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Sobre a diferença entre


estar exposto e estar 68
Resistir-por-ninguém-e-por-
incluído
nada
Juliano Pessanha
Leila Danziger
Poema I

75
Poema II

14
A cidade dos fios de cobre
Desmonte geral
Lucio Branco

Breno Silva

84
22
A greve do negativo e a revolta
Tensões
Frederico Canuto

contra a história
Jean-Michel Heimonet
Tradução Lívia Drummond 94
Um antigo casarão da rua
Manaus nos escolheu

40
Priscila Musa

Diário da República de Saló


Washington Drummond
102
A Vida de Clarice Lispector
44
A Estação das Canetas
Marcelo Ariel

Geraldo Santos
108
51
Epitáfios
Esgotamento
Simone Cortezão

Cristiano Luis, Breno Silva e


João Castilho
Neste breve acréscimo,
pretende-se esclarecer a
diferença antropológica Juliano Garcia Pessanha
fundamental, a saber, a
Sobre a diferença entre estar exposto
diferença sloterdijkiana entre
estar exposto e estar incluído. e estar incluído
No aforismo intitulado
“Passageiro”, Kafka escreve:

Estou em pé na plataforma do bonde a blusa é justa e tem uma gola de renda branca Esse fragmento kafkiano é interessante ram nesse espaço do desastre. Um espaço de pura
elétrico e totalmente inseguro em relação à fina, ela mantém a mão esquerda espalmada na como documento sobre o não estar incluído e a exterioridade onde está ausente qualquer intimi-
minha posição neste mundo, nesta cidade, na parede do bonde e a sombrinha da mão direita se exterioridade. O narrador em primeira pessoa diz dade. Para Blanchot, aí nesse lugar, de onde Kafka
minha família. Nem de passagem eu seria capaz apoia no penúltimo degrau mais alto. Seu rosto é da condição desassossegada de quem não tem diz, já não é o “eu” que fala e se exprime, mas o
de apontar as reivindicações que poderia fazer, moreno, o nariz levemente amassado dos lados lugar nem familiaridade com o mundo. É como se ser: “Aí onde ele está, só fala o ser – o que significa
com direito, na direção que fosse. Não posso de termina redondo e largo. Ela tem cabelos casta- alguém, ao começar a redigir algumas linhas, visse que a palavra já não fala mais, mas é, mas consa-
nhos fartos e pelinhos esvoaçando na têmpora o sentido das palavras desaparecer e sua materia- gra-se à pura passividade do ser” (BLANCHOT,
modo algum sustentar que estou nesta plata-
direita. Sua orelha pequena é bem ajustada, mas lidade crescesse com a brancura do papel, até que 1988, p. 21). Esse lugar é um outro de qualquer
forma, que me seguro nesta alça, que me deixo
por estar próximo eu vejo toda a parte de trás da a pessoa em questão já não soubesse mais situar- mundo, e o poeta é aí conduzido pela exigência
transportar por este bonde, que as pessoas se
-se em relação à tarefa que estava realizando. Uma da obra. A exigência da obra arranca o escritor
desviam dele ou andam calmamente ou param concha direita e a sombra da base.
experiência desse tipo é aquela descrita por Heide- do mundo e o coloca fora, num lugar exterior e
diante das vitrines. É claro que ninguém exige Naquela ocasião eu me perguntei: como
gger como a da visita da angústia. Na visita da distante daquele onde vigora a digital e a pertença
isso de mim, mas dá no mesmo. é que ela não está espantada consigo mesma,
angústia, a familiaridade do sentido se esvai, e o ao sentido (província da cultura).
O bonde se aproxima de uma parada, conserva a boca fechada e não diz coisas desse
ente emerge na estranheza. O filósofo de Freiburg Para a esferologia sloterdijkiana, entre-
uma jovem se coloca perto dos degraus pronta tipo? (KAFKA, 1991, p. 37-38)
dignificou essa posição e deu a ela uma cidadania tanto, a superação da posição antropológica pela

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para descer. Aparece tão nítida para mim que é
filosófica na mesma medida em que mostrou que visita do ser ou pela exigência da obra depende da
como se eu a tivesse apalpado. Está vestida de
nascia aí uma outra relação com a linguagem. Na catástrofe e do desencontro antropológicos: “Man’s
preto, as pregas da saia quase não se movem,
sua esteira, pensadores como Blanchot se detive- calamities are Being’s opportunity” (SLOTERDIJK,

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2011, p. 28). Sloterdijk considera que não há ridade, surpreende que essa posição extrema posições tornaram-se hoje assunto de guetos e de mundo estivesse em estado terminal e carecesse de
superação da posição antropológica, mas apenas tenha se tornado quase paradigmática na filosofia especializações acadêmicas, maiormente na subcul- revolução e de superação, e os filósofos fossem os
diferença antropológica, e a diferença importante francesa do pós-guerra. Este exemplo seria digni- tura teatral e psi. O interessante em Sloterdijk é heroicos guardiões de novas lufadas epocais. Se o
é aquela entre o residir no partilhado e a catás- ficado por Deleuze como o de um desterritoriali- que em sua obra ele joga fora o sujeito moderno, chamado ético de Heidegger arrastou muitos para
trofe esferológica1, afinal, quem é o habitante zado sem órgãos; o de alguém que corre por uma mas não cai na dignificação do vazio, da dester- o outro lado do entre, em que o fundamental é
desta região “onde a impossibilidade já não é linha de fuga numa movimentação anômala, que ritorialização, da impessoalidade poética ou da expor-se ao descontínuo e ao incessante da irrupção
privação, mas afirmação”? (BLANCHOT, 1988, difere de qualquer determinação identitária. Já exterioridade, pois coloca no seu lugar o conceito do ser – o que envolve uma posição extravagante
p. 296). Quem é o rapaz do bonde, o perplexo para Lacan, o mesmo fragmento tornaria claro o de self ou de si mesmo3 revigorados pela tradição no limiar e na borda das culturas (o acontecimento
com a janela escancarada? Ali onde o porta-voz que é estar fora da posição subjetiva e desconhe- da psicanálise inglesa do grupo do meio (middle do ser equivale ao grau zero da hermenêutica) –,
da exterioridade diz de uma insegurança radical cer a consistência ilusória do eu (Moi): é a posição group). Essa operação sloterdijkiana é dotada de a obra de Sloterdijk realiza uma migração para o
de sua posição neste mundo e de um não saber de um dizente “fala-ser”, pois, tocado pela extimi- grande relevância, pois, com ela, o mais francês outro lado do entre, o que implica uma virada de
qual reivindicação fazer, a moça do bonde cuja dade e exposto ao abismo, diz sem a gordura do dos filósofos alemães supera e põe em xeque seus Stimmung e em um maior amigamento do mundo.
presença é motivo de uma indagação sem fim por sentido. É alguém “no limiar do silêncio e da letra”, predecessores franceses. Não há dúvida de que a Pensar os vários mundos por dentro, os mundos
parte do rapaz poderia dizer que está tranquila, conforme o título de um livro de Maria Lúcia esferologia, ao trazer para o interior da filosofia nos quais o ser humano se sustentou e encontrou
ruminando a última conversa com seu noivo e Homem (2012), teórica lacaniana, sobre Clarice fenômenos e conceitos inteiramente novos, logra lugar, e ainda assim o segue fazendo, é o legado do
algumas exigências que faria no trabalho. Se o Lispector. Já Bataille leria a posição de alguém circunscrever e relativizar o âmbito da experiên- culturólogo e mega-abraçador de mundos, Peter
rapaz está desprovido de mundo e de interioridade efetivamente abandonado ao não saber. E é na cia filosófico-literária francesa. Essa circunscri- Sloterdijk. Após a sua descrição dos processos
é porque seu gesto primeiro foi vomitar e recusar o angústia do não saber, “na ruptura de qualquer ção é superadora, pois os fenômenos esféricos e morfogenéticos implicados na formação dos vários
leite materno. Seu gesto foi um gesto-não!2 Já para possível” (BATAILLE, 1992, p. 66), que o homem a inclusão do nascimento e dos bebês no interior mundos desde a “pré-história” até a pós-história,
ilustrar com a moça a posição incluída, a posição aberto se descobre uma súplica. Quanto a Foucault, do discurso filosófico são algo inconcebível para as muito da filosofia anterior soará ultrapassado. A
de quem se “instalou buscando segurança, como pode-se até esquecer do seu fascínio por Blanchot crianças de Heidegger e os meninos de Nietzsche. memória monstruosa e a visão hiperbólica situam
mansa habitante da normalidade e como inqui- e Bataille na sua fase formativa. Basta lembrar Sloterdijk inaugura assim um novo as questões da modernidade e da experiência do
lina de seus centros de tranquilidade e sossego” que sua posição nietzschiana faz da exteriori- paradigma para a filosofia do século XXI e renova as presente a partir de quadros muito mais amplos
(SLOTERDIJK, 2003, p. 92), pode-se afirmar que dade o lugar por excelência do pensador genea- bases da conversação filosófica. Uma conversação e exigentes que os até hoje praticados. A analítica
ela teria interioridade e localização porque, quando lógico-desconstrutivo. Se, por meio de Foucault, mais ampla, mais aberta, mais complexa e menos do espaço e da forma, empreendidas por Sloter-
bebê, ao tomar o leite, tivera o corpo tomado por “o Dionísio se tornou arquivista” (SLOTERDIJK, extremista, aristocrática e vanguardista. Visto de dijk – a sua resposta exaustiva à pergunta: onde
ele e incluíra-se no interior de um outro que lhe 2012c, p. 107), é porque a exterioridade garante hoje, o programa francês parece um tanto ingênuo estamos quando estamos onde estamos? –, trazem
ofertara lugar, tendo podido assim ganhar terri- a possibilidade de enxergar os acontecimentos, e mal se entende como é que homens inteligen- para a filosofia “uma forma filosófica nova do
tório e “uma certa comodidade distendida” (id., os clarões contingentes que abrem os horizontes tes podiam realmente acreditar que se mudaria de pensamento, do mundo e até mesmo da existên-
ibid.). Desse modo, enquanto o rapaz, na falta de “das ordens possíveis” (id., ibid., p. 108). Não seria época ou de homem numa única década. A opera- cia” (WERNTGEN, 2009, p. 223). Ainda é cedo
teto e de chão, na falta dessa imersão na ambiência difícil explorar um pouco mais os tópicos desta ção sloterdijkiana de transição paradigmática pode para avaliar o impacto da renovação sloterdijkiana
do outro, se pergunta o que se passa com a moça e lista e mostrar que todos eles remetem a Heidegger ser denominada de passagem ontotopológica de da filosofia. Não se trata apenas do efeito óbvio
como é que ela não está espantada consigo mesma, e a Nietzsche. Cumpre notar apenas que a obses- um lado para o outro do entre (Zwischen). Essa sobre a Teoria Crítica alemã, como atestam as
a moça, incluída “extaticamente com outros [...] são constante por esvaziar o “sujeito” e ultrapas- viragem é responsável por um deslocamento sui polêmicas tanto com Habermas em 19994 quanto
no comum habitat do mundo” (id., ibid., p. 86), se sar a herança da filosofia da modernidade acaba generis na filosofia contemporânea. Ela inibe o com Honneth em 20095. Tão interessante quanto
perguntaria por que aquele rapaz que tanto olha conduzindo ao elogio semibudista do self negativo. acento dominantemente ontomaníaco das filoso- este debate com os representantes das últimas
para ela não está sossegado e por que é que está Essas filosofias acabam por recomendar posições fias recentes, que, na sua devoção ao evento gerações da Escola de Frankfurt é a questão do

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assim tão espantado e com a janela escancarada? nas quais é impossível e impraticável viver a não (Ereignis), tendem a desprezar a continuidade do impacto sobre a filosofia francesa do pós-guerra.
Ao se tomar o fragmento kafkiano como ser para quem seja um escritor vanguardista, mas, mundo instituído, seu “barulho” e a falta de inten- Na medida em que o pensamento imunológico
um informe sobre o não estar incluído e a exterio- ao mesmo tempo, produtivo academicamente. Tais sidade. Para o pensamento do evento, é como se o reposiciona a obra de Heidegger e a de Nietzsche,

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e o pensamento francês é fundamentalmente uma passa a sentir-se num cárcere ou numa “cápsula Crítica é apenas um outro nome para o elemento
operação a partir de leituras desses dois filósofos O escândalo de uma teoria da consciên- estranha” (id., ibid., p. 200). Ao não se sentir mais messiânico9. Na Teoria Crítica, Jerusalém e Atenas
alemães6, a virada esferológica termina por proble- cia feliz em meio ao culto à infeliz se dilui amparada e protegida, a vida começa a sonhar entram num arranjo no qual a salvação se torna
matizar e mostrar o esgotamento de grande parte enquanto se admite que uma teoria positiva com uma evasão e articulará em esquemas gnósti- capítulo da epistemologia. Enquanto teorias tradi-
das questões que compõem o “programa francês”, da posição íntegra é toda uma dimensão cos toda a sua reserva “frente ao ser no mundo” cionais fixam os indivíduos na grelha do universal,
segundo a expressão de Alain Badiou (2015). mais rica que uma teoria crítica, que adquire (id., ibid., p. 199). a teoria que se apresenta “como crítica pretende
Nesse sentido, a lição de Sloterdijk é a de forma como sintoma de um transtorno da O sentimento de estranheza radical e de invalidar as identificações existentes e resgatar as
que a filosofia não pode se aliar apenas ao rapaz capacidade de participação. (id., ibid.) que a alma é uma exilada caída no cárcere do mundo coisas singulares das garras da razão registradora”
do bonde. É óbvio que ela pode e deve pensar a é a equação gnóstica fundamental. A compreensão (id., ibid., p. 157).
não integração e a desintegração em suas formas É ao longo de Esferas II, ao reconstruir do mito gnóstico que diz dessa alma que anseia por O interessante é que nessa versão
mais variadas, mas se ela escutar apenas os deser- a história das formas de autoarredondamento algo “outro” é um capítulo importante na obra de adorniana do Ge-Stell heideggeriano, o mundo criti-
tores, os artistas, certas crianças e as singularida- e autoclimatização feitas por esses criadores de Sloterdijk8, pois as “teses gnósticas” servem como cado, o existente, em vez de aparecer como algo
des, nada poderá compreender do integrar-se aos lugar que são os seres humanos, que Sloterdijk se chave hermenêutica para decifrar o páthos do par cada vez mais mobilizado e desrealizado, aparece
espaços no mundo. Este não é uma democracia depara com o momento em que surgem as experi- abandono-redenção presente em vários discursos sempre descrito com imagens de solidez, petrifi-
ontológica, e as hermenêuticas filosóficas da singu- ências de alienação e distanciamento. De início, filosóficos que não se apoiam no “cantus firmus cação e rigidez. Esse é um dos exemplos dados
laridade são insuficientes até no campo psi. Cabe à a experiência de estar contido em um interior, do Ser” (id., 2011, p. 161). É o caso da primeira por Sloterdijk, que mostra que a Teoria Crítica
filosofia não pensar apenas os espaços do acompa- em uma magnitude uterotécnica e autoprotetiva, geração da Teoria Crítica. Enquanto na gnose envelheceu e que a sua síntese particular de socio-
nhamento microesferológico, mas o grande espaço prescinde de muros e paredes. Inúmeros grupos antiga há narrativas que contam deste ser-jogado e logia, messianismo e estética radicalizada já não
do mundo globalizado. É preciso que surjam filóso- criaram incubadoras sem paredes de solidarie- destas práticas ascéticas que reconduzem a alma à serve mais como relógio epocal. A ideia do todo
fos à altura das complexidades imensas do mundo dade esférica. Os muros e as paredes surgem como alegria e à liberação, a gnose moderna encarnada como fortaleza dura, a “jaula de ferro” weberiana
contemporâneo. Esses filósofos aguardados por magnitudes vivas que trabalham pela animação do no pensamento de Adorno se contenta de cujos tentáculos devemos salvar o individual,
Sloterdijk são seres já curados tanto da deserção espaço interior. Mas quando caducou, porque as formações modernas são elas
quanto do desejo de revolução7. Filósofos capazes em confirmar constantemente o caráter próprias caóticas e intangíveis. Não há muito a ser
de transitar por vários mundos e várias épocas e as paredes se tornam estranhas, monumen- lúgubre do cenário do mundo, no qual os quebrado quando se lida com estruturas
que possam compreender e dialogar com os verda- tais, quando não sugerem nada, e sua coorde- aspectos da felicidade perdida e esperada só
deiros revolucionários na revolução cronificada nação com um espaço interior próprio já não é podem pintar- se de escuro. Ela pinta um disparatadas, como redes e espumas, com
da atualidade: designers, consultores e arquitetos. conseguida por todos, mas apenas por alguns quadro de grande austeridade [...] dominada turbulências e derivas indeterminadas, com
Assim sendo, a filosofia antropológica dos lugares privilegiados, então aparece a necessidade de pelos arcontes modernos, os malignos adminis- tentativas de ordenação cindidas por grandes
– a esferologia sloterdikiana – despede-se tanto distinguir os muros (id., 2004a, p. 198). tradores do mundo sem vida: a abstração da forças centrípetas e em estado de crônica
da rebeldia ingênua quanto do páthos da Teoria troca, o despotismo, a frieza burguesa (id., excitação devido aos riscos imanentes de
Crítica. Isso se deve fundamentalmente ao fato de Essa experiência acontece tanto em ibid., p. 159). sofrer catástrofe (id., ibid., p. 166).
que Sloterdijk parte da topofilia bachelardiana. relação ao muro dos outros, dos inimigos, quanto
Começar topofilicamente é começar da vida bem aos intramuros, isto é, os muros no interior da Se estar no mundo equivale a estar em Sloterdijk considera que, quando Adorno
posicionada e do lugar alcançado. Como a insta- própria cultura, como é o caso das grandes socie- um corredor polonês ou em um campo de concen- e Horkheimer adotavam o termo “o existente”,
lação “de lugares para um estar-consigo logrado” dades hierárquicas. Nesse contexto, alguns dos que tração, então o verdadeiro só brilha no instante mesmo para o mundo tendencialmente virtual
(SLOTERDIJK, 2009a, p. 408) depende de encon- estavam juntos dentro começam a experimentar um em que a individualidade escapa das garras da e flexível, é porque usavam o idioma gnóstico e
tros sintônicos com o aliado, o fenômeno da aliena- estranhamento em relação às “próprias paredes” máquina do todo. Para Sloterdijk, Adorno repete praticavam a “metafísica negativa como crítica

DESMANCHE
ção não tem prioridade temporal nem lógica sobre (id., ibid., p. 199). O envoltório antes animador ad nauseam o mantra gnóstico e põe todos os seus do mundo” (id., ibid., 165). Falavam mais como
o fenômeno do bom posicionamento. Nas palavras e próprio desaparece, e a vida que se experimen- “operadores lógicos” a serviço de uma “cena invari- gnósticos redivivos do que “como sociólogos” e
de Sloterdijk: tava como viva e consigo mesma naquele interior ável” (id., ibid., p. 167). O ferrão crítico da Teoria “homens do seu tempo” (id., ibid.).
Essas breves considerações sobre a Teoria
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Crítica não podem ser concluídas sem a lembrança ela se desencontra do fator crítico, porquanto
de que Sloterdijk só acertou o seu relógio epocal argumenta de maneira latente sem referência
ao longo do percurso e que ele próprio se utili- ao mundo; como teoria da ação, renuncia à
zou do termo crítica e usou conceitos como o de diferença em relação ao seu objeto, na medida
alienação para referir-se a processos inquietantes em que o procedimento comunicativo atua,
(é importante lembrar que Sloterdijk começou manifestamente, como princípio de mobiliza-
sua vida intelectual imerso nas obras de Adorno e ção (id., ibid., p. 98).
Bloch!). Um exemplo disso é o livro A mobilização
infinita, de 1989, no qual Sloterdijk tenta ainda Já com essas poucas palavras dirigidas a
uma crítica da cinética política, o que representa Adorno e Habermas, Sloterdijk, o então autointi-
uma tentativa de Teoria Crítica alternativa. Nessa tulado “heideggeriano de esquerda”, antecipa as
obra, a modernidade é compreendida como um polêmicas futuras com Habermas e Honneth, tão
ser-para-o-movimento sem fim, o que equivale a previsíveis quanto às de Luckács com Nietzsche e
um ser-para-a-aniquilação. Ele propõe então uma de Adorno com Heidegger.10
crítica da mobilização em termos de exercícios
de desmobilização. A resposta à pergunta: “Há
sequer para nós uma possibilidade de resultar das
REFERÊNCIAS
energias do sujeito alguma outra coisa que não
seja aceleração, enriquecimento, pesquisa e aquisi- e da amabilidade. Era a época da ofensiva dos pequenos ADORNO, Theodor W. Minima Moralia: reflexões a partir da
1. “Só nas catástrofes, quando todos os habitats explodem
grupos sonhadores” (id., ibid., p. 17). vida lesada. Trad. Gabriel Cohn. Rio de Janeiro: Azougue,
ção de poder no mundo exterior?” (id., 2002a, e se torna patente a nudez do exterior é que os mortais
8. Sloterdijk publicou com Thomas Macho Weltrevolution 2008.
talvez possam ser ‘contidos no nada’, como diz Heidegger,
p. 65). Responder positivamente a essa pergunta der Seele: Ein Lese- und Arbeitsbuch zur Gnosis von der BADIOU, Alain. A aventura da filosofia francesa do século
mas, regra geral, o que se lhes aplica é a lei da residência
Spätantike bis zur Gegenwart (1993). O livro contém XX. Trad. Antônio Teixeira e Gilson Iannini. Belo Horizonte:
é estar implicado na diferença entre movimento no espaço partilhado, o princípio de que as esferas formam
“algo como uma dedução metafísica do ‘princípio da Autêntica, 2015.
a sua própria espessura” (SLOTERDIJK, 2007, p. 119).
para mais movimento e movimento autêntico. esquerda’ e, ironicamente, também uma pré-história da BATAILLE, Georges. A experiência interior. Trad. Celso Libânio
2. Veremos, no adendo II, como a psicanálise winnicottiana
Escola de Frankfurt, uma linha fina e intrincada que vai de Coutinho, Magali Montagné e Antonio Ceschin. São Paulo:
Como escapar da catástrofe mobilizadora? A alter- traça a gênese da profundidade e da interioridade humana.
Alexandria ao Instituto de Investigação Social e passa pelo Ática, 1992.
3. Por outros caminhos, penso que um movimento
nativa metafísica, com suas receitas imobilistas e semelhante se dá nas obras de Charles Taylor e de Paul
Auditório VI da Universidade Johann Wolfgang Goethe” BLANCHOT, Maurice. L’espace littéraire. Paris: Gallimard,
(SLOTERDIJK, 2007, p. 26). 1988.
eternizantes, não oferece antídotos contra a acele- Ricouer. Ambos utilizam a noção de self e de si-mesmo.
9. Um dos exemplos que comprovam o elemento messiânico COUTURE, Jean-Pierre. “A Public Intellectual”. In: ELDEN,
4. A reconstrução detalhada desta polêmica encontra-
ração da cultura histórica no seu deslocamento de se no texto “Sobre as Regras para o parque humano de
é a famosa passagem citada por Sloterdijk do último Stuart (org.). Sloterdujk Now. Cambridge: Polity, 2012.
aforismo de Minima Moralia. Cita-se aqui seu trecho KAFKA, Franz. A contemplação e o foguista. trad. Modesto
Titanic até o iceberg Tchernobyl, mesmo porque é Sloterdijk”, de José Oscar de A. Marques, que é também
Carone. São Paulo: Brasiliense, 1991.
inicial: “Da filosofia só cabe esperar, na presença do
tradutor do livro comentado, bem como de outras obras
a própria cinética da metafísica que se converte em do filósofo alemão.
desespero, a tentativa de ver todas as coisas tal como se SLOTERDIJK, P. Essai d’intoxication volontaire. Trad. Olivier
apresentam do ponto de vista da redenção. Não tem luz o Mannoni. Paris: Calmann-Lévy, 1999c.
cinética moderna. “A antiga metafísica, enquanto 5. O livro Die nehmende Hand und die gebende Seite
WERNTGEN, Cai. “Denken am Nullpunkt der Geschichte:
conhecimento senão aquela que se irradia sobre o mundo
(2010) é resultado da polêmica com Honneth em torno da
paixão pela imobilização e pela autoconcentração, a partir da redenção: tudo mais se esgota na reprodução e Notizen zur Philosophie Peter Sloterdijks”. In: Die Vermessung
obrigatoriedade do fisco e da doação voluntária.
se limita a peça da técnica. Caberia construir perspectivas des Ungeheuren. Munique: Wilhelm Fink, 2009.
é a acumulação originária da subjetividade que, na 6. Quem assim o coloca é um digno representante dessa
nas quais o mundo se ponha, alheado, com suas fendas e ___. Die nehmende Hand und die gebende Seite. Berlim:
tradição: Alain Badiou em A aventura da filosofia francesa
modernidade, se atira à frente como mobilização fissuras à mostra tal como alguma vez se exporá indigente Suhrkamp, 2010.
no século XX (2015).
e desfigurado à luz messiânica” (ADORNO, 2008, p. 245). ___. Esferas I. Trad. Isidoro Reguera. Madri: Siruela, 2003.
passional” (id., ibid., p. 99). 7. Uma interessante discussão sobre o tema da revolução
10. Sobre tal questão remeto ao texto de Jean-Pierre Couture ___. Esferas III. Trad. Isidoro Reguera. Madri: Siruela, 2009a.
Não é difícil imaginar que o diagnóstico encontra-se em Essai d’intoxication volontaire
“A Public Intellectual”, no qual é feito um “mapa das ___. O sol e a morte. Trad. Carlos Correia Monteiro de
(SLOTERDIJK, 1999c, p. 57-67). Nessa entrevista,
da modernidade em termos cinéticos leva a um colisões intelectuais no céu da Alemanha” (COUTURE, Oliveira. Lisboa: Relógio D’Água, 2007.
Sloterdijk recorda o ambiente revolucionário nos seus
2012, p. 103). ___. Sin salvación: tras las huellas de Heidegger. Trad. Joaquín
amigamento maior com a escola de Freiburg do anos de formação na Alemanha. Em O sol e a morte, ele
Chamorro Mielke. Madri: Akal, 2011.
conta que “era um adepto mais ou menos típico da velha

