Você está na página 1de 12

2 K Jornal de Crítica

O manuscrito de Portbou
EDUARDO STERZI

Em novembro de 1980, Lisa Fittko –


judia alemã (nascida em Uzhorod, atual-
la. É o manuscrito que deve ser salvo. Ele é
mais importante do que eu”.
não terem vistos de saída da França (que cos papeles”, como precisa o boletim), a cuja
preparação o filósofo se dedicara nos meses
estava, desde junho, sob domínio nazista),
mente território russo) que, como integrante Fittko conta que Scholem, depois de in- embora tivessem vistos de entrada na Espa- anteriores, ou algum outro texto não muito
do Emergency Rescue Committee, guiara terrogá-la sobre cada pormenor relativo ao nha, em Portugal e nos Estados Unidos (este extenso relacionado ao projeto das Passa-
Walter Benjamin em sua fuga da França manuscrito (e a interlocutora não tinha o percurso completo planejado); da noite gens. A hipótese de Scholem é bem mais dra-
através dos Pirineus – escreveu em inglês muito mais a declarar: passados quarenta passada numa hospedagem, sob a guarda mática: tratar-se-ia de uma redação final para
um breve relato sobre os últimos dias do anos daquele final de setembro de 1940, não de três policiais, à espera de serem deporta- as Passagens, e o manuscrito teria sido des-
filósofo. Como ela mesma explica nos últi- recordava de nenhuma palavra de Benjamin dos para a França no dia seguinte (de onde truído por Henny Gurland, temerosa do seu
mos parágrafos, o relato nasceu de uma a propósito do texto, e nem mesmo se hou- Benjamin e o filho de Gurland, José, seriam conteúdo, antes da chegada da polícia.
conversa a respeito de Benjamin, em julho ve alguma palavra a respeito), lhe disse: levados, certamente, para um campo de con- Como se sabe, o manuscrito finalmente pu-
daquele ano, com Chimen Abramsky, pro- “Não há nenhum manuscrito. Até agora, centração); da conversa com Benjamin, às blicado em 1982 como Das Passagen-Werk
fessor de estudos judaicos do University ninguém soube que tal manuscrito tenha um sete da manhã, quando este lhe disse que é bem o contrário de uma Werk, de uma
College London; e, mais exatamente, de um dia existido”. Scholem baseava-se no silên- tomara uma grande quantidade de morfina “Obra”: temos aí anotações, divididas em
telefonema que Gershom Scholem, o gran- cio sobre o assunto de uma testemunha que na noite anterior e pediu que tentasse apre- cadernos temáticos (em suma, fichas de um
de estudioso da cabala que fora um dos mais acompanhara de perto a agonia de Benja- sentar sua morte como natural; da morte e arquivo), a serem futuramente integrados
próximos amigos de Benjamin, lhe deu de- min (Fittko só ficou sabendo da morte qua- dos ritos que se seguiram (estranhamente, num texto propriamente dito. O caminho
pois de ter sabido, por Abramsky, de um se uma semana depois: ela deixara o grupo Benjamin, judeu, foi enterrado como católi- deste manuscrito não passa por Portbou:
detalhe surpreendente do testemunho de de refugiados quando Portbou despontava co, num túmulo comprado por Henny Gur- Georges Bataille escondeu-o, a pedido de
Fittko: detalhe que, se comprovado, pode- ao longe, para retornar a Port-Vendres, de land para os próximos cinco anos); do cho- Benjamin, na Bibliothèque Nationale, e,
ria alterar sensivelmente a compreensão do onde haviam partido). Foi a Henny Gurland que dos oficiais de fronteira com a morte do depois da guerra, entregou-o a Adorno.
conjunto dos escritos benjaminianos, ao – que, com seu filho adolescente, acompa- viajante e de sua decisão de ignorar por um Por Portbou, no entanto, se a hipótese de
indiciar definição – acabamento, comple- nhava Benjamin desde Marselha – que este dia as regras e deixar o restante do grupo Scholem é correta, passa algo que está a
teza – ali onde nos acostumamos a ver ruí- confiou sua última carta, na verdade não passar pela fronteira. O único documento um só tempo aquém e além de qualquer
na, fragmento, e mesmo, tal como Adorno mais que um bilhete de cinco linhas escrito encontrado com Benjamin, segundo rela- manuscrito, de qualquer fixidez de escri-
sugeriu, inadequação congênita ao concei- em francês, dirigido a ela e a Adorno, no ta Gurland, foi “uma carta endereçada aos ta: do encontro da potência do pensamen-
to de Obra. qual não parece deixar dúvidas quanto à in- dominicanos” da Espanha. Do manuscri- to (de que o manuscrito perdido é a figura
O detalhe: ao deslocar-se entre tenção de suicidar-se; bilhete que ela destruiu to, nada se diz. Contudo, o boletim poli- suprema) com a sua destruição, o que res-
França e Espanha, rumo àquela Portbou em logo após lê-lo e memorizá-lo, com medo cial sobre a morte de Benjamin, datado de ta é a filosofia possível – a filosofia como
que viria a morrer (mas tendo como desti- de que caísse nas mãos da polícia espanhola 30 de outubro, reporta que foram encon- testemunho extremo da história, que é ca-
no final os Estados Unidos, onde pretendia ou da Gestapo, para depois reconstruí-lo trados junto com o corpo, “numa pasta tástrofe contínua, mas, também, possibi-
reencontrar Adorno e os outros membros num cartão postal e enviá-lo a Adorno. de couro das usadas pelos homens de ne- lidade de redenção. Uma tarefa impõe-se,
emigrados do Institut für Sozialforschung), Numa carta datada de 11 de outubro de gócios, um relógio masculino, um cachim- aí, aos sobreviventes: a todos e a cada um
Benjamin levava consigo «uma grande pasta 1940, que teve como destinatário o seu ma- bo, seis fotografias, uma radiografia, um de nós. Ler as Passagens, apropriar-se de-
preta» (a large black briefcase), na qual, rido, Gurland conta em minúcias o ocorri- par de óculos, várias cartas, jornais e al- las, pensar com elas é sempre reconstruir,
conforme declarou, trazia um novo manus- do, sem, porém, jamais referir-se a qualquer guns poucos papéis mais, cujo conteúdo na medida do possível – na dimensão re-
crito. Fittko recorda que, ao indagar a Ben- manuscrito. Fala das tremendas dificulda- se ignora [algunos pocos papeles más que dentora da potência –, aquele manuscrito
jamin por que não deixava a pasta na pen- des do percurso de doze horas através das se ignora su contenido]”. que Portbou nos roubou.
são enquanto iam fazer um reconhecimen- montanhas; da chegada a Portbou, quando Continuamos a ignorá-lo.
to prévio do caminho por percorrer no dia se encaminharam ao posto de fronteira e fo- Rolf Tiedemann, editor dos Gesammel- Eduardo Sterzi, doutor em Teoria e História Literária
seguinte, ele lhe respondeu: “Você deve en- ram, então, informados de que, devido a te Schriften de Benjamin, presume que a pela UNICAMP, é autor de Prosa (IEL/CORAG, 2001) e
tender que esta pasta é a coisa mais impor- normas recentíssimas do governo espanhol, pasta preta protegesse apenas uma versão organizador de Do céu do futuro: cinco ensaios sobre
tante para mim. Não posso arriscar perdê- seu ingresso no país não seria permitido, por das teses “Sobre o conceito de história” (“po- Augusto de Campos (Marco, 2006).

K é um jornal mensal de crítica literária em suas mais diversas formas: resenhas, comentários, notas, ensaios, entrevistas, Capa: Monumento em homenagem a Benjamin, em Port Bou. Foto de Adolfo Montejo Navas
debates. Seu amplo corpo editorial guiará os trabalhos a partir de suas múltiplas preferências, descobertas e apostas, Endereço: Rua Dona Ana, 10 A • V. Mariana • São Paulo • CEP 04111-070 • Contato: jornaldecritica@gmail.com
sem temer contradições. Como lema, a máxima de Kafka: “Tudo o que não é literatura me aborrece”. Nenhum texto de K Jornal de Crítica pode ser reproduzido sem a prévia autorização, por escrito, de seus editores
EDITORES: Adolfo Montejo Navas, Carlos Felipe Moisés, Eduardo Sterzi, Fabio Weintraub, Franklin Valverde, e/ou autores. As críticas e artigos assinados são de total responsabilidade de seus autores, não expressando
Manuel da Costa Pinto, Reynaldo Damazio, Ricardo Lísias, Ricardo Rizzo, Tarso de Melo necessariamente a opinião dos editores.
EDITORES DE ARTE: Regina Kashihara, Ricardo Botelho Edição de março de 2008 • Tiragem: 2.000 exemplares • Distribuição gratuita.
JORNALISTA RESPONSÁVEL: Franklin Valverde • MTB 14.342 Confira edições anteriores em www.weblivros.com.br/k
K Jornal de Crítica 3

