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CEM

HISTÓRIAS
DA MINHA FÉ
VOL. 2
FUNDAÇÃO MOKITI OKADA - MOA

Revisado em janeiro de 2014


Cem História da Minha Fé Vol. 2

ÍNDICE

PREFÁCIO ................................................................................................................................... 5
EDUCAÇÃO INFANTIL - A BASE DA FORMAÇÃO HUMANA .............................................. 9
FORMANDO COMBATENTES A SERVIÇO DE DEUS ......................................................... 19
APARIÇÃO DE ESPÍRITOS ..................................................................................................... 26
CASO I - ESPÍRITO DE MORTO NA GUERRA ............................................................................... 26
CASO II - ESPÍRITO DE UMA MULHER INFELIZ ........................................................................... 27
CASO III - ESPÍRITO DE SAMURAI ............................................................................................. 29
CASO IV - ESPÍRITOS DE FALECIDOS EM ACIDENTES................................................................ 29
CASO V - ESPÍRITO DE PRISIONEIROS DE GUERRA E SEU ÓDIO ................................................ 31
CONFRONTOS .......................................................................................................................... 37
COMO INFUNDIR CONFIANÇA .............................................................................................. 45
A INFIDELIDADE CAUSADA POR MAU-OLHADO .............................................................. 51
MEU PAI ME AGUARDOU PARA MORRER.......................................................................... 58
DILEMA ENVOLVENDO A MORTE DE MINHA FILHA ......................................................... 65
BOTAMOTI DE SADASHI: IMPOSSÍVEL COMER MAIS UM............................................... 72
ATUAÇÃO DA FÉ NA VIDA CONJUGAL ............................................................................... 77
CASO I - ELIMINAÇÃO DO NERVOSISMO ENTRE O CASAL .......................................................... 77
CASO II - RECUPERAÇÃO DA POTÊNCIA SEXUAL ATRAVÉS DO JOHREI..................................... 80
CASO III - UMA HORA PARA OS DOIS ....................................................................................... 83
A AMPUTAÇÃO DA PERNA .................................................................................................... 87
AÇÃO DO ESPÍRITO DE TEXUGO ......................................................................................... 91
CASO I - FALANDO COM VOZ DE ARTISTA ................................................................................ 92
CASO II - PASSANDO PELA PORTA DA BIBLIOTECA .................................................................. 94
CASO III - A "TEATRAL" ENTRONIZAÇÃO DA IMAGEM DA LUZ DIVINA....................................... 97
ENGUIA PODE CAUSAR MAL? ............................................................................................ 102
A ORAÇÃO SE COMUNICA NO SONHO ............................................................................. 107
O PROTESTO À IMPRENSA ................................................................................................. 109
A INCOMPREENDIDA IMPORTÂNCIA DO JOHREI ........................................................... 114
CASO I - MELHOR AS APARÊNCIAS QUE O JOHREI ................................................................. 114
CASO II - OPERAÇÃO AO INVÉS DE JOHREI ............................................................................ 116
CASO III - RECOMPENSA DE CINCO PEQUENOS CAQUIS VERDES ............................................ 119
CASO IV - INTERNAÇÃO APÓS A CURA PELO JOHREI ............................................................. 120
MEU JEJUM DE DOZE DIAS ................................................................................................. 122
AS PROFECIAS DA INCORPORADA .................................................................................. 128
AS CHANCES NAS ATIVIDADES DE DIFUSÃO ................................................................. 133
CASO I - DESENVOLVENDO NOVAS REGIÕES, GUIADO PELO ESPÍRITO DE RAPOSA ................. 133
CASO II - EFEITO CONTRÁRIO DO ESPÍRITO DE RAPOSA ......................................................... 137
CASO III - A BASE DO DESENVOLVIMENTO DA IGREJA EM OKAZAKI ....................................... 142
A AFINIDADE DO LOCAL COM A OBRA DIVINA .............................................................. 145
ESPÍRITOS DO MUNDO ESPIRITUAL ................................................................................. 149
CASO I - ENCOSTO DE ESPÍRITO NÃO PURIFICADO EM SENHORA GRÁVIDA ............................. 149
CASO II - ESPÍRITO PURIFICADO ATRAVÉS DO JOHREI ........................................................... 150

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

DOENÇA DE CRIANÇA É PURIFICAÇÃO DO SEU SANGUE .......................................... 154


A PROVIDENCIAL DISPENSA MILITAR .............................................................................. 159
AS DEDICAÇÕES EM RETRIBUIÇÃO ÀS GRAÇAS DIVINAS ......................................... 167
A SÉRIE DE ACONTECIMENTOS MISTERIOSOS ............................................................. 173

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Título do Original: "Tsutikai no Miti" (Watashi no Shinko


Hyakuwal
Editora: Guendai Shuppan Sha
Tóquio, Japão
Edição: Fundação Mokiti Okada - M.O.A.
Rua Morgado de Matheus, 77 - Vila Mariana
Fone: 572-6944
São Paulo, Brasil

1ª Edição: julho de 1987


Direitos autorais reservados.
Proibida a reprodução total ou parcial desta obra.

O autor

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

PREFÁCIO

Num dos Ensinamentos de nosso Mestre Meishu-Sama,


existe um trecho em que Ele faz a seguinte afirmação: "Deus
alegra-se quando o homem é feliz".

O fato do ser humano levar uma vida harmoniosa e


agradável corresponde inteiramente à Vontade Divina. Se o
mundo estivesse de acordo com essa Vontade, seria um Paraíso.
Mas, então por que sofremos tanto nesta terra onde deveria estar
estabelecido o Reino dos Céus? Por que tanta dor e tristeza? Por
que tanta infelicidade?

Na verdade, é o próprio homem a origem de tudo isso,


porque, cada vez mais, ele se distancia de Deus, criador e
doador de toda a vida.

Qual será, então, o fator fundamental para o homem levar


uma vida feliz?

Sem dúvida alguma, a saúde, antes de mais nada. Mas a


verdadeira saúde é adquirida pela obediência à Lei Divina e pelo
conhecimento dos princípios da Natureza.

A vida cotidiana oferece numerosos prazeres ao homem.


Porém, o da alimentação destaca-se como aquele que é
realmente o mais comum à todos. Entretanto, para se saborear
com real prazer os alimentos, é fundamental conhecer a meIhor
maneira de prepará-los. Sem isso, desperdiça-se boa parte do
valor daquilo que a Natureza concede e há pouco proveito no
comer. Hoje em dia, o preparo do peixe, dos vegetais, etc., é feito
por meios tão inadequados que se acaba por alterar totalmente o
seu paladar natural. No entanto, a adulteração do seu gosto já
começa no próprio processo de sua produção.

Por conseguinte, é preciso ter em vista que o fato de não

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

se saborear os alimentos com o devido prazer prende-se, não só


ao seu mau preparo, como a uma possível indisposição física do
corpo e, especialmente, à maneira como são obtidos. Na
verdade, como o alimento em sua forma original é uma
concessão da Natureza, logicamente deve ser sempre saboroso
e requerer um preparo simples.

Como a alimentação, também a vestimenta e a própria


moradia são coisas concedidas por Deus. O ser humano,
todavia, sempre ambiciona mais.

Entretanto, cumpre dizer que aqueles que querem levar


uma vida egoística, centralizada em si mesmos, não estão de
acordo com a Vontade de Deus. Todos os homens são Seus
filhos, mas aqueles que procuram dividir com os outros os seus
conhecimentos, aqueles que têm gratidão pela sociedade em que
vivem, Deus cumula de bênçãos. Os que conseguem utilizar-se
das coisas sem torná-las de sua exclusiva propriedade, os que
são gratos por elas, dando-lhes o devido valor, os que,
conhecendo em profundidade o espírito dessas mesmas coisas,
cuidam-nas com carinho, os que, a elas dedicando amor,
conseguem vivificá-las além de sua função natural, sim, tais
pessoas podem ser consideradas verdadeiras servidoras de
Deus e reais colaboradoras de Sua Obra.

Deus ainda concede à criatura humana a beleza natural,


impossível de ser criada pelo homem. Foi, também, a própria
Vontade Divina que insuflou no homem o desejo de ser belo e de
querer usufruir da beleza. As obras de arte criadas pelo homem
são manifestações concretas do seu desejo de aproximação com
esta Vontade Divina.

A verdadeira base para se levar uma vida feliz, deleitando-


se com o que há de bom e de belo, é o amor. Assim, fica claro
que o homem jamais pode viver solitariamente. O valor do seu
viver está, precisamente, em ter alguém que o compreenda e

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

complete a sua existência. Quando se procura amar a outrem,


esse amor acaba retornando a nós mesmos. O sentimento de
gratidão gera sentimento de gratidão. Os pensamentos maus,
negativos, retornam em forma de outros pensamentos maus,
negativos. As boas ações geram boas ações. Negligenciando a
sua prática, não há nada para retornar a nós. Por isso o homem
tem extrema dificuldade em alcançar a felicidade. Ele não
procura conhecer qual o verdadeiro espírito da felicidade e limita-
se a procurá-la sofregamente. E, apesar do afã em alcançá-la,
acaba por afastar-se dela cada vez mais.

Se a felicidade é desejo tão inerente a todos os homens,


por que tamanha dificuldade em conquistá-la?

A causa, vale repetir, encontra-se no desconhecimento do


espírito próprio da felicidade, ou melhor, no desconhecimento,
por parte do homem, da Vontade de Deus.

Meishu-Sama ensina, de maneira clara e simples, que "a


causa da infelicidade está na falta de inteligência". Inteligência
não quer dizer conhecimento. O conhecimento adquire-se pelo
aprendizado e pelo acúmulo de experiências. A inteligência é
uma bênção concedida por Deus ao homem (em caracteres
japoneses escreve-se "chi-ê": abençoado por Deus, por conhecê-
Lo. Portanto, a inteligência é concedida ao homem quando ele
procura conhecer o âmago da Vontade Divina, esforçando-se por
harmonizar-se com ela. Mas, enquanto o homem permanecer
ignorando essa Vontade, não será abençoado por Deus, sendo,
logicamente, infeliz. Dizendo de outra forma, só será merecedor
das bênçãos de Deus quando conseguir entender Sua Divina
Vontade.

É pelo servir a Deus, pelo amor ao seu semelhante e às


coisas da Natureza, que o homem acaba por merecer o Amor
Divino e, conseqüentemente, atingir a felicidade. Em outras
palavras, jamais saberá como alcançar a verdadeira felicidade,

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

se não se entregar a Deus, servindo na Sua Obra de Salvação


da humanidade e cooperando na construção do Paraíso.

Por ter consciência de tudo isso, é meu desejo percorrer


esse caminho de Luz indicado por Meishu-Sama, cultivando o
meu interior e aprimorando-me mais e mais.

Na segunda metade de minha vida, ingressei no caminho


religioso e sofri uma total transformação ao contatar com a Luz
da Fé, manifestando minha surpresa e alegria, reconhecendo o
mistério em que esse fato me envolveu.

Através da minha prática religiosa adquiri uma rica


vivência e consegui aprofundar imensuravelmente minha fé. É
dentro da infinidade de experiências do meu dia-a-dia, que
escolhi aquelas que mais me emocionaram para narrar as "Cem
Estórias da Minha Fé".

"Cem Estórias da Minha Fé" compõem, pois, um relato


pleno de gratidão pela inteligência e sabedoria que me foram
concedidas pelo Amor de Deus.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

EDUCAÇÃO INFANTIL - A BASE DA FORMAÇÃO HUMANA

Durante minha vida, tive que cuidar de diversas pessoas


das mais variadas maneiras possíveis. Nestas oportunidades, fui
obrigado a visualizar o futuro das mesmas: centralizando no
presente, procurava o passado delas para estender a visão sobre
o seu futuro.

As pessoas que atualmente estão sofrendo é porque têm,


no seu passado, as origens correspondentes a este sofrimento.
Procurando o elo de causa e efeito, torna-se evidente a
problemática da educação que recebeu durante a sua infância.

É realmente difícil alguém poder remodelar sua própria


personalidade, assim como a compleição física e força corporal,
após se tornar adulto. É deveras árduo corrigir as suas próprias
falhas, mesmo tendo consciência das mesmas ou sendo elas
apontadas por terceiros. Isso ocorre porque a formação da base
da personalidade está decididamente na infância. Se formos
verificar em qual ambiente passou a infância ou que influências
recebeu, é difícil definir se estas foram boas ou más, pois várias
e diferentes condições começam a se emaranhar. Podemos até
obter uma vaga definição, mas também não quer dizer que basta
se encontrar em ambiente satisfatório para crescer bem. A chave
que faz com que o ambiente se torne realmente propício está
com os pais, que educam e cuidam dos filhos. Dependendo da
postura deles e da maneira como educam, todos os elementos
que pareçam apropriados podem não conseguir expandir todo o
seu potencial. Enfim, não haverá nenhum inconveniente em se
afirmar que o melhor meio educacional são os próprios pais.

Hoje, quando ouvimos falar em Educação, somos


propensos a pensar na formação escolar. Porém, o que constitui
a base do ser humano é a educação infantil, que precede a
educação didática. Não podemos pensar na verdadeira educação
sem voltarmos os olhos nesse sentido. A responsabilidade de

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

educar não está nem nos professores e nem nos educadores,


mas sim nas mãos dos pais.

Não podemos afirmar que sejam verdadeiros educadores


aqueles que tenham se desenvolvido somente nos estudos e
nem que o médico, especialista na cura das doenças, seja
detentor da longevidade e da saúde perfeita. Da mesma forma,
filhos e irmãos de educadores e pedagogos nem sempre detêm
grandes índices de conhecimentos especializados ou são
humanamente aplaudidos. Há um ditado que diz: "Tornar-se um
grande homem devido a uma especialização". Realmente, pode
parecer haver adquirido toda uma especialização, mas é muito
comum, neste caso, não se pensar na invisível Vontade de Deus.
Por esse motivo, mesmo os profissionais especializados não
conseguem ser verdadeiros educadores.

O homem recebe, por uma força invisível, a vida através


dos pais. Nasce na Terra e se desenvolve recebendo dos
mesmos uma educação benemérita. A infância é, em suma, o
período de determinação da personalidade humana. Essa fase é,
indubitavelmente, a base para a educação, de tal forma que os
antigos propagavam muito intensamente a preparação
psicológica da gestante.

Dizem, também, desde remotas eras, que "se for casar,


analise bem os pais do seu parceiro".

Ao mesmo tempo em que isso expressa o reflexo da


personalidade dos pais nos filhos, significa que a avaliação da
personalidade do noivo ou da noiva é muito difícil, devido à
própria imaturidade e que, muitas vezes, ocorre uma
supervalorização ocasionada por olhos apaixonados; mas, se
analisarmos os pais, chegaremos a uma conclusão mais próxima
da verdade. Há uma expressão que diz "Águia que nasceu de
gavião", para mostrar que alguém se saiu diferente, bem melhor
que os pais. Não podemos afirmar que os filhos sejam sempre

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

iguais aos pais, mas, de qualquer maneira, se houver pontos


positivos nestes, aqueles, sem falha, poderão se tornar homens
úteis à sociedade. Não sou, de maneira nenhuma, contra o
namoro, mas acho importante que se leve em conta a análise
dos pais de cada um dos parceiros. Quando se desconfia que
possa haver algum problema com os pais e os filhos se casam,
haverá, pela minha experiência e estudo, uma alta incidência de
conflito familiar.

Muitas vezes vejo homens já amadurecidos cometerem


ignorância ao lamentarem, por simples capricho, não terem
recebido uma boa educação na sua infância. Por essa
experiência é que deverão pensar seriamente na educação dos
seus filhos.

O Mestre assim nos ensina:

"Ao mesmo tempo em que, aos quarenta e tantos anos,


recebi de Deus uma importante missão, elevei-me até o nível de
"Kenshin-jitsu", o qual até hoje ninguém atingiu. Obviamente,
quando vejo tudo desse ponto, percebo quantas coisas estão
erradas na cultura atual. Portanto, a base da verdadeira salvação
deve ser a de trazer tudo às claras, e conduzir toda a
humanidade à verdadeira luz da sabedoria."

"Kenshin-jitsu" quer dizer "conhecer tudo a respeito do


passado, presente e futuro". Isso foi possível por ser Ele o
Mestre, mas, nós, discípulos de Deus, ao nos dedicarmos ao
Servir, que é a base da salvação, devemos pensar mais
seriamente na importância da educação humana e, em especial,
na educação das crianças.

Já se passaram quinze anos, mas devido a insistentes


pedidos de minha terceira filha e seu marido, que também é
educador, administro um jardim de infância e, na parte prática da
educação infantil, deixo ao encargo do casal.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Quando me sobra tempo, visito a escola, o que também é


para mim um grande prazer. Todas as vezes os meninos me
deleitam o coração.

Ao perceber a minha presença, a professora diz aos seus


alunos:

- Meninos, cumprimentem o nosso diretor.

A essa ordem, as crianças me saúdam com voz alta e


clara. Respondendo a todas, vejo os olhos de cada uma. O brilho
e a beleza dos seus olhares são incomparáveis - são tão
imaculados, tão vivos que até me sinto purificar. É como se
estivesse encontrando a salvação.

Nesta primavera, tive a oportunidade de participar da


formatura de uma turma de alunos. O professor Nomura, grande
educador infantil, também estava presente. Os meninos vinham à
frente e, ao serem chamados, cada um se adiantava até à mesa
central e recebia o seu certificado de conclusão.

- Fulano de tal!

- Presente!

A vibração de suas vozes era clara e alegre. Sentado à


frente de todos eles, à medida que ia observando seus gestos
atentamente, percebi que cada um deles, apesar de ainda ser
criança, apresentava suas próprias características. A
individualidade já estava formada, e só de ver a sua expressão e
atitudes, senti que podia predizer o futuro daqueles meninos.

Essa criança, provavelmente, se tornará um cientista. Essa


é tão vigorosa que algum dia realizará algo espetacular, ou ainda
poderá se tornar um delinqüente, caso se relacione com
bandidos. Essa tem temperamento profissional. Essa

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provavelmente rumará para o caminho da tecnologia. Essa tem o


exato tipo para ser administrador...

Essa menina terá a sorte a seu favor. Essa se tornará uma


dona-de-casa exemplar. Essa poderá ser líder de alguma
classe...

Não pude deixar de contar ao professor Nomura essas


sensações, após o término da cerimônia.

- É exatamente como o senhor diz. Eu também desenvolvi


pesquisas em relação aos problemas da educação infantil, e
afirmo que a individualidade da criança é formada na sua infância
e esta possui uma profunda relação com o seu futuro. Se o
senhor teve essas sensações acertou em oitenta por cento.

Levei um grande susto, ao ouvir a resposta do professor.

- Caso, então, o senhor preveja o futuro daquelas


crianças, acertará em mais de noventa por cento? - perguntei-
lhe.

- Sim, consigo acertar. Por isso, tenho continuado a


afirmar que a chave da educação infantil não é nem a creche e
nem o jardim de infância, mas os pais. É por isso que dou real
importância em alertá-los através dos alunos. De nada adianta,
por exemplo, ao tentar corrigir a personalidade dos filhos, buscar
somente neles essa correção - procuro a dos pais, e esse
método apresenta um maravilhoso índice de acerto.

Através daquele diálogo, pude sentir-me confiante quanto


ao meu ponto de vista a respeito da educação infantil.

Crianças problemáticas e que não se mostram animadas


em fazer o que lhes pedem pertencem, na grande maioria, a
lares onde os direitos paternos se fazem pouco atuantes. Da

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

mesma forma são crianças onde a opinião do avô ou da avó é


mais forte, ou que pertencem a lares onde seu pai é "yooshi"1.
Isso acontece onde a imposição do pai é fraca. E,
particularmente, em ambiente familiar onde a figura paterna é
desprezada, rebaixada ou distorcida, não existe criança sincera,
alegre e positiva.

É importante uma estreita relação entre pai e fllhos, mas


isso não quer dizer que deva haver muito dengo. Em caso de
assalariados, o pai sai para trabalhar enquanto o filho ainda está
dormindo, e quando volta para casa, já o encontra na cama. Mas,
basta dirigir-se ao filho adormecido, e dizer: "Papai vai trabalhar,
tá?", "Papai já está de volta, viu?". Só estas palavras bastam
para compensar a sua ausência, pois os sentimentos se
comunicam.

Dessa maneira, a inexistência dos direitos paternos e da


figura do pai tem dois significados. Mesmo que existam
oportunidades de pai e filho se relacionarem, se neste mesmo lar
o pai for menosprezado, equivalerá à sua falta.

E, se deixar as crianças sob a inteira responsabilidade da


mãe, que tende geralmente a ser temperamental, elas crescerão
faltando-lhes espírito racional. Caso o pai e a mãe sejam
excessivamente temperamentais ou racionais, a criança também
tenderá a se inclinar conforme os pais.

Mesmo desejando criar os filhos brilhantemente, existem


pais que não tentam apreender a maneira correta para isso.
Temos oportunidades de ver e ouvir sobre filhos problemáticos
de pessoas de alto nível social ou de grandes estudiosos. Eles
são respostas aos distúrbios existentes na educação no lar.

Ao mesmo tempo em que a ausência do direito ou da


1
N. T. Yooshi: diz-se do noivo que se casa e adota o sobrenome da família da noiva, para
assegurar a continuação daquele tronco familiar.

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figura paterna constitui um problema, também se tornam


problemáticas as atividades diárias da mãe, que está em contato
constante com os filhos. Filhos cuja mãe sempre se lamuria
passam a não acreditar nos outros, ficam descrentes do mundo.
Em casos extremos, passam a desacreditar dos seus próprios
pais. Mesmo no caso de lactantes, há uma grande influência das
atividades e sentimentos da mãe quando os amamenta,
conforme conto no episódio intitulado "Doença de criança é
purificação de seu sangue".

Mesmo que nasçamos seres humanos, se formos


abandonados no meio de animais selvagens, nos tornaremos
crianças-lobos ou crianças-macacos, conforme registros nos
anais da Educação, baseado em fatos verídicos. Embora não
sejamos tão extremados assim, dependendo da maneira de
educar, o ser humano pode se tornar uma existência ainda
menor que a de outros animais. Para que o homem se torne
verdadeiramente humano, é necessário que seja realizada,na
sua infância, uma educação humana autêntica.

Dentro dos seus Ensinamentos, o Mestre diz:

"Gratidão gera gratidão e lamúria e insatisfação atraem


lamúria e insatisfação". Essas palavras se encaixam exatamente
na educação infantil". Junto de pais desprovidos de espírito de
gratidão, não se desenvolverão filhos com sentimento de
gratidão. Os filhos de pais que lamuriam e que estão
constantemente insatisfeitos, tornar-se-ão igualmente adultos
lamurientos e insatisfeitos.

O Mestre também nos ensina que:

"A delinqüência dos filhos se deve à delinqüência dos


pais".

Se os pais põem os filhos no mundo, educando-os com

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

base em seus caprichos, sem a consciência de que o seu


sentimento influi em razão direta nos filhos, sem se importarem
como devem agir como seres humanos, isto representa aumentar
ainda mais os males sociais.

Por vezes, vejo pais decidirem não ter mais de um ou dois


filhos, porque desejam criá-los exemplarmente ou porque os
amam demais. Dizendo que se forem numerosos, além de darem
muito trabalho não poderão educá-los satisfatoriamente, limitam
o número de filhos. A meu ver, isso já representa uma
superproteção à criança antes do seu nascimento, o que trará
resultados contraditórios.

Para os filhos, é melhor quanto mais irmãos tiverem:


brigando, brincando e se gostando, eles vão captando a maneira
de viver na sociedade.

Mesmo não desejando, se for filho único, além de acabar


sendo superprotegido, haverá falhas no tocante ao
relacionamento humano.

Existem, ainda, pais que se atemorizam achando que não


poderão criar com saúde todos os filhos que nascerem. Isso
representa querer interpretar antecipadamente o sentimento
Divino através da rasa inteligência humana. Caso algum filho
nasça doentio e pereça prematuramente, este é o seu destino.
Por outro lado, também não é desejável uma educação forçada,
rígida demais, a título de beneficiar os filhos. Estes têm
individualmente, uma força vital recebida de Deus e dizer isso
pode parecer um bocado severo, mas a morte e a vida estão de
acordo com a Vontade Divina. Temos tão simplesmente a
responsabilidade de guiar e educar esta vida para torná-la algo
digno de um ser humano.

Certa vez, saímos em viagem eu, minha filha e a minha


neta de três anos, que estava realmente alegre e se divertia em

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pulos e risos. Na estação, ela subiu as escadas e, quando quis


correr, caiu. Começou imediatamente a chorar.

Instintivamente, corri em sua direção para erguê-Ia. Minha


filha, entretanto, segurou-me pelos braços, e disse:

- Deixe-a, porque ela deve criar vontade de levantar-se...

E a minha neta, ao perceber que ninguém ia lhe dar a


mão, parou de chorar, levantou-se e nos mostrou um lindo
sorriso.

Minha filha me ensinou. Ajudar os filhos sem necessidade


é até prejudicial e contraproducente. Creio que existem muitas
coisas que os pais realizam dessa maneira, pensando que estão
prestando um grande auxílio.

Apesar de sabermos da necessidade de infundir a


independência nos filhos, na verdade é muito difícil concretizá-la
quando eles ainda são pequenos. Porém, é imprescindível que
os pais realizem isso, aprofundando seus pensamentos e
atitudes.

O filho que sempre espera ser ajudado pelos pais, não só


perde a iniciativa, como se tornará um homem que sabe ser
servido, mas não aprenderá a servir os outros. A única
possibilidade para ser benquisto, amado e viver condignamente,
só se torna viável quando aprendemos a servir as pessoas.
Dentro da proteção da supermãe e da vida centrada em sua
própria família, não se conseguirá uma educação voltada para o
próximo.

Entre a criança que se desenvolve envolta no ambiente


beneficiado pela natureza, onde o ar é puro e gostoso, e a
criança que se cria morando na metrópole cheia de poluição, não
é nem necessário dizer qual dessas situações é a melhor para a

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

criança. A educação de acordo com a natureza, que materializa


os sentimentos de Deus, é a verdadeira formação humana.

É urgente que se recupere o sopro da natureza dentro das


metrópoles. Caso a atual cultura científica avance sem nenhuma
reflexão, todos os homens civilizados estarão tão perdidos que
até dentro dos incivilizados nasceriam brilhantes personalidades
que sustentariam a próxima era.

Caso deixemos a criação de nossos filhos a cargo da


distorcida educação atual, não só seremos inquiridos na
responsabilidade como pais, mas estaremos gerando uma
situação que acarretará um triste futuro. Quero alertar que não
podemos deixar ao encargo de terceiros, principalmente, a
educação infantil.

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FORMANDO COMBATENTES A SERVIÇO DE DEUS

A partir de primeiro de outubro de 1943, fixei-me numa


pensão situada no bairro de Ikeda, na cidade de Nagóia. Era o
meu primeiro passo na difusão da Fé Messiânica. Como estavam
proibidas as atividades religiosas naquela época,
encaminhávamos as pessoas à Luz de Deus, desenvolvendo as
atividades de Johrei, disfarçadas sob o nome de "Cura pela
Digitopuntura", Em Nagóia, não havia ninguém que tivesse
ingressado nesse Caminho; portanto, era como tatear na
escuridão total.

Tinha somente dez cartões de visita trazidos de Tóquio,


que me recomendavam a umas tantas pessoas. De qualquer
maneira, sempre permanecia na pensão das 8 às 9 da manhã e
o resto do tempo, além de sair para visitas, guiado por tais
cartões, descansava pelos jardins, esperando surgir alguém com
quem pudesse conversar.

Quando passava uma velhinha pajeando seu neto,


entregava-lhe meu cartão, dizendo:

- Deve ficar cansada, não? Venha até este endereço que


eu a tratarei - e massageava-lhe um pouco as costas. Ela ficava
contente, mas, se viria ou não até à pensão, onde instalei o meu
consultório de tratamentos, era realmente incerto.

Os dias iam se passando, mas ninguém vinha visitar-me.


No décimo dia, porém, surgiu uma pessoa.

- Onde está o rapaz que se chama Watanabe?

Era um fabricante de tofu e tinha aparência de ser um


grande curioso. Ao conduzi-lo ao segundo andar, perguntou-me
de supetão:

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- Por quanto alugou tudo isso?

- Todo o segundo andar da pensão, mais as três refeições


diárias, por cinqüenta ienes. Mas por que está me perguntando?

- Por pura curiosidade...

- Bem, qual o motivo de sua visita? - perguntei-lhe.

- É porque o meu estômago não funciona bem, parece que


fica enrijecido... Aí, ouvi falar do seu tratamento.

Então, recomendei-o vir todos os dias. Ele se sentiu


melhor com aquela única vez, e passou a vir todas as manhãs.
Durante o tempo em que durava o tratamento, e minhas mãos o
tocavam, dormia, roncando ruidosamente. Quando deixava de
tocá-lo, dizia que as dores continuavam. No terceiro dia,
comentou:

- Se fosse o segundo andar de minha casa... Lá é muito


mais amplo, sabe? - falou-me como se estivesse interessado em
alugar a sua própria moradia.

Na semana seguinte, disse-me:

- Professor, estou me sentindo muito exausto em vir até


aqui me tratar. O senhor não poderia ir até minha casa?

- Eu preciso cuidar de um grande número de pessoas.


Portanto, não posso sair só para atender o senhor - respondi-lhe,
apesar de não vir mais ninguém além desse homem. Pareceu-
me que ficara um tanto insatisfeito com a minha recusa, mas ele
veio no dia seguinte e no outro também. E, a partir daí, não
apareceu mais.

Quinze dias depois, as pessoas que compareciam ao meu

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consultório, chegavam ao número de dez. Como não conseguia


tratá-las em apenas uma hora, na parte da manhã, elas
chegavam a aguardar o tratamento desde as sete horas. Num
certo dia, de repente, o tal homem da dor de estômago voltou.
Eram passadas nove horas, e eu me aprontava para sair.

- Professor, quero pedir de novo o seu tratamento.

- Puxa, estou de saída agora, venha amanhã.

- Não pode ser hoje?

- Se não puder vir mais cedo, não dá...

Realmente não tinha local certo para ir, o que queria dizer
que eu tinha tempo de sobra. Sabia que ele tinha recebido o
tratamento por mais de uma semana, mas não se esforçava em
captar o real sentido da coisa. Não tinha, em suma, espírito de
busca da salvação. Se agirmos somente de acordo com as
conveniências daquele que não possui espírito de busca, não
será possível criá-lo nessa pessoa. E também não poderemos
salvá-la verdadeiramente. O homem, na verdade, só achava que
ia receber simples massagem. E, além disso, como o que eu
fazia era uma dedicação e ele não necessitava dispender um
centavo sequer, encontrava-se numa situação muito egoísta.

Algumas pessoas perguntavam-me claramente após o


tratamento:

- Quanto lhe devo?

- Se tem esse sentimento de agradecer, ensine a outras


pessoas a respeito desse tratamento. Traga aqui quem está
aflito, respondia-lhes. Desejava que, desta maneira, viessem
mais e mais pessoas. Queria saber - e essa era a minha tarefa -
quantas pessoas dentre as que tratei se interessariam

21
Cem História da Minha Fé Vol. 2

verdadeiramente pelo Caminho, que não se amparariam em


remédios, em tratamentos médicos. Eu as encaminharia a Tóquio
para que elas também fizessem parte da Associação (isto é, a
fim de que se convertessem à religião).

Eu não era doente e, mesmo assim, soube da importância


do tratamento, através da constatação de fatos indescritíveis
surgidos pela imposição das mãos. E, portanto, abandonei os
negócios nos quais me esforçava até então, e, desejoso de fazer
com que os outros também experimentassem aquelas sensações
maravilhosas que eu vivenciara, deixei a minha família na minha
terra natal e parti para as atividades de difusão. Deveria
transmitir a todos que poderiam obter aquele poder de cura
através do Johrei, mesmo que não conhecessem nada sobre
medicina, mas que possuíssem um bom coração para poderem
sentir a alegria do próximo como a sua própria, e que
desejassem praticar o bem. Falava sobre isso durante os
tratamentos. Porém, a grande maioria das pessoas dizia:

- O senhor, professor, deve ser especial.

E ninguém queria acreditar naquilo que eu lhes falava.


Achavam que estavam sofrendo porque os remédios não faziam
efeito, os médicos eram incompetentes, sem reconhecerem a
sua falta de inteligência e falhas. Em outras palavras, significava
que supervalorizavam-se, sem perceberem as suas próprias
deficiências, transferindo a responsabilidade aos outros quando
as coisas não iam como esperavam. Sofri muito para encaminhar
e educar pessoas dessa natureza.

Portanto, mesmo desejando fortemente praticar a cortesia,


sempre cuidei para que isso não se tornasse inoportuno.

Desejava criar "um combatente a favor de Deus" dentro


daquelas pessoas que a cada dia vinham ao meu consultório.
Cogitei também em como fazer para captar o sentimento dos que

22
Cem História da Minha Fé Vol. 2

me procuravam.

Todos que vinham ali tinham o desejo de se salvar,


livrando-se dos seus sofrimentos. Não possuíam muita vontade
de auxiliar o próximo, praticando o altruísmo. Não seria bom que
eu pedisse a essas pessoas, indiretamente, que fizessem
trabalhos para a Obra de Deus?... Aí, agindo mais com os
jovens, pedia-lhes que se movessem, arranjando-lhes tarefas
propositalmente.

- Por favor, pode ir comprar cigarros? (Apesar de eu ter


cigarros estocados).

- Poderia me trazer um copo d'água? (Mesmo que não


estivesse absolutamente com sede).

- Será que você poderia acender o fogo da lareira?

- Apague o fogo, sim?

- Pode abrir a janela, por favor?

- Feche a janela, por gentileza, sim?

Mesmo sendo pequenas tarefas, fazia com que todos


pudessem realizá-las, por mais insignificantes que fossem.
Assim, ao pedir que me auxiliassem, foi aumentando a
familiaridade entre nós e, com isso, os assuntos começaram a se
tornar variados. Em todas as conversas, fiz com que tivessem um
ponto de vista mais claro e alegre.

Os doentes tendem a voltar os olhos somente para si e,


sem exceção, sofrem psicologicamente. Na análise dos fatos,
sempre buscam a responsabilidade nos outros e se queixam que
neles está a causa de todo o mal. É realmente importante fazê-
los voltar-se à esperança, compreendendo-os e direcionando-os

23
Cem História da Minha Fé Vol. 2

à claridade.

Fiz com que cada pessoa que vinha receber Johrei,


trabalhasse numa tarefa adequada a cada uma, sem onerá-la, e
que com isso fosse entendendo o sentimento de Meishu-Sama,
que pregava a construção do Paraíso Terrestre.

Assim, fui procurando, uma a uma, pessoas que


desejavam aprofundar no Caminho de Deus. O Mestre, em seus
Ensinamentos, diz:

"Até mesmo Deus salva os homens através dos homens.


O homem é representante de Deus." Meishu-Sama nos ensina
que o homem deve estar sempre atento ao desenvolvimento do
seu espírito bom, isto é, do seu sentimento Divino e, à medida
que aumentar o número de homens misericordiosos, o Paraíso
Terrestre se tornará mais próximo e, portanto, nós temos esta
responsabilidade. Chego até a pensar que Deus é um tanto
rígido no uso das pessoas.

Suponhamos que as pessoas conheçam essa utilização


por parte de Deus através de eu pedir-lhes pequenas tarefas; a
postura delas em caminhar de um passo a dois, de dois a três, se
ligará à iniciativa da salvação do próximo.

