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16 • Público • Quinta-feira, 25 de Junho de 2020

SOCIEDADE

“O b-learning devia car para sempre,


mesmo sem pandemia”
Joaquim Azevedo Depois de muita
“acção”, as escolas devem fazer “a
digestão” do que aconteceu e olhar com
atenção para os alunos que se desligaram
perceber que a mudança e a
Entrevista inovação em educação não são
Helena Pereira (texto) impossíveis. Isto cou claro neste
e Nelson Garrido (fotografia) campo da renovação digital. É pena
que tenha de ser por meios tão
Joaquim Azevedo, o membro mais drásticos e adversos.
antigo do Conselho Nacional de Agora há que aproveitar esse
Educação, vê com optimismo o impulso.
futuro do ensino no pós-pandemia. Sim, essa é a minha tese. Há que
Os impulsos iniciais devem ser fazer um esforço de re exão. Houve
aproveitados e esta é a muita acção nestes três meses. É
oportunidade para reorganizar as preciso fazer um esforço muito
escolas, defende. grande de re exão nas escolas
No 1.º Congresso de Escolas, que tentando perceber os ganhos, fazer
decorreu na Gulbenkian, em o balanço dessas conquistas porque
2017, disse que “a escola não elas podem perder-se rapidamente
pode ser o que era há 30 anos” e se não houver uma re exão muito
que era “preciso perceber o que clara sobre elas. Também [deve
se está a passar à nossa volta”. haver uma re exão] sobre os
Perante a situação que vivemos constrangimentos e principais
hoje com a pandemia, a escola di culdades. E isto deve ser feito ao
percebeu o que se está a passar à nível da escola, de cada
nossa volta ou ainda está mais agrupamento. Com base nesses
distante? dados, deve-se fazer a digestão e
Percebeu bastante bem e reagiu, preparar um plano para a
colocando-se numa atitude de reentrada em Setembro.
emergência. Foi capaz de se O Governo fala numa nova
reinventar com bastante escola digital em Setembro. O
generosidade e criatividade. Isso que vai ser e o que gostaria que
está à vista de todos. Certamente fosse?
que houve di culdades, mas creio Primeiro, as escolas estão com
que houve um banho de realidade muita di culdade em estabelecer
que se impôs. um rumo. É difícil perceber se o
O que trouxe de bom? Consegue modelo vai ser presencial ou à
identificar alguns aspectos distância, qual o tipo de ocupação enriquecedor para o sistema de os professores aderiram do mesmo
positivos? que a escola pode ter, se alunos e ensino a possibilidade de recorrer a modo nem têm competências de
Houve vários. Desde logo fez o professores têm de vir à escola por estas plataformas. A educação tem base para aderirem do mesmo
upload de um conjunto de secções. Com base nessa re exão, mesmo de se tornar mais digital. Há modo a estes desa os de uma
dispositivos tecnológicos que temos de projectar uma forma de escolas que estão a fazer isso há educação mais digital. Agora é
existem e que, por força das trabalhar que preveja, por Esta lógica da vários anos e essas escolas estão a preciso acabar com a lógica de uma
circunstâncias, passaram a ser
generalizados, pese embora haja
exemplo, a modalidade presencial
e a não presencial. Temos de
divisão quase aproveitar muito mais do que as
outras com esta situação. O Estado
educação de emergência para
estabilizar um modelo que
uma grande diferença entre escolas preparar para fazer o melhor napoleónica e tem de apoiar todas e mais ainda as conjugue as duas vertentes do
e entre professores na forma como
isso foi feito. Outro aspecto positivo
possível se for tudo à distância ou prussiana de os que têm mais di culdades neste
processo de digitalização da
b-learning.
Não será o momento para mexer
se for misto.
foi a descoberta pela sociedade da O ministro de Educação já disse alunos estarem educação. Ele é inevitável e, também na formação de
relevância da escola enquanto que o sistema deve ser divididos em articulado com o ensino presencial, professores?
instituição comunitária. Falhar a b-learning. tem potencialidades grandes . Tenho defendido que se deve
escola é falhar uma dimensão Eu próprio penso que o sistema de turmas e ponto E os nossos professores estarão alterar todo o dispositivo disponível
essencial da vida comunitária. Essa
descoberta teve uma contrapartida
b-learning devia car para sempre,
mesmo que não haja pandemia.
nal não faz preparados para isso?
A formação de professores, viu-se
que existe para formar os
professores. Isso começa desde a
dentro da escola que é esta ter em Cada vez mais o recurso a estas sentido nenhum agora, não obedeceu a nenhum base, desde o acesso ao curso de
conta a realidade sociocultural, a
diversidade e a desigualdade que
plataformas electrónicas para o do ponto de vista plano nacional. Ela teve de se fazer,
as pessoas tiveram de se
formação de professores até ao
acesso à pro ssão, à capacitação, à
ensino à distância devia ser
existe entre a população que a complementar ao dispositivo que é do ensino desembaraçar. Há imensas formação contínua e digni cação
frequenta. Há outros ganhos como estarmos presentes. É muito iniciativas de formação. Nem todos das carreiras. Os professores foram
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SOCIEDADE