AS PASSAGENS DE WALTER BENJAMIN Quando a teoria reencontra o campo visual

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA

O lançamento em língua portuguesa vemos agradecer, é impressionante, lidar com o desafio de se publicar uma
das Passagens de Walter Benjamin repre- nós leitores, ao tra- trata-se verdadeira- obra que o próprio Benjamin não chegara
senta entre nós, sem dúvidas, um dos gran- balho titânico da mente de algo de a formatar e que fora publicada segundo
des acontecimentos culturais dos últimos sua equipe de reali- raro na paisagem a forma e o desejo (imperativo) do editor
anos. Quem já teve a oportunidade de se zação: ao organiza- publicística acadê- alemão Rolf Tiedemann. Esta opção (ou
perder e de se achar nos milhares de frag- dor, Willi Bolle e sua mica brasileira. Um imposição editorial) pode ser vista como
mentos deste volume sabe do que estou colaboradora, Ol- novo patamar filo- muito boa: afinal não apenas em alemão,
falando. Poucas obras do século XX têm gária Matos, e ao lógico desponta mas também em outras línguas, seguiu-se
uma carga explosiva tão potente quanto a trabalho inimaginá- Legenda aqui (em um país, é a edição de Tiedemann e, portanto, esta é
deste vasto volume. Com este trabalho vel das duas tradu- verdade, com pou- a forma sob a qual até hoje qualquer lei-
Benjamin visava ainda uma vez (como já toras, Irene Aron (tradutora do alemão) e ca tradição de edições críticas filológicas tor das Passagens de Benjamin as conhe-
o fizera com seu livro sobre o drama bar- Cleonice Paes Barreto Mourão (tradutora sérias, se o compararmos com a Alema- ce. Outra decisão que os organizadores ti-
roco alemão) abalar a concepção tanto do do francês). A edição de luxo, com capa nha). Esta qualidade toda, por sua vez, cor- veram que enfrentar foi o título do volu-
saber histórico como do método do seu dura, não pode ser esquecida aqui. Trata- robora para mostrar a importância do li- me. O próprio Benjamin se referia a este
conhecimento. Com interrupções, mas se, até onde eu saiba, da edição mais “no- vro de Benjamin. Tanto cuidado com a trabalho com diferentes expressões, indo
com perseverança, de 1927 até a sua mor- bre” desta obra de Benjamin. O volume apresentação e tanto apuro filológico cor- do “Pariser Passagen. Eine dialektische Fe-
te ele trabalhou nesta obra que, por moti- reúne todos os fragmentos (até agora pu- respondem tanto às enormes exigências erie” (“Passagens de Paris. Uma feeria di-
vos de justiça histórica, deve ser vista como blicados) que compõem as Passagens, além impostas pela leitura desta obra de Benja- alética”), o projeto de um artigo de 1927,
um verdadeiro projeto, já que ela, pela sua de incluir suas notas, vários dos comentá- min como também à sua importância no passando por Passagenarbeit (Trabalho
forma e método de trabalho, estruturou- rios do editor alemão Rolf Tiedemann e amplo quadro da cultura do século XX. das Passagens) e “Pariser Passagen” (“Pas-
se como uma constelação em constante também dos editores das traduções norte- Mais uma vez, proclamemos um alto e sagens de Paris”) e por expressões que se
movimento. Poderíamos também ver este americana e francesa desta obra. A estas sonoro parabéns para esta equipe de pro- referiam a partes deste projeto (como
projeto de Benjamin como um trabalho, notas e comentários o editor brasileiro dução. “Baudelaire”). O título alemão Das Pas-
pensando este conceito freudianamente, acrescentou outros de sua lavra. Inspira- Devemos ter em conta que o nível de sagen-Werk, A Obra das Passagens, trans-
como uma tentativa de se fazer uma per- do pela edição norte-americana o volume exigência para uma publicação “academi- mite a falsa impressão de que Benjamin
laboração (Durcharbeit) do século XIX. da Editora UFMG e da Imprensa Oficial camente correta” de uma obra desta com- teria concluído esta “obra”, a teria “fe-
Esta perlaboração estaria voltada para a do Estado de São Paulo também incluiu plexidade não apenas é enorme, mas bei- chado”. No entanto, o caráter de abertu-
desconstrução dos mitos daquele passado um precioso “Léxico de nomes, conceitos, ra o infinito. Sabemos que todo processo ra do trabalho de Benjamin possui um sig-
(sobretudo o mito do progresso) e, além instituições”. Pelo que pude observar (evi- de leitura e interpretação de uma obra é nificado tanto histórico como epistemo-
disso, para uma intervenção no próprio dentemente não tive tempo para compa- inesgotável. Do mesmo modo, todo tra- lógico e metodológico. Ao nomear o livro
presente de Benjamin. Destaquemos alguns rar linha a linha com o original) a tradu- balho de edição, tradução e publicação com o termo Passagens os organizadores
dos momentos mais decisivos deste gigan- ção está muito bem feita. A idéia de inse- exige uma série de opções e escolhas. No brasileiros preservaram este caráter. Man-
tesco projeto e de sua versão brasileira. rir um pequeno “Glossário da terminolo- caso em questão estas opções e escolhas tiveram também a importante polissemia
gia benjaminiana”, com a lista das “solu- se amontoam de modo a formar monta- do termo “Passagem”: que significa tanto
A edição brasileira ções” de tradução de vários termos-chave nhas com picos que se perdem nas alturas as galerias comerciais de Paris, como tam-
Antes de mais nada é essencial comen- da filosofia benjaminiana, também só pode da filologia, da filosofia e da história. Os bém passagens de textos, passagens de
tarmos a excelente edição brasileira. De- ser louvada. A qualidade final do volume organizadores tiveram, por exemplo, que eventos, da história etc. Vemos neste ter-
4 K Jornal de Crítica

mo já um importante dado dentro da atrás do qual ele desaparece.” Ou seja, mas trará um enorme ganho para o inte- uma intuição mística do todo e do abso-
nova perspectiva que Benjamin abre para além de trocar “voluntário” por “involun- ressado em Benjamin que não domina o luto). Nos românticos esta intuição inte-
o trabalho histórico: trata-se de um de- tário”, a tradução apagou as marcas do alemão. Creio que esta incorporação invi- lectual teria a ver com uma concepção “lin-
cidido parti pris a favor das imagens e francês incorporadas no texto de Benja- abilizará a republicação em um só volu- gual” do saber, que necessariamente pas-
do imagético. min, que se davam sem utilização de as- me. Mas eu vejo vantagens neste ponto: sa pelo trabalho dos conceitos. Se pode-
Dentro da questão das opções envol- pas ou de qualquer outra marcação. Este afinal a edição nobre, de luxo, já está pu- mos dizer que o mesmo se passa com o
vidas nesta publicação poderíamos tratar trânsito entre as línguas é importante de blicada e agora é parte dos acervos de nos- próprio Benjamin (que também defendeu
também das várias opções de tradução de ser preservado, assim como a manutenção sas Universidades e Bibliotecas. Uma se- um modelo “lingual” do saber, sobretudo
conceitos-chave deste trabalho e, de um da assinatura proustiana nas reflexões de gunda edição em dois volumes, em forma- na introdução do seu livro sobre o barro-
modo geral, dos escritos de Benjamin. Não Benjamin, indicada pelo termo “mémoire to mais econômico (como ocorre na edi- co), por outro lado podemos observar, len-
é minha intenção fazer aqui uma análise volontaire”. Mas já na frase “O colecio- ção de bolso alemã) também terá a vanta- do o Passagens (e os textos conexos a este
detalhada da tradução que, como disse, nador atualiza latentes representações ar- gem de tornar mais acessível esta obra es- projeto, ou seja, a maior parte dos ensai-
está muito boa. O próprio Benjamin foi caicas da propriedade” (H 3a, 6) (“Vom sencial de Benjamin (que agora foi publi- os de Benjamin dos anos 1930, inclusive
um poderoso teórico da tradução e desta- Sammler werden latente archaische Besit- cada com um preço proibitivo para pro- o sobre a obra de arte), que neste autor
cou a terrível dialética que comanda o tra- zvorstellungen aktualisiert”) tem uma for- fessores e estudantes). Além desta divisão surpreendemos uma nova concepção do
balho do tradutor, que caminha sobre um te carga literalizante, seja pela opção sin- em dois volumes, será extremamente im- que seria a “intuição intelectual”. Seu pro-
fio da navalha entre a necessidade e a im- tática, seja pela tradução de “Vorstellun- portante que o volume seja acompanhado jeto e seu método de trabalho, ao invés de
possibilidade da tradução. Benjamin, ao gen” por “representações” e não por “no- de uma versão eletrônica do texto. Espero se contentarem com a “virada lingüística
menos na sua teoria, mas não na sua prá- ções”, o que seria mais fluente. Este caso que a Suhrkamp dê a autorização para do saber”, executam ainda uma “virada
tica de tradutor, era um adepto das tradu- deixa entrever que na verdade nem sem- isto. Apenas esta edição digital permitirá visual do saber”. Em Benjamin a teoria
ções literais, que provocam um abalo du- pre predominou a estética da fluência e da que finalmente a técnica coloque-se à al- retoma seu sentido etimológico de theo-
plo, tanto na língua de partida como na legibilidade nesta tradução, o que, creio, tura das enormes exigências impostas por rein, “contemplar, ver”. Não se trata com
língua de chegada da tradução. Não foi, gera aqui e ali um estranhamento que é este trabalho revolucionário de Benjamin. isto, evidentemente, de um retorno ao po-
ao que parece, este o modelo tradutório produtivo e faz com que o leitor se lembre Este pensador transpôs o método e sua cor- sitivismo e nem ao primado da “presen-
considerado na confecção este livro. Tam- que está a caminhar sobre uma passagem, respondente apresentação (Darstellung) ça” de cunho platônico (tão criticado pelo
pouco caberia diminuir esta tradução por ou seja, que ele está lendo uma tradução. para o campo das imagens técnicas (antes próprio Benjamin e, mais tarde, por Der-
sua espantosa fluência, antes podemos nos A tradução é sem dúvida uma grande de elas existirem na sua versão digital). – rida). Benjamin está na origem de um novo
maravilhar com o trabalho gigantesco que questão quando se trata das Passagens e Repito, no entanto, que o atual momento regime escópico, ou seja, de um novo
foi esta passagem para o português (e de- creio que muito ainda será discutido neste é de festa e que a atual publicação, tal como modo de se ver o mundo e, por tabela, de
vemos somar ao título do livro mais este âmbito. De resto, seria interessante se em ela se encontra, é (ou deveria ser) um mar- se conceber o saber e seus métodos. Sua
importante sentido bem benjaminiano: uma futura segunda edição esta questão co nas nossas ciências humanas. intuição intelectual seria, neste sentido, a
passagem é tradução). Por outro lado, nes- da tradução tivesse mais espaço nas notas realização da passagem do regime verbal
ta tradução praticamente eliminou-se o e paratextos. Outra sugestão (já que esta- Uma nova noção de “Intuição intelectual” para o visual. Mas não se trata de uma
constante trabalho de ir e vir (de passa- mos no âmbito das sugestões para apri- Benjamin no seu livro O conceito de passagem de mão única, antes, Benjamin
gem) de uma língua para outra. Afirmo moramento) seria a incorporação do fan- crítica de arte no romantismo alemão (pu- nos ensina a oscilar entre o verbal (o que
isto porque o Passagens original é prati- tástico conjunto de passagens de cartas, blicado em português pela editora Ilumi- ele denominou de sprachlich, referindo-se
camente um livro em duas línguas, com sobretudo de Benjamin, sobre o seu pro- nuras) mostrou como Friedrich Schlegel e a Friedrich Schlegel) e o imagético. Inspi-
os comentários escritos em alemão por jeto das passagens, que faz parte da edi- Novalis defenderam um conceito de “in- rando-nos em de Campos podemos dizer
Benjamin e as passagens citadas em fran- ção alemã (volume V, pp. 1079-1215). tuição intelectual” diverso do que Kant que Benjamin trouxe para o pensamento
cês (de obras de poetas, literatos, historia- Evidentemente isto encarecerá a reedição, havia criticado (e que corresponderia a conceitual o abalo do verbo-visual.
dores da cultura, extraídas de placas, Benjamin era destes filósofos que pen-
anúncios etc.). O editor alemão não se sava através dos extremos. Nele a escala
preocupou em traduzir estas passagens temporal é ou cósmica ou micrológica.
para o alemão. Poder-se-ia argumentar que Nestes extremos o movimento estanca.
o público alemão domina mais francês que Desde seu livro sobre o barroco, escrito
o brasileiro, mas creio que isto não é cor- em meados dos anos 1920, podemos ob-
reto, em se tratando do público a quem servar esta tendência para a paralisação
esta obra se dirige (universitário). Ou seja, do tempo. Seu olhar de Medusa congela o
a opção pela legibilidade também levou a movimento para revelar novas facetas, até
esta decisão de se traduzir os trechos em então insuspeitas, do real. Exatamente
francês. Com isto se ganha talvez um pú- como a fotografia e o filme (com seu clo-
blico mais amplo, mas o preço é caro, pois se-up e a câmara lenta) o possibilitaram.
a passagem entre as línguas é um dado A teoria da alegoria e da melancolia já des-
material importante no Passagens. Como dobrava uma dialética tensa entre o ver-
não poderia deixar de ser em um trabalho bal e o visual. A teoria barroca da lingua-
desta monta, aqui e ali podemos notar al- gem tendia para uma teoria da proto-es-
guma imprecisão na tradução, como no critura. Além desta circulação entre o fo-
fragmento H 5, 1: onde se lê “A memória nético e o imagético, Benjamin também
involuntária, [...], é um fichário que for- realizou no seu ensaio sobre o barroco um
nece um número de ordem ao objeto, atrás quiasma temporal ao ver cada dado cul-
do qual ele desaparece”, deve-se ler: “A tural ao mesmo tempo como uma espécie
mémoire volontaire [...] é um fichário que de fóssil (ou seja, ele via na história uma
fornece um número de ordem ao objeto, Legenda espécie de “história natural da destrui-
K Jornal de Crítica 5

