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AS QUATRO VERDADES NOBRES

Todo o conjunto dos ensinamentos do Buda giram ao redor desse tópico. Depois de
quarenta e cinco anos de serviço para a humanidade, o Buda disse “Bhikkhus, todos estes
anos eu apenas lhes ensinei quatro palavras.” Em outra ocasião ele disse: “Bhikkhus, eu
lhes ensinei tudo sem manter nada em segredo.” Ele tomou algumas folhas da floresta e
perguntou o que era maior, a quantidade de folhas na sua mão ou a quantidade das folhas
na floresta. Os bhikkhus responderam que as folhas na mão dele comparadas com as
folhas na floresta eram insignificantes. A floresta possuía mais folhas do que aquelas na
mão dele.
Analisando essas afirmações, elas parecem contraditórias. A primeira, quando ele disse
que ensinou apenas quatro palavras e depois disse que ensinou tudo sem manter nada
em segredo. Uma outra, quando ele disse que o que ele havia ensinado era igual a
quantidade de folhas na sua mão e aquilo que ele não havia ensinado era igual a
quantidade de folhas da floresta.
Não há contradição. Significa que devemos conhecer as quatro palavras em Pali, não em
Português. Elas são dukkha, samudaya, nirodha, magga. Em Português elas significam
sofrimento, a causa do sofrimento, o fim do sofrimento e o caminho que conduz ao fim do
sofrimento. Isso foi tudo que ele ensinou. Ao estudar a literatura Budista você encontra
uma verdadeira selva. É muito difícil para as pessoas conseguir por essa selva em ordem
e encontrar essas quatro palavras. As pessoas ficam confusas. Nos dias de hoje é quase
impossível, para muitas pessoas, conhecer aquilo que o Buda realmente ensinou. Por isso
existem muitas coisas por aí que passam por ensinamentos do Buda.
Qualquer coisa que você leia em nome do Budismo, que não se encaixe dentro dessas
quatro palavras que são o núcleo do ensinamento, pode colocar de lado sem nenhum
problema. A palavra dukkha tem sido interpretada como insatisfatório porque a palavra
sofrimento é muito desagradável. Ao ouvir a palavra você sofre. Você não quer nem ouvir
a palavra, quanto mais entendê-la.
A essas quatro palavras foram adicionadas outras quatro palavras (em Pali), para indicar a
sua função. Isto é, o entendimento perfeito, o abandono completo, a realização perfeita e
o desenvolvimento perfeito. Você poderá começar por qualquer uma delas. O
entendimento perfeito é compreender a nossa situação, nosso problema, nossa
insatisfação. As pessoas não compreendem isso. Elas tentam fazer de conta que isso não
existe, tentam varrê-lo para debaixo do tapete. Elas dizem que isso não é verdade – a vida
é agradável, bela, prazerosa, satisfatória. Não existe o sofrimento. Assim é como as
pessoas enganam a si mesmas, escondem a verdade, fazem de conta que não sofrem. É
por isso que elas continuam permanecendo no samsara. O Buda descreveu o sofrimento
em poucas palavras e elas abrangem tudo aquilo que diz respeito ao sofrimento.
Quando, antes de deixar a sua casa, o Buda viu as três marcas do sofrimento, ele
compreendeu a sua profundidade. As três marcas que ele viu foram a velhice, a
enfermidade e a morte. Essa não é uma experiência que impressione muita gente porque
ela pode ser ignorada. Velhice acontece para algumas pessoas, não para nós. Nós nunca
envelheceremos. Enfermidade, algumas pessoas se enfermam, nós não nos
enfermaremos. Algumas morrem, nós não morreremos. As pessoas podem simular dessa
forma. Siddhartha viu essas coisas desde a sua infância. É retratado nos livros que ao ver
o homem idoso ele começou a tremer, refletindo sobre o que era aquilo, como se ele fosse
uma pessoa muito estúpida que não soubesse nada. Ele na verdade era um gênio. Ele não
precisava ver aquele homem velho para compreender a verdade da vida. Ele sabia que a
vida é impermanente. Desde a infância ele sabia da diferença entre ele e o seu pai. O seu
pai era alto, velho e ele era jovem e pequeno. Ele deve ter visto muitas folhas nas árvores
– algumas eram velhas, outras novas. Ele deve ter visto tudo isso e uma pequena coisa
teria sido suficiente para despertar a sabedoria, o conhecimento que ele havia cultivado
no samsara. Essa não era a primeira vez que ele compreendia o problema do sofrimento.
Quando ele viu o homem enfermo essa não foi a única vez que ele compreendeu que as
pessoas adoecem. Desde a sua infância ele havia compreendido isso. Embora ele
estivesse afastado de tudo isso ele compreendia tudo isso. Isso não era um segredo para
ele. Quando ele viu essas três marcas no seu caminho para a cidade, esse foi um
momento decisivo para a sua decisão de encontrar uma solução para o sofrimento.

