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BRUNA PASTORE

OLHANDO PARA ONDE A SOMBRA SE ADENSA


Instituto Millenium e o revisionismo histórico da ditadura civil-militar

Cuiabá
2016
BRUNA PASTORE

OLHANDO PARA ONDE A SOMBRA SE ADENSA


Instituto Millenium e o revisionismo histórico da ditadura civil-militar

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em História da Universidade
Federal de Mato Grosso para obtenção do
título de Mestre em História.
Área de concentração: Territórios e Fronteiras
Linha de pesquisa: Ensino de História,
Memória e Patrimônio
Orientador: Prof. Dr. Marcelo Fronza
Coorientadora: Prof.ª Dr.ª Thaís Leão Vieira

Cuiabá
2016
Para a minha família, mães, pai e irmãos, que são minha casa e me iluminam sempre.
AGRADECIMENTOS

ESSA PESQUISA FOI ADIANTE GRAÇAS aos professores que acreditaram que trabalhar com
tal objeto tinha um importante significado no nosso contexto atual, por isso, quero
agradecer à professora Thaís, pois sua ajuda foi essencial em todo o processo, me
indicando o rumo a seguir e bibliografias, me atendendo em todo momento de dúvida,
me orientando mesmo a distância graças ao WhatsApp, não perdendo o humor em
nenhum momento, com suas cobranças e indicações eu consegui desenvolver o trabalho
com mais tranquilidade. Ao professor Marcelo Fronza por ter aceitado a mudança
brusca do tema de pesquisa. Ao professor Oswaldo Machado que generosamente fez
indicações muito importantes para a dissertação. Aos professores da minha graduação
em Ciências Sociais que me deram a base de formação essencial para exercer uma
profissão tão importante, especialmente à professora Alair já que suas aulas me
instigaram a compreender mais a nossa organização política e ideológica. E ao professor
Jefferson que me orientou na pesquisa que foi o germe dessa dissertação e sempre me
estimulou a entrar no mestrado e não encerrar as pesquisas.
Quero agradecer à Andhressa, minha irmã de empatia que foi mais importante
do que imagina no processo de construção da dissertação e na minha vida. À Carla,
minha outra irmã que está na minha vida há mais de dez anos e que acompanhou tudo o
que aconteceu comigo sempre do meu lado e sempre encantadora. À Camila, pessoa do
sorriso iluminado e companheira das dancinhas estranhas em lugares públicos, que
selou uma parceria comigo na vida com comilanças, risadas e danças. À Cinthia, que
com suas mãos de fada trouxe alegria e comidas maravilhosas e companhia
invariavelmente alegre, independente da situação. Ao Fred, o gremista mais querido que
conheço, me apresentou o termo grenalização e me auxiliou, talvez sem perceber, na
construção desse trabalho. À Gi, que com a sua luz sempre esteve atenta a me ouvir, me
ajudar, me divertir e perceber as nuanças do que eu sinto. Ao Guto, também sempre
atento, que me converteu ao universo de Star Wars e discute política comigo usando a
saga e Disney como referência. À Natalia, que teve a paciência de me explicar tanta
coisa, inclusive astrologia, e que me tranquilizou sempre que eu precisava e ressaltou
em vários momentos a importância da minha pesquisa. Ao Pedro, essencial na minha
vida, sempre disposto a me ouvir e me socorrer quando preciso, sendo compreensivo em
todos os momentos. À Tata, praticamente uma Pastore, que faz parte da nossa família,
parceira de vida, viagem, de muitas comilanças e risadas.
Às minhas mães Olga e Dinha que sempre cuidaram de mim, atentas às minhas
necessidades me apoiaram em todos os momentos e sempre demonstraram orgulho a
cada pequena vitória na minha vida. Ao meu pai, o Pastore que mesmo com seu jeito
caladão sempre esteve disposto ajudar e colaborar com tudo. À tia Janete pelo carinho
que sempre me deu. Aos meus irmãos Daniele, presente em todos os momentos da
minha vida me dando apoio e cuidando de mim; Carolina, que sempre me estimulou em
todas as fases da minha vida, especialmente no mestrado falando da importância do meu
objeto, fazendo as correções ortográficas, ajudando com as normas e falando coisas que
fizeram rir mesmo nos momentos mais tensos; e ao Mário que sei que não me odeia
tanto assim e com a sua sutileza de gengibre demonstra seu afeto e com seus
questionamentos me fez refletir sobre a posição do meu objeto no mundo. Aos meus
sobrinhos que sempre trazem alegria e beleza em todos os ambientes que ocupam.
A todos os colegas de trabalho do Liceu Cuiabano professores, coordenadores,
apoio e secretaria que sempre me respeitaram e foram extremamente compreensivos
nesse e em outros momentos da minha vida.
Agradeço também ao Governo do Estado de Mato Grosso, pois a licença
qualificação concedida por um ano foi essencial para a dedicação exclusiva e o
desenvolvimento desse trabalho.
A vida é muito melhor com vocês nela, todos foram essenciais na construção,
não só desse trabalho, mas na formação cotidiana de quem eu sou.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 5

CAPÍTULO 1

IPES E ISEB: A QUESTÃO DOS INTELECTUAIS NO DEBATE DO NACIONAL-

DESENVOLVIMENTISMO .................................................................................................... 14

1.1 Contexto histórico: período pré-golpe civil-militar.....................................15


1.2 ISEB e o nacional-desenvolvimentismo...................................................... 24
1.3 IPES e o pensamento conservador: o passado ............................................ 33

CAPÍTULO 2
O INSTITUTO MILLENIUM E A PERMANÊNCIA DO PENSAMENTO CONSERVADOR ............... 45
2.1 Formas de atuação do Instituto Millenium .................................................. 45
2.2 Imil e a política neoliberal ...........................................................................61

CAPÍTULO 3
IMIL E O REVISIONISMO HISTÓRICO
O Guia Politicamente Incorreto: a leitura revisionista da ditadura civil-militar............. 81
3.1 A construção da memória da ditadura civil-militar pelo Imil........ .............. 91
3.2 Humor: o recurso da ironia para contar a história ....................................104
3.3 Ditadura à brasileira: a leitura revisionista da ditadura civil-militar .......107
3.4 A reconstituição das origens do golpe ....................................................... 109
3.5 A construção de uma memória branda da ditadura ..................................115

CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................125

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................... 129

FONTES DOCUMENTAIS ..................................................................................................134


RESUMO

PASTORE, Bruna. Olhando para onde a sombra se adensa: Instituto Millenium e o


revisionismo histórico da ditadura civil-militar. 2016. 146 f. Dissertação (Mestrado em
História)- Programa de Pós-Graduação em História do Instituto de Ciências Humanas e Sociais,
Universidade Federal de Mato Grosso, 2016.

A articulação de grupos conservadores em torno de uma organização com o intuito de


defender seus interesses pode ser notada como algo recorrente. No Brasil podemos notar
a existência não só de grupos com esse objetivo, mas também certa continuidade e
persistência de algumas empresas na sua articulação. Dois grupos interessantes para
analisar essa persistência são o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o
Instituto Millenium (Imil). Em ambos, existe a presença marcante de algumas empresas,
assim como forte participação de figuras formadoras de opinião pública, intelectuais,
especialistas e comunicólogos. Uma das grandes marcas da diferença entre os dois está
no espaço do tempo entre a criação de um e outro. O IPES foi criado em 30 de
novembro de 1961, e existiu até 1971, enquanto a criação do Imil foi em 2005 com o
nome de Instituto da Realidade Nacional, que foi alterado para Instituto Millenium em
2006. O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), marcará um caminho oposto
ao do IPES nas posições ideológicas defendidas. Criado em período anterior (1955), e
formado unicamente por intelectuais, o ISEB manterá o foco de suas preocupações na
solução das mazelas sociais no desenvolvimento nacional, enquanto o IPES defenderá
as posições liberais e a segurança das grandes empresas multinacionais. Observaremos o
papel político desses dois últimos grupos, ISEB e IPES, discutindo o papel de ambos e
de seus intelectuais no cenário político do nacional-desenvolvimentismo. O Imil, sendo
reconhecido como think tank, cujos membros são intelectuais e técnicos neoliberais,
será investigado a partir da concepção da permanência do pensamento conservador,
sendo formado também por alguns grupos e empresas que participaram do IPES. O
revisionismo histórico praticado por membros do Imil, como Leandro Narloch e Marco
Antonio Villa, será analisado uma vez que ambos diminuem o impacto violento da
ditadura civil-militar de 1964 a 1985 e legitimam a política violenta de perseguição à
oposição como necessárias.

Palavras-chave: Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais; Instituto Superior de Estudos


Brasileiros; Instituto Millenium; Revisionismo; Conservadorismo.
ABSTRACT

PASTORE, Bruna. Olhando para onde a sombra se adensa: Instituto Millenium e o


revisionismo histórico da ditadura civil-militar. 2016 146 f. Dissertação (Mestrado em História)
- Programa de Pós-Graduação em História do Instituto de Ciências Humanas e Sociais,
Universidade Federal de Mato Grosso, 2016.

The articulation of conservative groups around an organization that intend to defend its
interests can be noticed as something usual. In Brazil we can notice the existence of
groups that not only have such aim, but also the continuity and persistence of some
companies in this articulation. Two interest groups to analyze this persistence, that can
be named are Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Institute of Social Studies and
Research — IPES) and Instituto Millenium (Millenium Institute — Imil). In both
groups there are the strong presence of some companies, as well as participation of
opinion makers, like intellectuals, specialists and communication professionals. One of
the biggest differences between both groups is the period of time in which they existed.
IPES was created on November 30th of 1961, until 1971. On the other hand, the
creation of Imil occurred in 2005, by this time its name was Instituto da Realidade
Nacional (Institute of National Reality), it was changed to Instituto Millenium in 2006.
The Instituto Superior de Estudos Sociais (Institute of Social Studies — ISEB) would
mark the opposite way compared to IPES ideological position. Created before IPES, in
1955, and formed exclusively by intellectuals, ISEB will keep its focus and concerns
into solutions to social issues in national development, meanwhile IPES will defend
liberal positions and the security of the biggest multinational companies. We will
observe the political roles played by those two last groups, ISEB and IPES, discussing
both roles and their intellectuals within national-development political scenario. Imil,
being recognized as a think tank, in which members are intellectuals and neoliberal
technicians will be investigated from the conception and the endurance of conservative
thinking, being composed by some groups and companies that also took part in IPES.
The historical revisionism practiced by Imil members, such as Leandro Narlock and
Marco Antonio Villa, will be analyzed as they reduce the violent impact of the civil-
military dictatorship from 1964 to 1985 and legitimize the violent political persecution
against the opposition as a necessity.

Keywords: Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais; Instituto Superior de Estudos


Brasileiros; Instituto Millenium; Revisionism; Conservatism.
O senhor doutor é um humorista de finíssimo
espírito, cultiva magistralmente a ironia, chego
a perguntar-me como se dedicou à história,
sendo ela grave e profunda ciência, Sou irónico
apenas na vida real, Bem me queria a mim
parecer que a história não é a vida real,
literatura, sim, e nada mais, Mas a história foi
vida real no tempo em que ainda não poderia
chamar-se-lhe história [...]

— José Saramago
INTRODUÇÃO

A narrativa, que durante tanto tempo


floresceu num meio artesão — no campo, no
mar e na cidade —, é ela própria, num certo
sentido, uma forma artesanal de
comunicação. Ela não está interessada em
transmitir o “puro em si” da coisa narrada,
como uma informação ou um relatório. Ela
mergulha a coisa na vida do narrador para
em seguida retirá-la dele. Assim, imprime-se
na narrativa a marca do narrador, como a
mão do oleiro na argila do vaso. [...] Assim,
seus vestígios estão presentes de muitas
maneiras nas coisas narradas, se não na
qualidade de quem as viveu, ao menos na de
quem as relata.

— Walter Benjamim

A ORIGEM DESSA PESQUISA foi a partir de investigações feitas sobre o papel da mídia
durante a ditadura civil-militar dos anos 1964 a 1985, quando o jornal Folha de São
Paulo usou o neologismo “ditabranda”1 para se referir à ditadura brasileira ao compará-
la com outras ditaduras da América Latina. A partir das questões levantadas sobre a
participação civil durante esse período notou-se a relevante participação do grupo
denominado Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) cujo intuito inicial era a
desestabilização do governo João Goulart. Os objetivos conservadores de tal grupo se
opunham ao do pré-existente Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) que, por
sua vez, aglutinava uma série de intelectuais com o objetivo de pensar uma ideologia
que influenciasse o desenvolvimento nacional.
O IPES foi uma organização bem articulada, com relevante participação de
algumas empresas dos meios de comunicação como o Estadão, Globo e Abril e de
outras do setor industrial como Gerdau e Suzano, mas teve seu fim em 1972.
Observando as ações atuais de alguns desses veículos, notou-se a rearticulação de
algumas dessas empresas em torno de outro grupo, nascido em 2005, o Instituto
Millenium (Imil), que constitui o objeto desta pesquisa. A partir da rearticulação de

1
Termo utilizado originalmente pelo jornalista Élio Gaspari.

Página | 5
membros e empresas com tendências conservadoras exercendo o papel de grupo de
pressão, esta dissertação busca analisar a permanência do pensamento conservador
como norteador das ações da elite econômica na história nacional. O Imil ocupa
contexto histórico diferente do IPES, portanto é necessário pontuar as diferenças
históricas em que surgiram, assim como as divergências ideológicas entre eles.O Imil,
representante da elite econômica, produz materiais como livros e vídeos e divulga em
vários meios de comunicação, propagam ideias neoliberais como o meio para solucionar
os problemas nacionais. Nota-se que a política neoliberal não é colocada como
alternativa, mas sim como o único recurso sensato.
Seus representantes que se constituem em especialistas de diversas áreas como
economistas, jornalistas, sociólogos etc., atuam ativamente na difusão das ideias
conservadoras, fundamentando e elucidando a necessidade de decisões políticas que
enxuguem o Estado através de privatizações e cortes em gastos públicos. Essas
mudanças alterariam a dinâmica do trabalho, pois defendem alterações nos direitos
trabalhistas.
Essas ideias são fundamentadas ressaltando a importância das mudanças, mas
esse discurso omite que a maioria da população arcaria com os ônus que tal premissa
acarretariam, ao contrário, as mensagens destacam que o defendido pelo Imil tem a
preocupação de melhorar o funcionamento da lógica do Estado e do mercado
beneficiando todas as classes sociais.
Os mecanismos para essa difusão de ideias são variados. Muitas das mensagens
produzidas pelo Imil não carregam o nome do grupo porque são reproduzidas por
jornais, revistas e emissoras que estão ligadas a ele e também por livros escritos pelos
seus membros, o caso dos Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil de
Leandro Narloch, Esquerda Caviar de Rodrigo Constantino e Ditadura à brasileira de
Marco Antonio Villa.
A produção do discurso conservador e neoliberal será realizada também pela
produção de livros cujo conteúdo, com abordagens e temas diferentes, irá respaldar as
premissas do grupo. Leandro Narloch se propõe a desconstruir a história oficial do
Brasil e para isso faz um resgate desde a colonização até o período da ditadura
instaurada em 1964; Rodrigo Constantino fará um mapeamento dos indivíduos que
considera que contradizem o discurso de esquerda usufruindo de bens que o capitalismo
proporciona; e Marco Antonio Villa afirma que a ditadura civil-militar de 1964 a 1985

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foi mais curta que o período oficialmente indicado e menos violenta que o apontado
pela esquerda.
A reflexão dessas experiências é fundamental para pensar a questão da narrativa
histórica, tendo em vista que o discurso produzido pelo narrador é uma consequência
também de seu meio, ou seja, do presente vivido pelo mesmo. Ter conhecimento do
contexto histórico no qual tais discursos foram produzidos se faz importante para
entender a leitura de um determinado período. Michel de Certeau destaca que:

Sublinhar a singularidade de cada análise é questionar a possibilidade


de uma sistematização totalizante, e considerar como essencial ao
problema a necessidade de uma discussão proporcionada a uma
pluralidade de procedimentos científicos, de funções sociais e de
convicções fundamentais. Por aí se encontra já esboçada, a função dos
discursos que podem esclarecer a questão, e que se inscrevem, eles
próprios, em seguimento a ou ao lado de muitos outros: enquanto
falam da história, estão sempre situados na história.2

Segundo Certeau (2013), a prática interpretativa da história sofre e é resultado de


uma vivência histórica. Assim, a interpretação dos fenômenos históricos sempre
sofrerão interferência do tempo presente, ou seja, a realidade social do narrador
influencia de maneira direta o “fazer história”. Como afirma o autor “Existe uma
historicidade da história. Ela implica o movimento que liga uma prática interpretativa a
uma prática social.”3 Nesse sentido é interessante pensar a leitura que atualmente se faz
da ditadura civil-militar que ocorreu no Brasil, pois existe um embate de construção da
memória desse período. Obras importantes a respeito desse período marcam claramente
a visão de que o golpe não aconteceu subitamente. Também é demarcada a importância
de setores da sociedade civil em tal empreitada, que não se restringiu apenas aos setores
militares. Dessa forma, o papel da imprensa vem sendo destacado como importante,
tanto para a preparação do golpe, quanto para a manutenção da ditadura durante 21
anos. Por outro lado, existem setores que defendem o golpe e a repressão como
necessários para a salvação do país de algo mais perigoso, que é o que Leandro Narloch
e Marco Antonio Villa julgam que uma revolução comunista seria. Como Certeau
destaca “Ainda que isso seja uma redundância, é necessário lembrar que uma leitura do

2
CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2013, p.
4.
3
CERTEAU. A Escrita da História, p. 6.

Página | 7
passado, por mais controlada que seja pela análise dos documentos, é sempre dirigida
por uma leitura do presente”.4 O historiador atende às vontades e necessidades dos
grupos aos quais pertence e tem a sua leitura dirigida por esse ambiente, assim como
outros narradores do passado também cumprem essa tendência. No caso do historiador,
apesar de dispormos de uma série de documentos que nos relatam os fatos passados,
somos atravessados o tempo todo pelo nosso contexto histórico, pela nossa
contemporaneidade, o que acaba por direcionar a interpretação. É importante notar que
o que atravessa a compreensão dos documentos — nos fazendo interpretá-los de uma
determinada forma —, está além do campo notadamente perceptível do pesquisador, são
nuanças muito tênues, as marcas da ideologia, por isso, seria ilusório imaginar que todo
historiador está o tempo todo plenamente ciente de que sua visão está, de alguma forma,
direcionada por determinada ideologia. Certeau aponta a contribuição de Foucault para
refletir isso:

[...] Em nome de que supor e como determinar essas unidades a meio


caminho entre o consciente e o econômico? Elas ocupam o lugar de
uma “alma coletiva” e permanecem como vestígios de um
ontologismo. Logo serão substituídas por um “inconsciente
coletivo”.[...] De fato, mais do que ser um instrumento de análise,
representa a necessidade que tem dele o historiador; significa uma
necessidade da operação científica, e não uma realidade apreensível
em seu objeto.
Essa concepção manifesta que é impossível eliminar do
trabalho historiográfico a ideologias que nele habitam.5

Assim, a ideologia age de forma inconsciente, em geral, não somente a um


historiador isolado, mas ao grupo em que pertence. É essa ideologia que vai determinar,
inclusive, o conteúdo a ser pesquisado e explorado. Ela é determinante, pois a prática do
historiador estará estritamente ligada a ela. No caso dos membros do Imil, essa
influência ideológica está posta de claramente em seus livros — a forma como escrevem
torna evidente o ataque a alguns setores mais progressistas da sociedade e a defesa dos
ideais conservadores e neoliberais.
É interessante notar que Peter Gay (1990) também menciona a questão das
variantes e as limitações dos conteúdos que são escolhidos pelos historiadores,

4
CERTEAU, A Escrita da História, p. 8.
5
CERTEAU, A Escrita da História, 16.

Página | 8
elucidando que essas escolhas não partem somente da vontade do historiador, mas
também do grupo.6 É importante destacar também que Gay (1990) aponta que a visão
ideológica dos historiadores permite que consigam perceber detalhes nos fatos
históricos que poderiam ter passado despercebidos ou apagados7.
Gay (1990) ainda afirma que a interpretação histórica é uma necessidade que o
historiador sente de influir de alguma forma no mundo ao seu redor e até mesmo como
mecanismo de se situar no presente. Assim, seus questionamentos sempre serão
condicionados por necessidades latentes do seu universo.
Certeau (2013) ainda coloca como importante a noção da práxis do historiador,
isso permite perceber que todo trabalho elaborado decorre de escolhas e métodos que
são selecionados de acordo com a sua ideologia. O resultado disso é que a compreensão
científica da história está diretamente ligada à sua vivência, seja política, social ou
econômica. Ou seja, a ideologia está diretamente ligada à prática de quem exerce tal
trabalho, a “relação com o real” não pode mais ser vista como um simples recorte de
tempo cronológico, mas sim como o resultado de uma série de interpretações próprias
do historiador8. A história, como ciência, ao contrário da literatura de ficção, tem o
compromisso de se fixar aos limites colocados pelos documentos e fatos históricos, ou
seja, tem o compromisso com a verdade e a realidade, não podendo levantar voo para

6
“As potencialidades dramaticamente divergentes, inerentes ao quadro mental do historiador,
levantam a interessante possibilidade de que existam polaridade semelhantes em outras dimensões, a
cultura e o ofício, de onde o historiador também deriva suas motivações, seus materiais e seu estilo. A
maioria das culturas, durante a maior parte do tempo, com seus prêmios à aquiescência e seu horror à
subversão, confinam a escolha do objeto e o modo de tratamento do historiador dentro de limites
definidos de decoro social e aceitabilidade. Não sendo mais corajosos do que a maioria dos homens, são
poucos os historiadores que cortejam o martírio herege. Dizem-nos amiúde, e com razão, que muitos
historiadores presidem à construção da memória coletiva.” GAY, Peter. O estilo na história: Gibbon,
Ranke, Macaulay, Burckhardt. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 185.
7
“Em suma — e naturalmente é isso o que importa nesta análise —, as paixões de Mommsen
permitiram-lhe intuições negadas a historiadores anteriores da República romana. [...] Todavia, foi por ter
participado da política de sua época — com convicções partidárias, mas de olhos abertos — que
Mommsen pôde ver na política de Roma antiga com uma vividez que não estava ao alcance de
historiadores anteriores, e com toda a objetividade que permitiram as técnicas historiográficas então
existentes.” GAY, O estilo na história, p. 184-185.
8
“[...] a relação com o real mudou. E, se o sentido não pode ser apreendido sob a forma de um
conhecimento particular que seria extraído do real ou que lhe seria acrescentado, é porque todo “fato
histórico” resulta de uma práxis, por ela já é o signo de um ato e, portanto, a afirmação de um sentido.
Este resulta dos procedimentos que permitiram articular um modo de compreensão num discurso de
‘fatos’.” CERTEAU, A Escrita da História, p. 19.

Página | 9
outras dimensões além daquelas que a realidade apresenta9. O trabalho de Leandro
Narloch se assemelha mais aos relatos fictícios já que não respeita aquilo que a
documentação revela, diferente da postura que deveria ser adotada por um historiador.
Marco Antonio Villa, apesar do título de doutor em História, também acaba
desvirtuando inúmeros fatos da ditadura civil-militar para atender às demandas do
pensamento conservador. Tendo em vista que tanto o livro Guia Politicamente
Incorreto da História do Brasil de Leandro Narloch quanto o Ditadura à brasileira de
Marco Antonio Villa, são obras revisionistas não se pretende aqui um diálogo com tais
autores, mas compreender o espaço ideológico ao qual pertencem e a conexão que
estabelecem com o projeto político do neoliberalismo. Como afirma Vidal-Naquet10,
não há possibilidade de diálogo com autores revisionistas, pois isso se faz com os pares.
Essa impossibilidade reside no fato dos argumentos utilizados pelos autores apontados
por ele, como os trabalhos apresentados em sua obra que negam a existência de campos
de concentração, legitimarem sérias violações aos direitos humanos. Autores como
Narloch e Villa, não constroem relatos verdadeiros em seus livros sobre a ditadura,
ambos tentam reconstruir a história legitimando uma série de violações de diretos
humanos. Ao exercer um diálogo com o revisionismo abre-se espaço para aceitar essas
obras como possibilidade do real. Por isso, o que se pretende é demonstrar que os livros,
além de não possuir fundamentação teórica, documental e metodológica para levantar as
questões apontadas pelos autores, têm forte cunho ideológico conservador de legitimar
várias questões defendidas pelo grupo ao qual pertencem, o Imil.
O humor passa a ser um recurso utilizado nessa prática revisionista que leva a
deslegitimar o discurso que denuncia as violações dos direitos humanos no período da
ditadura. Assim, em uma sociedade humorística, como aponta Lipovetsky em que tudo
é risível, banalizam-se até mesmo questões sérias.

9
“[...] Todavia, como o estilo é comum à ficção e à história, neste momento torna-se crucial
especificar em que consiste a verdade da ficção. A ficção pode, sem dúvida, oferecer a veracidade dos
detalhes; os romancistas e poetas não são estranhos à pesquisa. [...] existem para fornecer cenários
plausíveis às personagens imaginadas, para facilitar o ingresso do leitor no mundo fictício que lhe foi
criado pelo escritor. A verdade, é um instrumento opcional da ficção, não sua finalidade essencial.” GAY,
Peter. O estilo na história, p. 172.
10
VIDAL-NAQUET, Pierre. Os assassinos da memória. Campinas: Papirus, 1988.

Página | 10
Para compreender a defesa do neoliberalismo, como isso é realizado e os
elementos revisionistas sobre a ditadura, foi realizada uma pesquisa nos veículos
utilizados pelo Imil para a difusão de seus materiais. Dessa forma, foi realizado um
acompanhamento cotidiano do site, onde se concentra a maior parte do que é produzido
e divulgado. As redes sociais oficiais do grupo, como o Facebook, Instagram e Twitter
também foram mapeados no período entre 2014 e 2016. Visto que muitos de seus
membros também possuíam blogs, vínculos com revistas, jornais e contas em redes
sociais, os materiais divulgados assim também foram coletados. Por fim, os livros Guia
Politicamente Incorreto da História do Brasil, Guia Politicamente Incorreto da
América Latina, Esquerda Caviar e Ditadura à brasileira foram lidos e estudados para
a compreensão da linguagem dos autores e da forma como defendem o projeto político
neoliberal.
Portanto, o eixo da pesquisa se centrará na permanência de grupos com
pensamento conservador e na ação de seus especialistas como representantes de classe.
Dessa forma, a função dos especialistas do Imil se mostra diferente da postura dos
intelectuais defendida por Edward Said em Representação do intelectual como uma
categoria que deve ser representante de causas maiores como justiça e não de interesses
particulares de grupos, partidos ou think tanks.
No Capítulo I será realizada a contextualização histórica do período que
antecedeu o golpe civil-militar de 1964. As movimentações políticas, os embates de
ideias entre a esquerda e a direita, ambas fortalecidas por movimentos que
reivindicavam seus respectivos interesses, a pressão que o governo João Goulart sentia
de ambos os lados e a ação do governo dos Estados Unidos para apoiar os setores
conservadores, em um contexto de Guerra Fria, se fazem importantes para entender a
formação do IPES.
O ISEB, grupo que aglutinou intelectuais de várias vertentes ideológicas, era um
contraponto ao IPES cuja formação se deu significativamente para a defesa dos
interesses de uma elite econômica e intelectual que viam no governo João Goulart um
entrave às políticas econômicas que pretendiam ver implementadas. Enquanto o ISEB
era defensor do desenvolvimento nacional e alguns de seus membros, como Vieira Pinto
e Nelson Werneck Sodré, atuavam conjuntamente com setores ligados à esquerda
brasileira, o IPES defendia a direção oposta, pretendia uma série de reformas
conservadoras que proporcionassem a liberalização da economia.

Página | 11
O IPES foi responsável por intensa propaganda anti-Goulart e anticomunista
com a pretensão de desestabilização desse governo e a fomentação do perigo da ameaça
vermelha. O comunismo e Goulart, vistos como ameaças aos avanços dos objetivos
conservadores, foram alvos do IPES na construção dos inimigos da nação.
As campanhas desenvolvidas pelo IPES ajudaram, de certa forma, na
legitimação do golpe de 1964 cujo resultado foi a ditadura que só teve fim em 1985
quando um civil, José Sarney, foi escolhido por voto indireto como presidente da
república.
No Capítulo II analisaremos a estrutura do Imil, através do mapeamento dos
meios de difusão, dessa forma, procuraremos compreender quais são seus principais
veículos de propagação de ideias. O contexto histórico do surgimento do grupo se faz
importante para entender as críticas direcionadas, especialmente, aos governos do
Partido dos Trabalhadores (PT) e quais reformulações políticas, econômicas e sociais
são colocadas como importantes. O discurso anticomunista também é outro elemento
importante notar, pois permanece como algo presente no discurso de muitos de seus
membros. O livro Esquerda Caviar servirá como fonte para a percepção da aversão ao
PT e da persistência do anticomunismo.
Como é organizada a estrutura do grupo, a divisão entre os membros, as funções
das Câmaras, os mantenedores e parceiros também serão destacados por ser relevante
para a compreensão da coerência do grupo.
Serão destacadas as características marcantes do discurso neoliberal. Os
membros do Imil, ou os convidados do grupo para ceder entrevista ou participar de
eventos, em uníssono apontam as vantagens do neoliberalismo como imprescindível
para o desenvolvimento nacional.
Finalizando a dissertação, no Capítulo III, os livros Guia Politicamente
Incorreto da História do Brasil e Ditadura à brasileira serão utilizados para a análise
do revisionismo histórico da ditadura civil-militar.
O intuito é compreender as ideias dos autores dos respectivos livros através da
contraposição aos fatos utilizando material bibliográfico que aponta a invalidade dos
argumentos utilizados pelos escritores. Será realizada também a discussão sobre o
revisionismo sendo escrito através do humor como recurso que deslegitima a história da
repressão e sendo escrita sob um viés que induz a pensar o período da ditadura civil-

Página | 12
militar como um aspecto inevitável e menos truculento do que a possibilidade de uma
revolução comunista.
Serão trabalhados os livros de um jornalista, Leandro Narloch, e de um
historiador, Marco Antonio Villa com o objetivo de apontar que enquanto o primeiro
utiliza-se da suposta imparcialidade do jornalismo para criar uma nova versão da
história, o segundo lança mão de seus títulos acadêmicos para legitimar o seu
argumento revisionista.

Página | 13
CAPÍTULO 1

IPES E ISEB: A QUESTÃO DOS INTELECTUAIS NO DEBATE DO


NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO

Nosso século terá sido propriamente o


século da organização intelectual dos ódios
políticos. Este será um de seus grandes
títulos na história moral da humanidade.
— Julien Benda

NO MOMENTO EM QUE PENSAMOS no golpe de 1964 que desencadeou a ditadura civil-


militar11, é relevante ressaltarmos a importância e influência de setores da sociedade
civil nesse processo. Por mais que, após o fim da ditadura, essa importante participação
tenha sido ofuscada12 ela foi essencial tanto para a efetivação do golpe quanto para a
permanência da ditadura por 21 anos. Um exemplo emblemático e significativo disso é
a Marcha da Família com Deus pela Liberdade13 cujo montante de 500 mil pessoas
refletiu quão expressiva foi essa participação.
A análise sobre a importância da participação civil que respaldou a intervenção
militar, será centrada no caso do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES)14
justamente por ter desempenhado um papel estratégico na aglutinação de intelectuais,
empresas e imprensa para a formulação de estratégias para desestabilizar o governo de
João Goulart. Sendo assim, o IPES será analisado, não como a única nem a mais
importante, mas como uma das expressões que visavam desestabilizar tal governo,
lembrando que, apesar desses grupos de oposição, Goulart também dispunha de grupos

11
O conceito de ditadura civil-militar utilizado na dissertação foi elaborado por René Armand
Dreifuss no livro 1964: a conquista do Estado ao falar da participação da elite intelectual e econômica
na campanha anticomunista e de desestabilização de João Goulart.
12
Daniel Aarão em seu livro Ditadura e democracia no Brasil fala dessa tentativa de apagar a
participação civil no golpe de 1964 e durante a ditadura.
13
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi organizada pela Igreja Católica e por
organizações femininas e recebeu apoio de vários nomes da direita brasileira. Foi divulgada pela imprensa
e recebeu ampla cobertura, cujas mensagens eram profundamente anticomunistas e anti-Goulart.
14
O IPES foi criado em 30 de novembro de 1961, existindo até 1971. RAMÍREZ, Hérman.
Institutos de estudos econômicos de organizações empresariais e sua relação com o Estado em
perspectiva: Argentina e Brasil, 1961-1996. Anos 90, Porto Alegre, v. 13, n. 23/24, p. 179-214, jan./dez.
2006.

Página | 14
de apoio, não estando totalmente isolado, como muitas vezes a história é contada
(FERREIRA e GOMES, 2014).
É importante deixar claro que apesar de o IPES articular e divulgar uma série de
propagandas com o intuito de desestabilizar Goulart, para que seu governo fosse
interrompido, seus membros não podiam adivinhar nem ter plena clareza que o golpe
que deporia tal governo viria seguido de uma ditadura que perdurou por 21 anos, cujas
consequências foram uma série de ações violentas por parte do Estado. Atualmente
vemos a ditadura como resultado imediato e inevitável do golpe justamente por que
somos o futuro daquele passado. Portanto, o IPES será analisado como grupo
desestabilizador do governo e não como conspirador.
O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB)15, marcará um caminho
oposto ao do IPES nas posições ideológicas defendidas. Criado anteriormente, e
formado unicamente por intelectuais, o ISEB manterá o foco de suas preocupações na
solução das mazelas sociais e no desenvolvimento nacional, enquanto o IPES defenderá
as posições liberais e a segurança das grandes empresas multinacionais. Ambos os
grupos foram marcados pela heterogeneidade de pensamentos dentro deles, justamente
por serem compostos por muitos integrantes.

1.1 Contexto histórico: período pré-golpe civil-militar

A renúncia de Jânio Quadros da presidência da república em 1961, por motivos


até hoje incertos, trouxe uma onda de instabilidade política e um clima de golpe contra a
posse do vice-presidente João Goulart. Houve de fato uma tentativa de golpe organizada
por uma Junta Militar, mas que foi bloqueada após forte embate com Leonel Brizola (na
época, governador do Rio Grande do Sul), juntamente com outros comandantes
militares, o Congresso e grande parte da sociedade civil deram total apoio para garantir
a posse de Goulart (FERREIRA e GOMES, 2014). Parte significativa da imprensa,
sendo que ela vinha sendo censurada, também foi contrária à essa intervenção militar,
mas alguns jornais de grande porte apoiaram:

15
Criado em 14 de julho de 1955.

Página | 15
O Estado de S. Paulo e a Tribuna da Imprensa apoiaram o veto dos
ministros militares à posse de Goulart. O Globo, logo após a renúncia
de Jânio, sustentou a solução legal, mas logo recuou diante do veto
dos ministros militares. Com exceção desses três jornais, a imprensa
majoritariamente seguiu a solução constitucional para a crise.16

A posse de Goulart foi amplamente negociada, aceita e efetivada do dia 7 de


setembro de 1961. No entanto, não foi um governo totalmente tranquilo. Os setores
golpistas não desistiram de todo de seus objetivos e se rearticularam para um, possível,
futuro golpe.
Durante seu governo, Goulart foi pressionado tanto por setores da direita quando
da esquerda. O movimento camponês, que estava fortalecido nos anos 1960 exigia uma
reforma agrária imediata. O tema da reforma agrária é algo interessante, pois tanto
setores conservadores ligados ao grupo Instituto Brasileiro de Ação Democrática
(IBAD), que acabou criando um forte vínculo com IPES, quanto setores da esquerda,
como as Ligas Camponesas e o Partido Trabalhista do Brasil (PTB), defendiam tal
empreitada, mas ambos os lados divergiam sobre a forma como essa reforma deveria
acontecer e qual a sua finalidade:

[...] o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) foi


responsável por simpósio nacional, composto por especialistas e
políticos para discutir a reforma agrária. Alguns trechos do documento
conclusivo do simpósio comprovam que mesmo grupos muito
conservadores começavam a entender que algumas alterações na
estrutura fundiária brasileira deveriam ser feitas. Tratava-se, para eles,
de esvaziar a propaganda comunista que se alastrava no campo.
Ignorar o que vinha acontecendo se passando não era mais uma boa
estratégia política para a continuidade do que chamavam
democracia.17

Esse modelo de reforma agrária defendido pelo IBAD era baseado na Aliança
para o Progresso (ALPRO), que constituía uma série de ações com investimento em
educação, saúde e moradia articuladas entre os Estados Unidos e os governos latino-
americanos, cujo intuito era diminuir as desigualdades sociais para enfraquecer as

16
FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da memória: e outros ensaios. São Paulo: Ateliê
Editorial, 2004, p. 42.
17
FERREIRA, Jorge e GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente,
pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura militar no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2014 , p. 95.

