minha lingerie. Minhas costas que antes estavam
apoiadas no banco inverteram de posição, e agora estava de bruços na cadeira
de passageiro. Meu bumbum agora estava às suas vistas, e quando fiz menção
de falar algo senti um ardor no mesmo, tamanha a força da palmada que
recebi.
— Você foi uma menina má, Luiza! — Tomei outra palmada.
— Muito má! — suspirei, quase gemendo.
— E sabe o que faço com mulheres assim?
— O quê...?
— Eu as puno!
Meu chefe abaixou a minha calcinha, até ela ficar presa nas minhas
coxas, e logo deslizou sua enorme mão pelo meio das minhas nádegas. Então
veio por cima, se ajoelhando atrás de mim e segurou meus cabelos com força,
de modo que meu pescoço foi para trás inesperadamente.
— Você vai ficar quietinha enquanto como a sua boceta e o seu cuzinho,
e cada vez que falar uma palavra, minhas mãos vão te punir desse jeito —
tomei outro belo tapa, e ardeu pra caralho.
— Tudo bem, chefe, só tem um problema? — falei, manhosa.
— Qual?
— Sou uma menina travessa que fala bastante, não consigo ficar
quieta!
Percebi meu chefe se remexendo, e logo sua boxer foi parar junto ao
meu vestido, momentos depois de soslaio o vi colocando a camisinha, e ele
não perdeu tempo e entrou em mim com força. Uma de suas mãos foi em
meu ombro e a outra na parte da frente do meu pescoço.
Então ele quer me enforcar...
Enquanto me penetrava, ele fez força e meus olhos ficaram turvos
devido a sua brutalidade, aquela sensação estava sendo muito boa e
prazerosa. Não é que eu seja masoquista... mas às vezes gosto de sentir dor,
ainda mais quando vem acompanhada de um prazer tão intenso.
Só senti falta de ele pisar na minha cabeça...
E, como se o universo tivesse ao meu favor, ouvi um barulho tremendo e
fui para frente abruptamente. Imaginei que o banco tivesse quebrado com o
peso de nós dois, e acho que acertei, mas ele não parou, e literalmente meteu
o pé na minha nuca enquanto dessa vez penetrava meu rabo.
Nunca pensei que em um espaço tão pequeno pudéssemos conseguir
fazer uma posição dessas, mas graças aos céus o banco quebrou.
— Victor...
Tomei uma belo tapa.
— Mais... — implorei.
Tomei outro com mais força, outro, e outro... quando percebi já estava
gritando pedindo por mais.
Sem avisar, saiu de dentro de mim, e me segurou com força virando meu
corpo. Agora eu tinha contato com os seus olhos, e ele parecia um animal
enjaulado, faminto. Logo ele posicionou seu pau em minha boceta e começou
a meter em mim, cada vez com mais brutalidade.
— Vic...
Não consegui completar seu nome e tomei um tapa gostoso na cara.
— Cala a porra da boca!
— Não! Eu quero mais!
Outro tapa, mais um, e mais...
Enquanto me fodia ele amaciava a carne, e cada vez que sua mão se
chocava contra meu rosto, meus seios ou segurava meu pescoço, mais eu
queria chegar ao limite, e estava perto.
Essa transa está sendo de longe melhor que o ménage, e quando ele
intensifica sua penetração, só me atiça mais um pouco, nem preciso dizer
quando ele tira o pau da minha boceta e coloca em meu rabo, ou o contrário.
Não tem coisa melhor...
— Eu vou gozar, Victor...
— Então goze pra mim, Luiza!
Dito isto ele saiu de mim, se abaixou entre o assoalho do carro e o
banco, e a sua boca foi na direção da minha boceta chupando, mordendo meu
clitóris intensamente. Seus dedos continuaram a me foder, e eu havia chegado
ao meu limite.
Senti meu corpo todo se retesar, e travei, tendo um orgasmo tão
profundo, mas tão intenso que permaneci naquela posição por vários
segundos com os olhos fechados, desfrutando daquela sensação que me levou
aos céus.
— Seu sabor é delicioso! — disse, ainda me chupando, e... meu Deus!
Eu já queria mais...
Victor Hugo logo se posicionou por cima de mim e continuou a me
penetrar, meus olhos estavam moles. O prazer era tamanho...
Após mais alguns minutos ele se apoiou na porta do carro, retirou a
camisinha, e logo tratou de colocar seu pau em minha boca, o engoli até onde
dava, chupando sua glande, pronta para receber o seu presente, que não
demorou, inundando minha boca.
Intenso!
Com certa dificuldade fomos para o banco de trás, e nos olhamos sem
falar nada.
— Isso foi...
— Insano! — completou. — Você está acabando com o meu juízo,
gracinha!
“E quando menos se espera há um reviravolta que muda o que
pensamos sobre alguém...”

Hoje o dia está diferente do que me acostumei. Muita correria e pouco


progresso, e agora me vejo arrependido de adiar tantos assuntos.
E para piorar, percebi que Amadeu havia acabado de chegar na porta da
minha sala. Nunca é uma boa notícia quando o diretor geral da empresa faz
isso, principalmente ele sendo a pessoa imediatamente abaixo de mim em
relação a hierarquia.
— Tem um minuto?
— Sim, entre e sente-se, por favor.
— Não será necessário — falou, e logo notei que realmente o assunto é
sério, principalmente ao analisar melhor as feições do homem.
— O que houve? — parei meus afazeres.
— A diretoria marcou uma reunião para amanhã às 15h.
O conselho da GCR é composto por 10 diretores, e Amadeu é o pica,
por assim dizer.
— Qual a pauta?
— Um funcionário específico. Depois de analisar vários documentos,
vimos que essa pessoa está devendo bastante, e essa reunião é restritamente
para falar disso. Precisamos pensar no coletivo, e nos reunirmos se faz
necessário.
Não preciso ser muito esperto para saber que ele está falando de mim, já
que sou expert em não cumprir prazos e deixar tudo para última hora, mas
infelizmente para ele bater de frente logo comigo não é algo... legal, por
assim dizer.
— Se tiver alguma dúvida, uma parte da pauta está aqui. — Colocou um
pequeno dossiê em minha mesa. — Espero que leia até amanhã, e entenda o
porquê convocamos todo o conselho.
— Tudo bem — falei, sabendo que tal ameaça não surtiria efeito.
Eles estão mexendo com a pessoa errada!
— E queremos que a Luiza vá com você.
Me alarmei.
Isso sim poderia acarretar algum problema, já que ela não é muito fã de
como lido com o trabalho. Dessa vez Luiza poderia atrapalhar um pouco.
— Certo. E, por qual motivo ela tem que ir?
— Simples: porque ela é a funcionária de quem estou falando!
Dei duas pescadas de manhã enquanto trabalhava.
Os quatro copos de café não me ajudaram em nada, e ainda continuo
acabada.
Já prometi a mim mesma que não levaria trabalho para casa, mas
infelizmente em alguns pontos sou perfeccionista demais, e odeio atrasar algo
quando sei que posso cumprir prazos.
— Até que horas ficou trabalhando ontem? — Estela perguntou, já
sabendo o motivo do meu cansaço.
Ela sabe muito bem que periodicamente faço turno extra em casa e
trabalho nos fins de semana.
— 23h.
— Imaginei.
Victor Hugo por incrível que pareça não está atrasando assuntos
importantes que peço a ele, e nesse mês isso está me ajudando bastante.
Percebi que ontem ele estava muito estranho, e no dia anterior acabei
indo em sua sala somente uma vez. Agora fui informada por uma das
funcionárias que ele havia solicitado minha presença.
Não perdi tempo e logo me coloquei a disposição dele. É estranho falar
assim, ainda mais depois de certa aventura...
Preciso focar no trabalho. Aquela simples escapadinha poderia ter
custado o meu trabalho. E o dele.
— Oi. Precisa de alguma coisa?
— Sim. Feche a porta.
Assim o fiz.
— É urgente? Tenho que terminar um relatório até às 19h, e acho que
vou ter que me desdobrar para conseguir.
— Sim, é urgente. Entregue amanhã.
— Mas...
— Luiza — me interrompeu. — Participaremos de uma reunião hoje às
15h com a diretoria.
Tá aí algo que era e não era uma surpresa ao mesmo tempo.
Quando trabalhava com Natanael nos reuníamos com o pessoal do
conselho por pelo menos duas oportunidades no mês, e com Victor Hugo essa
é a primeira vez que isso acontecia.
Mas eu já estava acostumada, e sei as considerações deles quando algo
assim acontece.
— Certo. E qual a pauta?
Victor Hugo suspirou de forma pesada, e logo depois passou uma das
mãos pelos seus longos cabelos, me deixando um pouco mais tensa que o
normal.
— A pauta infelizmente é você!
— Como assim a pauta sou eu?! — perguntei, não querendo que ele
respondesse o que pensei de cara.
— Acho que entende — falou. — Eles não estão satisfeitos com alguns
assuntos, e... querem resolver a situação.
Querem resolver a situação... me demitindo!
Não pode ser. Eu praticamente vivo para essa empresa.
— Eu... dou o meu melhor, me desdobro, chego cedo... Por que isso
agora? Eu... faço tudo ao meu alcance — falei, andando de um lado para
outro, desorientada.
— Luiza! Você pode se acalmar, por favor?
— Não, é claro que não posso!
— Mas precisa! — retrucou.
Meu chefe estava com o semblante sério, muito sério, e isso era raro de
se ver. Até mesmo as palavras que ele direcionou a mim não são do padrão
Victor Hugo de falar. Essa á primeira vez que ele se parece com Daniel
Falcão.
— Se eles querem sua presença, é porque você terá direito de resposta,
ou defesa, como preferir.
— Mas qual o motivo disso? O que está incomodando eles?
Victor Hugo ficou calado, e isso só abalou mais ainda meu psicológico.
Não saber o que posso ter errado é mil vezes pior que ter essa informação.
— Ainda não posso falar, Luiza.
— Eu não acredito nisso. O tanto que me desdobrei aqui na empresa, e
pelo jeito estão querendo me... demitir — falei, e não esperei que as suas
próximas palavras fossem me machucar tanto.
— Sim. Infelizmente, você corre um grande risco de ser demitida.

Já em meu setor coloquei meus cotovelos apoiados na mesa e logo em


seguida minhas duas mãos na cabeça, desolada.
Sou uma pessoa que tem a ansiedade atacada em alguns momentos, e
essa reunião pelo visto será um divisor de águas na empresa.
O que eu fiz de errado, meu Deus?!
Depois do que Amadeu me falou ontem, li seu relatório inúmeras vezes,
para assim entender melhor o que estava se passando.
Fiquei na GCR até às 22h por causa disso, já que fiz algo que era
realmente necessário. Hoje precisei chegar mais cedo também, visto que a
reunião era no período da tarde.
Notei bem o rosto de Luiza ao receber tal notícia, e vi o quanto ela está
preocupada. Geralmente não me engano com as pessoas quando convivo com
elas, mas em relação à Luiza posso ter me equivocado sobre o que a GCR
Turismo representa para ela. Não imaginei que ela fizesse tanto pela empresa,
e nem mesmo que subiu tão rápido de cargo na mesma.
Enfim...
— Podemos começar? — Amadeu perguntou e logo olhei para o meu
lado direito, onde Luiza se encontrava. Ela estava tentando a todo custo
permanecer indiferente nessa situação, mas isso vai ser bastante complicado
depois do que se seguir.
— Sim — respondemos juntos.
Dito isto, Amadeu colocou alguns documentos na frente de Luiza, que
julguei serem os mesmos que ele havia apresentado a mim no dia anterior.
— Pode abrir — falou, e assim ela o fez.
Não demorou sequer trinta segundos para que eu percebesse as
bochechas dela ficarem vermelhas.
— Espera... — falou, voltando-se ao conselho. — As roupas que uso
aqui são um dos assuntos em pauta?
— Sim, a maneira que se veste e...
— O que isso influencia na forma que eu trabalho? — falou mais alto ao
interrompê-lo e logo fechei meus olhos.
— Isso atrapalha bastante, os homens...
— E o que eu tenho a ver com isso? O corpo é meu! Que tipo de piada
de mau gosto é essa? Já ouviu falar em liberdade de...
— Luiza, estamos querendo dizer...
— Os dois! Quietos! — aumentei o tom da voz, analisando todos a
minha volta. — Eu vou ser bem claro aqui: vocês, eu e Luiza temos muito
trabalho hoje, e ficar desviando o foco do que é importante não vai ajudar em
nada, então quero que essa reunião dure o menor tempo possível, e para isso
eu vou ditar o que será feito, quando vai ser feito, quem vai falar e outras
coisas. De acordo?
Percebi todos balançando a cabeça concordando, mas Luiza parecia estar
alheia a isso tudo, já que quanto mais lia os documentos, mais ficava triste.
— É isso que vai acontecer: vocês do conselho irão falar primeiro, em
seguida Luiza irá se defender do que bem entender, e por último será a minha
vez. Eu vou decidir o que vai acontecer, e quando eu estiver falando,
independentemente da minha decisão, não quero interrupções. Fui claro?
Novamente todos assentiram.
— Ótimo!
— Eu falarei pelo conselho — Amadeu se prontificou.
— Então comece.
— Eu acho que o poder de estar nesse cargo subiu demais na cabeça de
Luiza. Poucas pessoas conseguiram subir na GCR tão rápido, e claramente
ela não está dando conta de fazer tudo. O RH mesmo diz que a maioria das
coisas que eles pedem não são entregues no dia ou estão faltando documentos
importantes.
— Eu me desdobro para fazer tudo! Até mesmo levo serviço...
— Luiza! — repreendi.— Depois você fala.
Ela não gostou nada de ouvir isso, mas cessou a voz. Tínhamos
combinado de cada pessoa falar no seu momento, e isso seria crucial para a
minha decisão.
— Colocamos vários tópicos no documento que entreguei. Vejamos...
— Ele analisou o papel. — Estamos falando das roupas, das risadas altas, o
tempo de almoço, documentos importantes que não são entregues,
documentos enviados da maneira errada, falta de comprometimento de
pessoas do setor dela, demissões injustas que ela efetuou, e vários outros
assuntos.
Percebi que Luiza havia ficado bastante chateada ao ouvir essas
palavras, e não falou nada.
— Como podem colocar esse tipo de coisa? — falou tão baixinho que só
eu ouvi sua frase. — Que mundo é esse que sou julgada pelas minhas roupas
e pela maneira que eu sorrio? — complementou um pouco mais alto e passei
a mão pelo meu rosto voltando minha atenção a Amadeu.
— Luiza, você terá o seu momento. — Voltei-me para Amadeu. — Tem
mais alguma coisa para falar?
— Sim.
Durante trinta minutos ele aprofundou os tais tópicos sobre Luiza.
Ouvi atentamente cada palavra, e fiz algumas anotações no outro dossiê
que estava em minhas mãos.
— Vou fazer duas perguntas aqui para vocês e quero a resposta agora:
quantos de vocês querem que Luiza deixe o cargo?
Unânime!
Todas as mãos se levantaram, e respirei mais fundo.
— Quantos de vocês querem que Luiza seja demitida?
Nesse momento pude ver traços de hesitação na face deles, mas
exatamente a metade levantou a mão. 5 de 10 pessoas.
— Luiza, é a sua vez de falar agora.
Percebi que ela havia suspirado, e por alguns segundos não disse nada,
só ficou olhando para os papéis em sua frente.
Ela não estava com traços de quem iria cair no choro, mas percebi o
quão triste e desanimada ela estava.
— E o que eu posso falar?! — sorriu de forma vexatória. — Eles
tiveram a capacidade de falar das minhas roupas, falar da maneira que sorrio
dentro da empresa. Acho que para todos vocês é um crime se divertir, tentar
deixar um dia exaustivo mais calmo, só que pelo visto a errada sou eu —
disse os encarando. — Sim, eu sou uma pessoa falha, como cada um de vocês
aqui, cometo erros, pago por eles, e na maior parte do tempo discuto comigo
mesma tentando melhorar. Não sou um robô defeituoso como querem
transparecer aqui nessa sala de reuniões. Mas se querem falar um pouco sobre
cada tópico eu vou dizer, mas certamente irei ignorar a parte da roupa e das
risadas, porque isso é uma palhaçada!
— Pode continuar — pontuei.
— Sim, eu em alguns momentos demoro mais em meu almoço, mas isso
acontece porque sou tão perfeccionista que tento de todas as formas finalizar
meu serviço para enfim sair da empresa em paz, apesar de tudo, quando
extrapolo meu horário de almoço sempre compenso ficando mais tempo na
GCR, e minha folha de ponto está aí para provar o que falo. Quanto à parte de
documentos importantes não serem entregues é uma falha minha, mas como
meu setor aqui é o que tem menos pessoas, não consigo muitas mãos para me
ajudarem, e os pedidos que faço para mais funcionários está sendo ignorado
continuamente pelo conselho, então..
— Não é bem assim, nós...
— Você aí! — falei. — Qual parte do é pra ficar quieto e deixar cada
pessoa falar no momento para tal que você não entendeu?
Um dos diretores abaixou a cabeça e logo falei: — Prossiga.
— Sobre documentos errados eu nem vou falar nada, porque não o fiz e
tenho certeza disso. Quanto a falta de comprometimento das pessoas do meu
setor que mencionou... nem sei que o dizer. Somos humanos, tem dias que
estamos mal, e isso tudo aliado a enorme quantidade de serviços e poucos
funcionários tende a deixar as pessoas estressadas, e realmente posso ter
culpa nisso, porque eu forço eles ao limite, mas ainda assim sou eu quem faz
de tudo para tudo estar nos conformes. E sim, eu demiti pessoas e faria
novamente, quem sabe se estão trabalhando de acordo sou eu, e não vocês.
Eu convivo com eles, trabalhamos lado a lado, então nada melhor do que a
chefe deles para fazer isso. Acho que é isso. Pensei que essa reunião iria me
mostrar algo que eu realmente tivesse errado, alguma coisa passível de
demissão, mas os tópicos deles... — sorriu, voltando-se a mim. — Não dá
para entender que estou sendo julgada pelo que escreveram. Sinceramente.
— Algum de vocês quer falar algo?
— Ela está se fazendo de vítima. Claramente — Jeferson disse e logo
um burburinho se instaurou.
— Não perguntei se ela está ou não se fazendo de vítima. Quero saber se
tem mais alguma coisa relevante para falar a respeito do serviço.
— Acho que falamos tudo — Amadeu falou.
— Excelente! Porque agora falo eu...
Levantei-me, e peguei a outra pasta que trouxe comigo.
Nela continha 10 folhas, havia coisas escritas frente e verso. Fiz questão
de entregar pessoa a pessoa. Não dei uma cópia para Luiza, não era
necessário.
O título daqueles documentos era: Luiza Goulart.
— Não vou mentir, li inúmeras vezes os papéis que elaboraram e ficava
incrédulo à medida que relia o documento, e... — Olhei para Luiza, e logo ela
ficou assustada. — Me segurei bastante para não jogar tudo no lixo.
— Mas, Victor Hugo, aquilo...
— Quieto! Me interromper não é uma boa ideia. Vai por mim! —
pontuei e logo voltei minha atenção aos homens. — Leiam e irei explicar
algumas coisas a vocês — complementei e logo em seguida eles começaram.
Pude observar um pouco Luiza e ela realmente não sabia no que havia se
metido, ou o que era esse papel que os executivos liam. Ainda assim, lancei
um breve sorriso a ela, e ela claramente ficou mais calma.
Depois de cinco minutos observei que todos na sala haviam acabado de
ler, então eu finalmente poderia falar um pouco das minhas considerações.
Seria rápido, tenho certeza de que eles vão entender sem ficar enrolando.
— Vou começar falando algo óbvio, onde certamente irão entender de
que lado eu estou: vocês tem sorte de Luiza Goulart estar trabalhando na
GCR! É isso — sentei-me analisando aqueles homens engravatados em
minha frente. — Mas, antes de aprofundar alguns assuntos, vamos para a
sessão curiosidades: vocês sabiam que ela sempre teve o sonho de trabalhar
na GCR? Bom, acho que não, vocês perderam tanto tempo analisando os
vestidos que ela usa na empresa que esqueceram o que realmente importa.
Mas, veja bem, falar dos sonhos dela não é o foco aqui, e sim o seu trabalho,
então vamos por partes.
Alguns dos diretores nem me encaravam mais, só que eles iriam ouvir, e
por mais que eu achasse que todos ficariam sentados até eu terminar, acabei
trancando a porta.
Só pra garantir!
— Luiza Goulart está na GCR Turismo há menos de um ano e meio e já
atingiu o cargo de Gerência Geral. Alguém já fez isso aqui dentro? Subir tão
rápido?
— Acho que teve uma pessoa...
— Não! — o interrompi. — A reposta é não, porque pesquisei tudo que
precisava ontem quando essa merda de dossiê veio parar na porra da minha
mesa. Desde a fundação da GCR, em 1995, ninguém teve uma ascensão tão
rápida a não ser... Luiza Goulart, essa que está observando o quanto o
conselho é... melhor não falar o que pensei agora — respirei fundo. — Deixa
eu te perguntar uma coisinha, Amadeu...
— O que? — grunhiu com impaciência.
— Quantas horas você trabalha por dia?
— 10, às vezes 12.
— É uma carga horária muito alta, confesso. Agora outra curiosidade,
sabe quantas horas Luiza trabalhou ano passado? Entre 360 e 400! Por mês!
— repeti. — 12 horas por dia de segunda a segunda chega nessas 360 horas.
Mas ai vocês me perguntam: por que está contando o sábado e o domingo?
Simples: porque ela na maior parte do tempo leva serviço para casa! — bati a
mão na mesa com força. — Então, eu fiz alguns cálculos e cheguei a esse
número.
Olhei para Luiza, e não sei nem destacar como seu rosto estava
configurado. Acho que é uma das primeiras vezes que a vejo sem reação.
— Cresceu rápido na empresa... leva o trabalho a sério... faz algo errado
que é levar serviço para casa, confesso, mas ama a empresa em que trabalha,
só que infelizmente tem um grave defeito — Parei, voltando minha atenção a
ela, e balançando a cabeça em negação. — Luiza Goulart vem com as roupas
que deseja e sorri alto demais, então... não posso tolerar isso, já que anula
tudo o que falei. Como vou manter uma pessoa aqui que não tem medo de
escolher os seus próprios vestidos e ri alto quando alguém conta alguma
piada para ela em um dia estressante?! É inadmissível, não?! — debochei e
logo percebi ela sorrindo, ficando até mesmo emocionada.
— Para mim já chega! — Amadeu se levantou, e logo tentou sair da
sala, mas... a porta estava devidamente trancada.
— Eu não acabei — bradei. — Como eu disse, vocês vão ouvir tudo, e
querendo ou não vocês respondem a mim! — novamente espalmei as mãos
na mesa, irado. — Vocês podem ter todos os motivos para me querer longe
da empresa, porque sei que não sou um exemplo de pessoa, mas ela —
apontei na direção de Luiza. — Ela é a única que bateu de frente comigo até
hoje, que jogou na minha cara o quanto enrolo com prazos, que fez o meu
trabalho quando procrastinei. Em que mundo estão vivendo se acham que
vou demitir uma das melhores funcionárias da empresa? Que merda na
cabeça vocês tem?!
— Você não quer isso porque fica de beijos e amassos com ela na
empresa. Essa é a verdade — Amadeu falou.
Caminhei lentamente para mais perto dele, mas não estava irritado,
muito pelo contrário. Não tenho vergonha disso.
— Vou deixar bem claro para você: ela chegou aqui antes de mim! E
não é porque eu beijo ou deixo de beijar alguém que ela está em um cargo tão
alto! Se Luiza está nessa posição da empresa é exclusivamente por causa de
sua competência e não de privilégios que dei a ela! Ouviu bem?! E da
próxima vez que pedirem outra reunião sem sentido como essa, pode ter
certeza de que a pauta não será a demissão dela, e sim de boa parte de vocês.
— Luigi nem ao menos confia em você — Amadeu retrucou.
— Mas me contratou porque sabe que eu sou o melhor! E se quiser me
demitir, vai quebrar um contrato que me deixará rico! Estou falando de
milhões! Então você acha que qual pessoa está em melhor situação aqui?! Se
eu quiser faço o meu serviço e o de vocês, e muito melhor, aliás!
Ninguém falou nada.
Se eu me excedi não vem ao caso.
O recado foi dado, para eles, é melhor mexer comigo do que com Luiza
Goulart!
“Nós só precisamos de um pequeno voto de confiança...”