DESMANCHE
que com a de Frankfurt, apesar do uso do termo ___. Temperamentos filosóficos: um breviário de Platão a
Escola de Frankfurt e da cena alternativa dos anos 70,
Foucault. Trad. João Tiago Proença. Lisboa: Edições 70, 2012c.
crítica. Para Sloterdijk, a teoria frankfurtiana não é tomava parte nesse complexo depressivo e agressivo que
HOMEM, Maria Lucia. No limiar do silêncio da letra: traços
então se manifestava como esquerda” (id., 2007, p. 18).
desmobilizadora porque, como estética negativa, da autoria em Clarice Lispector. São Paulo: Edusp/Boitempo
“Nessa época vivíamos na ilusão de que era fácil mudar o
Editorial, 2012.
tom vital da sociedade ao abrigo de uma ética da amizade

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Poema I

as matilhas que me cortam não se cruzam


sou uma ode das carnificinas
os rios que me atravessam não se misturam
sou o ninho das rasgaduras
os seres que me povoam não se suportam
sou a oração de evitar a faca

Poema II

um bando de lobos uivantes


uma matilha de cães selvagens
é o amor
rasgam, cortam e devoram
aquilo que cai no seu
território

Juliano Garcia Pessanha

DESMANCHE
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DESMANCHE Foto: Matheus Sá Motta


Já se sobrepuseram tantas noites que não sei precisar Breno Silva
ao certo a data do fato insubordinado que segue
escrito. Ele parte de uma experiência rápida de uma
A cidade dos fios de cobre
paragem na cidade. E se a paragem fosse cotidiana,
talvez passaria despercebida no clima de uma cidade
grande, gordurosa e suada num fim de tarde virado
abruptamente em noite. Sem o menor intervalo,
parte de um interesse vago de conversa, de uma
comunicação precária começada por sinais de fogo. Da
ignição do pensamento vieram primeiro os odores e a
fuligem.

Passava na calçada rente aos muros do fazedores de fogos” acenando com a minha cabeça dos, alguns saindo para fora do carrinho, dando râneas, captando os ventos – outros invisíveis –, e
sistema de metrô fatiando a cidade em duas. Havia pesada – me veio esse título em frase para uma a impressão de uma aranha metálica. Era difícil que com o tempo, mais ou menos a favor, se desvia-
adiante uma cortina de fumaça de um fogareiro categoria de pessoas inventivas pressentindo o precisar a idade daquele homem – talvez a da ram para reconhecer as novidades do mundo. As
improvisado em latas de tinta. A fumaça marcava que sucederia num lampejo de pensamento. A pedra –, apesar de aparentar idade avançada, não antenas dos prédios ao redor começaram a piscar
o início da noite abrupta e o portal diáfano para conversa rendeu mais alguns minutos, o tempo tinha rugas, mas dois grandes sulcos nas laterais luzes vermelhas no instante adivinhatório no qual
minha travessia que ainda passaria por pistas da brecha no trânsito para a correria do pedestre, da face, cânions que iam da boca aos olhos sorum- eu as mirava, como um alerta precário para não
largas sobrepostas por viadutos, ambos lotados mas, adianto ao leitor, talvez por intoxicação da báticos e meio exorbitantes. Os sulcos provocavam nos acidentarmos naquela viagem a dois. Um som
de automóveis loucos para estacionarem em casa fumaça dos carros envenenados, o tempo daque- uma área de sombra sobre a vegetação rala de sua de avião passando nos imantava sutilmente. Essas
depois de um dia exaustivo para seus donos. Seguia les breves minutos mensuráveis entrou em outra barba por fazer e eram reforçados pela luz alaran- aeronaves que chegam a superar a velocidade do
a pé naquela calçada estreita e atravessando a dimensão difícil de se expressar numa viagem jada artificial do vapor de sódio mesclada à azul- som costuram as cidades em que passam numa só,
cortina de fumaça inevitável na esquina, diante reflexiva começada a dois.ww -escura irrompendo com a chegada da noite. insistindo em fazer dessa em que estávamos e das
da primeira autopista que eu teria que atravessar, O outro dessa viagem no mesmo lugar se Esse homem do sertão imaginário eucli- outras a mesma cidade.
encontrei-me com o fazedor de fogos prestes a apresentou acenando a mão: “Antenor”. Respondi diano em seu primeiro movimento era extrema- Antenor desmancha aquilo mesmo
cozinhar. Como a travessia estava dificultada pelo cumprimentando-o sem aperto de mãos numa mente pausado, me dando tempo suficiente para enunciado em seu nome na tentativa de decifra-
excesso de carros afoitos e no aperto da calçada saudação parecida àquelas dos extraterrestres de uma tentativa rápida de decifrar a sua esfinge ção: elementos de sistema de transmissão. Traba-
aproximando os corpos, o fazedor de fogos provo- filmes de ficção científica com os dedos ajunta- pousada em meu ombro. E o seu nome Antenor, o lha à noite e, assim como o seu nome adere ao
cou uma conversa rala, apesar de não parecer dos como se fossem três. Ele estava sentado num que por proximidade gráfica me remetia às antenas serviço do desmanche, seu semblante e seu corpo
incomodado com o trânsito, resmungou algo nesse paralelepípedo ao lado do fogareiro preparando avistadas nos prédios da área central da cidade aderem à condição noturna: boca de poucas
sentido, talvez, desejando que eu saísse logo dali. o cozimento. Ao seu lado havia um carrinho de logo após a linha do metrô. As antenas, antes de palavras e de murmúrios, camuflagem noturna

DESMANCHE
Dizia algo questionando a invenção da roda. Não supermercado sem alimentos e abarrotado de serem instrumentos de captação e de emissão de aderindo sua pele, que vai escurecendo à medida
lembro bem o que me disse, mas concordei timida- fiações. Eram fios das mais variadas espessu- ondas eletromagnéticas invisíveis, eram nomes dos em que se mescla às sombras dos becos, ao cinza
mente com o “típico pensamento dos homens ras, uns desencapados e outros não, emaranha- mastros das embarcações das antigas rotas mediter- das grandes vias urbanas que percorre, para o

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refinamento do destecido e do descanso. Me disse controladores que sincronizam os sinais, causam os fios urbanos? E não seriam esses fios o elemento dos smartphones, que funcionam em sua maioria
desviando da conversa de contato com a mão no o caos nas ruas e avenidas, apagando sinais de plástico, diria mesmo escultórico, que modelava mesmo quando desligados. Ameaçados pela
chapisco do muro: “o ouro é o cobre, é isso que trânsito cuja manutenção demora horas. Os dados aquele carrinho de supermercados aracnídeo? multidão com a marcação de microeletrochoques
reluz”. Isso que ele destece no desmanche de oficiais da cidade relatam que a quantidade de Na falta de iluminação, a cidade era e ao mesmo tempo possibilitando a distinção na
equipamentos eletrônicos descartados, obras de furtos desses fios aumentou 1.573% em um ano, animada pela rapsódia dos ruídos da noite atraves- miríade das diferenças, até os mesmos, esses em
reformas e de demolição, mas principalmente da passando de 825 m de fiação no ano passado para sados por sons de digitações aceleradas em tecla- situação parecida de superexposição telemática,
fiação pública. Seguindo a sua mão de ossatura 13.805 m neste ano, significando que atualmente dos de computador. são vistos como outros. Assim, dificilmente um
sobressaindo passei os olhos pela sua roupagem entre cinco e oito semáforos por dia ficam sem Insistindo em me contar a sua história, amigo descendente do burguês dos salões convida
coberta de dobras alojadoras de restos. Dormia de funcionar na cidade. Nos ferros-velhos, o cobre me dizia que outrora atuante como analista de outro para visitar a sua casa. E menos ainda um
dia em lugares movimentados e operava à noite. misto sai a cerca de R$15,00 o quilo. Daí o grande sistemas numa empresa transnacional optou pela não convidado aparece inesperadamente, diriam:
De voz crespa e cabelos arrepiados como cem mil interesse dessa modalidade que ameaça a infraes- rua ao, nas suas palavras, “entrincheiramento na “isso é atitude de usurpadores das propriedades”.
antenas, trabalhador do resto, ele se convertia trutura urbana, como subestações elétricas, torres intimidade”. Havia uns oito anos que ele saíra de O extremismo emburguesado contemporâneo
em uma formiga dourada acordando do sonho em de celular, linhas de telefone, linhas férreas, obras, casa. Morava sozinho num apartamento de dois mergulha essa comunidade dos atingidos telemáti-
busca das migalhas metálicas arruinando a cidade casas vazias, prejudicando o fornecimento de quartos num bairro de classe média da cidade. cos numa extrema solidão, em um salão esvaziado,
aranha1. energia, água, telecomunicações e transporte. Resolveu sair de casa, partiu deixando a porta do sem suvenires, sem espelhos, mas com internet da
Na sua noite os sinais da cultura se apaga- Apagando sinais de trânsito Antenor me apartamento aberta e até então não mais voltou. melhor qualidade.
vam ao puxar os fios da iluminação pública. Como transmite algo que escapa, que desaparece na falta Como me disse: “se cansou do entrincheiramento Nas ruas, dormindo de dia e traba-
um anti-Ariadne, ele emaranhava a rota garanti- de iluminação. burguês”. Descreveu sua antiga morada como um lhando à noite, Antenor não possui espelhos e se
dora de sentido labiríntico para a cidade apazi- Aproximando a conversa do contato, me microcosmos mediado pela internet: “de lá me reconhece em outras pessoas que lhe oferecem as
guado na marcação luminosa. Às vezes, como me disse que seu pai gostava de mitologia e a inspi- comunicava com os amigos, com o trabalho, com medidas de seu rosto e a profundidade dos seus
disse, se refugiava na mata do metrô e em terrenos ração para o seu nome vem do ancião troiano e desconhecidos, com o mundo e sabe-se lá mais o sulcos. São outros em situação de rua, passantes
baldios de mato invasivo e ruínas premeditadas. de um escultor grego antigo. O primeiro foi conse- quê...”. no Centro convulsivo às seis da tarde e, nas varian-
Raramente se refugia no alto da serra que cerca a lheiro do rei Príamo e amigo dos gregos antes da O mundo burguês eurocêntrico do século tes de intensidades, aqueles homens sentados em
cidade, se camuflando na terra vermelha. Observa Guerra de Troia. Mas foi considerado traidor, pois XIX construía o interior para se esconder e se bares descolados que frequentava. Mais do que
de perto as alterações da cidade e me disse que o durante o saque de Troia os gregos penduraram proteger da cidade invasora que crescia vertigino- uma recaída, era um esforço de apagamento, me
que mais o atrai são os incêndios, ao que completa: em sua porta uma pele de leopardo, indicando samente prenhe de diferenças expressas. O contato disse que “sentia uma afeição desinteressada pelas
“não na mata, na cidade”. O meu pensamento, que a sua casa devia ser poupada. No texto atribu- social se dava nos salões burgueses, preenchidos criaturas cheias de si”. Se reconhecia em criatu-
num recuo tsunâmico sobre os tempo – o daquele ído a Dares da Frígia do século I d.C., História da dos mesmos protocolos e gestos que redundavam ras cheias de outros, nos animais ao redor com
instante, o desta escrita – me levaram à seguinte destruição de Troia, Antenor auxiliou os inimigos a e garantiam a perenidade dos iguais. Garantiam no seus muitos parasitas, nos cachorros purulentos,
passagem de Bataille enunciando, dentre os vários entrarem em Troia. Depois de terminada a guerra, interior o retrospecto de suas propriedades. Atual- nos ratos de peleira expulsos de suas colônias e
impulsos sociais dos dispêndios improdutivos, “o Antenor liderou um contingente de 2.500 troianos mente os salões se esvaziaram, se preenchendo famintos, nas formigas orientadas escravagistas de
prazer dos loucos assistindo a um incêndio durante sobreviventes, partindo para a Itália, onde fundou do único frequentador. Com a invasão do outro pulgões, nas moscas desorientadas em sua dança
a noite.”2 a cidade de Pádua. O segundo, de existência mais pelas janelas da tevê, que podia ser desligada, e contemporânea, nos gatos em cima dos muros
Os fios de cobre são retirados por ele de material, atuou esculpindo mármores no século VI avançando nos modelos de comunicação das redes com inteligência para a queda. Se reconhecia no

DESMANCHE
equipamentos de iluminação pública e também de a.C. Que estranha aderência do nome aos atos das telemáticas, se anunciam modos cada vez mais mato insubordinado e nos espaços de restos onde
postes de trânsito – antenas que não acompanham pessoas, pois não seria ele um traidor da cidade incisivos contra a imunidade espacial burguesa se camuflava para descansar e destecer. Olhando
as navegações que possibilitam; quando são de provocando o caos com o seu trabalho de arrancar anunciados na vibração contínua e interminável para suas mãos, após a viagem das dobras das

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roupas, eu reconhecia-o no metal dos fios desenca- o apagamento, a solidão, poemas onomatopeicos material do mundo, do acesso à inteligência de nos trouxe de volta para a realidade de concreto.
pados habilmente, com a destreza de uma máquina misturados à comunicação dos alaridos urbanos uma matéria antes de qualquer redução intelec- Realidade com as mãos cravadas no chapisco
avariada e desejosa. Os fios marcavam em sua mão de carros cantores e de concretos emanando sons tual. Tratava-se de uma subversão do pensamento, do muro, com as várias bifurcações viárias se
outras linhas da vida sobrepostas ao prescrito. extraterrestres como os das focas no mar conge- mesmo ao acesso imediato da nossa inteligência ampliando dos buracos dos relevos do chapisco no
Essa capacidade de reconhecer semelhanças sensí- lado da Antártida. Uma língua do mundo fazia a uma matéria antes de sua redução científica6. muro para os vazios entre viadutos, com a terra
veis que nos tomava afrontava a linguagem, e coro à sua encenação. A inscrição, todos os vestígios que se agrupam árida entre eles, infertilizada pelas fuligens dos
numa suspeita burrouguiana3 trazia a primazia da A velocidade com que ele ia desencapando nas superfícies e suas dobras mais profundas, escapamentos de veículos fumegantes em rasantes
escrita sobre a oralidade naquelas marcações nas os fios ia apagando parte da cidade. Víamos o nos chamavam para inventar a fala como tenta- sobre a superfície.
mãos. Um “saber sensível”4 se anunciava na possi- apagamento se aproximar de nós como uma grande tiva falha de decifração. Era a antecedência da A ampliação não parou na escala real.
bilidade dos vários desaparecimentos, na perda sombra submergindo a cidade na noite. Faíscas escrita à fala que adiante seria mimetizada pela Aquelas regiões desocupadas iam ganhando a
identitária de Antenor, na matilha possuidora, no saíam do contato de sua mão com os fios. Uma escrita posterior à fala sob a ideia e a prática do dimensão de um deserto de grande extensão
gesto mineral, nas imagens regurgitando concei- aura multiplicadora de sombras aparecia, como risco. Riscamos na terra do pequeno buraco da como sonho de liberdade dos homens em suas
tos de difícil decifração, inscritos mineralmente e aquelas que justificam a necessidade dos santos. calçada linhas aleatórias enquanto conversáva- próteses automotivas com milhares de quilôme-
misturados e empapados numa plasta sobre aquela Com as suas mãos acesas, embarcamos num tempo mos. Apagamos essa espécie de mnemônica cunei- tros liberados para seguirem em alta velocidade
calçada apertada da qual qualquer um não hesita- da velocidade da luz. Sua língua se convertia numa forme, aqueles sinais num pequeno continente, para qualquer direção em vetores bidimensionais.
ria em desviar com náuseas. Decifrar tais conceitos conversa telepática. E, ironicamente, algum sentido antes mesmo que significassem o risco aderindo o Aos poucos, aquela névoa misturada à fumaça do
fósseis imediatos e bolorados seria recorrer a uma se restabelecia, apesar de a comunicação continuar material e o conhecimento. Esse “baixo materia- fogareiro dava lugar a outra situação, um carro em
linguagem inventada, começada nas ressonâncias desarranjando a cidade e a linguagem dominantes. lismo” evocativo de um saber escapando à sua chamas depois de bater desgovernado num pilar
pigarradas da laringe? Conversamos sobre a torre única do seu aparta- redução acabava de assumir ressonâncias políticas do viaduto. Provavelmente o acidente foi decor-
Antenor começou a desencapar fios, e mento abandonado de portas abertas e as torres inimagináveis: o pensamento só poderia ser reali- rente dos semáforos apagados e sem fiação, mas,
aquele movimento que moldava a sua mão com a duplas das respostas binárias para perguntas previ- zado a, pelo menos, dois numa combinação impro- improvavelmente, do sonho da alta velocidade e
precariedade prestidigitadora soltava ainda mais síveis dos códigos telemáticos sobre o cotidiano vável de humanos e inumanos. Os assuntos se múltiplas direções dos carros no deserto. O corpo
a sua língua. Separava o ouro que era o cobre e em sua multiplicidade teleguiada. Revelou-me que esmiuçavam numa clareza acadêmica, ao ponto de lá dentro era uma das semelhanças de Antenor.
formava duas esculturas, uma de resíduo escuro e seu sonho era desencapar os cabos submarinos da nos perguntarmos simultaneamente se não estáva- Esse atingido preso pelo cinto de segurança fulgu-
plástico meio queimado dos fios, a outra reluzente internet, causando desconexões na escala plane- mos produzindo conhecimento científico naquele rava na noite como um satélite desmanchando
na cor ruiva do metal desgrenhado. Na medida em tária. Não queria aguardar aleatoriamente pelas instante escavando camadas de um saber sensível? ao entrar na atmosfera terrestre, simulando uma
que aumentava a velocidade ao desencapar, sua explosões solares com suas suspensões de classe X Rindo com uma boca arruinada cortando nossa estrela cadente. Ele desapareceu, e não é possível
língua cada vez mais singular falava sobre o apaga- capazes de interromper atividades eletromagnéti- comunicação, ele puxou o fio citando o seguinte afirmar mais a sua existência. E não há garantias da
mento da cidade. Desmanchava aquela constela- cas na Terra, estragando sistemas de transmissão aforismo de Baudrillard: “Morrer não é nada; é realização dos desejos pedidos às estrelas cadentes
ção de iluminações públicas sem correspondências e naufragando a produção telemática em arquivos preciso saber desaparecer. Desaparecer é passar de simuladas. No entanto, o apagamento não deixa de
mágicas. Desmanchava o pensamento moderno. mortos à espera dos arqueólogos escafandristas do um estado enigmático que não é nem a vida nem ser uma fulgurância potente. O desaparecimento,
Desencapava o fio de algum apagamento, desman- futuro capazes de decifrá-las nas profundezas de a morte. Certos animais sabem fazê-lo, e também diferentemente da morte, traz consigo a possibili-
chava o conforto e a conformação induzidos da um oceano energético invisível. Disse-me sem abrir os selvagens, que se subtraem vivos aos olhos dos dade de reaparecimento.
forma cidade e da fala sobre a cidade contempo- a boca: “Hoje são os nossos sistemas de memória outros”7. Saí da paragem, nos despedimos apoia-

DESMANCHE
rânea – mesmo dos que consideram a cidade como artificial que desempenham o papel inspirador das No instante da consciência aguçada de dos no muro do metrô, o chapisco feria menos as
um organismo vivo ou à distância como palimp- catástrofes naturais”5. nosso desaparecimento na irrealidade daquela mãos, e continuei a travessia naquelas autopis-
sesto. Começou a dizer coisas ininteligíveis sobre Passamos a discorrer sobre a inteligência situação, foi aí que o cheiro da borracha derretida tas aproveitando o engarrafamento causado pelo

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acidente. Reaparecemos. Sozinhos novamente.
“Por que não se irmanar do sol antes de seu espirro
eletromagnético, outro grande solitário e deixar de
lado a comunidade noturna?”. Mais tarde, antes
de a noite acabar e o solitário chegar da traves-
sia, na última tentativa me dada pela esfinge, fui
procurar o significado etimológico do seu nome
e me deparei com mais uma aderência povoando
Antenor, fazendo dele uma multidão de preferên-
cia noturna e reacendendo seu enigma. Derivado
do grego antigo, o nome Antenor é formado pela
junção de anti, que quer dizer contra, e anér ou
andrós, que pode ser traduzido por homem. Eis
aí um anti-homem como penúltimo rastro de seu
apagamento na cidade iluminada.