Página | 16
pressões realizadas pelos movimentos ligados à esquerda18. O PTB de Brizola também
pressionava de forma ferrenha o governo com a ameaça de tomar as terras pela força,
caso Goulart não fizesse pela lei (FERREIRA e GOMES, 2014).
A ALPRO é uma das marcas da intervenção estadunidense na América Latina e
de sua preocupação em conter os movimentos de esquerda, pois a leitura feita pelos
Estados Unidos era que a causa do fortalecimento dos movimentos sociais estava
inserida no contexto da profunda desigualdade. Assim, para evitar novas revoluções,
como a cubana, era necessário investimento com ações anti-insurrecionais19.
Essa medida de ações visando a contra-insurgência através da assistência social,
começou a ser pensada ainda no governo de Eisenhower, mas foi na administração de
John Kennedy que ganhou corpo e se tornou política de Estado. Fico destaca que a
ALPRO começou seu trabalho no Brasil ainda no governo de Jânio Quadros e que
apesar da intenção de conter as esquerdas através da ajuda pontuada no
assistencialismo, o projeto não teve o alcance almejado em decorrência da falta de
conhecimento dos moldes latino-americanos por parte da administração estadunidense e
também pela obsessão em implementar um projeto anticomunista:

[...] A inexperiência norte-americana em relação à América Latina e


uma administração excessivamente burocratizada – que estava longe
de corresponder aos anseios transformadores dos operadores de
projetos específicos – foram a causa de muitos equívocos iniciais.
Além disso, a contradição básica da abordagem de Kennedy
dificultaria a realização da Aliança para o Progresso como um todo:
por mais que muitos de seus executores se engajassem sinceramente
nos projetos voltados para a melhoria das condições de vida na
América Latina, a moldura ideológica imposta por seus fundadores –
que a delineavam sobretudo como um instrumento de combate ao
comunismo no contexto da Guerra Fria – terminava por limitá-la.20

Uma das maiores preocupações do governo estadunidense no Brasil eram as


Ligas Camponesas. Por isso, uma das primeiras ações da ALPRO foi direcionada ao

18
PADRÓS, Enrique Serra. Como el Uruguay no hay...: Terror de Estado e Segurança
Nacional: Uruguai (1968-1985): do Pachecato à ditadura civil-militar. 2005. 434 f. Tese (Doutorado) -
Curso de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre, 2005.
19
FICO, Carlos. O grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2008.
20
FICO, op. cit., p. 27-28.

Página | 17
nordeste. Segundo Fico (2008), os projetos da ALPRO entravam em choque com as
propostas da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene)21 por serem
superficiais e sem uma política que realmente proporcionasse melhoria àquela região,
servindo mais para projetar a uma boa imagem do governo norte-americano que deveria
ser visto como o benfeitor. Essa projeção de uma bela imagem dos Estados Unidos era
muito importante em um contexto de Guerra Fria, em que se tentava firmar a dualidade
entre a democracia norte-americana e a ditadura vermelha da URSS. Portanto, a
escolha de começar os trabalhos no nordeste brasileiro não foi aleatória, teve o intento
bem definido de combater as Ligas Camponesas, em um embate não direto e não
declarado.

Em fevereiro de 1962, a equipe norte-americana apresentou um


relatório propondo iniciativas inteiramente discrepantes das da Sudene
e destinadas a causar impacto na opinião pública, como a implantação
de chafarizes em algumas cidades nordestinas. Todas as benfeitorias
deveriam ser identificadas visualmente com a marca “Aliança para o
Progresso). [...] Celso Furtado [então diretor da Sudene] frustrou-se ao
perceber que as iniciativas, superficiais, buscavam sobretudo
manipular a opinião pública e contrapor-se ao que o governo norte-
americano considerava um temível movimento camponês, as Ligas
Camponesas [...].22

Como foi dito anteriormente, apesar de o governo Goulart ter sido forçosamente
aceito pelos setores golpistas, esses últimos não desistiram de uma futura tentativa de
golpe e se rearticularam para essa possibilidade. Ao perceberem que a sociedade civil
optou pela via legalista de posse do governo, esses setores se rearticularam de forma a
conseguir esse apoio importante. Grupos como a Sociedade Brasileira de Defesa da
Tradição, Família e Propriedade (TFP) e Comando de Caça aos Comunistas (CCC),

21
“A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, criada pela Lei no 3 692, de 15 de
dezembro de 1959, foi uma forma de intervenção do Estado no Nordeste, com o objetivo de promover e
coordenar o desenvolvimento da região. Sua instituição envolveu, antes de mais nada, a definição do
espaço que seria compreendido como Nordeste e passaria a ser objeto da ação governamental: os estados
do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e parte
de Minas Gerais. Esse conjunto, equivalente a 18,4% do território nacional, abrigava, em 1980, cerca de
35 milhões de habitantes, o que correspondia a 30% da população brasileira. A criação da Sudene
resultou da percepção de que, mesmo com o processo de industrialização, crescia a diferença entre o
Nordeste e o Centro-Sul do Brasil. Tornava-se necessário, assim, haver uma intervenção direta na região,
guiada pelo planejamento, entendido como único caminho para o desenvolvimento.” OLIVEIRA, Lucia
Lippi. A criação da Sudene. Disponível em:
https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/artigos/Economia/Sudene. Último acesso em: 11 set. 2015.
22
FICO, Carlos. O grande irmão, p. 29.

Página | 18
expressavam a sua aversão ao governo de Goulart e a qualquer expressão comunista.
Entre esses grupos conservadores e de repúdio ao governo, estava o IPES que se aliou
ao, já existente desde 1959, IBAD, juntos formando o complexo IPES/IBAD em
novembro de 1961 (FERREIRA e GOMES, 2014).
O vínculo entre os dois grupos favorecia o IPES justamente porque o IBAD
captava fundos financeiros e repassava para o primeiro concretizar os trabalhos
planejados:

[...] O próprio IBAD era um canal para a transferência de fundos


multinacionais para o IPES que, em função de seus recursos,
patrocinava grande variedade de atividades, organizações e
instituições, entre as quais partidos políticos, sindicatos rurais, grupos
do movimento estudantil e setores do clero brasileiro, quando afinados
com seus objetivos.23

O final dessa parceria foi em 1963 quando o IBAD foi desmantelado por uma
CPI, sendo investigado por corrupção e recebimento de fundos estrangeiros de empresas
multinacionais e da Central Intelligence Agency (CIA) (FERREIRA e GOMES, 2014).
Para entender o motivo de tanta rejeição aos movimentos de esquerda, é
importante a contextualização do momento histórico, essas tensões aconteceram em
plena Guerra Fria. Para Hobsbawm24 uma geração inteira, ao longo de 40 anos, foi
criada sob o medo de uma possível Terceira Guerra Mundial, cujo resultado seria a
destruição da civilização.
A histeria coletiva, quando se tratava de URSS, era extremamente estratégica,
pois sob o discurso de uma ameaça vermelha, que destruiria toda possibilidade de
individualidade, tão valorizada entre os estadunidenses, os governos projetavam sua
imagem com a égide de defensores das liberdades e combatentes ferozes da ditadura
vermelha:

[...] EUA eram a potência representando uma ideologia, que a maioria


dos americanos sinceramente acreditava ser o modelo para o mundo.
Ao contrário da URSS, os EUA eram uma democracia. É triste, mas
deve-se dizer que estes eram provavelmente os mais perigosos.

23
FERREIRA, Jorge e GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente , p.
67.
24
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia
das Letras, 1995, p. 228.

Página | 19
Pois o governo soviético, embora também demonizasse o antagonismo
global, não precisava preocupar-se com ganhar votos no Congresso,
ou com eleições presidenciais e parlamentares. O governo americano
precisava. [...] Mais concretamente, a histeria pública tornava mais
fácil para os presidentes obter de cidadãos famosos, por sua ojeriza a
pagar impostos, as imensas somas necessárias para a política
americana. E o anticomunismo era genuína e visceralmente popular
num país construído sobre o individualismo e a empresa privada [...].25

Essa dualidade se estendeu a outros países, forçando-os a tomar partido em


relação a uma das potências. A Guerra Fria se sustentou com o medo da possibilidade
de uma crise econômica após a Segunda Guerra. A visão era que os outros países
estavam em uma situação tão crítica que a população seria facilmente seduzida por uma
proposta de radicalismo que colocaria um fim ao sistema capitalista de livre comércio
(HOBSBAWM, 1995).
Além dos grupos nacionais que repudiavam o presidente João Goulart, ainda
existia toda uma operação do governo dos Estados Unidos com o intuito de
desestabilizar Jango. Mais agressiva e perigosa, por causa do possível uso da força, os
planejamentos militares norte-americanos, ultrapassavam as ações da ALPRO, enquanto
esta era organizada e praticada aos olhos do governo brasileiro, as ações militares
empreendidas pelos EUA eram feitas secretamente, ou seja, sem que o então presidente
do Brasil soubesse.
Por causa da agenda política de Jango, onde estavam presentes pautas como
diminuição do analfabetismo, reforma agrária e habitacional etc. e de sua popularidade
por causa desses planejamentos políticos, que no contexto da Guerra Fria eram tidos
como ameaçadores, o governo norte-americano não poupou esforços para enfraquecê-
lo:

Além de tudo isso, nunca houve na história brasileira um presidente da


República que tenha enfrentado uma campanha externa de
desestabilização tão grande como Goulart: “a campanha de Kennedy
contra [Fidel] Castro, [João] Goulart e [o premiê da Guiana Inglesa,
Cheddi] Jagan não teve precedentes na história das relações
interamericanas”.26

25
HOBSBAWM, Era dos extremos , p. 232.
26
FICO, Carlos. O grande irmão, p. 75.

Página | 20
É importante destacar que a campanha de desestabilização de Jango realizada
desde sua posse, feita tanto por grupos nacionais, quanto pelo governo dos EUA, não
tinha necessariamente como único e inevitável caminho o Golpe de 1964 (FICO, 2008).
É evidente que um teve uma relação direta com o outro. No entanto, é necessário levar
em consideração que os caminhos feitos pelos humanos são cheios de bifurcações,
sendo que o resultado de todo esse trabalho poderia se resumir ao enfraquecimento de
João Goulart para as próximas eleições, que seriam realizadas em 1965.
Nesse processo de campanha anti-Goulart, durante as eleições parlamentares de
1962, o governo norte-americano investiu maciçamente em candidatos que se opunham
a João Goulart e que apoiavam a política norte-americana, além de todo o investimento
em propagandas que se referiam aos EUA como modelo de organização de Estado,
assim como seus costumes (FICO, 2008). Segundo Ferreira e Gomes (2014), não
somente o governo estadunidense investia nessas campanhas, como também empresas
multinacionais, sendo que esses fundos internacionais eram totalmente ilegais “[...]
recebendo fundos de empresas privadas brasileiras e dinheiro da CIA (Central
Intelligence Agency) norte-americana — o que era uma absoluta ilegalidade, segundo a
legislação brasileira —, para financiar candidaturas de políticos conservadores.”27
Sobre esse financiamento de campanhas de opositores:

[...] O próprio embaixador Lincoln Gordon confessou que foram


gastos, pelo menos, US$ 5 milhões de dólares para financiar a
campanha eleitoral dos candidatos favoráveis à política norte-
americana e opositores de Goulart. Naturalmente, a autorização para
tal intervenção foi dada pelo presidente Kennedy. Gordon se diz
arrependido, mas foi esse o início do processo que tornou a embaixada
dos Estados Unidos no Rio de Janeiro um ator político plenamente
envolvido nos negócios internos brasileiros.28

Apesar de todo o investimento norte-americano, a oposição a João Goulart não


foi tão bem-sucedida (FICO, 2008). Os resultados das eleições de 1962, com a vitória
de parlamentares favoráveis ao governo ou de esquerda, demonstraram que o mesmo
ainda tinha o apoio da população (FERREIRA e GOMES, 2014).

27
FERREIRA, Jorge e GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente,
p.66.
28
FICO, Carlos. O grande irmão, p. 77.

Página | 21
O governo norte-americano ainda investiu em intensa propaganda favorável ao
modelo de vida estadunidense através de filmes, folhetos, livros e de viagens de
políticos, professores e estudantes universitários aos Estados Unidos (FICO, 2008).
Porém, a forma mais agressiva de tentar interferir na vida política do Brasil foi através
da Operação Brother Sam. Tal intervenção foi amadurecida com análises do atual
cenário político e de especulações hipotéticas das guinadas políticas que poderiam
acontecer:

[...] Gordon iniciou essa discussão no “segundo semestre” de 1963,


desenhando cenários hipotéticos em estudos que usualmente são
chamados de “planos de contingência”. Como o próprio nome diz, tais
planos são esforços abstratos de discussão de conjecturas que buscam
antecipar o desdobramento de uma dada situação a fim de estabelecer,
previamente, linhas de alternativas, evitando que um governo [...] seja
surpreendido. Portanto, os planos de contingência devem ser
constantemente atualizados, de acordo com o surgimento de novos
dados, sendo comum terem sido produzidas várias versões antes da
irrupção do evento que eles pretendem antecipar e, de algum modo,
conduzir segundo os interesses de quem os patrocina.29

Segundo Fico (2008), a Operação Brother Sam não se limitou ao apoio naval
para o Golpe de 1964, as análises conjecturais de Lincoln Gordon, que foi realizada
também através da troca de informações com os setores militares golpistas, continha
quais deveriam ser as estratégias tomadas caso houvesse a necessidade de um golpe. Os
estratagemas elaborados a partir da troca de apoio entre militares golpistas e as
instruções estadunidenses foram colocadas em prática após o golpe:

[...] o plano de contingência norte-americano não previa apenas a


“Operação Brother Sam, mas também estabelecia essas linhas de ação
estratégica que afinal se implementariam à risca três meses depois: o
controle militar temporário (mediante uma junta militar, se configurou
no “Comando Supremo da Revolução”), a posse do presidente da
Câmara, Ranieri Mazzilli e a posterior eleição de um novo presidente.
Ainda do ponto de vista estratégico geral, o plano estabelecia que, no
caso de algum tipo de confronto, nenhum apoio seria dado a Goulart,
muito ao contrário, já que os Estado Unidos deveriam “providenciar
apoio secreto ou mesmo aberto [aos golpistas], particularmente
suporte logístico [...] mas intervir com forças somente se houvesse

29
FICO, O grande irmão, p 86.

Página | 22
clara evidência de intervenção soviética ou cubana do outro lado” –
diretriz que estabeleceu a força tarefa naval [...].30

Porém, João Goulart não era pressionado somente pela direita nacional e pelo
governo dos Estados Unidos. Os grupos ligados à esquerda também vinham
pressionando sua gestão. Em 1962 Jango nomeia Celso Furtado como ministro do
planejamento. Após assumir tal função o mesmo tenta colocar em prática o Plano
Trienal31, cujo objetivo era atender os interesses de todas as categorias sociais. No
entanto, a rejeição ao plano partiu também de todos os lados:

Furtado e sua equipe haviam redigido uma engenhosa combinação de


estímulos e restrições para incentivar o desenvolvimento econômico e
domar a inflação. [...] Pretendia atender a todos os interesses, e, se
tivesse êxito, todos ficariam satisfeitos. [...] Aconteceu o inverso do
que se almeja: o Plano não agradou ninguém. De todos os lados,
partiram críticas contundentes. As direitas não aceitavam medidas que
consideravam “distributivistas” e “inflacionárias”. As esquerdas
reclamavam dos ônus que recairiam sobre os ombros dos
trabalhadores, obrigados a suportar o peso do controle da inflação e
das políticas de “austeridade” e de “saneamento”.32

Por causa desses conflitos o Plano Trienal é deixado de lado. As esquerdas


fortalecidas tensionavam cada vez mais o governo para colocar em prática as
prometidas reformas de base (agrária, universitária, eleitoral etc.), exigindo uma postura
de concretização das mesmas. Essas políticas eram vistas como mecanismos de divisão
de poder e riquezas (AARÃO, 2014).
Pressionado pelos movimentos de esquerda e de direita, João Goulart se viu
obrigado a deixar a postura conciliatória e tomar uma posição que atendesse a um dos

30
FICO, op. cit. p. 93.
31
O Plano Trienal foi elaborado por Furtado para contornar os problemas inflacionários que o
Brasil vinha passando: “A premissa central do plano propunha o combate à inflação a partir do controle
do déficit público e das emissões, assumindo, para tal, uma estratégia gradualista. Fixando como objetivo
a ser buscado a taxa inflacionária de 10% ao ano em 1965 [...]. A garantia do financiamento deveria vir de
investimentos externos, do aumento das exportações e da implementação de novas medidas tributárias,
com a proposta de impostos específicos para os contribuintes com altas rendas. Completando o conjunto
geral de ações haveria uma re-equiparação dos preços e tarifas e um corte sistemático nos subsídios.”
SARMENTO, Carlos Eduardo. O Plano Trienal e a política econômica no presidencialismo.
Disponível em:
<https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/O_plano_trienal_e_a_polit
ica_economica>. Acesso em: 12 set. 2015.
32
ARÃO REIS FILHO, Daniel. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à
Constituição de 1988. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. E-book.

Página | 23
lados (FERREIRA E GOMES, 2014). É importante salientar que em ambas as posições,
esquerda e direita, o movimento não era homogêneo, mas sim formado por grupos e
indivíduos com variadas reivindicações e exigências na efetivação dos planejamentos.
Assim sendo “[...] Como entre os reformistas, os antirreformistas eram igualmente
caracterizados pela heterogeneidade – dos mais radicais, reacionários no sentido mesmo
da palavra, passando por gradações variadas, até segmentos que pareciam neutralizados
[...]”33.
Diante da tensão e do acirramento entre os grupos que defendiam ou eram contra
as reformas, João Goulart optou pelo caminho exigido pelas esquerdas. No comício da
Central em 13 de março de 1964 no Rio de Janeiro, a sua escolha fica evidente. A
direita mais conservadora, ao constatar essa opção do presidente, também parte para a
radicalização, setores que até então visavam desestabilizar o governo, agora passam a
conspirar.
A partir de então, os setores golpistas passam a se articular para a deposição de
João Goulart, pois encaravam esse feito como o mecanismo mais eficiente para parar as
estratégias políticas que visavam a redistribuição de renda e também de poder, práticas
que eram vistas como um caminho para regimes como o cubano ou URSS, ou seja, para
uma ditadura vermelha.

Em março de 1964, por conseguinte, entre as direitas, não havia mais


dúvidas quanto à necessidade de depor Goulart a qualquer custo. Ele
era um risco alto e iminente para o futuro do país. Para tanto, os
entendimentos visavam basicamente à operacionalização dessa
decisão, o que, evidentemente, não era nada simples. De toda forma,
importantes lideranças civis e militares trabalhavam nessa decisão e se
fortaleciam mutuamente.34

A Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, realizada logo em seguida, em


19 de março em São Paulo, foi uma das maiores respostas públicas ao Comício da
Central. Segundo os organizadores, 500 mil pessoas foram às ruas expor o seu temor
pelas escolhas do governo assim como a sua rejeição.

33
AARÃO REIS FILHO, Ditadura e democracia no Brasil.
34
FERREIRA, Jorge e GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente,
p.256.

Página | 24
Assim, em 31 de março de 1964, com discurso de defesa da democracia e da
liberdade, foi realizado o golpe militar, denominado “revolução de 1964” pelos
militares golpistas. No Ato Institucional (AI) é exposto que o golpe foi uma
“revolução”, sendo assim, não havia necessidade de buscar legitimidade através do
Congresso, pois ela por si só se legitimava35.
O AI ainda revelava que a intervenção militar não teria caráter provisório,
afirmando que o novo presidente ocuparia o cargo através de eleições indiretas.
Também dava ao Executivo o poder de cassação de mandatos legislativos, de suspender
os direitos políticos por dez anos e de demitir ou aposentar quem atentasse contra a
“segurança nacional”36.

1.2 ISEB e o nacional-desenvolvimentismo

A estratégia econômica nacional-desenvolvimentista tem início no segundo


governo Vargas, ou seja, na década de 1950. Essa ideologia atribui ao Estado papel
relevante na formulação e normatização das crenças e ideologias, além da
institucionalização das regras e normas para o desenvolvimento de uma economia
nacional forte, inclusive estabelecendo regras e limite ao capital internacional, evitando
a forte interferência do mesmo nas questões internas37. Era essencial esse controle das
ações do capital externo no Brasil, pois sem um acompanhamento mais rigoroso, o
capital estrangeiro poderia interferir nas decisões internas:

[...] É importante que as leis, normas e regras definam claramente o


campo de ação estratégica do capital externo, sem que sejam
prejudicados os centros internos de decisão ou a busca por ganhos de
autonomia nacional. Essa consideração deve ser ressaltada, já que o
capital internacional, por ser hegemônico no plano produtivo e
financeiro, pode acabar expandindo-se por setores-chave da dinâmica

35
MORAES, João Quartim de. Liberalismo e ditadura no Cone Sul. Campinas: IFCH Unicamp,
2001, p. 141.
36
CALICCHIO, Vera. Atos institucionais. CPDOC/FGV. Disponível em:
http://www.fgv.br/CPDOC/BUSCA/Busca/BuscaConsultar.aspx, acessado em: 01 set. 2015.
37
AREND, Marcelo. 50 anos de industrialização do Brasil (1955-2005): uma análise
evolucionária. 2009. 251 f. Tese (Doutorado) - Curso de Economia, Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, Porto Alegre, 2009.

Página | 25
econômica nacional, enfraquecendo o comando nacional e os próprios
centros internos de decisão.38

Enquanto o governo Vargas priorizou as indústrias nacionais, restringindo o


papel das multinacionais estrangeiras, sem, no entanto, deixar de considerar a sua
importância e sua entrada em alguns setores, no governo de Juscelino Kubitschek,
houve uma mudança nesse plano, dando maior abertura para a entrada do capital
estrangeiro. Arend (2009) chama essa transição de nacional-desenvolvimentismo para
desenvolvimentismo-internacionalista, já que passou alguns setores mais lucrativos para
a economia externa, o que acabou derrubando a estratégia anterior de fortalecimento da
indústria nacional.
Assim que Vargas assumiu seu segundo mandato, em 1951, tentou colocar em
prática ações de desenvolvimento industrial brasileiro. Para tanto, buscou investimento
estrangeiro em áreas de infraestrutura, o que não foi visto como algo internacionalmente
atrativo, já que buscava auxílio nessa área para o fortalecimento de empresas nacionais
e estatais e não para a entrada de empresas multinacionais.

A estratégia de Vargas encontraria oposição exatamente nos agentes


financiadores do plano. Isso porque, apesar de admitir a participação
estrangeira, o caráter nacionalista de sua estratégia desenvolvimentista
era preponderante, pois atribuía às empresas nacionais, públicas e
privadas, os setores-chave da nova dinâmica de crescimento que se
ansiava.39

Portanto, Vargas pretendia favorecer a indústria nacional permitindo que os bens


de consumo coubessem à produção interna, já que esses são considerados os setores
mais lucrativos, deixando o investimento em infraestrutura, como ferrovias, portos e
expansão da energia elétrica, que seriam os setores movimentam menos fluxo de
dinheiro, para o capital externo (AREND, 2009). Essa infraestrutura deveria beneficiar
diretamente o crescimento das indústrias brasileiras.
Essa política não era atrativa para o capital externo, que acabou gerando o
fracasso de Vargas por não conseguir o investimento estrangeiro, tido como essencial
para os brasileiros, mas nem um pouco interessante para as potências capitalistas:

38
AREND, op. cit. p.116.
39
AREND, 50 anos de industrialização do Brasil, p. 121.

Página | 26
Principalmente após 1952, com a eleição de Eisenhower nos EUA,
ficou evidente que não haveria “ajuda” financeira por intermédio das
agências multilaterais para a América Latina [...] Além disso, o
governo Eisenhower passou a advogar que a melhor estratégia para o
desenvolvimento econômico residia na internacionalização do
mercado interno brasileiro ou na liberalização dos investimentos
privados para empresas multinacionais. Nesse sentido, fatores
externos, especialmente atrelados à geopolítica, foram determinantes
para a não concretização da estratégia nacional-desenvolvimentista do
segundo governo Vargas.40

Assim, após o insucesso da política nacional-desenvolvimentista de Vargas, o


governo de JK refez esses planos abrindo o país para entrada do capital estrangeiro,
partindo, assim, para o que Arend (2009) chamou de desenvolvimentismo-
internacionalista. A partir de então a estratégia foi o desenvolvimento econômico
partindo da inserção de recursos externos no Brasil, ou seja, da abertura para as
multinacionais, mas além de sua entrada, JK também daria autonomia para esse capital
estrangeiro e também algumas vantagens como “uma generosa gama de incentivos,
isenções, facilidade de importação de equipamento etc., pelos quais negociava as
condições de entrada e associação como capital nacional.”41
O ISEB é de suma importância para entender a ideologia do nacional-
desenvolvimentismo, já que fazia parte da agenda de discussões e preocupações de seus
intelectuais. Suas ideias iam ao encontro com a necessidade de implantação de um
sistema econômico de valorização daquilo que é produção nacional, incluindo aí o
processo de criação cultural e o desenvolvimento das empresas internas, rompendo
assim com a supervalorização daquilo que é produzido fora do Brasil. Os intelectuais
isebianos queriam mais que debates sobre os problemas nacionais. Fazia parte de seus
objetivos a influência efetiva na política brasileira.
O ISEB, apesar de nacional-desenvolvimentista, não era um grupo homogêneo.
Havia distintas posições dentro do grupo que não era formado exclusivamente por
profissionais acadêmicos:
[...] O ineditismo do projeto isebiano constitui no fato de que
intelectuais —– em sua maioria, não acadêmicos — de várias
orientações teóricas e distintas correntes ideológicas se reuniram não

40
AREND, op. cit., p. 129.
41
AREND, 50 anos de industrialização do Brasil, p. 133

Página | 27
apenas para debater e refletir sobre os “problemas cruciais da
realidade brasileira”; deliberadamente, visavam também intervir no
processo político do país. Foi o ISEB, no Brasil contemporâneo, a
instituição cultural que talvez melhor simbolizou e concretizou a
noção (e a prática) do engajamento do intelectual na vida política e
social de seu país. Esse comprometimento não deixou de ser uma
experiência difícil e conflitiva [...]42

Seus intelectuais, portanto, apesar de seguirem uma grande variedade de


correntes filosóficas, sociológicas etc., tinham em comum o interesse em contribuir de
forma direta no bom desenvolvimento do país, na superação das mazelas e no
estabelecimento de um lugar mais justo:

[...] Do ângulo das afinidades teóricas, pode-se dizer que no Instituto


se confrontavam adeptos do marxismo, do existencialismo de Sartre e
Sheler, de fenomenologia de Jaspers, da sociologia do conhecimento
de Mannheim, [...] No entanto, apesar de expressarem uma
multiplicidade de orientações teóricas e políticas, esses intelectuais
convergiam na convicção de que, por meio do debate e do confronto
das idéias, seria possível formular um projeto ideológico como para o
Brasil. O nacional-desenvolvimentismo foi então concebido como essa
ideologia-síntese capaz de levar o país [...] à superação do atraso
econômico-social e da alienação cultural.43

Assim sendo, o ISEB, criado como órgão do Ministério da Educação e da


Cultura ainda no governo de Café Filho, mas só entrando em atividade com Kubitschek,
se tornou um importante centro de intelectuais preocupados com as formulações do
progresso do país. No entanto, não existiu uma ligação efetiva entre o governo de
Kubitschek com as teorias desenvolvidas pelo ISEB, apesar de o mesmo elogiar o papel
que seria desempenhado pelo grupo. Isso pode ser notado na condução da política
econômica desse governo. Como mencionado acima, JK se afasta do caminho trilhado
pelo nacional-desenvolvimentismo e segue a linha do desenvolvimentismo-
internacionalista.
Diante desse papel assumido pelo ISEB é interessante pensar na concepção de
intelectual para Said44, para o qual o intelectual desempenha um papel social, não

42
TOLEDO, Caio Navarro de (Org.). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB.
Rio de Janeiro: Revan, 2005, p. 7.
43
TOLEDO, Intelectuais e política no Brasil, p. 7-8
44
SAID, Edward W.. Representações do intelectual: as Conferências Reith de 1993. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994. E-book.

Página | 28
devendo se limitar a um plano profissional sem a promoção de um diálogo que
contribua de alguma forma com o avanço da sociedade. Esse diálogo deve ser feito
através da criação de representações filosóficas, sociológicas, econômicas etc., sendo
que a função a ser desempenhada aqui é o compromisso de busca da verdade colocando
como referência para isso a justiça e a liberdade, e não interesses particulares de grupos,
que muitas vezes já detêm o poder, ou do governo. Dessa forma, o comportamento
intelectual deve ser sempre crítico e atento, inclusive às próprias contradições, não
devendo defender grupos de interesse. Um comportamento acrítico por parte do
intelectual poderia levar esse a desempenhar o papel de mantenedor de injustiças,
ocultando práticas, inclusive estatais, que devem ser apontadas e, por sua vez,
combatidas.

[...] alguém [o intelectual] que não pode ser facilmente cooptado por
governos e corporações, e cuja raison d’être é representar todas as
pessoas e todos os problemas que são sistematicamente esquecidos ou
varridos para debaixo do tapete. Assim, o intelectual age com base em
princípios universais: que todos os seres humanos têm direito de
contar com padrões de comportamento decentes quanto à liberdade e à
justiça da parte dos poderes ou nações do mundo, e que as violações
deliberadas ou inadvertidas desses padrões têm de ser corajosamente
denunciadas e combatidas.45

Apesar de se tornar um Instituto que aglutinou uma série de intelectuais em


torno do nacional-desenvolvimentismo, o termo ideologia não era mencionado nos
documentos oficias, isso por causa do peso que tal terminologia carrega. Era impensável
admitir que um governo fosse o responsável por promover e difundir ideologias, já que
o papel do governo deveria ser o de “conciliador das disputas e das tensões sociais” e
“promotor do bem-estar coletivo”. Dessa forma, um órgão governamental que
produzisse ideologias seria visto como responsável pela desarmonia social.
No entanto, concretamente, a função do ISEB era a produção ideológica e isso se
justificava com o argumento de que o Instituto apesar de ser vinculado ao MEC possuía
autonomia e que o material produzido pelos intelectuais serviria, de forma geral, para o
crescimento do país:

45
SAID, Representações do intelectual. E-book.

Página | 29
[...] Pelo menos duas razões justificariam esta aparente contradição:
conforme rezava seu estatuto, o ISEB - apesar de estar diretamente
subordinado ao Ministério da Educação e Cultura (MEC) – tinha
“autonomia e plena liberdade de pesquisa, de opinião e de cátedra”.
Esta relativa autonomia da Instituição, pois, permitia ao Estado não se
comprometer com determinadas posições e direções que o ISEB
porventura viesse a assumir; por exemplo, com a criação e difusão de
ideologias.
Contudo, a razão mais fundamental que explicaria a “permissividade
ideológica” por parte do aparelho estatal prender-se-ia ao fato de que a
ideologia patrocinada pelo ISEB representava os “interesses gerais” da
Nação.46

Para os isebianos é necessário superar as ideologias “colonialistas” ou


“subdesenvolvidas” para que haja uma emancipação em relação aos países
colonizadores que acabam estagnando o Brasil com um pensamento imobilista. Esse
engessamento impede o desenvolvimento nacional perpetuando a dependência e a
subserviência de um país colonizado.
Essa ideologia deve apresentar aspectos autênticos, mas por ser um grupo
heterogêneo, a concepção de desenvolvimento dessa ideologia nacional-
desenvolvimentista vai variar de acordo com os intelectuais. Para Helio Jaguaribe e
Candido Mendes, por exemplo, não serão as massas que comandarão, por não deterem o
esclarecimento daquilo que constitui o seu interesse, elas serão guiadas por grupos mais
esclarecidos e intelectualizados. No caso de Vieira Pinto, a autenticidade da ideologia
emana diretamente das massas, assim, ela só terá legitimidade de exprimir seus
interesses, não sendo imposto, mas sim revelando as suas aspirações.
Para Vieira Pinto o fator primordial para esse amadurecimento ideológico será o
trabalho, de acordo com ele, ao transformar a realidade material o trabalhador irá
transmutar também a consciência. Segundo Toledo (1977), a ideologia autêntica em
Vieira Pinto terá a objetividade da necessidade de transformação da realidade percebida
pelos trabalhadores, sendo o desenvolvimento o interesse imediato das massas:

A ideologia do desenvolvimento só pode proceder da consciência das


massas pois são estas as que, em última instância, mais interesses têm
no processo de desenvolvimento [...]
Quem garante que a consciência das massas seja verídica, posto que
[...] não há neste seu privilegiamento nenhuma exaltação “mística”
[...] pelas classe trabalhadoras?

46
TOLEDO, Caio Navarro de. ISEB: fábrica de ideologias. São Paulo: Ática, 1977, p. 33-34.

Página | 30
[...] No trabalhador se realiza, ante do que em ninguém, a
transmutação da consciência [...] como consciência do movimento de
transformação da realidade material operada por sua atividade
propulsora do processo do desenvolvimento. À medida que evolui este
processo – como efeito do aprimoramento das técnicas de produção –
mais esclarecidas se tornam as suas representações.47

Toledo (1977) ainda afirma que, para Vieira Pinto, o intelectual ainda teria um
papel a desempenhar, pois cabe a ele organizar as ideias advindas das massas, já que
pode haver deturpação de seu sentido, elas surgem em um contexto onde já existem
outras premissas ideológicas previamente estabelecidas, cuja função seria a manutenção
da subserviência. Porém, a intelectualidade envolvida nesse processo deve se ver
desvencilhada daquelas ideologias que serviram para estagnar a sociedade:

Assinala que esta tarefa da intelectualidade participante se justificaria


ainda mais pela circunstância de que [...] as representações verídicas
das massas correm o risco de “contaminação” pois afloram num
“espaço ideológico constituído” [...] Daí, muitas vezes, as massas se
comportarem nesse contexto e forma equívoca e incoerente. Torna-se,
então, tarefa do pensador, não comprometido com as “ideologias
arcaicas”, “aguçar a sensibilidade para discernir e captar quanto haja
de autêntico nesses prenúncios ideológicos difusos no pensamento
como em qualquer outra forma de comportamento popular”.48

Outra característica importante em Vieira Pinto é ausência do conflito de classes.


De acordo com Toledo (1977), Vieira Pinto pensa uma ideologia criada a partir das
massas, no entanto, os interesses defendidos não devem representar exclusivamente os
interesses do proletariado, mas da sociedade como um todo.

Se em Vieira Pinto a ideologia do desenvolvimento é bandeira das


“massas populares”, nunca se infere daí que a organização da
sociedade deverá se fazer a partir dos interesses específicos do
proletariado, pois “não há que confundir o conceito de ideologia do
desenvolvimento tal como apresentamos, com quaisquer formas de
partidarismo político. São coisas radicalmente diferentes. Não se trata
aqui de defender nenhum interesse em particular ou de grupo, mas de
exprimir o interesse geral da sociedade brasileira, em suma o interesse
nacional.49

47
TOLEDO, ISEB: fábrica de ideologias, p. 44.
48
TOLEDO, ISEB: fábrica de ideologias, p. 45.
49
TOLEDO, op. cit., 48.

Página | 31
Os isebianos percebiam que existia uma necessidade de mudança social que não
se limitava às políticas econômicas. Portanto, existiam outras áreas que deveriam ser
pensadas para que houvesse de fato uma independência do Brasil em relação às
superpotências, especialmente aos EUA. É nesse sentido que os intelectuais do ISEB
veem na cultura o espaço de denúncia das mazelas e de avanço na construção de uma
identidade própria.
De acordo com Toledo (1977), os isebianos viam na cultura mais um elemento
de subdesenvolvimento que deveria ser superado. Não deveria mais ser um reflexo dos
países exploradores, mas sim algo originalmente construído no Brasil:

Se “no subdesenvolvimento tudo é subdesenvolvido”, também a


esfera cultural será necessariamente pobre em suas produções e
inautêntica. Na vigência do semicolonialismo não poderá haver
projeto histórico independente, pois todas as suas produções culturais
têm a marca da alienação; ou seja, a cultura não poderá ser senão um
reflexo, o subproduto da cultura metropolitana.50

Assim, a cultura teria uma função que não se limitaria ao entretenimento,


servindo também como mecanismo de difusão de contestação e criticidade. É necessária
a criação de uma cultura independente, sem os traços daquelas difundidas pelos países
tidos como desenvolvidos, uma cultura autônoma sem imitações de outros padrões
culturais, mas sim que ressaltasse a realidade brasileira. Essa reconstrução cultural se dá
pela interpretação de que a dependência dos países considerados subdesenvolvidos não
se restringe ao plano econômico, mas se estende ao plano cultural e político também51,
Portanto, a independência perpassa por várias áreas, sendo a cultural fundamental para
difusão do pensamento crítico.
É importante destacar que esse novo comportamento cultural não se limita a
expressar aquilo que é popular no Brasil, ela tem uma função que vai muito além disso,
que é a transformação social, a difusão dessa necessidade de se libertar da dependência
das superpotências em todas as áreas.
Os isebianos, além de pensar na valorização de uma cultura independente,
também trabalhavam em parceria com grupos como Centro Popular de Cultura (CPC),

50
TOLEDO, ISEB: fábrica de ideologias, p. 81.
51
MARTINI, Renato Ramos. Os intelectuais do ISEB, cultura e educação nos anos cinquenta
e sessenta. Aurora, Marília, p. 59-67, dez. 2009. Ano III, n. 5.

Página | 32
sendo que este também partilhava da ideia de que a cultura é um meio de difusão de
pensamentos transformadores52. Além de peças de teatro, shows e filmes, o CPC
publicou livros com textos produzidos por intelectuais do ISEB. Um desses materiais
produzidos em parceria com o CPC é o Quem é o povo no Brasil de Nelson Werneck
Sodré.

Assim, o CPC se vinculava diretamente a uma concepção em


que a consciência política não passava apenas pela discussão
economicista; acreditando-se que a cultura era um espaço
possível para se transmitir consciência revolucionária, foram
montadas numerosas peças de teatro [...] Também foram
ministrados cursos de teatro, cinema e artes visuais tendo em
vista a formação profissional e artística. Houve, ainda, a
publicação dos Cadernos do povo brasileiro, sob a direção de
Ênio Silveira e Álvaro Vieira Pinto [...]53

Segundo Vieira (2013), a produção do ISEB, encomendada e publicada pelo


CPC, auxiliou os intelectuais da época a ampliar o eixo de questões a serem discutidas
sobre os problemas contemporâneos. Assim sendo, os isebanos e os artistas ligados ao
CPC tinham em comum o pensamento da arte como processo de denúncia e de
libertação da dependência do imperialismo.
Os intelectuais do ISEB, como dito anteriormente, tinham como objetivo
influenciar diretamente na política nacional. Postura que Said (1993) considera de suma
importância para a garantia de que o intelectual terá autonomia sobre seu pensamento,
não sendo influenciado por interesses imediatos de partidos, grupos econômicos ou
governo.