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Após alcançar a iluminação, no seu primeiro sermão ele descreveu o sofrimento. Ele disse
aos cinco bhikkhus, o nascimento é sofrimento. Sofrimento de quem? Da mãe, do bebe, da
sociedade? Na verdade é sofrimento de todos. Todos os bebes nascem, não com um
grande sorriso. Todos nascemos com um grande choro. Esse choro pode ser ouvido em
todo o mundo. Esse choro continua até que a pessoa morra. Algumas vezes ele é ruidoso,
outras queima internamente. Esse choro é um lamento por comida, roupas,
medicamentos, papéis, veículos, estradas, casas, dinheiro e tantos outros problemas.
Todos nós temos esse lamento interior, a todo instante. Todos os problemas no mundo
hoje e no futuro dependem do nascimento, desse lamento. Veja o que acontece no
mundo. Tudo está poluído – ar, água, a população se expandindo, guerras em toda parte,
todos os tipos de enfermidade. Pense em todas as coisas que experimentamos no dia de
hoje devido ao nascimento de todos nós. Bilhões de pessoas nasceram e bilhões de
problemas foram criados no mundo. Todos podem ouvir esse lamento.
Se você pensar nisso, dirá que não quer voltar a nascer. Esta vida é o bastante. A isto se
denomina não obter aquilo que se deseja. Obter aquilo que não se deseja é sofrimento.
Essas são as duas tragédias na nossa vida, ambas são sofrimento. O Buda explicou o que
significa não obter o que se deseja. Você não consegue um emprego, não vive em uma
boa vizinhança, não tem uma boa casa, bom carro, você quer obter essas coisas, mas não
as tem, por isso você sofre. Essa é uma análise superficial. Até mesmo uma criança
poderá compreendê-la.
Um significado mais profundo de não obter aquilo que se deseja é quando pessoas
inteligentes, bem instruídas, adultas, ao pensar e ponderar sobre os problemas que
enfrentaram na vida, concluem que não necessitam mais de outras vidas. Esta é o
bastante. Eu enfrentei as piores situações possíveis. Não quero mais outras vidas. Esta é o
bastante. Esse é um desejo bastante honesto. O Buda disse que somente formulando esse
tipo de desejo não é possível interromper o ciclo. Você foi pego na armadilha. Você não é
capaz de evitar o próximo nascimento. Porque? Através do desejo você não elimina as
causas para o próximo nascimento. No momento em que você pensou nisso, os
fundamentos para a próxima vida já foram estabelecidos. Quer você goste ou não, você
foi pego. Você não consegue escapar. Esse é o sofrimento de não obter aquilo que se
deseja e obter aquilo que não se deseja. Você não quer renascer, mas renascerá.
Você poderá se perguntar porque devo obter aquilo que não quero? Não é justo. Eu
sempre acabo obtendo aquilo que não quero. Você criou isso. Você preparou a si mesmo.
O próximo passo é que ao nascer estamos crescendo. Começamos com uma célula e
terminamos com três trilhões de células. Pensamos que isso é o suficiente. Não queremos
crescer mais. Mas isso é parte do trato. Você fez um acordo. Você está crescendo.
Pergunte a uma criança a idade que ela tem. Ela pode ter quase cinco anos e ela dirá que
tem cinco anos. Ela quer se tornar um adulto e possui essa ansiedade de crescer. Essa
ansiedade não cessa quando a criança cresce e se torna um adulto. Uma vez que ele
alcança uma certa idade, ele quer parar esse crescimento. Mas ele não consegue. Ele
iniciou esse processo e este segue sem interrupção. O crescimento em si não é doloroso.
O que acontece na mente quando pensamos sobre o crescimento é que causa a dor. Não
é a aparência do envelhecimento que é dolorosa ou o processo de crescimento em si que
é doloroso. Quando pensamos a seu respeito é que surge a dor. Porque? Porque o
crescimento nos leva a algum lugar. Nos leva numa direção e começamos a antecipar
aquilo que irá ocorrer. Essa é outra coisa que não queremos. Ficamos chocados – as
pessoas morrem. Eu morrerei. Esse pensamento é tão chocante. Se existe qualquer coisa
