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II SIMPÓSIO MEMÓRIAS DA BALAIADA 180 ANOS

ISBN: 978-85-8227-255-8 1
II SIMPÓSIO MEMÓRIAS DA BALAIADA 180 ANOS
ISBN:

ANAIS DO

Realização

Apoio
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II SIMPÓSIO MEMÓRIAS DA BALAIADA 180 ANOS
ISBN: 978-85-8227-255-8

II SIMPÓSIO MEMÓRIAS DA
Realização
BALAIADA 180 ANOS
Apoio

12 a 14 de dezembro de 2018

ANAIS DO II SIMPÓSIO MEMÓRIAS DA


BALAIADA 180 ANOS

ORGANIZADORES
ELIZABETH SOUSA ABRANTES
YURI GIVAGO ALHADEF SAMPAIO MATEUS

SÃO LUÍS - MA
2019
3
II SIMPÓSIO MEMÓRIAS DA BALAIADA 180 ANOS
ISBN: 978-85-8227-255-8

ORGANIZAÇÃO DO EVENTO
Núcleo de Pesquisas e Estudos em Gênero e Educação do Maranhão
(NUPEGEM)

COMITÊ ORGANIZADOR
Profa. Dra. Elizabeth Sousa Abrantes – UEMA

Profa. Dra. Sandra Regina Rodrigues dos Santos - UEMA

Profa. Dra. Elizangela Barbosa Cardoso – UFPI

Profa. Dra. Adriana Maria de Souza Zierer - UEMA

Prof. Dr. Josenildo de Jesus Pereira – UFMA

Profa. Dra. Júlia Constança Pereira Camelo – UEMA

Prof. doutorando Yuri Givago Alhadef Sampaio Mateus – PPGHIS/UFMA

SECRETARIA DO EVENTO
Yuri Givago Alhadef Sampaio Mateus
Mário Augusto Carvalho Bezerra

EDITORAÇÃO
Wanderson Rafael da Silva Costa
Yuri Givago Alhadef Sampaio Mateus

ORGANIZAÇÃO DESTE VOLUME


Elizabeth Sousa Abrantes
Yuri Givago Alhadef Sampaio Mateus

ARTE DO EVENTO
Iramir Alves Araujo

Os textos destes Anais do evento são de responsabilidade


dos (as) respectivos (as) autores (as) e não refletem necessariamente
a linha programática e ideológica dos organizadores.
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S612

II Simpósio Memórias da Balaiada 180 anos (2.:2018: São Luís, MA).


Anais [do] II Simpósio Memórias da Balaiada 180 anos / organizado por Elizabeth
Sousa Abrantes e Yuri Givago Alhadef Sampaio Mateus – São Luís: Editora UEMA,
2019.

109 p.

Internet.

ISBN: 978-85-8227-255-8

1. História. 2. Maranhão. 3. Balaiada. 4. Império. I. Abrantes, Elizabeth Sousa. II.


Mateus, Yuri Givago Alhadef Sampaio. III. Título

CDU 94(812.1).052
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ANAIS DO II SIMPÓSIO MEMÓRIAS DA BALAIADA 180 ANOS
ISBN: 978-85-8227-255-8

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO.................................................................................................................. 06

DA “ADESÃO” À INDEPENDÊNCIA AO CONFLITO DA BALAIADA: participação


Popular nas Lutas Sociais e Políticas no Maranhão Oitocentista
Elizabeth Sousa Abrantes 09
Yuri Givago Alhadef Sampaio Mateus......................................................................................

A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DO NEGRO COSME NAS NARRATIVAS


HISTÓRICAS
23
Humberto Mendes Nascimento................................................................................................

O PIAUÍ DA INDEPENDÊNCIA À INSURREIÇÃO: certezas e desventuras de uma


elite política entre o Império e a Confederação do Equador 1823 e 1824
37
Johny Santana de Araújo...........................................................................................................

O MARANHÃO NA CÂMARA DOS DEPUTADOS: organização política-


administrativa do Império do Brasil (1825-1826)
47
Mário Augusto Carvalho Bezerra..............................................................................................

“NEM HERÓIS NEM BANDIDOS”: a Balaiada como revolta popular


Ney Farias Cardoso....................................................................................................................
55
MEMÓRIAS DA CIDADE: Educação e preservação através do Mirante, Ruínas e
Memorial da Balaiada de Caxias-MA
63
Reinilda de Oliveira Santos.......................................................................................................

PATRIMÔNIO CULTURAL E IDENTIDADE: a Balaiada como estratégia de ensino de


74
História local e regional em São Bernardo-MA
Ronilson de Oliveira Sousa........................................................................................................

MEMÓRIAS DA BALAIADA: as contribuições da memória oral na historiografia sobre o


movimento balaio
Sandra Regina Rodrigues dos Santos
Natasha Nickolly Alhadef Sampaio Mateus .......................................................................... 90

A BALAIADA NA VISÃO DE D. BENÍCIO CONDURÚ PACHÊCO


Téssia Luana Castro Guimarães Alves......................................................................................
101
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ISBN: 978-85-8227-255-8

APRESENTAÇÃO

Caro(a) leitor(a), é com grande satisfação que apresentamos os Anais do II


Simpósio Memórias da Balaiada – 180 anos, com o objetivo de oferecer um espaço de
discussão para questões pertinentes relacionadas às pesquisas sobre Balaiada, com o
enfoque na participação popular e no ensino de História.
A Balaiada - ou Guerra dos Bem-te-vis - tem sido objeto de estudos históricos
desde o século XIX; mas, a produção acadêmica relativa a este tema, na historiografia
maranhense, sobretudo sob a forma de dissertações e teses, ainda está incipiente,
necessitando, inclusive, de uma maior ênfase na história ensinada por meio da produção
didática. Segundo a abordagem mais corrente na historiografia, esta revolta teve início
em 13 de dezembro de 1838 quando um grupo de vaqueiros, liderado por Raimundo
Gomes, invadiu a cadeia da Vila da Manga para libertar companheiros colocados a ferro
e lançando, em seguida, um manifesto com reivindicações políticas. A partir deste
episódio a revolta se alastrou envolvendo milhares de sertanejos e escravos, mas,
também, a participação de segmentos das camadas médias rurais e fazendeiros liberais
movidos por seus interesses específicos.
No século XX, a disputa pela memória da Balaiada resultou na produção de
interpretações favoráveis e condenatórias desta revolta; bem como, por um lado, a
tentativa das elites governantes em apagar a memória da Balaiada e, por outro, a
apropriação do seu simbolismo de resistência, especialmente, por movimentos sociais.
Não é demais sublinhar que nas últimas décadas a memória da Balaiada tem sido
silenciada pelos poderes públicos uma vez que não se verifica comemorações públicas
ou construção de memoriais a respeito desta. Antes, no entanto, a memória oficial
consagrou o militar Luís Alves de Lima e Silva como ―pacificador‖ do Maranhão
devido ao seu êxito na repressão da revolta. Vale destacar que o mesmo recebeu do
imperador o título nobiliárquico de Barão de Caxias e, na cidade de São Luís, a
homenagem sob a forma de uma estátua, na qual está montado em um imponente cavalo
erguendo a sua espada. A estátua está postada em frente ao quartel 24º Batalhão de
Infantaria do exército brasileiro, no bairro do João Paulo.
Em relação ao simbolismo de resistência é emblemática a denominação de
Balaiada Urbana para o movimento conhecido como a Greve de 51. Trata-se do
resultado do conflito entre governo e oposição na disputa pelo pleito eleitoral daquele
ano e, mais recentemente, no século XXI, a referência à Balaiada Moderna e os Novos
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Balaios, como o episódio da resistência à cassação do mandato do governador Jackson


Lago, eleito em 2006, onde os manifestantes pró-governo se mantiveram em frente ao
Palácio dos Leões no ―acampamento balaio‖. Os movimentos sociais recorrem, com
frequência, ao simbolismo de luta e resistência da revolta. E, do mesmo modo, os
movimentos e as entidades estudantis, tal como se verifica nas denominações de centros
acadêmicos dos Cursos de História da UEMA (Negro Cosme) e da UFMA (Lagoa
Amarela).
No campo do ensino básico, o tema tem sido abordado sem atualizações que
incorporem as novas pesquisas. Além da falta de livros didáticos e paradidáticos, ainda
tem havido uma diminuição da análise deste tema no currículo em razão de avaliações
nacionais que desconsideram a história local, como é o caso do Exame Nacional do
Ensino Médio (ENEM).
A despeito de dificuldades, nas últimas décadas, alguns eventos acadêmicos
tratando da Balaiada têm sido feitos. Entre os dias 20 a 21 de novembro de 1998, no
Centro de Estudos Superiores de Caxias (CESC/UEMA) foi realizado o I Seminário
sobre a Balaiada: resgatar para reconstruir, promovido pelos estudantes do Curso de
História, em comemoração aos 160 anos da Balaiada. Nos dias 12 e 13 de dezembro de
2003, foi realizado o I Encontro dos Professores de História da UEMA, no campus do
CESC/ UEMA, na cidade de Caxias, com o tema História Social e Memória: os 165
anos da Balaiada, com os objetivos de ―discutir e ampliar o conhecimento acumulado
sobre a Balaiada, produzido pela historiografia maranhense e brasileira, refletindo a sua
importância para a história regional e despertando novas possibilidades de pesquisa e
análise‖. Com esse propósito foi realizado o I Simpósio Balaiada 170 Anos, no período
de 15 e 16 de dezembro de 2008, no campus do Bacanga/UFMA, promovido pelo curso
de História da UFMA em parceria com os cursos de História da Universidade Federal
do Piauí e da Universidade Estadual do Maranhão, sublinhando que ―lembrar e divulgar
o movimento de balaios e bem-te-vis – escravos, lavradores, vaqueiros, artesãos e
fazendeiros que lutaram contra as injustiças sociais – é criar oportunidade de se
conhecer melhor nossa história, fortalecendo a autoestima e a identidade social
coletiva‖. Em 12 de dezembro de 2014, na Faculdade do Baixo Parnaíba, em
Chapadinha, ocorreu o I Seminário da Balaiada, promovido pelos organizadores do
Projeto Balaiada. Este evento visava a promoção de valores culturais e turísticos
relacionados à guerra da Balaiada na região do Baixo Parnaíba, Baixo Munim e
Cocais.
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O II Simpósio Memórias da Balaiada – 180 anos possui uma continuidade


histórica com os movimentos acadêmicos que o precederam, com a sua periodicidade
quinquenal, sob a perspectiva de que trata de um movimento social cuja importância
histórica é central na historicidade do Maranhão e do Brasil. O evento reuniu
pesquisadores de diversas instituições, especialistas do Brasil e do exterior em história
do Brasil Imperial, com destaque para a Balaiada, com abordagens da temática em
diversas perspectivas, como a historiografia, a memória, a literatura, a imprensa, a nova
história militar, gênero, ensino, patrimônio.
O evento foi uma iniciativa de pesquisadores/as maranhenses com a participação
de pesquisadores/as piauienses, em especial, e de outros estados da federação e do prof.
Dr. Matthias Assunção (Universidade de Essex), a fim de promover um amplo debate
acerca da memória histórica da Balaiada, especialmente, no momento em que esta
revolta popular ocorrida em territórios maranhense e piauiense completou 180 anos. O
público alvo foi constituído especialmente pelos estudantes universitários da graduação
e pós-graduação do Estado do Maranhão e de outras IES no Brasil, dos professores e
estudantes da educação básica do Estado do Maranhão. Além das conferências, mesas
redondas, simpósios temáticos e minicursos, o evento teve atividade de lançamento de
livros e apresentação da peça Diálogos dos mortos da Balaiada, da Companhia Cena
Aberta.
A Universidade Estadual do Maranhão teve, mais uma vez, a honra de sediar um
evento desta natureza, desta vez no campus São Luís, no prédio do Curso de História,
no centro histórico da cidade de São Luís. Os trabalhos completos que agora vem a
público por meio dos Anais correspondem a nove pesquisas do total de 26 trabalhos
apresentados nos três simpósios temáticos: ST 1- História e Historiografia: escritas,
espaços e tempos da Balaiada; ST 2- Balaiada: novas linguagens e possibilidades de
ensino; ST 3 – Lutas, Rebeliões e Sedições na Construção do Estado Imperial nas
Provinciais do Norte durante a Primeira Metade do Oitocentos.

Desejamos a todos(as) uma excelente leitura.


Elizabeth Abrantes
Yuri Alhadef
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DA “ADESÃO” À INDEPENDÊNCIA AO CONFLITO DA BALAIADA:


participação popular nas lutas sociais e políticas no Maranhão Oitocentista

ELIZABETH SOUSA ABRANTES1


YURI GIVAGO ALHADEF SAMPAIO MATEUS2

1. Introdução

Na historiografia brasileira, as interpretações tradicionais apresentaram a


independência do Brasil de forma amistosa, como se todas as regiões aderissem quase
de imediato ao grito do Ipiranga, excluindo as camadas populares desse processo. Na
perspectiva da escrita da história dos ―grandes homens‖, as camadas populares foram
relegadas ao esquecimento e alguns indivíduos, como D. Pedro I, alçados à figura de
heróis.
A independência política do Brasil, na forma como se deu a ruptura oficial com
a metrópole, resultou da aliança do Príncipe Regente com as elites, resultando em um
modelo político em que o poder ficou nas mãos dessa elite, negando a participação
política das camadas populares:

A independência do Brasil é fruto da aliança entre a elite e o príncipe


Regente. Quanto às camadas populares, lhes é negada uma maior
participação política, e dessa forma não podem influir no que é
decidido e muito menos obter favorecimento. O resultado é um
modelo político de exclusão, onde o controle fica nas mãos da elite

1
Doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense. Mestre em História do Brasil pela
Universidade Federal de Pernambuco. Licenciada em História pela Universidade Federal do Maranhão.
Professora Adjunto do Departamento de História e Geografia da Universidade Estadual do Maranhão e
colaboradora do Programa de Pós-Graduação em História (UEMA). E-mail: bethabrantes@yahoo.com.br
2
Doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História e Conexões Atlânticas: culturas e
poderes (PPGHIS-UFMA). Mestre em História, Ensino e Narrativa pelo Programa de Pós-Graduação em
História, Ensino e Narrativa (PPGHEN-UEMA), atual PPGHIST. Especialista em Supervisão, Gestão e
Planejamento Educacional, e Docência do Ensino Superior pelo IESF/MA. Licenciado em História pela
UEMA. Licenciado em Pedagogia e Bacharel em Teologia pela FATEH. E-mail:
yuri_alhadef@hotmail.com
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(grandes proprietários e grandes comerciantes) (ABRANTES, 1996, p.
10).

Ao analisarmos o processo de independência, culminando com a guerra da


Balaiada, temos o objetivo de revisarmos aquilo que a historiografia tradicional retratou
e darmos ênfase à participação popular nesse processo. Os conflitos que surgiram no
seio da elite maranhense como a ―A Guerra dos 3 Bês‖, envolvendo as famílias Burgos,
Bruce e Belfort, expressa o clima de tensão e disputas pelo monopólio dos principais
fatores de poder: a Câmara, o ‗povo‘ e as forças armadas da capital (ASSUNÇÃO,
2003, p. 203).
O clima em São Luís nesse período da independência era de intensos conflitos,
com trocas de acusações e hostilidades, sendo considerável a presença portuguesa na
capital:
[...] São Luís contava não apenas um grande número de portugueses
de condição modesta, como os caixeiros trabalhando na Praia Grande
ou os funcionários públicos, mas também uma numerosa população de
homens e mulheres ―de cor‖. Estes eram desdenhosamente chamados
de ―cabras‖ pelos portugueses, enquanto ―marinheiros‖ era a alcunha
injuriosa usada pelos patriotas para designar aos portugueses
(ASSUNÇÃO, 2003, p. 203).

Quando se trata das manifestações populares pós-independência, temos como


objetivo analisar um dos importantes movimentos chamado de Balaiada. Sobre esse
movimento, utilizaremos autores que olham essa revolta na perspectiva da historiografia
tradicional como Domingos Magalhães (1848) e Ribeiro do Amaral (1898, 1900, 1906),
e como representantes de uma historiografia mais revisionista utilizaremos Carlota
Carvalho (1924) e Astolfo Serra (1946) que dão um olhar mais humano aos revoltosos.
Já os historiadores de profissão como Maria Januária Vilela Santos (1983), Maria de
Lourdes Mônaco Janotti (1987) e Matthias Assunção (1988, 1998, 2003, 2005) trazem
novas perspectivas sobre a relação entre balaios e bem-te-vis, assim como a luta dos
escravos.
Diante dessas produções historiográficas regionais e nacionais, queremos
mostrar o processo de independência maranhense, questionando a visão historiográfica
tradicional de um processo amistoso e, sobretudo, destacar o Maranhão nesse processo
como uma província que resistiu à adesão imediata à independência, analisando as
motivações, o contexto, as disputas intra-oligárquicas que abriram espaço para a
participação popular.
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Discutiremos as categorias de bandidos, marginais, vadios, geralmente


encontradas nos documentos da época para se referir aos livres pobres, e como a
historiografia tradicional, preocupada em registrar a história dos ―grandes homens‖ se
posicionou em relação aos segmentos populares. Ao caracterizarmos esses excluídos da
história utilizaremos os conceitos trabalhados por Hobsbawm em sua obra Bandidos,
em que analisa o banditismo social3, a fim de perceber nas ações populares formas de
reação às injustiças sociais que sofriam, vistos como cidadãos de segunda classe e como
um perigo à ordem social.

[...] o ladrão nobre inicia sua carreira de marginalidade não pelo


crime, mas como vítima de injustiça social, ou sendo perseguido pelas
autoridades devido a algum ato que estas, mas não o costume popular,
consideram crime (HOBSBAWM, 2010, p 68).

O ladrão nobre ―não é inimigo do rei ou imperador, fonte de justiça, mas apenas
da nobreza, do clero e de outros opressores locais‖ (HOBSBAWM, 2010, p 69).
Estabelecendo um paralelo com os balaios, os revoltosos desse período não eram
inimigos do imperador, pois quando os balaios ocupam Caxias e fazem suas
proclamações escritas, afirmam ―fidelidade à religião católica, à Constituição, a D.
Pedro II‖ (ENGEL, 2008, p. 73).
A historiografia maranhense tradicional por muito tempo negligenciou um fato
marcante na história dessa região, como se o processo de Independência houvesse
ocorrido de forma pacífica, não dando ênfase ao processo de participação e luta das
camadas populares, limitando a análise do processo da independência à década de 1820.
A primeira autora que faz essa ligação entre a independência e as lutas que se seguem e
culminam com a Balaiada é Carlota Carvalho, em sua obra O Sertão, de 1924.
Alguns conceitos que serão usados por nós aqui como ―povo‖ ―refere-se
claramente à camada da população privada de direitos políticos, a massa dos não-
cidadãos‖ (ASSUNÇÃO, 2003, p. 203). Ou seja, cidadãos seriam aqueles que possuíam
direitos políticos, os chamados ―homens bons‖. E para uma melhor compreensão
faremos uma distinção entre balaios e bem-te-vis, conforme propõe Janotti:

[...] Os balaios, homens do sertão e marginalizados em geral, [...] Os


bem-te-vis – oriundos, em sua maior parte, da população das vilas e
povoados, incluíam oficiais e soldados desertores da Guarda Nacional,
políticos do Ceará e Piauí, membros do partido liberal, juízes de paz,

3
Segundo Hobsbawm, o termo tem origem no italiano bandito, que em síntese significa banido.
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etc. [...] Esta distinção entre balaios e bem-te-vis tem como principal
fundamento tanto os motivos que levaram os indivíduos a se engajar
na luta, quanto sua origem social, embora não pretenda estabelecer
limites rigorosos (JANOTTI, 1987, p. 56-57).

E esses bem-te-vis, também chamados de liberais, tinham conflitos com os


cabanos, pertencentes ao partido dos conservadores.

No Maranhão, em 1838, a incandescência dos ânimos havia levado a


Revolução ao momento da explosão inevitável. Aí os liberais eram
cognominados bem-te-vis do título de um jornal que pregava o
liberalismo reacionário e um nativismo intransigente. [...] A contenda
que vinha travada desde muitos anos entre bem-te-vis e cabanos,
como se apelidavam os partidos da província, passou para a luta
armada (CARVALHO, 2011, p. 147).

Pelo exposto, destacamos a participação popular nas lutas políticas ocorridas no


Maranhão, tendo como exemplos os movimentos de Independência e a Balaiada,
apresentando os segmentos envolvidos nesses processos a fim de compreender um
pouco mais a complexidade desse período.

2. A Independência no Maranhão

A sociedade brasileira imperial se caracterizou por ser escravista, excludente e


com ares de fidalguia por parte de sua elite, que tentava seguir um estilo de vida à moda
da nobreza europeia em terras tropicais. Esses indivíduos recém-saídos do Antigo
Regime4 herdaram alguns de seus padrões de vida, vivendo em torno de títulos e cargos
públicos e deixando o povo à margem da política. Ao longo do século XIX a monarquia
brasileira foi se caracterizando pela centralização política, em que havia um governo
central situado no Rio de Janeiro. Especialmente no pós-independência, em um
momento de construção da nova ordem política e menos controle do governo central,
disputas das elites pelo poder, medidas autoritárias se sucederam e vários movimentos
de contestação e reação à nova ordem, de caráter regional e local, tiveram a participação
popular, incluindo lideranças populares, como o que ocorreu no Maranhão, conhecido
como Balaiada.

4
―Foi um conceito para retratar a dinâmica das sociedades ocidentais, nos séculos XVI a XVIII, marcado
por um período de grandes mudanças com a mercantilização das relações econômicas, com a formação
dos Estados Modernos, com a secularização do pensamento e o avanço da alfabetização. No Brasil foi
ignorado pelos clássicos da historiografia, mas vem sendo usado pelos novos pesquisadores saídos dos
cursos de pós-graduação. A sociedade aparecia hierarquizada e nem sempre a riqueza exercia o papel
determinante e na qual era a busca da distinção que comandava as aspirações de ascensão social. E os que
enriqueciam gastavam muitos em títulos para viverem a moda da nobreza‖ (NEVES, VAINFAS, 2000, p.
43-46).
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O período regencial foi profundamente marcado pelo agravamento de
manifestações e revoltas em todo o Império, caracterizadas por ampla
diversidade social e política. Incluíram desde quartelas, em geral
lusófonas, até confrontos entre facções locais ou regionais da classe
senhorial, as quais se somaram rebeliões envolvendo pobres, libertos,
escravos e quilombolas (ENGEL, 2008, p. 623).

A participação popular nas lutas políticas no Maranhão imperial (1823-1841) no


período pós-independência foi omitida pela historiografia tradicional e consolidou a
imagem de que as camadas populares não passavam de rebeldes, desordeiros, vadios,
bandidos, dentre outros adjetivos de conotação pejorativa. Esses grupos de indivíduos
ficaram à margem da história, esquecidos pela historiografia. No entanto, estudos
recentes apontam uma nova leitura sobre a participação popular nas lutas políticas do
Maranhão pós-independente, a exemplo dos estudos do historiador Matthias de
Assunção que abordam as lutas políticas no período pós-independência e ressalta um
movimento popular consagrado pela historiografia maranhense conhecido por Balaiada
ou Guerra dos Bem-te-vis, nome esse dado devido o envolvimento de membros do
partido liberal, o qual tinha como símbolo o pássaro bem-te-vi desde a publicação do
jornal O Bemtevi, de Estevão Rafael de Carvalho 5.
Ao observarmos o Maranhão a partir de 1823, atentamos ao conflito ocorrido
para a adesão ao processo de independência do Brasil em relação a Portugal, sua então
metrópole:
A independência do Brasil foi feita aos poucos. Bem depois do
famoso Grito do Ipiranga, um bom pedaço do país mantinha-se fiel ao
Império português. O Maranhão foi uma das últimas províncias a
aderir ao ―chamado‖ de D. Pedro I. E não sem resistência (GALVES,
2008, p. 01).

A ―Adesão‖ do Maranhão ao processo de Independência do Brasil é marcada por


peculiaridades ao se comparar com as demais regiões da colônia portuguesa. O grito de
independência do sete de setembro não fez com que todas as províncias aderissem de
imediato a esse processo, e o Maranhão é um exemplo dessas províncias. Em se
tratando dessa Independência maranhense alguns aspectos chamam a atenção sobre
como esse episódio se desenrolou para que essa capitania acatasse os mandos do sul do
Brasil, sobretudo o Rio de Janeiro, então sede do governo. O autor Matthias de
Assunção elenca certos fatores que definem essa particularidade do Maranhão:

5
Cf. Jornal O Bemtevi, São Luís, Typografia Constitucional, nº 01- 29, jul/out, 1838.
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Por que o processo no Meio-Norte foi diferente? Primeiro é necessário
apontar para o fator geopolítico: São Luís, quanto a transporte, ficava
mais próxima a Lisboa do que do Rio de Janeiro. Segundo, a formação
social específica das capitanias do Meio-Norte. O Maranhão era uma
capitania antiga fundada no início do século XVII, baseado no
trabalho dos indígenas. Apenas no último quarto do século XVIII a
grande lavoura de algodão e arroz se desenvolveu baseada no trabalho
de escravos africanos [...] (ASSUNÇÃO, 2005, p. 346).

Essas são algumas características que nos ajudam a entender por que a
Independência maranhense se deu de maneira distinta das outras províncias. Havia
aqueles que eram favoráveis e os que se opunham à independência, e com essas
divergências de opiniões só aumentavam os conflitos. Segundo Matthias Assunção
(2003), torna-se difícil saber quando a Independência de fato termina devido à grande
instabilidade que o Maranhão vai passar. Essa situação mobilizou muitos soldados,
sendo recrutas ou voluntários. No Maranhão, a historiografia destaca a presença das
tropas vindas do Piauí e Ceará que se dispuseram a lutar pela causa brasileira,
adentrando pelo interior da província até chegar ao litoral.
Vale ressaltar que a luta pela Adesão maranhense vai acontecer de forma não
amigável, e muitas serão as divergências devido a muitos interesses estarem em jogo.
As elites brigavam entre si pelo poder local e regional gerando grandes conflitos que só
aumentava mais a guerra civil, fazendo com que esse período fosse marcado por
violência.
Com esses muitos conflitos, abriram-se espaço para uma intensa mobilização
popular a favor da Independência. Os grupos rebeldes eram compostos por homens
livres e escravos, brancos, caboclos, pardos e negros. Isso levou a elite maranhense a ter
medo de acontecer o mesmo que no Haiti6, com receio que houvesse uma grande revolta
de escravos.
[...] o medo do ―Haiti‖ era mais do que isso. Virou metáfora para
descrever uma situação de anarquia de conflitos entre os diversos
segmentos que compunham a sociedade maranhense e que
ameaçavam – na visão da elite – destruir a ordem existente
(ASSUNÇÃO, 2005, p. 348).

3. Disputa entre as elites pelo poder local e regional

Com o fim da velha ordem colonial, entre 1820-23, houve várias divergências
pelo controle do poder local e regional. As elites de São Luís e do vale do baixo

6
Revolta de escravos que ocorreu na ilha do Haiti, colônia francesa no Caribe (continente americano), em
1791, ―embalados pelo ideal de liberdade e igualdade pregado pela Revolução Francesa‖ (LYRA, 2012,
p. 24).
15
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Itapecuru conseguiram exclusividade do poder regional, descartando os demais


segmentos da elite provincial, a exemplo dos grupos de Caxias. A primeira junta de
governo provisório era composta praticamente pelas famílias Bruce, Burgos e Belfort.
Os líderes do ―exército patriota‖ vindos do Ceará e Piauí foram impedidos de
usufruir da sua vitória, não tendo participação na Junta, e mesmo reivindicando só
receberam seus pagamentos em soldos. Uma segunda junta foi criada e os
procedimentos e sua composição foram quase iguais aos da primeira. A exclusão da
periferia do poder regional era favorecida pelas causas naturais devidos as distâncias e
obstáculos que os fazendeiros enfrentavam para manter a comunicação.
As elites do sertão eram insatisfeitas em relação à política regional, mas o
mesmo não acontecia nas áreas do grande Golfão e em São Luís. Nesta cidade, as
famílias disputavam o poder, levando a um conflito conhecido com a Guerra dos 3 Bês:

[...] O ano seguinte [1824] testemunhou ainda maior confrontação


entre as famílias da elite pelo poder regional, pertinentemente
conhecida pela historiografia como ―A guerra dos 3 Bês‖ – as famílias
Burgos, Bruce e Belfort. Todas elas tentavam monopolizar, em favor
próprio, os principais fatores de poder: a câmara, o ―povo‖ e as forças
armadas da capital (ASSUNÇÃO, 2003, p. 203).

Mas, isso foi só o começo das lutas pela administração, pois muitos queriam ser
recompensados pelos ―seus‖ feitos a Pátria.

As disputas em torno da administração pública estavam apenas


começando. Alguns ―heróis da independência‖ apressaram-se a enviar
relatos de seu desempenho no conflito, pedindo cargos que
recompensassem os ―sacrifícios feitos em nome da pátria‖. José Felix
Pereira de Burgos (1780-1854) foi um deles. Tenente-coronel de 2ª
linha que ―aderiu à causa‖ em junho de 1823, tornou-se governador de
Armas e encaminhou ofício a José Bonifácio relatando as ―sucessivas
fadigas‖ dele e de sua família para realizar o ―projeto patriótico da
independência‖ (GALVES, 2008, p. 03).

A situação política se estabilizou momentaneamente, mas até 1825 ainda não


haviam resolvido a questão da distribuição do poder entre a elite. Os portugueses que
continuaram no Maranhão conseguiram se naturalizar como brasileiros e acabaram
tendo os direitos iguais aos brasileiros natos, e assim boa parte desses portugueses
conseguiram recuperar seus postos e bens confiscados durante a independência. Isso
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causou ressentimentos no ―povo‖ que em algumas ocasiões, como na Setembrada 8 ,


7

ocorrida em 1831, levantaram-se para expulsar os portugueses:

[...] o povo de São Luís levantou-se para expulsar ―os portugueses‖


dos seus postos e da província. ―Português‖ designava o branco
conservador, chamado também de cabano no Maranhão, que ainda
ostentava toda a arrogância dos antigos colonizadores (ASSUNÇÃO,
2003, p. 204).