1. Ver filme Onde Sonham as Formigas Verdes, Werner Her-


zog, 1984. Em um trecho do filme, durante o julgamen-
to para a posse de terras para o povo aborígene contra a
empresa de exploração mineral, um ancião é considerado
como mudo no processo por falar um dialeto que ninguém
conhece, como último descendente de sua etnia e de uma
linguagem perdida ele se encontra anulado na sociedade
capitalista ao mesmo tempo em que encarna, como fan-
tasmagoria para essa mesma sociedade, uma catástrofe, a
extinção por vir.
2. Cf. BATAILLE, Georges. La valeur d’usage de D.A.F. Sade.
Oeuvres complètes, t. II. Paris: Gallimard, 1970. p. 66.
3. Ver BURROUGHS, W. A revolução eletrônica. Lisboa: Vega,
1994.
4. Sobre o saber sensível a partir das semelhanças e das ima-
gens dialéticas, ver BENJAMIN, W. A doutrina das seme-
lhanças. In: Magia e técnica. Vol.1. São Paulo: Brasiliense,
1986. p. 108-113.
5. “Pompéia: graças à catástrofe pudemos conservar o patri-
mônio antigo mais extraordinário. Sem o Vesúvio não terí-
amos essa viva alucinação da Antiguidade. Da mesma for-
ma, os mamutes, com a irrupção da glaciação. Hoje, são os
nossos sistemas de memória artificial que desempenham o
papel inspirador das catástrofes naturais”. BAUDRILLARD,
Jean. Coll Memories 1980-1985. Rio de Janeiro: Espaço
tempo, 1992. p. 46.
6. Ver BATAILLE, Georges. La structure psychologique du fa-
cisme. Oeuvres complètes, t. I. Paris: Gallimard, 1970a. p.

DESMANCHE
345.
7. BAUDRILLARD, Jean. Coll Memories 1980-1985. Rio de
Janeiro: Espaço tempoc6.

20
Jean-Michel Heimonet

A greve do negativo e a revolta contra a


história

Tradução Livia Drummond

O texto de Bataille pode ser lido como um Negatividade sem emprego e negativi- de revolta que impulsionam o homem a querer vidade não tem mais emprego, ela também não
longo diálogo com G. W. F. Hegel, e, mais precisa- dade sem saída transformar o mundo e ser reconhecido, deve tem, igualmente, mais saída, nem ideal, nem fim
mente, com o último de seus intérpretes, Alexan- então decidir a entrar em greve, recusar a ação, supremo nos quais despender suas forças. E, no
dre Kojève. O que está em jogo é importante. Cabe Numa conferência no Colégio de socio- tornando-se assim, segundo os termos de Bataille, entanto, ela existe, persiste em se manifestar como
saber quem é o verdadeiro agente da história, “o logia, em dezembro de 1937, Alexandre Kojève, “uma negatividade sem emprego”. determinante antropológico, exigência natural do
homem a cavalo”, Napoleão, ou o “poeta român- exegeta de Hegel, opõe dois tipos humanos: o O itinerário intelectual de Bataille, sua animal humano.
tico”, Novalis, se a negatividade, as forças de revolta guerreiro conquistador, o “homem a cavalo”, conversão do ativismo revolucionário (“surfaciste”) O emprego/a saída do negativo representa
que modificam o mundo dependem da ação ou da Napoleão, e o plumitivo, o “poeta romântico”,
à escrita, foi certamente determinado por um para Bataille o enigma da esfinge e ocupa toda a
representação. Na solidão da guerra, enquanto as Novalis. Enquanto o primeiro “agiu com sucesso”
momento histórico: o confronto entre os totalitaris- sua obra – não apenas sua obra escrita, mas seu
religiões seculares, fascistas e comunistas, entre- no mundo real, onde “se impôs efetivamente a
mos e as democracias nos anos 1930. No entanto, trajeto de vida. Segundo quais modos e sob quais
gam-se a um duelo de morte, a lição de Bataille todos”, o segundo, substituindo a ação pela lingua-
é: ultrapassar este dilema, experienciando o limite malgrado sua inscrição no passado, esse itinerário formas a negatividade em greve consegue se objeti-
gem, “aniquilou-se em seu próprio nada” literário.
humano por meio da escrita. E Kojève conclui: “o Poeta romântico quis ser Deus tem hoje para nós uma atualidade toda particular. var e ser reconhecida na História, escapando assim
(e ele tinha razão de o querer), mas ele não soube Com efeito, o que ele questiona é o lugar e a função da insignificância, num mundo em que ela recusa
como fazê-lo: aniquilou-se na loucura ou no suicí- da consciência crítica nas sociedades reguladas as condições de emprego? Esse enigma, o autor da
dio. É uma ‘bela morte’, mas uma morte, ainda pelo mercado, sociedades “homogêneas”, como Carta a X... não resolve, ou melhor, ele o lega a
assim: um fracasso total e definitivo.”1 Bataille as nomeia, nas quais o vínculo social nós, faz de nós seus depositários, propondo uma
‘‘ Eu o quero: me é Na Carta a X., encarregado de um curso repousa sobre o contrato e o interesse privado. escolha entre dois engajamentos possíveis. Dessa
sobre Hegel, Bataille questiona essa interpreta- A questão colocada pela Carta a X... ultra- escolha depende nossa capacidade de recolocar em
necessário comunicar ção. Em comparação com a história, a poesia passa infinitamente o engajamento do intelec- marcha a história.
com o homem, estar no assemelha-se a um fracasso, pois ela não realiza tual em termos políticos: o que acontece com O negativo reconhecido
nada de maneira tangível. Mas esse fracasso não é
suplício do ser inteligente.’’ tão “total”, nem tão “definitivo” quanto pretende
o negativo quando os grandes catalizadores do
passado, as grandes causas e as grandes narrati- Kojéve e Bataille falam a mesma língua,
Kojève. Ele é também trampolim, campo de exercí-
vas que agregavam o corpo social, desertaram o mas seus discursos não se situam no mesmo nível

DESMANCHE
Georges Bataille, A experiência interior cio para a consciência.
espírito do homo œconomicus; e quando a luta do de profundidade existencial. Kojève, como filósofo
Quando as razões de agir oferecidas pela
Mestre contra o escravo acaba no nivelamento que agencia os conceitos, decreta o fim da Histó-
história são inaceitáveis, a negatividade, as forças
geral estabelecido pelo dinheiro? Então, a negati- ria com o Estado stalinista. Bataille não gosta dos

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DESMANCHE
filósofos – ele o demonstrará com Sartre quando tempo por meio de uma (trans)mutação, passando confunde o exercício majestoso do poder e da testemunha histórica, testemunha objetiva do fato
do “l’Affaire de l’homme révolté”, apoiando Camus. do status de grevista ao de inventor e de empreen- burocracia. Por exemplo, o Presidente Leburn (ou de existir e de despender suas forças para aprofun-
Ancorada no vivido, sua escrita é heterogênea aos dedor histórico: nos termos de Bataille, do status hoje Hollande) cuja aparição nas telas de cinema dar e comunicar aos outros, dando sentido à sua
sistemas abstratos. Ela esforça-se em dar forma de “negatividade sem emprego” para aquele de numa cerimônia oficial provoca hilaridade5. O greve: apenas uma pane do negativo que colocasse
a uma plenitude e a um excesso, a essa “parte “negatividade reconhecida”4. Para o sujeito da “abetouro armado” identifica-se facilmente com a História em ponto morto culminaria necessaria-
maldita” da existência que é o objeto da sociolo- História, esse novo emprego não consiste mais em os chefes carismáticos dos movimentos nacionais, mente no triunfo do abetouro e no (auto)aniquila-
gia sagrada do Colégio: “Imagino que minha vida se fazer reconhecer, manifestando sua negativi- Hitler, Mussolini e Stalin. As características do mento do mundo inteligente.
– ou seu aborto, melhor ainda, a ferida aberta que dade no mundo real; ele volta essencialmente para abetouro são: projetar sua negatividade “ para o Bataille está aí, na sua análise, no
é minha vida – constitua por si só a refutação do advertir os outros, revelando-lhes o no man’s land fora”, não tolerar “conflito interior”, nem ver na momento de sua Carta a X... Ele formula, então,
sistema fechado de Hegel.”2 existencial e o beco sem saída histórico em que morte um gozo “exterior” destinado ao “inimigo”. uma dupla questão: “Qual forma tomará o teste-
Esta “ferida” é necessária. Ela permite nossa modernidade, ela mesma, se acuou. Resta o homem do terceiro tipo, aquele em que munho do homem trágico, qual será sua eficácia
a Bataille compreender que o enigma da esfinge A Carta a X... tem o sentido de um revela- a economia negativa é a mais complexa e a mais política, seu impacto real sobre os homens deste
histórica é, a um só tempo, tragédia e chance, e ção, de uma “iluminação”, no vocabulário da significativa. O “homem da tragédia” coincide em tempo?”.
não apenas para ele, mas para todo homem dessa mística. Em algumas páginas, Bataille descobre todos os aspectos com o “homem da negatividade Nenhuma resposta está disponível no
época.3 Tragédia porque de um lado o obriga que a escrita, e, de uma maneira mais ampla, o que reconhecida”, definido na Carta a X... Ao contrário interior do sistema de Kojève. Pois, se o homem
a entrar em greve, mas igualmente chance, pois ele chama “a atividade de representação”, não está do abetouro, sua negatividade está orientada de da tragédia, o homem da negatividade reconhe-
assim o impulsiona a sair de si, a ultrapassar sua fatalmente votada à ineficácia de uma “belle-âme”, maneira centrípeta, interiorizando as tensões no cida, se limitasse a pensar, a falar, a comentar sua
situação, a fim de descobrir um novo emprego e exilada em sua torre de marfim. lugar de projetá-las sobre outrem. Pois o homem posição de grevista, não poderíamos compreender
uma nova saída para sua negatividade. Três tipos de homens trágico é antes de tudo “consciência”, inteligên- como este emprego o diferenciaria do poeta, do
A Carta a X... corrompeu o sistema de cia humana em atividade; ele vê lucidamente homem das palavras, ou do homem de papel?
Kojève. A resposta que ela propõe é uma não Nos meses que se seguiram à Carta..., as contradições, compreende a absurdez de sua Nas semanas que precedem o fechamento
resposta, resposta aberta, ou “negativa” na numa conferência sobre as sociedades secretas época... e, no entanto, malgrado, ou melhor, contra do Colégio e o início da guerra, Bataille parece
segunda potência, que devolve ao questionador pronunciada no Colégio, Bataille distingue, por essa absurdez, recusa-se a renunciar e luta para então acuado, preso no círculo vicioso da lingua-
a insuficiência de sua lógica. O novo emprego sua vez, três tipos de homens: o “homem da lei afirmar a consciência crítica diante de uma “reali- gem que o condena a um falatório intelectual.
descoberto por Bataille oferece ao negativo uma e do discurso”, o “abetouro armado” e o “homem dade que não deixou-lhe outra saída que o crime”: “Diante do senhor, escreve ele para Kojève, não
maneira de se objetivar a partir de uma recusa e de da tragédia”. Cada um desses homens corres- crime cometido contra outrem, o “Inimigo”, caso tenho outra justificativa de mim mesmo que aquela
uma revolta: recusa em participar dos eventos em ponde a um emprego particular das forças negati- se colocasse à serviço do Abetouro, mas também de uma bicho gritando com o pé numa armadilha.”
curso; e revolta contra o presente da História, a fim vas. O homem da lei e do discurso é também, crime de autocastração que cometeria contra ele 7

de poder continuar a fazê-la. para Bataille, o “homem da comédia”, equivale mesmo se se resignasse ao desemprego histórico6. Entendida de forma literal, esta última

DESMANCHE
Melhor ainda que uma “chance”, esta dizer, o homem da negatividade recalcada e da Nas condições impossíveis em que sua frase ratifica uma confissão de fracasso. Mas talvez
revolta é salvadora. Ela dá ao homem individual a hipocrisia. Na galeria política da época, esse tipo época lhe coloca, o homem trágico encontra assim devêssemos ir mais longe e nos perguntar se este
possibilidade de escapar ao impasse de seu próprio corresponde ao dirigente social democrata que um emprego inédito para sua negatividade, o de “fracasso” não é apenas uma aparência, ou mesmo
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C.L.Salvaro, GREVE

(consciente ou não) um desvio estratégico pelo a qual criticava Breton e sua “existência puramente A busca de uma “comunidade desde 1934: “como saber se um movimento que
qual Bataille já entrevê, de maneira vaga e intui- literária”, que lhe permitia se elevar sobre o real e segunda” se daria inicialmente como antifascista não evolui-
tiva, uma terceira via que lhe permitirá escapar da “fugir em direção às alturas, de onde parece que ria, mais ou menos rapidamente, em direção ao
armadilha kojèviana: greve ou literatura? será fácil maldizer esse mundo baixo [...].”8 Não se podem apreciar as implicações fascismo?”12.
Para verificar esta hipótese é necessário Nos anos seguintes (1933-1935), os textos morais e políticas da Carta a X... sem levar em No que concerne à “atividade de represen-
retornar ao momento de seu itinerário que vai da que Bataille publica em La Critique Sociale, revista conta essas premissas. tação”, ela não é mais uma opção. Num mundo
ruptura com o Surrealismo (1929) à fundação do de extrema esquerda dirigida por Boris Souvarine, Em dezembro de 1937, Bataille explorou onde tudo se compra e se vende, o perigo de ver os
Colégio de Sociologia (1937). apenas acentuam uma orientação em direção ao as duas principais vias de excesso do negativo: dilaceramentos interiores do homem trágico torna-
ativismo radical. Por exemplo, no “Le problème de a representação e a ação, a via simbólica e a via rem-se “pouco a pouco literatura, depois comédia
Da comunidade ao sacrifício das l’État” (1933): “As dificuldades sociais não serão política. Sua conclusão é que nenhuma delas é desprezada [...]” 13 é imenso.
palavras resolvidas com princípios, mas com forças”9. A aceitável. Diante desses dois modos de recuperação,
fascinação de Bataille pela passagem ao ato chega No que diz respeito à ação em massa, os política ou estética, Bataille vê apenas uma alterna-
Com a ajuda das divergências políticas e ao ápice, dois anos mais tarde, com sua participa- riscos de deriva lhe aparecem claramente. Não tiva durante os meses que levam à guerra. Apesar
do conflito de personalidade, Bataille se separa do ção no grupo anarquista Contre-Attaque, e com a é justo afirmar como Habermas que Bataille não da profundeza e da potência da sua negatividade,
grupo surrealista em 1929, convencido da impotên- proposta de constituir uma doutrina “surfaciste” conseguiu diferenciar “entre a revolução social e a o homem da tragédia não pode fazer a história
cia das palavras diante da História. Apenas a ação que não hesitaria em utilizar “as armas criadas tomada de poder do fascismo”11. Os textos mostram sozinho. Isolado na multidão, acaba por dissolver-

DESMANCHE
direta, não diferida na representação, parecia-lhe pelo fascismo [...], a aspiração fundamental dos o contrário, que Bataille sempre esteve plena- -se nela. A única possiblidade de afirmar a verdade
capaz, doravante, de mover o mundo. A ruptura homens à exaltação e ao fanatismo”10, para derru- mente consciente quanto aos riscos de recuperação que ele encarna e de fazer o espírito trágico ser
foi consumada com a acusação de “icarismo” com bar o Estado burguês. do “surfascisme” pelo fascismo ortodoxo. Assim, reconhecido como “a realidade da existência

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humana” pede que ele se junte aos seus semelhan- Uma escrita sacrificial A experiência interior
tes, aqueles que, como ele, recusam a se submeter Ao passo que a iluminação mística conduz
às falsas escolhas da História. Nessas condições, o Essa via se abre para ele através da redação É necessário ser tão normalista quanto à fusão do Eu com o Todo, o dispêndio na perda
desenvolvimento de uma “comunidade segunda”14, de dois textos escritos entre o inverno de 1941 e Sartre para ver n’A experiência... um relicário do (negativa) da consciência e da linguagem revela
ordem ou sociedade secreta, destinada a tomar a primavera de 1942, O culpado e A experiência misticismo religioso. Com certeza, Bataille toma a insuficiência da mônada individual e a necessi-
o controle e a regenerar a sociedade em via de interior. Com esses textos opera-se uma mudança emprestado de São João da Cruz e de Santa Teresa dade de comunicar com aquilo que a ultrapassa:
decomposição, se impõe como prioridade. A título de economia, e, pode-se dizer, de regime, no uma aproximação negativa do sagrado: não definir de se abrir simultaneamente para um além do
póstumo, o que teria podido ser essa comunidade procedimento de Bataille. Com relação ao ativismo o Ser, ou o Objeto transcendente por seus atributos, sentido, o Todo-outro, e para outrem. Na experi-
renderá uma abundante discussão. Comunidade que precede o Colégio, passa-se de um movimento mas por aquilo que nele não pode ser significado ência, o sujeito torna-se “consciência de outrem”;
“inconfessável” para alguns e comunidade “inope- centrífugo, que tenta empregar a negatividade no por meio das palavras; mas aqui o procedimento “enquanto sujeito, lança-se para fora dele, abisma-
rante” para outros, a única certeza é que ela jamais aqui e agora da História, ao movimento inverso, inverte o ponto de chegada da mística tradicional. -se numa multidão indefinida de existências possí-
entrará diretamente na História.15 centrípeto, no qual a violência da revolta é contida Fazendo do “não saber” o meio de sua experiência, veis [...].”23
Continuando o projeto rapidamente e consumada num esforço da consciência levada Bataille defende a ideia de uma realidade inefá- No jogo inquietante das palavras que
abandonado da sociedade secreta Acéphale – à potência de uma “mística paradoxal”17. Esse vel, heterogênea à razão, mas, ao mesmo tempo, inspira a consciência a uma reflexão sem fim,
homônima da revista dirigida por Bataille –, movimento é descrito no texto da contracapa da recusa reduzir essa realidade à noção de um Bem e a escrita deixou de ser decorativa; ela torna-se
o Colégio de Sociologia se projetará como tal primeira edição do Culpado: “Sorte de jogo sem de uma Ordem supremas, diante da qual o sujeito “sacrifício no qual as palavras são as vítimas”24,
comunidade, sendo, a um só tempo, laboratório de refúgio, desvario, angústia ao partir, essencial- deveria se inclinar. A experiência continua funda- quer dizer, expiação, no sentido literal dado por
pesquisa social e célula de política ativa. A nota mente violência retornada [...].”18 mentalmente ateia, na medida em que nega a Caillois n’O homem e o sagrado: ex-piare, “fazer sair
fundadora, publicada no cabeçalho da N.R.F. de Seis anos antes, no “A noção de dispêndio”, presença de um refúgio, ou de uma recompensa (de si) o elemento sagrado”, renunciar ao desejo
julho de 1938, precisa a verdadeira “ambição” da Bataille identificava a palavra “poesia” – reservada última que viria pôr termo ao trágico humano. “O de tornar-se Tudo, de possuir para si só o Saber
empreitada: “que a comunidade, assim formada, às “formas menos degradadas, menos intelectua- que caracteriza tal experiência, que não procede ou o Poder supremo, de ser o filósofo ou o Homem
ultrapasse seu plano inicial, que deslize da vontade lizadas” do que habitualmente ela designa – com de uma revelação, onde mais nada se revela, senão a cavalo, Hegel ou Napoleão, Kojève, Sartre ou
de conhecimento à vontade de potência, que se a operação sacrificial, definida como uma “produ- o desconhecido, é que ela não traz nada de apazi- Stalin.
torne o núcleo de uma conjuração mais vasta”16. ção por meio da perda”19. Com efeito, o que se guante [...].”20
Malgrado suas pretensões políticas, semelhantes encontra sacrificado, perdido no ato poético, é a A recusa em alcançar e em se apropriar do A “revolta contra a História”
às da maior parte dos grupelhos que nasceram e vontade de ser reconhecido, dominando outrem; sagrado se manifesta no ritmo de um questiona-
desapareceram na época, o Colégio terá apenas mas o que retorna “criada” é a própria escrita, o mento sem fim que não pode “dar nada a não ser a Certamente, é fácil, como o fez Sartre,
uma existência efêmera. Minado pelas dissenções esforço extremo e o esgotamento do pensamento vertigem ou a raiva [...].” 21 reduzir A experiência interior a um deleite moroso,
interiores, depois pela dispersão de seus membros vivido, não como um substituto ao trágico, mas O prefácio d’A experiência interior vagamente narcísico, que equivale ao “prazer de
com a aproximação da guerra, ele não terá um como último meio do homem consciente testar descreve esse dispêndio intelectual como uma tomar um drink ou de tomar sol na praia”. E com
segundo aniversário. seus limites: aqueles de um ser simbólico, consa- catarse destinada a nos purificar do desejo de ser efeito, à primeira vista, nada parece distinguir
Mais ou menos forçado pelos aconteci- grado à circularidade da linguagem e do sentido Tudo. verdadeiramente Bataille do poeta romântico, nem
mentos, o fechamento do Colégio teria sido para que o ligue aos outros. Esta identidade da poesia a “terceira via” de uma saída de emergência, uma
Bataille um mal necessário; pois é, então, no isola- moderna (não codificada) e do sacrifício na “Noção Nós não somos tudo, temos apenas duas fuga da história: “Nosso autor, acuado no fundo
mento completo no qual a guerra o afunda, distan- de dispêndio” antecipa o movimento d’A experiência certezas neste mundo, aquela e a de morrer de seu impasse, se evade de seu desgosto por uma
ciado da agitação intelectual e política, que ele vai interior. [...]. Eu queria ser tudo: e [...] me enchendo sorte de inconsciência extática”.25
se engajar no que chamo uma “terceira via”, a fim de coragem, me disse: “tenho vergonha de ter Entretanto, a distância é incomensurável.