Após todos os diretores saírem da sala de reuniões, fiquei admirando


meu incrível chefe.
A ficha ainda não caiu sobre tudo que ouvi aqui dentro, seja pelo lado
bom ou pelo ruim. Uma mulher ser julgada pelo modo como se veste e não
pela capacidade só me prova que o nosso mundo está indo de mal a pior, mas
ainda bem que no meio de tudo isso tem ele.
A maneira com que fui defendida por Victor Hugo me fez admirá-lo de
tal forma que ainda me encontro sem palavras.
— E então, Luiza, ainda está com saudades das reuniões com o
conselho?
Eu nem me dei o trabalho de responder, somente fui para mais perto e o
abracei.
Nenhuma pessoa havia me defendido dessa maneira perante ninguém.
Sempre fui acostumada a aguentar tudo sozinha, me defendendo como posso,
mas agora ele vai e faz isso...
Sempre duvidei da capacidade de Victor Hugo em gerir a GCR, e falei
isso na cara dele em várias oportunidades, seja pelos seus atrasos ou por sua
falta de vontade e comprometimento, mas apesar de tudo, ele reconhecer o
meu trabalho dessa maneira só me provou que estou no caminho certo.
— Eu só falei a verdade — abriu um lindo sorriso. — Outra coisa, não
pense que quero sexo em retribuição.
— Não quer? — pisquei, atiçando um pouco mais o homem.
— Luiza... não me provoque.
— Em breve você terá uma surpresa, e iremos saber se vai gostar ou
não.
— Não sendo um boquete com meu chefe dentro da empresa acho que
posso aguentar.
Sorri.
— Será bem melhor, mas vai demorar um pouquinho. Preciso achar uma
coisinha antes...
No mês que se seguiu trabalhei bastante.
Luigi resolveu pegar muito no meu pé, e ao que parece no de Victor
Hugo também. Eles se reuniram pelo menos duas vezes sozinhos e sei que
tudo isso foi por causa daquele debate que houve no conselho.
Em muitos dias temi perder o emprego devido a tensão que se instaurou
na GCR, mas quando isso acontecia eu era tranquilizada por Victor Hugo.
Estudei o balanço patrimonial da empresa nesse período e vi um grande
crescimento na mesma, então fiquei um pouco mais aliviada, mas pelo jeito
os diretores agora estão fazendo pressão para Victor Hugo sair, e foi ele
mesmo quem me contou.
— Foi tudo bem na sua última conversa com Luigi?
— Luiza... não se preocupe comigo, sei me virar. Não fizemos nada
errado, trabalhamos o dia todo, então tudo está nos conformes. Agora se você
ficar pelada em minha sala não irei me controlar, e iremos os dois para a rua.
Sorri.
— Isso não vai acontecer. Prometo tentar me controlar.
— Tentar? Bela ajuda!
— É. Acho que sabe de todo o apetite sexual que tenho, então...
Se tem algo que gosto mais do que trabalhar aqui, é provocar Victor
Hugo Avelar. Ele não consegue se controlar, e essa é uma das poucas
oportunidades em que o vejo de certa forma vulnerável.
— Vamos mudar de assunto — respirou fundo. — Você claramente me
faz perder o foco, e além de tudo sabe que sexo é o meu ponto fraco.
— Não vou te atiçar — falei. — Então, me diga: como estão as aulas
com o amor da minha vida? — perguntei.
— Renata está me surpreendendo. Ela é aplicada, pergunta tudo que tem
dúvidas, se esforça quando não sabe de algo, enfim, agora sei por que Daniel
Falcão a considera uma discípula. A baixinha é talentosa.
— Acho que merece um prêmio por ajudar meu bibelô.
— E ela não conseguiu ficar sem me provocar... — grunhiu. — Mas já
que começou, quero saber o presente que mereço.
— Quer mesmo saber? — fui para mais perto na intenção de beijá-lo,
mas desviei de sua boca e sussurrei perto do seu ouvido: — Em breve você
irá descobrir...
Geralmente não gosto de ser provocado, mas Luiza o faz com maestria,
e gosto quando o seu rostinho se transforma, me mostrando o quão sexy e
sedutora ela pode ser.
Não sei o nome exato disso que temos. Somos duas pessoas inflamáveis,
e quando estamos perto um do outro... acho que sabem do que estou falando.
Não temos controle, e estar perto de uma pessoa tão parecida comigo é
no mínimo... inusitado, já que nunca me dei bem com alguém tão igual,
principalmente mulheres.
Acho que o meu problema no fim das contas foi não me permitir. Ser
um homem fechado é bom, só que traz más consequências em alguns
segmentos da nossa vida, ainda mais eu, alguém libertino.
Geralmente fico divagando assim quando estou assistindo uma série.
Não consigo focar em uma coisa somente, e já estou pensando no
amanhã, no que vou comer, se o dia estará chovendo, entre outros assuntos.
Me considero o falso preguiçoso, só que infelizmente a cada dia que
passa estou me cansando mais do ambiente empresarial. É tudo a mesma
coisa, os desafios que tive quando era mais jovem não me motivam mais. O
problema é que não sei fazer mais nada, e o tédio me assusta.
Sou um homem complexo demais para ser entendido!
Ouvi um pequeno barulho em meu celular e logo peguei o mesmo. Notei
que se tratava de uma mensagem em meu WhatsApp, e quando olhei o
remetente vi que não o conhecia, e que ele não possuía foto.

“Acho que vai gostar...”

Além dessa mensagem, logo abaixo dela percebi que um vídeo havia
sido carregado, e quando o abri...
5 minutos!
Esse foi o tempo que fiquei vendo... aquilo!
Não fode!
Agora definitivamente preciso fazer algo. Pensar racionalmente eu faço
quando estou trabalhando, já no meu lazer eu prefiro agir por instinto.
Tédio, tédio e mais tédio!
Não é possível que sou mais feliz quando levo trabalho para casa.
Preciso ocupar a minha mente com outras coisas. Antes eu me ocupava
com sexo, só que nessa época eu tinha vários contatinhos, mas o que
acontece quando nós, mulheres, só pensamos em um homem?!
Acontece merda!
Não reclamo, isso é bom, mas de certa forma problemático. Basicamente
vê-lo só na empresa é bastante complicado, e como não quero perder o meu
emprego, me jogar em seus braços toda hora está fora de cogitação, a menos
que seja seguro...
Enfim, melhor parar de fantasias, prefiro mais a ação.
Terminei o meu jantar e estava assistindo uma palestra online. Querendo
ou não isso me distrai, só que ficou inevitável não ouvir um barulho
estridente na porta da minha casa. A pessoa simplesmente ignorou a
campainha e resolveu esmurrar a minha porta. Fui ligeiramente desconfiada
em direção a mesma, e quando observei o olho mágico...
Os deuses do sexo estão ao meu favor!
Abri a porta, e pude avistá-lo.
Victor Hugo Avelar!
Meu chefe estava com traços de irritação em sua face, e não entendi bem
do que se tratava. Ou entendia perfeitamente...
— Eu vi o seu vídeo pornô no meio da rua!
Fechei meus olhos após sua primeira frase ser exatamente essa. Ele não
foi nada sutil.
— Aquilo não foi um vídeo pornô. Me filmaram, não tenho culpa —
falei com tranquilidade.
— Não estou nem aí! — Entrou em minha casa e bateu a porta, me
encarando. — Aquele homem deixou muito a desejar, e faltou algo para
aquela cena ficar nota 10.
Veio para mais perto, colando seu corpo no meu.
— O quê?
— Eu no lugar dele!
— Ah, é? Por que não me mostra o que faria se estivesse no lugar dele?
— E acha que vim aqui fazer o quê?! Ver filme?!
Pensei em responder, mas ele foi mais rápido, colou sua boca na minha
em um beijo faminto, onde dentes se chocaram, suas mãos apertando minha
cintura me segurando no lugar, sem esperar me pegou no colo, levando-me
ao quarto e me jogando na cama.
Quanta brutalidade! Adorei...
Eu mal tive tempo de respirar, ele já estava sobre o meu corpo, me
beijando, mordendo, chupando, enquanto sua mão grande já se infiltrava por
baixo do meu pijama, apertando meu seio quase ao ponto da dor, gemi em
sua boca, tentando me esfregar cada vez mais nele.
— Quer ir para a rua? — aticei o homem.
— Não precisamos. Quem eu quero está aqui na minha frente e não
precisamos de plateia! — falou, mordendo meus lábios, grudando nossos
corpos.
— Ah, eu gosto de plateia... — continuei a atiçá-lo.
— Vendo essa linda mulher em minha frente eu fico muito possessivo.
Quero você só para mim, e se eu notar alguém te desejando... não vou me
controlar.
Gostei bastante dessas palavras.
— Então me possua.
Rapidamente meu pijama foi jogado para longe, e tratei de retirar sua
calça. Eu estava ávida para ter esse homem dentro de mim, e agora sou eu
quem precisa de urgência.
— Primeiro vou te torturar um pouco — disse, descendo lentamente
com a cabeça para o meu sexo, e quando sua língua roçou em minha boceta...
Foi instantâneo me desmanchar sob seu corpo.
Ele consegue me desestabilizar até mesmo aqui. Sua mão direita passeou
pela minha barriga, e agora estava roçando meus seios, circulando meus
mamilos. Em seguida, subiu um pouco mais e tocou meus lábios. Ao sentir
seu toque, abocanhei um de seus dedos, o chupando com intensidade,
imaginando seu pau no lugar, e aquilo acendeu mais ainda meu fogo.
— Enfia esse pau gostoso em mim...
— Não! Sou eu quem mando aqui e farei o que eu desejar. Só
aproveite... — falou, e logo em seguida introduziu dois dedos em minha
boceta lentamente.
Os movimentos eram suaves, e aquilo estava me matando.
— Golpe baixo... — sibilei.
— É...? — perguntou, e logo senti seus lábios em meu sexo, me
deixando um pouco mais mole, ansiando por mais.
— Coloca esse pau na minha boca, não me faça implorar mais! —
sussurrei, manhosa. — Me deixe te chupar...
Victor Hugo parou o que fazia, me olhando com desejo. Sem falar nada,
ajeitou nossas posições, e agora suas costas estavam na cama, eu fiquei por
cima dele admirando aquele pau gostoso bem na minha frente.
— Você quer me chupar e eu quero foder sua boceta com a boca. Fácil
de resolver.
E como se não pudesse ficar mais quente, o 69 que começamos a fazer
me levou de fato ao paraíso.
Chupar e ser chupada traz uma sensação tão boa para o nosso corpo que
posso dizer que é tão boa quanto o sexo em si. Sentir aquele toque íntimo me
faz esquecer de tudo, e eu só quero dar e retribuir o prazer... da forma mais
lasciva que conseguir.
O oral durou um bom tempo, e minhas pernas já estava tremendo,
tínhamos chegado ao limite, parando por várias vezes sem permitir que
nenhum dos dois gozasse. Ali entre aquelas 4 paredes não tivemos pudor
algum, e é por isso que nos damos tão bem.
— Vou te mostrar como merece ser tratada.
Pensei que agora eu iria tomar umas belas palmadas ou algo similar, mas
ele simplesmente me deitou novamente na cama, veio por cima de mim e me
beijou por vários minutos. E se enganam vocês se acham que foi um beijo
qualquer, pois eu me senti... única!
O gesto começou lento, ele estudava cada parte da minha boca, depois
beijou o meu pescoço, indo para a minha orelha, e depois voltando ao
caminho inicial. Suas mãos passeavam pela minha barriga, costelas, quadril,
me acariciando, e não havia pressa ali, havia algo a mais, algo que não sei
exatamente do que se trata.
Paixão, talvez?
Não sei ao certo, mas isso despertou algo em mim, e não queria
desgrudar do seu corpo, eu queria Victor Hugo, eu só precisava dele.
— Preciso te foder, mas o problema é que não quero desgrudar minha
boca da sua, deixar de te olhar, tocar sua pele. Estou em um dilema...
Foi fofo ouvir isso, e até mesmo eu que gosto de algumas coisas mais
sacanas me senti uma mulher especial quando ouvi isso de sua boca. Acho
que aos poucos estou sendo transformada.
— Só me beije, o resto será consequência — clamei.
Meu chefe retirou um preservativo da calça e o envolveu em seu pau, e
logo tomou a minha boca. Minhas pernas já sabiam o que fazer, e quando ele
entrou em mim...
Meu Deus!
Cravei minhas unhas em suas costas, arfando pedindo por mais.
Não desgrudamos as nossas bocas nos minutos que se seguiram, e
aquela dança sensual que fazíamos com os nossos corpos colados me
revelava mais do que poderia imaginar. Me sentia completa ao lado dele, e
nunca pensei que um homem somente pudesse preencher meu coração.
Eu, de fato, havia me apaixonado pelo meu chefe...
“E a dupla de atores ataca novamente...”

Esparramada em minha cama eu só pensava em uma coisa: chocolate!


Sei que me julgaram pensando que sexo seria a minha prioridade, mas
não dessa vez.
E, como em um passe de mágica, meu chocolate me ligou. Me
desculpem o trocadilho, foi horrível e estou com vergonha.
— Não estou disponível — brinquei após atendê-lo.
— Como assim fui dispensado e nem sequer abri a boca? — perguntou.
— Realmente gosto quando não fala nada e faz, tenho que confessar.
— Bem contraditória você... primeiro me dispensa e agora me elogia.
Você tá me deixando mal acostumado, gracinha.
Sorri.
— Do que precisa?
— Que você assista a um filme comigo. Em minha casa.
— Pensei que fosse mais inteligente para propor sexo.
— Deixa de bobeira, amiga! É somente um filme — debochou.
— Sério? É bom que seja então, porque estou naqueles dias.
Por alguns segundos não ouvi nada ao telefone, e pensei ter acertado o
motivo do seu convite.
— É agora que eu desligo o telefone e falo que a pequena festinha foi
cancelada?
— Sim.
Praticamente rimos ao mesmo tempo depois da minha confirmação.
— É uma pena, porque realmente não estou te convidando para
fodermos, apesar de que me agrada muito a ideia.
Novamente me peguei rindo ao telefone. O que raios esse homem está
fazendo comigo...?
— Se você insiste... — sibilei.
— Na verdade nem insisti, mas entendo que está querendo me ver.
Então não precisa fingir, somos adultos.
— Ah, eu quero te ver? — dei ênfase na palavra. — Acho que o convite
partiu de outra pessoa.
— Você sabe que leio pensamentos. Não tente me desmentir.
Novamente um sorriso se destacou em mim e logo confirmei que em
breve estaria em sua casa.
— Não demore. Irei fazer algo especial para nós.
— Especial?
— É... pipoca, suco, essas coisas.
Fechei meus olhos, imaginando qualquer outra palavra.
— Até breve, estrupício.
— Até, gracinha.

— Realmente foi um milagre você ter se comportado o filme inteiro.


— Não quero só te beijar ou transar quando estamos juntos — analisou
meu rosto de um jeito sério. Até demais.
— Verdade?
Seu rosto mudou e aquela expressão sacana que me acostumei a ver
logo irradiou em sua cara.
— Não. Só de te olhar quero te possuir.
— Você me magoou. Tenho sentimentos, sabe? — simulei estar
chateada ao abaixar minha cabeça.
— Pelo que sei é tão pervertida quanto eu, até mais. Não vou cair nos
seus jogos, gracinha.
— Somos as piores pessoas um para o outro — suspirei.
— Sim, e por isso nos divertimos tanto.
Pela primeira vez Victor Hugo, Renata e eu saímos juntos para um local
que meu bibelô sugeriu. Essa foi uma de suas condições na aposta que meu
próprio chefe fez, e agora estou vendo ela mais à vontade com a gente.
Conheço Renata há poucos anos, mas sei que ela não tem muitos
amigos. Os laços dela são mais com mulheres, e Victor Hugo percebeu isso
também, já que a todo momento queria colocá-la na conversa.
— Preciso confessar: Renata é a aluna mais aplicada e inteligente de
todas que ensinei!
— Sério? E quantas pessoas ensinou até hoje?
— Uma. Contando com ela.
Não aguentei e comecei a rir, Renata só olhou para ele e apontou o dedo
do meio, sorrindo também.
— Sou uma excelente aluna, em absolutamente tudo que eu tiver
comprometimento.
— Sei muito bem disso...
Depois que conversei por um tempo com meu chefe sobre assuntos
triviais, logo percebi que o rosto de Renata havia mudado, e não entendi bem
o porquê. Como o estrupício também é um homem observador, logo seus
olhos encontraram os meus, revelando que sua percepção estava tão boa
quanto a minha.
Depois que dei uma rápida analisada ao redor, logo vi um rostinho
conhecido...
Eu sabia!
— Renatinha... — Victor Hugo disse calmamente, e logo me preocupei.
— Sou tão observador quanto uma mulher e notei que quando viu certa
pessoa sua postura até mudou, sabe?
— Deixa disso e não comece, Luiza 2! — virou o rosto.
— Vai me falar do que se trata ou preciso descobrir?
— E vai descobrir como? — perguntou com deboche.
— Olha... — Se levantou. — Indo até o homem. Que tal a ideia?
Renata ficou vermelha do nada, e em seguida bufou.
— Diego trabalha comigo na Argo’s. Era meu professor no começo, me
ensinou muitas coisas sobre tecnologia, e...
— Ela gosta dele! — interferi. — O bibelô vai negar até a morte, mas é
fato.
— Luiza!
— Não, Renata. Vamos colocar as cartas na mesa. Não precisa fingir,
todos gostamos de alguém.
— E esse tal Diego te decepcionou de alguma forma?
— Pessoal... — nos analisou, e não decifrei o que ela estava pensando.
— Dá para desviar o foco de mim? Podem até falar das posições exóticas que
já fizeram, eu não me importo.
— Eu acho que ele a decepcionou sim! — ele falou, olhando bem fundo
nos olhos dela, ignorando seu comentário.
— Só que ela foi decepcionada de uma maneira diferente. Ele não dar
bola pra Renata e possivelmente ter uma namorada ou algo do tipo deixou ela
bem chateada. — Victor Hugo complementou.
Diante da incapacidade de resposta da minha querida amiga, meu chefe
deduziu que estava certo.
— Victor Hugo e Luiza, não me façam odiar um pouco mais vocês dois!
— Mas sabe o que esse cara não sabe e eu sei? — questionou — Ele é
um idiota se não notar uma mulher tão linda e inteligente que nem você,
então precisamos saber se os dois estão na mesma sintonia, ou se estão
brincando de gato e rato.
Olhei para Renata, que me olhou de volta não entendendo nada. Logo
depois, Victor Hugo deu um beijo em minha boca, e um sorrisinho
debochado surgiu no seu rosto.
— Luiza, você é linda, eu realmente gosto muito de você, mas...
— Mas...? — arqueei as sobrancelhas e cruzei os braços.
— É bom esquecer algumas coisinhas que irão acontecer agora. —
Voltou-se para Renata que balançava freneticamente a cabeça em negação.
— Se você beijar ela, eu vou te castrar! — fui logo avisando.
— Não farei isso. Mas pode ser algo similar.
— Eu é que não vou entrar nas suas de novo! Neeeeem morta! —
Renata esbravejou.
— Ah, vai sim. E depois vai me agradecer — disse, logo se
encaminhando em sua direção e pegando sua mão direita. — Vai me falar
que não quer pregar uma peça nele?
Renata observou meu chefe e logo se voltou para mim.
Ela é uma ótima atriz, e provavelmente essa oferta é irrecusável.
— Tudo bem. Mas só porque gosto de enganar certas pessoas.
— Ótimo. Só... siga o fluxo e deixe o resto comigo.
A baixinha se levantou e logo pegou na mão de Victor Hugo, meu
homem, que fique claro. Apesar desse gesto, eu fiquei curiosa com o que viria
em seguida, só que tomei um baita susto quando os dois chegaram perto de
Diego, e meu querido chefe começou... a cantar olhando para Renata.

I found a love for me / Eu encontrei um amor para mim


Darling, just dive right in / Querida, mergulhe de cabeça
And follow my lead / E me siga
Well, I found a girl, beautiful and sweet / Bem, eu encontrei uma
garota, linda e doce
Oh, i never knew you were / Eu nunca pensei que você era
The someone waiting for me / A pessoa que me esperava
‘Cause we were just kids / Pois nós éramos apenas crianças
When we fell in love / Quando nos apaixonamos
Not knowing what it was / Sem saber o que aquilo significava
I will not give you up this time / Eu não desistirei de você desta vez
But Darling, just kiss me slow / Mas querida, me beije devagar
Your heart is all I own / Seu coração é tudo o que eu tenho
And in your eyes you’re holding mine / E em seus olhos, você guarda os
meus

Claro que a música Perfect, do Ed Sheeran foi para chamar a atenção de


Diego, que ao olhar o bibelô com meu homem...
Meu Deus! Nem preciso dizer a cara que ele ficou. Quando trabalhei na
Argo’s, nunca vi Diego nervoso, mas seus olhos soltavam faíscas e pensei
que ele voaria no pescoço de Victor Hugo, mas ele foi mais sutil e somente se
aproximou dos dois.
Notei que Renata o viu chegando mais perto, mas fingiu que não era
com ela. A sessão cinema havia começado de fato...
— Renata! — falou, e logo ela procurou quem a chamava.
— Ah, oi, Diego.
Alguns segundos de silêncio preencheram o ambiente, e percebi Diego
apertando seu copo com mais força, mas permaneceu parado analisando o
casalzinho fake.
— Vejo que está acompanhada e parece bem feliz.
— Bom, eu... — balbuciou, vacilante.
Força, garota! Mostre pra ele quem manda e não bote tudo a perder!
— Quer saber! Sim, estou! — olhou para Victor Hugo e o abraçou
fechando os olhos. — Eu precisava de um homem de verdade, e nunca
encontrei alguém que me faz tão feliz quanto ele. Eu acho que é isso, o amor
veio e... inundou meu coração.
— Quando te encontrei perdi o norte, meu bem. Foi... inevitável me
apaixonar.
Meu Deus! Os dois são atores de primeira!
— Que estranho. Nunca vi você se abrindo para ninguém!
— Deve ser porque faço isso só com quem eu realmente sinto uma
conexão.
Nossa... essa doeu!
— Entendi, eu...
— Vamos voltar para a mesa, meu amor? — Victor interrompeu Diego.
— Lá estava bem melhor.
— Claro, docinho... — Tocou seu nariz e voltaram até a mesa de mãos
dadas.
Eles vão para o inferno...!
O olhar de desaprovação na face de Diego só me provava o inevitável:
ele tem muito ciúme dela.
Depois que os dois voltaram, Diego permaneceu em pé por breves
segundos, mas depois voltou para a sua mesa. Não só isso, minutos depois ele
simplesmente foi embora, e notei a incredulidade no rosto dos seus amigos,
não sabendo o motivo da sua atitude.
— O meu veredicto é que vocês se gostam, mas são muito orgulhosos
para falarem um para o outro, ou algo aconteceu e se distanciaram.
Renata não falou nada, mas sorriu. Ela parecia ter gostado desse
pequeno plano e deve ter observado bem as mesmas coisas que eu, já que é
uma mulher esperta.
— Vou deixar no ar a sua frase, mas agora que tal falarmos mal dos
outros e beber mais um pouco? — Levantou seu copo de cerveja.
— É assim que se fala — fiz coro e começamos a rir.
“O que pode acontecer quando duas pessoas inflamáveis estão
juntas?!”

A nossa noite estava bastante divertida, e até mesmo Renata que não era
muito de se abrir falava pelos cotovelos. Victor Hugo ao que parece
conseguiu, enfim, conquistá-la.
— Bom, eu atrapalhei demais os pombinhos, então vou me retirar agora
— Renata falou do nada, nos pegando desprevenidos.
— Você não atrapalha, só às vezes, quer dizer... sempre — Victor Hugo
caçoou.
— Eu sei, e faço de propósito. Acostume-se. A Luiza é minha.
— Posso lidar com isso.
— Aproveitem a noite de vocês, e obrigada por aquilo. — Voltou-se a
Victor Hugo. — Saiba que agora te considero meu amigo, mais do que Luiza,
aliás.
— Mas o que significa isso?! — perguntei, incrédula.
— Significa que seu tempo acabou, meu bem. — Passou a mão pelos
cabelos fazendo charme e simplesmente foi embora.
— Desaforada!
Eu amo o meu bibelô!
Depois que Renata foi embora, começamos a conversar sobre o pequeno
espetáculo que tive o prazer de observar de perto.
— É bom que não tenha se aproveitado do meu bebê, tenho mais ciúmes
dela do que de você.
— Só tirei uma casquinha! — deu uma piscadela e logo tomou um belo
tapa.
Essa coisa, ou seja lá o que for, está indo rápido demais. Não consigo
odiar esse homem ou achar algum defeito nele. Claro, a preguiça no trabalho
ainda está lá, mas eu não sei, estou muito confusa sobre o que estou sentindo
no meu peito quando estamos juntos. Nunca dei abertura a homem algum, e
com ele é... natural.
— Luiza, vamos lá: eles se gostam. Mas conhecendo Renata... sei lá, é
difícil. Nunca conheci alguém tão imprevisível, mas eles trabalham na mesma
empresa, quem sabe houve uma fugidinha e tal.
— Você não a conhece! Renata leva o trabalho a sério, até demais.
— Nós dois também! — falou e caímos na gargalhada de forma
instantânea.
Apesar desse momento de descontração, meu querido chefe não tirou os
olhos dos meus por um segundo sequer. Não sei o que ele está pensando, mas
quando observo a maneira com que ele me deseja... é complicado pensar em
outra coisa.
— Por que está me olhando assim? — rompi o silêncio.
— Só estou pensando que está cada dia mais difícil conquistar as
mulheres no geral.
— Não sendo um babaca na maior parte do tempo ajudaria muito, sabe?
— provoquei.
— Você já está pedindo demais
— Entendo que pode ser bem complicado para você — caçoei.
— Nem tanto. Eu te conquistei mesmo sendo um babaca, e olha como
estamos? Pelo visto alguém se apaixonou bem rápido.
— Fale por você!
A conversa estava fluindo normalmente, e a todo momento nos
divertíamos com alguns assuntos aleatórios, eu só não contava com um
pequeno probleminha de óculos chegando em nossa direção.
— Oi. — Uma mão tocou o ombro de Victor Hugo e logo me alarmei.
— Olá...
— Milena — pontuou. — Eu... estava reparando em você, e já tem um
tempinho.
Isso é um déjà vu por acaso?
Ou, como diz minha amiga, isso é um Djavan?
Victor Hugo me olhou de soslaio, se divertindo com a situação, mas se
estou tendo um déjà vu mesmo, eu sei bem o que fazer...
— ...então eu tomei coragem em vir até você. Sei que não iria reparar
em mim.
— Não é bem assim, Milena, é que...
— ...chegou na pessoa errada, gracinha — Luiza falou e logo sorri.
Ela daria o troco, com toda a certeza do mundo.
— Como assim?
— Eu estava conversando com ele sobre você. Reparei nos seus olhos
daqui onde estava, e eles me chamaram muita atenção.
Percebi a menina ficando um pouco mais vermelha, constrangida.
— Não deixe ela sem graça, é mentira! Ela só está descontando o que fiz
há algum tempo — falei, tentando provocar minha amiga.
— Então, ela não é...
— Na realidade sou bi, amor. Você pode muito bem acreditar nele —
disse e se levantou. — Mas, se quiser, posso tirar a prova. Não tem problema.
Tocou seus cabelos e... porra! Ela é muito boa em fingir as coisas.
E sabe o pior de tudo? Percebi traços na menina que ela gostou, mas
acabou disfarçando.
— Eu... entendo. Eu... desculpa, não vou atrapalhar vocês — falou, mas
sorriu para Luiza, que a observou se distanciando.
— Ah, ela gostou de mim. E eu gostei dela, sabe?
Suspirei.
— A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.
— Eu sou possessiva. Não tenho culpa.
— E se ela duvidasse?
— Ah, meu bem... acho que ultimamente você está me conhecendo bem
demais. Duvidar de mim nunca é uma opção, e não me importaria de uma
festinha a três.
Mas que safada...
Levantei as mãos, rendido. Provocar ou intimidar Luiza nunca foi e
nunca será algo que vou considerar... ou irei?
— É uma pena que não posso ficar na sua casa hoje, preciso acordar
bem mais cedo amanhã e resolver alguns problemas urgentes na empresa —
Victor Hugo falou ao estacionar seu carro em frente à minha residência.
— Eu nem me lembrei de te convidar. Estranho, né? — provoquei.
— Tenho passe livre, gracinha. E tem outra coisa: você estragou uma
potencial festinha minha.
— Simples de resolver: volte lá e tenha a sua festinha. Não me importo,
somos livres — debochei.
— Você vem no pacote? Se sim... posso reconsiderar.
— Não, você gostou dela, então sabe o que fazer.
Victor Hugo me olhou nos olhos e deu um breve sorriso.
— Então quer dizer que eu vivi para ver que Luiza Goulart está com
ciúmes de mim...!
— Ciúmes uma ova! — retruquei, desviando meu olhar. Mas a resposta
é sim, eu realmente estava com esse sentimento ruim.
— Vem cá!
Sem chances de desviar, ele segurou meu rosto com firmeza enquanto
seus olhos praticamente me comiam viva.
— É você a mulher que eu quero! — exclamou, sério. — Não preciso
que mais de uma mulher me satisfaça. Você é o pacote completo, meu pacote
completo! Nunca senti isso por mulher alguma, e vou até o fim para saber
quais as surpresas que Luiza Goulart tem para mim.
É... como diz aquele sábio poeta: fodeu!
— Não me deixe mais apaixonada. Só... me beija e cala essa boca!
Não precisei pedir duas vezes e logo nossas bocas colaram uma na outra,
e ao sentir sua língua dentro de mim praticamente me joguei em seu colo.
Deus... eu não posso ser tão safada assim.
— Luiza... não faça isso hoje. Não foda mais ainda o meu psicológico.
— Eu sei como é... — mordi sua orelha sussurrando em seu ouvido. —
Toda vez que me vê seu desejo é me comer, e quando te beijo... eu só quero
te dar! Que dilema...
— Porra, mulher!
Victor Hugo segurou meu rosto com firmeza e logo me beijou com uma
voracidade tremenda. Eu já tinha aberto seu zíper e estava quase retirando sua
calça, mas quando ele percebeu isso...
— Não! Preciso me controlar, se fizermos, com a fome que estou do seu
corpo, vou te foder a noite inteira.
— E...? — perguntei, não sabendo qual seria o problema nisso.
— E eu preciso ser profissional. Pelo menos amanhã.
— Que pena... — chupei o seu pescoço, e logo ele fechou os olhos,
apertando minha bunda, juntando nossos corpos, me fazendo sentir seu pau
duro embaixo de mim.
— Não fode comigo assim... — sibilou.
— Eu quero é que você me foda! — sussurrei me esfregando sobre ele.
— Caralho, gracinha.
Novamente ele chupou meus lábios e me agarrei com firmeza em seu
corpo, passando a mão pelos seus cabelos, arranhando seu pescoço. Suas
duas mãos agora passeavam pelo meu corpo, e essa pegada...
Que homem...
É bom quando achamos uma pessoa que se parece com a gente no
quesito sexo. Podemos fazer o que quisermos juntos. Sem pudor algum.
— Chega! Eu vou embora, sou humano no fim das contas.
— Eu deixo com uma condição... — sibilei — Qual o assunto
importante que fará o poderoso CEO me dispensar e acordar tão cedo?
— Reunião com todo o conselho juntamente com Luigi. Mas não
precisa se preocupar, a pauta é outra e não você.
— Não me preocupei, sei que certa pessoa me defenderia se eles me
atacassem. — Fiz movimentos circulares em sua camisa e mordi meus lábios.
— Mas tudo bem, apesar de estar carente demais hoje, dessa vez vou deixar
passar... só dessa vez, que fique claro!
Saí do seu colo e fui para o meu banco.
Percebi meu homem me olhando e suspirando fundo. Acho que posso
notar traços de arrependimento nesse rostinho lindo.
— Vou pedir com educação: vaza da porra do meu carro, sua
pervertida! — disse, aos risos, e logo abri a porta, sorrindo também.
— Espero que descanse bem e resolva todos os problemas na empresa
de manhã — falei de um jeito arrastado, provocando o homem descabelado
que havia ficado do carro.
— Preste bem atenção... — pontuou com o dedo em riste. — Amanhã eu
vou acabar com você, iremos transar igual coelhos! Sua provocação não vai
passar impune, e vou arrancar seu coro!
— Hmm, dormirei ansiosa... — pisquei. — E acho bom eu ser muito
bem recompensada, porque nunca fui dispensada — provoquei indo em
direção à minha casa e rebolando a minha bunda, a parte mais gostosa do
meu corpo.
De fato, esse homem está mexendo demais comigo...
“E quando tudo parece estar correndo bem...”

