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Ainda é tempo…!

Logo depois do primeiro bater do coração, o nosso corpo, ainda um feto, está preparado para receber um
novo espírito, o nosso espirito. A fase final de gestação é definida já em função das características e
escolhas do espírito que nele irá encarnar. Mais ou menos aquando a primeira batida do coração, a
consciência-espírito que nele escolhe encarnar, começa a ter pequenos flashes, lentamente ele vai-se
habituando, de novo, ao condicionalismo que é estar retido num corpo físico e ao mesmo tempo, vai
adequando esse corpo às características que necessitará para vivenciar o conjunto de experiências que o
levaram a encarnar.

É assim que reencarnamos, deixando lentamente esse outro mundo onde vivemos, muitos de nós, à
semelhança do que acontece quando abandonam este mundo, também ao abandonar esse outro mundo, de
novo nesta direção, quase não têm consciência clara do que irá ocorrer. Muitos de nós apenas seguimos
instintos, sentimos impulsos, presenciamos flashes de algo que não percebemos com clareza, de algo que
é na realidade a nossa vontade, o nosso QUERER SUPERIOR, mas que mesmo nesse estado em que aí
vivemos, não é para muitos de nós claro. Não julgue que ao passar para esse estado de consciência tudo se
torna claro, tudo lhe será mostrado e tudo entenderá. Essa é mais uma etapa, mais um estado. Se está a ler
este texto, é porque em algum momento, o seu QUERER decidiu regressar a esta existência, não ascender
aos verdadeiros estados de consciência, onde um dia perceberemos que vivemos e é aí onde está esse
nosso QUERER.

Quando encarnamos, levamos alguns anos terrestres para nos habituarmos a saber coordenar a nossa
consciência-espírito, com os órgãos fisiológicos que geram a perceção da existência – sistema nervoso e
principalmente aquilo que muitos entendem por cérebro, mas é na verdade o complexo fenómeno que é a
mente. Esta última, transcende e simultaneamente, une o mundo físico ao mundo espiritual. Neste
primeiro período da nossa nova encarnação, o espírito vai adormecendo lentamente e transformando-se
naquilo que entendemos por mente, esta, por sua vez, vai sendo formatada, com códigos, conceitos,
criando aquilo que podemos considerar a capa com que toda a mente viverá, a personalidade do ego.
Aproximadamente 5 a 7 anos depois de ter culminado o ato da gestação, através do nascimento, o espírito
fica finalmente aprisionado dentro do corpo que escolheu, apenas reconhecendo o que entendemos por
mente.

Este é o ato do renascer espiritual nos planos baixos da existência, este é o ato que todos esquecemos
quando despertamos para mais um ciclo de encarnação. Muitos de nós, voltamos de novo, convictos que
precisamos livrar-nos dos preconceitos, códigos e conceitos (preconceitos = códigos + conceitos) que não
nos permitiram, mesmo nesse outro plano onde estivemos, ter o entendimento que julgávamos possível e
necessário. Nesse plano, aquele que muitos chamam de céu | inferno | purgatório, todos nomes que se dão,
para um nível que devemos entender ser um outro estado de consciência, apenas isso, muitos julgam
poder entender tudo o que aqui, neste plano físico, nem se preocupam em entender. Assim quase todos
terminam por viver aí, como vivem aqui, como que nem querendo questionar, preferindo repetir, repetir,
voltar, vezes sem conta, sem saber quantas vezes já reiniciamos todo o processo de novo. Basta para isso,
esquecer que já o fizemos e sempre que através de sonhos, sensações, flashes e outras formas de
linguagem recebemos pequenas partes dessas outras experiências, preferimos fazer o que fazemos aos
sonhos – “Ah, mas que sonho estranho, ainda bem que foi apenas isso - um sonho”.