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de contornar a armadilha kojéviana. querido ser, pois agora o vejo, era dormir”, Há no literato de escolha e de profissão uma sorte
a partir de então, começa uma experiência de complacência consigo mesmo que o próprio
singular [...].22 Kojève analisou bem. O poeta está convencido de

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ter obtido uma forma de reconhecimento, com apropriar-se do destino das massas. Sua missão identifica-se com os grandes monstros históricos,
a ajuda das palavras aceitas e valorizadas pela O ato de escrever que efetua esse “aprofun- é mais humilde: é aquela do mediador, depositá- que desde essa época nos servem de álibi. No
sociedade. Sem dúvida, este reconhecimento é damento” no interior do sentido, “onde o homem rio de um texto anônimo no qual tomam forma e nosso, ao contrário, ela permanece invisível, não
ilusório, o poeta não faz efetivamente a história alcança o extremo do possível”29 é um ato político sentido os medos e as esperanças daqueles que o apenas invisível, dissimulada sob os atrativos do
e o número de seus leitores cabe numa “capela”, no sentido pleno: ele informa e reúne. No lugar circundam. relativismo e do gozo ao alcance das mãos.
isso não impede que o reconhecimento traga ao de seguir e fazer cegamente a História, aquele Vinte anos mais tarde, num texto intitu- Tocqueville tinha previsto que com o
Eu um sentimento de plenitude e de autossuficiên- que pensa e escreve “se revolta” contra ela. Em lado “Explicação de meus escritos”, Bataille retor- nivelamento das classes e com o afluxo de bens
cia, a satisfação de uma existência socio-histórica 1952, quando da polêmica entre Sartre e Camus nará a esse emprego sacrificial e redentor da as sociedades democráticas se tornariam mais e
completa. Em suma, por meios opostos aos do que se seguiu à publicação de O homem revol- escrita: mais prósperas e pacíficas. Os excitantes metafísi-
Abetouro, utilizando as palavras no lugar dos atos, tado, Bataille alia-se a Camus, defendendo a ideia cos, responsáveis pelo fanatismo e pelos conflitos
o Poeta também satisfaz o seu desejo de Totali- de uma “revolta metafísica”, de uma insurreição Cada homem está ligado aos outros dos quais mundiais, cederiam lugar ao “lasso amor dos gozos
dade: ele torna-se “gênio”: “Ele foge do Mundo, intelectual e espiritual da consciência contra uma ele é apenas a expressão. Qualquer que seja presentes”. A realidade denega esse otimismo.
não dele mesmo – o único ‘Selbst’ que conhece, “história que inexoravelmente empurra a espécie a ambição, um escritor nunca é apenas uma Olhemos a História na cara. Em matéria de violên-
que o interessa. É a última fuga do Homem diante humana ao suicídio”. expressão do passado, do presente e do porvir cia e de segurança pública, nossas sociedades
do Mundo: refúgio em si (‘a torre de marfim’).”26 humano.33 permissivas não deixam nada a desejar às socieda-
Esse acabamento simbólico, mas ilusó- É ridículo negar a história, mas ao menos des pretendidas “repressivas” do Antigo Regime.
rio, da totalidade pelo escritor genial não define podemos, se formos bastante fortes para isso, Bataille hoje Numa sociedade em que as saídas tradi-
o homem trágico, aliás, o homem da negatividade – bastante lúcidos sobretudo – assumir [a cionais, como a arte, a religião, as grandes narra-
sem emprego. Uma única frase da Carta a X... tarefa] de impor-lhe uma recusa. Resumindo, Na conferência sobre as ordens e as socie- tivas ideológicas que abriam à revolta, se encon-
prevê o amalgama27: contra a história podemos nos revoltar.30 dades secretas proferida no Colégio, Bataille coloca tram enterradas sob a acumulação de coisas, a
assim qual é para ele “a questão dominante da vida negatividade regressa ao estado animal. Ela cessa
No que me toca, a negatividade que me A situação de reclusão em que Bataille se social”: Como reconhecer o espírito trágico, “reali- de se empregar e de se despender, no esforço de
pertence só renunciou a ser empregada a encontra enquanto escreve A experiência... é uma dade profunda do ser humano”, num mundo que um combate para que seja reconhecido o valor
partir do momento em que não teve mais condição necessária. É na guerra, com a proximi- impõe, ao contrário, “a negação de todo conflito humano, e se exprime como descarga. O modelo
emprego: é aquela de um homem que não tem dade da morte e na solidão do ser individual que interior?”34. Traduzindo vulgarmente: do que a hegeliano, segundo o qual o escravo se opõe ao
mais nada a fazer e não aquela de um homem a linguagem se revela a ele como último abrigo palavra do homem reflexivo, inquieto diante do mestre, a fim de afirmar sua autonomia e sua
que prefere falar. contra a barbárie e a violência.31 Pois o que fala mundo e preocupado em conferir-lhe sentido, dignidade de homem, é para nós vazio de sentido.
então no silêncio da consciência não é mais o Eu, ainda é capaz, quando a programação e a servi- Na sociedade do lazer e do espetáculo, o controle
Na posição de Bataille, a escrita não nem a vontade de ser reconhecido, tornando-se dão voluntária das consciências têm um pacto do aparelho midiático sobre a fabricação, a distri-
ressalta uma escolha, ela se impõe imperativa; e Tudo, mas os outros, todos os outros, a civilização tácito com a pior violência? E se por “pior violên- buição e a consumação de uma violência represen-
este imperativo não visa, como no poeta, alcan- universal, e no seu movimento, a própria história. cia” não entendo uma violência determinada, mas tada cria um mundo inédito de reconhecimento.
çar glória e reconhecimento pessoal, seu escopo uma violência genérica, matricial e fundamental, o Para o psicopata da era eletrônica que esvazia seu
é universal. Para o homem da tragédia, a escrita O terceiro, o companheiro, o leitor que me cadinho do Mal em que se produz todos os aspec- tambor sobre os espectadores, durante a projeção
se apresenta como o último emprego e como a conduz, é o discurso. Ou ainda: o leitor é tos particulares da violência? de Batman, o objetivo não é reconhecer qualquer
única arma que a consciência dispõe para se opor discurso, é ele que fala em mim, que mantém Repitamos! Essa questão não está limitada valor humano que de toda maneira não está mais
à iminência da catástrofe. em mim o discurso vivendo endereçado a ele à época em que viveu e escreveu Bataille. Com o em curso; trata-se muito mais de ser sacralizado
próprio.32 não emprego e a ausência de saída do negativo, em Todo: imagem-ícone onipresente em escala

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Nós só podemos ser conscientes, e é mergu- é ao impensado de nossas democracias modernas planetária. A negatividade se exerce sempre na
lhando na consciência que podemos tentar A negatividade daquele que escreve não que ela se destina. transgressão, por ultrapassar o limiar superior das
transgredir as dificuldades do mundo atual.28 é aquela do messias revolucionário, sonhando em No mundo de Bataille, a pior violência normas; mas essa transgressão não tem mais nada

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de humano, aí, nenhuma consciência participa, renúncia da inteligência; de manter viva esta parte 1. D. Hollier, le collège de sociologie: 170.
2. Ibid.: 171.
simples reação a um automatismo ou a um adestra- de nós que não se manifesta apenas na arte, mas 3. Ibid.: 175.
mento. Uma vez esgotados todos os subterfúgios cada vez que nos reconhecemos, no isolamento da 4. Ibid.: 173.
5. Ibid.: 239.
da tecnologia cinematográfica (surround sound, consciência e no exercício das palavras que nos 6. Ibid.: 270-272.
3-D, Imax...), a indústria do espetáculo implica ligam aos outros, nos limites de nosso possível. 7. Ibid.: 172.
8. G. Bataille, OCI: 170
uma passagem ao ato como sequência natural das 9. Ibid.: 379
representações. 10. Ibid.: 382
11. J. Harbermans, Discours philosophique de la modernité:
É esta descarga de negativo que está em 260-261
questão na Carta a X... Uma negatividade que não 12. OCI: 424-425
13. D. Hollier, Le Collége de Sociologie: 273
passa nem pelo pensamento, nem pela utilidade, 14. G. Bataille, “Assim, na medida em que não querermos
mas que se manifesta abruptamente em estado mais ser mutilados, derrisórios, aos nossos próprios olhos,
estamos em busca de uma comunidade segunda, na qual
bruto, como violência gratuita: puro desejo de os fins tenham em nós um total consentimento do ser.”,
destruição sem fim e sem limite, heterogênea ao OCXI: p. 63-64.
15. Cf. M. Blanchot, “A comunidade inconfessável” e J. L.
sentido. Nancy, “A comunidade inoperante”.
É certo que escrevendo A experiência 16. D. Hollier, le Collège de sociologie: 35.
17. OCV: 493. (Grifo do autor.)
interior Bataille não pôde prever a evolução econô- 18. Idem.
mica e tecnológica das sociedades atuais. Em 19. OCI: 307
20. OCV: 10.
contrapartida, ele já percebe o doutrinamento e a 21. OCI: 307.
manipulação das massas pela propaganda, a covar- 22. OCV: 10.
23. Ibid.: 76.
dia política e a raiva de uma negatividade cega dos 24. Ibid.: 156.
seus limites. Ele compreende que na sociedade 25. J. P. Sartre, Situations I: 228.
26. D. Hollier, le Collège de sociologie: 168.
“homogênea”, em que a relação com o outro e 27. Ibid.: 172
o reconhecimento estão a serviço do interesse, a 28. OCVII: 395.
29. Cf. OCV: 11.
reversão do sagrado em economia está na origem 30. OCXII: 232-233.
da pior violência. Violência militar ou violência 31. Escrito na terceira pessoa, o Prefácio do Culpado indica
que o livro foi ditado por “circunstâncias favoráveis” que o
técnica são finalmente a mesma coisa. A força tornaram necessário: “essas circunstâncias” (independen-
brutal e a ciência sem consciência tornam-se os tes da vida pessoal do autor) resultam da declaração da
guerra de 1939. Praticamente, o autor compôs esse livro
melhores aliados. A negação técnico-econômica da a partir de um “diário” que redigiu desde o dia em que
tragédia engendra o niilismo e o terror de massa, a guerra eclodiu, guiado por um movimento que ele não
teria podido dominar. O autor, então com quarenta e dois
do mesmo modo que a fraqueza das democracias anos, jamais tinha redigido um diário. Mas, encontrando-
tinha encorajado a fé nazista. -se logo diante das páginas escritas, percebeu que nunca
tinha escrito nada que ele tivesse apreciado tanto, nada
Se aplicado ao tempo presente, o texto que o expressasse tão plenamente. OCV: 494.
de Bataille tem por primeiro emprego nos tornar 32. Ibid.: 75.
33. OCXII: 527.
lúcidos. Ele nos obriga a abrir os olhos diante da 34. D. Hollier, le Collège sociologie: 272-273.
queda vertiginosa de uma civilização outrora farol
da humanidade numa forma paradoxal da barbá-
rie, associada ao Progresso. Esse texto também

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indica a via e o método capaz de impedir essa catás-
trofe. A última chance de perseguir uma história
na dimensão humana exige que se insurja contra a

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Foto: Matheus Sá Motta

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Lagoa Santa faz uma rua que atropelou a casa do Sr. José Ferreira da Costa.
Fotos: Matheus Sá Motta - @msamotta

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Washington Drummond

Diário da República de Saló

18 de abril 2017 28 de agosto de 2017

“não custa nada, só lhe custa a vida” Gilberto Gil “uma selva escura, onde a via direita estava turvada” Dante

Os velhacos que comandam a república e procrastinador – a reversão abrupta, negativa, A República de Saló elegeu seu território: uma distopia – gestão perversa que sonha espar-
se locupletam extorquindo, corrompendo, dissi- da parte maldita? Aqui, apenas os mortos-vivos aquele em que o braZil se projeta como um futuro gir-se por todo o país enquanto desamparo, medo,
mulando. A economia política sucumbe frente às vicejam – o hálito dos ratos nos assedia. Espraia-se desejado e possível; aquele em que o inferno se terror. Essa guerra intestina, em que as vítimas
crônicas policialescas. Nenhuma inteligência aí, o medo de que impunes nos conduzam, insepultos, resolve como cotidianidade; aquele em que seus somos todos nós brasileiros, é a nova gestão
é o óbvio que desvela o país (já não se trata de para sempre. habitantes sabem que não mais vivem, sobrevivem; mafiosa em que o estado de exceção se esfuma,
política, só gangsterismo). Os nazistas operaram No Hades hodierno inverte-se a máxima: aquele em que a vida – em sua potência – se esvai. sendo nada mais que a norma do capital, sem o
a “téchné do gângster” (G. Rabinovith), mas esses “daqui ninguém sai morto”... O rio se transformou na “disneylandia do inferno” estorvo da produção. Rizomático, imoral. Pagare-
tinham ideologia. Aos discípulos de saló, restou o dos velhacos que comandam o braZil: que destino mos caro pela indiferença amorosa e imbecil. O rio
banditismo: a corrupção generalizada instaura a pode haver quando trabalhadores são humilhados é o ovo exposto, explosivo, redivivo e soberano da
cumplicidade canalha no tecido social; a desfaça- e massacrados pela polícia, no momento em que serpente...
tez e o cinismo exibicionista erigem a humilhação à reivindicam o que já parece impossível, o salário ao
pedagogia; o assassinato passa de excesso policial final do mês? Que dignidade há quando depois de
ao legítimo exercício da ordem. Para os velhacos cumprir a jornada de uma vida, idosos são tortu-
de “almas sebosas”, a organização do crime é a rados com o sequestro inexplicável de suas parcas
primordial função do estado. Nas ruas, nas matas, aposentadorias? Que esperança pode persistir se
nos campos, nos hospitais, nas escolas, ser cidadão crianças são impedidas de estudar, assombradas

DESMANCHE
é ziguezaguear entre a vida e a morte. Sob a gestão pelos confrontos armados? Que mátria infeliz em
agressiva da intimidação nos tornamos todos alvos que mães não cessam de velar seus filhos assassi-
móveis. De onde virá – como um messias redivivo nados! Esse é o rio que desemboca no braZil como

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14 de setembro de 2017 10 janeiro de 2018

“num pátio que era uma bolgia do inferno” l. barreto “talvez seja na alma que tudo (re)começa”
 
Raimar Rastelly

O braZil pós-reformas será um frigorífico se esparge até sua origem. Finda por implicar o tal basbaque demoníaco – disparou várias vezes
de carne humana: a redução de gastos na saúde presente num futuro fantasmagórico e nunca a própria arma... projéteis como se fossem fogos
é a organização estatal do genocídio; a redução vindouro. Gerações sucessivas, inertes e insones, de artifício. São os mesmos nove corpos negros de
de gastos na educação é a organização estatal da são condenadas a esse tempo morto, infernal: detentos – dois deles decapitados – procurando
barbárie; a redução de gastos na habitação é a onde qualquer movimento da história está conge- seus assassinos para uma última pelada com as
organização estatal da miséria. Para conservarem lado numa imagem em que a dialética se esvaiu. cabeças que lhes foram sordidamente arrancadas.
as cabeças pútridas sobre os pescoços, os velhacos (Como se olhássemos nosso devir por um retrovisor Ou o bebê encontrado morto na lixeira da esquina
condicionaram a própria sobrevivência ao gangs- montado num bólido precário, arruinado. Como se e que saiu inerme na busca de seus pais e algozes.
terismo, operando a democracia neoliberal como descrevêssemos nosso cenário com as narrativas E no assombro do dia que jamais aurora,
um território árido para a vida – o grau zero de sua devastadas de Benjamin e Kafka.) Essa noite tão o índio solitário – professor de crianças e morto
potência. Mas essa diminuição do vivo aos custos veloz quanto terrível convoca todos os habitantes barbaramente – conduz a alma anêmica de seu
– o ditado reativo dos economistas – já não seria de Saló, irredentos, saídos do limbo, a percorrer assassino até o inferno mais próximo. A noite
um efeito dessa operacionalização gélida, métrica? desesperados essa terra ignatia e estéril. São as envilecida e inútil revela que há um país à procura
A bolgia que nomeamos braZil responderá, como 130 mulheres vítimas de estupro – em cada noite de sua própria alma.
um buraco negro, vomitando as mais imprová- brasileira de 24 horas – que deambulam, atônitas,
veis e inusitadas formas – ainda abertas – por procurando as outras 12 mulheres assassinadas,
mais impossível que isso nos pareça? Do espanto, para uma dança macabra em que se vingarão de
do assombro, do terror, da violência, da graça seus violadores. Ou os cinco jovens, cinco corpos
se alimenta o verdadeiro acontecimento – esse no chão úmido de um bar da periferia – vítimas
teatro dos informes, dos infames, sem gramática, das nossas já cotidianas chacinas – que esperam
no âmago da sistematização do extermínio. Como plácidos para sorver um último trago com os justi-
Lima Barreto, deambulando seminu no cemitério ceiros que, mais adiante, farão outra chacina. Essa,
dos vivos... para celebrarem o “acerto de contas”. Ou ainda a

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criança de cinco anos – morta, vagando com uma
Uma única noite de tenebreuse lumiére, bala encravada no peito – à procura do homem
regida pelos rituais indecentes dos velhacos, (mas o que é um homem?) que no Réveillon –

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Geraldo Santos

A ESTAÇÃO DAS CANETAS

Parada Obrigatória amenizar a necessidade da interação com aqueles dades que não fazem nenhuma diferença dentro coisa a dizer durante a viagem de ônibus. Começava
com os quais não se deseja interagir. Alguns até dele. Não se sabem seus nomes, seus gostos, seus com uma sinopse de sua trajetória no chamado
Meu trajeto segue um itinerário diferente, olhavam para os outros, olhares de julgamento, medos, embora eles existam. As permanências são “mundo das drogas”. Em seu discurso, afirmava
relembro do tempo em que eu era um rapaz outros de curiosidade, vira e mexe alguns olhares passageiras, despercebidas ou, quando percebidas, que todos os problemas acontecidos nos espaços
empregado e diariamente fazia uso do transporte se cruzavam, gerando um aparente desconforto, se limitam à memória de curta duração. O que ali de conflito teriam ficado no passado. Aquele que
público. Na estação, várias pessoas de diferentes pois logo as pessoas desviavam o olhar, pois talvez acontece se perde tão rápido quanto o ritmo dos ali falava era uma nova pessoa, bem-sucedida no
lugares se esbarravam. Em certos horários, seus aquilo fosse um flerte. mecanismos de comunicação que se multiplicam. processo de conversão moral. O discurso durou
corpos até pareciam se fundir de tão próximas que Uma barreira imaginária parecia bloquear Repentinamente, todos são despertos de vários minutos, mas pode-se dizer que ele durava
ficavam, ali o único contato verbal se limitava às as interações ali, mesmo quando quistas. Aquelas seus mundos pessoais, não conseguindo ignorar dias, pois todos os dias ele se repetia por outras
desculpas por uma movimentação brusca ou um pessoas permaneciam imersas em seu próprio aquela voz retumbante que ecoava ali dentro. pessoas com pequenas variações.
pisão dado na pessoa ao lado. As pessoas permane- mundo, tornando-se espectadores do transitar de Mesmo ao fundo se escutava: “Só quem tá feliz Essas pessoas, em sua maioria rapazes,
ciam reclusas dentro de si, estando mais apagadas pessoas e dos acontecimentos que se sucedem: com Jesus pode me dar um bom dia!?” Silêncio, estiveram imersos nos espaços das drogas durante
do que as luzes de uma Comunidade Terapêutica e ele insistia novamente, com a voz um pouco grandes períodos e, devido às interações sociais,
(CT) às 22h00. Se, por um lado, os “não lugares” permitem mais alta. Alguns respondiam quando provocados muitas coisas acabaram sendo absorvidas; essa
Percorrendo com os olhos a paisagem uma grande circulação de pessoas, coisas pela segunda vez, talvez com medo de blasfemar herança se estende desde a personalidade à
urbana que passava pelo lado de fora, algumas e imagens em um único espaço, por outro ou para não demonstrar uma possível ingratidão construção ou ressignificação do vocabulário, o
pessoas contemplavam o nada integrando uma transformam o mundo em um espetáculo ao poder divino. Um súbito sono tomava algumas que se torna nítido ao longo de seus discursos, com
grande massa que, em segundos, se perdia no com o qual mantemos relações a partir das pessoas que imediatamente caíam nos braços de dialetos e gírias próprias de pessoas que vivem em
enquadramento. Outras pessoas presentes naquele imagens, transformando-nos em espectado- Morfeu, mas seu fingimento não seria o suficiente regiões periféricas. Devido a sua fluidez com essas
espaço em sua grande maioria interagiam com os res de um lugar profundamente codificado, para não escutar tudo o que seria falado. A estra- expressões orais, são estigmatizados por grande
mecanismos de extensão de sua realidade pessoal do qual ninguém faz verdadeiramente parte. tégia de alguns em ligar os fones de ouvido talvez parte dos passageiros; dentre os sussurros, alguns
(SÁ, 2014, p. 211)