ção”) e como um documento digno de ser


atualizado. No trabalho das passagens este
modelo epistemológico e de teoria da
história foi aperfeiçoado: o momento de
atualização passou a ser visto como cor-
relato de uma intervenção política no de-
correr histórico. O historiador-catador,
que, para Benjamin, salva os “detritos”
da história, visa à interrupção do seu cur-
so, a que chamamos de progresso, mas
que na realidade é apenas o avanço da
destruição. Em suma, a historiografia em
ruínas que vemos nas Passagens é corre-
lata do modelo histórico como um acu-
mular de ruínas.
“Escrever a história significa [...] citar
a história. Ora, no conceito de citação está
implícito que o objeto histórico em ques-
tão seja arrancado do seu contexto”, le-
mos em um dos fragmentos das Passagens
(N 11, 3). O gesto do colecionador de ar- Legenda
rancar as coisas de seu contexto, assim
como o gesto do catador que “reencanta” aglutinam a uma “nebulosa”, ora a uma delo tradicional da narrativa historiográ- valorizavam a categoria das semelhan-
o que fora descartado pela sociedade de “galáxia”, ora fazem as vezes de “bura- fica: “O materialismo histórico precisa ças na análise do seu material.
consumo, são paralelos ao gesto do “ma- cos negros” e sugam para si as demais renunciar ao elemento épico da história” Para Benjamin haveria algo como um
terialista histórico” que, com sua histori- imagens. Benjamin ficou impressionado (N 9a, 6). Passagens como estas, recorren- “agora da conhecibilidade” que determi-
ografia-montagem, visa romper com o com a ilustração de Grandville “Le pont tes nos anos 1930 na pena de Benjamin, na a leitura de um certo ocorrido, que
continuum da dominação. Esta liberta- des planètes”, de 1844, que está descrita devem ser lidas e relidas. Assim podere- “olha” para este momento atual. Este en-
ção para Benjamin é tanto dos homens em um dos fragmentos mais antigos do mos evitar também as interpretações con- contro entre dois momentos tem para ele
como do próprio passado. Como Tiede- projeto das passagens. Nesta imagem pon- servadoras de Benjamin (freqüentes tam- a forma de uma imagem, a saber de uma
mann nota com razão no prefácio, sem tes de ferro servem de passagem entre os bém no Brasil) que projetam nele um nos- constelação. Com esta concepção, a nar-
se levar em conta a teologia fica difícil se planetas. Um tal universo cósmico é a tálgico da antiga narrativa. Antes, Benja- rativa cede lugar para a leitura e comen-
compreender as Passagens. Mas trata-se marca também de seu próprio livro depois min estava engajado no seu presente e tário das imagens: “a imagem é aquilo
de uma teologia devidamente “profana- do livro, ou seja, das suas Passagens. A apresentou um projeto, com suas Passa- em que o ocorrido encontra o agora num
da”, sem aura, “profanizada”. Para Ben- cidade é captada como um universo “gra- gens, que visava remodelar o fazer e o pen- lampejo, formando uma constelação. Em
jamin, apenas em uma sociedade liberta- matológico”, onde as ruas seriam as linhas sar históricos, para além tanto da noção outras palavras: a imagem é a dialética
da caberia uma memória total do passa- e os prédios as letras. de “progresso” como da de “época de de- na imobilidade. Pois, enquanto a rela-
do: trata-se aqui da utopia psicanalítica Mas este modelo é também escritural cadência” (N 2, 5). ção do presente com o passado é pura-
da passagem do Id ao Ego. Trata-se de em um sentido mais literal, pois Benjamin Esta remodelagem passava fundamen- mente temporal, a do ocorrido com o
um juízo universal que salvaria a tudo e copia trechos do século XIX para cons- talmente por uma revalorização da visua- agora é dialética – não de natureza tem-
a todos: apocatastasis, como escreve Ben- truir a sua grande obra. Como lemos em lidade. Ele anotou: “Um problema central poral, mas imagética. [...] A imagem lida,
jamin, citando Orígenes (N 1a, 3). Tra- uma passagem exemplar deste entrecruza- do materialismo histórico a ser finalmen- quer dizer, a imagem no agora da cog-
ta-se também da utopia lingual de uma mento entre reflexão topográfica e grama- te considerado: será que a compreensão noscibilidade, carrega no mais alto grau
plena comunicação, de uma língua “an- tológica do seu Rua de mão única: “A for- marxista da história tem que ser necessa- a marca do momento crítico, perigoso,
gélica” universal. De uma libertação da ça [Kraft] da estrada do campo é uma se riamente adquirida ao preço da visibilida- subjacente a toda leitura” (N 3, 1). O
“língua pura” que, para Benjamin, dor- alguém anda por ela, outra se a sobrevoa de [Anschaulichkeit] da história? A primei- perigo é o de cair no esquecimento, as-
mita na nossa língua “decaída”. de aeroplano. Assim é também a força do ra etapa desse caminho será aplicar à his- sim como o de se manter não lida e en-
texto, uma se alguém o lê, outra se o trans- tória o princípio da montagem. Isto é: er- coberta pela narrativa tradicional que
O livro depois do livro creve.” Ou seja, Benjamin une o plano guer grandes construções a partir de ele- apresenta apenas o triunfo dos vencedo-
As Passagens são um microcosmo des- geográfico ao micrológico da escritura- mentos minúsculos, recortados com cla- res. Em suma, ao construir uma obra-
ta utopia realizada, na medida em que pro- cópia. Suas cópias, por sua vez, deveriam reza e precisão. E, mesmo, descobrir na móbile, obra-constelação, obra-traba-
cede à “arte de citar sem usar aspas” (N ser juntadas segundo o princípio da mon- análise do pequeno momento individual lho, Benjamin estava performaticamen-
1, 10). Esta obra é também a realização tagem: “Método deste trabalho: monta- o cristal do acontecimento total. Portan- te realizando este trabalho de leitura crí-
do sonho do livro mallarmaico, com suas gem literária. Não tenho nada a dizer. So- to, romper com o naturalismo histórico tica, de salvamento do ocorrido que, sob
páginas intercambiáveis ao infinito. Tam- mente a mostrar” (N 1a, 8; eu grifo), le- vulgar” (N 2, 6). Como no historiador da sua lupa, decantava-se em imagens dia-
bém a idéia de Mallarmé de se construir mos em um famoso fragmento das Passa- arte Aby Warburg (lembremos de seu últi- léticas. Daí a importância de mantermos
um texto espacial, como o seu Un coup de gens. É importante lembrar também o que mo projeto, também inconcluso, o Atlas em aberto o seu projeto, daí a necessi-
dés, é importante para se entender este li- ele quer mostrar: “os farrapos, os resídu- de imagens Mnemosyne), também Benja- dade de publicação eletrônica, em CD
vro de Benjamin. As passagens aí (textu- os”. Como o alegorista-colecionador bar- min visava construir painéis-montagem da (ou qualquer outra base de inscrição di-
ais assim como a forma arquitetônica) são roco, ele se volta para o pequeno e apa- história. Ambos compartilhavam também gital), desta obra. Benjamin como que
vistas como estrelas que compõem cons- rentemente sem-importância para cons- este mesmo gosto pelo detalhe, pelos fe- antevira as possibilidades deste meio, ou
telações, campos de força. São também, truir seu painel móvel do século XIX. nômenos sutis. Os dois operavam a sua seja, a possibilidade de se navegar pelas
além disso, passagens móveis, que ora se Quem sai vencido deste trabalho é o mo- leitura do histórico por meio de saltos e passagens, construindo pontes ad libi-
6 K Jornal de Crítica