As disputas pelo poder regional levaram as elites de São Luís e do baixo


Itapecuru a excluírem as elites locais de áreas mais afastados do centro político da
capital São Luís. A intensificação desses conflitos dentro das próprias elites resultou em
uma polarização ideológica crescente, o que vai impactar profundamente a maneira
como as classes subalternas da província vão ser integradas a política moderna
(ASSUNÇÃO, 2003).
Os fazendeiros faziam parte dos dois partidos, tanto do liberal quanto do
conservador. Os fazendeiros do baixo Itapecuru apoiavam o partido conservador. No sul
da província e Alcântara, o partido liberal era mais forte devido à oposição feita ao
centralismo na capital de São Luís.
O governo de Miguel dos Santos Freire e Bruce9 apresenta uma política radical
antilusitana. Nessa administração, decretou-se a expulsão dos portugueses que eram
solteiros, sem que o governo procurasse amenizar os excessos cometidos pela
população ―de cor‖ contra os ricos portugueses, como os ―lustros‖ que durante sua
presidência houve em grande quantidade. Isso despertava medo na elite maranhense que
tinha algum vínculo com esses portugueses, quer fossem comercial ou familiar.
Segundo Assunção (2003), Bruce rompeu com o consenso intra-oligárquico de não
envolver as classes subalternas na política, e quando o mesmo tentou montar um
exército popular e evitar sua deportação, foi acusado de manter ligações com os
participantes da Confederação do Equador. A deposição dele foi feita por Lorde
Cochrane causando alívio nas classes proprietárias. O seu governo foi visto de maneira
negativa pelas elites, devido sua falta de controle das camadas populares e até mesmo
seu uso para impor medo aos adversários.

7
O povo aqui entendido como aqueles que não preenchiam os requisitos de cidadão e não eram assistidos
pelo Estado.
8
Foi um movimento antilusitano ocorrido em 1831 na cidade de São Luís, liderado por jovens liberais
exaltados, estendendo-se também para o interior onde contou com a liderança popular de João
Damasceno até o ano de 1832.
9
Bruce foi o primeiro presidente da província do Maranhão após sua adesão ao Império do Brasil.
17
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[...] Depois deste episódio, tanto a forma republicana de governo


quanto o liberalismo democrático radical passaram a ser
desacreditadas entre as elites. A presidência de Bruce tornou-se o
exemplo o dos ―horrores da anarquia‖ e assegurou o realinhamento de
liberais exaltados. Daqui em diante os liberais exaltados aceitavam a
monarquia (ASSUNÇÃO, 2003, p. 206).

Nesse período do pós-independência, vários segmentos da sociedade foram


envolvidos, inclusive as classes populares que tinham a utopia que poderiam tirar
vantagens com esse processo de construção de uma nova ordem. Acredita-se que as
exclusões dos escravos nesse período também não eram absolutas.
Após apresentar brevemente as lutas que aconteceram no processo de ―Adesão‖
à independência do Brasil, destacamos uma das revoltas ou insurreição que envolveu
vários segmentos da sociedade maranhense, destacando as diferentes interpretações dos
autores que se lançaram para estudar essa revolta tão importante, conhecida por
Balaiada.

4. Algumas interpretações sobre a Balaiada

Muitas interpretações foram feitas sobre esse movimento. ―As diferentes


interpretações da Balaiada surgem na época mesma do movimento e se articulam a luta
entre os dois partidos políticos do Império, o conservador e o liberal‖ (ASSUNÇÃO,
1998, p. 71). Entre esses grupos políticos, ocorreram constantes lutas pelo poder, o que
resultou em uma instabilidade política, com crises sociais e econômicas.
A Balaiada aconteceu na parte oriental da província do Maranhão, no Piauí e
alcançou também o Ceará, entre os anos de 1838 a 1841, sendo uma das principais
rebeliões ocorrida no período regencial, chamando a atenção pela diversidade das suas
bases sociais e o caráter multiclassista:

A diversidade das bases dos revoltosos sugere a existência de três


movimentos no interior da balaiada. O caráter multiclassista
expressou-se na própria amplitude geográfica da rebelião que
abrangeu, no Sul do Maranhão e Piauí, os fazendeiros de gado liberais
ou bem-te-vis – nome de um jornal liberal alusivo ao canto dos
passarinhos –, e camada populares e escravos no vale do rio Itapecuru
(Maranhão oriental) (ENGEL, 2008, p. 71).

Engel (2008, p. 71, grifos da autora) também destaca que o ―conflito no seio das
elites regionais deflagrou o movimento, opondo os bem-te-vis aos cabanos –
denominação dada aos conservadores na região‖. Esse conflito se agravou com as leis
18
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dos prefeitos (1838), que limitou a atuação dos juízes de paz e acirrou ainda mais os
ânimos entre Bem-te-vis e Cabanos. Os três principais líderes da revolta e suas
motivações para a participação no movimento, segundo a historiografia, são apontados
pela autora:
O episódio que desencadeou as lutas armadas deu-se em 13 de
dezembro de 1838, na vila da Manga no Maranhão. Raimundo
Gomes, vaqueiro que administrava a fazenda do padre Inácio Mendes
– alinhado aos bem-te-vis -, [...] quando alguns de seus homens,
inclusive seu irmão, foram recrutados por ordem do subprefeito José
Egito – cabano e adversário do seu patrão. [...] pouco depois, emergiu
outro líder do movimento popular, [...] fabricante de cestos Manuel
dos Anjos Ferreira; daí a sua alcunha de balaio. Aderiu a causa
rebelde para vingar-se do estupro das suas filhas por um oficial das
forças da repressão, afirma a maior parte da historiografia, ou para
reagir ao recrutamento de seus filhos. [...] em novembro de 1839,
somou-se uma insurreição de escravos, atingindo várias fazendas da
região de Itapecuru-Mirim no Maranhão. [...] liderados pelo liberto
Cosme Bento das Chagas – conhecido como Preto Cosme -, integrava
as lutas contra a escravidão que marcaram profundamente a História
do Maranhão (ENGEL, 2008, p. 72).

Durante o período desse conflito, os bem-te-vis e cabanos se atacavam na


tribuna jornalística com acusações recíprocas sobre a responsabilidade pela revolta e seu
crescimento, a exemplo do argumento dos bem-te-vis.

Durante todo o período inicial da Balaiada, os bem-te-vis não


cansaram de responsabilizar os cabanos pelo crescimento da revolta,
pela ineficiência da administração, pela corrupção da Guarda Nacional
e, aproveitando-se da insegurança geral, vaticinar um grande
derramamento de sangue na província (JANOTTI, 1987, p. 53).

O primeiro a elaborar uma interpretação da Balaiada foi Domingos Magalhães,


por ter sido secretário do governo e contemporâneo da Balaiada deu uma visão que pôde
ser considerada como ―um exemplo de como a elite da época viu a Balaiada e os seus
participantes‖ (ABRANTES, 1996, p. 53), ou seja, como bandidos, rebeldes e
baderneiros.
O fato de ter presenciado a luta e ocupado um cargo, onde tem
oportunidade de acompanhar as ações do governo e as reivindicações
dos rebeldes, confere a sua interpretação um caráter de ―verdade‖ que
a historiografia tradicional ao procurar sempre contar a ―verdadeira
história‖, considerou inquestionável e reproduziu exaustivamente
(ABRANTES, 1996, p. 50).

Já o autor Ribeiro do Amaral, escrevendo no final do século XIX, tentou negar o


apoio dado aos rebeldes pelo partido dos bem-te-vis:
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[...] o partido liberal se colocou contra os rebeldes e a favor de todos
aqueles que empunhassem armas para sufocar o movimento, e que o
fato dos rebeldes se intitularem bem-te-vis não significa que fossem
apoiados pelo partido Bem-te-vi (ABRANTES, 1996, p.55).

No entanto, o olhar de Ribeiro do Amaral sobre os rebeldes é semelhante ao de


Domingos Magalhães: ―Sua visão dos rebeldes em nada difere da de Domingos de
Magalhães. Chama-os de bandidos, bando de sediciosos, salteadores, vindos da mais
baixa ralé da sociedade, pessoas brutas e ignorantes‖ (ABRANTES, 1996, p. 57).
Escrevendo nas primeiras décadas do século XX, Carlota Carvalho, quando se
referiu a Raimundo Gomes, defendeu suas ações, pois segundo ela ―Raimundo Gomes
cumpriu um dever de cidadão e usou um direito concedido pela natureza. Reagiu contra
o despotismo‖ (CARVALHO, 2011, p. 161).
Abrantes (1996) explica que um dos motivos para essa visão de Carlota
Carvalho mais favorável aos rebeldes era devido sua origem sertaneja e experiência
familiar que preservou outra memória do conflito e seus agentes:

A sua família era de origem baiana, vivendo no sul do Maranhão,


região conhecida genericamente como ―Pastos Bons‖, o contato direto
como o meio e com os descendentes de participantes da luta, deu a
escritora uma visão mais humana do conflito e dos seus combatentes
(ABRANTES, 1996, p. 51).

Autores clássicos da Balaiada, a exemplo de Astolfo Serra, tentaram explicar as


ações violentas dos rebeldes e rebater a acusação de que eram meros bandidos ávidos
somente de pilhagem. Para Serra (2008, p. 19), os milhares de ―caboclos‖ e ―negros
quilombolas‖ que pegaram em armas no Maranhão no fim do Período regencial, não
devem ser considerados como meros bandidos, porque os ―seus crimes, os desatinos
cometidos, as violências e atrocidades foram consequências e não causa dessa guerra‖.
Se atentarmos para o caso de Manuel dos Anjos Ferreira, conhecido como
Balaio, que teria aderido à causa rebelde ou para vingar-se do estupro das suas filhas por
um oficial das forças da repressão ou para reagir ao recrutamento de seus filhos,
veremos que suas ações refletem uma reação à injustiça social, como afirma Hobsbawm
em seu estudo sobre banditismo social:

[...] Na grande maioria dos casos registrados, os bandidos sociais


realmente começam sua carreira com alguma disputa de caráter não
criminoso, com uma questão de honra ou como vítimas daquilo que
eles e seus vizinhos têm na conta de injustiça (HOBSBAWM, 2010, p.
69).
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É preciso compreender que o partido conservador na época estava no poder tanto


regional como nacional, ou seja, muitos não aceitariam a rebelião com um caráter
político ou que aqueles rebeldes possuíssem alguma espécie de reivindicação. Para uma
historiografia tradicional, os balaios eram violentos e sem capacidade de elaborar algum
ideal político, ―[...] a elite podia explicar a revolta sem, contudo, admitir as razões
estruturais que levaram a ela‖ (ASSUNÇÃO, 1998, p. 79).
É sobre essa perspectiva que Matthias Assunção contrapõe essas afirmativas que
relegavam os rebeldes à categoria de bandidos, trazendo os rebeldes para uma atuação
como agentes políticos também capazes de se inserirem naquele clima de instabilidade
política e tensão social. ―A historiografia conservadora é a que mais insiste na
caracterização dos rebeldes como cruéis ‗facínoras‘ ávidos de sangue‖ (ASSUNÇÃO,
1998, p. 80). Pois, na memória oral eles simplesmente são vistos como atores sociais
que saíram do seu quotidiano para unirem-se uns com os outros, para apoiarem um
movimento, no qual se sentiam vítimas do descaso. Assim, as causas dessa revolta vão
muito mais além de um único motivo.

Considerações Finais

A história por muito tempo foi produzida na intenção de ressaltar os grandes


feitos de determinados homens que possuíam posições privilegiadas na sociedade, e
nisso omitindo o outro lado da história, aquele composto por pessoas do povo, que não
preenchiam requisitos de ―cidadão‖ 10 para os padrões da época. Assim, as produções
historiográficas, principalmente as escritas até o século XIX, não contemplam a história
vista de baixo, daquelas pessoas simples que com atuações coletivas desempenharam
papéis importantes nos processos históricos (ALANIZ, 2013).
As produções historiográficas acadêmicas desde a década de 1970 vêm trazendo
novas interpretações sobre a Balaiada que apontam a participação das camadas
populares, como os livres pobres e os escravos, bem como seus ideários políticos e
atitudes rebeldes devido o descaso do sistema vigente na época, com seu modelo
excludente que não lhes dava condições de suprirem suas necessidades ou tolhiam sua
liberdade.

10
―É interessante, neste contexto, como o termo ―cidadão‖ começou a ser usado como sinônimo de
―homem bom‖, enquanto ―povo‖ ou ―povos‖ refere-se claramente aos privados de direitos políticos‖
(GOMES; PRIORE, 2003, p. 203).
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Muitos dos que lutaram em favor da Independência, após sua concretização


foram excluídos, a exemplo dos escravos e livres pobres, bem como fazendeiros e
autoridades das áreas sertanejas. No pós-independência, várias manifestações populares
aconteceram na província do Maranhão, sendo a maior delas a Balaiada, uma revolta
rural, sertaneja, que contou desde o início com líderes oriundos das camadas populares.

REFERÊNCIAS

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1996.

ALANIZ, Anna Gicelle Garcia. Cantinho da História 3: Independência e República.


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<http://www.youtube.com/watch>. Acessado em: 15 abr. 2014.

AMARAL, José Ribeiro de. Apontamos para a História da Revolução da Balaiada


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Ipiranga, o Maranhão se mantinha fiel a Portugal e resistia, armado, à ―autonomia― que
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A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DO NEGRO COSME


NAS NARRATIVAS HISTÓRICAS

HUMBERTO MENDES NASCIMENTO1

1. Introdução

As narrativas elaboradas pelos documentos oficiais influenciaram as imagens


depreciativas das ações dos escravos, bem como de seu líder no movimento popular da
Balaiada, o Negro Cosme. É relevante ao analisar como foi construído tal enredo, para
pontuar as ausências e o resgate da imagem desse importante líder popular.
A primeira abordagem se preocupa com a construção do ser negro no Brasil,
notadamente o africano capturado pela indústria da escravidão e tratado como um
produto estratégico na lida da lavoura.
A segunda abordagem tratará de fazer uma relação entre o cenário da Balaiada e
a imagem de resistência do ser negro no Maranhão Oitocentista, seus reflexos ou ajustes
na articulação política das elites locais.
A terceira abordagem tratara da construção de um inventário das principais
narrativas acerca do Negro Cosme Bento das Chagas, visitando as principais obras da
historiografia do século XIX e XX, no intuito de encontrar em que medida esta memória
foi negligenciada ou resgatada e o que ela representa para História do Maranhão.
Metodologicamente, utilizar-se-á a análise bibliográfica, pois, a discussão passa
por uma releitura das principais obras da Historiografia do Maranhão, notadamente do
século XIX e XX.

1
Formado em História pela Universidade Federal do Maranhão, Bacharel em Direito pela Unidade de
Ensino Superior Dom Bosco, Advogado, Especialista em Ensino e Aprendizagem de História pelo
Instituto de Ensino Superior Franciscano, Especialista em Gestão Educacional pela Faculdade Interativa
COC e em Direito Penal pela Faculdade Damásio de Jesus. E-mail: humberton32@yahoo.com.br
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2. O Imaginário do Ser Negro no Século XIX no BRASIL

A invenção do ser escravo nas colônias americanas está intimamente relacionada


à ideia de comercialização de um produto, um negócio rentável, que vincula esta
modalidade de mão-de-obra à viabilidade econômica da empresa colonial. No caso
específico do Brasil, tem ressonância entre o ―tráfico de viventes‖ e lavoura
monocultora.
Enquanto mão-de-obra perde qualquer condição jurídica de ser dotado de
direitos e pode dessa forma se submeter na integridade as condições impostas pelo seu
senhor, na maior parte de açoite entre a casa grande e a senzala.
As justificativas para esse tratamento repousavam na categorização racial
imposta pela indústria do tráfico negreiro, onde a ―África era vista pela Europa como
uma porta para o inferno‖ (SANTOS, 2005, p. 53).
A imagem construída por esta visão dualista que dividia o mundo entre o céu e o
inferno, depositou todos os infortúnios no continente africano.

[...] A África seria uma terra de pecado e imoralidade, gerando


homens corrompidos; povos de clima tórridos com sangue quente e
paixões anormais que só sabem fornicar e beber. A cultura diferente
desse povo era encarrada como signo da barbárie. A vida sexual,
política, social dos povos africanos foi sendo devassada e diminuída
diante da vida dos europeus. A invisibilidade das diferenças entre os
vários povos da África fazia com que todos fossem vistos de uma
única e mesma forma: todos são negros. [...] (SANTOS, 2005, p. 55).

A origem dessas diferenças, entre brancos e pretos, reduzem a discussão a


características biológicas e tem natureza, essencialmente, raciais. A fragilidade da
argumentação se traduz na tentativa de criar barreiras de mobilidade e de qualquer
possibilidade de articulação social explícita, que possa permitir a mudança do status
social do negro africano.

[...] O comprador o deseja modelável, maleável em todos os domínios,


econômicos e sociais, a fim de poder utilizá-lo na labuta que irá
vinculá-lo unilateralmente ao seu senhor. Este laço unívoco interdita
ao escravo qualquer personalidade jurídica e pública. [...]. Disso
resulta que a relação entre o escravo e a sociedade, tomada em seu
conjunto, se define sempre pela referência, implícita ou explícita, a
seu dono e senhor. [...] o escravo é ―inferior‖ ao seu dono, é uma
―coisa‖ privada de personalidade jurídica e não pode dispor de si
mesmo. [...] (MATTOSO, 2003, p. 101).
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A relação social, nestes termos, que se estabelece entre o proprietário e a sua


propriedade é de submissão total, caso contrário será necessário o uso da força, da
violência, do açoite, tão bem concentrada na imagem do feitor, uma espécie de vigilante
da ordem de proceder na grande propriedade do senhor.

[...] Finalmente, a nova personalidade do escravo é criada por essa


inserção, numa sociedade dominada por um modelo branco, de
homens pretos ainda sobre inspiração e padrões africanos. São tensões
continuadas dessa integração difícil que obrigam a própria vida do
escravo a adaptar-se às relações tipo escravista e o levam a todos os
esforços, todas as humildades, todas as obediências e fidelidades para
com os senhores infalíveis. Humildade, obediência, fidelidade: sobre
este tripé vai se encenada a vida dos homens, mercadorias muito
particulares pois, apesar de tudo, os compradores-proprietários
terminam sempre por aperceberem de que os escravos também são
homens e uma certa espécie de intimidade se pode estabelecer com
eles, se são fiéis, obedientes e humildes. [...] (MATTOSO, 2003, p.
102).

A construção desse discurso de docilidade do escravo para manter formas de


inserção camufladas, não é aceita pela historiadora Emília Viotti da Costa, no sentido de
colocar que este discurso é estabelecido para camuflar a violência do açoite.

[...] As afirmações sobre a suavidade do sistema escravista no Brasil


ou sobre a atitude paternalista dos fazendeiros, os retratos do escravo
fiel e do senhor benevolente, que acabaram fixando-se na literatura e
na história, não passam de mitos forjados pela sociedade escravista
para defesa de um sistema que julgava imprescindível. [...] A
escravidão como instituição possibilitava, exigia até, o domínio,
exploração do homem pelo homem, a violência e o arbítrio. O direito
do senhor fundamentado na violência estava fatalmente condenado à
violência para se poder manter, [...] (COSTA, 1999, p. 289).

É imperativo observar que o ser negro não será aceito sobre nenhum aspecto na
sociedade colonial e nem na sociedade imperial. Nelas o estigma da cor foi
institucionalizado para separar dois mundos bem definidos, o mundo dos privilégios e
do poder do mundo das obrigações e da obediência, onde a única linguagem era da
violência.

[...] A discriminação racial tinha como função manter intransponíveis


as distâncias sociais que separam um mundo de privilégios e direitos
de um mundo de obrigações e deveres. [...] O castigo físico era
universalmente aceito e considerado a única medida coercitiva eficaz.
A sociedade desaprovava tanto o senhor que se excedia nos castigos
quanto o que era excessivamente benevolente. [...] (COSTA, 1999, p.
291).
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No Maranhão, os vínculos entre o trabalho e a lavoura, as relações sociais entre


o escravo e o senhor estão submersas nessa linguagem de dependência, controle social,
onde os africanos sempre estão à margem, sendo relacionados a eles, toda sorte de
mazelas e malfazeres sociais.

3. A Balaiada e a Resistência Escrava no Maranhão Oitocentista

A Balaiada, enquanto revolta popular, está situada no período regencial, onde, na


ausência do equilíbrio, que representava a Coroa, o poder é transferido, mesmo que
temporariamente, às elites agrárias de todo Brasil. No entanto, a incapacidade de
diálogo entre as elites, a ausência de nacionalismo, dentre outros fatores, instituiu um
vácuo de legitimidade do Estado. As revoltas que questionavam as mazelas econômicas
e sociais regionais foram refratárias desse vazio de poder, constituindo, no caso
específico do Maranhão, os levantes da Vila da Manga, liderados pelo vaqueiro
Raimundo Gomes, dos escravos liderados pelo negro Dom Cosme Bentos das Chagas e
dos balaios liderado por Manuel Francisco dos Anjos, representando os pobres do
interior.
Segundo os relatos dos historiadores Mário Meireles (2001) e Carlos de Lima
(2008), os homens livres e pobres que ajudaram as tropas da Coroa a obrigar o
Maranhão a aderir à independência em 1823, no chamado ―exército auxiliador‖, por não
se tratar de soldados profissionais e sim de pessoas heterogêneas, recrutados pelo
interior ao acaso, de pouca educação, avessas às normas sociais, acostumadas à vida
―desregrada da campanha‖, ao término da missão resolveram permanecer nessa terra e
engrossar os movimentos que questionavam as elites locais, principalmente no interior,
onde as questões de segurança eram mais afrouxadas.
Embora o movimento da Balaiada no Maranhão não tenha um projeto
estruturado e nem um líder que pudesse unificar as correntes, o Negro Cosme se
apresenta como o mais destacado líder desse movimento popular, em condições de
ameaçar a elite local.
Neste sentido, torna-se imperativo atentar para o modo como a sociedade
maranhense oitocentista observa os escravos no momento em que a escravidão perde
força no Brasil e como ela encara as formas de resistência promovida ao longo do
século XIX.
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O historiador Josenildo de Jesus Pereira, em artigo sobre as formas de


resistências, aponta algumas formas intermediárias em que se construíram as barreiras
socioeconômicas entre os senhores e os escravos.

[...] os escravos, também do Maranhão, longe de terem sido submissos


ou simplesmente rebeldes, criaram formas próprias de integração no
mundo da escravidão, procurando espaços de autonomia e liberdade
por meio da embriaguez como forma de boicote ao trabalho; de
pequenos ―furtos‖; do suicídio; da prestação de bons serviços aos seus
senhores; da fuga; da rebelião ou do quilombo porque não havia
correspondência direta entre o discurso da norma, instituído pelo
paradigma jurídico, e a experiência social efetiva dos escravos ou
mesmo dos demais sujeitos que constituíam a sociedade maranhense.
[...] (PEREIRA, 2005, p. 180).

O relacionamento entre o senhor e o escravo no Maranhão, revelava, não


distante do restante do Brasil, um cenário de múltiplas formas de violência, inclusive,
com relatos em jornais de época de denúncias contra feitores que levaram escravos à
morte, após aplicação de castigo e, em sentido inverso, de situações de violência contra
o senhor e também contra os feitores, promovidas por levante de escravos.

[...] Assim, o Norte da Província do Maranhão no século XIX, era um


território com instabilidades, oferecendo múltiplas possibilidades às
mais diversas formas de conflitos; pois as relações sociais escravistas
no Maranhão, [...] estavam fundadas na violência de senhores contra
os seus escravos e, também, destes contra os seus senhores. [...]
(PEREIRA, 2005, p. 183).

As resistências intermediárias, observadas no Maranhão Oitocentista,


reconhecem o grau de politização de certa massa de escravos, tanto na Casa Grande,
quanto na Senzala, quanto fora desse universo, a exemplo de escravos que trabalhavam
na cidade, tinha o poder de articulação de mobilizar os demais para um levante, fuga
para quilombos ou ato de violência contra os integrantes da Casa Grande.

[...] O primeiro deles é que parte dos escravos estava sempre atenta às
circunstâncias que lhes favoreciam definir os seus espaços de
autonomia e liberdade; segundo, o nível e o alcance da mobilização
dos escravos, particularmente no campo, quase sempre estiveram
articulados às condições conjunturais da Província nos aspectos sócio-
econômico e político. [...] uma terceira questão se impõe: o diminuto e
relativo poder de polícia e segurança oferecido pelo aparelho de
Estado aos proprietários de terra e escravos, face à mobilização dos
escravos em fuga e à formação dos quilombos (PEREIRA, 2005, p.
183).
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Assim, a sociedade maranhense no século XIX via os escravos sempre como


uma ameaça, pois, estes eram tratados sempre à margem, com desconfiança, buscando,
assim, formas de controle social para manter a ordem de privilégios em que a elite se
sustentava.
[...] ao falarem do africano escravizado, os autores falavam de si e de
seus próprios preconceitos [...] As elites se recusavam ou não
conseguiam ver neles as inevitáveis diferenças, fruto da origem étnica
e cultural distinta. Admitiram apenas certos elementos identificados
como características da cultura africana, como tambor de crioula e a
sensualidade, projetada nas negras e mulatas, a qual os atraía e
assustava, ao mesmo tempo. A tais elementos procuravam controlar
para não colocar em risco a ordem do mundo branco e senhorial. [...]
(FARIA, 2004, p. 96).

Preserva-se, portanto, a forma de leitura degradante do africano, um ser


desprovido de qualquer virtude e completamente condenado ao rebaixamento social
fruto de sua natureza, cabendo-lhe somente o ato de servir.

[...] Estariam ainda na infância dos sentimentos sociais, sem amor ao


trabalho, sem instrução nenhuma, sem condições de se auto-gerir.
Com essa visão dos escravos, Brandão Jr. mostrava como ainda era
forte em seu tempo a concepção aristotélica da servidão natural,
segundo a qual tornava-se escravo quem não conseguia cuidar de si
mesmo. [...]. (FARIA, 2004, p. 98).

As narrativas históricas que desqualificaram a Balaiada, baseadas em fontes


oficiais no século XIX, esvaziaram o sentido do levante popular, principalmente, a da
corrente dos escravos, liderados pelo Negro Cosme Bento das Chagas. A releitura da
historiografia do século XX pontua a Balaiada e o levante dos escravos fora da visão
dualista de civilização-barbárie, resgatando novos sujeitos e novas problemáticas.

4. O Negro Cosme e as Narrativas Históricas

O relacionamento do historiador com o passado, até a primeira metade do século


XX, foi demarcado pela contemplação das cenas expostas nos registros oficiais.
Somente com o surgimento da Escola dos Annales, a observação histórica transpôs as
barreiras do escrito oficial para alcançar o escrito não-oficial e ainda o não-escrito.

[...] Ora, assim também muitos outros vestígios do passado nos


oferecem um acesso do mesmíssimo nível. É o caso, em sua quase
totalidade, da imensa massa de testemunhos não-escritos, e até de um
bom número de escritos. [...] os documentos materiais não são, longe
disso, os únicos a possuir esse privilégio de poderem ser apreendidos
de primeira mão. Do mesmo modo o sílex, talhado outrora por um
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artesão da idade da pedra, um traço de linguagem, uma regra de


direito incorporada a um texto, um rito fixado por um livro de
cerimônias ou representado sobre uma estela são realidades que nós
próprios captamos e que exploramos por um esforço de inteligência
estritamente pessoal. [...] (BLOC, 2001, p. 72).

Esse leque de possibilidades de leituras do objeto nos remete a uma visão


aproximada da realidade, permitindo um entendimento dos fatos, destacando os motivos
de se negligenciar memórias e apagar sujeitos ativos e importantes no processo
histórico, ou seja, o historiador tem ―o ofício‖ árduo de garimpar, em busca de
realidades perdidas e dar voz a quem nunca teve a oportunidade de falar a sua versão
dos fatos.

[...] Uma palavra para resumir, domina e ilumina nossos estudos:


―compreender‖ [...] jamais compreendemos o bastante [...]
Compreender, no entanto, nada tem de uma atitude de passividade.
Para fazer uma ciência, será sempre preciso duas coisas: uma
realidade, mais também um homem. [...]. Assim como todo cientista,
como todo cérebro que, simplesmente, percebe, o historiador escolhe e
tria. Em uma palavra, analisa (BLOCH, 2001, p. 128).

Na Balaiada, as abordagens que primeiro se apresentaram em relação ao levante


dos negros, e, principalmente, em relação ao seu líder Negro Cosme Bento das Chagas,
demonstram esconder a sua real importância no movimento popular mais destacado do
século XIX no Brasil.
Assim, a face demonstrada no processo-crime de Cosme Bento das Chagas, era a
de um negro atípico, subversivo, bandido, fora do padrão de obediência e conformação,
que a historiografia oficial tentou pintar nos negros da senzala, ou seja, os dóceis eram a
regra e os arredios eram a exceção.

