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São Manuel Bueno, mártir:

a hagiografia de um santo sem fé

Lucas Gilnei Pereira de Melo*

Resumo
O presente artigo objetiva realizar uma análise da novela de Miguel de
Unamuno, “São Manuel Bueno, Mártir”, verificando a escrita hagiográfica do
autor no processo de criação de um personagem santo, Dom Manuel, cujas
ações e pensamentos transitam entre a santidade e a heresia. Observaremos os
traços da biografia com base na teoria de Levi (2006), visto a novela ser
construída a partir dos relatos da narradora Ângela Carballino, sendo, dessa
forma uma tentativa de escrever sobre uma vida. Além disso, por tratar-se de
uma hagiografia, traremos a baila o teórico Certeau (2010), pois o mesmo
discute elementos caracterizadores da santidade, além da postura histórica da
igreja em relação à própria hagiografia. A novela de Unamuno perpassa, ainda,
pela discussão filosófica existencialista, sobre o sentido da vida, a fé divina e o
suicídio.
Palavras-chave: história; ficção; biografia; hagiografia; heresia; santidade.

Abstract
This paper aims to undertake an analysis of the novel by Miguel de Unamuno,
"São Manuel Bueno, Mártir", checking the author's hagiographical writing in
the process of creating a holy character, Dom Manuel, whose actions and
thoughts passing between the sanctity and heresy. We observe the traces of the
biography on the theory of Levi (2006), because the novel is constructed from
the accounts of the narrator Angela Carballino, and thus an attempt to write
about a life. Moreover, because it is a hagiography, we bring the theoretical
Certeau (2010), because he discusses characteristic elements of holiness, as
well as the church's historical stance in relation to own hagiography.
Unamuno's novel goes through existentialist philosophical discussion on the
meaning of life, faith and divine suicide.
Key words: history, fiction, biography, hagiography, heresy, holy

*
LUCAS GILNEI PEREIRA DE MELO é Mestrando em Crítica Literária pela Universidade
Federal de Uberlândia (UFU).

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Miguel de Unamuno (1864-1936)

No presente texto faremos a análise da fragmentada e dúbia, como é a da


novela, escrita por Miguel de Unamuno, narradora Ângela Carballino.
“São Manuel Bueno, Mártir”,
Por tratar-se de uma hagiografia,
verificando a escrita hagiográfica do
traremos a baila o teórico Certeau
autor no processo de criação de um
(2010), pois o mesmo discute elementos
personagem santo, Dom Manuel, que
pertinentes a nossa análise. Para o autor,
transita entre a santidade e a heresia. Seu
a hagiografia é um lugar onde o lazer e o
percurso é de trânsito entre esses dois
extraordinário se encontram, a favor da
extremos, pois o autor coloca em cheque
exemplaridade que os textos sobre santos
o elemento mais importante da própria
proporcionam. Para o estudioso: “o
santificação: a fé divina e a existência de
extraordinário e o possível se apóiam um
Deus. Para Perissé (2010), “A santidade
no outro para construir uma ficção posta
de Dom Manuel é uma santidade
aqui a serviço do exemplar”
invertida. Seu martírio auto-redentor está
(CERTEAU, 2010, p.271).
em ocultar aos demais a verdade
escandalosa de que é um sacerdote sem Ao longo dos anos a Igreja resistiu em
fé” (PERISSÉ, 2010, p.3). deixar a hagiografia entrar em seu
âmbito, pois considerava essa escrita
Na análise da novela observaremos os
como portadora de “lendas” e
traços da biografia com base na teoria de
“superstições”. Porém, isso não impediu
LEVI (2006). Dessa maneira, a novela
que as hagiografias se espalhassem entre
que trata da vida de Dom Manuel torna-
os fiéis, no século IX, muito
se de extrema valia para se entender, por
rapidamente. Segundo Certeau (2010),
exemplo, correntes ideológicas da época,
para os censores da época “a hagiografia
como o existencialismo, e,
seria a região onde, localizados no
principalmente, para verificar como o
mesmo lugar e condenados juntos,
perfil de uma vida é moldado a partir de
pululam o falso, o popular e o arcaico”
uma perspectiva, naturalmente
(CERTEAU, 2010, p.271). Seria, além