tum, conforme o acaso e a presença de ser considerados, a um só tempo, como


espírito do navegante. fruto das catástrofes do século XX e como
A idéia de “ler o livro do mundo”, o resultado do caminho do pensamento de
que guia as Passagens, explicita-se em Benjamin. Evidentemente se ele não fosse
fórmulas nas quais Benjamin afirma que- também uma das pessoas que melhor com-
rer “ler o real como texto” (N 4, 2). Esta preendeu as revoluções pelas quais passa-
leitura realiza paralelamente o comen- vam as mídia neste período, tampouco ele
tário crítico das passagens citadas. Existe teria construído as suas Passagens.
nesta obra uma busca de superação da
submissão à qual a epistemologia tradi- Despertar do mito e do sonho
cional relegava o objeto, ou seja, a um A idéia de arquivo, por outro lado,
papel de “escravo” do sujeito do conhe- possui profundos desdobramentos dentro
cimento. O materialismo benjaminiano da teoria psicanalítica. Freud esboçou vá-
passa por este apego escritural ao seu rias comparações de nossa estrutura psí-
objeto. Se ele escreve que queria apenas quica com outras estruturas complexas que
“mostrar” e nada dizer, não é menos se aproximam da noção de arquivo, como
verdade que boa parte dos fragmentos ao compará-la a uma câmara fotográfica
são comentários-críticos seus. Benjamin (com a sua capacidade de registrar em uma
coloca-se não apenas na posição do co- escritura luminosa um instantâneo), ao
pista, mas também na do comentarista e bloco mágico (com suas partes do meca-
do crítico. Sem contar que, como gran- nismo de inscrição que corresponderiam
de teórico do colecionismo que era, ele ao ego, id e superego) e a um campo geo-
sabia que o colecionador ao selecionar Legenda lógico (com suas diversas camadas, que re-
o que vai para sua coleção já está, de alizam uma espacialização do tempo e no
certo modo, dando uma forma sua ao Arquivos bém devido à onipresença dos computa- qual podemos surpreender lado a lado
mundo. Se para Benjamin “escrever a Mas detenhamo-nos mais neste traba- dores, que (para o bem e para o mal) nos fragmentos cujas origens distam de sécu-
história significa das às datas a sua fisi- lho de colecionador/catador que Benjamin reensinam a pensar, é uma sociedade que los). Esta proximidade de conceitos ben-
onomia” (N 11, 2), não é menos verda- aproxima ao do historiador materialista. sofre daquilo que Derrida denominou de jaminianos com outros da psicanálise não
de que nesta fisionomia misturam-se tra- Devido a este procedimento de colecionar “mal de arquivo”. Sofremos ao mesmo é gratuita. Benjamin era um grande leitor
ços do ocorrido com o agora. Isto não citações, o volume Passagens assume a tempo de memória demais: graças às “in- de Freud e sabemos da importância do
apenas é resultado de se assumir o eu qualidade de um gigantesco e potente ar- finitas” possibilidades de arquivamento conceito freudiano de trauma para a sua
transcendental kantiano, muito mais do quivo. Não por acaso ele nasceu em gran- que as novas mídia nos abriram, assim teoria do choque e do fim da experiência
que isto, no gestus de historiador da cul- de parte de dentro da Bibliothèque Natio- como devido aos “fatos terríveis” que cla- como Erfahrung, ou seja, como capacida-
tura de Benjamin explode-se não apenas nale: um grande e poderoso arquivo do mam por narração; e de memória de me- de de articulação do presente com a tradi-
com o positivismo e o historicismo, mas século XIX. Novamente estamos em um nos: graças ao anti-historicismo típico de ção. Além disso, nas Passagens Benjamin
também com as visões idealistas (hegeli- campo que se tornou a verdadeira pedra- nosso “capitalismo tardio”, ao pragmatis- retoma a noção psicanalítica de interpre-
anas) e metafísicas (de direita e de es- de-toque dos nossos atuais debates inte- mo onipresente, aos inúmeros traumas do tação dos sonhos para descrever o que ele
querda) da história. Contra a visão de lectuais. A história como arquivo é um século XX que geraram cemitérios de ca- queria realizar com o século XIX. Aqui o
progresso (que marca tanto a historio- tema fundamental na nossa era que já foi dáveres e de memórias. conceito fundamental é o de despertar.
grafia burguesa como a marxista) ele denominada de pós-moderna e pós-histó- As Passagens (ao lado do Mnemosyne Como ele anotou: “O agora da cognosci-
também defende uma noção forte de atu- rica, mas que na verdade é simplesmente de Warburg) é uma das primeiras obras a bilidade é o momento do despertar” (N
alização: “Pode-se considerar um dos ob- uma era dos arquivos e das querelas em enfrentar o desafio de se reestruturar o 18, 4). Apesar das profundas influências e
jetivos metodológicos deste trabalho de- torno deles. Benjamin escreve que aquilo pensamento e a historiografia da cultura afinidades com os surrealistas, Benjamin
monstrar um materialismo histórico que que está para desaparecer assume a forma a partir do princípio do arquivo. Esta enor- se distancia deles no que toca ao culto do
aniquilou em si a idéia de progresso. Pre- de uma imagem: como nas fotografias das me atualidade desta obra deve-se também sonho. Ele valorizou o momento do des-
cisamente aqui o materialismo histórico ruas de Paris de Atget, no verso das quais ao fato de ela carregar as marcas do sécu- pertar, como um limiar, uma soleira, na
tem todos os motivos para se diferenci- o fotógrafo anotava: “Va disparaître”. lo XX. Benjamin construiu uma obra que qual os dois campos, o do onírico e o da
ar rigorosamente dos hábitos de pensa- Nossa contemporaneidade, não por últi- ainda hoje é tão atual, justamente porque vigília, se interpenetram: apenas neste lo-
mento burgueses. Seu conceito funda- mo, graças às duas grandes guerras, aos ele penetrou nas entranhas do século XX. cal de passagem pode-se ainda ter acesso
mental não é o progresso, e sim a atuali- contínuos abalos gerados por tantos ou- A fragmentação deste trabalho e o fato de às imagens do sonho e interpretá-las, sem
zação.” (N2, 2) tros conflitos bélicos e genocidas, mas tam- ele ter permanecido “em aberto” devem também, por outro lado, se entregar aos