[...] Constam nos autos do processo-crime de Cosme Bentos das


Chagas, além de outras informações, que o mesmo era natural da vila
de Sobral, província do Ceará, que era morador no Olho D‘Água,
termo da vila do Rosário, e que há muitos anos não tinha domicílio
certo. Quando interrogado sobre os seus meios de vida e profissão,
respondeu que ―vivia de comandar tanto a tropa dos pretos que havia
sublevado como alguns Bem-te-vis que a ele se tinham reunido.‖
Tinha 40 anos, um pouco mais ou menos, quando julgado e
condenado em 5 de abril de 1842, pelo Tribunal do Júri reunido em
Itapecuru-Mirim, à pena de morte pelos crimes de insurreição,
incêndio, roubo e mortes por eles praticados, além de passar Cartas de
Liberdade como chefe de insurreição de escravos‖ (ARAÚJO, 2008,
p. 37).
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Essa narrativa de criminoso e ser arredio aos valores estabelecidos na sociedade


escravocrata do século XIX predominaram nas produções historiográficas que
sustentavam suas observações, olhando apenas para os documentos oficiais ou
ponderações das próprias autoridades, enquanto, sujeitos ativos, da produção dessa
documentação. Essa narrativa processualmente foi descontruída, principalmente, com o
advento da Escola do Annales, mais precisamente em 1946 no Maranhão, com a obra
―A Balaiada‖ de Astolfo Serra.
Assim, as narrativas de Negro Cosme Bento das Chagas estiveram transitando
entre a imagem da história oficial, demarcada como ―criminoso de alta periculosidade
pelas autoridades policiais que exerciam na época funções policiais‖ e a imagem da
reconstrução historiográfica maranhense do século XX, como ―Tutor da Liberdade‖.
Por ter sido capitão do mato e ter servido aos fazendeiros da região do Itapecuru,
tratava de gente de conhecimento no trato com os escravos e de certo relacionamento
com os da Casa Grande.
O Negro Cosme era filho de OGUM2, orixá do fogo, das guerras, das batalhas,
dono das estradas dos caminhos, do aço e do ferro. OGUM na religião afro construiu as
primeiras ferramentas do mundo, tido também como o orixá da agricultura.
As pessoas que são protegidas por OGUM são qualificadas como guerreiras,
justiceiras, determinadas na vida, inclusive, no trabalho. São extremamente politizadas e
fazem diferença no meio social em que vivem. Apresentam-se, na maioria das vezes,
como liderança e são perfeccionistas.
Esse traço de autonomia de pensamento, de personalidade e politização
imputado ao Negro Cosme, incomodava e ameaçava a integridade da elite maranhense,
em um quadro de instabilidade política e econômica do período regencial no Maranhão
e no Brasil.

[...] o fato de Cosme ter se projetado durante a guerra da Balaiada


como líder dos negros insurrecionados: ocupando fazendas,
apropriando-se, com seus comandados, de parte da riqueza acumulada
pelos ricos senhores de escravos, fazendo justiça à sua maneira; e,
sobretudo, quando, dos escravos, deixara a classe dominante surpresa
e estarrecida ante tanta ousadia de um ‖negro facínora‖, como a ele se
referiam. A sua imagem já um tanto quanto enodoada, projetou-se
durante a Balaiada de forma grotesca e terrível, sendo veiculada,

2
Oriunda da influência da cultura ioruba, situada no sudeste da atual Nigéria na África Subsaariana, e
adaptada ao Brasil pela religiosidade africana nos terreiros de candomblé, com o culto de orixás,
ancestrais africanos divinizados que projetam certo controle sobre os elementos da natureza, no caso
específico de OGUM o controle do fogo.
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através de correspondência oficial, órgãos de imprensa e anos depois,


por outros meios, como facínora, monstro, bandido, malvado e infame
etc. (ARAÚJO, 2008, p. 37-38).

O Ofício de Luís Alves de Lima ao então Ministro da Guerra, datado de 1º de


setembro de 1840, transcrito na obra ―Documentos para a História da Balaiada‖,
Inventário de Documentos Oficiais de 1838 a 1842 da Província do Maranhão,
organizada pela pesquisadora Maria Raimunda Araújo (2001), demonstra o real
significado da figura do Negro Cosme para as autoridades que combatiam contra o
levante de escravos na Balaiada.

[...] O Negro Cosme, o criminoso fugitivo da capital, por antigos


crimes não punidos, é hoje a importante figura, que mais assusta os
fazendeiros, por achar-se na frente de mil escravos por ele sublevados:
intitulando-se Tutor, e Imperador das Liberdades, procura atrair
escravos com promessa de alforria; estabeleceu entre eles escola de
ler, e escrever [...] (ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO
MARANHÃO, 2001, p. 269-270).

No curso das produções historiográficas, cita-se, primeiramente, a obra


intitulada ―Memória histórica e documentada da revolução da Província do Maranhão -
desde 1839 até 1840‖ de Domingos José Gonçalves de Magalhães (1848), Secretário de
Governo do Presidente Luís Alves de Lima, em que destaca o Negro Cosme como,

[...] facinoroso fugitivo das cadeias da capital [...] Assinava como D.


Cosme, tutor e imperador das liberdades bem-te-vis; proclamava à
escravatura, dava títulos, postos, estabeleceu escola de ler e escrever, e
aquilombado nas cabeceiras do rio preto, na fazenda da Lagoa
Amarela, tinha piquetes avançados e mandava partidas roubar e
insurrecionar as fazendas circunvizinhas. [...] (MAGALHÃES, 2001,
p. 102).

A pesquisadora Mundinha Araújo (2008, p. 40), ao analisar a obra


―Apontamentos para a revolução da balaiada na província do Maranhão – 1837-1839‖
de José Ribeiro do Amaral (1898), destaca o Negro Cosme como ―evadido das cadeias
da capital, tido e havido por feiticeiro, e gozando por isso de grande ascendente entre os
de sua raça, pôs-se este famigerado bandido à testa de três mil escravos sublevados‖.
No inventário das narrativas da historiografia maranhense, a autora Mundinha
Araújo, também recorta o memorialista Dunshee de Abranches, na obra ―O Cativeiro‖
(1941), obra que retrata o negro Cosme como feiticeiro e facínora, apontando que tinha
a ideia de formar o seu ―império à parte da insurreição dos balaios, legislando e
organizando uma sociedade de negros livres‖ (ARAUJO, 2008, p. 42).
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Outra obra destacada como depositária de narrativas degradantes sobre o Negro


Cosme Bento das Chagas, é a do Acadêmico Rodrigo Otávio, intitulada ―A Balaiada‖
(1942), que estuda o comandante das tropas legalistas Ricardo Leão Sabino, reforça a
imagem dos documentos oficiais.

Internado pelo sertão, levantara escravos das fazendas e, vivendo, do


saque e de depredações, tornara-se o terror de uma vasta zona de
cultura. [...] e para manter o brilho do seu trono, concedia aos mais
salientes dos seus sequazes patentes de capitão e títulos de barão,
cobrando dos agraciados gordos emolumentos, que eles iam colher no
roubo e no saque (OTÁVIO, 1995 apud ARAÚJO, 2008, p. 45).

A obra ―A Balaiada‖ de Astolfo Serra (1946), inaugura uma visão humanizada


da figura de Negro Cosme Bento das Chagas, apresentando uma imagem de líder
libertador, de um herói entre os negros rebelados.

[...] a Balaiada não foi um surto de banditismo. Houve através dessa


rebelião de sertanejos um idealismo, e porque não dizer, francamente:
uma eloquente ideia de libertação e de justiça [...] um negro que
dirigiu inteligentemente os de sua raça; que os comandava como
chefe, que lhes ditava leis e que procurava até lhes melhorar o nível
intelectual, criando-lhes escolas obrigatórias; um escravo que reúne
em torno de si milhares de companheiros todos seduzidos pelo
prestígio, pela sua mística, não foi um simples bandoleiro [...]
(SERRA, 1946/1950 apud ARAÚJO, 2008, p. 51; 53).

O historiador Mário Martins Meireles na obra ―História do Maranhão‖ constrói a


narrativa dedicada ao Negro Cosme, registrando os combates e relatando as sucessivas
derrotas dos amotinados da Balaiada, pelas tropas oficiais, lideradas por Luís Alves de
Lima e Silva.
[...] Raimundo Gomes, porém, logrou escapar, e voltou ao Maranhão à
frete de outros mil balaios. Batido em Tabatinga, na estrada das
Preguiças, correu para Miritiba, onde o negro Cosme chefiava mais de
mil escravos fugitivos, mas o próprio Caxias marchou contra essa vila
que foi abandonada pelos rebeldes. [...] Raimundo Gomes, acossado
por todos os lados, pediu condições para a capitulação, que lhe foram
negadas. [...] O tutor e imperador das liberdades bem-te-vis, ficou,
então, como chefe principal, já que Raimundo Gomes seu prisioneiro,
e uma vez que o Balaio e a maior parte dois caudilhos mortos durante
a campanha. Concentrado na Lagoa Amarela, no Brejo, Cosme
começou a ser assediado pelas forças legais. [...] Dom Cosme persistiu
na luta. Aprisionado depois do combate de calabouço, no Mearim, foi
mandado à força. Janeiro de 1841. Estava terminada a Balaiada. [...]
(MEIRELES, 2001, p. 239-240).

Na obra ―História do Maranhão – A Monarquia‖, do historiador Carlos de Lima,


a narrativa de Cosme converge à leitura da maioria dos autores da segunda metade do
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século XX da historiografia maranhense, onde o Negro Cosme passa a ser reconhecido


como ―[...] chefe dos escravos aquilombados, que orgulhosamente se auto-intitulava
Dom Cosme Bento das Chagas, Tutor e Imperador das Liberdades Bem-te-vis [...]‖
(LIMA, 2008, p. 190).
O historiador Matthias Röhrig Assunção (2003, p. 220) no capítulo ―Cabanos
contra Bem-te-vis: a construção da ordem pós-colonial no Maranhão (1820-1841)‖ traça
a imagem do Negro Cosme como negro forro, natural de Sobral-Ceará, que chefiou um
exército de três mil escravos rebelados. O Negro Cosme também era retratado como
sensível às letras, dando importância à alfabetização, estabelecendo escola de primeiras
letras no quilombo da Lagoa Amarela e usava os adornos da Igreja nas procissões que
organizava. ―O aspecto mais notável da personalidade de Cosme foi sua visão política,
propondo uma aliança com os rebeldes livres‖.
Na visão de Emilio Gennari (2008), na obra ―Em busca de liberdade: traços das
lutas escravas no Brasil‖, o papel dos negros na Balaiada é minimizado, tendo Cosme
Bento apenas sido intitulado como líder.

[...] Na fase ascendente de suas lutas, os chefes da Balaiada não se


preocupam com os negros insurretos, [...] Mas, diante das derrotas,
não resta a eles outro opção a não ser a de radicalizar os objetivos da
luta para procurar a união com os quilombolas de Cosme. É assim
que, em meados de 1840, o líder dos negros se torna figura que mais
assusta os fazendeiros. [...] (GENNARI, 2008, p. 87).

Os historiadores Heitor Ferreira de Carvalho e Rosenverck Estrela Santos, na


obra ―História do Maranhão‖, material didático exclusivo para o Curso Superior de
Licenciatura em História uma parceria da PUC-RJ, UERJ e MEC, reforçam a figura do
Negro Cosme como ―Tutor e Imperador das liberdades Bem-te-vis, que à frente de
3.000 quilombolas em armas desafiou o sistema escravista, por meio, inclusive, da visão
que tinha a importância da união entre escravizados e população livre e pobre‖
(CARVALHO; ROSENVERCK; 2010 p. 72).
O trabalho ―Conhecendo e Debatendo a História do Maranhão‖, material
didático voltado para os alunos da educação básica, de autoria do professor Joan
Botelho, concentra a imagem do Negro Cosme e dos levantes na Balaiada, ―[...] os seus
líderes eram gente do povo, como Negro Cosme, que comandava um exército de três
mil escravos e se intitulava Tutor e Imperador das Liberdades Bem-te-vis [...]‖.
(BOTELHO, 2007, p. 103).
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Como uma narrativa quase unânime na historiografia do século XX, percebe-se


que o título ―Tutor e Imperador das Liberdades Bem-te-vis‖ aponta para um agente
social livre, letrado, religioso, politizado, que sabia fazer as leituras da conjuntura social
e, ainda, que tinha a capacidade e a personalidade de pensar em alianças políticas, no
caso específico, com os balaios, assim como é percebido, também, que o Negro Cosme
pensava para além da Balaiada, ao construir uma sociedade alternativa de negros livres,
fato esse destacado nas abordagens de Matthias Röhrig Assunção e de Astolfo Serra,
respectivamente.
A imagem de Cosme Bento das Chagas, construída pelas historiografias do
século XIX e do século XX, aponta ainda, para um traçado de personalidade política e
social de completa rejeição da sociedade escravocrata, o que despertava o sentimento de
ameaça para as elites agrárias do Maranhão e o sentimento de liberdade, principalmente
para os negros que ele comandava.
É significativo destacar, ainda, que, embora no cenário da Balaiada não tenha
havido um diálogo político elaborado com um projeto articulado, a situação de
depressão econômica profunda vivida pelo Maranhão associada a um vazio de poder,
produziu um canal de expressão social que permitiu a aliança entre os setores
subalternos da sociedade maranhense, de regra elitista e racista. O que é deveras inédito.
Um aprofundamento dos termos dessa aliança irá redefinir o papel do líder da corrente
dos escravos, Dom Cosme Bento das Chagas.

Considerações Finais

A centralidade da montagem da escravidão no Brasil obedece a uma


racionalidade em que o escravo é retratado como ser degenerado e o seu local de
origem, a África, como uma região tipificada como inferior, onde transitam os piores
valores humanos.
No Maranhão, as formas de resistências intermediárias não conseguiram quebrar
a imagem degradante do ser negro, seja ele livre ou escravizado. Vítimas de formas
múltiplas de violência e diante da fragilidade da presença do Estado, sobretudo no
interior, criaram um ambiente favorável a levantes de toda sorte, a exemplo da Balaiada,
que foi uma demonstração de politização de certa massa de escravos liderados pelo
Negro Cosme Bento das Chagas.
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O levante de negros – a Balaiada – e o Negro Cosme foram abordados de forma


diferente pelas historiografias do século XIX e XX. Enquanto as narrativas do século
XIX recortam o Negro Cosme como bandido, assassino e facínora, as narrativas do
século XX humanizam o herói e ainda lhe dá um título ―Libertador e Imperador das
Liberdades Bem-te-vis‖.
As narrativas sobre o Negro Cosme, ainda carecem de um estudo mais
detalhado, pois, aparecem de forma muito simplificada, sem a demarcação de suas
mentalidades e do seu real projeto dentro desse movimento tão plural que foi a
Balaiada.

REFERÊNCIAS

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Tutor e Imperador da Liberdade. Imperatriz-MA: Ética, 2008.

ASSUNÇÂO, Matthias Rohrig. Cabanos contra Bem-te-vis: a construção da ordem pós-


colonial no Maranhão 1820-1841. In: PRIORE, Mary Del; GOMES, Flavio (Org). Os
senhores dos rios: Amazônia, margens e histórias. Rio de Janeiro: Elsevier. 2003.

________. A guerra dos Bem-te-vis: a Balaiada na memória oral. 2ª ed. São Luís:
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ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. Documentos para a história


da Balaiada. Organização Maria Raimunda Araújo. São Luís: FUNCMA, 2001.

BOTELHO, Joan. Conhecendo e debatendo a história do Maranhão. São Luís: Fort


Gráfica, 2007.

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historiador. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

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revolução da província do Maranhão desde 1839 até 1840. São Paulo: Siciliano,
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MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. Trad. James Amado. São Paulo:
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MEIRELES, Mário m. Meireles. História do Maranhão. 3.ed. São Paulo: Editora


Siciliano, 2001.

PEREIRA, Josenildo de Jesus. ―Na fronteira do cárcere e do paraíso: escravidão,


cotidiano e resistência escrava no Maranhão Oitocentista‖. In: COELHO, Mauro Cezar
et al. Meandros da História: trabalho e poder no Grão- Pará e Maranhão séculos XVIII
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II SIMPÓSIO MEMÓRIAS DA BALAIADA 180 ANOS
ISBN: 978-85-8227-255-8

O PIAUÍ DA INDEPENDÊNCIA À INSURREIÇÃO: certezas e desventuras de uma elite


política entre o Império e a Confederação do Equador 1823 e 1824

JOHNY SANTANA DE ARAÚJO1


.
1. A convergência de interesses e a guerra de independência

A construção da independência do Brasil no Piauí foi um processo prontamente


firmado, e algo de poucas incertezas, tanto por parte das cortes quanto das elites sediciosas do
jovem Império que estava se formando.
Dentro dessa conjuntura, caberia ao Piauí fazer parte de um projeto maior, pensado
pela Corte portuguesa, para salvaguardar o que poderia salvar da Colônia portuguesa na
América. No entanto, as elites políticas do Piauí pensavam diferente. No que se refere ao
Piauí, a busca por um lugar no conjunto das províncias do imenso Império remete-nos à
guerra pela independência de Portugal. Na província, houve uma ação militar violenta que
adquiriu importância considerável no processo de independência no Norte do Brasil, pois, ao
longo da região, um movimento sedicioso ganhou força em duas vilas de grande importância,
a de Parnaíba e Campo Maior e na capital Oeiras. 2
No litoral, em Parnaíba, em 19 de outubro de 1822, sua independência foi proclamada
pelas mãos de Simplício Dias da Silva e João Cândido de Deus e Silva; o primeiro, coronel da
milícia; e o segundo, juiz de Direito. À época, deu-se também a adesão do Piauí à
Independência do Brasil. E sob aplausos dos presentes, deram vivas a S A R, Dom Pedro I e a
―Independência do Brasil‖. Em 23 de outubro a Câmara daquela vila comunicou à de Campo
Maior o que ocorrera no dia 19 e a convidou a fazer o mesmo.

1
Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense. Tutor do Pet História e Editor da Revista
Contraponto. Líder do Núcleo de História; Memória; Sociedade e Política e do Núcleo de Estudo e Pesquisa em
História do Piauí Oitocentista, ambos cadastrados no Diretório de Pesquisas do CNPq. Professor do
Departamento de História e Programa de Pós-Graduação em História do Brasil (UFPI).
2
Sobre o processo de independência no Piauí ver o clássico: CHAVES, Joaquim. O Piauí nas lutas da
independência do Brasil. Teresina: Alínea Publicações, 2005.
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Na capital, Oeiras, por meio de Manoel de Sousa Martins iniciou-se um levante contra
os portugueses em 24 de janeiro de 1823. Em uma tentativa desesperada de conter o
movimento de separação que havia estourado em Parnaíba, o então comandante das Armas,
Major João José da Cunha Fidié, havia partido de Oeiras com um destacamento militar
respeitável. Ao chegar em Parnaíba, após realizar sua missão, chegou até ele a notícia da
sedição na própria capital, Oeiras, razão que o fez retornar de imediato a fim de sufocar a ação
dos revoltosos.
Ao longo do caminho, com a aproximação da vila de Campo Maior, Fidié e suas
tropas depararam-se com uma coluna de revoltosos pró-independência, que, liderados pelo
capitão Luís Rodrigues Chaves, entraram em linha de batalha, travando vivo combate
próximo ao riacho Jenipapo.3
O desenrolar do combate resultou na derrota da coluna de revoltosos, em parte por
decorrência do nível de organização das tropas portuguesas e do maior poder de fogo destes.
Contudo, um detalhe muito sutil daquela ação militar acabou transformando a rápida vitória
em uma derrota de longo prazo, pois significativa quantidade do material bélico das tropas
portuguesas havia caído em mãos dos rebeldes, incluindo toda a bagagem militar dos
portugueses. Desta faziam parte as ordens de comando, os despachos e uma quantidade
razoável de dinheiro.4
Após o choque, ocorreu a debandada geral dos revolucionários, levando todos os
suprimentos portugueses. Quanto às tropas portuguesas, estas procederam à ocupação de uma
fazenda próxima à vila de Campo Maior. Fidié posteriormente recuou até Aldeias Altas, no
Maranhão, para não mais aparecer no Piauí. Com a vitória total das forças rebeldes no Piauí,
no Maranhão e no Pará, Cunha Fidié foi preso pela Junta governativa provisória do Maranhão
sendo enviado ao Rio de Janeiro, retornando a posteriori a Portugal.
A historiografia piauiense vem buscando traçar uma identidade regional própria do
Piauí, ligando-o à causa da independência, a partir da compreensão que mostre a Província
como sendo um lugar ao Norte do Império brasileiro, onde toda a independência foi
consolidada.5

3
Detalhes sobre a batalha do Jenipapo podem ser encontrados na autobiografia do Major Fidie Ver: FIDIÉ, João
José da Cunha. Varia fortuna de um soldado português. Teresina: Fundapi, 2006.
4
Há uma ampla historiografia dedicada a batalha. Um dos trabalhos clássicos ver: NEVES, Abdias. A Guerra do
Fidié. 4. ed. Teresina: Fundapi, 2006.
5
Cf.: DIAS, Claudete Maria Miranda. O outro lado da História: o processo de independência do Brasil visto
pelas lutas no Piauí (1789-1850). In: EUGENIO, João Kennedy. (Org.) História de vario feitio e circunstância.
Teresina: Instituto Dom Barreto, 2001.
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Sobre a guerra de independência no Piauí, no que se refere à perspectiva de a


população pobre ter um desejo em comum de liberdade, Claudete Dias aponta:

O que unia uma população de composição social tão heterogênea era o


sentido de ser brasileiro, diferente de ser português, o desejo de expulsar o
elemento estrangeiro que representava os problemas existentes em suas
vidas, a liberdade de poder conduzir os seus próprios interesses, ou seja,
libertar-se do domínio português (DIAS, 2001, p. 256).

É interessante observar como, anos depois, a memória da ação dessas tropas consistiu
em fato amplamente explorado pelo governo da Província, em seu discurso de propaganda
para a Guerra do Paraguai, o que nos remete a uma observação de Le Goff sobre o fato de a
memória ser ―[...] um elemento essencial do que se costuma chamar de identidade, individual
e coletiva‖ (LE GOFF, 1990, p. 474). Sendo que a memória coletiva seria ainda, de acordo
com Le Goff (1990, p. 474), ―um instrumento e um objeto de poder‖. A invocação dessa
memória coletiva foi um dos elementos que serviram de base, para a incorporação do regional
na unidade nacional, às elites governativas do Piauí, na segunda metade do século XIX.6

2. O estabelecimento e consolidação do Estado Imperial

Logo após a Independência do Brasil e mais especificadamente durante a fase de


consolidação do Império, começou a se fazer presente, por parte da elite governativa
7
imperial, a necessidade de criar na população brasileira um sentimento de caráter
nacionalista, um vínculo e uma identificação por parte da população, com uma vontade
nacional, que, neste caso, estaria vinculada ao poder Imperial e à manutenção de uma ordem
que já estava em voga.
Tal como a noção indicada por Ilmar Rohloff de Mattos, o olhar vigilante, dominador
e dirigente era proporcional à capacidade de forjar o que se entende por público, de delimitar
um espaço correspondente ao da área da Corte no interior do privado, como se fossem olhos
menores, extensão dos olhos do Imperador, tendo como objetivos não se opor aos interesses
particulares (MATTOS, 2004, p. 201-204). Convém assinalar que, com a construção e

6
Quando a Guerra do Paraguai iniciou em dezembro de 1864, o Estado Imperial e o governo Provincial
souberam fazer uso da memória para lembrar aos próprios piauienses que seus antepassados derramaram o seu
sangue por uma causa nacional. A pátria naquele momento de conflito chamava então os seus filhos novamente a
defender uma causa nacional. Sobre a construção de um nacionalismo a partir de um conflito ver: ARAÚJO,
Johny Santana de. Bravos do Piauí! Orgulhai-vos...: a propaganda nos jornais piauienses e a mobilização para a
Guerra do Paraguai (1865-1866). 2. ed. Teresina: EDUFPI, 2015.
7
Sobre o conjunto de interesses das elites regionais na construção do Estado Imperial ver: DOLHNIKOF,
Miriam F. Elites regionais e a construção do Estado Nacional. In: JANCSÓ, István (Org.) Brasil: formação do
Estado e da Nação. São Paulo: Hucitec; Unijuí; Fapesp, 2003.
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fortalecimento do Estado em nível interno, o argumento mais instigante sobre as origens da


coesão nacional do pós-independência é o colocado por Ilmar Rohloff de Mattos, que procura
demonstrar como interesses de classes se ligavam especificamente ao poder do Estado.
No aspecto econômico, segundo Nelson Werneck Sodré (1990), no início do primeiro
reinado ―Cada província vinha se especializando na produção de determinado gênero,
destinado à exportação [...]. Estavam voltadas para o exterior mais do que para o Rio de
Janeiro, onde, entretanto, estava o poder‖.
A noção apontada por Werneck Sodré sugere que a questão da identidade nacional,
nos primórdios do Império, poderia então ser considerada como algo ainda disperso, e
somente se manteve em razão dos interesses de manutenção do escravismo, situação que se
estendeu até o fim da primeira metade do século XIX.
Portanto, não é possível afirmar ainda que a unidade do Brasil fosse sustentada por
uma verdadeira comunhão de interesses nacionais, emanados de cada Província; o que
realmente importava eram os interesses de uma elite, cuja permanência de alguns privilégios
deveria ser garantida, incluindo a manutenção da base econômica escravista, como de fato
ocorreu.8
Assim, de acordo com Brum ―[...] manteve-se o regime monárquico, e o herdeiro do
trono português tornou-se imperador do Brasil. Manteve-se a mesma estrutura econômica e o
sistema escravista, com uma estrutura social dicotomizada e acentuada discriminação‖
(BRUM, 1996, p. 153).
Na própria fase de independência, houve dificuldades para a consolidação e
manutenção do processo de separação de Portugal, fato revelado pela guerra e pela
necessidade de deslocamento para o Norte do Império de considerável quantidade de forças
militares, para expulsar os portugueses e garantir a adesão de algumas províncias, cujas elites
políticas e econômicas não reconheciam um novo governo livre de Portugal, fato que se aplica
mais especificadamente ao Maranhão e ao Pará, sobretudo por conta dos fortes elos comercias
iniciados ainda à época da Companhia de Comércio do Grão Pará-Maranhão.
Por outro lado, para a unidade do Império que estava surgindo, foi necessário também
cooptar nos meios populares forças para garantir, por meio das armas, a expulsão dos
portugueses e a consolidação da independência. Nesse ponto, tanto o Piauí quanto a Bahia são
exemplos cabais.

8
Sobre os elos entre Brasil Colônia no âmbito do comércio, sobretudo o da escravidão, ver: JANCSO, Isvan. A
construção dos Estados Nacionais na América Latina: Apontamentos para o estudo do Império como Projeto In:
SZMRECSANYI, Tamas; LAPA, J. R. Amaral. (Org.). História Econômica da Independência e do Império. São
Paulo: Edusp, 2002.
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De acordo com Hobsbawm (1996), nega-se o inimigo na tentativa de se autoafirmar


enquanto nação, gerando, assim, a questão da identificação nacional. 9 Essa negação pode ser
demonstrada por meio do forte sentimento brasileiro de negação ao português, sendo este
remetido à necessidade de se ―descolonizar‖ e conseguir características próprias, tanto no
âmbito político quanto cultural.
No Piauí, cuja consolidação da Independência foi marcada por uma violenta ação
militar, para a expulsão dos portugueses, foi necessário contar com a participação dos grupos
populares que, em grande parte, foram seduzidos pelo discurso nacionalista, encabeçado por
uma parcela significativa das elites, a fim de constituir um verdadeiro exército libertador.10
Ou seja, foi imperativo se construir um discurso de nacionalidade para que a população pobre
pudesse compor um exército patriota.
No Piauí, após haver cessado o processo de independência, houve uma redefinição dos
grupos políticos, que passaram a gravitar em torno de objetivos diferentes. Simplício Dias da
Silva, na vila da Parnaíba, e Manuel de Sousa Martins, na capital Oeiras, divergiram
profundamente sobre os rumos que deveria tomar a província, em relação à construção e
fortalecimento do Estado imperial. Simplício Dias, que havia sido nomeado presidente da
Província, acabou não assumindo, alegando problemas pessoais. Segundo Mendes:

Consolidada a independência do Brasil no Piauí, após a rendição de Fidié e


seus comandados em Aldeias Altas (Caxias – MA), os olhares se voltam
para os problemas internos mais urgentes da Província. O primeiro deles era
a definição do comando político. Reconhecendo os méritos e o patriotismo
de Simplício Dias da Silva, Comandante Militar da Vila da Parnaíba, o
Imperador D. Pedro I, o nomeia presidente da Província do Piauí. Mas,
alegando motivos de ordem pessoal, Simplício Dias, declina da escolha. Tal
fato ajuda a consolidar a elite agrário-pastoril de Oeiras e adjacências
(MENDES, 2007, p. 40).