que possamos fazer para impedir isso, nós a faremos. As pessoas gastam fortunas para
impedir a morte, o crescimento. Não somente a cirurgia plástica mas muitas outras coisas
também.
Todos nascemos com um bilhete de ida e não há recurso. Nos mantemos sempre na
mesma direção porque as coisas são impermanentes. Por “coisas” queremos dizer que os
agregados são impermanentes. Portanto essa impermanência é parte inerente do sistema.
Eles são permanentemente impermanentes. A única coisa permanente é a
impermanência. Assim seguimos sempre naquela direção. Quando nos damos conta de
que não há como parar isso, ficamos muito insatisfeitos.
Isso é verdade? Como você pode dizer que o sofrimento existe na Índia, na África, no Sri
Lanka, mas não em Melbourne na Austrália ou em Nova Iorque nos EUA? O sofrimento
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existe em todo lugar. É muito assustador quando você pensa a respeito disso – e é por
essa razão que algumas pessoas dizem que o Budismo é pessimista. O Budismo diz a
verdade. Mas o Buda não parou por aí. Ele disse que precisamos compreender, aceitar e
entender isso como adultos. Quando os animais enfrentam esse tipo de situação, eles
ficam muito ansiosos e sentem um grande sofrimento. Eles não compreendem nada. Nós
não queremos ser assim. Queremos ser seres humanos inteligentes, adultos, maduros e
responsáveis. Não queremos fujir desse fato. Queremos enfrentar isso mas e daí?
Tentamos descobrir porque sofremos. Qual é a causa? O Buda encontrou a causa. É o
desejo, o apego. As pessoas não gostam de dizer que o desejo é a causa do sofrimento
porque é através dele que se criam todas as coisas. O desejo é o criador. O desejo pode
criar as coisas da forma como você quiser. Criamos coisas para esta vida e para a
seguinte. O desejo é tão poderoso que pode criar coisas por muitas vidas. O desejo pode
criar inúmeros renascimentos.
Nesta vida, tudo que desfrutamos em nome da civilização é criação do nosso desejo.
Gostamos do conforto, das experiências agradáveis que conduzem à busca, à cobiça.
Quando sentimos uma sensação agradável nós a cobiçamos. Quando temos cobiça nos
dedicamos à busca. Quanta investigação você fez a respeito de várias coisas? Isso é
causado pelo desejo. Como resultado da busca você encontra muitas coisas e decide
quais aceitar e quais rejeitar. Quando você obtém o que quer, se torna mesquinho e quer
protegê-la. Nesta mesma vida, lutamos usando armas, palavras e força física para
proteger aquilo que temos. Esse é um dos aspectos do desejo. Não quer dizer que não
desfrutemos de certas coisas. Por exemplo, em nome da civilização desenvolvemos tantas
coisas, todos os recursos modernos. Milhões de coisas foram criadas à nossa volta devido
ao desejo. E no entanto, isso nunca diminuiu o nosso desejo, não trouxe um só momento
de verdadeira paz e felicidade. Só trouxe paz e felicidade temporárias e superficiais.
Por outro lado, como conseqüência do desejo surgem quatro tipos de apego. Os prazeres
sensuais criam o desejo de renascer aqui ou ali. Por um lado quando pensamos nos
problemas desta vida, não queremos renascer. Mas por outro lado quando pensamos nos
prazeres que desfrutamos na vida queremos repeti-los, renascer repetidamente. Você
quer renascer com uma certa pessoa na próxima vida. Quantas vezes você formulou esse
juramento? É por isso que o Buda disse que uma vez que você experimente algo, irá
querer repeti-lo. Essa é a natureza do desejo. Mas esse não é o sofrimento que o desejo
causa. O sofrimento causado pelo desejo é perder aquilo que você tem. O prazer que você
desfruta não lhe é fiel. Esse prazer irá lhe dar as costas, irá abandoná-lo, pois ele é
impermanente. Você quer agarrar esse prazer impermanente mas ele desaparece. Aquela
pessoa com quem você quer ficar para sempre lhe trai e poderá se tornar sua inimiga.
Quando você não quer algo, não consegue evitá-lo. Depois de algum tempo você volta a