Julgamos que podemos relegar tudo para que alguém um dia resolva, aí por vezes aquilo que chamamos
consciência, alerta-nos para a necessidade de cumprir o verdadeiro motivo pelo que viemos a este mundo
e novamente nós, por acídia pura, entregamos tudo nas mãos da fé, expressa naquilo que as religiões
acabaram por ter que apresentar como respostas, para apaziguar as necessidades mais profundas do nosso
espírito, mas que nós teimamos em recalcar. Que culpa têm as religiões da nossa acídia? São elas
responsáveis de todos nós, não queremos procurar o nosso caminho, não queremos cumprir a missão para
que encarnamos?! Elas apenas fazem o que nós lhes pedimos, afinal de contas, somos nós que as criamos.

Estas são questões que todos deveríamos colocar-nos, exames de consciência, profundos e não exames da
consciência criada pela sociedade, pelos códigos do certo e errado, pelo que aparentemente pode e não
pode ser feito. Posso roubar, desde que seja subtil na forma como roubo. Posso fazer tudo o que possa
prejudicar outros, desde que o faça ao abrigo dos códigos da sociedade, das leis do homem, dos preceitos
das religiões oficializadas. Somos julgados por nós mesmos e esse julgamento é feito com base nos
códigos que uns e outros, ao longo da existência da humanidade criamos, como forma de nos
governarmos. O importante é não ser descoberto socialmente pela quebra de alguns desses códigos, mas
na realidade, todos já os quebramos, absolutamente todos.

Não julgue que tudo o que tem sido por si feito, não será por si, alvo de julgamento. Esse dia chegará para
todos e aí não contam os códigos, as leis do homem e muito menos aqueles que o próprio homem
inventou como sendo as leis de DEUS. Nesse dia, como já ocorreu antes, noutras vidas que você teve,
enfrentará a sua própria consciência e será ela o seu juiz. Não há LEI mais justa que esta LEI de DEUS, a
do autojulgamento e não há maior bondade que a bondade SUPREMA da plenitude que ELE nos dá
através do livre-arbítrio. São estas duas condições, estas duas mãos que nos guiam, mas também são elas
que nos castigam. Assim não se esqueça que devemos a todo o momento fazer profundos exames de
consciência para nós e sobre nós mesmos. Encare isso como um treino para o derradeiro momento.

Hoje, depois de todo o meu trajeto de vida, olho para mim, como que se num espelho me visse e
pergunto-me – “Afinal quem és tu?”. Qual foi o propósito que te trouxe? Porque fiz o que fiz, como e de
que forma me deixei iludir, enredando-me naquilo que a vida me tornou?! Pergunto-me como será esse
dia em que me encontrei comigo mesmo, depois de ter usado do meu livre-arbítrio, olhando para o que fiz
dele, questiono-me como me julgarei. Será certamente um julgamento justo, disso não duvido. Já não sei,
quanto ao resultado desse julgamento, mas procuro não me deixar levar pelas aparentes armadilhas que a
vida me coloca. Já errei quanto baste, já cedi aos instrumentos do ego, da dúvida, do medo, dos códigos
criados pela sociedade para me afastar do verdadeiro caminho, pelo qual decidi vir a este plano.

Mesmo não sabendo qual o meu caminho, sei que ele não se fará cumprindo aquilo que a sociedade
encara como o correto, o que deve ser feito. Esse pode ser mais um caminho ardiloso, como muitos outros
que tenho seguido, pois todos eles são montados com base no certo e errado que aprendi quando me
enredei nos truques que me trouxeram distraído até aqui. Como pode ser certo, só porque, mesmo agindo
de forma que prejudique muitos outros, mas dentro da lei do homem e ser errado, a humilde tentativa que
deu errado, mas cometida pela entrega plena, na tentativa do beneficio comum?!! Não quero este tipo de
códigos que me julgam pelo que foi o resultado, na perspetiva dos seus interesses, mas que nunca olham
para o genuíno motivo que me levou a iniciar tal ação. No dia do meu julgamento, quando em plena
consciência tiver de me condenar, prefiro que essa condenação seja por resistir a assimilar alguns desses
códigos sociais, perfeitamente aberrantes, que me fariam perder tempo e envolvendo-me ainda mais. Mas
ainda é tempo, ainda posso recuperar o suficiente para fazer o que tenho por fazer.