Portugal... e depois
da pandemia?
Série de dez entrevistas.
Amanhã: Chullage

Acompanhe em
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Enveredando por um ensino sobretudo em motivar, em voltar a imaginavam que fosse tão grande, que é preciso que as instalações
misto no futuro, não se corre o ligar essas crianças e esses jovens porque os lhos vieram para casa e aguentem e implica sempre
risco de aumentar as com o contexto escolar. Isso é os professores entraram em casa e duplicar professores. Não creio que
desigualdades? Como acautelar fundamental. Devia ser feito nas as pessoas perceberam o que é esse estando ao mesmo tempo o país
isso? primeiras semanas. Para aqueles icebergue escondido. Aquilo que se numa situação de depauperação
Talvez tenha sido dos aspectos que que se desconectaram mais, devia via da escola era a parte visível do económica acelerada vá haver
se tornaram logo evidentes. As haver medidas especí cas de apoio icebergue, mas havia toda essa recursos a esse nível, que são os
desigualdades sociais em Portugal durante essas primeiras semanas. parte escondida, que era a vida mais caros. A minha expectativa em
existem, são muito grandes e Se não fazemos isso, o arranque do escolar que é muito, muito relação a isso não é muito positiva.
muitas vezes vamos escondendo e ano escolar vai ser construído relevante. A escola é a instituição Estaremos a caminhar para
empurrando para debaixo do sobre uma situação desastrosa do sociocomunitária por excelência. turmas mais pequenas no futuro
tapete. Essas desigualdades ponto de vista da desigualdade Retirar essa possibilidade faz cair próximo?
repercutem-se em contexto de social. Não devíamos arrancar o um sustentáculo colossal da nossa Não sei, tenho dúvidas. É preciso
emergência educativa de uma ano branqueando essa realidade e vida comum e pessoal. Eu sem os reorganizar a escola e reorganizar
forma muito agressiva, muito dura. abrindo-o como sempre zemos. outros não sou nada. Sou uma os grupos de alunos e os grupos de
Há muitos alunos que desligaram a Isso não devia ser possível. criança ou adolescente que estou a professores. No limite, posso
conexão com a escola e não Um estudo recente da OMS crescer e sem os meus colegas, sem trabalhar com grupos de cem
sabemos bem com que (coordenado em Portugal por os meus professores, só isolado alunos. Há actividades que não
consequências. Sabemos que no Margarida Gaspar de Matos) com os meus pais, não posso podem ser feitas com cem e posso
início houve uma adesão mostrava que os alunos crescer. Não tenho condições de passar para cinco ou 30. Ou posso
relativamente elevada, mas depois, portugueses estão entre os que crescer. Esta descoberta também ter projectos individuais. Isso não
por várias razões, o cansaço, a menos gostam da escola. nos ajuda a perceber que eu preciso requer um aumento de recursos,
saturação, a componente Corremos o risco de este dos outros para ser quem tenho requer é uma grande
tecnológica, a disponibilidade das possibilidades de ser, são eles que reorganização do contexto escolar.
famílias, tudo isso fez com que me “desenvolvem”, que me Esta lógica da divisão quase
muitas crianças e jovens tivessem destapam, que me desocultam. A napoleónica e prussiana de os
optado por se ir desconectando, sua ausência pode ter deixado alunos estarem divididos em
nem o #EstudoEmCasa vêem, não marcas que não sabemos bem turmas e ponto nal não faz
comparecem. Não sabemos bem o quais são. Era bom estudar a sentido nenhum do ponto de vista
que se está a passar com elas do Se no início do ano realidade portuguesa, quase como do ensino. É assim porque se fez
ponto de vista escolar e do ponto as escolas não se se fazem os estudos assim antes. Não tem
de vista de saúde mental, de epidemiológicos. necessariamente de ser assim e até
bem-estar. É preciso também ter reconectarem com Que queixas ouviu mais de tem desvantagens. Era mais
isso em conta no arranque do os alunos que se alunos e professores? adequado ter uma versatilidade
próximo ano lectivo. O que é que as O cansaço, saturação, excesso de grande na organização do grupo de