querer e então tudo recomeça. Portanto, não existe felicidade permanente em qualquer
coisa que desfrutemos. O desejo nos engana e isso é um convite a que repitamos as
situações prazerosas. Assim é o desejo pela sensualidade.
Em segundo lugar, nós temos certas opiniões, idéias. Elas nos conduzem à dor a ao
sofrimento. Temos um desejo por renascimentos repetidos. Onde quer que nasçamos
iremos enfrentar os mesmos problemas, a impermanência e conseqüentemente o
sofrimento.
Em seguida, a ignorância. Nos apegamos à nossa ignorância devido ao desejo. Isso nos
traz muitos problemas, agora e no futuro. Quando dizemos que o desejo é a causa do
sofrimento, as pessoas dizem que não. O desejo é a causa do prazer. O desejo é sempre
desagradável, não bem vindo? Não. Existem certos tipos de desejo que queremos cultivar.
Tal como o desejo de desenvolver o insight, de alcançar os jhanas, de nos livrarmos dos
irritantes psíquicos, de sermos felizes todo o tempo. Esse tipo de desejo é chamado de
desejo benéfico e é o desejo de ficar sem desejo. Queremos cultivar isso. Os desejos
prejudiciais são a causa de toda a nossa dor e sofrimento.
A terceira verdade é a verdade do fim do sofrimento. O fim do sofrimento
necessariamente é o fim do desejo. Muito simples. Se o desejo é a causa do sofrimento, o
fim do sofrimento é o fim do desejo. Isto é o que se chama Nibbana. Ni significa ausência,
ana significa desejo.
Compreender a primeira verdade, compreender a segunda verdade, compreender a
terceira verdade, compreender a quarta verdade. Esse é o entendimento correto. É
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correto dizer que o Buda ensinou o Caminho do Meio. Também é correto dizer que o Buda
ensinou as Quatro Nobres Verdades. Quer você diga o Caminho do Meio ou as Quatro
Nobres Verdades, é a mesma coisa. Porque? No Caminho do Meio estão incluídas as
Quatro Nobres Verdades. A isto se denomina o conhecimento, a ausência de ignorância. O
que é a ignorância? Não compreender as Quatro Nobres Verdades é ignorância. Não
compreender dukkha, não compreender a sua causa, não compreender o seu fim, não
compreender o caminho que conduz ao seu fim é ignorância. O que é conhecimento?
Conhecimento é compreender essas quatro coisas.
Quando existe ignorância existe a confusão. Ignorância é chamada de avijja. Delusão ou
Confusão é chamada moha. Quando não conhecemos a verdade, construímos teorias.
Formulamos todos os tipos de teorias. Teorias em relação ao mundo, ao eu. Todas as
teorias do mundo estão baseadas nesses dois fatores. Quais são os dois fatores? A crença
no eu e no mundo. Essas teorias nos confundem e a isso se denomina moha. Avijja é uma
coisa, moha é outra. Moha é o resultado de avijja. Avijja é não compreender as Quatro
Nobres Verdades.
O segundo elemento do Nobre Caminho Óctuplo é o Pensamento Correto. O que é o
pensamento correto? O pensamento de renúncia, generosidade, amor bondade e
compaixão. O Buda disse que se cultivarmos esses pensamentos, estaremos cultivando o
pensamento correto. A generosidade não significa dar coisas para outras pessoas. Esse é
um significado superficial. Tem o significado de generosidade mas não o significado
completo. O significado mais profundo é o abandono de todas as formas de apego a
qualquer coisa que seja material ou imaterial. Abandonar todo tipo de apego, apagá-lo,
removê-lo da sua mente para que nunca mais retorne, a isto se denomina a verdadeira
generosidade. Isso nós podemos conseguir, mas não de maneira muito rápida ou fácil.
Somente quando atingimos o último estágio de iluminação é que alcançamos esse tipo de
generosidade. Cada coisa que façamos em nome da generosidade, por menor que seja,
nos conduzem para aquela realização.
Quando praticamos a meditação desenvolvemos a generosidade. Todas as vezes que
demonstramos amizade para com alguém estamos cultivando o amor bondade. Todas as