Espaço Publicitário
K Jornal de Crítica 7

mecanismos de censura da vigília. No seu que, entre outros temas. É de se notar não teorias da tradução tendem a discordar de
livro sobre as passagens de Paris, tratava-
se de ler e interpretar estas imagens, para
só a semelhança desta enumeração dos tí-
tulos das pastas-arquivo com o efeito de
Benjamin neste ponto. Mas neste caso es-
tamos diante de um “original” sui generis, Phasellus
permitir um despertar dos mitos e sonhos estranhamento provocado pela leitura dos já que este original, no limite, “não exis-
do século XIX. O mito mais potente da-
quele século era justamente o mito do pro-
verbetes da famosa enciclopédia fantásti-
ca chinesa mencionada por Borges, mas
te”. Existe apenas um projeto. Um enorme
e fabuloso projeto. Uma obra virtual – ter-
semper ultricies
gresso. Daí a importância de se levar em
conta na recepção desta obra da sua for-
ma revolucionária (e não reduzi-la apenas
sobretudo a quantidade de referências a
sistemas escópicos (refiro-me aqui tanto
às técnicas de representação, do panora-
mo que não por acaso remete tanto ao Bar-
roco com seus tromp l’oeil, como à virtua-
lidade aberta pelas imagens eletrônicas.
mauris. Lorem
às terríveis contingências históricas pelas
quais Benjamin teve que passar – e nelas
ma, passando pela fotografia até a lito-
gravura, mas também a figuras escópicas
Cabe a cada leitor executar esta obra-par-
titura. Aprender a ler, desmontar para re- ipsum dolor
sucumbiu). O gestus de construir, mas tam- como o flanêur, o espelho, as exposições e montar as Passagens. Esta obra de Benja-
bém de interromper e de fragmentar, é par-
te essencial da historiografia como “tera-
também a detalhes da cena urbana, como
as iluminações e as novas artes em ferro).
min já nasceu como fadada a ser este tal
projeto, uma tal obra em movimento. Ela é
sit amet,
pia de choque” desenvolvida por Benja-
min. Este gestus deve ajudar a romper as
forças negativas do mito.
Benjamin desdobra não apenas o século XIX
a partir das passagens parisienses, mas cria
um modelo de leitura/reescritura cultural que
processo, passagem constante. Trata-se de
uma obra líquida. Maleável. Portanto os
tradutores e organizadores brasileiros in-
consectetuer
Impossível deter-me aqui nas milhares
de passagens dignas de destaque do livro
pode servir para muitas outras épocas. As
passagens reuniam em si uma série de ques-
tervieram em um momento desta obra que
é, para falar com Benjamin, medium-de-re- adipiscing elit.
e repletas de idéias tão brilhantes quanto tões e “fantasmagorias”, como a teoria da flexão, fluxo. Eles processaram mais uma
assustadoras. Lembremos de algumas fra- mercadoria, a questão da nova interiorida- passagem, uma leitura, uma execução des-
ses para dar uma idéia do quero dizer: “a de burguesa, as transformações arquitetô- ta obra polifônica/poligráfica e sempre aber-
moda nunca foi outra coisa senão a paró- nicas e técnicas. Podemos apenas especular ta a novas leituras. Ao aproximar este uni-
dia do cadáver colorido, provocação da qual seria a reação de uma mente como a de verso conceitual e “gestual” benjaminiano
morte pela mulher, amargo diálogo sus- Benjamin diante das profundas modificações da língua e cultura de expressão portugue-
surrado com a putrefação entre gargalha- pelas quais a urbe contemporânea tem pas- sa foi executado também um deslocamen-
das estridentes e falsas” (B 1, 4). Quanto sado. Como reagiria diante do museu judai- to produtivo. Com certeza esta tradução
esta intuição não ilumina as pernas raquí- co de Daniel Libeskind em Berlim (de resto, terá um brilhante e produtivo caminho a
ticas de nossas grandes modelos atuais? inspirado no próprio Benjamin)? À arquite- percorrer nesta língua.
Toda a teoria benjaminiana da moda e do tura “computacional” e lúdica de um Frank
sex appeal do inorgânico é absolutamente Gehry? Nossas cidades-esculturas do primei- Márcio Seligmann-Silva é professor livre-docente de
urgente de ser re-estudada. No arquivo ro-mundo poderiam ser lidas por ele como Teoria Literária na UNICAMP. É autor dos livros Ler o
“Baudelaire” (o maior e um dos mais im- um triunfo conservador da técnica – mas ele Livro do Mundo. Walter Benjamin: romantismo e crítica
pressionantes do volume) Benjamin trans- decerto não deixaria de desdobrar o seu pen- poética (Iluminuras, 1999), Adorno (PubliFolha, 2003)
põe a teoria da moda para a análise mar- samento dialético e de apontar para seus mo- e O Local da Diferença. Ensaios sobre memória, arte,
xista do fetichismo da mercadoria – e soma mentos de sonho e de utopia. Mas tudo isto literatura e tradução (Editora 34, 2005); organizou,
a isto tudo uma reflexão sobre a lingua- é especulação. entre outros, o volume Leituras de Walter Benjamin
gem e os valores semânticos: “As modas Por agora cabe apenas saudar a tradu- (Annablume, 1999, que será republicado numa
dos significados mudam quase tão rapi- ção brasileira desta obra impressionante. segunda edição ampliada), e traduziu de Walter
damente quanto o preço das mercadori- Benjamin via nas traduções obras menos Benjamin O conceito de crítica de arte no romantismo
as” (J 80, 2). Já entre as inúmeras idéias duradouras que os “originais”. As atuais alemão (Iluminuras, 1993).
seminais da “pasta” “Teoria do Conheci-
mento, Teoria do Progresso”, lemos uma
frase que resume a dialética do esclareci-
mento: “A barbárie está inserida no pró-
prio conceito de cultura” (N 5a, 7).
As pastas-arquivo não mencionadas
aqui tratam ainda do tédio, do eterno re-
torno, da haussmannização, das lutas de
barricada, das construções de ferro, das
exposições, dos reclames, de Grandville,
do colecionador, do intérieur, do rastro,
da cidade de sonho, de sonhos do futuro,
do museu, do flanêur, da prostituição, do
jogo, dos panoramas, dos espelhos, das
pinturas, do Jugendstil, da novidade, dos
tipos de iluminação, de Saint-Simon, de
Marx, Fourier, da fotografia, da conspi-
ração, de Daumier, da boneca, do autô-
mato, da bolsa de valores, das técnicas de
reprodução, da litogravura, do Sena, da
Paris mais antiga, do ócio, do materialis-
mo antropológico e da École Polytechni- Legenda
8 K Jornal de Crítica

deu lugar à proliferação de superstições, no jornal, e hoje no paroxismo da infor-

O FORRO INCANDESCENTE E COLORIDO DO TEMPO...


Percepção é leitura sectarismos e esoterismos mais ou menos mação. As «redes» são o lugar por exce-
consoladores ou salvadores e a religiões lência desse «isolamento da informação
Legível é apenas o que se de toda a ordem (a começar pelo próprio em relação à experiência» (W. Benjamin),
capitalismo, sustentáculo moderno de antes ocupado pelo mosaico desconexo
manifesta na superfície uma «teologia da mercadoria» e «a mais das notícias de jornal.
extrema das religiões de culto», pratica-
(W. Benjamin) da em permanência e que não redime, mas Fantasmagorias
acumula a culpa à escala universal: veja- A fantasmagoria, que tem na merca-
se o fragmento «O capitalismo como re- doria em todas as suas formas o seu gran-
ligião»). Benjamin traça o perfil e a gé- de paradigma no mundo urbano moder-
O olhar e a memória como método nese de um século, das revoluções bur- no (e na prostituta a sua mais evidente ale-
Parto da noção de «actualidade» num guesas do século XIX às duas grandes goria na poesia de Baudelaire), é a som-
pensamento como o de Walter Benjamin, guerras do século XX, iluminando na bra espectral de manifestações muito con-
em particular o que se desenvolve em tor- obra de Baudelaire aquilo a que chama cretas, materiais e carregadas de promes-
no de uma constelação moderna como a fantasmagorias, categoria-chave que lhe sas, presentificadas no novo espaço públi-
da grande cidade e das suas figuras, pre- permite fazer o levantamento arqueoló- co onde deixou de haver lugar para a vida
sente no terceiro volume (A Modernida- gico e traçar a fisionomia do século XIX, privada. Por isso ela se retirou definitiva-
de), o último publicado, da edição portu- do seu próprio tempo e ainda do nosso mente para o interior da casa burguesa,
guesa das Obras Escolhidas, de minha res- (um tempo aparentemente esvaziado de com a sua ilusão de posse e segurança –
ponsabilidade e tradução, cuja matéria se memória e de projecto): as fantasmago- uma fantasmagoria hoje totalmente absor-
completa com a das Passagens, agora saí- rias são sonhos de um «progresso» que vida pelo poder de aglutinação alienante
das em edição brasileira, e que fechará a
JOÃO BARRENTO

Benjamin desconstrói como pesadelo e da televisão e da publicidade de um capi-


edição portuguesa, em sete volumes. horizonte sempre diferido da História, e talismo do descartável que desconhece a
A noção de actualidade nunca foi para que Baudelaire, num dos poemas em pro- figura do burguês-coleccionador.
Walter Benjamin a do puro imediatismo sa, traduz na imagem sombria de um «fa- A fantasmagoria traz os espectros
ou da novidade, era antes a de um «tem- nal obscuro» (ce fanal obscur). A pulsão (phantasma) à praça pública (ágora),
po de Agora» (Jetztzeit) que convoca pas- niilista, em Baudelaire e Benjamin, leva- como bem lembra Willi Bolle num dos
Benjamin e nós: A cidade, o olhar, a memória

sado e futuro e tem de se distinguir da os a ver o novo que o «progresso» anun- posfácios à edição brasileira das Passa-
mera factualidade. Em rigor, para Benja- cia, ou como sempre-igual, ou carregan- gens. É uma noção que se articula expli-
min não há presente, e a chamada «actu- do consigo o estigma do transitório. Hoje, citamente com os três tópicos de referên-
alidade» é, de facto, um não-tempo, pelo contrário, o novo é vivido em per- cia deste texto: a cidade, o olhar e a me-
«tempo apresado» (gestaute Zeit), sendo, manência no seu borbulhar de superfície, mória, e categoria indissociável de uma
como é, o resultado de um choque que o sem preocupações de se lhe atribuir sen- série de outras que, em Marx, Nietzsche,
anula, entre a latência irresolvida que tidos para além da vivência não reflecti- Bergson e Freud, marcariam toda uma
salta de um passado (um Ur-sprung) e o da. Chegámos ao ponto extremo da «po- visão da Modernidade como lugar obses-
que se nos abre no futuro. Actual não é, breza da experiência», numa vertigem do sivo da presença de máscaras, simulacros
então, aquilo que acontece no presente e instante que se manifesta, no século XIX, e espelhos cujo fundo problemático a
que muitos vêem e vivem à superfície, mas
aquilo que nele actua e promete. Benja-
min anota num dos textos sobre Baude-
laire que este poeta, cujo único tema foi
a cidade de Paris – melhor, as forças, fi-
guras e tipos em acção nela –, escreve para
um leitor póstumo, ou seja, entre outros,
para nós. E o que ele próprio faz na sua
actualidade é seguir esses vestígios de sen-
tido nas ruínas da História para chegar à
sua iluminação, não epifânica, mas pro-
fana e, à sua maneira, «materialista».
Não é muito fácil ao nosso tempo
compreender e seguir este «método». Isto,
apesar de este nosso Agora neo-europeu
e mundial se ajoelhar, com mais fervor e
menos consciência, diante dos mesmos es-
perpentos ideológicos que Benjamin exor-
cizou: a mercadoria, o autoproclamado
progresso, a barbárie totalitária (hoje, a
nova barbárie das guerras globais-locais),
o autocomprazimento burguês, a profa-
nização generalizada, isto é, a ausência
de sentido do sagrado (um sentido, em
última análise, da ordem do estético), que Legenda
K Jornal de Crítica 9

