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ACÓRDÃO DE 18. 4.

2013 — PROCESSO C-103/11 P


COMISSÃO / SYSTRAN E SYSTRAN LUXEMBOURG

60 Em contrapartida, no que diz respeito à responsabilidade extracontratual da Comunidade, tais litígios


são da competência das jurisdições comunitárias. Com efeito, nos termos do artigo  235.o  CE, lido em
conjugação com o artigo  225.o, n.o  1, CE, o Tribunal de Justiça e o Tribunal Geral são competentes
para conhecer dos litígios relativos à reparação dos danos referidos no artigo  288.o, segundo parágrafo,
CE, o qual tem precisamente por objeto a referida responsabilidade extracontratual. Esta competência
das jurisdições comunitárias é exclusiva (v., neste sentido, acórdãos de 13  de  março de 1992,
Vreugdenhil/Comissão, C-282/90, Colet., p.  I-1937, n.o  14; de 26  de  novembro de 2002, First e Franex,
C-275/00, Colet., p.  I-10943, n.o  43 e jurisprudência referida; e Hanssens-Ensch, já referido, n.o  17),
devendo estas jurisdições verificar o preenchimento de uma série de requisitos cumulativos, a saber, a
ilegalidade do comportamento imputado às instituições, a realidade do dano e a existência de um nexo
de causalidade entre o comportamento alegado e o prejuízo invocado, estando o seu preenchimento
subordinado à responsabilidade extracontratual da Comunidade (v. acórdão de 9  de  novembro de
2006, Agraz e  o./Comissão, C-243/05  P, Colet., p.  I-10833, n.o  26 e jurisprudência referida).

61 Decorre do exposto que, para aferir a jurisdição que é competente para conhecer de uma determinada
ação judicial intentada contra a Comunidade, para que a mesma responda por um dano, é necessário
examinar se essa ação tem por objeto a responsabilidade contratual da Comunidade ou a sua
responsabilidade extracontratual (acórdão Hanssens-Ensch, já referido, n.o  20).

62 A este respeito, há que recordar que o conceito de responsabilidade extracontratual, na aceção dos
artigos  235.°  CE e  288.°, segundo parágrafo, CE, que reveste um caráter autónomo, deve ser
interpretado à luz da sua finalidade, a saber, a de permitir uma repartição das competências entre as
jurisdições comunitárias e os órgãos jurisdicionais nacionais.

63 Neste contexto, tendo sido intentada uma ação de indemnização, as jurisdições comunitárias devem,
antes de se pronunciarem sobre o mérito do litígio, determinar preliminarmente a sua competência,
procedendo para tal a uma análise com vista a determinar o tipo da responsabilidade invocada e,
consequentemente, a própria natureza do litígio em questão.

64 Para tal, as referidas jurisdições não podem basear-se simplesmente nas normas invocadas pelas partes.

65 Com efeito, a este respeito, como salienta a Comissão no seu primeiro fundamento, recordado no
n.o  46 do presente acórdão, o Tribunal de Justiça já declarou que a simples invocação de normas
jurídicas que não decorrem de um contrato pertinente em questão, mas que se impõem às partes, não
pode ter como consequência alterar a natureza contratual do litígio e, consequentemente, subtraí-lo à
jurisdição competente. Se assim não fosse, a natureza do litígio e, consequentemente, a jurisdição
competente seriam suscetíveis de mudar em função das normas invocadas pelas partes, o que
contrariaria as regras de competência material das diferentes jurisdições (acórdão Guigard/Comissão, já
referido, n.o  43).

66 Em contrapartida, as jurisdições comunitárias são obrigadas a verificar se a ação de indemnização nelas


intentada tem por objeto um pedido de indemnização que assenta objetiva e globalmente em direitos e
obrigações de origem contratual ou de origem extracontratual. Para tal, como referiu o advogado-geral
nos n.os  49 e  50 das suas conclusões, estas jurisdições devem verificar, através de uma análise dos
diferentes elementos do processo, tais como designadamente a regra de direito alegadamente violada,
a natureza do prejuízo alegado, o comportamento censurado e as relações jurídicas existentes entre as
partes em questão, se existe entre elas uma verdadeira relação contratual, relacionada com o objeto do
litígio, cujo exame aprofundado se revele ser indispensável para dirimir a referida ação.

67 Se decorrer da análise preliminar dos referidos elementos que é necessário interpretar o conteúdo de
um ou de vários contratos celebrados entre as partes em questão para determinar a procedência dos
pedidos do demandante, as referidas jurisdições são obrigadas a parar nessa fase o seu exame do
litígio e a declarem-se incompetentes para se pronunciarem sobre ele no caso de os referidos
contratos não conterem cláusulas compromissórias. Nessa situação, o exame da ação de indemnização

ECLI:EU:C:2013:245 9