Tive um sono bastante reconfortante, pelo menos até ser acordada pelo
meu celular gritando.
Na verdade não foi bem assim. Já o estou ignorando há um tempo, para
enfim criar coragem e checar o visor do meu celular, finalmente vendo quem
estava me ligando constantemente, e...
42 ligações perdidas! Meu Deus!
Sentei em minha cama, já desperta. Nunca é bom me deparar com esse
tanto de chamada, geralmente é notícia ruim.
Afastei esses pensamentos e fui checar as ligações, e absolutamente
TODAS foram feitas da GCR. Na verdade, não todas, mas os números
avulsos eram de funcionários de lá.
Respirei fundo e logo disquei o número geral da empresa. No terceiro
toque fui atendida.
— Alô, é a Luiza Goulart, a gerente geral. O que tá acontecendo?
— Luiza, é a Francine. Pelo amor de Deus, venha para cá agora!
Fui literalmente recebida com essa frase, e se já estava em pânico, o
medo cresceu ainda mais em meu peito.
— O que aconteceu?
— Victor Hugo...
Ah, não...
— O que ele fez? — perguntei desesperada.
A linha ficou muda e novamente meu coração bateu descompassado.
— Francine, me fala logo, vou ter um treco aqui!
— Ela está quebrando toda a sala dele!
— Como é?!
— Ele simplesmente surtou... do nada. Quebrou a sala toda, e quase
agrediu dois funcionários que tentaram conter ele. Luigi quer chamar a
polícia, mas convenci ele que você poderia ajudar.
— Vou para aí agora!
Peguei o primeiro vestido que vi em meu guarda-roupas, e saí de casa
apressada. Eu não sabia o que pensar, por isso acelerei o carro e resolvi focar
em chegar o mais rápido possível na empresa.
Por que ele quebraria sua própria sala?
Automaticamente me lembrei da reunião, e provavelmente essa era a
fonte dos problemas, ainda assim ele não me deu tantos detalhes ontem à
noite.
Depois que cheguei na GCR, estacionei meu carro de qualquer jeito, e
logo fui entrando apressada. Francine já me esperava, bastante tensa.
— O que sabe? — perguntei, meio que correndo em direção à sala.
— Não sabemos de nada. Ele teve uma reunião, e voltou normal para
sua sala, parecia até estar feliz, me deu bom dia, só que dez minutos depois...
começou a quebradeira!
Essa história não bate. Se a reunião foi bem, o que raios aconteceu?
— Vou lá descobrir!
Passei na minha sala e joguei minha bolsa de qualquer jeito em cima da
mesa, em seguida fui para o corredor que dava entrada em sua sala, e a
imensidão de curiosos à espreita me deixou puta da vida. Segui me
desvencilhando de todos, empurrando alguns com a cara fechada. É ridículo
ter uma plateia para ver a desgraça dos outros.
Quando estava me aproximando da sala dele, notei Luigi, que estava
impaciente, e ao me ver, falou furioso: — Luiza, controle esse homem, ele
está...
Simplesmente o ignorei, e quando entrei no seu escritório...
Meu Deus!
Eu nem sei descrever o estado que a sala dele estava. Victor Hugo
arrebentou com tudo. Absolutamente tudo.
O computador estava no chão com o monitor quebrado, o teclado estava
partido ao meio, os quadros quebrados ou rasgados, a máquina de café
destruída no chão, papéis amassados e rasgados... até a mesa estava com uma
enorme rachadura.
— Victor Hugo...
— Saia da minha sala, caralho! — gritou, mas não me olhou nos olhos.
Eu nem mesmo percebi se ele havia reconhecido minha voz de imediato.
Por um segundo fiquei parada, e logo ele pegou o seu grampeador e
jogou em direção à janela, quebrando o vidro e fazendo um barulho enorme.
Eu estava inerte, sem reação, precisava criar forças, ficar plantada no
chão não adiantaria em nada.
Observei aquele tanto de pessoas olhando para nós, e tomei uma
decisão: não só fechei a porta, mas também abaixei a pequena cortina da sua
sala. Em seguida, com cuidado, cheguei mais perto dele, mas quando o
toquei...
Victor Hugo segurou o meu pescoço, me levantando, e minhas costas
foram de encontro a parede. Seus olhos...
Eu nunca os vi assim. O medo que fiquei ao observar seu rosto me
paralisou.
— Victor Hugo... — falei baixinho, já que suas mãos em torno do meu
pescoço me sufocava.
Acho que ele voltou a realidade quando observou meu rosto para valer, e
logo me soltou. Ao me recompor tossi bastante, devido a pressão que ele
havia feito, mas quando me recompus, fui para mais perto, observando o
sofrimento estampado em seu rosto. Ele havia chorado bastante.
— Por favor, me diga o que está acontecendo... — supliquei.
— Sai daqui, Luiza! — falou baixo.
— Não!
— Caralho, saia daqui! Não quero te machucar! — bradou, me olhando
com desprezo.
— Você já está fazendo isso — sibilei. — Isso que está fazendo não está
só machucando você, está me machucando.
— Por favor... — disse baixinho, e uma lágrima rebelde rolou em seu
rosto.
— Eu não vou sair daqui, a não ser que seja com você — segurei seu
rosto, e aquilo parece ter o desestabilizado um pouco, assim as lágrimas
caíram copiosamente, em seguida ele me abraçou.
Ficamos assim por um longo tempo, e o deixei extravasar aquele
sentimento. Por mais que eu não soubesse o motivo do seu acesso de raiva,
me permiti ser uma pessoa em que ele pudesse confiar.
— Vitória... — falou baixinho, se desvencilhando e automaticamente
tive um estalo em minha memória...
Não...
— Ela morreu, inferno! — gritou, virando suas costas e logo começou a
socar a parede repetidas vezes, quando percebi, sangue jorrava de suas mãos.
Passados alguns segundos ele simplesmente se ajoelhou, inerte.
Com cuidado fui para mais perto, e ao observar seu rosto... vi que ele
estava em choque, seus olhos não se moviam.
Não sei o que me deu, mas com muito custo consegui fazer com quem
ele levantasse. Meu chefe olhava para o nada, e quando abri sua porta,
novamente vi Luigi em nossa frente.
— Victor Hugo... você é uma vergonha! A partir de amanhã você está
na rua!
— Se pensa assim, provavelmente também estarei! — disse, irada. —
Como você pode ser capaz de demitir uma pessoa sem ao menos entender o
que está acontecendo?
— Luiza, mas o erro foi dele... — falou baixinho não acreditando em
minhas palavras, mas nem sequer permaneci no local.
Com muita dificuldade o levei ao banheiro enquanto ele se apoiava em
mim, em seguida lavei suas mãos, que estavam cortadas, bastante
machucadas.
Em momento algum ele desviou seus olhos, pois eles estavam sempre
em um ponto fixo, e aquilo estava me preocupando.
De relance, percebi que Estela havia entrado no banheiro, e tocou meus
ombros.
— Amiga... ele está em choque. Se quiser eu ajudo a levá-lo embora.
— Tudo bem. Obrigada.
Depois de um tempo finalmente consegui levá-lo para o meu carro com
a ajuda de Estela.
Eu não sabia bem o que fazer e acabei tomando uma atitude impensada,
e em vez de levá-lo ao hospital, fui em direção à minha casa, só que no meio
do caminho percebi a burrada que havia feito.
Minha bolsa!
Inferno. A esqueci na empresa.
Observei Victor Hugo e ele continuava olhando para o nada, mesmo
assim tateei seus bolsos a procura da chave de sua casa, mas não a encontrei.
Respirei fundo.
Eu precisava me acalmar, já que estava tremendo. Nunca passei por uma
situação assim.
— Se acalme... — sibilei para mim mesma, tentando me concentrar.
Foi aí que algo me ocorreu na cabeça. Renata poderia me ajudar...

Torci bastante para minha amiga estar em casa, já que ela havia tirado
pequenas férias.
Ela agora está morando sozinha. Saiu da casa dos pais há poucos meses.
Depois de tocar a campainha continuamente, ela abriu a porta com a
cara fechada.
— Mas que raios é... isso? — disse alto, mas sua voz diminuiu ao ver o
estado que Victor Hugo se encontrava.
— Me ajude, rápido!
Com muito custo conseguimos levar Victor Hugo para dentro da casa, e
seus olhos se voltaram aos meus de forma inquisitória.
— Vamos para o quarto de hóspedes — falou.
Agora, Victor Hugo estava na cama. Estava começando a ficar
preocupada à medida que o tempo passava.
— Vem cá! — Renata me puxou pelo braço e voltamos para a sala. —
Ele está em choque!
— O que eu faço, Renata? — perguntei, e uma lágrima caiu dos meus
olhos.
— Se acalme, amiga. Deixe-o descansando um pouco. Algumas pessoas
da minha família já ficaram em choque, daqui a pouco ele vai voltar ao
normal, se isso não acontecer vamos levar ele ao médico. Só o deixe
descansar um pouco — reforçou.
— Tudo bem — respirei fundo e limpei meus olhos.
— Agora, pelo amor de Deus, me diga o que houve.
Tive que contar a história toda para Renata. Desde o começo e tudo que
descobri.
— Isso é... meio inacreditável. Eu acreditaria se fosse qualquer pessoa,
mas Victor Hugo fazendo o que me falou é... sei lá, não tenho palavras.
Ficamos por cerca de duas horas conversando, e o assunto na maior
parte do tempo girou em torno do meu chefe.
De vez em quando ia no quarto, e em todas essas oportunidades notei
que seus olhos estavam fechados. Ele havia adormecido e fiquei aliviada.
— Ele ainda tá dormindo?
— Acho que sim.
— Isso é bom, e...
Renata parou de falar quando uma figura masculina saiu do quarto de
hóspedes e passou pela gente, indo até a geladeira. Em seguida, pegou uma
das garrafas que estava na mesa e colocou o líquido no primeiro copo que viu
pela frente.
— Acho que ele está melhor. Até abriu minha geladeira sem pedir
permissão.
— Renata! — a repreendi.
— Tá bom... foi mal, eu hein! — Levantou as mãos, simulando
rendição.
Depois de beber água, ele lavou o copo e sentou-se em um dos sofás da
sala.
Ele simplesmente ficou lá, olhando para baixo com as mãos juntas. Seus
olhos estavam vermelhos e eu podia ver o sofrimento estampado em seu
rosto.
Acho que ele ficou parado lá por no mínimo uns cinco minutos, e não
falou uma palavra sequer. Tanto eu quanto Renata não dissemos nada
também, somente o observamos preocupadas.
De maneira robótica, ele levantou sua cabeça e respirou fundo, mas sua
atenção não se voltou para mim, e sim para a Renata.
Victor Hugo sustentou o olhar, e não entendi aquele gesto.
— O quanto você sabe? — perguntou, friamente.
Renata me olhou de soslaio, mas logo disse: — Acho que agora sei de
tudo.
Novamente meu chefe abaixou a cabeça, mirando o chão. E aquele
silêncio estarrecedor tomou conta da sala.
Eu não sabia o que poderia estar passando pela cabeça dele, e me afligia
bastante não entendê-lo. A dor que observava em sua face me machucava, e
nunca pensei sentir tamanha angústia por algo.
— Remissão! — falou, mas nem sequer fez contato visual.
Observei Renata de canto de olho, mas ela parece ter entendido tanto
quanto eu. Nada.
Ele levantou a sua cabeça e novamente a encarou.
— Esse é o motivo da minha tatuagem, a pergunta que não te respondi
naquele dia — falou, passando uma das mãos em seu rosto, e em seguida nos
seus cabelos.
Não preciso nem dizer o quanto fiquei surpresa com a sua frase, e
Renata parece ter sentido o mesmo que eu.
— Essa data em seu corpo simboliza o dia que se curou do câncer
quando era criança — Renata falou e logo ele assentiu.
— Sim. Eu fui um menino muito doente. Enfrentei a leucemia e fiquei
inúmeras vezes à beira da morte. Tatuei em meu corpo o dia que finalmente
me livrei do câncer, e desde os meus 21 anos faço trabalho voluntário nos
hospitais nas cidades em que trabalho.
Coloquei uma das mãos na boca, estarrecida. Quando o observei, seus
olhos estavam mirados em mim, ele abriu um breve sorriso, mas logo
desapareceu.
— Eu me apeguei a uma garota chamada Laura em um dos meus
primeiros trabalhos voluntários. Ela era uma menina linda, encantadora, tinha
12 anos de idade, mas era tão cheia de vida... tinha uma força interna de dar
inveja, sempre estava sorrindo, nunca se deixando abater por nada, mesmo
quando as medicações fodiam com seu organismo... — olhou para a janela.
— No começo ela foi um dos motivos para eu persistir nesse trabalho
voluntário, pois eu ainda não sabia lidar com a perda, e queria desistir. No
fim, sua força de vontade rompeu todas as barreiras do meu coração e certo
dia ela me fez prometer que eu ajudaria o máximo de crianças que pudesse,
que faria de tudo para elas sorrirem cada vez mais e... eu dei minha palavra a
ela. Mas... — parou, e uma lágrima rebelde caiu. — ...ela faleceu, e isso me
destruiu. Pensei em desistir de tudo, não achei que conseguiria suportar outra
perda se eu me apegasse tanto, só que a promessa que fiz a ela sempre esteve
presente em minha cabeça. Eu não podia desistir. Eu devia isso a ela, e estou
indo até o fim. Tive muitas perdas no processo, a cada criança que morria, eu
me culpava, e foi aí que um vício entrou e ficou em minha vida: a bebida
alcoólica.
Olhei para Renata e vi que ela tentava parecer forte, mas estava se
segurando para não chorar, já eu... nem conseguia mais disfarçar, estava em
prantos.
— O que vou falar é errado, mas todas as vezes que perco alguém, eu...
simplesmente bebo até cair, tento de alguma forma sair da realidade, me
entorpecer — abaixou a cabeça e percebi traços de vergonha em seu rosto. —
Eu bebo para esquecer todas as minhas perdas, só que no dia seguinte... não
adianta em nada. Elas não voltam, e a dor continua aqui e eu me afundo cada
vez mais — falou batendo em seu peito, bem em cima do coração.
Victor Hugo cessou a fala, olhando para o chão, pensativo.
— Quando recebi a ligação da Marlene, a mãe da Vitória, fiquei de certa
forma feliz. A gente se fala bastante, e ela me ligar era algo normal. Mas eu
percebi ao telefone que a sua voz estava diferente, que havia receio ali —
respirou fundo, e fechou seus olhos, fungando. — Quando perguntei o que
estava acontecendo, ela me disse que Vitória tinha sofrido uma parada
cardíaca, e que estava entre a vida e a morte, mas quando fui falar alguma
coisa, ouvi outra voz ao telefone, e Marlene... começou a gritar e chorar, foi
aí que entendi tudo. Ela não resistiu e eu também não. Me descontrolei,
comecei a gritar e quebrar tudo à minha volta...
Victor Hugo parou de falar e somente balançava sua cabeça em negação.
— Luiza, eu não sou uma má pessoa... — novamente levantou a cabeça,
e seus olhos se encheram de lágrimas, que escorreram pelo seu rosto, vi ali
uma fragilidade nunca vista antes, notei o quanto ele estava perdido em dores
e lembranças. — Eu faço o que posso, mas quando me apego, eu crio
esperanças... — cessou a fala, emocionado. — Eu não suporto quando as
perco, e quando me apego... eu desabo, perco o meu norte e me entrego, não
querendo lembrar, querendo que essa dor suma.
Me levantei e fui para mais perto dele, o abraçando.
— Vitória era muito parecida com Laura, e... relembrar tudo me fez...
surtar, e...
— Se acalme.
Victor Hugo começou a chorar copiosamente, e fiz o possível para
acalmá-lo, o abraçando forte com os olhos fechados. De repente senti uma
mão perto da minha, e notei Renata do outro lado fazendo o mesmo.
— Eu... só devia fazer o que meu coração manda e não me apegar,
mas... no fim das contas sou humano.
Passei uma das mãos em seus cabelos, e olhei para Renata, que estava
com a cabeça levemente abaixada, absorvendo suas palavras.
Não havia nada que eu pudesse fazer para confortar a sua dor, não agora.
Deixei Victor Hugo desabafar, e só me permiti ficar abraçada a ele, tentando
de algum jeito apoiá-lo.
Agora mais do que nunca posso dizer que eu cuidaria dele, e estaria
presente para tudo que ele precisasse...
“Bons sentimentos surgem quando menos esperamos...”

O velório de Vitória foi repleto de emoção, e fiz questão de ir junto com


meu chefe. Ficamos no local desde o momento que abriu, até a menina ser
enterrada.
Victor Hugo mal falou alguma coisa. A única pessoa com quem de fato
ele havia conversado foi Marlene, e em algumas oportunidades eles choraram
juntos.
Não pensei que o elo deles fosse tão forte, mas a menina realmente
mexia com o seu coração.
Depois de uma despedida emocionada, fomos embora do cemitério, mas
ele não parecia estar nada bem. Nem mesmo quando ele estava em choque na
casa da Renata observei seu rosto tão para baixo.
— Eu vou ficar bem, Luiza. Só preciso ocupar a minha cabeça — disse,
meio que adivinhando meus pensamentos.
— Tem certeza?
— Sim. Eu sei das consequências do trabalho voluntário que faço, o que
eu preciso é aceitar que esse é o fluxo da vida — me olhou nos olhos. — As
pessoas morrem, e não tenho como alterar isso.
— Eu estou orgulhosa de você — falei, segurando sua mão direita.
— Não faço nada demais, Luiza. Eu só...
— Faz tudo! — o interrompi. — Você faz elas esquecerem os
problemas que estão passando, as diverte, dá a elas... esperança!
Victor Hugo sorriu, abaixando a cabeça, levemente emocionado.
— Tanto eu como você sabemos do ambiente de um hospital. Várias
pessoas doentes, médicos passando para lá e para cá, agulhas indo nos braços
das crianças... então, um dos poucos momentos de felicidade que elas têm são
com a própria família, os amigos e os voluntários — apertei sua mão e logo
seus olhos se voltaram a mim. — Então, seu gesto é lindo, e tenho orgulho do
que faz.
Automaticamente fui de encontro ao seu corpo, o abraçando.
Fiquei aninhada a ele por um bom tempo, sentindo seu coração
acelerado, e pedindo a Deus que tanto Marlene quanto ele pudessem ser
confortados de alguma forma.
Posso dizer agora com todas as letras que não devemos julgar uma
pessoa pela primeira impressão, porque fazendo isso podemos ter o risco de
não enxergar o quão bom é o coração de alguém...
Na semana que se seguiu houve muitos burburinhos e algumas decisões.
Eu pensei que Victor Hugo deixaria a GCR, já que Luigi havia dito que
ele não permaneceria, mas quando fui trabalhar na segunda-feira eles se
reuniram, e pelo menos por enquanto meu atual chefe não seria mandado
embora. Não sei qual foi a conversa dos dois, e Victor Hugo não me falou
nada também.
Por falar nele, após o velório de Vitória não nos vimos mais.
Em algumas oportunidades liguei para ele, mandei mensagens, mas não
fui atendida. Apesar de saber que ele precisa ficar um tempo sozinho, estou
realmente preocupada com os efeitos que essa perda podem causar nele,
principalmente entendendo o motivo que o levou a ser voluntário em todas as
cidades que passou.
Estou aqui divagando e criando coragem para ir em sua sala. Percebo em
seu rosto o quanto ele ainda está abalado com tudo, e não sei o que faço para
ajudá-lo. Enfim, melhor parar de pensar e agir...
Dei duas batidinhas em sua porta, e logo ele acenou com a cabeça para
eu entrar. Seu escritório agora estava com tudo novo devido ao... acho que
sabem o que aconteceu na semana passada.
— Algum problema, Luiza?
— Não. Na verdade... — pausei a fala, desviando meus olhos. É difícil
para mim, entrar em determinados assuntos. — Eu queria saber como está.
— Estou atolado de serviço — disse, não me olhando.
— Não me referi a trabalho, e sim ao que está sentindo depois de tudo.
Victor Hugo parou seus afazeres, fazendo contato visual comigo.
Percebi em seus olhos certa dor, mas ao que parece ele quer disfarçar. No
fundo está tentando se fazer de forte.
— Sobre isso acho que sabe também — respirou fundo, olhando na
direção da janela.
— Eu quero muito te ajudar — falei me aproximando.
— Mas você não pode — retrucou, e essas palavras me deixaram triste.
— Ninguém pode me ajudar. A morte é o fim e as pessoas não voltam.
— Eu só...
— Luiza... — me interrompeu. — Eu sempre resolvi tudo em minha
vida. Absolutamente tudo. Tenho saídas para reerguer empresas, fazer
amizades quando me convém, pensar em ideias inovadoras, me adaptar ao
meio que convivo, mas... eu não tenho saída quando me envolvo
emocionalmente com alguém e perco essa pessoa. É um caminho sem volta,
por isso evito me aproximar.
Não respondi nada.
Nesse ponto cada um sabe de si, como a perda afeta os nossos
sentimentos é algo único, porém com Victor Hugo é mais intenso do que
imaginei, e saber de alguns dos seus segredos me provam isso.
— Não quero te ver assim.
— Assim como?
— Triste, abatido, reservado. Não sei como te ajudar, mas somos...
amigos no fim das contas.
Victor Hugo sorriu, mas não me olhou nos olhos.
— Nossa amizade começou da maneira errada. Eu queria basicamente te
comer. Só que agora... — parou, fechando os olhos. — Eu não sei de mais
nada.
— Seja claro.
— Eu gosto de você, Luiza. Muito. Não sei nem ao menos te explicar o
quanto, porque nunca senti isso.
Suas palavras me surpreenderam bastante. Não pensei que ele falaria
abertamente sobre sentimentos.
— Eu também. Nunca senti isso por ninguém. Acho que estamos quites.
Um longo silêncio se fez presente na sala, em seguida ele se levantou,
vindo para mais perto.
Seu gesto foi diferente das outras vezes que o fez, e mesmo agora estou
experimentando algo... diferente.
— Eu estou em um grande dilema — disse.
— Me diga.
— Não sei o que faço em relação a você.
— O que desejar de mim eu vou me esforçar para te dar. No bom
sentido — pisquei e pela primeira vez o notei sorrindo.
— Você realmente quer saber o que preciso agora?
— Sim.
Ele chegou um pouco mais perto, e logo abaixou a cabeça, exprimindo o
que pensei inicialmente: tristeza.
— Eu preciso de um abraço, Luiza. Nada mais que isso.
Não foi necessário mais nenhuma palavra, o aninhei em meus braços, e
assim ficamos.
Eu podia sentir o quanto seu coração estava acelerado.
Victor Hugo me abraçava com força, e pelo menos nesse momento me
permiti tentar de alguma forma sentir o quanto a dor da perda o machucava.
Nunca fui uma mulher de me apegar às pessoas, e até mesmo a minha
família é distante de mim. Não por brigas, ou qualquer outro motivo similar,
eu só segui um caminho diferente. Não sei se isso me tornou um pouco mais
fria nessa questão de me envolver com as pessoas, mas eu simplesmente
segui o fluxo da vida, e não me arrependo de nada que fiz.
— Você pode ter cometido um erro, Luiza — falou, depois que nosso
olhar se cruzou.
— Qual erro?
— Me deixar entrar na sua vida — passou o polegar em meus lábios. —
Agora você é uma das pessoas mais importantes para mim, e não quero nem
pensar na hipótese de te perder.
Acariciei seu rosto e logo dei um beijo leve em sua boca, com os olhos
fechados.
— Não pense nisso, você não vai me perder!