O ponto vital está na mudança do sentimento de "me


fizeram trabalhar" para "foi-me permitido trabalhar"; e quando
essa pessoa atinge esse ponto, estará transformando também,
qualitativamente, sua posição de ser salva para a de salvar seus
semelhantes. Aí sim, se abrirá o caminho para servir a Deus e à
humanidade.

Mesmo sendo uma tarefa para Deus, quando peço através


da minha pessoa, eu sempre agradeço, dizendo:

- Muito obrigado. Cansou?

24
Cem História da Minha Fé Vol. 2

É indispensável essa palavra de gratidão. Pelas minhas


experiências de pobreza e dos tempos de aprendiz, pude sentir a
importância dessas palavras de conforto e agradecimento.
Quando se as recebem, o sentimento das pessoas se torna
sincero. E para trabalhar para Deus, é importante ter espírito
sincero e honesto.

Criar soldados a serviço de Deus significa agir


sinceramente para com Ele, fazer experimentar esta
desconhecida expansão da força do Johrei e se transformar em
pessoa que passe da posição de ser salva para a de salvar os
outros.

E assim, transformar um maior número de pessoas em


guerreiros de Deus, isto é, em discípulos divinos, acredito ser um
trabalho para todo o resto de minha vida.

25
Cem História da Minha Fé Vol. 2

APARIÇÃO DE ESPÍRITOS

Caso I - Espírito de morto na guerra

Aconteceu no verão de 1946, não muito após o término da


guerra, quando eu visitava a igreja instalada provisoriamente na
atual cidade de Mihama, no arquipélago de Chita. Esta cidade foi,
durante a guerra, a base da aviação naval e, agora, estava
abandonada.

Após o aprimoramento que realizamos na casa onde


funcionava a Difusão, ficamos para pousar naquela noite.
Terminado o jantar, fui conduzido ao aposento da casa anexa.
Era um quarto de seis "tatamis2". com "toko-no-ma3", e possuía
uma continuação de quatro tatamis e meio, de chão batido.

Não sei quanto tempo havia passado após me deitar.


Quando percebi, vi um vulto em pé, no jardim que se divisava
pela porta deixada aberta para amenizar o mormaço do verão:
estava trajado de uniforme de verão de oficial da Marinha, sendo
possível até distinguir as estrelas da patente de primeiro-tenente.
Aparentava cerca de vinte e dois anos e, imóvel, continuava
olhando em minha direção.

- O que veio fazer aqui? - quis perguntar, mas a voz não


me saía.

Então, o vulto deu um passo para trás, bateu continência e


sumiu.

Na manhã seguinte, na hora do desjejum, perguntei ao


casal, nosso anfitrião.
2
Tatami: esteira de 1,80 x 0,90cm, feita de caules secos de pé de arroz.
3
N.T. toko-no-ma: nas casas japonesas, é o local considerado nobre de um cômodo, com
uma reentrância, que fica mais elevada que o assoalho e geralmente toma toda uma
parede. No toko-no-ma penduram-se quadros ou panoô e ornamenta-se com vivificações
florais. Costumeiramente, recebem-se visitas na sala onde existe toko-no-ma.

26
Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Naquele anexo, onde eu passei esta noite, não teria se


hospedado um jovem de mais ou menos 22 anos, oficial da
Marinha, durante a guerra?

O casal se assustou.

- Sim, é exatamente como o senhor diz, mas como soube?


- perguntaram-me, incrédulos.

Recordando, disseram:
- Soubemos que faleceu na batalha de Guadalcanal.

Contei-lhes o episódio da noite. Eu não sabia nada a


respeito, mas o espírito dessa pessoa apareceu para mim, que
me hospedei no anexo.

O que ele queria me transmitir?

Caso II - Espírito de uma mulher infeliz

Em Gora, na cidade de Hakone, está localizado o Solo


Sagrado da nossa Igreja denominado Shinsen-Kyo e, ao norte
dele, o Santuário dos Antepassados, também da nossa religião.
Nos idos de 1945, aí se encontrava uma residência de verão não
muito luxuosa. Não havia quem quisesse alugá-la e, por isso, o
Reverendo Shibui acabou comprando-a. Quando eu ia aos cultos
em Hakone, hospedava-me muito nessa casa.

Indo pelo corredor à esquerda, logo após passar pelo hall,


chegava-se a três aposentos e à cozinha. Seguindo pelo corredor
à direita, saíamos em dois grandes aposentos de 10 tatamis e,
atrás deles, havia um outro quarto de 6 tatamis, que dava para o
jardim interno. Eu costumava descansar neste quarto.

Inicialmente, tive três sonhos idênticos, quando dormia


neste cômodo Um foi num verão, e os dois outros, no ano

27
Cem História da Minha Fé Vol. 2

seguinte.

No sonho, algo me despertava. Quando percebia, havia


uma figura de mulher na entrada do quarto. Tinha mais ou menos
25 anos. Seu aspecto lembrava uma gueixa provinciana, com
dois ou três fios de cabelo soltos no penteado estilo "shimada4";
ela se aproximava da cabeceira do meu leito e se sentava
melancolicamente.

Mesmo que não fosse colhido por especial pavor, quando


lhe perguntava o que estava fazendo ali, ela desaparecia.

Após a sua terceira aparição, descrevi o sonho para o


Reverendo Shibui. Então, o quarto foi transformado em depósito
e ninguém mais dormiu ali.

Certa pessoa repousava num dos aposentos perto da


cozinha e, numa noite silenciosa, acordou ouvindo sons de
"shamissen"5. Ouvindo com atenção, parecia vir do quarto a que
me referi. Disse ela ter ouvido esses acordes por duas vezes.

Na certa devia ter acontecido alguma coisa terrível nessa


casa e, por isso, ninguém a alugava. No entanto, mesmo sendo
um lugar onde existem espíritos que não se salvaram devido a
algum motivo, pelo simples fato de lá estarem religiosos que
poderiam pensar em salvá-los, esses espíritos se elevavam e
desapareciam. Acredito que o Rev. Shibui adquiriu-a, justamente
pensando nisso.

Logo depois, a referida casa foi reformada para dar lugar


ao Sorei-Sha (Templo dos Antepassados). Nessa oportunidade,
foi derrubada uma velha cerejeira, em cujo tronco, que chegava a
dar uma braçada de adulto, estavam cravados dois pregos de

4
Shimada: tipo de penteado usado pelas gueixas da cidade de Shimada, e depois
popularizado pelos artistas do teatro cabuqui.
5
Shamissem: instrumento musical de três cordas. semelhante ao bandolim.

28
Cem História da Minha Fé Vol. 2

uns 15 centímetros de comprimento os quais foram retirados


pelas mãos dos dedicantes.

Pode ser que nesta casa houvesse sido feita alguma


espécie de magia. Ou teria se suicidado lá alguma esposa
abandonada pelo marido? Ou teria vivido naquele local alguma
mulher doente que morreu solitária? Creio que fosse algum
espírito que não conseguiu se salvar, e permanecia vagando pela
casa.

Caso III - Espírito de samurai

Ao norte da estação de Odawara, a Igreja mantinha um


imóvel que era freqüentemente utilizado como alojamento para
os membros que vinham aos cultos. Havia duas salas de estilo
ocidental de mais ou menos 15 tatamis e, em cada uma,
hospedavam-se umas 10 pessoas. Numa das salas, havia um
local logo à esquerda da entrada, onde aqueles que ali dormiam
tinham pesadelos. Eu próprio experimentei semelhante fato por
duas vezes.

No sonho, aparecia um guerreiro samurai todo equipado


com armadura e capacete, mostrando grande sofrimento. Se
bem que a aparência fosse diferente, nessas duas vezes, vi que
era a figura de um samurai. Outras pessoas também diziam ter
sonhado com a mesma coisa.

Odawara é uma cidade antiga onde existe um castelo; ao


seu redor, exércitos se defrontaram, brandindo armas brancas.
As figuras que apareciam no sonho poderiam ser alguns espíritos
que, encerrando a vida, e não encontrando salvação, estariam
clamando por ela ainda hoje, depois de cem anos ou mais?

Caso IV - Espíritos de falecidos em acidentes

Isto aconteceu numa igreja do Estado de Mie.

29
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Certa vez, em uma visita que ali realizei, encontrei uma


moça que sofria de epilepsia e que estava sendo tratada na
igreja. Nesse ensejo e em outra oportunidade, ministrei-lhe Johrei
por duas vezes, mas a sua doença mostrava uma situação
singular, diferente das outras formas de epilepsia.

O Mestre nos ensinou que "Epilepsia ocorre sempre


através de incorporação de espíritos de falecidos". Existem
espíritos que ainda não se conscientizaram da sua morte e
vagam junto de parentes ou pessoas, e por locais onde seus
sentimentos se prendem mais e, tomando emprestado o corpo
com quem têm afinidade, desejam continuamente receber
assistência como antes de morrerem. E esse desejo se
concretiza tomando a forma de epilepsia.

Caso seja criança, cujo corpo o espírito utiliza para


incorporar, ele tem mais facilidade quando, por exemplo, numa
gripe, sobrevém febre alta e a consciência se enfraquece.
Demonstrar inesperada excitação ou ter paradas cardíacas
momentâneas também se devem a esse fenômeno.

As diferentes formas de epilepsia, como a que teme o


fogo, se devem à incorporação de espírito de quem morreu
através do fogo, como num incêndio; a que teme a água, é o
espírito de pessoa que faleceu por afogamento.

Essa moça, no entanto, apresentava um quadro diferente


de todas as epilepsias que eu conhecia. Ficava pensativo ao ver
a maneira como sofria nos momentos de acessos.

Com cerca de 17 anos, seu corpo delgado e de cor branca


não aparentava doença ou deficiência em qualquer parte. A
causa da moléstia não se encontrava em nenhum lugar. Isto é, o
seu físico era a própria figura da saúde, mas quando ocorria o
acesso de epilepsia, a jovem encolhia-se toda, contorcia-se e
gemia. Debatia-se de forma desajeitada.

30
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Pude sentir, então, que aquele quadro era a representação


do sofrimento de quem está morrendo devido a um
atropelamento.

Então, perguntei ao ministro daquela igreja:

- O pai daquela moça não é, por acaso, motorista de


automóvel ou algo assim?

- Isso mesmo! - respondeu-me, assustado.

Era como eu presumira. Era quase certo que o espírito de


alguém falecido por atropelamento causado pelo pai estivesse se
incorporando na filha.

Tive oportunidade de encontrar-me com o pai da moça


quando este veio à igreja. Percebi no fundo de seu olhar uma
sombra de segredo. Porém, não seria producente desvendá-lo.
Portanto, não me esforcei em inquirir sobre o assunto.

Disse-lhe somente:

- Sua filha está agonizando com essas crises devido a


alguma afinidade muito séria. Peço ao senhor que ajude outras
pessoas, com o sentimento de que com isso lhe seja perdoada
tal afinidade.

Mostrei-lhe com isso, veladamente, que o sofrimento da


filha era motivado por algum ato que o pai cometera.

Caso V - Espírito de prisioneiros de guerra e seu ódio

No verão de certo ano, atendendo ao pedido de uma


pessoa fervorosa na difusão da Fé, fomos, eu e mais um
servidor, realizar a entronização da Imagem de Deus em seu lar.

31
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Terminados todos os preparativos, por volta das onze


horas da manhã, a programação transcorria normalmente e
chegou o momento de entoarmos a oração defronte a Imagem.
Nesse instante, tudo ao redor foi envolto na escuridão e, em
poucos segundos, começou uma chuva torrencial que, logo em
seguida, tornou-se um forte temporal.

Mesmo durante a oração, minha voz era cerceada pelo


barulho da chuva. E, além disso, a prece, que eu já sabia de cor,
não me saía fluentemente. Esquecer algumas das palavras era
coisa que nunca me ocorrera. Mas acabei engasgando três
vezes. Cogitando no porquê daquilo tudo, não tive outro jeito
senão tirar do bolso o livro de orações para poder encerrar.

Ao terminar a entronização, parecia mentira, mas aquela


tempestade havia passado e o céu estava claro.

Nós dois aceitamos a hospitalidade da casa e acabamos


sendo convidados para o almoço. As iguarias postas à mesa
eram realmente bonitas e apetitosas. Havia desde sopa até
cozidos de peixe e refogados de legumes. Fui experimentando,
um por um, aqueles pratos, que, presumira, deviam ter sido
encomendados em algum restaurante. Mas, cada vez que levava
a comida à boca, não podia deixar de estranhar: não estava
conseguindo sentir o gosto de nenhuma daquelas iguarias. Fui-
me servindo das verduras, do peixe, mas todos eles me pareciam
aguados demais, sem condições de comer. Aí, pensei:

- Bem, pelo menos vou experimentar o "somen"6. Mas,


incrível! Nenhum deles enroscava no pauzinho. Acabavam se
partindo no momento de levá-los à boca.

Disfarçadamente, observei meu companheiro. Ele estava


comendo apetitosamente. Não era possível que só as coisas que
me foram servidas estivessem sem tempero, e eu mesmo não
6
Somen: tipo de macarrão japonês, mais fino que o espaguete.

32
Cem História da Minha Fé Vol. 2

me encontrava tão mal a ponto de minhas condições físicas


disfarçarem o gosto da comida. Aproveitando que ele estivesse
saboreando bem as iguarias, disse:

- São pratos deliciosos, mas como não estou me sentindo


muito bem, vou parar por aqui.

Fomos servidos de chá após a refeição, e o dono da casa


começou a levar o assunto, euforicamente, às suas experiências
de guerra. Dizia ele ter sido motorista no Jornal Chunichi-
Shimbun, mas, sendo convocado para a guerra, partiu para a
frente chinesa de batalha como tenente. O assunto mudou
bastante para lá e para cá e, para o cúmulo, ele nos contou como
matou sessenta prisioneiros de guerra:

- Os prisioneiros são postos de joelhos, enfileirados sobre


uma ponte, com os pés e mãos amarrados. De uma ponta à
outra da fileira, vai-se decapitando um por um. Houve um
covarde que se atirou ao rio antes de serem cortados os dois
primeiros. Mas ele foi metralhado pelos soldados que se
encontravam com as armas engatilhadas. E, então, o rio se
avermelhou a olhos vistos. Aquele borrão vermelho se expandia
pela água, como uma nuvem turbulenta. Aí, pude sentir que
espada nova é boa de corte. Ah! senhores, espada japonesa não
é qualquer punhalzinho, não... Logo que a cabeça caía, o
sangue, como um chafariz, se elevava no ar por uns cinqüenta
centímetros. As cabeças eram chutadas ponte abaixo. O sangue
se espalhava em círculos na água. Um espetáculo que só se
pode ver na guerra. Poder cortar sessenta cabeças... Ah! como
era ótima aquela espada...

Ele não demonstrava nenhum constrangimento por, na


época, como militar, haver ceifado tantas vidas de prisioneiros
inimigos. Ele era uma pessoa que, mesmo tendo ingressado na
Fé e se mostrasse fervoroso na divulgação da doutrina, contava
tranqüilamente sobre as atrocidades da guerra como se estas

33
Cem História da Minha Fé Vol. 2

tivessem acontecido num outro mundo. Eu me limitava a ouvi-lo,


meneando a cabeça.

Mostrou-me também o que tinha trazido como lembrança


da China: dezenas de quadros recortados na parte interna de
panos, tipo "suibokuga"7, e jóias com pedras preciosas. Ele
queria que eu escolhesse algumas daquelas peças como
presente. Talvez quisesse retribuir, dessa maneira, pela
cerimônia de entronização. Como dentre aqueles quadros
nenhum me agradara, recusei, dizendo que, mesmo assim,
sentia-me agradecido. Mas a sua insistência foi tanta que acabei
recebendo um prendedor de gravata e um jogo de abotoaduras
de um excelente jade.

Alguns anos após, ele foi acometido de uma doença


desconhecida e seu sofrimento foi somente aumentando. Mesmo
ministrando-lhe Johrei, o resultado não surgia de maneira
alguma. Em 1952, acabei trazendo-o ao anexo da igreja em
Shimo-Zentsu, que acabara de ser adquirida, para tratá-lo.

Porém, devido aos preparativos para receber a segunda


visita do Mestre nesta casa, pedi a esse senhor, dois dias antes,
para voltar à sua casa; lá, logo a seguir, veio a falecer, tendo
uma morte precedida de grande agonia.

Ouvi dizer que depois que retornara da guerra, formara-se


uma grande mancha em todo o redor do pescoço da esposa e,
até à sua morte, não houve como fazê-la desaparecer, e ela
sempre usava uma forte maquilagem para escondê-la.

Logo em seguida ao desaparecimento desse senhor, seu


filho, que nascera após ele ter dado baixa - um deficiente físico
sem firmeza nos ossos e músculos - faleceu com a idade

7
Suiboku-ga: estilo de pintura paisagística originário da China e particularmente ligado aos
monges Zen do Templo Gozan. O efeito era alcançado não pela cor, mas pela linha,
desenhada com tinta da Índia sobre papel ou seda.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

aproximada de sete anos. Um ano após, a viúva também


adoeceu. Cresceu-lhe enormemente a barriga, e não podia nem
se deitar e nem se virar de lado. Ficava recostada nas almofadas
sempre sentada, portando a sua enorme barriga. Parecia
peritonite e por isso pedi um diagnóstico ao diretor da Clínica
Nagura, da cidade de Ootsubashi, e que, na época, demonstrava
grande interesse pela nossa Igreja; mas ele também não
encontrava a causa da doença. De qualquer forma, ele desejava
retirar o líquido acumulado no abdômen para, pelo menos, poder
dar um pouco de alívio; mas todas as vezes que tentava penetrar
a agulha para retirar o líquido, a barriga se enrijecia como pedra,
frustrando a tentativa. Com isso esse médico abandonou o caso.

Cada vez que lhe ministrava Johrei, saía-lhe, pelas vias


inferiores, cerca de duas tigelas grandes de pus ensangüentado
e parecia que isso a aliviava um pouco. Ao fim de um mês, ela
também faleceu.

Pude com isso sentir, novamente, a “profundidade do


castigo".

Matar por puro prazer, decapitando prisioneiros indefesos,


é algo que não poderia ser facilmente perdoado. Era óbvio que o
protagonista sofresse, mas até seu filho e esposa tiveram que
suportar a dor da redenção do pecado. A agonia de cada um
antes da morte só podia ser explicada como sendo a
materialização do ódio dos espíritos dos falecidos.

Para redimir a falta, foi necessária a extinção do tronco


familiar daquela casa. Acredito que, por meio disso, tanto o
marido, o filho e a esposa tenham conseguido a salvação no
Reino Espiritual.

Relacionado ao caso, acrescento que as abotoaduras e o


prendedor de gravata de jade tão lindos que ganhei naquela
ocasião sumiram sem que eu tenha usado uma vez sequer. Não

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

me lembro de ter negligenciado na guarda deles ou de tê-los


dado a terceiros, mas restou-me somente a realidade de havê-los
perdido. Acredito que Deus não tenha permitido nem colocá-los
em meu corpo.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

CONFRONTOS

Nos anos 45, no auge da Segunda Guerra Mundial, não se


podia falar abertamente em religião ou fé e, no ano anterior, fui
colocado na prisão por suspeita de exercer atividades religiosas
clandestinamente. Calculando as oportunidades entre um e outro
bombardeio, percorria a região Central do Japão. Vez ou outra,
realizava aprimoramentos denominados Cursos de
Experimentação, os quais eram camuflagem das atividades de
divulgação nas casas daqueles que recebiam graças através do
Johrei. E, nessas ocasiões, para que eles cedessem a casa com
boa vontade, eu sempre colocava no envelope dez ou vinte
ienes, independente de haver ou não donativo pelo Johrei, e o
entregava ao dono da casa, dizendo:

- Parabéns por ter construído mais uma coluna da


Salvação. Vamos, doravante, salvar mais pessoas. Isto é sinal da
minha gratidão e congratulação.

Nessas oportunidades, sempre havia aqueles que me


davam certas quantias por terem recebido Johrei, mas os doces
e os cigarros que eram servidos após a aula e também o
agradecimento acima referido, corriam por minha conta. Isto é,
era um trabalho de difusão que eu auto-financiava.

Os que ingressaram na Fé na primavera de 1945 já tinham


eleito cerca de 30 membros que dedicavam como líderes. Mas
dentre eles havia os que não podiam se compenetrar totalmente
no Servir porque estavam tomados de ganância e, por isso,
recebiam um ou dois ienes por Johrei ministrado a título de
gratidão, entregues a mim durante os aprimoramentos. Havia
também os que se utilizavam do dinheiro proveniente da
diferença entre o cobrado a mais por cada participante e a
gratidão entregue a algum ministro da Sede Geral que tivessem
convidado para dar aulas.

37
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Além desses, estavam os que não queriam receber


dinheiro pelo tratamento, mas aceitavam de bom grado produtos
alimentícios e outros objetos.

Ao tomar conhecimento desses fatos, achei que deveria


modificar essa situação e pedi para reunir os líderes. Era início
da primavera de 1945.

Por termos perdido no bombardeio o primeiro local


marcado para reunião, alugamos a casa do Sr. Kinjiro Mizuno,
comerciante de materiais decorativos, no bairro Joban, distrito
leste de Nagóia, fazendo funcionar ali, provisoriamente, a igreja.

As pessoas que pedi para comparecerem já estavam


levando avante uma reunião antes mesmo de eu chegar lá.

- O senhor poderia esperar até terminarmos, sem


participar? - perguntaram, simplesmente, sem nenhuma outra
explicação.

Tivemos de aguardar, meu irmão, meu cunhado e eu,


durante duas horas, suportando um frio intenso.

Por fim, anunciaram o término da reunião e fomos


convidados para entrar na sala.

Um deles, representando os demais, deu início ao


encontro dizendo:

- É a primeira vez que todos nós nos reunimos. Estamos


nos esforçando e aumentando o aprimoramento sobre o
tratamento. E hoje, mesmo tendo a iniciativa da reunião partido
do senhor, pedimos desculpas pela demora, mas estivemos
questionando como proceder para o futuro, visando à expansão
das atividades. E gostaríamos de levar à sua apreciação o que
ficou decidido entre nós.

38
Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Muito obrigado, mas hoje o nosso encontro não visava a


nenhum debate ou decisão. Mas sinto-me imensamente grato
pelo fato de vocês já haverem discutido sobre alguma coisa -
respondi-lhes.

- Como colocamos num sumário, gostaríamos que o


senhor examinasse. Sobre esses itens, desejamos que o senhor
também os siga. Caso diga que não pode cumpri-los, nós
também não poderemos continuar com o tratamento. Se isso
ocorrer, desistiremos das atividades.

Dentro do grupo, somente eu não era daquela terra. O que


será que eles decidiram? Não me assustei com o acontecido,
mas, vendo os itens enumerados, fiquei estupefato pela grande
diferença que existia entre eles e o meu pensamento. Ainda era
aceitável a introdução, que dizia ser necessário realizar a cura e
a difusão de maneira sistemática, dentro de uma organização.
Mas os itens seguintes realmente me assustavam.

1 - O Reverendo Watanabe é o ponto central de tudo.

Começava assim a relação de decisões. Fui expondo meu


ponto de vista a cada item que ia lendo:

- O centro de tudo é o Grande Mestre (Meishu-Sama). Não


passo de seu instrumento.

- Então, torne-se o centro de Nagóia.

- Eu não tenho intenção de ficar somente em Nagóia. Irei a


qualquer parte. Estou decidido até, se forem palavras do Grande
Mestre, a ir para o exterior e difundir em qualquer país do
estrangeiro. Não tenho, além disso, nenhum desejo de, sendo
centro de Nagóia, me posicionar acima dos senhores. Para se
tornar o centro de Nagóia, futuramente, qualquer um poderá sê-
lo.

39
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Dizendo isso, coloquei um X bem grande no referido item.

2 - Quando recebermos a visita do Reverendo Watanabe,


a ele será oferecido um agradecimento de 50 ienes.

- Não vou a lugar nenhum em busca de recompensa


monetária. Realizo o tratamento até de graça. Mas se houver
alguém que queira doar, receberei até um milhão de ienes. Não
posso concordar com o fato de se estabelecer quantias.

E aqui, também, coloquei um X.

3 - Quando da presença em aprimoramentos, o Reverendo


Watanabe deverá nos pagar 20 ienes, a título de pagamento pelo
chá servido.

- Até hoje, se eu dei 10 ou 20 ienes em todos os


aprimoramentos, não foi para pagar o chá. Eu os ofereci no
sentido de me congratular com os senhores pelo fato de me
auxiliarem nesta nobre Obra de Salvação. Não é algo para ser
estipulado dessa maneira. Talvez, futuramente, eu não dê mais
nada.

Neste item também marquei um X.

4 - Estipular a taxa de participação nos aprimoramentos em 200


ienes.

Na época, a taxa de participação nos aprimoramentos era


fixada em 220 ienes por pessoa.

Este item deixava também subentendido que eles


desejavam que eu fosse à Sede para pechinchar.

- A taxa de participação nos aprimoramentos, pela sua


natureza, não é algo que podemos negociar com a Sede,

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

dizendo ser cara ou barata.

Aos que não querem assistir às aulas é inútil baixar para


200 ienes. Além disso, não quero me encarregar desta
negociação.

Apus outro X.

5 - Pagar-nos 5 ienes por cada pessoa que for encaminhada às


aulas.

Isto significava que queriam receber uma comissão pelo


trabalho que tivessem para encaminhar as pessoas à Fé.

- Pensar em dinheiro para ajudar na salvação dos outros...


Não é possível salvar verdadeiramente as pessoas se agir com
espírito empresarial. Portanto, não darei nenhum dinheiro.
Marquei aqui também um X.

6 - As caligrafias de Meishu-Sama serão distribuídas a preço de


custo.

Na época, enviando 500 ienes à Sede, era possível


receber uma caligrafia do Mestre, emoldurada como um quadro.

- Quer dizer que 500 ienes não é preço de custo, não é?


Então, o que quer dizer preço de custo? Não posso intermediar
pelas pessoas que pensam em barganhar as caligrafias do
Grande Mestre. Se acham que podem adquiri-Ias por menos, que
tentem, então. Eu, simplesmente, não posso discutir o que seja
preço de custo ou não.

Mais um outro X.

7 - Estabelecer a gratificação por tratamento em tantos ienes


para os Reverendos da Sede, tantos ienes para o Reverendo

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Watanabe e tantos ienes para as demais pessoas.

Estabeleciam o preço do tratamento como os massagistas


em geral, para ser fácil todos receberem em gratificações.

- O que nós estamos realizando não é nenhum tratamento


como o dos médicos e nem substitutos para os seus remédios.

- Eu não me lembro de ter sido menos compenetrado no


tratamento por este ser sem nenhuma recompensa. Sempre o fiz,
independente de haver ou não gratificação. E, nas doenças que
temos de tratar, existem os casos graves e os mais leves.
Portanto, é impossível marcar quanto se deve receber. Quem
quiser continuar a tratar, que o faça; é o quanto basta.

Assim, continuavam os itens relacionados com dinheiro e


cada um deles aparentava ser vantajoso só para mim, mas, no
fundo, deixava a pensar que era para eles terem facilidade de
receber dinheiro pelas suas dedicações. Desaprovei cada um
dos tópicos com palavras sérias e enérgicas.

A relação ainda continuava, mas, em suma, coloquei um X


em todos os pontos. Os participantes da reunião, sem palavras
para me contrariar, continuavam sentados, meio desgostosos.

- Não pedi aos senhores que se reunissem hoje para


debatermos sobre esses assuntos. Segundo suas opiniões,
havia itens que, se fossem estabelecidos, certamente
facilitariam suas atividades. Porém, o tratamento que
realizamos não é negócio, nem comércio e nem para
satisfazer ambições pessoais. Não são coisas que, por
serem mais fáceis de deixar determinadas, podemos
estabelecer decisões. Creio que isso também é do
conhecimento dos senhores, que já se encontraram com o
Grande Mestre...

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Bem, de qualquer maneira, reflito que o erro está


em mim, que os encaminhei e orientei.
Quero que esqueçam o que houve até hoje. Doravante,
prosseguirei sozinho desde os primeiros passos...

- Tenho uma visita marcada para a próxima semana na


casa defronte à estação de Nagóia. Peço que lá compareçam
somente aqueles que, independente das decisões de hoje,
desejam continuar com as atividades de tratamento - dizendo
isso, ao me levantar, já me encaminhei para a porta de saída.

Passou-se uma semana. Pensava no número de pessoas


que estariam presentes na próxima reunião. Tinha convicção de
que, dentre aquelas trinta pessoas, dez estariam presentes.

Isto porque elas próprias foram salvas através do


tratamento. Não era possível que pessoas assim se envolvessem
declaradamente nas decisões daquele outro dia. Foram, isto sim,
lideradas por outros que não se encontravam nas mesmas
condições.

Por mais que houvesse inúmeros itens relacionados ao


dinheiro, eu sabia que não estavam somente visando lucros. Por
outro lado, não pude permitir a sua aprovação, por aqueles
membros estarem simplesmente movidos pela boa intenção. Não
se pode deixar que algumas pessoas que têm visão egoísta, nos
atrapalhem nas atividades de Johrei ou em quaisquer outros
setores.

Chegando à reunião, qual não foi, porém, minha surpresa


que todos estivessem presentes?

- Ora, o que aconteceu? Não me haviam dito que caso eu


não aceitasse aquelas decisões, vocês cessariam as atividades
de tratamento? Eu não aceitei nenhuma das suas exigências,
não foi?

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Reverendo, vamos deixar de crueldades, por favor...

Com esse incidente, firmou-se o sentimento de todos e se


abriria um caminho para a frente.

Dentre essas trinta pessoas, havia algumas que antes se


diziam desejosas de ajudar-me, querendo-me fazer parecer um
grande favor. Mas, nessa oportunidade, conseguiram modificar o
seu sentimento, conhecendo o real significado de salvar o
próximo, desapegando-se das idéias de lucros monetários.

Todos os que se encontravam naquela reunião tornaram-


se fervorosos divulgadores e excelentes orientadores.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

COMO INFUNDIR CONFIANÇA

Não é estritamente necessário ter sido salva para se tornar


uma pessoa que salva. Por outro lado, nem sempre quem foi
salvo se tornará, imediatamente, alguém que salva, cheio de
confiança. Existem pessoas que, até mesmo sendo salvas, não
movem um dedo para salvar o próximo.

Quando se consegue fazer adquirir a convicção que "eu


também posso salvar", dá-se o primeiro passo para a formação
de pessoa que salva pessoas.

Este episódio ocorreu quando ainda nem se completara


um ano após eu começar as atividades de difusão, isto é, lá
pelos idos de 1944, quando o Johrei era praticado sob a forma de
massagem.

Na igreja, diariamente, vinha cerca de cem pessoas


desejosas de receber Johrei. Só em atendê-las, eu já me sentia
exausto. Nem sempre aquele que tinha se curado através do
Johrei se tornava pessoa que salvava os outros. Sempre me
acompanhava a dificuldade de fazê-los compreender
verdadeiramente que eles também podiam fazer o mesmo que
eu fazia.

Para realizar a salvação, não há outro caminho senão


fazer cada qual experimentar e ir adquirindo convicção.

Era início do verão. Estava sentado, vestindo uma camisa


curta de linho e calças largas, dando continuidade aos
tratamentos. Aí, apareceu um homem que se dizia conhecido de
um outro, por vias comerciais, de quem trazia uma carta de
apresentação. Chamava-se Sr. O. e tinha uma loja de roupas na
cidade de Shizaki, na península Tita.

- Minha mulher já está acamada há mais de quatro anos e

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

meio devido a osteomielite. Nesse período, já fizera várias


operações sem resultado. Agora, se encontra imobilizada,
sofrendo, com cinco travesseiros calçados pelo corpo. Por favor,
haveria possibilidade do senhor vir até minha casa para tratá-la?

- Entendo perfeitamente o seu sentimento, mas, para ir até


lá, gastaria o dia inteiro e, como o senhor vê, inúmeras pessoas
vêm ao meu consultório para o tratamento. Não posso largar tudo
para me dirigir somente à sua casa - respondi-lhe.

Tenho por norma não estender a mão facilmente àqueles


que têm fraco sentimento de procura, especialmente em relação
às coisas de Deus. Não só por isso, mas, além dos interessados
de verdade, havia muitas pessoas que, ouvindo em barbearias,
banhos públicos ou em conduções, procuravam no intuito de
apenas experimentar o tratamento. Pessoas assim não
passavam de meros curiosos e a maioria não vinha mais que
uma vez. A continuidade de uma semana ou uma quinzena de
recebimento de Johrei é que proporcionava a sua apreciação - e
não uma única vez. E, mesmo vindo durante vários dias, ao
aparecer o resultado do tratamento, diziam que "o remédio
ingerido tempos atrás fizera efeito agora" ou "acho que é
coincidência, pois o tempo de curar-me já havia chegado". E
muitos acabavam por isso mesmo, sem buscar mais seriamente
a verdade.

Portanto, mesmo recusando ajuda, aqueles que tinham


espírito de busca vinham com seriedade ainda maior, reforçando
o desejo de receber Johrei.

No dia seguinte, o Sr. O. veio me pedir a visita. Neguei


novamente.

Ele veio um terceiro dia e, com lágrimas nos olhos,


solicitou novamente a minha presença.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Já expliquei anteriormente o fato por que eu não posso


aceitar o seu pedido. Porém, se o senhor achar que um
representante meu seja suficiente, poderei pedir a ele que vá à
sua casa - respondi-lhe.

- Sim, não me importo que seja seu substituto. Por favor.

Chamei o Sr. Taki, que se tornara membro há dois meses


e ainda não possuía experiência em fazer o tratamento a
terceiros.

- Por favor, vá como meu representante. Não se preocupe


com absolutamente nada. Proceda como eu digo e tudo correrá
bem... Chegando lá, vá à cabeceira da doente e faça o
tratamento por cerca de uma hora, com muita atenção, desde a
cabeça até a ponta dos pés. Descanse e jante; beba, no máximo,
um cálice de saquê, se quiser. Após descansar, recomece por
mais uma hora e, se possível, mais trinta minutos antes de se
deitar. No dia seguinte, ministre Johrei por uma hora após o café
da manhã e aí regresse.

Nesse intervalo de tempo, observe atentamente como a


doente vai se modificando e, ao voltar, me comunique - instruí-o.

Ao sair, ele mostrava um semblante duro, como querendo


disfarçar a preocupação; ao regressar, porém, sua fisionomia
estava totalmente clareada.

- Reverendo, eu me assustei. Cada vez que ministrava


Johrei, a cor do rosto dela ia melhorando. Hoje pela manhã, ela
conseguiu subir ao segundo andar, onde me encontrava, para
receber Johrei - foram as suas palavras.

Recebi o relatório, e disse-lhe para ir observando


atentamente para ver como ela iria ficar dali para frente.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Foi muita surpresa quando ela própria veio no dia seguinte


à igreja, em Nagóia, ajudada pelo marido, andando pela primeira
vez depois de quatro anos e meio durante os quais mal podia se
movimentar.

- Veja que consegui essa melhora com o seu


representante. Com o senhor, que é mestre, acredito que deverá
ser ainda mais maravilhoso e, portanto, viemos. Vamos ficar em
casa de parentes e vir receber Johrei aqui - disse-me, assim que
me cumprimentou.

- Perdoe-me pela pergunta inusitada, mas por quanto


tempo deverei vir? - indagou-me.

- Creio que por uns dois anos... - respondi-lhe.