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disso, um lugar perpassado pela história, que discute alguns elementos da novela,
aquela real e que de fato aconteceu, como a convivência de Dom Manuel
mesclada ao imaginário humano, com a dúvida ao invés da pesquisa e o
enriquecido pelo simbólico e pelo o “que fato de subestimar a capacidade de
poderia acontecer”. É o que reforça compreensão de seu povo, considerando-
Pesavento (2006) ao afirmar que a o um “povo fraco e frágil”, incapaz de
literatura possui um “efeito real”, devido sobreviver a verdade e ao tédio da vida
os personagens viverem sentimentos e sem crença.
situações possíveis na realidade. Assim,
Henrique Jorge (2010), em seu artigo
a literatura fornece pistas verossímeis
“São Manuel Bueno, mártir é também
para sabermos “como as pessoas agiam,
um texto político”, traz importantes
pensavam, o que temiam e o que
elementos, visto que o autor
desejavam” (PESAVENTO, 2006, p.8).
contextualiza a novela de Unamuno na
Talvez fosse esse o motivo da resistência Espanha do início do século XX.
eclesial: devido a hagiografia representar Segundo o autor, Unamuno combateu a
o santo trilhando caminhos heréticos e Monarquia Espanhola suportada por uma
santificados, tal como qualquer ser casta religiosa que era a Igreja Católica.
humano. Dessa forma, a Igreja Além disso, nos faz perceber o jogo de
intervinha através da censura mascarada idéias que se confluem entre Dom
de acordo com as épocas. Por exemplo, Manuel e o próprio Miguel Unamuno.
no início eram critérios litúrgicos, depois Jorge (2010), “sugere como ele próprio
dogmáticos. No século XVII, eram [Unamuno] se resignou revelando uma
critérios históricos, a partir da veracidade espécie de função social da religião,
dos fatos. Logo, no século XIX, os indispensável ao equilíbrio e ao bem
critérios tornam-se morais e verifica-se, estar do povo” a partir da escrita de sua
também, uma normalidade psicológica. novela. Função social essa que estava
Dessa forma, “num meio patológico, o sendo perseguida na Espanha desde a
santo deve se distinguir por seu república que se instaurou no país.
‘equilíbrio’, que o compromete de forma Unamuno era contra a monarquia, cuja
exemplar no código estabelecido por Igreja estava vinculada, no entanto
novos clérigos letrados” (CERTEAU, também se opunha ao progressismo que
2010, p.272). Nesse sentido, com tantas estava fazendo mais vítimas do que a
restrições por parte da igreja, a sociedade própria inquisição, através de
eclesiástica selecionava o que seria perseguições ao que não era racional.
‘consumido’ da hagiografia, de acordo Segundo Jorge (2010), “desde os
com as conformidades estabelecidas. Ela primeiros momentos da República que a
julgava e tolerava, o que em seu dizer, violência política se instalou na vida
seria útil ao povo. Seria essa mesma elite quotidiana da Espanha, sendo vulgares
que ao mesmo tempo aprovava e os assassinatos em massa e as
recusava a hagiografia de algum santo. destruições de toda a ordem” (JORGE,
2010).
O texto de Unamuno ainda transita por
discussões filosóficas, como o suicídio, o Ao autor de “São Manuel Bueno,
existencialismo e o sentido da vida, e, mártir”, Miguel de Unamuno, nasceu na
por conta disso, torna-se pertinente as Espanha, Bilbao, em 1864. Após a morte
contribuições, por exemplo, de Gabriel de seus pais, fora criado por um tio,
Perissé (2010) em seu artigo “A assistindo de perto a luta entre as forças
santidade de São Manuel Bueno, mártir”, progressistas e tradicionalistas que se