[...] As representações do intelectual, suas articulações por uma causa


ou idéia diante da sociedade, não têm como intenção básica fortalecer
o ego ou exaltar uma posição social. Tampouco têm como principal
objetivo servir as burocracias poderosas e patrões generosos. As
representações intelectuais são a atividade em si, dependentes de um
estado de consciência que é cética, comprometida e incansavelmente
devotada à investigação racional e ao juízo moral; [...]54

52
VIEIRA, Thaís Leão. Allegro Ma Non Troppo: ambiguidades do riso na dramaturgia de
Oduvaldo Vianna Filho. 2011. 240 f. Tese (Doutorado) - Curso de História, Ciências Humanas,
Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2011.
53
VIEIRA, Allegro Ma Non Troppo.
54
SAID, Representações do intelectual. E-book.

Página | 33
Para Said (2013) o papel do intelectual é político, mas não atrelado à política
burocrática; o desempenho desses indivíduos é o de ser porta-voz das minorias, dos
povos oprimidos, seja de um pequeno grupo étnico ou de uma grande nação. Não deve
ter uma postura conciliatória ou pacificadora, mas sim se empenhar em estimular o
senso crítico e ressaltar a importância da justiça e da liberdade. Postura adotada pelos
Intelectuais do ISEB, que através da defesa de um desenvolvimento econômico
nacional, também denunciavam as misérias e viam a necessidade de grandes mudanças
sociais.

1.3 IPES e o pensamento conservador: o passado

O IPES desempenhou um papel emblemático no nicho da atuação civil anti-


Goulart. Com o fracasso da primeira tentativa de golpe em 1961, houve uma crescente
preocupação com a força dos movimentos de esquerda e com as propostas de reforma
feitas pelo governo. Percebeu-se então a necessidade de empenhar forças em uma
campanha que proferisse a aversão aos movimentos de esquerda e ao governo Goulart e
que desse legitimidade a uma futura tentativa de golpe (RAMIRÉZ, 2005).
No início da construção do IPES havia uma divergência entre o grupo formado
em São Paulo e o do Rio de Janeiro, em uma disputa pelo maior controle na direção da
organização. Esse problema começou a ser resolvido somente quase um ano após a sua
criação:

A oportunidade de posicionar-se melhor ante seus pares paulistas


tinha amadurecido o suficiente para o dia 12 de outubro de 1962,
momento em que a Comissão Diretiva do IPES/RJ esboça a lista de
autoridades a serem apresentadas na AGE que iria ocorrer no próximo
dia 16, ocasião em que foi escolhida uma nova diretoria, na qual, com
precisão digna de engenheiros, foram escalados pacientemente de
maneira igualitária representantes de São Paulo e Rio de Janeiro,
conseguindo-se assim uma curiosa paridade, tanto na hora de
distribuir as honras quanto os lugares de decisão.55

55
RAMÍREZ, Institutos de estudos econômicos de organizações empresariais, p. 189.

Página | 34
Dessa forma, os núcleos tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo passaram
a caminhar juntos na construção do seu objetivo maior, que era a campanha anti-
comunista e anti-Goulart. É necessário ressaltar que Ramírez (2005) também destaca
que além de lidar com esses conflitos entre os núcleos, dentro de cada um deles, não
imperava uma harmonia plena. Por serem grupos muito amplos com grande variedade
de intelectuais, empresas das mais variadas áreas, fazendeiros e comunicólogos e
diferenças entre status social, existiam conflitos internos, o que tornava o grupo
relativamente heterogêneo. Também é importante destacar que o IPES possuía sedes em
outras regiões do país, como Paraná, Pernambuco e Rio Grande do Sul (o IPESUL),
sendo que as mais importantes eram as sediados no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Quando o IPES consegue chegar ao grau de maturidade suficiente para articular
as ações dos diversos núcleos espalhados pelo Brasil, ele passa a se organizar
distribuindo funções a diversos comitês ou grupos, cada um responsável por uma parte
específica da articulação da difusão da campanha contra o governo Goulart e as
esquerdas (RAMÍREZ, 2005).
As instituições que dirigiam o IPES eram o Comitê Diretor (CD), Conselho
Orientador (CO) e Comitê Executivo (CE), as instituições que dirigiam o IPES, sendo
que o Comitê Diretor era o mais importante. Existiam também os Grupos de Estudos
(GE) e os Grupos de Trabalho e Ação (GTA). Os cargos dos grupos que dirigiam o
IPES, os CD, CO e CE, eram ocupados por “proprietários, acionistas, presidentes e
diretores de multinacionais e associados [...] incluía oficiais militares de prestígio, [...]
jornalistas, acadêmicos e tecno-empresários”56. Assim, a distribuição de poderes dentro
do IPES ficava equilibrada.
O IPES conseguiu aglomerar uma série de empresas das mais distintas áreas,
oficiais militares, organizações culturais, etc., ou seja, várias instituições que
trabalhavam nos mais distintos ramos. Isso favoreceu o grupo ao lhe proporcionar um
amplo corpo técnico e também materiais que ajudaram a desenvolver e pôr em prática
os seus planejamentos57.

56
DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de
classe. Petrópolis, 1981, p. 173.
57
Um resultado conveniente foi que a ampla articulação alcançada pelo IPES proporcionou
também um grande campo de recrutamento e uma rica fonte de habilidade técnica e recursos materiais
para desenvolver a infra-estrutura de suas unidades de ação. DREIFUSS, op. cit., p. 180.

Página | 35
Em suma, em 1962 as atividades táticas do IPES já estavam bem definidas, o seu
projeto era divulgar na mídia entrevistas que falassem das qualidades das empresas
privadas; exercer sua influência dentro dos sindicatos; fazer levantamento de conjuntura
para analisar os assuntos políticos; publicar livros; se aproximar de parlamentares; e
aumentar o número de integrantes. Além disso:

Tentavam também romper e penetrar ideologicamente as


organizações de classes trabalhadoras e o movimento estudantil e
influenciar a Igreja e as Forças Armadas. [...] Esses grupos operavam
em dez principais áreas de ação política e ideológica: nas Forças
Armadas, Congresso, Executivo, classe empresarial, sindicatos,
classe camponesa, Igreja, partidos políticos, mídia e nas camadas
intermediárias.58

Ou seja, seu objetivo era se manter informado e influenciar as várias camadas da


sociedade, além de tentar enfraquecer os movimentos de esquerda, sendo que para isso
era importante se infiltrar e divulgar suas propagandas ideológicas dentro desses meios.
Os Grupos de Estudos e Ação do IPES tinham a responsabilidade de fazer os estudos
necessários para colocar em prática os objetivos trilhados (DREIFUSS, 1981).
Fazia parte dos Grupos de Estudos e Ação o Grupo de Levantamento da
Conjuntura (GLC) que era liderado por Golbery do Couto e Silva e constituía um dos
Grupos de Estudo e Ação mais importantes do IPES, cuja responsabilidade era fazer
análise de conjuntura e estudar os impactos de tudo o que acontecia no país. Esse grupo
também determinava quais eram os objetivos do IPES e estabelecia os planejamentos.
Como era responsável pelo planejamento e pela coleta de informações se tornou
determinante até para outros grupos.
Os membros do GLC eram, de preferência, pessoas que de alguma forma
passaram pela Escola Superior de Guerra (ESG), seja como professor ou como aluno.
Havia vários oficiais militares de alta patente próximos a Golbery e ao general Heitor
Herrera que eram integrantes desse grupo. Mas nem todos no GLC eram militares, isso
porque, como apontou Maria Helena Moreira Alves (1985), civis também fizeram parte
como alunos ou como professores da ESG, construindo assim um conjunto civil-militar,
isso porque esses civis, que de alguma forma participaram da ESG, poderiam auxiliar

58
DREIFUSS, 1964: a conquista do Estado, p 185.

Página | 36
no processo de divulgação da Doutrina de Segurança Nacional59 nos ambientes militares
e civis:

[...] importante papel desempenhado pela ESG ao incorporar civis


como alunos e na qualidade de professores visitantes ou permanentes.
A ESG consolidou, assim, uma rede militar-civil que
institucionalizou e disseminou a Doutrina de Segurança Nacional e
Desenvolvimento. Esta rede, organizada na Associação dos
Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), promovia
conferências, seminários, debates e cursos por todo o país, levando os
princípios e doutrinas da ESG a outros protagonistas políticos civis e
militares.60

O GLC era responsável também pelo mapeamento de comunistas e de suas


atividades, fazendo e distribuindo constantemente dossiês que identificavam as pessoas
que supostamente estariam envolvidas em atividades comunistas. Para que o
mapeamento fosse possível o GLC possuía uma ampla rede de informações dentro de
várias entidades como movimentos estudantis, eclesiásticos, camponeses e até mesmo
dentro das Forças Armadas. O grampeamento de telefone era um recurso
constantemente utilizado para mapear os movimentos de contestação (DREIFUSS,
1981).
Sobre o controle de qualquer atividade que pudesse ser de esquerda, é
interessante lembrar que o anticomunismo era uma característica marcante desses
movimentos de direita, pois as elites viam no comunismo uma ameaça real ao controle
do poder que elas detinham. Enrique Serra Padrós (2005) afirma que essa histeria em
torno do comunismo se intensificou nos anos 1950, logo após a revolução comunista na
China e em Cuba. Desde então, os Estados Unidos e as elites dominantes passaram a
entender que a ameaça comunista deveria ser avidamente perseguida. Por isso os

59
A Doutrina de Segurança Nacional possuía como característica o combate à luta de classes e
defesa de uma sociedade “harmônica” onde as classes cooperassem entre si, com esse discurso difundia
na sociedade a importância da obediência e da passividade. A Doutrina de Segurança Nacional fez com
que diversos países do Cone Sul inculcassem o contexto da Guerra Fria se colocando do lado dos Estados
Unidos, dessa forma, criou a figura do “inimigo interno” que constituíam os comunistas infiltrados nos
países da América Latina, cujo intuito era fomentar a luta de classes atrapalhando a harmonia social.
COMBLIN, Joseph. A Ideologia da Segurança Nacional: o poder militar na América Latina. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
60
ALVES, Maria Helena Moreira. A Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento. In:
ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). Petrópolis: Vozes, 1985, p.
34.

Página | 37
Estados Unidos desenvolveram uma série de estratégias para eliminar qualquer foco de
comunismo na América Latina.
Sobre o anticomunismo no Brasil é relevante ressaltar que suas raízes
entrelaçadas com a Igreja Católica. É importante notar que o perigo vermelho não foi
uma preocupação constante, mas que passou por períodos de maior ou menor tensão.
Apesar de sofrer interferência externa, especialmente dos Estados Unidos, o
anticomunismo no Brasil possui características próprias e tem sua origem antes mesmo
dos anos 1960, quando o ódio ao comunismo recrudesceu novamente. A aversão ao
comunismo surgiu após a Revolução Russa em 1917, seguindo a onda internacional de
rejeição a essa ideologia, além do Estado, no Brasil contou com o apoio da Igreja
Católica, do setor empresarial e de intelectuais na campanha anticomunista. As
influências externas do anticomunismo se deram pelo fato de o Brasil acompanhar a
onda internacional, a construção da imagem do inimigo vermelho eram realizadas a
partir de obras europeias, especialmente francesas. Com as mudanças ocorridas após a
Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos passam a se tornar a principal referência
do modelo anticomunista, simbolizando também a maior resistência ao comunismo.
Apesar dessa forte influência externa, algumas dessas referências foram tomadas de
forma mais enfática no Brasil atribuindo singularidade ao anticomunismo brasileiro,
outros eventos internos, como a “Intentona Comunista”, também ajudaram a construir o
imaginário com características próprias:

No entanto, não se deve pensar que ocorria reprodução pura e simples das
influências estrangeiras, ou que o Estado brasileiro incorporasse o papel de
mera correia de transmissão de ordens vindas “de cima”. A recepção das
construções discursivas e imagéticas anticomunistas se fazia de forma
seletiva: algumas ideias eram mais bem recebidas que outras e, portanto,
eram mais enfatizadas. [...] Aqui os valores religiosos católicos se
constituíram na base principal da mobilização anticomunista, relegando
outras motivações a posição secundária. [...] Aqui, os valores religiosos
católicos se constituíram na base principal da mobilização anticomunista,
relegando outras motivações a posição secundária.
Por outro lado surgiram elaborações originais, relacionadas às singularidades
da dinâmica política brasileira. É o caso do imaginário construído em torno
do levante de 1935, a “Intentona Comunista”, que forneceu boa parte do
61
arsenal propagandístico usado pelos anticomunistas no Brasil.

61
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil
(1917-1964). 2000. 315 f. Tese (Doutorado) - Curso de Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000, p. 17-18.

Página | 38
Um exemplo que marca essa relativa autonomia é que, de acordo com Motta, a
forte onda anticomunista existente no período da Guerra Fria começou no Brasil antes
mesmo de ter início nos Estados Unidos, pois o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi
caçado no período anterior ao Plano Marshall e à Doutrina Truman que marcaram o
rompimento desse país com a URSS. Já nos anos 1950, o governo estadunidense não
encontrou amplo apoio dos governos brasileiros, Vargas e Kubitschek, que não viam o
comunismo como uma ameaça real e estavam mais preocupados com o
desenvolvimento econômico nacional. A atenção então foi dada aos setores mais
receptivos à construção da imagem do “inimigo vermelho”, como os religiosos,
políticos com tendência conservadora e as forças armadas. De acordo com Motta, essa
mudança de foco para tais setores influenciou os movimentos que decorreram em 1964.
Outra obrigação do GLC era o recrutamento de oficiais militares importantes
para participar do complexo IPES/IBAD. Esse trabalho contava com o apoio de civis,
como exemplo, do dono do jornal O Estado de São Paulo Júlio Mesquita Filho
(DREIFUS, 1981).
Dessa forma, o GLC possuía um trabalho grandioso no sentido de fazer o
apanhado geral do que vinha acontecendo no país através da imprensa, livros e dentro
de outras organizações:

Sua atividade era verdadeiramente titânica, escrutinava a produção


diária da imprensa do país, um total aproximado de 14.000 unidades
anuais, certo número de revistas nacionais, um espectro bem amplo de
livros e outras publicações. Também esse grupo se encarregava de
obter informação e atuar dentro do Exército, sendo que suas principais
áreas de operação eram os I e III Exércitos, com quartéis-generais
respectivamente nas cidades do Rio de Janeiro e de Porto Alegre,
cobrindo os Estados da Guanabara, Minas Gerais, Goiás, Rio Grande
do Sul, Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Para
completar este panorama, podemos mencionar que foram grampeados,
só no Rio de Janeiro, cerca de três mil telefones, com esse objetivo.62

O Grupo de Assessoria Parlamentar (GAP) também fazia parte dos Grupos de


Estudos e Ação. O GAP atuava dentro do Congresso se aproximando de vários
deputados e senadores para prestar uma espécie de assessoria. Seu objetivo era fazer
com que esses parlamentares levassem ao Congresso os projetos defendidos pelo IPES e

62
RAMÍREZ, Institutos de estudos econômicos de organizações empresariais, p. 194-195.

Página | 39
também para que conhecessem com antecedência quais eram os projetos da oposição
para que assim pudessem contorná-los.

O Grupo de Assessoria Parlamentar (GAP) ou Escritório de Brasília,


da maneira eufemística como também era chamado, com o objetivo de
maquiar suas funções, funcionava como um canal do IPES e sua rede
parlamentar. Esse grupo tinha a função de arregimentar apoio para os
projetos patrocinados pelo Instituto e operava como uma força-tarefa
que entrava em ação contra o governo e seu apoio parlamentar,
possibilitando a preparação de manobras mais amplas, ganhando
tempo para que outras forças se preparassem e para os grupos do IPES
desenvolvessem suas próprias atividades. O GAP era importante para
conseguir antecipar as táticas políticas da oposição, esvaziando suas
manobras, por essa razão, seu chefe decidia, imediatamente, a ordem
que ser enviada aos demais grupos, de acordo, com a sua percepção e
análise da situação.63

Havia também o Grupo de Opinião Pública (GOP). Este tinha a finalidade de


divulgar na mídia os estudos feitos pelo IPES. Golbery definiu que a função desse grupo
era preparar a população ideologicamente para o golpe de Estado e assim evitar que
fracassasse novamente como aconteceu em 1961. O GOP difundia as doutrinas do IPES
em materiais com uma linguagem acessível e adequada de acordo com a classe social do
público alvo. Eram feitos materiais para as classes médias, os trabalhadores, estudantes
etc. (DREIFUSS, 1981).
O Grupo de Publicação/Editorial (GPE) era ligado ao GOP. O GPE divulgava
através de seus materiais a mensagem ideológica do IPES, produzia materiais que
expressavam aversão a qualquer tendência aos movimentos de esquerda e divulgavam
na imprensa em formato de artigos, em panfletos e até mesmo em livros. Quem
produzia esses materiais eram jornalistas, intelectuais e escritores, em sua grande
maioria pessoas de renome, como os escritores Rubem Fonseca, Nélida Piñon e Rachel
de Queiróz, sendo que Rubem Fonseca era um dos líderes do IPES (DREIFUSS, 1981).
O quinto e último grupo era o Grupo de Estudo e Doutrina (GED), responsável
pelos estudos que davam embasamento às diretrizes do IPES e fornecia o material
necessário para a elaboração de projetos de lei que seriam levados ao Congresso através
do GAP (DREIFUSS, 1981).

63
RAMÍREZ, op. cit., 197-198.

Página | 40
Esses estudos defendiam o Estado mínimo e a liberdade de mercado, afirmando
que o Estado somente deveria intervir na economia para garantir a sua autonomia ou
quando solicitado. Além disso, afirmava que os bens básicos para o homem, como
moradia, alimentação e educação seriam realmente de qualidade quando fornecidos pela
iniciativa privada. Portanto, para o IPES, o Estado não deveria investir em políticas
sociais.
O GED ainda preparava as discussões e também os argumentos de cunho
ideológico que seriam levados à mídia por diversas pessoas que tinham certa influência,
que muitas vezes eram políticos, artistas, intelectuais, empresários.
Dreifuss (1981) aponta que as ações ideológicas do IPES consistiam em
doutrinação geral e doutrinação específica, que eram combinadas com atividades
político-ideológicas maiores. Por exemplo, dentro do Congresso com o GAP e também
dentro de movimentos estudantis e sindicatos.
A doutrinação geral visava difundir a ideologia do IPES para o público em geral,
tanto no ambiente político quanto para a população, para que assim fortalecesse as suas
ideias da direita e desqualificasse o bloco do governo de João Goulart e também outras
organizações de esquerda.
Nas propagandas ideológicas do IPES estava presente a afirmação de que o bem-
estar da população só poderia ser fornecido pela iniciativa privada. Havia também uma
série de propagandas anticomunistas, cujo intuito era provocar o pânico na sociedade
por causa de uma suposta ameaça comunista, como Dreifuss (1981) aponta nesse
trecho:

[...] No aspecto positivo, argumentava que a propriedade do país e a


melhoria da vida do povo se deviam à iniciativa privada e não se
deviam, certamente, a métodos socialistas ou à intervenção do Estado
na economia. Por outro lado, a sua abordagem negativa podia ser
vista na sua utilização de uma mesclagem de técnicas sofisticadas e
uma grosseira propaganda anti-comunista, constituindo uma pressão
ideológica, que explorava o “encurralamento pelo pânico
organizado”.64

64
DREIFUSS, 1964: a conquista do Estado, p. 231.

Página | 41
Padrós afirma que a construção do “inimigo interno”, ou seja, da “ameaça
comunista” e a implantação de um medo coletivo da “ameaça vermelha” foi um recurso
que surtiu alguns resultados, pois parte da população passou a encarar isso como uma
ameaça real às bases estruturais da sociedade e permitiu que suas liberdades fossem
limitadas pelo Estado em troca de uma falsa segurança que acreditavam ser real. Isso
ajudou a legitimar as ditaduras militares que se espalharam pela América Latina
(PADRÓS, 2005).
É necessário ter cuidado com o peso dado à campanha elaborada pelo IPES.
Quando se afirma que o IPES foi uma organização que conseguiu obter plenamente o
objetivo traçado, que era desestabilizar o governo de Goulart através da campanha
ideológica, constrói-se uma relação unilateral entre os articuladores do IPES e a
população. Estabelecendo assim uma divisão fechada e acabada entre o emissor
(produtor de mensagens) e receptor (quem recebe as mensagens), sendo, por
conseguinte manipuladores e manipulados.
Nesse sentido, é interessante analisar a discussão feita por Martín-Barbero
(2013) que desconstrói a perspectiva dos meios de comunicação como organizações
com extremo poder de manipulação e dominação, e do povo como mero espectador
dominado, criando uma visão que mostra a influência dos meios de comunicação no
comportamento social e do comportamento do povo nos meios de comunicação.
Ressalta a importância em não pensar a massa como algo à margem dos processos
políticos e históricos, excluindo a perspectiva de integrantes dos fluxos de movimentos
que acontecem na sociedade.

[...] Não podemos então pensar hoje o popular atuante à margem do


processo histórico de constituição do massivo: o acesso das massas à
sua visibilidade e presença social, e da massificação em que
historicamente esse processo se materializa. Não podemos continuar
construindo uma crítica que separa a massificação da cultura do fato
político que gera a emergência histórica das massas e do contraditório
movimento que ali produz a não-exterioridade do massivo ao popular,
seu constituir-se em um de seus modos de existência.65

Podemos problematizar a influência da propaganda política e ideológica


produzida pelo IPES e, posteriormente, pelo Imil, a partir da discussão levantada por
65
MARTÍN-BARBERO, Jésus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio
de Janeiro: UFRJ, 2013, p. 28-29.

Página | 42
Martín-Barbero, pois percebemos que existem várias formas de recepção das mensagens
produzidas pelos meios de comunicação66.
Ferreira e Gomes (2014) chamam a atenção para os limites das propagandas
ideológicas elaboradas pelo IPES, já que apesar de toda a articulação e campanha anti-
Goulart e antiesquerda, parcela significativa da população apoiava o movimento
liderado por Goulart:

[...] O próprio Dreifuss admite que, com todo o seu poder financeiro, e
sua máquina publicitária, o IPES não estava alcançando seu objetivo
de desacreditar as ações do governo perante a opinião pública. Ou
seja, mesmo com toda a propaganda contra a proposta governamental
de reforma de base, em especial a agrária, engrossada pelas ameaças
de comunização do país, o presidente governava com o apoio da
sociedade. [...] A despeito de toda a campanha anticomunista e dos

66
A ideia da importância e influência dos meios de comunicação de massa começa a ganhar lugar
protagonista no debate da esquerda a partir da Escola de Frankfurt com Horkheimer, Adorno e Benjamin.
Apesar de ter como eixo central a discussão sobre os meios de comunicação. Adorno e Benjamin terão
ideias conflitantes a respeito do impacto e receptividade das mensagens produzidas por esses mecanismos
pelo povo. O conceito de indústria cultural, criado por Horkheimer e Adorno, foi construído ao longo de
vários textos, mas em suma, esse conceito se firma na lógica de uma produção cultural em massa, ou seja,
em larga escala, como os produtos industriais, além de se criar uma necessidade de consumo dessa
cultura. Segundo Martín-Barbero, essa análise contribuiu muito para a compreensão de que até mesmo as
diferenças políticas podem ser construídas, mas esse conceito também trás consigo o risco de
generalizações ao esvaziar a possibilidade de resistência e de crítica em obras produzidas pelos meios de
comunicação de massa. Nessa perspectiva, mesmo produções que sejam aparentemente críticas também
acabam colocando o espectador sempre na posição daquele que não possui a capacidade de análise e
questionamento. Portanto, um dos elementos da indústria cultural é gerar a incapacidade imaginativa e
reflexiva, além de condicionar e direcionar o espectador. Outro elemento importante dessa indústria
cultural é a perversidade em fazer o espectador se conformar com a vida baseada na exploração, fazendo
com que entre no ritmo degradante da vida, que lhe é imposta cotidianamente, limitando cada vez mais a
capacidade de se rebelar contra essas injustiças. Isso tudo sendo realizado de uma forma perversa, pois
toda essa conformidade é gerida através de uma suposta diversão, o espectador supõe estar em um
momento de lazer, longe do trabalho, mas na verdade, vem sendo bombardeado por uma série de
propagandas ideológicas que o faça pensar em sintonia com o pensamento dominante capitalista,
seguindo os passos de um irracionalismo político. Walter Benjamin, apesar de fazer parte da Escola de
Frankfurt, pensa em um movimento contrário ao traçado por Adorno. E é a partir da discussão de
Benjamin que é interessante pensar o papel de organizações como o IPES e o Imil, pois existe de fato
uma relevância na existência desses grupos e a sua influência nos meios de comunicação de massa, seja
através de revistas, jornais, TV, internet e livros. Mas deve-se tomar cuidado com a visão de grandes
manipuladores, como é o traço da indústria cultural elaborado por Adorno. Benjamin foi significativo
para pensar nas inúmeras possibilidades de recepção daquilo que é produzido pelos meios de
comunicação de massa. Nesse sentido, Benjamin auxilia a pensar o uso e a percepção que a massa faz
daquilo que é produzido pelos meios de comunicação, pois parte da compreensão de que é necessário
entender quais são as suas experiências. Partindo desse modo de análise, interrompe a forma da relação
mecânica entre manipuladores-manipulados e passa-se a compreender que a população não receberá as
informações de forma homogênea, pois fará uso e dará sentido às mensagens de acordo com a sua
realidade concreta. “Benjamin propõe então a tarefa de pensar as mudanças que configuram a
modernidade a partir do espaço de percepção, misturando para isso o que se passa nas ruas com o que se
passa nas fábricas e nas escuras salas e cinema e na literatura, sobretudo, na maldita”.(MARTÍN-
BARBERO, Dos meios às mediações, p. 81)

Página | 43
milhões que financiaram candidaturas ligadas ao IPES, os setores
identificados como de centro e de esquerda foram amplamente
vitoriosos no pleito.67

Assim, não bastou ter um amplo corpo de pessoas e empresas, inclusive da área
das comunicação, para que o público assimilasse as mensagens produzidas como havia
sido programado, é necessário também ter a consciência de que esse público recebe e dá
significados que podem não ser aqueles que seus produtores esperavam. Ferreira e
Gomes (2014) mostram como Goulart não era visto de forma homogênea pela
sociedade. Sendo assim, ele não era tido unanimemente como aquele que deveria ser
retirado do poder, não eram todos os setores que defendiam essa posição, muitos
inclusive o tinham como um bom chefe de Estado. Assim, apesar de toda a propaganda
política anti-Goulart elaborada, defendida e difundida pelo IPES e toda aquela gama de
recursos humanos, materiais e empresariais, seria precipitado afirmar que Goulart foi
totalmente desqualificado por tal grupo, ou seja, que a sua campanha foi totalmente
bem-sucedida.
Como afirmado anteriormente, o IPES desempenhou um papel importante
justamente porque setores econômica e intelectualmente influentes estavam envolvidos
com tal organização e isso representava não só um forte descontentamento com o
governo, mas também muita energia gasta na tentativa de desestabilizá-lo com uma
série de estratégias, mas até mesmo a imprensa esteve dividida entre o apoio e a
oposição ao governo, assim como vários outros setores da sociedade civil.

Até os primeiros dias de março de 1964, nos meios de comunicação


em geral e nos jornais, em particular, não havia unanimidade sobre o
governo Goulart. Embora em muitos estudos o conjunto da imprensa
brasileira seja apresentado em uma postura de sistemática oposição a
Jango, uma pesquisa mais atenta conduz a conclusão diversa. A
situação era bem mais complexa, mesmo para profissionais
experimentados, como os jornalistas das maiores folhas do país.68
(FERREIRA e GOMES, 2014, p. 243)

67
FERREIRA, Jorge e GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente, p.
73.
68
FERREIRA, Jorge e GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente, p.
253.

Página | 44
Esse comportamento conflituoso presente na imprensa nesse período também
pôde ser sentido em outros setores:

[...] a mobilização da figura da mulher é muito evidente e


compreensível, sobretudo quando questões como o desabastecimento
e o aumento do custo de vida estavam nas ruas. A dona de casa
defendendo a sua família e filhos foi e continuará sendo uma imagem
política emblemática. Mas havia também mulheres que apoiavam as
reformas e, por isso mesmo, elas igualmente procuraram se
manifestar. A época, vale insistir, era de radicalização, o que incluía a
organização dos cidadãos e cidadãs em variados tipos de
agrupamentos políticos.69

No aspecto da denominada “doutrinação geral”, o IPES difundia sua ideologia


por diversos meios, como filmes, desenhos, simpósios, palestras, entrevistas usando
todos os meios de comunicação, rádio, TV e jornal. Publicava diversos artigos na
imprensa e produzia programas para rádio e TV, contando sempre com o apoio de
intelectuais com renome nacional para assinar os artigos e jornalistas que ajudassem na
manipulação de informações. Justamente por essa dimensão do contexto político de
intensas participações e de radicalização política, é arriscada a afirmação de que a
campanha trilhada e desempenhada pelo IPES foi absolutamente bem-sucedida e que
conseguiu atingir todos os setores da sociedade.
É importante analisar o papel dos intelectuais, como Raquel de Queiróz, Nélida
Piñon e Golbery do Couto e Silva, que utilizavam seu prestígio para respaldar as
propagandas e matérias do IPES, sob a perspectiva de Julien Benda (2007). O ódio
exacerbado em relação aos movimentos da esquerda, ao comunismo e a qualquer
política progressista, é correspondente à paixão política. De acordo com Benda (2007),
essas paixões políticas atingiram níveis extremamente altos a partir do século XX, até
então, o ódio, apesar de existir, não possuía tanta abrangência, acabando por formar
gama grande de propagadores. A facilidade das comunicações auxiliou na expansão e
construção das afinidades em torno das paixões cujo conteúdo é muitas vezes de classe,
raça ou nação, quando não os três juntos.

69
FERREIRA, Jorge e GOMES, Angela de Castro,. 1964: o golpe que derrubou um presidente, p .
256.

Página | 45
Atingem também coerência. Vê-se claramente que, graças ao
progresso da comunicação entre os homens e, mais ainda, do espírito
de grupo, os adeptos de um mesmo ódio político – que ainda há um
século se queriam mal uns aos outros e se odiavam, se ouso dizer, em
ordem dispersa – formam hoje uma massa passional compacta, da
qual casa elemento sente-se ligado à infinidade dos outros.70

Benda (2007) ainda chama a atenção para a constância dos ódios. O ódio
movido pela paixão política sempre existiu, mas seu movimento coletivo era
intermitente, no entanto, o período contemporâneo trouxe consigo a continuidade das
ondas de ódio político.

[...] em relação às paixões de raça e de classe [...] Atualmente, basta


lançar os olhos ao jornal toda manhã para constatar que os ódios
políticos não folgam mais um só dia. Quando muito alguns se calam
por um momento em favor de um deles, que reclama subitamente
todas as forças dos indivíduos; é a hora das “uniões sagradas”, que
não anunciam de modo algum um reinado do amor, mas sim do ódio
geral que já domina uma parte deles. As paixões políticas adquiriram
hoje este atributo tão raro na ordem do sentimento: a continuidade.

Os meios de comunicação de massa auxiliaram nesse processo de


potencialização e constância das paixões71. A comunicação moderna se tornou um
mecanismo, não só de fonte para observar esse movimento, mas também como recurso
dessa manutenção. Assim, os recursos dos meios de comunicação ajudaram nesse
processo da construção daquilo que deve ser considerado o inimigo, por isso a
participação de grupos como O Globo e o Estadão foram importantes para o IPES
difundir sua propaganda.
Neste âmbito de paixões políticas é possível constatar que alguns intelectuais
acabaram desenvolvendo o papel de “organização intelectual dos ódios políticos”,
muitos, inclusive, utilizando o argumento de pressupostos científicos para legitimar
sentimentos e atitudes que excluem os indivíduos por orientação política, raça etc.
O risco está em introduzir suas paixões em seus trabalhos, e fechar os olhos para
os erros daquilo que defende, justificando os excessos cometidos. Segundo Benda, o
nacionalismo contemporâneo carrega a marca dessa paixão. Dessa forma, a traição

70
BENDA, Julien. A traição dos intelectuais. São Paulo: Peixoto Neto, 2007, p. 122.
71
BENDA, A traição dos intelectuais, p. 124.

Página | 46
intelectual constitui em respaldar as injustiças cometidas por grupos de ódio que está
intrínseca na paixão política e, muitas vezes, no nacionalismo.

[...] Respondamos apenas que os intelectuais que praticaram esse


fanatismo traíram sua função, a qual é precisamente erguer, diante dos
povos e da injustiça a que os condenam suas religiões da terra, uma
corporação cujo único culto é o da justiça e da verdade. Certamente,
esses novos intelectuais declaram não saber o que é a justiça, a
verdade e outras “nuvens metafísicas”; dizem que, para eles, o
verdadeiro é determinado pelo útil, o justo, pelas circunstâncias.72

72
BENDA, A traição dos intelectuais, p. 153.

Página | 47
CAPÍTULO 2

O INSTITUTO MILLENIUM E A PERMANÊNCIA DO PENSAMENTO


CONSERVADOR

Han pasado los siglos y sigue creciendo la


influencia del filósofo inglés John Locke en
el pensamiento universal.
No es para menos. Gracías a Locke,
sabemos que Dios ortogó el mundo a sus
legítimos proprietários, los hombres
industriosos y racionales, y fue Locke quien
dio fundamento filosófico a la libertad
humana em todas sus variantes: la libertad
de empresa, la libertad de comercio, la
libertad de competência, la libertad de
contratación.
Y la liberdad de inversíon. Mientras escrebía
su «Ensayo sobre el entendimiento
humano» , el filósofo contribuyó al
entendimiento humano invertiendo sus
ahorros en la compra de um paquete de
acciones de la Royal Africa Company.
Esta empresa, que pertenecía a la corona
britânica y a los hombres industriosos y
racionales, se ocupaba de atrapar esclavos
em África para venderlos en América.
Según la Royal Africa Company, sus
esfuerzos aseguraban un constante y
suficiente suministro de negros a precios
moderados.
— Eduardo Galeano

2.1 Formas de atuação do Instituto Millenium

O INSTITUTO MILLENIUM (IMIL) se assemelha em alguns aspectos com o IPES, inclusive


algumas empresas que faziam parte do IPES também são membros do Imil, como a
Gerdau, Suzano, Estadão e Grupo Abril73. É possível notar a permanência do
pensamento conservador74 entre os dois grupos. O IPES foi criado em 30 de novembro

73
No Imil o Grupo Gerdau compõe o Grupo Líder, Suzano o Grupo Master, o Estadão o Grupo de
Apoio e a Abril o Grupo Associado.
74
Conservadorismo é entendido aqui como orientação ideológica cujo conteúdo se opõe às ideias
progressistas que trazem consigo a possibilidade de desenvolvimento humano através das transformações

Página | 48
de 1961, enquanto em 2005 foi criado o Instituto da Realidade Nacional, cujo nome foi
alterado para Instituto Millenium em 2006. É importante ressaltar que apesar de ambos
os grupos serem representantes do pensamento conservador, o contexto histórico no
qual cada um se situa irá determinar o modelo econômico e social defendido por cada
um. O IPES, por exemplo, defendia intervenção do Estado em várias esferas sociais,
mas sem interferência direta na economia garantindo a liberdade de mercado, já o Imil,
além de defender a livre iniciativa de mercado, também afirma ser necessária a redução
estatal em todas as esferas sociais garantindo não só a plena liberdade individual, mas
também a transferência de todas as responsabilidades sociais para a iniciativa privada.
Para entender essa permanência é interessante pensar o contexto histórico em
que surgiram esses grupos, o IPES nasceu durante o governo de João Goulart, governo
com propostas de avanços nas áreas sociais. E o Imil durante o primeiro mandato do
governo Lula, período que abriu maior espaço para o debate sobre a ditadura, as
torturas, a participação civil durante a ditadura, as ações da esquerda75, mas tudo isso
feito com muito cuidado e avanços moderados, evitando o embate direto com setores
militares e grupos civis.
Também é importante pensar a necessidade desses grupos em continuarem
formando organizações cujo intuito é impactar a opinião pública com as suas crenças
políticas, usando para isso várias estratégias que atinjam não apenas um grupo restrito
de empresários e economistas, mas a sociedade de forma geral, tentando chegar aos
mais variados segmentos.
Para isso, o Imil também dispõe de uma série de especialistas das mais variadas
áreas, contando com a presença de economistas, antropólogos, cientistas políticos,
jornalistas etc., assim como o auxílio de empresas de vários segmentos.

políticas e sociais, a igualdade liberdade, não só civis, mas também sociais e as implicações dessa
racionalização da capacidade da humana de mudança nas esferas políticas e econômicas. De acordo com
Antonio Ozaí da Silva, essa dicotomia política entre pensamento progressista e o conservador ficou
marcada após a Revolução Francesa. SILVA, Antonio Ozaí da. O pensamento conservador. Espaço
Acadêmico, v. 9, n. 107, p. 53-55, abr. 2010.
75
O trabalho de Daniel Aarão Reis Filho que em obras como Ditadura e democracia no Brasil
fala sobre a participação da sociedade civil; de Beatriz Kushnir sobre cooperação da imprensa durante a
ditadura civil-militar em Cães de guarda: jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988; de
Carlos Fico sobre a ação do governo dos Estados Unidos na campanha de desestabilização do governo
João Goulart e no reforno militar em O grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo,
são exemplos de obras que trouxeram à tona esses debates.