- Dois anos?! - espantou-se em voz alta; porém, após


breve reflexão, ela mesma respondeu:

- Bem, eu passava os dias pensando que seria hoje ou


amanhã o dia da minha partida; então, ouvir o senhor dizer que
devo freqüentar durante dois anos significa que poderei viver, no
mínimo, mais esse tempo, não é?

O Sr. Taki, por outro lado, presenciava estes aspectos do


comportamento e da mudança física daquela senhora, e foi
adquirindo uma grande convicção no tratamento.

Ela veio em julho; continuou em agosto, e, já em


setembro, apresentava uma recuperação tão surpreendente que
não parecia ser a mulher que passara quatro anos e meio
enterrada numa cama. Neste ínterim, o casal, a empregada, e
outros parentes, em número de cinco, se tornaram membros.

Em setembro, devido à guerra, o Sr. O. foi convocado para


a frente de batalha, e sua esposa teve de voltar ao lar em

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Shizaki.

Na despedida, disse-lhes:

- Se vocês fizerem o tratamento entre si, a doença da


senhora não apresentará problemas.

Caso aumente o número de amigos que façam o


tratamento, eu também um dia poderei visitá-los.

Portanto, quero que se esforcem - incentivei-os.


Dei a entender que transformassem a alegria de serem
salvos em alegria de salvar. E, assim, num recanto da península
Tita, foi plantada a semente da atividade de difusão, tendo essa
senhora como figura central. (Esta semente, na época, se
desenvolveu até tornar-se Igreja-filial Wako e, posteriormente, foi
se transformando em Igreja-filial Nagóia-Zuiho).

Passado algum tempo, a empregada daquela senhora


veio, nervosa, correndo.

- Minha patroa está sofrendo muito e nós mesmos não


sabemos o que fazer - disse-me, buscando ajuda.

Pelo que me contou, estava claro que a Sra. O. se


encontrava em estado de repurificação.

Bastava que continuasse com o tratamento e tudo se


resolveria. Para isso eu não precisava ir até lá. Era suficiente que
a empregada ministrasse o tratamento. Mas como não possuía
experiência, simplesmente se apavorava.

- Muito bem, vou ministrar Johrei em você. Eu lhe darei


forças para que o ministre em meu lugar. Você será meu corpo
para transmitir a Luz Divina à sua patroa. Chegando em casa,
ministre-lhe com esse sentimento - incentivei-a, e fiz dela minha

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

representante.

Assim, a Sra. O. conseguiu superar a repurificação e, por


meio disso, além da empregada, ela também adquiriu confiança
no Johrei. E foi essa convicção que se tornou a força motriz para
as atividades posteriores na cidade de Shizaki.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

A INFIDELIDADE CAUSADA POR MAU-OLHADO

Este fato ocorreu quando eu me encontrava em Ikeda-tyo,


bairro de Nagóia, logo após iniciar a difusão naquela cidade.

Um dos meus auxiliares na Obra Divina trouxe uma


senhora de uns quarenta e cinco anos, apresentando-me como
sua irmã mais velha.

Não denotava saúde prejudicada; o corpo era pequeno e


delgado, não era bela, mas tinha um rosto gracioso, fazendo
parecer que, na sua juventude, talvez tivesse sido muito
cortejada; era, enfim, o tipo de mulher que logo despertava a
simpatia masculina. Nascida numa loja atacadista de tecidos, foi
criada sem lhe faltar nada, mas estava infeliz no matrimônio.

- A minha afinidade é muito ruim... - começou a Sra. T. a


contar parte da sua vida, minuciosamente.

Com a idade de vinte anos, fora pedida em casamento


com o filho de um atacadista da cidade vizinha. Os dois
formavam um casal que todos consideravam perfeito. Eles
próprios reconheciam que se combinavam bem, e constituíram
um novo lar. Porém, após alguns meses, começaram as
infidelidades do marido. A esposa supôs que fosse algo
passageiro e sem raízes, mas, a cada dia, foi se tornando mais
intenso, chegando ao ponto de o esposo parecer enlouquecido
de paixão. Por fim, acabaram se divorciando, e ela voltou para a
casa de seus pais.

Enquanto auxiliava nas tarefas de casa, através do


encaminhamento de um primo que era integrante de um grupo de
ideólogos, muito em voga na época, começou a buscar nesta
entidade um porto seguro para o seu coração. Partiu para Tiba,
onde fica a sede dessa organização, e passou a viver lá,
dedicando-se firmemente. E nisso se passaram quinze anos.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

No entanto, a Sra. T. recebeu propostas amorosas do prof.


K., que era um dos dirigentes desta entidade. Ele era quinze
anos mais velho que ela e professor efetivo desta organização,
além de possuir uma empresa de porte em Tóquio. Sua mulher e
filhos eram saudáveis. Para ela foi um grande choque a tentativa
de sedução por parte de alguém que pregava o caminho da
moral às pessoas. Voltou imediatamente para casa, encerrando a
longa vida de servir prestada àquele grupo.

Estava nesta situação, quando recebeu proposta de


matrimônio aos 38 anos, e se casou novamente. Seu atual
marido trabalhou honesta e dedicadamente, na mocidade, como
funcionário público e, na meia-idade, tornou-se independente e
abriu um escritório que, junto com dez funcionários, obteve um
certo sucesso. Tendo enviuvado, continuava por longos anos sua
vida solitária, já sendo um cinqüentão avançado.

- Eu tinha até desistido de uma vida a dois, mas pela


permissão que tive de me casar novamente, pensei em
conservar bem esta felicidade.

Porém, nem se passara um ano e meu marido começou a


me trair. Na época de solteiro, não havia nem mesmo boato de
que fosse volúvel.

Segundo as palavras da Sra. T., era impossível conceber


o porquê e onde estava a causa da sua infelicidade. Ela
acreditou que fosse devido a alguma falta sua, e passou a agir
como se não tivesse conhecimento da infidelidade do marido.

No entanto, as atitudes do esposo tornavam-se cada vez


mais claras e, por fim, chegou a trazer a amante para casa.
Como se não bastasse que essa mulher fosse sua secretária,
uma moça de uns vinte anos, mostrava à sua própria esposa
cenas de relação sexual com a amante. Não resistindo a
tamanho vexame, ao querer fugir, ele ficava tremendamente

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

zangado e a fazia continuar assistindo. Tornara-se um verdadeiro


maníaco e não havia outra explicação a não ser que era uma
transformação animalesca.

- Pela idade dele, achei que logo mais já estaria curado


desta loucura pela mulher e tentei me resignar com a situação.
Mas, em vez de suas atitudes se abrandarem, ainda sofro
terríveis humilhações que já não consigo suportar. Haveria uma
maneira para que meu marido modificasse, de alguma forma, o
seu sentimento e comportamento?

O relato da Sra. T. era repleto de amargura e dor. Todos


poderiam também imaginar que, para o seu marido se
transformar tanto, deveria haver algum problema com a Sra. T.
Eu também pensei, e perguntei-lhe a respeito dela própria e da
sua maneira de ser no lar. Porém, não foi possível ver nela
nenhum defeito ou falha. Era formada no Colégio Feminino, do
sistema antigo, e embora mostrasse ares de intelectual, tinha
uma ótima feminilidade. Não deveria ser fria com o marido. E
nem indicava deixá-lo insatisfeito.

- Como está o seu primeiro marido? - perguntei-lhe,


acreditando ser muito azar que ela houvesse se casado duas
vezes com homens mulherengos.

- Sei bem como vai, porque ele mora na vizinhança. Pouco


depois de nos divorciarmos, casou-se novamente e parou por
completo com a infidelidade e hoje, com sete filhos, é muito sério
e responsável. Não consigo entender como somente quando
estava comigo ele foi acometido por aquela loucura por mulheres
- contando isso, a Sra. T. se tornou ainda mais sombria.

Eu não tinha palavras para consolá-la e, por isso, tentei


explicar-lhe que, de qualquer maneira, sua salvação estava em
se compenetrar no Caminho da Fé.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Ouvindo o seu relato, não consigo captar exatamente


que afinidade a senhora tem para sofrer tanto, mas acho que tem
uma grande dívida com Deus e, por causa disso, é que sofre
tanto. Esforçar-se em realizar as tarefas divinas para o bem da
sociedade e da humanidade significa pagar essas dívidas.
Portanto, quero que se empenhe seriamente no Servir. Dentro de
pouco tempo, a Vontade Divina se tornará clara e assim você
saberá como agir. Se permanecer sem fazer nada, os
sofrimentos somente aumentarão, e a salvação será impossível.

Desde então, a Sra. T. que, com certeza, estava a ponto


de se agarrar a qualquer palha, reconheceu, sinceramente, a sua
afinidade negativa e começou a se esforçar na dedicação à Obra
Divina.

Iniciou pelo encaminhamento de dezenas de pessoas e


continuou ministrando Johrei a centenas delas, fazendo-as
ingressar na Igreja.

Em diversas oportunidades, relatei o andamento do caso


ao Rev. Shibui e recebi suas orientações.

- Muito bem. Acho que essa senhora T. teve um outro


namorado antes do primeiro casamento. Deve ter abandonado
esse rapaz que lhe nutria sentimentos e casou-se com outro.
Aquele que se viu desprezado poderá estar ainda sofrendo pelo
abandono e está extremamente arrasado. Esse sofrimento pode
ter gerado uma maldição e esta ter formado um corpo espiritual,
que encosta no homem com o qual a Sra. T. se relaciona, e
acaba até criando nele paixões por mulheres, fazendo-a sofrer. O
primeiro marido, apesar de ter sido acometido desta loucura, ao
ter-se separado da senhora T., não recebeu mais influência deste
espírito amaldiçoado. E, por isso, está feliz com um outro lar. E
veja o segundo casamento da Sra. T.: o novo marido também
iniciou repentinamente os casos extra-conjugais. Isso significa
que aquela maldição ainda permanece rondando essa mulher -

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

explicou-me o Reverendo.

Embora achasse razão em suas palavras, não conseguia


convencer-me por completo. Sentia até vontade de duvidar.

Entretanto, pouco depois, em Fukuyama, no Estado de


Hiroshima, ouvi um outro caso e pude reconhecer as palavras do
Rev. Shibui.

A dona de um pequeno restaurante, uma senhora gorda,


comunicou-me seu sofrimento.

- Meu marido é doente, mas não quer parar de praticar um


relacionamento sexual que já está parecendo loucura. Traz
moças para casa e as abraça e beija na minha frente, como que
se exibindo. Caso, querendo evitar de ver, eu tente fugir, ele me
bate, me dá pontapés, e começa uma violenta anarquia. Por eu
haver também cometido uma grande falta ao me relacionar com
vários homens e não poder evitar o que está acontecendo,
procuro me resignar. Mas já está passando dos limites...

Seu relato era muito parecido com o da Sra. T. Após


contar exatamente como era o caso da Sra. T., perguntei-lhe:

- Por acaso não teve alguém que se interessou séria e


verdadeiramente pela sua pessoa, mas que a senhora acabou
desprezando?

- Sim, acho que é isso. Deve ter sido pela inexperiência da


juventude, mas por ter sido muito bajulada pelos homens,
algumas vezes, acabei brincando com o sentimento deles.

- Será que não é a maldição disso que está influenciando


o seu marido?

Espantada pela severidade com que se concretizavam as

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

afinidades, a dona do restaurante prometeu se dedicar à Obra de


Deus.

Infelizmente, por não ter oportunidade posterior de visitar


Fukuyama, não sei como ficou o marido dela.

A Sra. T. começou a se aprofundar e a firmar-se na Fé, e,


sem precisar quando, a loucura sexual do marido começou a
abrandar. Acreditei que era porque a espiritualidade da Sra. T. se
elevara e, por isso, a influência do espírito negativo deixara de
ser forte.

Porém, apesar da satisfação da Sra. T., ela acabou


contraindo um reumatismo, que deixou o seu tornozelo mais
inchado que o joelho, trazendo-lhe grandes dores e dificultando-a
no andar.

Na palavra do Mestre, reumatismo (ryuu-ma-ti, em


japonês) é causado pelo sangue diabólico do dragão (ryuu =
dragão; ma = diabo; ti = sangue) e, muitas vezes, provém da
solidificação de alguma maldição.

Ao ouvir esse Ensinamento, senti que a afinidade da Sra.


T. estava por terminar. O sangue se maculara pelo espírito da
maldição, descera até os pés, e agora a praga estaria sendo
eliminada pela inflamação e purulação.

Tendo como limite o reumatismo da Sra. T., o marido se


transformou a tal ponto que era difícil dizer que tivesse até há
pouco perdido a cabeça com mulheres, e começou a cuidar da
doença dela.

Porém, levou anos para a Sra. T. ver-se livre deste


reumatismo. Todo o sangue purulento saíra através do Johrei; os
dois pés ficaram enrugados e a doença cedeu até se fixar em um
pequeno ponto. E com isso se firmou uma nova vida alegre e o

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

relacionamento conjugal se tornou satisfatório de corpo e alma.


Apesar de ser um casal no início da velhice, ambos tinham saúde
e o seu amor era profundo, não demonstrando em nada seu
passado sombrio.

"Não seja odiado. Não seja invejado." - foi o que nos


ensinou o Mestre. Certamente, a maldição e a inveja ultrapassam
o tempo e o espaço, e apresentam várias maneiras de agir.
Podemos sentir o quanto são horríveis essas maldições.

Devo acrescentar que a senhora T. está perto dos oitenta


anos e o seu marido com cerca de noventa, mas se encontram
saudáveis e felizes.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

MEU PAI ME AGUARDOU PARA MORRER

Escrevi sobre minha mãe em outro capítulo, mas neste


gostaria de escrever sobre o meu pai.

Ele era mais calado. Isto não significava que entre nós
dois houvesse qualquer distância.

Lembro-me do calor de suas largas costas quando me


carregava na infância. A alegria que eu sentia quando ele me
levava sentado em seu pescoço. Não são essas alegres
recordações que estão mais impregnadas na minha memória,
mas sim a sua postura compenetrada nos afazeres da lavoura ou
em qualquer outro serviço. Fomos sempre pobres, mas ele nunca
fazia disso uma tristeza. Meu pai viveu toda sua vida para a
agricultura. Se quiser descrevê-lo agora, diria que era uma
pessoa simplesmente paradisíaca.

Ele havia se destacado nas guerras contra a China e


contra a Rússia e, apesar de ter lutado na frente de batalha,
quando me alistei com distinção no Exército, e fui posteriormente
mandado à Manchúria, ele foi o primeiro a mostrar lágrimas na
despedida.

Todos os dias deleitava-se com um copo de saquê na hora


do jantar, e quando tínhamos visita e ultrapassava essa medida,
nem bem ficava eufórico e alegre, já acabava dormindo.

Tinha mais de setenta anos quando tombou de derrame


cerebral. Eu me encontrava na frente de guerra na Manchúria,
mas recebi um aviso pelo sonho. Já estava terminando o verão
de 1941.

No final do ano seguinte, dei baixa e voltei para casa são e


salvo. Em agosto de 1943, abriram-se as portas para a minha
vida religiosa. Imediatamente, comecei a ministrar Johrei em meu

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

pai durante uma semana seguida. Ele conseguiu melhorar até


poder andar agarrado a um carrinho de bebê.

Em outubro de 1943, ignorando a oposição dos que me


cercavam, iniciei, em Nagóia, a divulgação da Fé que abraçara.
Foi uma transformação abrupta de 180 graus, vendendo tudo que
socialmente havia conseguido e lançando fora todo patrimônio
material. Experimentando eu mesmo os inúmeros milagres que
nasciam do Johrei, que curava através da imposição das mãos,
entreguei-me totalmente a esta prática. Porém, precisei de
bastante tempo para que os meus familiares aprovassem minha
atitude. Somente meu pai, desde o início, depositou inteira
confiança em mim.

- Eu não tenho cabeça boa e não conheço muitas coisas


e, portanto, não posso fazer nada para ser útil aos outros; mas
tenho certeza de que você conseguirá - expressava assim a sua
alegria em ver minha mudança de vida. Normalmente, eu
ministrava de 30 minutos até uma hora de Johrei, mas em meu
pai bastava uns 3 minutos e ele voltava ao seu leito, dizendo
estar aliviado.

Sinto que fui aprofundando minha fé, acumulando as


experiências na ministração do Johrei. Aumentava
gradativamente o número de pessoas que eu encaminhava à
Igreja. Nessa ocasião, eu levava a pessoa de Nagóia até à Sede
em Tóquio, onde ela recebia as aulas e terminava com a outorga
do Ohikari.

- Será que não pode vir a Nagóia para dar aulas? -


perguntava vez por outra ao Rev. Shibui.

- Se você conseguir reunir cinqüenta pessoas, poderei ir -


respondia-me.

Eu me animava com essa resposta, e com o desejo de

59
Cem História da Minha Fé Vol. 2

realizar os aprimoramentos em Nagóia, consegui depois de meio


ano, em março de 1944, realizar a primeira aula naquela cidade.

Ao término das aulas, que foram feitas nos dias 5, 6 e 7 de


março, o Rev. Shibui comunicou-me que poderia vir novamente
no mês seguinte. Incentivado por suas palavras, fui aumentando
o número de pessoas encaminhadas e a segunda aula ficou
marcada para os dias 25, 26 e 27 de abril.

Nessa época, eu havia deixado minha família em Guifu,


onde meus pais moravam, e me deslocava até Nagóia. E como
havia necessidade de me dirigir a regiões vizinhas para difundir e
ministrar Johrei, voltava para casa uma ou duas vezes por
semana.

Em relação ao aprimoramento, tinha de cuidar da sua


organização e andamento, além de outras atividades e, portanto,
era quase que obrigado a ficar no local desde a véspera. Todas
as noites, conversávamos com os presentes. Esses dias eram
importantes porque daí nasciam aqueles que poderiam servir de
lastro à difusão e que se tornariam verdadeiros discípulos de
Deus.

No primeiro dia desse aprimoramento, na hora do


descanso do almoço do dia 25, o primo da minha mulher veio
correndo me avisar:

- Katsuiti, volte depressa. Vim a pedido de Tomiko, sua


esposa, pois seu pai não se encontra bem. Parece que está
ultrapassando o cume. Ela quer que você volte imediatamente -
viera avisar-me rapidamente sobre a urgente situação.

É natural que o filho, ao receber notícias de perigo dos


pais, corra ao seu encontro, sem constrangimentos. Mas aqueles
três dias eram importantes, pois os que se reuniram foram todos
encaminhados por mim e, portanto, não poderia deixá-los,

60
Cem História da Minha Fé Vol. 2

abandonando-os daquele jeito.

Queria voltar, queria presenciar o último suspiro de meu


pai. Era meu pai, aquele que gostava de receber Johrei comigo,
e que, mais do que ninguém, confiava na minha nova maneira de
viver, incentivando-me e animando-me. Desejava ministrar-lhe o
último Johrei.

Disse ao meu primo:

- Peço desculpas pelo trabalho que lhe causei. Sou


imensamente grato pelo favor de vir correndo me avisar, mas
diga a Tomiko que não poderei voltar por três dias.

Sua reação já era esperada.

- O que você está dizendo? É o médico quem está


afirmando que não se sabe quando poderá morrer, e você diz
que só pode vir depois de três dias? Ele já está dormindo por três
dias e não toma uma só gota de água. Ainda assim você se diz
filho de Deus? Por que não pode voltar agora?

- Esses três dias são importantes para mim. Eu tenho que


realizar esta tarefa sem nenhum contratempo. Meu pai sabe que
tipo de trabalho é o meu. Portanto, ele esperará três dias pela
minha volta, tenho plena certeza - disse-lhe afirmativamente.

Estava certo de que neste seu segundo ataque de


derrame ele não se salvaria, como aconteceu quando ocorreu o
primeiro. Ele já estava com 74 anos. Agora que estava para
ultrapassar o cume da sua longa existência bem vivida, eu não
sentia tanta tristeza e angústia pela eterna despedida.
Mentalizando uma prece, pedi-lhe desculpas por não poder ir
imediatamente, e dirigi-me ao meu primo:

- Por mais que você insista, eu ficarei aqui. Mas quando

61
Cem História da Minha Fé Vol. 2

tudo se encerrar, voltarei correndo.

- Você deve estar louco. O que é essa reunião de salvar


pessoas? Dizem que aquele que não vir a passagem dos pais é
indigno. Pense no sofrimento de sua mãe e de sua esposa. Eu o
desprezo, se quer saber - ficou bravo, falava aos berros e, por
fim, foi-se embora sozinho.

Na tarde do dia 27, encerramos sem contratempos o


segundo aprimoramento e cerca de cinqüenta pessoas tornaram-
se membros.

Quando, após a limpeza e ordenação geral, cheguei em


casa, já era tarde avançada. Dormindo por seis dias, meu pai
ainda estava vivo. As pessoas que estavam sentadas à
cabeceira me receberam com olhares de desprezo e revolta.

Segurando sua mão, mesmo sabendo que não adiantaria,


falei:

- Obrigado, papai, por me esperar vivo.

E ele me respondeu por meio de uma tosse. Todos


soltaram vozes de espanto.

Coloquei um pouco de água em minha boca e passei à


sua boca, forçando-o a beber. Mesmo com os olhos cerrados, ele
bebeu em grandes goles.

- O senhor me entende, papai? - perguntei-lhe,


aproximando a cabeça.

- Sim - com a voz abafada, meneou a cabeça


afirmativamente.

Este foi o momento máximo de sua passagem. Pude sentir

62
Cem História da Minha Fé Vol. 2

que ele se aliviara, e, com certeza, podia ir a um bom lugar. Isso


foi à uma hora da manhã.

Na sua velhice, papai aumentara ainda mais sua bondade


e expandia sua alegria contagiante, rindo sempre com os seus
netos. Fazia coisas engraçadas, como colocar sobras de doces
na sopa quente e as comia e, enchendo as bochechas, ria
gostosamente. Quando comento este fato com meus filhos, ainda
é assunto de alegria.

Se quisesse expressar em uma só palavra toda a vida de


meu pai, diria que foi um "pai carinhoso".

Naquela manhã do dia 28, bem cedo, colocamos seu


corpo no caixão. Na hora da preparação, achamos estranho que
seu corpo ainda não estivesse gelado. Nem tampouco enrijecera.
Na região, era costume enterrar o falecido sentado e, nessas
ocasiões, quando se dobravam as articulações, as juntas
estalavam; mas, no caso dele, não fizeram nenhum ruído e se
dobraram maciamente. Seu rosto mostrava alguém que
descansava, parecendo inclusive que dali a pouco tornaria a
respirar e a sorrir novamente.

Aquele era o primeiro dia que o Rev. Shibui participava do


aprimoramento em Osaka. Terminando cedo de manhã a
colocação de papai no caixão, saí direto para aquela cidade.
Transmitindo aos dedicantes da organização do aprimoramento a
maneira como deveriam preparar e dar andamento, voltei, à
noite, para o velório. No dia seguinte, 29 de abril, realizamos o
enterro.

Refletindo, entendo que meu pai se fora quando as


atividades de difusão iam em ritmo acelerado. Nem tive tempo
para sentir tristeza. Achei que com a minha postura, atarefado
que estava com as tarefas divinas, os meus familiares pudessem
entender e aprofundar um pouco na compreensão da Fé, mas

63
Cem História da Minha Fé Vol. 2

estava redondamente enganado. Ainda estava por vir essa


compreensão.

Dois anos após a morte de papai, quando transferimos a


igreja para Obara, bairro de Ichinomiya, aconteceram várias
coisas que só pude entender como sendo obra do espírito de
meu pai. Os fatos ocorridos ao alugarmos a casa, o carinho do
homem que morava nela para com os meus filhos, a nova
expansão da difusão, etc. são coisas que gostaria de relatar em
outro capítulo.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

DILEMA ENVOLVENDO A MORTE DE MINHA FILHA

No ano de 1946, ainda não havia se estabelecido um local


para funcionar como igreja. A cidade de Nagóia sofrera
bombardeio e as pessoas de meu relacionamento da época em
que iniciara a difusão no outubro de 1943 se encontravam agora
nas lavouras, e ali faziam os trabalhos de difusão, isto é, cada lar
era uma pequena igreja.

As pessoas que conduzi ao Caminho foram cada vez mais


estendendo o círculo inicial, mas eu também, a pedido delas,
percorria vários locais para realizar aprimoramentos. Quando
estes eram feitos em Nagóia, elas vinham reunir-se para receber
Johrei comigo, uma vez que como haviam partido para difundir a
fé em outras regiões, não era sempre que surgia uma
oportunidade em que eu podia ministrar-lhes a Luz Divina.

Havia também um outro motivo. A difusão que fazíamos


era centralizada no Johrei, iniciando neste como forma de
mostrar a existência de Deus e terminando também nele como
um meio de purificação espiritual. Eu mesmo, como era
saudável, não fui salvo do sofrimento das doenças por tê-lo
recebido. Lancei toda a minha vida nesta Obra, porque
presenciei a importante realidade em que os doentes se
aliviavam e se curavam com o simples fato de se estender a mão
à sua frente. E a alegria dos que se salvaram através do Johrei
me incentivava a dedicar na Obra de Deus.

Não obstante, aqueles que recebiam Johrei não


conseguiam facilmente abrir os olhos para crerem que ele é a
força de Deus. Compreendiam, isso sim, que era um simples
tratamento. Achavam também que a cura foi devido à maturação
do tempo ou que o remédio que tomaram antes estava surtindo
efeito. Não queriam reconhecer a eficácia do Johrei. Ou, muitas
vezes, achavam que eu o ministrava por ser uma pessoa
especial. Dessa maneira, não era possível abrir um espaço para

65
Cem História da Minha Fé Vol. 2

o Caminho desenvolver.

Os guerreiros de Deus devem ser pessoas que se voltam


para terceiros e ativamente Ihes ministram Johrei. Para que se
torne um combatente, é importante, acima de tudo, experimentar
a sensação da força grandiosa da Luz de Deus, ministrando-a
aos outros. A alegria ao vermos alguém ser curado pelo Johrei
que ministramos é muito maior e mais profunda do que a de nos
termos salvado.

Formando este ponto de vista, decidi não ministrar Johrei


naqueles que não o ministravam nos outros. Existem exceções,
mas mesmo as pessoas que ingressaram na Fé com o desejo de
elas próprias melhorarem, para receberem Johrei comigo,
precisavam ministrá-lo. Então, resolvi marcar um dia para eu
próprio ministrar Johrei.

A Igreja-filial Wanouti ficava, na época, a cerca de cinco


minutos de caminhada em direção norte da estação de Nagóia.
(Antes do bombardeio, tínhamos uma igreja no bairro Kohari. O
Sr. Assano, que se tornara membro na primavera de 1945,
adquiriu um imóvel em 46 e, no 1º andar dessa casa,
realizávamos a reunião de aprimoramento mensal em Nagóia).

Sendo um dia de início de verão, naquele dia também


estavam cerca de cem pessoas para receber Johrei comigo e era
claro que o encontro iria até altas horas da noite.

Às quatro da tarde, meu irmão veio com um aviso.

- Massako está em perigo de vida. Pedem para você voltar


imediatamente.

Ele viera de Kano, em Guifu, nossa terra natal,


especialmente para me avisar. Minha família se encontrava na
residência paterna, perto da de meu irmão. Eu me deslocava,

66
Cem História da Minha Fé Vol. 2

sem rumo, para realizar o trabalho de difusão.

Quando voltara ao lar na semana passada, Massako,


minha filha caçula de quatro anos, parecia ter apanhado um
resfriado, mas, segundo meu irmão, a purificação era ainda mais
severa, demonstrando sinais de peritonite. Nesses três dias,
delirante de febre, seus olhos perderam o brilho, sua barriga se
enrijeceu e não se alimentava. Minha mulher também não sabia
o que fazer.

Segundo os que cuidaram dela, Massako tinha a sua vida


contada para hoje ou amanhã. Assim relatou meu irmão.

Havia perdido meu pai, há poucos meses e, agora, minha


filha se defrontava com a morte...

Senti, num lampejo, que talvez Massako não se salvasse


desta vez. No inverno, quando ainda andava tropegamente, caiu
sentada no braseiro e queimou profundamente as nádegas. No
verão, caiu de bruços num fogareiro, e queimou o baixo
abdômen. Parecia uma criança que já carregava alguma espécie
de afinidade negativa.

Depois do seu nascimento, passei a me ausentar muito


mais e, por isso, quase não a segurava, e ela mesma parecia
não gostar que eu o fizesse.

Porém, neste último mês, repentinamente, ela própria me


pedia colo.

Eu tinha plena confiança no Johrei. Mas para o caso de


Massako, já não possuía convicção.

Desejei fortemente que estivesse junto de minha filha no


momento de sua passagem, mas a minha fé não permitia que eu
abandonasse aquelas tantas pessoas reunidas. Elas eram

67
Cem História da Minha Fé Vol. 2

oriundas do Nordeste, de Kyushu, e de outras regiões longínuas,


e tinham vindo especialmente para receber Johrei.

Eu havia abandonado a família para me dedicar ao


próximo, escolhendo viver o Caminho da Lei de Deus. Mesmo
que me retalhassem o corpo, não poderia deixar aqueles que se
dedicavam de corpo e alma à Obra Divina; sair correndo ao
encontro de minha filha, que eu já não tinha esperança de salvar,
significava renunciar a Deus. Palavras e ações ficariam
desencontradas.

Ademais, iria a Tóquio naquela noite para entrevistar-me


com o Mestre e também apresentar os devidos relatórios, e já
tinha comprado as passagens. (Naquela época, havia limitação
na venda de bilhetes de trem, e necessitava-se de uma
preparação bastante antecipada).

Entrei para o Caminho largando meus negócios. Tinha


decidido suportar qualquer sacrifício e, justo naquela hora,
sentia-me vacilante. Minha posição era literalmente escolher um
dos dois.

Era impossível transmitir, em palavras, ao meu irmão o


que eu sentia.

- Tenho ainda muitas coisas a fazer para o bem da Obra


Divina. Peço que você, com as suas próprias mãos, possa cuidar
dela - pedi-lhe, como se estivesse fazendo uma profunda oração.

Mais uma vez meu irmão expressou seu pedido, mas eu


não o atendi. Não podia aceitar. Meu irmão mostrou em seu rosto
o quanto me achava frio e incompreensível, suspirou desanimado
e se foi. Continuei a ministrar Johrei em todos e tomei o trem
noturno.

Na manhã seguinte, compareci a Hakone, terminei a

68
Cem História da Minha Fé Vol. 2

entrevista com o Mestre e quando cheguei ao Hazan-So, (Solar


da Montanha Preciosa), no bairro Ueno-Kami, Tóquio,
entregaram-me o telegrama de meu irmão. Massako havia
partido deste mundo.

Um membro fervoroso, que era oficial da Marinha,


chamado Inagaki, que me acompanhava nas atividades desde a
noite anterior, veio até meu quarto e disse:
- Posso avaliar como está se sentindo - e calou-se,
começando a chorar copiosamente.

Havia alguém que compreendia meu interior. Emocionei-


me com isso e senti até que essa emoção foi o prêmio maior que
recebi de Deus.

Dessa maneira, pude expressar minha tristeza, minha dor


em relação à minha própria filha e, pedindo perdão pela minha
falta como pai, verti lágrimas soltas.

Colocado na posição de escolher entre minha filha e a


Obra Divina, dei importância à segunda. Podia parecer um tanto
desumano, mas senti que com a sua morte, minha filha me
ensinou o quanto é rigoroso o Trabalho de Deus.

Não tenho dados para saber como as outras pessoas que


estavam ao meu redor encaravam a Obra Divina, mas como que
fazendo desse acontecimento uma oportunidade, começou a se
desenvolver uma grande e fervorosa atividade de difusão que se
ligou a um grande crescimento.

A morte de Massako foi para mim uma difícil escolha, mas


para minha esposa também foi igualmente um grande dilema.

Após terminar todas as atividades, ao chegar em casa,


encontrei minha filha dentro do caixãozinho, vestida com a sua
roupa de comemoração do terceiro aniversário, maquilada

69
Cem História da Minha Fé Vol. 2

suavemente. Parecia, com a sua franjinha, uma linda boneca, e


fui colhido pelo ímpeto de abraçá-la e tomá-la no colo.

Desde que me tornara membro da Igreja, tudo que eu


fazia era motivo de desgosto para minha mulher. Ela não queria
se esforçar para compreender a Obra Divina. Detestava,
simplesmente. Ela pensava que fosse um entusiasmo passageiro
meu ou até encarava como um capricho.

Como não podia me impedir, assistia a tudo caIada, mas,


no fundo, estava até odiando por eu não dar mais atenção ao lar.
Desta feita, por não ter regressado logo, mesmo com a filha à
beira da morte, seu interior em relação a mim era cheio de
labaredas de ódio e rancor. De fato, não falou comigo e nem
mesmo lágrimas me mostrou.

Após ter realizado o funeral no dia seguinte, já saí para a


difusão.

Voltando após uma semana, encontrei minha esposa, que


emagrecera bastante e nem falou comigo. O filho mais velho
disse-me, às escondidas, que nessa semana ela não comera
direito, nem mesmo tomara chá, só permanecendo imóvel e
calada.

Senti aquela atitude mais como contrariedade por mim


motivada pelo ódio, do que tristeza pela perda da filha. Porém,
não era proposital a sua falta de apetite e sede. Senti em sua
barriga algo endurecido, do tamanho de um pedregulho, ao
ministrar-lhe Johrei, que não surtiu efeito satisfatório.

Fazia dezessete anos que já vivia junto com minha mulher


e nunca a repreendera severamente; mas, desta vez, disse-lhe
em tom rígido:

- Você está me achando um homem frio. Não compreende

70
Cem História da Minha Fé Vol. 2

minhas convicções e nem procura entendê-las. Se não lhe


agrada o que faço e acha que estou errado, pode pedir o
divórcio. Leve todos os bens e dinheiro - o que quiser. Em
relação aos filhos, farei o que você desejar.

Tomada de surpresa, permaneceu alguns instantes


imóvel, fitando-me rancorosamente, mas logo começou a chorar
alto. Eu permaneci olhando-a.

- Desculpe-me - balbuciou, dirigindo-me, finalmente,


palavras que há dias não ouvia. E, a olhos vistos, a rigidez de
sua barriga desapareceu, como uma pedra submerge num lago
calmo.

Aquele endurecimento era devido estar contra mim e


contra Deus, mas, com o simples pedido de desculpas,
dissolveu-se completamente.

Minhas palavras severas foram motivadas pelo ponto


crucial a que chegamos - a morte da nossa filha. Para minha
mulher, até então, era um grande dilema optar por aceitar ou
recusar a minha nova missão. Após isso, ela se esforçou em
compreender minhas atividades no Caminho e, posteriormente,
também começou a desenvolver sua dedicação à Obra Divina.

Mais uma vez não pude deixar de sentir a importância da


convicção e das atitudes daqueles que servem a Deus.

71
Cem História da Minha Fé Vol. 2

BOTAMOTI DE SADASHI: IMPOSSÍVEL COMER MAIS UM

Dentre as estórias que ouvi de minha mãe, havia uma


sobre o "Botamoti8 de Sadashi". Por longo tempo havia me
esquecido dela, mas me lembrei quando, na casa dos trinta anos,
tive um fracasso nos negócios.

Minha mãe sempre dizia: "Botamoti de Sadashi, não dá


para comer mais um". Como só isso não fazia sentido, pedi-lhe,
certa vez, que me explicasse o significado.

- Isso ocorreu com um jovem chamado Sadashiro. Faltava-


lhe "um parafuso na cabeça" e era um grande vagabundo. O
pessoal da vila não o chamava Sadashiro, mas somente Sadashi
- começou a contar-me.