A referida elite agrária estava diretamente ligada a Manuel de Sousa Martins e a Junta
de governo que se formou no Piauí, em 29 de agosto de 1823. Este grupo era composto
sobretudo por pessoas que tinham a mesma ideia de governo e o mesmo pensamento da Corte.
Mas na primeira metade do século XIX, o Piauí enfrentaria a dura repressão por parte
do governo central, por conta de sua participação no movimento da Confederação do
Equador, movimento insurgente de cunho separatista e republicano que atingiu algumas das
províncias do Norte, como o Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.
9
Ver: HOBSBAWM, Eric J. Nações e nacionalismo desde 1780. Programa, mito e realidade. 2. ed. São Paulo:
Paz e Terra, 1996.
10
Ver sobre a luta pela independência no Piauí, DIAS, Claudete Maria Miranda. O outro lado da História: o
processo de independência do Brasil visto pelas lutas no Piauí (1789-1850). In: EUGENIO, João Kennedy
(Org.). História de vario feitio e circunstância. Teresina: Instituto Dom Barreto, 2001.
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3. A ruptura do pacto e aproximação com o republicanismo pernambucano

As ideias que influenciavam homens como Simplício Dias, no Piauí, eram bastante
difusas das ordens emanadas pelo imperador que começava a ensaiar um princípio
centralizador; assim, Simplício e seus companheiros viam na Confederação do Equador a
possibilidade de alcançar autonomia para a Província, pois certamente as ideias de um
republicanismo clássico estivera presente nos seus ideais de governo.11
Podemos compreender que o ideário político do movimento de 1824, iniciado em
Pernambuco, visava colocar homens ―das letras‖ à frente do governo. Muito embora dois
elementos também devessem ser levados em consideração. O pragmatismo de Simplício e a
possibilidade de se pensar um novo pacto, um pacto federalista caso o projeto de
republicanismo de Pernambuco não vingasse.
As ideias que chegaram ao Piauí provenientes do Ceará, vieram carregadas de um
discurso republicano, e esse foi capaz de despertar, no seio da elite econômica e ilustrada, a
possibilidade de revolta, com esperança de abortar o espírito de despotismo que tomava conta
do Estado imperial personificado na figura do Imperado Pedro I, ou mesmo sedição com a
possibilidade de criação de um país no Norte.
No ano em que Manuel de Sousa Martins assumiu a Presidência da Província, em
1823, ele deixou claro seu objetivo; manter a ordem na Província. A Confederação do
Equador seria, desta forma, um fator de atrito entre as ideias da Corte (a construção do
Estado) e os membros da elite piauiense.
Por outro lado, o movimento sedicioso, deflagrado em agosto de 1824, havia, portanto,
congregado províncias do Norte, atual Nordeste, como resultado do movimento de cunho
republicano e separatista iniciado em Pernambuco. Abrangia claramente Pernambuco,
Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Secundariamente figuravam Alagoas, Pará e Piauí.
Em 25 de agosto de 1824, na vila de Parnaíba, em reunião da câmara sob a inspiração
do Dr. João Cândido de Deus e Silva, finalmente foi proclamada a República, ato em que
tomaram parte João Rodrigues Falcão, Veridiano de Sousa Borges, José Ferreira Meireles,

11
Recentemente foi defendido junto ao Programa de Pós-Graduação em História do Brasil PPGHB da UFPI, sob
minha orientação a excelente dissertação do Historiador Francisco de Assis Oliveira, intitulado: A Confederação
do Equador: Entre Tensões e Rupturas na Consolidação do Estado Imperial no Piauí, 1823-1825 no trabalho o
autor trata especificamente sobre a participação da Província do Piauí na Confederação do Equador. Cf.
OLIVEIRA, Francisco de Assis. A Confederação do Equador: Entre Tensões e Rupturas na Consolidação do
Estado Imperial no Piauí, 1823-1825. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em História do
Brasil da Universidade Federal do Piauí UFPI, Teresina, 2019.
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João José de Sales e João Cardoso Batista. Receberam apoio de Antônio Bernardo Saraiva de
Carvalho, comandante das Forças, e Domingos Dias da Silva Henriques.12

4. O Piauí na Confederação do Equador e a repressão do Estado Imperial

O grupo político na Província do Piauí, nesse contexto, havia se tornado participante


do processo de separação, e o seu papel era enviar emissários com a missão de convidar às
demais províncias a tomarem parte no movimento. De Pernambuco para o Ceará, a intenção
era conseguir o maior número de adeptos para a nova federação. Do Ceará partiram os
emissários ―facciosos‖ para o Piauí. Segundo correspondência entre o Manuel de Sousa
Martins e a Corte no Rio de Janeiro, o temor era justamente de as ideias chegarem ao Piauí.

Hoje que suportando o peso da governança em uma crise tão melindrosa, em


que tão difícil me é manter e dirigir a machina política desta província
(dantes morada da paz), agitado pelas desenvolturas de opiniões, que o gênio
do mal, invejoso da nossa sorte tem introduzido nella a ponto de se acharem
duas villas dependentes da capital por aderirem irreflectidamente (com que
magoa o digo!) ao Systema Republicano [...] (Ofício de Manuel de Sousa
Martins ao Ministro do Império) 13.

O movimento do Piauí foi influenciado pelos ativistas do Ceará, entre esses o padre
Francisco de Paula Barros, que havia chegado a Parnaíba em 31 de julho de 1824, ficando até
setembro, hospedado pelo coronel Simplício Dias da Silva (BASTOS, 1994).
Os sediciosos da Província do Ceará foram, portanto, os responsáveis por divulgar as
ideias do movimento dentro da Província do Piauí. A mesma correspondência, entre o então
presidente Manuel de Sousa Martins e o ministro de negócios do Império, nos possibilita
compreender o teor do movimento dentro da Província, e quem são os seus agentes, ao
afirmar que, do Ceará, com o seu o sistema republicano, vêm ―[...] tentando, com seus
embustes, precipitar no mesmo abysmo a toda esta Província, até ameaçando-nos com cruenta
guerra‖ (BRITO, 1922, p. 76).
O governo provincial suspendeu as câmaras de Parnaíba e Campo Maior, criou uma
Junta defensiva e enviou tropas as duas cidades. A rebelião, na realidade, restringiu-se à
pregação de ideias. Fizeram-se, entretanto, algumas prisões, como as de Dr. João Cândido,
Veridiano, João Sales, João da Costa Rosal, Antônio Bernardo Saraiva e Domingos Henriques
(Parnaíba), Antônio José Henriques, Miguel José Ferreira, João da Costa Alecrim e outros

12
Ver: BASTOS, Cláudio. Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí. Teresina: Fundação Cultural
Monsenhor Chaves, 1994.
13
Ofício de Manuel de Sousa Martins ao Ministro do Império. 21/10/1824. In: BRITTO, Anísio. Adesão do
Piauí à Confederação do Equador, Documentos do Instituto Ceará. Documentos coligidos pelo Dr. Anísio Britto.
Fortaleza: Instituto do Ceará, 1922. p. 76.
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(Campo Maior). José Francisco de Miranda Osório foi preso quando procurava adesões em
Oeiras (BASTOS, 1994).
Foram presos e processados, também, o cônego Batista Campos e Manuel Ferreira do
Nascimento, e ainda Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco, que havia
igualmente subscrito o manifesto, como consequência, havia sido preso em Pernambuco.
Todos, porém, foram absolvidos no Rio de Janeiro, para onde tinham sido remetidos pelo
―Tribunal da Relação‖.
O movimento serviu apenas para fortalecer Manuel de Sousa Martins, que lutava por
reforçar sua posição à frente do governo da Província. A Junta defensiva, criada a 20
setembro de 1824, teve por membros: padre Marcos de Araújo Costa, vigário João da Rocha
Vale, tenente coronel Inácio Francisco de Araújo Costa, sargento-mor José Inácio Madeira de
Jesus, capitão Inácio de Loiola Mendes Vieira e tenente coronel Manuel Pinheiro de Miranda
Osorio (BASTOS, 1994). Esta Junta finalmente dissolveu-se em fevereiro de 1825.

Considerações finais

A Confederação não foi um mero movimento contra o fechamento da Constituinte de


1823, e quanto à outorga da Carta Constitucional de 1824, havia questões muito próprias em
torno dos projetos políticos adotados para o Brasil até meados de 1825. O principal difusor de
ideias da Confederação era a elite letrada, daí entendermos o porquê de o movimento ter
alcançado adeptos em Parnaíba, como o maçom Simplício Dias; por outro lado, o
pragmatismo político de Simplício Dias também o conduziu a uma encruzilhada, ou seja,
assumir a direção da Província e aderir à Confederação, ou se afastar da vida pública para
conduzir os seus negócios. Essa última foi sua escolha, muito embora não tenha arcado com
nenhum ônus da sedição.
Para Manoel de Sousa Martins, o pragmatismo o levou para o centro do poder,
atuando como um gerenciador do mecanismo de centralização do Estado Imperial, afastando
os seus antigos aliados e a própria Província da ameaça do separatismo. Por sua vez, arcaria
com outras questões; muito haveria ainda que acontecer, pois, em meados do século XIX, o
Piauí foi sacudido pela Balaiada, cujas fronteiras haviam sido transpostas do Maranhão,
trazendo o caos quase completo para toda a província, agravando seriamente a economia e
fragilizando mais ainda as tênues relações sociais, cujas identidades ainda estavam em
processo de consolidação, mas isso é uma outra história.
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REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Johny Santana de. Bravos do Piauí! Orgulhai-vos...: a propaganda nos jornais
piauienses e a mobilização para a Guerra do Paraguai (1865-1866). 2ª ed. Teresina: EDUFPI,
2015.

BASTOS, Cláudio. Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí. Teresina:


Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

BRITTO, Anísio. Adesão do Piauí à Confederação do Equador, Documentos do Instituto


Ceará. Documentos coligidos pelo Dr. Anísio Britto. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1922.

BRUM, Argemiro J. O desenvolvimento econômico brasileiro. 20. ed. Petrópolis: Vozes,


1996.

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Publicações Editora, 2005.

DIAS, Claudete Maria Miranda. O outro lado da História: o processo de independência do


Brasil visto pelas lutas no Piauí (1789-1850) in: EUGENIO, João Kennedy. (Org.) História de
vario feitio e circunstância. Teresina: Instituto Dom Barreto, 2001.

DOLHNIKOF, Miriam F. Elites regionais e a construção do Estado Nacional In: JANCSÓ,


István (org.) Brasil: Formação do Estado e da Nação. São Paulo: Hucitec; Ed. Unijuí; Fapesp,
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FIDIE, João José da Cunha. Varia Fortuna de um Soldado Portugues. Teresina: Fundapi,
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HOBSBAWM, Eric J. Nações e nacionalismo desde 1780. Programa, mito e realidade, 2a Ed,
São Paulo: Paz e Terra, 1996.

JANCSO, Isvan. A construção dos Estados Nacionais na América Latina: Apontamentos para
o estudo do Império como Projeto In: SZMRECSANYI, Tamas; LAPA, J. R. Amaral. (org.)
História Econômica da Independência e do Império. São Paulo: Edusp, 2002.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Unicamp, 1990.

MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema. 5ªedição, São. Paulo: Editora Hucitec,
2004.

MENDES, Francisco Iweltman Vasconcelos. Parnaíba: educação e sociedade na primeira


república. UFPI, Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Educação da
Universidade Federal do Piauí UFPI, Teresina, 2007.

NEVES, Abdias. A Guerra do Fidié. 4ª Ed. Teresina: FUNDAPI, 2006.

OLIVEIRA, Francisco de Assis. A Confederação do Equador: Entre Tensões e Rupturas na


Consolidação do Estado Imperial no Piauí, 1823-1825. Dissertação de Mestrado, Programa
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de Pós-Graduação em História do Brasil da Universidade Federal do Piauí UFPI, Teresina,


2019.

SODRÉ, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. 13ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand,
1990.
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O MARANHÃO NA CÂMARA DOS DEPUTADOS: organização política-administrativa


do Império do Brasil (1825-1826)

MÁRIO AUGUSTO CARVALHO BEZERRA1

1. Introdução

Os primeiros decênios do século XIX constituem um período de grandes mudanças


nos dois lados do Atlântico do mundo português. Em Portugal, as transformações são geradas
com a crise do Antigo Regime, o reformismo ilustrado via Universidade de Coimbra e a
concepção política liberal evidenciada pelo movimento liberal do Porto ou Revolução do
Porto, proclamada em agosto de 1820.
Os ecos da Revolução do Porto são importantes para pensar as transformações no
centro da sociedade luso-brasileira oitocentista. As particularidades das províncias quanto ao
recebimento e conhecimentos dos princípios revolucionários do Porto constituíram novos
rumos das políticas locais e mais tarde, na composição e construção da nação brasileira.
As mudanças em Portugal ganham força no período do vintismo sob a criação e
instalação da Assembleia Nacional Constituinte, que tinha como um dos objetivos o regresso
do monarca português, então residente no Rio de Janeiro. Nesse momento, as mudanças no
Brasil configuravam uma nova fase da Colônia com a instalação de tipografias, circulação de
impressos e movimentação das elites político-econômicas regionais.
Na América portuguesa, tais mudanças são verificadas com a chegada da família real
em 1808, a Abertura dos Portos e os tratados comerciais de 1810, que provocaram
transformações nas províncias e sua inserção no macro sistema político da época. Em uma
visão panorâmica, João Paulo Pimenta (2015, p. 358) aponta que à situação política somava-
se um ―quadro de grave e persistente crise produtiva, mercantil e financeira, inserida numa

1
Especializando em Ensino de História do Brasil: Cultura e Sociedade no Instituto de Ensino Superior
Franciscano (IESF); Mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da
Universidade Federal do Maranhão (PPGHis-UFMA). Bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao
Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA). Graduado em História pela Universidade
Estadual do Maranhão (2017). E-mail: marioaugusto769@gmail.com
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conjuntura econômica claramente desfavorável a Portugal, que remonta à abertura dos portos
do Brasil ao comércio mundial em 1808‖.
No Maranhão, os primeiros decênios do século XIX são marcados por transformações
políticas, econômicas e sociais, principalmente em São Luís, centro de autoridade colonial. A
adesão em 6 de abril de 1821 do governador Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca à
Revolução do Porto é outro marco responsável pela movimentação no interior da província.
Yuri Costa e Marcelo Galves (2011, p. 25) observam que ―as expectativas provocadas
por tal mudança agitaram as ruas de São Luís‖. Nessa conjuntura, o vintismo e o
constitucionalismo português no Maranhão permanecem pouco explorados, apenas lembrados
nas análises gerais sobre a atuação das Cortes portuguesas no processo de emancipação do
Brasil.
Neste trabalho, centrarei minhas observações nos debates políticos, no perfil e atuação
dos deputados da província do Maranhão: Francisco Gonçalves Martins, João Bráulio Muniz,
Manuel Telles da Silva Lobo e Manuel Odorico Mendes eleitos para o exercício parlamentar
na Assembleia Geral Legislativa do Império do Brasil do Rio de Janeiro (1826).

2. Atores Políticos: o Parlamento português

No Brasil, de acordo com Maria do Socorro Ferraz Barbosa (2007), a movimentação


política do vintismo foi sentida/vivenciada a partir de dois centros de poder: em Lisboa, com
as Cortes, e no Rio de Janeiro, com D. João VI e, depois, com a regência de D. Pedro.
Com a instauração das Cortes surgiram novos atores políticos, estes membros da elite
política e intelectual da época, que podem ser divididos em duas categorias: a primeira, de
cidadãos provinciais que participavam diretamente da política local e mantinham interlocução
com o Soberano Congresso; a segunda, por vezes derivada da primeira, dos deputados eleitos
para o exercício parlamentar nas Cortes. Com diferentes atitudes, valores, comportamentos e
opiniões, cidadãos maranhenses viveram a novidade política por meio de cartas, ofícios e
abaixo-assinados encaminhados para as Cortes. A função do Soberano Congresso era de
atender os interesses do cidadão.
Estes cidadãos, símbolo da política moderna, encontravam na Constituição o
norteamento de suas ideias e viam o Soberano Congresso como instituição de representação
política, capaz de resolver desde querelas individuais (de cunho provincial) até as questões
mais caras à nação.
Como representantes dessa instituição, estavam os deputados provinciais: ―que
representavam um poder capaz de estabelecer uma nova ordem social, econômica e política‖
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(BERBEL, 2008, p. 18). Como deputado, tais cidadãos ―traduziam uma imagem política,
própria de cidadão honesto, político virtuoso e indivíduo letrado‖ (NEVES, 2003, p. 71).
Os deputados pertenciam ao conjunto da elite política e intelectual das provinciais e na
maioria das vezes eram estudantes oriundos da Universidade de Coimbra, entre eles:
Raimundo de Brito Magalhães Cunha, dispensado pelas Cortes por problemas de saúde e
substituído por José João Beckman e Caldas, e Joaquim Antônio Vieira Belford, eleitos
deputados pela província do Maranhão para a primeira legislatura. Os deputados eleitos em
1825 também cursaram a formação intelectual em Coimbra, retornando ao Brasil no período
do processo de emancipação política e organização socioeconômica do império.
Os deputados que compunham as Cortes provinham de Portugal e das províncias
além-mar e exerciam diversos cargos profissionais. Tendo como base os levantamentos da
historiadora Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves (2003, p. 62), é possível verificar que tais
cargos exercidos pelos atores políticos eram em áreas de reconhecimento significativo dentro
da elite local, dentre eles: militares, funcionários públicos, clero, professores e negociantes.
Os cargos de comerciante e negociante aparecem em percentuais menores, ficando até mesmo
abaixo da categoria de proprietários de terras2.
Com a realização das eleições, o ―povo‖ havia recuperado a soberania, exercida pelo
voto. Nas Cortes, a soberania compreendeu a representação política por intermédio dos
deputados que eram ―mandatados pelo povo e por isso devem zelar pela liberdade deste e
cumprir por ele o exercício da soberania‖ (VERDELHO, 1981, p. 116), agentes da política
liberal, defensores dos interesses da nação/―povo‖ e criadores de leis, constituindo ―uma
figura-chave da política liberal, pois situava-se no centro do sistema representativo‖ (NEVES,
2003, p. 179).
Nas Cortes, o deputado constituía um agente político responsável por defender a
liberdade, desejável para o bem da pátria, criando leis e estabelecendo a ordem. A
consolidação das Cortes deu-se pelo exercício dos deputados que atuavam, de modo geral,
pela unidade do reino, sustentando que: ―a soberania reside essencialmente em a nação‖
(Bases da Constituição, 1822, s.n.).

2
De acordo com Neves (2003, p. 62), as profissões e/ou atividades reconhecidas na época, tais como:
proprietário de terra, negociante, médico, militar, professor e sacerdote pertenciam, grosso modo, à uma elite
local; outras profissões poderiam significar o ingresso ou reconhecimento como integrante de uma elite política
de maior alcance: advogado, militar, funcionário público...
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3. O Maranhão na Câmara dos Deputados (1826) 3

Pelos laços que a uniam a Portugal, a província do Maranhão manteve-se presente nas
Cortes portuguesas até o seu fechamento, razão pela qual não compôs a Assembleia
Constituinte de 1823. Em 1826, a presença de deputados maranhenses na Assembleia Geral
Legislativa do Brasil configura uma nova etapa de reconhecimento do centro de autoridade,
agora situado no Rio de Janeiro.
Em geral, a Assembleia Geral era formada por dois órgãos, a Câmara e o Senado. Para
analisar a atuação dos representantes do Maranhão, detenho-me ao funcionamento somente da
câmara dos deputados a partir das informações mapeadas nos Anais.
Compôs a bancada maranhense os deputados Odorico Mendes, Gonçalves Martins,
Bráulio Muniz e Telles da Silva Lobo. Tais personagens participaram da movimentação
política em São Luís, desde a composição do corpo político local à atuação na produção do
jornal Argos da Lei.
O Maranhão foi a última província a eleger representantes para a Assembleia Geral,
em consequência do gradativo restabelecimento e reconhecimento da capital, São Luís, como
interlocutora da província junto à corte e do longo processo eleitoral (GALVES, 2013, p. 9).
O parlamento, agora no Brasil, torna-se o espaço de sociabilidades políticas com foco
na construção e ordenamento da nação, ou seja, instrumento de uma instância reguladora dos
problemas em relação à situação político-econômica e social. De acordo com Andréa
Slemian:

O espaço da produção legislativa revelou-se como central para compreensão


do problema, pois que ele nascia sob um novo ideal de representação política
– alicerçado na concepção revolucionária de que a ―lei‖ criaria ―Direito‖ e
não o contrário – que adquiriu a legitimidade necessária para falar em nome
da nação (SLEMIAN, 2006, p. 02).

Ainda na concepção de Slemian (2006, p. 82), o texto constitucional de 1824


configura-se como um dos eixos para discutir a organização política e administrativa do
Império. A Constituição, nesse processo, é como expressão de um pacto feito pelas vontades,
individuais ou coletivas, que fundariam a nação.
Em 1825, o Maranhão retoma a atuação política representativa com a eleição de quatro
deputados para a Assembleia Geral: Francisco Gonçalves Martins, João Bráulio Muniz;
Manuel Telles da Silva Lobo e Manuel Odorico Mendes. Tais deputados permanecem pouco

3
Este tema está em desenvolvimento inicial no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade
Federal do Maranhão (UFMA). Por esse motivo, apresento breves considerações.
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explorados nas análises sobre a incorporação e representação política do Maranhão no novo


centro de autoridade política.
Uma análise especifica, voltada para a bancada imperial maranhense pondo em foco
questionamentos sobre os benefícios obtidos pela província com tal representação política.
Nesse sentido, é possível perceber se a bancada estava unida a favor dos interesses do
Maranhão ou do império enquanto nação em construção.
O processo eleitoral dos deputados é outro ponto de discussão neste trabalho, uma vez
que a província se encontrava em constante movimentação política entre a capital, São Luís, e
as demais localidades. Assim, as eleições constituíram um processo longo e tardio, marcado
por acirramentos entre a capital e as câmaras das vilas.
Os representantes maranhenses percorreram um demorado processo eleitoral, ocorrido
nos primeiros meses de 1825. O movimento de incorporação da província ao Império e o
reordenamento político é parte significativa para a demora das eleições. Para Galves (2013, p.
10): a instabilidade política que marcara a província desde a incorporação ao Império talvez
justificasse os receios das câmaras em iniciar um processo eleitoral.
Soberania da nação e a condição de ser brasileiro são duas fortes características
resultantes da renúncia da unidade Brasil-Portugal, que suscitou a representação nacional,
uma vez que primeira deputação maranhense era inteiramente a favor do ―partido brasileiro‖
(BOTELHO, 2017, p. 81).
A historiadora Andréa Slemian (2006, p. 02) destaca que a viabilização da estrutura do
novo Estado do Brasil é resultado da representação política no espaço legislativo e dos
desdobramentos da administração na criação de leis, visto por Slemian como pilar de
sustentação do Império.
Nos Anais da Câmara, é possivel acompanhar os pronunciamentos, declaração de
voto, emendas, projetos de lei e discussões gerais do parlamento. Além disso, há a quantidade
e os nomes dos deputados presente e ausentes. Assim, o mapeamento da presença da bancada
maranhense e os pronunciamento e participação nas discussões podem ser acompanhas. Em
geral, a atuação dos deputados do Maranhão remete particularides, pois a atuação de Odorico
Mendes é mais ativa, verificavel a partir dos pronunciamentos nas sessões parlamentares.
Milson Coutinho (2007) na obra, A presença do Maranhão nas Câmaras dos
Deputados 1826-2006, destaca em breves paragráfos e considerações a política do Brasil
partindo da primeira constituinte brasileira e a sua dissolução. Em geral, o autor não aborda
aspectos específicos sobre a atuação dos deputados eleitos para o Parlamento brasileiro,
52
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apenas esboça temas gerais que foram recorrentes durante a primeira legislatura, de 1826 a
1829, ou melhor, curtas notas biobibliográficas.
Considero que as considerações do autor necessitam de observações mais atentas por
parte dos historiadores do Maranhão aos debates, temas e discussões em volta dos deputados.
A narrativa de Coutinho é superficial diante da complexidade do estudo do político e das
relações de poder, tomando como ponto central o processo de eleição, papel da imprensa,
grupos políticos conservadores e liberais, a criação do novo centro de autoridade política no
Rio de Janeiro e os discursos políticos dos representantes maranhenses registrados nos Anais
da Câmara.
Com rápidas e diretas considerações, Coutinho (2007, p. 17) apresenta os nomes dos
deputados eleitos no Maranhão e em seguida destaca uma nota sobre o momento político da
província em 1823: ―Notas – O Maranhão não teve representantes na Assembleia Constituinte
de 1823, porque estava às voltas com as guerras da Independência e, em seguida, com as
sangrentas ―brucinadas‖, patrocinadas pelo presidente da província, o provisionado Miguel
Inácio dos Santos Freire e Bruce‖.
Chama atenção o fato de Coutinho apresentar tal afirmação de forma clara e direta. A
problematização do recente fechamento das Cortes lisboetas e a forte ligação com o Maranhão
pela presença dos deputados não constitui um aspecto, ou não pensado, pelo autor. Nesse
sentido, cabe lembrar que se trata de um processo político com interesses ligados a distintos
grupos.
Sem apresentar dados e documentações específicas, afirma Coutinho (p. 17) na mesma
nota: ―os fatos mais importantes ocorridos na 1º legislatura foram: criação dos cursos
jurídicos em São Paulo e Olinda, votação do Código Criminal do Império e formação do
Partido Liberal‖. As futuras observações sobre tais fatos possibilitam o desenvolvimento da
ideia de nascimento de nação brasileira na nova configuração política da época.

Considerações Finais

Neste trabalho, tomei como referência a política vintista no Maranhão, centrada na


década de 1820, para analisar a movimentação política na província do Maranhão, no âmbito
da instalação das Cortes constitucionais portuguesas e mais tarde com a Assembleia Geral.
Vintismo, imprensa, eleições provinciais e considerações iniciais sobre os deputados eleitos
para o Parlamento brasileiro, estiveram no centro das minhas preocupações.
Nesse sentido, reitero que a província do Maranhão passava por transformações no
espaço da política, e viveu novas formas de sociabilidade e de organização social. De acordo
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com Marco Morel (2005, p. 223): ―as transformações tratam-se, portanto, de uma época
marcadamente hibrida entre práticas e valores consagrados no que passava a se chamar de
Antigo Regime e outros, que se pretendiam modernos‖.
Com a Revolução do Porto em 1820 e os efeitos do período do vintismo na política
maranhense desde abril de 1821, a inserção das ideias liberais nos impressos do Maranhão e a
formação de espaços públicos de representação política agitaram a cidade de São Luís,
sempre em conexão com Lisboa, a quem se manteve fiel após o ―7 de setembro‖.
Conforme já fora mencionado, a produção historiográfica maranhense sobre a política
vintista carece de pesquisas, análises e observações no contexto da política da província do
Maranhão nas três décadas iniciais do século XIX. Nesse sentido, o trabalho sobre o
deputados do Maranhão nas Cortes portuguesas compreende importante detalhamento das
dinamicas e estratégias de ligações políticas entre os dois lados do Atlântico. Aponto que
reunião dos cidadãos políticos privilegiou o conhecimento do império português dos seus
dominios além-mar. Por outro lado, produziu fisuras entre as elites políticas regionais no
Brasil, assim como, do processo de recolonização do partido português.
Nessa perspectiva, a história política do Maranhão da década de 1820 nos possibilita
conhecer o universo das disputas entre grupos antagônicos, a inserção dos elementos de
modernidade e representação política e dos debates em torno dos rumos do Império do Brasil.
Dessa forma, a atuação dos deputados maranhenses na Câmara servirá como ponto de
referência para análise das relações centro/província, em tempos de construção do Estado
nacional.

REFERÊNCIAS

Documentos:

a) Impressos:

- Documentos Oficiais

Bases da Constituição da Monarquia Portuguesa (1821).

Anais da Câmara dos Deputados 1826 – 1829

Bibliografia:

BERBEL, Márcia Regina. A Nação como Artefato: deputados do Brasil nas Cortes
Portuguesas, 1821-1822. São Paulo: Hucitec: Fapesp, 1999.
54
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______. A Constituição Espanhola no Mundo Luso-Americano (1820-1823). Revista de


Índias, vol. LXVIII, nº 242, 2008, p. 225-254.

BOTELHO. Yane Silva. “O jus de governar já não se herda”: Manuel Odorico Mendes e
seu projeto de nação brasileira (1825-1833). 162f. Dissertação de Mestrado - Programa de
Pós-graduação em História da Universidade Federal do Maranhão, 2017.

COSTA, Yuri; GALVES, Marcelo Cheche, O Epaminondas Americano: trajetórias de um


advogado português na Província do Maranhão. São Luís: Café & Lápis; Editora UEMA,
2011.

COUTINHO, Milson. A presença do Maranhão na Câmara dos Deputados 1826-2006:


notas biobibliográficas. São Luís: Edições Legenda, 2007.

GALVES, Marcelo Cheche. Entre o centro e a província: a primeira eleição para deputado
geral no Maranhão pós-independência. Cad. Pesq., São Luís, v. 20, nº 1, janeiro/abril, 2003.

MOREL, Marco. As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e


sociabilidades imperiais (1820-1840). São Paulo: Hucitec, 2005.

NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Corcundas e Constitucionais: cultura e política
(1820-1822). Rio de Janeiro: Revan: FAPERJ, 2003.

PIMENTA, João Paulo. A independência do Brasil e a experiência hispano- americana


(1808-1822). São Paulo: Hucitec/Fapesp, 2015.

SLEMIAN, Andréa. Sob o império das leis: Constituição e unidade nacional na formação do
Brasil (1822-1834). 339f. Tese de Doutorado – Programa de Pós-Graduação em História
Social da Universidade de São Paulo. 2006.

VERDELHO, Telmo dos Santos. As palavras e as ideias na Revolução Liberal de 1820.


Coimbra: INIC, 1981.
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“NEM HERÓIS NEM BANDIDOS”: a Balaiada como revolta popular

NEY FARIAS CARDOSO1

1. Introdução

É impossível estudar o período das Regências – que governaram o Brasil logo após a
abdicação de Dom Pedro I – sem separá-lo do conjunto das revoltas que ocorreram no país. A
Cabanagem, na província do Grão-Pará, e a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul,
foram vistas como a consequência máxima do ―abismo‖ existente entre os políticos da capital
do Império, o Rio de Janeiro, e os das províncias (JANOTTI, 1987, p. 09). Cada uma, à sua
maneira, afetou o cenário nacional e chegou mesmo a atemorizar as elites centralizadas na
corte. A Balaiada (1838-1841) foi outro exemplo de importância relevante nesse cenário que
se configura a partir da independência política brasileira, em 1822.
Que razões levaram os bem-te-vis a enfrentar os cabanos situacionistas interior do
Maranhão afora e também em parte do Ceará e do Piauí? Araújo (2008, p. 93) aponta,
inicialmente, o ―recrutamento forçado‖, quando ―os humilhados na sua pobreza (...), vendo-se
obrigados a sobreviver escondidos nos matos‖, eram obrigados a prestar serviços para a corte.
Então, em 13 de dezembro de 1838, Raimundo Gomes Vieira Jutahy e um grupo de amigos
(todos vaqueiros iguais a ele) protagonizaram a invasão da cadeia na Vila da Manga, em 13 de
dezembro de 1838 – e assim puseram em marcha toda uma série de guerrilhas.
Segundo Assunção (2008, p. 20), o recrutamento compulsório era a ―arma predileta
para perseguir inimigos políticos, sobretudo, depois da substituição dos juízes de paz (eleitos)
pelos prefeitos, no exercício desta responsabilidade‖. No entanto, como se viu no ataque à
cadeia, havia aqueles que não pretendiam se conformar com os mandos e desmandos do
establishment conservador. Esse inconformismo gerou revoltas, que brotaram praticamente

1
Graduando do curso de História da Universidade Estadual do Maranhão (Uema). E-mail:
neyfariascardoso@gmail.com.
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em todo o país. Para eliminar esses focos de insurreição, mais recrutamentos eram postos em
prática – um círculo vicioso que comprometia a viabilidade do Brasil imperial.
Não visão de Santos (2010, p. 185), ―os rebeldes, na sua grande maioria, pertenciam à
mais humilde das camadas sociais: eram lavradores, vaqueiros, agregados, artesãos,
desertores e indivíduos desocupados. Estes foram justamente os mais injustiçados, e pela
própria condição de miséria em que viviam, as maiores vítimas das arbitrariedades e das
impunidades. Por isso entendemos que a Balaiada, enquanto movimento de revolta, foi uma
resposta à violência e à opressão do momento‖. Ainda mais por terem, os revoltosos, se valido
das ideias liberais que predominavam na época (DOLHNIKOFF, 2017) 2.
Por sua vez, Amaral (1898) destaca a famigerada ―Lei dos Prefeitos e Subprefeitos‖.
Proposta pelo então presidente Vicente Thomaz Pires de Figueiredo Camargo, dava poderes
absolutos a pessoas indicadas pela regência de Araújo Lima. Esses poderes muitas vezes eram
traduzidos em castigos e humilhações a opositores.
Meireles (2015, p. 300) define o levante como ―uma erupção de velhos ódios
recalcados, por parte de colonos humilhados e explorados que, sem orientação, sem um
objetivo preconcebido, envenenados pela demagogia de uma oposição política desabrida,
atiraram-se à luta, como num estouro de boiada, quando se reconheceram ludibriados pela
Independência, que fora um mito, uma miragem que não satisfizera a seus elementares
anseios de liberdade, de igualdade e de fraternidade‖. Até porque a oligarquia que se formou
após o Brasil se tornar independente não viu razão alguma para que se enfraquecesse ou
mesmo desaparecesse ―a estrutura tradicional de produção baseada na grande propriedade, na
escravidão e na exportação de produtos tropicais‖ (COSTA, 2010, p. 60).
Antes de a Balaiada eclodir, as condições de miséria e opressão na província podiam
ser consideradas insustentáveis. Os grupos que mais sofriam eram os trabalhadores livres,
camponeses, vaqueiros e escravos. Profissionais liberais locais, igualmente descontentes,
passaram a reivindicar alterações nas regras das eleições, e assim estes setores viram-se
atrelados a um mesmo objetivo: a mobilização contra as graves injustiças que se repetiam no
Maranhão.

