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A PNLE busca universalizar o acesso ao livro, à leitura e às bibliotecas.

OPINIÃO

POR QUE A BIBLIOTECA TEM


SUSCITADO TAMANHO DESAMPARO E
DESINTERESSE?
Para muito além de indicadores, precisamos lutar pelo mesmo direito: queremos
bibliotecas na escola, à mão cheia
 Christine Castilho Fontelles /  5 de agosto de 2019 /  1.8k

-40% -50% -20%

R$ 63,80 R$ 34,90 R$ 67,80 R$ 59,90 R$ 67,80 R$ 63,80


-20% -15%

R$ 68,70 R$ 47,90 R$ 24,90 R$ 64,90 R$ 85,90 R$ 19,90

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Sabemos que, embora a leitura seja transversal na vida e na educação, ou seja, é


do cotidiano da existência humana, trata-se de uma habilidade só conquistada por R E V I S TA B I B L I O O

meio de interações desde a primeira infância com o texto escrito: somos primeiro
leitores de ouvir, desde a fase intrauterina, e pouco a pouco nos tornamos leitores
de ler. EDIÇÃO 68
E ler se aprende lendo, inicialmente com leituras mediadas por um adulto Ano 8, nº 02
educador para que, pouco a pouco, ganhemos autonomia leitora. Aprender a ler e Junho 2018
a gostar de ler é resultado de um longo processo de interações com livros, leitores ISSN 2238–3336
e leituras. A biblioteca pública, em especial a escolar é fundamental[1].
COMPRAR

Pois bem. Para aprender a ler e gostar de ler, aliás, para aprender o que quer que
MAIS EDIÇÕES
seja, é preciso contar com insumos, ou seja, recursos que nos dão acesso aos
meios necessários à aprendizagem. No caso da educação e da dimensão aprender
a ler e escrever, é mais do que óbvia a importância de existir em todas as escolas
uma boa biblioteca, assim como o desenvolvimento do pensamento científico C O L U N I S TA S
passa pelo texto escrito e pela experimentação, daí a importância de laboratórios
de ciências.

AGENDA

5ª JORNADA DE PESQUISADORES DA FUNDAÇÃO


BIBLIOTECA NACIONAL
26/08/2019 | 13:00 - 28/08/2019 | 18:00

X SEMINÁRIO MEMÓRIA, DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA


Pois bem também, tudo indica que esta obviedade tem estado ausente do 04/09/2019 - 05/09/2019
planejamento das políticas públicas por aqui. Pesquisa após pesquisa
28 º CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA,
demonstram nossa falência pública e social na arte de promover educação de DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
qualidade e assegurar os insumos necessários para garantir direito e resultados 01/10/2019 - 04/10/2019
positivos.
Ver Todos Eventos
A minha inquietude para a escrita deste artigo reacendeu com esta notícia sobre o
lançamento do Anuário da Educação Básica 2019 , no dia 25 de junho, onde você
vai encontrar uma longa relação sobre o que as escolas não têm –  entre as quais
está a biblioteca e/ou sala de leitura da escola, ausentes, segundo o Anuário, em
45% das escolas públicas do País.

Eis que pouco mais de um mês depois, em 31/07, semana passada, um novo
levantamento, desta vez realizado pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo
– a capital que ostenta orgulhosa o lema “non dvcor dvco” (“não sou conduzido,
conduzo”) – revela o cenário caótico de 133 escolas públicas, urbanas e rurais,
visitadas em loco: cerca de um terço das escolas de anos iniciais (32,4%). E as que
“têm” estão em estado lastimável. É a naturalização do descaso.

E eu já vi muito, mas muito mesmo em visitas de campo Brasil adentro como é


comum, sem ausência de parâmetros de qualidade, a naturalização da
precariedade, como você pode ver nas fotos no link deste levantamento realizado
pelo TCU. Depósitos com livros desatualizados e sem interesse – e é de se
perguntar onde habita o acervo de literatura de qualidade que há tantos anos
enviado pelo PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), agora nominado
PNLD Literário –, paredes mofadas e trincadas, espaços onde mal e mal se anda
de lado, sem a mínima condição de encontrar um item de interesse para leitura e
pesquisa.

Eu me pergunto há vinte anos na estrada por política pública de leitura e


biblioteca porque raios a biblioteca merece esse lugar de tamanho desamparo e
desinteresse. Numa conversa recente com Andressa Pellanda, coordenadora
executiva da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, ela me diz:

“As políticas de educação no Brasil nunca tiveram financiamento adequado para a


garantia de um direito à educação pautado em infraestrutura de qualidade nas
escolas, de forma a promover o ensino e a aprendizagem. Essa prerrogativa,
apesar de estar na Lei do Plano Nacional de Educação, não tem sido prioridade,
porque toca em um ponto sensível para qualquer governo: a alocação
orçamentária.”
Segundo ela, “as bibliotecas estão presentes no Custo Aluno-Qualidade como um
dos insumos indispensáveis à uma escola digna. No entanto, a vontade política
para implementação desse mecanismo beira o inexistente. Prioridade na
educação precisa passar por investimentos adequados. Apesar de essa premissa
ser um consenso, ela não se configura na prática e nossas escolas seguem sem o
básico para nossa educação”.