Página | 49
O Imil atua com vários mecanismos de divulgação de ideias, hoje muito mais
amplas e de fácil difusão que na década de 1960 como era com o IPES. O Imil possui
além de produção e divulgação de livros, artigos e opiniões nos meios de comunicação
envolvidos com a organização, também um canal no YouTube, podcasts (programas
gravados em áudio e disponibilizados no site), organiza simpósios, conferências e
colóquios com seus articulistas, possui também um trabalho realizado diretamente com
o público universitário chamado “Imil na Sala de Aula”, cujo intuito, segundo o site, é:

Discutir com os jovens valores como liberdade, Estado de Direito,


economia de mercado e democracia é o principal objetivo do projeto
“Imil na sala de aula”. Através do contato direto com alunos e
professores de instituições de ensino superior, públicas e privadas , o
Instituto Millenium promove encontros entre especialistas de sua rede
e alunos dos cursos de graduação.76

O Imil divulga suas mensagens através dos meios de comunicação com os quais
são vinculados, como revistas da Editora Abril, Editora Globo, jornais como O Globo e
O Estado de São Paulo, além de manter blogs nessas respectivas revistas, utilizando o
vasto universo de possibilidade que existe na internet. Sendo que na revista Exame há o
blog denominado Blog do Instituto Millenium e na revista Veja seus membros, como
Rodrigo Constantino, dispunha até muito recentemente de um blog próprio e outros
membros, como Leandro Narloch, atuam como colunistas.
A internet é importante para o Imil justamente por não ter uma fronteira física e
ser um recurso eficiente de difusão de ideias. Segundo os dados disponíveis na Alexa77
o site do Imil ocupa a 24ª posição do ranking de sites mais visitados no Brasil:

76
INSTITUTO MILLENIUM. Imil na Sala de Aula. Disponível em:
<http://www.institutomillenium.org.br/imil-na-sala-de-aula/>. Acesso em: 27 fev. 2015.
77
Serviço disponível para medir a média de visualizações de sites. ALEXA: Consulta por Imil.
Disponível em: <http://www.alexa.com/siteinfo/imil.org.br>. Acesso em: 28 jul. 2015.

Página | 50
http://www.alexa.com/siteinfo/imil.org.br

E uma média de que varia entre 30 e 40 mil de acessos por mês. O que
representa um acesso significativo ao site:

http://www.alexa.com/siteinfo/imil.org.br

O Imil, como o IPES, possui grupos divididos com funções específicas,


denominados Câmaras e Conselhos. O primeiro dela é a Câmara de Fundadores e

Página | 51
Curadores, composto por membros articulistas tidos como intelectuais da organização.
Fazia parte dos fundadores indivíduos como o jornalista Pedro Bial (PATSCHIKI,
2013), que não figura mais no quadro de membros do grupo, mas que foi um membro
importante. Fazem também parte nomes como Rodrigo Constantino, formado em
economia, colunista em jornais como Valor Econômico e O Globo, é um dos membros
mais ativos do Imil, publicando textos de opinião nesses veículos e produzindo vídeos
para o canal do Imil no YouTube. Também figura nessa Câmara Patrícia Carlos de
Andrade, economista; Luiz Eduardo Vasconcelos diretor geral de Mídia Impressa e
Rádio das Organizações Globo; Maria José de Queiróz professora catedrática da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além de lecionar na Universidade de
Indiana, nos Estados Unidos e na Universidade de Paris, Sorbonne; Paulo Gontijo
Presidente do Conselho de Jovens Empresários da Associação Comercial do Rio de
Janeiro (ACRJ)78.
Outra divisão importante é a Câmara de Mantenedores, nesse segmento,
responsável pelos investimentos financeiros, estão os responsáveis por grandes
empresas e indústrias, como Daniel Feffer, vice-presidente do Conselho de
Administração e Membro do Comitê de Estratégia da Cia. Suzano de Papel e Celulose;
João Roberto Marinho, presidente do Conselho Editorial e vice-presidente das
Organizações Globo; Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho de
Administração do Grupo Gerdau; Salim Mattar, presidente da Localiza79.
O Conselho de Governança tem a função gestora de articular o envolvimento
dos membros do Imil com aquilo que é planejado80. Nele estão a Editora Abril, Rodrigo
Constantino, João Roberto Marinho, Jorge Gerdau Johannpeter, entre outros. O Imil
conta com o apoio de outras organizações empresariais menores, o que demonstra um
comprometimento com as demandas de tal classe. Entre elas estão a Confederação
Nacional dos Jovens empresários (CONAJE), Espírito Santo em Ação, Instituto de
Estudos Empresariais, Instituto Liberdade e Instituto Liberal.

78
INSTITUTO MILLENIUM. Quem Somos. Disponível em:
<http://www.institutomillenium.org.br/institucional/quem-somos/>. Acesso em: 27 jul. 2015.
79
Idem, ibidem.
80
PATSCHIKI, Lucas. A classe dominante em organização: uma análise sobre a hierarquia
do Instituto Millenium (2005-2013). XIV Encontro Regional de História: 1964-2014: 50 anos de golpe
militar no Brasil, Campo Mourão, 2014.

Página | 52
Dispõe também de uma página na rede social Facebook, o que constitui um
recurso de divulgação importante, pois, segundo consta no Alexa81, o Facebook é um
dos sites mais visitados no Brasil, sendo um mecanismo de projeção de imagem o que
facilita propagar o conteúdo presente no site e em suas outras mídias. Sua página no
Facebook é atualizada com textos de opinião, vídeos e imagens ligadas às ações do Imil.
Atualmente possui cerca de 42 597 seguidores, mas a média de seguidores na página
varia semanalmente, podendo chegar a um aumento de 200 membros.

Dados sobre o número de curtidas da página no Facebook.

No canal do YouTube um dos vídeos mais acessados é o de Rodrigo Constantino


O liberalismo e seus princípios, com cerca de 73782 acessos, no qual afirma que
“muitas pessoas são liberais sem saber”. Esse vídeo é interessante porque nele fica claro
o motivo pelo qual Constantino chama os governos que investem em áreas sociais de

81
Segundo consta na página do Alexa, o Facebook fica atrás apenas da página de pesquisas do
Google. http://www.alexa.com/topsites/countries/BR

Página | 53
autoritários, argumento utilizado pela grande maioria dos membros do Imil e também
presente em diversos textos escritos por ele. Afirma que a ação governamental de
investimento em assistência social é uma prática antidemocrática já que para isso é
necessário recolher impostos, ou seja, a injustiça, segundo Constantino, reside no fato
de governos, não só no Brasil, mas em outros países, arrecadarem os impostos para
reverter esse dinheiro em benefícios sociais:

O grau de poder arbitrário delegado a essa esfera governamental vai


ter sido tão grande, mas tão grande que eles vão fazer o que quiser
[sic.]. É preciso lembrar sempre de uma coisa: o poder delegado para
o governo fazer aquilo que consideramos a justiça social e o que ele
quiser fazer em nome dessa justiça também é o poder delegado para
tirar a nossa liberdade. Então, todo mundo que acorda para esse risco é
um liberal em potencial. Todo mundo que acorda para a questão de
você defender o governo fazer isso, aquilo e aquilo, prover isso,
aquilo e aquilo, sem se preocupar de onde vem, por exemplo, os
recursos pra isso, quando você entende que [sic.] dar para João você
tem que tirar de José, você também é um liberal em potencial, porque
você entende que isso vai levar a um modelo de carga tributária de
40% do PIB, você vai trabalhar de janeiro a junho para sustentar esse
modelo. (...) São certas linhas de raciocínio que mostram que: olha se
você seguir por esse caminho coletivista, utópico, ingênuo você vai
acabar num modelo que produz muito menos riqueza para a grande
maioria e que vai tolher, de forma preocupante, a liberdade do
indivíduo. (...) Esse é o modelo que leva a Venezuela, esse é o modelo
que leva a Argentina, então o liberal é a pessoa que acorda pra [sic.]
isso. [Os trechos em destaque foram enfatizados na fala do autor] 82

Nota-se que a ideia de liberdade está diretamente ligada à ideia de recursos


financeiros, sendo assim, a leitura feita por Constantino é que o autoritarismo do
governo parte do princípio de redistribuição de renda em investimentos em áreas sociais
essenciais. A campanha de redução de impostos está diretamente conectada à noção,
defendida pelo Imil, de redução do papel do Estado passando a responsabilidade das
demandas sociais por serviços básicos para a iniciativa privada.
Desde 2009 o Imil realiza a campanha Dia da liberdade de impostos, na qual
alguns postos de gasolina de cidades como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro
efetuam as vendas do produto sem a carga tributária. O objetivo é demonstrar que o

82
Esse trecho é a transcrição do vídeo O liberalismo e seus princípios de Rodrigo Constantino,
disponível no canal do Imil no YouTube. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=hoieAF3fL4U

Página | 54
tributo no Brasil possui uma carga excessiva, mas o que os integrantes do Imil
defendem, não é somente a redução dos impostos, mas sim o corte nos tributos cortando
junto o investimento estatal nas áreas sociais. Assim, as temáticas defendidas pelo Imil
se encaixam em uma linha lógica: redução dos impostos — menor ação do Estado em
investimentos públicos — ampliação da iniciativa privada em serviços sociais —
liberdade de mercado.
A temática dos impostos é uma das bandeiras mais defendidas pelo Imil e um
dos assuntos mais levantados. Somente sobre carga tributária são 275 tópicos e
impostos são 571, disponíveis no site do Imil, entre textos e vídeos. É interessante
observar que a sigla do Partido dos Trabalhadores (PT) são 357, Dilma Rousseff são
527 e Lula são 567, mas não existem tags83 relacionadas a outros partidos políticos:

Imagem das tags do site.

Como foi mencionado anteriormente, o contexto histórico da origem do Imil foi


durante o primeiro governo do ex-presidente Lula, em 2005. Muitos de seus articulistas
declaram a aversão ao PT e aos seus respectivos filiados de forma explícita. No texto de
83
Tags são marcações temáticas.

Página | 55
despedida do blog da revista Veja, Rodrigo Constantino afirma que os momentos de
ataques pessoais ou de excessos foram, de certa forma, culpa do partido mencionado, já
que “o PT me faz ser uma pessoa pior” (CONSTANTINO, 2015)84 . Assim, apesar de o
grupo se declarar desvinculado de qualquer partido político, os membros do Imil se
opõem de forma clara ao PT não se posicionando em relação aos outros partidos
presentes nas instâncias dos poderes executivo e legislativo.
Em seu livro, Esquerda Caviar, Rodrigo Constantino, com uma linguagem
ofensiva, faz uma espécie de mapeamento dos quadros que considera a esquerda no
Brasil e no mundo. Elencando pessoas das mais diversas áreas como políticos, artistas,
intelectuais, escritores e grupos sociais, tece uma série de acusações sobre o perigo que
o pensamento e as ações da esquerda representam para a democracia.
Destila uma série de preconceitos em relação a vários grupos marginalizados que
reivindicam o reconhecimento pelos governos de seus respectivos países e pela
sociedade. Usando uma linguagem que ridiculariza os grupos negros, feministas, gays e
indígenas, constrói os textos transformando a luta pelos direitos civis e sociais em luta
pela implantação da opressão das minorias em relação à maioria, assim, Constantino
considera os brancos e homens as maiores vítimas da “esquerda caviar”.
Constantino usa a terminologia “esquerda caviar” para se referir aqueles
indivíduos que considera incoerentes ou hipócritas, como o mesmo afirma, por serem
ricos, morarem em lugares caros, em alguns casos, no exterior e desfrutar do que o
capitalismo fornece, mas ainda assim criticar esse sistema econômico e reivindicar a
ampliação dos direitos das minorias.

Salvar o planeta, proteger os índios, cuidar das crianças africanas,


enfrentar os ricos capitalistas em nome da justiça social, pagar a
dívida histórica com os negros, acabar com a guerra, enaltecer as
diferenças culturais, idealizar os jovens são algumas das bandeiras dos
abnegados artistas e intelectuais.
Há um pequeno detalhe: normalmente, muitos deles são ricos
graças ao capitalismo que atacam; vivem no conforto do Ocidente que
desprezam; gozam da liberdade de expressão que inexiste em Cuba
que tanto proclamam; e desfrutam da paz e da segurança conquistadas
pelo poder militar do Tio Sam que tanto abominam.85

84
CONSTANTINO, Rodrigo. Despedida! Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-
constantino/sem-categoria/despedida/>. Acesso em: 13 out. 2015.
85
CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda Caviar. Rio de Janeiro: Record, 2013. E-book.

Página | 56
Constantino alerta para o perigo ideológico dessa corrente da “esquerda caviar”,
principalmente em um mundo onde recursos tecnológicos da internet pode potencializar
o discurso desses indivíduos. Afirma ainda que a defesa dos “regimes nefastos” não
devem ser banalizadas, mas sim veementemente combatidas. Esses “regimes” tidos
como perigosos são geralmente ligados ao socialismo. Percebe-se um constante ataque à
Cuba e a persistência da dicotomia entre os Estados Unidos, como exemplo de
liberdade, e Cuba, como de autoritarismo.
Chega até mesmo a comparar os regimes fascistas, como o nazismo, ao
socialismo da antiga União Soviética, sem fazer nenhuma diferenciação metodológica,
ideológica e conceitual, em contrapartida ressalta as características positivas do
capitalismo para diferenciá-lo dos outros dois. Percebe-se nessas comparações o recurso
de manipulação das informações e da história para caracterizar a esquerda, de modo
geral, às posições e realidades extremamente violentas e que violaram os direitos
humanos, associando assim qualquer movimento progressista à falta de liberdade.
A construção da imagem do sistema capitalista é feita de forma idealizada, em
nenhum momento Constantino aponta os pontos negativos de tal sistema, ao invés disso
o ressalta como extremamente benéfico e como a melhor solução para os malefícios que
outros sistemas carregam. Afirma ainda, que o capitalismo foi o responsável por tirar
milhares de pessoas da pobreza, mas não escreve em seu texto como isso ocorreu, nem
como.

[...] O comunismo carrega nas costas algo como 100 milhões de


defuntos, enquanto o nazismo tantos outros milhões. Ambos são
totalitários, depositam no estado [sic.] todo o poder, partem para fins
coletivistas, transformando os indivíduos em sacrificáveis, e incitam o
ódio do preconceito, seja de classe ou de raça.
Em outras palavras, tanto o comunismo como o nazismo,
similares em inúmeros aspectos, são absolutamente opostos ao
capitalismo liberal, que prega a liberdade individual [...] Enquanto o
comunismo e o nazismo trouxeram apenas desgraça, miséria, terror e
morte, o capitalismo trouxe o progresso para os povos e retirou
centenas de milhões da pobreza, o estado natural da humanidade.86

86
CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda Caviar. E-book.

Página | 57
Nesse sentido, uma das grandes contradições de Constantino é justificar outras
guerras financiadas e promovidas por países capitalistas como algo justo, pois, segundo
ele, independente de ter como consequência a morte de milhares de pessoas, mesmo
sendo inocentes e crianças, as causas foram nobres, já que sem isso a liberdade dos
países ocidentais estaria ameaçada.
Rodrigo Constantino considera modelos políticos e econômicos, como o Estado
de Bem-Estar Social, como um sistema construído pela esquerda e responsável por
distribuir “pacotes de bondade” em um mundo sem “adultos responsáveis por seus
atos”. O capitalismo defendido pelo autor é o que segue a cartilha do neoliberalismo,
mas qualquer medida tomada por algum governo que atenda minimamente os direitos
sociais faz com que Constantino passe a considerá-lo como parte da esquerda. Dessa
forma, considera Barack Obama, um presidente neoliberal, marxista por ter promovido
algumas políticas sociais:

[...] Um brasileiro que acompanha a política americana só pelas lentes


de nossa imprensa deve ler isso e achar que está em Marte! Como
assim? O “messias” Obama, tão bonzinho, tão legalzinho, tão
amiguinho?
Ah, que ignorância não faz! Obama tem um histórico de marxismo, de
amizades muito estranhas, que incluem terroristas, de mentalidade
autoritária, e nada disso foi mostrado por nossa imprensa ao longo dos
últimos anos.87

Em outro capítulo critica Obama por ter expandido os direitos sociais e o acesso
à saúde, enfraquecendo a meritocracia, o que para Constantino é uma das principais
características das sociedades livres. Afirma ainda que as reformas promovidas por
Obama tiveram como base a “retórica da luta de classes”:

Com a retórica da luta de classes, Obama expandiu o assistencialismo,


e nunca houve tanto americano dependendo de esmolas estatais. A
meritocracia cedeu espaço para o coletivismo. O sonho americano
parece cada vez mais distante.
Outro grande troféu de Obama foi seu programa de saúde, o
Obamacare. Trata-se de uma espécie de SUS americano.88

87
CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda Caviar. E-book.
88
CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda Caviar. E-book.

Página | 58
Um ponto marcante no material produzido pelo autor de Esquerda Caviar é o
ódio declarado pelo PT. Constantino responsabiliza o PT pela maioria dos problemas
sociais, civis e econômicos que ocorreram nas mais variadas esferas no Brasil. Sua
crítica é tão intensa que até mesmo quando sua página na rede social Facebook foi
temporariamente bloqueada o economista acusou o partido:

https://twitter.com/Rconstantino/status/710464470691225600

No livro Esquerda Caviar, o PT é chamado de “partido mais corrupto e


autoritário do Brasil”89 e acusado de cooptação dos meios de comunicação. Na verdade,
Constantino afirma que existe uma infiltração comunista na imprensa, além disso,
especialmente pelo fato de parte da verba da imprensa vir de propagandas oficiais do
governo, os meios de comunicação se tornam aliados do mesmo.
Destaca ainda que essa tendência colaborativa cresceu grandemente após a
chegada do PT à presidência da república:

Além dessa infiltração, há claramente o caso da imprensa chapa-


branca. Como o governo é um grande anunciante, principalmente em
países com maior presença estatal na economia — como no caso
brasileiro —, os jornais e emissoras de televisão acabam reféns da
mentalidade estatizantes.
[...] Infelizmente, quando o PT chegou ao poder no Brasil,
esse fenômeno cresceu de forma assustadora, e hoje temos diversos

89
CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda Caviar E-book.

Página | 59
casos evidentes de soldados da propaganda oficial espalhados pelas
redes sociais e pela imprensa.90

Essa infiltração comunista, de acordo com Constantino, faria parte do


estratagema da esquerda de tomar o poder de forma sutil através de mecanismos
ideológicos difundidos através da imprensa.
O partido ainda é apontado pelo autor como o responsável pela “preguiça” dos
brasileiros. Programas como o Bolsa Família são desqualificados por Constantino que
vê nesses investimentos um problema para a democracia:

Dar esmolas estimula a preguiça e cria dependência. Tivemos um


claro exemplo de tal dependência — preocupante para a democracia
— quando, em 2013 circularam rumores de que o Bolsa Família seria
suspenso. Uma turba ensandecida invadiu as agências da Caixa
Econômica Federal desesperada em busca de suas esmolas estatais.
Imagine se essa gente toda vai votar em um partido de oposição. Basta
o governo fazer terrorismo eleitoral, afirmar que cortarão a mesada, e
pronto: perpetua-se no poder com a compra de votos.91

As políticas públicas voltadas para qualidade de vida através de serviços


públicos são vistos por Constantino como um entrave na economia e para as liberdades
individuais, justamente por chocar com os preceitos da meritocracia. Dessa forma, os
investimentos nos direitos mais básicos como educação, saúde e moradia, seriam
excessos de um governo populista que não auxiliam na construção de uma sociedade
livre e justa.
O Imil também realiza uma campanha de doação financeira, além dos
mantenedores e apoiadores, é feito um apelo para arrecadar fundos de pessoas físicas e
de pequenas empresas. O argumento utilizado é a importância da defesa da democracia,
da liberdade de expressão e de mercado, elementos que diz representar já que atuam
procurando mudanças nesse sentido. Como o Imil é uma Organização da Sociedade
Civil de Interesse Público (Oscip) a doação de pequenos empresários dá o direito de
dedução de 2% dos impostos de renda.

90
CONSTANTINO, Esquerda Caviar. E-book.
91
CONSTANTINO, Esquerda Caviar. E-book.

Página | 60
A organização também atua por meio da publicação de artigos nos
principais veículos de comunicação do Brasil, no site do Instituto e na
promoção de eventos. Seu apoio será fundamental para nos ajudar a
construir um país mais próspero, a melhorar o desenvolvimento
humano no Brasil e a atingir os formadores de opinião que podem
influenciar a população na construção de um país melhor.92

As doações podem ser feitas uma única vez ou mensalmente, o valor varia de
R$ 100,00 a R$ 2000,00:

Os valores para doação. Disponível em:


http://www.institutomillenium.org.br/institucional/como-participar/

Nas campanhas de divulgação do site e dos princípios do grupo, o Imil utiliza as


figuras icônicas de Mahatma Gandhi e de Martin Luther King para reforçar que o
objetivo que orienta as ações de seus membros e das empresas apoiadoras e
mantenedoras, são os ideais da liberdade. Se apropriando da imagem de figuras que se
tornaram o símbolo da liberdade e dos direitos, Mahatma Gandhi lutando contra a
violenta colonização da Índia pela Inglaterra e de Martin Luther King contra a
segregação racial presente nos Estados Unidos, que não permitia aos negros os direitos

92
INSTITUTO MILLENIUM. Como Participar. Disponível em:
<http://www.institutomillenium.org.br/institucional/como-participar>. Acesso em: 13 out. 2015.

Página | 61
civis mais básicos, o Imil proclama suas intenções de representante das liberdades da
sociedade civil:

Mahatma Gandhi acreditava que podia derrotar o ingleses na Índia


sem violência. Mesmo nos momentos mais difíceis da disputa, não
usou uma bala sequer e foi assim que venceu os ingleses.
Nada é mais forte que princípios.
O Instituto Millenium é um centro independente de estudo, pesquisas,
divulgação e formação em estudos públicos que promove os
princípios de uma sociedade livre.
Os princípios pelos quais lutamos são a democracia, a economia de
mercado, o Estado de direito e a liberdade.
Esses princípios são simples, básicos, mas fundamentais. E o Instituto
Millenium busca ser uma referência e um agente na divulgação de
cada um desses valores para, assim, contribuir para a prosperidade da
sociedade e o desenvolvimento humano.93

93
INSTITUTO MILLENIUM. Campanha. Disponível em:
<http://www.institutomillenium.org.br/institucional/campanha/>. Acesso em: 20 mar. 2016.

Página | 62
Imagem
extraída do site do Instituto Millenium: http://www.institutomillenium.org.br/institucional/campanha/

Faz ainda ampla divulgação de uma série de livros com temáticas empresariais e
sobre negócios como O caminho para a liberdade financeira de Bodo Shäfer, Egoísmo
Racional de Rodrigo Constantino, Capitalismo e Liberdade de Milton Friedman,
Ataque! Transforme incertezas em oportunidades de Ram Charam, Os muito, muito
ricos e como eles chegaram lá de Max Gunther. Também divulgam inúmeros livros
com a temática da política, do contexto social, econômico e histórico nacional e da
América Latina, alguns deles escritos pelos próprios integrantes da Imil, como Manual
do Perfeito Idiota Latino-Americano escrito por Plinio Apuleyo Mendonza, Carlos
Alberto Montaner e Alberto Vargas Llosa, Da Independência a Lula: dois séculos da

Página | 63
política brasileira de Bolívar Lamounier, Não somos racistas de Ali Kamel, Guia
Politicamente Incorreto da História do Brasil de Leandro Narloch e Esquerda Caviar
de Rodrigo Constantino. Segundo Luciana Silveira (2011) o Imil se encaixa no modelo
de organizações do tipo think tanks, cuja característica é o investimento em pesquisas e
análises que visam a direcionar a opinião pública para a defesa de um determinado tipo
de política pública, sendo assim, se revestem do discurso de pensadores de novas
possibilidades e soluções para os problemas nacionais:

O papel dos “tanques de pensamento” é produzir análises sobre


políticas públicas ou ideias originais que orientem as opiniões, tanto
dos formuladores de políticas públicas (policy makers) quanto do
público de forma geral, em linguagem acessível a técnicos e leigos,
ocupando um espaço político na sociedade civil organizada.
Os think tanks, portanto, se caracterizam por sua produção de ideias
pretensamente inovadoras e pela tentativa de influenciar a formação
de opiniões e pensamento dos atores sociais, notadamente a
formulação de políticas públicas. Essas instituições aglutinam
pesquisadores multidisciplinares, dedicados a pensar soluções
politicamente relevantes, aplicáveis a problemas concretos.94

Segundo Silveira (2013), os think tanks se revestem do discurso de


desconstrução da barreira existente entre os conhecimentos e pesquisas acadêmicas e o
poder público, o que segundo o discurso deles, limitaria as vantagens que essa relação
poderia trazer em forma de políticas públicas. Portanto, os think tanks teriam a função
de mediador entre o que se produz na academia e a gestão política, além de levar ao
público leigo toda essa produção servindo também de mecanismo de interlocução. Para
legitimar esse discurso, os think tanks ressaltam, como características essenciais do
grupo a neutralidade, a imparcialidade e o apartidarismo, cujo objetivo central se
constitui no bem geral para a população. Sendo assim, esses grupos teriam ação de
prestadora de serviço público. No entanto, Silveira (2011) esclarece que apesar de todo
esse esforço para manter a aparente neutralidade, os think tanks são grupos cujos
objetivos visam direcionar ideologicamente a sociedade civil:

94
SILVEIRA, Luciana. Fabricação de ideias, produção de consenso: estudo de caso do Instituto
Millenium. 2013. 000 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Sociologia, Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2013, p. 3.

Página | 64
[...] De forma geral, portanto, as pesquisas conduzidas pelos think
tanks podem ser ideologicamente direcionadas de acordo com os
interesses de seus fundadores, pesquisadores e financiadores. [...]
Na atualidade, os think tanks são usualmente associados ao
liberalismo econômico e ao conservadorismo político, uma vez que
nos EUA eles se constituem como interlocutores legítimos do
governo, sendo por isso são tidos como lobistas e não exclusivamente
como analistas/proponentes de políticas públicas.95

O Imil assim como IPES faz amplo uso de todos os seus recursos midiáticos
para difusão dessas ideias, dispõe de um site bem acessado, grandes meios de
comunicação trabalham diretamente com o grupo, possui várias publicações de livros de
seus membros, além da indicação de vários outros. Mas a divulgação massificada de
suas propagandas não significa que o público receptor esteja se apropriando exatamente
como planejado pelos seus articulistas.

2.2 Imil e a política neoliberal

Além de não existir uma neutralidade em grupos think tanks, geralmente a linha
ideológica é o liberalismo econômico, ou seja, livre iniciativa de mercado e
interferência mínima do Estado, inclusive em políticas públicas como saúde, educação
etc., pois a liberdade muitas vezes proferida não significa automaticamente igualdade.
Como ressalta Norberto Bobbio:

[...] Ao mesmo tempo, continuamos a ter sempre presente sob os olhos


a sociedade em que vivemos, na qual são exaltadas todas as
liberdades, e com particular relevo a liberdade econômica, sem que
nos preocupem, ou só nos preocupem marginalmente, as
desigualdades delas derivadas e presentes em nosso próprio mundo e,
com visibilidade ainda maior, nos mundos mais distantes.96

O discurso público do Imil é defensor da liberdade, enfatizando sua importância


“em todos os seus desdobramentos”:

Liberdades individuais: a defesa perene da liberdade de escolha, em


todos os seus desdobramentos: liberdade de expressão, liberdade
95
SILVEIRA, Fabricação de ideias, produção de consenso , p. 4.
96
BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São
Paulo: Editora Unesp, 1995, p. 128.

Página | 65
religiosa, liberdade econômica, liberdade de imprensa, liberdade de
reunião e assembleia, liberdade de empreender, liberdade de ir e vir,
liberdade de contratar, liberdade de pensamento, liberdade política,
livre circulação de bens, pessoas e capital.97

Em contrapartida, ao mesmo tempo em que levanta a bandeira dessas liberdades,


seus especialistas e articulistas elaboram uma série argumentos sobre a necessidade da
redução do papel do Estado em investimentos sociais e do papel da meritocracia como
mecanismo para o desenvolvimento do país:

Meritocracia: premiação ao esforço individual, recompensa a


dedicação, estímulo ao trabalho, estímulo ao estudo, garantia do gozo
dos frutos do trabalho, estímulo ao desenvolvimento das
potencialidades individuais, prosperidade e desenvolvimento humano,
desenvolvimento de melhores competências, criação de um ambiente
propício para o desenvolvimento econômico e social, redução da
acomodação, redução do nepotismo e apadrinhamento, aumento da
produtividade geral da sociedade, aprimoramento dos serviços
públicos, empreendedorismo, estimulo à competição, estímulo à
cooperação, estímulo à inovação.98

Como os think tanks são compostos não só por especialistas de áreas


diversificadas, mas também por acadêmicos e outros intelectuais, existe a imagem de
caráter científico e rigor metodológico. Para tanto, no caso do Imil, dá destaque às
pessoas que atuam dentro do meio acadêmico, como o antropólogo Roberto DaMatta e
o cientista político Bolívar Lamournier, também para especialistas com formação em
áreas que dão comumente respaldo para a reformulação de políticas públicas, no caso os
economistas, como Rodrigo Constantino, este último sempre em constante atividade no
ataque às esquerdas e aos intelectuais cujas ideologias entram em choque com as suas.
Para Silveira “[...] um dos papéis dessas instituições [think tanks] é reunir especialistas
de diferentes trajetórias e especialidades com o objetivo de estabelecer comunicação
entre atores díspares, — como consultores e burocratas — mas com metas e interesses
comuns.”99

97
INSTITUTO MILLENIUM. Missão, visão, valores. Disponível em:
<http://www.institutomillenium.org.br/institucional/missao-visao-valores/>. Acesso em: 27 jul. 2015.
98
Idem, ibidem.
99
SILVEIRA, Fabricação de ideias, produção de consenso , p. 5.

Página | 66
Said (1994) ao falar do atrelamento dos intelectuais aos governos, jornais e think
tanks aponta para as limitações que ocorrem ao fazer isso, pois suas pesquisas, apesar de
serem financiadas e estimuladas, acabam sendo direcionadas para interesses desses
grupos, sendo assim, diminui a possibilidade de autonomia de pensamento, de crítica e
de julgamento:

[...] permanece a questão se há ou pode haver algo como um


intelectual independente, atuando de forma autônoma, que não seja
devedor e, por conseguinte, não se sinta constrangido por suas
afiliações com universidades que pagam salários, partidos que exigem
lealdade a uma linha política, think tanks que, ao mesmo tempo que
oferecem liberdade para fazer pesquisa, talvez comprometam mais
sutilmente o discernimento e restrinjam a voz crítica. Como Dedray
sugere, quando o círculo se alarga para além do seu grupo intelectual
propriamente dito [...] alguma coisa na sua vocação fica, se não
anulada, certamente inibida.100

Ao falar sobre esse alinhamento Said, evidentemente, não quer dizer que os
intelectuais sejam indivíduos desvirtuados por trabalharem em universidades e jornais,
mas destaca o risco que se corre ao se integrar fortemente a grupos de interesse ou de
pressão como partidos políticos e think tanks.
Os think tanks, como é o caso Imil, contam com a presença desses intelectuais
renomados, o que acaba dando certo prestígio e legitimidade ao grupo, mas por outro
lado, é importante pensar nessa profissionalização101 e no quanto as análises são
canalizadas para os interesses dessas organizações e não para algo realmente científico e
crítico, que se preocupe com o contexto social geral. Quando Said fala da criticidade
dos intelectuais, ele não se refere a pessimismo e negatividade, mas à realidade
examinada, ajudando a levantar debates.
Para Said (1994), ao entrar em conformidade com os partidos políticos, think
tanks e com governos, os intelectuais deixam de cumprir o seu papel que seria primar
pela sua independência de pensamento. O que, por sua vez, coloca como secundária a

100
SAID, Representações do intelectual. E-book.
101
Said faz uma contraposição do papel do intelectual enquanto profissional e como amador:
“Portanto, o problema para o intelectual é tentar lidar com as restrições do profissionalismo moderno,
como tenho discutir, sem fingir que elas não existem ou negando a sua influência, mas representando um
conjunto diferente de valores e prerrogativas. Chamarei essa atitude de amadorismo, literalmente uma
atividade que é alimentada pela dedicação e pela afeição, e não pelo lucro e por uma especialização
egoísta e estreita.” SAID, Representações do intelectual. E-book.

Página | 67
responsabilidade social de estabelecer critérios morais em suas análises, que deveriam
visar o comprometimento do papel de criar representações cuja justiça e liberdade
sirvam como orientações, sendo assim, é necessário que o intelectual não seja
representante de grupos cujo poder financeiro possam lhe comprar as ideias, mas sim
que seja orientado por ideais humanistas.

[...] o intelectual propriamente dito não é funcionário, nem um


empregado inteiramente comprometido com os objetivos políticos de
um governo, de uma grande corporação ou mesmo de uma associação
de profissionais que compartilham uma ideia em comum. Em tais
situações, as tentações de bloquear o sentido moral, de pensar apenas
do ponto de vista da especialização ou de reduzir o ceticismo em prol
do conformismo são muito grandes para serem confiáveis.102

Ao se alinhar nas fileiras das grandes organizações financeiras, existe a forte


possibilidade de defender seus interesses independentemente da possibilidade de suas
ações serem nocivas para algum grupo social. Aqui se diferencia o intelectual amador
do profissional, enquanto o primeiro é movido pelo conhecimento, pela pesquisa e por
ideais, mesmo estando vinculado a alguma universidade, o segundo se prende aos
interesses específicos dos grupos, se tornando, por vezes, especialistas e limitando o
campo de extensão das ideias que podem ou não ser defendidas.
Segundo Silveira (2011), as variadas formas de difusão das mensagens por
artigos, livros, entrevistas e vídeos, ou seja, utilizando vários mecanismos, acerca de
determinados temas pautados com insistência caracterizam o Imil como um think tank,
mesmo quando os seus membros propagam as ideias articuladas com o grupo sem uma
declaração pública de que elas foram produzidas em sintonia com os seus interesses:

[...] A promoção de eventos abertos ao público bem como a


divulgação de artigos curtos acerca de temas diversos como política,
corrupção, reforma tributária, reforma da previdência e do Estado,
etc., se inserem na lógica da repetição de uma mensagem, em
diferentes meios e formatos, necessária à conscientização do público
acerca da importância de um dado assunto. Que seus colaboradores
falem desses temas na qualidade de experts em meios de comunicação
(televisão, rádio, jornais) não altera, necessariamente, a caracterização
de advocacy, de militância, mesmo quando eles não mencionam o
veículo como think tank.103
102
SAID, Representações do intelectual. E-book.
103
SILVEIRA, Fabricação de ideias, produção de consenso, p. 24.

Página | 68
O Imil, no seu discurso público, declara ter esse objetivo de entidade dotada de
estudiosos cuja função é encontrar soluções para os problemas enfrentados no Brasil,
através de um diálogo com a população:

Por meio de seminários, palestras e encontros realizados por todo o


país, do contato com a imprensa e a publicação de análises diárias no
portal, o Imil apresenta alternativas para problemas-chave do país e
fomenta o debate com as diversas vozes da opinião pública,
contribuindo, assim, para o desenvolvimento nacional. 104

Porém, apesar dessa declarada preocupação com a “nação brasileira”, o que fica
demonstrado no próprio site do Imil na internet, é que essa preocupação não se estende
para os setores atingidos pelas mazelas sociais, se restringindo assim aos setores
empresariais, em como são afetados pelo sistema político brasileiro, sendo o porta-voz
de suas atuais demandas “Tem a missão de se tornar referência e agente de divulgação
de soluções para a sociedade brasileira, baseadas em visão pragmática de assuntos
públicos de governo, política, economia, sociedade e cultura.”105
Uma de suas principais pautas é a privatização de serviços prestados pelo poder
público, ou seja, a redução do papel do Estado. Aqui se faz necessária uma
diferenciação entre o liberalismo, como o Imil se auto-intitula, e o neoliberalismo
presente nos materiais produzidos pelo mesmo.
De acordo com Bobbio (1994), o liberalismo não está intrinsecamente ligado à
democracia, apesar da existência de muitos regimes que se arrogam do título de liberal-
democracia, fazendo crer que um está necessariamente vinculado ao outro, não
constituir de fato uma democracia. Por “liberalismo” compreende-se o Estado cujas
funções e poderes são limitados. Bobbio ainda evidencia que o Estado liberal também
existe naquelas sociedades cujo poder político se concentra nas mãos das classes
economicamente favorecidas.

A existência atual de regimes denominados liberal-democráticos ou de


democracia liberal leva a crer que liberalismo e democracia sejam
interdependentes. [...] Um Estado liberal não é necessariamente

104
INSTITUTO MILLENIUM. Quem Somos. Disponível em:
<http://www.institutomillenium.org.br/institucional/quem-somos/>. Acesso em: 27 jul. 2015.
105
Idem, ibidem.

Página | 69
democrático: ao contrário, realiza-se historicamente em sociedade nas
quais a participação no governo é bastante restrita, limitada às classes
possuidoras. Um governo democrático não dá vida necessariamente a
um Estado liberal: ao contrário, o Estado liberal clássico foi posto em
crise pelo progressivo processo de democratização produzido pela
gradual ampliação do sufrágio até o sufrágio universal.106

A doutrina liberal defende um Estado limitado, entendido como Estado mínimo


e Estado de direito, sendo respectivamente os limites de funções e o limite de poderes.
O Estado de direito é dirigido não pelos homens, mas pelas leis, cujo objetivo é evitar o
uso ilegítimo e abuso de poder. Entre os principais mecanismos para essa manutenção
estão: o controle do Poder Executivo pelo Legislativo; o Judiciário monitorando o
Legislativo; a autonomia dos governos locais em relação ao governo central e a
“magistratura independente do poder político”107. Deveria também garantir as
liberdades individuais, desde que um indivíduo não viole a liberdade de outros, assim
como todos deveriam ser tratados igualmente perante a lei, assegurando os direitos
civis.
De acordo com Bobbio (1994) a democracia moderna, significa o poder
representativo, ou seja, se opõe à democracia dos antigos por não ser o “povo” a tomar
as decisões políticas diretamente, o que se pressupõe na democracia moderna e
representativa é o respeito às vontades de quem elegeu seus representantes e que os
mesmos não defendam os interesses de organizações, mas sim da nação como um todo.
Segundo os preceitos liberais, para que haja bom desenvolvimento econômico é
necessário que o mercado se autorregule sem a intervenção estatal, pois tal interferência
pode representar entraves no desenvolvimento de materiais, mão-de-obra, técnicas e
preços. De acordo com essa lógica, o Estado a princípio pode auxiliar baixando normas
que evitem as fraudes, mas com o tempo essas mesmas normas se tornam obsoletas
atrapalhando o desenvolvimento tecnológico108.
A ditadura civil-militar no Brasil representou um paradoxo das ideias liberais ao
representar um Estado autoritário e anti-democrático, no sentido de que somente um
grupo era responsável pela tomada de decisões, no caso a elite econômica e intelectual

106
BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 7-8.
107
BOBBIO, Liberalismo e democracia, p. 19.
108
MORAES, Reginaldo C. Corrêa de. Liberalismo e neoliberalismo: uma introdução
comparativa. Campinas: IFCH Unicamp, 1997.