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instauravam em Bilbao, cujo movimento uma grande admiradora de Dom Manuel,
deixou fortes marcas em seu pensamento que desde cedo substituiu a imagem de
político. Em 1880, Cursou filosofia e seu pai verdadeiro, perdido quando era
Letras pela Universidade de Madrid. ainda muito pequena, pela imagem do
Antes de assumir a cadeira de reitor, em futuro santo. Segundo LEVI (2006):
1896-1897, Unamuno passou por uma É essencial conhecer o ponto de
profunda crise religiosa, na tentativa de vista do observador; a existência de
encontrar uma explicação racional para o uma outra pessoa em nós mesmos,
sentido da vida e de Deus, concluiu que sob a forma do inconsciente, levanta
se deve abandonar qualquer pretensão ao o problema da relação entre a
racionalismo e abraçar a fé. descrição tradicional, linear, e a
ilusão de uma identidade específica,
O autor usou dessa sua experiência coerente, sem contradição, que não
política e acadêmica, além de seus é senão o biombo ou a máscara, ou
contínuos questionamentos sobre a fé e a ainda o papel oficial, de uma
razão para escrever a novela “São miríade de fragmentos e estilhaços.
Manuel Bueno, Mártir”, publicada, (LEVI, 2006, p.173)
inicialmente em 1931 e republicada em Além disso, LEVI (2006) complementa
1933 com breves alterações. que a biografia se coloca perante
A história trata-se de um relato escrito inúmeras dificuldades, como “os atos e
por Ângela Carballino que supostamente dos pensamentos da vida cotidiana, das
chegou à Unamuno sobre a vida de Dom dúvidas e das incertezas, do caráter
Manuel, cuja beatificação já estaria em fragmentário e dinâmico da identidade e
processo. Na história percebemos a dos momentos contraditórios de sua
admiração que existe por parte de constituição” (LEVI, 2006, p.169).
Ângela em relação ao padre, sendo Percebemos o quanto é complexo a
chamado várias vezes de “meu pai biografia, visto ser, também, complexo o
espiritual”. Além disso, no relato de ser humano, pela sua instabilidade e
Ângela é perceptível o trabalho fragmentação.
incansável de Dom Manuel na O espaço onde ocorre a trama é Valverde
comunidade, tanto espiritual quanto de Lucerna pertencente à Diocese de
social, embora seja revelado que Dom Renada, na Espanha. Ângela inicia seu
Manuel tenha perdido completamente a texto contando sobre o início do
fé que tivera na infância. A processo de beatificação feito pelo bispo
complexidade da novela de Unamuno da região. Os elementos simbólicos do
está exatamente nesse fato: “um homem texto aparecem desde a descrição do
santo, aos olhos do povo católico de uma Santo. Quando Ângela associa o olhar de
pequena cidade espanhola, mas um Dom Manuel ao “profundo azul de nosso
homem ateu, aos olhos de sua própria lago”, que simboliza a dúvida,
consciência” (PERISSÉ, 2010). mostrando ao leitor os questionamentos
Nesse sentido, é necessário atentarmos presentes em seu interior, torturando a
para a questão biográfica que perpassa a sua consciência. Além disso, nos mostra
construção desse personagem tecido como Dom Manuel era capaz de
através do relato de Ângela, visto ser persuadir sua comunidade, de convencê-
escrita a partir de uma perspectiva e, por los do amor divino, segundo Ângela
isso, fragmentária e tendenciosa, pela “quando nos olhava parecia transpassar a
natural impossibilidade de se chegar à carne como um cristal para esquadrinhar
totalidade da figura humana. Ângela é nossos corações” (UNAMUNO, p.6-7).