vezes em que praticamos a compaixão estamos desenvolvendo o pensamento correto da
compaixão.
A linguagem correta é dizer a verdade, unir as pessoas, com gentileza e bondade, dizendo
coisas que tenham significância.. Existem quatro tipos de linguagem correta. Sempre
colocamos a linguagem correta em termos negativos como abster-se de mentir, caluniar,
fofocar e linguajar grosseiro. Se colocarmos em termos positivos significa dizer a verdade,
falar de forma a unir as pessoas, falar de forma gentil, agradável e coisas que tenham
significância ao invés de fofocar.
Ação correta é viver e deixar viver, não matar. Permitir que os outros desfrutem daquilo
que possuem, abster-se de roubar. Permitir que os outros preservem a sua honra,
dignidade, respeito sem feri-los sexualmente ou observando o princípio de dignidade
interiormente. As atividades sexuais dentro dos limites aceitáveis pela lei e pela sociedade
são aceitas. O celibato não é mencionado no Nobre Caminho Óctuplo. Porque? Porque
esse caminho pode ser praticado por qualquer pessoa. Pessoas leigas podem praticar esse
caminho.
O modo de vida correto é abster-se de vender armas, comprar e vender substâncias
venenosas, comprar e vender animais, escravizar seres humanos e agir nos negócios de
forma desonesta. Conduzir os negócios de forma honesta e sincera. Realizar os seus
lucros com decência. Em algumas sociedades os comerciantes aplicam uma margem de
lucro de 50% ou 75% aos produtos. Se alguém aplicar uma margem de 200% estará
agindo de forma desonesta.
O esforço correto é prevenir que pensamentos prejudiciais surjam na mente, superar tais
pensamentos se eles já surgiram na mente, desenvolver pensamentos benéficos na mente
e manter na mente aqueles pensamentos benéficos que já surgiram.
A atenção plena correta é a atenção plena em relação ao corpo, sensações, mente e
objetos mentais. A concentração correta é definida como sendo os quatro jhanas.
Se você praticar o Nobre Caminho Óctuplo definitivamente poderá se livrar de toda a dor e
sofrimento. Essa é a garantia. Se você se restringir à primeira verdade e apenas disser
que a vida é sofrimento, você estará lidando com apenas um quarto e deixando de lado
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três quartos dos ensinamentos. Você estará equivocado. Você deve lidar com todas as
quatro unidades lógicas. Existe uma base, um silogismo e os passos para completar a
lógica. Tudo isso faz parte de um conjunto. A isto se denomina uma unidade lógica,
porque o Buda nos deu a premissa de que a vida é sofrimento. Depois ele nos deu a
causa, a segunda verdade. Podemos eliminá-la? A terceira verdade. Como fazê-lo é a
quarta verdade.
Podemos lidar com todas essas quatro verdades ao praticarmos a meditação, seguindo o
Nobre Caminho Óctuplo. É por isso que digo que esse caminho é o coração do Budismo.
Em outras palavras é a meditação. É um caminho para ser cultivado, desenvolvido,
meditado. Isso é o que fazemos. Meditar não quer dizer ficar sentado num um lugar, focar
a mente, obter um pouco de concentração e esquecer o mundo. Isso não é meditação.
Essa é uma parte ínfima da meditação. A verdadeira meditação é a prática do Nobre
Caminho Óctuplo. Você poderá vê-lo na prática, no seu dia a dia.
Isto conclui a palestra sobre as Quatro Nobres Verdades. Isto é apenas a ponta do Iceberg.
É apenas uma visão geral. Para compreendê-lo você deve gastar pelo menos quarenta e
cinco anos como fez o Buda ou você terá que praticar meditação por quinhentos anos, ou,
se nesta vida você praticar a meditação com honestidade e sinceridade, de acordo com o
Satipatthana Sutta, existe a garantia de alcançar a iluminação em sete anos. O Buda disse
que se você for dedicado, honesto e consistente e praticar apenas isso, nada mais, poderá
alcançar a iluminação em sete dias. Você não precisa viver muitas vidas para alcançar a
iluminação. Nesta mesma vida você poderá alcançá-la.