Página | 70
juntamente com os militares, tirando até mesmo o direito de escolha dos representantes
pelo povo e a liberdade de expressão, sendo que para isso se utilizou de métodos
coercitivos como prisão, exílio e tortura. Segundo Bobbio (1994), esse desencontro
entre liberalismo e democracia é possível justamente quando o arbítrio fica restrito a um
menor número de cidadãos nas decisões coletivas.
Para entender o neoliberalismo e o projeto defendido pelos membros do Imil
como de corte de gastos, menos intervenção estatal na economia e precarização do
trabalho, é necessário compreender o movimento político mais amplo e muito anterior à
criação do Imil. Já em 1990, com o governo de Fernando Collor de Melo, o Brasil
passou a inserir nos projetos políticos os preceitos neoliberais, tendência seguida
também por outros países latinos, tendo o governo Fernando Henrique Cardoso
aprofundado a doutrina neoliberal. A partir de então o Brasil se abriu para o
investimento externo, à entrada das multinacionais, deu início às privatizações e a
flexibilização das leis trabalhistas.
Segundo Eduardo de Carvalho Pinheiro (2013), por causa da dívida externa o
Brasil era pressionado a seguir a cartilha do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do
Banco Mundial que exigia uma postura a redução do Estado na economia e a
liberalização das importações, mas além dessas instituições internacionais, existia a
pressão civil interna também que exigia reformas:

[...] A fragilidade política do país e a vulnerabilidade externa causada


pelos problemas econômicos (sobretudo pela crise da dívida)
permitiram a imposição de condicionantes por parte dos credores e
dos organismos internacionais (FMI e Banco Mundial) contrárias à
estabilização da economia nacional. Não bastasse, com a ajuda da
imprensa e de intelectuais renomados, fora propagada a crença da
impropriedade da nossa economia, reclamando-se pela reforma
estrutural do país para inseri-lo plenamente na “vantajosa” economia
de mercado. Foram empreendidas campanhas midiáticas, patrocínio
acadêmico e vários seminários científicos a fim de comprovar as
vantagens da economia neoliberal.109

Fernando Collor, como o primeiro presidente democraticamente eleito, foi o


primeiro responsável pela abertura pela abertura comercial com liberalização e

109
PINHEIRO, Eduardo de Carvalho. A influência do neoliberalismo na autonomia
brasileira: da industrialização às reformas após a redemocratização. 2013. 181 f. Dissertação (Mestrado)
- Curso de Relações Internacionais, Universidade Estadual da Paraíba, João Pessoa, 2013, p. 111.

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desregulamentação do mercado nacional, aumentando a dependência do Brasil em
relação ao capital estrangeiro, isso tudo foi resguardado e aprofundado durante o
período do governo Fernando Henrique Cardoso. Segundo Pinheiro (2013), essa
interferência estrangeira afetou não só o setor econômico, mas também o político e
social, trazendo consigo a vulnerabilidade das relações trabalhistas, fazendo com que as
condições de trabalho fossem as melhores possíveis para os setores econômicos e
degradantes para os trabalhadores.
As relações trabalhistas não foram afetadas somente no setor privado, mas na
área estatal também. Com o pacote de reformas que continham a redução do Estado
através do fechamento de algumas entidades e privatização de outras, os governos
neoliberais reduziram a quantidade de funcionários públicos e colocaram em situação
vulnerável aqueles que continuaram seguindo carreira:

[...] houve uma alteração institucional do aparato estatal através da


reforma administrativa englobando o fechamento de 22 entidades
públicas, privatização de um vasto número de empresas públicas [...]
subvalorizadas, sem um cuidado com regulamentação posterior e de
forma inexpressiva com relação ao PIB produzido pelo Brasil. A
reforma administrativa também realizou modificações no
funcionarismo público, alterando a segurança das relações e
realizando cortes nos gastos públicos com a dispensa de um grande
número de funcionários [...] e ainda trouxe novas regras de custeio e
de concessão dos benefícios previdenciários para os funcionários
públicos e privados, aumentando os encargos para os contribuintes e
restringindo o acesso aos benefícios.110

Ricardo Antunes (2000) aponta a existência do processo paralelo entre o


desenvolvimento do neoliberalismo, a globalização industrial e o crescente número de
excluídos da sociedade através do aumento do número de desempregados e da
precarização do trabalho. Nessa lógica produtiva, que prioriza a produção de
mercadorias e o desenvolvimento da indústria, não tem em contrapartida a valorização
humana, nem o cuidado com o meio ambiente. De acordo com Antunes (2000),
seguindo a onda neoliberal do capitalismo, além de desestruturar a social democracia
barrando o que foi construído até então, também mudou as formas de trabalho e
produção, passando a desenvolver uma flexibilização e desregulamentação, tornando o
trabalhador mais vulnerável e deixando-o dispensável.
110
PINHEIRO, A influência do neoliberalismo na autonomia brasileira, p. 116.

Página | 72
Trata-se, portanto, de uma aguda destrutividade, que no fundo é a
expressão mais profunda da crise estrutural que assola a
(des)sociabilização contemporânea: destrói-se a força humana que
trabalha; destroçam-se os direitos sociais brutalizam-se enormes
contingentes de homens e mulheres que vivem do trabalho; torna-se
predatória a relação produção/natureza, criando-se uma monumental
“sociedade do descartável”, que joga fora tudo o que serviu como
“embalagem” para as mercadorias e o seu sistema, mantendo-se,
entretanto, o circuito reprodutivo do capital.111

Essa flexibilização do trabalho é a ruptura com os modelos fordistas e tayloristas


na transição para o modo de produção toyotista. Diferentemente dos outros dois
modelos, cujos trabalhadores exerciam funções definidas na cadeia de produção, no
toyotismo o trabalhador desempenha uma função multifuncional e polivalente,
entretanto, essa mudança não afetou somente a forma como o trabalho passou a ser
dividido, mas também as relações sindicais e com a empresa empregadora.Segundo a
lógica desse modelo, o pensamento dos funcionários devem se alinhar ao da empresa,
Antunes (2000) chama de envolvimento manipulatório, que significa a aceitação dos
projetos produzidos pelo capital pelos trabalhadores. Para o autor, é uma forma de se
apropriar do saber fazer intelectual, já que incentiva os trabalhadores a discutirem entre
si as melhores formas de desenvolvimento da empresa fazendo construindo a adesão aos
objetivos empresariais. O modo de produção toyotista passa também a ser
horizontalizado, ou seja, a maior parte das peças não são produzidas no interior das
fábricas, terceiriza-se essa função.
Esse processo, chamado por Antunes (2000) de empresa enxuta, acarretou uma
série de consequências negativas para os trabalhadores do mundo inteiro, como o
aumento do trabalho feminino precarizado; a exclusão de jovens e idosos do mercado de
trabalho, o que acaba por acarretar, em alguns casos, a inserção desses jovens em
grupos violentos ou extremistas, como os neonazistas; a inclusão do trabalho infantil
nos países com “industrialização intermediárias”; e a ampliação da terceirização, que
antes atingia especialmente os imigrantes, mas com o tempo passou a atingir os
trabalhos especializados. O resultado disso foi o surgimento de uma classe trabalhadora
heterogênea e marcada pela divisão entre aqueles qualificados e os desqualificados.

111
ANTUNES, Ricardo. Trabalho e precarização numa ordem neoliberal. In: La Ciudadania
Negada. Políticas de Exclusión en la Educación y el Trabajo. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de
Ciencias Sociales (CLACSO), 2000, p. 38.

Página | 73
Criou-se, de um lado, em escala minoritária, o trabalhador
“polivalente e multifuncional” da era informacional, capaz de operar
máquinas com controle numérico e de, por vezes, exercitar com mais
intensidade sua dimensão intelectual. E, do outro lado, há uma massa
de trabalhadores precarizados, sem qualificação, que hoje está
presenciando as formas de part-time, emprego temporário, parcial, ou
então vivenciando o desemprego estrutural.112

Portanto, a onda de precarização do trabalho que houve no Brasil a partir dos


governos Fernando Collor de Melo, seguiu uma tendência mais ampla de
desenvolvimento do neoliberalismo que implicava, entre outras transformações, a
transformação do universo trabalhista.
Essa mesma precarização também é defendida pelos membros do Imil. Materiais
são produzidos com o intuito de levantar a questão da necessidade de mudança na
legislação trabalhista. Os motivos apontados como necessidade para as alterações são as
regras, consideradas entraves pelo Imil, que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)
impõe aos empregadores.
Os argumentos levantados giram em torno da questão do desemprego também.
Nesse caso, a responsabilidade pelo crescente número de jovens desempregados é
direcionada para a CLT, que segundo os especialistas do Imil colocam barreiras no
vínculo empregatício. Dessa forma, as leis trabalhistas que simbolizam uma conquista
importante para os trabalhadores brasileiros e o mínimo de garantia para que estes não
fiquem tão vulneráveis às ações e movimentos do mercado, são colocadas justamente
como o maior motivo de um problema político, econômico e social.
O cientista político Luis Felipe D’Ávila113, membro do Imil e diretor-presidente
do Centro de Liderança Pública (CLP), com forte atuação na produção e divulgação de
materiais, comenta a necessidade de tornar a CLT mais flexível para beneficiar,
especialmente os jovens empreendedores:

Esse estado pesado e ineficiente você sente na pele todos os dias,


especialmente se você vai abrir o próprio negócio. Demora pra abrir
uma empresa, demora pra fechar uma empresa. [...] Além disso, tem

112
ANTUNES, Ricardo. Trabalho e precarização numa ordem neoliberal, p. 43.
113
D’ÁVILA, Luis Felipe. Temos que reformar as leis trabalhistas.
http://www.institutomillenium.org.br/audiovisual/milleniumtv/temos-reformar-leis-trabalhistas/. Último
acesso em: 05/05/2016.

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toda essa barreira de mercado. Hoje pra contratar um funcionário você
tem que encarar a verdadeira CLT que, na verdade, atrapalha a
geração de emprego dos jovens por isso que o desemprego dos jovens
no Brasil é tão alta [sic.]. Como a CLT engessa tanto os direitos, o que
você vai acabar fazendo? É difícil contratar, é difícil demitir e é
sempre melhor ter pessoas com mais experiências do que jovens com
menos experiência. Portanto, nós temos que reformar a lei trabalhista.
Por exemplo, uma cláusula muito simples, não precisamos mexer na
CLT. Nós podemos pelo menos ter uma cláusula que entendimento
entre empregador e trabalhador pode ser feito a despeito da CLT. Isso
abriria um enorme campo pra que nós possamos ter uma legislação
entre acordo entre duas partes e isso faz com que nós tenhamos
possibilidade de gerar mais emprego entre jovens e de estimular o
empreendimento. Precisamos simplificar regras, simplificar essa
legislação trabalhista para que os empreendedores no Brasil tenham
vez de inovar e produzir, pois a produtividade vai surgir, vai começar
a crescer novamente se nós dermos asas aos nossos jovens
empreendedores.114

Dessa forma, o pensamento de D’Ávila possui coerência com as alterações no


mundo do trabalho provocadas pelo neoliberalismo. Como afirmam Ricardo Antunes e
Giovanni Alves (2004), faz parte da tendência do neoliberalismo a crescente exclusão
dos jovens do mercado de trabalho, colocando-os em situação de fragilizada e sendo o
trabalho precarizado o que lhe resta, isso afeta também a população mais idosa, sendo
essas duas gerações as que mais sentem o peso dessa transformação da área do
trabalhista. Portanto, a responsabilidade pelo desemprego não se encontra nas regras da
CLT, mas sim na lógica do mundo do trabalho presente no neoliberalismo:

Outra tendência no mundo do trabalho é a crescente exclusão dos


jovens, que atingem a idade de ingresso no mercado de trabalho e que,
sem perspectiva de emprego, acabam muitas vezes engrossando as
fileiras dos trabalhos precários, dos desempregados sem perspectiva
de trabalho, dada a vigência do desemprego estrutural.
[...] Paralelamente a desemprego dos jovens também vem ocorrendo a
exclusão dos trabalhadores considerados “idosos” pelo capital [...]115

Durante os governos Collor e FHC deu-se início ao maior processo de


liberalização econômica visto no Brasil. Esse processo significou reformas que atraíram
o mercado externo e a redução do papel do Estado na economia, proporcionando a

114
D’ÁVILA, Luis Felipe. Temos que reformar as leis trabalhistas.
115
ANTUNES, Ricardo e ALVEZ, Giovanni. As mutações no mundo do trabalho na era da
mundialização do capital Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 87, 2004, p. 339.

Página | 75
autorregulação do mercado, isso, por sua vez, aumentou o poder de interferência desses
sujeitos econômicos em várias esferas da política nacional, pois a entrada das
multinacionais, trouxe com elas a necessidade de adequar as decisões nacionais às
necessidades dos agentes externos (PINHEIRO, 2013).
A entrada de empresas estrangeiras no país era vista com entusiasmo, pois as
mesmas eram representadas com aspectos modernos, ou seja, a sua inserção via
privatização significava o avanço do Brasil ao apresentar serviços de qualidade por
empresas modernizantes, o que, por sua vez, levaria ao desenvolvimento. Mesmo os
grupos nacionais que participaram do processo de privatização também tinha uma
relação com o capital internacional. Assim, para a realização das privatizações, os
governos utilizaram, além do argumento de Estado onerado pelas instituições e
empresas públicas, também a justificativa de que isso representaria a modernidade, o
que significaria vantagens para a população que vivia em um país cujos serviços eram
atrasados pela ineficiência estatal.

[...] o processo de privatizações no Brasil buscou ser tratado como um


fato benéfico, indicador de modernidade [...] Foram levantados
argumentos para justificar o desfazimento dos empreendimentos
estatais, tanto na venda de muitos deles como no fechamento de
alguns outros. Os defensores do neoliberalismo buscaram legitimar o
desmonte do aparelho estatal com justificativas de que o fenômeno
seria proveitoso à população [...]116

Como afirma Francisco de Oliveira (1999), a privatização foi um longo caminho


que começou a ser trilhado antes mesmo do governo Fernando Henrique Cardoso, ainda
nos anos 1980 com o processo de falência do Estado por dívidas, mas concretizado em
seu governo nos anos 1990:

[...] Esse intenso processo, articulado financeiramente pelo Estado


como um capital financeiro geral, e na maior parte dos casos, como
capital estatal produtivo – isto é, o papel do Estado subsidiando a
formação de capital e, ao mesmo tempo através das empresas estatais,
constituindo a nova rede de relações industriais – na crise da dívida
externa dos anos oitenta, terminou convertendo a referida dívida
interna pública, com o que esgotou o papel de “condotiere” do Estado

116
PINHEIRO, Eduardo de Carvalho. A Influência Neoliberal na Autonomia Brasileira: da
industrialização às reformas após a redemocratização. Paraíba: Dissertação de Mestrado, 2013, p.
136.

Página | 76
na expansão capitalista. O Estado “falido”, uma expressão imprópria
que a mídia tratou de divulgar, dava conta desse esgotamento.117

Com o argumento do Estado falido, se constrói todo o discurso da necessidade


da privatização, já que além de ineficiente e desnecessário, esses gastos públicos são
tidos como peso morto, pois oneram o Estado ao fazê-lo gastar sem ter um retorno
financeiro. Mas ainda de acordo com Francisco de Oliveira (1999), apesar desse
discurso da necessidade do Estado se salvar a partir da iniciativa privada, o que
acontece é justamente o contrário, é o poder estatal que dá a base de sustentação das
empresas:

A privatização do público é uma falsa consciência de desnecessidade do


público. Ela se objetiva pela chamada da falência do Estado, pelo mecanismo
da dívida pública interna, onde as formas aparentes são as de que o privado,
as burguesias emprestam ao Estado: logo, o Estado, nessa aparência, somente
se sustenta com a extensão do privado. O processo real é o inverso: a riqueza
pública, em forma de fundo, sustenta a reprodutibilidade do valor da riqueza,
do capital privado.118

A despeito dos argumentos que defendiam a privatização como mecanismo de


melhoria, a realidade se mostrou diferente, os valores dos produtos aumentaram, já que
não existia mais a preocupação do Estado em manter serviços acessíveis à população e
as empresas visavam o lucro e não, necessariamente, qualidade de vida como
prioridade. Além disso, não houve melhora no fornecimento dos produtos “O
fornecimento de água, energia elétrica e o transporte público são exemplos de áreas em
que se esperava aprimoramento e manteve-se a má qualidade nas prestações.”119
Portanto, um dos principais argumentos para privatização é a ineficiência da
gestão pública para administrar serviços essenciais, como saneamento básico, isso
porque, segundo o discurso neoliberal, o Estado se enrosca em uma rede burocrática que
não permite o desenrolar adequado desses serviços, não atendendo a população de
forma eficiente. O Imil se utiliza desse raciocínio, que como foi visto, é anterior à sua
criação em 2005, para concluir que privatizar é o melhor mecanismo que pode ser
adotado pelo poder público.
117
OLIVEIRA, Francisco de. Os sentidos da democracia: políticas do dissenso e a hegemonia
global. Orgs. Francisco de Oliveira e Maria Célia Paoli. Brasília: Editora Vozes, 1999, p. 17.
118
OLIVEIRA, Francisco de. Os sentidos da democracia, p. 18.
119
PINHEIRO, Eduardo de Carvalho. A Influência Neoliberal na Autonomia Brasileira, p. 137.

Página | 77
Segundo os especialistas consultados pelo Imil, a transição dessa
responsabilidade do poder público para a administração privada a seria solução para os
problemas, como indica essa entrevista feita com Kleber Luiz Zanchin:

O primeiro assunto relacionado à burocracia é a presença muito


grande do Estado nesse segmento. O saneamento no Brasil é atendido
majoritariamente pela administração pública, por meio dos
departamentos de água e esgoto, por entidades autárquicas ou por
empresas públicas municipais ou estaduais. [...] O Estado tem
limitações, especialmente na questão de contratações, que impedem
que a coisa deslanche. A segunda questão são as licenças e aprovações
dos projetos. Devido ao alto impacto ambiental, todos os projetos de
saneamento precisam passar pelo licenciamento ambiental, bastante
complexo no Brasil, por envolver instâncias municipais, estaduais e,
às vezes, até federais. O terceiro ponto é a qualidade dos projetos. O
Estado realiza a maioria dos projetos técnicos e financeiros. Muitas
vezes eles não atendem às demandas da população.120

Percebe-se uma insistência no argumento da ineficiência estatal para


fundamentar as privatizações:

Para mim, a coisa mais importante é uma reestruturação do sistema,


tirando-o do Estado. A gente precisa mudar para um paradigma
privado do saneamento, como fez o Chile. É deixar a iniciativa
privada investir. O Estado deve assumir a posição de mediador e
gestor do sistema. Enquanto nós tivermos o Estado como
empreendedor, como operador, sempre vai faltar dinheiro porque a
folha [de pagamentos] e as ineficiências do Estado consomem
muito.121

Para endossar a questão da privatização do saneamento básico são expostas a


opinião de outros especialistas que falam dessas vantagens não só para o aumentar o
número de beneficiários, como também para o aproveitamento dos resíduos, após o
tratamento, em fertilizantes e reutilização da água, como afirma José Eli da Veiga:

Porém, com menos da metade de sua população atendida por esgoto, o


Brasil ocupa o 112º lugar na classificação mundial e o 12º na da

120
INSTITUTO MILLENIUM. É deixar a iniciativa privada investir.
http://www.institutomillenium.org.br/divulgacao/entrevistas/deixar-iniciativa-privada-investir/. Último
acesso em: 25/07/2015.
121
Idem.

Página | 78
América Latina. Em vizinhos como México e Venezuela, só 10% da
população continuam a sofrer os malefícios de esgoto a céu aberto.
Isso já seria suficiente para que fossem maximizados investimentos
privados mediante PPPs de saneamento. Mas há mais. Esse revoltante
atraso com certeza a maior das injustiças socioambientais que assolam
a sociedade brasileira neste início de século XXI pode se tornar um
benemérito trunfo estratégico. É que ele agora oferece excelente
oportunidade econômica além dos incomparáveis benefícios
humanitários e socioambientais se as estações de tratamento de
esgotos forem projetadas com um tripé de novas funções: obtenção de
fertilizantes (com destaque para o fósforo); geração de bioenergias
(biodiesel, biogás, bioeletricidade), e reuso da água tratada. 122

Essa análise sobre a lentidão do Estado para aprovar e concretizar projetos de


políticas públicas que devem fornecer os serviços mais básicos para qualquer cidadão é
utilizado em diversos outros textos divulgados pelo site:

Um estudo inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI),


repassado a “O Globo”, mostra que o trâmite da papelada dentro do
serviço público aumenta o tempo de análise de projetos em quase
70%. Um processo que poderia ser concluído em 13 meses leva 22
meses para ser aprovado. São quase dois anos em que as cidades
mudam, as favelas crescem e os projetos ficam obsoletos, diz o
estudo.123

Nos materiais divulgados no site do Imil são visíveis os outros pontos da cartilha
neoliberal, como meritocracia como uma das soluções para a melhoria na educação e do
desempenho do professor. O que segundo Ricardo Paes de Barros, em entrevista
concedida à revista Época, divulgada no site do Imil e em sua página no facebook, seria
uma forma de valorização profissional:

Outro ponto importante em educação é a disseminação de uma agenda


positiva. Em determinado momento tivemos de começar a bater na
tecla de como a nossa educação vai mal, de quanto nossos professores
estão mal preparados. Fizemos isso tanto que nossos educadores
parecem estar nocauteados. Precisamos reformular o plano de carreira
e mostrar para os professores que aqueles que se saírem bem serão
reconhecidos. Tem de haver um sistema de meritocracia que premie o

122
VEIGA, José Eli da. No saneamento está a mais virtuosa das políticas sociais.
http://www.institutomillenium.org.br/ultimas/jose-eli-da-veiga-saneamento-esta-mais-virtuosa-das-
politicas-sociais/ . Último acesso em: 04/05/2016.
123
INSTITUTO MILLENIUM. Burocracia emperra projetos de saneamento básico no país.
http://www.institutomillenium.org.br/blog/burocracia-emperra-projetos-de-saneamento-bsico-pas/.
Último acesso em: 25/07/2015.

Página | 79
professor cujo aluno saiu de um ponto e progrediu, mesmo que ele não
tenha alcançado as notas mais altas. Isso é importante para não ser
injusto com aqueles professores que trabalham com os alunos mais
124
difíceis, cujo progresso não aparece em notas, mas ocorre.

Ainda no eixo de uma proposta de reforma na educação, Paes de Barros defende


mudanças não só no ensino básico, pretende também um modelo diferente de ensino
superior. Se espelhando no modelo chileno e estadunidense, defende a privatização das
universidades públicas brasileiras como meio de cortar os gastos do Estado. Segundo
ele, essa mudança possibilitaria uma reformulação na arrecadação de impostos, pois o
governo deixaria de recolher o Imposto de Renda, para que esse dinheiro fosse guardado
por cada família para ser investido, posteriormente, no pagamento do ensino superior:

Nos Estados Unidos, em que o sistema universitário é o melhor do


mundo, na Colômbia, no Chile, funciona assim. Por que num país tão
desigual quanto o Brasil, os 10% que têm metade da renda brasileira
têm universidade gratuita? Nenhum filho dessas famílias deixaria de
estudar na USP porque a USP é paga. A fórmula simples é a seguinte:
cobrar da família o que ela pagava no ensino médio, de acordo com o
valor declarado no Imposto de Renda.125

Afirma ainda que a criação de números de Universidades públicas durante os


governos PT foram ações inconsequentes aumentando, sem nenhum cuidado e estudo
aprimorado, o aumento de gastos. Elogia a gestão do governo FHC por ter sido “muito
cuidadoso” com os gastos que esse tipo de política geraria:

O Fernando Henrique Cardoso era muito cuidadoso. Cada uma das


políticas sociais era olhada com lupa num nível muito detalhado [...]
Com o Lula não tinha nada disso. [...] Abrir universidade pública era
algo que tinha de ser feito com um cuidado. Por que abrir uma
universidade pública? Tinha de pensar 50 vezes e esmiuçar os
argumentos e o plano. No governo Lula abrimos mais universidades
públicas do que nos últimos 50 ou 100 anos. Havia arrojo. Mas, para
fazer algo assim, tem de ter uma equipe do outro lado com lupa para
analisar e controlar de onde tirar, em que momento tirar. Isso não
ocorreu. Foi arrojo e pronto. A mesma lógica do governo Lula vale
para a presidente Dilma. Ela é muito arrojada. Lançou o Pronatec
daquele tamanho enorme sem a busca de um ajuste fino. É a crença de

124
BARROS, Ricardo Paes. Os programas sociais precisam de relojoeiros.
http://www.institutomillenium.org.br/divulgacao/entrevistas/os-programas-sociais-precisam-de-
relojoeiros/ Último acesso em: 04/05/2016.
125
BARROS, Os programas sociais precisam de relojoeiros.

Página | 80
que a coisa é robusta e a política pública não precisa de delicadeza. Eu
não concordo com essa visão.126

No entanto, Paes Barros não menciona em nenhum momento a qualidade de vida


que isso trouxe para inúmeras pessoas que não teriam nenhuma perspectiva de entrar em
uma universidade, caso o governo não tivesse investido na ampliação do ensino
superior. Não faz nenhuma reflexão sobre o impacto positivo para o desenvolvimento
do país, gerado através da maior inserção de jovens e adultos nas universidades.
Defende ainda o congelamento do salário mínimo, segundo ele, quando é
realizado o aumento do salário mínimo o governo onera o empregador sendo esse o
ponto frágil da situação, já que a elevação dos gastos será responsabilidade do
empresário. Apesar de tal afirmação, Paes de Barros não explica como isso prejudica o
setor empresarial, nem levanta os pontos positivos da elevação salarial para a classe
trabalhadora.
O economista afirma ser necessária a prudência do governo nesse sentido, já que
pode melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores com outras medidas, como o
salário família127, passando assim a responsabilidade pelo pagamento do trabalho
vendido pelo trabalhador para o governo federal, aliviando a classe empresarial. Mas
nessa mesma entrevista Paes de Barros também defende a redução da abrangência do
bolsa família.
A fragilidade e incoerência do discurso se situa nesse ponto, pois ao mesmo tem
que afirma que é necessário que o governo privatize e diminua o investimento em
políticas públicas, assim como reduza o número de pessoas atendidas pelo bolsa família,
é contundente na posição de congelamento do salário de aumento do auxílio
governamental para garantir o lucro do empregador através do complemento salarial via
salário família. A defesa do aprofundamento do projeto neoliberal é muito claro, pois o
Estado, segundo essa lógica, deve dar garantias de desenvolvimento empresarial e em
contrapartida deve cortar os direitos sociais e vulnerabilizar os direitos trabalhistas.
126
Idem.
127
O salário família é um benefício concedido pelo governo federal para trabalhadores autônomos
que possuam filhos ou dependentes. O valor do benefício varia de acordo com a renda declarada. Os
critérios para ser beneficiário são: “Ter filho(s) de qualquer condição com menos de 14 anos de idade, ou
filho(s) inválido(s) de qualquer idade; Com salário de até R$ 725,02, tem direito em receber o valor de
R$37,18 por filho ou dependente; Remuneração mensal entre R$725,03 e R$1089,72 recebe o valor de
R$26,20 de salário família por dependente.” http://minimosalario.com.br/salario-familia-qual-o-valor-e-
quem-tem-direito.html. Último acesso: 05/05/2016.

Página | 81
A respeito do congelamento do salário mínimo, Paes de Barros afirma:

É muito importante aumentar a renda das famílias mais pobres, mas


isso é possível via salário-família e abono salarial, sem mexer com o
salário mínimo. Ao aumentar o salário mínimo se faz uma confusão
tão grande nas contas que não se sabe quem perde e quem ganha, e
isso afeta diretamente a Previdência. Quando aumenta o salário
mínimo, o governo faz o patrão do trabalhador com baixa
remuneração pagar a conta. Quando ele aumenta o abono ou o salário-
família, ele distribui a conta para todos os empregadores, com um
impacto muito menor em todos os aspectos. Por que estamos usando o
salário mínimo loucamente? Porque essa é uma política de resultado
instantâneo e, de novo, os efeitos colaterais são ignorados. Para mim,
o salário mínimo deveria ser congelado.128

Paes de Barros ainda fala da necessidade de modificar a política de arrecadação


de impostos, essa modificação constitui em deixar de colher os impostos para que não
seja mais utilizado pelo governo ao ser revertido em forma de políticas públicas. Ao
invés disso, os indivíduos deveriam guardar esse dinheiro para investir posteriormente
na própria educação ou em um fundo de pensão. Essa alteração significa a privatização
de alguns serviços fornecidos pelo Estado, como educação e previdência social:

Quem recebe Previdência no Brasil não é quem pertence à metade


mais pobre. Quem não tiver política muito ousada para controlar a
Previdência terá um problema. Outra lógica maluca que deve mudar é
que eu cobro de você um imposto e te dou um benefício. Daí, esse
dinheiro passa pelo governo e vira gasto público. Em vez de o
governo cobrar um imposto para dar um benefício previdenciário, por
que ele não faz o mesmo que faz com o FGTS? Coloca a contribuição
numa conta que é do cidadão. Isso deixa de ser gasto do governo e
também não será receita do governo. Será a pensão do cidadão no
futuro. [...] Como países com um gasto de proporção do PIB menor
que o Brasil conseguem ter serviços melhores que o Brasil? Porque
boa parte do gasto brasileiro é o governo devolvendo dinheiro para o
mesmo cara que pagou para ele. Por que cobrar imposto do
profissional e deixar o filho dele estudar na USP de graça? Por que
não parar de cobrar aquele imposto e propor que a família faça uma
poupança para que ela pague os estudos na USP?129

Assim, a reforma na previdência e na educação significaria a privatização de


ambas, pois deixaria de ser responsabilidade direta do governo e outras organizações

128
BARROS, Os programas sociais precisam de relojoeiros.
129
BARROS, Os programas sociais precisam de relojoeiros.

Página | 82
passariam a lucrar com esse processo, esse é um dos traços mais marcantes da agenda
neoliberal.
Em vídeo, produzido e promovido pelo Imil, Luis Felipe D’Ávila ao falar da
importância da redução do papel estatal chama os benefícios e direitos sociais de
privilégios, os quais os brasileiros estão habituados a “arrancar” do Estado:

O Estado brasileiro arrecada quase 40% da riqueza nacional, ou seja,


do nosso PIB. Isso é um absurdo. É um dos Estados maiores do
mundo, sem dúvida, o maior entre os países emergentes. Mas esse
tamanho do Estado reflete também as nossas prioridades e as nossas
escolhas. Todo mundo quer arrancar um pequeno privilégio do
Estado, um quer uma tarifa subsidiada para o setor da economia, o
outro quer uma meia entrada pra ir ao cinema, o outro quer pagar
menos pra andar de ônibus. [...] esse emaranhado de subsídios
cruzados que temos na economia brasileira reflete no altíssimo peso
da carga tributária.
Segunda coisa, o Estado gasta mal. Quase toda a arrecadação, esses
36% via imposto, nós gastamos em sustentar a máquina pública, ou
seja, isso não volta em melhoria de serviço público pra você. Você
sabe muito bem isso quando utiliza o transporte público, o hospital
público, ou estradas públicas tudo isso acaba mostrando a péssima
qualidade do nosso serviço público. Isso significa que o Estado que
gasta dinheiro com a máquina e pouco com o indivíduo, com você,
comigo, com nós cidadãos. [...] Para diminuir o tamanho do Estado,
diminuir a carga tributária, nós vamos ter de abrir mão de alguns
desses benefícios. É impossível reduzir o tamanho do Estado se nós
não cortarmos custos, programas, subsídios e proteções dadas a
determinados setores da economia. 130

O argumento do Estado que gasta mal o dinheiro, fornece serviços de má


qualidade e sucateia as esferas públicas, presente no discurso de D’Ávila, faz parte das
premissas neoliberais de ineficiência estatal. Esse Estado grande que onera o indivíduo
através de uma carga tributária alta é o que legitima o discurso de redução estatal e
transferência dos serviços públicos para o setor privado, ou seja, legitima as
privatizações, ponto recorrentemente trabalhado pelos membros do Imil.
Para Milton Santos (2011) o problema da globalização perversa é a imposição
de padrões financeiros e industriais que afetam negativamente a população, sem a
preocupação com seu bem estar. Segundo o autor, a ordem que rege as orientações

130
D’ÁVILA, Luis Felipe. Todo mundo quer um privilégio do Estado.
http://www.institutomillenium.org.br/audiovisual/milleniumtv/todo-mundo-quer-um-pedao-estado/
Último acesso em: 05/05/2016.

Página | 83
governamentais e empresariais do mundo globalizado não têm em vista os valores
humanistas e sim o financeiro.
Assim, essa globalização não afeta exclusivamente os modos de produção, mas
também as políticas colocadas em prática em cada país, cujo discurso vem transvestido
pelo argumento da preocupação social, mas visa impactar positivamente a iniciativa
privada. Essa defesa da privatização como modelo ideal a ser seguido, não é
exclusividade do discurso dos membros do Imil, mas sim de tendência mais ampla
seguida por outros países que seguem o neoliberalismo como padrão de política de
Estado.

Página | 84
CAPÍTULO 3

IMIL E O REVISIONISMO HISTÓRICO


O GUIA POLITICAMENTE INCORRETO: A LEITURA REVISIONISTA DA
DITADURA CIVIL-MILITAR

[…] é evidente que acabou de tomar uma


decisão, e que má ela foi, com a mão firme
segura a esferográfica e acrescenta uma
palavra à página, uma palavra que o
historiador não escreveu, que em nome da
verdade histórica não poderia ter escrito
nunca, a palavra Não, agora o que o livro
passou a dizer é que os cruzados Não
auxiliarão os portugueses a conquistar
Lisboa, assim está escrito e portanto passou
a ser verdade, ainda que diferente, o que
chamamos falso prevaleceu sobre o que
chamamos verdadeiro, tomou o seu lugar,
alguém teria de vir contar a história nova, e
como.

— José Saramago

LOGO NA INTRODUÇÃO do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, Leandro


Narloch (2011) anuncia seu principal objetivo com a publicação desse livro, o primeiro
de uma série intitulada Guia Politicamente Incorreto que vão desde a história do Brasil
até história do mundo, cujo intuito, segundo o autor, é gerar um incômodo nos
historiadores escritores de uma história do Brasil recheada pela polaridade entre figuras
fortes e fracas, opressores e oprimidos, que além de gerar uma visão tendenciosa,
também ocultam as verdades reveladas em seu livro.
Através de uma linguagem provocativa, permeada de ironia e sarcasmo, o livro é
formado de capítulos que contam a história do Brasil desde a colonização até o processo
de abertura política da ditadura civil-militar, condenando os grupos sociais que sentiram
negativamente o peso do processo de construção do Brasil como os índios, os negros, os
pobres e a resistência à ditadura. Também se esforça para criticar artistas e escritores
que são considerados importantes para a nossa literatura, música e até as artes plásticas.

Página | 85
Enquanto faz esse trabalho, tenta construir uma visão positiva dos bandeirantes, dos
escravagistas, da monarquia e dos governos militares.
Além de ressaltar a importância e a seriedade de seu livro para descoberta de
outra história brasileira, caracteriza os historiadores acadêmicos como militantes que
realizam estudos tendenciosos e, justamente por isso, distorcem a realidade e constroem
uma história errada:

Por isso é hora de jogar tomates na historiografia politicamente


correta. Este guia reúne histórias que vão diretamente contra ela. Só
erros das vítimas e dos heróis da bondade, só virtudes dos
considerados vilões. Alguém poderá dizer que se trata do mesmo
esforço dos historiadores militantes, só que na direção oposta. É
verdade. Quer dizer, mais ou menos. Este livro não quer ser um falso
estudo acadêmico, como o daqueles estudiosos, e sim uma
provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas sérias, irritantes e
desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom
número de cidadãos. [Grifos meus]131

Porém, é importante notar que apesar de considerar a sua pesquisa mais séria
que aquelas feitas por historiadores, ao longo do livro nota-se a inexistência de várias
fontes para as afirmações e acusações feitas, além da manipulação de algumas
referências bibliográficas para encaixar os estudos feitos por outros pesquisadores em
suas afirmativas, como é feito com os livros Combate nas Trevas de Jacob Gorender e
Imagens da Revolução organizado por Daniel Aarão Reis Filho. Também são utilizadas
como referências bibliográficas de forma recorrente revistas como Veja e Aventuras na
História, dando total credibilidade a essas fontes para a construção de suas
argumentações.
A narrativa do livro tem o intuito de ser fluida, bem-humorada, quase leve, o que
torna o livro uma leitura fácil e auxilia em sua popularidade, a linguagem coloquial e as
tentativas de fazer piadas, especialmente com os grupos marginalizados ou vítimas da
violência de Estado, como é o caso dos grupos que se opunham à ditadura civil-militar,
também são recursos amplamente utilizados para atrair os leitores132.