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através de seus livros ou smartphones. Esses meios fosse mais eficaz, ignorando o risco dos danos que discursos se sobressaem, quase sempre de forma
funcionam ali tanto para provocar a sensação de A cada dois que desciam, outros cinco poderiam ser causados pelo exagero no volume. pejorativa. “Uma vez dependente, sempre depen-
menor permanência neste espaço quanto para subiam, a cada parada aquele espaço perdia um A pessoa que começou a falar tinha muita dente”, sempre diz o pai de um amigo abstinente
pouco de si, partes de uma grande massa de reali-
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há 20 anos. ros, a partir disso os caneteiros apenas passaram a corpos em outra dimensão de tempo se tocaram. direção e, tendo cessado o período de descanso
Diariamente, aqueles rapazes se encon- fazer o trabalho de divulgação e venda em linhas Me aproximo para conversar com ele, mas como não calculado, resolvemos entrar em um ônibus
tram dentro dos ônibus, fazendo o trabalho de de ônibus que vão direto para o Centro, pois esses essa conversa aconteceu ou quais perguntas foram para ele realizar seu trabalho. Pude nessa hora
divulgação da CT a partir de seus depoimentos ônibus não são o foco dos baleiros. feitas às vezes me parece irrelevante, mas fluiu de experienciar uma das tribulações de que ele tinha
e da venda de kits, compostos por uma caneta Sabendo onde encontraria aqueles tal forma que passei a tarde indo para lá e para cá falado. Éramos os últimos da fila do ônibus, e
esferográfica e um panfleto falando da instituição rapazes, novamente desviei de caminho, partindo junto ao rapaz, Lucas, que não era dali. quando o motorista viu que entraríamos fechou as
com a foto do pastor e diretor da instituição em para um lugar desconhecido, mas não incomum, o Sou do Rio. portas quase prendendo meu braço que já estava
uma embalagem plástica. Talvez eles fossem as núcleo das interações e correrias. Muitas pessoas ali Assim… Nós chega, nós fica 15 dias em casa apoiado sobre a porta, em seguida arrancou com o
pessoas mais conhecidas daquele espaço. Sendo passavam, o cheiro de cigarro impregnado no local se tratando, se desintoxicando e depois de 15 dias ônibus nos deixando para trás.
todos os dias vistos e escutados, seus rostos, suas junto à fumaça dos ônibus que dali partiam provo- a gente já começa a vir pra rua pra estar se reinte-
falas e seus gestos marcavam o próximo encontro. cava meu nariz alérgico. Várias pessoas faziam o grando com a sociedade de novo e começar a fazer Rotina Diária
comércio de lanches, doces, cigarros, dentre outras o trabalho, aí é um período de 9 meses a um ano.
Divisão de Território coisas. Como de praxe, comprei meu café com pão É a minha segunda semana que tô saindo pra rua A gente acorda 4 da manhã. Eu era acostu-
de queijo para conversar com aquelas pessoas com sozinho, fiquei lá dentro 13 dias. mado acordar 15h da tarde, agora aqui, o cara
O sol intenso daquele dia causava várias o bafo mais mineiro possível. Nesse espaço desconhecido eles têm total acende a luz meu olho já abre, precisa nem chamar.
sensações estranhas em mim, talvez tenha sido Assentado ali observando tudo como uma autonomia para fazer suas próprias escolhas, Eles saem juntos da CT e, chegando ao Centro de
por eu não ter me alimentado e nem bebido vizinha fofoqueira, fui desperto. Fui atraído pelos estando sujeitos às regras da CT, que não faz uma BH, cada um passa a fazer seu trajeto diferente.
água. Várias pessoas subiam e desciam para seus lindos olhos verdes daquela mulher trans que mais supervisão tão rigorosa enquanto eles estão na rua. No decorrer do dia, é comum que eles se cruzem,
caminhos, talvez alguma dessas pessoas estives- pareciam ser lentes. Nossos olhares se cruzaram e As dificuldades são diárias, principalmente para conversam sobre suas vendas, sobre os baleiros e
sem procurando os rapazes das canetas, afinal, “é nitidamente ela percebeu que eu estava olhando quem está no começo do tratamento. outros acontecimentos. Repentinamente se despe-
uma caneta de três cores, acabando a tinta você para ela, fiquei bem sem graça e sorri afirmando Nós passa tribulação a todo momento, dem dos outros e saem correndo para dentro de
pode comprar o refil em qualquer papelaria do assim minha posição, a partir disso ela estaria o negócio é loco mesmo, toda hora, muitos bate algum ônibus. Tem gente que já dá umas 15h já tá
Centro de BH, você pode estar adquirindo este kit livre para interpretar aquele olhar como quisesse. vontade de usar droga, de fazer várias coisa, isso indo embora. A hora que a gente quiser ir embora,
por apenas 5 reais e ajudará a salvar outras vidas”, Logo atrás, sua amiga passava desfilando com deixa o sujeito loco da cabeça. Todo dia uma pessoa nós vão embora, mas nós fica doido pra bater uma
mas nada de encontrá-los. Às vezes eu pergun- seus óculos escuros, rebolosa e fina, só não tão tirando seu sossego, tem motorista que não deixa nóis metinha no dia, aí a gente vai umas 17 horas da
tava a algum desconhecido se saberiam me infor- fina quanto seu salto agulha. Sua postura ereta e no ônibus pra fazer o nosso trabalho, pessoas que tarde, chega lá umas 19, vamos dormir umas 22h,
mar como encontrar essas pessoas, mas ninguém o pisar forte retratavam uma pessoa em cujo não julgam nosso trabalho. Hoje eu fui pra outra rota, lá porque nós acorda cedo, nós dorme cedo umas 22
sabia me informar. Como aquele grupo que parecia se deveria pisar no calo, juntas entraram no ônibus naquela avenida Amazônia, sem conhecer nada, eu pra 4 horas acordar então, até nos chegar aqui na
quase onipresente teria sumido assim? seguindo assim mais uma parte de seus caminhos fui lá hoje pra trabalhar, agora que tô chegando, eu cidade.
Em uma dessas subidas e descidas, cruzo repletos de obstáculos e perigos. fui pra lá em Venda Nova e tô aqui agora. A rotina de trabalho dura toda a semana,
com uma vendedora de balas (baleira), à qual Ao meu lado, desembarca um daqueles Só hoje eu perdi quatro kits já. Eu perdi inclusive aos sábados, dia em que o lucro das
decidi pedir alguma informação acerca dessas caneteiros, estava ali com seu rosto brilhando dentro do ônibus, outros eu tive que pagar passa- vendas fica exclusivamente para eles. Os demais
pessoas. Logo que ela desceu do ônibus, fui atrás, de suor reafirmando o quanto aquele dia estava gem por que alguns motoristas não dão passagem kits assumem a forma de pagamento da estadia,
me aproximei e expliquei sobre minha procura. Ela quente. Entra no banheiro e sai com o rosto ainda aí a gente vai lá e tem que pagar a passagem. Ele sem que sejam descontados os excedentes.
me explicou que não os encontrei devido a alguns mais molhado, esse excedente ajudaria na reposi- demonstrava preocupação quanto à perda daque- Quando nós tá na casa lá nós ajuda lá
conflitos com os baleiros. Eles eram causados pelos ção de água perdida, completando essa reposição les kits, pois algumas pessoas embolsavam o também, tem nossas tarefas lá, final de semana é
longos discursos que fazem, o que, segundo os com uma longa bebida de água no bebedouro que dinheiro e ele estava com receio de que a equipe nosso lazer, tem piscina, nos joga futebol lá dentro

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baleiros, estaria atrapalhando a dinâmica de suas estava ali próximo. Em seguida, logo à frente, ele da CT achasse que estaria agindo da mesma forma. mesmo, somos quase 30 pessoas. Lá na nossa casa,
vendas. Essa irritação se materializou em uma se assenta onde eu estivera alguns minutos atrás, Observávamos os ônibus passando o nosso tratamento não é aqueles tratamento igual
separação territorial sustentada por alguns balei- talvez o lugar ainda estivesse quente, nossos enquanto pessoas apressadas corriam em sua tem muitas clínicas aí que tem que ficar tomando

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remédio, o nosso tratamento é espiritual, tem a corte dos laços com esses espaços, na tentativa de o serviço, esse rapaz teria de fato voltado e ela se
nossa própria igreja lá dentro, tem pastor, tem tudo estimular a construção de uma nova personalidade As músicas que ainda escuto foi com ele. A partir daquele momento ela estaria
lá dentro e nós vive nisso, com fé em Deus, agrade- moral. Aqui não pode ficar ninguém de BH não, sujeita a todo tipo de perigos, tendo em vista que
cendo a Deus, buscando Deus pra Deus dar força para cada um vai para um estado diferente. Por causa Dentro do caos do espaço urbano em que ela permaneceria sozinha com aquela pessoa até
continuarmos nosso trabalho, porque o negócio não de saudade da família, conhece as quebrada tudo, me via, fui marcado por um relato não esperado, então desconhecida, mas, assim como dito, foi
é fácil não fí, o inimigo a todo momento tá querendo amigo, aí pra pegar e não recair de novo aí vai pra pois não partiria das pessoas que procurava e sim feito, ele a levou para uma CT, onde pôde passar
fazer nossa cabeça, não deixa nóis em paz de jeito outra unidade. daquela vendedora de balas que me ajudou a pelo tratamento e manter-se abstinente. Após o
nenhum. Conversando com uma pessoa absti- encontrar aqueles rapazes. Era uma moça bonita, tratamento, acabou se casando com esse homem
Às vezes a gente entra assim e não dá nente há seis anos, pude perceber que muitas de devia ter uns 40 anos, negra, bem pequena, parecia com quem atualmente tem quatro filhos. Ela era
vontade de falar, o primeiro ônibus de cada dia dá suas falas, mesmo sobre outros assuntos, passam um chaveirinho, não sei seu nome, pois sequer nos uma das várias pessoas atingidas pelo desemprego
um gelo na gente, mas depois que a gente fala já por questões aprendidas através das CTs em que apresentamos. Quando a abordei, antes mesmo e encontrou na venda de balas uma forma de se
acaba indo. Eu fiquei lá 11 dias e reagi bem ao trata- esteve. Hoje eu trabalho, tenho meu filho, minha de me dar informações sobre os rapazes canetei- sustentar e à sua família, segundo seu discurso ao
mento, saí pra rua, na hora que eu entrei no ônibus, família e vou indo. Os meus colegas quase todos aqui ros, ela resolve falar um pouco de si, tínhamos entrar no ônibus.
arrepiou assim ó, as pessoas olhando pra sua cara, no bairro mexem com essas coisas, bebe, usam, eu um curto espaço de tempo até que ela retornasse Nesses locais as necessidades humanas são
é como se você não tivesse conhecido ninguém, na passo por eles todo dia, cumprimento e eles não me para suas vendas. O que resta dessa conversa é a revistas a todo momento, não havendo qualquer
hora cê começa a falar, começa a gaguejar, nossa é oferecem, eles me conhecem e são camaradas, não própria escrita e uma embalagem vazia. Talvez um doutrina ou tratamento psicológico que consiga
muita coisa diferente, cara. Agora a gente conversa chamam. O tratamento é isso aí, tem que ter perse- dia cruze com ela novamente, talvez nem mesmo apagar totalmente as lembranças. Desde o recair
com todo mundo que a gente vê a gente conversa, a verança, se não ele não consegue, ele tem que ser nos reconheçamos, afinal, é exatamente o tipo de que levou um acolhido a sumir com o dinheiro e os
gente fazer esse trabalho nos coletivos é uma reinte- obediente a aquilo que estão passando pra ele ali interação que esses espaços nos propõem, uma kits durante três dias em uma maratona de drogas
gração social. Quando a gente usava droga a gente na casa, e a casa que eu passei lá é mais psicologia. espécie de jogo da memória, onde seu rosto será com uma mulher desconhecida até o jovem Wesley,
não conseguia falar com uma pessoa, ficava lá na Na conversa, percebo que todos os seus discursos esquecido e apenas restará uma imagem que a vendedor de canetas que se arrisca novamente a
brisa, quando passava a brisa a gente ficava quieti- giram em torno do que aprendeu sobre psicologia represente. construir uma relação com a vendedora de lanches
nho assim óh! Via uma pessoa e já achava que tava nesse período. Todas as vezes em que recaía, ele Aquela moça dos 13 aos 22 anos se viu daquele terminal, com quem atualmente namora.
encarando a gente, mas na verdade a gente tava avaliava o que tinha o levado a isso e ia fazendo imersa no uso de crack, tendo passado a integrar os Nesse caso, ele dá outros passos a caminho de sua
encarando a pessoa e não percebia. uma série de adaptações em sua vida, refletindo escuros do Centro de Belo Horizonte, onde poucos ressocialização limitada ao trabalho e algumas
O pessoal aceita mais agora, pois entende até mesmo com quem tinha se relacionado afetiva- circulam após alguns horários. Devido ao convívio fugidas. Se o possível término do relacionamento
que a gente tá ajudando e tá se tratando. O kit é mente. apenas com aquelas pessoas em situação de rua, o deixará instável a ponto de recair como frequen-
pra ajudar a sustentar a casa e resgatar mais vidas, Esses ajustamentos partem de várias acabou criando uma resistência em estabelecer o temente acontece com muitos, não se sabe. Ele vai
porque a nossa preferência não é tá vendendo kit formas, das mais simples às mais dolorosas, da contato com as pessoas fora desse meio de convi- vivendo sem demonstrar tanta preocupação com
não, é tá resgatando mais uma vida, porque a nossa negação do eu e de elementos de identificação que vência, a maior dificuldade do dependente é conseguir esse ponto; caso recaia, pelo menos arriscou-se a
comunidade se você procurar vai ver que ao todo são são parcialmente apagados devido ao medo de voltar a acreditar nas pessoas. Ao fim de sua perma- fazer valer a sua ressocialização. Para muitos ali,
27 casas, a nossa casa em BH é a que mais interna, recair. Tem coisas que a gente usa que remete a um nência em situação de rua, se encontra grávida e são apenas mais um casal se abraçando em meio
todo dia tem 10 a 15 ligações querendo internar. barzinho, uma mulher que eu tive que usava comigo, acaba sendo transportada daquela escuridão para à paisagem caótica, duas pessoas que apenas se
se chama memória química. Eu adoro MPB, ouço outra, passageira e programada, das 22h00 às destacam aos olhares dos curiosos que os identi-
MPB no rádio o tempo todo, só eu e Deus. Gosto de 06h00, talvez até às 07h00. Um jovem trabalhador ficam pelo uniforme do rapaz ou dos quitutes da
As músicas que não escuto mais rock progressivo, mas algumas músicas hoje eu não da Vale do Rio Doce a teria avistado na situação moça.
gosto de ouvir porque me remete a essas lembran- em que se encontrava e, tendo se apaixonado por

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Dentro dos modelos de tratamento em CTs, ças, lembranças boas, mas ruins também, as duas ela, propôs que ela saísse dali com ele ao fim de
o distanciamento do espaço de origem do conflito coisas, mas isso é ser masoquista né e eu não sou seu expediente de trabalho. Ninguém acreditaria
é algo essencial, tendo como principal objetivo o masoquista. em uma coisa dessas. No entanto, mais tarde, após

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REFERÊNCIAS

MONTEIRO, Rita Maria Paiva. A carreira moral de jovens inter-


nos em instituições de recuperação para dependentes químicos.
2011.
SÁ, Tereza. Lugares e não lugares em Marc Augé. Tempo Social
- USP, v. 26, n. 2. 2014.
Sr. Marcos - Colaborador e ex-acolhido de uma Comunidade Te-
rapêutica em Santa Luzia/MG.

fotos João Castilho e textos Cristiano Luis e Breno Silva

EPITÁFIOS

Percursos com o rabecão nas noites da Região Metropolitana de


Belo Horizonte em agosto de 2018.

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I . Diante do espaço mais democrático de todos. O rabecão aguardava II . Espécie de roleta-russa, de acidente anunciado e não definido
enquanto, para externar a solidão, no rádio era transmitido o debate previamente no tempo de sua ocorrência. Ela espreitava depois da
dos candidatos à Presidência da República. curva da estrada pedindo carona.

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III . Vista do alto, ela enredava um romance noir, cujo culpado é IV . A dor de uns e o alívio de outros. As caixas de remédios esvaziadas e
sempre o mordomo. a loló expirada. O que seria do nosso encontro? Fugiria de ti como de um
trombadinha afoito pela minha bolsa entupida de bolinhas. E as suas
aspirações diante do medo que me cerca?

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V . No labirinto, eles acenavam discretamente indicando o caminho. No VI . Um dia após o Dia dos Namorados, muito cedo a vida escapou-
jogo dos gestos mal olhavam para ela. Se agrupavam na fuga acuada da lhe ao cair sobre uma espátula no corredor do escritório fugindo de
generalidade sacrificial enquanto a mão branca mobilizava outras no
seis jovens, colegas de trabalho, que tentavam dar-lhe beijos de
gesto de agarrar o inevitável.
aniversário.

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VII . Ela lia em voz alta a pichação na vala dos vivos de passagem VIII . Àqueles cujos nomes estão escritos na densidade do ar.
rápida: “A vida é noite, o sol tem véu de pedra”.

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IX . Deixando a cisma obscena, mirava fixamente a negatividade nos olhos.
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X . Um jogo de retraimento. Pelo retrovisor, travestis realizavam o seu XI. O negócio da absolutização do mero viver escoava-a pelas portas
credo, saudavam à sua passagem na avenida vaiando e gesticulando dos fundos. O porteiro ciclope e vidente indicava o elevador social
com o dedo do meio. para descer com o saco preto.

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XII. Ela inscrevia cortando o silêncio bruto do asfalto: “por outro lado,
quem morre são os outros”.

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XIII. Cruzando com uma ambulância. A coincidência de algo desaparecendo
sem cessar em direção ao futuro.

Leila Danziger

Resistir-por-ninguém-e-por-nada

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Lucio Branco

Desmonte Geral

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O desmonte do monte, filme (mais ou 1565, e ao redor do qual viria a pulsar a vida da Castelo (e o seu entorno) com o que hoje invade o Janeiro em permanente processo de transforma-
menos nesta ordem) concebido, pesquisado, rotei- futura capital do Império e do início da República. nosso campo visual mal iniciamos uma caminhada ção desde aquele período, independentemente da
rizado, produzido e dirigido por Sinai Sganzerla, nas cercanias da Cinelândia, por exemplo. Não vontade da maioria dos seus habitantes. Afinal, não
carrega o DNA do nosso tempo. Atual talvez seja o termo mais empregado pelos existe possibilidade de distanciamento histórico há novidade no fato de que direitos civis, humanos
espectadores após os pouco mais de 80 minutos da na hora de avaliar o quão pouco inspiradora é a e sociais nunca constaram entre as prioridades da
É obra que traz no título a referência a um evento metragem do filme. Quem o assiste pode concluir, retomada de certas práticas adotadas desde então agenda de desmandos que rege a cidade abenço-
ocorrido principalmente no ano de 1922, mas cuja antes do fim, que não está sendo apenas trans- pelas nossas mais altas esferas administrativas. ada por São Sebastião.
história está longe de ser datada. E não só pela portado para uma outra época da vida nacional. Trata-se de uma linhagem de gestão político-
sua repetição constatada como farsa e tragédia ao Apesar do estímulo ao interesse por tudo o que se -empresarial que aparentemente anda longe de ter Na pesquisa que originou o longa, Sinai encontrou
longo dos anos seguintes, mas nas causas – muito vê e ouve na tela – muito graças ao farto material fim na cidade. evidências de que, no caso do Morro do Castelo
pouco enfrentadas desde então – daquilo que viria iconográfico exibido, à ótima trilha sonora e à (originalmente batizado pela empresa colonial de
a se constituir na tradição do tratamento insti- precisa narração onisciente da atriz e também A reflexão a que nos referimos é despertada, em “Morro do Descanso”), se a história não se repete
tucional-empresarial dispensado ao patrimônio cineasta Helena Ignez –, O desmonte provoca o grande medida, pelo ineditismo do tema nas telas. exatamente como farsa ou tragédia, o fato é que
histórico do Rio de Janeiro. Um mal que, inevita- tipo de reflexão que desafia historicismos fáceis. E, E qual seria a razão disso? Uma boa hipótese as disputas em torno dele já eram bem anterio-
velmente, também viria a acometer outras metró- mais importante: nostalgias. começaria pela constatação da pouca assiduidade res àquelas ocorridas no início do século XX. As
poles brasileiras. impressa que teve. A não ser pela cobertura jorna- paredes rochosas do Castelo já haviam testemu-
Por mais que a exibição das imagens de um Rio lística do desmonte em si, na época. E, bem poste- nhado as lutas entre tamoios e temiminós que,

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Estamos falando do arrasamento do Morro do de Janeiro ainda não desfigurado pela especulação rior e eventualmente, por conta das monografias, indiferentes à comum ascendência tupi, frequente-
Castelo, monumento topográfico oficialmente imobiliária nos sensibilize e comova, não há como dissertações e teses acerca dos desdobramentos mente digladiavam-se em disputas pelo território.
considerado marco inaugural do Rio no ano de não relacionar aquela paisagem pré-desmonte do que o arrasamento do morro teve num Rio de Sabedores desse conflito ancestral, os franceses

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que queriam arrebanhar o Rio dos portugueses, Sampaio posteriormente adotaria na defesa da
em meados do século XVI, juntaram-se aos primei- demolição total do morro. Um exemplo: alegava-
ros. E mais de um século depois, os missionários -se, então, sobre a necessidade da livre circula-
jesuítas que se estabeleceram por lá foram expul- ção de ventos marítimos que o Castelo obstruiria.
sos pela Coroa Portuguesa, temerosa do seu poder Como se vê, “acreditava-se” que o centro da cidade
ascendente junto aos indígenas. abrigava um paredão de pedra bem mais largo do
que se supunha.
A conquista territorial era uma nuvem que pairava
constante sobre o Castelo. Além de marco de Na escala de prioridades da administração Carlos
fundação do Rio de Janeiro, o morro carrega Sampaio, o desmonte do morro era justamente a
consigo outra marca inaugural: mais precisamente primeira delas. Uma elevação rochosa que, durante
aquela relativa à dinâmica das transformações da o Império, abrigou a Casa da Câmara; onde, poste-
cidade que o tomava por ponto central. Quem sabe riormente, funcionou o antigo Observatório Nacio-
se possa falar – embora sem este nome – de uma nal, e que contava com inúmeras residências e
gentrificação que já existia incipientemente no grande circulação de gente, tornou-se o alvo de
próprio período do desmonte do Castelo. Tratamos um projeto de “modernização” que buscava, assim
aqui de uma medida de caráter político colocada como, anos antes, Pereira Passos, tornar o Rio uma
como primordial pela administração pública, e “Paris tropical”.
cujos efeitos viriam a ser sentidos para além do
Rio de Janeiro, na sua então condição de influente Não é difícil compreender o engajamento da
capital de uma República prestes a ser, ela também, máquina pública na campanha em favor do
estruturalmente reconfigurada. (Muito embora desmonte quando somos inteirados, através da
de forma embrionária, já que a Era Vargas estava locução de Helena Ignez, de que o próprio prefeito,
para se iniciar em menos de dez anos, como seu ao lado do engenheiro Paulo de Frontin, era sócio
projeto de modernização da nação, o que impli- da Companhia Melhoramentos, empreiteira direta-
cava, também, reformar a paisagem urbana da sua mente responsável por essa obra de destruição.
capital.)
Uma outra questão vem à tona: será que, à época,
Motivado pela mentalidade higienista própria tal informação circulou na imprensa suficiente-
da época, o arrasamento do Morro do Castelo, mente, e com o devido tom alarmado?
abraçado pelo prefeito Carlos Sampaio, não se
iniciou exatamente sob o seu mandato (1920-22) Não é a resposta que o filme dá, ao revelar que uma
e o do presidente Epitácio Pessoa (1919-22), que das raríssimas penas a se levantar no meio jorna-
lhe deu total cobertura. Já antes da sua realização lístico contra o entusiasmo quase unânime com o
oficial, o prefeito Pereira Passos – sugestivamente empreendimento foi aquela empunhada por Lima
apelidado de “Bota-Abaixo” –, realizara reformas Barreto nas páginas de Correio da Manhã. (Aliás,
urbanas de caráter impopular que implicaram a na locução do músico Negro Léo, que faz imaginar
remoção de habitantes da avenida Central (substi- como poderia ser a voz, de registro desconhecido,
tuída pela avenida Rio Branco), a qual já incluíra, do escritor carioca.) Nas crônicas posteriormente

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no seu projeto original, o arrasamento de uma compiladas em O Subterrâneo do Morro do Castelo,
parte do Castelo. Mas Passos ainda não havia Barreto vai bem além de repercutir a mística do
encontrado naquele momento a ocasião propícia tesouro muito provavelmente existente que, dizia-
para lançar mão dos argumentos esdrúxulos que -se, os jesuítas guardaram sob sua igreja, também
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posta abaixo com o arrasamento final de 1922. O O fim do Morro do Castelo foi o início de uma com o patrimônio público e histórico até pode
livro especula sobre as razões por trás dos contra- série de remoções urbanas sob o pretexto de uma Não é equivocado dizer que o desmonte geral em ser objeto de debate no Brasil, tendo até mesmo
tos firmados entre os governos do Distrito Federal “necessária” reestruturação da cidade que viesse marcha acelerada que atropela o país teve, na alguma presença no senso comum; porém, trata-se
com empresas estrangeiras, envolvendo emprés- a dar conta do seu crescimento desordenado. Um iniciativa de Carlos Sampaio e seus cúmplices, de um fenômeno longe de ser resolvido. A começar
timos vultosos, além de outros interesses nada dos méritos do filme é destrinchar essa opera- um momento emblemático para tantos dos suces- pela detecção da sua origem: não conseguimos
publicáveis que Barreto, sempre fiel ao corpo da ção manjada que, já no seu nascedouro, baliza o sivos desmantelamentos que viemos a atravessar nem lembrar exatamente quando é que começa-
sua obra, audaciosamente fez publicar. discurso da urgência da organização do espaço posteriormente. Desmonte este mais uma vez mos a esquecer.
urbano e da adoção de uma política de controle repercutido acriticamente, ou, então, endossado
O desmonte do monte leva à conclusão de que, do problema demográfico, construído a partir de com aparência de isenção pelos órgãos da grande O desmonte do monte contribuiu, e muito, no
quando se pensa em nomes como o de Frontin, por soluções que – só não vê quem não quer – atendem, imprensa. Não se poderia sugerir que tem poder esforço de recuperação do que se perdeu da nossa
exemplo, deve-se conhecer mais e melhor a histó- sempre em primeiro lugar, os interesses da especu- maior que o da metáfora tal evento de destrui- identidade. É duro dizer, mas, ao fim, o Morro do
ria dos personagens que batizam avenidas, ruas, lação imobiliária. ção, espécie de golpe de morte cometido contra o Castelo, mesmo tendo sido um sólido monumento
viadutos, municípios e praças do país para saber interesse público? E, por conta de sua ressonân- rochoso encravado em pleno coração do Rio
o porquê exato dessas homenagens – muitas delas Daí a relação apontada pela diretora entre a reali- cia política, por que não dizer, na nossa historica- de Janeiro, é só mais um emblema dessa perda
ainda em vida dos contemplados, o que é eviden- zação da Exposição Internacional, principal evento mente tão combalida democracia? progressiva.
temente algo muito comprometedor. Deveria ser da comemoração do Centenário da Independên-
mais notório o conhecimento do quão escusas são cia, em 1922 – motivo oficialmente alegado para A estreiteza da memória que cultivamos sobre nós
as manobras de caráter financeiro que sempre o arrasamento do Castelo –, e das Olimpíadas de mesmos é abordada com rara propriedade pelo

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balizam tais decisões. O padrão atual das negocia- 2016, que implicou a remoção da Vila Autódromo, filme de Sinai Sganzerla. Saímos da sua exibi-
tas que conhecemos não é assim tão atual. retratada já em avançado estado de arruinamento ção com a convicção ainda maior de que a falta Imagens:
no filme. de memória que se testemunha no desprezo para Frames do filme O Desmonte do Monte, Sinai
Sganzerla, 2017.