2
A historiadora Emília Viotti da Costa adverte, no entanto, que o liberalismo brasileiro só pode ser entendido
com referência à realidade brasileira. Os liberais brasileiros adaptaram os princípios liberais conforme suas
próprias necessidades (COSTA, 2010, p. 134).
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As Classes Subalternas

A História Social postula uma ―história vista de baixo‖, ou seja, abordagens teórico-
metodológicas propostas por historiadores como Edward Palmer Thompson – representante
da história social inglesa – que não vão mais se concentrar na história contada a partir da
visão das elites e sim ouvirão as classes subalternas, ou seja, homens e mulheres geralmente
ignorados pela historiografia em razão de pertencerem às camadas mais humildes da pirâmide
social3.
Em artigo no qual aponta ―significados e caminhos‖ para a História Social, Barros
(2005) trata dos personagens dessa história vista de baixo:

No dia a dia, as massas populares são informes: executam como que


emudecidas as tarefas que lhes permitirão assegurar a sua sobrevivência
diária. A História conhece os camponeses do final da Idade Média, os
operários urbanos das sociedades industriais, os escravos do Brasil colonial...
sempre através dos registros massivos, o número de filhos, a morte, a
ocupação, e as modalidades de pertencimento (a um senhorio na Idade
Média ou a uma indústria no mundo capitalista). Nestes momentos, as
massas falam à História através de números que registram a sua laboriosa e
sofrida passividade. Mas quando ocorre um motim, uma insurreição, um
protesto público, pela primeira vez a massa de despossuídos será ouvida não
através da passividade dos números silenciosos, e sim através dos gestos
violentos e ruidosos (BARROS, 2005, p. 20).

O trecho em destaque do texto de Barros aplica-se a movimentos sociais como a


Balaiada. Em dado momento, essas massas, até então sujeitas às normas impostas pelas elites,
se sublevaram como reação às arbitrariedades e opressões. Os registros das ações dos rebeldes
balaios foram feitos especialmente pelos agentes da repressão.
Durante o período regencial (1831-1840), as insurreições que transformaram o interior
brasileiro em um barril de pólvora tiveram causas diversas. No Pará, os cabanos (não
confundir com os do Maranhão, na época) e a parte pobre da província se revoltaram com a
falta de trabalho e condições quase inexistentes de sobrevivência. Uniram-se a fazendeiros e
comerciantes, que estavam insatisfeitos por serem mantidos à distância das decisões político-
administrativas. No Rio Grande do Sul, os farroupilhas bateram-se contra os altos impostos
cobrados no comércio de couro e charque, ao mesmo tempo em que eram contrários à entrada
desses produtos de outros países. Como se vê, nenhum motim prospera ou mesmo tem início
se não oferecer uma consistente pauta de reivindicações. A Balaiada apresentou as suas.

3
As Jornadas de Junho de 2013 e a greve dos caminhoneiros (Crise do Diesel) de 2018, no Brasil, por terem
apresentado uma pauta contrária à corrupção e reativa a condições socioeconômicas adversas, são claramente
objetos de análise para a História Social.
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Rebeldes, mas não Primitivos

Eric Hobsbawm (1970), acerca de movimentos sociais, menciona o ―banditismo


social‖ – em que se poderia inserir a Balaiada, posto que,

[...] fenômeno universal e que permanece virtualmente igual a si mesmo, é


pouco mais que uma proposta endêmica do camponês contra a opressão e a
pobreza: um grito de vingança contra o rico e os opressores, um sonho
confuso de pôr algum limite a suas arbitrariedades. Suas ambições são
poucas: quer um mundo tradicional em os homens tenham justiça, não um
mundo novo e com laivos de perfeição. Converte-se em epidêmico, mas
também endêmico, quando una sociedade camponesa que não conhece outra
forma melhor de autodefesa se encontra em condições de tensão e
marginalização anormais. O bandoleirismo social carece praticamente de
organização ou de ideologia, e resulta por completo inadaptável aos
movimentos sociais modernos. Suas formas mais desenvolvidas, que lidam
com a guerra nacional de guerrilhas, resultam, por si mesmas, ineficazes
(HOBSBAWM, 1970, p. 16).

―Ineficazes‖ porque – no contexto brasileiro – a oligarquia, desde a sua formação,


mostrou-se pouco ou mesmo nem um pouco tolerante para com aqueles que viriam a se erguer
contrários aos seus desmandos. A partir desse momento, a elite assumiu um comportamento
ainda mais conservador e buscou de imediato, ―parar o carro revolucionário‖ (COSTA, 2010,
p. 12). O que ocorre em seguida pode ser aplicado a todas as províncias marcadas por levantes
ou insurreições: a Guarda Nacional, criada pela regência, foi colocada à disposição dos
governantes locais para reprimir os levantes. Contou com o apoio do Exército, e juntos
garantiram a consolidação do controle oligárquico.
Todavia, mesmo colocada no rol das rebeliões exemplarmente sufocadas, a Balaiada
não deixou de ―dar o seu recado‖ aos ―donos do poder‖. Os ―bandoleiros‖ maranhenses
puderam contar com os quilombos que já existiam bem antes dos eventos ocorridos na Vila da
Manga. A guerra em si promove o surgimento de outros. Segundo Assunção (2008), o de Dom
Cosme, na Lagoa Amarela (a Chapadinha atual), foi o mais importante. Para o autor de ―A
guerra dos Bem-te-vis‖, no instante mais crucial do movimento, o ―Zumbi maranhense‖
chegou a comandar 3.000 quilombolas, ―verdadeiro exército negro‖.
Mas o que chama realmente a atenção de quantos se debruçam sobre os textos,
trabalhos e análises acerca da Balaiada é que a historiografia conservadora fez o possível para
diminuir a dimensão política do movimento – começando por depreciar um dos líderes,
Raimundo Gomes, tanto psicológica quanto fisicamente.
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Gonçalves de Magalhães, auxiliar de primeira hora do futuro duque de Caxias, assim


se referiu ao comandante balaio quando da apresentação do ―facínora‖ após sua captura e
prisão: ―Insignificante é a sua figura; quase negro, a que chamamos fula, baixo, grosso, pernas
arqueadas, testa larga e achatada, olhar tímido e vacilante, pouco atilado de entendimento, voz
baixa e humilde, nenhuma audácia de conquistador; e posto fosse o chefe dos sediciosos,
mais obedecia que mandava‖ (MAGALHÃES, 2001, p. 123-24, grifo nosso).
A ausência de ―audácia de conquistador‖ em destaque foi utilizada para apontar o
relativo equívoco na observação de Magalhães. Raimundo Gomes era o típico vaqueiro,
tangendo o gado pelo sertão maranhense, a serviço do padre Inácio Mendes de Moraes e Silva
(a quem, aliás, se atribui a ―orientação intelectual‖ do levante). Entretanto, qualquer
movimentação radical, de cunho sociopolítico, independe apenas dos aspectos físicos ou
biológicos.
Talvez Magalhães não tivesse ciência disso, mas os balaios também se preocuparam
com a educação oferecida às massas de que provieram. Costa (2001) declara, a respeito do
mais famoso dos líderes da insurreição:

O preto Cosme, dom Bento Cosme das Chagas, Tutor e Imperador das
Liberdades Bem-te-vis, como se intitulava, fugira da cadeia de São Luís e
fundara um quilombo. O autocoroado imperador fazia proclamações, concedia
patentes e cartas de alforria para os que achasse que mereciam; nomeava seus
súditos para os diversos postos que criou. Dizem que fora até metido em
feitiçaria. O certo é que era muito respeitado entre todos os pretos. Chegou
mesmo a estabelecer no seu quilombo uma escola de ler e escrever. Vejam só,
em 1840, no interior do Maranhão, uma escola! (COSTA, 2001, p. )

Em outras palavras: rebeldes sim, mas não primitivos. Quando se observa mais uma
vez o relevante papel exercido pelos quilombos antes e durante a Balaiada (e dentro do
próprio sistema escravista), concorda-se que representaram, de fato, enquanto movimento de
reação, um incômodo relevante ao poder oligárquico. E sua organização propiciou sua
amplitude, ou seja, não abrigou apenas os negros fugidos. Valeram-se dele ―índios
perseguidos, mulatos, curibocas, pessoas perseguidas pela polícia em geral, bandoleiros,
devedores do fisco, fugitivos do serviço militar, mulheres sem profissão, brancos pobres e
prostitutas‖ (MOURA, 1992, p. 25).
Os revoltosos também surpreendiam com seus manifestos. Esses documentos, entre
outras reinvindicações, solicitavam a revogação da Lei dos Prefeitos e da que criara a Guarda
Nacional e a expulsão dos portugueses natos (solteiros) e restrição dos direitos dos que
houvessem se naturalizado (MEIRELES, 2015, p. 303-304).
60
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O rebelde balaio também se mostrou arrojado. Foi inútil a Raimundo Gomes tentar a
libertação de seu irmão José Gonçalves junto ao juiz de paz da Vila da Manga. Gonçalves era
acusado de cometer assassinato e, de acordo com o magistrado, só retornaria ao ―convívio
social‖ caso um júri o absolvesse. Diante de tamanha inflexibilidade – ainda que correta, na
letra fria da lei – Raimundo prometeu retornar no dia seguinte para arrancar à força o irmão da
delegacia (OTÁVIO, 2001, p. 28).
Promessa feita, promessa cumprida. E a Vila da Manga acabou por ficar conhecida
dali em diante como ―terra natal‖ da Balaiada.
Os revoltosos foram imediatamente combatidos pelas forças repressoras do Estado. O
presidente Vicente Thomaz Pires de Figueiredo Camargo, sem perda de tempo, ordenou que
200 homens de linha pacificassem a vila.
A derrota, evidente, não pôs fim à Balaiada. Os insurgentes aos poucos voltaram a se
reunir e, após retornarem as investidas no interior, promoveram o cerco e conquista de Caxias,
em 1839. Otávio (2001)4, apresenta o depoimento de um militar que participou do cerco de
Caxias, que assim resume a batalha:

Foi uma luta incessante que durou quarenta e seis dias, não respeitando a
noite, nem cedendo mesmo à impetuosidade da chuva que, por vezes, caiu
copiosa durante o cerco. O inimigo crescia todos os dias, ao passo que o
efetivo das forças sitiadas, que não podiam receber reforços, todos os dias
diminuía, por numerosas baixas. (...) escasseavam os víveres na cidade, ao
passo que aos sitiantes havia ficado livre campo para as rapinas. Assim era
fatal que Caxias, dentro em pouco, se visse na necessidade de se render
(OTÁVIO, 2001, p. 25).

Por fim, houve um momento em que o império – ou a regência de Araújo Lima –


decidiu colocar um ponto final ao movimento. De acordo Assunção (2008, p. 24), ―a vinda de
Luiz Alves de Lima, em fevereiro de 1840, coincide com a fase descendente da luta, o que
tem servido para engrandecer o futuro Duque de Caxias e patrono do Exército‖. É quando o
coronel assume o cargo de presidente da província e comandante das Armas do Maranhão.
Nesse momento, ele começa a montar as estratégias que terão o objetivo de sufocar os
amotinados.

Considerações Finais

Em janeiro de 1841, estava encerrada a Balaiada – com a prisão e posterior morte de


suas principais lideranças. Foi um movimento de abrangência regional, pois estendeu-se pelo

4
O depoimento do militar Ricardo Leão Sabino foi obtido pelo pesquisador Rodrigo Otávio, na década de 1890.
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Piauí e Ceará. No entanto, teve o Maranhão como epicentro – em razão de terem ocorrido por
aqui os principais episódios. Por onde se alastrou, a atividade dos balaios (reconhecida como
―bandoleirismo social‖) arregimentou milhares de seguidores e assumiu o controle de áreas
relevantes do interior maranhense – ainda que tenha resultado ineficaz, por ter sido duramente
reprimida pelo Estado. No entanto, a sua duração foi uma prova de que representou de fato
uma ameaça ao governo provincial, especialmente com a conquista de Caxias, então a
principal cidade do interior. Sucessivas vitórias, por fim, exigiram intervenção violenta das
forças militares para ser subjugada.
Organizados (daí a conclusão de que fossem rebeldes, mas não primitivos), com armas
nas mãos, escravos e pobres batalharam para exigir mudança de vida. A presença de grupos
heterogêneos na revolta, porém, revelou as contradições do movimento. Ideologias
divergentes prepararam seu fim para a espada governamental, representada pela figura do
coronel Luiz Alves de Lima e Silva. Segundo os registros sobre as perdas de vida dos balaios,
muitas delas em forma de execuções sumárias, há indicativos de cerca de pelo menos 10.000
civis, entre crianças e adultos (ASSUNÇÃO, 2008, p. 25), quando o governo tratou de
―pacificar‖ a província.
Talvez a matança tivesse sido maior se os ―bandoleiros‖ sertanejos tivessem ideais
separatistas. Pelo contrário: em algumas de suas proclamações, os balaios desejavam um
―Brasil de brasileiros‖. Com o império resguardado, mas sem portugueses, natos ou
descendentes, a explorá-los e oprimi-los. ―Tudo isso merece acatamento‖, no dizer de Astolfo
Serra (2008), mas nada disso foi acatado, nem levado em consideração, no instante da chacina
final.
Enquanto durou, a revolta – mesmo que desorganizada e em muitos casos facilmente
desbaratada – foi a única forma de reação encontrada por figuras humildes, vilipendiadas por
circunstâncias que geralmente costumam vitimar quem se encontra na base da pirâmide
social. Portanto, a conclusão do presente artigo não pode ser outra: os revoltosos que
compuseram a Balaiada não eram ―nem bandidos nem heróis‖: valendo-se das ideias liberais
que predominavam na época, eles buscaram mostrar, de forma radical, a insatisfação com suas
condições de existência.

REFERÊNCIAS

AMARAL, José Ribeiro do. Apontamentos para a história da revolução da Balaiada na


província do Maranhão (1837-1839). São Luís: Tipografia Teixeira, 1898.
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desfecho-com-o-duque/. Acesso em 29 dez. 2018.

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Revista de História da UFOP. Ouro Preto, nº 15, 2005.

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revolta. São Luís: Editora UEMA, 2010.

SERRA, Astolfo. A Balaiada. São Luís: Instituto Geia, 2008.


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MEMÓRIAS DA CIDADE: educação e preservação através do Mirante, Ruínas e Memorial


da Balaiada de Caxias-MA

REINILDA DE OLIVEIRA SANTOS1

1. Museu da Balaiada de Caxias-MA

O Memorial da Balaiada foi criado em 26 de junho de 2004 e restaurado em maio de


2014. O espaço é um centro educativo-cultural, que apresenta uma versão do ponto de vista
dos Balaios, da revolta da Balaiada, ocorrida entre 1838 e 1840 no Maranhão. O museu tem
como objetivo principal conservar em sua exposição materiais referente à Guerra da Balaiada
e a seus principais personagens. Para isso, apresenta uma sala de exposição permanente de um
acervo de importante caráter histórico e material arqueológico.

O sítio histórico do Morro do Alecrim retrata bem o patrimônio histórico de


Caxias. As ruínas do forte que abrigou primeiramente as forças legalistas do
Norte durante o movimento de adesão dos portugueses a independência do
Brasil hoje apresentam as duas visões, a dos vencedores através da praça
Duque de Caxias e dos vencidos com a construção do memorial da Balaiada.
(Entrevista com Wybson Carvalho, 2018).

O Memorial tem a preocupação de retrata a história da guerra da Balaiada, ocorrida


entre 1838 e 1840, uma das maiores e mais significativas rebeliões populares já registradas em
terras do Maranhão e com forte repercussão em todo o país. O espaço foi pensado por
pesquisadores, professores e alunos e materializado através de parceria entre o Banco da
Amazônia e a prefeitura da cidade, via secretaria de cultura e entregue para a sociedade em 26
de junho de 2004, passando por restauração em maio de 2014. Ele fica localizado no antigo

1
Mestra em História, Ensino e Narrativa pelo Programa de Pós-Graduação em História, Ensino e Narrativa
(PPGHEN−UEMA), atual PPGHIST. Licenciada em História pela UEMA. Membro do Núcleo de Estudos,
Pesquisa e Extensão sobre a África e o Sul Global – NEÁfrica (UFMA/UEMA). Email:
Reinilda.oliver@folha.com.br.
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Quartel de Polícia, local que abrigou as tropas do português José da Cunha Fidiê e de Duque
de Caxias.
Imagem1: Ruínas do antigo Quartel de Polícia

Fonte: Própria.

Atualmente, possui uma exposição permanente, de perfil histórico, abrangendo a vida


dos balaios, os seus líderes e a cidade de Caxias na época do conflito, sendo composto por
uma biblioteca, um centro de documentação e um laboratório de restauração de textos antigos.
Parte do acervo do museu foi adquirida através de prospecção e pesquisa, coordenada pelo
arqueólogo Deusdedit Carneiro Filho, diretor do Centro de Pesquisa de História Natural e
Arqueologia do Maranhão, com apoio de professores e alunos do Curso de História do Centro
de Estudos Superiores de Caxias.
O museu conta com um acervo de 350 peças de artefatos arqueológicos e restos de
armamentos, balas de chumbo, projéteis, botões e fivelas dos militares e dos homens e
mulheres que fizeram a revolta, além de um acervo eclético de peças de mobiliário, prataria,
telas, uma maquete de Deuziano Gomes, um painel em xilogravura da artista plástica Tita do
Rêgo Silva e esculturas em argila dos principais líderes da Balaiada. Além de uma réplica de
morada de taipa e elementos quem compõe uma sala de jantar portuguesa; com piano de
parede, louças, mobília, oratório e cadeiras de descanso.
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Imagem 2: Peças do acervo do Museu da Balaiada

Fonte: Própria.

Em entrevista, Mercilene Torres (2018), atual diretora do museu, destaca que a nossa
escolarização e de muitas pessoas passou por heróis que hoje o museu tem o papel de
repensar o papel deles no movimento. E quando o visitante chega, ele tem contato direto com
os objetos que ―contam a história e nos dizemos que os objetos falam, então e no momento
que interagimos que eles podem fazer a contação dessa história, então nos mostramos os dois
lados, dos vencidos, que para nós são os vencedores e dos vencedores‖. Ela frisa ainda a
importância do espaço e o grande interesse do público em conhecer os fatos da história da
cidade e que tem um público anual de mais de 20 mil visitantes. Além de guardar objetos dos
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séculos XIX e XX, o memorial tem documentações de grande importância para os estudantes
e pesquisadores que desejam conhecer e ampliar o conhecimento sobre a guerra da Balaiada.
O memorial recebe diariamente alunos das escolas municipais, estaduais e particulares,
universitários e pesquisadores, assim como turistas brasileiros e estrangeiros.

Imagem 3: Fachada do Memorial

Fonte: Própria.

A Guerra da Balaiada se iniciou por questões políticas entre partidos, mas acabou por
ser assumida por vaqueiros e homens sem posses em geral que lutavam contra o recrutamento
forçado para as forças militares e contra os desmandos de chefes políticos locais e,
finalmente, por quilombolas. O movimento teve como principais líderes Cosme Bento das
Chagas (Negro Cosme), Raimundo Gomes Vieira (o Cara Preta) e Lívio Lopes Castelo
Branco e Silva, que estão representados em estátuas fora do memorial, em frete a Praça
Duque de Caxias, como uma forma de confrontar a memória oficial.

Imagem 4: Líderes movimento da Balaiada

Fonte: Própria.
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O museu, enquanto espaço de memória, guarda a história do movimento dos balaios,


sob o olhar dos balaios, caboclos, artesãos, vaqueiros, pequenos lavradores, negros
alforriados, escravos, mestiços e brancos pobres da história da revolta. Vale destacar que
durante muito tempo, as interpretações que permeavam o imaginário social os viam de forma
extremamente negativa, atribuindo-lhes características como ladrões baderneiros e bandidos.
Além do museu, as ruínas do referido movimento complementam e enriquecem ainda
mais a história. O espaço é conhecido por distintas nomenclaturas, Ruínas do Forte da Guerra
da Balaiada; Ruínas do Forte da Revolta da Balaiada; Ruínas do Forte do Morro do Alecrim;
Ruínas do Quartel do Morro do Alecrim; Ruínas do Quartel de Fidié. E representa uma das
poucas fortificações em terra construídas no Brasil, cujos vestígios ainda são aparentes.
O antigo quartel foi edificado no ano de 1823, construído de pedra de calcário e cal,
em formato retangular. Foi ocupado em 1840 pelos soldados, conhecidos como tropa legalista
do Norte, conduzidos por José Alves de Lima e Silva, durante o conflito da Balaiada,
movimento ocorrido no século XIX entre os anos de 1839 e 1841. Em 1997, devido à
degradação, uma parte das ruínas foi reconstruída, com o acompanhamento técnico do
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e coordenada pelo
arqueólogo Deusdedit Carneiro Filho, diretor do Centro de Pesquisa de História Natural e
Arqueologia do Maranhão.

Imagem 5: Ruínas do morro do alecrim

Fonte: Própria.

Segundo Pontes (2012), a ruína, considerada resquícios e testemunho mutilado do


monumento, conota por si própria a necessidade de preservação e deve ter suas ações de
intervenção direta restrita apenas à consolidação e à conservação do contexto do monumento,
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uma vez que sua preservação também implica priorização de sua instância histórica, ou seja,
do seu trajeto temporal.

O morro do Alecrim é para quem lá correr, o turista, o pesquisador ou o


visitante curioso, ter a sua versão sobre essas duas partes, a Praça Duque de
Caxias, retratando a história, o comportamento dos vencedores e o memorial
da Balaiada é a outra parte, é a ótica sobre os vencidos. Os caxienses
cotidianamente sentem-se representado quando olham para as ruínas do
antigo forte que abrigou as forças legalista do Norte no primeiro grande
momento histórico de Caxias. Então os caxienses, ao olhar aquelas ruínas
aguçam o que está afixado às suas memórias sobre esses dois momentos. A
adesão dos portugueses a independência do Brasil e a grande revolta
políticos e social ocorrida no Maranhão no período de 1838 a 1841 a revolta
da Balaiada. (Entrevista com Wybson Carvalho, 2018).

Recentemente, um mirante foi anexado ao Memorial da Balaiada, foi inaugurado em


2018, sendo o novo cartão postal da cidade de Caxias e está localizado no Morro do
Alecrim. O mirante forma um complexo turístico, cultural e educacional juntamente com o
memorial e as ruínas da balaiada. No contexto do movimento, o local era estratégico, por
ser alto e permitir uma visão mais ampla da cidade e foi utilizado como forma de vigiar e
proteger o forte contra os balaios. Atualmente o espaço recebe visitante da cidade, dos
municípios vizinhos e de outros lugares, sobretudo no final da tarde, para admirar o pôr do
sol.

Imagem 6: Mirante da Balaiada


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Fonte: Própria.

2. Educação e preservação através de lugares de memória

Os lugares, tidos como produtos, testemunhos do vivido, deixam marcas indeléveis,


assim, o complexo cultural e educacional do Morro do Alecrim se configura como a
materialização do vivido e atualmente é uma parada obrigatória para as escolas da cidade de
Caxias. O espaço desempenha papel importante na medida em que desconstrói um imaginário
em relação ao movimento da Balaiada, a tampos arraigado à memória coletiva. É interessante
frisar que há um contraponto entre a história materializado através do museu, espaço dos
vencidos, e da praça duque de Caxias, espaço dos vencedores que está localizada em frente ao
Museu.
Os espaços estão inebriados de história, de afetividades e relação de pertencimento e
são de fundamental importância para a criação de uma memória coletiva. Pierre Nora, na sua
definição de Lugar de Memória, sendo onde determinado fato histórico aconteceu, parte do
pressuposto da relação entre história e memória. Logo, esses espaços precisam ser
relacionados com os acontecimentos que lá ocorreram para que as pessoas sintam a
necessidade de preservar.
A Educação Patrimonial é um desafio tendo em vista que há uma dificuldade por parte
das pessoas, sobretudo, dos alunos em entender o que é patrimônio e porque é importante
preservar. Segundo artigo 216 da Constituição Federal configura-se como patrimônio "as
formas de expressão; os modos de criar; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as
obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações
artístico-culturais; além de conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico,
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico."
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Tendo em vista essa definição a cidade de Caxias possui uma série de elementos que
se encaixam nessa determinação e não há uma consciência histórica por parte da população
em preservar. Em projeto desenvolvido na cidade, fiz mapeamento de alguns patrimônios
materiais e imateriais que desempenhar relação de pertencimento para com a comunidade,
além de referências para o lugar.
A exemplo da Dança do Lili, grupos de Bumba Meu Boi e dos Caretas, Tambor de
Crioula, terecô e das inúmeras construções arquitetônicas antigas, (Igreja Matriz de N. S. da
Conceição e São José, Ruínas: quartel do Morro do Alecrim, Edificação e Acervo: Igreja do
Rosário, Academia Caxiense de Letras, Casa Delfinlândia, Cemitério dos Remédios e São
Benedito, Memorial e Ruínas da Balaiada, Fábrica Industrial (manufatura de tecidos), Palácio
do Comendador Alderico Silva, Teatro Phenix, Igreja Nossa Senhora dos Remédios
(Catedral), Praça e Estatua de Gonçalves Dias, Cristo Redentor, Cachoeira/piscina do Ponte,
Cassino Caxiense, Fabrica do Ponte, Praça do Pantheon, prédio do- IGHB, Terreiro de Dona
Fininha).
Educação patrimonial é aprender com o mundo e a cultura que construímos,
conhecendo, valorizando e cuidando e isso está intrinsecamente relacionado com a memória.
Segundo o Guia Básico da Educação Patrimonial do IPHAN, a Educação Patrimonial
constitui-se de todos os processos educativos formais e não formais que têm como foco o
Patrimônio Cultural 2 , apropriado socialmente como recurso para a compreensão sócio-
histórica das referências culturais em todas as suas manifestações, a fim de colaborar para seu
reconhecimento, sua valorização e preservação. Considera ainda que os processos educativos
devem primar pela construção coletiva e democrática do conhecimento, por meio do diálogo
permanente entre os agentes culturais e sociais e pela participação efetiva das comunidades
detentoras e produtoras das referências culturais, onde convivem diversas noções de
Patrimônio Cultural.
Posto isso, o complexo do memorial da balaiada ajuda no processo de compreensão
sócio-histórica sobre o movimento da Balaiada, auxiliando, desta forma na construção da
consciência histórica3 sobre a importância das camadas mais pobres no movimento e também

2
O patrimônio cultural é o conjunto de manifestações, realizações e representações de um povo. Ele está
presente em todos os lugares e atividades: nas ruas, em nossas casas, em nossas danças e músicas, nas artes, nos
museus, escolas, igrejas e praças. Nos nossos modos de fazer, criar e trabalhar. Nos livros que escrevemos, na
poesia que declamamos, nas brincadeiras que fazemos, nos cultos que professamos. Ele faz parte de nosso
cotidiano, forma as identidades e determina os valores de uma sociedade. É ele que nos faz ser o que somos
(IPHAN, 2016).
3
―A consciência histórica será algo que ocorre quando a informação inerente, progressivamente interiorizada,
torna-se parte da ferramenta mental do sujeito e é utilizada, com alguma consciência, como orientação no
cotidiano‖ (RUSEN, 2011, p. 16).
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em compreender a cidade com referência histórica para o Brasil, pois o museu evidencia os
espaços e lugares simbólicos destinados à essa visão, além de ser um lugar de memória, o
museu cria eventos para estudantes, faz oficinas, contações de histórias, colocando as
crianças e jovens para atuarem como os líderes do movimento da Balaiada, faz visitas guiadas
pelo museu e pelas ruínas, complementando o acervo com informações, exibe material áudio
visual, enfim cria mecanismos para inserir os alunos no espaço e amplia as formas de ensino-
aprendizagem. Além do mais, possibilita que os alunos e a própria população criem
consciência e noções de preservações.

