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Revista Eletrônica da Faculdade Metodista Granbery

http://re.granbery.edu.br - ISSN 1981 0377


Curso de Pedagogia - N. 10, JAN/JUN 2011

A RELAÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO E CAPITALISMO: O ALUNO COMO


"PRODUTO" DA "INDÚSTRIA" ESCOLA

Flávia Alves Bonsanto Batista1

RESUMO:

O presente artigo tem por objetivo discutir o processo de ensino a partir da perspectiva
da formação do aluno, a fim de compreender a relação existente entre a educação e o
paradigma de acumulação flexível, o capitalismo, que é o principal instrumento de força
das políticas neoliberais. Realizou-se um contraponto entre a teoria estudada,
enfatizando legislação e organização do ensino, e a prática da educação, na qual a escola
"assume" o papel de "indústria" que tem como resultado de seu processo um "produto"
denominado aluno, ou seja, mão-de-obra que será vendida ao capitalista. Toma como
ponto de partida um breve histórico acerca da organização econômica e os modos de
produção da sociedade. Em seguida, faz-se uma explanação dos documentos legais que
regem a educação e, ao final, indica-se uma proposta de mudança, sob as premissas de
Paulo Freire, para romper a relação entre a educação e o capitalismo, possibilitando uma
transformação social, na qual o principal objetivo da educação seja a formação para
cidadania, que o aluno seja visto não como "produto" do processo, mas como sujeito
sócio-histórico do mesmo.

Palavras-chave: Educação. Política. Economia. Capitalismo. Transformação Social.


Formação Cidadã.

ABSTRACT

This article aims to discuss the process of teaching from the perspective of the student
in order to understand the relationship between education and the paradigm of flexible
accumulation, capitalism that is the main instrument of force of neoliberal policies. We
performed a comparison between the theory studied, emphasizing law and education

1
Pós-graduanda em Gestão Educacional, turma 2010, pelo Instituto Metodista Granbery,
licenciada em Pedagogia pela Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO/JF), Pedagoga da
Fundação João Theodósio Araújo - Associação dos Cegos e membro da mesa diretora do
Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência de Juiz de Fora (CMPD). E-mail:
fabsukita@ig.com.br.
organization, practice and education, in which the school "assumes" the role of
"industry" which has the result of their process a "product" called student or That is,
labor-work that will be sold to the capitalist. It takes as its starting point a brief history
about the organization and economic modes of production of society. Then, it is an
explanation of the legal documents governing the education and in the end it states a
proposed change under the assumptions of Paulo Freire, to break the link between
education and capitalism enabling social transformation in which the main aim of
education is the training for citizenship and that the student is not viewed as "products"
of the process, but as subjects of the same socio-historical.

Keywords: Education. Policy. Economy. Capitalism. Social Transformation. Training


Citizen.

INTRODUÇÃO

A partir dos estudos realizados na disciplina Fundamentos da Educação,


ministrada pela professora Dra. Cristiane Baquim, do curso de Pós-graduação em Gestão
Educacional do Instituto Metodista Granbery, pôde-se compreender o histórico da
educação brasileira, bem como seus planos de desenvolvimento e a legislação
específica.
Como requisito para conclusão dessa disciplina, realizou-se uma análise
crítica da história dos paradigmas econômicos, diretamente relacionados com a
formação dos alunos, principalmente os oriundos das escolas públicas, paradigmas cujo
objetivo é, ideologicamente, a manutenção do status quo, ou seja, da divisão de classes
e da desigualdade social.
Com a avaliação dessa perspectiva histórica, foi possível realizar um
contraponto entre a teoria estudada, enfatizando legislação e organização do ensino, e a
prática da educação brasileira, que se configura em uma relação direta com o modo de
produção capitalista, no qual a escola "assume" o papel de "indústria" que tem como
"produto" final o aluno, ou seja, mão-de-obra barata, perdendo, assim, sua função
social, que é a formação do educando para cidadania.
O estudo de tais aspectos viabilizou a construção de uma atitude crítica
perante as políticas educacionais da contemporaneidade.
Enfim, o objetivo deste artigo é discutir o processo de ensino a partir da
perspectiva da formação do aluno, dando relevância à relação da educação com o

2
paradigma de acumulação de capital, instrumento de força das políticas neoliberais.

A ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA E OS MODOS DE PRODUÇÃO DA


SOCIEDADE: UM BREVE HISTÓRICO

A fim de entender o atual modo de produção, faz-se necessário um histórico


sobre a organização econômica e os modos de produção da sociedade.
De acordo com Enguita (1989), na idade Média, especificamente no
Feudalismo, a sociedade era estratificada em camadas sociais (nobreza, clero, senhores
feudais e servos). A condição de classe era dada pela circunstância do nascimento. A
posição na sociedade e mesmo a ocupação eram transmitidas de pai para filho, como se
fosse uma determinação divina. O trabalho, nesse modo de produção, visava o sustento
das pessoas, e não o mercado. A produção, tanto de alimentos como de outros bens, era
para manter a comunidade, e o aumento do poder dos grupos dava-se por meio de
guerras de expansão, pois a medida da riqueza era a extensão da terra, e não o volume
de mercadorias acumuladas ou a quantidade de dinheiro.
Nesse modo de produção, o trabalho ainda era concebido como atividade
para a manutenção e reprodução da espécie. Produzia-se para sobreviver, mesmo que a
ordem social fosse injusta, autoritária e violenta. A divisão do trabalho ainda era de
pequenas dimensões, e os trabalhadores deviam ter conhecimentos e habilidades para
cumprir com quase todas as tarefas necessárias para o desenvolvimento do trabalho que,
em última instância, significava sobrevivência. Nos primórdios da sociedade feudal, a
vida econômica existia sem muita utilização do capital. Havia uma economia de
consumo, em que cada aldeia feudal era praticamente auto-suficiente.
Os meios de produção, nesse período, eram de propriedade individual do
trabalhador, que era dono de seus instrumentos de trabalho, dos objetos extraídos da
natureza, que sofriam transformação e, por fim, dos produtos de sua ação, portanto de
seu trabalho, que logicamente era dividido com seu senhor.
Enguita (1989) afirma que a passagem do feudalismo para o capitalismo
marca mudanças importantes e profundas no modo de produzir e reproduzir a existência
humana. A nova ordem social, advinda do capitalismo, só aparece quando algumas
características fundamentais dominam o processo de produção: 1o) o trabalhador perde

3
totalmente a propriedade de todos os meios de produção que poderiam garantir sua
subsistência. Dessa forma, só poderá alcançar sua sobrevivência se vender sua força de
trabalho para os proprietários dos meios de produção, e isto ocorrerá apenas se ele
perder todas as possibilidades de sobreviver de forma autônoma; 2o) passa a ser
fundamental que o trabalhador seja livre de todo tipo de relação jurídica que o prenda a
qualquer modo de servidão, ou seja, não existem mais servos e senhores, e agora todos
podem dispor de sua força de trabalho como quiserem. O trabalhador agora é livre e tem
direitos para vender sua capacidade de trabalhar; 3o) agora o principal objetivo do
trabalho (produção) não se constitui mais na satisfação das necessidades humanas.
Consequentemente, passa-se a produzir para o mercado, visando o incremento da
unidade de capital empregado, o lucro, característica fundamental desse modo de
produção. O trabalhador da economia de subsistência também tinha pouca escolha, dada
sua escassa tecnologia, mas não podia ver isto como uma falta de opções, pois a escolha
entre trabalhar ou não era tão simples quanto a entre comer ou não, vestir-se ou não etc.
O trabalhador atual, em troca, vê diante de si várias opções teóricas, porém há poucas
possibilidades práticas.
Os camponeses da época feudal tinham que entregar parte de seu produto ou
de seu trabalho a seus senhores, mas continuavam vivendo fundamentalmente em uma
economia de subsistência, regida pela lógica da produção doméstica. Primeiramente, em
direção à transição desse modo de produção para o capitalismo, está a divisão do
trabalho, tendo em vista que os artesãos se especializam em um tipo de produção frente
aos trabalhos artesanais complementares da família camponesa, que passam da
agricultura de subsistência à agricultura comercial, logicamente especializada nos
produtos mais demandados pelo mercado. Ao mesmo passo, rompe-se a relação direta
entre a produção e as necessidades, pois não se produz mais para o uso e consumo, mas
para troca.
Posteriormente, acontece a conversão do trabalhador independente em
trabalhador assalariado, no qual o capitalista traz os meios de produção e entrega para o
trabalhador, em troca de sua força de trabalho, apropriando-se do produto final.
Por fim, segundo Enguita (1989), o marco na degradação do trabalho foi a
sua divisão técnica, que teve lugar quando o capitalista, em vez de limitar-se a aceitar os
processos de trabalho estabelecidos, reorganizou o próprio processo de produção. O
trabalhador, que já havia perdido a capacidade de determinar o produto, perde agora o
controle de seu processo de trabalho, entrando em uma relação alienada com sua própria