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maxacali, pataxó, xacriabá. Elas denominam
os quatro quarteirões mencionados como uma
homenagem a estes povos indígenas do estado de
Minas Gerais.
Frederico Canuto
Os quarteirões fechados no entorno do
TENSÕES obelisco central da praça sete de setembro são
os lugares nos quais a praça acontece cotidia-
namente. Revoltas populares contra a Copa do
Mundo em 2014 ou em junho de 2013 ou ainda, o
embate entre polícia e perueiros em 2000 e festas
de carnaval anuais encontram neste monumento
central seu ponto de apoio físico e contestatório.
Mas são nestas franjas que a praça existe - nos
lugares pouco interessantes a fotografias enalte-
cedoras do que significa ser belorizontino, nos
lugares que aparecem em buscas do google como

‘‘Para minha avó, resposta inesperada.’’ como foi junho de 2013 no que diz respeito aos
ativismos, movimentos e coletivos que o produzi-
ram indo desde luta pela diminuição da tarifa até
imagens ruins ou desfocadas da praça, nos lugares

neo-facistas, o movimento é próprio. A teoria social


e a filosofia tentam, cada uma a sua maneira, dar
Estender-se não é um dos movimentos criar um ambiente, um stimmung, para o leitor.
forma teórica a tal sincronização ou sincronismo
mais fáceis. Ainda que se tente aproximar daquilo Não quer ensinar sobre a história, mas criar um
dos corpos a despeito de suas diferenças inerentes,
que ainda não existe - posto que ir de encontro contexto no qual a história é dispositivo sensibi-
procurando entender não mais apenas a massa,
e ao encontro são sempre em direção ao inespe- lizador e catalisador de um destensionamento.
mas sim o ajuntamento de todos que estão ali,
rado, ao inexistente para si ou ao diverso, tal Estende do um ao outro no que lhe é possível, sem
pactuados em suas particularidades. Tentativas
como coloca a escritora portuguesa Llansol sobre revelar o que há, tal como é próprio da literatura.
de dizer daqueles que, apesar de não terem os
a escrita -, uma vez feito, tal movimento pode Cria as pontes, mostra caminhos e os corpos deixa-
mesmos nomes, movem-se em uma mesma direção
não receber a resposta esperada. É uma ciência: dos pra trás, como feito em Guerra Aérea e a Litera-
por alguma razão e, apesar de por motivos diver-
há uma hipótese e ela pode se validar ou não. A tura. W. G. Sebald é o escritor alemão das ruínas
sos, enlaçados por um socialismo das distâncias.
despeito da resposta, central é o movimento de e das histórias que resistem em serem esquecidas,
Não é sobre os começos pois no momento apenas
aproximação, os procedimentos envolvidos, uma tanto a dos opressores como as do oprimidos.
se está lá, atravessando por viadutos.
ciência em desenvolvimento, um estado de tensio- É com Maria Gabriela Llansol (e Jade, de
Durante meu mestrado, uma aproxima-
namento. Aqui é que ela se faz como prática em Amar um Cão) e Sebald (e a imagem do menino de
ção ao diverso foi iniciada ainda que não tivesse
lançamentos aproximativos, nos modos. “Não me cabelos brancos de Austerlitz) este começo.
muita compreensão desse momento como inicial
interessa o real, mas os modos como se entra ou de algo. Analisando a praça Sete de Setembro da
sai dele”, diz Llansoll: lançamentos. Aproximar-se é um movimento cidade de Belo Horizonte, os quarteirões fechados

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W. G. Sebald escreve, detalha, cria situa- que a compõem e a própria ideia de espaço público
ções, insere fotos, produz um texto verborrágico Ainda que haja uma confluência de
na história da cidade, quatro palavras surgiram,
e denso. Em seus livros, uma vontade de trazer e movimentos sincronizados formalmente díspares,
sempre escondidas e pouco lembradas: krenak,

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populares dos vendedores ambulantes. apenas de resistir, mas de insistir em sua existên- estatísticas produzidas por órgãos de desvela-
Tais povos indígenas não se sentem repre- cia. Uma identidade paradoxal porque nem mesmo mento brancos. São embranquiçados.
sentados ou homenageados pelas nomeações se reconhecem nesta nomeação que é do outro Tal como ocorre agora com os Krenak que
nestes quarteirões fechados pois normalmente, apesar de a usarem de forma prática e operacional perderam suas terras após o genocídio e diáspora
como Avelin Buniacá Kambiwá candidata a verea- junto ao Estado. Para eles, são Pataxó, Kambiwá, durante a ditadura militar ou pela lenta violência
dora em Belo Horizonte em 2016 e representante Maxacali e outros, diversos entre si e que não perpetrada pelo rompimento da barragem de lama
do Comitê Mineiro das Causas Indígenas coloca, cabem neste nome que tudo o homem branco faz e rejeitos de mineração em Bento Rodrigues. No
tal operação é feita para os mortos e estes povos caber chamado indígena. entanto, vem desde antes, do conflito entre estar
estão vivos. Sobrevivem e teimam em respirar como os ali, na terra que se pode capitalizar extraindo dela
Indígenas pataxós vindos da Bahia para Maxacali no Nordeste de Minas Gerais com falta tudo, e o branco invasor em 1500. Os krenak estão
vender seus artesanatos não encontram um espaço de água e terras agricultáveis; como os Pataxó sendo mortos enquanto povo porque se não podem
hospitaleiro para tal naquele lugar que os homena- Muã Mimatxi ocupando uma fazenda cujo territó- mais existir como índios, isto não serão mais: a
geia. Sempre retirados à força pela polícia por rio possui um lamaçal no meio; os Xacriabás no doutrina do choque a que Naomi KLEIN (2008) se
trabalharem ali, como em audiência em 03 de município de São João das Missões, próximos ao
outubro de 2019, resistem, reforçando uma identi- rio São Francisco, mas com difícil acesso a ele,
dade que teima ainda em existir no Brasil “ordem vivendo numa paisagem desértica e numa terra
e progresso”: o indígena. Não o índio, este que é sem chances de cuidar e produzir para si. Assim
o habitante do país Índia e que era o verdadeiro se mata: impedindo-os de plantar, forçando a
objetivo da expedição de Álvares Cabral pois fonte comprar nos supermercados seja água, comida,

DESMANCHE
de matérias-primas para a Europa. É o indígena, roupas ou até mesmo uma identidade para si.
aquele nascido nessa terra e que hoje produz suas Fazendo-os deixar de viver como são e forçando-
próprias imagens do mundo como forma não -os a se tornar brasileiros, a figurar em mapas e

86
7.

refere ao discutir a relação entre grandes desastres sos em minha memória. Talvez por não se reconhe- abundantemente e que tem espinhos dos dois
ambientais e novas fronteiras do capital ameri- cerem tais nomes como familiares visto que são tão lados. Segundo o historiador Teodoro Sampaio,
cano; ou aos processos de êxodo ambiental como diferentes. Parece não haver linhagem. Parece que o nome vem do tupi “in-ker-i”, denominação essa
traço do capitalismo e sua contraparte espacial, a vida começou no pai e não avós, tataravós e etc. que qualifica diversas plantas rasteiras da família
afirma SASKEN (2016). Recebem dinheiro e vão Em minha infância, sempre ao chegar em das mimosáceas. Um dos primeiros habitantes da
a cidade comprar mantimentos que antes planta- Jequeri, cidade que existe antes de Belo Horizonte cidade, chamado “Manoel”, tinha sua venda no
vam. São recebidos “de braços abertos” pelos desde 1848 e que é a terra na qual meus avós local “Vargem Alegre”, cercada do dito vegetal,
comerciantes pois movimentam a economia da nasceram, não havia desejo de estar ali. E esta dando motivo a que moradores de outras regiões,
cidade. São domesticados pois não há como não sensação era e sempre foi compartilhada com meu ao pretenderem passear por ali, dissessem: Vamos
aceitar um novo giro da vida, o do homem ociden- pai, que também nunca via a cidade como sua. O até a venda de manoel Jequeri”. Com o correr do
tal. Como Eduardo Viveiros de Castro diz em No sentimento de desterro sempre foi maior ao seu tempo, o nome “Manoel” foi suprimido, ficando
Brasil todo mundo é indio, exceto quem não é, índio lado. somente e expressão “Jequeri”. “. Mais ainda, a
é aquele que vive como tal e é reconhecido como Nos últimos quatro anos em que minha avó cidade foi fundada por fazendeiros com seus escra-
tal perante outros (STUTMAN, 2003). Uma defini- esteve viva, as viagens até a cidade se deram por vos - negros e indígenas.
ção por reciprocidade. E esta está no fim. Ou tal um desejo da agora bisneta em conhecer a bisavó e Ao procurar pelo nome Canuto no google, achei
especificidade está no fim. O fim do mundo…. brincar com a prima. Uma curiosidade de reconhe- a Aldeia Olho D’água dos Canutos, da etnia
deles e nosso. cer sua história. Neste desejo do outro, curiosa- Tabajara, no município de Monsenhor Tabosa
mente foi percebido nas feições da avó determina- (CE). O cacique José Canuto morreu. Existe uma
Vi de perto, lentamente e sem dos traços de uma indigenidade. Olhos puxados, a aldeia Canuto no interior do Ceará.
perceber, tal morte. pele morena, o rosto arrendondado, um olhar de Já faz seis anos, coincidentes com os
quem guarda segredos de outros lugares. Estando olhares cada vez mais interessados nas feições
Meu sobrenome é Canuto e nunca entendi muito debilitada pela velhice, não conseguindo de minha avó, que minha atuação dentro do
esse sobrenome. Minha filha o tem, eu o tenho, ficar em pé, falando baixo e pouco compreensível, programa de extensão da UFMG Morar Indígena

DESMANCHE
meu pai o tem, mas não os avós: Raimundo de uma imagem estranhamente familiar. é insistência em estender a universidade na
Souza Reis e Olga Salette de Souza. Nunca foram Segundo o site do IBGE, “Conta-se que direção daqueles a que a nação brasileira parece
esquecidos os nomes completos dos dois, impres- o nome “Jequeri”, teve origem no designativo de querer extinguir do mapa e da história - a frase
uma planta existente na região, que se alastra “pois somos todos brasileiros” é epítome de tal
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desejo fundador e igualitário racional que levou a explicar, mas auxiliar a fim de fazer viver e criar.
guerras e regimes facistas em outros países assim Pouco importa de onde minha avó veio,
como no próprio Brasil - e que encontram-se hoje meu nome ou a cidade de Jequeri pois tomando a
desterrados, espalhados, fragmentados, desconhe- asserção de Viveiros de Castro de que ser índio é se
cidos de si. Ao longo de seis anos em que fomos ao garantir sendo reconhecido por outros e vivendo
espaço das etnias Pataxó Muã Mimatxi, Xacriabás como tal, eu não o sou. Compreender que se faz
e Maxacali, aquelas homenageadas pela cidade parte de uma história de êxodos forçados para a
de Belo Horizonte com a nomeação dos quatro construção de uma ideia e imaginário de nação é
quarteirões fechadas no entorno da praça Sete de ponto iniciático de toda extensão. Compreender
Setembro, minha avó foi definhando a olhos vistos, que o mundo no qual intervimos é muito maior.
sem qualquer possibilidade de uma conversa a esse Vimos do Ceará, fundamos cidades em 1848,
respeito para além do que ela mesma (não) poderia apagamos nomes e sobrenomes, esquecemos no
dizer. Não havia nada a perguntar porque a própria cotidiano da família, dos modos de fazer as coisas
conversa sempre fora impossível numa família e o mundo a volta. Não olhamos para as feições.
cuja história parece sempre se querer apagar. Tios
e primos falam de parentes próximos, mas nunca Tensionar é existir
daqueles distantes, daqueles tempos anteriores.
Não se discute a história da família como a história Na UFMG, nos últimos anos, políticas
de êxodos, violências e mudanças que tiveram um de inserção de alunos indígenas na universidade
ponto de estada em Jequeri. junto a cursos de formação intercultural de educa-
Seis anos em que tal aproximação está dores indígenas e de formação transversal no qual
sendo construída. Não para entendê-los porque eles vem ensinar a partir de seus mundos outros os
não são objeto de pesquisa, mas dialogar e, como alunos tornaram-se um fazer política ao extremo.
toda atividade de extensão, auxiliar na constru- Colocar-se frente ao heterogêneo e estranhar-se
ção de uma interação com uma universidade que no que é também de si, é o que Ranciere (2001)
compreende uma outra epistemologia que envolve chama de político. Neste encontro, estranhar, ficar
a produção de novos conhecimentos. Com eles, desconfortável com o que somente pode ser diverso
construir pactos, uma sociedade. Não entender ou porque o é, é tarefa inumanitariamente necessária.

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É sobre mundos a prática extensionista. É sobre - outros desterrados. Construir uma zona de 1. No ano de 2016 o programa de extensão Morar Indígena
ao longo de todo segundo semestre promoveu sessões de
encontrar. reconhecimentos vividos cotidianamente. Ambas cinema livre de vídeos produzidos por indígenas dentro do
tentativas de serem e continuarem sendo indíge- Videos nas Aldeias.
2. Desde 2016 o programa de extensão Morar Indigena vem
Ver de novo para ver diferente nas. Indianizar a cidade significando não apenas acompanhando e assessorando o Comitê Mineiro das Cau-
demandar o reconhecimento de sua especificidade sas Indigenas no projeto arquitetônico do Centro de Re-
ferencia Indigena, sendo que trabalhamos juntos primei-
Como parte da família jequeriense, aquela como uma identidade a ter direitos assegurados, ramente na construção de uma idéia do que significa tal
que desapareceu da história, a cada vez que assisto normalmente por entidades de direitos humanos. referencia.
3. Durante o ano de 2017 um grupo de indígenas Pataxós e
os filmes indígenas, vejo eu e o outro. Se indíge- Indianizar significa não perder o que lhe é próprio, de outras etnias residente em Belo Horizonte decidiram
nas ao verem a outros de si mesmos em sessões de mas atacar, afirmar-se para outros e novos poderem retomar um terreno na região metropolitana da cidade a
fim de construir um lugar para morar no qual teriam suas
filme indígenas em suas aldeias revelam o impei se afirmar. Ser indígena na cidade é ser diverso em casas e espaço para o contato com a natureza. O programa
(DOMINGUES, 2015) - prazer e beleza envolvidos toda sua abertura de significações. Morar Indigena produziu um jogo de tabuleiro que per-
mitisse que os indigenas tivessem um conhecimento ar-
num reconhecimento de si na imagem do outro - , Tornar-se índio hoje é exercício contínuo quitetônico do lugar onde vivem e pudessem tomar em
aqui se revela alteridade em sua pura forma quando de persistência pois poucos persistem. Uma luta conjunto decisões relacionadas a ocupação do terreno e
atualmente acompanha o processo de crescimento da al-
estes mesmos filmes são vistos pelo homem branco. contra aqueles que se auto-nomeiam “todos somos deia nomeada como Naõ Xohã.
Corpos estranhos, língua estrangeira, um agir que indígenas”. Para além de explicações biológicas ou
não é reconhecido. Grandes planos sequência, um genéticas que atrelam o ser indígena a um gene
tempo esticado para fazer a vida se repetir na tela dos povos originários, sê-lo é viver como tal e lutar
REFERÊNCIAS
de cinema (CAIXETA, 2008)1. Nas sessões livres como tal.
promovidas, encontros foram promovidos, tensões Minha avó não é indígena, mesmo se sua CAIXETA, Ruben. Cinema Indígena e Pensamento Selvagem.
IN: Revista Devires, Belo Horizonte, V. 5, N. 2, P. 98-125, Jul/
produzidas. história atestar o contrário. Nunca mostrou desejo Dez 2008.
Ao mesmo tempo, os indígenas em de ser. Mas tensionar tal mitologia originária que CAMPOS, Thiago Barbosa de. Retomar a Terra. Como ser indí-
gena na região metropolitana de Belo Horizonte. Dissertação de
contexto urbano colocam em questão o que é ser vejo em seus olhos tornou-se tarefa para lembrar mestrado. Escola de Arquitetura. Belo Horizonte. 2019.
indígena hoje. Se, concordando com Viveiros de sempre que ser indígena não é desejo, mas é ser tal DOMINGUES, Sérgio Augusto. Idéias para um projeto futuro so-
bre cinema indígena. IN: CATALOGO FORUM.DOC.BH. 2015.
Castro (SZTUTMAN, 2003), ser índio é viver como como se é, insistentemente. GUMBRETCH, H. U. Atmosfera, Ambiência, Stimmung: Sobre
tal, e aqueles que são impedidos de tal mas que um potencial oculto da literatura. Rio de Janeiro: Contraponto,
2014.
tem um desejo? Para os de Belo Horizonte, três KIMO, Paula, VEIGA, Roberta. Como insurgir no acontecimento
soluções: a reivindicação de um centro de referên- estético pelas imagens. Notas sobre uma modalidade de regime
estético. IN: Revista EcoPos, Rio de Janeiro, V.20, N.2, P.32-52,
cia indígena2 e uma retomada (CAMPOS, 2019)3 2017.
como esforços de uma indianização da cidade. KLEIN, Naomi. Doutrina do Choque. A ascenção do Capitalismo
de Desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
No caso do primeiro, um lugar para LLANSOL, Maria Gabriela. Amar um Cão. Lisboa: Assirio Alvim,
receber aqueles que ou vem de outras cidades 2008.
LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig. Lisboa: Assirio Alvim,
vender artesanatos ou visitar parentes para conti- 2014.
nuarem a ser reconhecidos em suas tribos como RANCIERE, Jacques. O Desentendimento. São Paulo: 34, 2001.
RANCIERE, Jacques. Ódio a Democracia. São Pauo: Boitempo,
indígenas. No segundo, retomar um terreno na 2014.
região metropolitana de Belo Horizonte e construir SASKEN, Sassia. Expulsões. Brutalidade e Complexidade na eco-
nomia global. São Paulo: Paz e Terra, 2016.
uma aldeia, próxima de outra retomada, do MST SEBALD, W. G. Austerlitz. São Paulo: Companhia das Letras,
2008

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SEBALD, W. G. Anéis de Saturno. São Paulo: Companhia das
Letras, 2010.
SZTUTMAN, Renato (org.). Encontros. Eduardo Viveiros de Cas-
tro. Rio de Janeiro: Azougue, 2003.