Olho para a minha vida e penso – “…errei quando disse a um amigo que não o podia ajudar
financeiramente e na verdade não podia mesmo, ou errou ele quando se aproximou de mim, alegando
amizade?!!” “…errei quando me divorciei de alguém que ainda muito jovem, por capricho, decidiu
engravidar e só após 6 meses me informou!!” “…errei quando por várias vezes me envolvi na criação de
empresas e durante pouco ou muito tempo, asseguraram postos de trabalho, mas como tudo na vida tendo
um ciclo, começa e termina?!” “…errei quando o meu próprio filho, depois de se tornar adulto, olhando
para mim, com esses códigos da sociedade, me julgou por algo que não sou?!!”, “…errei quando
confiando num amigo de juventude e mais tarde advogado, depositando nas suas mãos, dinheiro que ele
deveria usar para efetuar pagamentos de uma empresa que aí se extinguia, o usou em proveito próprio e
mais tarde num ato de pleno abuso imoral, aproveitou-se do desmantelamento do património advindo para
lucrar e fazer lucrar outros?!”

Como posso estar errado eu?! Essa é a questão que me importa conhecer, pois não procuro vinganças, já o
fiz, mas não faço mais, já me levaram por esse caminho, mas já não me levam mais. Procuro encontrar-
me, procuro ter a certeza da justeza com que vivo esta vida. Embora saiba que esta mesma vida, até
chegar aqui, teve que me mostrar os caminhos errados. Mas esses caminhos errados, estão longe do
entendimento que muitos julgam ser certo ou errado. Pobres, tristes dos que vivem nesse engano, como
um dia eu também vivi, convicto que sabia o que fazia, do que era certo e errado, preocupado com o
julgamento que os outros fariam, sem sequer perceber que o único julgamento que importa, terá lugar
num único momento e nesse momento irei estar só, serei só eu. Por isso hoje faço-me essa pergunta –
Estarei errado, por ser tão genuíno, por tentar ser o que seria se não estivesse prisioneiro do que outros
possam pensar, ou do que a sociedade possa julgar de mim?!

Hoje olho para a vida que vivi, olho para o caminho que fiz e pergunto-me o que ainda preciso fazer,
antes de terminar este meu momento de existência que chamamos vida. Em vários momentos do meu dia-
a-dia, imagino o meu momento derradeiro. Enquanto muitos fazem tudo por não pensar nele, hoje eu faço
dessa reflexão o modo natural de me preparar para algo que só eu posso fazer. Imagino-o porque devo
manter uma constante crítica e nível profundo de autojulgamento que me mantenha alinhado com aquilo
que pode ser um caminho que aparentemente errado, nos códigos sociais, é na verdade um dos
verdadeiros caminhos que me podem levar um dia a sair da encruzilhada que se chama reencarnação.

Hoje quase não me consigo lembrar dos momentos, em que estando noutro plano, resolvi encarnar e dessa
encarnação, cumprir um objetivo. Mas tenho breves momentos em que percebo em plenitude o que me
trouxe aqui, momentos de lucidez plena que depois se ofuscam pelas regras a que todos estamos sujeitos
– códigos, conceitos e a importância que atribuímos ao julgamento dos outros. Ardis do próprio ego que
nos limita a todos e nos remete, a uma única condição. Condenados a viver em ciclos, de reencarnação em
reencarnação, enredados no que não importa, envoltos pelo aparente conforto ilusório a que estes planos
nos obrigam, somos seres Omnipotentes, a viver estados de incapacidade.

Quantas vidas vou QUERER voltar a viver até me dar conta?! Você, quantas vidas já viveu?! Quantas
vidas vai QUERER viver mais, sem que o despertar aconteça?! Ainda é tempo, ainda pode valer a pena,
basta que faça o primeiro gesto nesse sentido, basta que perca o medo, basta que questione, mas logo
depois, abandone a dúvida que quando não abandonada, paralisa o QUERER. Ainda é tempo de eu
cumprir os desígnios que me mandaram aqui, ainda é tempo para mim e para si….AINDA É TEMPO.

IN Prólogo do Livro: “A Origem dos Mistérios – mentiras e Verdades”

Antero Carvalho