nossa pós-modernidade iria escamotear pinho de Sócrates», espinho do intelec- protesta ainda com o seu passo de tarta-
ou aligeirar, ao travestizar esses proble- to cravado numa predisposição vitalista ruga contra a divisão do trabalho (e será
mas e essas obsessões: a ideologia e o ca- e sensível). A natureza mutante do mo- vencido pelo taylorismo). O shopping de
rácter de fetiche da mercadoria (em mento histórico focalizado, entre a Re- hoje não é a passage: os próprios nomes
Marx), as ilusões da linguagem e do su- volução de Julho (1830) e a Comuna de o dizem, nas suas origens anglo-saxónica
jeito (em Nietzsche), a «memória invo- Paris (1871), permitirá a Walter Benja- e parisiense. Num compra-se e vende-se,
luntária» (em Bergson e Proust), o incons- min, com Baudelaire, ter uma visão do no espírito de um pragmatismo do gan-
ciente e o próprio conceito da «estranhe- moderno (e da cidade moderna) que não ho que impede o olhar livre sobre as coi-
za inquietante» (das Unheimliche) em pode prescindir do antigo, o seu reverso sas, na outra flana-se, alimenta-se o olhar,
Freud. Tudo isto se potenciou hoje, no dialéctico, como uma superfície que es- o desejo e a imaginação. No grande ar-
universo fantasmagórico real-irreal das conde um fundo, uma aparência que re- mazém e no centro comercial um interior
existências num mundo totalmente urba- mete para uma essência a desocultar, gigantesco transforma-se em exterior,
nizado e sujeito à acção de forças invisí- hoje reduzida a uma não-dialéctica das modelo reduzido da quadrícula da cida-
veis e obscuras. Nunca o Lebenswelt aparências e dos simulacros (cf. J. Bar- de moderna. Aí, a atracção fatal da «alma
(«mundo da vida») foi tão dominado por rento, «Dialéctica das aparências», in: da mercadoria» consegue transformar o
abstracções, nunca os corpos se sujeita- A Escala do meu Mundo, 2006, pp.113- flâneur em comprador. O consumo des-
ram tanto à violência sem rosto dos sis- 114). O processo, que permite leituras conhece a durée e provoca o declínio da
temas, nunca as consciências se viram tão não historicistas e não positivistas, é des- aura do objecto, porque não sabe retri-
enredadas no confuso labirinto das redes. crito por Benjamin num fragmento das buir o olhar: «Ter a experiência da aura
Passagens como um «virar para fora o de um fenómeno» – diz Benjamin – «sig-
Tensões forro incandescente e colorido do tem- nifica dotá-lo da capacidade de retribuir
Benjamin descobre já tudo isto, em po» (D 2a, 1). Esta ambivalência dialéc- Legenda o olhar.» A aura dos objectos na flânerie,
gérmen, nos ensaios sobre Baudelaire e tica e produtiva, tanto em Baudelaire aliás, rapidamente se esfuma e transfor-
a Paris do século XIX. E encontra, como como em Benjamin, entre Antiguidade e ma: perde o carácter único e ganha a face
sempre, a forma e o método adequados Modernidade permitirá descobrir, na do- O trabalho do f lâneur do sempre-igual e repetitivo. Benjamin di-
para trazer à luz, nos moldes de um pen- bra desse forro, um dos traços essenci- Virar para fora o forro do tempo é aci- agnostica (com a ajuda de Nietzsche e
samento imagético e de uma armadura ais da grande cidade: a sua transitorie- ma de tudo o trabalho do flâneur melan- Blanqui) esta transformação ainda no sé-
alegórica, algumas das grandes fantas- dade, a «mimese da morte», que se tor- cólico, um trabalho do olhar e da reme- culo XIX, com o fracasso da Comuna de
magorias do século no quadro da gran- nará avassaladora em movimentos mo- moração sobre a superfície do mundo (da Paris em 1871. Um dos resultados mais
de cidade nascente. O seu método pre- dernos do século XX como o Expressio- cidade, o único possível no âmbito da impressionantes desse fracasso é a cosmo-
tende ser deíctico e não discursivo, de- nismo (mas também, com menor violên- Modernidade) cheia de sinais opacos. visão infernal de Blanqui (em L’éternité
monstrativo e não argumentativo. É o cia, em textos como o Livro do Desas- Com o flâneur, «a inteligência familiari- par les astres, 1872), com a sua perspec-
método da «montagem literária» usado sossego), e chegará aos nossos dias. za-se com o mercado» – um casamento tiva niilista, grande síntese de todas as
nas Passagens, nos fragmentos de Zen- Hoje, a grande ameaça da petrificação, impensável hoje! – e «o prazer de olhar fantasmagorias do século numa especu-
tralpark e também já em Rua de Sentido da mimese da morte nas grandes cida- celebra o seu triunfo», que é também o lação última de carácter cósmico, que des-
Único, e que Benjamin sintetiza na des, está presente em dois fenómenos à triunfo da «distracção», motivo central mistifica a ideia de progresso e de mo-
afirmação lapidar: «Não tenho nada escala global: o do pesadelo distópico do da experiência da cidade (e não apenas dernidade como ilusão da História. O
para dizer. Apenas para mostrar.» É um «cimêncio», esse «sono profundo dos ar- dela, mas também do cinema) em Benja- nosso niilismo, o spleen dos subúrbios, é
método de «actualização», de presenti- redores» betonados, essa «tundra subur- min. Como se, aquém e além da observa- diferente do de Baudelaire, que Benjamin
ficação sensível, segundo uma lógica dos bana de paisagens indiscriminadas», que ção atenta (que é mais a do «detective»), via como «o sentimento da catástrofe per-
extremos que melhor pode abarcar as os autores de um livro recente com este fosse a própria cidade a tornar-se sujeito manente». O nosso é menos ambicioso,
constelações contraditórias na análise da título (Cimêncio, de Diogo Lopes e Nuno activo da experiência e a agir sobre o flâ- dispensa a filosofia da História e confun-
metrópole parisiense em fase de grandes Cera, de 2002) consideram «a medida neur distraído e atento, absorto e dispo- de-se com a revolta dos excluídos. A nova
transformações (ou da Berlim dos anos da época»; e o da crescente paralisação nível. Benjamin antecipa já o fim deste flânerie é nocturna e violenta, desespera-
de entre as guerras, explodindo de mo- do movimento, o grande paradoxo da estado de coisas, a morte da flânerie, ao da e ressentida. O seu móbil já não é o da
dernidade e chocando o «ovo da serpen- cultura do automóvel. Esta atitude am- ver no flâneur uma figura que anuncia experiência do olhar (embora se continue
te»): a cidade e a paisagem, o exterior e bivalente em relação às promessas e aos «o mal-estar dos habitantes futuros das o culto da deriva, mas agora na horda,
o interior, a racionalidade e o mito, o perigos da grande cidade, que parte de nossas metrópoles» – nós próprios, tran- no gang). Este spleen remete para outros
capitalismo e os mundos oníricos, a téc- Baudeleire, atravessa a modernidade do seuntes motorizados e alienados das ruas horizontes, e tem outras implicações que
nica e a nostalgia, mas humanizando di- século XX e continua presente hoje, tra- das cidades de hoje, numa pós-moderni- vão para além de meros «exercícios da
alecticamente o seu ponto de vista ao fa- ça um arco tenso que vai da mais radi- dade desencantada, não no sentido que visão». Impõe à política e ao pensamen-
zer da cidade a morada possível do ho- cal demonização (de Georg Simmel aos Max Weber deu à expressão Entzaube- to arquitectónico e urbanístico de hoje
mem moderno e o seu inferno, lugar de Expressionistas e da Metropolis de Fritz rung der Welt, antes no de um tédio in- um compromisso com a história e com o
tipos humanos «heróicos» (o trapeiro, Lang aos arautos das distopias contem- consciente (e não cultivado, como o sple- humano, que se verá, ou realizado ou
o flâneur, a prostituta, a lésbica, o de- porâneas) ao mais cego fascínio (dos Fu- en de Baudelaire) ou de um entusiasmo abortado. E o resultado será, ou um cam-
linquente…) em luta com a mercantili- turistas a Alfred Döblin e às utopias ur- artificial que dominam as massas acomo- po de ruínas, ou uma paisagem-outra. A
zação, a massificação e a quase petrifi- banas futurantes de Yona Friedmann, dadas e auto-satisfeitas, em existências cidade actual, em que o cerne histórico
cação da cidade em alegorias. Estamos Paolo Soleri ou o grupo Archigram). Po- sem exterior, sem contraponto reactivo. se esvazia (à noite) e os subúrbios são de-
perante o grande e aparente paradoxo díamos dizer também que se trata da ten- O flâneur de Baudelaire, esse «botânico sertos (de dia), é uma paisagem sem a
das tensões polarizadas que alimentam são entre o ver (sinais) e o ler (fundos do asfalto», figura própria de «povos com medida humana (de que fala o fragmen-
grande parte da modernidade, dos seus ocultos), que Benjamin desenvolve numa imaginação» e de épocas que conhecem to de Hölderlin «Em azul ameno…» e
autores, pensadores e construtores de ci- série de fragmentos sobre a percepção, o tempo que se evola das coisas, a aura que, de outro modo, os novos tipos hu-
dades (a que noutro lugar chamei o «es- que não posso abordar aqui. temporal que lhes amplifica os sentidos, manos ainda emprestam à Paris de Bau-
10 K Jornal de Crítica

Benjamin sobre cidades, ou sobre «a su- Benjamin é a escrita, e tem vida e impera- O inventário podia ser extenso, mas ano-

Phasellus perfície absoluta do mundo» e da sua


História, em três formas particulares de
memória que correspondem a diferentes
tivos próprios. Não é o sujeito que dispõe
da sua memória, é a sua memória (invo-
luntária, recordação ou rememoração, pre-
temos apenas algumas delas: os labirin-
tos do flâneur são as ratoeiras do trânsi-
to de hoje, os corredores do centro co-
semper ultricies faces e fases do olhar sobre cidades – a
Paris de Baudelaire, objecto do arqueó-
sentificação anamnésica) que dispõe dele,
sob as mais diversas formas e nas mais di-
mercial, as «zonas pedonais» planifica-
das, a floresta onde ele se perde por gos-

mauris. Lorem logo da Modernidade, alfobre urbano de


tipos humanos modernos e «heróicos»; a
Berlim de 1900, labirinto de derivas inte-
versas linguagens.