O curioso e inquietante é que somos obcecados por indicadores. Produzimos,


contratamos e invejamos pesquisas para medir desempenho em educação. Daí a
pergunta que não quer calar: para fazer o quê com os dados? A iniciativa privada e
lucrativa sabe muito bem o que fazer e faz: implementa melhorias para sanar
pontos fracos e assegurar sustentabilidade dos pontos fortes.

Então vamos a mais pesquisas para relembrar e inquietar.

Dados da pesquisa de 2018 do Índice de Alfabetismo Funcional no Brasil (Inaf)


revelam que “há uma significativa proporção de pessoas que, por exemplo,
mesmo tendo chegado ao Ensino Médio e ao superior, não conseguem alcançar
os níveis mais altos da escala de Alfabetismo, como seria esperado para esses
níveis de escolaridade. Com efeito, 13% daqueles que chegam ou concluem o
Ensino Médio podem ser caracterizados como Analfabetos Funcionais. Por outro
lado, apenas um terço (34%) das pessoas que atingem o nível superior podem ser
consideradas proficientes pela escala do Inaf”.

Outra pesquisa, a 4ª Edição da Retratos da Leitura do Brasil, revela que 44% da


população, segundo critérios da pesquisa, não são leitores. A este dado deve ser
adicionado, para compreensão adequada do cenário, que entre os 56% que leem
a Bíblia e livros religiosos são, de longe, os livros mais lidos: algo em torno de 60%.
Ou seja, mesmo entre os que são considerados leitores há uma enorme restrição
acerca do cardápio de leituras, ou bibliodiversidade.

Sem acesso cotidiano à diversidade cultural expressa no texto escrito, seja em


suporte impresso ou digital, compromete-se profundamente a possibilidade da
população brasileira em atingir o nível pleno de alfabetismo, que segundo o Inaf
significa: “ habilidade na qual não mais se impõem restrições para compreender e
interpretar textos em situações usuais: são pessoas que leem textos mais longos,
analisando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações,
distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Quanto à matemática,
resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo
percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas de dupla
entrada, mapas e gráficos”.
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O Instituto Pró-Livro, responsável pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil,


também realizou, em parceria com o Instituto de Ensino e Pesquisa (INSPER),
pesquisa em aproximadamente 500 escolas, distribuídas em 17 unidades da
federação, com o objetivo de identificar o impacto da biblioteca escolar no
desempenho de estudantes.

Foi aplicado um questionário com cerca de 60 questões para dirigentes da


educação e professoras(es). Os dados coletados foram correlacionados com dois
importantes indicadores de avaliação do desempenho do aluno: O IDEB – Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica e o SAEB – Sistema de Avaliação da
Educação Básica, por meio da Prova Brasil. Os resultados confirmam o que já se
sabia e são irrefutáveis:

1) A escola que possui espaço exclusivo para biblioteca, acervo diversificado,


atividades extraescolares como visitas a museus e atividades culturais e
integração do professor às atividades das bibliotecas cria um diferencial
significativo na aprendizagem dos alunos;

2) Nessa correlação entre espaço físico e o Índice de Desenvolvimento do Ensino


Básico – IDEB, a escola que tem uma biblioteca escolar em boas condições,
alcança IDEB 0,2 ponto maior que uma escola com um espaço inferior;

3) O impacto da biblioteca é ainda maior nas escolas mais vulneráveis. Neste


caso a correlação com o IDEB aumenta em 0,5. Isso é muito significativo já que o
IDEB, entre 2015 e 2017, no Brasil inteiro, cresceu 0,3 ponto;

4) Ter um responsável pela biblioteca que desenvolva suas ações ligadas às


atividades pedagógicas é bastante relevante. Segundo a pesquisa, em
correlação com o Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB, o
desempenho em Português dos alunos aumenta em 4 pontos, ou seja, o
equivalente a 1/3 de um ano de aprendizado para alunos entre o 5º e o 9º ano.
Nas escolas mais vulneráveis a relevância é da magnitude de 16 pontos. Quatro
vezes maior!

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5) A pesquisa mostrou que ter um professor de sala de aula que se envolva em


atividades de pesquisa e leitura e incentive os alunos a frequentarem a
biblioteca, aumenta o desempenho em Português em até 7 pontos na escala
SAEB, o que pode representar um índice de 63% de um ano de aprendizado;

6) Outro dado significativo se refere à presença de um bom acervo nas


bibliotecas escolares, com um crescimento de 6 pontos na disciplina de
Português e 10 pontos em Matemática. Já em relação ao IDEB o aumento é de
0,4 ponto.