- Certa vez, Sadashi quis comer "botamoti", mas era um lar


tão pobre que mal podiam comê-lo uma vez por ano. Entretanto,
Sadashi teve vontade, e implorava à sua mãe. Ela nem lhe dava
ouvidos.

- Escute, meu filho, se eu pudesse preparar-lhe "botamoti"


toda vez que você quisesse, não estaríamos sofrendo tanto com
essa nossa miséria.

Mesmo assim ele não desistiu e, fingindo-se doente,


permanecia o tempo todo na cama. Não ajudava a mãe e nem
comia direito, ficando deitado o tempo todo.

Aí, sem outra alternativa, a mãe cozinhou a cobertura e,


tomando emprestado o arroz para moti, fez uma enorme
quantidade de "botamoti".

- Sadashiro, deixei pronto o "botamoti" de que você tanto


gosta. Coma bastante para se recuperar e poder trabalhar - disse
8
Botamoti: doce feito com massa de arroz e coberto com pasta de feijão.

72
Cem História da Minha Fé Vol. 2

a mãe, e foi para a roça.


Assim que ela saiu, Sadashiro levantou-se, e começou a
comer gulosamente. Apesar de estar com o corpo meio enrijecido
de não trabalhar já há alguns dias, comeu com sofreguidão, e,
quando percebeu, a tigela já estava vazia. Deixou sobrar apenas
um doce. Sadashi soltou um longo suspiro e tornou a se deitar.

A mãe, quando regressou, espantou-se ao ver a tigela


vazia e, olhando alternadamente para Sadashi e para o botamoti,
disse:

- Sadashiro, creio que você já esteja satisfeito. Mas por


que deixou sobrar um doce, se conseguiu comer tudo aquilo?

- Sabe, mãe, se eu pudesse comer esse daí, não estaria


assim, acamado.

Dizem que a mãe de Sadashi se pasmou com a sua


resposta.

Soube, através da interpretação de minha mãe, que nessa


estória está contida a dificuldade de se entender o verdadeiro
sentimento humano.

Tive alguns insucessos nos meus negócios, mas pude


entender que foi por eu não ter dado importância ao sentimento
dos outros. Talvez por isso eu me recordei da estória de
Sadashiro mais intensamente.

Posteriormente, veio se juntar aos meus empregados um


rapaz parecido com Sadashiro.

Certa vez, minha mulher estava tomando conta da loja,


quando entrou um cavalheiro finamente trajado.

- Vejo que em seu estabelecimento trabalham vários

73
Cem História da Minha Fé Vol. 2

rapazes. Há alguma espécie de regulamento ou norma nesta


casa? - indagou à minha mulher.

Apesar de estranhar a pergunta, ela respondeu-lhe:

- Não há nenhuma norma. Mas se insiste em saber, temos


como base empregar os rapazes para que eles possam ser úteis
aos seus pais.

Depois de alguns dias, esse cavalheiro e mais duas


pessoas, acompanhando um rapaz, entraram na loja e disseram
ter um pedido especial para mim.

Segundo aquele senhor, o jovem acabava de se formar na


escola comercial e era o segundo filho de um comerciante de
produtos do mar, que tinha uma loja em frente à Estação Niatsu,
em Akita. Este era seu tio, professor universitário e tutor do
sobrinho durante sua permanência em Tóquio.

- Meu sobrinho foi criado com muito mimo e estamos tendo


problemas. Andei procurando um lugar onde pudessem utilizá-lo
eficazmente e outro dia, fiquei sabendo pela sua esposa a sua
filosofia de trabalho, e achei que seria útil ao meu sobrinho
empregar-se aqui, e hoje viemos pedir este favor ao senhor.
Desejo que o treine para poder ser útil aos seus pais. Peço-lhe
que o utilize como quiser. E, quanto ao salário, nem precisa
pagar-lhe – expôs, em linguagem polida, o motivo daquela visita.

- Bem, então, vamos ficar com ele por uns tempos -


concordei. Empregando vários rapazes, tinha adquirido certos
macetes e achei que naquele caso também não haveria maiores
problemas.

O tal rapaz não viera trabalhar por estar necessitando de


dinheiro. E, sendo filho de um grande e próspero lojista, sempre
encontrava desculpas para relaxar no trabalho. Mesmo sendo

74
Cem História da Minha Fé Vol. 2

admitido como simples funcionário, não agia como tal. Acordava


mais tarde que todos e tinha o atrevimento de ler jornal à mesa.

Não havia passado um mês e, certa manhã, ele não se


levantou, alegando dor de barriga. Os outros rapazes começaram
a se alvoroçar, dizendo que a doença dele era falsa. Consegui
apaziguá-los e convencê-los a deixá-lo deitado. Fui espiar à
tarde, e encontrei-o dormindo tranqüilamente, sem febre e sem
sofrimento... À noitinha, ainda não tinha se levantado.
Obviamente, não tomara qualquer refeição: nem o desjejum, nem
o almoço. Chamei a empregada e ordenei-lhe:

- Prepare umas cinco tigelas de macarrão e deixe à sua


cabeceira.

- Sim, mas...

- Não discuta. Faça exatamente assim. Entregue-lhe este


dinheiro, dizendo que mandei-o assistir a algum filme.

Segundo relato da empregada, o rapaz notou as tigelas de


macarrão após despertar (na certa deve ter-se levantado porque
percebeu a entrega da comida), e comeu até quatro tigelas com
sofreguidão. E, quando ela quis entregar-lhe o dinheiro para o
cinema, ele se levantou e foi para a loja.

Após esse incidente, ele se tornou uma outra pessoa, um


moço exemplar, muito trabalhador. Aquela impressão inicial
desapareceu, sem deixar nenhum vestígio. E, além disso, longe
de usar artifício de doença, algumas vezes, mostrou tanta
determinação no trabalho, que, mesmo quando não estava bem
de saúde, tive que forçá-lo a descansar.

Na verdade, não lhe disse uma só palavra para não se


fingir de doente ou que trabalhasse com honestidade. Deixei-o
fazer o que quisesse.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Para mover as pessoas, é necessário utilizar uma força


mais poderosa do que simples ordens. Isto eu tinha aprendido
com a estória do botamoti de Sadashi, e as cinco tigelas de
macarrão surtiram efeito.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

ATUAÇÃO DA FÉ NA VIDA CONJUGAL

Caso I - Eliminação do nervosismo entre o casal

Certa vez, um casal veio me procurar; ele tinha uns


quarenta anos e ela, um pouco mais de trinta; traziam dois filhos.

A mãe da esposa era membro da Igreja e ambas recebiam


Johrei diariamente. Os filhos tinham dez e sete anos,
respectivamente, mas o menor estava tendo problemas devido a
doenças infantis. Tinha febre alta continuamente e, mesmo
recebendo Johrei, não melhorava. Vieram, então, confiantes em
meu tratamento. O casal relatou minuciosamente os fatos.

Temeroso porque não obteve nenhuma modificação dos


sintomas ao longo do tempo em que recebeu Johrei, o esposo
ordenara à mulher que levasse o filho a um médico da cidade.
Mas como ela já havia ouvido de sua mãe sobre os prejuízos à
saúde causados pelas toxinas dos remédios, não conseguia
obedecer ao marido. Então, decidiram consultar a minha opinião,
para depois estabelecerem uma diretriz.

O casal continuava com a polêmica calorosamente, sem


se incomodar com a minha presença.

Desejando que acabassem com aquela discussão sem


fim, intervi, dizendo:

- Se o marido tem tanta confiança no médico, que tal levar


o filho, para, pelo menos, saber o que ele tem?

O marido lançou um olhar de reprimenda à mulher, como


querendo dizer que sempre estivera com a razão e calou-se.
Com certeza, percebeu que não havia nenhum motivo para vir
me consultar.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Voltando-me à esposa, disse:

- A senhora também deveria ser um pouco mais obediente


e dar mais ouvidos ao que seu esposo diz. Em vez de discutirem,
não seria mais importante que pensassem juntos, unissem o
sentimento de querer salvar o filho, procurando saber qual o
melhor para ele?

Ambos permaneciam calados, com os olhos abaixados.

- Realmente, é preciso pensar sobre o mal dos remédios.


Igualmente importante é confiar na força do Johrei. Porém, será
que ele surtirá efeito caso seu marido continue tendo a
insegurança que agora sente? Se for examinado pelo médico e
se for conhecido o diagnóstico, haverá meios de combater a
doença mais eficazmente, não é? Assim, o seu esposo até se
convenceria e concordaria em receber Johrei. Ouvindo ambas as
partes, parece que estão um contra o outro só pelo prazer de
contrariar - fui falando e, colocando exemplos de outros doentes,
a briga se acalmou.

Nesse dia, os dois não levantaram a voz e o marido, ao se


despedir, disse-me:

- Por favor, deixo em suas mãos o tratamento desta


criança - e foi-se primeiro.

Durante curto período, a esposa e o filho continuaram a


freqüentar e a receber o tratamento. A doença tomou rumo à
recuperação, e, em pouco tempo, o menino recobrou a saúde.
Fora salvo.

Assim, o casal veio expressar o seu agradecimento.


Porém, notei que até em assuntos triviais suas opiniões não só
se desencontravam, como também as conversas tomavam o
rumo das discussões como eu já vira anteriormente. Era até um

78
Cem História da Minha Fé Vol. 2

tanto estranho para um casal. Fui obrigado a pensar por que


sempre havia divergência nos seus pontos de vista. E lancei a
seguinte pergunta:

- E depois desses dois filhos, não vão ter mais nenhum?

Ao que a esposa me respondeu:

-- Não, estamos evitando. Se nascer mais um, além de


não termos bens, o meu marido está sempre fracassando no
serviço e até eu tenho que fazer uns "bicos" para podermos nos
sustentar.

Apesar de ele estar ao seu lado, as palavras da mulher


denotavam certa crítica à falta de capacidade do esposo. Ele
também não esboçava nenhuma reação respondendo,
simplesmente, desanimado:

- É, como o mundo é imprevisível, com as minhas forças,


não posso fazer nada.

Continuei com as perguntas que tocariam o âmago da


questão.

- Vocês disseram que estão evitando filhos, mas como


estão fazendo? - indaguei. Não deram sinal de responder com
facilidade. Propositalmente, ia lançando os nomes dos métodos,
e perguntando se eu estava certo ou não.

As respostas foram negativas até que chegamos à


conclusão: praticavam o coito interrompido. A minha suspeita era
de que a estranha discussão gerada por nenhum motivo
aparente fosse proveniente da insatisfação na vida sexual. E foi
exatamente isso. Era natural que, com a repetição do uso desse
anticoncepcional, ambos se tornassem nervosos e sensíveis.

79
Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Parem com isso ainda hoje. Creio que estão adotando


este método por não gostarem dos outros, mas como podem
achar que ações tão antinaturais sejam perdoáveis? Que nasçam
os filhos se são para nascer. Está fora de questão ter ou não
bens materiais.

- Se vocês insistem nesta maneira de viver conjugalmente,


e deixam à solta este nervosismo, tenho que considerar que não
têm nenhuma afinidade comigo e pedir-lhes que não me visitem
mais - disse-lhes, tal o extremo a que tive de chegar. Parecia
cruel lançar palavras severas, intrometendo-me na vida conjugal
alheia, mas se por outro lado pensar mais seriamente, saber que
existe este tipo de vida e permanecer passivo é que seria mais
desumano. De qualquer modo, este casal precisava conseguir
sua felicidade também no aspecto sexual.

Pelo que ouço, somente vinte e cinco por cento dos casais
obtêm satisfação conjugal. Não há necessidade de dizer o
quanto o nervosismo que armazenamos no fundo dos nossos
corações torna a sociedade infeliz. Portanto, harmonizar o lar
significa, do ponto de vista da elevação da fé, uma ação
indispensável.

Após um mês, o casal veio novamente me visitar.

Disseram que conciliaram a vida a dois. Juntamente com


esse relato, comunicaram sua decisão de se tornarem membros
da Igreja. O lar se tornou harmonioso e, além do serviço do
marido se estabilizar, o filho que tanto temiam que nascesse
acabou não vindo ao mundo. Omitirei os nomes, mas eles ainda
continuam a vida fervorosa na Fé.

Caso II - Recuperação da potência sexual através do Johrei

Era um dia em que a brisa de início de verão penetrava


nos aposentos suavemente. Tenho na memória que foi em 1945.

80
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Estava com algumas visitas, quando chegou uma senhora


de ares intelectuais. Calculando o momento em que eu tivesse
uma folga no tratamento com o Johrei, aproximou-se e disse-me
m voz baixa:

- Gostaria de falar a sós com o senhor.

Parecia ser um grande segredo, que o ar misterioso de


seu semblante acentuava ainda mais.

Não era para mim uma pessoa totalmente estranha, mas


também não éramos de relacionamento tal que precisássemos
trocar confidências, e por isso, a sua conduta me intrigou
bastante.

- Não sei do que se trata, mas creio que não há


necessidade de ouvi-Ia em segredo.

- Como são coisas minhas, nada tenho contra, mas não


gostaria de conversar em voz alta. Vou me sentir encabulada se
os outros me escutarem - disse e abaixou os olhos.

Tomamos lugar a um canto da sala contígua e dali


poderíamos ser vistos, mas não nos preocuparíamos em ser
ouvidos.
- Desde moça, sempre fui professora de escola de primeiro
grau. Acabei deixando passar a época de casar e, até os
quarenta, há cinco anos atrás, permaneci solteira. E, nessa
idade, por certas afinidades, tornei-me segunda esposa de um
homem que já tinha quatro filhos e que era cinco anos mais velho
que eu - o assunto teve início com a explicação de como se
casou.

- O casamento de uma mulher de quarenta anos que


passara tanto tempo solteira, com um homem que tinha doença
do fígado e que, aos quarenta e cinco anos, estava esgotado

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

pela criação dos quatro filhos, era uma união sem nenhum indício
de vida sexual.

- Como ele já tinha quatro filhos, achei natural não haver


sexo. Por isso, da minha parte, obviamente, nunca comentei
sobre o assunto e passamos assim cinco anos. Mas nem por isso
houve quebra de harmonia no lar.

E agora que ela podia dialogar com os enteados como


mãe, devido à debilidade física de um deles, os dois
converteram-se ao Caminho.

- Também queria que meu marido compreendesse sobre a


Fé. Desejando que ele, sempre cansadiço, recuperasse um
pouco a saúde, ministrei-lhe Johrei junto com o enteado. Assim,
dentro de um mês, meu esposo recuperou, a olhos vistos, sua
saúde. Disse-me que saíra-lhe aquela canseira dos quadris e
estava aliviado. E aí, nossa... - nesse instante cortou as palavras.

Houve uma pausa e, como espantando sua timidez,


confirmou:

- Nunca pensei que fosse acontecer, mas, certa noite, meu


marido me procurou e me abraçou. Nessa idade, pela primeira
vez, senti tamanha alegria. Descobri que entre casais devem
existir atividades sexuais. Sinto que até minha vida do dia-a-dia
ganhou outro sentido. Devo tudo isso ao Johrei. Nosso convívio
conjugal se harmonizou, e sinto que rejuvenesci uns dez anos e
estou cheia de gratidão e felicidade, mas tenho vergonha de
dizer aos outros. Por isso, pelo menos, gostaria que o senhor
ficasse sabendo, mas não sabia quando poderia lhe relatar.
Sinto-me aliviada por hoje ter tido coragem de contar-lhe...

Ouvindo de sua boca, senti que isso era compreensível.


Sua alegria era tanta que não conseguia disfarçar. Fiquei
igualmente contente de saber de tudo e acrescentei:

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Se a senhora tem tanta gratidão, é importante tentar


mostrar o Caminho da Salvação àqueles que, ao alcance de suas
vistas, estejam sofrendo por outros diversos motivos. Isso
significa expressar, materialmente, o seu sentimento de gratidão.

Depois disso, essa senhora ofereceu Johrei aos outros e


conseguiu encaminhar cerca de trinta pessoas. Porém,
infelizmente, não vi mais sua figura após a nova partida que a
Igreja dera como entidade religiosa. Ela não deve ter entendido
que o Johrei, que até aquela data se realizava nos lares, se
ligava diretamente à vida de fé.

Caso III - Uma hora para os dois

Diferentemente do episódio anterior, este é um caso


ocorrido com pessoas que ainda hoje professam a Fé
Messiânica. Foi mais ou menos em 1952.

- Estou em dificuldades, Reverendo. Jovens que eu, como


madrinha, fiz casar, já estão falando em separação, quando
ainda nem se passaram três meses após o casamento - disse-
me a Sra. O. que, apesar de ser mulher, dedicava como
responsável de uma filial da Igreja. Ouvindo o caso, soube que
esse casal era filhos de membros que eu conhecia. Sendo as
duas famílias já introduzidas no Caminho, não havia como indicar
o desquite como a melhor solução. Não era para menos a
enrascada da responsável da filial.

O marido tinha 26 anos e a esposa, 24. Após o


casamento, a esposa regressou à casa dos pais em dada
oportunidade, e insistia em não voltar para o marido. Perguntado
o motivo, ela simplesmente se calava e o caso ficava sem
solução. Dizia somente que não gostava da situação. Qual
situação? Estranho, porque não foi maltratada e nem houve briga
entre o casal. A própria Sra. O. conversou pessoalmente com

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

ela, mas a resposta foi a mesma.


A família do marido era de pescadores no cabo Tita e o
sogro era considerado um excelente pescador. O esposo, ao se
formar no ginásio, começou imediatamente a ajudar no serviço
do pai. Este era tido por todos como um homem "duro" devido à
sua honestidade e gosto pelo trabalho. Seu filho também, além
de ser trabalhador extremado, não possuía nenhuma amizade
que o estivesse influenciando. Era um jovem que se dedicava
somente ao trabalho. (Tive oportunidade de ver este rapaz
quando era ainda criança, sendo trazido à Igreja pelos pais).

Do outro lado, a esposa, logo após se formar no colegial,


foi para Nagóia trabalhar, e em três anos, ela mesma preparou
seu enxoval de casamento.

A casa da família do marido tinha grande número de


aposentos, e nela moravam a avó, o pai, a mãe doentia, e duas
irmãs desquitadas, num total, incluindo os maridos, de sete
pessoas. Assim, não havia para os dois recém-casados, em
especial para a esposa, um local para descansar e relaxar.

Ouvindo mais detalhadamente, soube que quase sempre


era à noite que os pescadores saíam para o trabalho, voltando no
início do alvorecer. Quando o marido ia dormir, a esposa já devia
estar levantando. Era uma vida matrimonial desencontrada.

- Escute, a senhora, que é responsável de uma filial, não


encontra nenhuma pista, analisando a situação na posição deste
casal? - perguntei à Sra. O. que, sem essa pergunta, já
apresentava um semblante desanimador.

- Pois é, Reverendo. Não consigo encontrar nenhum


indício de causa do problema. Que seja impossível que o casal
tenha outra casa para morar, mas não houve intrigas nem
discussão, não estão doentes, e, além disso, o marido é um
grande trabalhador...

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Se é isso, então devo admitir que todos os familiares,


inclusive a senhora, são muito lentos na desconfiança. Pelo que
eu penso, acho que o marido esteja sem tempo para amar a
esposa. Talvez esteja ciente disso, mas se preocupando com as
pessoas à sua volta, não está podendo tirar um tempo só para os
dois, não conseguindo, dessa maneira, levar uma vida conjugal
satisfatória.

- Não posso acreditar que seja realmente isso...

- Claro que é. Se a esposa está retraída, sem dizer o


motivo, é porque ela tem vergonha.

Aí, elaborei um plano para que os dois pudessem se unir.

Como a filial tinha inúmeros aposentos, o plano era


utilizar-se um deles. Primeiramente, chamava-se a esposa e
deixava-a dedicando, pousando na Igreja. Passada uma semana
ou dez dias, pediria a ela que se fingisse de doente e alguém iria
chamar o marido para vir visitá-la.

Daí para frente é que entrava a parte principal do plano.


Isto é, a esposa ficaria num aposento separado, e quando o
marido chegasse, os dois permaneceriam a sós, fazendo com
que passassem a noite juntos. Não haveria importância que
fosse descoberta a falsa doença. Além disso, deixava-se
preparada uma ou duas revistas para casais. Podia-se até
ordenar-lhes assim:

- Vejam juntos essas revistas. Leiam e aprendam. Caso


contrário, não poderão ir embora.

Deste modo, seria impossível que o marido não


despertasse para a sua ignorância ou irresponsabilidade, e a
esposa também se sentiria livre para realmente revelar o seu
coração.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Mas, Reverendo, não posso nem imaginar em executar


tal plano...

A responsável da filial pensou que fosse alguma


brincadeira. Só faltava cair rolando, de tanto rir. Para ela, que
tinha recebido um marido "yooshi" e não tinha muita experiência,
era algo que nem sequer imaginara. Estava atônita devido ser
muito inusitado. E respondia-me que achava que não seria
necessário tanto para que eles tivessem uma hora a sós.

- De qualquer maneira, tente. Se não conseguir, não terá


perdido nada e se der certo, não vai custar muito, também.

- Bem, então, tentarei - respondeu e voltou para casa com


a feição de quem se incumbira de algo muito inesperado.

Nem mesmo se passaram dez dias, e ela apareceu para


relatar o que ocorreu depois. Só de ver sua fisionomia, pude
entender tudo.

- Reverendo, agradeço muito pela sua preocupação. Segui


à risca o que me orientou e o seu pensamento acertou o alvo. O
marido percebeu como não dera nenhum carinho à esposa. Os
dois se despediram no dia seguinte, prometendo que não
causariam mais nenhum incômodo. Sinto uma sensação
estranha de júbilo, de vontade de rir, algo que não consigo
definir...

Tanto eu como ela não pudemos conter risos de alegria.

- De qualquer maneira, ainda hoje existem jovens


esquisitos. Este deve ser um bom exemplo de que não se deve
exagerar em ser correto - disse-lhe.

Devo acrescentar que esse casal constituiu um lar


harmonioso e teve quatro lindos filhos.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

A AMPUTAÇÃO DA PERNA

Era início de primavera de 1944, creio que fevereiro. Uma


senhora, que aparentava ter seus trinta e cinco anos, veio à
igreja, acompanhada por uma velha de uns sessenta anos. A sua
figura, à entrada do "consultório", amparada pela muletas era,
sem dúvida, de causar pena, e um grande sofrimento estampava-
se em sua fisionomia.

- Ouvi dizer que aqui se faz cura de doenças difíceis... O


neto desta velhinha também recebeu nova vida, e pedi-lhe que
me trouxesse - começou a explicar a senhora, com olhos
suplicantes, o motivo de sua vinda. Disse que necessitava
amputar a perna direita, na altura da base da coxa, segundo
diagnóstico médico.

Dei-lhe a mão para que pudesse subir à sala, e verifiquei


melhor o seu estado. Sua perna possuía a grossura da cintura -
desde a base da coxa até o tornozelo, e do tornozelo até a ponta
dos dedos, estava tudo enegrecido, num tom violeta escuro. A
situação era de que estava encharcada de remédios, tendo já
ultrapassado os limites.

- O médico com quem eu me tratava disse-me que não há


outro meio a não ser a amputação. Será verdade? Não há
maneira de não cortar? Em lágrimas, contou-me o que se
passava.

- A velhinha disse-me que eu ficaria boa com o seu incrível


tratamento - disse-me e olhou em sua direção, como esperando
alguma palavra de apoio.

Essa velhinha, ouvindo comentários de terceiros, de fato


tinha trazido seu neto de dois anos, na esperança de curá-lo de
uma doença aguda. Sua mãe também o acompanhava. Naquela
época, mesmo em casos urgentes, era difícil receber

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

rapidamente a visita do médico. E, portanto, a realidade era que


queriam receber algum tratamento de qualquer maneira.

A pobre criança tinha sido atacada de otite aguda e o


inchaço ia desde as orelhas até as bochechas, parecendo o seu
rosto ter o dobro do tamanho. Além disso, apresentava uma febre
altíssima e o mercúrio do termômetro havia subido até o ponto
máximo e, portanto, não se sabia exatamente quantos graus,
acima de quarenta e cinco, estava a temperatura.

Caso houvesse ministrado Johrei e deixado a criança ir


embora, sem dúvida, a família iria recorrer aos cuidados médicos
e isso representava perigo de vida. Pedi à velhinha para chamar
os pais do menino pelo telefone. Expliquei-lhes:

- Gostaria que prestassem muita atenção. Esta criança


está com febre devido a uma otite aguda. Se levá-la ao médico
agora, qual tratamento acham que receberá? Será operada para
diminuir o inchaço. Será esfriada constantemente com gelo para
baixar a febre. Será que com isso a vida desta criança será
salva? Pelo que sinto, ela utilizará toda a sua vitalidade na
reação a este tratamento, e acabará morrendo. Com a febre, ela
está tentando expelir o pus formado pela otite: é muito importante
deixá-lo sair naturalmente. Caso isso ocorra, a febre também
abaixará e ela se salvará. E para eliminar o pus é que meu
tratamento tem grande valia.

Desejava salvar aquela criança que viera a mim através de


alguma afinidade. Creio que este também era o desejo dos pais.
Fiz com que o menino e os pais pousassem num aposento da
igreja. Ao término de três dias o garoto já estava normal.

Aquela velhinha deve ter transmitido essa experiência


àquela senhora, e deduzi que a explicação seria muito mais
convincente se tomasse esse caso como tema do assunto.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Enquanto confiar no médico, seu destino será a


intervenção cirúrgica. Portanto, se deseja tratar-se comigo quero
que pare de tomar remédios durante um certo período e venha
todos os dias à Igreja. Como não há indícios de ficar ainda pior,
venha despreocupada e, caso durante o tratamento, achá-lo
inadequado ou não quiser mais vir, poderá se submeter ao
médico e à operação.

- Talvez seja um pouco frio e cruel, mas, se não for assim,


o resultado final é que receberá o meu tratamento e,
simultaneamente, ficará sob cuidados médicos, e isso poderá
influenciar negativamente o precioso Johrei. O tratamento médico
poderá paralisar o quadro da doença, mas nunca purificar o
sangue. O Johrei sim, depura o sangue e, em decorrência disso,
a doença e seus sintomas desaparecem.

A mulher veio durante vários dias, num grande esforço,


apoiada nas muletas.

E assim, ao fim de um mês, já não apresentava inchaço e


deixou de usar as muletas, ficando quase completamente curada.
Era impossível acreditar que anteriormente fora indicada para
submeter-se a uma amputação e a pele, com aquela cor escura e
nauseante, voltou ao normal.

Agora era só continuar com um pouco de Johrei para


então ficar completamente curada.

No entanto, nessa altura, a mulher deixou completamente


de vir. E eu não tinha meios de me comunicar com ela.

Não desejava que viesse especialmente me agradecer,


muito pelo contrário: estava contente por ter podido aprender
algo mais sobre o tratamento, mas senti uma grande pena que
ela se fosse sem mesmo dar explicação. Pela sua aparência, não
era de maneira alguma pobre e, além disso, denotava muito

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

estudo e, portanto, aquilo me chocou pela falta de


responsabilidade humana.

Como tinha anotado o seu nome e endereço, pedi para


verificarem, e descobriu-se que tanto o nome quanto o endereço
eram falsos. Portanto, na realidade, fiquei sem saber onde
morava e a qual família ela pertencia. Senti, novamente, a frieza
e leviandade dos moradores das grandes cidades.

Quando se passou meio ano, a velhinha que citei no início


do capítulo apareceu repentinamente.

- Como está aquela senhora? - perguntei-lhe.

O resultado é que fiquei inteirado de um fato


interessantíssimo. A mulher era esposa do diretor de um instituto
de ginecologia bastante conhecido e estava passando bem.

Creio que ela não aparecera depois porque sua família era
ligada a um hospital, e fora curada por um desconhecido como
eu de uma doença que não tinha outro meio senão a amputação.

Mesmo seu marido não poderia ignorar durante tanto


tempo que sua mulher se recuperara de uma doença difícil. Não
pude entender nem como analisar o estado de espírito dessas
pessoas. Sem terem um pingo de humanismo, metem-se num
uniforme e prevalecem-se do seu cargo e são bem aceitos pela
sociedade... Fiquei sabendo qual era o hospital, mas não tive
nenhuma vontade de entrar em contato.

Senti ainda mais como era difícil levar ao conhecimento


dos outros a força invisível de Deus.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

AÇÃO DO ESPÍRITO DE TEXUGO

Passei minha infância num vilarejo de Guifu que, naquela


época, ainda não era desenvolvido e nas colinas, atrás de minha
casa, os texugos costumavam aparecer. Minha avó contou-me
inúmeras estórias envolvendo esse animais.

Embora não engane as pessoas como a raposa, o texugo


é um perfeito imitador e o mais surpreendente é que essa
imitação é tão perfeita que chega a assustar.

Exemplificando, numa noite silenciosa, minha avó dizia:

- Ouça, o texugo está fiando.

Realmente, apurando o ouvido, escutava-se o som da


fiandeira, que transforma o algodão em linha, vindo da direção da
mata, onde, com certeza, não havia ninguém. Minha avó dizia
que só o texugo poderia imitar tão bem aquele som. Outras
vezes, ela dizia:

- Hoje, o texugo está cortando bambu.

Escutava-se o som do corte e da queda do bambu com


todos os pormenores sonoros: desde o corte do tronco até o
farfalhar dos galhos esbarrando em outros bambus, durante a
derrubada.

Como é de costume nas residências de agricultores, em


nossa casa também, o banheiro era construído na parte externa
da residência. Quando ouvia esses barulhos à noite, eu sentia
tanto medo que tive de pedir várias vezes à minha avó que me
acompanhasse até lá.

Quando iniciei a difusão na região sul, depois da Segunda


Guerra Mundial, deparei-me com várias situações indecifráveis

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

que me pareceram obras do espírito de texugo.

Originariamente, a região de Shikoku, ao sul do Japão, é


um local que tem muitos texugos. E, junto com as lendas sobre
Inugami, divindade representada pelo cachorro, circulam muitas
estórias sobre texugo. Porém, pela minha experiência, não houve
nenhuma evidência de eu ter sido atrapalhado nas obras da
difusão. No entanto, é verdade que, em comparação com outras
regiões, havia muitas pessoas esquisitas que trabalhavam para a
Obra Divina como que possuídas por espíritos e que, de uma
hora para outra, abandonavam tudo; outras, parecendo
compreensivas e inteligentes, começavam, repentinamente, a
dizer coisas sem nexo.

Portanto, nas lides da divulgação da Fé Messiânica, eu


corria sempre o risco de cair no desagrado das pessoas e de a
Obra Divina sofrer algum revés.

Mesmo assim, é desnecessário dizer, foi grande o número


de pessoas que ingressaram na Igreja naquela época e vêm até
hoje dedicando admirável e fervorosamente. De qualquer modo,
existem alguns episódios em que pude sentir a atuação do
espírito de texugo.

Caso I - Falando com voz de artista

Ocorreu em Komatsushima, cidade próxima de


Tokushima, importante cidade do sul do Japão.

Em certa ocasião, tive oportunidade de dialogar com um


rapaz de feições muito pálidas, de aproximadamente 28 anos.
Era de boa aparência, professor ginasial, e entrou para o
Caminho devido a uma moléstia estomacal.

Segundo ele, era de família bem abastada e sua avó


falecera sofrendo muito, porque fora alvo da ira do espírito do

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

cachorro e morreu prometendo vingar-se dele.

Ouvindo essa passagem, contada com seriedade por


aquele jovem, tive uma impressão muito estranha. Isto porque
senti algo muito esquisito em seu olhar.

Alguns meses depois, passei novamente em


Komatsushima. Terminado o jantar no alojamento, eu e meu
companheiro, chamado Nagao, e outras pessoas estávamos
descansando, quando toda a porta corrediça que dava para outro
aposento se abriu, e de lá mostrou-se aquele jovem. Todos os
olhares foram em direção do rapaz que, num trejeito de quem
representa o papel de mulher no teatro cabúqui, disse com a voz
própria desse personagem:

- Reverendo Watanabe, quanto tempo não nos vemos...


Todos nós o aguardávamos. Estamos morrendo de saudades...

Levar um susto maior era impossível.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntei-lhe.

E, desta vez, mudando o tom de voz para o de um


samurai, o rapaz me disse, muito formalmente:

- Ora, como pode perguntar se algo está ocorrendo? Não


seja atrevido... - e fez uma pose muito imponente.

Pensando que estivesse com a razão avariada, ministrei-


lhe Johrei, à distância. Vendo-me com a mão erguida, lançou-me
um olhar sério e ele também começou a ministrar Johrei em
minha direção.

Essa situação persistiu por um pequeno intervalo de


tempo. Novamente com a voz feminina, recitou alguma poesia
que não pudemos entender e, num choro teatral, prostrou -se ao

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

chão.

As pessoas que a tudo assistiam, boquiabertas, deram por


si e levaram o jovem.

Um dos membros contou-me sobre aquele rapaz:

- Na verdade, ele sempre teve atitudes estranhas desde o


tempo em que morava com sua avó. Atualmente, durante o dia,
ele leciona normalmente, mas à noite, por causa do sofrimento
que a insônia lhe provoca, toma muitos calmantes. Estes lhe dão
dores de estômago e, então, toma outros remédios para aliviar o
mal-estar. É um verdadeiro círculo vicioso. Devido ao excesso de
remédios, está neurótico.

Disse-me também, que quando ele quer receber Johrei,


fala com voz deprimente, mas nunca ocorreu nada parecido com
a cena daquela noite.

Concluí que a atitude daquele rapaz era devido à atuação


do espírito de texugo, havendo ainda um envolvimento de algum
sentimento distorcido daquele animal. Esse sentimento impedia-o
de receber Johrei mais constantemente.

Após isso, não tive mais contato com o rapaz e, além


disso, descobri que o seu ingresso na Igreja não passara de
simples formalidade.

Caso II - Passando pela porta da biblioteca

Este fato ocorreu também na cidade de Komatsushima. No


início da difusão na região Sul, houve ocasiões em que era difícil
encontrar um local para realizar as atividades de Johrei ou as
aulas de aprimoramento.

Sakakibara, um jovem que fora salvo de uma grave

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

tuberculose e mais tarde se tornou meu genro, nessa época, se


empenhava também na difusão da Fé Messiânica na região Sul,
e, por seu intermédio, conseguimos, para local de aula, uma
grande casa onde antes funcionava um restaurante.

Na véspera, tive que dormir nessa casa cuja proprietária,


uma viúva de cerca de 50 anos, lembrava muito bem a vitalidade
com que dirigiu o restaurante, dada a sua transbordante energia.
Após os cumprimentos, Sakakibara e os outros se lançaram aos
preparativos do dia seguinte, mas eu estava livre. Desse modo,
fui cedo para a cama.

O quarto que me foi designado tinha a área de dez


tatamis, um "toko-no-rna" e, à sua direita, uma pequena
biblioteca. Parecia que aquele era o melhor aposento daquela
casa para hóspedes. Deitei-me por volta das 23 horas, mas uma
tênue claridade ainda iluminava a porta feita de madeira e papel-
arroz, que fechava o corredor que ligava a biblioteca à sala de
banho. Logo adormeci.

Uma estranha pressão no peito estava me afligindo. Não


estava tendo pesadelo, como quando se dorme com a mão sobre
o tórax. Instintivamente, para livrar-me do peso, virei-me para o
lado, mas foi inútil. Aquela sensação continuava.