Ter aquela pequena conversa com Victor Hugo me acalmou de certa


forma. Ainda estava preocupada com ele, mas é preciso dar tempo ao tempo.
Dificilmente entendemos o que se passa em nosso coração, então se
colocar no lugar de uma pessoa pode ser mais difícil do que imaginamos.
Depois que foquei em meu trabalho, Estela veio até mim e sentou-se ao
meu lado. Ela parecia querer conversar.
— O que houve?
— Eu percebi algumas coisas, e acho que gosta de Victor Hugo.
— Olha...
— Por favor, me deixe terminar — me cortou. — Você é a minha chefe,
mas também é a minha melhor amiga dentro da empresa, e me preocupo
contigo, e sabe bem disso. Depois de tudo que aconteceu com Victor Hugo,
acho que nós duas vimos a maneira que ele voltou. Nosso chefe não está
bem.
— Sim, ele não está — confirmei.
— Então, me diga: ele se tornou algo a mais para você?
— Sim — falei, sem titubear.
Estela logo segurou uma das minhas mãos, e abriu um breve sorriso.
— Então, por favor, tente ser mais presente na vida dele. Mesmo que ele
não queira, se esforce, porque... — parou, escolhendo as palavras. — Ontem
meu marido e eu saímos, e ao voltar o vimos.
— Onde?! — perguntei, pensando em mil lugares.
— Na calçada, com uma garrafa de tequila na mão, e ele estava...
chorando.
Ouvir isso me doeu, a maneira que meu coração bateu descompassado
ao ouvir o que ela me revelou foi instantânea.
Eu não queria pensar nisso, pedi tanto a Deus que ele tentasse combater
essa perda de outra forma, mas ao que parece suas perdas estão sendo demais
para ele suportar.
— Não sei o que dizer, Estela, ou o que fazer — falei, cabisbaixa.
— Ontem eu ia ajudar ele, mas depois que pagamos a conta, ele não
estava mais lá. Acho que tem uma ideia de como ele passou a noite.
Isso me deixou triste.
Todos nós temos vícios e impulsos, e controlá-los é um grande desafio.
Mas agora entendendo um pouco do que se passa na cabeça de Victor Hugo,
fico um pouco mais receosa.
— Eu quero ajudar ele — falei. — Eu vou fazer o possível para que ele
volte a ser o homem que me acostumei a ver aqui na GCR. Ele não é um
homem mau, Estela, só passou por muitos problemas.
— Eu percebi. Ele é do tipo que tenta afastar as pessoas por medo de se
apegar.
— Exatamente, mas ele não fará isso comigo — sorri. — Sou bem chata
quando quero, e se preciso for, vou vencer meu chefe pelo cansaço.
— É assim que se fala!
— Muito obrigada. Foi muito bom ter me falado isso.
— Imagina — disse, e logo se distanciou.
Enquanto almoçava com Beatriz, tentei pensar em outros assuntos não
relacionados a Victor Hugo.
Tentei focar o máximo em minha amiga, perguntando coisas sobre a sua
vida pessoal, mas pelo jeito não adiantou muita coisa, pois quando o nosso
horário de almoço se encaminhou ao fim, ela resolveu falar: — Sei que você
tá preocupada, amiga. O que houve? — perguntou.
— Sim, só estou tentando não pensar muito. Tem a ver com Victor
Hugo, o que ele está passando, enfim... descobri que me apaixonei por ele,
mas não sei o que faço agora.
Fui direta sobre os meus sentimentos, algo que eu guardo para mim na
maioria das oportunidades.
Beatriz sorriu, e até tive um vislumbre do que ela estava pensando.
— Luiza Goulart se apaixonou?! Estou chocada! — debochou.
— Se até você conseguiu essa proeza, tenho meus direitos, né? Respeita
minha história! — rebati sorrindo.
— Justo, amiga. Mas me fala: o que quis dizer com: o que ele está
passando.
Analisei Beatriz, mas não disse nada. Esse assunto é muito pessoal, e
por mais que ela seja minha melhor amiga, não sei se Victor Hugo gostaria
que alguns de seus segredos fossem revelados, já que os esconde há anos,
principalmente sobre a sua remissão.
— Primeiro me diz uma coisa: você falou com Daniel sobre o que vimos
no hospital?
— Não, amiga. O gesto dele parecia ser muito pessoal.
— Sim. Ele está se abrindo comigo, e sei que está com alguns problemas
agora, mas são assuntos pessoais, e não acho que ele gostaria que eu falasse.
— Não tem problema — pousou sua mão sobre a minha. — Eu entendo
e respeito. E eu já passei por algo parecido, acho que sabe.
Automaticamente me lembrei do que ela me disse sobre a história de
Daniel. Ele era um homem fechado, e Beatriz aos poucos foi quebrantando o
coração dele, mostrando que ele podia confiar nela.
Eu sei de toda a história dele agora, e se enganam vocês que foi Beatriz
que me confidenciou tudo, foi o próprio Daniel quem o fez.
É importante desabafarmos com as pessoas próximas, ficamos aliviados
de alguma forma, e vi que isso ajudou bastante. Eu queria que Victor Hugo
fizesse o mesmo, mas com ele eu descubro assuntos aos pedaços, e cada vez
é um choque diferente.
— Agora é a minha vez, mas eu sei que ele vai passar por isso. Estarei lá
para o que meu chefe precisar.
— Só não se esqueça: quero ser a madrinha!
— Para com isso! — soltei um gritinho, sorrindo. — Não tenho planos
de casar. Nunca, aliás!
— Nunca diga nunca!
— Meu chefe e eu nos damos bem, mas temos um jeito peculiar, e
digamos que temos energia sexual. Muita.
— Podem ter essa energia... juntos — deu um sorrisinho e fechei a cara.
— Já acabou?! — Cruzei os braços e ela começou a rir, em seguida fiz
o mesmo.
Estava precisando de alguns sorrisos. Quero ser uma mulher forte e
positiva, mas ainda estou com um aperto em meu peito...
“Um abraço no momento certo resolve mais do que meras palavras...”

Nas duas semanas seguintes, Victor Hugo se distanciou mais um pouco,


e dessa vez não foi somente de mim, e sim de praticamente todo mundo que
trabalha na empresa, inclusive Renata, que estava comigo ao telefone,
falando justamente sobre isso.
— Ele nem me deu a aula que agendou essa semana!
— Renata! — a repreendi.
— Amiga, não estou reclamando. Só tô falando que ele sumiu,
entendeu?
Suspirei, pensando sobre esse sumiço.
— Ele tá ficando cada vez mais distante, eu não sei o que fazer.
Por algum tempo Renata não falou nada, mas em seguida ela me disse
algo que não esperava.
— Eu não gostava dele. Quando me falava a maneira que ele te tratava,
eu ficava muito irritada, mas agora sabendo um pouco mais do seu passado,
parece que entendo a situação que ele está envolvido. As coisas nunca foram
fáceis para ele, além de tudo precisou vencer o câncer muito novo. Posso
parecer uma mulher fria, mas consigo entender as pessoas com quem me
identifico.
— Eu também não ia com a cara dele, amiga. Mas é muito fácil julgar as
pessoas quando não sabemos nada do passado delas ou o que elas estão
passando. Me coloco no lugar dele, porque querendo ou não, em minha vida
não tive tantos problemas como ele. Nem chegam perto.
— Nem eu.
Se acostumar com uma pessoa alegre e debochada durante boa parte do
tempo e ver o quanto ela mudou preocupa. Acho que essa é a defesa dele no
fim das contas, ele seria um homem bastante amargurado se não tentasse se
blindar de alguma forma.
— Luiza, me avise se descobrir alguma coisa.
— Pode deixar, e preciso te falar uma coisa.
— O quê?
— Eu vivi para te ver preocupada com alguém, e é bonitinho, sabe?
— Não enche, Luiza! Preciso desligar, porque eu trabalho, sabe? —
debochou.
— Falsa!
Depois que desliguei, terminei uma parte do serviço que estava
acumulado. Começo e final de mês fico maluca, ainda mais que houve
algumas transições e demissões, e isso atrasou uma parte do cronograma.
— O prazo tá muito curto, Luiza. O que faremos? — Estela perguntou
se referindo à entrega de alguns relatórios importantes que ainda não foram
finalizados.
— Eu sei. Nessa semana tudo se acumulou, e preciso tomar uma decisão
— coloquei as mãos na cabeça, preocupada.
Por mais que Victor Hugo tenha falado que a reunião que tivemos com o
conselho não teve desdobramentos mais sérios, ainda assim estou temendo
pelo meu emprego, e para isso estou trabalhando praticamente todos os dias
em casa.
— Acho que precisa conversar com nosso chefe.
Havia pensado nisso, e essa era a última opção.
Não queria mexer com ele, acho que preciso dar espaço ao homem, só
que querendo ou não estamos na empresa, e somos pagos para trabalhar, e já
que ele é o CEO... acho que sabem onde me meti.
— Eu preciso mesmo fazer isso. Só vou adiantar alguns assuntos, e
antes de ir embora vou falar com ele.
Depois que tive essa breve conversa com Estela, foquei em toda aquela
papelada amontoada em minha mesa.
Tentei de todas as formas afastar os pensamentos que não fossem
relacionados a empresa, e esse foi um dos poucos dias que consegui isso.
Preciso pensar no melhor para mim e a GCR, então praticamente me tranquei
no meu setor até às 18h.
Depois de adiantar alguns processos, resolvi tomar uma decisão e falar
com meu chefe. Preciso de orientação sobre o que fazer, e nada melhor do
que ele para fazer isso.
Ao me encaminhar para a sua sala, logo notei a porta fechada. Isso não
era normal.
Procurei por Morgana, a secretária, e fui informada que ele havia ido
embora mais cedo, detalhe: hoje é quarta-feira.
Me preocupei ao ouvir isso, mas saí da empresa e fui para a minha casa.
Além de tudo, precisei tomar uma decisão e levei o serviço acumulado para
tentar terminar em minha casa...

Trabalhei até às 22h, mas foi impossível não me lembrar de Victor


Hugo.
Não estava com boas sensações, e resolvi tomar uma atitude, e nesse
momento estou a caminho da sua casa.
É estranho eu me importar assim com uma pessoa. Na realidade não é
nada normal.
Minha família mora distante de mim, em outro Estado, e nos
comunicamos basicamente por telefone. Apesar dessa distância, amo os meus
pais, e por mais que no passado eles não tenham entendido muito bem o
porquê resolvi sair de casa tão cedo, sei que nosso amor não diminuiu em
nada.
Quanto a Renata e Beatriz, sou até suspeita em falar. Sinto as dores
delas, independentemente do que seja.
Me considero uma boa amiga, tento de tudo para deixar as pessoas à
vontade quando estão comigo, e me recordo que ao conhecer Renata fiquei
um pouco tensa já que ela é mais sistemática. Apesar da nossa amizade não
ter muito tempo, senti uma conexão imediata quando vi que ela deu abertura.
O que posso dizer? Gosto das pessoas que falam o que pensam, e ela me
ganhou por isso. No fundo, meu bibelô precisava de uma amiga louca, e faço
bem esse papel. Muito bem.
Depois que estacionei meu carro e fui em direção à casa de Victor Hugo,
toquei a campainha inúmeras vezes, mas não fui atendida. Em seguida, tentei
o seu celular, e novamente não obtive sucesso. Isso me preocupou bastante, já
que somente uma imagem vinha em minha cabeça... ele bebendo.
Resolvi voltar para o meu carro, e ao olhar no relógio percebi que se
passava das 23h. Meu coração estava apertado, e não sei bem o motivo, já
que não tinha informações concretas de nada.
O tempo foi passando e quando novamente chequei meu relógio, vi que
já se passava de 00h. Resolvi ligar meu carro para ir embora, e quando dobrei
a esquina...
Uma grande tristeza tomou conta de mim, pois o vi cambaleando pela
calçada com uma garrafa de whisky na mão.
Não sei dizer o quanto me doeu ver essa cena. Apesar de ter presenciado
isso, agora sei os motivos de ele encher a cara, e não sei quais palavras usar
ou qual gesto posso fazer para que ele tente conter esse vício.
Não pensei muito e estacionei meu carro na esquina, logo descendo. Fui
correndo em sua direção, e quando ele me viu...
Victor Hugo não esboçou nenhuma reação, somente me olhou de um
jeito diferente.
Não houve piadas por parte dele, ou até mesmo alguma retaliação, o que
percebi em seus olhos era que ele estava... entregue.
Ficamos ali, nos olhando durante alguns segundos, mas resolvi
interromper o silêncio.
— Eu vou te ajudar.
Victor Hugo nem ao menos oferecia resistência, somente vinha comigo
apoiado em meu corpo, e lentamente o levei para a porta da sua casa. Ele
ainda não havia dito uma palavra sequer, mas agora parecia estar com
vergonha, pois a maneira com que ele me olhava mudou bruscamente.
— Você está com as chaves?
Ele acenou positivamente com a cabeça, e logo me entregou.
Depois de algum custo entramos, e em seguida fomos para o seu quarto.
— Obrigado — sibilou baixinho, e logo cheguei mais perto, o abraçando
de lado.
Que dia eu faria algo assim por um homem?
Nunca gostei de pessoas bêbadas, ou que dão trabalho em excesso, mas
sei que ele está passando por grandes problemas e quero de alguma forma
ajudá-lo.
— Não precisa agradecer. Vou te ajudar com as roupas, e para sua
tristeza a água fria irá cair nesse corpinho.
Victor Hugo logo fez careta, me fazendo abrir um pequeno sorriso.
Depois que o ajudei a tirar as roupas, praticamente o empurrei no
banheiro, ligando o chuveiro e colocando na água fria.
Não preciso nem dizer o que aconteceu em seguida, já que sua face
mostrava o quanto a água gelada fazia bem para o seu corpo.
Dei certa liberdade a ele e saí do banheiro.
Acho que permaneci uns dez minutos sentada em sua cama pensando
em... nada e tudo ao mesmo tempo.
Não ter passado por uma situação dessas não me dá realmente uma ideia
da dimensão que isso representa em sua cabeça, mas o que posso fazer é
tentar auxiliar ele, ao menos por hoje.
Me levantei e fui checar no banheiro como ele estava, e foi aí que o vi
chorando, e... aquilo novamente acabou comigo. A vontade de ajudá-lo era
grande, mas estava de mãos atadas. Não sabia o que fazer.
Dei novamente privacidade a ele e fui para a sala. Permaneci lá durante
uns trinta minutos, e momentos depois ele entrou no recinto somente vestindo
uma boxer preta.
Seus olhos estavam vermelhos, e sei que isso foi por causa do tanto que
ele havia chorado.
— Vou ficar bem — falou, antes que eu dissesse uma palavra sequer.
— Quer que eu fique aqui?
— Não sou muito fã de babá — balbuciou, sorrindo em seguida.
— Tudo bem.
— Luiza...
— O que foi?
— Obrigado por tudo — falou, e logo abaixou os olhos.
— Não precisa agradecer. — Me encaminhei até a porta e logo saí de
sua casa. — Sei que vai ficar bem.
Ele assentiu, e logo em seguida fechou a porta...

Meu dia começou cedo, ou na realidade, não havia começado.


Somente cochilei em minha casa, e de hora em hora acordava assustada.
Enquanto meu corpo estava aqui, minha mente estava na casa de Victor
Hugo, e mesmo me forçando a não pensar sobre o que ocorreu ontem, volta e
meia meus pensamentos iam de encontro àquela sucessão de cenas.
Já na empresa, tomei coragem e fui em sua sala. Ainda precisava falar
com ele sobre os relatórios. Conversar com os diretores está fora de questão.
Após entrar no seu escritório e ele me ver, logo abriu um pequeno
sorriso, mas agora que o conheço bem, sei que ele o estava forçando.
— Como você está?
— Muito bem — falou, mas novamente notei que meu chefe não dizia a
verdade.
— Tem certeza?
Novamente ele sorriu, mas rapidamente seu sorriso foi consumido, e não
fizemos contato visual.
— Não, Luiza. A cada dia que passo pioro um pouco mais.
Depois da sua frase não falamos nada. Somente nos olhamos, e eu
parecia estar sufocando, pois nenhuma palavra saía da minha boca. Eu queria
tanto dizer a ele que tudo ficaria bem, que eu estaria aqui por ele quando
precisasse, mas acabei fazendo a pior coisa nesse momento.
— Você não tem motivos para chorar, Luiza.
Foi automático. Simplesmente comecei a lacrimejar, e não me orgulhei
nem um pouco disso. Eu precisava ser forte, por ele. Fiz exatamente o
contrário.
Quando dei por mim fui para mais perto e ele se levantou.
— Só me fala... — sibilei, segurando uma de suas mãos. — De quantos
abraços precisa para pelo menos lutar contra a ansiedade e parar de beber?
— Luiza...
— Victor Hugo... — me aproximei mais um pouco, o interrompendo,
ainda com lágrimas nos olhos. — Eu faço o que quiser, mas, por favor... —
Novamente comecei a chorar, entregue. — Não fique jogado nas ruas, isso
acaba comigo. Te ver daquele jeito... está me matando.
Não esperei resposta, e em seguida o abracei.
Ficamos assim durante um bom tempo. Senti-lo assim comigo me
confortava, e nunca pensei que um abraço pudesse revelar tantos sentimentos.
Eu queria protegê-lo, eu precisava protegê-lo.
Após termos contato visual, ele passou o polegar pela minha bochecha e
sorriu. Aquele gesto sim era um sorriso verdadeiro, e percebi seu rosto se
iluminando.
— O certo era eu cuidar de você, e não o contrário.
— Não existe certo ou errado. Só precisamos dar apoio à pessoa quando
ela precisar, e estou aqui.
Pelo que percebo Victor Hugo não está acostumado a esse tipo de
sentimento, e não o culpo. Eu também sou assim. No seu lugar eu não saberia
ao certo minha reação.
— Quero te pedir algo.
— O que, Luiza?
— Tente. É só isso que peço. Lute contra seus vícios.
Meu chefe logo abaixou a cabeça, pensativo. Eu queria
desesperadamente saber o que se passava em sua cabeça agora.
— Victor Hugo... — toquei seu rosto, e logo sua atenção voltou para
mim. — Pelo menos tente. Por mim.
Depois dessa palavra ele me abraçou forte, e momentos depois beijou o
topo da minha testa. Em seguida, me olhou com decisão nos olhos.
— Eu prometo que vou tentar!
“E no momento certo todas as revelações são postas à mesa”

A semana que se seguiu foi bem mais tranquila em todos os aspectos.


Precisei conversar com meu chefe assuntos de trabalho e vi que o seu
semblante estava bem melhor.
Evitei perguntar ou fazer alguma consideração, estava muito feliz ao
notar a forma diferente que ele estava se portando, e uma imagem vale mais
que mil palavras.
— Trouxe algo para você — balancei o pequeno dossiê em minha mão.
— Que coincidência! — pegou o documento da minha mão. — Também
preciso te entregar algo.
Estreitei os olhos, não entendendo de início o que seria, mas quando
suas mãos vieram de encontro a minha nuca...
Não consigo nem falar, principalmente quando ele clama pela minha
boca.
Eu simplesmente me entrego a ele por completo, e o meu desejo é que
momentos assim durem cada vez mais.
— É sério que vai ficar me beijando praticamente toda vez que eu vir na
sua sala?
— Vou. Não quero perder o costume. Algum problema?
— Nenhum. Só quero me preparar melhor.
Eu não havia falado, mas há dois dias algo parecido aconteceu, e nos
beijamos perto da sua sala. Naquele dia não estava esperando sua
aproximação, e nem me importei se as pessoas na empresa tivessem visto.
Agir por instinto sempre foi o meu lema, seja para dar ou receber.
— Por que tá me olhando assim? — questionei, interrompendo o
silêncio.
— Assim como, gracinha?
— Você sabe. Sou um livro aberto, pode me falar o que deseja.
Victor Hugo sorriu, passando a mão sobre o meu rosto com desejo
iminente.
— Acho que sua percepção ao analisar as pessoas melhorou bastante.
Alguém está me lendo muito bem.
— Então...?
— Quero que conheça alguém — disse por fim.
— Quem?
— Meus pais.

Não tive como falar não para Victor Hugo.