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Priscila Musa

Um antigo casarão da rua Manaus nos


escolheu

Um antigo casarão da rua Manaus nos que erramos, o trajeto do bloco de carnaval, que mos, assim, a vislumbrar como um vulto fantas- as fissuras das paredes. Vimos que o corredor do
escolheu. Um coletivo conformado em diversos passou justo ali e a regente parou, conteve a respi- magórico indefinível que tudo que havia contra a primeiro andar terminava em uma janela para o
movimentos de ocupação do espaço público de ração, a bateria e mudou o compasso. ocupação do casarão poderia ser uma linha que breu, um escuro dentro do outro. Quando acendí-
Belo Horizonte. Nos conhecemos no Duelo de MCs, O casarão era a impossibilidade, faz nos levaria a outros nós. amos a lanterna, a nuvem de morcegos fazia voos
na Praia da Estação, no Carnaval de Rua, no Fora parte do complexo arquitetônico de psiquiatria da Chegamos na madrugada seguinte em rasantes, sentia o vento das asas batendo, rangendo
Lacerda, nas mobilizações para fortalecimento da infância e da adolescência da Fundação Hospita- um ônibus lotado; de dentro, as duas pessoas no ouvido. Era quente, úmido, mofado, malchei-
Ocupação Dandara e Zilah Spósito, nas Copeladas lar de Minas Gerais. É vizinho do batalhão sede abriram as portas do imóvel. Um vento pesado e roso. O ar espesso ia faltando, faltando, faltando.
do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa de do comando da Polícia Militar, tem uma igreja na frio atravessou nossos corpos, varreu a nossa nuca. Tateamos o breu, até que alcançamos alguns
BH e alguns outros. A cada ação sentíamos que frente e outra atrás. Está dentro de um bairro de Havia algo além de ar que saía, indefinível sopro desenhos nas paredes: personagens, rostos tristes,
a potência dessas ocupações poderia ressoar com tradição conservadora: militar e hospitalar. Para no estômago. Entramos. mãozinhas. No levantamento inicial dos cem anos
mais intensidade se tivéssemos um espaço para uma ocupação que pretendia se manter com festa O caminho das trincas não levava a lugar do casarão, conseguimos descobrir apenas que
inventar, na esfera do cotidiano, outros modos de e fazer ações político culturais, os olhos enrijecidos nenhum, elas rasgavam por todos os lados: na tinha sido Hospital Militar da Força Pública, mas
vida, outros modos de lidar com o corpo, com a da vizinhança hostil iriam exigir silêncio, ordem, vertical, na horizontal, na diagonal. Uma parte do as paredes arranhadas, superfícies inquietas, grita-
cidade, com a política. norma, lei, pudor, bons modos e costumes. telhado havia caído, a outra estava estruturada por vam outra história.
Um pequeno grupo fez o mapeamento Dois dias antes, no meio da madrugada, uma estreita ligação de madeira podre e oca com Belo Horizonte, a cidade republicana,
das edificações esquecidas de Belo Horizonte: diante de tantas outras possibilidades, não conse- longas, largas e infindáveis avenidas de cupins. A ordenada, controlada, policiada, não conseguiu
faculdades, escolas, casas, estações ferroviárias, guimos definir exatamente o porquê, mas estáva- fachada esquerda estava soterrada a cinco palmos ocultar os desenhos grafados na parede do casarão.
galpões, prédios. Caminhamos pelo subterrâneo mos em sua porta. Arquitetamos uma forma de de terra. A água dos 400 metros quadrados de Foram eles que nos levaram para outros 66 anos
na superfície do chão e da luz, sobrepondo os “invadir” um imóvel público logo debaixo da telhado era conduzida para dentro do piso, que de história sem luz do antigo e arruinado edifício.
mapas, buscando as ruínas de paredes invisíveis, a barba corpulenta do comando da Polícia Militar. virou lama escorregadiça. Dezenove anos de chuva O casarão alcançou o tempo presente
memória construída adormecida em espaços agita- Montadas com figurino esvoaçante em uma babando pelas paredes encharcando a terra. Uma ferido por trincas e fissuras dos seus antigos usos.
dos do cotidiano. No percurso silencioso, algo nos ação teatral sem roteiro, sem texto pré-definido, metade se separou da outra, o casarão lentamente Sua arquitetura do claustro abrigou as encena-

DESMANCHE
levou, repetidas vezes, para o casarão: a indica- subimos escada, descemos corda e colocamos dois se precipitava para a escuridão. ções de horror nominadas de tratamento médico
ção de conhecidos que traziam usos imaginários integrantes do coletivo para dentro do espaço. A Havia uma grossa camada de quase 20 dos anos em que foi Hospital de Neuropsiquiatria
para o espaço, a sugestão de vizinhos, alguma rua polícia passou em ronda, mas os praças devem ter anos de poeira por todos os lados. Infantil e Instituto de Psicopedagogia. Entre suas
pensado que era “só teatro” e seguiram. Começa- Quando a luz do dia seguinte atravessou
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paredes, crianças e adolescentes foram possivel- pela Fundação Estadual de Assistência Psiquiátrica Foram quase 20 anos de abandono, houve lento e gradual, que mantém a gordura das mãos
mente submetidas a práticas usuais da época. – FEAP – apontou que o perfil socioeconômico uma política pública que atravessou diversas das crianças nas paredes e acrescenta outras
Foram confinadas em “quartos de contenção”, majoritário das e dos pacientes era classe baixa, gestões e manteve o casarão como espaço do esque- camadas. A despeito de todas as impossibilidades
dopadas, sofreram eletrochoque (eletroconvulsote- 98% dos familiares tinham renda mensal abaixo cimento, trancafiado, tamponado, soterrado, silen- e de modo precário, os insuportáveis, “invasores”,
rapia), tiveram parte do cérebro desligado (loboto- do salário mínimo, 72% dos pais eram lavradores ciado. Um ano após o outro, que caísse o reboco, “insanos”, “vilipendiadores das crenças alheias”,
mia), foram submetidas a diminuição forçada das (sem posse de terra), 90% das mães eram donas de que caísse o telhado, que fosse borrado do mapa, estão, um dia depois do outro, sustentando com as
ações vitais através da hibernação artificial com casa, 82% dos pacientes procediam do interior de banido do presente: apagado. Quando reabrimos mãos e os pés bem esticados o velho e enlouque-
exposição a frio intenso (hibernoterapia), usaram Minas Gerais.2 as suas portas, encontramos a iminência de seu cido casarão.
camisa de força, passaram fome. Foram castigadas Aos poucos os relatos chegaram. Não é desabamento. Oferecia risco de morte, a nossa, a
pelo que era entendido como um comportamento raro observar alguém que se emociona encostado da memória das crianças que por lá estiveram, a da
contrário à dita normalidade necessária à “sociabi- na porta ou do outro lado da rua. Não entra. Entre memória da cidade grafada em suas paredes.
lidade”. Sobreviveram presas entre muros, grades os depoimentos, o de um senhor, naquele tempo Com o passar dos anos, o casarão saiu da
e paredes cinza, distantes do universo infantil, um garoto que fugiu descalço pelo telhado, nos curva da normalidade, perdeu a compostura, o
como bem descreveu o Jornalista Hiran Firmino alertou: algumas crianças entraram e não saíram. equilíbrio. No entanto, foi justamente por desman-
1. FIRMINO, Hiran. Conhecendo um outro inferno, só de
em uma visita realizada em 1980. Algumas salas do porão permanecem lacradas char do Horizonte da cidade que se manteve crianças. Estado de Min ção.
com tijolos, inacessíveis. O extenso corredor fecha protegido do mercado acelerado de construções e 2. Informações sobre o Casarão da Rua Manaus são
provenientes do hisórico elaboradocoletivamente pelo
Crianças que também sabem seus nomes, caminho para outros pequenos compartimentos, reconstruções, resguardado de uma reforma que o Núcleo de História do Espaço Comum Luiz Estrela,
suas idades, seus sonhos. Correm para lá o ar fica ainda mais escasso, um cômodo dentro transformasse em velhinho em folha ou findasse organizado por Fernanda Alina, Francisco Foureaux e
Barnabé di Kartola.
e para cá, rente aos muros, na divisa das de outro, cheio de terra, é preciso arrastar, ainda por sua demolição completa. Foi no seu esqueci-
grades, da insensibilidade humana. Vivendo não conseguimos alcançar o final. Nos disseram mento que a memória se preservou.
de pátio, corredores e portões de ferro. [...] que através deles é possível acessar o Batalhão de Um ex-diretor do H.N.P.I., Raphael
Em cadeiras de rodas quebradas, doadas. Polícia, que talvez algum percurso nos levaria ao Mesquita, afirmou, sobre os tempos de manicômio
Uma bola furada, a outra velha. Um único ribeirão Arrudas e que aqueles corredores abriga- infantil, que aos sábados e domingos, quando não
bicho de pelúcia. Grades e celas, um quarto de ram também outros tempos de tortura e dor. havia escolinha, os meninos ficavam insuportáveis.
contenção, de choque elétrico. A prisão medie- O casarão atravessou as mudanças lentas O Insuportável Luiz Otávio da Silva, o Luiz Estrela:
val, sem príncipe ou rei libertador, que nunca e graduais do tratamento dirigido ao que era poeta, performer, ator, homossexual, foi viver a
desejaram em sua fantasia.1 definido como loucura. Acolheu os experimentos rua como uma experiência de teatro, na intensi-
dos tempos de fortalecimento da luta antimanico- dade fraturada e trincada do cotidiano, preferiu a
Crianças e adolescentes, muitos sem mial, quando as crianças e os adolescentes tiveram casa sem teto, com menos paredes de contenção.
qualquer constatação de algum quadro psiquiá- dias melhores na Unidade Psicopedagógica, no Talvez o Espaço Comum Luiz Estrela esteja
trico grave. Muitas delas portadoras de deficiên- Centro Psíquico Pedagógico e na Escola Estadual escrevendo a história das crianças que fugiram,
cia física: com dificuldade motora, cegas, surdas, Yolanda Martins para crianças e adolescente excep- das enfermeiras e dos médicos que se opuseram,
mudas. Crianças e adolescentes abandonados, cionais. Até alcançar o seu completo abandono em que se rebelaram, que se negaram a colocar o fio
sem família, filhas e filhos indesejados, bastardos, 1994, quando as professoras, assombradas com as de eletrochoque em um ouvido infantil. Rituali-
sobreviventes de tragédias familiares, em situação trincas, acionaram a Defesa Civil, que interditou o zando e colocando a memória em movimento com
de rua. Crianças e adolescentes avessas às normas, imóvel. O Governo de Minas, em vez de garantir a o colorido de corpos outros ocupando o espaço.
com traços de homossexualidade, que não apresen- sua segurança, construiu um prédio ao lado para Dando eco aos gritos arranhados nas paredes.

DESMANCHE
tavam rendimento escolar adequado, que não abrigar o seu então uso, ao invés de recuperá-lo, Tentando trazer a ruína do passado para o campo
aceitavam o trabalho (infantil), que responderam no mesmo ano em que, ironicamente, foi reconhe- visível do presente, do habitável, do cotidiano.
às violências a elas dirigida. A pesquisa realizada cido como Patrimônio Cultural da Cidade. Inventando um processo de construção coletivo,

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Fotos: Priscila Musa

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Marcelo Ariel

A Vida de Clarice Lispector

Morte ausência de um campo de rosas vivas gosto de me conservo ciente das inimagináveis possíveis ência não tem como saber se estamos sonhando ou
,agora sou tudo, tudo o que explode, tudo olhar a rosa e enxergá-la na sua existência de cor e direções) nos meus pulsos, esses dois cordões acordados no entanto, tudo o que percebo é que a
o que racha , tudo o que fende e sinto um tipo novo perfume, porque instintivamente os sentidos me umbilicais que imagino me ligam mais a morte do presença é como uma janela aberta para o que
de sede , sim , existe toda uma constelação de resgatam do esquecimento. Toda rosa é uma que a vida, sei que não deveria pensar desse modo, existe no fundo do que sinto sendo e não sendo ao
diferentes sedes dentro do corpo estou sentindo o verdade que me alcança agora que finalmente mas algo se pensa e é porque estou vivendo na mesmo tempo e sinto uma vontade imensa de
desejo incontrolável de enfiar a cabeça dentro do penetrei no silêncio com as minhas próprias mãos, superfície do paradoxo de uma áspera desorienta- acender um cigarro no instante em que os olhos da
oceano e beber um grande gole de água salgada confesso que minhas mãos se parecem agora com ção que não alcança o que acomodava o ser, gosta- amiga estejam quase apagados tentativa de vida da
estou possuída pela sede demoníaca , perto de duas águas-vivas dormindo no meio do oceano, ria de estar escrevendo o que estou pensando aqui brasa entre os segundo sem tempos que se traga a
mim , na cabeceira da cama , há um copo d’água quando digo no meio do oceano quero dizer na na falsa escuridão interior da doença, o paradoxo é fumaça da ansiedade-esperança-selvagem, o
com uma rosa vivendo nele . Como será sentir a parte insondável , estou pensando o seguinte: se o contraste entre esta falsa escuridão profunda da tabaco que não se intimida entre as agulhas insis-
sede da rosa em um copo vazio ? saiu de mim ou me esforço um pouco posso ver minhas duas mãos proximidade do instante-verdade da morte e a tentes. o que mais prezo é a nicotina e recordo-me
do Deus a água que enchera o copo onde a rosa velando meu corpo aproveito para ordenar mental- iluminação suave da presença da amiga, luz e do que é nascer e morrer durante o que sorvo da
agora vive e eu tão menor que ela , tão menos mente a uma delas que me apanhe um cigarro, vertigem suave que toda presença é, o que me fumaça, quando enxergo o Algo que pousa
sublime esvaziei-me para alimentá-la a fim de assim, por puro prazer em ver- me de alguma extrai do estado de quase não-ser é esta centraliza- brilhante nas paredes verde-aguadas do não-lugar,
preferir sua vida menos maliciosa , menos forma queimando, na tentativa de fabricar um ção dos volumes e estados, ajuda-me a fabular o elas se estremecem como as algas no mar que é
consciente e por isso , com mais direito à existência hieróglifo- tatuagem na pele interior, embora não meu estado físico de pertencimento ao quarto. minha alcova atual antes disso, no enquanto,
, pertencendo ao jamais onde me agarro com tenha mais importância saber qual é a marca do Percebo- me no que se manifesta. A amiga que se enxergo do lado esquerdo da janela, logo abaixo
dentes amarelados e unhas já esfoladas. Sou o que maço de cigarros que minha amiga trouxe escon- lembrou de comprar minha marca preferida de da última esquadria, uma descamação da parede
eu persigo. Todo rudeza. Todo imobilidade, na dido, dentro da bolsa – dispositivo flutuante que cigarro funde-se com o que sou e com o Ser ao que aconteceu por causa da umidade dos tempos
verdade, transformo-me nesse copo vazio. Sou o me aparta do naufrágio – , e minha mão esquerda mesmo tempo, foi a coisa que o algo pensou chuvosos. Já imagino os resquícios de tinta e cal
que veio antes da água e fui bebida num gole só, dança até a bolsa no colo da minha amiga que está quando ela sussurrou no meu ouvido: Clarice, meu embaixo da unha de uma criança levada pelo
sei como é esta outra sede demoníaca porque estou realmente dormindo e abre o zíper com o cuidado, amor eu trouxe um maço de Marlboro e uma maçã, destemido desejo de apagar a mancha. Penso no

DESMANCHE
morrendo mais rápido do que antes. Estou dentro como se desarmasse uma bomba, não gostaria que é óbvio que nada disso está realmente acontecendo sabor terroso que pisará na língua deste querubim
de uma coisa chamada: ‘Paciente em estado crítico’ ela acordasse, o detalhe que dificulta um pouco e que estou dentro daquilo que em linguagem provisório e lembro da maçã tão verde que minha
e essa coisa é como ser um copo para a terrível são essas agulhas (novas bússola através das quais médica é conhecido como onirismo, onde a consci- amiga me trouxe na bolsa uma bolsa parecida com

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a que carreguei comigo durante esses anos todos. surdos-mudos dentro de um ônibus, eles eram lugar. E sei que não há culpas dentro da solidão que investiga a antipresença fora do ruído das
onde pude projetar um mundo particular, onde idênticos a minha própria existência aqui nesta profundíssima. Essas paredes me acolhem, mas imagens cada vez mais altas por dentro ( a mentira
levei-me como um simulacro a tiracolo. E me sala de hospital, há uma força neutra nesta como um abraço desengonçado do qual a gente do acordar) fundamento de todas as religiões ou o
lembro da moldura do primeiro espelho. do corte lembrança que me transforma em um fantasma deseja escapulir e não como o sempre-chegando medo de não-respirar mais o próprio eu sufocando
que adormeceu meu dedo e da lambida no dedo apenas por dentro do meu pensamento, a enfer- abraço de Azrael, é sempre o mesmo cemitério de tanta luz a revolução da nossa menor parte que
que indicava o pensamento. que dói bem depois meira acaba de entrar, ela é uma prova viva da dentro de mim, escavando minha alma que forja arde na chama de todas as outras enlaçadas pelo
me lembrei do sangue desimpedido desenhando violência do meu fracasso em sair de mim mesma, uma respiração de pássaro aquático. A mesma mão sussurro branco desse ruído indecifrável tocando
um sorriso na pele. Do ônibus que cheirava a carne fracasso que no fundo me ilumina, como o fim fria mexendo com minha veia de esperança onde o no sentido de todos os números invertidos na
apodrecida que não era a minha. mas esse odor breve da fase das escrituras, da fase bíblica. Que sangue é como a Graça, a mesma hora interior que poeira da luz que retorna
instigou-me a encarar a finitude. Enquanto meu foi como o meio da minha infância, que é a única não passa porque nunca existiu tempo algum. O espaço está gritando AGORA É NUNCA
olhar fugia pelas janelas eu continuava sendo um coisa nítida fora do desfoque, a literatura foi Quantos moram no instante-já dentro de mim? se
pedaço rasgado de pele, apenas, e todo o tecido apenas um dos efeitos do desfoque, a enfermeira eu morrer, ficarei em quem? qual escolha nos é , Não é que eu exista e seja um pouco
muscular que pulsava em um terminal rodoviário. me dá uma injeção de morfina e começo a escorre- permitida? como se dá essa passagem de um menos do que o que existe “atrás do eu”, atrás
À espera. Do mistério desse Algo refletido pela gar para o supersono acordado. ”Agora há um sem-corpo a um espaço-fora-do-tempo? aperto o do pensamento, o que o eu dissimulava para ser
água dura dos vidros, me lembro que um pensa- recife na minha garganta e algas que se enroscam medo afundando a cabeça no travesseiro, o Algo fora do verbo Haver. E que está dizendo desista: a
mento me disse que” como uma atriz preciso sair ,tentando me sufocar ou me abraçar com o amor sem nome arregala os olhos do meu quase-ex- regra secreta no olhar do tempo é esse instante de
de mim mesma para me ver no outro, mas se sair feroz . procuro o copo de água mas há embaça- -corpo e entro naquele branco-de-antes, consigo nuvem morta e transparente , como se fosse possí-
de mim mesma como uma atriz, não poderei mais mentos e trinca-se a visão dentro da ilusão de ouvir a voz da minha amiga ainda me chamando, vel ouvir minha voz na voz de qualquer desconhe-
entrar, não será ainda a perfeição da morte, apenas consciência. Gotas de todos os medos caem e são o timbre é belo nessa altura da profundidade. Ela cido desintegrando-se diante do meu olhar que
perderei o controle e o espelho não será mais o circundadas pela solidão de dias e noites que apertava umas contas azuis na tentativa religiosa foi e é a canção dentro do espaço do inominá-
sonho congelado, dentro do apesar de, eu não passam por mim dentro de um lugar chamado de acalmar a si mesma, sobre meu estado, vel e será dentro desse instante branco como a
estarei mais viva aqui e hoje e serei simplesmente ‘instante- congelado’. Não entendo por que não clamando pelo Verbo-é, movo por dentro meus senha no rosto da morta ou morto no interior de
meu passado sem sombra de atualização e não consigo me desvencilhar daquele cheiro de carne braços bem abertos no calor das veias que preci- uma cela que é um jardim e uma floresta, desista
poderei negá-lo mais no presente, voltar a si e apodrecida do ônibus. Mas também cansei de sam, exigem descansar, este deve ser o segredo das porque o amor jamais desiste sobre a incidência
lembrar de si são dois abismos absolutamente resistir e o aceito. inalo-o profundamente e toda a nuvens sussurrado em sua própria língua que que é a luz dentro de uma sombra que era o desejo
diferentes da capacidade de reconquistar a amizade cena se reconstrói. a sensação é de que vem do jamais experimentei conscientemente, nuvens de de estar dentro de tudo. Delicada era essa costura
com o animal do espelho que liquida o outro , por velho senhor ao meu lado, que toma mais espaço sangue e de sonho, rasgando a cortina do finito, em ponto de cruz ,matéria e antimatéria atraves-
isso preciso sair de mim mesma, não como uma do que o delimitado pelo banquinho do transporte me lembrei de uma coisa, as estátuas dos anjos nos sando o tecido deslembrado do Real em que se
atriz, mas como uma solução-técnica para o êxtase, coletivo que me aproxima cada vez mais de mim. túmulos nunca estão sorrindo. Esse estranho perfurava a agulha chamada de A Alma, desista
volto a pensar em minha bolsa, e em como meu Coloco-me numa posição de quase-saindo. De contraste entre o não-sorriso das estátuas dos anjos porque o amor não desiste, enquanto há no espaço
destino é condicionado por essa sensação do quem? É desconfortável mas desaprovo o tamanho e o sorriso totalizante dos mortos, é quase um de um nome um segredo que nunca se revelará
trágico indo e vindo dentro da flutuação do tempo do senhor e o vejo, seu olho é de um branco tão contraste que explica tudo. Sinto que minha amiga enquanto gargalha alto engolindo a súplica no
e por trás do trágico há o humor, o humor da branco que me esqueci do nojo da humanidade acendeu um cigarro ou será que estou sonhando olhar das nuvens, que estouram como o balão
perfeição da morte e ele me parece socrático, tudo exterior e engoli-me como se eu fosse aquele com o calor da fumaça de um cigarro soprada no de água, agora Eu sou tudo o que racha, tudo o

DESMANCHE
o que envolve a morte tem um ar terapêutico de buraco branco. Fecho os olhos e retorno ao quarto. meu ombro direito ou no meu braço esquerdo, se que explode como a copa de uma árvore dentro da
cura definitiva e de limpeza das palavras esse pó engraçado como navego entre um pensamento e for um sonho não há muita diferença o corpo fica semente, tudo o que fende e sinto um tipo novo de
da Alma, antes de vir para cá vi um bando de outro e o misterioso Algo permanece no mesmo desproporcional, somos apenas um olho enorme sede, sim , existe toda uma constelação de diferen-