escolas devem fazer? Como se desligaram, vai ser trabalho. Os professores estão alunos. Há escolas a trabalhar neste
devem organizar? Será um ano desastroso do habituados a um trabalho muito gurino e a tentar recon gurá-lo.
lectivo igual aos outros? Ou o ano isolado na sua disciplina e foi O ensino privado está mais
lectivo devia arrancar de uma ponto de vista das preciso criar um dispositivo de preparado para este contexto de
maneira diferente em cada escola? desigualdades resposta de emergência. A equipa incerteza do que a escola
Essas desigualdades não vão pedagógica começou a criar em pública ou não?
desaparecer, mesmo que o ensino conjunto a semana escolar. Isso é Não tem de estar necessariamente.
o segmento do sistema escolar que seja sobretudo presencial, e é indicador ficar ainda pior? um ganho enorme e é fundamental Depende da escola. Há escolas
menos atenção teve desde o 25 de preciso enfrentá-las. Estes alunos Sim, sobretudo essa população que continuar a fazer isso. Doze, 13 particulares que não estão bem
Abril. Era preciso fazer uma revisão estão com uma di culdade real de não se identi ca com a cultura professores unem-se e programam preparadas. Dos dois lados,
muito mais geral, aproveitando o acompanhamento do percurso escolar. Tem de ser a escola a ir ao uma ou duas semanas de trabalho existem desa os e di culdades. As
facto de haver agora uma geração escolar e é preciso que todo o seu encontro e tem de os envolver, dos alunos e deixam que, dentro instituições do ensino particular
que está a sair. Quem vai entrar são sistema vá em socorro deles e tenha motivar. Tem de ser por aí senão dessa semana ou 15 dias, os alunos encontram-se aptas a serem mais
professores que não são jovens, soluções pedagógicas, corremos o risco de essa desafeição possam gerir o trabalho como ágeis a fazer essa recon guração e
têm 40 e tal anos e estão há 15, 20 organizacionais para o recomeço poder progredir e até ser quiserem de forma a que atinjam os trabalham com populações talvez
anos no sistema, a tentarem do ano escolar. irreparável em alguns casos. objectivos no m da semana ou dos não tão heterogéneas. Aí poderá
pro ssionalizar-se. Esses são os que Teme que o insucesso escolar Neste período de confinamento, 15 dias. haver alguma vantagem. O sistema
estão à frente, não são os que têm aumente no próximo ano? o impacto será maior no sucesso Não vai ser preciso mais estatal é mais lento e pesado. Mas
22 anos. O sistema precisa de ser Esse risco existe, mas é diferente escolar ou na socialização? professores e mais apoio aos globalmente, não. Qualquer escola
muito repensado globalmente. no início de um ciclo ou se estão no Não tenho dados para avaliar. Os alunos? pode dar esse passo. Agora, as
Quem acede aos cursos de meio de um ciclo ou no m de um alunos com níveis de sucesso Não sei como isso vai ser resolvido. equipas educativas deviam ser
formação de professores e com que ciclo de estudos. Sugiro que as médios e elevados terão É um dos problemas porque para mais estáveis. Seria uma pena que
médias? São as piores médias de escolas preparem um plano de aproveitado muito mais do que os termos uma resposta mais as escolas públicas não
acesso. O país está à espera de quê? abertura do ano escolar outros este contexto, mas mesmo personalizada, e se tivermos de incorporassem as dinâmicas mais
É com as piores médias de acesso especialmente focado no combate esses sofreram a falta de convívio, a prosseguir com as medidas de inovadoras. É uma grande
que o país se está a preparar para a essas desigualdades e que tenha falta de dimensão de sociabilidade distanciamento social, vamos ter oportunidade para as escolas
enfrentar os desa os tão colossais um modelo diferente e focado na que a escola contém. Os próprios problemas de organização. Uma públicas e para todas.
que tem a educação? É muito recuperação de algumas pais perceberam a relevância que a das soluções passaria, por exemplo,
estranho. aprendizagens se for o caso mas escola tem de uma forma que não por dividir as turmas. É evidente helena.pereira@publico.pt

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