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A narradora conta que viveu fora de com a diferença de que lá onde a lei do
Valverde para estudar, porém logo “se destino grego supunha a queda do herói,
engasgou com a pedagogia” a glorificação de Deus pede o triunfo do
(UNAMUNO, p.8). Queria mesmo era santo” (CERTEAU, 2010, p.273). No
voltar para sua aldeia e ser protegida entanto, a grande complexidade da
pelo famoso Dom Manuel. Segundo ela, novela em relação ao óbvio da leitura
“A vida dele [de Dom Manuel] era hagiográfica está na surpresa da
salvar casamentos desajustados, descrença de Dom Manuel, que apesar
aproximar filhos rebeldes dos pais ou de convencer a todos com o seu tom
aproximar os pais dos filhos, confortar verbal quase divino nas cerimônias
os amargurados, os desanimados, e religiosas, nutre em seu interior a
ajudar a todos a bem morrer” angústia da descrença na religião.
(UNAMUNO, p.10).
Dom Manuel, na trama, se mostra como
A princípio a leitura nos coloca a par do um fazedor de milagres, cuja força
que qualquer santo faria: perpetuar a mostrava-se apenas com um olhar para
palavra divina e fazer boas ações. Sobre retirar a verdade de alguém, o que fazia
isso, enfatiza Certeau ao afirmar que sua fama correr nos arredores de sua
“cada vida de santo deve ser antes aldeia. O futuro santo preocupava-se em
considerada como um sistema que preencher sua vida de inúmeras
organiza uma manifestação graças à atividades, fugindo do ócio. Tal fato é
combinação topológica de ‘virtudes’ e de explicado mais adiante, quando Dom
‘milagre’” (CERTEAU, 2010, p.267). Manuel confessa ter herdado de seu pai
Além disso, Certeau (2010) uma estranha tendência ao suicídio e
complementa que “a vida de santo se para fugir desse fato procurava inúmeros
inscreve na vida de um grupo, Igreja ou trabalhos, para ocupar a sua mente.
comunidade. Ela supõe que o grupo já
Camus, em seu ensaio escrito em 1942
tenha uma existência. Mas representa a
“O Mito de Sísifo”, é quem discorre com
consciência que ele tem de si mesmo,
propriedade sobre a questão do suicídio
associando uma imagem a um lugar”.
ao utilizar a figura da mitologia grega
(CERTEAU, 2010, p.269)
fadada ao trabalho inútil: Sísifo está
Quanto a isso, podemos nos referir as condenado a repetir sempre a mesma
inúmeras vezes que Dom Manuel tarefa, de empurrar uma pedra de uma
manifesta sua inteira disposição em montanha até o topo, só para vê-la rolar
ajudar a aldeia e de estar presente nos para baixo novamente. O mito serve para
momentos em que o seu povo mais introduzir a filosofia do absurdo que
precisa, ou seja, ele está diretamente discute o homem inserido em um mundo
ligado ao seu povo, pois só chegaria à em busca de sentido e clareza, cuja
santidade pelas benfeitorias realizadas grande questão seria: a realização do
em prol dessa mesma aldeia, não que absurdo (neste caso o do trabalho inútil)
esse fosse o seu principal objetivo, mas exigiria o suicídio?
elemento constituinte de sua própria
Encontrando somente o absurdo vazio da
natureza.
existência, resta ao homem questionar-se
Natureza esta que a novela pressupõe integralmente sobre o sentido da vida,
antes mesmo da leitura da primeira decidindo por si se vale a pena ou não
página, por se tratar da história de um viver. No caso da novela, Dom Manuel
santo, pois “como na tragédia grega, estabelece a sua causa de “fazer viver” e
conhece-se o resultado desde o início, repete inúmeras vezes que é “preciso

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fazer viver”. Assim, aparentemente essa reveladoras. Entendeu que essa era uma
seria a força que dá sentido a vida ao causa santa, pois, como diz Lázaro “ao
padre. perseverar em me atrair para sua santa
causa – e é uma causa santa, santíssima –
Dom Manuel nos mostra que consegue
, não considerava que seria uma vitória,
controlar o seu fardo e propaga a ilusória
mas um voto pela paz, pela felicidade,
sensação divina aos aldeões que estavam
ou pela ilusão, se preferes, daqueles que
sob seus cuidados. Empurra a pedra,
estão sob seu cuidado (UNAMUNO,
prega a religião e a vê correr novamente
p.40).
para o mesmo ponto de saída, mesmo
sabendo de seu ateísmo. Acredita que o Dessa forma, resgatamos o que Jorge
povo sem a fé e sem “os ensinamentos (2010) nos fala sobre a transformação da
da Santa Madre Igreja” não aguentariam Igreja em um dispositivo social capaz de
o fardo de viver. Em conversa com o fazer viver melhor os seus fiéis, mesmo
irmão de Ângela, Lázaro, Dom Manuel que ilusoriamente. Em seguida, na trama,
diz: “A verdade? A verdade, Lázaro, Ângela vai ao encontro de Dom Manuel
pode ser algo terrível, algo intolerável, para fazer os questionamentos sobre essa
algo mortal. As pessoas simples não revelação. E, nesse momento, ambos
poderiam conviver com ela”. choraram, o que demonstra que o D.
(UNAMUNO, p.40). A verdade da qual Manuel possuía uma consideração
fala Dom Manuel é a inexistência da diferenciada por Ângela, por talvez
vida eterna, de Deus e de tudo que ele considerá-la mais instruída e capaz de
pregava aos pobres da Aldeia. suportar a “verdade” do que o seu povo.
Ao justificar-se, Dom Manuel
Lázaro é o personagem que chega
novamente repetia que era preciso crer,
trazendo as luzes da cidade grande e que
pois era “preciso viver” e era “preciso
possui certa resistência, inicialmente, a
dar a vida”. Assim, Perissé (2010) nos
Dom Manuel, pois fica sabendo de sua
coloca que “Dom Manuel opta por um
fama desde a sua estadia em sua morada
dilema sem saída. Não pode renunciar ao
anterior e desconfia dos fatos. Lázaro
seu ateísmo nem à sua missão sacerdotal.
chega a Valverde de Lucerna convicto
Será talvez um dilema artificial, mas é ao
em levar sua irmã Ângela e sua mãe para
redor dele que tudo gira” (PERISSÉ,
morarem em uma cidade maior, no
2010).
entanto ambas preferem ficar na aldeia,
por já estarem acostumadas ao ritmo da É por esse posicionamento que Dom
aldeia e por desejarem ficar perto de Manuel é também um mártir, por
Dom Manuel. Após um tempo, Lázaro e perseverar em sua causa e não permitir
Ângela perdem a mãe. Nesse prazo, que essa “verdade” chegue ao seu povo.
quem dá conforto à Lázaro é o próprio Esse povo que nos dizeres de Lázaro,
Dom Manuel. Nesse momento, ambos se “decerto crê sem querer, por hábito, por
aproximam e Ângela percebe que Dom tradição” é poupado, segundo a visão de
Manuel conseguiu convertê-lo aos seus Dom Manuel, de pensar a existência e o
ensinamentos quando consegue fazer sentido da vida, ficando o fardo para o
com que Lázaro receba a eucaristia. próprio santo.
Porém, no dia seguinte Lázaro resolve No entanto, Unamuno em um epílogo
contar a verdade sobre Dom Manuel à explicativo sobre a origem do relato, nos
Ângela. Lázaro lhe contou que D. dá indicações de que nada mudaria,
Manuel insistiu para que ele acreditasse mesmo que essa “verdade” fosse
sem acreditar e para ocultar as idéias revelada, visto o povo acreditar e venerar