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tes sedes dentro do meu corpo estou sentindo o anjo. A doçura é ela mesma uma antiga camada do costuravam um oceano dentro de um ovo. A dizer
desejo incontrolável de enfiar a cabeça dentro do ser, que contemplava a sua exterioridade a partir ‘ ovo’ talvez esteja me traindo e revelando alguma
Sol e beber o oceano, beber um grande gole de do fantasma do útero. Olhar nos olhos deveria ser fonte esmaecida do meu desejo de sondar o indis-
água salgada, estou possuído pela sede demoníaca o florescer da doçura entre águias e leões. diz o cernível no instante em que ao respirar pelo lado
, perto de mim, na cama, há um copo d’água com segundo anjo e depois de dizer isto eles se calam de fora de um corpo, existo no além do corpo que
uma rosa vivendo nele. Como será sentir a sede para todo o sempre, é certo que ouvirei meu nome felizmente ainda é ser o mundo. Quando se é o
dessa rosa em um copo vazio? quando se apagar o seu. mundo perde-se o ser e quanto mais ser menos o
Saiu de mim a água que enchera o copo onde Ela morre: – Com o coração hermeticamente mundo é, estaria eu confundindo o mundo com o
a rosa agora vive e eu tão menor que ela, tão aberto em um açougue como qualquer outra ideia amor?
menos sublime, esvaziei-me para alimentá-la a que tenta sem sucesso enlaçar o segredo do tempo A fumaça do cigarro no frio é mais nuvem do que
fim de preferir sua vida menos maliciosa, menos que já havia antes do ser, cancelaremos todos os antes, fumar é um gesto criado pelo desejo de ver
consciente e por isso, com mais direito à existên- sentidos antes do verdadeiro fim e abraçaremos as a própria respiração contornando o pensamento
cia, pertencendo onde me agarro com dentes asas da brisa que nos alegrará com o frescor dos e como fumante desapareço dentro do gesto mas
amarelados e unhas já esfoladas. Sou o que eu instantes que gritam silenciosamente, tremendo nunca desapareci dentro de um pensamento, se
persigo. Todo rudeza. Todo silêncio, Todo imobi- como passarinhos , o mundo no momento da fosse possível pensar essa árvore dentro da noite
lidade na verdade, transformo-me no copo vazio. separação entre a visão da vida como um quarto e azul, mas uma árvore é impensável porque ela
Sou o que veio antes da água chegar e fui bebido a recém-chegada e logo esquecida sensação incom- simplesmente é. Preciso anotar isso, encontrar
num gole só, na verdade sei como é esta outra sede pleta de sair de um sonho como uma luz enterrada algum café aberto, não sei como caminhei até esse
demoníaca porque estou morrendo mais rápido dentro do paraíso, estaremos no ventre e somos bairro afastado, silencioso e deserto, é maravilhoso
do que antes. Estou dentro dessa coisa chamada: algo dito por uma boca invisível que beijará o céu se perder em uma cidade desconhecida, há algo
‘Paciente em estado crítico’ e essa coisa é como ser como a chuva beija o vento. da memória do nascimento ou de antes do nasci-
um copo para a terrível ausência de um campo de mento dentro dessa sensação, dessa vertigem de
rosas vivas no Jardim, me lembro de um sonho Êxtase desconhecimento do mundo e uma ínfima parte da
onde dois anjos conversavam e um disse: “ Não há É como se eu fosse uma árvore num descampado e memória pode conter todos os lugares do mundo,
solidão se esta não desfaz a solidão para expor o só um raio incendiasse minha copa, um raio gelado. talvez ela saiba o que é uma árvore e para nos
ao fora múltiplo” Aqui em Berna o ar tem a mesma substância desse proteger, tenha enterrado essa verdade no fundo
E o outro comenta: O Fora múltiplo é a ampli- raio, a eletricidade fria do deus que posso sentir do que existe atrás do pensamento. Essa rua se
dão mítica do mundo, os grandes espaços que como um êxtase ou como um vazio, a resplande- parece com uma rua do Recife, o mundo foi criado
se interiorizam através do canto e da dança, cência do vazio onde ou eu ou mundo acontece- pelo esquecimento, quando nos lembramos de
os encontros possuem essa camada sinfônica mos, não há espaço nele para dois acontecimentos algo há a falsa iluminação. A verdadeira ilumina-
mediada por silêncios suaves e levezas gestuais, os e é nessa etérea leveza insuportável da experiência ção é quando nos esquecemos de uma paisagem e
sós e os profundamente sós podem sentir a grande que decido que é melhor que o mundo aconteça. num relâmpago de antimorte nos lembramos dela
solidão se liquefazer. E eles continuam “Mas não Neste frio intenso de Berna é possível perceber quando a vemos ou quando sonhamos com ela?
há, aos meus olhos, grandeza senão na doçura. que a noite é como um metal gasoso azul escuro, Existe também a falsa iluminação que é quando

DESMANCHE
Direi antes: Nada de extremo senão pela doçura. ontem estive na exposição de Michel Seuphor e vi sentimos que algo que está acontecendo agora foi
A loucura por excesso, a loucura doce. pensar, a pintura que me revelou a primeira camada do sonhado antes
apagar-se: O desastre da doçura.” Diz o primeiro mistério sondável, era uma série de linhas que

106
Simone Cortezão

Esgotamento

Era verão de 1994, a empresa siderúrgica Até que minha mãe chegou à porta e disse que era texto a partir dos personagens de Beckett, e para acontece o movimento violento. Assim, o remanso
da cidade tinha sido privatizada. Ali seguia a pausa preciso ficar imóvel, quietas. Só assim conseguiría- ele a grande contribuição de Beckett é mostrar que aqui conceituo e defino como zonas de ressaca
completa e somente os escombros de longos anos mos dormir. que o esgotamento “exige um certo esgotamento é o repouso do movimento violento, mas sobre-
de produção e a pausa no movimento das monta- Como um corpo completamente fundido fisiológico, mais ou menos como Nietzsche tudo para onde vão os despojos do capitalismo.
nhas de escória, minério e da mata de eucaliptos. àquela paisagem em coma, o esgotamento seguia mostrava que o ideal científico exige uma espécie Onde a materialidade da economia aparece. As
Os dias se passavam quentes e a cada dia daquele como paralisação. Assim passamos sete noites de degenerescência vital, como, por exemplo, no sobras dos processos que repousam em uma zona
mês de fevereiro o calor aquecia até o insupor- imóveis. Quietas. À espera que aquela paisagem Homem da Sanguessuga”(DELEUZE, 2010, p. 71) “proibida”, mas têm a potência do refluxo. Por
tável. O ventilador do meu quarto girava lento, em movimento apaziguasse. A perturbação do Assim, naquela noite, a irrupção do real isso estou chamando de Zonas de Ressaca, por
movimentando a massa de ar quente. Do lado entorno entranhada entre a bolha geográfica de aparecia como um limiar do índice de tolerância. que é a ressaca nos dois sentidos da produção e
de fora, a luz de mercúrio refletia e iluminava o um vale que formava uma panela de pressão e toda O esgotamento também como ativo, uma mescla da iminente catástrofe. Assim, essas zonas armaze-
quarto. Ainda naquela mesma vista, um incêndio a poeira e emissões de ácidos que se acumulavam entre o passivo e o ativo. Talvez o esgotamento nam uma energia potencial, captada ao longo do
nos eucaliptais queimava há cerca de cinco dias. no ar. Ali ainda não era possível saber se era o calor também como resistência, afinal, “resistir se distin- movimento no tempo e prestes a explodir, para
Os estalos e o cheiro de cinzas chegavam com as de uma mudança climática ou os vapores artificiais gue de reagir. Resistir é próprio de uma vontade dissipar toda a energia condensada. O esgota-
ondas de calor. Ao fundo restava o som de poucas retidos naquele vale. derivada de um acontecimento, se alimenta do mento que se encontra entre a pausa e o estouro.
máquinas que seguiam trabalhando, uma sonori- No texto publicado em 1992, intitulado intolerável” (KOURABICHVILI, 2000, p. 353). Nesse movimento de forças, potências
dade sem eco naquele ar parado. L’épuisé (O esgotado), Gilles Deleuze nos diz que Os profundos processos de transforma- desejantes e energias estacionadas, Georges Didi-
Vivian, minha irmã que dividia o quarto “o cansado apenas esgotou a realização, enquanto ção na paisagem que Robert Smithson chamou -Huberman (2016) nos diz sobre os movimentos
comigo, já sonambula e com o corpo completa- o esgotado esgota todo o possível. O cansado de entropia, naquela noite, no instante quieto de ao longo do tempo e das resistências como ondas
mente esgotado resmungava numa frequência não pode mais realizar, mas o esgotado não pode paralização e silêncio, a perda de energia era um de levantes1, forças que transformam a imobilidade
constante como a do ventilador já quase parando. mais possibilitar” (DELEUZE, 2010, p.67). Para estado de troca, quase fusão e estagnação, como em energia corporal, social ou do pensamento. Para
E naquela noite longa, o ventilador parou. A massa Deleuze a exaustão é completamente diferente, uma água parada que não se movimenta numa Deleuze, “Um acontecimento político é do mesmo
de ar quente insuportável que circulava dia e noite porque já combinou muitas variáveis, enquanto correnteza. Na entrevista para Paul Cummings, tipo: uma nova distribuição dos afetos, uma nova
estagnou. Olhei para o teto por alguns minutos, o esgotado acaba com o possível. “O cansaço Smithson define as paisagens entrópicas como circunscrição do intolerável” (ZOURABICHVILI,

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ao lado Vivian desesperada com o calor denso de afeta a ação em todos os seus estados, enquanto áreas de franja e backwater, numa tradução 2000, p.339). O esgotamento pode ser também a
poeira e fumaça. Uma poeira fina que o suor diluía o esgotamento diz respeito apenas à testemunha imediata de remanso, como a água parada. Um resistência de um movimento em curso, daquilo
e deixava o corpo pesado com a umidade do ar. amnésica” (DELEUZE, 2010, p. 74). Ele escreve o estado de paralização, onde nas proximidades que talvez por muito tempo chamamos de futuro.

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Remete a uma realidade esgotável ou que foi vel procede sempre por exclusão, pois ela supõe Beckett estava a fazer era esgotar um sistema rios possíveis.
esgotada pela combinação daquilo que conhece- preferências e objetivos que variam, sempre substi- combinatório, as palavras e por vezes a linguagem Assim, seguimos a resistir enquanto esgota-
mos como formulação de um estar no mundo. tuindo os precedentes. [...] que acabam cansando”. – e aponta que para esgotar as palavras é preciso dos, no ponto que pode ser a inversão desejante do
Assim, temos como um movimento (DELEUZE, 2010, p.68) remetê-las aos outros que as pronunciam: “os outros estar no mundo atual, de uma terra brutalmente
de forças que podem ser corporais ou também Após sete dias do rompimento da barra- são mundos possíveis, aos quais as vozes conferem esgotada. Depois de esgotada, qual mundo deixa-
naturais, sejam elas forças geológicas, “um limiar gem de rejeitos em Mariana – MG que espalhou uma realidade sempre variável, conforme a força mos a outros possíveis? Mas enquanto se esgota,
de diminuição de resistência, ou a elevação de cerca de 60 milhões de metros cúbicos de lama que elas têm, e revogável, conforme os silêncios testamos a resistência, que talvez dela possa
um nível de exigência; já não se suporta o que ao longo dos vales e do Rio Doce, resolvi então ir que elas fazem. Elas são ora fortes, ora fracas, até emergir outras possibilidades ainda impensadas.
se suportava antes, ontem, ainda; a distribuição ao início do lugar do rompimento. O ambiente de que se calam, por um momento (com um silên-
de desejos mudou”2 (DELEUZE apud ZOURABI- morte pairava no lugar, com um cheiro forte de cio de cansaço)”(DELEUZE, 2010, p.76) para
CHVILI, 2000, p.339). A fissura que Deleuze nos putrefação, dejetos e ruínas para todos os lados. poder assim “‘esburacar’ a superfície da linguagem
diz são como pontos imperceptíveis que marcam Todos ainda se movimentavam para recolher o para que finalmente aparecesse ‘o que se esconde
o limite das resistências. Ou o esgotamento como que restava das casas e objetos, naquela paisagem atrás’”(DELEUZE, 2010, p. 79).
a apreensão do intolerável - a vidência, o encontro seca e árida. E sobre aquele esmagamento recente, O esgotamento colocado aqui, é como um Fotos: Simone Cortezão
com o limite do movimento, no ponto do que já é mudas de bananeiras surgiam já bem verdes, entre caminho de pensamento, para esgotar e esburacar
o intolerável. outras plantas que também começavam a nascer, outros possíveis, naquilo do que se pode pensar ** O texto Esgotamento apresentado nesse catálogo é um
No entanto, mesmo diante do esgota- em meio àquele lugar onde nada parecia poder ou desejar. “A invenção de novas possibilidades de fragmento do capítulo Esgotamento da tese defendida por

DESMANCHE
mento de possibilidades, outras possibilidades resistir. vida supõe, portanto, uma nova maneira de viver Simone Cortezão intitulada Terras Remotas: as zonas de
permanecem, porque você nunca percebe tudo, Ao longo da definição de esgotamento, a e pensar [...] de ser afetado”( ZOURABICHVILI, ressaca e a ficções econômicas (UERJ- Universidade do Estado
algo nos escapa. Afinal, “a realização do possí- partir da obra de Beckett, Deleuze diz que o que 2000, p.338). O possível como múltiplos imaginá- do Rio de Janeiro).

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1 Georges Didi-Huberman discute os Soulèvements a partir de
uma exposição montada por ele no museu Jeu de Paume em
Paris, no período de outurbro 2016 à janeiro de 2017.

2 Dialogues, Paris, Flammarion, 1977, p. 153-4.

REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles. O esgotado. In: Sobre o teatro. Trad. Ovídio


de Abreu, Roberto Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São


Paulo: Ed. 34, 1998

______. Uprisings. Paris: Gallimard, 2016.

ZOURABICHVILI, François. Deleuze e o possível ( Sobre o


involuntarismo na política). In: ALLIEZ, Éric (org.). Gilles
Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000.

DESMANCHE
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NÚMERO 01

COLABORADORES

Breno Silva Jean-Michel Heimonet Lívia Drummond pela Faculdade de Artes do Paraná (2001), com
Doutor em Processos urbanos contemporâneos, Doutor pela Universidade de Paris Saint-Denis. Doutora no Programa de Pós-Graduação em Mestrado em Artes Visuais pela Universidade
PPGAU-UFBA; professor no IFMG - Campus Santa Professor nos Estados Unidos desde 1982, Literatura da Universidade Federal da Bahia com do Estado de Santa Catarina (2010). Entre as
Luzia/MG onde coordena o LITS (Laboratório atualmente é professor na Universidade Católica estágio de doutorado sanduíche na Université exposições individuais estão: eira alheia, Central
de Tecnologias Sociais); autor dos livros O da América, em Washington, DC. Ele publicou Paris 13 pelo programa PDSE/CAPES. Está Galeria, (São Paulo, SP, 2018); vazamentos,
radicalmente outro nas cidades (EDUFBA, 2018), entre outros livros: Tocqueville et le devenir de vinculada ao grupo de pesquisa O escritor e seus contenções, Orlando Lemos Galeria, (Nova Lima
Atravessando as terras de ninguém (Fábrica de la démocratie : la perversion de l’idéal (Paris, Múltiplos: migrações, no qual foi bolsista CNPQ/ MG, 2016); Ybakatu Espaço de Arte (Curitiba,
Letras - UNEB, 2018); organizador, juntamente Editions L’Harmattan, 1999) ; Pourquoi Bataille? PIBIC. Mestrado em Literatura e Cultura pelo PR, 2007) e CCSP - Centro Cultural São Paulo
com Roxane Sidney, do livro Espaço da Memória Trajets intellectuels et politiques d’une négativité Programa de Pós-Graduação da Universidade (São Paulo SP, 2005).Entre os prêmios, bolsas
no distrito de São Benedito (Impressões de minas, au chômage (Paris, Editions Kimé, 2000) ; La Federal da Bahia com bolsa CAPES. e residências que participou estão: a Bolsa
2019); editor da revista DESMANCHE. e-mail: Démocratie en mal d’altérité, masse et terreur, Produção para Artes Visuais, em Curitiba (2006),
breno.silva@ifmg.edu.br réflexions sur l’informe du pouvoir moderne Bolsa Pampulha, em Belo Horizonte (2010-2011),
(Paris, Editions L’Harmattan, 2003) ; Les deux Leila Danziger e Bolsa Iberê Camargo (2013) em parceria com
faces du terrorisme et l’autodestruction des Artista plástica, pesquisadora e professora CRAC Valparaiso, realizada em Valparaíso, Chile.
Cristiano Luis sociétés ouvertes (Paris, Editions Kimé, 2005). associada do Instituto de Artes da Universidade
Arquiteto e Urbanista, IFMG Santa Luzia, 2018; do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atuando,
Investigator da policial Civil e amante da cidade. desde 2006, nos cursos de Graduação e, desde Marcelo Ariel
João Castilho 2008, no Programa de Pós-graduação em Artes. Poeta e performer, autor dos livros Tratado dos
Mestre em Artes Visuais pela UFMG. Artista Concluiu mestrado (1996) e doutorado (2003) anjos afogados ( LetraSelvagem), Retornaremos
Frederico Canuto visual, trabalha com fotografia, vídeo e instalação. em História, pelo Programa de Pós-graduação das cinzas para sonhar com o silêncio ( Editora
Arquiteto e urbanista, professor Adjunto na Escola Realizou diversas exposições individuais e em História Social da Cultura (Puc-Rio), Patuá) entre outros lançou em 2019, Ou o silêncio
de Arquitetura da Universidade Federal de Minas coletivas no Brasil e no exterior. Seus trabalhos com estágio na Carl v. Ossietsky Universität, contínuo - Poesia reunida 2007-2019 pela Kotter.
Gerais no Departamento de Urbanismo e membro tem inspiração em outros campos e em sua Oldenburg, Alemanha (Capes PDEE, 2000). Matheus Mota
permanente do Núcleo de Pós Graduação em própria história oscilando entre a memória Realizou pós-doutorado junto à Bezalel Academy Fotógrafo.
Arquitetura e Urbanismo da mesma instituição. pessoal e coletiva. Explora temas existenciais e of Arts and Design Jerusalem, Israel (bolsa
Tem como campo de pesquisa narrativas cujo políticos da vida e da morte, do bem e do mal, da CNPq, 2011) e junto à Universidade Rennes
objeto é o espaço e suas múltiplas epistemologias. inocência e da culpa, da pulsão e do medo. 2, Paris, França (bolsa Capes, 2015). Suas Matheus Sá Motta
Atualmente é líder do grupo de pesquisa pesquisas investem diversas linguagens artísticas Fotógrafo, formado em Design gráfico UEMG.
Narrativas Topológicas. (livro, fotografia, vídeo, gravura, instalação e a
Juliano Pessanha escrita propriamente dita), buscando propiciar
Doutor em Filosofia pela USP. Autor de Sabedoria experiências de memória e transmissão e elaborar Priscila Musa
Geraldo Santos do nunca (1999), Ignorância do sempre (2000), esperanças extraviadas de nossa história. Tem Doutoranda no Núcleo de Pós-graduação em
Produtor multimídia pela Oi Kabum! BH, designer Certeza do agora (2002) e Instabilidade perpétua ensaios e poemas em diversas publicações de arte Arquitetura e Urbanismo da Universidade
de interiores pelo IFMG-Santa Luzia, graduando (2009), publicados pela Ateliê Editorial. Recebeu e literatura. Federal de Minas Gerais, UFMG (2017). Foi
em Arquitetura e Urbanismo no IFMG-Santa o prêmio Nascente da USP, em abril de 1997, nas arquiteta consultora de projetos da empresa
Luzia. Bolsista de iniciação científica no projeto categorias poesia e ficção, e o Grande Prêmio da Miguilim Assessoria Cultural, onde trabalhou
Espaço da Memória do IFMG-Santa Luzia. Luthier Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte Lúcio Branco com elaboração de projetos no campo de
de instrumentos percussivos. Desenvolve pesquisa (APCA), na categoria literatura, em 2015, por Lucio Branco é documentarista e pesquisador, e políticas públicas de cultura, com abordagem em
sobre processos de modelagem e impressão 3D - Testemunho transiente, reunião de sua tetralogia, colaborou na pesquisa de O desmonte do monte patrimônio imaterial, arquitetônico, paisagístico
FDM. Membro da Guarda de Moçambique Nossa publicada pela Cosac Naify no mesmo ano. Tece dirigido por Sinai Sganzerla. e urbanístico. Foi professora convidada da
Senhora da Guia e São Jorge Guerreiro, membro estreito diálogo com a literatura, a filosofia e Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
do coletivo Balaio Vermelho e percussionista no a psicanálise, em busca de dizer as coisas em Atualmente é arquiteta e urbanista da Associação
grupo Bombos de Iroko. registros múltiplos de enunciação. É professor e C.L.Salvaro dos Arquitetos Sem Fronteiras - ASF BRASIL.
dirige grupos de estudo de filosofia. C.L. Salvaro é formado em Educação Artística
Sinai Sgarzela
Dirigiu o documentário O Desmonte do Monte
(2018), obra indicada ao Grande Prêmio do
Cinema Brasileiro.

Simone Cortezão
Cineasta, Artista Visual e Pesquisadora, é Doutora
em Artes Visuais pela UERJ e professora no IFMG-
Santa Luzia. Entre o cinema e as artes visuais,
desenvolve trabalhos com a criação de narrativas
documentário-ficcionais e suas articulações entre
memória e amnésia das cidades, história e ficção,
paisagens entrópicas, geologia e economia.
Escreveu, dirigiu e produziu diversos filmes,
exibidos e premiados em festivais e mostras
nacionais e internacionais.

Washington Drummond
Historiador, doutor em Urbanismo no PPGAU-
UFBA (2009) com estágio doutoral no CNRS
- Paris/França. Pós Doutorado em Estudos
Literários no Programa Pós-Lit da UFMG
(2015). Atualmente é Professor Adjunto da
Universidade do Estado da Bahia e Professor
Permanente do Programa de Pós-Graduação
de Crítica Cultural na Universidade do Estado
da Bahia. Tem experiência na área de História,
atuando principalmente nos seguintes temas:
teoria contemporânea, urbanismo e imagens
reprodutíveis. É coordenador do grupo de
pesquisa Pós-Teoria.
https://wodrum.wordpress.com/2020/01/23/
diario-da-republica-de-salo-2016-2019/
DESMANCHE é uma revista semestral e sem fins lucrativos vinculada ao LITS (laborató-
rio de Tecnologias Sociais – IFMG Santa Luzia / Cnpq)

Os artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a


opinião dos editores

Editores
Breno Silva, Roxane Sidney R. Mendonça, Simone Cortezão

Imagem da capa
Leila Danziger - Resistir-por-ninguém-e-por-nada
O DESMANCHE
Projeto Gráfico
Simone Cortezão

No desmanche são desmontados e O desmanche é uma operação que se realiza


Diagramação
desmantelados mecanismos, engenhos ou no meio, considera o já dado, o que está aí e Rafael Moura, Geraldo Santos e Simone Cortezão
máquinas. Restam carcaças, destroços, o por vir a partir do resto. A sua novidade é
peças mais ou menos reutilizáveis. Elas são a reinvenção do meio no que resta. Parte-se
Logo
descartadas ou conectadas em remontagens do que existe para reinventar as coisas, as Gabriel Vidal
imprevisíveis. Nesse espaço até o mesmo relações, os modos de ensinar e de aprender,
tende a virar outro. de produzir realidades, de movimentar Bolsistas e colaboradores
O desmanche é um procedimento desejos. Gabriel Vidal, Júlia Alvim, Rafael Moura, Geraldo Santos
experimental, mas também crítico. Quando O desmanche também não deixa de ser
se desmancha há sempre o risco de não se uma operação de apagamento de ideias
Revisão
remontar o original. O que fazer com uma preconcebidas e hegemônicas, provocando Diogo da Costa Rufatto
peça que sobrou na montagem e nem sequer um saber jovial em conexão com saberes
impediu o funcionamento da máquina? periféricos.
Impressão
Mesmo ao se desmontar um brinquedo, a O primeiro número da revista Desmanche
Impressões de Minas
característica da ação da criança enunciada é uma montagem de escritas abordando e
pelo Filósofo, de que a única coisa que se propondo vários modos de desmanches com
espera dela é destruí-lo, é posta à prova. Com a colaboração de pessoas com formações contato
os restos que não se encaixam mais pode-se diversas.
revistadesmache@gmail.com
derivar outras coisas, provocar coincidências E, por sua vez, convidamos os leitores para
industriais, produzir máquinas inúteis e remontagens inventivas. litsifmg.wordpress.com
desejantes.
O desmanche jamais poderia ser uma DESMANCHE 01 ano 1, vol.1, número 1, fevereiro de 2020
reforma. Os Editores.

ISSN XXXXXXXXXX
Esta revista conta com recursos do IFMG edital 104/2016 de Pesquisa Aplicada

Realização

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