131
NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Rio de Janeiro,
Leya Brasil, 2011, p. 27.
132
Lipovetsky afirma que o cômico está presente em todas as sociedades e em todas as fases
históricas, mas a singularidade do humor de nosso atual contexto histórico é a fluidez e generalização do
cômico. Segundo Lipovetsky (2005), podemos separar o cômico em três fases. A primeira é durante a
Idade Média, na qual o humor era, nas festas carnavalescas, a desconstrução da hierarquia, a inversão das

Página | 86
Assim, a linguagem fluida e cheia de piadas presente no Guia Politicamente
Incorreto, faz parte dessa sociedade que torna tudo passível de riso, até mesmo questões
sérias como a escravidão e a repressão política, esse processo de tornar tudo risível
provoca também uma banalização dos eventos cotidianos e históricos “Banalização,
dessubstancialização, personalização, encontramos todos esses processos nos novos
sedutores da grande mídia [...]”.133
Dessa forma, o humor tira a gravidade daquilo que é sério em todas as esferas,
inclusive nos embates políticos. Tendo em vista que a série Guia Politicamente
Incorreto corresponde à demanda de um grupo político e econômico, ele tem sua
posição política marcada e ajuda a trazer para o debate político o humor que banaliza e
ridiculariza aquele que se opõe aos seus pressupostos políticos.

[...] hoje em dia até mesmo as coisas mais sérias e mais solenes –
principalmente estas últimas – assumem uma tonalidade cômica, por
contraste. O que ainda pode escapar disso num momento em que até
mesmo o conflito político e a divisão direita-esquerda se dissolvem
em uma paródia de rivalidade, bem simbolizada pelos espetáculos
altamente risíveis que são os debates televisionados? [...] quanto mais
as grandes opções deixam de se opor drasticamente, mais a política se
torna uma caricatura com cenas de luta livre a dois ou a quatro; quanto
mais a desmotivação política aumenta, mais a cena política parece um
strip-tease de boas intenções, de honestidade, de responsabilidade e se
metamorfoseia em episódio burlesco.134

Portanto, a forma irônica como o livro é narrado é um recurso importante para a


banalização de eventos, indivíduos e setores sociais que marcaram a história e que, em

posições sociais, o uso do grotesco e da profanação do sagrado. Era um humor coletivo, onde todos riam
juntos das violações das regras hierárquicas e sociais. A segunda fase se situa na Idade Clássica, é o
humor disciplinado e contido. Não é mais coletivo e sim individual, não mais grotesco e sim civilizado, se
tornando irônico e sarcástico utilizado “na comédia clássica, na sátira, na fábula, na caricatura, no teatro
de revista ou no vaudeville” LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo
contemporâneo. Barueri: Manole, 2005, p. 114. Na terceira fase, o humor se torna irreverente e
constante, deixando de se centrar em obras satíricas e caricaturais, agora passa-se a rir de tudo, inclusive
de si mesmo: “Atualmente estamos além da era satírica e da sua comicidade mordaz. Por meio da
publicidade, da moda, dos aparelhos eletrônicos, dos desenhos animados e dos quadrinhos quem não
percebe o tom dominante e inédito do cômico já não é sarcástico, mas, sim, lúdico? O humor que se
instala esvazia o negativo característico da fase satírica ou caricatural. A denúncia escarnecedora
correlativa de uma sociedade baseada em valores reconhecidos foi substituída por um humor positivo e
desenvolto, um cômico adolescente à base de uma extravagância gratuita e sem pretensões.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri:
Manole, 2005p. 115.
133
LIPOVETSKY, A era do vazio, p. 116.
134
LIPOVETSKY, A era do vazio, p. 135.

Página | 87
alguns casos, são minorias que reivindicam uma série de direitos que foram negados
desde o período da colonização, desqualificando assim as suas demandas.
Os capítulos seguem a linha histórica, partindo da colonização com um capítulo
dedicado aos indígenas, cujo trabalho, como o próprio autor anuncia na Introdução,
começa o processo de desconstrução daquilo que é um “modelo simples e rápido, mas
também chato e quase sempre errado”.135
O capítulo Índios é iniciado com a reprodução da visão estereotipada dos
indígenas como figuras cheias de vícios, especialmente o alcoolismo, cujos
responsáveis por isso são eles mesmos, já que são dados não só aos vícios, mas também
à companhia dos não-indígenas que viviam nas colônias e engenhos, local onde os
índios adquiriam as bebidas e para onde o autor afirma que sempre se refugiavam em
busca de festas e para fugir das regras dos padres jesuítas.
Apesar dessa relação, que é colocada no livro como a realidade do período
colonial, o autor afirma que cientistas sociais e historiadores criaram uma história
romanceada sobre a relação entre os indígenas e os portugueses permeada por conflitos
e guerras e, por outro lado, uma relação harmoniosa entre as diferentes etnias indígenas,
visão, segundo Narloch (2011), reproduzida até hoje. No entanto, esse argumento é
facilmente desconstruído fazendo uma pesquisa etnográfica séria, existem diversas
obras136 que expõem os conflitos entre as diferentes etnias indígenas, assim como as
formas de convivência com os colonizadores.
Com uma linguagem grosseira, Narloch (2011) ameniza o impacto da
convivência entre índios e portugueses. Percebe-se também uma generalização no
comportamento dos indígenas, como se tal comportamento fosse o mesmo entre todos:

[...] As festas e bebedeiras de índios e brancos mostram que não houve


só tragédias e conflitos durante aquele choque das civilizações. Em
pleno período colonial, muitos índios deviam achar bem chato viver
nas tribos ou nas aldeias dos padres. Queriam mesmo era ficar com os
brancos, misturar-se a eles e desfrutar das novidades que traziam.
[Grifos meus]137

135
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 24.
136
Um exemplo é o trabalho etnográfico Os Filhos do Sol de Edir Pina de Barros que descreve não
só os hábitos dentro da comunidade Bakairi como a sua convivência com outras etnias e com os
portugueses.
137
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 33.

Página | 88
Em um subcapítulo intitulado Quem mais matou índios foram os índios Narloch
(2011) diminui a responsabilidade dos portugueses na morte de milhões de nativos. Para
sustentar isso continua fazendo uso imagens caricaturadas com índios nus e furiosos que
assustavam os portugueses por sua violência:

[...] Até mesmo Américo Vespúcio, que deu nome ao continente, teve
que fugir de índios furiosos em 1501, quando sua expedição tentava
estabelecer uma base no litoral do Rio Grande do Norte. Alguns
marujos que se atreveram a desembarcar, entrar pela praia e caminhar
até um monte perto da costa não voltaram mais. Desapareceram
misteriosamente. Três dias depois, os navegadores eu esperavam
caravelas viram índias nuas surgirem na praia. Um deles desembarcou
para conhecê-las, mas foi subitamente morto com golpes de tacape
desfechados por uma das índias. [Grifos meus]138

É interessante notar que a fonte utilizada para afirmar isso é a revista na qual já
foi editor, a Aventuras na História. Sem fontes documentais ou referências
bibliográficas (apesar de falar de “hipóteses arqueológicas consolidadas” não cita
nenhuma delas), Narloch (2011) afirma que o verdadeiro massacre foi feito pelos
próprios indígenas e que os conflitos entre etnias foram responsáveis pelo número
elevado de mortes, não só de índios, mas também de colonizadores:

O massacre começou muito antes de os portugueses chegarem. As


hipóteses arqueológicas mais consolidadas sugerem que os índios da
família tupi-guarani, originários da Amazônia, se expandiram
lentamente pelo Brasil. [...] À medida que se expandiram, afugentaram
tribos então donas da casa.139

Ainda completa sua afirmação sobre o desejo de guerra falando sobre o suposto
canibalismo:

[...] dividida em diversas tribos, como os tupiniquins e os tupinambás,


que disputavam espaço travando guerras constantes entre si e com
índios de outras famílias linguísticas. [...] Ainda demoraria alguns
séculos para essas tribos se reconhecerem na identidade única de
índios, um conceito criado pelos europeus. Naquela época, um
tupinambá achava um botocudo tão estrangeiro quanto um português.
Guerreava contra um tupiniquim com o mesmo gosto com que

138
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 35.
139
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil , p. 36.

Página | 89
devorava um jesuíta. [...] Sobretudo os índios tupis eram obcecados
pela guerra. [...] Entre canibais, como os tupinambás, prisioneiros
eram devorados numa festa que reunia toda a tribo e convidados da
vizinhança.140

O etnocentrismo141 presente em sua narrativa define o povo indígena como uma


identidade única, ignorando as singularidades entre cada um, crenças, história,
economia, costumes, hábitos, organização social e, inclusive, a aptidão para a guerra.
Além dessa simplificação das etnias indígenas, na qual destaca, sobretudo, a natureza de
guerrear, o autor faz uma pequena especulação simplista do motivo pelo qual acredita
que as mortes eram praticamente banalizadas entre esses povos: “É simples explicar por
que os índios matavam tanto. Eles não consideravam o assassinato um pecado como os
142
cristãos.” . Assim, tomando como referência a própria cultura faz explicações sem
aprofundamento.
Nota-se ainda um discurso contraditório, pois ao mesmo tempo em que destaca
essa imagem do índio furioso também destaca de forma contundente, no início do
capítulo, a forma amistosa como lidava com os colonos.
Dando continuidade às afirmações etnocêntricas, hierarquiza a cultura europeia
como superior à indígena, apontando todo o desenvolvimento tecnológico da primeira
em relação à segunda como sintoma de elevação e destacando os benefícios que o
continente europeu trouxe para a América:

Até a chegada de franceses, portugueses e holandeses ao Brasil, os


índios não conheciam a domesticação de animais, a escrita, a
tecelagem, a arquitetura em pedra. Assentados sobre enormes jazidas,
não tinham chegado à Idade de Ferro e nem mesmo à do Bronze. [...]
Não conheciam a roda. A roda.
Dá muita vontade de afirmar que os índios eram naturalmente
incapacitados para não ter nem ideia dessas tecnologias básicas, mas

140
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 37-38.
141
“Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de
tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas
definições do que é a existência. No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a
diferença; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade etc. Assim, a colocação
central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos, as formas,
os caminhos e razões, enfim, pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções,
pensamentos, imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós.”
ROCHA, Everardo. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1985.
142
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 37.

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não há motivo para isso. Eles são na verdade heróis do povoamento
humano no fim do mundo, a América [...]. [Grifos meus.]143

Ainda fala sobre a devastação das matas “sem se importar com o resultado” feita
pelos índios e como os portugueses ajudaram a acabar com derrubada das árvores
criando leis que proibiam o corte em Portugal e em suas colônias. Para finalizar o
capítulo Narloch (2011) ainda chama os bandeirantes de heróis por terem passado por
uma série de adversidades durante as expedições.
No capítulo Negros, dedicado à escravidão, constrói uma narrativa que diminui o
peso do período escravocrata no Brasil isentando os colonos de algumas questões e
responsabilizando os negros por outras, como quando afirma que na África também
existiam escravos, onde era comum atacar povos inimigos e vendê-los posteriormente.
Mesmo que essa afirmação seja verdadeira é injusto justificar as barbaridades da
escravidão no Brasil com o argumento de que os próprios negros faziam isso em suas
terras, em uma tentativa de amenizar a violência de todo o processo, de pessoas sendo
tiradas à força de seu lugar de origem e da desumanidade como foram tratadas durante
todos esses anos.
Não se limita à tentativa de contrabalancear a escravidão da África com a
brasileira, colocando-as como equivalentes, e tece uma série de relatos de negros livres
no Brasil que também escravizavam. Começa essa série de relatos por uma figura
estratégica na questão da luta contra a escravidão, Zumbi dos Palmares.

Zumbi, o maior herói negro do Brasil, o homem cuja data de morte se


comemora em muitas cidades do país o Dia da Consciência Negra,
mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles
trabalhassem forçados no Quilombo de Palmares. Também
sequestravam mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e
executava aqueles que quisessem fugir do quilombo.
Essa informação parece ofender algumas pessoas hoje em dia, a ponto
de preferirem omiti-la ou censurá-la, mas na verdade trata-se de um
dado óbvio. [Grifos meus]144

Essa é a primeira de uma série de acusações proferidas em relação a Zumbi.


Apesar de dizer ser um “dado óbvio”, todas essas afirmações são apresentadas sem

143
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 48.
144
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 83.

Página | 91
nenhuma fonte que possa fundamentá-las, evidenciando assim a arbitrariedade como as
informações são manipuladas, já que parte de uma pressuposta obviedade, que, na
verdade, se constitui uma especulação sobre o contexto histórico da época.
Narloch (2011) ainda relata uma série de crueldades que, segundo ele, eram
comuns no Quilombo de Palmares:

[...] No quilombo, os moradores deveriam ter mais liberdade que fora


dele. Mas a escolha em viver ali deveria ser um caminho sem volta, o
que lembra a máfia hoje em dia. “Quando alguns negros fugiam,
mandava-lhes crioulos no encalço e , uma vez pegos, eram mortos, de
sorte que entre eles reinava o temor”, afirma o capitão João Blaer.
“Consta mesmo que o palmaristas cobravam tributos – em
mantimentos, dinheiro e armas – dos moradores das vilas e povoados.
Quem não colaborasse poderia ver suas propriedades saqueadas, seus
canaviais e plantações incendiados e seus escravos sequestrados”,
afirma o historiador Flávio Gomes no livro Palmares. [Grifos meus]145

O próprio autor acaba admitindo que não existem fontes suficientes para
sustentar tais afirmações, no entanto, opta por acreditar nessa versão por acreditar,
também sem fundamentação bibliográfica e metodológica, que isso se aproxima mais da
realidade da época, portanto, prefere escolher um lado da história e construir uma
narrativa sobre isso pela simples opção de visão política, cujo intuito é desconstruir
figuras que têm um peso simbólico na luta pelos direitos das minorias.
Nota-se o esforço em expiar a responsabilidade da escravidão dos colonizadores
com algumas histórias de ex-escravos ou de seus descendentes que, sendo livres,
também compravam e mantinham negros escravizados. Com o subtítulo O sonho dos
escravos era ter escravos fala especialmente de mulheres que chama de Chicas da Silva
que alforriadas mantinham alguns escravos aos seus serviços. O que é interessante aqui
é a generalização feita pelo autor de algumas histórias isoladas elevando isso a algo
comum e recorrente, o que faz pensar que a culpa da escravidão não era dos brancos e
sim por causa do contexto histórico, portanto, um problema independente de raça:

Em liberdade, essas Chicas da Silva tinham muito mais tempo e


ferramentas para ganhar dinheiro. Contando com escravos como mão
de obra barata, algumas fizeram fortuna. [...] Apesar de serem livres e
ricas, as negras forras não viraram senhoras da elite: continuavam
carregando o estigma da cor. Havia uma compensação. Elas
145
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 86.

Página | 92
desfrutavam de uma autonomia muito maior que as mulheres brancas.
Enquanto as “donas” ficavam em casa debaixo das decisões do marido
e cuidando de sua reputação, as negras circulavam na rua, nas lavras e
pelas casas, conversando com quem quisessem e tocando a vida
independentemente de maridos.146

Ainda aponta a discriminação racial como uma vantagem das mulheres negras,
já que por serem rejeitadas na sociedade desfrutavam de maior liberdade de
comportamento.
Narloch (2011) ainda fala da participação de africanos na captura e venda de
escravos para os portugueses, colocando os primeiros como protagonistas nesse sistema,
chega a intitular dois subcapítulos, Os portugueses aprenderam com os africanos a
comprar escravos e Os africanos lutaram contra o fim da escravidão, na tentativa de
demonstrar que os europeus não tinham tanta responsabilidade e além de não terem sido
os únicos responsáveis, também desempenharam um papel secundário. É interessante
notar não só o esforço em inverter os papéis, mas também o discurso em fazer crer que
com a participação dos africanos no tráfico negreiro a responsabilidade dos
colonizadores é diminuída, ou que os escravizados eram menos vítimas. Apesar de
afirmar que é tudo bem documentado não informa quais são os documentos ou fontes.
Faz questão também de ressaltar todo o poder dos reis africanos em contraste com as
limitações dos colonizadores no continente africano:

Nessa região [Togo e Nigéria] e em muitos outros reinos, eram os


próprios africanos que operavam o comércio de escravos. A
“dominação europeia” se restringia a um forte no litoral, de onde os
europeus só podiam sair com a autorização dos funcionários estatais.
Quando viajavam, eram sempre acompanhados por guardas. O rei
controlava o preço dos escravos e podia, de repente, mandar todos os
europeus embora, fechando o país para o comércio estrangeiro.
Também podia dar uma surra no branco que o irritasse.147

Novamente, assim como o capítulo destinado aos indígenas, o autor coloca o


colonizador somente como uma peça sem grandes protagonismos nos territórios
ocupados. Para ele a história acadêmica coloca negros e índios como vítimas numa
construção arbitrária, ideológica e não realista. Portanto, as reivindicações das minorias

146
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 91.
147
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p.99.

Página | 93
por mais direitos sociais também são arbitrárias e sustentadas por uma história
distorcida, que foi desconstruída e estruturada da forma certa no livro Guia
Politicamente Incorreto da História do Brasil.
Ao falar do Acre, Narloch (2011) destila uma série de preconceitos em relação
ao estado, novamente se posicionando de forma etnocêntrica. Um dos capítulos do livro
é dedicado exclusivamente à negociação do território acreano entre Brasil e Bolívia,
aqui o autor deixa claro que o governo brasileiro cometeu um enorme erro ao lutar por
essa região que representa, no livro, não só um atraso, mas também um peso morto para
o país.

Existem muitos lugares irrelevantes pelo mundo – como Porto Rico, a


Bélgica, o Paraná –, o que não chega a ser um problema. No caso do
Acre, ele até possui sua função no Brasil. Tendo em vista que muitas
regiões foram devastadas para dar lugar a indústrias e plantações, é
bom que parte do território seja reservada a grandes florestas. A
questão muda quando esse lugar cria gigantescas despesas para os
outros. [...]
Com metade daqueles 28 bilhões de reais que foram queimados com o
Acre nos últimos cem anos, poderiam ser criadas pelo menos vinte
linhas de metrô. Se fossem construídas em São Paulo, a cidade teria
um sistema de metrô com mais de 260 quilômetros. [...] Um cenário
parecido seria possível em outras capitais, já que existem vários outros
Acres pelo Brasil: Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins, Alagoas...
Esse raciocínio leva a uma conclusão assustadora. Se tivéssemos
vendido parte da Amazônia ou se algum país, tivesse se apossado de
pelo menos um pedacinho dela, seríamos hoje muito mais felizes.148

Assim, para o autor os estados da Amazônia possuem valor inferior àqueles tidos
como mais desenvolvidos localizados no Sudeste do país, é necessário questionar quais
são os valores colocados em questão para categorizar, não só quais são as regiões mais
importantes no país, mas também em que e como investir, percebe-se uma preocupação
com o avanço tecnológico e não necessariamente com o investimento humano.
Como membro do Imil, organização articulada em torno de ideias e projetos
neoliberais, Leandro Narloch não escreveu o Guia Politicamente Incorreto da História
do Brasil gratuitamente, mas sim atendendo às demandas e necessidades de um grupo
político e econômico149, pois existe um público que necessita desses discursos para a

148
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 238-239.
149
De acordo com Hayden White a história é contada de diversas formas porque atendem às
demandas de um determinado grupo político e ideológico, assim o escritor atende à expectativa do seu

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desarticulação da base de fundamentação de uma série de demandas que são
reivindicadas diariamente por grupos considerados minorias, como o movimento negro,
os indígenas e aqueles que lutam pela investigação dos crimes cometidos durante a
ditadura, por exemplo.
Felipe Demier (2015), em A onda conservadora, chama a atenção para o
acirramento político ligado a setores conservadores que se fortaleceu, principalmente a
partir de 2010. As pautas levantadas por esses setores vão desde cortes em verbas
públicas até políticas que desrespeitam as minorias, como mulheres, negros e
estrangeiros. Demier (2015) destaca que isso é um dos sintomas da aversão que a elite
nacional sente em relação às camadas populares, que nos últimos anos, passou a ter
maior poder de consumo. Nota-se aqui que isso não significa ampliação da cidadania,
com acesso à melhores condições de vida através de serviços públicos de qualidade e
maior participação política, mas sim maior acesso aos bens de consumo que até pouco
tempo atrás essa camada não tinha. Nesse sentido, as ideias propagadas pelo Imil saem
de encontro com as necessidades de fundamentar essa onda conservadora150 que se
fortaleceu no país e corresponde à diminuição dos direitos civis para as minorias e à
redução dos direitos sociais.

3.1 A construção da memória da ditadura civil-militar pelo Imil

A ditadura civil-militar, que teve origem em 1964, deixou suas marcas não só na
economia e nos projetos políticos, mas também na memória de parte da população,
tanto daqueles que vivenciaram esse período quanto de outros, que apesar de terem
nascido após o seu fim, rememoram o que aconteceu. Assim, é lembrada e contada por
civis e militares e cada narrativa tem a marca de seu narrador e de seu meio. Os anos de
1964 a 1985 foram marcados por grandes mudanças cujo processo foi marcado pela

público “[...] é que a maioria das sequências históricas pode ser contada de inúmeras maneiras diferentes,
de modo a fornecer interpretações diferentes daqueles eventos e a dotá-los de sentidos diferentes. [...] Mas
por que estas representações alternativas, para não dizer mutuamente exclusivas, do que era
substancialmente o mesmo conjunto de eventos parecem igualmente plausíveis aos seus respectivos
públicos? Apenas porque os historiadores partilhavam com os seus públicos certas preocupações sobre o
modo como a Revolução podia ser contada, em resposta aos imperativos que eram de um modo geral
extra-históricos, ideológicos, estéticos ou míticos.” WHITE, Hayden. Trópicos do discurso – ensaios
sobre a crítica da cultura. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2001, p. 101.
150
DEMIER, Felipe. A onda conservadora. Rio de Janeiro: Mauad, 2016.

Página | 95
dolorida violência da imposição política e ideológica, muitas vezes através da violência
física. Mas a memória desse período, que ficou estrategicamente relegada ao
esquecimento social, ganha cada vez mais força atualmente, ganhando também variadas
versões dos fatos151.
O processo de abertura “lenta, segura e gradual” da ditadura e a anistia ampla,
geral e irrestrita, que permitiu que nenhum militar ou torturador responsáveis pela morte
e desaparecimento de várias pessoas fosse punido, auxiliou na construção de uma
história que tentava colocar um fim às lembranças desse período de vinte e um anos em
que decorreu a ditadura.
Aarão (2013) fala sobre três tipos de silêncios que se estabeleceram com a Lei
da Anistia de 1979, o primeiro é sobre a tortura e os torturados, o segundo sobre o apoio
que a sociedade civil deu à ditadura, pois não foi feita exclusivamente por militares, e o
terceiro sobre as propostas revolucionárias de esquerda que foram apagadas após o
golpe de 1964. Em relação ao primeiro silêncio, foram poucos os setores que
denunciaram e lutavam pela punição dos torturadores, mas com a aprovação da Lei da
Anistia até mesmo essas reivindicações foram relegadas ao esquecimento:

Também neste particular, não é possível se sustentar que o silêncio foi


total, unânime. Enquanto durou a ditadura, sempre houve vozes
corajosas, de jornalistas, de políticos, de lideranças eclesiásticas, de
militantes revolucionários denunciando torturas e torturadores.
Contudo, foram vozes isoladas. E quando a Anistia foi, afinal,
aprovada, a grande maioria preferiu não falar do assunto, ignorá-lo, ou
simplesmente não pensar nele.

151
Michael Pollak ajuda a compreender essa batalha de memórias e o ressurgimento dos fatos que
ficaram ocultos da memória coletiva. Opõe-se a Halbwachs para quem a memória individual é o resultado
dos grupos sociais ao qual o indivíduo faz parte, ou seja, para formar sua própria memória é necessário
recorrer à memória coletiva, aos seus signos e elementos: “[...] a memória individual. Ela não está
inteiramente isolada e fechada. Para evocar seu próprio passado, em geral a pessoas precisa recorrer às
lembranças de outras, e se transporta a pontos de referência que existem fora de si, determinados pela
sociedade. Mais do que isso, o funcionamento da memória individual não é possível sem esses
instrumentos que são as palavras e as ideias, que o indivíduo não inventou, mas toma emprestado de seu
ambiente.” HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo, Centauro, 2006, p. 72. Pollak
trabalha com a perspectiva da memória subterrânea, ou seja, aquela relegada à marginalidade, que se
fortalece e evidência pontos conflitantes com a memória oficial e coletiva, a sua presença é marcada em
grupos oprimidos e geralmente ressurge em momentos críticos, contradizendo as ideias dominantes até
então: [...] Ao contrário de Maurice Halbwachs, ela acentua o caráter, destruidor uniformizador e opressor
da memória coletiva nacional. Por outro lado, essas memórias subterrâneas prosseguem seu trabalho de
subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível afloram em momentos de crise em sobressaltos
bruscos e exacerbados. A memória entra em disputa. Os objetos de pesquisa são escolhidos de preferência
onde existe conflito e competição entre memórias concorrentes. POLLAK, Michael. Memória,
esquecimento, silêncio. Rio de Janeiro: Estudos Históricos, vol. 2, 1989.

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O que essa atitude exprimia? A meu ver, a perspectiva de se virar as
costas a uma experiência que se considerava ultrapassada.
Assim os torturadores foram deixados em paz. E a tortura, empurrada
para debaixo do tapete. Tratava-se, ao menos temporariamente, de
esquecer o passado. 152

Esse silêncio, assim como os outros dois, ajudou a atenuar as lembranças da


ditadura civil-militar, fortalecendo a ideia de que não fazia sentido mexer em algo que já
havia passado. Alexandra Barahona de Brito (2013) ressalta a responsabilidade dos
governos civis, posteriores à ditadura, na construção de uma memória coletiva que
oculta e nega a violência da ditadura, em contrapartida, aponta a importância o papel de
setores da Igreja Católica e da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos
Políticos para o avanço, mesmo que mínimo, na investigação e denúncia dos casos de
tortura e desaparecimento de presos políticos, essa comissão ocupa o espaço daqueles
que tiveram a memória marginalizada e começaram a relatar e expor o ocorrido para
alterar a memória construída da ditadura-civil militar.
Brito (2013) ainda ressalta como a relação entre a presidência de José Sarney e
os militares está diretamente ligada à tentativa de atenuar o que aconteceu no período de
1964 a 1985.

Sob a presidência de José Sarney, não houve nenhuma ação no sentido


de resolver a questão das violações dos direitos humanos. O novo
presidente era muito próximo aos militares. De fato, na ausência de
um forte apoio popular ao seu partido, o PSF (Partido Democrático
Social), ele se baseou no apoio militar para governar. Nesse período,
os militares mantiveram significativas prerrogativas e continuaram a
afirmar-se politicamente. Os três ramos das Forças Armadas
mantiveram os seus lugares no governo, o Conselho de Segurança
Nacional (CSN) e o Serviço Nacional de Informações (SNI)
mantiveram-se intactos e a Constituição de 1988 garantiu aos militares
um papel político fundamental, permitindo-lhes intervir para manter a
ordem, embora sob ordem presidencial. 153

Esses silêncios que dominaram o período da transição e a relação entre Sarney e


os militares ajudam a compreender o motivo da ausência de investigações e punições
152
AARÃO, Daniel Reis Filho. O governo Lula e a construção da memória do regime civil-
militar. In: O passado que não passa. In: PINTO, António Costa e MARTINHO, Francisco Carlos
Palomanes. O passado que não passa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, p. 218.
153
BRITO, Alexandra Barahona. “Justiça transnacional em câmera lenta: o caso do Brasil. :
PINTO, António Costa e MARTINHO, Francisco Carlos Palomanes. O passado que não passa. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, p. 238.

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ligadas às violações de direitos humanos nesse período. No entanto, as lembranças
subterrâneas dos indivíduos que foram torturados e de familiares de desaparecidos vêm
rompendo esse silêncio e proporcionando uma batalha de memórias.
Pollak (1989) cita como exemplo as vítimas das violações de direitos humanos
durante o regime estalinista, que após muitos anos em silêncio passaram a expor os
horrores sofridos. Através de vários meios a memória foi surgindo, no cinema, nos
meios de comunicação e publicações editoriais e como consequência disso, passaram a
fazer uma série de reivindicações, alterando a cena histórica ao pressionar o governo a
fazer a assimilação entre a história oficial e as memórias que estavam saindo do
subterrâneo:

Ele [o fenômeno das revelações dos crimes estalinistas] consiste muito


mais na irrupção de ressentimentos acumulados no tempo e de uma
memória da dominação e de sofrimentos que jamais puderam se
exprimir publicamente. [...] Uma vez rompido o tabu, uma vez que as
memórias subterrâneas conseguem invadir o espaço público,
reivindicações múltiplas e dificilmente previsíveis se acoplam a essa
disputa da memória, [...]
Este exemplo mostra a necessidade, para os dirigentes, de associar
uma profunda mudança política a uma revisão (auto)crítica do
passado.154

Movimento semelhante pode ser notado no Brasil quando se trata das


reivindicações da abertura dos arquivos da ditadura, das investigações dos crimes de
violação dos direitos humanos e do reconhecimento de que a violência era política de
Estado dos governos militares.
Há, portanto, uma polaridade nas narrativas construídas em torno da ditadura.
Existem grupos que investigam os crimes efetuados pelo Estado e seus aliados 155 e

154
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio, p. 3.
155
Demian Bezerra de Melo e, A Miséria da historiografia:uma crítica ao revisionismo
contemporâneo apresenta uma outra linha, que segundo ele, é revisionista nas leituras a respeito da
ditadura que houve no Brasil de 1964 à 1985. Para Melo (2014), Argelina Figueiredo e Daniel Aarão Reis
diminuem a importância do setor empresarial que participou do IPES ao considerar que Dreifuss
superestima o papel do grupo. Destaca ainda que Aarão diminui a influência dos empresários ao adotar o
termo “ditadura civil-militar”, pois, ao mesmo tempo que subestima os interesses de classe do
empresariado, também responsabiliza a “sociedade brasileira” como um todo: “Entretanto, em vez de o
termo “civil” se ligar à participação de fortes interesses classistas tanto na articulação golpista quanto no
caráter do regime ditatorial, parte da historiografia vem defendendo a mistificação calcada na ideia de
algo como uma cumplicidade da sociedade com a ditadura, como se fosse possível a existência de tal
“sociedade”, como algo coisificado e homogêneo.” MELO, Demian Bezerra. A miséria da hitoriografia.

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também grupos que em sua narrativa fazem um revisionismo desse período, marcando
como algo necessário em nossa história e muito menos violento do que é descrito. Esse
segundo discurso pode ser encontrado entre os integrantes do Imil, como é o caso de
Leandro Narloch com o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil justificando
as violências do Estado com o argumento de que foram necessárias para defender o país
da ameaça comunista.
Vidal-Naquet (1988) ao falar sobre o revisionismo no cinema afirma que esse
trabalho, além de ser feito a serviço de uma ideologia, também é narrado de uma forma
que faz parecer que a narrativa histórica é um serviço banal:

Sua perfídia é precisamente parecer o que não é, um esforço para


escrever e pensar a história. Não se trata de construir um relato
verdadeiro. Também não se trata de revisar as pretensas aquisições da
ciência histórica. Nada mais natural, nada mais banal que a “revisão”
da história. 156

Esse tipo de postura também pode ser notada na escrita do Guia Politicamente
Incorreto da História do Brasil, já que o próprio Narloch (2011) afirma não ser um
estudo acadêmico e cujo objetivo é se opor aos historiadores acadêmicos e aos livros
didáticos, mas é um livro, segundo ele, sério. Fazendo parecer que a escrita da história
não necessita de rigor metodológico e que leigos também podem escrever com a mesma
autoridade de um historiador.
Dessa forma, segue a sua narrativa revisando a história, não necessariamente
negando, mas usando argumentos falsos facilmente desconstruídos por não terem
fundamentação, como afirma Vidal-Naquet (1988) um texto por si só não é a prova de
que é falso, essa comprovação só é possível através da verificação das fontes.
Carlo Ginzburg (2001) ressalta que não há como ser tolerante em relação às
construções históricas que não condizem com a verdade, usando como referência
Assassinos da memória de Vidal-Naquet, o autor respalda uma questão relevante
destacada pelo segundo, que é a impossibilidade de diálogo com autores revisionistas ou
negacionistas que vêm construindo suas obras em torno de refutações infundadas do
passado. No caso, Vidal-Naquet se refere às obras que negam a existência dos campos

Rio de Janeiro: Consequencia, 2014, p. 168. Outro ponto criticado por Melo (2014) é o encurtamento da
ditadura, já que Aarão delimita o ano de 1979 como o fim da ditadura.
156
VIDAL-NAQUET, Pierre. Os assassinos da memória, p. 171.

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de concentração, o que por sua vez, nega também a existência do extermínio judeu. O
resultado disso, muitas vezes, é que o discurso do opressor passar a ser aceito como uma
possibilidade do real, o que desqualifica e ameniza o ocorrido com os oprimidos.
Assim, Ginzburg (2001) alerta que existe um limite moral para aceitação dos
discursos históricos, pois ao aceitar qualquer narrativa como realidade do passado abre-
se espaço para legitimar discursos fascistas157. Dessa forma, ao aceitarmos o discurso
revisionista de Narloch sobre vários fatos ocorridos na história, mesmo esse sendo
infundado, estaríamos dando abertura para teorias que legitimam a violação da
dignidade humana.
Narloch (2011), em sua série de livros do Guia Politicamente Incorreto, segue
uma linha anticomunista e conservadora que critica as posições ideológicas
progressistas, tidas como “politicamente corretas”, essa tendência, segundo Said (1994),
vem ganhando forças e o discurso vem revestido de uma isenção ideológica, cuja
premissa é a liberdade e a modernidade.

A verdade é que a campanha contra o politicamente correto tem sido


conduzida principalmente por conservadores de várias tendências e outros
paladinos dos valores da família. Embora algumas coisas que eles dizem
tenham um certo mérito — sobretudo quando ressaltam a total inconsistência
do jargão bobo e insensato —, sua campanha fecha os olhos ao incrível
conformismo e às críticas politicamente corretas no que diz respeito, por
exemplo, às políticas militar, de segurança nacional, externa e econômica.
Por um período ainda maior, mais ou menos de meados da década de
1940 até meados da década de 1970, a posição oficial americana sustentava
que a liberdade do Terceiro Mundo significava simplesmente liberdade em
relação ao comunismo. [...] o “desenvolvimento” era um fenômeno não
ideológico, derivado do Ocidente, e envolvia salto econômico,
modernização, anticomunismo [...].158

Sendo assim, não existem valores humanos universais de justiça e liberdade. A


falta desses valores faz com que atrocidades sejam justificadas com base no argumento
de uma sociedade cujo modelo é o combate de ditaduras usando como meio para isso
outra ditadura, outras formas de violência. Assim, Narloch (2011) defende o argumento
de que a ditadura que se instaurou em 1964 foi necessária, pois sem ela uma revolução

157
GINZBURG, Carlo. Olhos de madeira. São Paulo: Companhia das Letras. 2001.
158
SAID, Representações do Intelectual, E-book.

Página | 100
comunista seria inevitável159. Ou seja, segundo ele, para evitar uma decadência
econômica e social do país, foi necessário o uso da força e da violência por parte dos
militares, o que na verdade, transparece uma preferência política acima da justiça social.
Apesar de proferir palavras a respeito da liberdade, na verdade, seu discurso é a
defesa, não da justiça, mas sim de um determinado modelo político, o neoliberal,
independente dos mecanismos para defender isso. Portanto, a liberdade defendida por
esse autor seria para garantir a liberdade econômica, mesmo através da violência do
Estado.
A defesa de um modelo político, econômico e social, mesmo que seja pela força,
é repetida diversas vezes no livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil no
capítulo a respeito da ditadura e da guerrilha, como nesse trecho que expressa o alívio
por ter existido uma ditadura que conseguiu destruir os movimentos de resistência,
especialmente os grupos guerrilheiros:

[...] panfleto, criado por uma das organizações de esquerda mais ativas,
mostra que quem pegou em armas e arriscou a vida em nome do comunismo
estava mais perto do messianismo que da sensatez. [...] Se o governo e a
sociedade brasileira mantiveram o país longe dos comunistas, existe aí um
motivo para nos sentirmos aliviados: o país pôde avançar livre dos perigosos
profetas da salvação terrena. Também há motivo para festejarmos: nos
últimos cinquenta anos, enquanto a população quase triplicou, os índices de
qualidade de vida mais que dobram. Existe aí até mesmo um motivo para
trair a proposta deste livro e expressar um êxtase de patriotismo. Viva o
Brasil capitalista.160

Narloch (2011) ainda sustenta a teoria que, além de a ditadura militar ser
necessária para prevenir uma ditadura comunista, os causadores do endurecimento desse
período foram as ações guerrilheiras dos movimentos de esquerda. Assim, o decreto do

159
Melo (2014) chama a atenção para leituras historiográficas que apontam no sentido de uma
culpabilidade tanto da direita quanto da esquerda no golpe de 1964. São três teses fundamentais: “1)
“esquerda e direita foram igualmente responsáveis; 2), na verdade, “havia dois golpes em curso” nos idos
1964; 3) a resistência à ditadura não passou de um mito.” MELO, A miséria da hitoriografia, p. 158. De
acordo com ele, Jorge Ferreira, ao taxar a esquerda nos anos 1960 como sectária e radical, ajuda na
construção da ideia de um golpe resultante da reação da direita ao radicalismo dos setores ligados à
esquerda.
160
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 335-336.