- Quem é? - quis gritar, porém não me saía a voz. Só


consegui me debater. Nisso, fez-se um barulho de objetos e eu
despertei por completo.

Vi, então, que a porta corrediça da biblioteca, que deixei


fechada, estava aberta cerca de três centímetros e ao mesmo
tempo percebi uma sombra do tamanho de uma pessoa de
cócoras mover-se em direção à sala de banho. Era, sem dúvida,
o vulto e o movimento de um animal, fazendo lembrar muito um
texugo grande. O peso que eu sentia também desapareceu.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Imediatamente, levantei-me, troquei de roupa e fui para o


quarto contíguo, onde Sakakibara continuava os preparativos
para o dia seguinte.

- O senhor não tinha ido descansar? Que houve?

- Há pouco aconteceu uma coisa muito esquisita. Sinto


que se as coisas continuarem como estão, teremos alguma
interferência na aula de amanhã. De qualquer forma, vá chamar
a dona da casa porque quero ministrar-lhe Johrei e ouvir algumas
coisas a seu respeito... - pedi, e acendi um cigarro.

A nossa anfitriã devia estar ainda acordada, pois veio logo


em seguida.

- Deseja alguma coisa? - perguntou-me. Ela estava


estranhando aquilo tudo, mas, em vez de contar-lhe o ocorrido,
disse:

- Esta noite estamos tendo a sua permissão de repousar


aqui para realizar a aula de aprimoramento amanhã, e por isso,
gostaria que a senhora também compreendesse um pouco mais
sobre a importância do Johrei. Gostaria que recebesse o Johrei
que vou ministrar-lhe e também quero saber mais sobre a
senhora.

Ela aceitou meu pedido, sem demonstrar desgosto.

Respondendo conforme ia lhe perguntando, contou-me


que ela e o marido, antes da Segunda Guerra, administravam um
negócio, de uma maneira pomposa, chamando a atenção de
todos. Com a ida do esposo para a frente de combate, a mulher,
durante a sua ausência, conduziu a casa com mão firme. Assim
que a guerra terminou, o marido voltou, mas adoeceu e morreu
em meio a muito sofrimento. A mulher, então, teve que encerrar
as atividades do restaurante.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Pela sua conversa, intuí que havia nesta casa uma mácula
incomum, a qual, ainda agora, não posso revelar. Mesmo porque
senti um clima muito fechado ao dar o primeiro passo para dentro
dessa residência, além do que, era muito evidente a pouca
hospitalidade que estávamos recebendo.

Tentei mostrar à nossa anfitriã, mesclando minhas


experiências, como as pessoas vão sendo salvas através do
Johrei. E, novamente agradeci-lhe por ter cedido a sua casa
como local para nosso repouso e realização da aula de
aprimoramento.

- Puxa, fico muito grata por ter-me especialmente


ministrado este tão precioso Johrei - disse a proprietária e se
retirou.

Voltei ao meu quarto, troquei de roupa e fechei a porta


corrediça, que permanecera aberta. Por ela deve ter saído
alguma coisa que não consigo precisar. Deve ter sido o espírito
de texugo que estava ligado àquela casa, pensei.

Pude, então, pegar no sono com facilidade e realizar, sem


nenhum incidente grave, a aula de aprimoramento, no dia
seguinte.

Caso III - A "teatral" entronização da Imagem da Luz Divina

Este fato ocorreu quando me dirigi a Kitajô, no Estado de


Aichi, por volta de 1950, para realizar uma entronização da
Imagem da Luz Divina. Um membro, muito dedicado na difusão,
desejava fazer da sua residência local de atividade da Igreja e,
por isso, determinara-se a entronização da Imagem. Essa pessoa
era uma senhora de cerca de sessenta anos, e já havíamos nos
encontrado várias vezes, tendo-a já visitado em sua casa.

Levando um auxiliar, dirigi-me ao local, sendo guiado por

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uma outra pessoa. Perto da casa onde éramos aguardados, o


nosso cicerone saiu correndo para anunciar a nossa presença.

Ao entrar pelo jardim interno da casa principal, notei uma


coisa estranha. Apesar da construção obedecer aos feitios
normais de uma casa de agricultor, havia duas entradas. Uma,
comum, de chão batido, e outra, no estilo de uma casa de
samurai. E nos dois lados desta última, umas 50 pessoas se
posicionavam, como nos tempos antigos, quando passava algum
personagem ilustre: punham-se sentadas no chão e abaixavam a
cabeça até encostá-la no solo.

Pude deduzir, claramente, que tudo aquilo era para


receber-nos bem, mas aquilo era demais. Fiquei tão atônito, que
não consegui dar mais um passo.

A dona da casa, que se encontrava na entrada sobre um


estrado de madeira, estava também com o rosto abaixado. Sem
perda de tempo, levantou-se ao perceber nossa chegada e
bradou, em tom de voz de samurai:

- Sêde bem vindo, ó valoroso Meishu-Sama, que


percorrestes longínquos caminhos e nos concedestes a grande
honra de vossa gloriosa presença. Todos nós vos aguardamos
ansiosamente.

Por essa eu não esperava. Referir-se a mim como Meishu-


Sama deixou-me muito constrangido.

- Ouça-me. Todo esse aparato deve ter sido preparado


para me recepcionar, mas eu não passo de um simples ministro
da Igreja. Parem com isso, por favor - pedi-lhe.

Ela continuou no mesmo tom:

- Não há o que vos importar. É uma grande honra para

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nós. Adentrai, adentrai!

Pasmo, fiquei estático. Todas as pessoas também


permaneciam com a cabeça abaixada. E a mulher não me dava
ouvidos. Caso eu continuasse imóvel, a situação não melhorava
nem piorava. Sem alternativa, entrei, conduzido pela mulher.

Na sala, estava o altar onde ficaria a Imagem, e uma mesa


com cadeiras. Sentei-me e a dona da casa aproximou-se,
bradando aos serviçais:

- Estão com a cabeça muito erguida, abaixem-se,


abaixem-se!

Toda vez que eu dizia algo ou me movimentava, a velha


falava daquela maneira exótica. Fiquei muito intrigado, mas não
podia, naquela hora, levantar a mão em sua direção para
ministrar-lhe Johrei. Portanto, firmei meu pensamento numa
prece, como se estivesse canalizando a Luz de Deus.

A voz e a entonação da dona da casa foram


gradativamente voltando ao normal. Senti que os membros
também se sentiram aliviados. Daí para frente, tudo correu
normalmente e a cerimônia de entronização correu em paz.

Porém, à noite, tive outro susto. O jantar que era para


comemorar a entronização da Imagem foi realizado em grande
estilo, como numa festa de casamento. Sendo uma época de
falta de material e alimento, devido à guerra, foi-me possível
imaginar o enorme gasto feito.

Bem depois, numa outra oportunidade, comentei com ela


sobre aquela recepção teatral.

- Imagina, Reverendo... - foi a sua resposta, parecendo


que não era nada importante.

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- A senhora não acha esquisito? - perguntei-lhe, sem


intenção de repreendê-la pelo que fez, mas para me certificar se
estava consciente dos seus atos.

- Claro que não acho nada esquisito. E haveria de achar? -


respondeu-me com outra pergunta, demonstrando espanto.

- Eu, pelo menos, senti-me tão desconcertado que fiquei


sem saber o que fazer...

- Puxa, eu não sabia - a mulher encerrou, dessa maneira,


o assunto.

Ela continuou a fazer muitas vezes essas cenas teatrais,


mas achava tudo muito natural.

Sinto que isso era devido a alguma brincadeira do espírito


de texugo. Suas atitudes eram parecidas com as de uma criança,
vivendo a sua fantasia, mas não conseguindo criar clima para
envolver terceiros. A pessoa que é tomada pelo espírito de
texugo age como se estivesse interpretando uma peça teatral,
mas não tem consciência disso. Continua com a mesma
seriedade. E, mesmo que terceiros lhe digam o que aconteceu,
não recebe a crítica com sinceridade. Parece que começa a
encenar inconscientemente.

Felizmente, pelo que eu sei, o espírito de texugo não


chega a causar transtornos de grande monta. Essa senhora
também passou a não ter mais recaídas.

Ela faleceu com setenta e tantos anos, após concluir com


mérito sua missão de difundir os Ensinamentos de Meishu-Sama,
de salvar as pessoas do sofrimento da doença, permitindo surgir
vários milagres através do Johrei e divulgando a Fé Messiânica.
Mudou-se de Kitajô para a cidade de Matsushima, consolidando
nessa cidade as bases da difusão. Seu filho é, atualmente, um

100
Cem História da Minha Fé Vol. 2

dedicado integrante da Obra Divina.

Finalizando, vale acrescentar que naquela região circula a


lenda segundo a qual, há séculos atrás, o famoso monge budista
Kobodaishi, em seu trabalho missionário em Shikoku, aprisionou
todos os maus espíritos da localidade, sentenciando-os,
profeticamente, a permanecerem presos, até que se construísse
o caminho de ferro.

101
Cem História da Minha Fé Vol. 2

ENGUIA PODE CAUSAR MAL?

Este caso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Já


próximo do final do ano de 1944, em meados de novembro,
chegou um homem de seus 55 anos, solicitando tratamento para
o seu caso. Tinha ares de comerciante e era muito gordo. Disse
ter sido recomendado por alguém, e como parecia ser úlcera
estomacal, solicitou-me que o examinasse.

Disse-lhe que tentasse vir com regularidade e ele o fazia


quase todos os dias. Ele mesmo estava contente, dizendo que
sentia alívio e resultados concretos através do Johrei.

Depois de alguns dias, percebi que aquele doente


apresentava um sintoma interessante. Quando minha mão o
tocava na altura do abdômen, ele tremia todo, chegando a pular
da cadeira. Estranhando, levava a mão ao ombro, e ele parava.
Era algo estranho um homem de mais de setenta quilos ficar
tremendo e pulando com o corpo inteiro.

Era um movimento muito similar ao que se vê quando o


peixe, ainda vivo,leva o talho de uma faca. Com essa intuição,
procurei verificar melhor o corpo daquele homem. Toda sua pele
parecia ter uma cor mais azulada do que branca e, em alguns
locais, era até mais suave do que a cútis de uma mulher. Não
pude deixar de me lembrar de um peixe - a enguia - ao ter aquela
sensação tátil.

- Ainda não estou sabendo sobre a sua profissão. Será


que o senhor tem alguma casa de enguia9? - indaguei.

- Isso mesmo. Como soube? - espantou-se.

Minha intuição acertara o alvo em cheio. Disse-me que


possuía um restaurante de enguia chamado Iwaatsu, nas
9
Casa da enguia: restaurante cuja especialidade são pratos à base de enguia.

102
Cem História da Minha Fé Vol. 2

proximidades de Sakae Tyo, no centro da cidade de Nagóia.


Iwaatsu era uma casa famosa, mas como o paciente tinha dado o
seu nome verdadeiro, eu não poderia saber que ele era dono do
referido restaurante.

Através do Johrei, os sintomas de úlcera gástrica desse


senhor desapareceram, e ele ingressou na igreja, perfeitamente
recuperado.

Algum tempo depois, quando a primavera contava alguns


dias, realizamos uma aula de aprimoramento, recebendo o Rev.
Shibui. O dono do Iwaatsu também nos ajudou, esmerando-se na
preparação das refeições. Tudo terminou bem e, como
agradecimento ao dono do restaurante, foram-lhe ofertados uns
300 ml do saquê oferecido a Deus no culto, o qual ele tomou, e
foi embora por volta das 22 horas.

Se fosse apenas isso, não haveria motivo para comentar


especialmente sobre o episódio, mas, na volta para casa, ocorreu
um fato exótico. Depois de alguns dias, um empregado da
Iwaatsu veio dizendo que seu patrão estava gripado e que
solicitava Johrei. Resolvi visitá-Io.

- Na verdade, naquele dia, ao regressar para casa, caí no


lago e me molhei todo. É essa a situação atual - disse-me
sorrindo, meio sem jeito.

- Nessa idade, disse que queria ver como era o lago.


Devia ter desistido, mas acabou caindo nele... - acrescentou um
familiar seu, narrando o acontecimento daquela noite.

Do ano de 1944 para 1945, as grandes metrópoles, como


Tóquio e Nagóia, sofriam constantes ataques de bombardeiros
norte-americanos. As bombas incendiárias lançadas
transformavam vários locais em mar de fogo. E, para combater
esses incêndios, havia, em todos os lugares, tanques com água

103
Cem História da Minha Fé Vol. 2

e depósitos de areia. E, em certas áreas, localizavam-se


enormes reservatórios de água que eram chamados de "lagos".

Atrás da igreja onde eu atendia, a menos de um metro da


rua, também havia um desses reservatórios anti-incêndios com
trinta metros de cada lado, rodeado por uma elevada barreira de
30 centímetros de largura. Durante o dia, essa barreira era o
local preferido de brincadeiras das crianças. Não sendo piscina,
desnecessário dizer que a água era turva, sendo proibido às
crianças brincar sobre a barreira; mas, como não havia nenhuma
cerca, a entrada era totalmente livre.

O dono do restaurante, após tomar o saquê, entorpecido,


apesar de ser noite escura, fora tomado por uma vontade
irresistível de espiar o reservatório, quando passou ao lado dele.
Subiu na barreira e fez como a garotada durante o dia. Começou
a andar sobre ela e, pouco adiante, caiu dentro da água.

Num desesperado esforço, conseguiu sair do lago e,


completamente molhado, tendo perdido um dos pés do sapato,
caminhou por mais de um quilômetro, agüentando o frio, para
chegar em casa.

- Isso ocorreu por que os espíritos das enguias devem ter-


se apossado do senhor. Naquele momento deve ter sentido
saudades da água e mergulhou nela não foi? - falei-lhe em tom
de pilhéria. Todos, inclusive o patrão, riram muito, mas eu sentia
que não poderia ser deixado como uma mera brincadeira.

Mesmo que seja uma simples enguia, ela possui espírito e


este poderia encostar em quem a comercializa. Não pude evitar
este pressentimento ao saber daquele caso.

Apesar do dono do Iwaatsu ter recuperado bem a sua


saúde, afastou-se da Igreja quando ela iniciou uma nova etapa,
saindo da camuflagem de tratamento de massagem e sendo

104
Cem História da Minha Fé Vol. 2

reconhecida como entidade religiosa. Deve ter pensado que, por


ser religião, precisaria de muito dinheiro para permanecer como
membro. E faleceu um ou dois anos após seu afastamento.
Freqüentar fervorosamente, desejando tão somente a temporária
cura de seu corpo físico, é devido a algo bem distante da fé.

Na época em que eu possuía comércio de frutas e


verduras em Tóquio, ouvi dizer que certo restaurante, em
determinadas datas, soltava filhotes de enguia ao mar em sinal
de sufrágio aos espíritos das enguias comercializadas durante o
ano. Esse restaurante prosperava por inúmeras gerações.

Quem tem o sentimento de sufragar os espíritos dos


animais que abate em função de seu negócio, tem por certo o
progresso do seu estabelecimento. Infalivelmente, ocorrem
incidentes de causas estranhas aos comerciantes de espeto de
frango, famoso em Nagóia, que tratam as aves como meras
mercadorias. Envolvidos pela ganância, são perseguidos por
espíritos de baixo nível, sendo por eles castigados.

"É melhor não comer enguias que possuem orelhas,


porque elas são reencarnações de espíritos humanos" - foi o que
certa vez nos disse o Mestre.

"É sublime poupar a vida dos animais, mas o homem não


poderá passar a vida sem comê-los. Portanto, mais sublime é
vivificar esse homem como verdadeiro ser humano" - também foi
Ensinamento do nosso Mestre. O homem que come enguia, por
exemplo, faz dela seu alimento. Mas, se utilizá-la como mera
mercadoria, ela não estará sendo vivificada plenamente como tal.
Quando o homem conseguir lhe dar o real valor, aí sim, ela
alcança sua verdadeira paz. E, dessa forma, o espírito do ser
humano também recebe a devida purificação. Conseguir
apreender essas verdades dentro da vida cotidiana é uma
recompensa do aprofundamento da fé.

105
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Não é tarefa fácil levar isso aos outros, transmitindo os


Ensinamentos do Mestre.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

A ORAÇÃO SE COMUNICA NO SONHO

Este fato ocorreu quando eu circulava, fazendo difusão


pelos Estados de Mie e Shiga

Chegando à tarde na igreja, ainda antes do jantar, realizei


uma aula de aprimoramento com os membros que haviam se
reunido. Mas, pouco depois do início, fui acometido de intensa
dor de cabeça e de barriga. Não existem palavras para descrever
o que senti.

Como tinha vindo especialmente para ser o instrutor


dessas aulas, meu desejo de disfarçar o mal-estar perante os
presentes era forte, mas o sofrimento ultrapassava o limite do
suportável.

Pedi licença para poder descansar em outro aposento.


Sozinho, rolava e urrava de dores, e não pude deixar de chamar
pelo Mestre.

- Meishu-Sama! - chamei, já meio exausto. Nisso já estava


dormitando.

Aí, vi a figura do Mestre, que surgia do outro lado do


quarto. Aproximou-se de mim e, com um semblante cheio de
compaixão, tocou em minha cabeça.

- Puxa, está purificando muito aqui - disse-me, e continuou


apalpando.

Uma área de sete centímetros do topo da cabeça estava


tão mole que parecia gelatina e eu sentia isso pelo toque da mão
do Mestre.

- É, está mal nesta região... - a voz agora parecia se


distanciar.

107
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Nisso, toda a visão se diluiu. A minha dor já havia se


tornado mínima. Despertei.

A barriga começou a ficar inchada, e fui depressa ao


banheiro. Foi uma diarréia assustadora. Quando saí da toalete, já
não sentia nem dor de cabeça nem dor de barriga - estava
completamente normal.

- Quando se busca profundamente, até no sonho se


consegue receber a Luz de Deus - foi o que pensei, muito
admirado.

Pude ver que não se passara tanto tempo desde que me


retirara da aula. Voltei imediatamente e pude continuar minha
missão.

Após isso, ouvi várias vezes os membros dizerem que


quando estavam sofrendo muito, sonhavam que estavam
recebendo Johrei comigo e só isso era suficiente para se
sentirem aliviados.

Eu próprio tive várias experiências de que a oração se


comunica no sonho e, através delas, senti que orar é a forma de
poder se comunicar com Deus.

Isso não se limita só a mim. É fato que os membros


vivenciam sem número de vezes.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

O PROTESTO À IMPRENSA

Já contei em outro capítulo o episódio da repreensão que


recebi do Mestre na frente de inúmeras pessoas. A causa disso
foi um artigo publicado por um jornal influente, criticando as
religiões novas. Enfocando a morte de um membro, nele
constava que o tratamento através do Johrei era um embuste
total. Essa ocorrência é de maio de 1953.

É desnecessário dizer que enfileiravam-se palavras


críticas, cheias de maldades, escritas por um jornalista sem
nenhuma compreensão acerca da nossa Igreja. Ele não
procurava mostrar o verdadeiro aspecto das coisas, buscando
estampar a Fé Messiânica como criminosa através de opiniões
unilaterais.

Nem era preciso ser repreendido pelo Mestre para estar


sempre atento, mas corria, no fundo, o interesse generalizado de
todos em discriminar as religiões novas e, com isso, sempre
surgia uma brecha para os ataques dos jornalistas.

Sem perda de tempo, o Sr. Assano, irmão do membro


falecido, objeto do artigo, o Sr. Mizutani, responsável por aquela
unidade religiosa e eu fomos protestar contra o jornal. Não havia
razão para nos calarmos, resignados. Por ser veículo de
comunicação e haver propagado uma notícia distorcida,
precisávamos que fosse publicada uma retratação.

Eu me assustei quando cheguei à redação do jornal. Senti


a mesma estranha sensação que tive quando me apresentei à
delegacia de polícia, antes da Segunda Guerra Mundial.

Anunciando na recepção o motivo da nossa visita, fomos


encaminhados à sala do redator-chefe; mas até chegarmos lá,
passamos diante de uma longa fileira de mesas onde os olhares
dos redatores e repórteres pareciam nos perfurar mortalmente.

109
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Quando eu tinha estabelecimento comercial, compareci a


delegacias, fórum, etc., mas, nesses locais, os estranhos eram
tratados como criminosos. O mais desagradável foi que na sala
do promotor todos eram olhados com desprezo pelos
funcionários. Após a guerra, esse clima se desvaneceu, mas o
meu choque foi devido ter sentido essas mesmas sensações,
não na polícia, mas na redação de um jornal.

Não pude deixar de pensar que a violência da imprensa


nascia desse ar pesado. Como está muito difundida entre as
pessoas a confiança plena de que o que aparece num periódico
é verdade inconteste, deve haver muitas pessoas que se viram
prejudicadas e sofreram porque alguma coisa foi publicada
erroneamente. É uma violência que não aparece aos olhos.

Não sei precisar quando começou a se consolidar a


confiança nas palavras dos artigos jornalísticos. Pela minha
memória, posso dizer que nos anos de 1920, as pessoas ainda
desconfiavam de cara de qualquer artigo, dizendo tratar-se de
matéria paga. Além disso, nessa época, os grandes jornais ainda
não predominavam em todo Japão, e os periódicos regionais
espalhavam notícias mais como escândalos. Mas, a partir de
1925, a cultura tipográfica passou a ser incorporada
maciçamente à vida dos cidadãos, e o jornal também começou a
angariar grandemente a confiança do povo.

No final da Segunda Guerra, todos souberam que os


artigos publicados durante o conflito eram forjados e repletos de
inverdades. Assim, começou a dúvida quanto à confiabilidade
dos jornais, mas com o advento da democracia, que preza
qualquer forma de debate social, e como represente mais
significativo dessa democracia, o jornal conseguiu recobrar
novamente seu prestígio. E, também, após isso, com a chegada
da era da comunicação, foi-se tomando consciência de sua
violência, a qual passou a ser criticada.

110
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Não sei se ainda hoje os jornais ou outros veículos de


comunicação são como na ocasião desta minha experiência.
Pelo menos, na época que fui protestar, o jornal era como
descrevi.

Apesar de tudo, o redator-chefe foi muito amável, sem


demonstrar atitudes desrespeitosas.

- Deixe-me saber do assunto que os trouxe até aqui para


poder dar uma resposta - disse, mostrando-se humilde.

Primeiramente, apresentamos o artigo em questão, e


tentamos explicar o quanto o conteúdo estava longe da verdade,
distorcido pela visão unilateral do repórter:

- Mesmo que o argumento de vocês seja este, posso


assegurar que só publicamos os artigos após verificações
completas - o redator-chefe não admitia facilmente os nossos
argumentos.

Apesar do irmão do próprio falecido explicar, o redator-


chefe tecia evasivas, e não reconhecia seu erro.

- Creio que a missão do jornal é transmitir a verdade. Mas


publicar uma notícia forjada e ficar tranqüilo com isso, seria tapar
os olhos perante tal crueldade. Como somos uma religião nova,
creio que os senhores inventaram essa notícia, e esperaram que
nos calássemos diante de pouca coisa errada, não é? Porém, os
membros da Igreja estão irados porque leram o referido artigo
num jornal conceituado como o de vocês. Desejamos que seja
publicada uma retratação para o bem desses membros e dos
envolvidos diretamente neste caso.

Diante do meu pedido, o redator-chefe procurava desviar o


assunto, sem consentir com ele. Era evidente sua intenção em
nos despachar somente com evasivas. Chegou a chamar o

111
Cem História da Minha Fé Vol. 2

jornalista responsável, o que foi somente para manter as


aparências.

Caso continuássemos a conversação dessa maneira, não


haveria um ponto final. E era claro que eles recobrariam as
forças. Então, dei a última cartada.

- A nossa Igreja possui na região Centro, no mínimo, 100


mil membros, e é certo que eles lêem o seu jornal, que é
bastante representativo naquela época. Mas se não puder
publicar uma retratação, poderemos promover um boicote. E
também podemos mobilizar umas dez mil pessoas para
realizarem um protesto contra o referido artigo - argumentei.

A atitude do redator-chefe se transformou radicalmente


ante essa simples ameaça. Num tom suplicante, pediu-me para
não fazer nem uma coisa nem outra.

- Compreendi perfeitamente. Vamos publicar a retratação.


E da nossa parte, faremos uma nova verificação dos fatos...

Sua repentina transformação foi até cômica. E, no dia


seguinte, estava publicada, num canto, quase imperceptível, uma
pequena nota. O título desta não tinha nem um trigésimo do
tamanho, comparado com o daquele artigo causticante. E o
próprio conteúdo se resumia mais ou menos em desculpas do
jornal "por ter publicado algo sem averiguação minuciosa".

De qualquer maneira, o nosso pedido fora aceito e, desse


modo, não havia mais como protestar.

Após este acontecimento, minha desconfiança nos artigos


jornalísticos, em geral, se intensificou. Principalmente quando o
fato é um só e as opiniões dos jornais são diversas, não posso
deixar de duvidar qual seria a verdadeira posição. Existem
pessoas que sofrem pela impotência de protestar junto à

112
Cem História da Minha Fé Vol. 2

imprensa. Será que poderemos afirmar que ela estaria


encurralando esses infelizes?

É verdade que os crimes ocorrem ininterruptamente. Neste


movimentado mundo, de grave situação política e conturbada
agitação mundial, existem muitas notícias tristes. Do ponto de
vista do consumo, que gosta de escândalos e agitação, deve
haver muita procura.

No entanto, não quer dizer que em meio a tudo isso, não


existam práticas humanas cheias de sentimentos e calor que
conduzam o homem à felicidade. Não há por que não dar
atenção a essas notícias sob alegação de que elas não possuem
cunho sensacionalista. Não seria missão da imprensa veicular,
imparcialmente, notícias boas e ruins, dando-lhes o mesmo
peso?

Desejo ardentemente que surjam espaços que noticiem


permanentemente feitos meritórios e belas estórias.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

A INCOMPREENDIDA IMPORTÂNCIA DO JOHREI

Nas lides missionárias da nossa Igreja e também na


ocasião de se estender a salvação às pessoas que sofrem, a
tarefa mais árdua é aquela para que elas compreendam,
verdadeiramente, a importância do Johrei ,que transmite o poder
de Deus. Existem muitos que, embora recebam graças através
da Luz Divina, não tentam compreender essa importância. Há
ainda pessoas que já estão cientes dela, mas tentam ignorá-la.

Se se limitar apenas a receber para aliviar-se do


sofrimento, não haverá como compreender o real valor do Johrei.
Como existe um provérbio que diz "quando a comida passa pela
garganta, esquecemos o seu calor", tudo acaba sendo coisa de
momento. Entretanto, se, pelo menos no instante em que se está
recebendo Johrei, sentir gratidão por ele, já está bom, mas
mesmo isso passa despercebido para muitas pessoas.

Para se compreender verdadeiramente o valor do Johrei, é


preciso não só receber, mas ministrá-lo aos outros, para
conscientizar-se de que a própria pessoa pode se tornar
intermediador do poder de Deus, através da Luz Divina. Caso
deseje somente a sua própria felicidade, Deus não permitirá. Se
não fizer o bem ao próximo, não haverá retorno.

Os vários anos após iniciar a minha inteira dedicação na


Obra de Difusão foram o período de incompreensão das
pessoas. Citarei alguns casos que tenho mais fortemente
guardados na memória.

Caso I - Melhor as aparências que o Johrei

Aconteceu na cidade de Guifu.

Havia uma família muito fervorosa cujos membros se


tornaram messiânicos numa mesma data. Essa família, porém,

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

tinha um filho de três anos de idade, que possuía muita toxina de


nascença e que estava sendo eliminada através de erupções na
cabeça. As feridas pareciam causar dor, mas a criança, na
verdade, queixava-se da coceira que sentia.

A toxina de nascença, quando irrompe na forma de


eczema, dá um aspecto deplorante, mas, como resultado, isso é
bom. Essa toxina é algo como filho pagar uma dívida contraída
pela mãe. Não quer dizer que a causa seja propriamente a
constituição física da criança. Nesse caso, é melhor deixar sair
tudo que precisa ser eliminado.

Os pais desse menino ministravam-lhe Johrei, mas se


afobaram devido à feia aparência. Quem queria que melhorasse
rapidamente era sua avó. Ela dizia não reconhecer nenhum
ponto positivo na Luz Divina.

- Se continuar praticando essa bobagem, esse aspecto


desagradável não diminuirá nunca. Quando vocês pensam que
ele vai estar curado? - perguntava a avó, atacando os pais da
criança.

Chegou inclusive a ameaçar, dizendo que se os pais não


dessem ouvidos e não levassem a criança ao médico, ela mesma
curaria, e trouxe à baila a estória do "dokudami"10, cujas folhas
curam os tumores sobre os quais são aplicadas.

Dizendo que surtiria melhor efeito se fosse feita infusão,


ao invés de aplicar sobre o eczema, fez um chá dessa erva,
obrigou a criança a tomá-lo e, mais ainda, lavou-lhe a cabeça
com essa infusão.

Após alguns dias, a ferida começou a sarar e, em menos


de uma semana, o eczema havia desaparecido completamente.

10
Dokudami: planta japonesa, de cheiro desagradável, da família das Saururáceas e que
serve para o tratamento de cerca de dez doenças.

115
Cem História da Minha Fé Vol. 2

A avó não cabia em si pelo seu feito. Ela se gabava


dizendo que o Johrei não chegava aos pés do tratamento que ela
fizera. Como realmente as feridas desapareceram, o casal
também não pôde se opor.

Porém, alguns dias depois, quase sem tempo de receber


os devidos cuidados, a criança faleceu repentinamente. A infusão
da erva curativa não só apagara as feridas como também levou a
vida do menino. Aconteceu que, sendo impedida de sair, a
toxina, que iria ser eliminada, começou a se saturar no interior do
seu corpo, e impossibilitou a continuação da vida.

A avó só percebeu o erro que cometera com a perda de


seu neto. Compreendeu o valor do Johrei, passando a recebê-lo,
chegando, inclusive, a se tornar membro da Igreja.

Caso II - Operação ao invés de Johrei

Este caso também se deu em Guifu.

Uma senhora veio até a igreja, trazendo o filho de quatro


anos, pedindo-me orientação. O marido estava em serviço militar,
trabalhando nas montanhas de Hida e, não sabendo como agir
em relação ao seu filho, e por ouvir contar dos milagres do
Johrei, acabara me procurando.

O menino, apesar dos seus bonitos olhos, não enxergava


de um deles. Sem apresentar nenhuma diferença entre os dois,
não se distinguia qual vista era deficiente, senão por meio de
testes. A mãe fora avisada pelos pais de outras crianças que
brincavam juntas.

Meio incrédula, ela levou o garoto a um oftalmologista que


lhe disse que se não extraísse o olho cego, este afetaria o olho
são e que, pela gravidade da doença, deveriam se dirigir ao
Hospital Estadual. Atordoada, ela levou o menino ao referido

116
Cem História da Minha Fé Vol. 2

hospital e lá lhe disseram que a moléstia era realmente grave e


que se não fizesse a remoção de ambos os olhos, sua vida
correria perigo.

- Deixar meu filho sem os dois olhos... Isso é inadmissível


para mim. Será que não há mesmo jeito? - perguntou-me num
rogo, a mãe aflita, que não resistia à idéia de ver extirpado o olho
ainda são de seu filho, cegando-o para sempre.

Como eu já tinha programado permanecer naquela igreja


por mais alguns dias, desejei desesperadamente salvar a criança
enquanto lhe ministrava Johrei. Senti que se localizava uma febre
emergente bastante alta na sua cabeça. Presumi que a origem
dessa elevada temperatura estava oprimindo o fundo do olho,
anulando a sua visão. Concentrei-me na ministração do Johrei na
cabeça.

No dia seguinte, começou a sair dos olhos uma secreção


purulenta.

- Está ótimo. Se houver resistência física suficiente, o pus


acabará sendo eliminado e a moléstia ocular desaparecerá -
pensei, criando confiança. Uma doença que deveria provocar
meningite está sendo purificada através de uma intensa
eliminação.

No terceiro dia, começou a sair ainda mais remela. O


processo de purificação estava a contento. Neste dia, quando eu
estava ministrando Johrei, irrompeu na sala um homem que se
dizia pai do menino e bradou:

- Você acha seriamente que com isso pode curar o olho de


meu filho? - perguntou-me ríspido.

- Como ele voltou do serviço militar ontem, contei-lhe toda


a situação, mas meu marido não quer entender... - foi o que a

117
Cem História da Minha Fé Vol. 2

mãe do menino pôde dizer, tentando dissolver o clima


embaraçoso que se formara.

- Minha senhora, a importância do Johrei não é facilmente


compreendida. É claro que seu marido poderá levantar dúvidas,
mas, em relação à doença de seu filho, posso lhe afirmar que se
curará - respondi-lhe, tentando aplacar a exaltação do marido.

- Isso não é brincadeira. Você não dá remédios, não aplica


uma injeção e acha que só estendendo a mão pode curar alguma
doença? - perguntou o pai.

- Eu digo que haverá cura porque tenho plena confiança


nisso. Cuidei de muitas pessoas e elas se restabeleceram
somente com o Johrei. Atualmente, tenho seis filhos sadios.
Caso o olho de seu filho não sarar, posso lhe dar dois ou três
deles como indenização. Tenho plena convicção neste caso -
expus-lhe até este extremo, mas foi em vão. O pai puxou a
criança pelas mãos, dizendo-me:

- Pode dizer o que quiser, mas eu não posso confiar. E


saiu levando junto a esposa, embora eu ainda não houvesse
terminado o Johrei.

Contaram-me que pouco depois a mãe veio à igreja, mas


foi para blasfemar. Disse que o filho fora levado pelo pai ao
Hospital Estadual, e lá removeram os dois globos oculares, mas
acabara falecendo após a cirurgia. Isto porque já era tarde
demais, pois perdera tempo recebendo Johrei.

Não ouvi pessoalmente nem o final do caso e nem as


imprecações daquela senhora, mas, tempos depois, quando os
membros vieram relatar, senti uma grande pena, uma profunda
mágoa. Quando faltava pouco para a cura se completar, devido à
incompreensão dos pais, o filho acabara perdendo não os dois
olhos, mas a própria vida. Compadeci-me profundamente

118
Cem História da Minha Fé Vol. 2

daquele inocente menino.

Caso III - Recompensa de cinco pequenos caquis verdes

Este fato ocorreu quando eu havia voltado para casa,


depois de um período percorrendo as igrejas sob minha
responsabilidade.

A senhora da casa vizinha trouxe, apressada, o seu neto,


que estava sangrando em volta da boca.

- Katsuiti, pode fazer alguma coisa? - falava pálida e


afobadamente.

Procurei acalmá-la, e perguntei o que havia acontecido. O


bebê, que tinha um ano, havia engolido pedaços de lâmina de
barbear, deixando somente um quarto dela.

- Não há nenhum motivo para se preocupar. Como ele é


um nenê sadio, o Johrei deve apressar a saída dos fragmentos -
disse-lhe, ministrando Johrei em seguida.

Contei-lhe casos semelhantes para poder acalmá-la. Meu


filho engolira um alfinete de costura e, através do Johrei,
eliminou-o, incólume. Houve também o caso de um ex-
combatente, que estava com vários estilhaços de bala no peito e
nas pernas, os quais saíram através do Johrei. Ainda mais
extraordinário é um caso antigo que ocorreu com o meu irmão
mais novo, que lhe encravara uma agulha no calcanhar, difícil de
retirar. Por não estar incomodando, deixara assim. Cerca de
meio ano depois, ela saiu pelo ombro. Quando o físico é
saudável, o corpo estranho é inteiramente eliminado, mas, com o
recebimento do Johrei, esse processo é acelerado.