Considerações finais

O acervo do complexo Museu, Ruínas e Memorial em diálogo com explicações sobre


patrimônio cultural, bens tombados e sobre a história do movimento da Balaiada formam uma
ferramenta indispensável não só para a educação patrimonial, mas para a história da cidade de
Caxias, tendo em vista que o local, felizmente ainda com inúmeros resquícios narra
significativos episódios da história do lugar. Além disso, o museu conta com elementos que
ainda são comumente encontrados e utilizados em todo o maranhão, a exemplo do cofo,
balaios, mençaba, pilão, casas de taipas, potes, coco babaçu, sapucaia.
Os lugares de memória não podem ser compreendidos como algo alheio, distante e
desprovido de significado e, sobretudo de pertencimento, motivo pelo qual o museu se
destaca. Pois recebe diariamente pessoas da comunidade que se interessam e por vezes se
chocam ou se emocionam com o que lá encontram. Criando assim uma relação de
pertencimento com a comunidade caxiense, ao passo que dialoga com a história e conta fatos
importantes do lugar, como a xilogravura que trata da história do local, desde os primórdios,
trazendo a figura dos indígenas, que praticamente desapareceram da história oficial,
mostrando lendas, como a da conhecida mãe d‘água e a cobra sucuri do rio Itapecuru, o
próprio movimento dos balaios e outros conflitos locais, elementos da cultura e arquitetura,
como uma oferenda, referenciando a cultura afro, confecção de balaios, danças típicas como o
Lili.
O primeiro passo para a educação patrimonial é conhecer e o museu tem essa função,
de apresentar as especificidades da história local, mostrando sobretudo uma visão diferente da
que se tem conhecimento. Despertando com isso o interesse, curiosidade e relação de
pertencimento com a população, além de ser um importante centro de pesquisa para alunos e
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pesquisadores em geral. Os resultados das ações desenvolvidas nesse espaço têm sido
positivos para a sociedade e em parceria com a Academia Caxiense de Letras, que
desempenha função semelhante, na medida em que se aproxima da educação básica, e
provoca discussões com impactos positivos na sociedade.

REFERÊNCIAS

Entrevista

CARVALHO, Wybson. Entrevista [30 de maio de 2018 ] Caxias. 2018. Entrevista concedida
à Reinilda Oliveira.

TORRES, Mercilene. Entrevista [31 de maio de 2018] Caxias. 2018. Entrevista concedida à
Reinilda Oliveira.

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Disponível em:
<https://biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo.html?id=448994&view=detalhes.>. Acesso
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MATEUS, Yuri Givago Alhadef Sampaio. A Guerra da Balaiada / Produto da dissertação A


Balaiada na sala de aula: ensino de História do Maranhão Imperial e a produção do
paradidático ―A Guerra da Balaiada‖. São Luís, 2018.

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momento histórico da cidade de Caxias. 2017. Disponível em: <:
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MORLEY, Edna June. O Presente do Passado. O Que é Arqueologia? - Florianópolis, 1992.

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Estevão de Rezende Martins. Brasília: UnB, 2001.

_________. Reconstrução do passado - Teoria da história II: os princípios da pesquisa


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Caxias - MA / Dissertação (Mestrado) – História, Ensino e Narrativas, Universidade Estadual
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Universidade de São Paulo. Guia de Museus Brasileiros - Comissão de Patrimônio Cultural -


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USP, 1997.
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PATRIMÔNIO CULTURAL E IDENTIDADE: a Balaiada como estratégia de ensino de


História local e regional em São Bernardo-MA

RONILSON DE OLIVEIRA SOUSA1

1. Introdução

Nos últimos anos o campo de estudos do patrimônio tem ganhado visibilidade no


ensino de História, bem como novas referências e possibilidades na prática docente cotidiana
com alunos, projetos e metodologias voltadas ao patrimônio cultural brasileiro na escola
pública contemporânea, nas manifestações de várias naturezas: material, imaterial, cientifica,
artístico e ambiental. Buscou-se, refletir na escola sobre o cotidiano cultural nos espaços e
lugares que não recebiam a devida atenção na sala de aula com base na compreensão da
identidade no âmbito individual e coletivo, com a cultura local e nacional em tempos de
globalização.
É importante observar, que a compreensão da educação patrimonial tem ganhado
forma nos últimos anos, com as orientações dos Parâmetros Curriculares Nacionais – História
(PCN‘s), para que a educação promova as discussões sobre o patrimônio sociocultural e na
construção da cidadania, incluindo o reconhecimento das diferenças culturais enriquecedora
da identidade nacional na sala e aula. Porém, cabe ressaltar que no contexto atual, em que a
disciplina de História tem enfrentado grandes desafios para se manter no currículo, afetado
pela reforma do Ensino Médio, há disputas sobre qual é a função da História e de quais
histórias ensinar, além de outras decisões políticas que tentam retirar o sentido da educação e
da cidadania que ocorrem no cotidiano escolar, nas premissas básicas do ensino e pensamento
crítico2. Ao mesmo tempo, tais ações implicam na desvalorização do patrimônio cultural na

1
Mestrando do Programa de Pós-graduação em Ensino de História - PROFHISTÓRIA pela Universidade
Federal do Pará-UFPA. E-mail: ronilsonos@hotmail.com
2
Protocolado na Câmara dos Deputados em 2015, o projeto ―Escola sem Partido‖ tem sido alvo de críticas e
defesas nos espaços de opinião pública, nas redes sociais, em uma divisão clara entre os apoiadores do projeto e
os grupos contrário. O projeto tem o claro objetivo de censurar a liberdade de expressão de professores em
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escola, nos alunos e na comunidade, com suas singularidades, identidades e lugares de


memória (NORA, 1993).
Considerando isso, é preciso situar as perspectivas que aqui serão apontadas num
contexto mais amplo aos lugares da memória com a noção de patrimônio cultural. Este artigo
aborda parte da pesquisa em andamento para minha dissertação no programa de mestrado
PROFHISTÓRIA – UFPA, campus de Ananindeua – PA, na qual desenvolvo uma proposta
de educação patrimonial e cultural, tendo como objetivo investigar a possibilidade de ensinar
a História local do passado da Balaiada, a partir da escola pública, Centro de Ensino Déborah
Correia Lima, e dos lugares e memórias na comunidade de São Bernardo – MA.
A cidade de São Bernardo, localizada na região do Baixo Parnaíba Maranhense faz
parte do território ―rota dos balaios‖ 3 com diversos focos de resistência que se apresentam em
bens materiais e imateriais. Segundo pesquisas de Mathias R. Assunção (2015) a memória
oral do Baixo Parnaíba apresenta versões para a guerra da Balaiada, segundo a qual
―indivíduos camponeses iniciaram a resistência na cidade de Brejo, em 1838‖ (ASSUNÇÃO,
2015, p. 35). Igualmente é, também, de Brejo que surge a figura de Francisco Ferreira, o
Balaio (ASSUNÇÃO, 2015, p. 348), na qual teria libertado seus filhos recrutados à força,
Assunção confronta essa versão da história oral com a correspondência do prefeito de Brejo,
em 1838. Essas ações apontam as especificidades e abrangência da resistência parcialmente
desconhecidas, envolvendo diversos pontos do movimento popular na imensa região do Baixo
Parnaíba Maranhense. Há, nesses lugares vestígios material e imaterial da cultura camponesa
dos balaios, assim como as trincheiras, caminhos antigos e fazendas e modos de vidas das
comunidades quilombolas e rurais, nos municípios de São Bernardo, Brejo, Magalhães de
Almeida, Chapadinha, etc, na região. Mas que não recebem a devida atenção do poder público
municipal, em ações de conscientização e valorização do passado histórico desses lugares,
assim como no ensino de História.
A análise aqui proposta orienta-se no sentido de problematizar os lugares de
memórias, os significados e esquecimentos deste passado de resistência, que na escola, na
disciplina de História essa memória não tem sido construída na noção de patrimônio cultural.

assuntos ideológicos, religiosos, morais, políticos e partidários. Ao mesmo tempo, em que inibe o pensamento
crítico e pluralidade de ideias entre os alunos.
3
Conceito de ―rota da Balaiada‖ constitui-se uma construção social a partir do referencial da revolta da Balaiada,
bem como dos tipos étnicos, sociais e culturais que demarcaram o contexto de eclosão do referido movimento.
Um projeto de turismo e desenvolvimento sustentável criado em 2014, “Projeto Balaiada”, na cidade de
Chapadinha, pelo Professor Jânio Rocha, articula uma rede de mobilização entre poder público, privado,
sindicatos, empresários e professores das cidades do Leste Maranhense, tendo por objetivo promover o turismo,
a educação patrimonial e cultural a partir da história do movimento com foco na região.
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Não ganha importância, sobretudo, mediante as transformações do currículo, dos objetivos do


ensino de História no ensino médio, na preparação do aluno para o ENEM.
A pesquisa se desenvolve com observações e entrevistas de professores e alunos no
Centro de Ensino Déborah Correia Lima, escola criada em 1970 4, pertence à rede de ensino
médio público estadual, com funcionamento em três turnos: matutino, vespertino e noturno.
Possui 489 (quatrocentos e oitenta e nove) alunos. A escolha da escola como campo de
pesquisa se deve ao fato de ser uma escola de Ensino Médio, que recebe alunos da sede do
município de São Bernardo e também dos povoados que fazem parte da zona rural. Vale
destacar que leciono nesta escola desde 2017, logo, considero positivo realizar minha
pesquisa neste local, pois tenho apoio colaborativo dos alunos, professores, equipe de
coordenação, prévia autorização da direção.
A turma escolhida para o desenvolvimento das etapas da pesquisa é a turma A – B, do
terceiro ano do Ensino Médio no turno matutino. Busco dessa forma, compreender as práticas
didáticas da disciplina de História, as visões de professores e alunos, às especificidades entre
o conhecimento do ensino da História local e regional e quais os motivos para o não uso da
história local ou educação patrimonial na escola, relacionando o passado da Balaiada que faz
parte do lugar e da região, e que está presente na memória, nas manifestações culturais e nos
vestígios materiais e imateriais.
Nesta perspectiva, em pesquisa preliminar observei que não há preocupação entre os
professores de História de valorizar o patrimônio cultural no cotidiano da sala de aula,
especialmente a Balaiada, em uma perspectiva mais ampla entorno da identidade da
comunidade. Dessa forma, a pesquisa busca perceber a memória da Balaiada não apenas
como elemento do passado, mas também no presente, através do reconhecimento e
apagamentos dessas memórias na sala de aula.

2. Patrimônio e Identidade: Breves Reflexões

Quando falamos em patrimônio, uma diversidade de formulações alcançam inúmeras


intepretações com realidades distintas, que se expressam na compreensão comumente atrelada
ao cotidiano, a vida social, as memórias das pessoas, as heranças familiares, tais como,
objetos e utensílios de valor simbólico e subjetivo.
Nada escapa a ideia de patrimônio. Na vida cotidiana, no dia a dia o patrimônio
individual, a partir de nossas percepções, sentidos e sentimentos, podemos perceber o uso do

4
Informações retiradas do Projeto Político Pedagógico (PPP), da referida escola.
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termo, como algo individual muito próprio das motivações e daquilo que temos interesse. Já o
patrimônio como bem coletivo é sempre algo mais distante, concebido e determinado por
outras pessoas, em uma coletividade complexa entre espaço e tempo na sociedade
contemporânea (FUNARI, PELEGRINI, 2009). Por isso se fazem necessários conhecermos a
multiplicidade de definições do patrimônio, seus desafios como construto conceitual em
contextos variados, como se pode perceber em algumas das principais investigações ao longo
do século XX e início do XXI.
Conceitualmente, a palavra patrimônio, remete a antiguidade romana numa definição
de propriedade e bens familiares do pater. Assim, o patrimônio em sua acepção clássica latina
é concebido como algo individual, patriarcal como bens familiares. Essa concepção de
patrimônio imbricado como algo restrito manterá a mentalidade da sociedade romana,
havendo pequenas rupturas na idade média na Europa, quando se acrescentou-se outro,
―simbólico e coletivo: o religioso‖ (FUNARI, PELEGRINI, 2009, p. 11). Ainda assim, o
caráter aristocrático manteve suas permanências, nos costumes, códigos e valores muito
próprio das elites europeias, tais como as Igrejas e monumentos, representativas do poder
físico e espiritual do catolicismo.
Com o Renascimento, as transformações em torno da categoria ―patrimônio‖ no
mundo ocidental sofreu mudanças em sua perspectiva, com novas intepretações que
colocavam em destaque o humanismo, a estética e a apropriação de uma reminiscência com o
passado grega e romano. Embora se saiba que esse período as mudanças no entendimento
daquilo que seria ―patrimônio‖ ainda prevalecia o caráter aristocrático, no entanto, o fato é
que com a invenção da impressa, começaram a se desenvolver catalogações e estudos
clássicos dos lugares e objetos de valor histórico. Nesse clima de mudanças e permanências,
surge o Antiquariado, com a multiplicidade de objetos, atraindo olhares de curiosos e
colecionadores mantedores de troca e compra de antiguidades (FUNARI, PELEGRINI, 2009).
Em uma perspectiva mais ampla, o surgimento desses locais preocupados com a preservação
de coisas antigas na Europa, abriu-se maior espaço para conceber o patrimônio como peça –
chave dos dispositivos advindos das transformações da modernidade e da própria formação
dos Estados nacionais.
No alvorecer do surgimento do Estado Nacional, como um todo unificado e
representativo por símbolos e sentimentos coletivos dos homens em sociedade, surge a ideia
de patrimônio como algo público e compartilhado de valores e sentimentos coletivos. É assim
que se pode compreender, inclusive, o surgimento do cidadão, a criação de códigos jurídicos,
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museus, a língua oficial de cada estado e a própria delimitação de territórios com valores e
costumes compartilhados com o mundo da cultura e da política.
Um dos principais impactos na ideia de patrimônio como um todo coletivo, tem sua
origem após a Revolução Francesa, em 1789, quando se criou comissões para preservar os
monumentos de importância para a nação francesa e sua cultura. Desse modo, é sobre a base
dessa transformação que a partir do século XX, as políticas pela preservação do patrimônio
ganha visibilidade e investimentos, conforme apontam Funari e Pelegrini (2009)
É desse processo que os estados efetivaram buscar monumentos, objetos escritos
produzidos no passado para corroborar a forma mostrada no presente, sobretudo na ideia de
caráter único que a nação veio edificando ao longo dos anos. Cabe observar, por fim, que essa
concepção de patrimônio gestada na sociedade moderna da Europa, legitimou os discursos
sobre o patrimônio como um bem material concreto, seja ele um monumento, um edifício,
assim como objetos de valor material e simbólico para a nação. Esse entendimento daquilo
que seria determinado com ―patrimônio nacional‖ como bem coletivo representaram também
oportunidade para o nacionalismo político, nos quais a ideia de unidade e sentimento de
pertencimento da nação podiam extrair dividendo de popularidade.
No limiar do século XX, a necessidade de proteger os bens de natureza material
emerge sobre as discussões de conservação e salvaguarda de lugares de patrimônio, na
constante preocupação em fazer lembrar, invocando o passado e nada esquecer. Esse
sentimento de perda irá contribuir para a criação de instituições públicas devotadas a
pesquisa, conservação e catalogação, contribuindo para criação de acervos disponíveis para
toda a humanidade. Associado a isto, ―os primeiros anos do século XX, o que sobressaiu, em
termos de construção do patrimônio nacional (leia-se bem coletivo) foi a noção de que ele era
histórico e artístico‖ (ABREU, 2009, p. 36).
Visto do ângulo da diversificação, a criação da UNESCO, na década de 1940, após a
Segunda Guerra Mundial, o que se viu foi a mudança de concepção em torno da noção de
patrimônio tomando emprestado da antropologia o conceito de cultura para se pensar as várias
culturas nacionais contemplando assim o chamado ―patrimônio cultural da humanidade‖.
Conforme Abreu (2009, p. 37) ―a noção de cultura incluía hábitos, costumes, tradições,
crenças; enfim, um acervo de realizações materiais, e imateriais, da vida em sociedade‖.
Notadamente a noção de patrimônio cultural deu amplitude aos diversos grupos e interesses
sociais, quebrando as bases de uma concepção de patrimônio restrito, único e hierarquizante
que beneficiou o nacionalismo, associado ao imperialismo colonial.
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Cabe ressaltar que a afirmação dessas transformações acontece em ambiente de


intensas lutas e embates políticos que se expressam no desenvolvimento do capitalismo
dominante nos países do ocidente nas décadas de 60 e 70 do século XX. Junto com essa
euforia desenvolvimentista, surgem os movimentos sociais no interior das sociedades em
contraponto a lógica capitalista, colocando em evidencia a diversidade social em vários níveis
e aspectos. Como consequência, a pluralidade demonstrada por esses movimentos forçava a
influência global em todos os aspectos da existência, quer no interior das instituições
patrimoniais, quer entre os grupos dirigentes, reivindicando para si a necessidade da
ampliação da noção de patrimônio, incluindo não apenas o cultural, mas também a natureza,
grupos sociais e locais. ―Esses movimentos colocam na ordem do dia o interesse pelo
―resgate‖ de sua memória como instrumento de luta e afirmação de sua identidade étnica e
cultural‖ (ORIÁ, 2013, p. 129).
Acompanhando as transformações na noção de patrimônio histórico e cultural, o que
se nota é o reconhecimento da importância da diversidade, a participação da sociedade civil
organizada, através das mais variadas entidades e suas demandas participativas em contextos
distintos nos lugares de fala. A própria Unesco busca acompanha essas transformações da
sociedade pós-moderna elegendo a diversidade humana e ambiental como valor universal a
ser promovido para além do nacional. ―Monumentos naturais‖, ―conjuntos‖, ―sítios humanos
e naturais‖, ―formações geológicas‖, compõe-se como patrimônio da humanidade, com valor
histórico e cultural reconhecido pela Conferência da Unesco de 1972.
Com efeito, a ideia de patrimônio se alarga, sendo possível atualmente perceber
diversas concepções e categorias que buscam reconhecer os traços culturais de grupos sociais,
comunidades tradicionais, como as indígenas, comunidades quilombolas com seus signos,
modos de vida e saberes específicos de matriz africana. É nesse contexto que emergem
também a própria participação das pessoas na gestão do patrimônio, no reconhecimento dos
bens patrimoniais, culturais, e ambientais, sendo não apenas demandas propriamente
vinculadas ao estado, a administração pública nacional, mas antes de tudo, propostas práticas
e ações coletivas que propositalmente alteram as maneiras de conceber e interpretar o
patrimônio nas comunidades, nas cidades, nos bairros, povoados e lugarejos.
O fato é que, o próprio conceito de patrimônio cultural tem sofrido transformações ao
longo do tempo. Hoje, chegamos ao ponto de ler e interpretar novos enquadramentos teóricos,
no reconhecimento de múltiplas culturas, que até então eram consideradas ―exóticas‖
estranhas ao modelo uniformizador de cultura nacional que legitimou o etnocentrismo
europeu. A fluidez das identidades (BAUMAM, 2005), a revisão dos critérios da Unesco,
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assim como a inscrição de patrimônio mundial, trouxe consigo não só benefícios políticos na
comunidade internacional, mas também novos olhares as políticas culturais, no
reconhecimento dos ―contextos multiétnicos, multirreligiosos e extremamente heterogêneos,
que caracterizam as sociedades contemporâneas‖ (FONESCA, 2009, p.73).

3. Patrimônio Cultural Sob Novo Enfoque

A noção de patrimônio cultural no Brasil constitui-se em uma trajetória de intensas


transformações do século XX, mais particularmente durante os governos de Getúlio Vargas
nas práticas integradoras do aparelho estatal do Estado Novo. Esse período de implementação
de um governo nacionalista cooptou um grande número de intelectuais que trabalharam em
torno de um conceito de ―cultura brasileira‖ de forma a projetar ações que difundissem essa
ideologia. Entre as principais modificações como suporte à política nacionalista, inúmeras
áreas sofreram a intervenção desses intelectuais.
Apoiado nas ideias do Movimento Modernista, Mário de Andrade se tornou a
principal referência em torno de um projeto mais amplo em defesa do patrimônio nacional,
observando as expressões da identidade e cultura brasileira sistematizado no anteprojeto de lei
que criou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN, no ano de 1937.
Apesar de sua participação na criação do SPHAN, Mario de Andrade não assume a direção,
indicando o seu amigo, jornalista e advogado Rodrigo de Melo Franco de Andrade, que
coloca em prática uma concepção de patrimônio que se estabelece com os laços do passado
brasileiro e a cultura tida como tipicamente nacional daí a ênfase ao estilo barroco e
arquitetura colonial das cidades mineradoras de Minas Gerais (GONÇALVES, 1996).
A noção de patrimônio no âmbito público federal, a partir do SPHAN introduzia
visões hegemônicas que pensavam o patrimônio brasileiro nos aspectos históricos, artísticos e
arquitetônicos, os chamados bens de ―pedra e cal‖ que ficaram conhecidos por suas ações de
tombamento em cidades históricas, fazendas e moradias do período colonial. Desse modo,
essas ações de valorização de ―patrimônio histórico e artístico‖ limitava-se nos valores
culturais referentes aos setores dominantes da sociedade. ―Preservaram-se as igrejas barrocas,
os fortes militares, as casas – grandes e o sobrados. Esqueceram-se, no entanto, as senzalas, os
quilombos, as vilas operárias e os cortiços‖ (ORIÁ,2013, p. 131).
Devido a essa conceituação de ―patrimônio edificado‖ – que restringia a concepção
integral da cultura, na qual concebia Mário de Andrade nas vertentes tanto relacionado aos
bens de natureza material, com sua proteção, mas também aos bens de natureza imaterial, com
as políticas de salvaguarda, o próprio conceito de ―patrimônio histórico e artístico‖ tem sido
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questionado na atualidade, principalmente pelos limites e padrões estabelecidos, que não


conseguem dá conta da multiplicidade cultural do povo brasileiro, com seus signos, objetos e
singularidades. O próprio processo de tombamento de centenas de bens, todavia, ao longo de
quase trinta anos do SPHAN não contemplou as classes sociais desfavorecidas, as memórias e
bens culturais dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
Somente na década de 80, mais precisamente com a Constituição de 1988, é que se
confirma uma nova tomada de posição frente as políticas do patrimônio no Brasil, e pela
primeira vez, a denominação ―patrimônio Cultural‖ se expressa no artigo 216, Seção II – DA
CULTURA, reiterando assim, a proteção as manifestações populares indígenas e afro –
brasileiras ou de quaisquer outros segmentos étnicos nacionais. Essa maior abertura na noção
de patrimônio cultural, a partir desse contexto, fortaleceu a preservação do patrimônio de
forma plural, constituído pelos bens intangíveis: crenças, costumes, fazeres, saberes, ideias,
danças, cantorias, tradição oral, entre diversas manifestações que constituem as identidades e
as memórias coletivas (HALBWACHS, 1994).
Foi também no ano 2000, que houve a efetivação do decreto nº 3.551, que instituiu o
Registro de Bens de Natureza Imaterial e criou o programa Nacional de Patrimônio Imaterial,
colocando em evidencia assim, as especificidades nos cuidados aos elementos constitutivos da
memória e identidade, para a valorização dos bens, dos saberes, dos fazeres culturais locais e
dos lugares de memória de um povo. Igualmente houve nos últimos anos, face à consciência
de preservação e valorização da diversidade cultural a efetivação da educação patrimonial.
Entende-se educação patrimonial como método de ensino voltado para o conhecimento dos
significados atribuídos aos elementos referente a memória e identidade, para a valorização do
patrimônio histórico, cultural e ambiental.

4. Ensino de História e Educação Patrimonial

Em relação ao ensino de História, no Brasil, os anos de 1940 a 1960 foram momentos


de intensas discussões, mudanças e rupturas acerca das orientações políticas para o ensino. É
deste momento as propostas que congregavam uma concepção de ensino de História de
valorização dos heróis nacionais, ao mesmo tempo em que priorizava a ideia de um passado
glorioso que encaminhou a nação para um futuro. A identidade nacional era então guiada
pelos ideais da homogeneização da cultura no que tangue à existência do passado único na
construção da nação. A emergência da adoção dos estudos sociais em substituição da História
autônoma serviria para situar a função e objetivos definidos para o ensino de História naquele
contexto social. Na década de 60, os estudos sociais atenderam com maestria o plano de
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governo dos militares que assumiram o país durante os anos de 1964, momento de perda de
espaço da História como disciplina autônoma na escola ginasial.
Os estudos sociais possuíam o pleno objetivo de conceber os sujeitos ajustados a vida
produtiva comunitária, reforçando a formação de um contingente a serviço do sistema,
capacitando-os para ocupar seu lugar na sociedade em acelerado processo de industrialização
na qual o Brasil se transformava. Nessas condições, a disciplina sendo ministrada apenas no
segundo grau, por força da lei nº 5.692, em 1971, os professores de História passaram por
severas situações de violência simbólica e física 5, perseguições e vigilância nos tempos da
ditadura militar, a própria sala de aula era então um espaço de resistência. Tal concepção de
ensino afastava a reflexão crítica da realidade social, reforçando a ―visão harmônica‖ da
sociedade ocultando as diferenças de etnia, classe e gênero nos processos históricos
(FONSECA, 2006).
A imposição dos estudos sociais fomentou um ambiente de luta entre os historiadores,
reivindicando o retorno da disciplina de forma autônoma. Desse processo de mobilização a
Associação Nacional de História- ANPHU, lidera naquela época uma ampla campanha pela
volta do ensino de História. Sem dúvida, essa resistência intensa dos historiadores favoreceu
as diversas mudanças que o ensino de História sofreria ao longo da década de 90, sendo o
marco definidor a volta do ensino de História autônomo e a criação dos Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN‘s) no ano de 1998.
Os resultados dos fracassos escolares durante o período de vigência dos estudos
sociais justificaram a emergência dos PCNs, resgatando a necessidade de um Ensino de
História autônomo. As mudanças fundamentais vão ocorrer no currículo escolar, por
competências, associado as ideias de interdisciplinaridade e transversalidade, concebendo
assim, um ensino de história com efetiva atuação alcançando tanto a escola, o saber científico,
que levassem o aluno a desenvolver o pensamento crítico da realidade, a consciência histórica
e a dimensão atitudinal do conteúdo.
Nesta perspectiva, atualmente, ganha maior importância o trabalho do ensino de
História e o Patrimônio Cultural vinculada ao conceito de ―Educação Patrimonial‖, nos
espaços escolares e não escolares, dando fluidez as práticas de conhecimento do saber local,
da valorização e preservação do meio ambiente, das práticas culturais de homens e mulheres
em diversas temporalidades que permeiam espaços de memória. Essa concepção serve como
elemento chave, levando os estudantes a realizar uma releitura da realidade que estão

5
BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Lisboa: Difel, 1989.
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inseridos, estabelecendo vínculos significativos que assumem um caráter importante na


formação da memória afetiva com o local e da identidade cultural do indivíduo.
A educação patrimonial constitui um processo importante no âmbito da disciplina
História, recorrendo assim ao desenvolvimento de aulas expositivas dentro e fora da escola,
colocando o aluno em contato direto com o patrimônio local, estimulando nos jovens o
reconhecimento e valorização dos espaços, dos lugares, das pessoas e do meio ambiente na
qual estão inseridos. Nesse sentido, suscitar os vínculos com o passado a partir do presente,
considerando a identidade da comunidade e compreendendo a relevância social e cultural dos
mesmos, torna-se a escola no ensino de História, papel fundamental na valorização da cultura
local, dos vínculos com a memória coletiva que permeia o espaço em que vivem os alunos.
As orientações curriculares apresentam novas metodologias, os quais permitem se
pensar as ações dentro e fora da escola, na valorização do patrimônio cultural, a partir da
interdisciplinaridade, quando assume papel de abrangência, como destacado por Oriá, em
artigo publicado na internet 6:

[....] uma proposta interdisciplinar de ensino voltada para as questões


atinentes ao Patrimônio Cultural. Compreende desde a inclusão, nos
currículos escolares de todos os níveis de ensino, de temáticas ou de
conteúdos programáticos que versem sobre o conhecimento e a conservação
do patrimônio histórico até a realização de cursos de aperfeiçoamento e
extensão para os educadores em geral [..] de forma a habilitá-los a despertar,
nos educandos e na sociedade, o senso de preservação da memória histórica
e do consequente interesse sobre o tema (ORIÁ, 2016, p. 02).

5. Patrimônio Cultural: Lugares e Memórias da Balaiada no Ensino de História – São


Bernardo – Ma.

A concepção de trabalho com a educação patrimonial, com o saber histórico local são
especialmente importantes ao se investigar o espaço histórico e geográfico do município de
São Bernardo, no estado do Maranhão, com suas manifestações religiosas e sociais, assim
como os seus lugares de memória e a rica biodiversidade, fauna e flora.
O município de São Bernardo se localiza na Região Leste Maranhense, a região foi
ocupada originalmente por populações indígenas, em meados do século XVIII, que no
processo de formação do arraial, e mais tarde da vila, sofreram com a usurpação de suas terras
e com as transformações que o contato com os outros povos ocasionaram em seus modos
tradicionais de vida (SOUSA, 2014).