4
atividade. A divisão técnica do trabalho pode desenvolver-se simplesmente como
decomposição de um processo em suas tarefas integrantes, mas seus grandes progressos
vieram da introdução da maquinaria, do taylorismo2 e do fordismo3. A maquinaria
estabelece um ritmo mecânico ao qual o trabalhador tem que se subordinar.
Bastos (2005) defende que, para que esse modo de produção desse certo, foi
preciso assegurar os mecanismos institucionais para que cada novo indivíduo pudesse
inserir-se nas novas relações de produção, sem provocar conflitos. Por isso, inventou-se
e reinventou-se a escola. A instituição e os processos escolares foram reorganizados de
forma tal que as salas de aula transformaram-se no lugar apropriado para acostumar-se
às relações sociais do processo de produção capitalista, no espaço institucional
adequado para preparar as crianças e os jovens para o mercado de trabalho, que é,
claramente, sinônimo de uma indústria.
Nesse sentido, metaforicamente, a escola “assume” a política neoliberal,
tornando-se uma “indústria” que possui, como linha de produção, os níveis e
modalidades de ensino; como trabalhadores assalariados e "alienados", os professores,
e, como matéria-prima para o produto final destinado ao mercado capitalista, o aluno4.

A EDUCAÇÃO E SUA RELAÇÃO COM O CAPITALISMO

Com o advento do capitalismo, o processo de trabalho foi sendo organizado


e gerido de forma a incrementar a produtividade, a redução de custos e a consolidação
do regime de acumulação do capital. Embora os modos de organizar a produção tenham

2
O Taylorismo se constitui em métodos e técnicas formuladas por Taylor e cujo objetivo é a
decomposição do processo de trabalho nas tarefas mais simples, mediante a análise dos tempos e dos
movimentos. O propósito da "organização científica do trabalho", OCT, é converter a capacidade de
trabalho do assalariado, que o capitalista comprou, no máximo de trabalho efetivo, ou seja, regulação
dos processos de trabalho individuais com vistas à maximização do lucro.
3
O Fordismo, criado por Henry Ford, é a incorporação do sistema taylorista ao desenho da
maquinaria, mais a organização do fluxo contínuo do material sobre o qual se trabalha: simplificando, a
linha de montagem. Com ele, o trabalho alcança o grau máximo de submetimento ao controle da
direção, desqualificando os trabalhadores, o que resulta no mínimo de controle sobre seu próprio
processo produtivo.
4
Cabe ressaltar que, as crianças estão tomando assento nas escolas ou nas "linhas de produção" da
"indústria-escola" cada vez mais cedo, tendo em vista que em 2005, com a lei n° 11.114, retificou-se a
idade de inserção no ensino fundamental para 6 anos, e não mais 7.

5
se modificado ao longo do tempo, seu objetivo sempre foi o de adequar as tecnologias,
as formas de organização do trabalho e os requerimentos de qualificação do trabalhador
ao processo de valorização do capital (BASTOS, 2005).
Para que os modos de produção obtivessem sucesso, era preciso "produzir"
o perfil do trabalhador adequado às atividades. Dessa forma, a escola se adequava às
exigências do mundo do trabalho organizando, o trabalho pedagógico de forma
rigidamente hierarquizada e centralizada, a fim de assegurar a disciplina necessária à
vida social e produtiva.
A globalização econômica mudou as regras de competitividade, forçando
uma transformação nos padrões de produção e comercialização. Isso obrigou as
empresas a buscarem uma produção qualitativamente eficaz e flexível, com menor custo
trabalhista e de capital, o que tornou imprescindível readaptar os sistemas de gestão e
organização do trabalho. Esse novo paradigma técnico-econômico se caracteriza pela
produção flexível e diversificada (BASTOS, 2005).
Então, visto que cada modelo de produção demanda determinadas
capacidades e habilidades por parte dos trabalhadores, o capital espera que, através da
educação, sejam moldados os novos perfis de trabalhadores para se adaptarem às novas
exigências dos mesmos.
No atual paradigma, passa-se a exigir um novo perfil de trabalhador, que
tenha mais conhecimentos, saiba comunicar-se adequadamente, trabalhe em equipe,
adapte-se a novas situações, crie soluções originais e seja capaz de educar-se
permanentemente.
Nesse sentido, para fortalecer a política neoliberal e suprir as novas
exigências impostas pelo capitalismo, a legislação educacional adapta-se, buscando
proporcionar ao aluno uma formação que atenda às exigências de qualificação
colocadas pelo mercado de trabalho, alijando sua função social, que é o
desenvolvimento de potencialidades com vistas à necessária emancipação humana.
Sob essa premissa, Gadotti (1997, p. 50) argumenta:

Como mercadoria o homem não possui valor em si. Seu valor deriva
da relação de troca, enquanto está na origem do lucro, da mais valia e
da acumulação do capital. O trabalhador, diz Marx em O Capital, sai
sempre do processo como nele entrou, fonte pessoal da riqueza, mas
desprovido de todos os meios para realizá-la em seu proveito. Uma
vez que, antes de entrar no processo, aliena seu próprio trabalho, que
se torna propriedade do capitalista e se incorpora ao capital, seu

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trabalho durante o processo se materializa sempre em produtos
alheios.

Dessa forma, tomando como base o pensamento Marxista, percebe-se a


necessidade do rompimento da visão dogmática de que a educação está atrelada e/ou
objetivada, somente, nos pressupostos econômicos de cunho capitalista.
Segundo Bastos (2005), é fato que a atual legislação que trata do Ensino
Médio propõe-se a inserir esse tema na formação geral do educando, tendo em vista que
a aquisição de uma sólida formação básica é considerada como fundamental para a
produção, vinculando, de certa forma, a educação básica ao mundo do trabalho.
Contudo, esse modelo de relação entre educação e capitalismo precisa adotar
como base um novo conceito de qualificação profissional, não mais pautado em
habilidades específicas, típicas de uma determinada ocupação, mas sim numa base de
educação geral, sólida e ampla, que permita ao indivíduo não só acompanhar as
mudanças nos processos produtivos, mas perceber-se como parte dele e da sociedade.
Para Bastos (2005), a formação básica para o trabalho é defendida como
necessária para se compreender a tecnologia e a produção, com o propósito de preparar
recursos humanos adequados à realidade do mundo do trabalho, mas não podemos, com
isso, fazer com que os alunos em formação sejam "montados" numa linha de produção
denominada "indústria-escola", tendo como base o lucro da economia, para serem
"vendidos" como "produtos" ao mercado capitalista.
A fim de fundamentar a crítica sobre a relação da educação com o modo de
produção capitalista, vejamos o que algumas das políticas educacionais definem como
objetivos para educação de qualidade no Brasil: 1) na lei n° 9.394/1996, há a
caracterização do Ensino Médio como uma etapa final de educação geral; 2) Os
Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio ─ PCNEM 1999 ─ indicam que a
formação do aluno deve visar a aquisição de conhecimentos básicos, a preparação
científica e a capacidade de utilizar as diferentes tecnologias relativas à área de atuação;
3) As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio ─ DCNEM ─ colocam a
necessidade de oferecer alternativas de educação e preparação profissional para facilitar
escolhas de trabalho dos educandos.
Bastos (2005) afirma que a preparação básica para o trabalho que consta nos
documentos oficiais analisados enfoca a preparação geral do educando para a inserção

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no mercado. A perspectiva de preparação para o trabalho trouxe avanços qualitativos,
visto que, no contexto atual, se torna extremamente importante que os educandos sejam
preparados para ingressar nesse novo mundo do trabalho.
Todavia, apesar desse avanço, pode-se perceber que esses documentos, de
certa forma, também estão comprometidos com a conservação das relações sociais
excludentes, tendo em vista que a preparação básica para o trabalho visa mais adaptar os
indivíduos às novas exigências do mercado de trabalho, do que propor uma reflexão
crítica a respeito dos fatores condicionantes da inserção produtiva dos indivíduos. Não
se deve objetivar a educação como forma de propiciar aos alunos, principalmente das
escolas públicas, melhores condições de adaptação ao meio. Embora a educação
contribua para uma certa conformação do homem à realidade material e social, ela deve
possibilitar a compreensão dessa mesma realidade com a intenção de transformá-la.
Embasando a reflexão deste trabalho ─ em que objetiva-se uma discussão
com vistas ao rompimento da prioritária relação entre educação e capitalismo, pautado
nas políticas neoliberais e não na função social de formação do aluno ─ toma-se, como
requisito fundamental à verdadeira mudança necessária ao contexto social e
educacional, a fala de Freire (1996, p. 53-54):

Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser


condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais
além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser
determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal
e o inacabado que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de
saber-se inacabado. Gosto de ser gente porque, como tal, percebo
afinal que a construção de minha presença no mundo, que não se faz
no isolamento, isenta da influência das forças sociais, que não se
compreende fora da tensão entre o que herdo geneticamente e o que
herdo social, cultural e historicamente, tem muito a ver comigo
mesmo. Seria irônico se a consciência de minha presença no mundo
não implicasse de minha ausência na construção da própria presença.
Não posso me perceber como uma presença no mundo mas, ao mesmo
tempo, explicá-la como resultado de operações absolutamente alheias
a mim. Neste caso o que faço é renunciar à responsabilidade ética,
política e social que a promoção do suporte a mundo nos coloca.
Renuncio a participar a cumprir a vocação ontológica de intervir no
mundo. O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os
outros me põe numa posição em face do mundo que não é de quem
nada tem a ver com ele. Afinal, minha presença no mundo não é a de
quem a ele se adapta mas a de quem nele se insere. É a posição de
quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da História.

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Enfim, para solidificar essa mudança é preciso dar voz aos educadores que
assumem a frente dessa luta cotidiana e não marginalizá-los como meros trabalhadores
assalariados: é preciso formar futuros cidadãos, e não "produtos" que servirão de mão-
de-obra para o mercado e, sobretudo, é preciso fazer da educação uma ação política e
transformadora, e não uma "indústria" que restringe, respectivamente, a sala de aula e o
aluno a uma linha de produção e a um produto, pois alunos não são objetos, mas sujeitos
da História.

CONCLUSÃO

Como resultado deste trabalho, percebeu-se que a relação entre educação e


capitalismo está presente na legislação educacional vigente ─ lei n° 9.394/1996, bem
como em outros documentos institucionais, e que tal relação é histórica, ou seja, há
algum tempo a escola tem sido o meio pelo qual forma-se a mão-de-obra necessária à
manutenção social.
Através da construção dessa análise, que deu-se a partir dos estudos
realizados na disciplina Fundamentos da Educação e que servirá de requisito para
avaliação e conclusão da mesma, possibilitou-se a realização de um contraponto entre a
teoria estudada, com ênfase nos instrumentos legais, e a prática da educação no Brasil,
que possui uma ampla ligação com o modo de produção capitalista.
Com esse estudo, foi possível firmar uma postura crítica perante as políticas
educacionais contemporâneas e ampliar a compreensão acerca do tema deste artigo,
cujo objetivo foi discutir o processo de formação do aluno, dando relevância à relação
da educação com o capitalismo, relevância esta não com o sentido de reafirmar o status
quo, mas com o sentido de perceber o aluno não como "produto" ou "objeto" do
processo educacional, e sim cidadão formado no seio da escola e, sobretudo, sujeito
ativo de sua própria História.
Cabe ressaltar que a mudança da relação entre educação e capitalismo para
educação e formação cidadã faz-se extremamente necessária. Porém, deve-se notar que
ela já está presente na ação de profissionais envolvidos com a verdadeira função social
da escola, que é a de educar os futuros cidadãos, a fim de promover a transformação da
sociedade e o fim da desigualdade social.

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REFERÊNCIAS

BASTOS, Juliana Curzi. (2005). Trajetória de egressos do ensino médio público do


município de Juiz de Fora: a questão da escolha profissional. Dissertação de Mestrado
não-publicada, Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal de Juiz
de Fora. Juiz de Fora, MG.

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http://www.planalto.gov.br/ccivil 03/Leis/L9394.htm. Acesso em: 27 jul.2010.

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GADOTTI, Moacir. Concepção dialética da educação: um estudo introdutório. 10ª ed.


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