- Não deixe de trazê-lo para receber Johrei amanhã e


depois também. Partirei amanhã de tarde, por isso, minha mulher

119
Cem História da Minha Fé Vol. 2

lhe ministrará Johrei. E não se esqueça de jogar água sobre as


fezes do nenê toda vez que ele defecar, para ver se saíram os
pedaços da lâmina - recomendei-lhe.

Já no dia seguinte, a velha apareceu, radiante de alegria,


contando que, pela manhã, havia encontrado metade da lâmina,
intacta, e o outro um quarto, quebrado em vários fragmentos.

Todos nós ficamos atônitos. Era realmente um milagre!


Nem eu havia imaginado que um milagre dessa natureza
ocorresse tão rapidamente. A velhinha, dizendo que era para
agradecer pelos meus préstimos, deixou cinco pequenos caquis.
Meus filhos não disfarçaram sua alegria e abocanharam a fruta.
No mesmo instante, fizeram uma grande careta, e cuspiram.
Eram caquis que tinham forte cica, muito "amarrentos".

A referida família vizinha era tida como a mais rica do


lugar, porém, a velha não pôde dispensar maiores atenções do
que aquela demonstrada. Ela, que na minha infância me
elogiava, comparava-me a Kinjiro Ninomiya (homem bem-
sucedido, que tivera uma infância pobre e sofrida) para me
estimular nos meus afazeres em casa. Por tudo isso, aquela
demonstração de gratidão em relação ao Johrei foi, para mim,
muito entristecedora.

Caso IV - Internação após a cura pelo Johrei

Aproveitando, vou contar o que ocorreu com a segunda


família mais rica do lugar. A família mais rica tinha posses que
vinham sendo herdadas de geração a geração. A segunda mais
rica era devido à fortuna que o avô conseguiu através da
agiotagem.

A criança, que era neta deste novo-rico, apresentava


sintomas de meningite, e foi trazida pela mãe à minha casa, em
busca de algum tratamento. Eu mesmo lhe ministrei o primeiro

120
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Johrei e, nas outras vezes, devido à minha ausência, minha mãe


e minha esposa o ministraram, durante cerca de um mês. A
criança eliminou intensamente coriza e remela, a febre alta
baixou e se curou.

Depois que o menino se restabeleceu, algum tempo


depois de interromper o tratamento pelo Johrei, a mãe veio trazer
o agradecimento pela melhora do filho. Era uma grande soma em
dinheiro, considerando-se que morávamos numa vila que ainda
não havia desenvolvido plenamente. E, nessa ocasião, ela
confessou o seguinte:

O avô, apesar de reconhecer a cura do neto através do


Johrei, intimou a todos da família que estavam proibidos de dizer
que o menino se curara com o Johrei, que ele considerava uma
bobagem. Ele próprio levou o neto ao Hospital Estadual e,
forçando a situação, pediu aos médicos que internassem o
menino. Este não recebeu nenhum tratamento, mas lá
permaneceu durante dois dias. O avô forjara as aparências para
que todos ficassem cientes de que o neto se curara porque
recorreu aos serviços médicos.

A mãe deve ter revelado o fato, achando que seria melhor


ela própria nos contar do que acabarmos sabendo por outras
fontes.

É realmente uma estória engraçada, das muitas que


acontecem à margem da difusão.

121
Cem História da Minha Fé Vol. 2

MEU JEJUM DE DOZE DIAS

Em setembro de 1947, o calor remanescente do verão


continuava incomodamente.

Parti para a cidade de Ono, na península de Tita, para


realizar um Curso de Formação de Novos Membros. Sakakibara,
um jovem que mais tarde se tornou meu genro, desenvolvia
atividades de difusão naquela localidade e organizou aquele
encontro. A aula terminou ainda no período da manhã e, no
almoço, repentinamente, não consegui comer mais nada.

Na mesa, estava servido um prato predileto meu -


"kamaague-udon", uma espécie de macarrão ensopado. Comi
uma pequena quantidade e, quando parti para a segunda porção,
já não me passava nada pela garganta. Normalmente, como,
com facilidade, três porções desse prato. Procurando um meio de
melhorar as coisas, tomei chá. Mas nem este eu conseguia
engolir.

Fisicamente, não havia nenhuma causa aparente, e na


verdade, não conseguia entender o porquê daquela situação.
Porém, não sentia nenhuma dor ou sofrimento, e nem estava
cansado, necessitando de repouso.

Minha programação estava organizada sem muita folga,


por isso, parti rumo a uma outra cidade perto, para participar de
um aprimoramento para os membros. Pude falar sem nenhuma
dificuldade. Encerrando a aula, fui convidado a jantar.
Novamente, não consegui engolir um só bocado, sendo também
impossível tomar um gole sequer de chá. Trouxeram-me, então,
melancia e outras frutas que, igualmente, não passaram pela
garganta.

Sentia-me um pouco pesado, mas não tinha indisposição.


Passou-se uma noite e, na manhã seguinte, também não

122
Cem História da Minha Fé Vol. 2

consegui comer nada. Mesmo assim não tinha fome.

Junto com Sakakibara, segui para Tokoname, cidade da


próxima atividade, deslocando-nos de bicicleta. Na sala de aula,
estavam reunidas umas 30 pessoas. A essa altura, uma dor
generalizada havia invadido todo o meu corpo; estava quase
inconsciente. Não tive outro jeito senão deitar-me em outro
cômodo. À cabeceira, Sakakibara ministrava-me Johrei.

Por volta do meio-dia despertei. Levantei-me


sobressaltado, cônscio da importante missão que me levara
àquele lugar. O mal-estar havia desaparecido. Dirigi-me à sala de
aula, palestrei e ministrei Johrei. Portei-me exatamente como se
estivesse em condições normais.

Seguindo a programação, ainda no mesmo dia, partimos


para o próximo local de atividade. E, dessa forma, continuando
em jejum, ia me deslocando para as outras cidades.

No quinto dia, percorremos um percurso de 12


quilômetros, vencendo a corrida de ida e volta de bicicleta, até a
cidade de Shigaki, no extremo da península Tita. Embora não
tivesse comido nem bebido nada durante vários dias, eu achava
incrível como conseguia, sem sacrifício nenhum, percorrer os
locais das atividades.

Procurando a segurança de minha saúde, as pessoas que


me prestavam assistência, pediam-me para descansar.
Sugeriram que eu mandasse algum representante, mas recusei.
Isto porque desapontaria as pessoas que me aguardavam e,
mesmo quando me posicionava perante os ouvintes, durante os
encontros, meu corpo ficava no estado normal. Tinha plena
confiança de que poderia cumprir toda a programação, conforme
o previsto, caso me prestassem assistência somente na
locomoção de um local para outro.

123
Cem História da Minha Fé Vol. 2

No oitavo dia, despedi-me de Sakakibara e me dirigi à vila


ao norte da cidade de Guifu. Ali, serviram-me truta assada. Pude
comer metade do peixe, mas continuava sem poder ingerir o chá.

Esperava-me, na noite daquele dia, uma aula de


aprimoramento na cidade de Guifu. Precisava, portanto, voltar
naquele mesmo dia para lá. Percorri os quatro quilômetros de
distância, como um bêbado, de bicicleta.

A essa altura, os olhos já estavam fundos, o corpo estava


dormente, incrivelmente sonolento, e, em qualquer oportunidade,
dormia a sono solto. E, mesmo assim, uma vez que comparecia
diante das pessoas, conseguia falar e ministrar Johrei durante
horas seguidas. E quando todos os membros iam embora,
imediatamente caía no sono. Continuava, entretanto, sem sentir
fome, embora, no nono dia, somente um gole de chá tenha
podido passar pela garganta.

No décimo dia, levando comigo um discípulo chamado


Kawabata, dirigi-me a Kawane, no Estado de Shizuoka. Em
Kanaya, fizemos baldeação para o local de destino, numa linha
férrea que margeava o rio Ooi.

Da estação até a Hospedaria Fujita, local da aula de


aprimoramento, percorremos a pé, por uma estrada que nos foi
indicada como a mais curta até o nosso destino. Como ladeava o
rio, a estrada possuía pedras, em grande quantidade, do
tamanho de uma bola de futebol, atrapalhando o caminhar. A
distância não deveria ter mais de um quilômetro, mas, para mim,
pareceu quatro vezes mais longa.

Logo que cheguei, tomei um banho e adormeci, antes


pedindo que me acordassem quando chegasse a hora da aula.

Pude concluir, sem problemas, a programação dessa noite


e do dia seguinte. Parti, cambaleante, em meio a uma forte

124
Cem História da Minha Fé Vol. 2

chuva, e o vento impedia-me de utilizar o guarda-chuva que me


emprestaram, e as botas de borracha que também me cederam
foram inúteis. Envolto no vendaval, caminhei aos tropeções pela
estrada pedregosa da beira-rio, até a estação. Quando
embarquei no trem de volta, fui acometido de uma tremenda dor
de cabeça.

Levamos uma hora até Kanaya e, neste período,


Kawabata permaneceu a meu lado, ministrando-me Johrei. A dor
não cedeu nem um pouco. Aliás, havia recebido Johrei com
muitas pessoas, mas não provocava nenhuma reação, nenhum
resultado. A minha única esperança era receber Johrei do Rev.
Shibui, a quem deveria visitar em seguida.

À tarde, cheguei ao Solar da Montanha Preciosa (Hozan-


Sol. Ali, antes da Segunda Guerra Mundial, residia o Mestre e
depois se tornou residência do Rev. Shibui. Consegui chegar
mas, por se encontrar acamado, convalescendo de uma grave
doença, o Rev. Shibui não pôde ministrar-me Johrei. Solicitei,
então, ao Rev. Iwamatsu, veterano superior a mim, que ministrou
Johrei por cerca de duas horas.

- A febre está enclausurada na sua cabeça - disse-me.


Porém, a dor continuava sem ceder.

- Deve ser possível comer algo que goste, nem que seja
um pouco - sugeriram as pessoas que me visitavam e
prepararam macarrão para mim. Mesmo este, a partir do
segundo bocado, não passava, e querendo tomar chá, coloquei-o
na boca, mas não conseguia engolir.

- Apesar de tudo, sua resistência física é espetacular,


hein? - diziam todos, muito admirados.

Consultei várias pessoas e estas me disseram


desconhecer esta doença que tirava o apetite, apesar de todo o

125
Cem História da Minha Fé Vol. 2

resto do corpo permanecer normal.

No décimo segundo dia, fui a Hakone; participei da


entrevista com o Mestre, e fui convidado para o jantar que se
realizou logo após.

Neste momento, já não sentia mais dores de cabeça e,


além disso, estava com a sensação de um enorme vazio na
barriga. Senti que aquilo que fora obrigado a suportar foi
purificado e eliminado com a simples participação na entrevista
com o Mestre. O jantar era à base de pratos da culinária chinesa.
Normalmente, alguém que tenha passado por um jejum de dez
dias não consegue, na primeira refeição, comer muito, mas eu,
apesar de passar doze dias sem me alimentar, comi tudo que me
foi oferecido e ainda achei insuficiente. Acabei me servindo de
seis tigelas cheias de arroz juntamente com iguarias gordurosas.
Comi, apesar de duvidar se poderia comer tanto. O arroz, como
nunca havia sentido, me pareceu muito saboroso.

Consegui comer e, sem ter nenhum distúrbio intestinal ou


estomacal, recuperei rapidamente as minhas forças físicas.

Tanto o jejum quanto a rapidez na recuperação foram


fatos inacreditáveis. Mesmo porque, durante o jejum, não tivera
nenhum impedimento para realizar minha missão na Obra Divina.

Impedido somente de comer, sentia que em relação à


dedicação à Obra Divina, estava sendo repreendido por Deus.

Eu não era eu mesmo, sendo movido por Deus e, nesses


doze dias, senti que não poderia ficar sem servir à Causa Divina.

Não consegui distinguir qual purificação ocorreu em minha


cabeça, mas, creio que pela purificação física e pelo Servir,
recebi a permissão de me recuperar na ocasião do jantar junto
com Meishu-Sama.

126
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Essa incrível experiência aprofundou minha convicção na


dedicação à Obra Divina. Isto porque pude sentir na minha
própria pele que, quando dedicamos empenhando a nossa vida,
manifesta-se uma estranha força e que, diante de qualquer
obstáculo, receberemos a proteção de Deus.

Todos me disseram, unânimes, que eu chegava aos locais


de aprimoramento cambaleante, mas uma vez perante os
membros, eu me portava como em meus dias normais. E, além
disso, está fora da compreensão normal como pude comer tanto
daquele jeito, após um jejum prolongado.

A purificação ocorrida nesses doze dias deu-me uma


grande força, como experiência inesquecível na minha vida de fé.

127
Cem História da Minha Fé Vol. 2

AS PROFECIAS DA INCORPORADA

A primeira vez que a vi foi em 1947 ou 48.

Nessa época, percorria mensalmente várias cidades onde


se realizava difusão da nossa Igreja, e Hachiman era uma delas.
Chegava ali de tarde e, à noite, dialogava com os membros
reunidos. Nesses encontros, havia uma moça que ouvia minha
conversa estranhamente atenta.

Aparentava ter mais de vinte anos, mas seu


comportamento parecia com o de uma menina. Não possuía
beleza denotada, mas o brilho de seus olhos límpidos chamava a
atenção. Era desenvolta e correta no trato com outras pessoas, a
tal ponto que não lembrava em nada a provinciana que era.

Segundo o ministro que a encaminhou à Fé, ela possuía


forte interesse pela Obra Divina, e estava indo a vários locais
para difundir a Fé Messiânica. Ouvindo o relato, senti que
poderia ocorrer algum grande fracasso, conquanto agora
estivesse desenvolvendo bem a divulgação.

Aí, disse o ministro:

- Que tal deixá-la aprimorar na igreja em Ichinomiya, onde


eu permaneço mais tempo?

Achei que para a moça contatar mais o âmago da Obra


Divina, seria melhor dedicar em Ichinomiya, onde se reuniam
mais pessoas.

Passaram-se vários meses sem que eu soubesse se a


minha proposta fora levada até ela ou como ela a havia recebido.
Tanto a moça quanto o ministro moravam em Takayama, nas
montanhas de Hida; não houve mais oportunidade de nos
vermos nos aprimoramentos em Hachiman.

128
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Porém, certo dia, o referido ministro veio me procurar em


Ichinomiya e, após conversarmos sobre o próximo
aprimoramento em Takayama, relatou-me sobre a moça.

- Reverendo, gostaria de dizer sobre aquela moça que, às


vezes, ela apresenta sintomas de doença mental. Não usa de
violência, mas fica muito aérea. O que devemos fazer?

Quando fui a Takayama, encontrei-me novamente com


ela, conversei com outras pessoas a respeito, e propus levá-la a
Ichinomiya naquela oportunidade, pedindo, no entanto, que a
observassem atentamente.

Após o aprimoramento em Takayama, chamei-a à parte e


conversamos. Ela estava, naquele momento, no seu estado
normal.

- Eu ministrava Johrei em muitos doentes e, quando foi a


vez de uma senhora doente mental, não sei por que motivo, senti
algo dentro de mim e pensei firmemente: - "Raposa danada, saia
e desapareça!" De lá para cá, há momentos em que perco noção
de mim mesma, disse-me a moça, relatando o ocorrido.

- Nenhum espírito animal incorpora em alguém sem haver


motivo para isso. Quando ele recebe palavras ou pensamentos
de ódio se enfurece e acaba se voltando contra quem o
incomodou. Por isso, é preciso ter cuidado no trato com ele -
chamei-lhe a atenção, dessa maneira.

Ficou decidido que a moça viria comigo para Ichinomiya.

O trem estava vazio. Sentei-me de frente para ela.


Analisando-a mais detidamente, reparei que o seu estado não
era de doente mental e sim de quem havia sido incorporado por
algum espírito. Ela começou a falar comigo:

129
Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Reverendo, o senhor A. vai falecer daqui a quatro anos.

Eu achei estranho porque me constava que ela não tinha


conhecimento do senhor A. Nem tive tempo de confirmar
qualquer coisa, pois ela continuou em seguida:

- O ministro B., apesar de estar difundindo a Igreja com


muito afinco, é totalmente aparente. Logo mais abandonará a
nossa Fé. O ministro C. é um excelente elemento, mas é uma
pena que falecerá dentro de alguns anos. O ministro D. já morreu
há algum tempo e a causa foi tida como doença, mas, na
verdade, ele se suicidou com uma corda no pescoço. O ministro
E. se separará da esposa em alguns anos.

Ouvi-a atentamente contar sobre dezenas de pessoas e


todos eles eram ministros e membros dedicados que divulgavam
a Fé Messiânica na região central, sob minha responsabilidade e,
certamente, a moça nunca se encontrara com muitos deles e por
isso nem o nome deveria saber.

Pensei comigo: - Essa moça consegue enxergar o Mundo


Espiritual.

Dessas pessoas descritas, muitas coisas coincidiam com o


que eu deduzia sobre o seu passado. Sobre as previsões,
entretanto, não sabia se aconteceriam como descritas - era
completamente incerto.

- Não diga mais nada. Mesmo que saiba dessas coisas,


não deve pronunciá-las. As pessoas, enquanto vivas, se
esforçam ao máximo e, portanto, mesmo que elas não conheçam
o seu futuro, isso já é suficiente. Você jamais deve falar para
alguém o futuro desta ou daquela pessoa - disse-lhe,
interrompendo suas palavras.

As ocorrências do Mundo Espiritual são mistérios

130
Cem História da Minha Fé Vol. 2

guardados por Deus e revelá-los significa profanar as Leis


Divinas. Principalmente profetizar destinos trágicos de quem quer
que seja é falta imperdoável. Na mesma época havia, dentre os
meus discípulos, um rapaz que previa a morte das pessoas.
Repreendi-o, por ser um pecado muito grave.

Mesmo que a moça estivesse, nessas horas, sob ação de


espíritos estranhos, era imperdoável que ditasse previsões.

- Sim, senhor. Não contarei mais nada a ninguém -


respondeu-me obedientemente, prestando muita atenção no que
eu dizia.

Concluindo, apesar de pouca diferença nos fatos, as


profecias da moça acertaram na mosca e se tornaram realidade
comprovada.

Ficou mais uma vez patente para mim que, mesmo as


coisas complicadas, incompreensíveis ao ser humano, do ponto
de vista do Mundo Espiritual, está tudo claro. Só não pude
certificar-me por que fui avisado sobre esses acontecimentos,
através de uma jovem incorporada.

Quando a moça veio à igreja em Ichinomiya, e passou a


conviver diariamente com minha mulher e meus filhos, estava
com 23 anos. Ela permaneceu durante os três anos
subseqüentes, até 1950, quando a igreja foi transferida de
Ichinomiya para Nagóia, manifestando inúmeros milagres.

Através dela, pessoas chegadas a mim que faleceram há


muito tempo contaram-me como estavam passando no Mundo
Espiritual. O número de espíritos que se comunicaram comigo do
Mundo Espiritual chegou a algumas dezenas.

Dentre os escritos do Mestre, há um volume onde se


reúnem Ensinamentos sobre o Mundo Espiritual e eu, na época

131
Cem História da Minha Fé Vol. 2

das minhas atividades em Ichinomiya, pude, através da


observação minuciosa daquela moça, realizar importante e
inusitado aprimoramento sobre o Mundo Espiritual. E esse
conhecimento veio mostrar a veracidade dos Ensinamentos do
Mestre. Sobre isso, aliás, desejo explanar em outro capítulo.

A moça deste episódio continua sendo, até hoje, durante


vinte e tantos anos, uma pessoa normal, dedicada na difusão, e
não lhe resta nenhuma lembrança das coisas que soube durante
o período de incorporação espiritual. Tampouco deve se recordar
de qualquer coisa que me tenha dito no trem, naquele dia.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

AS CHANCES NAS ATIVIDADES DE DIFUSÃO

Caso I - Desenvolvendo novas regiões, guiado pelo espírito


de raposa

Aconteceu em outubro de 1944.

Após um ano de ingresso na Igreja, deixei minha família


na casa de meus pais em Guifu, parti para Nagóia e aluguei uma
casa para torná-la local de difusão da Igreja.

Eu também recebi muita purificação: saía catarro


misturado com sangue, coriza em profusão; o peso caiu para
quarenta e cinco quilos e o rosto ficou encaveirado. Como
tratava, todos os dias, de doentes nas minhas lides de difusão,
acharam que eu tivesse contraído doenças no contato com eles.

Ao mesmo tempo, minha mulher não conseguia


compreender plenamente meu sentimento para me dedicar
exclusivamente ao Caminho da Fé e, com sete filhos para cuidar,
sentia e externava uma grande insegurança em relação ao nosso
futuro.

1944 foi o ano anterior ao término da Guerra do Pacífico e


a situação da batalha fora do país estava arruinada e, no interior,
várias cidades foram expostas aos bombardeios inimigos e a
alimentação caminhava para a precariedade.

Minha mãe, na sua preocupação comigo, que abandonara


um negócio bem-sucedido e na cogitação sobre o futuro dos
seus netos, acabou transformando em depósito bancário grande
parte do arroz que deixei reservado aos meus filhos, já em fase
de crescimento. E eles acabaram sentindo fome, porque não
agüentavam mais comer arroz cozido em tanta água.

Quanto a mim, liquidara a firma que possuía, e depositei

133
Cem História da Minha Fé Vol. 2

os cem mil ienes auferidos num banco em Nagóia e, sem minha


mãe saber, utilizava esse dinheiro nas atividades de difusão. Na
época, esse montante era suficiente para viver sem ter que
trabalhar. Sabia que, se comunicasse isso à minha mãe, não
poderia mais me dedicar integralmente à Obra Divina. Então, foi
necessário agir dessa maneira para minimizar a pressão que
seria naturalmente exercida por ela, mesmo que parecesse uma
grave omissão. Porém, para obter a sua compreensão e
confiança, só a minha palavra não foi suficiente. A única forma
era mostrar a ela algo mais concreto.

- Olha, mamãe, a quanto chega a quantia oferecida pelas


pessoas que manifestaram alegria em serem salvas.

No fim do mês, é verdade, juntava o dinheiro da oferta dos


membros e dos doentes, que chegava a ser somente uma
quantia irrisória. Havia doentes que, embora salvando-se de
alguma moléstia fatal, dava somente um ou dois ienes; a
ministração de Johrei, durante um dia inteiro, às vezes resultava
em apenas dez ienes e a soma total mensal não alcançava muito
mais que duzentos ienes. (Tais ofertas de gratidão eram
baseadas na voluntariedade e, por isso mesmo, eu não cobrava
formalmente os "tratamentos" que fazia).

De qualquer forma, não obteria a compreensão de meus


familiares, caso voltasse para casa somente com essa quantia.
Portanto, tive de armar uma certa estratégia. Nas retiradas da
minha conta corrente, além das despesas para uso diário, eu
tinha de incluir mais setecentos ou oitocentos ienes para
"aumentar" o do nativo para perto de mil ienes.

- Veja, mamãe, a quanto chegou a gratidão deste mês!

Era necessário proporcionar essa segurança e alegria à


minha mãe para eu poder continuar minhas atividades. Estava
mesmo decidido a levar tal prática até que o meu saldo bancário

134
Cem História da Minha Fé Vol. 2

tocasse o fundo.

Numa dessas voltas ao lar, com a contabilidade já


efetuada, havia começado a chover; tomei emprestado um
guarda-chuva, e rumei para casa. Desci do trem que ligava
Nagóia a Minotyo, na estação Kami-Akutami. Só depois de
caminhar um pouco, é que reparei que havia esquecido a bolsa
contendo o dinheiro do donativo no bagageiro do trem. Era uma
pequena fortuna. Voltei às pressas à estação, e me lembrei das
palavras do Mestre, que, certa vez, disse que, quando se
esquece ou se perde algo, ou deixa-se levar objetos por estar
pensando em alguma coisa, é porque está incorporado por
espírito de raposa ou sob sua ação. Voltei-me em direção
daquele trem, e orei a Deus para que a bolsa não sumisse.

Kami-Akutami é uma estação sem funcionários. Portanto,


esperei passar outro trem e fui a Shimo-Akutami, onde pedi que
telefonassem para a próxima estação e verificassem o bagageiro.
Mas a resposta foi que não encontraram nada. Mais uma vez
solicitei que comunicassem o fato à estação final do trem.

Pediram-me que aguardasse mais um pouco, pois o trem


já estaria chegando ao seu destino. Logo nos avisaram que
haviam encontrado a minha bolsa. Deixei comunicado o
conteúdo da mesma, e parti em seguida para recuperá-la.
Quando cheguei à estação de Minotyo, passavam das vinte
horas.

O funcionário da estação já havia conferido o conteúdo


que eu havia declarado.

- Puxa, é de admirar que, nessa época, uma bolsa com


tanto dinheiro tenha sido devolvida - disse, entregando-me a
valise. Logicamente, cumprindo normas, ele não aceitou
gratificação de forma alguma. Enquanto esperava o trem de
volta, aproveitei o tempo para apreciar a cidade, indo até à rua de

135
Cem História da Minha Fé Vol. 2

frente à estação.

Bem, eu ainda não havia vindo a esta cidade. O fato de ter


sido atraído para cá pelo extravio da bolsa, deve ser algum
desejo do deus Inari11, pensei, analisando aquela ocorrência.

Voltei-me ao casario da cidade, envolta na escuridão, e


entoei uma oração silenciosamente, pedindo que aquele local
também fosse alcançado pela Luz da Salvação.

No mês seguinte, o jovem N., que se tornara membro em


Nagóia, trouxe de Minotyo dois jovens irmãos de sobrenome
Goto, para ingressarem na Igreja. Iniciou-se, então, em torno dos
irmãos Goto, a difusão em Minotyo. A família Goto mantinha um
atacado de roupas, até bem grande para aquela pequena cidade,
e no jardim, ao fundo da residência, havia um oratório de Inari
bem cuidado. O irmão mais novo estava acometido de
tuberculose e, após o ingresso na Fé, melhorara completamente.

Outrossim, logo após, a Igreja em Nagóia foi incendiada


no bombardeio aéreo; procurou-se um novo local para sediar as
atividades de difusão, e eu soube que a casa do Sr. Kinjiro
Mizuno, na qual se instalou a nova igreja, também possuía um
oratório de Inari.

Assim, a difusão em Nagóia e a difusão nas demais


localidades do Estado de Guifu partiram de Minotyo, tendo dali
para frente conseguido um desenvolvimento crescente.

Pensando agora, tanto o Sr. Mizuno como o Sr. Goto


possuíam em seu primeiro nome a letra kin (ouro) e ambos
tinham em sua casa oratórios de Inari. Além disso, eram
extremamente corteses em relação aos outros, profundamente
cavalheirescos; apesar da facilidade com que se atinham em
encaminhar os outros à Fé, eles próprios mostravam certa
11
Inari: numa crença popular japonesa, capelinha onde se cultua o espírito da raposa.

136
Cem História da Minha Fé Vol. 2

dificuldade em aprofundar sua espiritualidade.

Como Inari, que carrega o arroz, eles carregavam a Luz de


Deus, efetuando a ação de auxiliá-Lo. De minha parte, só posso
dizer que ampliei a difusão, guiado pelo espírito da raposa.

Caso II - Efeito contrário do espírito de raposa

Este é um caso ocorrido no começo das minhas atividades


de difusão da Fé.

Logo após iniciar meus trabalhos na Igreja em Ikeda-tyo,


na cidade de Nagóia, realizamos uma aula de aprimoramento,
convidando o Reverendo Shibui, que vinha de Tóquio.

Ficou determinado que ela seria nos dias, 5, 6 e 7 de


março, no ano de 1944. Havia inclusive proposta de 30 novos
membros.

Toda a preparação já estava terminada. Porém, mesmo a


alguns minutos da realização da aula do primeiro dia, nenhuma
das pessoas aguardadas havia chegado.

A casa que fora alugada para servir à Igreja era uma


dependência de uma vila e, ao lado da casa vizinha, ficava a loja
Kunimoto, uma casa de molduras e papéis de parede, e
reservada para o local de descanso para os participantes do
aprimoramento. Havia um afilhado do dono da loja, estudante do
Colégio de Nagóia que, por causa da tuberculose, estava
impedido de freqüentar as aulas e sofria um bombardeio de
injeções diárias, chegando a não ter mais onde injetar a agulha.
Ministrando Johrei a esse rapaz, ele se recuperou tão
favoravelmente que em um mês até pôde voltar às aulas. Vendo
isso, o casal Kunimoto se deslocou até Tóquio, fez o Curso de
Formação de Novos Membros e se tornou membro. Portanto,
naquele aprimoramento em Nagóia, era bem evidente que aquela

137
Cem História da Minha Fé Vol. 2

família estivesse muito satisfeita que se usasse a sua loja como


local de descanso.

Prestes a iniciar a aula às dez horas, fui à sala de


descanso ver o que se passava. Quase todos os participantes
previstos estavam presentes.

- Senhores, a aula já vai começar. Por que não vão à


igreja? - perguntei, como que tocando-os dali.

- Na verdade, Reverendo, aconteceu uma coisa


esquisita... - começou a falar um deles.

- Na entrada da vila, está uma senhora que se diz mulher


do Sr. Mori e está barrando cada um de nós. Ela nos pergunta se
vamos às aulas do Curso de Formação de Novos Membros, e
quando respondemos que sim, insiste em dizer que não devemos
fazer isso porque participar das aulas significa receber o Ohikari.
Achando maçante ficar respondendo a tudo, quando pensamos
em ir, ela nos agarra pelo braço e não nos solta. Quando
perguntamos se há algum inconveniente em receber o Ohikari,
ela se exalta, como se estivesse esperando pela pergunta, e nos
responde:

- Se receberem o Ohikari, acontecerão coisas absurdas. O


meu marido também recebeu e, por isso, acabei tendo que me
divorciar. Tenho medo da Luz e, portanto, não posso ficar junto
dele. Então, achei que deveria entregar o Ohikari ao Inari de
Toyokawa. Enquanto meu marido dormia, retirei-o e tentei ir até
lá. Mas, quando fui subir no trem, meus pés adormeceram e eu
não consegui chegar ao destino. Voltei, mas como não consigo
ficar mais em casa, saí de lá. Aquele Ohikari é muito terrível.
Vocês não devem recebê-lo.

- Só podemos pensar que a senhora Mori enlouqueceu.


Quando cada um de nós vinha para cá, ela nos lançava olhares

138
Cem História da Minha Fé Vol. 2

de recriminação - contou-me a pessoa, e os outros confirmaram.

Todos achavam aquilo incompreensível, e pareciam estar


colocando em ordem o seu próprio sentimento. De qualquer
maneira, todos davam a impressão de que seu interesse pelo
Ohikari havia sido exaltado diante da possibilidade de estar
encerrado nele uma força extraordinária. Isto porque, mesmo
sendo barrado pela Sra. Mori, ninguém deu meia-volta,
afastando-se da aula.

- Se é assim terrível, por outro lado quer dizer que é


grande a força de Deus atuando nele. É por isso que as doenças
são curadas - disse um dos aprimorandos, muito acertadamente.

Enquanto durou este burburinho, chegou a se ajuntar mais


pessoas e pudemos, enfim, iniciar a aula e, no terceiro dia, após
a conclusão das aulas, tivemos a permissão de 38 pessoas que
ingressaram na Igreja, ultrapassando as expectativas. Aqueles
que vieram às aulas movidos pela curiosidade também se
tornaram membros.

Para a Sra. Mori estar desse modo havia uma razão


decorrente de um acontecimento anterior.

O Sr. Mori tinha uns trinta anos e era comerciante de


arroz. Sua esposa tinha uns vinte e cinco anos, e viera de uma
família comerciante bem-sucedida de remédios homeopáticos. O
Sr. Mori sofria de pleurisia e veio em busca da cura na Igreja.
Ficou bom em duas semanas e, imediatamente, foi a Tóquio
receber as aulas e se tornar membro.

Durante a viagem do marido àquela cidade, ela veio à


igreja e quis receber Johrei, alegando que ela e o filho tinham
problemas na vista. No dia seguinte, apesar de o marido estar
ausente, ela trouxe, a título de agradecimento, duas almofadas,
que disse terem sido utilizadas no casamento deles; um corte de

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

roupa para banho e um relógio barato feminino. Eram objetos


estranhos para utilizar-se como forma de agradecimento. Mas
como insistia em que os aceitasse, resolvi deixá-los comigo.

Quando o Sr. Mori regressou, os dois vieram à Igreja


trazendo também o filho, um nenê. No andar superior da Difusão,
havia ainda outras pessoas, mas eu mesmo ministrei Johrei à
Sra. Mori. Quando iniciei o Johrei em suas costas, meus olhos se
cruzaram com os do bebê que ela trazia no colo. Neste
momento, seus olhos não me pareceram ser os de uma criança,
dada a maneira como me encarava. Eu estava com a mão
estendida na altura do pescoço, onde havia um caroço do
tamanho de uma fava. Talvez devido à vibração emitida, ele se
movia para a direita e para a esquerda, seguindo os movimentos
de minha mão.

Nesse momento, ela gritou repentinamente:

- Ai, ai.

Continuei com a mão estendida e ela gritou:

- Assassino! - bradou e se levantou. O marido,


apressadamente, pegou a criança.

- Assassino! Socorro! Polícia! - berrava em voz alta e


tentava sair da sala. As pessoas que estavam em volta
seguraram-na, tentando acalmá-la.

- O que aconteceu?

A mulher nem respondeu à pergunta e, num ímpeto,


desceu num só pulo as escadas para o andar inferior e se
agitava descontroladamente. Juntamente com o Sr. Mori, a
dominamos, e a pusemos para descansar na sala do fundo, sob
os cuidados do marido.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Enquanto nos refazíamos daquela repentina agitação, a


mulher escapou das atenções do esposo e fugiu para a rua,
descalça. O Sr. Mori foi ao seu encalço, muito perturbado.

Alguns dias depois, a mulher apareceu sozinha na igreja.

- Boa tarde. Quero que me devolva o que trouxe no outro


dia - falou-me com extrema naturalidade. Tratava-se dos objetos
que me dera como gratificação pelo Johrei ministrado.
Verificando as duas almofadas, o corte de tecido e o relógio de
pulso, a mulher levou-os embora. Já não parecia estar no seu
estado psíquico normal.

Após isso, o Sr. Mori vinha esporadicamente à igreja mas,


constantemente, se queixava da esposa.

Algum tempo depois, a mulher voltara para a casa dos


pais, levando a criança, e se tornava violenta, quando ele tentava
fazê-la devolver o nenê. Logo após desquitou-se, sob alegação
de desequilíbrio mental da esposa. Por fim, o Sr. Mori também
acabou não vindo mais à igreja.

Aquela aula de iniciação foi realizada após a ocorrência


deste fato. A meu ver, conforme há nos Ensinamentos do Mestre,
a Sra. Mori apresentava aquela loucura, incorporada por espírito
de raposa. Diferente do espírito que é venerado como deus,
aquele detestava a Luz Divina, e deve ter tentado impedir o
trabalho de difusão que eu desenvolvia. Porém, ao contrário da
sua intenção, acabara enaltecendo a Luz de Deus, e a
divulgação disso fez com que muitas pessoas freqüentassem
assiduamente as aulas e se tornassem membros da Igreja.