A parte de apresentar os pais me amedrontava, confesso. Até porque...
as pessoas mais próximas a mim sabem como vivo a vida, e nunca sequer
precisei conhecer parentes das pessoas com quem me envolvia. Nunca fiquei
mais de quinze dias com o mesmo cara, até repetia alguns, mas era aquilo:
sexo e nada mais.
Agora estou experimentando uma sensação diferente. Não estou com
receio de conhecê-los, o que me preocupa é o que falar ou que fazer, a
famosa falta de costume.
— ... eu sempre tratei a maioria das pessoas como objeto por onde
passei, então sim, a maioria do pessoal que conheci nas cidades anteriores me
odeia — Victor Hugo falou, me tirando dos pensamentos aterrorizantes.
Alguns minutos atrás havíamos entrado no assunto de relacionamento
interpessoal, amizades e afins.
— Então pelo jeito você não fez muitas amizades, né? Estou falando de
amigas mulheres.
Um sorrisinho debochado logo surgiu, e já imaginei sua resposta.
— Tentei, mas não consigo. Queria comer todas, amizade nenhuma vai
para frente com esse tipo de ideal. Ainda mais quando elas se conhecem...
Sorri, balançando a cabeça.
Meu Deus, que depravado!
— Preciso concordar.
— Eu queria ser um homem normal, mas sou complexo demais. Na
mesma hora que desejo alguma coisa... mudo de opinião. Acho que a maioria
das pessoas não conseguem ficar perto de mim por causa disso, e tenho
outros problemas para resolver também. Você me entende.
— Um pouco.
A conversa estava leve e descontraída, e agradecia aos céus por isso, já
que quanto mais o tempo passava, mais eu ficava apreensiva.
— Nunca levei mulher alguma para conhecer meus pais — falou do
nada, e aquela frase me chocou.
— Se era para me deixar mais nervosa... conseguiu.
— Sou realista.
O tempo foi passando e finalmente ele estacionou o carro. Havíamos
chegado. Após descermos, respirei fundo.
Quando se está apaixonada, fazemos coisas bem estranhas, mas... fazer o
quê.
— Preparada?
— Não. Sim — falei duvidosa.
— Se decida, gracinha.
— Vai dar tudo certo, estrupício.
O vi sorrindo tão encantador, ao mesmo tempo em que sua cabeça
meneou em desacordo.
— Ainda não acredito que me colocou esse apelido.
— Pois acredite. Agora... que tal acabarmos logo com isso?
— Alguém está bem ansiosa.
— Não é bem isso, é que... nunca fui apresentada para os pais de alguém
com quem me envolvi. Chega a ser estranho, não sei a palavra.
— Acostume-se. Tenho certeza de que eles vão gostar de você e essas
visitas em breve acontecerão com bastante frequência — deu uma piscadinha
e não sei o motivo, mas suas palavras me animaram.
— Tá bom.
Depois da minha assertividade, ele tocou a campainha, e quando a porta
abriu, percebi duas figuras em minha frente.
— Mãe! Pai! Finalmente irão conhecer a mulher que se apaixonou pelo
filho de vocês! — disse e todos nós começamos a rir.
— Prazer, sou a Luiza.
Os pais dele logo me abraçaram e em seguida se apresentaram. Depois
de uma breve conversa, logo entramos na casa deles.
Ainda estava um pouco nervosa, e não sabia muito bem o que fazer, mas
Victor Hugo parecia bem à vontade.
— Ana, faça companhia para eles. Vou comprar algumas coisas no
supermercado e em poucos minutos volto — o pai dele falou.
— Precisa de ajuda, pai?
— É coisa rápida, filho.
— Eu vou com você, aproveito e deixo as duas tagarelas conversando
— falou e a mãe dele começou a rir, se divertindo.
— Tudo bem, filho. Então vamos.
Victor Hugo veio para mais perto e dispôs um beijo em meus lábios, e
sibilou que voltaria já.
Realmente me ferrei.
Esse homem está mexendo totalmente comigo, e se ele soubesse o efeito
que tem em minha mente, em meu corpo, ficaria até com medo.
Sou meio possessiva, quer dizer, possessiva e meia...
Depois que eles saíram, logo Ana Maria me pegou pelo braço e
apresentou toda a casa deles.
Descobri que os pais dele moravam aqui desde que se casaram, há quase
30 anos.
— Qual o segredo? — perguntei.
— De ficar casada?
— É... não sei se Victor Hugo falou, mas nunca me relacionei com
ninguém de maneira séria. Não sei nem ao menos se vou conseguir ficar
presa em uma casa com alguém.
Posso ter falado bobeira justamente para a mãe do homem por quem me
apaixonei, mas serei sincera com ela.
— O segredo é: muita paciência. — falou, e logo nos sentamos. — Estar
com alguém 24 horas no dia pode ser exaustante no fim das contas, e isso
vale para as duas pessoas em uma relação. O que podemos fazer é mudar
nossos horários, ocupar nossa cabeça, reconsiderar algumas coisas, porque no
fundo todos nós temos defeitos. Não podemos olhar somente nosso lado na
situação.
— Entendo — falei, analisando o interior da casa.
— Mas não se preocupe, meu filho gosta muito de você, não me lembro
de ele falar de uma mulher sequer da maneira que é quando a Luiza está
envolvida.
Sorri.
— Espero que sejam coisas boas.
— Sim... — me deu uma olhadinha diferente, e me alarmei. — Ele disse
que você tem o gênio forte, e sou exatamente assim. Quando ele falou como
se parecia, praticamente o obriguei a trazê-la aqui.
Gostei bastante de ouvir isso. Pelo visto temos muita coisa parecida, e
de certa forma isso me aliviou.
— Me considero uma pessoa amiga. Gosto de ter pessoas ao meu redor,
se sentir sozinha é algo muito ruim, e durante a minha fase adulta me senti
assim por inúmeras vezes. Resolvi que seria uma pessoa pra frente em todos
os sentidos da minha vida, e acabei me tornando uma tagarela.
Depois que terminei a frase, Ana Maria começou a rir e logo a
acompanhei.
— Você fala o que pensa.
— Sim, isso não vou mudar.
— Vou te mostrar algo... — chegou mais perto. — Fotos do meu bebê,
quando era um pouco mais novo.
— Isso eu quero ver!
Nos levantamos em seguida, e logo ela pegou alguns enormes catálogos
de fotos em uma das gavetas.
— Espero que tenha tempo...
— Ah, eu tenho sim.
Durante a hora seguinte ficamos vendo as fotos de Victor Hugo criança,
e me encantei pela maioria, confesso.
Ele era fofinho, gordinho e tinha covinhas. Uma criança muito lindinha,
daquelas que dá vontade de apertar e morder. O problema foi no final de um
dos álbuns, já que vi uma foto em que ele estava no hospital com a cabeça
raspada, com a mãe e o pai ao seu lado. Aquela fotografia me deixou triste, e
ela percebeu.
— Você sabe, não é?
Assenti com a cabeça.
— Essa foto foi tirada quando descobrimos que ele venceu o câncer.
Acho que foi o dia mais feliz da minha vida — disse, e logo se emocionou.
— Ele se orgulha bastante desse dia, e o gesto que ele faz nos hospitais
só me faz admirá-lo mais ainda.
— Pelo visto ele te contou sobre a Laura, a menina que o fez prometer
que ajudaria outras crianças.
— Sim.
— Meu filho sente mais que outras pessoas. Quando ele perde uma
criança para o câncer igual aconteceu com Laura e Vitória, ele... se fecha.
Mas como ele me falou, foi você a mulher que ajudou ele a se reerguer, e
tenho certeza absoluta de que isso o fez se apaixonar pela gracinha.
Um sorriso bobo surgiu na minha face quando ela terminou a frase, e
fiquei com vergonha.
— Obrigada.
Continuamos a conversar e ver mais álbuns de fotos, mas senti falta de
algumas fotografias e resolvi perguntar.
— Não vi muitas fotos dele mais novo. Do parto, você tem alguma? —
perguntei e logo ela deu um pequeno sorriso, mas abaixou levemente a
cabeça em seguida.
— Nós só temos fotos a partir dos 3 anos. Foi com essa idade que ele foi
abandonado na porta da nossa casa com um bilhete.
Acho que por um segundo meu coração parou, e nos momentos que se
seguiram não falei nada.
Ele foi...
— Victor Hugo foi adotado por nós — falou sorrindo. — Sentimos um
amor tão grande por ele quando o vimos, que fizemos de tudo para que ele
ficasse conosco.
— Mas... o que houve com a mãe e o pai dele? Vocês tentaram entrar
em contato? — perguntei, toda atabalhoada.
— Sim, tentamos. Mas ele realmente foi abandonado. A gente percebeu
pelo bilhete, e... foi isso que aconteceu. Fizemos todos os processos na justiça
e conseguimos adotá-lo após um ano, desde então ele está com a gente, e não
me arrependo de nada. Ele é o meu filho, o filho que eu e o Sérgio nunca
pudemos ter não nasceu de mim, mas nasceu do meu coração. Me considero
uma mulher abençoada por Deus.
Novamente fiquei emocionada, e quase uma lágrima rebelde caiu do
meu rosto.
— Não fique triste.
— Na verdade eu estou muito feliz por ele ter encontrado uma mãe que
nem a senhora.
Depois que falei essa frase, ela me abraçou apertado, e logo fechei meus
olhos. Apesar de tudo a ficha ainda não havia caído sobre o que ela me
revelou.
De repente, ouvimos um barulho, e notamos que os dois haviam
chegado.
— Vocês demoraram — Ana Maria falou, tentando se recompor.
— O carro quebrou — foi Victor Hugo quem disse, sorrindo. — Mas
demos um jeito — completou e logo deu um beijo na testa dela.
— Tudo bem, filho.
Depois que jantamos, conversamos bastante, e pude conhecer um pouco
mais o pai de Victor Hugo. Ele, como o filho, era um homem alegre e
risonho.
Notei que ambos eram bastante ligados, e se abraçavam quase toda hora,
e vi que de verdade pai é quem cria, já que Victor Hugo não conheceu seus
pais biológicos.
Permaneci na casa dele por umas três horas, e agora estávamos indo
embora.
— Luiza... gostei tanto de te conhecer. Se esforce para botar esse
homem na linha, e me desculpe, porque ele não é fácil.
— Mãe!
— Eu tô mentindo por acaso?— Cruzou os braços, sorrindo.
— Não. Viu o que arrumou para a sua vida? — Voltou-se a mim,
arqueando as sobrancelhas.
— Acho que consigo lidar. — O abracei e ele beijou minha testa.
Depois que nos despedimos, entramos no carro, contudo um assunto
insistia em martelar em minha cabeça...

— Luiza Goulart calada? Aí tem...


Sorri. Mas não respondi.
— Vai me falar o que houve?
Olhei para Victor Hugo, em seguida fechei meus olhos. Eu não consigo
guardar segredos.
— Pedi para a sua mãe me mostrar fotos suas quando era bebê e...
— ... ela não mostrou — complementou. — Porque eles me adotaram.
Falou com naturalidade e nem alterou sua expressão.
— Posso ser a pior pessoa do mundo, mas saber do seu passado no susto
me afeta.
— Tá me dizendo que você ficou triste só porque sou adotado? —
sorriu, mas não fiz o mesmo.
— Não, Victor Hugo Avelar. Você entendeu o que quero dizer. Eu
realmente me apaixonei por você, e não sei quando isso aconteceu de fato.
Todos nós temos segredos, mas conversar com você e saber que sempre tem
a facilidade de esconder as coisas me deixa bastante triste. Quando entrou na
GCR, você disse que era um livro aberto, só que parece mais um livro
fechado, e não sei quando irei ter novas surpresas.
Depois que falei isso, ele estacionou o carro, mas ficou olhando para a
frente, pensando em algo. Percebi ele respirando fundo, e logo depois olhou
bem no fundo dos meus olhos.
— Luiza, eu confio em você, e por mais que eu tenha essa coisa de
esconder meu passado, sei que posso me abrir, então...
Victor Hugo ligou o carro e logo alterou o trajeto. Antes iríamos para a
minha casa.
— Onde vamos?
— Você merece saber toda a minha história. Vou te levar para a minha
casa, e depois iremos para outro lugar.
Assenti.
Ele não parecia estar nervoso, muito pelo contrário, percebi certo alívio
em suas palavras, e aquilo me deixou um pouco mais tranquila, só que agora
estava mais curiosa pelo que estava por vir.
Passamos em sua casa, só que não ficamos nem dois minutos sequer.
Não entendi bem o motivo, mas não perguntei.
Ao voltarmos para o carro, fizemos um trajeto demorado para um local
que eu só havia visto pelos noticiários da cidade: o morro das aranhas.
— Por que estamos aqui?
— Quero te mostrar um lugar.
Depois que estacionamos, olhei para o local que Victor Hugo queria ir, e
digamos que não estava “calçada” para entrar nessa trilha.
— Acho que viu como estou... esse salto — apontei para o calçado.
— Vem cá... — Do nada o homem me pegou no colo, com uma
facilidade tremenda, e seguimos montada em cima dele.
Aquilo foi engraçado, confesso.
— Vamos andar só um pouco, ou melhor, eu vou andar.
Como dito a mim, fizemos uma pequena trilha, e cerca de dez minutos
depois ele me colocou no chão.
— Tome cuidado agora, por favor.
Entendi no momento que coloquei os pés no chão o motivo de ele ter
falado isso, já que vi uma grande depressão no morro, e se eu caísse aqui...
No ponto que estávamos, calculei ter uns 30 metros daqui até o chão, e
até mesmo andar por esse local era perigoso. Apesar disso, havia mais áreas
perigosas na região se subíssemos mais um pouco o morro, ainda assim tomei
bastante cuidado para não pisar em falso.
— Tá vendo esse lugar?
— Sim, o que precisa me mostrar aqui?
Victor Hugo estava de costas para mim e não me respondeu.
Não entendi aquele gesto, e até pensei que ele não tivesse ouvido a
minha pergunta, só que ao se virar, seus olhos miraram os meus, e ele chegou
mais perto.
— Por várias vezes vim aqui para tentar... suicídio.
Meus olhos quase saltaram para fora ao ouvir essas palavras.
Ele falou com tanta naturalidade que me assustei. Mas eu devia esperar
algo assim, já que ele mesmo disse que me revelaria toda a história que não
sei sobre ele.
— Por que...?
— Leia isso antes, por favor.
Entregou em minha mão um papel, que quando bati o olho vi que estava
bem gasto. Após desdobrá-lo, percebi que era um bilhete, não havia muitas
palavras escritas, e resolvi ler:

ele xama vitor hugo


tem alguns porblemas ele tá duente e a genti num vai fica cum ele
essi minino num era pra vim não a genti é pobre e tenho filho dimais ele
num chora muito é baozinho mas ta cum febre toda hora
vo deixa ele aqui na porta leva ele no hopistal se nao ele vai morre
orbigado

— Fui abandonado com esse bilhete e a certidão de nascimento. Nem


meu nome direito eles sabiam — suspirou. — Mesmo após vencer o câncer,
eu pensei em suicídio várias vezes na minha adolescência, e depois que
completei 21 anos... isso se tornou mais presente em minha cabeça.
Fiquei surpresa com a sua última frase. Pensei que as crianças
estivessem o ajudando a não ter esses pensamentos.
— Eu sei, parece estranho. Mas é como te falei, a cada perda, mais meu
coração se quebrava, e tudo se misturava. Nem me lembro quantas vezes
fiquei ali, perto do limite, criando coragem para me jogar, mas não o fiz. Eu
não te contei, mas meu pai e minha mãe não podem ter filhos. Meu pai é
estéril, e já enfrentou a depressão também. A situação dele estava crítica, e
quando ele estava em seu limite, fui abandonado na porta da casa deles. Acho
que tudo na vida acontece por uma razão, e esse também é um dos fatores
para no começo eu não tirar minha vida, só que a minha mente acabava me
traindo... acho que sabe onde quero chegar.
Segurei suas duas mãos, mas não disse uma palavra sequer.
— Quer ouvir algo engraçado? — perguntou, abaixando a cabeça. —
Acho que Deus me ama!
— Não acho isso engraçado! Deus ama a todos.
— Não é isso. Em duas oportunidades eu estava muito bêbado, mal
conseguindo ficar de pé, naqueles dois dias eu decidi que iria tirar a minha
vida. Simplesmente subiria aqui e... acho que sabe. Só que nessas duas vezes
bati meu carro, e fui impedido por alguma força maior de chegar aqui, então
por isso acho que Deus me ama.
— Quer ouvir uma coisa engraçada? — falei, chegando mais perto e
segurando suas mãos.
— Sim.
— Não é só ele quem te ama!
“E os rivais finalmente se encontram...”

Vi uma grande melhora no humor do meu chefe durante o mês que se


seguiu.
Ele voltou a ser um homem comunicativo, brincalhão e... safado.
Extremamente safado!
Recuperamos o tempo perdido, e a cada vez que fazíamos amor, mais eu
me descobria perdida nesse homem.
— Por que você não convida nosso amigo e seu chefe para almoçar com
a gente amanhã?
— Você esta de sacanagem, né, Renata? — coloquei os braços na
cintura, perplexa com sua ideia.
— Não.
Suspirei e fechei meus olhos.
— Renata, meu amor... você está pedindo para eu convidar Victor Hugo
para um almoço na casa de Daniel Falcão? Qual remédio tarja preta você
tomou e por que acha que ele iria aceitar? Pior... acho que uma tragédia iria
acontecer.
— Primeiro: estou bem, deixo os remédios com a senhorita, dá para ver
que precisa mais. Segundo: eu tenho certeza de que ele aceitaria, já que além
de entrão, Victor Hugo gosta de aparecer. Terceiro: provavelmente alguma
coisa engraçada vai acontecer, e por isso quero estar lá para presenciar tudo
de camarote.
— Meu Deus... você acabou de virar gerente de vendas e já quer ser
demitida — afirmei.
— Por que eu iria?
— Ah, meu bibelô, porque pode ter certeza que se eu o convidar e ele
for, irei dizer de quem partiu a ideia.
— Justo! Mas ainda prefiro correr esse risco se alguém não se importar.
— Vou tentar realizar seu desejo, mas primeiro preciso falar com a dona
Beatriz.
— Opa, ouvi meu nome!
Beatriz havia acabado de chegar na mesa do restaurante.
— Renata quer ser demitida, só isso.
— Como é?! — Beatriz deu um gritinho e logo Renata balançou a
cabeça em desacordo.
— Vou te explicar, Beatriz, porque certa pessoa é muito exagerada,
sabe? — Me fuzilou com os olhos e fiquei com medo. — Então, só sugeri
algo, por exemplo, chamar Victor Hugo para a nossa pequena
confraternização... em sua casa!
Beatriz ficou olhando para o bibelô e nem ao menos piscou. Ela tomaria
uma bronca, e seria ao vivo e a cores.
— Gostei da ideia, Renata — falou, olhando para o céu, parecendo se
divertir.
— Acho que estão malucas — intervi. — Até você, Beatriz?
— Sim. Seria bom ver a reação do Daniel. Além do quê, pode ser bom
para ele, sair, pensar em outra coisa, provocar o meu marido... não na mesma
ordem, claro.
Começamos a rir.
Ainda não estava acreditando que essa pequena ideia estava em pauta,
mas pelo jeito sou voto vencido.
— Espero que tenham certeza do que estão armando — falei, ainda
duvidosa.
— E vamos fazer diferente — um pequeno sorriso iluminou o rosto de
Beatriz. — Só vou avisar para ele que vocês levarão um convidado, não vou
falar que é o eterno rival dele.
— Tão nova e já querendo desmanchar o casamento. Que Deus tenha
pena de você... — falei e minhas duas amigas gargalharam.
— Vai ser bom! — pontuou. — Convide ele, mal posso esperar para ver
o que vai acontecer.

— Deixa-me ver se entendi... Daniel e eu no mesmo ambiente, na casa


dele?
— É.
Não sei se ele estava surpreso ou até de certo modo feliz.
— E... vou poder irritá-lo como sempre fiz no passado? — arqueou as
sobrancelhas.
Respirei fundo.
Ainda vou matar Renata por dar uma ideia tão ruim.
— Faça o que quiser. Eu lavo minhas mãos.
— Estranho. Parece que você não quer que eu vá.
— A ideia não foi minha.
— Foi de quem?
— Renata, e Beatriz, a esposa de Daniel, e ela ainda disse que nem
mesmo iria avisar que era você o convidado especial. No fundo as duas
querem ver o circo pegar fogo, e eu... não sei o que pensar — disse por fim.
— Hmm. Até a esposa de Daniel quer pregar uma peça nele?
— Pelo jeito é isso mesmo.
O rosto dele tornou-se divertido, e sei que ele imaginava alguns cenários
para o que poderia acontecer.
— Eu vou. Eu preciso ir.
— Precisa?
— É. Tem algumas coisas que eu preciso falar na cara dele.
— Victor Hugo, não brinque com fogo...
Ele somente sorriu e chegou mais perto, dispondo um beijo na minha
testa, em seguida sussurrou: — Volte ao trabalho, não me faça te comer aqui
mesmo no refeitório!
O dia tão aguardado chegou rápido demais.
Meu querido chefe passou em minha casa, e estávamos a caminho da
residência de Daniel.
— Será que é uma boa ideia me trazer em uma casa onde todos me
odeiam? — usou de deboche ao perguntar.
— Por incrível que pareça, Renata não te odeia. Ela gostou de você —
desconversei.
— É... menos mal que a mini psicopata foi com a minha cara, era dela
que eu tinha mais medo.
Olhei para ele e caímos na gargalhada.
— Mas vamos falar sério agora, acho que sabe da minha relação com o
Daniel.
— Sim, e estou curiosa sobre o motivo de ter aceitado o convite, além
da famosa frase: tem algumas coisas que preciso falar na cara dele...
— Sou entrão, gosto de aparecer. Preciso falar mais alguma coisa? —
deu de ombros.
— Exatamente o que Renata falou. Vocês são parecidos demais, e isso
me choca.
— Ela beira à perfeição só de se parecer comigo, e vou transformá-la na
irmã mais nova que nunca tive.
Sorri.
Se ele quer fazer isso, espero que saiba onde está se metendo.
Minutos depois chegamos na casa de Beatriz, ela mesma veio nos
receber. Victor Hugo parecia bem tranquilo, nem aparentava nervosismo.
— Seu marido realmente está aqui? — perguntou.
— Sim — Beatriz assentiu.
— Vou poder irritá-lo igual fazia no passado? — questionou e ela deu
uma olhadinha para trás e sorriu.
— Conto com isso!
O mundo está acabando por causa de atitudes assim. Todo mundo quer
ver o circo pegar fogo!
Depois que entramos na casa, notei uma figura masculina ao fundo:
Daniel Falcão.
Ele estava em um bate papo descontraído com meu bibelô, que parecia
ficar menorzinha a cada dia que passava...
Que ela não saiba disso!
Fomos de encontro a eles, e quando o olhar dos homens se cruzaram... o
que posso falar da tensão que se instaurou?
Victor Hugo logo tratou de sorrir e colocar as mãos nos bolsos. Já
Daniel fechou a cara e arqueou as sobrancelhas surpreso.
— Eu posso expli...
— E aí, Falcão? Há quanto tempo, hein? — Victor Hugo chegou
perguntando ao me cortar, indo em sua direção.
— O que tá fazendo aqui?
— Vim te ver.
— Me ver? Qual a pegadinha?
— Seu casamento foi há alguns meses. Estou aqui para não perder o
costume.
Daniel olhava na direção da sua esposa, para mim, depois para Renata, e
não sabíamos bem o que dizer.
— Então ele é o convidado que falaram.
— O próprio! — Beatriz respondeu.
— Sei que essas mulheres vão tagarelar demais, e vai ser bom alguém
falar de negócios por aqui, não é? — Logo se sentou, e Daniel alisou o copo
em suas mãos olhando para Victor Hugo
— É... veremos. Quer um copo de whisky?

As coisas por aqui estavam estranhas, não vou mentir, e acho que tanto
Beatriz quanto Renata perceberam isso, e logo trataram de puxar assunto.
— Já que estão frente a frente, por que não me contam o motivo dessa
rivalidade? — Renata perguntou, e ambos se entreolharam.
— Arquimedes nos treinou, e como só teve dois alunos, era normal
competirmos. A gente ficava disputando território, porque no fim poderíamos
ficar no cargo que ele ocupava na época, mas isso não aconteceu — Daniel
falou.
— Verdade — meu chefe assentiu. — Eu nunca fui de estudar, e
Arquimedes odiava isso. Eu chegava atrasado nas aulas, não ia, entre outras
coisas. Sempre fui uma pessoa que fugia das regras que ele impunha, e acho
que Arquimedes gostava mais do Daniel por isso. Uma pena, porque sou
mais bonito e bem mais inteligente.
Sorri, e Daniel balançou a cabeça em desacordo.
— Eu sou inteligente e esforçado, você é só inteligente. Então ainda
estou na sua frente.
— Acho que não.
Durante os minutos seguintes eles ficaram debatendo entre si quem era o
mais fodão, e quando olhei para as meninas, elas deviam estar pensando o
mesmo que eu, que estávamos presas no colegial e eles estavam disputando
alguma mulher.
Apesar de tudo, estava sendo bem engraçado ver esse embate, porque...
eles não pareciam se odiar como pensei. É claro que há uma tensão ali, ainda
assim, dá para ver que o ódio não se faz presente.
Depois que um longo silêncio se instaurou no ambiente, resolvi abrir a
boca e já que Beatriz e Renata pregaram uma peça no meu querido chefe,
ainda falta a minha vez.
Ninguém mandou ser entrão...
— Daniel... sabia que Victor Hugo canta muito bem? — perguntei e
meu querido chefe desaprovou o comentário.
— Sério? — Beatriz perguntou, mas ela já sabia do meu plano
maquiavélico. — Por que não dá uma palinha pra gente?
— Infelizmente fico mais à vontade quando estou com um violão.
— Ah, não seja por isso, eu tenho um no meu quarto. Vou pegar agora!
— Minha amiga levantou-se e Victor Hugo me fuzilou com os olhos.
Que culpa tenho?! Nada foi armado...
— Você nunca falou que cantava — foi a vez de Daniel falar ao cruzar
os braços e Victor Hugo suspirou, um pouco desanimado.
Esse é o preço que se paga por confiar nas pessoas, tipo eu, pessoas que
não valem o prato que comem.
— É, tenho alguns segredos.
Depois que minha amiga chegou com o violão e o entregou, ele voltou-
se a mim.
— O que eu canto, gracinha? — perguntou.
— Me surpreenda! — pontuei.
— Se é assim, vou cantar 8 segundos, do Atitude 67.

Se o eterno fosse esperto


Ele não desgrudava você
Fechava o universo
O espaço-tempo ia se perder
8 segundos você acha pouco
Mas senta em cima de um touro louco
Aí você vai ver
8 segundos antes disso tudo
Eu nem te imaginava no meu mundo
E agora eu

Não... não... não... Precisa cantar olhando pra mim assim, inferno?

Só quero 8 segundos pra falar


O que eu não consegui dizer num mês
Depois que eu aprendi a amar
8 segundos bastam pra te convencer
Que a vida é mais legal eu e você, ei, ei, ei