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Ato Institucional número 5 (AI-5)161 não foi só necessário, mas, principalmente,
inevitável diante das situações que os grupos de esquerda estavam causando:

Mesmo depois do golpe militar, não havia tanto motivo assim para aderir a
guerrilhas. Apesar de a ditadura ter começado em 1964, até 1968 o governo
tinha de levar as leis para serem apreciadas no Congresso e as pessoas
podiam responder processos criminais em liberdade. Esperava-se que os
militares logo promovessem eleições, ainda que indiretas, o que poderia
restabelecer o governo civil. O regime só endureceu de verdade em
dezembro de 1968 com o Ato Institucional número 5. [...] Para justificar essa
radicalização, os militares usaram um argumento fácil: era preciso manter a
ordem. Durante a reunião de 13 de dezembro de 1968, em que os ministros
aprovaram o AI-5, a palavra “ordem”, no sentido de tranquilidade pública, é
citada 23 vezes nos discursos. Quem lê esses pronunciamentos hoje fica com
a impressão de que 1968 foi uma desordem assustadora. É verdade. De
janeiro a dezembro daquele ano, guerrilheiros praticaram pelo menos vinte
assaltos a banco e a automóveis, execuções, ataques a quartéis e atentados a
bomba que resultaram em nove mortes e causaram ferimentos em soldados,
seguranças de banco, motoristas e até pessoas que passavam pela rua.162

Nessa citação Narloch constrói uma narrativa que passa a impressão de que o
período de 1964 até 1968 foi tranquilo, sem grande autoritarismo por parte do governo
militar de então. Ao falar dos processos que podiam ser respondidos em liberdade e da
existência de um Congresso ativo, o autor omite a existência de inúmeros exilados
políticos, das torturas já praticadas nesses anos, dos partidos políticos colocados na
ilegalidade com a vigência do bipartidarismo em 1965, das prisões arbitrárias, das
dificuldades de contestar o governo e se manifestar publicamente163. Sem falar que a
busca dessa tranquilidade defendida pelos militares seria organizada à custa de censura,
mortes, prisões, tortura e exílio, ou seja, seria um silêncio imposto que resultaria em

161
“[...] o AI-5 autorizou o presidente da República, independente de qualquer apreciação judicial, a
decretar o recesso do Congresso Nacional e de outros órgãos legislativos, a intervir nos estados e
municípios sem as limitações previstas na Constituição, a cassar mandatos eletivos e a suspender por dez
anos os direitos políticos de qualquer cidadão, a decretar o confisco de ‘bens de todos quantos tenham
enriquecido ilicitamente’ e a suspender a garantia de habeas-corpus.” CALICCHIO, V., / Atos
Institucionais. Disponível em: http://www.fgv.br/CPDOC/BUSCA/Busca/BuscaConsultar.aspx.
Acessado em 01/09/2015.
162
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 316-318.
163
José Murilo de Carvalho (2007) ressalta que a repressão esteve presente em todo o período, mas
seus picos foram entre 1964 e 1965 e de 1968 à 1974, respectivamente no período pós-golpe, cujo intuito
era fazer um expurgo da oposição e no pós-AI-5 que abrange o período do governo Médici,
correspondente à fase mais sombria da ditadura e na qual pretendia-se intensificar esse expurgo.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 9ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2007.

Página | 102
uma ordem violenta. Como afirma Carlos Fico (2007), a ditadura se amparou em três
pilares básico, eram: a censura, a polícia política e a espionagem para concretizar aquilo
que chamavam de “Operação Limpeza”, práticas adotadas desde março de 1964.
Assim, os guerrilheiros chamados por Narloch (2011) de terroristas, foram,
segundo ele, os responsáveis diretos pelo acirramento da ditadura:

Um dos mais ativos terroristas daquele ano foi Diógenes Carvalho de Oliveira. De
março a dezembro, ele participou de cinco assaltos, três atentados a bomba e uma
execução. [...] Em outubro, dois meses antes do AI-5, o capitão americano Charles
Chandler, de 30 anos, foi morto quando saía de casa, no bairro apontado
Sumarezinho, em São Paulo. É Diógenes o guerrilheiro mais apontado como o autor
dos seis tiros de revólver que mataram o militar americano. A última ação de
Diógenes em 1968 foi um assalto a uma casa de armas. Dois dias depois, os
militares aprovaram o AI-5. [Grifos do autor]164

Ao apontar essas ações que supostamente foram o estopim para que o AI-5 fosse
decretado, Narloch (2011) usa como referência o livro do coronel Carlos Alberto
Brilhante Ustra A verdade sufocada165. Brilhante Ustra foi chefe do Destacamento de
Operações e Informações (DOI)166, conhecido como um dos maiores centros de tortura
durante a ditadura-civil militar, onde a utilização dessas práticas levou à morte de
muitos guerrilheiros. Dessa forma, para Narloch, toda a responsabilidade pelas
violências do Estado é ligada aos grupos de esquerda, utilizando Brilhante Ustra como
referência, responsável por um dos principais aparatos repressivos da ditadura e
condenado em 2012 a pagar R$ 100 mil à família de Luiz Eduardo da Rocha Merlindo,
morto sob tortura nas dependências do DOI em 1971167.

164
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 319.
165
Brilhante Ustra também dispõe de um site com o mesmo nome do livro.
166
O Destacamento de Operações de Informações (DOI) e o Centro de Operações de Defesa
Interna (Codi), conhecidos como DOI-Codi, foram formalmente estabelecidos em 1970, e constituíam o
ponto de ligação entre representantes das forças repressivas das policiais militares, federais e das Forças
Armadas, ou seja, unia em torno de si os órgãos repressores. MAGALHÃES, Marionilde Dias Brepohl
de. A lógica da suspeição: sobre os aparelhos repressivos à época da ditadura militar. Revista
Brasileira de História, vol. 17, nº 34, São Paulo, 1997.
167
Sobre a acusação de Brilhante Ustra pela morte de Luiz Eduardo da Rocha Merlindo, a juíza
Claudia Menge afirma que as torturas levaram ao óbito do segundo, sendo que o primeiro participava de
algumas sessões, ainda de acordo com a juíza, mesmo que não tenha participasse ativamente de tal
prática, seria impossível que um ex-chefe do DOI-Codi ignorasse a existência da tortura. MACEDO,
Fausto. Coronel Ustra é acusado por morte de jornalista na ditadura. Folha do Estado.
http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,coronel-ustra-e-condenado-por-morte-de-jornalista-na-
ditadura,891926. Último acesso em: 22/09/2015

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Marcelo Godoy (2014) no livro A Casa da Vovó, que conta a trajetória do DOI-
Codi, aponta que uma das dificuldades encontradas em conseguir entrevistar as pessoas
que trabalharam nesse centro do tortura, foi justamente o fato de o coronel Brilhante
Ustra intimidar os entrevistados ao telefonar falando para ficar quietos. É importante
ainda esclarecer o papel que esse centro de tortura teve, a sua função e como era visto
por quem trabalhava lá. O DOI-Codi, fazia parte de uma doutrina de controle político,
por isso, não deve ser confundido como um órgão que cometeu alguns excessos durante
a sua existência. Foi responsável por vários ataques à esquerda, com infiltrados e
informantes conseguiu torturar e matar inúmeros militantes. Através dos relatos de
alguns policiais entrevistados por Godoy (2014) percebe-se que o ofício dentro do DOI-
Codi era realizado como um o exercício de uma atividade normal, sem questionamento
moral ou de justiça. Uma das mulheres, Vilma, inclusive, se declarava politicamente
neutra e afirma ter trabalhado nesse local por necessidade.
Outra, chamada de Dyarse, trabalhou no por 31 anos no DOI-Codi e afirma não
ter vergonha do trabalho realizado ali, ao contrário, destaca que trabalhou de forma
dedicada e estava apenas cumprindo as ordens que como subordinada tinha a obrigação
de cumprir:

Era uma missão, uma ordem, quando você é subordinado você tem
que trabalhar onde mandaram, então tinha de trabalhar. Eu também
fiz, com todo bom gosto, todo o trabalho, eu acho que o que eu fiz foi
perfeito. Eu estava ali cumprindo uma ordem, uma missão. [...] Se
você é subordinado você recebe uma ordem mesmo que ela seja
absurda. [...] Você tem de fazer e depois reclamar para não ser
punido.168

É possível notar traços sobre a banalidade do mal nesses discursos. A função dos
policiais é atribuída a um trabalho quase que burocrático que não demanda nenhuma
reflexão sobre os atos, dessa forma, mulheres e homens participavam do processo de
espionagem, sequestro e tortura de forma quase mecânica, pois o papel deles era
cumprir as ordens que lhes eram deferidas sem grandes questionamentos.
Hannah Arendt (1999), na obra Eichmann em Jesrusalém: um relato sobre a
banalidade do mal, ao falar do papel de Eichmann na solução final dos judeus, se

168
GODOY, Marcelo. A casa da vovó: uma biografia do DOI-Codi (1969-1991), o centro de
sequestro, tortura e morte da ditadura militar. São Paulo: Alameda, 2014, 153.

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contrapõe à visão de que ele seria um grande mentor de uma das maiores violações dos
direitos dos homens. Arendt descreve a mediocridade de tal figura e a limitação
intelectual. Atenta, chama a atenção para o fato de que essa limitação de Eichmann o
fazia ser apenas um burocrata que estava ali a serviço das ordens e das leis:

[...] à medida que passavam os meses e os anos, ele [Eichmann]


perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as
coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do
Fürher; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão
respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu
insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele
também obedecia à lei. [...] Eichmann, com seus dotes mentais
bastante modestos, era certamente o último homem na sala de quem se
podia esperar que viesse a desafiar essas idéias e agir por conta
própria. Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres
de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens [...].169

Dessa forma, muitos desses policiais e militares que trabalharam dentro desses
centros de tortura, assim como Eichmann, não faziam nenhuma reflexão acerca de suas
práticas, justamente porque estava desempenhando um trabalho subordinado de cidadão
cumpridor de ordens.
Eichmann também foi influenciado pelo fato de todos aqueles que o
circundavam acreditava na ideia de uma boa sociedade sendo construída sob os
alicerces da solução final e isso o levou a ter certeza de que era algo correto “Eichmann
contou que o fator mais potente para acalmar a sua própria consciência foi o simples
fato de não ter ninguém, absolutamente ninguém efetivamente contrário à Solução
Final”170. É interessante notar que, no caso dos agentes do DOI-Codi, anticomunismo é
algo presente no discurso dos chefes e dos subordinados, eles faziam o trabalho
acreditando que aquilo era necessário para que a sociedade tivesse um “bom
funcionamento”. Assim, muitos desempenhavam o seu trabalho acreditando que não era
apenas uma ordem a ser cumprida, mas também algo necessário a ser feito pelo bem do
Brasil “Ustra não nega, pois, a violência contra os presos assim como os militares

169
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 152.
170
ARENDT, Eichmann em Jerusalém,p. 133.

Página | 105
franceses. Mas tenta mostrar que ela obedecia a regras e limites de funcionalidade, além
de servir às necessidade do país e do Exército.”171
Ustra, conhecido no DOI-Codi como Doutor Tibiriçá, foi responsável por
centenas de casos de tortura ou morte de prisioneiros cuja motivação, muitas vezes, era
o anticomunismo.

[...] É acusado [Ustra] de mandar ou de deixar torturar presos e


permitir ou mandar que seus homens executassem prisioneiros sem
que isso tivesse outra explicação aparente do que a de uma política de
extermínio seletiva de guerrilheiros treinados em Cuba ou dos banidos
pelo regime, de dirigentes de organizações e dos envolvidos em
crimes de sangue. Cerca de 400 das 876 denúncias de torturas
catalogadas pelo projeto Brasil Nunca Mais contra o DOI do 2º
Exército, entre 1969 e 1977 ocorreram nos quatro anos de seu
comando.172

Os guerrilheiros eram vistos como cruéis e sanguinários pelos agentes da


repressão e a morte de alguns policiais em confronto com os primeiros serviram para
reforçar essa ideia. A soma desse fator com a o discurso anticomunista era o norte para
que eles acreditassem que os sequestros, torturas e mortes eram totalmente legítimos e
necessários, servindo, inclusive, para justificar as torturas.
Godoy (2014) ainda destaca que o conhecimento desse sentimento de vingança é
importante para compreender que além do discurso anticomunista outros elementos
circundavam suas práticas.

[...] Os homens da guerrilha foram as primeiras vítimas dos que


justificavam ser lícito “matar quem matava”. Essa mesma solução
usada contra opositores políticos era adotada ostensivamente nos anos
1960 pelos grupos de extermínio da política para lidar com bandidos,
muitos dos quais apanhados desarmados ou retirados de prisões. Tudo
começara como vingança contra assassinos de policiais. [...] O
assassinato de policias e militares passaria a ser um dos principais
motivos que justificaram a política de extermínio [...] Elas
aumentavam o ódio aos comunistas, transformado em uma vingança
corporativa [...]173

171
GODOY, A casa da vovó, p. 195.
172
GODOY, A casa da vovó, p. 194.
173
GODOY, A casa da vovó, p. 168.

Página | 106
O discurso, levantado por Narloch (2011) de que as ações das guerrilhas levaram
ao recrudescimento da ditadura é equivocado, pois, como afirma Fico (2007), já fazia
parte da estratégia dos setores no poder o estabelecimento de todo um aparato
repressivo para o desmantelamento das oposições ao governo vigente:

[...] desde o início, o regime foi extremamente rigoroso com seus


“inimigos”, praticando muitas prisões arbitrárias e tortura no Nordeste, por
exemplo, logo após o golpe. Esse enunciado costuma estar acompanhado da
crença de que foi a opção pela “luta armada”, por parte da esquerda, que
levou ao AI-5.
[...] a criação, pela ditadura, de um “setor especificamente repressivo” não
foi apenas uma consequência da “luta armada”, mas um projeto que se
integrava ao estabelecimento de outros suportes básicos do regime
(espionagem, censura, propaganda) e com os quais se pretendia, em síntese,
eliminar ou ocultar tudo que dissentisse da “utopia” autoritária expressa na
diretriz geral da “segurança nacional”.174

Narloch (2011) constrói a sua narrativa em torno da necessidade de uma ditadura


para acabar com os grupos de esquerda, que tinham como plano instaurar uma ditadura
comunista no Brasil. Sem referências bibliográficas, faz uso do argumento que aponta a
ação de pequenos grupos que poderiam derrubar o governo e colocar em prática seus
planos inspirados pela experiência de Cuba, segundo o autor, se isso acontecesse, seria
difícil a sua retirada do poder:

Alguém poderá dizer que a reação dos militares ao terrorismo foi exagerada.
A ditadura passou um trator de tortura em cima de um punhado de jovens
com ideias ingênuas que dificilmente teriam força para tomar o poder. Isso
pode ser verdade, mas não era seguro pensar assim naquela época. Qualquer
notícia de movimentação comunista era um motivo razoável de preocupação.
A experiência mostrava que poucos guerrilheiros, com a ajuda de partidários
infiltrados nas estruturas do Estado, poderiam sim derrubar o governo. E,
depois que isso acontecia, era difícil tirá-los de lá.175

Também faz especulações, sem fundamentação teórica, de como seria o Brasil


caso os grupos de esquerda não fossem combatidos e conseguissem efetivar seus planos
de implantação do socialismo. Durante todo o texto o autor argumenta sobre os sérios

174
FICO, Carlos. Espionagem, polícia política, censura e propaganda: os pilares básicos da
repressão. In. Brasil republicano – O tempo da ditadura – regime militar e movimentos sociais em fins do
século XX, org. Jorge Ferreira; Lucilia de Almeida Neves Delgado. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2007, p. 181-181.
175
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 321.

Página | 107
riscos, que vão desde a violência por parte do Estado comunista até a decadência
econômica, que os brasileiros estavam sujeitos com os grupos guerrilheiros em
atividade. No entanto, não menciona a ação antidemocrática da derrubada do governo
João Goulart, legal e constitucionalmente eleito, nem a violação dos direitos humanos
nas práticas de tortura como política de Estado durante a ditadura militar:

Basta olhar os países comunistas de hoje para perceber o que os heróis da


luta armada fariam com a gente. Os cubanos não só se prostituem para
comprar sabonetes como aprendem na escola que o amor é o que Fidel
Castro sente pelo povo. [...] Como não houve socialismo no Brasil, nunca
saberemos como teria sido o sistemas por aqui. Mas podemos imaginar.
Tendo como base todas as experiências comunistas é razoável pensar que a
Amazônia seria uma enorme prisão onde aliados incômodos e inimigos do
regime fariam trabalho forçado [...] Estudantes arrastariam seus professores
para fora da sala de aula e os linchariam, por acharem que eles representam a
velha cultura, como aconteceu durante a Revolução Cultural da China. Em
episódios semelhantes às mortes nas praias cubanas, cidadãos seriam
executados depois flagrados tentando fugir para o Paraguai. Na pior das
hipóteses, 21% da população seria exterminada [...].176

Em seu Guia Politicamente Incorreto o que Narloch (2011) justifica é a violação


dos direitos humanos com base em especulações infundadas, ou seja, sem referenciais
bibliográficos e embasamento teórico. As omissões das violências do Estado e a
construção da narrativa não se tratam de um simples lapso de memória histórica. Como
afirma Jerusa Pires Ferreira (2004), a dicotomia “esquecimento/memória” é apenas
aparente, na verdade, o esquecimento faz parte de uma estratégia para enfatizar a
narrativa daquilo que se pretende perpetuar como memória, assim sendo: “[...] o ato de
esquecer se faz pivô daquilo que se desenvolverá [...]”177 é, portanto, um recurso para
fundamentar um argumento e, até mesmo, para transformar a concepção histórica.

3.2 Humor: o recurso da ironia para contar a história

Narloch usa como artifício para reconstruir a memória da ditadura civil-militar o


recurso cômico da ironia e do sarcasmo, ridicularizando os setores de esquerda,
especialmente os grupos guerrilheiros. É importante notar que o autor faz isso ao longo

176
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 324.
177
FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da Memória. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004, p. 93.

Página | 108
de todo o livro, no entanto, o nosso enfoque é o capítulo específico sobre os comunistas
e a ditadura militar.
Na condição de jornalista, lançando mão do pressuposto de imparcialidade e
neutralidade para pontuar a seriedade de sua investigação, afirma, com isso,
“desmistificar” as versões da história contadas por pesquisadores acadêmicos, o intuito
segundo o autor é “enfurecer um bom número de cidadãos”178. Segundo Marcia Benetti
(2007), faz parte do discurso jornalístico essa afirmação do comprometimento com a
verdade independente de orientação política e ideológica, assegurando a credibilidade
daquilo que é escrito:

A base do contrato de leitura entre jornalistas e leitores é a noção de que o


jornalismo é um discurso comprometido com a verdade. Associadas a essa
noção principal existem outras noções não menos importantes, que ao final
traçam a imagem de um campo cujo capital essencial é a credibilidade. O
discurso jornalístico ampara-se, assim, em algumas ilusões: a) o jornalismo
retrata a realidade como ela é; b) tudo que é interesse público assim é tratado
pelo jornalismo; c) o compromisso com a verdade não se subordina a
nenhum outro interesse [...]179

Apesar de afirmar ser uma pesquisa séria, Narloch (2011) se utiliza da ironia e
do sarcasmo ao se referir ao socialismo, comparando-o a religião. De acordo com
Avanuzia Ferreira Matias (2013), a ironia se utiliza da contradição para expor aquilo
que pretende dizer, assim, quando Narloch diz que os socialistas construíam uma visão
idílica e paradisíaca do comunismo, é necessário notar que ao longo de seu texto o autor
coloca esse sistema com uma ligação direta entre o autoritarismo e uma série de
privações que os indivíduos passariam. Portanto, apesar do enunciado afirmar algo
positivo nesse ponto, o sentido que o autor quis dar em sua narrativa, é de um sistema
perverso:

A análise mais interessante que se faz do comunismo é considerá-lo uma


religião — uma das religiões da salvação terrena. Esse ponto de vista nasceu
já no século 19, logo depois de Karl Marx espalhar suas ideias nos pubs
londrinos. [...] Assim o cristianismo, o socialismo se baseava em paisagens
idílicas. Se os cristãos lutavam para ir para o céu, os comunistas buscavam
trazer o céu à Terra. Lutavam pela sociedade revolucionária, um lugar tão

178
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 27.
179
BENETTI, Marcia. A ironia como estratégia discursiva da revista Veja. São Paulo: Revista
Líbero, Vol. 10, No 20, 2007, p. 38.

Página | 109
perfeito e irreal quanto o paraíso. Como as grandes religiões, o comunismo
tinha visões do paraíso, como mostra o programa da Ação Popular. Também
tinha culpados pelo pecado original.180

Faz a mesma ligação entre socialismo e religião em relação aos movimentos de


esquerda no Brasil, chamando-os, inclusive, de missionários com intuito de
“evangelizar” a população. Aqui nota-se a insistência do autor em descrever as
organizações de esquerda com um comportamento semelhante aos fiéis religiosos,
sendo movidos cegamente em suas convicções políticas. Matias (2013) afirma que a
linguagem irônica tem um sentido vasto, sendo um deles o uso do tom de brincadeira,
utilizando o sarcasmo, para dizer algo que realmente acredita, portanto, Narloch, como
se percebe ao longo do livro, acredita em um fanatismo presente nos grupos políticos
com tendências socialistas e comunistas:

Mesmo na história do Brasil, em que o comunismo não passou de um plano,


é fácil compará-lo a uma religião. As organizações deixaram à mostra o fato
de serem muito parecidas com religiões ou seitas radicais. Diversas tinham
rituais de iniciação, como batismo, baseados na idolatria fanática a
personagens míticos.
Radicais religiosos geralmente se metem em martírios que parecem loucura
para quem vê de fora. Às vezes se tornavam missionários entorpecidos de
esperança e vão evangelizar sozinhos no meio da selva.181

O sarcasmo é uma linguagem ofensiva e desqualificadora (BENETTI, 2011),


deixando explícito o deboche que, para Benetti, acaba impondo também um
determinado modo de pensar, tentando influenciar a opinião pública, pois ao
ridicularizar algo ilustra o modo certo de agir e pensar, apontando o que é moralmente
aceitável e aquilo que deve ser combatido ou evitado:

A ironia é um poderoso recurso de formação de opinião. [...] ao usar a ironia,


exercita o poder de dizer: “isto é imoral, grotesco ou simplesmente ridículo;
e você, leitor evidentemente não pensa (não pode pensar) diferente de nós,
pois pensar diferente de nós tonaria você imoral, grotesco ou ridículo”. O
ironista ao ridicularizar algo, imediatamente institui um parâmetro de
normalidade, indicando o que seria aceitável ou razoável. A ironia se
movimenta sempre no eixo da normalidade.182
180
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 328.
181
NARLOCH, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, p. 328-329.
182
BENETTI, A ironia como estratégia discursiva da revista Veja, p. 42.

Página | 110
Além de tratar a esquerda com sarcasmo, Narloch (2011) cria representações
caricatas dos militantes ao defini-los como atrapalhados (chama Luis Carlos Prestes de
“comunista trapalhão”), ingênuos, bandidos e terroristas, ridicularizando e ao mesmo
tempo criando a figura de assassinos.
É possível perceber que o tipo de humor de Narloch (2011) é negativo, pois o
autor caricatura e ironiza a esquerda, atuante durante a ditadura, defendendo e
justificando a violência do Estado, nas práticas de tortura e de assassinato dos
opositores, como política necessária para conter o avanço do comunismo no Brasil.
Dessa forma, a representação humorística do estereótipo da ação guerrilheira, como
ingênua e ao mesmo tempo messiânica e perigosa, é feita sob o argumento da
necessidade de combater a “desordem” gerada por esses grupos.
Lipovetsky (2005) afirma que apesar da fluidez do humor leve da
contemporaneidade, que não vê com bons olhos o riso que degrada o outro, é possível
ver no campo jornalístico a abertura para tornar o outro risível a partir do deboche. Esse
tipo de humor pode ser percebido no livro de Narloch (2011), que é jornalista por
formação.

Já no campo da imprensa ou do desenho (Wolinski, Cabu, Gébé)


assistimos a uma tendência inversa, a uma escalada sem precedente da
ferocidade caricatural, do humor “estúpido e maldoso”, que não está
de modo algum em contradição com o processo de suavização dos
costumes; ao contrário, constitui o seu corolário: o humor atroz pode
se permitir livre curso na medida em que os costumes e as relações
humanas se tornam mais pacíficos. A vulgaridade e a obscenidade
ressurgem sob forma humorística quando a higiene passou a ser um
credo universal e o corpo, objeto de solicitude e de cuidados
permanentes.183

O problema não é desconstrução de mitos ou levantar questionamentos sobre


qualquer período histórico, visto que os questionamentos são pertinentes, mas sim a
tentativa de reconstruir a memória sem um embasamento bibliográfico, teórico, fontes
documentais ou relatos orais. Além disso, o problema também se situa em fazer essa
reconstrução através de um humor degradante justificando uma série de violações dos
direitos humanos.

183
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio, p. 118.

Página | 111
3.3 Ditadura à brasileira: a leitura revisionista da ditadura civil-militar

Ao contrário de Leandro Narloch, Marco Atônio Villa mantém uma linguagem


menos agressiva, sem insultar com escárnio os setores ligados à esquerda, assim como
não se utiliza de uma narrativa permeada por deboche com o intuito de desconstruir,
através do sarcasmo, os discursos aos quais se opõe, nem às figuras que representaram a
oposição à ditadura civil-militar.
Villa faz parte do grupo de professores acadêmicos que atuam ativamente no
Imil, publicando recorrentemente artigos de opinião sobre a política contemporânea,
especialmente textos referentes ao PT. Mestre e doutor em sociologia pela Universidade
de São Paulo (USP), é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar). Sendo assim, compõe um núcleo que legitima a ideias
defendidas pelo Imil com o auxílio do que produz na academia, respaldando também o
discurso de que o Imil é um grupo que pretende produzir conhecimento, inclusive
científico, com o intuito de pensar em possibilidade de melhorias para o país. No livro
Ditadura à Brasileira – 1964-1985: A Democracia Golpeada à Esquerda e à Direita184,
publicado pela editora Leya, a mesma que publicou a série Guia Politicamente
Incorreto, Villa revisa a história do golpe de 1964 e a ditadura que se estabeleceu desde
então.
Nesse livro Villa (2014) constrói a ideia de que o golpe de Estado que ocorreu
em 1964 foi em decorrência de uma intolerância histórica à democracia, à falta de tato
com os processos democráticos, ou seja, por causa de uma longa trajetória autoritária no
país. Para sustentar essa teoria Villa, faz menção a outros golpes que aconteceram e
referência aos períodos autoritários no Brasil, como também ameniza a interferência
estadunidense na articulação do golpe, além de afirmar que a ditadura que houve a partir
de 1964 era totalmente diferente das ocorridas nos anos 70 e 80 em outros países como
Chile, Uruguai e Argentina, não se encaixando, portanto, na ideologia de Segurança

184
VILLA, Marco Antônio. Ditadura à brasileira: 1964-1985: A Democracia Golpeada à
Esquerda e à Direita. e-book, São Paulo: Leya, 2014.

Página | 112
Nacional. Também reduz o período da ditadura aos anos de 1968 à 1979, ou seja, para o
autor só houve ditadura durante a vigência do AI-5.
No livro, Villa também pouco menciona os setores civis que se aliaram ao golpe
de 1964 e à ditadura civil-militar. A narrativa atenua a participação civil, fazendo
menção a alguns políticos como Adhemar de Barros, mas colocando o enfoque na ação
dos militares como protagonistas do golpe de Estado de 1964 e pela manutenção da
ditadura. Não é mencionada a atuação de grupos como o IPES e o IBAD, constituídos
por civis e militares, como articuladores da propaganda desestabilizadora de João
Goulart, nem mesmo atuação de empresários como Boilesen185 que apoiaram a ditadura
ou de grupos como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC)186, cuja formação surgiu
em 1963 contando também com civis, porém após o golpe de 1964 esse grupo passou a
conduzir atos mais violentos.
Nota-se ainda que o autor não utiliza o termo “ditadura”, somente “regime
militar” para caracterizar o período, o que atenua o peso do sistema político vigente.
Segundo Ortega, o uso da linguagem escolhida no discurso é essencial para direcionar o
leitor a compartilhar as ideias do interlocutor:

Na fala ou na produção escrita de um texto, o discurso que


produzimos está, de alguma forma, intencionado em estabelecer um
contrato com o interlocutor na tentativa de fazer com que o outro
compartilhe de nossa opinião. Koch (2004) postula que o uso da

185
Uma das figuras mais marcantes da Oban foi Henning Albert Boilesen, diretor do grupo
Ultragaz. Boilesen não satisfeito em financiar a Oban, fazia questão de participar das sessões de tortura e
chegou a desenvolver dois equipamentos de tortura, a pianola Boilesen e o microfone Boilesen.
186
O CCC surgiu antes mesmo da ditadura militar de Segurança Nacional ser instaurada, o grupo
foi formado em 1963 por jovens próximos a políticos conservadores. Até a deflagração do golpe em
1964, não haviam cometido nenhum ato violento, suas ações se resumiam a tentar atrapalhar, através de
tumulto, as atividades realizadas por políticos ligados a João Goulart, as práticas mais violentas, como o
ataque aos atores da peça Roda Viva, por exemplo, se deram após o golpe de Estado. O CCC foi um
grupo que se formou em várias cidades São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife.
Exceto o CCC de Recife, os outros pareciam manter uma ligação entre si, sendo que suas ações eram
parecidas. Seus ataques eram de cunho moralizante e repudiavam violentamente qualquer manifestação
que consideravam um atentado contra a moral e os bons costumes. Em Recife o CCC tinha ações mais
violentas, como o assassinato do padre Antonio Henrique Pereira Neto e do atentado ao estudante
Cândido Pinto de Melo. Clarissa Brasil evidência que o CCC de São Paulo também chegou a provocar a
morte de um estudante da USP, José Guimarães, porém aconteceu em condições diferentes das mortes no
Recife, pois nesse caso os assassinatos foram planejados, enquanto que o caso do estudante da USP
aconteceu em um confronto. BRASIL, Clarissa. As ações do Comando de Caça aos Comunistas (1968-
1969). IX Encontro Estadual de História, Associação Nacional de História, Seção Rio Grande do Sul –
ANPUH-RS, p. 2

Página | 113
linguagem é essencialmente argumentativo, isto é, buscamos dotar
nossos enunciados de determinada força argumentativa. 187

Sendo assim, o uso do termo “regime militar” não é um recurso isento de


interesse, pois constrói a imagem de período mais sutil que um sistema ditatorial, que é
a proposta do livro. Essas afirmações ocorrem especialmente na introdução e no último
capítulo de Ditadura à brasileira, ao longo da obra aparecem de forma pontuada e mais
sutil. Os capítulos são dedicados aos presidentes militares, narrando as medidas
econômicas de cada um, a sua relação com a junta militar, as leis, decretos, Atos
Institucionais e o cotidiano deles. Assemelha-se a um guia do perfil presidencial.

3.4 A reconstituição das origens do golpe

Afirmar que o golpe de 1964 ocorreu em decorrência meramente de uma


tradição autoritária no Brasil empobrece a análise das circunstâncias específicas que
circundavam o período histórico dos anos 1960188. Além disso, dificulta a possibilidade
de pensar o ocorrido como resultado não só de uma operação interna, mas
especialmente como reflexo de um contexto mais amplo, no caso da Guerra Fria e dos
embates ideológicos em decorrência disso. Villa pensa o golpe de 1964 como um
resultado político isolado na América Latina, justamente por causa da característica
ressaltada pelo autor como um país com fortes raízes autoritárias:

Veio 1964. E de novo foram construídas interpretação para uso


político, mas distantes da história. A associação do regime militar
brasileiro com as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile e
Paraguai) foi a principal delas. Nada mais falso. O autoritarismo aqui
faz parte de uma tradição antidemocrática solidamente enraizada e que
nasceu com o Positivismo, no final do Império. O desprezo pela
democracia foi um espectro que rondou o nosso país durante os cem
anos de República. Tanto os setores conservadores como os chamados

187
ORTEGA, Simone Tereza de Oliveira. Operadores argumentativos: recursos essenciais ao
direcionamento discursivo. Curitiba: Cadernos da Semana de Letras, 2010, p. 1
188
Embora o golpe de 1964 não tenha se dado em decorrência da tradição autoritária do Brasil,
existem trabalhos relevantes que remetem a uma continuidade do autoritarismo no país. Entre esses
trabalhos estão o de Paulo Sérgio Pinheiro Autoritarismo no Brasil e José Antônio Segatto em Sociedade
e literatura no Brasil. No entanto, as obras desses autores possuem posturas distintas daquelas colocadas
pelo Villa.

Página | 114
progressistas transformaram a democracia em um obstáculo à solução
dos graves problemas nacionais.189

Apesar de Villa recorrer exclusivamente às tradições antidemocráticas para


justificar o golpe de 1964, esse processo foi resultado de outros fatores internos e de
outras causas maiores também. A conjuntura internacional da Guerra Fria exerceu forte
influência para os golpes que aconteceram não só no Brasil, mas na Argentina, Uruguai
e Chile. Reduzir os acontecimentos desse período à tradição autoritária é ignorar não só
o peso do contexto histórico nacional dos anos 1960, mas também a influência
internacional nas decisões políticas nos anos 1960 até 1980.
Como destaca Godoy (2014), é necessário entender que o Brasil também sofreu
influência da Guerra Fria para compreender não só o golpe de Estado, mas também as
medidas tomadas com a consolidação da ditadura, como as políticas de repressão, os
sistema de informações e espionagem, a censura e todas as medidas tomadas nesse
período para reprimir as ideologias ligadas à esquerda.

[...] Ora, o mundo após a 2ª Guerra Mundial era organizado ao redor


de duas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética. [...]
Assim, a “política mundial do pós-1945 foi basicamente a política da
revolução e da contrarrevolução, com os problemas nacionais
intervindo apenas para realçar ou perturbar o tema principal”, uma
situação que só se rompeu a partir de 1989, com o fim do bloco
socialista europeu. Não se compreende o que houve no Brasil sem a
dimensão internacional desse conflito. [...] A disputa entre os dois
polos descontinuamente tornava-se armada e, cara erupção, formava
episódios desse conflito. Em suma, é pela existência de uma dimensão
política e pela escolha do uso das armas para resolver a luta que se
pode caracterizar cada uma dessas erupções — e entre elas a brasileira
— como partes de uma guerra maior, internacional.190

Ignorar isso é fechar os olhos para o fato de que o Brasil, assim como outros
países, sofria influência e sentia os reflexos da política internacional em um período de
confronto ideológico acirrado.
Negar que a ideologia de Segurança Nacional não fazia parte das diretrizes e
doutrinas da ditadura civil-militar brasileira é uma forma encontrada por Villa (2014)
para diferenciá-la das outras que ocorreram no Cone Sul. No entanto, é possível

189
VILLA, Ditadura à brasileira, e-book.
190
GODOY, A casa da vovó, p. 58-59.

Página | 115
desconstruir essa ideia a partir das características essenciais da ideologia de Segurança
Nacional que esteve presente nos países latino-americanos e serviu como doutrina e
inspiração para o golpe de 1964 e para as medidas implementadas durante a ditadura.
De acordo com Villa:

Os postulados do regime foram constituídos por um mix da tradição


autoritária brasileira com o discurso anticomunista tão presente na
Guerra Fria. Dessa forma, referências à ideologia fascista — presentes
em algumas ditaduras do Cone Sul — aqui foram inexistentes.
Tampouco o regime teve como seu livro de cabeceira a chamada
doutrina de segurança nacional, que vale lembrar, nunca passou de
uma reunião de postulados primários que foram ordenados — e aqui
está a ironia — pelos adversários do regime.191

Apesar de afirmar que os postulados da doutrina de Segurança Nacional foram


organizados por adversários à ditadura, Villa (2014) não aponta quem são. Na verdade,
a ditadura civil-militar brasileira, assim como a argentina, uruguaia e chilena nos anos
1970 e 1980 tinham a Doutrina de Segurança Nacional como elemento em comum, as
medidas repressivas de contenção da oposição ao governo militar tinham como norte tal
doutrina, a ideia de “inimigo interno” e uma guerra não convencional, já que os
inimigos a serem eliminados estavam dentro da nação, foi essencialmente desenvolvida
por ela.
Segundo Alves (1985), a Doutrina de Segurança Nacional começou a ser
desenvolvida ainda no século XIX, tendo como elementos importantes o antimarxismo
e a geopolítica. No Brasil, com a Guerra Fria e a oposição entre as duas superpotências,
a doutrina incorporou a ideia de “segurança interna” tendo em vista o combate à
“infiltração comunista”. Havia ainda ligação entre a eliminação do inimigo interno e o
desenvolvimento econômico “a ideologia latino-americana de segurança nacional,
especialmente em sua variante brasileira, volta-se especificamente para a ligação entre
desenvolvimento econômico e segurança interna e externa.”192
A Doutrina de Segurança Nacional foi aperfeiçoada pela Escola Superior de
Guerra (ESG) em parceria também com grupos civis, segundo Alves (1985) os civis que

191
VILLA, Ditadura à brasileira, e-book.
192
ALVES, Maria Helena Moreira. A Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento. In.
Estado e Oposição (1964-1984). Petrópolis: Vozes, 1985, p. 33.