O espírito animal, querendo prejudicar a difusão, acabou


provocando um resultado melhor. Foi a minha primeira
experiência em ocorrências dessa natureza. Através disso, eu
mesmo reconheci a grandeza da força do Ohikari.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Pela minha experiência, mesmo que seja um doente


mental que no início seja violento, se houver circunstância
favorável ao recebimento de Johrei, haverá cura, infalivelmente.
Eu próprio já curei dezenas de pessoas com esse problema.
Porém, caso a força espiritual de quem ministra Johrei for fraca,
o doente mental foge, não permitindo que lhe ministre Johrei.
Outrossim, se o doente o recebe calmamente, é quase certo que
se salvará.

Caso III - A base do desenvolvimento da Igreja em Okazaki

Não seria exagero afirmar que na época em que iniciei a


difusão, excetuando a periferia de Tóquio, tudo o mais era local
ainda não atingido pela Igreja.

Aumentando uma por uma as cidades onde se realizavam


aulas de aprimoramento, eu circulava periodicamente por elas.
Entre uma localidade e outra que eu percorria, havia muitas que
ainda não possuíam focos de membros. Ao passar por cidades
assim, constantemente mentalizava e orava para que também
nelas se estendesse a Luz de Deus. Assim, incrivelmente,
surgiam pessoas dessas cidades para se tornarem membros da
Igreja. Situada na linha Tokaido, que liga Tóquio e Nagóia,
Okazaki era uma delas.

A Sra. M., que morava em Tóquio, tornou-se membro


recebendo Ohikari com o Reverendo Shibui, e, refugiou-se em
Okazaki. No final de 1944, trouxe uma pessoa para Nagóia, que
desejava ingressar na Igreja. Porém, por motivo desconhecido,
não tive mais notícias suas.

Receei que, se deixasse como estava, a semente da


difusão que surgiu em Okazaki acabaria por não brotar. Assim,
pedi para o Sr. Taki, que já algum tempo me ajudava nas
atividades da Igreja, para ir a Okazaki.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Procurei-a o dia inteiro e não a encontrei, foi o relato do


Sr. Taki.

Dessa maneira, só restava esperar algum comunicado da


Sra. M., o que era difícil precisar quando se daria.

Dois meses depois, realizou-se aprimoramento em


Tokoname. Algum tempo após isso, soube-se que uma pessoa
de Okazaki havia participado daquele encontro. Verificamos se
tratar da Sra. Sotoyama.

Eu próprio, acompanhado do Sr. Taki, desloquei-me para


Okazaki, à procura da Sra. Sotoyama, que nos levou à casa da
Sra. M. Esta havia formado um segundo elemento, que era a Sra.
Sotoyama.

Enquanto conversava com as duas senhoras, desejando


que o círculo da difusão se estendesse em Okazaki, soube que o
genro da Sra. M., o Sr. S., havia se tornado membro junto ao
Reverendo Shibui e que havia concluído um período de um mês
de aprimoramento. E agora esse referido senhor estava
procurando emprego em Hamamatsu.

- É inconcebível que uma pessoa assim esteja procurando


emprego. Caso tenha compreendido o Caminho de Deus, como
penso que sim, deve integrar a difusão da Igreja. Gostaria de
conversar com ele pelo menos uma vez - disse, deixando meu
pedido de que viesse a Nagóia, brevemente.

Passaram-se alguns dias, e achei que deveria dar mais um


empurrãozinho naquele caso; pedi assistência ao Sr. Taki e
enviei um passe-circular de trem para um mês, de Okazaki até
Nagóia. Era uma concretização do meu pedido de auxílio à Obra
de Difusão.

Passou-se um mês, mas o Sr. S. não apareceu. Aí, enviei

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

outro passe-circular para mais trinta dias.

Não sei se sucumbido pela minha pressão, dessa vez o


Sr. S. veio até Nagóia.

Disse-lhe diretamente:

- Em Okazaki, felizmente, estão germinando sementes da


difusão da igreja. Desejo fazer esses brotos crescerem. Você
conhece bem a força do Ohikari e creio que é a pessoa que
realmente pode dedicar-se a isso. Quero que trabalhe com afinco
em Okazaki. Eu também prometo que farei tudo que for possível
para ajudá-lo.

O Sr. S. respondeu demonstrando decisão:

- Quero colaborar com o senhor, Reverendo. Realmente,


após isso, a difusão em Okazaki foi se ampliando
gradativamente. A esposa do Sr. S. também se esforçou, não
temendo sacrifícios.

Foi dessa maneira que a Luz de Deus penetrou em


Okazaki e continua a se expandir até hoje.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

A AFINIDADE DO LOCAL COM A OBRA DIVINA

Por mais que se compenetre nas atividades de difusão,


surgem infindáveis problemas que levam até à sua interdição, e
que fazem refletir se é porque o tempo certo ainda não havia
chegado, ou porque a espiritualidade ainda é baixa, ou se é a
Vontade Divina. Sinto que nisso há uma atuação de algo
invisível.

Isto aconteceu por volta de 1949.

Na época, o Miroku-Kai era um dos grupos-sustentáculos


da difusão da Igreja, e o Reverendo Iwamatsu era responsável
pela região Leste e adjacências. Porém, quando o Reverendo
Iwamatsu purificou de prurido cutâneo, fui indicado para substituí-
lo. Assim, todas as vezes que se realizavam aprimoramentos na
região Centro, eu me dirigia também à região Leste, como seu
representante.

Certa vez, pediram-me para dar uma aula na cidade de


Fukui e me dirigi para lá, programando tudo para acontecer após
o término das aulas em Kanazawa. Não tinha conhecimento do
ministro de Fukui, mas soubera que ele dedicava nas atividades
de difusão fervorosamente e que, a pedido dele, relataram que
haveria mais de trinta participantes e alguém viria até a estação
me buscar.

Além disso, chegou às minhas mãos o endereço onde se


realizaria a aula.

Terminando o meu roteiro, cheguei em Fukui no horário


previsto. Na estação, percebi que não havia ninguém à minha
espera. Esperei por um bom tempo sem que aparecesse alguém.
Pensando que tivesse acontecido alguma coisa, fui até o local
onde a aula era prevista.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Nós não estamos sabendo de nada... - foi a resposta do


dono da casa, que se mostrava constrangido com o ocorrido, Ele
desconhecia o que se relacionava com aquela aula de
aprimoramento.

- Bem, de qualquer maneira, se houve uma combinação,


este ministro deve aparecer logo. Não quer esperar mais um
pouco?... - disse- me o homem, muito atenciosamente.

Sem nenhuma outra alternativa, esperei por duas horas,


mas ninguém apareceu. Era impossível ser um simples engano,
uma vez que tudo tinha sido muito bem planejado. Fora pedido
de um ministro. Só pude deduzir que esse pedido era uma
mentira. Não soube desvendar por que haveria necessidade de
tal inverdade. Foi algo muito misterioso.

Externei meus agradecimentos ao dono da casa, e voltei


para Nagóia, com sentimento de insatisfação.

Há ainda outras coisas de difícil compreensão. Desde


essa época até 1956, os responsáveis das filiais da Igreja nos
Estados de Ishikawa e Fukui que estavam em posição de
responsabilidade, morriam, um após o outro, infalivelmente, de
alguma doença desconhecida. Em várias cidades, como Takefu e
Ono, foram estabelecidas filiais de nossa Igreja e para lá se
dirigiam meus discípulos, mas todos eles faleceram. Só de uma
igreja, foram oito ou nove e, juntando-se aos outros, quinze ou
dezesseis ministros pereceram - todos eles em pleno vigor para o
trabalho. Pensava que era algo que não podia resolver
simplesmente, achando ser uma coincidência.

1956 foi o ano em que a Segunda Líder Espiritual da


nossa Igreja, Nidai-Sama, realizou sua viagem missionária por
todo o Japão. Realizou a consolidação da Fé dos membros
(implantação da visão sobre Deus) após a ascensão de nosso
Mestre. Ela pregou que se nos limitássemos à fé ao ser humano,

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

não poderíamos desenvolver a fé que poderia vivificar


verdadeiramente os Ensinamentos do Mestre.

Na viagem missionária de Nidai-Sama à região Central, eu


também pude acompanhá-la. Nessa oportunidade, deixei-lhe
relatado que naquela região falecera grande número de
responsáveis de filiais da Igreja. Depois dessa visita missionária,
a morte misteriosa dos ministros cessou por completo e a difusão
mostrou um repentino desenvolvimento. E quando se efetuou a
Unificação da Igreja em 1974, a proporção mais alta do número
de membros, por habitante, se verificou justamente no Estado de
Fukui, que antigamente apresentava dificuldades nas atividades
de difusão. Um progresso desta natureza era além do esperado.
Deve ter sido a influência positiva do dragão do rio Kuzuryu.

Mais um episódio que faz lembrar a afinidade do local é o


caso do dissídio na região de Kyushu.

Logo após a ascensão do Mestre, várias igrejas se


tornaram dissidentes. Em Kyushu, especialmente cinco delas
evadiram-se sob duas facções separatistas. A maioria destas
cinco igrejas estava firmemente filiada a estas duas facções.

Após isso não houve mais dissidências, mas para o


restante que permaneceu fiel, a orientação central se tornou um
tanto difícil de ser introduzida.

Porventura, fui nomeado diretor do Departamento de


Difusão da Igreja e solicitei à Sede Geral a implantação do
sistema de Sedes Regionais para o bem das pessoas das
localidades como aquela descrita. Raciocinei que, com a
instituição de um órgão auto-administrado, além de se
incrementar a força ativa da região, o mesmo iria desempenhar
um papel importante na consolidação da missão baseada na fé,
fortalecendo o eixo com o centro da orientação.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Em 1964, foram estabelecidas três Sedes Regionais: em


Kyushu, em Shikoku e em Hokkaido. Era, na verdade, a base
para Unificação da Igreja e um teste. Através da orientação da
Sede Geral, cada Sede Regional manifestou sua força e
capacidade, eliminando, dessa maneira, as diferenças nestas
localidades.

Nos locais onde a unidade ideológica da Igreja não existia,


ocorriam dificuldades complexas de tal sorte que se tornavam um
entrave para a construção do Paraíso Terrestre. Porém, hoje que
a lgreja conseguiu a sua Unificação, pode ocorrer estarem
enraizados pequenos problemas locais, mas eu confio que no
decorrer dos dias eles desapareçam.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

ESPÍRITOS DO MUNDO ESPIRITUAL

Caso I - Encosto de espírito não purificado em senhora


grávida

Certa vez, o Sr. A., membro fervoroso, trouxe à igreja uma


senhora grávida de uns 30 anos, pedindo que eu lhe ministrasse
Johrei. O Sr. A. ministrava-lhe Johrei há um mês e o resultado
não era muito satisfatório. Depois de orar a Deus, entrevistei-me
com a senhora.

Soube que, após engravidar, num determinado tempo,


apesar da pouca idade, começou a apresentar sintomas de
reumatismo; o pé e a mão do lado direito ficaram adormecidos e
tinha dificuldade de caminhar, enfrentando problemas
inesperados e sentia-se injuriada como mulher. Os pais dela
eram membros da Igreja e, por isso, confiantes em Deus,
ministravam-lhe Johrei, mas sem resultado.

- Eu também já não sei o que fazer, por favor, gostaria que


me orientasse... - disse o Sr. A.

Solicitei informações sobre o seu passado, suas doenças


anteriores, sobre seu estado de saúde anterior e atual. E fiquei
sabendo que até hoje era perfeitamente normal, sem ter tido
nenhuma doença grave. A estatura era bem equilibrada.

Desconfiei que aquilo não era doença dela própria.


Imaginei que aquele quadro de reumatismo era devido à criança
que estava no seu ventre. Algum espírito que não se aprimorara
suficientemente no Mundo Espiritual, tendo apego ao Mundo
Material e desejoso de reencarnar novamente, estava agora no
ventre daquela mulher. A experiência adquirida na salvação de
muitos doentes me mostrava isso.

Fiz uma nova oração a Deus e, desejando em pensamento

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

que o espírito que estava na criança se purificasse


suficientemente para vir ao mundo, ministrei Johrei, voltado à
barriga da mulher.

Durante o Johrei, já foi possível notar a transformação. A


boca, que dum canto escorria baba, se recompunha, a mão
direita, que era inerte, começou a se mover. Terminando o
Johrei, pedi-lhe para se levantar e ela o fez, dizendo que estava
aliviada. Ela se recuperava num piscar de olhos. A mulher
chorava lágrimas de alegria, e foi embora depois de agradecer a
Deus.

Aprendi com isso que a verdadeira salvação consiste em


determinar a causa, orar a Deus para a sua solução e ministrar
Johrei.

Caso II - Espírito purificado através do Johrei

Aconteceu no ano de 1960. O casal K. mantinha um


restaurante de lanche rápido na região de Irago, na península
Atsumi.

Nesta localidade, nos idos de 1950, certo ministro que


cuidava de cem membros, falecera e a difusão ali se estagnara.

Achando que não poderia deixar esta situação por muito


tempo, procurei alguém dentre os ministros que pudesse dar
assistência a eles, e acabei indo à residência do casal K.

Eles haviam se tornado membros há mais de dez anos e,


principalmente a esposa, após minha visita, pareceu ter
despertado novamente, reiniciando as atividades, e visitava os
membros que estavam perdendo fervor na Fé. Era a seriedade
em pessoa. E, mesmo sustentando uma barriga de sete meses,
achava que, pela experiência de quatro filhos anteriores, podia
inclusive andar de bicicleta.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Nesta ocasião, numa tarde de um dia chuvoso, o Sr. K.


veio comunicar a situação atual da difusão, procurando-me na
igreja em Nagóia.

- Reverendo, ontem à tarde, minha mulher acabou


abortando... - começou a falar o Sr. K., após ter feito o relatório
de suas atividades.

- Minha mulher estava no oitavo mês de gravidez e, à


tarde, sentira fortes dores abdominais. Como ainda era cedo para
as contrações, ajeitei-a no leito, mas me pareceu estar em
trabalho de parto. Cheguei apressado com a parteira. Nesse
mesmo tempo, ela dera à luz, mas as crianças faleceram. Eram
dois meninos. Já estava no oitavo mês e eram gêmeos; minha
mulher deve ter sofrido muito. Perguntei sobre sua disposição
hoje cedo e ela me disse que estava bem, além da expectativa.

- Hoje é dia de relatório ao Reverendo, mas acho melhor


eu não ir a Nagóia, dada a sua situação - falei-lhe, mas ela
insistia, dizendo:

- Você deve ir e relatar direitinho ao Reverendo.

- Penso que o relatório não precisa ser feito


necessariamente hoje - redargüi, mas ela foi mais convincente.

- Agora de madrugada, tive um sonho. Os meninos que


perdi ontem e o Mestre se encontravam ao meu lado e... -
começou a me contar o seu sonho, em tom alegre.

O que o Sr. K. me relatou, após tomar fôlego, foi o


seguinte:

Havia um local nublado e, de repente a névoa se dissipou,


deixando um clarão na varanda de uma casa onde dois lindos
meninos estavam sentados lado a lado. Tinham cerca de cinco

151
Cem História da Minha Fé Vol. 2

anos, mas, estranhamente, sua esposa sabia que eram os bebês


que perdera ontem.

Eles se voltaram para ela e disseram:

- Papai, mamãe, muito obrigado.

Era um agradecimento terno e afetuoso.

A Sra. K. não teve tempo de responder, porque percebeu


alguém às suas costas. Ao se voltar viu um homem de cabelos
brancos, muito bem aparentado. Esfregou os olhos para ver
melhor e distinguiu o Mestre na indumentária de sacerdote
xintoísta.

O Mestre acenou amavelmente aos meninos e estes Lhe


disseram, numa postura tão compenetrada que não parecia ser a
de uma criança de cinco anos:

- Mestre, muito obrigado. Hoje nascemos aqui e


prometemos nos dedicar no Servir à sua Causa.

Quando ela os chamou, eles sumiram e, em seguida, o


Mestre também desapareceu.

- Tendo semelhante sonho, e mesmo sendo após o parto,


ela se diz leve de corpo e coração. Pediu-me para relatar sem
falta este acontecimento ao senhor. Por isso estou aqui hoje -
revelou-me o Sr. K., que também não denotava nenhuma
tristeza.

- Seus filhos não puderam nascer nesta vida, mas


puderam ir para junto do Mestre e prometeram dedicar-se à
Causa Divina - falei ao Sr. K., que se foi embora, oferecendo
ervilhas e crisântemos no Altar.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Para mim, pareceu que ele viera à Igreja encaminhado


pelos espíritos desses dois meninos.

Eles não tiveram a permissão de nascer, mas, recebendo


Johrei no útero materno, purificaram-se e a mãe os abortou
naturalmente. Eram crianças que tinham o destino de apenas
realizar essa missão. Mas, no sonho, apareceram na figura de
crianças de cinco anos para demonstrarem sua gratidão. Senti
nisso a alegria deles e me emocionei profundamente.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

DOENÇA DE CRIANÇA É PURIFICAÇÃO DO SEU SANGUE

Podemos sentir a Providência Divina quando vemos a


correnteza do rio na Grande Natureza, que se inicia nas
montanhas, torna-se a água vital para o ser humano e, por outro
lado, recebe variadas formas de impurezas no seu curso até o
mar. Neste intermédio, pela própria ação da correnteza, o rio vai
se purificando e, no mar, para completar a purificação,
transforma-se em vapores de água e sobe ao céu, onde
novamente se transforma em nuvens e chuva, e volta às
montanhas, retornando a água à terra. A grande circulação da
água, como ela é realizada, é uma dádiva de Deus.

A purificação do corpo humano pela atuação de Deus


também se estende aos recém-nascidos e nós devemos estar
bem conscientes dessa purificação.

O bebê que vem ao mundo, hospedeiro de uma nova vida,


traz em seu sangue máculas espirituais decorrentes da sua vida
passada e as dos seus pais. Por exemplo: os que nascem de
parto normal, estão relativamente purificados, e os bebês de
parto difícil são espíritos que, apesar de ainda não terem se
purificado suficientemente no Mundo Espiritual, têm algum apego
pelo Mundo Material. É difícil distinguir se as máculas que estão
nesta tenra vida provêm do corpo da mãe ou de seu espírito, do
pai ou de sua própria encarnação anterior. Porém, o certo é que,
de acordo com o desenvolvimento físico do bebê e através do
seu metabolismo, a própria criança desempenha a função de se
purificar das impurezas do sangue que recebeu no ventre da
mãe. E tudo que for desnecessário à manutenção da nova vida
será eliminado.

Relativamente, as crianças que nascem de parto


complicado por causa do forte apego a este mundo, mesmo que
a purificação inicial seja insuficiente, quanto mais purificar
posteriormente, podem, no decorrer do tempo, se tornar pessoas

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

úteis à sociedade. Isto porque, se purificando, o apego que


complicou o parto manifesta grande força.

O surgimento de febre branda, erupções, pus, fezes


verdes, manchas, no decorrer da evolução do corpo da criança, é
a ação purificadora da própria natureza.

Porém, para refrear a febre, fazem-se compressas frias ou


coloca-se gelo; para terminar com as erupções cutâneas, fazem-
se ungüentos e pomadas ou dão-se remédios de via oral. São
todos eles atos anti-naturais, que impedem as graças da
Natureza. São práticas provocadas pelo domínio do
materialismo. Significa recuar a purificação, fazendo permanecer
no sangue as sujeiras que iriam ser eliminadas.

Por exemplo: existem doenças infantis que todas as


crianças contraem quando pequenas, como o sarampo e a
coqueluche. Mesmo a medicina moderna considera que, uma vez
contraídas essas moléstias, é melhor dar tempo ao tempo,
deixando que a força vital da criança combata a doença até o
término de todo o seu processo, em vez de tentar recuar os
sintomas. Em relação à tosse comprida, o nosso Mestre disse
que ela é um meio de eliminação das toxinas recebidas no corpo
da mãe. A ação dela é a de converter essas toxinas em catarro e
eliminá-lo. Caso se acelere esse trabalho através do Johrei, a
tosse comprida termina em cerca de dez dias. Por isso, não é
tosse comprida. É até uma tosse curta.

O sarampo exerce uma ação de eliminação do sangue


velho que veio do corpo da mãe. Portanto, quando se contrai
essa doença, evita-se expor ao vento frio e aquece-se a criança,
e, quanto mais erupções tiver, mais rapidamente se cura.

O tratamento médico não tem como suprimir as erupções,


restando tão somente deixá-las saírem naturalmente. São
experiências que muitas mães já devem ter passado.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

As vacinas de sarampo aplicadas para prevenção, o que


significa obter tranqüilidade porque deixou sua ação diminuída,
fazem com que a purificação natural seja interrompida. Os pais
devem ter isso sempre em mente.

As crianças, estejam elas acordadas ou dormindo, se


agitam muito. Isto é natural e saudável. É um grande erro pensar
que se pode ficar feliz porque o filho não dá trabalho por ser
muito quieto. A criança sempre tem febre. Em média, ela tem um
grau a mais de temperatura do que o adulto. E devemos
compreender que é a febre que acompanha a purificação. De
maneira geral, quando ela apresenta febre, a mãe pensa que ela
deve ter apanhado resfriado, e toma providências baseadas nos
tratamentos médicos. Essa é uma tendência geral e faz com que
o metabolismo se enfraqueça devido à ação dos remédios e, com
isso, inibe a ação purificadora que estava para ocorrer.

Já ministrei Johrei em inúmeras crianças que, acometidas


de febre, foram diagnosticadas como estando gripadas. Nesses
casos, conversando com suas mães, verifiquei que a razão da
doença está na própria mãe.

É condição essencial para o fortalecimento do bebê dar-


lhe leite materno. Mas, com o avanço da cultura atual, está sendo
predominante o número de mães que criam os filhos somente
com leite em pó. Do ponto de vista das doenças dos filhos, esse
fato é uma das causas que não podemos deixar de apreender. A
fabricação de leite em pó fez ocorrer o recente escândalo da
contaminação por arsênico. Por que, no processo de fabricação,
acabara sendo incluído um veneno tão mortal como o arsênico?
Aquelas crianças que tomaram esse leite acabaram arcando com
a infelicidade de serem, pelo resto da vida, deficientes físicos.

Quer dizer, então, que se for leite materno, não haverá


nenhum problema? Na verdade, não é bem assim. Se a mãe que
amamenta tiver lamúrias, insatisfações, agitar-se nas tristezas e

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

sofrimentos, deixar-se dominar pela ira ou ter um grande choque


emocional, o leite dela se altera profundamente. Isto é, quando a
mãe tem um desequilíbrio psicológico, a criança não pode evitar
de ter febre. O leite materno deixa de ser, nestes casos, algo
puro.

Quando me encontrava com mães nesse estado, em vez


de ministrar Johrei na criança, ministrava-o nas mães, e lhes
explicava sobre o Caminho da Fé.

E quando a mãe refletia sobre o seu estado de espírito e


mantinha a serenidade, a febre do filho logo cessava.

Não é possível haver distorções no sentimento da criança.


O sentimento desordenado da mãe passa através do leite
materno para o corpo do filho, e a febre nada mais é do que o
meio para purificar. Conforme o procedimento dos pais, o nenê
acaba tomando leite tóxico, o que é um infortúnio para ele.

Ou por excesso de travessuras, ou por insuficiente


vigilância dos pais, as crianças se machucam muito na infância e
na puberdade. No caso do adulto, os machucados são mais
freqüentes na ordem de: mãos, pés e quadris, mas no caso das
crianças é na ordem de: cabeça, mãos e pés. Quanto menos
idade, mais se machucam na cabeça. Por quê? É que não há
outro local mais carente de purificação do que a cabeça. O
machucado na cabeça é purificação na cabeça. Enquanto estava
na barriga da mãe, de cabeça para baixo, as impurezas também
se acumularam em maior quantidade nesse local.

Nas partes da cabeça, considerando-se acima do


pescoço, os olhos eliminam remela, os ouvidos, corrimentos, o
nariz, coriza e o topo da cabeça, eczemas. A intensa purificação
da cabeça é uma bênção da natureza.

A saída ininterrupta de remela, corrimento, coriza, provoca

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

a eliminação simultânea das toxinas do corpo. E caso não


fossem eliminadas, acabariam provocando meningite. Existem
casos de crianças que cresceram sem que nada disso tenha sido
eliminado e, de repente, apresentam sintomas de doenças
graves. Isso representa a manifestação da purificação de uma só
vez. Há uns 40 ou 50 anos atrás, era normal as crianças
eliminarem coriza verde pelo nariz. Na capital não era freqüente,
mas, nos vilarejos, isso era até natural.

Porém, hoje quase já não se vê isso. Será porque os pais


conseguiram educar plenamente os filhos? Não penso assim.
Não será porque está se impedindo o trabalho do metabolismo,
através da poluição complexa com a introdução de muitas
impurezas, como os medicamentos tão longamente difundidos,
os vários aditivos químicos alimentares, o uso abusivo de
agrotóxicos? Por essa razão, os bebês sequer conseguem
eliminar as toxinas da gravidez, porque sua força de eliminação
já está enfraquecida.

Por que, na atualidade, se vêem muitas crianças


deficientes físicos? O modismo de se dar à criança remédios ao
menor sinal de febre causa a maior origem desse fenômeno.

Para o benefício verdadeiro da saúde da criança, não se


deve interromper nada que saia naturalmente do corpo humano.
É, antes de tudo, algo para se ficar contente. E, se receber
Johrei, a Luz de Deus, até a tosse comprida se encurta e a
criança volta a ser sadia fácil e rapidamente.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

A PROVIDENCIAL DISPENSA MILITAR

Na época em que iniciei as minhas atividades de difusão,


isto é, na fase final da Guerra do Pacífico, os homens de meia-
idade ou mais velhos que já não eram apropriados para o
combate recebiam a carta de convocação para prestação de
outros serviços de caráter militar, sendo obrigados a trabalhar
nas indústrias bélicas, instalações militares ou outros locais
indicados. Uma vez que eram convocados sob o pretexto de
obrigação de cidadão japonês, tinham que trabalhar, salvo por
precariedade de saúde.

Durante a guerra, eu também recebera convocação para o


combate, na linha de frente na Manchúria. Felizmente, fui
dispensado no momento em que a batalha se tornava mais
cruenta naquela região. E, no outono de 1943, iniciei as
atividades de difusão, conforme já contei em outro episódio.

Quando essas atividades nem contavam meio ano,


chegou-me a convocação de prestação de serviços em fevereiro
de 1944. Ela significava também a interrupção da difusão, e
nenhum motivo pessoal me livraria daqueles serviços. Como meu
registro constava residência em Tóquio, tive que comparecer ao
local indicado para o exame médico. Todavia, deixei a casa que
aluguei para a difusão da maneira como estava.

Foi-me indicada a escola primária de Kanda como o local


do exame. Porém, dois dias antes, comecei a sentir uma
estranha coceira nas nádegas, e acabei coçando até ficar em
carne viva. Com isso, a pele, desde as nádegas até à virilha, se
irritara e ficou pegajosa. O exame de seleção constituía em
rápido exame ideológico e depois havia um exame físico. O
médico notou a aparência grotesca de minhas nádegas e
diagnosticou como hemorróidas de mau aspecto. Portadores de
hemorróidas eram dispensados dos serviços obrigatórios.

159
Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Isto deve ser proteção de Deus - pensei - e saí do local


com feição muito constrangida, procurando disfarçar o coração
radiante de alegria.

Depois que voltei a Nagóia, a coceira das nádegas


desapareceu e aquela má aparência da pele sumiu por completo.
Pude, assim, me compenetrar inteiramente no Servir à Obra
Divina.

Ano de 1945. As derrotas nas batalhas e a inferioridade do


exército já eram indisfarçáveis perante a opinião do povo
japonês, por mais que o Quartel General das Forças Armadas
tentasse camuflar a verdade através de falsos comunicados
expedidos, dada as contínuas retiradas, dizimações e derrotas
sofridas nas várias frentes de batalha. Os ataques aéreos no país
estavam se tornando intensos a cada dia que passava.

A partir de 10 de março, quando houve um grande


bombardeio em Tóquio, as grandes cidades como Nagóia e
Osaka se tornaram desertas, vítimas de bombas americanas
incendiárias e explosivas. A igreja que se localizava em Kohari,
na cidade de Nagóia, se incendiou, mas nem mesmo esse fato
enfraqueceu as atividades de difusão.

Na primeira quinzena de maio, durante uma aula de


aprimoramento em Guifu, acabei dando um comunicado até
profético, dizendo aos membros, habitantes daquela cidade, que
se consideravam isentos do bombardeio, que ficassem em alerta,
pois logo mais seriam atingidos.

Voltando para casa, já havia chegado o comunicado de


convocação para prestação de serviço militar. E, desta vez, não
haveria nem exame físico nem reprovações. Além disso,
estabelecia-se um período provável de três meses, sendo ainda
todos levados às montanhas de Hida para trabalhos coletivos.

160
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Um grupo de cerca de cem pessoas foi embarcado num


trem que chegava até certo trecho do itinerário e, após isso, um
caminhão se encarregava de uma longa viagem de várias horas.
A estrada terminava num acampamento onde havia alojamentos
destinados a nós, trabalhadores. Apesar de não se expressar em
palavras, estava claramente visível na face de todos o espanto e
a resignação por terem sido trazidos a um lugar tão ermo.

- Como todos já sabem - começou a falar um homem -


através dos comunicados de rádio e dos jornais, a guerra está
enfrentando um grande perigo. Doravante, devemos estar
decididos a enfrentar o inimigo aqui dentro do nosso país. Vocês
terão que construir uma estrada para que as obras de edificação
de uma base no interior da montanha possam prosseguir. Quero
que trabalhem firmemente, cientes da importância e urgência
desta empreitada.

A ordem dada pelo mestre-de-obras foi clara, e mostrava


bem como teríamos que trabalhar.

No dia da chegada, todos foram levados a uma grande e


antiga residência, e o dono da casa nos brindou com um
espetacular arroz branco e sopa de soja, o que, numa época de
escassez de alimentos, era um verdadeiro banquete. A
localidade se chamava Tsurugatake, na nascente do rio Atsu à
qual, em circunstâncias normais, uma pessoa da cidade nunca
viria.

O trabalho teve início no dia seguinte. Com a picareta,


quebravam-se as pedras; revolvia-se a terra com a pá e
transportava-se o material numa espécie de maca de redes. Era
uma tarefa árdua. E não era permitido afrouxar o ritmo do
serviço, alegando que não estava habituado: ou melhor, se
demorava um pouco por não estar acostumado, diziam que era
vagabundagem por não gostar do trabalho, e era despejado um
banho de imprecações. Vários soldados indicavam e fiscalizavam

161
Cem História da Minha Fé Vol. 2

o serviço como faz um mestre-de-obras.

- Vocês acham que trabalhando tão vagarosamente


podem se encarregar da retaguarda da guerra? Na frente de
batalha não há moleza assim, não.

Desprezados por sermos palermas, trabalhávamos


firmemente. Voltando para o alojamento, uma refeição pobre
demais nos esperava. Uma mistura de sete partes de feijão de
soja para três partes de arroz, um curtido de ameixa ou conserva
de nabo bem salgado, uma sopa de pasta de soja bem aguada e,
como chá, uma infusão de folhas de uma gramínea. Éramos
forçados a trabalhar desde a primeira luz do amanhecer até
extinguir a claridade do dia. Banho era coisa que tão cedo não
teríamos. O máximo que fazíamos era limpar o corpo suado com
toalha umedecida.

Passaram-se vários dias. Nesse espaço de tempo, um


determinado pensamento me aprisionou.

Ouvíramos dizer que aquelas eram obras preparatórias


para batalhas que eram esperadas dentro do próprio território
japonês. E se continuássemos nesse tipo de trabalho valeria
realmente a pena? As obras, afinal, serviriam ao seu propósito?

Mesmo que aquelas cem pessoas trabalhassem como


formigas, o que poderiam realizar? Se sofrêssemos um ataque
aéreo, nada sobraria.

No entanto, o país todo estava se movimentando no


sistema de: "Se não for militar, não é gente" e, pela maneira
como se efetuavam esses serviços, via-se a falta de inteligência
e capacidade dos militares. É realmente incerto que se ganhe ou
se perca a guerra, mas a situação já não permitia imaginar que
ela seria ganha. Por isso mesmo, palavras aparecem como
batalhas internas. Ao invés de trabalhar em obras de estradas,

162
Cem História da Minha Fé Vol. 2

em benefício da Pátria, seria muito melhor para o país e estaria


comunicando o Caminho de Deus, se eu estivesse ministrando
Johrei às pessoas e salvando-as. O meu corpo já havia sido
entregue aos serviços Divinos. Eu, que devia estar servindo
exclusivamente à Sua causa, estou aqui fazendo essas coisas...
Deve haver um meio de escapar disso aqui... Era como se
estivesse orando a Deus.

Pelo trabalho repetitivo de vários dias, comecei a me


acostumar, mas as juntas continuavam a doer. Mesmo quando
essas dores ultrapassam certo limite, o corpo acaba se
acostumando ao trabalho braçal. Há diferenças pessoais: todos,
no início, se lamentavam mas, ao fim de vários dias, já não mais
reclamavam, e se acostumavam a ser criticados pelo vozeirão do
mestre-de-obras.

A despeito disso, comecei a sentir fortes dores na região


da bacia como se estivesse quebrando. Por minha própria razão,
não podia achar que fosse doença. Na vida militar, àquela altura,
reumatismo e cárie vertebral eram considerados incuráveis. Se,
durante o treinamento, constatava-se uma dessas doenças, o
indivíduo era simplesmente dispensado. Como a causa dessas
moléstias era indefinida pela medicina, não havia como tratá-las.
Além disso, não havia outro meio de realizar o diagnóstico
médico, senão baseado no sofrimento e nas dores do paciente.

Apresentei-me ao chefe da tropa. Ele não acreditou em


mim de imediato, e pediu-me que me submetesse a um exame
médico. Recebendo permissão do mestre-de-obras, fui procurar
o único médico daquele vilarejo.

Antes de iniciar os exames, disse:

- Anteriormente, quando fui recrutado para as lutas na


Manchúria, tive fortes dores na bacia e, para resumir a estória,
disseram-me que estava com não sei quê vertebral, e acabei

163
Cem História da Minha Fé Vol. 2

sendo dispensado do serviço militar. Voltando ao Japão, e


retornando à vida normal, as dores cederam bastante, de
maneira que já havia me esquecido da doença. Será que a
enfermidade se manifestou novamente devido aos serviços
atuais? O que sei é que me dói tanto a bacia que não consigo
suportar as dores.

O médico trouxe um instrumento parecido com um


pequeno martelo e começou a bater levemente na minha coluna
vertebral em direção à bacia e também a pressionar com os
dedos minhas costelas.

- Ai! Dói aí, doutor. Meu Deus, que dor! - disse ao médico.

- É... Parece que é mesmo cárie vertebral.

- Puxa, é mesmo? Uma vez me disseram que era isso


mesmo.

- Olhe, nessa situação, você nem poderia estar se


movimentando, sob risco de ficar inválido, quanto mais trabalhar
em obras de construção de estradas - advertiu-me ele.

- Vou dar, por escrito, o diagnóstico. Leve-o ao seu


superior, está bem?

Acabei sendo considerado portador de cárie vertebral, sem


nenhuma dificuldade. Com gestos de quem não suporta nem
andar, levei o diagnóstico ao chefe da tropa. Este leu-o e me
disse:

- Pode voltar para casa e cuide-se bem. Se for realmente


cárie vertebral, será muito difícil curar-se.