Depois que ele terminou, eu tive que bater palmas. Todos, na verdade.
— Bom, é isso. E não vou nem cobrar cover artístico.
— Olha... alguém está me surpreendendo hoje.
— E então, rival? Nisso estou na sua frente, né?
Pela primeira vez no dia vi Daniel sorrindo em nossa frente.
— Com toda a certeza do mundo, sua voz é tão boa quanto a do Diego.
Olhei para Renata, que me devolveu o olhar, desconfiada.
— Diego...?
— Meu amigo que ensinou algumas coisas para a Renata.
— Ele canta?! — Renata questionou, perplexa.
— É melhor dizer... cantava. Ele foi vocalista de uma banda durante um
tempo, anos depois algumas coisas aconteceram na vida dele... — Daniel
parou de falar. — Eu nem deveria ter falado isso. É assunto pessoal dele, mas
sua voz é bonita cantando. Parabéns!
— Foi bom deixar o clima mais leve, porque agora as coisas vão mudar
um pouco — meu chefe falou, e pela segunda vez Daniel sorriu, mas ele não
fez o mesmo.
— Qual vai ser a pegadinha?
— Esse é o problema. Não tem pegadinha.
Victor Hugo olhava com seriedade para Daniel, que até ajeitou a sua
postura. Pelo visto o que ele vai falar não é brincadeira.
— Daniel... — Victor Hugo começou e respirou fundo. — Não fui
sincero com você no passado, e preciso te esclarecer algumas coisas.
Agradeço se não me interromper.
— Prossiga.
— Eu sei de todo o seu passado, Daniel. Absolutamente tudo, e já tem
um bom tempo.
Silêncio.
Pensei que Daniel responderia, mas ele não o interrompeu.
— Como eu falei, não fui sincero, e eu me via na sua frente por saber de
tudo sobre você. Não importava para mim se um dia eu jogaria isso na sua
cara, ou algo do tipo, mas o simples fato de saber o que passou me deixava...
confortável para seguir em frente, essa é a palavra.
O rosto de Daniel criou um vinco, e percebi que essa palavra que foi
usada não o agradou nem um pouco.
— Preciso perguntar: em que sentido você ficou confortável em saber o
que minha mãe fez comigo? Se sabe mesmo o que aconteceu, como o que
sofri durante a adolescência ou até mesmo o que meus padrastos fizeram te
deixou... confortável?
Essa pergunta direcionada a ele veio cheio de veneno e me alarmei. Não
sei se usar a palavra confortável foi bom.
— O quanto sabe sobre mim, Daniel?
— Você é um arruaceiro que não gosta de trabalhar, desistente, o
deboche em pessoa, mas se acha demais porque nasceu em berço de ouro, e
jogava isso na minha cara constantemente.
— E nunca se perguntou por que eu fazia isso?
— Porque é problemático! Você tem complexo de Deus! — Cruzou os
braços, irritado.
— Você está certo. Enfim, usei a palavra confortável, porque eu me
pareço com você, e tentar imaginar a sua dor, de alguma forma me ajudava.
— Não nos parecemos! Minha vida não foi um mar de rosas igual a sua.
Victor Hugo olhou para mim e logo em seguida para Renata. Daniel fez
o mesmo, e logo percebeu a nossa expressão um pouco mais séria e triste.
— O que realmente está acontecendo aqui?
— Sabe por que eu vim até aqui, Daniel? No fundo nunca nos demos tão
bem, e a culpa sempre foi minha, assumo. No começo você tentou ser meu
amigo, mas eu sempre arrumava desculpas para diminuir ou menosprezar
você. Sempre fui um babaca, todos aqui sabem.
— Concordo — pontuou.
— Eu só acho que precisa me conhecer melhor, entender porque eu fazia
isso. Eu sei de todo o seu passado, e agora irei falar aqui um pouco do meu...
Não acredito que ele vai revelar para ele...
— Estou ouvindo.
— Com 3 anos de idade fui abandonado na porta da casa de Ana Maria e
Sérgio, a quem trato como meus pais de verdade. Eles conseguiram me
adotar um ano depois de eu ter aparecido.
Ao ouvir isso vi que o semblante de Daniel mudou um pouco.
— Quer ouvir algo engraçado agora...? Eu fui abandonado com um
bilhete cheio de erros ortográficos, e meus pais biológicos disseram nele que
eu fui um erro, e que estava doente. De fato, eu estava, mas foi descoberto só
depois. Eu tinha câncer. Leucemia, para ser mais exato.
Daniel estava focado no que ele dizia, e nem sequer piscava ou desviava
seus olhos do seu rival.
— Lutei contra o câncer por algum tempo, e quase sucumbi algumas
vezes, mas eu fui curado. Acho que essa foi a minha primeira vitória na vida
após nascer. A minha fase adolescente não conta muito, já que não fiz nada
de interessante, só aproveitei a vida como qualquer pessoa, mas eu queria
ajudar crianças que passaram o mesmo que eu, e assim acabei me tornando
voluntário nos hospitais das cidades em que trabalhei. Todas as cidades. Eu
animava as crianças, me caracterizava, tentava fazer elas sorrirem em meio às
dificuldades, só que me apeguei bastante a uma garotinha que se chamava
Laura, e quando ela morreu... uma parte de mim morreu junto, sabe?
Comecei a beber descontroladamente, e volta e meia estava largado na rua,
como você se acostumou a ver nos noticiários — deu um pequeno sorriso. —
Todas as perdas em minha vida me motivavam a... beber, e quando voltei
para Florianópolis, conheci uma garotinha chamada Vitória, e ela me
lembrava muito a Laura. As duas se pareciam bastante, e foi inevitável me
encantar com ela, só que infelizmente ela também perdeu a batalha para o
câncer, e isso me abalou mais ainda. Enfim, acho que pode enxergar de onde
está... — Victor Hugo levantou sua camisa, indicando aquela tatuagem. —
Marquei na minha pele o dia em que venci o câncer: 10/05/1992.
Daniel prestava atenção em Victor Hugo, que estava com a cabeça
levemente abaixada, pensando em algo.
— Na manhã que recebi a notícia que Vitória faleceu, quebrei todo o
meu escritório. Lembro que soquei a parede até sangrar, e quando voltei a
realidade estava na casa de Renata, e foi aí que percebi que na vida é preciso
desabafar, e contei a verdade para as duas. Mas... sabe o que é pior de tudo, é
que mesmo fazendo isso, ainda tenho um vazio enorme em meu peito, e tudo
é motivo para fazer alguma cagada. Daniel... — fez um pequena pausa,
pegando ar. — Eu penso em bebida 24 horas por dia. Todo segundo eu quero
beber, porque quando estou tonto eu simplesmente... ignoro tudo, e não há
dor. Não há absolutamente nada. Eu usei a palavra confortável quando falei
de sua história justamente por isso, por mais que eu possa parecer um
monstro, saber que seu passado foi difícil me confortava de alguma forma, já
que passei por muita coisa ruim, assim como você.
Não sei exatamente por quanto tempo ficamos em silêncio.
Daniel olhava bem no fundo dos olhos do meu chefe, e tentava encontrar
algum traço de hesitação em sua face, mas eu sei que ele não veria isso. Não
dessa vez.
— Eu não tinha respeito algum por você — Daniel falou. — Não via
qualidade alguma em uma pessoa que vivia a vida loucamente. Apesar de ser
extremamente inteligente, nunca pensei que isso te ajudaria ou me fizesse
admirá-lo de alguma forma... — parou, o analisando. — ...até hoje! Jamais
poderia imaginar algo parecido com isso que me falou, minha visão era
totalmente outra sobre a sua família, o que passou na vida... enfim. Sempre
pensei que era um garoto mimado quando via a maneira que abraçava seus
pais, o quanto era grudento com eles, mas agora eu posso ver o motivo disso,
e em seu lugar faria o mesmo. Então...
Daniel se levantou, e ficou na frente de Victor Hugo que permaneceu
sentado.
— Que tal começarmos de novo? — estendeu a mão e logo meu chefe
se levantou.
— Por mim tudo bem — apertaram as mãos e deram um pequeno
sorriso.
Isso até que foi fofo!
— Outra coisa: seu whisky acaba de ser confiscado.
— Não é para tanto, Falcão!
— É sim.
Sorri e logo Victor Hugo fez o mesmo, mas... ficou sem o whisky, claro!
Tirando a tensão que tinha se instaurado minutos atrás, foi bom terminar
assim, já que em seguida a conversa ficou mais calma, e os dois estavam até
de sorrisinhos um para o outro.
O mundo realmente dá voltas...
Agora sei que Victor Hugo veio para falar a verdade para Daniel, isso
ficou bem na cara, eu só não pensei que ele pudesse dizer tudo.
— Ainda falta uma coisa para te contar, porém tenho absoluta certeza de
que não vai gostar nada nada disso — falou, e Daniel logo cruzou os braços
sorrindo.
— Outra revelação?
— Sim. A bomba é que Renata é a sua fã..., mas está tendo aulas
particulares comigo. Novamente, estou na sua frente.
Todas as cabeças se voltaram para Renata, que ficou branca, sem reação.
Agora ele cavou a própria cova botando o nome do meu bebê na roda...
— É sério, Renata? — Daniel perguntou cruzando os braços.
— E-eu... bom, é que...
— Só tem um problema, Daniel — meu chefe suspirou de forma pesada.
— Tem alguns assuntos complicados, que não são da minha área, e não
consigo passar de um jeito que ela entenda, nunca fui um bom professor,
acho que sabe que sou desleixado por natureza.
Mas espera um pouco... é justamente o contrário!
Renata disse que está aprendendo muito com Victor Hugo, e que ele é
um excelente professor quando dá aula. Por que ele está falando isso?
— Que assunto?
— Essas coisas que gosta: análise fundamentalista, gráficos dos mais
variados tipo, coisa de RH... você sabe bem que odiava esses assuntos
quando Arquimedes nos mostrava.
— Bom... eu posso ajudar, se quiser, Renata.
Victor Hugo deu uma piscadinha para ela, e logo minha amiga fingiu
demência (como a boa atriz que é), e retribuiu o sorriso.
— Eu ficaria muito feliz! O estrupício é bem preguiçoso para explicar
umas coisas.
— Estrupício?! — Daniel repetiu, se divertindo.
— Luiza e ela me chamam disso. Fazer o que... — deu de ombros.
Esse homem vive me surpreendendo...
O almoço se estendeu normalmente e tivemos assunto para tudo.
Quando percebi já se passava das 17h.
— Precisamos ir — falei. — Temos que levar o bibelô embora, se não
ela vai morar por aqui.
Renata me lançou um olhar de dó. Após nos levantarmos, os homens
ficaram frente a frente de novo.
— Obrigado pelo dia, foi bem proveitoso — meu chefe disse.
— Eu que agradeço pela sinceridade.
— Agora falta se beijarem, sabe? — provoquei, e logo fizeram uma cara
de desprezo.
— Nisso eu sou bom, né? — Do nada veio para mais perto e tomou
minha boca, se Daniel não sabia que poderíamos estar juntos, agora teve uma
leve certeza.
— Acho que formam um belo casal! São dois malucos. — Daniel
cruzou os braços e eu fiz a egípcia. — Agora sou eu quem preciso fazer um
pedido a você: por favor, mantenha Luiza longe da minha casa, ela me
atrapalha nas piores horas perguntando o que fazer para te suportar na
empresa ou conversando fiado com Beatriz.
Apontei o dedo do meio para Daniel que sorriu.
Nos despedimos e saímos da casa dos dois, mas tinha certa pessoa que
não parava de olhar para o meu homem,...
— O que foi, baixinha?
— Bom, eu queria agradecer por aquilo que fez.
— Não foi nada. Sei que no seu coraçãozinho Daniel sempre estará
presente, então dei o meu jeito de fazer com que ele te ajude em algumas
coisas também.
— Estou realmente sem palavras. Não sei o que falar.
— Mas eu sei... — Segurou seus dois ombros. — Aprenda tudo comigo
e com ele, e torne-se a profissional que deseja no futuro. Você merece e
acabou de se tornar a minha irmã mais nova!
É difícil não se apaixonar pelo jeito dele...
— Vou te dar a honra de me considerar a sua irmã, e vou me tornar a
melhor!
Depois que meu amor entrou no carro, fiquei encarando aquele homem
com os braços cruzados.
— Victor Hugo Avelar... — falei e logo um sorriso duvidoso apareceu
em seu rosto. — Vou te pedir um pequeno favor: não seja tão romântico e
fique cantando aquele tipo de música para mim.
— Me dê um bom motivo para isso — me olhou de um jeito divertido.
— Porque se eu me acostumar, vou querer que faça essas coisas com
muito mais frequência do que seja possível!
“Nas várias circunstâncias em nossa vida precisamos tomar uma
decisão, e o momento é chegado...”

Percebi que o Victor Hugo alegre e debochado havia voltado com tudo
na empresa.
Ao decorrer do mês, tudo voltou ao normal, até mesmo as nossas
escapadinhas periódicas na empresa. O maior problema é que isso acabaria,
já que a partir de amanhã estou de férias...
— Preparada?!
— Para o que exatamente?
— Ficar longe de mim — abriu aquele sorrisinho costumeiro. — Pensei
até que cancelaria suas férias.
Não me contive e comecei a rir com seu comentário.
— Praticamente não tirei férias desde que comecei a trabalhar aqui, o
que te faz pensar que... um homem mudaria isso em minha cabeça? Ainda
mais você que mais me atrapalha do que me ajuda aqui dentro — caçoei.
— Ultimamente você anda muito abusadinha, não acha...? — chegou
mais perto, mordendo o lábio inferior.
— Força do hábito, mas preciso ser sincera: no fundo aprendi muito
trabalhando com você — falei, inabalável.
— Sério?
— Sim, você é um 0 a esquerda, então como sempre digo, tenho que
fazer basicamente todo o seu trabalho. Um lado bom tinha que ter, não acha?
— Para mim já chega! — disse e logo tomou a minha boca. — Às vezes
prefiro você calada!
— E eu prefiro você duro... — arfei e nem preciso dizer o que aconteceu
em seguida.
Nos minutos seguintes o seu escritório mais pareceu uma sauna, e em
breve eu ficaria sem roupa.
O nosso pega foi se intensificando, mas o meu lado anjinha deu às caras
e me lembrei de algo, não era nada bom ser demitida por atitudes obscenas
um dia antes das férias.
— Você tem uma apresentação em poucos minutos, e Luigi está aqui, se
eles nos ver... — tentei me esquivar, mas ele me segurou.
— Gracinha... você vem, me provoca, praticamente joga gasolina em
todo esse meu fogo por você e quer parar logo agora?
— E quem disse que eu quero...? — falei, olhando para o meu relógio.
— O problema é que a apresentação será em 15 minutos.
Victor Hugo fez cara feia e olhou na direção da janela, visivelmente
chateado.
— Para que marcar uma coisa dessas para às 14h? — falou, se
desvencilhando. — Outra coisa: odeio reuniões!
— Sério?!
— Acho que sabe.
— Percebi quando fez outra pessoa te apresentar.
— Ah, mas me fala: foi um máximo, né? Eu dei um show depois!
Lembro até hoje da Margarida falando que odeia a palavra sexo.
Comecei a rir.
Estava sentindo falta desse seu lado safado, pervertido e engraçado.
— Claro, foi um espetáculo.
— Foi é? — chegou mais perto colando nossos corpos, começando
outro showzinho...
— Nem vou culpar o vento por essa bagunça, se foi eu que deixei a
janela aberta então é minha cuuuulpa. E já que entrou em minha vida, leve é
toda a sua. Quero aquele beijo de varanda e a lua de testemunha, eu tô até
com ciúme, o vento deve estar usando o seu perfuuume...
Eu sabia que se o velho Victor Hugo voltasse, as músicas também
viriam no pacote, e dessa vez a escolhida foi Beijo de Varanda, do Bruno e
Marrone.
— Suas músicas...
— São todas para minha inspiração, Luiza Goulart — tocou meu queixo.
— Alguém se tornou um homem romântico — pontuei.
— Mais safado do que romântico, vamos deixar claro.
Pelo jeito nos beijaríamos de novo e o ciclo recomeçaria, mas... preciso
ser a estraga-prazeres e logo tomei distância do homem, era muito perigoso
essa reaproximação.
— Se prepare para a reunião! Depois a gente finaliza esses assuntos
inacabados...
— Nasci preparado, gracinha. Daqui alguns minutos estarei lá.
— Então eu já vou. Não quero que pensem que estamos nos agarrando.
— A empresa toda sabe!
Pensei em suas palavras e ele estava coberto de razão.
— Então... se a empresa toda sabe... — foi se aproximando e logo
recuei.
— Melhor se afastar, do contrário vou pular no seu colo! — falei rindo,
mas já indo em direção à porta.
Meu chefe não falou nada, somente sorriu, me observando com as mãos
nos bolsos.
Estava com bastante saudades daquele sorriso...

Os diretores, Luigi e eu estávamos na primeira fila à espera da


apresentação do meu chefe safado.
A pauta da vez era comentar sobre o crescimento da GCR, e maneiras
para captar novos investidores. Estava bastante confiante no que Victor Hugo
falaria, porque colhi todos os dados, e dessa vez ele me ouviu e estudou a
pauta bem antes.
Ainda tinha algo diferente dessa vez, já que uma emissora de televisão
iria filmar tudo. Luigi queria estampar na capa de todos os jornais o
crescimento da empresa, e para isso resolveu inovar, o que de fato julguei ser
uma boa ideia. Victor Hugo fala muito bem em público, e isso não será
problema.
Ultimamente ando bem feliz com trabalho que estou executando na
empresa. Aprendi muita coisa nova com o velho Victor Hugo, já que precisei
me antenar de muita coisa que não tinha tanta familiaridade. Foi tipo o que
aconteceu com Beatriz na Argo’s, a única diferença foi que no meu caso eu
corri vários riscos por causa do meu chefe...
E por falar no pecado, dessa vez ele chegou no horário. Depois que nos
viu acenou levemente, mas deu uma pequena parada antes de chegar ao
palco. Não entendi aquele gesto, mas notei que o rosto dele estava um pouco
estranho, e também que ele piscava demais.
Logo ouvi alguns burburinhos do meu lado, e Luigi parecia ter visto o
mesmo que eu, já que seu cenho franziu automaticamente.
Depois de ficar naquela posição alguns segundos, ele logo foi ao palco
pegou o microfone e... caiu.
Me alarmei e fiquei de pé, mas ele se recompôs e se levantou
rapidamente.
Ele não pode ter bebido algo nesse meio tempo...
— Eu estou bem... — tentou soar engraçado, e logo foi na direção do
computador. — Bom, vamos falar agora de tudo que é interessante sobre a
empresa.
Seus olhos estavam caídos e sua voz um pouco diferente.
— O que tá acontecendo com você, Victor Hugo? — Luigi gritou do
meu lado, e isso atraiu a atenção de muita gente que estava no auditório.
— Nada, chefe. Estou bem, e... — Quando ele foi se apoiar na cadeira
ao seu lado, ele caiu, e ficou lá durante alguns segundos.
Eu não sabia o que fazer, como iria proceder, mas resolvi agir por
instinto e fui até onde ele estava, e quando cheguei mais perto vi que ele
parecia não estar aqui no mesmo ambiente. Estava assustado, não entendi.
— Eu estou farto de você chegar bêbado ou de ressaca na empresa! —
Luigi se levantou gritando.
Meu chefe não gostou de ouvir isso.
Victor Hugo não parecia estar bêbado, não agora, e tem mais, não teria
dado tempo de ele chegar a esse nível alcoólico pelo tempo que deixei sua
sala. Mas ele estava diferente, um pouco aéreo.
— Eu não estou bêbado! — gritou de volta.
— Ah, não?! Então se levante sem a ajuda da Luiza.
Olhei na direção dele, e logo Victor Hugo acenou a cabeça.
— Tudo bem, Luiza — falou baixinho.
Com muita calma, ele se levantou, e permaneceu de pé alguns segundos,
mas ele parecia estar flutuando, indo de um lado para o outro e... caiu
novamente.
— Pra mim já deu! — O homem veio a passos largos onde estávamos.
— Você foi de longe a pior contratação que fiz! Não me importa se está
dando resultados ou não, sua conduta é uma vergonha para mim e para todos
que trabalham aqui!
— Quer falar de vergonha mesmo?! Não foi eu quem contratou um CEO
corrupto e pedófilo para trabalhar aqui! Muito menos fiz acordo com eles! —
Victor Hugo falou bem alto, e ao olhar a plateia vi que eles ficaram chocados
ao ouvir isso.
— Que história é essa?! — Amadeu se levantou, olhando para Luigi,
que havia ficado pálido instantaneamente.
— Vocês não sabem?! — Victor Hugo falou tentando se levantar, mas
novamente foi ao chão. — Pelo jeito o problema aqui nunca foi uma pessoa
só — completou.
— Você é desprezível! Você acha que ajudar criancinhas com câncer
vai melhorar o lixo de homem que é?
Meu coração gelou ao ouvir essa frase, e ao olhar para Victor Hugo vi o
choque estampado em sua face.
— Você não é um afortunado por ter lutado contra o câncer; é por dó
que você faz esse gesto nos hospitais que é voluntário! Você é somente um
preguiçoso que sai mais cedo da empresa e usa elas como desculpa.
Meu chefe não falou nada por um tempo, só focou em se levantar, e logo
apoiou-se na mesa em sua frente.
— Eu uso crianças como desculpa?! — debochou. — Eu tenho pena de
você...
— Levou tempo, precisei até comprar informações de algumas pessoas,
sei tudo sobre você, Victor Hugo. Sua remissão, suas visitinhas no hospital, o
motivo de ser adotado — balançou a cabeça. — Bem que Luiza me disse
sobre você...
Luiza?!
Ao ouvir meu nome fiquei em choque. Jamais revelei esses segredos
para Luigi, e ele falar dessa maneira...
Automaticamente olhei para Victor Hugo, e o brilho nos seus olhos
havia sumido totalmente. O desprezo que ele me observava me machucou, e
eu simplesmente não falei nada.
— Eu devia te demitir agora!
— Não precisa! Eu mesmo me demito!
Acho que ninguém esperava essa reação, muito menos Luigi.
Victor Hugo simplesmente saiu da sala de reuniões com certa
dificuldade e sumiu das nossas vistas...
Não perdi tempo, e logo gritei com Luigi: — Por que citou meu nome?
Qual o seu problema?
— Falei seu nome por causa do modo que ele se comportava na
empresa. Você me fez várias queixas no começo. Sobre os assuntos pessoais
eu mesmo fui atrás e descobri o que ele faz... fazia, sei lá, eu não devo
satisfações para você!
Uma raiva crescente se apossou de mim, e quando me preparei para falar
algo, eis que ele foi cercado por vários diretores do conselho.
— Por que escondeu algo tão importante da gente? — Amadeu
perguntou com os braços cruzados.
— Eu sou o dono da GCR! Não preciso dar satisfações!
— Bom, agora precisa... — ele indicou com a mão e... a emissora de
televisão filmava tudo!
Por um tempo havia me esquecido disso, mas tudo foi transmitido em
rede nacional, e isso sim trará um impacto negativo para a empresa.

O caos se instaurou na sala de reuniões, e eu não sabia o que fazer.


Depois de algum tempo, fui à sala de Victor Hugo, mas não o encontrei. Ao
olhar no estacionamento da empresa, vi que seu carro ainda estava lá.
Procurei aqui dentro da empresa onde ele poderia estar, mas não o
encontrei. Ignorei tudo que estava acontecendo no auditório, e percebi uma
mão me tocando.
— Amiga, eu vi Victor Hugo saindo da empresa sem o carro — Estela
falou.
— Há quanto tempo?
— Dez minutos. Eu estava te procurando aqui dentro, mas não te achei
em lugar nenhum.
— Obrigada.
Não pensei muito e logo peguei meu carro e andei pelos arredores da rua
da empresa. Não o vi em lugar algum, e aquilo me desesperou.
O carro dele ainda continuava no estacionamento da empresa.
— Se acalme e pense! — disse para mim mesma, e depois de alguns
momentos fui em direção a sua casa. A distância não era muito grande, ele
poderia muito bem vir a pé.
Depois que cheguei lá, toquei a campainha inúmeras vezes, esmurrei a
porta e nada. Acho que a vizinha dele pensou que eu iria arrombar a casa, já
que ficou me analisando, mas logo em seguida disse: — Ele não está aí!
— Você tem certeza?
— Sim. Estou sentada aqui fora tem algumas horas.
— Obrigada.
Eu não sabia o que fazer.
Depois que entrei no meu automóvel, meu celular tocou e vi que era
Estela.
— Achou ele?! — perguntei apressada.
— Ele voltou na empresa e pegou o carro. Todo mundo que tentou
conversar com ele foi ignorado. Amiga, ele estava muito nervoso, nunca o vi
assim, só... naquele dia que ele quebrou o escritório!
Sua última frase me desesperou. Eu precisava ir em outro lugar.
Depois que cheguei ao destino, logo bati na porta e apertei a campainha,
segundos depois fui atendida por Daniel, que ao ver meu desespero
perguntou: — Você está bem?
— Não.
Precisei contar para ele duas vezes o que havia acontecido. Atropelei
muito as palavras, e a todo momento ele pedia calma, pois não estava
entendendo.
— Daniel... eu não sei o que fazer. Não sei mais onde procurar — falei,
desesperada.
— Vou te ajudar a procurar ele!
“Temos duas opções na vida: seguir em frente ou sucumbir...”

— Vou entrar de férias, mas quer saber: amanhã mesmo vou pedir
demissão!
— Não vai! — Daniel retrucou na hora. — Você não tem culpa de nada.
Mesmo se o dono da empresa mencionou seu nome, não foi você quem
revelou isso para ele. E outra coisa, é melhor esfriar a cabeça, se isso foi
televisionado, as implicações vão todas para esse tal Luigi. Victor Hugo não
iria se perdoar se pedisse demissão porque o defendeu. Aprendi algo bem
importante nesse ramo: Nunca faça nada de cabeça quente!
Estava no carro de Daniel, fomos nos lugares que pensei que poderia
encontrar meu chefe, mas não o vi em lugar algum.
Rodamos boa parte da cidade por algumas horas, e não vimos sinal de
Victor Hugo, até mesmo voltei na casa dele e nada. Toquei a campainha da
vizinha, e ela disse que meu chefe entrou na casa, mas rapidamente saiu em
seu carro.
— Daqui a pouco vai escurecer, Luiza. Se acha que ele pode estar em
outro lugar, é bom que lembre agora. Pela noite vai ficar mais complicado
achar ele.
Fechei meus olhos e me espreguicei no banco do passageiro.
Para qual local ele poderia ir se estivesse irritado com a vida e...
Paralisei olhando para Daniel.
— Agora você está me assustando olhando para mim desse jeito.
— Meu Deus!
— O que houve?
— Espero que eu esteja errada, mas precisamos ir imediatamente para o
morro das aranhas.
Como era caminho, passei em minha casa. Troquei a roupa voando, e
peguei o primeiro tênis que vi pela frente. Indo de salto eu iria perder muito
tempo, e Daniel não sabe o local exato que Victor Hugo me mostrou.
— Precisamos chegar rápido. Alguns pontos daquele morro no escuro
ficam impossíveis de serem vistos, e lá é bastante perigoso — falou.
— Vamos! Pise nesse acelerador e vá o mais rápido que conseguir!
Daniel levou a sério minha frase, e não demorou nada e já estávamos no
morro das aranhas. Olhei meu relógio de pulso e já se passava das 17h. Não
tínhamos muito tempo.
— Para qual local do morro vamos agora?
— Ali — apontei a direção e depois olhei para a suas roupas. — Se
quiser eu vou sozinha, você pode estragar sua bermuda...
— Não me importo com a bermuda! Vamos!
Assenti e segui pela trilha que fizemos dias atrás. Com cuidado fiz o
caminho, tentando lembrar de cada detalhe e não errar por onde passamos.
— Tem certeza de que é por aqui, Luiza? — Daniel perguntou.
— Sim, é um pouco mais lá em cima.
Aqui é um ponto um tanto quanto perigoso. Não me sentia bem de
arrastar Daniel para cá, mas ele mesmo quis vir.
Depois de andarmos um pouco mais, visualizei há alguns metros o local
que Victor Hugo havia me mostrado.
Segui adiante na trilha, e tive certa dificuldade após subir uma grande
rocha. Daniel me ajudou, e agora estávamos lado a lado seguindo juntos.
Olhei para cima, e não só o tempo estava mudando, mas também a noite
estava caindo. Depois que passamos por algumas rochas, vi que estava
chegando, e depois que praticamente escalei uma delas...
Victor Hugo estava aqui...!
Olhei para o lado, e Daniel via a mesma imagem que eu.
— É melhor ir sozinha. Eu fico aqui, não vou ajudar em nada indo com
você agora.
Assenti.
— Obrigada, Daniel.
— Não perca tempo me agradecendo, vá logo!
Rapidamente fiz o que ele disse.
Quando me aproximei, percebi que Victor Hugo estava bem no limite de
uma das pequenas depressões do morro. Nesse momento eu estava a poucos
metros dele.
Depois que ajeitei a minha postura, pude repará-lo melhor e senti
calafrios intensos pelo meu corpo. Victor Hugo estava descalço, mas ainda
com a roupa social que vi hoje pela manhã na empresa. Ele estava com as
mãos nos bolsos e olhando para frente, como se estivesse em um dilema.
Fiquei com medo até mesmo de falar algo, porque ele poderia se assustar e...
Afastei esse pensamento. Estou paranoica e vê-lo nessa posição está me
deixando um pouco mais tensa, ainda assim eu precisava fazer algo.
— Victor Hugo... — falei baixinho, e lentamente ele voltou-se a mim.
Notei hesitação e surpresa em sua face, mas agora que vi seu rosto por
completo não vi irritação alguma, ou até mesmo traços de que ele estivesse
chorando.
— O que está fazendo aqui? — perguntou e dei um passo adiante.
— Achei que estaria aqui, e... preciso te explicar algumas coisas.
— Você não precisa me explicar nada, Luiza. O que estou prestes a
fazer tem grande parcela sua.
Eu não podia acreditar que ele está considerando se jogar do morro por
minha culpa...
Ela estava parada ali, me olhando com enorme tristeza e preocupação.
Luiza parecia querer falar algo, mas ficou calada após a minha última
frase. Ela ainda não entende que eu precisava estar aqui hoje. Agora.
— Victor Hugo... não faz isso, por favor — começou a soluçar e chorar
em seguida. — Eu sei o que está passando, entendo o motivo da sua dor, mas
por favor... eu estou aqui. Eu vou te ajudar, saia daí, pelo amor de Deus! —
suplicou.
— Luiza, o que está vendo...
— Não quero que tire a sua vida! — bradou, e vi as lágrimas jorrando
de seus olhos — Foi você mesmo quem me disse há alguns dias que
precisamos ser intensos, aproveitar a vida, já que nem todos tem essa
oportunidade. Foi você quem disse isso — completou baixinho.
— Sim, eu disse.
— Então... não me mate aos poucos. — Mais uma lágrima rebelde caiu
dos seus olhos. — Eu me apeguei a você de tal forma que sinto as suas dores.
Te ver bebendo, lutando com algo invisível e não vencendo me mata por
dentro. Eu quero muito te ajudar, mas você precisa lutar, ser forte, porque...
tenho noção do que pode acontecer na sua cabeça se não enfrentar essa dor.
Então... por favor, venha para cá. Saia desse penhasco
Sorri.
Luiza Goulart... uma das poucas pessoas que me confrontou está me
dizendo coisas tão profundas, e além de tudo, revelando os seus sentimentos.
— Eu preciso fazer algo antes, Luiza — dei um passo à frente e fiquei
no limite daquela elevação.
— Não! — ouvi o seu grito, e me alarmei. — Pare! Eu te amo, pare com
isso! Por favor... — ajoelhou, e novamente começou a chorar.
Isso era injusto com ela.
Estou sendo um homem muito injusto nesse momento, pensando só em
mim. Ela merece saber o motivo de eu estar exatamente nesse lugar agora.
— Eu também te amo! Mais do que imagina, e por mais que eu tenha
pensado pelo menos por um momento que revelou meu segredo para o Luigi,
vi que aquilo não fazia sentido algum, era ele quem estava me investigando.
Você não é culpada de nada, Luiza. Não pense nisso um segundo sequer.
— Então, por que está fazendo isso? Por que... se matar?! — perguntou,
ainda chorando.
— Não vim me matar... — Tirei do meu bolso o bilhete que estava
comigo ao ser abandonado. — Eu vim aqui justamente para me libertar!
Luiza fixou os olhos nos meus e vi algo diferente nascendo ali:
esperança!
— Depois de vários anos vi que a fonte de todos os meus medos e
receios veio desse bilhete. O início de tudo. Todos os dias me lembro dessa
merda, e depois tudo vira uma bola de neve, e... acho que sabe o final dessa
história.
— E o que vai fazer?
— Vou tirar da minha vida esse pedaço de papel que tanto me fez mal, e
espero que a partir de hoje eu seja um novo homem.
Fitei aquele papel, e novamente toda aquela dor do passado veio à tona.
Eu sou um homem falho, e sei disso. Em inúmeras vezes deixei de lutar
contra os meus medos e me entreguei. Pensei que somente o fato de perder as
crianças que tanto me apeguei me deixavam para baixo, mas não, há mais
camadas e esse papel é uma delas.
Todos os dias reflito sobre o bilhete que meus pais deixaram em cima de
mim quando me abandonaram. Me sinto um lixo ao pensar que fui
abandonado como uma pessoa qualquer por ser doente.
No fundo, estou cansado de dar desculpas para ter me tornado um
homem amargurado, agora quero seguir olhando para frente, e preciso me
libertar do passado.
— Se quer ser um novo homem, se liberte! — Luiza disse com
determinação.
Olhei para aquele papel amassado. Ele não deveria passar de um papel,
mas infelizmente ele se apossou do meu corpo de uma forma que não consigo
explicar.
Fechei meus olhos.
Eu vou me tornar um novo homem!
Não titubeei, e simplesmente o joguei fora.
O observei se perdendo naquela imensidão verde, e aquilo me aliviou.
Também fiz um pedido: que toda dor, todo o sofrimento, toda angústia que
um dia se apossou do meu corpo se dissipassem. Eu verdadeiramente queria
que uma parte do meu passado fosse apagada, e senti no meu coração que eu
deveria fazer isso. Dar o primeiro passo.
Por um breve momento fechei os meus olhos, respirando fundo.
Claramente me sentia melhor, mas ainda preciso me libertar de outros vícios.
Em seguida, tomei cuidado e saí da extremidade onde me encontrava,
indo na direção daquela mulher que abalava minhas estruturas. Minha Luiza.
Eu sequer tive tempo de falar algo, e quando ela percebeu que não
estava em perigo, se levantou e me abraçou apertado, como se nunca mais
fosse soltar. Acho que não mereço uma mulher como ela, mas vou provar dia
após dia que serei o homem certo para ela.
— O que me disse é verdade? — balbuciou, ainda com os olhos
marejados.
— Tudo! Principalmente a parte em que te amo — toquei seus cabelos,
e logo ela fechou seus olhos, roçando a mão na minha.
— Então... estamos bem um com o outro? — perguntou, vacilante.
— Acho que nunca estivemos melhor! — passei o polegar em seu rosto,
admirando a linda mulher que estava diante de mim. — Eu quero que saiba
de algo.
— O quê?
— A partir de hoje irei me tratar. Meu vício nas bebidas não vai ser
curado de um dia para o outro. Esse foi o primeiro passo, e espero que esteja
comigo nos próximos.
— Farei o que tiver ao meu alcance para te ajudar.
— Disso eu tenho certeza, gracinha — beijei sua testa e logo fui
abraçado.
Nunca senti por alguém o que estou experimentando por Luiza agora.
Nem em meus melhores sonhos julguei ser capaz de ter um sentimento
tão forte por alguém. O que ela causou em mim eu não sei, mas não vou
decepcioná-la.
Não mais!
— Sabe... estou longe de ser uma mulher perfeita, mas do fundo do meu
coração serei perfeita para você!
“Quando o amor chama, precisamos nos entregar...”