Página | 116
auxiliaram no desenvolvimento da doutrina foram membros que compunham o IPES e o
IBAD.
A compreensão da Doutrina de Segurança Nacional é importante para entender
as medidas adotadas após a instauração da ditadura civil-militar no Brasil. Alguns
elementos, como as teorias de guerra, são essenciais para entender a importância que foi
dada para a aniquilação dos opositores à ditadura, da luta armada ou não, e todo o
combate à ameaça vermelha.
A doutrina de Segurança Nacional abrangia uma nova concepção de guerra, que
são: guerra subversiva ou revolucionária, guerra indireta ou psicológica, guerra total e
guerra limitada ou localizada. A guerra clássica é aquela declarada, cujos inimigos são
os Estados-Nação e todos têm clareza de quem é inimigo. De acordo com a doutrina de
Segurança Nacional, diferentemente da guerra clássica, guerra não declarada ocorre por
subversão interna, ou seja, por infiltração comunista e o inimigo são os próprios
indivíduos residentes na nação, por isso mesmo é mais difícil identificá-lo. Alves (1985)
destaca que o manual da ESG elabora os conceitos de guerra insurrecional e guerra
revolucionária:

Guerra Insurrecional: conflito interno em que parte da população


armada busca a deposição de um governo.
Guerra Revolucionária: conflito normalmente interno, estimulado ou
auxiliado do exterior, inspirado geralmente em uma ideologia [...]
[...] guerra revolucionária não envolve necessariamente o emprego da
força armada. Abrange toda iniciativa de oposição organizada com
força suficiente para desafiar as políticas de Estado. [...] é
automaticamente vinculada à infiltração comunista [...] É aqui que se
torna essencial para a teoria o conceito de “fronteiras ideológicas”,
oposto ao de “fronteiras territoriais”. Na guerra revolucionária, a
ideológica substitui a guerra convencional entre Estados no interior
das fronteiras geográficas de um país. Este ponto é fundamental para a
teoria do “inimigo interno” e o da agressão indireta.
[...] a guerra revolucionária assume formas psicológicas e indiretas, de
maneira a evitar o confronto armado, tentando conquistar “as mentes
do povo”, e lentamente disseminar as sementes da rebelião até
encontrar-se em posição de iniciar a população contra as autoridades
constituídas. [...] “inimigos internos” potenciais que devem ser
cuidadosamente controlados, perseguidos e eliminados.193

A partir dessas concepções de guerra insurrecional e revolucionária compreende-


se a preocupação em eliminar qualquer movimentação de esquerda, ou qualquer

193
ALVES, A Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento, p. 38-39.

Página | 117
indivíduo que se opunha ao governo. É em decorrência disso que os aparatos
repressivos e centro de sequestro e tortura foram montados, como é o caso do
Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) e da Operação Bandeirantes (Oban),
que posteriormente se tornaria o Destacamento de Operações de Informações – Centro
de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Na guerra revolucionária, ou no “combate
ao terrorismo”, a eliminação do inimigo faz parte do processo, assim como o tratamento
dispensado a ele, como as torturas, por exemplo, permitindo romper a dignidade do
homem e a violação dos direitos humanos.
Nesse contexto histórico no Brasil, as violações dos direitos humanos em relação
aos presos políticos correspondia a uma necessidade de combate à subversão
correspondendo, portanto, aos preceitos militares desenvolvidos pela Doutrina de
Segurança Nacional. Godoy (2014) em entrevista com o coronel Brilhante Ustra
evidencia como os métodos utilizados eram legitimados com a ideia de “terrorismo” e
“guerra revolucionária”:

Para ele [Ustra], não é possível “combater o terrorismo amparado nas


leis normais, eficientes para o cidadão comum”, até porque os
“terroristas não eram cidadãos comuns”. Não existiria, portanto, na
chamada guerra revolucionária, forma de vencê-la compatível com o
que os militares aprenderam na guerra clássica, isto é, observando a
Convenção de Genebra e suas regras de inviolabilidade e de
tratamento dos inimigos feitos prisioneiros. Assim, o que são crimes
de guerra, segundo a Convenção, podiam transformar-se em “ação
legítima e necessária contra a subversão comunista que ameaçava
tragar um país”.194

Villa (2014) além de diferenciar o modelo de ditadura no Brasil em relação a dos


outros países do Cone Sul, e afirmar que não foi uma ditadura de Segurança Nacional,
também destaca que a influência dos Estados Unidos no golpe de 1964 foi mínima, já
que não tinha nenhum interesse na região:

O regime militar teve características próprias. Revelou-se muito


distinto das outras intervenções ocorridas ao longo de nossa história
desde 1889 — a Proclamação da República foi um golpe militar. E,
também, em nada se assemelhou às ditaduras do Cone Sul dos anos
1970-1980. Muito menos foi uma criação do imperialismo americano

194
GODOY, A casa da vovó, p. 195.

Página | 118
— a participação dos Estados Unidos nos acontecimentos de 1964 é
ínfima.195

Como já foi mencionado no capítulo I, os Estados Unidos exerceram influência


na tentativa de contenção dos movimentos sociais, que reivindicavam as reformas de
base e melhores condições de vida, através das políticas da ALPRO. Além disso,
também houve investimento estadunidense na campanha de candidatos da oposição ao
governo João Goulart, o que já constituía uma prática ilegal e não obteve êxito. Mas a
principal ação dos Estados Unidos para a desestabilização de João Goulart e a
concretização do golpe de 1964 foi a Operação Brother Sam, pois viam o Brasil, por
causa da Guerra Fria e da proximidade geográfica com Cuba, como uma grande ameaça
caso os setores de esquerda radicalizassem e tomassem o poder.
Sobre a semelhança com as outras ditaduras do Cone Sul, não é possível afirmar
que todas foram idênticas, pois cada uma carrega a singularidade de sua região, mas as
ditaduras que aconteceram em outros países possuem características semelhantes, entre
elas, a influência dos Estados Unidos e a Doutrina de Segurança Nacional.

3.5 A construção de uma memória branda da ditadura

Marco Antonio Villa (2014) constrói uma imagem mais aprazível da ditadura
civil-militar, restringindo o período ditatorial aos anos de vigência do AI-5, ou seja, de
1968 a 1979. Para o autor, a ditadura durou dez anos, pois Castello Branco e parte do
governo de Costa e Silva permitiram manifestações de rua e manifestações artísticas.
Porém Villa não leva em consideração que essas manifestações foram reprimidas e
grande parte das atividades culturais censuradas:

O regime militar brasileiro não foi uma ditadura de 21 anos. Não é


possível chamar de ditadura o período de 1964-1968 (até o AI-5), com
toda a movimentação político-cultural que havia no país. Muito menos
1979-1985, com a aprovação da Lei de Anistia e as eleições diretas
para os governos estaduais em 1982. Que ditadura no mundo foi
assim? 196

195
VILLA, Ditadura à brasileira, e-book.
196
VILLA, Ditadura à brasileira, e-book.

Página | 119
Utiliza como exemplo também algumas manifestações de rua como prova de que
em uma ditadura isso não seria possível:

A célebre passeata dos 100 mil, em 26 de junho de 1968, apesar das


faixas “Abaixo a ditadura”, paradoxalmente, não poderia ocorrer em
um país ditatorial. O eixo da passeata era a defesa das liberdades
democráticas. E deve se recordar que uma comissão dos manifestantes
acabou sendo recebida, dias depois, em audiência pelo presidente
Costa e Silva, sempre com ampla cobertura da imprensa.197

O que Villa (2014) não leva em consideração, ao afirmar que os anos de 1964 a
1968 não foram uma ditadura, é que apesar de uma série de manifestações culturais
efervescentes, que na verdade consistiam em um reflexo muito mais amplo198, e que
apesar das manifestações públicas contrárias ao golpe e à instalação da ditadura, os
aparatos repressivos já tinham entrando em funcionamento.
O golpe de 1964 surgiu com a necessidade, dos setores golpistas, em fazer uma
operação limpeza, eliminando os vestígios do varguismo e do comunismo no Brasil,
portanto, logo nos primeiros anos da ditadura, entre 1964 e 1968, essa funcionalidade já
começou a ser colocada em prática. Segundo Aarão (2014), alguns políticos civis como
Carlos Lacerda e Adhemar de Barros e a conhecida linha dura do exercito já defendiam
uma limpeza radicalizada no Brasil. Por isso consideravam importantes as práticas,
como torturas, que já começaram a ser utilizadas no dia do golpe:

[...] Algumas das lideranças civis do golpe (Magalhães Pinto, Carlos


Lacerda e Adhemar de Barros) queriam uma limpeza em regra, para
reduzir drasticamente as chances de que políticos e partidos vencidos
— seus potenciais concorrentes — disputassem as eleições previstas
para 1965 e 1966.

197
VILLA, Ditadura à brasileira, e-book.
198
A América Latina nesse período estava carregada de produções artísticas cujos conteúdos eram
repletos de questões políticas e sociais “Os anos 60 foram muito ricos em produção musical, teatral,
literária; de fato, houve setores do universo cultural e artístico que assumiram um compromisso de
denúncia das mazelas da realidade social. [...] Eram os versos poderosos de Neruda, Guillén e Alberti. Era
a expressão literária onde temas políticos, questões sociais, a identidade indígena e o sentimento latino-
americano se traduziam na idéia do realismo [...] fantástico ou do romance social, de importante tradição
na região. Roa Bastos, Cortazar, Vargas Llosa, Borges, Rulfo, Onetti, Jorge Amado e, principalmente,
García Marques [...] contribuições musicais da Nueva Trova cubana e da música argentina de raízes rural
e popular numa linhagem que inicia com Atahualpa Yupanqui e ganha ressonância com Horacio Guarany
e Mercedes Sosa, mas também com manifestações urbanas identificadas como música de ‘protesto’.”
NACIONAL Uruguai (1968-1985): do Pachecato à Ditadura Civil-Militar. Tese de doutorado, Porto
Alegre, 2005, p. 144-145.

Página | 120
Limpeza mais funda ainda era exigida por numeroso grupo de chefes
militares [...] Estes também não queriam ouvir falar de intervenções
cirúrgicas e defendiam a permanência no poder, por tempo
indeterminado, dos vitoriosos, até que fosse possível erradicar o
comunismo e o varguismo [...] E para isso era necessário tempo.
Consideravam válido o recurso aos maus-tratos e à tortura e já
começaram a praticá-los no próprio episódio do golpe e nas semanas
subsequentes.199

A afirmação de Villa (2014) de que a ditadura não começou em 1964 passa por
cima das medidas repressivas que foram adotadas logo após o golpe, como as prisões
em decorrência das perseguições política e ideológica que aconteceram logo nos
primeiros meses: “Milhares de pessoas foram presas, torturadas e tiveram seus direitos
civis e políticos cassados por defenderem posições ideológicas diferentes do governo.
Outras tantas conseguiram escapar para o exílio.” 200
A primeira geração de exilados começou logo em 1964, Denise Felipe Ribeiro
(2010) aponta a existência da diferença dos perfis das pessoas exiladas logo após o
golpe em 1964 daquelas que tiveram que se exilar a partir de 1968, após o AI-5 ser
decretado, destaca ainda que muitas pessoas tiveram que viver na clandestinidade pela
impossibilidade de conseguir o exílio.
Na primeira geração a se exilar, nos anos 1964, geralmente são políticos
reformistas aliados de João Goulart ligados ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e ao
Partido Comunista Brasileiro (PCB), ou pessoas ligadas a sindicatos. A segunda geração
de exilados, a partir de 1968, são pessoas que estavam em atividades com as
manifestações estudantis. Outro traço marcante dessa diferença entre os exilados
também são as perspectivas que cada geração tinha no exílio, enquanto a primeira era
profissionalmente estabelecida e via a possibilidade de dar continuidade aos projetos
políticos, a segunda era formada por jovens que ainda estavam em formação acadêmica
ou profissional e que precisavam se refugiar para se manterem vivos. Como destaca
Ribeiro:

Um fator importante que teve grande variação foi a relação dos


indivíduos com o exílio ao longo do tempo. A primeira fase, iniciada
com o golpe de 1964, é marcada pela visão do exílio como um recurso
199
AARÃO, Daniel Reis Filho. Ditadura e Democracia no Brasil, e-book.
200
COMISSÃO DE FAMILIARES DE MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS. Dossiê
Ditadura – Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009, p. 21

Página | 121
para escapar da perseguição e como um momento de reorganização e
preparação para a reintegração da luta. A avaliação geral era de que o
exílio não se prolongaria. Assim, os exilados tiveram como destino
países da América Latina, onde não se integraram totalmente e
mantiveram-se na militância política. Nesse momento, principalmente
para a geração de 1968, o exílio não era visto como lugar de
resistência e de luta, mas como lugar para aqueles que dela fugiram.201

É importante notar que mesmo no exílio as pessoas não estavam completamente


livres da repressão, a ditadura chilena sob o governo de Pinochet criou a “Operação
Condor” formando aliança com outros países que também tinham como característica a
ditadura de Segurança Nacional, como o Brasil, Argentina e Uruguai. A função da
Operação Condor era a perseguição dos exilados202.
Além dos exílios também houve um grande número de pessoas mortas após o
golpe. Segundo o levantamento da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos
Políticos (2009), cerca de cinquenta e uma pessoas morreram entre os anos de 1964 a
1968. Entre as causas das mortes estão casos de pessoas que foram baleadas no dia do
Golpe por tentarem resistir em manifestações públicas. Constam também mortes
causadas pela tortura, mas que foram oficializados por médicos do Instituto Médico
Legal (IML) como suicídio. De acordo com a Comissão de Familiares de Mortos e
Desaparecidos Políticos (p. 30, 2009) no formulário do laudo eram registradas as
palavras “sub”, “subversivo” ou “T” de terroristas que indicavam se o laudo deveria ser
falsificado.
Outro exemplo usado por Villa (2014) para argumentar que não houve ditadura
de 1964 a 1968, foram as eleições em alguns estados, eleições realizadas somente no
estados que não eram consideradas um risco para a Segurança Nacional, a manutenção
do Congresso aberto e a suposta liberdade que a imprensa tinha. Segundo o autor,

201
RIBEIRO, Denise Felipe. Memórias do exílio e do retorno ao Brasil antes da anistia. Rio de
Janeiro: ANPUH, 2010, p. 4.
202
Como o inimigo tinha âmbito internacional, Pinochet traçou um plano internacional clandestino
para derrotá-lo. Para esse fim, compôs uma aliança secreta com outros governos militares – Uruguai,
Paraguai, Bolívia, Brasil e Argentina – que foi chamada “Operação Condor” [...] A idéia era fazer com
que os Serviços de Segurança reunissem forças para perseguir e capturar ‘terroristas’ de todas as
nacionalidades, onde quer que residissem. A estratégia do Condor foi alargada, entretanto, para abarcar a
erradicação de todos os rivais, inclusive os líderes militares e os líderes políticos civis determinados a
restaurar o governo constitucional. Entre táticas do Condor estava o assassinato internacional, [...].
DINGES, John. Os Anos do Condor: uma década de terrorismo internacional no Cone Sul. São
Paulo: Companhia da Letra, 2005, p. 21.

Página | 122
apesar de algumas perseguições por parte do governo, a imprensa ainda dispunha de
certa liberdade, o que constituía algo incompatível com um regime ditatorial:

Os anos 1964-1968 não podem ser considerados como ditadura, no


sentido da etimologia política desse conceito. O Congresso nacional
manteve-se aberto, assim como as Assembleias Legislativas e as
Câmaras dos Vereadores.
Os Executivos estaduais ainda tiveram eleições – como em 1965, em
alguns estados –, e na esfera dos municípios, excetuando-se as capitais
e as cidades consideradas áreas de segurança nacional, ocorreu a
renovação sistemática dos prefeitos.
No terreno da liberdade de imprensa, os jornais que se colocaram no
campo oposicionista denunciaram as mazelas do regime. As editoras
publicaram livremente seus livros – mesmo sofrendo perseguições por
parte dos órgãos de segurança do regime ou de grupos paramilitares.
O mesmo ocorreu nos mundos teatral e cinematográfico.203

A relação entre os governos militares e a imprensa era muito mais complexa do


que Villa afirma. Segundo Octavio Penna Pieranti (2006), muitos jornais dependiam
economicamente não somente das vendas dos exemplares, mas também da propaganda
oficial do governo, subsídio para a compra de materiais importados e empréstimos
bancários, o que servia como moeda de troca com o governo. Era uma forma velada de
controlar a imprensa, pois se houvesse críticas e denúncias sérias contra o governo o
órgão da imprensa sofreria as consequências disso.
Segundo Pieranti (2006), já nos governos de Castello Branco e Costa e Silva,
ainda entre os anos 1964 a 1968, período que Villa (2014) afirma não constituir
ditadura, a imprensa era controlada e censurada:

Os governos militares, notadamente Humberto Castello Branco (1964-


1967) e Arthur Costa e Silva (1967-1969), foram responsáveis por
uma grande reformulação nas políticas voltadas aos setores de
radiodifusão e imprensa. [...] No que tange à atividade jornalística,
prevaleceu, por parte dos governos militares, a prática de coerção,
visando o controle da imprensa e da informação por meio da censura.
Essa prática foi regulamentada por novas legislações.
[...] Segundo a nova redação do artigo 53 do CBT, dada pelo decreto-
lei, tornaram-se passíveis de punição empresas que supostamente
investissem contra alicerces do novo regime, como, por exemplo, a
moral, os bons costumes e a disciplina (militar e civil) e a honra

203
VILLA, Marco Antonio. Ditadura à brasileira, e-book.

Página | 123
nacional, conceitos amplos e, por isso mesmo, submetidos a diferentes
interpretações. 204

Durante a ditadura leis que respaldavam a censura também foram muito


utilizadas. No ano de 1968, durante o governo de Costa e Silva, foi decretada a Lei nº
5.536205 que aperfeiçoava a censura, no entanto, já existia um aparato legal que
estabelecia a censura, que é a lei de Lei nº 20493/46206, colocada em vigor desde 1946,
amplamente usada pelo governo Castello Branco e por Costa e Silva. Uma terceira lei
que delineava os traços mais rigorosos da censura foi decretada no início de 1970, no
governo Médici, era o Decreto-lei nº 1077207 cuja finalidade era legalizar a censura
prévia.
Em seu livro Villa (2014) destaca que parcela da responsabilidade pelas mortes e
torturas dos jovens que faziam parte da luta armada, nos anos de vigência do AI-5, foi
dos militantes mais velhos, como Marighella, pois a exemplo deles os jovens
desafiaram o governo e acabaram sendo punidos por isso.

Em 25 de outubro [...] mais uma liderança foi abatida: Joaquim


Câmara Ferreira, [...]
Foi preso, torturado e assassinado pela equipe do delegado Fleury.
Morreu aos 57 anos, mesma idade que Marighella ao ser morto.

204
PIERANTI, Octavio Penna. Políticas para a mídia: dos militares ao governo Lula. São Paulo:
Revista Lua Nova, 2006, p. 97.
205
Em fins de 1968, no governo de Costa e Silva, o ministro da Justiça Gama e Silva elaborou
outra lei que aperfeiçoava a censura. Era a Lei nº 5.536, que declarava que a censura seria classificatória e
não haveria cortes desde que não fossem violados os limites estabelecidos, ou seja, desde que não
atentassem contra a segurança nacional e incentivasse a luta de classes “Revolucionando conceitos, no
seu artigo 1º sentenciou que a censura das peças teatrais seria classificatória. Um ponto mais adiante,
mesmo proibindo quaisquer cortes nos textos, abriu uma brecha a esse avanço: desde que não atentem
‘contra a segurança nacional e o regime representativo e democrático, (...) [ou] incentive a luta de
classes’.” KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda - jornalistas e censores, do AI-5 à constituição de
1988. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 103.
206
O primeiro decreto que surgiu para regular a censura tem suas raízes após o final do Estado
Novo. O Decreto nº 20493 de 24/01/1946 foi utilizado, desde o seu surgimento até ser extinto pela
Constituição de 1988, para regular os meios de comunicação e artísticos: “[...] por 42 anos, um mesmo
conjunto de artigos e normas balizou as atividades artísticas e orientou a programação de rádio, cinema,
teatro, música e até mesmo da TV, muito embora tenha sido instaurado antes do advento deste último
veículo”. KUSHNIR, Cães de guarda, p 104.
207
“[o decreto-lei nº1077] Sempre justificando as proibições pelo resguardo da ‘moral e dos bons
costumes’, como se assim lhes anulasse a intenção política, o governo proíbe publicações, nacionais ou
importados, que ofendem esse requisitos. Ou seja, a censura aplicava-se à imprensa nacional e aos
exemplares estrangeiros que aqui chegassem em desacordo com as normas. Essas regras eram praticadas
desde o AI-5, com circulares enviadas às redações, mesmo que a emenda da Constituição dissesse o
contrário.” KUSHNIR, Cães de guarda, p. 116.

Página | 124
Permaneceu numa luta fadada ao fracasso. Buscou o martírio, como
criador da ALN.
Talvez o exemplo seguido pelos dois líderes guerrilheiros tenha sido o
de Cristo, mesmo sendo ateus. Mas se para Nazareno a morte teve um
sentido histórico-teológico, para os velhos militantes do Partidão a
luta já não tinha mais sentido. E arrastaram, mesmo que
involuntariamente, dezenas e dezenas de jovens para serem imolados
pela máquina repressiva do regime civil-militar. (VILLA, e-book
capítulo: Para Médici, a verdadeira paz. Paz?, 2014)

Ainda de acordo com essa concepção, Villa (2014) destaca que a resistência à
ditadura e o esforço em formar grupos guerrilheiros mais treinados, permitiram que a
linha dura aumentasse a violência da repressão, tornando a oposição assim como o
Estado, responsável pelas violações dos direitos humanos desses jovens militantes.
Dividindo, assim, a responsabilidade das violências do governo militar praticadas pelos
governos militares com as guerrilhas urbana e rural:

A criação da OLAS [Organização Latino-Americana de


Solidariedade] (1967) e o apoio militar, financeira e logístico cubano
aos guerrilheiros brasileiros acabou empurrando dezenas de jovens à
morte. E açulou a extrema direita do regime, permitindo justificar a
intensificação da repressão e a violação dos direitos humanos como
uma ação indispensável à conservação da ordem.208

A perseguição e repressão eram práticas existentes desde 1964, a diferença é que


a partir de 1968 essas práticas se tornaram especializadas. É necessário compreender a
função do uso da violência por parte do Estado para entender o motivo que levou as
práticas de tortura, morte e desaparecimento a serem utilizadas de forma sumária e,
inclusive, terem sido aperfeiçoadas com o DOPS e a formação da Oban (posterior DOI-
Codi).
Segundo Padrós (2005), as ditaduras do Cone Sul que seguiam as orientações da
Doutrina de Segurança Nacional, tinham como característica o Terrorismo de Estado,
ou seja, o próprio Estado representava uma ameaça à integridade física e psicológica
dos indivíduos, de acordo com essa teoria a especificidade desse terrorismo se constitui
na extrema vulnerabilidade das pessoas que habitam determinada nação, pois ao
contrário do terrorismo praticado por grupos terroristas, o Estado é responsável pela
violência, assim, os cidadãos não têm a quem recorrer.

208
VILLA, Ditadura à brasileira, e-book.

Página | 125
As formas de violência do Estado nessas ditaduras variaram de país para país,
mas se constituiu como característica comum e fundamental:

Deste modo, a aplicação dos princípios da DSN [Doutrina de


Segurança Nacional] nos países latino-americanos para defender a
democracia assumiu, de forma geral, o perfil de violência estatal e, na
maioria dos casos, de Terror de Estado, [...] Nos países em que a DSN
e seus defensores locais constataram a resistência por parte de
movimentos sociais, políticos ou até militares, o resultado foi o
recurso à contra-insurgência que, em realidade, representou a
imposição de ações de terrorismo de Estado contra a sociedade. [...] o
Estado se configurou como o macro instrumento repressivo que,
variando em grau de violência nos diversos países do Cone Sul
deixou, como marca comum a supressão das instituições
democráticas. Os setores economicamente dominantes viram, nessa
intervenção e na própria DSN, a viabilização da “tranqüilidade social”
tão necessária para seus interesses.209

Esse uso da violência que Padrós chama de Terrorismo de Estado, ainda segundo
o autor, tem como finalidade a “cultura do medo”, ou seja, através da repressão com
torturas e mortes pretende-se silenciar a sociedade sobre qualquer manifestação
contrária aos governos militares210. Portanto, responsabilizar a guerrilha por atrair
jovens e fazer com que estes fossem mortos e torturados é desviar a responsabilidade do
aparato repressivo durante a ditadura. Não se sujeitar a um Estado antidemocrático
levou milhares de pessoas a contestarem a ditadura desde 1964, muitas foram presas,
centenas de pessoas permanecem desaparecidas. O decreto AI-5 que visava pôr fim a

209
PADRÓS, Enrique Serra. Como el Uruguay no hay... TERROR DE ESTADO E
SEGURANÇA NACIONAL Uruguai (1968-1985): do Pachecato à Ditadura Civil-Militar. Tese de
doutorado, Porto Alegre, 2005, p. 58.
210
“O segundo elemento a considerar é dos mais essenciais: o fomento e a consolidação de uma
‘cultura do medo’, clima que emerge da sociedade atingida pela sistemática do TDE. É o resultado da
aplicação das medidas que compõem o arsenal coercitivo e repressivo do TDE. Trata-se do cenário do
silêncio, da desconfiança, da alienação, da autocensura e de um terror permanente [...] A ‘cultura do
medo’ não deve ser confundida com a ‘pedagogia do medo’, entendida como a instrumentalização da
aplicação das modalidades repressivas de impacto mais direto, a função ‘pedagógica’ de ensinar e lembrar
que, havendo transgressão das atitudes, comportamentos e limites permitidos, há duríssima punição.
Neste sentido, o temor obtido, funciona como fonte de obediência compulsiva ou, na menor das hipóteses,
como desmobilização e paralisação de uma oposição militante ou de manifestação pública de
descontentamento. A ‘pedagogia do medo’ organizada desde o aparato estatal e disseminada por todo o
território nacional, impõe, através da violência - direta ou irradiada, institucional, cultural e psicológica -,
o entorpecimento do raciocínio, o bloqueio da capacidade de compreensão e a acentuação do estresse,
condicionamentos presentes no cenário da ‘cultura do medo’.” PADRÓS, Como el Uruguay no hay...
TERROR DE ESTADO E SEGURANÇA NACIONAL Uruguai (1968-1985), p. 96-97.

Página | 126
qualquer resistência que surgisse foi, como afirma Aarão (2014), “um golpe dentro do
golpe”.
Villa (2014), por final, ainda afirma que a esquerda armada arroga para si toda a
referência da resistência ao período ditatorial, de acordo com o autor, ao fazer isso, o
papel da Igreja, do MDB, de jornalistas, sindicatos e movimento estudantil é ofuscado.
Ao fazer isso, Villa (2014), além de distorcer o discurso dos indivíduos que compunham
a guerrilha, pois os mesmos não negam a existência da resistência em outras esferas,
também estigmatiza ainda mais a figura desses grupos, já taxada como responsável pela
morte dos jovens e pelo radicalismo político.

No processo de construção da memória, o fracasso do militarismo de


esquerda — a luta armada — acabou se sobrepondo e apagando o
papel central e vital da oposição política pacífica do MDB, da Igreja
Católica, dos sindicatos, do movimento estudantil, intelectuais,
jornalistas, atos pela anistia, em suma, da sociedade organizada.211

Elizabeth Jelin, em Los trabajos de la memoria212, chama atenção para o


esquecimento a que vítimas de violação de direitos humanos são submetidas. Jelin
(1998) pontua questões importantes, uma delas é o tratamento dispensado às vítimas
quando tentam se expressar e suas denúncias e memórias são consideradas exageros. A
outra questão, que é interessante colocar nessa discussão, é o fato dessas vítimas serem
relegadas ao silêncio justamente por tentarem expor uma memória que se pretende
esquecer. Em sociedades cujas memórias são expostas e exploradas, esses grupos de
vítimas auxiliam a tornar essa uma questão pública, fazendo, assim, parte de debates
públicos e não de grupos isolados.
Dessa forma, quando Villa (2014) diminui a participação da resistência de
setores ligados à esquerda e também quando ameniza o papel da repressão durante a
ditadura civil-militar, o autor exerce o papel de atenuador da memória de um período
cujo tratamento dispensado à oposição foi a violência. A luta armada é narrada aqui
como aquela que exagera na vitimização. No caso de sociedades assim, Jelin (2014)
aponta que as memórias acabam sendo isoladas.

211
VILLA, Ditadura à brasileira, e-book.
212
JELIN, Elizabeth. Los Trabajos de la Memoria. Buenos Aires: Fondo de Cultura Economica,
1998.

Página | 127
O trabalho de Narloch (2011) no capítulo que trata a ditadura chama atenção por
legitimar as práticas de sequestro, morte e tortura como um mecanismo inevitável para a
superação de um problema maior, segundo o ponto de vista do autor, que era a ameaça
comunista em período de Guerra Fria e pós-Revolução Cubana. Outro elemento
importante é afirmação de que a ditadura foi necessária para a proteção do país da
ameaça vermelha e também para o equilíbrio econômico, já que garantiu que o sistema
capitalista fosse protegido. A forma como Narloch se refere aos guerrilheiros também é
muito marcante pela construção da imagem de figuras ao mesmo tempo atrapalhadas e
patéticas como a figura de homens sanguinários que pegavam em armas para matar e
que nos dias de hoje ainda se orgulham desses feitos.
Uma das características marcantes do livro de Villa (2014) é a afirmação que o
golpe de 1964 foi resultado de uma herança autoritária já existente no Brasil, sendo
assim, não foram outros elementos internos do contexto histórico, nem fatores externos
como a Guerra Fria ou o auxílio dos Estados Unidos — que o autor, inclusive, nega —
que levaram ao golpe de 1964. O autor também pontua de forma contundente que a
ditadura existiu somente durante os anos de 1968 a 1979, diminuindo o período de sua
existência, além de insistir no argumento que afirma que este período foi menos
violento do que o destacado pela oposição aos governos militares. Por fim, Villa (2014)
responsabiliza não só os aparatos repressivos pela tortura e morte de centenas de jovens,
pois segundo a sua argumentação os guerrilheiros mais velhos arrastaram, através do
exemplo, estudantes para a luta armada ao mesmo tempo em que a repressão
recrudescia.
Como postula Vidal-Naquet (1988), o revisionismo é um trabalho que resulta de
um grande esforço em narrar a história apagando grandes acontecimentos e, justamente
por isso, se torna uma narrativa ficcional, mas com a aparência da seriedade de uma
objetividade histórica. É importante ressaltar que o revisionismo omite a verdade e que
faz isso a serviço de uma ideologia, atendendo assim à necessidade de produzir um
discurso para algum grupo social.
Portanto, o trabalho dos articulistas do Imil são elaborados, desenvolvidos e
divulgados atendendo não só às demandas desse think tank, mas a algo maior e mais
amplo que é o neoliberalismo e todas as categorias sociais que defendem esse sistema
econômico, político e social.

Página | 128
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A DITADURA CIVIL-MILITAR iniciada em 1964 teve seu fim oficialmente marcado em


1985, quando um primeiro governo não militar tomou posse após uma eleição indireta
quando o ex-presidente Sarney assumiu a presidência em um mandato que durou cinco
anos, o meio-termo entre os governos militares que duravam seis anos e os governos
civis que duram quatro, ou seja, a própria junta militar que derrubou o governo eleito de
João Goulart foi responsável pela escolha do primeiro civil pós-ditadura. O traço dessa
transição é marcante para delinear a atual conjuntura política e econômica do Brasil.
O golpe que deu origem à ditadura fez parte de um processo de intensa atividade
de setores da sociedade civil preocupadas em ver suas demandas atendidas. Esses
setores eram necessariamente o empresariado nacional, as multinacionais, latifundiários,
em suma, a elite econômica que se aglutinou em torno de um grupo, o IPES. No bojo
das ideias defendidas pelo IPES estavam projetos de cunho liberal que constituíam em
redução do Estado, liberalização da economia e a importância da iniciativa privada no
fornecimento de serviços públicos.
Essas pretensões se chocavam com as ideias dos intelectuais do ISEB que se
preocupavam com o desenvolvimento de teorias nacional-desenvolvimentistas que
defendiam a autonomia nacional. Acreditavam na possibilidade de um Estado que
fortaleceria a economia nacional e, por sua vez, beneficiasse a população. Nesse
sentindo, enquanto o IPES defendia a liberalização da economia e maior abertura para a
intervenção do capital internacional no Brasil, o que geraria maior dependência do fluxo
de movimento do mercado externo, o ISEB pretendia exatamente o contrário. Defendia
um Estado autônomo das influências do capital estrangeiro e o fortalecimento da
população brasileira em todos os âmbitos, inclusive no estabelecimento de uma cultura
genuinamente nacional.
A elite econômica com o intuito de influenciar as políticas de governo levou à
formação de um grupo forte, o IPES, para defender seus interesses de classe. Foram
realizadas inúmeras campanhas com o objetivo de influenciar a população à aceitação
de seus planejamentos, associado a isso ainda teve o desenvolvimento da campanha
anti-Goulart que auxiliou no processo de desestabilização de tal governo. Assim, é

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importante notar que interesses de classe que afetaram diretamente a população das
mais variadas classes, foi planejado por membros que se aliaram aos governos militares
e também o compuseram, como é o caso do General Golbery do Couto e Silva.
Portanto, o golpe de 1964 teve o apoio dessa elite e também auxílio externo,
como é o caso do governo dos Estados Unidos, pois viam nisso a possibilidade da
concretização de seus planos econômicos e políticos, tinham em vista, assim, o projeto
liberal instaurado após a ditadura.
A ditadura civil-militar que perdurou por vinte e um anos teve seu fim marcado
por uma transição que não marcou uma ruptura com os alicerces que a sustentaram. A
escolha de Sarney como primeiro governo civil, aliado dos militares e pertencente à
Arena, em eleições indiretas evidencia que a mudança de governo não representava
transformações profundas na política e na economia.
A ditadura acabou, mas deixou seu legado no campo político e econômico.
Assim, a gestão política centrada nos militares teve fim, mas toda a construção das
políticas econômicas e sociais tiveram continuidade nas gestões de governos civis. O
desenvolvimento do neoliberalismo, portanto, teve seu germe nas raízes deixadas pela
ditadura civil-militar.
Assim sendo, políticas de cunho neoliberal foram implementadas com maior
facilidade já que além das políticas liberais implementadas pelos militares, havia
também um desengajamento político213 por parte da população no período pós-
ditatorial. O neoliberalismo também foi aceito com o auxílio de propagandas que
apontavam os supostos benefícios de suas reformas para a sociedade. As reduções dos
direitos trabalhistas eram projetadas como importantes para atrair o capital estrangeiro;
as privatizações como sinônimo de modernidade; a redução do Estado como maior
liberdade para os brasileiros e a liberalização do mercado como avanço na economia.
Portanto, através da falta de mobilização política, das propagandas favoráveis ao
neoliberalismo e das bases deixadas pela ditadura o neoliberalismo foi implementado
pelo governo Fernando Collor de Melo, aprofundado pelo governo Fernando Henrique
Cardoso, que ampliou essas reformas com as privatizações e redução do Estado, e
continuou com os governos PT.

213
Zygmund Bauman em Modernidade Liquída ao falar da fluidez da vida moderna pontua
também a questão do desengajamento político como consequência dos interesses reivindicados serem
imediatistas e não pensados a longo prazo.

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O Imil, um think tank que surge em 2005, aparece como representante da elite
econômica, em formato de grupo de pressão que, assim como o IPES, aglutina uma
série de indivíduos e empresas de variadas áreas. Em seus discursos também se
apresenta com o objetivo de levantar questões que proporcionem a melhora para o
Estado brasileiro que está deficiente em inúmeros aspectos por ineficiência de gestão
pública.
O Imil direciona as suas críticas a uma série de políticas econômicas e,
especialmente, sociais implantadas durante os anos dos governos de Lula e Dilma
Rousseff. Segundo o grupo, essas medidas são autoritárias já que são impostas aos
indivíduos que sustentem uma série de políticas públicas através do pagamento de
impostos.
Sendo representante dos interesses da elite econômica, o Imil possui em seus
materiais o discurso neoliberal que exige uma série de reformas no Estado, muitos
argumentos são semelhantes aos utilizados durante a entrada do neoliberalismo com o
governo Collor, como a necessidade de modernização e melhora dos serviços públicos
através das privatizações, a reforma na legislação trabalhista e a não interferência do
Estado na economia, por exemplo. Pontua ainda a importância da meritocracia e
mudanças no recolhimento de impostos.
Esses argumentos são endossados por especialistas, muitos deles economistas ou
cientistas políticos, que explicam que o único caminho para sair da crise que os
governos PT colocaram o Brasil são as ideias neoliberais apontadas pelo Imil. Usa-se,
assim, o argumento da inevitabilidade desses caminhos para a desvalorização de outras
possibilidades dos rumos políticos. Portanto, só existe um conjunto de medidas a serem
tomadas para o progresso social e econômico, outros projetos políticos são taxados
como autoritários ou decadentes.
Leandro Narloch, como membro do Imil, também é defensor das premissas
neoliberais. O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil é um material que
aparentemente não postula o neoliberalismo como ponto central do livro, no entanto, a
forma como revisa a história ridicularizando os oprimidos, acaba desqualificando os
discursos que reivindicam a ampliação dos direitos das minorias.
Tirando a legitimidade dos grupos que exigem maiores direitos civis e sociais,
aqueles que são historicamente marginalizados, Narloch atende à demanda do Imil e,

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consequentemente, do neoliberalismo na propagação da ideia conservadora que
respaldaria uma série de reformas que redundaria no desmantelamento do Estado.
O esvaziamento político é marcado também pela consolidação de uma sociedade
humorística. O humor passa a ser permanente e fluido o que leva à retirada da seriedade
do cotidiano, de eventos públicos e políticos. Passa-se a rir de tudo, inclusive de si
mesmo. Esse humor banaliza também fatos históricos que marcaram a história do Brasil
com a tônica da violência, como o livro de Leandro Narloch, o Guia Politicamente
Incorreto da História do Brasil, faz em vários momentos e, especialmente, ao tratar da
ditadura civil-militar. Ao ironizar e narrar a ditadura com tom sarcástico, Leandro
Narloch tira a gravidade do período, o recurso utilizado não é só literário passa a ser
uma questão política de legitimação do discurso opressor que, apesar de sequestrar,
torturar e matar, justificava essas práticas como recurso necessário para salvaguardar a
ordem e proteger o país. Nesse sentido, o revisionismo usa o humor como mecanismo
de articulação das ideias conservadoras.
Marco Antonio Villa em Ditadura à brasileira também irá reconstruir as
memórias do passado. Nesse caso o autor se reveste dos títulos acadêmicos para dar
legitimidade ao discurso de uma ditadura menos bruta e intensa.
Dessa forma, o Imil através da ampla gama de especialistas nas mais variadas
áreas, tenta respaldar seu discurso com a construção do consenso sendo legitimado por
indivíduos que atuam em diferentes ramos. Costurando assim, a fundamentação que
aponta o pensamento conservador como fundamental para o avanço social, econômico e
político.

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