Podia-se ver até uma sombra de pena nos olhos do chefe


da tropa. Os serviços extras para os quais fui convocado

164
Cem História da Minha Fé Vol. 2

estavam previstos para três meses, mas acabei sendo


dispensado em uma semana. Reprimindo a vontade que tinha de
cantarolar e dançar devido à dispensa, deixei o alojamento para
trás. Fora-me permitido voltar para casa, mas precisava vencer a
pé o caminho que, na vinda, percorremos de caminhão. Durante
algum tempo, até me afastar bastante dos alojamentos, portei-me
como um paciente de cárie vertebral, caminhando um pouco e
descansando mais adiante. Quando me vi longe, descansei bem,
esticando os quadris, que, de fato, doíam um bocado.
Acrescentando àquela semana de trabalhos forçados, a estrada
montanhosa e o fato de estar carregando uma mochila de 20
quilos me cansaram muito.

As árvores da mata estavam num verde resplandecente. O


calor era de matar. O caminho, percorrido solitariamente, parecia
não ter fim. Quando, por vezes, encontrava-me com algum
agricultor, não podia deixar de perguntar:

- Quantos quilômetros ainda faltam para chegar a


Hokunou?

- Uns vinte quilômetros, aproximadamente.

Essa distância era longe demais, e começou a chover. Foi


realmente uma caminhada triste e solitária. O dia findou antes
que eu chegasse ao meu destino, que era Hokunou. A estrada
passava por um pequeno lugarejo que, segundo me informaram,
fazia parte da vila chamada Shirotori. Procurei pousada em três
ou quatro casas, e acabei numa hospedaria, tendo que
compartilhar o quarto com mais um senhor de uns sessenta
anos, que parecia comerciante. Como eu mesmo não portava
nem um pouco de arroz, tive que jantar um arroz que tinha mais
da metade de mistura de feijão de gosto ruim. Deitei-me, mas
algum inseto me picara o corpo todo, e acabei não dormindo um
minuto sequer.

165
Cem História da Minha Fé Vol. 2

No dia seguinte, para meu alívio, soube que havia uma


linha de ônibus que ligava este vilarejo a Hokunou. Meu sapato já
estava roto na ponta, e vários dedos estavam à mostra. O ônibus
poupou meus dedos das dores da caminhada e, numa viagem de
30 minutos, cheguei ao ponto final, em Hokunou, onde tomei o
trem.

- Agora posso me dedicar para valer à Obra Divina -


pensava e renovava minhas determinações, deixando-me
balançar nos movimentos gostosos do trem.

Porém, o trem que deveria ir de Hokunou até Mino parou


numa estação antes do destino final, e fomos obrigados a descer.
Tive que caminhar mais cinco quilômetros até Mino, com os pés
em frangalhos.

Descansei por um tempo na residência do Sr. Goto em


Mino, e cheguei à tarde em casa, espantando e alegrando os
meus familiares. No dia seguinte, parti para a igreja em Nagóia, e
lá já se encontravam vários membros que encaminhei nas aulas
de aprimoramento. Minha volta pareceu-lhes algo inédito.

- Como pôde regressar assim tão cedo?

- Ainda tenho muito trabalho de Deus, que necessito


continuar, e Ele me permitiu voltar mais cedo - respondi. Contei-
lhes sobre minha firme importante decisão de me dedicar na
Obra de Salvação das pessoas que sofrem.

Finalizando, acrescento que na semana de serviços


militares, preguei sobre o Caminho da Fé para um jovem
apicultor, que dormia na cama ao lado da minha; depois de ter
sido dispensado, ele veio me procurar em Nagóia e ingressou na
Igreja.

166
Cem História da Minha Fé Vol. 2

AS DEDICAÇÕES EM RETRIBUIÇÃO ÀS GRAÇAS DIVINAS

Como contei em outro capítulo, houve época em que a


maioria das pessoas que recebiam graças através do Johrei,
sequer pensavam em reverter em donativo de agradecimento o
dinheiro que necessitariam usar com médicos, caso não tivessem
sido curadas com o Johrei. Principalmente por volta de 1945,
essa situação era mais acentuada. Aqueles que, recebendo a
Luz de Deus, tinham sua vida salva, traziam, por exemplo, cinco
caquis verdes; tuberculosos que estavam prostrados no leito há
longos anos, em gratidão, ofereciam algo como três sabonetes
baratos, e achavam tudo muito natural.

Portanto, não era nada fácil juntar dinheiro dessas


pessoas para utilização nas obras de difusão, havendo épocas
em que até se hesitava em tocar no assunto.

Em 1949, houve um comunicado do Rev. Shibui, que


desejava obter colaboração na construção do Nikko-Den (Templo
da Luz do Sol), no valor de 40 milhões de ienes. Ficara
estabelecido que, uma vez que a difusão já ia entrando nos
devidos eixos, esse total seria levantado por três regiões. A
região Leste, sob responsabilidade do Rev. lwamatsu, que ficou
incumbido de obter 15 milhões de ienes; a região Centro, da qual
eu era responsável, se encarregou também de obter 15 milhões
de ienes; e os 10 milhões restantes deveriam ser conseguidos
através das demais localidades.

Quinze milhões de ienes era uma grande soma. Não seria


possível consegui-los, simplesmente dizendo aos membros que
seria para o bem da construção. Por outro lado, se fosse explicar
somente sobre a importância do Servir, seria muito abstrato. O
valor da Luz de Deus não seria calculável em dimensões
materiais. É realmente difícil expressar, concretamente, essa
gratidão.

167
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Visando também à elevação da fé dos membros, travei


diálogos como o que vem adiante. Na época, necessitava-se de
cerca de 250 ienes para receber o Ohikari e filiar-se à Igreja. Por
exemplo, aos que encaminhavam 10 pessoas, eu perguntava o
seguinte:

- Considerando dez Ohikari, qual o valor representativo de


sua oferta de gratidão?

- Como são 250 ienes por pessoa, sendo dez, o total seria
2.500 ienes.

- Então, isso significa que, através da força do Ohikari que


recebeu, você pôde encaminhar e ministrar Johrei em dez
pessoas. Já tentou calcular a gratidão que isso representa?

- Você teve a grata experiência de ministrar Johrei para os


outros e, através disso, constatou a Força de Deus, pelo menos
em relação a dez pessoas, não é?

- Sim...

- Então, se fosse representado em dinheiro, o seu Ohikari


valeria 2.500 ienes. Portanto, eu poderia comprá-lo por esse
valor e você reverteria essa soma em donativo. E, receberia um
novo Ohikari. Se for o Ohikari de quem encaminhou 100 pessoas
posso comprá-lo por 25.000 ienes.

Dessa forma, cheguei a conversar minuciosamente sobre


o sentimento com que deviam se empenhar no Servir à Obra.

Havia também pessoas que recebiam um quadro


desenhado por Meishu-Sama, com a figura de Kannon. Eu lhes
perguntava:

- Por quanto você me venderia este quadro?

168
Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Não tenho a mínima intenção de negociá-lo.

- É que existe uma pessoa que deseja comprar. Poderia


cedê-lo por 50.000 ienes?

- Reverendo, já disse que não está à venda.

- Então, eu mesmo poderia comprá-lo por 50.000 ienes, e


se você utilizar essa quantia para oferecer donativo, significa que
você o fez. Isto porque, você possui algo com esse mesmo valor,
simplesmente por ter ingressado neste Caminho.

- Pode deixar, Reverendo, que eu mesmo farei o meu


donativo, pois desejo permanecer com este quadro como
símbolo do recebimento da Força de Deus.

Dessa forma, foi se acumulando tanta oferta de gratidão


que todos ficaram espantados. Ao mesmo tempo, os membros se
conscientizavam, dentro de sua fé, da força que haviam recebido
de Deus. Eles ficavam gratos e felizes por poderem praticar a
gratidão e o Servir à Causa de Deus.

O encaminhamento de dez pessoas à Fé Messiânica


significa ter trabalhado dez vezes para a Obra Divina; quem
encaminhou 50 ou 100 pessoas à Fé, representa ter trabalhado
50 ou 100 vezes, respectivamente. A convicção de que recebeu
uma valiosa força da qual não pode abrir mão, por permitir
participar da Obra de Deus, é que se torna a raiz de uma fé
inabalável. Essa firmeza é o seu patrimônio invisível. Além disso,
como é uma força que se recebeu de Deus, é um tesouro
ilimitado. Quando pessoas possuidoras dessa força utilizam a
matéria, que se chama dinheiro, para a concretização da Obra
Divina para que ela se amplie cada vez mais, estarão tornando a
matéria em Luz ainda mais potente.

A matéria foi criada por Deus e o homem a utiliza. Ao

169
Cem História da Minha Fé Vol. 2

reservar parte dela para dedicá-la a Deus, é que poderá recebê-


la multiplicada muitas vezes. Porém, o ser humano a monopoliza,
sem retorná-la à Obra de Deus. É muita presunção achar que
tudo que conseguiu com o fruto do trabalho é somente seu. Ao
fazer uso de parte da matéria, que recebeu por bênção Divina,
para o bem de Deus, dos seus semelhantes e da humanidade, a
própria matéria ganha vida.

Se conservar o dinheiro apenas para si, ele é um dinheiro


morto. Ofertando-o ao Trabalho de Deus, ele passa a ter vida. É
uma constatação que todos entendem, mas, na realidade, não
conseguem praticá-la facilmente.

Apesar de ter no coração o entendimento de que isso é


dedicação e Servir, a maioria continua em pô-lo em prática
efetivamente.

Meishu-Sama nos ensina que a beleza da Grande


Natureza é o silencioso ensinamento de Deus, e que a matéria é
a materialização do espírito da água.

Observando a Grande Natureza, o que podemos captar de


sua beleza? Vendo o rio que, permeando vales e planícies,
desemboca no mar, podemos apreender o mecanismo da grande
circulação da água. O filete de água, que nasce na montanha, se
junta ao que brota do subsolo, e outros filetes também se unem
para formarem a corrente que se chama rio, e que termina no
mar, onde evapora, formando as nuvens, retornando à terra em
forma de chuva. Não ocorre o rio ir somente para o mar ou
apenas aos céus. A água sempre circula e desenvolve a vida. O
homem que se coloca no meio dessa circulação pode usufruir
dessa água.

Além disso, quando nos atemos às palavras do Mestre, de


que a matéria é a materialização da água, vemos que, ao se
fazer a matéria circular, é que o seu valor passa a ter significado.

170
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Assim, a matéria que cada um conseguiu não é mais do


que algo que Deus lhe emprestou temporariamente. Se
conseguimos vivificar tudo plenamente, é natural que Ele nos
conceda muito mais. Se guardamos tudo para nós, pensando
somente em nosso benefício, a matéria não terá vida, e
tampouco Deus nos concederá mais.

Primordialmente, não existe nada que seja


verdadeiramente nosso. Tudo nos é emprestado por Deus. Isso
se aplica não só à matéria, como às pessoas que conduzimos ao
Caminho da Fé, à esposa e aos filhos. Caso admitamos que tudo
nos é emprestado, a maneira de encarar as coisas se torna
diferente. Se alguém, sob nossa responsabilidade, é realmente
inteligente e habilidoso, devemos estar gratos, pois Deus nos
colocou essa pessoa junto a nós; ao contrário, se a pessoa for
problemática, devemos admitir que é por termos de aprender
com ela que Deus a colocou à nossa frente. Não podemos, em
hipóteses alguma, responsabilizar terceiros pelo que passamos.

Podemos notar naquilo que expus acima, o fundamento do


Servir em ser a maneira de retribuir a Deus os benefícios que
d’Ele recebemos.

Mesmo que percebamos isso tudo, se não houver ação a


partir daí, não demonstraremos o verdadeiro entendimento. Cada
ação é um autêntico Servir a Deus. E quando o praticamos,
podemos nos empenhar em evidenciar a trilogia sentimento-
palavra-ação.

Existe uma comemoração chamada Kanreki, realizada


quando a pessoa comemora 61 anos de vida. Ela encerra o
significado de começar uma nova existência, retornando tudo ao
início. Nessa ocasião, é costume o aniversariante escrever a letra
"KA" (que tem significado de 'florido', 'festivo') em pergaminhos, e
distribuí-los. Talvez esse hábito se tenha difundido porque chegar
aos 61 anos seja algo muito memorável ou que essa letra seja

171
Cem História da Minha Fé Vol. 2

para representar o florescimento máximo da vida.

Dissecando esta letra por outro ângulo, podemos ver algo


interessante. Ela é constituída de seis letras, que significam
"dez", mais uma letra, que significa "um", e isso totaliza 61.

Vejamos também a palavra "hooshi" (servir, dedicar).


Nesse caso, temos seis letras, que significam "dez"; uma, que
quer dizer "um", e duas, que têm o sentido de "pessoa". Isto quer
dizer que, aos 61 anos, somos somente duas pessoas. Acho
realmente interessante que na palavra "hooshi" esteja encerrado
o significado de "fazer retornar as coisas a Deus". E isso é feito
através do homem, o que acho ainda mais interessante.

De qualquer forma, quando praticamos o Servir que


retorna a Deus, podemos sentir a força da Luz que recebemos
d’Ele, através de nossa própria pessoa. E, novamente, temos de
volta o poder da Luz Divina.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

A SÉRIE DE ACONTECIMENTOS MISTERIOSOS

No final de agosto de 1950, o furacão assolou o território


japonês.

Eu morava na cidade de Ichinomiya, no bairro Kamiyama,


no Estado de Aichi. Nesse dia, várias telhas haviam sido
carregadas pelo vendaval, surgindo goteiras, que foram mais
numerosas na nave, onde estava entronizada a Imagem da Luz
Divina. Felizmente, esta não foi afetada, mas permanecer
naquele recinto requeria o uso de guarda-chuva para evitar os
pingos d'água. Além disso, começou a escorrer uma substância
escura, que não se sabia ser fuligem ou poeira que acumulara no
teto, causando grandes transtornos.

Os dedicantes que estavam na igreja à noite subiram no


telhado, correndo grande perigo, e realizaram um conserto
provisório. Conseguiram, assim, eliminar as goteiras, e
respiramos aliviados. Já de manhã, o tempo estava bonito, sem
nenhum vestígio da borrasca. Passamos a manhã e a tarde
limpando e arrumando a igreja.

O dia seguinte era aquele que eu estabelecera para


ministrar Johrei, e várias pessoas que estavam no trabalho de
difusão se reuniram de todos os pontos do país. Nessa
oportunidade, contou-se com a presença de cerca de 80
pessoas.

Iniciei a ministração do Johrei de manhã e, por volta das


19 horas, quando foi a vez da última pessoa, abateu-me um
cansaço tão profundo como até então não havia sentido. Essa
derradeira pessoa era o Sr. Kinnossuke Gota, da cidade de Mino,
Estado de Guifu, que dizia estar com os pés doendo. Terminado
o Johrei, apalpei-lhe os pés e pedi-lhe que se levantasse por uns
instantes. Nesse momento, senti uma forte vertigem, fui invadido
por um indescritível mal-estar e, num extremo esforço, desci até

173
Cem História da Minha Fé Vol. 2

a sala de descanso. Não pude nem jantar e nem tomar banho,


pois, literalmente, caí desmaiado na cama. Não sei exatamente
quantas horas dormi, e, ao dar por mim, eu estava no aposento
ao lado da nave, no andar de cima. Minha esposa se encontrava
ao meu lado.

- O Sr. Murasse está aí desejando receber Johrei. O que


posso fazer? - perguntou-me.

- Peça-lhe para que suba até aqui - respondi.

Vendo-me deitado, o Sr. Murasse disse-me:

- Reverendo, se houver algo que eu possa fazer, diga-me,


sem cerimônia.

- Não se preocupe, logo estarei bem - foi a minha


resposta.

Não tenho nenhuma recordação do que aconteceu depois


disso. Dormi profundamente por vários dias. Não me lembro de
ter tomado qualquer refeição ou mesmo de ter-me levantado para
ir ao banheiro. Não tive nenhuma sensação de dor ou incômodo;
simplesmente, dormi como se tivesse morrido.

Além do fato de eu ter entrado no leito e da chegada do


Sr. Murasse, não tenho nenhuma outra recordação. Fiquei
totalmente inconsciente durante os vários dias em que dormi.

O meu cunhado, irmão mais novo de minha mulher,


Hiroshigue Kawabata, estava ao meu lado ministrando-me
Johrei. Comecei a recobrar vagarosamente a consciência, a
partir dessa cena.

- Por que estou recebendo Johrei deitado? O que me


aconteceu?

174
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Estava divagando, quando, de súbito, soou um estrondo à


minha cabeceira. Foi um barulho tão grande como se uma
bomba estivesse estourando. Com o choque, retomei
completamente a consciência. O barulho foi provocado pelo
quadro de autoria de Meishu-Sama "O Grande Plano Divino", que
caiu do umbral. Kawabata parecia muito assustado.

- Quebrou o prego da parede? - perguntei-lhe.

Ele se levantou, para poder ver melhor.

- Não, não está nem quebrado nem torto.

- Então, o cordão do quadro se partiu?

- Tampouco. Está bem firme.

Por que, então, o quadro caíra? Não havia motivo


aparente para a queda. Só pude achar aquilo muito misterioso.

Pela minha noção, o período em que fiquei inconsciente


era somente de alguns dias, mas, na realidade, foram mais de
dez dias. Não consegui atinar o significado ou a razão daquela
minha estranha purificação. De qualquer maneira, o meu físico se
recuperou dentro de uma semana.

Recebi a permissão de participar da entrevista seguinte


com o Mestre, junto com o Rev. Shibui e esposa, e o Rev.
Iwamatsu, principal líder da Sede Miroku. O encontro se deu na
sala do Solar da Montanha Divina. Após termos recebido Johrei
de Meishu-Sama, relatei-Lhe os estranhos fatos ocorridos
ultimamente.

- "Como é a casa onde você está morando?" - perguntou-


me o Mestre.

175
Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Ela se situa num beco ao lado da Escola de 1º Grau


Kamiyama, a 100 metros a leste e a 50 metros ao norte da
estação Ichinomiya. É um sobrado de bonita aparência, tendo um
terreno de aproximadamente 350 metros quadrados e área
construída total de cerca de 200 metros quadrados. É uma
construção de bom porte, propriedade da família Mori.

Expliquei-Lhe a localização e o tamanho da casa,


juntamente com o histórico de como entramos nela.

Há três anos, quando estava procurando um imóvel que


pudesse servir para igreja e residência, encontrei aquela casa. A
família Mori possuía sete ou oito filhos e o mais velho deles era
diretor da Cia. Estrada de Ferro Kintetsu, em Nagóia. Os outros
eram professores universitários ou pessoas de destaque na
sociedade. O irmão caçula era bem diferente dos outros. Solteiro,
apesar de já ter mais de trinta anos, não trabalhava, pois era
tuberculoso.

Com a condição de que tomássemos conta de tudo que se


referisse a este rapaz, a família Mori nos emprestou, inteiramente
grátis, todo o sobrado, exceto o quarto do rapaz.

Na realidade, a família Mori utilizava-se do filho mais novo


para tomar conta da casa, enquanto todos estavam ausentes,
mas ela já não conseguia cuidar dele devidamente. E caso
pudéssemos fazer isso, o aluguel seria totalmente dispensado.
Para eles era unir o útil ao agradável, isto é, praticar o útil
livrando-se do desagradável.

Esse irmão mais novo era formado em Agronomia pela


Universidade Imperial de Quioto, além de muito versado em
inglês e matemática. Dizem que ele recusara um convite para
pertencer ao corpo docente da Universidade Imperial de Nagóia.
Após contrair tuberculose, não havia feito nenhum tratamento
específico e nem limpava mais o seu quarto. Quando lhe dava

176
Cem História da Minha Fé Vol. 2

vontade, ensinava inglês ou matemática aos garotos da


vizinhança.

Tinha um metro e oitenta e pesava 45 quilos. Apesar de


magro como um bambu, era um grande comilão. Comia
separado de nós, mas precisávamos cozinhar, à parte, cerca de
um quilo de arroz para saciar sua fome. Conversávamos e
mantínhamos um relacionamento normal, mas ele não se
interessava por assuntos religiosos.

Meishu-Sama, que ouvia atentamente a minha narração,


interrompeu-me e disse, muito severamente:

- "Isso é intolerável. Pessoa como você, que realiza o


Trabalho de Deus, não deve ficar numa casa assim. Deus não
perdoará. Você tem capacidade suficiente para formar uma igreja
Regional. Por que não o faz?"

Baixei a cabeça, sem nenhuma resposta.

Compreendia que, sobre a atual casa eu era passível de


repreensão, mas em relação à Igreja Regional foi uma grande
surpresa. Sequer pude entender por que esse assunto partira de
Meishu-Sama naquela hora.

Nos últimos nove anos me dedicara à Obra Divina


seguindo o Rev. Shibui, recebendo suas orientações e
instruções. Acreditava firmemente que essa era a ordem e o
caminho corretos. Qual a razão do Mestre se referir sobre o
assunto da Igreja Regional daquela maneira tão séria, não se
importando com a presença do Rev. Shibui e do Rev. Iwamatsu,
meus superiores? Para mim foi algo profundamente misterioso.

- "Institua, imediatamente, uma Igreja Regional. Não fique


nem mais um dia na atual casa" - disse Meishu-Sama,
categoricamente, deixando bem claro como eu deveria proceder.

177
Cem História da Minha Fé Vol. 2

- Sinto-me constrangido em dizer, mas não possuo


dinheiro para adquirir qualquer outro imóvel - redargüi.

- "Dinheiro é coisa de menor importância, no momento.


Aliás, Deus já o tem preparado para você. É premente que não
fique por mais tempo nesta casa. Mude-se já. Com certeza Deus
lhe preparou uma casa mais ampla e com melhores condições:
basta procurá-la" - disse-me, profeticamente.

- Sim, me empenharei totalmente na procura - respondi-


Lhe e me retirei.

No caminho de volta, ansioso para esclarecer melhor


aquele assunto, perguntei sobre mais detalhes ao Rev. Shibui,
mas ele não fez nenhuma referência sobre a nova casa ou sobre
a instituição da Igreja Regional.

Chegando em Ichinomiya, fiz meus cálculos. Tinha em


mãos somente cerca de 800 mil ienes. Não haveria nenhuma
casa adequada que pudesse adquirir com aquele montante.
Porém, me martelava a cabeça a orientação de Meishu-Sama de
que Deus já havia preparado tudo.

Algum tempo antes, em 1947, eu havia andado em busca


de um bom imóvel. Um deles estava localizado perto da estação
de Guifu, tinha um terreno de mais ou menos mil metros
quadrados e uma casa de mais de 300 metros quadrados. Seu
preço era de 50 mil ienes. Nessa ocasião, só possuía 20 mil
ienes, faltando, portanto, 30 mil para poder adquiri-lo. Aí, parti
para a região de Shinshu, onde Rev. Shibui se encontrava nos
trabalhos de difusão. Consultei-o sobre a possibilidade dele me
fazer um empréstimo para inteirar o dinheiro. O Rev. Shibui,
estranhamente, não quis dar atenção ao meu pedido. Sem outra
alternativa, voltei para casa resignado.

Vigorava, nessa época, um sistema estabelecido pelo

178
Cem História da Minha Fé Vol. 2

próprio Mestre, que me permitia utilizar até um terço do total do


donativo que se recebia dos membros como gratidão pelo Johrei.
E como eu procedia conforme o determinado, entregando os dois
terços restantes ao Rev. Shibui, acreditava que, se fosse um
capital necessário para ampliar a Obra Divina, conseguiria
facilmente obter o empréstimo.

Após esse incidente, a casa que me foi permitida usar


gratuitamente luziu como uma bênção de Deus e eu me transferi
para lá, muito contente.

Três anos depois, Meishu-Sama ordenava- me que saísse


dela incontinenti. Obviamente, eu não possuía recursos
financeiros para esse fim. Estava num beco sem saída.

Estava nessa dificuldade quando chegou o Sr. Sato, um


jovem que difundia a Fé Messiânica na vila Assahi, cerca de 12
quilômetros a leste de Ichinomiya.

- Reverendo, soube que há um bom imóvel na cidade de


Nagóia. Não gostaria de ir vê-lo? - começou a falar, assim que
me cumprimentou.

Era uma coincidência inimaginável. Nunca havia


comentado nem pedido a ele sobre qualquer imóvel que
estivesse procurando. Tratava- se de uma iniciativa
surpreendente. Inclusive eu só começara a me preocupar sobre o
assunto somente após o encontro com Meishu-Sama. Seria
aquela a indicação Divina que eu aguardava? Pensei assim e, na
manhã seguinte, dirigi-me a Nagóia, juntamente com o Sr. Sato.
Percorremos vários locais indicados por um corretor, mas a
média do preço era de 3 milhões de ienes, o que estava bem
longe das minhas possibilidades. E os imóveis mais baratos não
se prestavam para abrigar a igreja. Eu só o acompanhava
calado, sem que nenhum deles me atraísse a atenção.

179
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Já ao entardecer, a última casa que fomos ver situava-se


em Shimo-Zentsu. Externamente estava muito avariada e não
era, de modo algum, atrativa. Por falta de tempo, também, só a
olhamos por fora.

Supondo que a sugestão trazida pelo Sr. Sato fosse um


sinal da Vontade Divina, parti bastante animado para Nagóia,
mas voltei a Ichinomiya muito desanimado, depois de um dia
estafante e inútil.

Passou-se um mês e eu continuava procurando o imóvel,


nos intervalos do trabalho. Porém, não estava fácil encontrar um
local que estivesse perfeitamente dentro das condições.

Nisso, realizou-se, em Nagóia, uma demonstração de


"nagauta" (longa canção épica) que minha filha estava
aprendendo, e eu e minha mulher fomos assistir. Por termos
chegado mais cedo, tínhamos o tempo livre. Resolvi aproveitá-lo
para ir fazer oração no Santuário Atsuta. Havia me recordado das
palavras de Meishu-Sama:

"Em qualquer região existe uma divindade, que é


padroeira daquele lugar. Quando for realizar difusão em um novo
local, é conveniente que vá saudar primeiramente aquela
divindade."

Percebi que, realmente, ainda não havia orado no


Santuário Atsuta. Fiz um donativo bem expressivo e rezei. Senti
meu interior bastante aliviado. Já no trem, vi que ainda tinha
algum tempo até a hora da apresentação de minha filha. Estava
pensando no que fazer até lá, quando ocorreu-me o desejo de
ver mais detalhadamente o imóvel de Shimo-Zentsu, que não
conseguimos examinar direito anteriormente. Não havia ninguém
na casa. Como da outra vez, nos limitamos a olhá-la por fora, e
voltamos à estação, crentes que não possuíamos nenhuma
afinidade com aquele lugar.

180
Cem História da Minha Fé Vol. 2

O trem que chegou estava lotado, sem termos condições


de embarcar. Resolvemos, então, aguardar o próximo. Nesse
ínterim, avistei a dona da casa em que havíamos estado a qual,
creio, descera do trem que passara. Reconheci-a, apesar de só
tê-la visto na nossa visita anterior. Ao me apresentar e anunciar o
motivo da minha presença ali, ela insistiu para que a
acompanhasse. E, assim, pudemos, enfim, ver a casa por dentro.

Ao contrário da parte externa, que estava bem


desarrumada, o interior era de um estado admirável e o
madeirame estava perfeito. A disposição das pedras no jardim
interno, a situação da casa em relação ao terreno, tudo estava
em ótima conformidade. Com uma boa reforma, ela se
transformaria em uma igreja muito adequada. A casa estava
erguida numa pequena elevação rochosa, permitindo uma ampla
visão na direção sudoeste, uma vez que, naquela ocasião, os
terrenos vizinhos ainda estavam desocupados. Era do meu
inteiro agrado. Fiquei bastante exultante.

- Por quanto gostaria de vender? - perguntei, de supetão.

- Queremos 2 milhões e 500 mil ienes.

Bem, pensei, por esse preço já tenho alguma esperança.

- Não poderia deixar por 2 milhões? - inquiri, apesar de


não ter certeza de poder comprar nem por este valor.

- Neste caso, tenho que conversar com meu marido - disse


a proprietária.

Pelo preço pedido, 2 milhões e 500 mil, aquele imóvel era


um grande negócio. E também não imaginava que fosse
possível, em primeira instância, comprar-se um imóvel daquele
quilate por esse preço.

181
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Três dias depois, o próprio dono da casa veio a


Ichinomiya, especialmente para dar sua resposta.

- Pode ser por 2 milhões de ienes. Está à sua disposição -


disse-me.

Fiquei deveras espantado. Além disso, por esse mesmo


montante, ele cedia o telefone também! Entretanto, eu não
possuía essa quantia à mão. Resolvi contar-lhe, honestamente,
minha situação.

- É meu desejo utilizar aquele imóvel para a Obra de Deus.


Quanto ao dinheiro, prometo que o terei dentro de alguns dias...

- Sim, posso esperar. Não vejo nenhum impedimento -


respondeu-me o proprietário, muito amável.

Chegara o momento de conseguir 2 milhões de ienes.


Segundo Meishu-Sama, Deus já os havia preparado para mim.
Será que esse caminho se abriria?...

Eu ainda precisava firmar muito meu pensamento.12

12
N.T. Este episódio tem continuidade na estória intitulada "Construção da Igreja após o
Pedido de Proteção", no 3° volume, pág. 36.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

LIVROS DE NOSSA EDIÇÃO

Alicerce do Paraíso, 1º Volume


Alicerce do Paraíso, 2º Volume
Alicerce do Paraíso, 3º Volume
Alicerce do Paraíso, 4º Volume
Alicerce do Paraíso, 5º Volume
Diálogo com os Jovens
Ensinamentos de Nidai-Sama, Volume I
Ensinamentos de Nidai-Sama, Volume II
MOKITI OKADA - Introdução à sua Filosofia
Fragmentos de Ensinamentos de Meishu-Sama
Guiado pela Luz
Igreja Messiânica Mundial (a cores)
Orações e Salmos
Os milagres do Johrei
Oferta de Gratidão
Johrei
Ofício Religioso de Assentamento e Sagração dos Ancestrais
Oração e Culto
Reunião no Lar
Salvação através do Belo
Reminiscências de Meishu-Sama, Volume I
Reminiscências de Meishu-Sama, Volume II
Reminiscências de Meishu-Sama, Volume III
Reminiscências de Meishu-Sama, Volume IV
Introdução à Agricultura Natural
Luz do Oriente, Volume I
Luz do Oriente, Volume II
Luz do Oriente, Volume III
Guiados por Meishu-Sama, Volume I
Fiquei Mais Feliz, Volume I
Vivificação Floral Sanguetsu - Fascículo N° 1
Vivificação Floral Sanguetsu - Fascículo N° 2
Vivificação Floral Sanguetsu - Fascículo N° 3
Vivificação Floral Sanguetsu - Fascículo N° 4

183
Cem História da Minha Fé Vol. 2

Vivificação Floral Sanguetsu - Fascículo N° 5


Vivificação Floral Sanguetsu - Fascículo N° 6
Vivificação Floral Sanguetsu -- Fascículo N° 7
Vivificação Floral Sanguetsu - Fascículo Nº 8
O Homem ser Religioso
Álbum Fotográfico - Viagem Missionária de Kyoshu-Sama ao
Brasil
Apostila: Curso de Princípios Messiânicos e Curso de Formação
de Novos Membro
Primeiras Noções da Oração Amatsu-Norito
Máximas e Pensamentos de Meishu-Sama
Milagres da Visita Missionária de Kyoshu-Sama ao Brasil
Academia Sanguetsu de Vivificação pela Flor - Curso Básico -
Edição Revisada
A Outra Face da Doença - A Saúde Revelada por Deus
Cem Estórias da Minha Fé

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

PRIMEIRAS NOÇÕES DA ORAÇÃO AMATSU-NORITO

Entoada diariamente pelos fiéis de nossa Igreja, esta


oração tem o poder de purificar o Mundo Espiritual à nossa volta.
Contudo, ela possui um sentido cuja profundidade merece ser
esclarecida. A finalidade desta publicação é fornecer algumas
explicações elementares sobre o significado geral das
expressões nela contidas. 28 páginas. 11 x 18 cm.

MÁXIMAS E PENSAMENTOS DE MEISHU-SAMA

Nestas máximas e pensamentos, Meishu-Sama expressa


suas experiências espirituais através de sua prática religiosa
pessoal. São pequenos textos escritos em linguagem poética,
frutos de revelações obtidas a partir de verdades apreendidas
diretamente de situações cotidianas, onde sempre está presente
a Mão Divina, que tudo orienta. Aparentemente simples, são às
vezes de difícil compreensão, em virtude da profundidade com
que os títulos são tratados. As vibrações positivas emanadas das
palavras contidas nestas máximas e pensamentos transformam o
Mundo Espiritual, e sua entoação pode servir, de acordo com o
tema, a ocasiões especiais. 50 páginas. 11 x 18 cm.

CEM ESTÓRIAS DA MINHA FÉ - 3 VOLUMES

O Reverendíssimo Katsuiti Watanabe, discípulo direto de


Meishu-Sama e pai do Reverendo Tetsuo Watanabe, presidente
da Igreja Messiânica Mundial do Brasil, é o autor destes três
volumes de CEM ESTÓRIAS DA MINHA FÉ. Uma das mais
notáveis autoridades de nossa Igreja, ele revela nesta obra suas
experiências pessoais de fé convicta. São emocionantes páginas
- mais de 600 - que constituem um importante testemunho de fé
e despertam grande interesse, não apenas espiritual como
também intelectual. Nelas o autor revela, em linguagem simples
e sincera, a força do JOHREI, transmitindo verdades
incontestáveis que auxiliam a todos que se propõem a

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

desenvolver um verdadeiro caminho religioso. 11 x 18 cm.

FIQUEI MAIS FELIZ

Escrito pelos próprios membros, este livro contém, em


suas 52 páginas, relatos verídicos de maravilhosas graças
alcançadas através do JOHREI. Trata-se de experiências vividas
por dezenas de pessoas que viram suas vidas completamente
mudadas pela atuação do poder da Luz de Deus. As graças
obtidas referem-se à solução de conflitos e de problemas
financeiros e à cura das mais diversas doenças. Nele encontram-
se também informações básicas sobre os Princípios da Fé
Messiânica, assim como os endereços de nossas Unidades
Religiosas no Brasil e Exterior. São 52 pági nas, 11 x 18 cm.

A OUTRA FACE DA DOENÇA

Mokiti Okada apresenta neste livro o tema Saúde-Doença


sob uma ótica completamente diferente e nova, que revoluciona
o que a ciência acadêmica pensa a respeito. São Ensinamentos
sobre a verdadeira natureza do homem e as implicações que
existem entre o que se chama de doença e os conflitos e outros
males que afligem o homem e a sociedade em geral. As causas
reais dos conflitos estão nas indisposições físicas, de origem
espiritual, que ocasionam a ira, a belicosidade, a guerra, a
pobreza e a miséria. O livro, de 202 páginas, revela também as
formas adequadas de eliminar estes males, através de processos
naturais de purificação, apresentando métodos de dietética,
agricultura natural e outros. E levanta, não apenas para os
membros da Igreja Messiânica Mundial do Brasil, mas a toda a
sociedade, controvérsias úteis ao esclarecimento deste
importantíssimo assunto. Formato 14 x 21 cm.

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Cem História da Minha Fé Vol. 2

Colaboradores:

Tradução
Júlio Barbieri Júnior
Manabu Yamashita

Revisão
Ricardo Tatsuo Maruishi

Capa
Lúcio Seiji Segawa

Copidesque
Berenice Chicarino

Arte Final
Shiguenori Koarata

Secretaria
Yukihissa Asafu
Ivna M. Porto
Alice F. Ideguchi
Lidia S. Kinoshita
Roselis F. Benasayag

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