Depois que desci uma parte do morro das aranhas, vi uma figura
conhecida à nossa espera.
— E aí, Falcão?
Durante um tempo ele não falou nada, só me fitou com curiosidade,
alternando seu foco entre mim e Luiza.
— O que tava fazendo aí? — perguntou com certa impaciência.
— Me libertando — dei um beijo na testa de Luiza, e parece que esse
gesto juntamente com as minhas palavras fizeram seu rosto se suavizar.
— Então você não veio para...
— Pular?! Não! Vi que é um pouco alto, sabe?! Fiquei com medo — dei
uma piscadinha e tomei um belo tapa de Luiza.
— Brincadeira tem limites! Vamos sair daqui que tá ficando escuro.
Percorremos a trilha cuidadosamente, e quando dei por mim já
estávamos entrando em seu carro, e saindo do morro.
— Foi necessário, Daniel — disse no automático, sem fazer nenhum
tipo de brincadeira. — Preciso dar um passo de cada vez, e esse foi o
primeiro. O segundo é parar de beber, e o terceiro é fazer terapia, qualquer
coisa que me ajude a ficar estável.
— Luiza me contou que na apresentação de hoje você ficou tonto e caiu,
mas que não parecia estar bêbado.
— Sim. Tomei alguns remédios por conta. Misturei Diazepam com mais
um e acho que o efeito colateral me deixou...
— Aéreo. Isso se chama vertigem.
— É, deve ser. Não bebo desde que fui à sua casa — sorri para Luiza,
que retribuiu.
— Então você já está no caminho certo.
Depois que Daniel ligou o carro, fomos para a casa de Luiza, a pedido
dela.
Não falamos muito, mas trocamos algumas palavras entre nós. Daniel
pelo jeito continua um homem sério na maior parte do tempo, e se realmente
um dia ficarmos amigos, irei pegar muito no pé dele, com respeito.
Ou não...
Após chegarmos, Luiza e eu descemos do carro, e logo voltei-me ao
meu eterno rival.
— Obrigado por ajudá-la a me encontrar, Daniel.
— Não precisa agradecer. Os dois: se cuidem. Por favor, me atualizem
do seu progresso — disse essa última frase e logo seu carro arrancou, sem me
dar direito a resposta.
— Aparentemente Daniel Falcão gosta de mim. Pouco, mas gosta —
sibilei.
— Está no começo, mas ao que parece ele está te dando uma chance
sim. Acho que ele se identifica com o seu passado, mais do que pensa.
Depois que entramos, ela foi imediatamente atender uma ligação.
Pela maneira que falava, percebi que o seu papo era com Renata, e o
assunto era eu, pra variar.
Depois que ela desligou, sentou-se no sofá, me analisando.
— Meu bibelô estava muito preocupada com você, me ligou várias
vezes para saber se tinha te encontrado.
— Sabe, eu gosto muito dela.
— Eu também. Mas... — Luiza deu um pequeno sorriso. — Ela me
xingou bastante por eu não ter retornado enquanto estava no carro com você.
Essa é a Renata, quer tudo pra ontem e não consegue esperar.
Sorri.
Não estou acostumado a conviver com pessoas que se importem comigo.
Antes de voltar para Florianópolis, eu sabia que meus pais tinham esse
sentimento por mim, e também as crianças que ajudei no decorrer dos anos.
Agora é diferente. Tenho mais pessoas ao meu redor, e isso está me
ajudando bastante. Nem preciso dizer que foi Luiza quem começou esse
processo. Ela abriu as portas do meu coração, literalmente.
Sempre escondi o que sentia, e guardava para mim todas as dores que
acumulei em minha jornada, mas agora sinto que estou no caminho certo para
fazer novas amizades, e de certa forma esquecer uma parte dos meus traumas.
— Você está muito pensativa — falei, e ela desviou seus olhos dos
meus.
— Eu estava conversando com Daniel, e estou cogitando pedir
demissão.
— Luiza, eu vou falar a mesma coisa que com certeza ele te falou: você
não tem culpa do que aconteceu.
— Como sabe?
Sorri.
— Simples, temos pensamentos iguais, e eu tinha certeza de que ele
diria o mesmo que eu. Quando Luigi citou seu nome, fiquei com bastante
raiva, e te culpei por tudo na hora, mas depois que esfriei minha cabeça
percebi que você não diria algo tão pessoal a ele. Não culpo Luigi, eu no
lugar dele também iria querer saber o motivo da pessoa mais importante sair
cedo da empresa alguns dias, mas a maneira que ele expôs aquilo na frente de
todas as pessoas, e também colocando as crianças no meio daquela forma...
Respirei fundo. Aquilo sim me irritava profundamente.
Falar que eu ajudo as crianças por dó e dizer que não sou um afortunado
por lutar contra o câncer e vencer arrebentou com a minha cabeça, e acabei
jogando tudo pro ar.
— E você se arrepende?
— Nem um pouco. Eu estou cansado, Luiza. Tem vários anos que ando
desmotivado, sem vontade alguma para novos desafios, então não vou ficar
batendo nessa tecla, vou fazer agora o que me faz feliz.
— E o que te faz mais feliz?
— Estar ao lado das crianças — sorri, e o seu sorriso refletiu ao meu. —
Sei lá o que posso fazer além de ser um voluntário, eu tenho muito dinheiro
guardado, posso viajar, estar presente, não sei.
— É um gesto muito bonito.
— E ainda tem você — pousei minha mão em seu rosto, admirando a
mulher incrível em minha frente. — O meu melhor presente está bem aqui, e
eu serei um homem bem tapado se não der valor a essa mulher maravilhosa.
— Sou o seu presente, é? — mordeu o lábio inferior.
— Sim, Luiza.
— Que tal... desembrulhar ele?!
Posso dizer que é extremamente complicado ficar na presença de Luiza
Goulart, essa mulher sexy e safada que mexe com a minha imaginação em
todos os sentidos.
— Você não se cansa de ser safada?
— Não. E você piora tudo quando me olha assim.
— Assim como...? — provoquei.
— Acho que sabe... — Veio por cima do meu corpo, colando sua boca
na minha...
Ter o seu corpo sobre o meu e sentir os efeitos que transbordam em meu
coração ao mínimo gesto que ele tem comigo me deixa nas nuvens.
— Quero só você... — beijou minha testa. — Somente você... — passou
a língua pelo meu pescoço. — Sempre você... — terminou tomando os meus
lábios, e... eu já não sabia de mais nada.
Nesse ponto eu já estava com medo de perder esse homem, estávamos
envolvidos de uma forma tão intensa.
Nossas roupas estavam em um lugar qualquer do chão agora, e eu só
pensava em quão boa era a sensação de ele estar dentro de mim.
— Eu te amo, Luiza — falou, e sem direito de resposta tocou meus
lábios. Em seguida acariciou meu rosto. — Você é linda, forte, amiga. Eu não
sei se mereço alguém assim.
Novamente tomou a minha boca, e logo o aninhei em meu corpo, não
querendo ele longe de mim um segundo sequer.
Não pensei que um sentimento crescesse tanto em um período tão curto,
mas gosto de ser surpreendida, e agora me pego perdidamente apaixonada
por esse homem.
— Só fique comigo...
— Eu vou, também te amo! — mergulhei minha língua em sua boca, e
enquanto ele se movimentava dentro de mim, tentei esquecer tudo e focar
somente naquele homem que tornou-me uma melhor versão de mim mesma.
Pude sentir inúmeras sensações durante o tempo que o sexo continuou.
Agora sei o que é fazer amor com alguém, e é mil vezes melhor do que
transar por transar.
Victor Hugo me mostrou um novo mundo, e aprendi muito com as suas
atitudes. Nunca fui tocada dessa forma por nenhum homem, e na realidade
jamais me permiti experimentar tal sensação.
Sempre fui uma mulher decidida quando sexo estava envolvido, e jamais
acreditei que poderia sentir em minha própria pele o que Beatriz sempre falou
para mim. Na época não sabia se ela era uma afortunada ou uma pessoa
comum ao sentir aquelas sensações, o amor de Daniel, e outras coisas.
O que estou tentando desesperadamente dizer é que estou feliz! Isso está
transbordando meu ser, e a cada gesto eu me sinto melhor comigo mesma, e
sei que no fundo precisamos de alguém que nos complete. E eu achei meu
par.
Agora posso afirmar com toda a certeza que acredito em recomeços...
“Quem não gosta de uma reuniãozinha animada?!”

Estou ansiosa.
Hoje é sábado, mas toda a turma estaria reunida.
Toda!
Sim, acho que estou um pouco empolgada em reunir os dois CEO’s que
fizeram da minha vida um inferno, juntamente com a Beatriz e meu bibelô.
Se alguém dissesse que isso aconteceria mais de uma vez, eu iria rir na
cara da pessoa.
— Eles chegaram! — Victor Hugo falou e logo foi atendê-los, afinal a
casa era dele.
Ajudei meu homem a fazer faxina antes deles virem. Ele parecia
bastante animado, e mesmo agora desempregado, ele não está parado, já que
agora está se exercitando, começou a terapia essa semana, e parou de beber.
Por enquanto não houve deslize por parte dele, e o estou controlando
bem de perto.
Depois que Beatriz, Daniel e Renata passaram pela porta, fui para a sala
cumprimentá-los.
— Gostei daqui — Daniel falou. — É bem simples e calmo, ao contrário
do dono que é bem complexo e espalhafatoso.
— Eu também gosto de você, Daniel.
O que não mudou em nada entre os dois continua são as provocações
constantes.
— Obrigada por aceitarem o convite, e se virem alguma sujeira pela
casa, culpem esse homem aqui — apontei para Victor Hugo. — Ele fez
faxina!
— Meu rival fez faxina?! Preguiçoso do jeito que é? — Daniel
ponderou.
— Olha aqui, Falcão...
As meninas me olharam e reviraram os olhos, e como se soubessem o
gesto me acompanharam na direção da cozinha.
— São duas crianças! — Beatriz sibilou, me ajudando com os pratos.
— Minha mentalidade é mais madura que a deles — Renata falou. —
Acho que até a da Luiza é.
Fechei a cara e quase mandei meu bibelô ir pastar.
— Já entendemos senhorita adulta demais pra sua idade, agora me
ajude aqui.
Depois que nos juntamos, pegamos tudo e levamos para a sala. Daniel e
Victor Hugo estavam lá discutindo, mas pelo jeito o assunto é esporte, porque
envolve bolas, e disso não entendo muito. Duvido que estejam falando das
bolas deles...
Enfim, tudo estava preparado, e poderíamos cear tranquilamente.
— Ahh, para com isso. Os Bulls nunca foram melhor, você tem merda
na cabeça, Daniel?
Ou nem tanto...
— Crianças... o almoço está pronto.
Ambos ficaram se encarando com a cara fechada: um com os braços
cruzados e outro com as mãos nos bolsos.
— Isso está longe de acabar, Victor Hugo!
— Pode apostar, Falcão!
Depois do fim da discussão, pudemos comer e conversar tranquilamente.
O foco agora era em Renata, o problema é que a resposta à pergunta que
fizeram a ela foi um tanto arriscada.
— Ah, baixinha, é lógico que sabe quem é o melhor professor. E nem
adianta vir falando pra mim que é o Falcão, ser fã dele é uma coisa.
— Já disse que não tenho preferidos — disse, impassível.
— Sou eu, mas ela não vai dizer, Victor Hugo. Estamos na sua casa, ela
te respeita.
Comecei a rir e Beatriz fez o mesmo.
— Uma ova! Se ela não trabalhasse com Beatriz, ela diria a verdade.
— Isso é indiferente para mim! — Olhou para os dois com ar de
superioridade, e não entendi bem. — A pessoa mais poderosa aqui é a
Beatriz, depois Luiza e eu, só depois... os homens. Adoro vocês, meus
professores, saibam disso, mas agora são donos de casa. Deixem os assuntos
de negócios para quem está no ramo.
Beatriz não se segurou e gargalhou, e até mesmo eu me desconcentrei
depois dessa carcada que Renata deu em ambos.
— Você merece outra promoção, Renata — falou e logo ela sorriu.
— Viu isso, Falcão? Olha do jeito que elas nos tratam!
— Realmente, eu tinha mais valor, agora... são coisas assim que recebo
em casa.
— E o drama? Para mais não?! — Beatriz falou e Daniel se calou.
— Ouvi boatos que ficaria estudando um tempo para montar uma
empresa, por que ainda não vi a Daniel Falcão Entertainment criada? —
Victor Hugo questionou.
— Com esse nome jamais verá! Mas sim, estou estudando alguns
assuntos e acho que ano que vem vou abrir meu próprio negócio.
— E por um acaso não precisa de um CEO? — deu uma piscadinha
nada discreta.
— Sim. Eu mesmo!
— Posso ser o dono então, e você o meu CEO. Não me importo. Mas se
quiser me contratar, só preciso sair mais cedo alguns dias e ter um horário
flexível de trabalho.
Sorri. Esses dois...
— Obrigado por se oferecer para o cargo, mas a reposta é não!
— Ah, agora gostei da ideia. Seria excelente voltar a trabalhar com uma
pessoa abaixo de mim no quesito inteligência!
— Foi uma péssima ideia vir em sua casa!
— Mas como está aqui, vai me ouvir...
E lá se foram o pouco tempo de paz que restava, pois a mascara de
adulto deles caíram e logo voltaram aos comportamentos habituais de
meninos mimados. Mais pareciam irmãos na realidade.
— É por isso que estou solteira! — Renata apontou para ambos, que
voltaram a discutir. — Eu sou capaz de matar um homem se ele ficar no meu
pé! Eu sempre tenho que ter a razão no fim das contas.
— Bibelô. Isso é porque ainda não encontrou o amor verdadeiro. A
gente fica meio tapada mesmo, não é, Beatriz?
— Sim... — fez uma carinha de coitada. — Não temos escapatória.
— Credo! Prefiro minha solteirice!
— Beatriz... ando notando Renata muito pra baixo ultimamente.
— Eu também — respondeu.
— Hã?!
— Ela precisa de um pau pra escalar — pontuei.
— Podemos levar ela em uma casa de massagem.
— O quê?! — os dois homens perguntaram ao mesmo tempo, e aquilo
me deixou surpresa.
— Foquem na conversa de vocês, isso aqui é assunto de mulher —
Beatriz falou.
— Casa de massagem é assunto de homem — Victor Hugo falou.
— Concordo — Daniel assentiu.
— Como eu disse... continuem a discussão de vocês, estamos orientando
a Renata.
— Não! Agora preciso dos meus professores ao meu lado. Podem entrar
no assunto — sorriu de forma amável e os dois se entreolharam, mas
voltaram-se a ela com desdém.
— Você não foi capaz de falar quem era o melhor, então se vire sozinha
— Victor Hugo falou.
— Daniel...? — Renata perguntou, e logo ele suspirou.
— Gosto muito de você, mas confio em seu potencial, é esperta demais,
então... se resolva com elas.
Foi engraçado ver os dois a deixando na mão.
— Homens...
— Qual era o assunto da pauta mesmo...? — perguntei e Beatriz me
lançou um sorrisinho malicioso.

Meus convidados permaneceram aqui por várias horas.


Apesar do constante embate dos meus chefes, no fim das contas eles
foram ver um jogo de basquete na televisão.
— Nunca pensei que isso fosse acontecer — Beatriz apontou com a
cabeça na direção deles, e Daniel estava rindo de alguma coisa que seu rival
falou.
— Nem me fala! Sabendo a história dos dois também julguei ser uma
coisa impossível, mas que bom que nós duas estávamos erradas.
— Eles só precisavam se conhecer melhor. O foco deles foi tanto em
competir um com o outro que esqueceram o que realmente importa, e estou
feliz por essa aproximação.
— Eu também! — sorri, e logo analisei Victor Hugo fazendo chacota de
Daniel.
Tive todos os motivos para odiar os dois.
Daniel não era uma flor de pessoa na Argo’s e foi enérgico várias vezes
comigo, quase me fazendo chorar em algumas oportunidades. Já Victor Hugo
me irritava quase todos os dias com a sua preguiça.
É um bom duelo no fim das contas.
— O que tanto digita nesse celular, Renata? — Beatriz perguntou.
— Dispensando encontros! Os homens não sabem ouvir a palavra não, e
quando abrem meu Instagram e veem minhas fotos ficam doidos. Sou bonita,
mas às vezes cansa, sabe? — falou e logo começamos a rir.
— Acho que está andando demais com Luiza. Sua autoestima está no
teto.
— Ah, sempre foi. Luiza também é assim, mas ela é meio...
— Cê pensa bem o que vai falar, senão esse celular vai voar na sua cara,
fedelha!
Renata sorriu e chegou mais perto me abraçando.
— Gosto muito de você, Luiza.
— Acho bom! — disse, fingindo estar séria, e logo ela se afastou.
— Mas eu ia dizer que era meio burrinha. Só às vezes!
Levantei do sofá e fui atrás da criança, e ela correu, porque não é boba e
sabia que iria apanhar.
— Eu amo duas mulheres! — Beatriz disse, se divertindo.
— Vamos, amor? Não aguento mais Victor Hugo mentindo na minha
cara. — Levantou-se do sofá.
— Ah, que isso. Eu serei o melhor para a Daniel Falcão Entertainment.
— Fez o mesmo.
— Quero o melhor, não o pior.
— Iremos discutir os termos do contrato. Sei que vai mudar de ideia.
— Sem chances!
— Convença ele, Beatriz! Seu marido precisa sair mais, espairecer a
cabeça, conversar com alguém tão inteligente quanto ele. Além disso, vou
tirar ele de casa, eu sei o quanto ele pode ser um pé no saco!
Minha amiga deu uma risadinha, voltando-se para o marido.
— Acho uma boa, amor.
— Não me faça pedir o divórcio, por favor — falou e começamos a rir.
Vendo todas as pessoas felizes, eu percebi que precisamos de momentos
assim. A vida é curta demais para nos apegarmos ao passado, o presente é e
sempre será o período mais importante de nossa vida...
“É tempo de colher os frutos do passado...”

6 MESES DEPOIS

Os meses que se seguiram voaram.