6
Disponível em: http://www.aprendebrasil.com.br/articulistas/articulista0003.asp. Acesso em: 22 de jan.2019.
84
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Quanto à composição étnica e cultural dos moradores do Baixo Parnaíba e São


Bernardo, estudos apontam que a população local seria o resultado do encontro de indígenas,
negros e brancos e caboclos que ao longo do século XIX e início do XX passaram a se fixar
na região. A posição geográfica do município, localizado às margens do Rio Parnaíba, divisa
natural entre os estados do Maranhão e Piauí, teria facilitado a entrada e interação desses
grupos em terras bernardenses, especialmente no período que antecede a abertura das
primeiras estradas de rodagem na região leste do Maranhão. Consultando fontes históricas,
Assunção (2015) identificou documentos que descrevem uma complexa rede de caminhos e
trajetos entre vilas e aldeias do Baixo Parnaíba, o que teria facilitado o crescimento
populacional da região e o surgimento de cidades a partir de pequenos núcleos de povoação.
Essa complexa rede de caminhos tornou possível, segundo Assunção (2015), um
intenso fluxo migratório de nordestinos, sobretudo cearenses e piauienses, para o Baixo
Parnaíba Maranhense a partir do século XVIII. Os migrantes nordestinos, em maior número
durante os períodos de seca, encontravam nas regiões de fronteira do Maranhão,
especialmente as localizações no litoral e à beira dos rios Itapecuru e Parnaíba, ―lugares de
passagem‖ e espaços propícios para a edificação dos primeiros povoados (São Bernardo,
Brejo e Tutóia). Esses grupos sociais, migrantes nordestinos marcam a paisagem cultural e
material dessa parte do Maranhão em seus primeiros passos, imprimindo traços significativos
para as experiências relacionadas ao campesinato, pecuária, pesca, agricultura e o
extrativismo da carnaúba.
Neste arranjo multicultural que forma os primeiros povoados devemos destacar, para
além dos grupos já mencionados, a presença decisiva do grande número de negros, e seus
descendentes, que afluíram para essas terras com o tráfico negreiro colonial. Na região, além
dos relatos orais, encontramos edificações em ruinas que atestam a presença material de
senzalas nos povoados de São Raimundo, Santa Maria e Currais, em São Bernardo;
Vazantinha, Lagoa do Bacuri e Santo Agostinho, em Magalhães de Almeida; Quilombo Saco
das Almas, em Brejo; Lagoa Amarela, Chapadinha; Quilombo Bonsucesso, Mata Roma; etc.
Após a abolição da escravidão no Brasil (1888) muitos grupos de escravos libertos
permaneceram na estrutura dessas fazendas na condição de agregados ou ocuparam terras
próximas a essas instalações, possibilitando que aos poucos muitas dessas fossem trocadas ou
herdadas, formando o que hoje podemos chamar de terras de preto 7.

7
São considerados como ―terras de preto‖ aqueles domínios doados, entregues ou adquiridos, com ou sem
formalização jurídica, por famílias de ex-escravos (ALMEIDA, 2008, p. 146)
85
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São territórios que abrigam comunidades de lavadores e pescadores com uma cultura
de conservação singular – a pesca artesanal, a construção de embarcações, artefatos
domésticos, habitação, trato com a terra, alimentação, dentre outros. Há neste sentido, a
preocupação de salvaguarda de memórias ancestrais, de saberes e modos de fazer ligados à
terra, aos rios e lagoas do próprio território, haja a vista a expansão da nova fronteira da soja
na região8. Igualmente, a própria região no passado foi palco de resistência e foco de conflitos
na Guerra da Balaiada (1838-41), envolvendo comunidades inteiras, trabalhadores livres,
vaqueiros e escravos.
No povoado lagoa do Bacuri (São Bernardo; Magalhães de Almeida) região protegida
pela geografia – entre rios, montanhas e florestas – grupos rebeldes construíram
acampamentos provisórios, que ao mesmo tempo confundiam as ações das expedições
repressoras. Na mesma região, no alto dos morros encontram um forte sistema de defesa,
construído com pedras, formando uma trincheira. Há relatos dos antigos moradores, de várias
gerações ali nascidas, que atribuem as trincheiras a uma ―dita guerra que houve por estas
bandas do Maranhão‖.
Na década de 80, o historiador inglês, Mathias Assunção, em pesquisas na ―região da
Balaiada‖, fornece inúmeros relatos orais que atestam o passado de resistência da guerra e da
escravidão nos lugares mencionados. Além dos povoados da ―região da lagoa do bacuri‖, um
outro lugar do ―tempo do cativeiro‖ se encontra de pé, a fazenda Paraíso no povoado São
Raimundo (São Bernardo). A fazenda pertenceu a família dos Pires Ferreira, grandes
proprietários de terras e produtores de cana de açúcar, que movimentava a economia da região
no século XIX.
Há relatos da participação de escravos do ―Paraíso‖ na guerra da Balaiada. Muito
embora, até o momento não encontrei nenhuma documentação do número exato de escravos,
animais e produção da fazenda. Mas, em documentos9 encontrados no Arquivo Público de
São Luís, segundo a qual consta a participação de 3 (três) escravos da ―matriz de São
Bernardo‖ e 01 (um) soldado, no contingente de 400 (quatrocentos) rebeldes de outros lugares
que se entregaram em Miritiba, hoje cidade de Humberto de Campos (MA), no processo de
anistia ocorrido no final da guerra da Balaiada, em 1840.

8
A dissertação do pesquisador Rafael Gaspar Bezerra (2013), intitulada ―O Eldorado dos gaúchos:
deslocamentos de agricultores do Sul do País e seu estabelecimento no leste Maranhense‖, fornece informações
das atividades do agronegócio nos últimos 20 anos no Baixo Parnaíba Maranhense.
9
Ofício – Relação dos Rebeldes apresentados na Miritiba, 17/01/1841, APEM.
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Figura 1 – Fazenda Paraíso (Povoado São Raimundo, município de São Bernardo/MA)

Fonte: In: ASSUNÇÃO, Mathias. A memória do tempo do Cativeiro no Maranhão10

Devido à escassez de fontes é difícil reconstituir o quantitativo de escravos e escravas


da fazenda Paraíso na guerra da Balaiada. Além disso, esses números oficializados nas listas
de presos e anistiados é relativo, do ponto de vista que não apontam o número de homens,
mulheres e até mesmo crianças, durante o conflito que durou de 1838 a 1840. Dessa maneira,
o povoado e a fazenda com ruinas da senzala significa muito mais que um mero local, se
admitirmos sua importância patrimonial, o território e seus moradores constituem atualmente,
uma ―entidade afetiva‖ com o passado, com as memórias e tradições dos seus antepassados.
Muitos deles guardiões de lendas, lembranças, fazeres e saberes ancestrais, são os únicos que
fragilmente contam o passado da região, as quais vinculam com a ―guerra dos balaios‖.
Populações que, ao longo do tempo, preservam uma paisagem natural e cultural e as tradições
dos seus antepassados.
Nesse contexto, propomos entender, a partir do presente, na qual os ventos da
modernização avançam e ameaçam as formas de compreensão e valorização dos bens, dos
saberes, dos fazeres culturais locais e dos lugares de memória dos indivíduos uns com os
outros e com seus ancestrais, tendo como ponto de partida o reconhecimento do patrimônio
cultural no ensino de História, nos lugares e memória da Balaiada não apenas como elemento
do passado, mas também no presente, através do reconhecimento e esquecimento dessas
memórias e lugares na sala de aula e na própria comunidade.

10
ASSUNCAO, Matthias Röhrig. A memória do tempo de cativeiro no Maranhão. Tempo [online]. 2010,
vol.15, n.29, p.67-110. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1413-
77042010000200004&lng=en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 02 março de 2019.
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ISBN: 978-85-8227-255-8

Em pesquisa preliminar na escola, observei que não há preocupação dos professores


em trabalhar o ensino da História Local e Regional ou educação patrimonial acerca do
passado do município e os vínculos com a memória da resistência da guerra da balaiada na
região. Os relatos das entrevistas com os professores da escola a seguir são assim
representativos das dificuldades e motivos do não uso da história local na sala de aula.

Boxe 1:
Relatos de professores sobre o passado da Balaiada em São Bernardo e
região no ensino de História

1- ―Infelizmente, não! Infelizmente, eu ainda não tive tempo de pesquisar, eu


vou até, pesquisar...Quando eu for explicar o assunto, incentivar os alunos a
fazerem essa pesquisa para que eu também, automaticamente, aprenda com
eles‖.
2- ―Depois que eu vim trabalhar aqui no Maranhão eu não tive nenhuma
oportunidade de me aprofundar não. Não tivemos nenhuma capacitação,
nenhuma aula de campo...Trabalhamos os conteúdos de uma forma geral
para que nosso aluno tenha o conhecimento do que aconteceu no nosso
estado, aquilo que aparece as vezes no ENEM‖.
3- ―Na verdade, eu ainda não vi nenhum trabalho levantado, eu ainda não
levantei nenhum trabalho com as pessoas mais velhas da cidade, até porque
isso requer, assim, mais um pouco de tempo, né. A gente que é de outro
estado a gente vem leciona a aula da gente, dá aula da gente e às retorna, né.
Eu ainda não tive tempo pra fazer um levantamento, um diagnóstico na
cidade, porque isso quem tem uma informação mas precisa são as pessoas
mais velhas, né, professores mais velhos aqui da cidade que deve ter alguma
informação que diz respeito à passagem desse movimento dentro do
município de São Bernardo, né. Até então aqui ainda não era cidade, apenas
uma Vila‖.

Notadamente, uma análise visivelmente desses depoimentos de professores, há muitos


obstáculos para realização de aulas com a temática da história local ou educação patrimonial
na escola, que vão desde o pouco tempo desses discentes, que em sua maioria trabalham em
São Bernardo (MA) e residem em outras cidades no estado do Piauí, além das
obrigatoriedades do currículo com as exigências legais que contemplam conteúdo específico
para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) que tem resultado na exclusão da temática
do ensino da História Local e Regional na sala de aula.
Há ainda um longo percurso dessa pesquisa. Esse diagnóstico preliminarmente apenas
apontam as múltiplas percepções do problema que permitirá maior aprofundamento na
pesquisa em andamento para a minha dissertação. As próximas etapas buscarão contato com
os alunos, com aplicação de entrevistas, como forma de conhecer as visões e percepções
desses alunos a partir do estudo do passado da Balaiada na sala de aula e na comunidade. A
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partir desse diagnostico, realizaremos três oficinas que então serão apresentados
conhecimentos do passado do município e região. Por fim, pretende-se construir um texto
videográfico 11 , com uma breve história da cidade e história do passado da balaiada, com
depoimentos de moradores e alunos.
O conceito de ―texto videográfico‖ já é bastante utilizado em metodologias de
pesquisa do campo da história pública, na ―divulgação de trabalho historiográfico, acadêmico,
num suporte alternativo ao papel com uma linguagem atualizada‖ (MAUADA; DUMAS,
2011, p. 91). Em se tratando de uma pesquisa que dialoga com a comunidade e a escola, o
produto didático permitirá o compartilhamento e divulgação desse documentário em
diferentes espaços, tanto na escola, na comunidade, quanto nas mídias e redes sociais para
amplos públicos.
Neste sentido, o roteiro da construção do produto didático seguirá o seguinte passo da
modalidade escrita intertextual: organização das entrevistas, narrativa das falas coordenadas,
retiradas de várias entrevistas. ―A essa polifonia são associadas imagens fixas, filmadas para
ganhar movimento. Cada sequência fílmica é composta por um conjunto de falas associadas a
um conjunto de imagens que são apresentadas em movimento, garantindo o efeito necessário
à composição da linguagem‖ (MAUDA; DUMAS, 2011, p. 92)

REFERÊNCIAS

ABREU, Regina; CHAGAS, Mário. Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio


de Janeiro: lamparina, 2009.

ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Terras de preto, Terras de santo, Terras de índio –
uso comum e conflito. Belém: cadernos do NAEA/UFPA, n. 10, 1989.

ASSUNÇÃO, Matthias Rohrig. De caboclos a bem – te – vis: formação do campesinato


numa sociedade escravista: Maranhão, 1800 – 1850. São Paulo: Annablume, 2015.

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Zahar,


2005.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília:


Senado Federal, 2012.

CHUVA, Márcia. Introdução – História e Patrimônio: entre risco e o traço, a trama.


Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n, 34, 2012. Brasília: IPHAN, 2012.

11
―Texto videográfico‖ é um termo criado, em grande medida, para sairmos dos debates sobre documentos
cinematográficos e valorizarmos a necessidade de divulgar o trabalho historiográfico, num suporte alternativo ao
papel com uma linguagem atualizada‖ (MAUADA; DUMAS, 2011, p. 91).
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FONSECA, Thais Nívia de Lima e. História & ensino de História. 2. ed. Belo Horizonte:
Autêntica, 2006.
FUNARI, Pedro Paulo Abreu; PELEGRINI, Sandra de Cássia Araújo. Patrimônio histórico
e cultural. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

GASPAR, Rafael Bezerra. O eldorado dos gaúchos: deslocamento de agricultores do sul e


seu estabelecimento no leste maranhense. São Luís: EDUFMA, 2013.

GONÇALVES, José Reginaldo Santos. A retórica da perda: os discursos do patrimônio


cultural no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; IPHAN, 1996.

MAUAD, Ana Maria; DUMAS, Fernando. Fontes orais e visuais na pesquisa histórica:
novos métodos e possibilidades narrativas. In: ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; ROVAI,
Marta Gouveia (org.). Introdução à História Pública. São Paulo: Letra e Voz, 2011.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História,
São Paulo,1993, n. 10, dez, p. 7-28.

ORIÁ, Ricardo. Memória e ensino de História. In: O Saber Histórico na sala de aula.
BITTENCOURT, Circe (Org.) 12 ed. São Paulo: Contexto, 2013.

SOUSA, Ronilson de Oliveira Sousa. Agosto em festa se enfeita: origens e transformações


históricas no festejo de São Bernardo – MA. São Bernardo: TCC – Licenciatura em
Ciências Humanas – UFMA, 2014.
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MEMÓRIAS DA BALAIADA: as contribuições da memória oral na historiografia sobre o


movimento balaio

SANDRA REGINA RODRIGUES DOS SANTOS1


NATASHA NICKOLLY ALHADEF SAMPAIO MATEUS 2

1. Introdução

A Balaiada foi um movimento popular ocorrido na primeira metade do século XIX,


entre os anos de 1838 a 1841, em um contexto que o Maranhão vivia período de grandes
instabilidades. A historiografia tradicional tem apresentado o conflito como sendo resultado
de um movimento rebelde sem causa, isto é, os balaios não teriam capacidade de elaborar
reivindicações que expressassem os seus descontentamentos e lutassem por seus direitos na
política, bem como por melhores condições de vida.
Assim, para omitir as verdadeiras intenções dos participantes, dessa revolta
multiclassista, por envolver diversos setores daquela sociedade, muitos dos que participaram
diretamente ou viveram algumas décadas depois, mas ainda influenciados pelos
acontecimentos, por suas memórias ainda vivas nos sobreviventes e seus descendentes diretos,
deixaram os seus registros preconceituosos sobre os revoltosos, a exemplo dos autores
Magalhães (1848) e Amaral (1898, 1900, 1906). Por outro lado, estudiosos acadêmicos,
como Janotti (1987), Assunção (1988, 1998), Santos (1999)3, trazem novas ressignificações
sobre a revolta, analisam aspectos que outrora foram desprezados, como o ideário político

1
Pós-Doutorado em Educação pela Universidade de Lisboa. Doutorado em Políticas Públicas em Educação, pela
Universidade Estadual de Campinas (2004). Mestrado em História e Cultura Política pela Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho (1999). Especialização em Historiografia Brasileira e Regional, pela
Universidade Federal do Maranhão (1988). Graduação em História pela Universidade Federal do Maranhão
(1978). E-mail: sandramoicana@yahoo.com.br
2
Mestra em História, Ensino e Narrativa pelo Programa de Pós-Graduação em História, Ensino e Narrativa
(PPGHEN-UEMA), atual PPGHIST. Especialista em Supervisão, Gestão e Planejamento Educacional; e
Docência do Ensino Superior pelo IESF/MA. Licenciada em História pela UEMA. Licenciada em Pedagogia e
Bacharela em Teologia pela FATEH. Graduanda em Música UEMA. Membra do Mnemosyne (Laboratório de
História Antiga e Medieval), sob a coordenação da Profª.Drª. Adriana Zierer e Profª.Drª. Ana Lívia Bomfim
Vieira e do INCT Proprietas. E-mail: natasha_alhadef@hotmail.com
3
Essa data se refere ao ano da defesa da dissertação de mestrado intitulada A Balaiada no sertão: a pluralidade
de uma revolta.
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desses populares, assim como mostram que muitas interpretações da Balaiada no imaginário
social ainda são conservadoras.
O presente estudo tem como objetivo mostrar a relevância da interpretação revisionista
feita a partir das fontes orais, que tem possibilitado um olhar diferenciado sobre o movimento
com base na memória oral ainda presente no imaginário de muitos segmentos das populações
que vivem na região que foi o palco central do conflito. O trabalho baseado na tradição oral
sobre o conflito foi realizado no início da década de 1980 e resultou na obra denominada A
Guerra dos Bem-te-vis: a balaiada na memória oral, publicado em 1988.

2. As interpretações sobre a Balaiada

A guerra da Balaiada foi um dos mais importantes conflitos ocorridos no Brasil


Império, e a maior revolta rural do Maranhão, a qual envolveu os segmentos populares.
Contudo, a memória oficial, que registrou inicialmente o conflito, destacou a participação
popular como sendo violenta e uma rebeldia sem causa. Esses tipos de interpretações são
oriundos de uma historiografia tradicional, aquela que deixou registros sobre esse movimento
de forma incompleta, apresentando o lado dos vencedores e omitindo os principais objetivos e
motivações dos rebeldes.
O primeiro autor a escrever sobre a Balaiada foi Gonçalves Magalhães, que na sua
obra narrou a história da Balaiada sob o viés conservador, isto é, tratou desse movimento
como um episódio de banditismo, em que os rebeldes eram ―homens ociosos, sem domicílio
certo, pela maior parte de uma raça cruzada de índios, brancos e negros, a que chamam
cafuzos, os quais são muito amantes d´esta vida meia errante, pouco dados a outros misteres e
muito á rapina e á caça‖ (MAGALHÃES, 1848, p. 267).
Outro autor que seguiu essa mesma perspectiva foi Ribeiro do Amaral, o qual
desqualifica a figura de Raimundo Gomes, um dos líderes populares, tratando-o com incapaz
de elaborar exigências ao então governo, a saber:

Saído das últimas classes da sociedade, tivesse a força precisa para levantá-
las e assolar o território de grande parte da Província [...] é possível que um
humilde e obscuro vaqueiro, nascido nos sertões da Província do Piauí,
coberto de crimes, sem prestígio que dá talento, sem a força que trazem as
grandes convicções, tivesse podido por um momento sequer, perturbar o
sossego desta Província, quanto mais devasta-la por tão longo tempo subindo
a ponto de fazer o governo requisições sediciosas, e pretendendo impor-lhe a
paz com as armas na mão, e sob condições duras e vergonhosíssimas? Não:
não é no rude vaqueiro que se devem procurar as origens da revolução
(AMARAL, 1898, p. 55-56).
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E, assim, essas abordagens foram reproduzidas pela historiografia tradicional, sem


analisar os verdadeiros motivos e o que estava por trás dos participantes da Balaiada.
Entretanto, nota-se que existia muito mais que uma rebeldia aparente e sem causa, como
prevaleceu nessas obras conservadoras, pois os balaios buscavam sair da condição de
explorados, bem como participar de forma ativa dos assuntos políticos.
A partir do final da década de 1980 novos estudos têm se empenhado para sair da
visão tradicional, nessa perspectiva que autores como Janotti (1987), Assunção (1988, 1998),
Santos (2010) contrapõem essas versões conservadoras e mostram os rebeldes com uma
atuação política e também capazes de se oporem aquele clima de instabilidades políticas e
uma tensão social. Infelizmente, ainda são vistos como marginais, violentos e rebeldes ainda
hoje por muitos.
Segundo Janotti (1987), o fato que favoreceu a eclosão da Balaiada – a invasão da
cadeia da Manga do Iguará, em 13 de dezembro de 1838, pelo vaqueiro Raimundo Gomes –
está ligado ao clima de descontentamento vivenciado pela província do Maranhão no contexto
da regência, uma vez que este episódio foi seguido de um manifesto de teor político. É
interessante observar a análise que a autora fez sobre o manifesto lançado por Raimundo
Gomes, a saber:

Observa-se que ele contém duas ordens de reivindicações: as dos bem-te-vis


e as dos populares. Podem-se considerar os três primeiros artigos (referentes
a obediência à Constituição; respeito às garantias individuais; demissão do
presidente e vice-presidente da província; abolição dos cargos de Prefeitos,
Subprefeitos e comissários de interesse exclusivo dos bem-te-vis. Entretanto,
Raimundo Gomes não se limitou apenas a transcrever opiniões alheias.
Revela-se o líder que viria a se tornar, escrevendo o 4 º artigo no qual exigia
a expulsão dos portugueses – símbolos populares da opressão social
dominante e, principalmente encerrado o manifesto com a expressão: fora
feitores e escravos (JANOTTI, 1987, p. 44-45).

O pesquisador Matthias de Assunção é um dos principais estudiosos a respeito da


4
Balaiada, pois traz em suas produções interpretações que tratam desse movimento
apresentando as suas possíveis causas, sem contudo, condenar os balaios, como vimos em
versões anteriores (MAGALHÃES, 1848; AMARAL, 1898). Para esse autor, a Balaiada foi
durante muito tempo desprezada pela historiografia oficial, pois:

4
Dentre essas pesquisas apresentamos: A Guerra dos Bem-te-vis (1988), História do Balaio (1998), Cabanos
Contra Bem-te-vis: a Construção da Ordem Pós-Colonial no Maranhão (1820-1841) (2005), A memória do
tempo de cativeiro no Maranhão (2010), Sustentar a Constituição e a Santa Religião Católica, amar a Pátria e
o Imperador. Liberalismo popular e o ideário da Balaiada no Maranhão (2011), De Caboclos a Bem-te-vis
:Formação do Campesinato Numa Sociedade Escravista (2015).
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[...] não se encaixava na visão tradicional do ―desquite amigável‖ com o qual


a nação brasileira teria se separado da mãe metropolitana, ou do caráter
supostamente consensual da política brasileira. Tampouco enquadrava-se na
visão conservadora que argumenta que as classes populares são incapazes de
articular seus interesses de maneira autônoma. A renovação da historiografia
durante as últimas três décadas levou a uma revisão fundamental do enfoque
que condenava as classes populares à passividade política (ASSUNÇÃO,
2015, p. 13).

A historiadora Sandra Santos (2010) traz em seus estudos sobre a Balaiada no espaço
do Sertão, e chama a atenção para a falta de articulação do sertão maranhense com o litoral
gerou uma nítida separação entre as duas regiões e o gérmen da história da Balaiada tem
ligação direta com este aspecto dicotômico, além de contemplar diversos aspectos de natureza
distinta. Contudo, essa autora também enfatiza o caráter popular do movimento e ressalta a
situação de injustiça que os balaios se encontravam naquele contexto.

Não obstante a Balaiada apresentar uma composição social heterogênea, isto


não descaracterizou seu aspecto popular, em virtude da procedência da maior
da maior parte de seus membros e da origem dos seus principais líderes. Os
rebeldes, na sua maioria, pertenciam a mais humilde das camadas sociais:
eram lavradores, vaqueiros, agregados, artesãos, desertores e indivíduos
desocupados. Estes foram justamente os mais injustiçados, e pela própria
condição de miséria em que viviam, as maiores vítimas das arbitrariedades e
das impunidades. Por isso, entendemos que a Balaiada, enquanto movimento
de revolta, foi uma resposta à violência e à opressão do momento (SANTOS,
2010, p. 185-186).

A partir dessas novas abordagens a Balaiada tem sido ressignificada, pois por muito
tempo estava marcada por visões conservadores, que colocaram esse movimento no
imaginário social, como se não passasse de badernas e que os balaios pretendiam colocar fim
a então ordem vigente. Assunção (1998) trouxe uma grande contribuição para a desconstrução
desse imaginário ao tratar dessa revolta por meio da História Oral.

3. A Balaiada e sua interpretação por meio da Memória Oral

A Balaiada foi um acontecimento, sem dúvida, marcante para a nossa história, e como
qualquer tema histórico nunca terá esgotado suas possibilidades de interpretação. Os estudos
de Matthias Röhrig Assunção tem sido um dos grandes colaboradores para uma nova análise
historiográfica. Esse historiador fez uso da memória oral de populações que vivem no leste
maranhense (banda oriental), região que foi palco principal dos conflitos, o que pôde tirar
novas conclusões acerca da Balaiada e trouxe novos olhares e compreensões do que foi a
Balaiada, inclusive a terminologia utilizada pelos entrevistados que não conheciam a versão
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oficial, escolarizada. Para esses caboclos maranhenses, a revolta denomina-se ―guerra dos
bem-te-vis‖.
Não cabe a nós como pesquisadoras e pesquisadores desse conflito darmos uma
sentença de ―certo‖ ou ―errado‖ sobre esse acontecimento, mas o que nos remete é tentarmos
compreender a sua dimensão e importância, já que seria impossível se ter uma concretização
do acontecido.
Muitas interpretações já foram feitas sobre a Balaiada, algumas ―surgem na época
mesma do movimento e se articulam a luta entre os dois partidos políticos do Império, o
conservador e o liberal‖ (ASSUNÇÃO, 1998, p.71), entre esses partidos houve uma constante
disputa pelo poder, ou seja, marcando o período por uma instabilidade política, de crises
econômicas e sociais. O historiador Matthias Assunção (1998, p. 79), inserido em uma
historiografia revisionista, destaca que é preciso a compreensão de que o partido conservador
na época estava no poder tanto regional como nacional, ou seja, muitos não aceitariam a
rebelião com um caráter político ou que aqueles rebeldes possuíssem alguma espécie de
reivindicação. Para muitos, esses rebeldes eram simplesmente perversos, violentos e
incapazes de ansiarem por algum ideal político ―[...] a elite podia explicar a revolta sem
contudo admitir as razões estruturais que levaram a ela‖.
Assunção é enfático ao declarar que a ―memória oral não pode fornecer dados
quantitativos, nem se pode exigir dela confiabilidade nos detalhes, quando se trata de histórias
transmitidas através de várias gerações‖ (ASSUNÇÃO, 1998, p. 70). Isso não quer dizer que
os relatos perdem sua credibilidade, muito pelo contrário, esses depoimentos que servem para
dar um novo olhar sobre a Balaiada, amenizando exageros e limitações que ainda vem sendo
mantida sobre esse tema na historiografia tradicional. Não se pode desprezar essas narrativas,
pois são relatos de memórias que foram passadas as gerações posteriores ao movimento e
representam uma memória coletiva e regional. Matthias Assunção se baseou na memória oral
por onde se deu o conflito:

Para realizar o trabalho, percorreu 20 dos 35 municípios em que se deu o


conflito, conversou com cerca de 600 pessoas, recolhendo depoimentos de
91 delas. Desse modo, (re) visitou o cenário da luta e conseguiu obter
informações diferentes daquelas cristalizadas na historiografia tradicional,
porque fornecidas por informantes que não conheciam a “história oficial”
da Balaiada, devido o fato de serem analfabetos e, assim, não saberem o que
dizem os livros didáticos. Entre as diferenças, destacam-se a própria
denominação da revolta que esses anciãos chamam de‖ Guerra do Balaio”,
ou‖ Guerra do Bem-te-vi”, e o motivo principal do movimento atribuído ao
“pega‖, o recrutamento forçado comum durante o Império‖ (ABRANTES,
1996, p. 69, grifo da autora).
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É interessante perceber como Assunção (1998) procurou sair daquela historiografia


tradicional, inovando por meio de seus estudos uma análise bastante significativa para a
―Balaiada‖5. Desse modo, Assunção (1998) utiliza o termo guerra dos bem-te-vis, conforme
encontrado na tradição oral, e também o termo balaiada, já consagrado na historiografia. O
que chama a atenção é que essa revolta ganha um novo significado, uma nova análise, em que
se busca compreender a sua complexidade, que vai além do que vinha sendo discutido até
então, em que mais se reproduzia intepretações já cristalizadas, do que trazer à tona novos
registros documentais ou mesmo releitura dos já amplamente utilizados. Assunção procura
compreender, por meio das entrevistas realizadas com os descendentes dos balaios, como os
revoltosos se comportaram e como se deu o caráter da revolta.

A memória contém inúmeras potencialidades, que podem em muito,


enriquecer o processo de reconstrução e análise das inúmeras variáveis
constitutivas da dinâmica da História. Entre elas, destacam-se: reacender
utopias de um tempo anterior; reconstruir ou reconstituir a atmosfera de um
outro tempo; representar diferentes correntes de pensamento; reativar
emoções políticas, individuais, coletivas; rememorar convivências e
conflitos ocorridos na dinâmica da história (NEVES,1999, p.112-113).

A Balaiada, sem questionamentos, foi uma das maiores insurreições ocorrida no Brasil
Imperial. Esse movimento ao longo do tempo tem ganhado novas abordagens, contudo, o
trabalho de Matthias Assunção, torna-se inovador, pois usa a memória oral, o que nos permite
melhor compreender o significado da Balaiada. Segundo Matthias Assunção (1998), a
historiografia tem dado pouca atenção para essa revolta e muitas vezes tem sido mal
interpretada.

Balaiada foi a insurreição ocorrida entre os anos de 1838 a 1841 na


Província do Maranhão, principalmente na parte oriental, estendendo-se nas
províncias vizinhas do Piauí e do Ceará. Dela participaram livres pobres,
escravos, fazendeiros, juízes de paz, desertores da guarda nacional,
quilombos, pequenos comerciantes, etc. tornando ‗impossível vincular as
motivações rebeldes a uma única categoria social (ABRANTES, 1996, p.
28).

Sobre a Balaiada, não se pode afirmar que essa revolta tenha acontecido somente no
Maranhão, mas ―[...] na verdade abarcou apenas uma parte, se bem que a mais importante,
desta província, mas, além disto, se estendeu por quase todo o Piauí e chegou mesmo a alguns
municípios do Ceará‖ (ASSUNÇÃO, 1998, p.68). Assim, podemos perceber a sua tamanha

5
Termo esse que embora passe por uma mudança, segundo ABRANTES (1996, p.8), ―não conseguirá anular a
força dessa denominação já consagrada na historiografia‖.
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amplitude geográfica, não foi em apenas uma localidade, mas alcançou diferentes áreas, cada
uma com as suas características, que ainda precisam ser melhor estudadas. É importante
ressaltar o seu caráter multiclassista, ou seja, contou com a participação de fazendeiros de
gado, escravos, vaqueiros, e teve uma aliança passageira entre camponeses livres e escravos.
Nas áreas específicas da Revolta, por exemplo, no sul do Maranhão e em grande parte do
Piauí, contou coma participação de fazendeiros de gado liberais, em outras áreas como no
vale do rio Itapecuru e na região conhecida como Maranhão Oriental a participação foi com
escravos e camponeses (ASSUNÇÃO, 1998).
De acordo com Matthias Assunção (1998, p. 73), a mobilização de toda aquela parte
envolvida, foi devido à exclusão política que eles tiveram, pela discriminação, e pelo
recrutamento forçado que ocorria e principalmente prejudicava as famílias que estavam
envolvidas na agricultura. Esse autor afirma que muitos consideravam que a ―revolta é vista
como um tipo de reação primária, onde a consciência dos rebeldes não merece análise‖. Do
outro lado, Abrantes (1996, p. 51) chama a atenção que muitos consideravam os rebeldes
como ―[...] um bando de facínoras, facciosos, bandidos e ávidos somente de pilhagem, sem
nenhuma inteligência e sem plano político, que queriam apenas devastar tudo como bárbaros
salteadores‖.
Quando se trata do que haveria dado início a revolta, há muitas controvérsias, pois,
diversos autores lhe dão interpretações diferentes. Segundo Assunção (1998), a maior parte da
historiografia afirma que o início da Balaiada é devido a uma violência sexual sofrida pelas
filhas de Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, conhecido como o Balaio, o qual teria sido um
dos principais líderes. Essa interpretação foi feita por Domingos Magalhães a partir de
informações orais, ou seja, não apresenta uma fonte escrita.