O Nobre Caminho Óctuplo


A última das Nobre Verdades contém a prescrição de como aliviar nossa insatisfação e
alcançar a eventual libertação, de uma vez por todas, desse ciclo de vida e morte
(samsara) doloroso e desgastante ao qual – pela própria ignorância (avijja) das Quatro
Nobres Verdades – estamos presos por tempos incontáveis. O Nobre Caminho Óctuplo
oferece um guia prático e completo para o desenvolvimento mental de qualidades e
habilidades benéficas que devem ser cultivadas se o praticante desejar alcançar o objetivo
final, a liberdade e felicidade supremas, o Nirvana. Embora estudados individualmente
cada aspecto faz parte de um todo orgânico e indivisível.

Ponto de Vista Correto - sabedoria e compreensão das Quatro Verdades Nobres e da


Origem Interdependente. Alguns consideram como Fé Correta, para os de pouca
experiência que ainda não adentraram o nível da sabedoria superior.

Pensamento Correto - pensamento ou determinação que precede ação ou fala. Para uma
pessoa ordenada é a prática do pensamento correto através da mente cada vez mais
gentil, compassionada e pura. Para os leigos é pensar corretamente sobre sua situação e
agir determinadamente de acordo.

Fala Correta - surge do pensamento correto. Não mentir, não usar linguagem pesada, não
falar mal dos outros, não caluniar, não falar frivolamente e usar a fala beneficiando a
todos e conduzindo à harmonia, pela ternura que nutre a todos os seres.

Ação Correta - surge do pensamento correto. Não matar, não roubar, não cometer
adultério. É praticar boas ações como a de proteger e cuidar de todos os seres,
observando os valores éticos.

Meio de Vida Correto - conduta correta na maneira de viver, de se manter, com hábitos
regulares e saudáveis de dormir, comer, trabalhar, fazer exercícios, descansar. Viver de
maneira a melhorar a saúde, ser mais eficiente e criar harmonia, eficiência e saúde para
todos. Ter meios de vida que considerem outros seres, outras formas de vida, o respeito e
dignidade próprios e dos outros presentes e passados, as futuras gerações, a
sustentabilidade e a melhor qualidade da vida.

Esforço Correto - dedicar-se constante e assíduamente ao caminho de obter os ideais de


fé religiosa, ética, educação, política, economia e saúde produzindo e aumentando o que é
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bom e prevenindo e eliminando o que é mal.

Atenção Correta - manter-se atento garante que com a correta consciência e percepção
nunca sejam esquecidos os objetivos ideais de fazer o bem a todos os seres. Na vida
diária é agir com cuidado e atenção, pois qualquer momento desatento pode causar um
desastre. Do ponto de vista Budista tradicional significa manter constante atenção à
impermanência, sofrimento, não-eu.

Concentração Correta - aqui a referência é aos Dhyanas ou estados meditativos. Manter a


mente calma e concentrada para permitir a manifestação da sabedoria completa e
verdadeira a partir da qual surgem os pensamentos e ações corretas. Manter a mente
clara e brilhante em tranqüila atividade.