“O impacto da biblioteca na escola é muito mais relevante


onde as escolas são socialmente vulneráveis” – Pesquisa
Instituto Pró-Livro, 2018 

Então, a pergunta não é SE a biblioteca da escola é importante, mas COMO ela


deve ser para atender estudantes e professores. E ao pensar em INOVAÇÃO,
pensar como foi pensado nesta biblioteca americana, na universidade de
Berkeley, considerada a melhor universidade pública do mundo no ranking da U.S.
News & World Report, com ações focadas em oferecer ambiente de
aprendizagem, que oferece apoio à busca de informação e espaços que
incentivem estudos colaborativos, que oferecem espaços para a concentração e
até para um cochilinho.

Ou seja: tudo para que se promova leitura, aprofundamento, capacidade de


localizar e filtrar dados. Ou seja: ler, ler, ler. Nada de confundir biblioteca com sala
de espetáculos, teatro de marionete, oficina de reciclagem, a não que seja para
reciclagem de leituras, pensamentos e argumentos.

Assim como a pergunta não é SE temos recursos, mas COMO mobilizar recursos
públicos a partir de escolhas afinadas com a lógica da educação pública de
qualidade. Bons exemplos estão citados na matéria Cidades que desistiram de
sediar a copa para investir em bibliotecas, onde são citados os casos de Alagoas e
Maranhão, que incluíram em suas agendas de prioridades INVESTIR EM
BIBLIOTECAS, reconhecendo serem equipamentos essenciais para a formação
cidadã.

Nessa pegada, no caso do Maranhão, por exemplo, foram revitalizadas bibliotecas


públicas e outras foram criadas, assim como assegurou a existência de Biblioteca
Escolar no programa Escola Digna.

Parafraseando uma célebre frase, não pergunte o que uma boa biblioteca pode
fazer pela educação, pergunte o que você pode fazer para que todas as escolas do
seu bairro, da sua cidade, do seu estado e do nosso País tenham uma boa
biblioteca. Acesse EU QUERO MINHA BIBLIOTECA e fale de pertinho com a(o)
candidata(o) em quem votou no verão passado.

Igualmente vale a leitura se você é uma(um) gestora(gestor) ou parlamentar. Cada


um de nós faz a sua parte e junt@s asseguramos os meios indispensáveis à
“cidadania crítica”, como bem pontuou a bibliotecária colombiana Silvia Castrillon
no Painel Informação e leitura: uma questão de direitos, realizado pela Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil, em recente passagem pelo Brasil!

[1] A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revela que a Biblioteca na escola é o


principal meio de acesso aos livros para estudantes.
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Era Uma Vez NossasHistórias


Excelente artigo. Muito se
fala e pouco de faz. Não
adianta Planos e mais
Planos que ficam no
papel e no diálogo.
Precisamos de ações
concretas que realmente
efetivem a existência e
funcionamento pleno das
bibliotecas nesta país.
Curtir · Responder · 4 sem

Marcondes Baptista
Sou Professor
daEducação básica, e sei
muito bem quanta
diferença faz na formação
o uso da biblioteca pelos
alunos.
Curtir · Responder · 2 sem

Benedito Prezia
Extraordinário texto!
Precisamos fazer chegar
aos responsaveis nas
escolas e nos municípios.
Curtir · Responder · 2 sem

Marcos Gehrke Gehrke


Sou pesquisador da área
e concordo muito com a
conjuntura apresentada.
Precisamos ler e lutar
para transformar esse
quadro.
Curtir · Responder · 2 sem

Rafaela Pereira
Não basta querer e provar
a deficiência leitora da
nossa região e país, é
preciso focar em ações
concretas. O que nós -
professores, bibliotecários
e educadores como um
todo - temos feito para
que a leitura seja uma
constante transformadora
da educação e da cultura
das pessoas, gerando
pensamento crítico?
Curtir · Responder · 2 sem

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TAG: Bibliotecas Escolares Direitos à Leitura Educação Escolas Leitura Livros

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BIBLIOTECAS PROMOVEM AÇÕES PARA EDITAL CULTURAS POPULARES ESTÁ COM


DISCUTIR A VIOLÊNCIA NO AMBIENTE ESCOLAR INSCRIÇÕES ABERTAS ATÉ 16 DE AGOSTO
AUTOR

CHRISTINE CASTILHO FONTELLES

Socióloga, concebeu e coordena a Campanha "Eu Quero Minha


Biblioteca" desde 2012, quando atuava como diretora de
educação do Instituto Ecofuturo, do qual foi co-idealizadora e
onde esteve por 15 anos como diretora de educação; membro do
Conselho Consultivo da Fundação Nacional do Livro Infantil e
Juvenil (FNLIJ).

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BIBLIOTECA E NA POSSE INCENTIVO À LEITURA EM
DA PALAVRA PARCERIA COM
ESCRITOR PAULO
COELHO

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