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mais a ação do que algo não perceptível (UNAMUNO, p.62). Lázaro, ao
aos olhos. Vejamos nas palavras do relembrar os ensinamentos do padre após
próprio autor: a sua morte, demonstra que possui sim
uma fé, no entanto, é uma fé na
Se Dom Manuel e seu discípulo
“satisfação de viver” ao contrário dos
Lázaro tivessem confessado ao povo
sua descrença, este, o povo, não homens “nocivos e perigosos” que ele
teria compreendido. Nem teria descreve em sua conversa com Ângela,
acreditado, acrescento. Teria ao dizer que existem certos homens que
acreditado em suas obras, não em atormentam os demais por acreditarem
suas palavras, porque as palavras na existência além-vida e, também,
não servem para amparar as obras, “aqueles que, convencidos da vida no
eis que as obras se bastam. E para além-túmulo, da ressurreição da carne,
um povo como o de Valverde de atormentam os demais – inquisidores
Lucerna não há melhor revelação do que são (...) e aqueles que, não crendo
que a conduta. Nem sabe o povo o senão neste (...) esperam sei lá que
que é a fé e talvez nem se importe
sociedade futura e querem negar ao povo
com isso. (UNAMUNO, p.76)
o consolo de crer em outro”
Dessa forma, o martírio de Dom Manuel (UNAMUNO, p.66).
está em carregar um peso desnecessário,
em proteger sua comunidade desse seu Da mesma forma, Ângela, ao perder seu
medo da morte, cujos fiéis talvez não irmão Lázaro e tendo perdido seu pai
aguentassem. Para Certeau (2010), “o espiritual, retoma os exemplos de ambos.
‘martírio’ predomina lá onde a A partir da distância temporal dos fatos,
comunidade é marginal, confrontada passa a refletir sobre o maior
com uma ameaça de morte, enquanto a ensinamento, de que é “É preciso viver!
‘virtude’ representa uma igreja E ele [D. Manuel] me ensinou a viver,
estabelecida, epifania da ordem social na ele nos ensinou a viver, a sentir a vida, a
qual se inscreve” (CERTEAU, 2010, sentir o sentido da vida” (UNAMUNO,
p.269). Dessa forma, São Manuel opta p.70). No entanto, a narradora pondera
pelo martírio, por achar o mais correto que apesar de repetidamente Dom
com o seu povo, pela causa de “fazer Manuel justificar-se como infiel e
viver” e de “dar a vida” aos fiéis. Perissé confessar tal fato à Lázaro e a ela
(2010) complementa ainda que “o que o mesma, ao final do livro a própria
salva do suicídio, é manter intacta a narradora se questiona se ambos crendo
felicidade alheia, o que lhe dá forças não crer, não acabaram terminando
(precárias) para não sucumbir à dor de acreditando na religião.
ter nascido” (PERISSÉ, 2010). O padre
de Valverde concentra suas forças para Tal como Dom Manuel pregava aos seus
que os seus fiéis não percam a única fiéis que um suicida no último momento
coisa que ele acredita que eles tem, as ainda em silêncio se arrependeria e
verdades cristãs. acreditaria em Deus, Ângela imaginava
que isso também poderia acontecer com
Em seus últimos momentos de vida, seu irmão e Dom Manuel. Apesar de
Dom Manuel dizia a Lázaro e Ângela concluir tal possibilidade, Ângela
para que perseverassem nesse mesmo também se vê em dúvida quanto a sua
objetivo, dizendo a ela “Tu, Ângela, reza própria fé “que se confunde com uma
sempre, continua rezando para que os crise da percepção, pois pergunta-se
pecadores, até a morte, sonhem com a 'aconteceu de fato o que eu estou
ressurreição da carne e a vida eterna...” contando' (...)”, como bem nos aponta