Perguntas: Benjamin e nós


to é a selva que nos consome, à cidade
como campo de alegorias que emergem
do meio da multidão corresponde o rei-

ipsum dolor sit riores e exteriores da memória transfigu-


radora da infância; e a outra Berlim, a
dos anos vinte da gestação da barbárie,
Aparentemente, não podíamos estar
mais distantes da experiência e da visão
da grande cidade nos escritos de Benjamin,
no sempre-igual dos rostos tristes, abúli-
cos ou agressivos, das massas híbridas de
hoje, o choque produtivo amorteceu na
amet, cenário febril de encontros inesperados,
entre a casa burguesa (que será também
que a captam na hora do seu nascimento
para a Modernidade na Paris do século
sequência entediante e mortífera de acon-
tecimentos de rotina, mas cresceu quan-

consectetuer o centro de Infância Berlinense: 1900) e


o dinamismo social de um momento his-
tórico de grandes mudanças, como o en-
XIX. Mas não há dúvida de que ainda
somos, em vários aspectos, herdeiros das
imagens da cidade em Walter Benjamin.
titativamente, a cidade-texto e palimpses-
to gerou espaços de redes saturadas e as-
fixiantes, a paisagem do inorgânico acen-

adipiscing elit. contramos também na obra fotográfica


de August Sander ou sociológica de Sie-
gfried Kracauer. A cada uma destas faces
Escrever a história do pensamento (e
da escrita) da modernidade urbana nos
últimos duzentos anos significa – diria
tua-se em cenários de pesadelo…
E, tal como em Baudelaire, a «vida an-
terior», «o objecto da experiência no es-
Phasellus correspondem formas de escrita própri-
as: o ensaio sociológico que opera – de
Benjamin – «dar às datas a sua fisiono-
mia». As datas significativas deste percur-
tado da similitude», sinónimo do belo
para Benjamin, continua a ser o sonho

consectetuer forma insuficiente e não convincente, no


dizer de Adorno, que nos anos trinta não
entendeu o método de Benjamin – a me-
so são a segunda metade do século XIX,
os anos entre as Grandes Guerras do sé-
culo XX e a nossa actualidade. Se tivés-
de algo de irremediavelmente perdido, e
hoje mais distante. «É na beleza» – lem-
bra Maria Filomena Molder num lumino-
diação entre manifestações da base soci- semos de responder à pergunta: «Vimos so livro de ensaios sobre Benjamin: Seme-
al e económica e a superestrutura da cri- dessas origens?», a resposta teria de ser ar na Neve, Lisboa, 1999 – «que Baude-
ação poética de Baudelaire; o método do afirmativa. O que de mais intrínseco exis- laire vislumbra a saída do círculo infer-
«escavar e recordar», próprio da escrita te na civilização urbana de hoje partici- nal. E Benjamin tomou-a incansavelmen-
das memórias que, longe de se limitarem pa ainda desses começos: na dialéctica dos te como objecto da sua procura, respon-
a fazer o «inventário dos achados», assi- opostos (hoje: local-global); no ciclo eter- dendo ao pedido que cada coisa nos faz
nalam, «no terreno do presente, o lugar namente igual da mercadoria; em formas de reconhecermos aquele ponto, aquele nó,
delaire), um território marcado por um exacto em que se guardam as coisas do próprias de melancolia e escrita alegóri- aquela saliência quase escondida, aquela
duplo vazio. Benjamin fala de um novo passado»; e a montagem surrealista. E de ca em alguns poetas contemporâneos da ruga indelével, que não se encontram em
mundo a nascer das ruínas da velha cida- cada forma de escrita emerge uma forma realidade urbana e da História; nos tipos mais nenhuma coisa, o que exige um afun-
de. Nós só podemos falar de um mundo própria de memória: a da infância, ali- «heróicos» da fauna parisiense que po- dar-se nos pormenores de cada coisa…».
em devir para o incerto, neste momento mentada sobretudo pela imaginação (uma voam a poesia de Baudelaire e que regres- No lugar desta busca de beleza e da retri-
final de uma modernidade que a si mes- forma de memória projectiva sobre uma saram para lutar por um estatuto de re- buição do olhar – mais ainda no mundo
ma se superou para entrar na fase da sua infância vivida em espaços protegidos, conhecimento, e marcam a vida da cida- actual destituído de memória – instala-se
decadência – que sempre marcou a ponta mas num «diálogo permanente com a de moderna (a lésbica e o homossexual, o reverso dessa vida anterior, o Nada fes-
final das chamadas «grandes épocas» e morte», provável reflexo da obsessão do o sem-abrigo e a prostituta, o artista e o tivo, um outro «apocalipse alegre» (ex-
dos grandes impérios. No mundo contem- suicídio nos anos de escrita de Infância delinquente). pressão de Hermann Broch para a Viena
porâneo vive-se imerso em bunkers arti- Berlinense: 1900); a memória involuntá- Mas a questão essencial para respon- de 1900). É nesse deserto de experiência
ficiais, «bolhas» estanques (como sugere ria do flâneur, alimentada pelo olhar que der à pergunta: «O que liga Walter Ben- que nos encontramos: destituídos da tra-
o filósofo Peter Sloterdijk), grandes cata- descobre nos pormenores, em lugares de jamin e a sua visão da cidade ao nosso dição que ainda nos poderia falar e insen-
cumbas feéricas da mercadoria glamoro- passagem, vestígios férteis do passado e tempo?» não passa pelos aspectos empí- síveis à aura das coisas que nos olham.
sa e desalmada. Ou, para os novos pro- da sua própria experiência; e finalmente, ricos, fenoménicos, da grande cidade on-
tagonistas migrantes da vida «heróica» a um nível outro em que o mundo funcio- tem e hoje, na hora da sua génese e no João Barrento é professor aposentado de Literatura
da grande cidade de hoje, na féerie (nada na como superfície absoluta da História, momento de crise aguda que atravessa. É Alemã e Comparada na Universidade Nova de Lisboa.
dialéctica) da noite – uma das grandes a memória crítica do sujeito dessa Histó- antes a de saber que «nervos» e núcleos Amplamente reconhecido como um dos principais
fantasmagorias, i.e. ilusões de vida, do ria, tal como a encontramos nas Teses so- não aparentes, que tendências latentes tradutores de língua alemã da atualidade, é também
nosso tempo. bre o conceito da História e em alguns numa fase inicial da civilização urbana ensaísta e crítico, com mais de quinze livros, entre
outros fragmentos: esta é a memória da continuam aí e estão hoje mais expostos os quais O espinho de Sócrates e A palavra transversal.
As formas da memória catástrofe, a que continuamos a chamar (e mais desgastados): i. é, o fundo matri- Recentemente, saiu no Brasil, pela editora Escrituras,
Volto à imagem do «forro incandes- progresso. Em qualquer dos casos, as con- cial, modificado, mas único, dessa civili- uma coletânea de seus ensaios intitulada O arco da
cente do tempo» e à dialéctica do ver (in- figurações do acto de rememorar (Erinne- zação na modernidade e na nossa con- palavra e outros ensaios. Desde 2004, é responsável
dícios) e ler (sentidos possíveis), chave da rung e não Gedächtnis, lembrança viva e temporaneidade – a única de que dispo- pela edição por tuguesa das Obras Escolhidas de
alegoria em Walter Benjamin, e um tra- não arquivo) em Benjamin não se mostram mos, nas metrópoles e nas megacidades Wa l te r B e n j a m i n (A s s í r i o & A l v i m ) , c u j o s t rês
balho da memória através do olhar que recuperáveis pela vaga de teorias actuais de hoje, para viver, criar e morrer. primeiros volumes já foram publicados (Origem do
fundamenta o interesse renovado de Bau- de uma «memória cultural» identitária, Por esse fundo perpassam imagens que drama trágico alemão, Imagens de pensamento e A
delaire pela alegoria como sendo de or- como armazém disponível de dados do reconhecemos como as de Baudelaire e modernidade). No blog Escrito a lápis (http://escrito-
dem «óptica» e não linguística. Esse tra- passado. O instrumento do trabalho so- Benjamin, por vezes apenas com um té- a-lapis.blogspot.com), vem publicando textos sobre
balho plasma-se, nos textos maiores de bre o passado (a lembrança subjectiva) em nue deslocamento ou uma intensificação. Benjamin e temas relacionados.
K Jornal de Crítica 11

e, esperemos, em benefício de um tempo


por vir”, escreve Nietzsche no final da in-
trodução à Segunda consideração intem-
pestiva. Esse “intempestivo” está próxi-
mo da verdadeira “atualidade” que de-
fende Benjamin e que o leva a deter-se
nos edifícios destruídos de um século fin-
do; essa atitude não se deve a uma preo-
cupação de erudição ou de exaustivida-
de, mas, ao contrário, obedece ao dever
de impedir que o passado se transforme
em “bens culturais”, isto é, em “presa”
que toca aos vencedores, como diz Ben-
jamin na tese VII. Contra essa concepção
da cultura como posse, uma posse que
perpetua a dominação de classe, Benja-
min tenta pensar uma outra “atualidade”
do passado: a interpelação do presente,
em sua perplexidade, por um momento
do passado, momento esquecido e soter-
rado que, de repente, se torna inédito e
chama por um outro futuro – que cabe
ao presente reconhecer.
Qual é a perplexidade, a urgência do
nosso presente quando lemos, hoje, o li-
vro das Passagens? E pressupondo que
não queremos fazer dele simplesmente
mais um fetiche cultural, mesmo de es-
querda. Pessoalmente, eu gostaria de for-
mular a seguinte questão: como pensar
Legenda uma historiografia crítica que consiga
nos ajudar a transformar o presente sem,
com isso, cair na infeliz alternativa en-
tre o relativismo pós-moderno e a coe-