Na prática, o Buddha ensinou o Nobre Caminho Óctuplo aos seus discípulos de acordo com
um sistema de treinamento gradual, iniciando com o desenvolvimento de sila ou virtude
(linguagem correta, ação correta e modo de vida correto, que na prática estão resumidos
nos cinco preceitos), seguido pelo desenvolvimento de samadhi ou concentração (esforço
correto, atenção plena correta e concentração correta), culminando com o pleno
desenvolvimento de pañña ou sabedoria (entendimento correto e pensamento correto). A
prática de dana (generosidade) serve como um apoio para cada passo ao longo do
caminho já que atua como um auxiliar na corrosão da tendência habitual ao desejo e
também porque pode trazer grandes ensinamentos sobre as causas e resultados das
ações de cada pessoa (kamma).

O progresso ao longo do caminho não segue uma trajetória linear simples. Em vez disso, o
desenvolvimento de cada aspecto do Nobre Caminho Óctuplo encoraja o refinamento e
fortalecimento dos demais, levando o praticante adiante em uma espiral ascendente de
maturidade espiritual que culmina na Iluminação.

Vendo por um outro ângulo, a longa jornada no caminho para a Iluminação tem início a
sério com os primeiros sinais de alguma movimentação na questão do entendimento
correto, os primeiros lampejos de sabedoria através dos quais a pessoa reconhece tanto a
validade da Primeira Nobre Verdade e a inevitabilidade da lei do kamma (sânscrito
karma), a lei universal de causa e efeito. A partir do momento que a pessoa se dá conta
de que más ações inevitavelmente trazem maus resultados e que boas ações trazem bons
resultados, o desejo, de viver uma vida moralmente correta e íntegra, de adotar
seriamente a prática de sila, cresce. A confiança criada a partir desse entendimento
preliminar leva o praticante a ter ainda mais fé nos ensinamentos. O praticante se torna
um "Budista" a partir do momento em que expressa uma determinação interior de "tomar
o refúgio" na Jóia Tríplice: o Buddha (tanto o Buddha histórico como o potencial de cada
um de alcançar a Iluminação), o Dhamma (tanto os ensinamentos do Buddha histórico e a
verdade última que eles revelam), e a Sangha (tanto a comunidade monástica que
protegeu os ensinamentos e os colocou em prática desde os tempos do Buddha como
todos aqueles que alcançaram algum grau de Iluminação). Tendo fincado firmemente os
pés no solo através da tomada do refúgio e, com o auxílio de um bom amigo para ajudar a
indicar o caminho, a pessoa estará pronta para trilhar o caminho, confiante de que estará
seguindo as pegadas deixadas pelo próprio Buddha.

Algumas vezes o Budismo é ingenuamente criticado como uma religião ou filosofia


negativa ou pessimista. Apesar de tudo (esse é o argumento utilizado) a vida não é
somente miséria e desapontamento: ela oferece muitos tipos de alegria e felicidade.
Porque então existe essa obsessão pessimista no Budismo com a falta de satisfação e o
sofrimento?

O Buddha baseou os seus ensinamentos em uma franca avaliação da nossa situação como
seres humanos: existe falta de satisfação e sofrimento no mundo. Ninguém pode
contestar esse fato. Se os ensinamentos do Buddha parassem por aí, os seus
ensinamentos poderiam de fato ser considerados pessimistas e a vida totalmente sem
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esperança.

Porém, como um médico que prescreve o remédio para uma enfermidade, o Buddha
oferece a esperança (a Terceira Nobre Verdade) e a cura (a Quarta). Os ensinamentos do
Buddha portanto permitem ter um alto grau de otimismo em um mundo complexo,
confuso e difícil. Um professor contemporâneo resumiu bem: "Budismo é a busca da
felicidade levada a sério".

O Buddha alegava que a Iluminação que ele redescobriu está acessível a qualquer um que
esteja disposto a fazer o esforço e comprometer-se a seguir o Nobre Caminho Óctuplo até
o fim. Cabe a cada um de nós colocar essa afirmação à prova.
FONTE: http://www.acessoaoinsight.net/arquivo_textos_theravada/indice_textos.php