Muita coisa mudou, e querendo ou não fui afetada por essas mudanças.
A GCR quase faliu. A ideia de Luigi em chamar uma emissora para
televisionar a reunião não foi uma boa ideia, já que segredos escaparam,
fazendo com que o conselho se voltasse contra ele.
E não foi só esse o problema, já que a credibilidade da empresa afundou
quando aquele vídeo foi espalhado pelos quatro cantos do Brasil. Fomos de
empresa mais rica do Estado a uma empresa a beira da falência. As ações
caíram quase 90%, e já previa ficar desempregada.
Luigi não teve outra opção a não ser vender a GCR a preço de banana,
perdendo vários milhões por isso. Até o mesmo o nome mudou, agora aqui se
chama MEG Turismo.
Renan, o novo dono, não quis de forma alguma que as pessoas
associassem o nome antigo a ele, e investiu pesado em propaganda e
publicidade informando que agora a empresa está sob nova direção.
Eu particularmente não fui afetada.
Mantive meu cargo, e acho que 90% da empresa também. O conselho
nem preciso dizer que foram todos mandados embora, e agora os novos
diretores são o pessoal de confiança de Renan.
Quanto ao CEO, tenho um novo chefe. Ele se chama Olavo e tem 55
anos de idade.
Não tenho o que reclamar dele. Olavo é um senhor bem proativo, e
odeia deixar serviço acumulado. Como sou igual a ele nesse ponto, nos
entendemos bem, e nosso trabalho flui.
Meu ex-chefe agora está bastante ocupado, mais do que quando
trabalhava aqui. Com esse tempo livre, ele focou mais no hospital da cidade,
e agora passa mais tempo com as crianças, além de tudo, ele e Daniel estão
estudando um projeto juntos.
Sim, isso mesmo.
A insistência dele foi tão grande que o poderoso Daniel Falcão cedeu, e
pelo visto estão pensando em abrir algo juntos. Meu bibelô nem gostou da
ideia...
Ela agora vive grudada nos dois quando não está na empresa, e está
adquirindo um conhecimento enorme só de ficar perto deles. Até o humor
dela deu uma melhoradinha...
Victor Hugo também deu um passo importante na sua luta contra a
bebida alcoólica. Ele agora está fazendo terapia, frequentando um grupo de
AA e contando sua história para os seus mais novos amigos. Vez ou outra ele
me diz empolgado o que ele está aprendendo e como as outras pessoas do seu
grupo estão superando o vício. Percebo nitidamente o quanto ele está
empolgado.
E por falar nele, hoje é o aniversário do meu homem...
— Victor Hugo gosta de surpresas? — Beatriz perguntou, enquanto
arrumava os talheres e guardanapos de uma das mesas. Ela disse que estavam
tortos, típica perfeccionista...
— Iremos descobrir daqui a pouco.
— Eu só não entendi uma coisa — pontuou, me olhando desconfiada. —
Por que alugar uma chácara desse tamanho para o aniversário dele? Pensei
que seria restrito, e você mesma falou que Victor Hugo não tem muitos
amigos.
Como ela disse, alugamos uma chácara na saída de Florianópolis para
essa pequena festa. O dono do local liberou trazer até 100 pessoas. Já temos
quase 20 confirmadas.
— Faz parte da surpresa.
— Luiza Goulart... o que está tramando?
— Quando chegar a hora vou te contar — dei uma piscadela.
Durante os minutos que se seguiram trabalhamos duro, não só eu, mas
os outros convidados também: Renata, Beatriz, Estela, Madalena, Letícia e
até mesmo Olavo, o novo CEO da MEG Turismo.
Sim, eu mesma chamei algumas pessoas da empresa para essa festa
surpresa, e ao final dela irei descobrir se fiz o certo.
— Estou exausta — Beatriz falou, sentando-se.
— Eu também — Renata fez coro.
Meu bibelô fez questão de vir ajudar. Sei que ela se tornou uma grande
amiga de Victor Hugo, e aquilo alegrava o meu coração.
— Mudando de pau pra cacete, já que é pão dura, acho que guardou
muito dinheiro de uns tempos pra cá, né, Luiza? — Beatriz perguntou e sorri.
— Estou com 100 mil na conta, amiga.
Beatriz me olhou incrédula, quase avançando em mim.
— Espera... você tinha isso há um ano.
— Precisei usar boa parte do dinheiro para... coisas maiores.
— Que coisas?
— É segredo.
— Luiza Goulart...
— Talvez hoje você descobre — pisquei. — Nunca se sabe...
— Eu tô com medo do que fez.
— Não se preocupe, no fim tudo dá certo.
— Para onde está me levando? Isso é um sequestro? Eu preciso gritar?
— falei, me divertindo e meu rival fechou a cara.
— Acho que tem uma ideia, mas não posso estragar tudo.
— Pelo jeito fizeram uma festa surpresa para mim.
Daniel me olhou de soslaio e acenou positivamente.
— Você acaba de estragar tudo, Daniel.
— Eu não. Você acertou e eu confirmei, então que tal chegar lá e você
fingir surpresa, abraçar todo mundo e falar que não esperava esse gesto?
— Não sou muito bom em fingir.
— Verdade. É excelente! — falou e olhei para ele, sorrindo em seguida.
O trajeto não foi tão longo, e quando dei por mim havíamos chegado em
uma linda chácara.
— Puta que pariu! Que chácara do caralho é essa?!
— Eu também acho que não merecia tanto, mas Luiza fez questão —
debochou, mas abri um largo sorriso ao me lembrar dela.
Em que momento da minha vida poderia sequer pensar que uma mulher
me bastaria? E mais: quando pensei que amaria alguém como amo minha
gracinha.
Descemos do carro, e nos encaminhamos por um caminho sinuoso,
descendo algumas escadas, e logo após chegamos em um enorme salão. Nele
havia um palco enorme, e inúmeras mesas dispostas no mesmo.
— Não se esqueça, finja demência.
Sorri.
— Prometo tentar.
Depois que dobramos o último corredor para enfim ter acesso ao salão,
logo notei alguns rostinhos conhecidos, e todos me analisavam felizes. Acho
que deve ter umas 25 pessoas aqui, e boa parte delas trabalhava comigo na
antiga GCR. Pelo visto não sou tão odiado, ou a Luiza é muito persuasiva. E
por falar nela...
Depois que Daniel e eu entramos de fato no salão, ela veio até mim e me
deu um abraço apertado.
— Feliz aniversário, estrupício.
— Obrigado, gracinha — passei meu polegar sobre a sua bochecha e ela
fechou os olhos.
— Que tal? — apontou para o salão, e olhei aquela linda decoração à
minha volta.
— Gostei muito. Acho que sabe, mas ninguém fez um aniversário desse
jeito para mim. Eu geralmente evitava trabalhar quando fazia aniversário.
— Isso irá mudar. Acostume-se. Ainda farei várias festas surpresas para
você.
— Que de surpresa não têm nada, né? — provoquei. — Eu sabia o que
iria acontecer aqui.
— Ah, é? Tá falando que desconfiou de tudo? — Cruzou os braços, me
encarando.
— Sim.
— A gente vai descobrir isso agora — falou, voltando sua atenção a
Renata e Beatriz, que saíram do salão.
Não entendi muita coisa.
— Me dê, licença. Ainda falta uma coisinha...
Dito isto simplesmente subiu no palco e pegou um microfone.
— Primeiramente eu quero agradecer a todas as pessoas que vieram
comemorar o aniversário do Victor Hugo. Sei que boa parte de vocês viram
que ele foi um homem bipolar na empresa, às vezes não conversava com
ninguém, em alguns momentos sorria para os funcionários do nada, levava o
violão e começava a cantar, enfim... saibam que estou tentando melhorar esse
lado dele.
O pessoal não se conteve e começou a rir.
— Mas... agora falando sério, eu fiz questão da presença de todos aqui
— o rosto dela ficou bem sério. — Muitas pessoas me perguntaram o motivo
de eu ter alugado uma chácara tão grande, se muitas pessoas não iriam vir.
Na verdade, eu precisava era de um lugar maior, pois infelizmente devo pagar
uma bela multa por exceder o limite de 100 pessoas do local.
De soslaio olhei ao redor, e tive certeza de que não havia nem 30
pessoas aqui.
— Então, o que quero dizer é que me senti na obrigação de trazer
também as pessoas que marcaram a vida dele de alguma forma, e vice-versa
— olhou para mim, emocionada. — Espero que goste.
Quando ela terminou a frase, algo me ocorreu, mas isso não seria
possível. Eu...
Meus pensamentos foram interrompidos quando percebi inúmeras
pessoas descendo a escada do lado contrário onde eu estava e indo em
direção ao palco. Aqueles rostos...
Eu não posso acreditar no que estou vendo, e quando enfim descobri do
que se tratava, logo coloquei as duas mãos no rosto e comecei a chorar por
um belo tempo.
— Victor Hugo... — Uma voz doce disse ao microfone, e percebi na
hora que era Melissa quem estava lá no palco, juntamente com as outras
pessoas. — Eu quero agradecer por tudo que fez por mim em Belo Horizonte.
Naquela época, quando eu tinha 8 anos, eu era uma menina triste e fraca,
vivia emburrada e estava entregue, mas depois que você se tornou voluntário
no hospital e fez questão de brincar comigo e conversar assuntos que eu
gostava, passei a tentar de alguma forma superar o câncer. Não vou mentir,
eu fiquei bastante triste quando saiu da cidade, mas por mais que fosse
novinha, eu sabia que você ajudaria mais crianças onde estivesse, e continuei
a minha batalha. Eu nem consigo dizer o quanto fiquei feliz quando Luiza
entrou em contato comigo para falar que iria fazer uma surpresa para você, e
fiquei mais feliz ainda quando ela disse que traria o máximo de pessoas que
passaram o mesmo que eu para dizer uma coisa... — Ela fez uma pequena
pausa e olhou para todos.
— Nós vencemos o câncer!
Todos que estavam no palco disseram ao mesmo tempo e... eu não sei
expressar em palavras o que estou sentindo agora. Estou com vontade de
chorar mais um pouco, mas ao mesmo tempo estou tão feliz que não sei o que
falar.
— Queremos te agradecer por tudo que fez pela gente. Agora estou com
18 anos e venci essa batalha há 4 anos. Obrigada por nos ajudar.
Depois que falaram isso, todos desceram do palco e vieram de encontro
a mim.
Sempre me questionei se tinha um coração bom, já que não me
importava com muitas pessoas, mas a felicidade que estou sentindo ao ver
esses rostinhos é... indescritível.
Por mais que faça vários anos que ajudei algumas dessas crianças, e
algumas estejam adultas agora, lembro cada trejeito delas. Não tenho palavras
para isso.
Sabe quando você quer que o tempo congele? Eu me sentia assim. Não
queria deixá-las, eu precisava ouvir a história de vida de cada uma das
crianças que pude de alguma forma ajudar no passado.
Abracei todas elas, e me emocionei em cada abraço. Nunca poderia
esperar que esse pudesse ser o melhor dia da minha vida, mas é disparado o
melhor de todos...
Acho que estava tão emocionada quanto Victor Hugo ao ver essa linda
cena acontecendo bem na minha frente.
— Não precisa me falar nada, amiga. Agora eu sei o motivo de ter os
100 mil na conta — Beatriz falou me abraçando em seguida.
— Senti no meu coração de fazer isso. Não me arrependo e faria de
novo.
No total consegui trazer 78 pessoas dos hospitais que Victor Hugo foi
voluntário. Perdi muitas noites fazendo ligações, conversando com
familiares, perguntando se podiam se deslocar, enfim, era necessário.
Na verdade nem posso usar a palavra perdi noites, pois na verdade foi o
contrário. Eu as ganhei.
Victor Hugo agora estava com seus pais, e apresentava aquela multidão
de pessoas a eles. Vi o quanto Ana Maria e Sérgio estavam felizes em
compartilhar esse momento especial do filho. Acho que todos aqui.
Enquanto as pessoas conversavam com os pais dele, percebi ele me
olhando, e logo em seguida veio para mais perto.
Ficamos frente a frente, mas não dissemos uma palavra sequer por
bastante tempo.
— Por que fez isso? — chegou pertinho de mim, ainda emocionado.
— Fiz porque eu te amo. Você ajudou todas essas pessoas quando elas
eram crianças, e elas estão vivas. O mundo é cruel, eu sei. Mas quero que
enxergue o bem que fez ao longo do tempo. E... eu queria que as crianças te
reencontrassem também.
Victor Hugo meneou a cabeça em negação, e logo depois segurou meu
rosto com as duas mãos.
— O que eu fiz para merecer uma pessoa que nem você, me diz?
— Não sei. Eu...
— Espera, me deixe falar agora — analisou meus olhos, ainda
emocionado. — Você fez tudo para mim, Luiza! Tudo! Desde a primeira vez
que passou a entender um pouco mais sobre a minha história, você estava lá,
sempre presente para me ajudar. Me tirou da rua quando bebia demais, me
jogou na água fria, tentou entender o que se passava comigo... e o que eu fiz?
Continuei acabando e acabando com meu corpo.
— Victor...
— Shh. Deixa-me falar — tocou meus lábios. — Eu não te amo só
porque é autêntica, gostosa e safada.
Sorri, sem graça.
— Eu te amo porque é amiga e companheira, por mais que não entenda
tudo que se passa em minha cabeça, está aí para me ajudar em tudo que
preciso. Eu tinha vergonha, não vou mentir. Por um tempo me senti tão
superior às pessoas com quem eu trabalhava que no meu ponto de vista elas
estavam abaixo de mim, mas não. Era eu quem estava no buraco, somente
existindo, até que te encontrei. Você despertou o melhor em mim, me fez ver
o quanto a vida pode ser boa, que perdas irão acontecer e não podemos fazer
nada quando isso acontece. Luiza... — segurou minhas mãos, emocionado.
— Prometo me tornar uma versão melhor de mim mesmo, e vou estar aqui
sempre que precisar, serei o seu homem, e espero que seja a minha mulher.
— Isso... é um pedido de namoro?
— Definitivamente é.
Sorri, maravilhada.
Nunca pensei que iria aceitar o pedido de namoro de homem algum, até
porque...
— Então... — fiz um suspense. — Eu aceito. Mas só porque insistiu —
falei, e ele logo me pegou no colo, me girando.
— Eu te amo, estrupício.
— Não mais do que eu, gracinha.
É difícil medir a felicidade em si próprio, mas se eu conseguisse teria a
certeza de que meu corpo estaria inundado desse sentimento.
Victor Hugo não ficou muito comigo nesse dia, e eu já sabia que isso
aconteceria. As pessoas que vieram ficariam aqui somente hoje, e ele
claramente queria recuperar o tempo perdido.
Meu homem ficou pulando de mesa em mesa durante as horas que se
seguiram. Vi ele emocionado várias vezes, chorou em algumas
oportunidades, riu na maior parte do tempo, e eu só conseguia ver o quanto
essa visita fez bem para todos os envolvidos.
— Desculpa te chamar de burrinha algumas vezes. Você evoluiu, amiga
— Renata veio do meu lado e logo a abracei.
— E me desculpa pensar que toda vez que te vejo você diminui mais um
pouco, bibelô... — falei, e ela fechou a cara.
— Como é?!
— Vem cá, fofinha.
— Não! — empinou o queixo. — Vou ficar com meus amigos
verdadeiros. — Saiu de perto, mas de soslaio a vi sorrindo.
Renata, Renata, Renata...
Quando o amor te pegar, você tá ferrada...
“Uma nova história se aproxima...”

2 ANOS DEPOIS

Os dois anos que se seguiram foram mágicos em vários sentidos.


Eu, juntamente com a turminha do barulho, estávamos em uma festa, e
tal festa era da Argo’s, a empresa em que Beatriz é CEO.
E por falar em minha amiga, a vi caminhando com certa dificuldade em
minha direção, com uma pequena expressão de dor.
— Nunca pensei que essa barriga ia ficar tão grande — falou, e logo
alisei a mesma. Ela está com 8 meses de gestação.
Como ela falou anos atrás, Daniel e ela planejaram o filho, e pelo jeito
tudo aconteceu da forma esperada. Eu ainda não sabia como me referir a esse
bebê, já que eles não sabem o sexo ainda, querem ter a surpresa do momento.
Mas apesar da barriga gigante, é somente um neném que está lá dentro.
— Eu não acredito que ainda está trabalhando — bufei, contrariada.
— É difícil ficar sem uma rotina, amiga. Mas vou ter que me afastar.
— Acho bom.
— Preciso fazer um pronunciamento, por falar nisso.
Olhei para ela desconfiada, e Victor Hugo me deu um abraço por trás,
me levantando do chão por alguns segundos.
— Já disse que você tá gostosa pra caralho nesse vestidinho?
Estava usando um vestido frente única com pequenas flores, justo na
parte de cima, mas rodado na parte de baixo. Tá certo que escolhi justamente
esse para poder deixar o pescoço à mostra, já que Victor Hugo gostava de me
beijar ali.
— Isso é redundância, eu sou gostosa.
Ficamos conversando alguns assuntos, e meu bibelô logo chegou perto
de nós, me olhando desconfiada.
— Amiga, você não se cansa de mudar a cor do seu cabelo? Já ficou
loira de novo... — Renata perguntou, e logo fiz carão.
— Pessoal... entendam uma coisa: independentemente do cabelo, da
roupa, ou o que for, sou simplesmente a mulher mais bonita e gostosa do
planeta! Eu só me adapto ao meio.
Sim, minha autoestima continua elevada, e só aumenta conforme os
anos passam.
— Que seja... — Jogou os cabelos no ar, e pude reparar meu bibelô, e...
caramba!
O que essa menina evoluiu no quesito beleza não está escrito...
Na verdade, nem posso usar mais a palavra menina, porque ela se tornou
um mulherão. Morena-clara, cabelos loiros, as pequenas sardinhas no seu
rosto, esse óculos sexy...
Qualquer roupa que ela usasse ficava bem em seu corpo, até mesmo
agora, com uma calça jeans justa com pequenos rasgos na coxa, um coturno
sem salto e uma regata branca.
Eu pegava e casava se fosse bi.
— Como seu irmão mais velho, saiba que tenho ciúmes de você —
Victor Hugo falou, e logo ela fez charme.
E quando falamos de Renata, temos que falar de outra pessoa, até
porque... ela está aqui. Ou melhor: ele.
Diego...
Ele ainda está trabalhando na Argo’s, e nesse momento está distante de
nós, conversando com outros funcionários. Julgo ter umas 250 pessoas aqui.
— Pronta, amor? — Daniel abraçou Beatriz por trás, e logo depois
dispôs um beijo em sua barriga.
Aquilo foi fofo, mas não, não quero filhos!
Ser tia é o suficiente para mim, e graças a Deus, Victor Hugo concorda
com isso.
Apesar do namoro, nossa vida continua normal. Moramos em casas
separadas, mas nos encontramos quase todo dia. Confio nele, e ele em mim,
mas sabemos que somos pessoas que enjoam fácil de muitas coisas, e não
quero correr o risco de cansar desse rostinho lindo, e nada melhor do que não
ficarmos 24 horas por dia grudados, porque quando estamos juntos... somos
igual chiclete.
Por falar no meu homem, a evolução dele foi crescente.
A terapia o está ajudando bastante, e ele literalmente levou a sério todo o
processo. Sua cabeça está ocupada também, já que ele e Daniel abriram uma
empresa de coach empresarial chamada VD mentoring. E como perceberam,
são as iniciais de cada um.
Eles treinam grandes equipes ou membros de alto escalão para terem
uma melhor performance, seja isolada ou em conjunto. Posso dizer com todas
as letras que os dois se tornaram amigos, e por mais que se alfinetem toda
hora, quando a questão é trabalho, ambos são comprometidos. Se me
dissessem isso do Victor Hugo antigo, eu não acreditaria, mas ele é um novo
homem, uma melhor versão dele mesmo.
Outro assunto que ocupa bastante a sua cabeça são suas viagens. Acho
que o aniversário de dois anos atrás deu novas ideias a ele, e agora ele se
tornou voluntário de pelo menos cinco hospitais na região, e alterna
momentos entre ficar aqui ou viajar. Daniel e ele têm cronogramas muito
bem feitos, e Victor Hugo consegue isso, além de fazer visitas periódicas às
crianças que foram curadas. Ele sempre me diz que foi por minha causa que
essa ideia surgiu em sua mente, principalmente ao revê-las no seu
aniversário, então na medida do possível ele as visita quando estão
comemorando seus aniversários.
— Estava te esperando, Daniel, onde se meteu? — Beatriz perguntou,
enérgica como sempre.
— Ah... — suspirou. — Diego veio me contar o de sempre.
— O que é o de sempre? — perguntou, e vi Renata um pouco mais
interessada na conversa,
— Seus términos de namoro. Basicamente.
— Ele terminou de novo? Ele estava namorando tinha dois anos já —
Beatriz questionou.
— Sim. Ela terminou com ele.
Renata seguia interessada na conversa, mas como ela não vai fazer nada
a respeito, é indiferente.
— Estou atrasada para o meu pronunciamento. Vamos! — puxou a mão
do marido, e logo andamos alguns metros, chegando mais perto do palco.
Depois de alguns minutos de espera, Beatriz pegou o microfone.
— Boa tarde, pessoal. Espero que estejam aproveitando a festa. Tenho
algumas coisas para falar...
— Por que ela tá toda séria, Renata?
— Um dos motivos é que ela vai se ausentar, os outros você vai
descobrir — deu uma piscadinha.
Misteriosa...
— Primeiramente é um orgulho imenso fazer parte da Argo’s, considero
essa empresa uma família, e acho que sabem que passo mais tempo no
escritório do que em minha própria casa, mas isso vai mudar. — Alisou a
barriga, sorrindo. — Então, como já devem saber, vou me afastar por tempo
indeterminado, e a dinâmica da empresa irá mudar um pouco. Vou realocar
algumas pessoas, e espero que continuem me ajudando para que a empresa
siga nesse caminho de prosperidade.
Várias pessoas bateram palmas. O pessoal ao nosso redor parecia feliz,
por mais que ela fosse se afastar.
— Bom, ainda tenho mais uma coisa para dizer a vocês. Pesquisei no
mercado um nome para me substituir. Fiquei dois meses quebrando a cabeça,
até fiz algumas entrevistas já que havia muitas pessoas qualificadas para
serem CEO da Argo’s, mas depois pensei bem, e... eu não precisava procurar
muito. Nada melhor do que alguém daqui de dentro, que cresceu junto com a
empresa, e procurou se aperfeiçoar diante de tantas dificuldades que tivemos.
Então, sem enrolar mais, apresento a vocês a nova CEO da Argo’s: Renata
Alcântara.
Olhei para o lado perplexa, e meu bibelô só deu uma piscadinha para
mim, indo em direção ao palco.
Não acredito que eu fui a última a saber!
Tenho péssimas amigas.
— Eu queria agradecer a Beatriz pela oportunidade. Eu não esperava
que isso pudesse acontecer tão rápido. Me considerava muito nova para um
cargo tão importante, mas ela me ajudou bastante me dando confiança e sei
que farei o meu trabalho da melhor maneira possível. Espero que possamos
ser uma equipe unida, e o que precisarem podem contar comigo.
Renata foi ovacionada, até mais do que Beatriz quando foi aplaudida.
Parece que o pessoal aqui gosta bastante do meu bibelô, que agora se tornou
um bibelô poderoso.
Depois que as duas desceram do palco, Renata logo veio para mais perto
de mim, sorrindo.
Falsa!
— Você...? — olhei chocada para ela.
— Eu já sabia — disse.
— Não acredito que me escondeu isso!
— Ah, deixa a Luiza para lá, você merece um abraço — Victor Hugo a
abraçou, e dessa vez ela deixou. No fundo ela estava bastante feliz, e merece,
já que há belos anos está se capacitando.
— Você e Daniel me ajudaram bastante. Nunca vou esquecer do que me
ensinaram, e se agora me tornei a CEO da Argo’s, foi pelo ensinamento de
vocês.
— Não. Sua inteligência e força de vontade que foram essenciais. De
verdade, estou muito orgulhoso.
O meu dia não estava nada convencional...
Percebi aquele homem me encarando por vários minutos enquanto
estava abraçado com Luiza. Ele nem disfarçava.
— Vou dar um volta.
— Dar uma volta? — Luiza perguntou, desconfiada.
— É... dar uma espairecida. Já volto.
Saí do raio de ação deles e fui onde ele estava. Ao chegar perto estendi
minha mão.
— Prazer, meu nome é Victor Hugo.
— Eu sei quem é! E devia dar um soco na sua cara por estar abraçado
com Luiza bem na frente da Renata.
Diego...
Aquele teatro anos atrás não foi algo tão bom no fim das contas. Preciso
esclarecer algumas coisas...
— Estou estendendo a mão para você. Não vai me cumprimentar?
— Não!
— Ah, começamos com o pé errado — cheguei mais perto e de forma
abrupta envolvi meu braço direito em seu pescoço. Ele não entendeu nada, e
somente deu uma olhadinha ao redor, mas estávamos sozinhos.
— Você é maluco ou o quê...? — perguntou e dei uma apertadinha
básica no seu pescoço.
— É o seguinte, cara... Naquele dia eu fingi estar com Renata
exclusivamente para passar ciúmes em você. Eu nunca tive nada com ela,
naquela época eu já estava com Luiza, sacou?
— Dá para soltar meu pescoço? Você tá apertando...
— Não. Escute bem... — cheguei mais perto, o fuzilando com meus
olhos. — Renata gosta de você, e julgando pelo seu ciuminho naquele dia e o
jeito que a observou aqui, você também gosta dela. Então, como bom amigo,
eu vim dar um avisinho básico. — Soltei o seu pescoço, e ele me olhou
desconfiado. — Se não gosta dela, fique longe da minha amiga, agora se
sente alguma coisa pela baixinha... — cheguei mais perto e ele recuou. — Eu
sugiro que seja o melhor homem possível para ela, porque se fizer aquela
garota que finge ter o coração de pedra chorar... eu vou te fazer chorar, e
muito. Vou atrás de você até no inferno se preciso e você não vai gostar nada
disso!
— Eu fazer Renata chorar? Pelo jeito você não a conhece — desdenhou.
— Não, conheço bem até demais. O recado tá dado!
Dei dois tapinhas no seu rosto e sorri.
— Que tal voltarmos para a festa, amigão?
Victor Hugo havia sumido por um tempo, mas acabou de voltar.
Estávamos eu, ele, Beatriz, Daniel e Renata conversando, e a todo o
momento éramos interrompidos, seja pelas pessoas dando parabéns a minha
amiga, ou desejando sorte para Renata.
Renata é bem política, devo destacar. Sorri quando precisa, conversa em
momentos necessários, puxa assuntos. Ela nasceu para isso...
De relance vi um rostinho familiar se aproximando. As tatuagens só
crescem nos braços de Diego, e o corpo dele também...
Que Victor Hugo não saiba que reparei nisso.
Depois que ele chegou perto de nós, logo abraçou Beatriz.
Sei que por causa de Daniel, a amizades entre ela e Diego cresceu
bastante, e a própria já me disse que confia cegamente nele, e nem preciso
mencionar que Daniel pensa o mesmo, pois fazia parte da equipe fixa dele.
— Espero que o bebê de vocês nasça com saúde, Beatriz — falou
sorrindo.
Disfarçadamente olhei para o lado, e Renata nem piscava, só o encarava
com curiosidade.
— Obrigada, Diego. — Se abraçaram, e depois o próprio Daniel fez o
mesmo gesto, desarrumando com a mão o seu cabelo de forma proposital.
Depois... ele se virou para Renata.
— Parabéns! Como a Beatriz, também acho que fará um bom trabalho.
Você mereceu o cargo!
— Obrigada, Diego — falou, política, sem expressar sentimento algum.
— Então... acho que já vou. Até segunda na empresa, pessoal. — Virou-
se.
— Espera! — a voz de Renata se fez presente, e todos olharam na
direção dela. — Eu quero propor uma coisa. — Cruzou os braços, analisando
Diego, que havia se virado para nós.
Não é possível que o poder subiu tão rápido na cabeça dela...
— O quê? — perguntou, desconfiado.
— Um encontro. Você e eu.
CA-RA-LHO! Não acredito que Renata fez isso na cara dura e na frente
de tudo mundo...
— Um encontro? O certo seria eu propor isso — falou, ainda não
acreditando no que ela disse.
— Não existe certo ou errado. Mulheres podem propor encontros, e
estou fazendo isso. E então?
Olhei para os lados e pelo que percebi todos estavam surpresos, menos
Victor Hugo. Daniel e Beatriz pareciam estar chocados, mas só ficaram
observando o desenrolar da conversa.
— Tudo bem!— ajeitou a postura.
— Me pegue amanhã às 19h. Não se atrase, do contrário você perderá
uma oportunidade de ouro de me conhecer melhor, e já adianto que não terá
outra!
— Quero saber uma coisa antes: por que está fazendo isso?
— Bom... — ela chegou mais perto do homem sorrindo, cheia de si. —
Eu gosto de conquistar e não ser conquistada. E quando isso acontecer, vou
fazer você ficar de quatro por mim. Quer apostar quanto?
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Gabriel Almeida de Oliveira tem 27 anos de idade, é solteiro, nascido e
criado em Uberlândia, Minas Gerais. Leitor ávido de Romances, já leu mais
de 300 livros do gênero, e por uma simples ideia que amadureceu, resolveu
começar a publicar seus livros em plataformas gratuitas. Com o sucesso no
wattpad, logo migrou para a Amazon, onde já publicou mais de treze
romances contemporâneos.
Table of Contents
Dedicatória
Playlist
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Epílogo
Contato
Biografia