FILOLOGIA E ATUALIDADE
rência enganadora das “grandes narra-
tivas” ou dos “grandes relatos” (les gran-
ds récits de Lyotard) ilusórios. Essa al-
ternativa parece orientar, mutatis mutan-
dis, a oposição benjaminiana entre a his-
toriografia das Luzes, da Aufklärung,
historiografia transformada em ideolo-
gia do progresso, e a historiografia bur-
guesa do historicismo, de Leopold von
Ranke a Dilthey, baseada na erudição e
JEANNE MARIE GAGNEBIN na empatia (Einfühlung).
No caderno N das Passagens, nas te-
Na epígrafe da tese XII “Sobre o con- ristas privilegiados e mimados, ou ainda como não nos perder com deleite no la- ses “Sobre o conceito de história” e nas
ceito de história”, Benjamin colocou uma aos flâneurs que passeavam nas passagens birinto do livro das Passagens, em análi- anotações críticas que se referem a elas,
citação da Segunda consideração intem- parisienses e, hoje, vagueiam nos shop- ses tão refinadas quão gratuitas? esse dilema se mostra na tentativa de pen-
pestiva de Nietzsche, consagrada à Utili- ping centers. Os primeiros, os historia- A concepção polêmica de Nietzsche de sar outros modelos conceituais da relação
dade e à Desvantagem da história para a dores burgueses, se identificam ao passa- “filologia” ajuda, igualmente, a entender do presente ao passado e, portanto, da
vida: “Precisamos de história, mas preci- do (à “massa dos fatos” diz Benjamin na melhor a importância que Benjamin dá a relação do presente a si mesmo e a seu fu-
samos dela de outra maneira que o mi- tese XVII), os segundos, os flâneurs, à essa disciplina (em particular na sua cor- turo: modelos diferentes, portanto, tanto
mado caminhante ocioso no jardim do sa- mercadoria, a essa “monstruosa coleção respondência com Adorno) e que ela tam- da hermenêutica de Dilthey quanto da ide-
ber”. Esse ensaio de Nietzsche constitui de mercadorias” da qual fala Marx no bém possui para pesquisadores que se des- ologia do progresso, socialista ou não.
uma das primeiras críticas filosóficas à início do Capital. Inseridos à vontade no bruçam sobre esse amontoado de citações Benjamin procura, anota, recolhe, coleci-
“doença” do historicismo, essa “histori- labirinto das civilizações passadas ou das e de reflexões inacabadas que constitu- ona, separa, tal um verdadeiro chiffonni-
ografia burguesa” à qual Benjamin tenta vitrinas, historiadores e flâneurs podem em o livro das Passagens. “Pois, não sei er1 ou um sucateiro de pensamentos. Ele
contrapor, nas Passagens e nas teses “So- assim passear durante a vida inteira, fa- qual sentido a filologia clássica poderia recolhe vários modelos diferentes, várias
bre o conceito de história”, uma outra zendo algumas descobertas interessantes ter hoje afora o de exercer uma influên- reflexões possíveis sobre história e sobre
escritura da história. A imagem do cami- ou algumas boas compras. cia intempestiva [unzeitgemäss, literal- memória, aproveitando os materiais os
nhante ocioso chama atenção. Os cien- A admonição de Nietzsche, retomada mente “não conforme ao tempo”], isto é mais heterogêneos: jornais, fotografias
tistas do historicismo se assemelham a tu- por Benjamin, também nos diz respeito: contra o tempo, portanto sobre o tempo antigas, gravuras, poemas, anúncios, livros
12 K Jornal de Crítica

e panfletos, listas de mercadorias, relatos lar a partir das notas do Caderno N do li- baseado na leitura; mas, na situação de ur- rém, a crueldade histórica desmente as idéi-
de faits divers, novidades da moda e novi- vro das Passagens até a redação das teses gência política e existencial que preside à as de sentido, compreensão e orientação,
dades arquitetônicas, para esboçar algo que “Sobre o conceito de história”, pode-se redação das teses, seu último texto escrito então o “historiador materialista” deve re-
ele chama de “construção de uma experi- observar, no entanto, que esse último texto antes do seu suicídio, texto cuja redação nunciar a essas suposições epistemológicas;
ência” (Erfahrung) com o passado. oblitera quase por completo o paradigma foi desencadeada pelo pacto de não-agres- deve ele tentar apreender o presente e sua
Se for a filosofia, segundo Deleuze, a filológico do texto e da leitura, afora quan- são de agosto de 1939 entre Stalin e Hitler, relação ao passado de outra maneira, isto
tentativa de inventar, de criar conceitos do lança mão do conceito de “citação”. O ele prioriza o paradigma teológico da in- é, com outros conceitos a serem criados,
porque os conceitos em vigor não dão con- modelo teológico-político da ruptura revo- terrupção messiânica e relega, ao que pa- inventados, experimentados no pensar:
ta daquilo que o pensamento quer pensar, lucionária predomina. Assim, as teses con- rece, o filológico ao segundo plano. “imagem dialética”, “dialética em suspen-
porque precisa de conceitos novos para me- têm uma profusão de metáforas ligadas ao Por quê? Minha segunda hipótese con- são”, “agora da cognoscibilidade”, “tem-
lhor comprender e transformar o real, mes- salto e à explosão (Sprung, Ursprung, siste em pensar que essa relativa ausência po-de-agora” etc.
mo que ainda não se saiba como, então o sprengen, aufsprengen, herausspringen, se deve ao fato de que o modelo hermenêu- Podemos também explicitar o esforço
gigantesco trabalho de recoleção e de refle- entspringen, todas palavras com o mesmo tico e filológico subentende ainda uma com- de pensamento de Benjamin da seguinte
xão do livro das Passagens é, sem dúvida, radical spreng-, isto é, saltar), ou, igualmen- preensão do real que, em analogia com a maneira: para continuar fiel a uma verda-
um empreendimento filosófico. Mas isso te, à interrupção e à cesura (Chock, Stills- compreensão e interpretação dos textos, re- deira concepção de “atualidade” como sen-
não significa que ele esteja isento de incoe- tand, Stillstellung); tais metáforas dominam pousa sobre os pressupostos de uma conti- do uma instância crítica e intempestiva,
rências, mesmo de contradições. Em vez de em detrimento das metáforas filológicas e nuidade e de um sentido inerentes à histó- Benjamin não abandona a filologia – que
repetir como encantações mágicas algumas hermenêuticas de leitura e de interpretação, ria. Esses pressupostos, que Dilthey resu- ele sempre reinvindicará como sendo o cui-
das fórmulas mais conhecidas de Benjamin, seja da história, de um texto, do sonho ou me no conceito de Sinnzusammenhang dado e a atenção aos detalhes, aos restos,
como se elas pudessem se iluminar sozinhas, mesmo da imagem, metáforas muito mais (contexto ou conexão de sentido), permi- aos resquícios –, mas desiste tanto da hipó-
gostaria de propor a seguinte hipótese de presentes nas Passagens. Certamente, Ben- tem compreender os textos e, de maneira tese ideológica do progesso histórico quanto
leitura: dois paradigmas principais se jamin não desiste desse modelo de análise análoga, orientar-se no real. Quando, po- da hipótese hermenêutica e filológica de um
opõem e também se alimentam reciproca- sentido subjacente à história: é ali que jaz a
mente nesses fragmentos. São o paradigma dura diferença entre o texto do livro e a
do texto, da leitura, da escrita e da escritu- trama do real. Benjamin delimita esses dois
ra, o paradigma da filologia; e o paradig- domínios distintos, explora os possíveis
ma do acontecimento, da irrupção e da rup- caminhos de través, mas também tem a ta-
tura, do kairos revolucionário, paradigma refa, se não quiser recair num idealismo
de uma apreensão teológica da realidade complacente ou num romantismo otimis-
histórica e profana. Benjamin explicita essa ta, de assinalar e circunscrever as zonas que
oposição entre realidade e texto, entre teo- desafiam essa comunicação, os territórios
logia e filologia, quando declara: “Ter sem- irredutíveis um ao outro da ordem do sen-
pre em mente que o comentário de uma tido e do emaranhado da história. Essa ten-
realidade (pois trata-se aqui de um comen- tativa faz a grandeza, mas também as difi-
tário, de uma interpretação de seus porme- culdades e as aporias de um empreendimen-
nores) exige um método totalmente dife- to como o livro das Passagens.
rente daquele requerido para um texto. No
primeiro caso, a ciência fundamental é a 1
O chiffonnier é uma figura essencial da
teologia, no segundo, a filologia”.2 poesia e da poética de Baudelaire, tão im-
Os leitores das Passagens não podem nem portante para a leitura benjaminiana da
devem minimizar essa oposição, ressaltada modernidade.
pelo autor, mas muito mais tentar entender 2
Passagens, ed. organizada por Willi Bol-
como Benjamin subverte as categorias tradi- le, trad. Cleonice P. B. Mourão e Irene
cionais de filologia e de teologia no seu tra- Aron, Belo Horizonte: Editora UFMG; São
balho de pesquisa histórica. O paradigma fi- Paulo: Imprensa Oficial, 2006. Caderno
lológico e hermenêutico da leitura e da escri- N, fragmento N 2,1.
ta, paradigma onipresente na obra inteira de 3
Benjamin fala de “ecrasita”, uma matéria
Benjamin, não desaparece (ver, em particular explosiva, em N 9a, 6.
os fragmentos N 4, 2 e N 3, 1 das Passa- 4
Passagens, op. cit, Caderno N, fragmento
gens), mas é como que corroído pelo explo- N7a,7.
sivo revolucionário3 da teologia. Trata-se de
uma teologia profana que, por sua vez, teria Jeanne Marie Gagnebin é professora de Filosofia
renunciado à presença e à segurança do tex- na PUC-SP e de Teoria Literária na UNICAMP. Entre
to sagrado, do texto primeiro. Assim pode- outros livros, publicou Walter Benjamin: os cacos da
mos ler a famosa comparação do pensamen- história (Brasiliense, 1982), História e narração em
to benjaminiano, na sua relação à teologia, Walter Benjamin (Perspectiva, FAPESP e Editora da
com o mata-borrão e a tinta: “Meu pensa- UNICAMP, 1994; ed. francesa por L’Harmattan, no
mento está para a teologia como o mata-bor- mesmo ano), Sete aulas sobre linguagem, memória e
rão está para a tinta. Ele está completamente história (Imago, 1997) e Lembrar escrever esquecer
embebido dela. Mas se fosse pelo mata-bor- (Editora 34, 2006). Este artigo retoma alguns temas
rão, nada restaria do que foi escrito”.4 desenvolvidos numa palestra proferida no Colóquio
Sem querer prejulgar de uma evolução Internacional sobre Walter Benjamin Topografias do
do pensamento de Benjamin, em particu- Legenda Lembrar, realizado em Paris em junho de 2005.