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Perissé (2010). Vejamos o trecho em que colocar perante temas, às vezes,
Ângela passa por essa crise: considerados tabus. Para o estudioso, “os
E eu não sei o que é verdade e o que contos ‘já feitos’ nos ensinam também a
é mentira, nem o que vi e o que morrer. Creio que esta educação ao Fado
apenas sonhei – ou melhor, o que e à morte é uma das funções principais
sonhei e o que apenas vi -, nem o da literatura” (ECO, p.21). Em “São
que soube nem o que cri. Não sei se Manuel Bueno, mártir”, Unamuno
para este papel, tão branco como a coloca na boca de seus personagens
neve, estou transferindo minha muitas dúvidas e desconfortos em
consciência, que nele há de ficar, relação à vida, exorciza a angústia de
ficando eu sem ela. E para que tê-la não saber do outro mundo ou de
agora? Será que sei alguma coisa? reconhecer a sua inexistência e de,
Será que creio em algo? Aconteceu
também, perceber que a vida sem
de fato o que estou contando? E
aconteceu tal como eu conto? E religião, apesar de suas inconsistências, é
essas coisas podem acontecer? reconhecidamente um sistema social que
(UNAMUNO, p.73) possibilita a vida, tornando-a mais
suportável.
Enfim, Unamuno destaca um
personagem santo com a vida doada à
comunidade, que sofre pelo outro e ajuda Referências
incansavelmente aqueles que precisam, CERTEAU, M. de. A escrita da história. Trad.
esquecendo até mesmo de si próprio: de Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro:
elementos típicos da escrita hagiográfica Forense Universitária, 2010.
que preza pela “exemplaridade” e pelas CAMUS, A. O mito de Sísifo. Disponível em
“virtudes” santas. Além disso, podemos http://filosofocamus.sites.uol.com.br/camus_sisif
pensar na função de um texto literário o. Acesso em 05.01.11
que, necessariamente, não precisa se ater ECO, UMBERTO. Ensaios. São Paulo: Record.
a formas fixas, mas causar a tensão ao s/d.
leitor, gerando reflexão sobre temas JORGE, H. São Manuel Bueno, mártir é
possíveis, coerentes e àqueles que ainda também um texto político. Disponível em
nos causam desconforto e dúvida, como http://ocanto.esenviseu.net/apoio/unamun.htm.
é o tema da morte, da existência divina e Acesso em 10.11.2010.
do suicídio. Segundo ECO: LEVI, G. Usos da biografia. In: FERREIRA, M.
de M. AMADO, J. (org.). Usos e abusos da
Ler um conto também quer dizer ser
história oral. Rio de Janeiro: Getúlio Vargas,
tomado por uma tensão, por um 2006. (p.167-182)
espasmo. Descobrir no final se o
fuzil disparou ou não, não assume o PERISSÉ, Gabriel. A Santidade de São Manuel
simples valor de uma notícia. É a Bueno. Disponível em
http://www.hottopos.com/vdletras2/gabr.htm.
descoberta de que as coisas
Acesso em 30.11.2010.
acontecem, e para sempre, de uma
certa maneira, além dos desejos do PESAVENTO, S. J. História e Literatura: uma
leitor. O leitor tem que aceitar essa velha-nova história. Revista Nuevo Mundos
frustração, e através dela Nuevos, 2006. Disponível em
http://nuevomundo.revues.org/1560. Acesso em
experimentar o calafrio do destino.
30.11.01.
(ECO, p.20).
UNAMUNO, M. São Manuel Bueno, mártir.
Além disso, o autor acima citado Porto Alegre: L&P, 1999.
enfatiza essa função literária de nos

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