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UFES – UIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CCJE – CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E


ECONÔMICAS
BIBLIOTECONOMIA
LUCAS MARTINS IZOTON

O USO PÚBLICO E O USO PRIVADO DA RAZÃO:


Definições kantianas.

VITÓRIA – ES

2013
LUCAS MARTINS IZOTON

O USO PÚBLICO E O USO PRIVADO DA RAZÃO:


Definições kantianas.

Trabalho apresentado ao curso


de Biblioteconomia da
Universidade Federal do
Espírito Santo, para a
obtenção de pontos na média
da disciplina Introdução à
Filosofia, ministrada pela
professora Siloe Cristina.

VITÓRIA – ES

2013
A diferença entre uso privado e uso público da razão - Immanuel
Kant é um dos maiores expoentes da corrente filosófica racionalista, que floresceu no
séc. XVIII. Era a época do nascimento de uma corrente filosófica conhecida como
Iluminismo. Os filósofos iluministas, dentre os quais se destacam filósofos como os
franceses Voltaire, Diderot e Montesquieu; e o inglês John Locke, acreditavam que o
uso pleno da razão poderia libertar o ser humano dos grilhões que os mantêm
aprisionados. Eles questionavam o poder centralizado nas mãos dos monarcas e a
autoridade da Igreja Católica, que à época detinha grande força política.
Kant conceitua o Iluminismo como “(...) a saída do homem de sua menoridade,
da qual ele próprio é culpado.” (KANT, 1783, p. 516). Seu pensamento é o expoente de
uma corrente filosófica que arrancava das mãos da transcendência a autoridade sobre os
pensamentos e as ações humanas. Kant acreditava que a capacidade cognoscente da
razão é limitada e, na falta de um ser externo ao homem, que dê a ele uma lei moral pela
qual se pautar, o próprio ser humano deve conhecer a lei moral à qual todos os seres
racionais estão sujeitos, e só se chega a essa lei moral no terreno da Metafísica. Só pelo
conhecimento da lei moral, o ser humano pode se tornar realmente livre. Por acreditar
que a razão deveria manter observância da lei moral, Kant acreditava que ela é a sua
própria tirana.
O uso que o homem faz de sua razão está na base dos conceitos de Kant sobre
liberdade. O ser humano é um ser racional, mas ao mesmo tempo é um ser instintivo, e
por consequência disso, sofre a tendência de se desviar da lei moral cujo conhecimento
ele adquiriu através do uso de sua razão. Aquele que consegue colocar seus instintos sob
o jugo de sua razão está num estado que Kant define como maioridade, e é chamado
autônomo. Uma vez que esse homem se serve apenas de seu entendimento, não precisa
de outrem para lhe ditar regras e preceitos. Aquele que, por outro lado, deixa-se tornar
em escravo dos seus instintos, mesmo tendo o entendimento da lei moral, está num
estado de menoridade, e precisa de agentes externos que lhe regulem as vontades e o
coloque na trilha traçada pela lei moral a cujo conhecimento chegou graças ao seu
raciocínio, sendo por isso considerado um heterônimo.
Os conceitos de maioridade e menoridade são as bases nas quais Kant se embasa
para discorrer sobre os usos público e privado da razão. Ele argumenta que para se ser
verdadeiramente livre, é necessária a liberdade de se servir da própria cognoscência, e
essa característica é conceituada como o uso público da razão.
O uso público da razão, segundo Kant, é aquele que qualquer um pratica, diante
de um público letrado, na qualidade de erudito. Ele se centra no livre exercício da crítica
e da argumentação. Ele é baseado na autonomia do ser. O uso privado da razão, por
outro lado, é aquele do qual se servem os que estão incumbidos de cargos públicos, e
fala de acordo com os desígnios de um grupo determinado. É o uso da razão que fazem
aqueles que estão seguindo ordens de algum poder instituído, como policiais, padres,
professores e a população em geral. Este uso da razão é baseado na heteronomia, e é
verificado em situações em que não é dado ao indivíduo questionar comandos, mesmo
que as exigências que lhes são feitas colidam frontalmente com sua consciência
individual.
É bom saber, porém, que a heteronomia não tira do indivíduo a responsabilidade
pelas suas ações, e há aqueles que, mesmo colocados em situações que lhes exigem
completa obediência, fazem uso do raciocínio, e como consequência muitas vezes
pagam variados preços por sua insubordinação. O filósofo americano do séc. XIX H.D.
Thoreau, por exemplo, recusava-se a pagar seus impostos porque não queria ajudar a
financiar um governo injusto e uma guerra sangrenta que seu país travava contra o
México. Por essa razão, passou uma noite na prisão.
A pergunta que ele faz em seu livro desobediência civil tem um grande paralelo
com o pensamento kantiano sobre liberdade e consciência. “Deve o cidadão desistir da
sua consciência, mesmo por um único instante ou em última instância, e se dobrar ao
legislador? Por que então estará cada homem dotado de uma consciência?”
(THOREAU, 1849, p. 2).
Kant conclui que só o livre exercício do uso público da razão colocará o ser
humano no caminho da ilustração.
REFERÊNCIAS

KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: O que é o Iluminismo, A


paz perpétua e Outros Opúsculos, Edições 70, 1990;

THOREAU, Henry David. A Desobediência Civil, 1849, disponível


em < http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?
select_action&co_obra=2249>, acesso em 03 de Agosto de 2013.

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