Motivos de vingança o arrastaram às fileiras da rebelião. Contam que duas


filhas suas tinham sido desfloradas por um certo Guimarães, oficial de
comissão que da vila do Itapicuru-mirim marchara com um golpe de gente,
para atacar Raymundo Gomes na Chapadinha logo em princípios da revolta.
Balaio, posto que de baixa esfera e pobre, assim ferido na sua honra, jurou
lavar com sangue a nodoa de suas filhas; cheio de indignação publicou a sua
desonra, excitou os ânimos de amigos e conhecidos, atraiu gente, e repetia a
linguagem dos facciosos, — que aqueles homens da legalidade, vendidos aos
Portugueses, queriam exterminar os de sua cor; que suas vidas, honra, bens,
pátria e liberdade, não tinham outro recurso senão o das armas. Destarte
colocou-se o Balaio a testa de um enxame de rebelados, e começou a semear
por onde passava destruições e mortes. Nenhum outro o avantajou nas
crueldades, que muito o enfurecia a sede implacável de vingança
(MAGALHÃES, 1848, p. 21-22).
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É um episódio considerado como um grande marco para o estopim da revolta e aceito


por grande parte da historiografia. Do outro lado, as interpretações divergem e apontam
motivos de recrutamento como o início da Balaiada, a exemplo do que aconteceu com os
companheiros de Raimundo Gomes, detidos na cadeia da vila da Manga, em dezembro de
1838. A pesquisa do historiador Matthias de Assunção (1998) deu início a um embate
historiográfico, apontando outra fonte que indica o início da revolta em novembro de 1838,
com o recrutamento dos filhos do Balaio. Assunção informa que:

Não consegui encontrar, até hoje, nenhuma outra evidência nas fontes de
arquivo a não ser este ―contam‖ de Magalhães, repetido por toda
historiografia subsequente até hoje. Não é preciso duvidar por completo
dessa história do Balaio, porque ela é plausível. Afinal, o estupro de
mulheres escravas fazia parte do cotidiano das fazendas do interior, assim
como a humilhação da população ―de cor‖ livre por brancos ou portugueses
como Guimarães. O problema reside no fato de que a história do estupro
pode explicar a sede de vingança de um indivíduo, mas não necessariamente
a mobilização de uma multidão seguindo Balaio. A memória oral a respeito
do Balaio é bem diferente. Segundo a versão mais difundida, tudo começou
quando um lavrador da comarca do Brejo, o Balaio, libertou seus filhos
recrutados à força, ou ―pegados‖, na expressão cabocla (ASSUNÇÃO, 1998,
p. 76).

E esse autor ainda destaca que ―[...] em dezembro de 1838, a preocupação dos
homens ‗de cor‘ livres não era luta contra escravidão, mas a resistência contra o recrutamento
forçado. E este não começou com Raimundo Gomes, como é afirmado por toda a
historiografia até hoje, mas com o Balaio‖ (ASSUNÇÃO, 1998, p. 76). Desse modo, é
importante enfatizar que o uso da memória oral nessa análise feita por Assunção, atribuiu o
início da ―Guerra dos Bem-te-vis‖ ao balaio que teve os seus filhos recrutados a força. Por
meio dos depoimentos dos descendentes dessa guerra, Assunção encontrou subsídios para
essa nova análise,

Na versão da memória oral pelo contrário, a história do Balaio libertador do


ou dos filhos ‗pegados‘ põe em relevo o que é visto pelos rebeldes e seus
descendentes camponeses como a principal razão da revolta, o ‗pega‘. O
Balaio liberando não somente o seu filho recrutado, mas propagando que ia
soltar ‗ a quantos recrutas passarem‘ elevava a sua resistência individual a
um nível mais alto, coletivo. A partir deste momento a resistência passiva ao
‗Pega‘ transformou-se em resistência ativa, em revolta aberta. Todas as
famílias camponesas viviam sob a mesma ameaça do recrutamento, por isto
as ações do Balaio, e subsequente a de Raimundo Gomes tiveram grande
ressonância, mobilizando milhares de homens contra o governo provincial e
os prefeitos recrutadores (ASSUNÇÃO, 1998, p. 79, grifo do nosso).

Esta versão implica analisar que os revoltosos se mobilizaram contra o governo da


época que os deixavam longe de seus direitos e a elite utilizava o recrutamento como forma
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de calar grande parte daquela sociedade, ou seja, aqueles que de alguma forma pudessem ser
uma ameaça para os objetivos dos que estavam no poder. ―A Balaiada foi um autêntico
momento de inversão onde o perseguido de ontem virou perseguidor, e vice-versa‖
(ASSUNÇÃO, 1998, p. 82). De tal modo, mostra que os ―rebeldes‖, diferente de muitas
afirmações, por meio da memória oral, revelaram-se capazes de ansiar por justiça, já que era
uma classe tão oprimida e afastada dos assuntos políticos. Embora, a história oral procure dar
um novo olhar para essa revolta, os registros e a sociedade ainda mantêm uma versão
preconceituosa no nosso Estado, pois, ―[...] a Balaiada ainda não foi realmente reabilitada no
Maranhão. As revoltas regionais em outros estados, como a Cabanagem no Pará ou a Praieira
em Pernambuco, conseguiram uma reavaliação oficial. Os mártires são honrados nas
comemorações oficiais‖ (ASSUNÇÃO, 1998, p. 84).

Considerações Finais

A Balaiada foi um movimento de revolta de caráter popular, e dada a heterogeneidade


de seus componentes, foi marcada pela pluralidade de características contraditórias e
diversificadas, cujos matizes são definidores de sua natureza sertaneja. A Balaiada
representou a confluência de fatores sociais (desrespeito, opressão, exploração e miséria) e de
reivindicações políticas de caráter variado, político-institucional, ou nativistas (suspensão da
Lei dos Prefeitos e Subprefeitos, expulsão do presidente da província, expulsão dos
portugueses) por uma parcela significativa da população do sertão maranhense, composta de
vaqueiros, escravos fugitivos, pequenos artesãos, assaltantes de estrada, agricultores, sem-
terra, desertores da Guarda-Nacional, políticos, pequenos comerciantes, fazendeiros, etc. Toda
essa complexidade justifica a atualidade do tema, sempre tão intrigante e ao mesmo tempo
instigante (SANTOS, 2010).
A Balaiada foi um precursor para outros movimentos de rebeldia posteriores no
contexto social e político do Maranhão. O gérmen da história dessa revolta tem ligação direta
com diversos aspectos de natureza distinta. Socialmente, este movimento foi composto por
elementos provenientes das mais diversas categorias, o que lhe dá um caráter heterogêneo; as
concepções políticas e sociais que moveram os rebeldes à luta foram os fundamentos do
liberalismo constitucional e monárquico, ecleticamente entrelaçados com a defesa nativista de
um nacionalismo exacerbado. Essas concepções quando manifestadas por representantes da
Balaiada, fossem bem-te-vis ou balaios, sempre estavam ligadas aos interesses do momento.
A história da Balaiada, apesar de seus aspectos distintos, é uma só. Compõe-se de aspectos
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tão profundamente entrelaçados, que se toma difícil tentar explicá-los em separado


(SANTOS, 2010).
Diante disso, podemos notar que a Balaiada foi uma insurreição de tamanha
importância no contexto do Brasil Imperial, já que nesse período aconteceram outras grandes
revoltas que causaram instabilidades políticas econômicas. Sobre essa revolta, percebemos
houve uma amplitude geográfica, pois alcançou outras áreas não só o Maranhão, mas atingiu
as então províncias do Piauí e Ceará. As interpretações acerca da Balaiada vão muito mais
além do que os novos estudos nos permitem saber, bem como os profundos significados com
a contribuição da memória oral.
Desse modo, a utilização da história oral possibilitou colher os relatos dos
descendentes dos balaios em muitos povoados por onde a revolta passou. Isso, permitiu,
sobretudo, uma melhor análise desse acontecimento tão importante na História do Maranhão,
contribuindo para contrapor a visão tradicional, em que não deu ênfase ao ideário político dos
balaios, os quais foram capazes de lutar por seus direitos e não aceitar a condição de
explorados naquela sociedade, bem como o que poderia ter iniciado essa revolta que tomou
proporções imagináveis. Infelizmente, muitos escritos ainda permanecem com uma visão
distorcida e preconceituosa sobre essa revolta popular.

REFERÊNCIAS

ABRANTES, Elizabeth Sousa. A Balaiada e os Balaios: Uma Análise Historiográfica. São


Luís, 1996.

AMARAL, José Ribeiro de. Apontamos para a História da Revolução da Balaiada na


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ASSUNÇÃO, Mathias Rohrig. A Guerra dos Bem-te-vis. São Luís: SIOGE, 1988.

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1841. In: PRIORE, Mary Del; GOMES, Flavio (Org). Os senhores dos rios: Amazônia,
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Liberalismo popular e o ideário da Balaiada no Maranhão‖. In: DANTAS, Mônica Duarte
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_______. De Caboclos a Bem-Te- Vis: formação do campesinato numa sociedade


escravista: Maranhão 1800-1850. São Paulo: Annablume, 2015.

ENGEL, Magali Gouveia. Balaiada. In: Ronaldo Vainfas (Org). Dicionário do Brasil
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JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. A Balaiada. São Paulo: Brasiliense, 1987.

MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de. Memória histórica e documentada da


revolução da província do Maranhão desde 1838 até 1840. Rio de Janeiro: Revista do
IHGB, n. 10, 1848.

NEVES, Lucília de Almeida. Memória, história e sujeito: substratos da identidade. História


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A BALAIADA NA VISÃO DE D. BENÍCIO CONDURÚ PACHÊCO

TÉSSIA LUANA CASTRO GUIMARÃES ALVES1

1. Introdução

O presente trabalho faz uma breve análise sobre as representações da Balaiada, na


perspectiva de D. Felipe Benicio Condurú Pachêco, em sua obra Pai e Mestre (1940) 2. A
referida obra discorre sobre a biografia do avô materno, o professor Felipe Benício de
Oliveira Condurú, um expoente da educação maranhense no século XIX. No quinto capítulo,
menciona o conflito ocorrido no Maranhão, iniciado em 13 de dezembro de 1838, a Balaiada.
O escritor evidencia a sua posição contrária ao movimento popular, tecendo adjetivos
pejorativos ao líder Raimundo Gomes, descrito como um ―cafuz analfabeto e vingativo‖,
assim como se refere a outro líder popular, Emanuel dos Anjos Ferreira, como ―um crioulo
boçal e não muito valente, mas de muito tino oportunista‖ 3 (PACHÊCO, 1940, p. 44-45).
Estas descrições negativas dos conhecidos personagens da Balaiada, implica que o
escritor visava depreciar o movimento iniciado na vila da Manga, recorrendo a argumentos
discriminatórios. A rejeição ao movimento da Balaiada também se explica pelo fato do seu
avô Felipe Condurú ter sido pessoalmente prejudicado. Na época de eclosão do conflito,
encontrava-se estudando em Paris às expensas dos cofres públicos provinciais, e sofrera com
o corte de recursos para sua manutenção, haja vista que o conflito prejudicou a economia
maranhense, e, consequentemente, diminuiu a arrecadação provincial.

1
Graduada em Pedagogia. Mestranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, da
Universidade Federal do Maranhão (PPGE/UFMA) E-mail: castroguimaraes33@gmail.com
2
O autor é mais conhecido pela obra História Eclesiástica do Maranhão (1969).
3
Os textos dos documentos tiveram sua grafia atualizada.
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2. De São Bento para São Luís: o despertar de Felipe Benício de Oliveira Condurú

O livro Pai e Mestre foi escrito no século XX, por D. Felipe Condurú Pachêco, Bispo
de Parnaíba, neto do ilustre professor Felipe Benício de Oliveira Condurú, a quem dedicou a
referida obra. Os capítulos são constituídos de valiosas informações sobre educação, fauna,
flora, política, engenharia, costumes sociais e culturais no Maranhão do século XIX. Além
disso, no antelóquio e nas palavras de apresentação, contém outras questões, relacionadas a
política maranhense do século XIX.
O conteúdo da obra foi ordenado em quatro partes - a primeira versa sobre o início da
trajetória do professor Condurú em busca do conhecimento, a viagem à Paris, a relação com a
Balaiada, o método Lancaster e a Escola Normal; a segunda retrata a família Condurú, em
especial Eponina Condurú Serra, eximia poetisa, jornalista e cronista do século XIX, filha do
professor Felipe Condurú e tia do Bispo D. Felipe Condurú Pachêco; a terceira descreve os
campos dos Peris, exaltando a fauna e a flora da Baixada Maranhense; a quarta e última parte,
narra a construção de um canal hidrográfico de São Luís até São Bento, ficando mais
conhecido como a vala dos Condurú.
Dessa maneira, o personagem central do livro chama-se Felipe Benício de Oliveira4
Condurú, nascido em 23 de agosto de 1818, na vila de São Bento, localizada no Maranhão,
filho do modesto lavrador Atanásio Rodrigues de Oliveira e da dona de casa Rita Antônia de
Araújo Cerveira. Os seus pais formaram uma prole de 14 filhos (3 meninos e 11 meninas).
Deram-lhes uma instrução elementar, uma vez que não possuíam grandes recursos para
investir na instrução dos filhos, embora acreditassem que somente por meio da educação e
instrução poderiam alçar voos mais altos. Comportamento compreensível, já que o patriarca
da família, não possuía estudo, apenas sabia ler e escrever, desejava um futuro melhor para os
filhos.
Conforme as anotações feitas pela poetisa e jornalista Eponina Condurú Serra, em que
narra a relação de respeito entre seu pai Felipe Condurú e seu avô Atanásio Oliveira, os dois
serviam de exemplo aos familiares. Desse modo, informa que:

Com ambos convivi algum tempo a passeios de férias, em sua fazenda. Ali,
só me recordo de ver a união da família, o profundo respeito aos pais, o
trabalho assíduo e a abundância dele proveniente e a lhe corresponder. Meu
avô não tinha ilustração; mas, sabia ler e escrever e sua correspondência
epistolar com meu pai, que eu ainda cheguei a apreciar, não fazia
envergonharem-se os filhos. Assim, ele procurou dar-lhes a instrução e a

4
O seu nome foi uma homenagem à São Felipe Benício e ao bisavô materno Felipe Crovêlo de Matos.
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educação que os seus modestos haveres permitiam e que a época e o lugar


em que cresceram lhes proporcionaram (Apud. PACHÊCO, 1940, p. 21).

Nota-se que a família Oliveira não era abonada, mas compreendia que o melhor
investimento consistia na educação, pois acreditava que este seria o único meio inquestionável
para vencer na vida. Não demorou muito, Felipe Condurú completou 10 anos de idade,
seguindo para São Luís, capital do Maranhão, em busca dos mestres e dos livros.
Quando chegou a capital ludovicense, a nova residência foi a casa de uma tia paterna,
a senhora Antônia Rodrigues de Oliveira Martins, uma espécie de guardiã do sobrinho. O
jovem Condurú encontrou uma cidade provinciana, ―o clima era de relativa paz‖ (LIMA,
2008, p. 127), com pouco menos de trinta mil moradores, sem muito atrativo para passar o
tempo. Ainda não havia uma biblioteca pública e nem mesmo uma escola pública para a
instrução secundária. Esta só seria criada dez anos depois, o Liceu Maranhense. 5
Em relação aos estudos de Felipe Condurú, a princípio foram realizados em caráter
privado, uma prática comum para algumas famílias, haja vista a ausência de escolas
particulares e públicas para os níveis mais elevados da instrução.

[...] antes da criação do nosso Liceu, existiam já professores de nomeada


nesta Capital, públicos e particulares, cada qual na sua disciplina, os quais,
em seguida, o Governo provincial veio a contratar para catedráticos ou
proprietários no estabelecimento oficial.
Em outubro de 1838 autorizava o Presidente Camargo todos os professores
já ajustados a continuar as aulas das suas especialidades nas suas residências
particulares, enquanto se concluíam as obras de adaptação no andar térreo do
Convento do Carmo (PACHÊCO, 1940, p. 26).

Apesar de não haver tais instituições escolares, isso não impediu que Oliveira Condurú
prosseguisse os estudos na residência dos seus lentes, tais como Francisco Sotero dos Reis, no
ensino do latim; Quadros, nas aulas de francês; Xavier de Brito, ministrando as aulas de
matemática; Padre Antônio da Costa Duarte, nas aulas geografia; e Frederico Magno
Abranches, nas disciplinas filosóficas e morais. Posteriormente, os referidos mestres
lecionaram no Liceu Maranhense (PACHÊCO, 1940).

3. A viagem para a França e as concepções acerca da Balaiada

No pós-independência, com a Lei de 15 de outubro de 1827, primeira lei sobre a


Instrução Pública Nacional do Império, fez-se necessário tomar algumas medidas para
organizar o ensino público. O grande desafio era a formação dos mestres para atuar nas

5
A cidade de São Luís já contava com um teatro para o lazer dos seus moradores mais afortunados, era o teatro
União, inaugurado em 1817.
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escolas de primeiras letras. Inicialmente a solução foi buscada no método pedagógico do


ensino mútuo, também denominado de método Lancaster6, uma espécie de método tutorial
que visava formar um número maior de professores em pouco tempo. Os primeiros rumos
para a vinda do método Lancaster ao Brasil, ocorreu por meio da Constituição de 1824,
determinando que a instrução primária fosse gratuita e para todas as pessoas. Contudo, como
seria possível atender todos os cidadãos, já que para isso seria necessário mão de obra
capacitada para o magistério, visto que ―pouco ou nada se fez para a formação dos
professores‖ (PILETTI, 1990, p.44). No cenário maranhense, não foi diferente, pois ―esta
situação arrastou-se por longos anos, agravada pela falta de mão-de-obra especializada do
magistério e fatores de ordem econômica‖ (BRANDES, 1994, p. 355).
Dessa maneira, a primeira medida a ser tomada para o uso desse método ocorreu em
22 de agosto de 1825, quando ―o governo enviou um aviso ministerial endereçado aos
presidentes de províncias insistindo na necessidade de propagar escolas pelo método
lancasteriano‖ (CASTANHA, 2012, p. 5), sendo colocado como método oficial de ensino no
Brasil ―pelo Decreto das Escolas de Primeiras Letras, a Lei de 15 de outubro de 1827‖
(BASTOS et al., 2018, p.52).
Em 24 de julho de 1838, o Presidente da Província do Maranhão, Vicente Tomás Pires
de Figueiredo Camargo, sancionou a Lei nº 76, que nos artigos 1º ao 6º autorizava a viagem
para a França de um cidadão com habilidades para aprender o método Lancaster,
permanecendo em Paris por no máximo dois anos, sendo esta permanência custeada pelos
cofres públicos. Ao retornar para a capital maranhense, este teria a responsabilidade de dirigir
uma Escola Normal em no mínimo de três anos, caso não aceitasse assumir ou concluir os
estudos, deveria reembolsar todo investimento ao Tesouro Provincial.
O escolhido para esta missão de formação pedagógica foi Felipe Benício de Oliveira
Condurú. Em fevereiro de 1839, tendo recebido seiscentos mil réis para suprir os gastos da
viagem, partiu para a capital francesa afim de estudar o método lancasteriano, recebendo,
posteriormente, uma mesada de quatrocentos mil réis anuais para as despesas diárias
(PACHÊCO, 1940).

6
―O sistema Lancasteriano outro não e senão o sistema mútuo. A sua origem é, certamente, muito antiga. Data
de quando um primeiro mestre zeloso e arguto observou que a sua turma de alunos era excessivamente
numerosa, para que ele só fosse capaz de mantê-la disciplinada e de instruí-la suficientemente. Tomou, então, os
mais adiantados da classe, distribuiu os demais em turmas e confiou àqueles, previamente formados, o cuidado
de transmitir aos diversos grupos os conhecimentos adquiridos sob sua fiscalização pessoal. Tal expediente como
que desdobrou, multiplicou p próprio preceptor perante seus discípulos, por intermédio dos diversos decuriões
ou monitores‖ (PACHÊCO, 1940, p. 31).
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Felipe Condurú não ficou no período de dois anos, mas aproximadamente nove meses,
o que dava um gasto de um conto de réis. A questão financeira foi um dos motivos para o
biógrafo de Felipe Condurú, retratar a Balaiada de maneira depreciativa. Em um depoimento
de Eponina de Oliveira Condurú Serra, filha primogênita do professor Condurú, essa ideia
fica evidente.
Privado de comunicação com sua família, em consequência da revolução
nesse tempo havida com o nome de – Balaiada – não mais recebendo de seu
pai o auxílio que o ajudava a manter-se no estrangeiro, sabido como era
muito módica a pensão dada pelo Governo da Província, e sendo ele muito
moço ainda, vendo-se em terra estranha, longe da Pátria que, nesses tempos
parecia ainda mais distante pela dificuldade das comunicações, apavorou-se
naturalmente com a perspectiva de ver-se ali, só e privado de recursos, tendo
já visto alguns dos seus companheiros (?), menos previdentes e econômicos
do que ele, irem parar à Pátria (Apud. PACHÊCO, 1940, p. 46 - 47).

O auxílio de seu pai Atanásio Rodrigues de Oliveira foi necessário, pois no Oficio de
12 de janeiro de 1839, endereçado ao Presidente da Província, Vicente Tomás Pires
Figueiredo Camargo, publicado no jornal O Publicado, de 23 de janeiro de 1839, o Sr.
Leonel Joaquim da Serra, Inspetor do Tesouro Público Provincial, reporta que a quantia para a
viagem, de 600$000 réis, e a mesada anual de 400$000 réis, ou seja, aproximadamente
34$000 réis por mês, era um valor irrisório para as despesas com a educação, alimentação e
outras que poderiam aparecer. Por isso, no relato de D. Eponina, lê-se que seu pai teve que
economizar muito, para não contrair dívidas, ao contrário de outros brasileiros que foram
presos por acumularem débitos em Paris. Aliás, o estudante Oliveira Condurú recebia dinheiro
de sua família, sendo esta uma ajuda imprescindível, mas que devido a Balaiada, não chegava
ou demorava, uma vez que seus genitores moravam em São Bento.
As comunicações entre Felipe Condurú e sua família foram prejudicadas pela
Balaiada, assim, o jovem Condurú ficou muito preocupado de algum mal sobrevir aos seus
entes queridos. Conjectura-se que as notícias que chegavam a Paris não eram as melhores -
remetia a ideia que os balaios eram um bando de salteadores e homicidas, assim sendo outro
motivo para agilizar o retorno dele para o Maranhão e, consequentemente, mais uma razão
para seu biógrafo, D. Pachêco, escrever sobre a Balaiada de maneira hostil.
Outro motivo para D. Pachêco retratar a Balaiada de modo negativo pode estar
relacionado à influência que recebera das versões conservadoras sobre o conflito e seus
líderes. Essa hipótese concerne com as análises descritas por D. Pachêco acerca de Raimundo
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Gomes, que se assemelha com a descrição feita por Domingos José Gonçalves de Magalhães 7,
no qual diz ser Raimundo ―coberto de crimes‖, e ―prestando a sua faca às vinganças próprias e
alheias‖ (MAGALHÃES, 2001, p.27), dando a entender que Raimundo Gomes antes de
invadir a vila de Manga era um criminoso. Mas, como Astolfo Serra enfatiza ―não há provas
provadas‖, de que ―antes de arrombar a cadeia da vila de Manga, já fosse um assassino ou
criminoso de morte‖ (SERRA, 2008, p.222).
Essa caricatura estigmatizada em relação a Raimundo Gomes é explicada por Astolfo
Serra quando revela que essas ―duas qualidades de mestiço e de vaqueiro já o tornavam desde
logo antipatizado pelos burgueses da época, eivados de preconceitos‖. Finalizou dizendo que
―no Maranhão, terra de preconceitos de casta, ser mulato e vaqueiro já era quase ser criminoso
[...]‖ (SERRA, 2008, p. 222 grifos do autor).
Em outra referência a Raimundo Gomes, Condurú Pachêco escreveu: ―De um caso de
família, em flagrante desacato à autoridade do Juiz Municipal de Paz, que não concordara em
dar evasão a um assassino, faz-se um desairoso e desastrado caso político‖ (PACHÊCO, 1940,
p. 44). Este episódio aconteceu com o irmão de Raimundo Gomes, sendo este acusado de
assassinato. Essas informações que Pachêco utiliza também podem ter sido tiradas das
memórias do Major Ricardo Leão Sabino, escritas por Rodrigo Octavio no início do século
XX, em que o militar versa sobre sua participação no conflito da Balaiada e traça uma
descrição negativa dos rebeldes balaios, desqualificando seus líderes.

Foi a pequena Villa da Manga, distante 12 léguas da Capital e 20 mais ou


menos do rio Itapecuru, o teatro da primeira desordem que não pôde ser
sufocada e se alastrou, conflagrando quase todo o território da Província.
Nesse povoado um preto de nome José Gonçalves cometera um assassinato.
Raymundo Gomes, irmão de José Gonçalves e destemido facínora, vendo o
irmão e companheiro de tropelias preso e recolhido á cadeia do lugar, foi ter
com o Juiz de paz e pediu-lhe que proporcionasse a fuga do criminoso
(OCTÁVIO, 1903, p.11-12).

Prosseguindo com a descrição sobre o estopim da revolta, conforme D. Pachêco:

Efetivamente, em 13 de Dezembro de 1838, Raimundo Gomes, cafuz


analfabeto e vingativo, natural do Piauí e vaqueiro no município de Vargem
Grande, à frente de 200 homens, assalariados, armados e municiados,
invadia a vila da Manga, na mesma circunscrição, cometendo toda sorte de
depredações e assenhoreando-se da situação (PACHÊCO, 1940, p. 44).

7
Primeiro autor a escrever uma obra sobre a Balaiada. Cf. Gonçalves de Magalhães, José. Memória histórica e
documentada da revolução da província do Maranhão desde 1839 até 1840, publicado originalmente em 1848,
pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).
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Os primeiros cronistas da Balaiada apontam que eram nove os companheiros de


Raimundo Gomes na invasão da cadeia da vila da Manga. O professor Ribeiro do Amaral diz
que ―A treze deste mês, apareceu na Manga um cafuz por nome Raimundo Gomes,
acompanhado de nove homens, e, sem respeito às autoridades, arrombou a cadeia, e soltou os
presos‖ (AMARAL, 1992, p. 62). E Carlota Carvalho, em um trecho do seu livro O Sertão,
afirma que: ―Depois de esgotar os meios persuasivos e as atitudes humildes, pedidos e
súplicas, ameaçado de prisão por se tornar aborrecido pela insistência, Raimundo Gomes e
nove companheiros, que estavam soltos praticaram uma audaciosa surpresa‖ (CARVALHO,
2006, p. 159).
Em outro trecho de sua obra, D. Condurú Pachêco refere-se agora a Emanuel dos
Anjos Ferreira, de alcunha o Balaio, descrevendo-o como: ―um crioulo boçal e não muito
valente, mas de muito tino oportunista‖, e sendo ele ―outro queixoso da autoridade e por
motivo semelhante, comparsa de Raimundo Gomes, fabricante e vendedor de largos e rasos
cestos de guarimã [...]‖ (PACHÊCO, 1940, p. 45). Essas imagens negativas dos líderes da
Balaiada eram compartilhadas pelas elites sociais e econômicas, e até mesmo intelectuais,
especialmente na capital São Luís, que mesmo não sendo palco do conflito, viveu dias de
terror com medo de que a qualquer momento fosse também invadida, como aconteceu com a
cidade sertaneja de Caxias.

Considerações Finais

O estudo da Balaiada requer laboriosa pesquisa, visto que trata de um movimento


multiclassista, liderado por homens do povo, assim sendo um grupo bastante hostilizado.
Observa-se a existência de relatos depreciativos, principalmente tendo o velho antagonismo
entre o bem e o mal. Após vinte lustros do término da Balaiada, D. Condurú Pachêco escreveu
o livro Pai e Mestre, enfatizando de maneira ríspida a revolta dos balaios, especialmente
porque o conflito, em sua opinião, prejudicou a economia e o sossego da província, atingindo
muitas famílias direta e indiretamente, a exemplo dos seus antepassados. O caso emblemático
foi o ocorrido com seu avô Felipe Condurú Pachêco, que teve seus estudos no exterior
interrompidos em razão das dificuldades financeiras da província na época da revolta.
Dessa forma, a biografia de Felipe Condurú Pachêco descreve o movimento intitulado
Balaiada, em um pequeno recorte, demonstrando em suas palavras que esta agitação teve
contribuições negativas à aquela importante missão que estava acontecendo em Paris, com a
finalidade de fundar a Escola Normal no Maranhão.
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Por outro lado, a partir de outras análises e contribuições acerca da Balaiada,


especialmente de cunho revisionista8, pode-se refletir sobre os verdadeiros motivos, os quais
influenciaram a eclosão do movimento, representado pelos desfavorecidos, que estavam
cansados do abuso do poder das autoridades e as injustiças sociais praticas no Maranhão do
século XIX.

REFERÊNCIAS

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8
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109
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