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Antropologia: Cultura e Sistema Simbólico - Unidade 1 - A Formação da Antropologia Enquanto

Ciência Social

Antropologia:
Cultura e Sistema
Simbólico

Unidade 1 - A Formação da
Antropologia Enquanto Ciência Social

Daniel Ferreira Gonçalves de Oliveira


Antropologia: Cultura e Sistema Simbólico - Unidade 1 - A Formação da Antropologia Enquanto
Ciência Social

Introdução
Todas as outras ciências humanas se ocupam em estudar o homem, mas não
com tanta complexidade e amplitude como a Antropologia, a ciência social capaz de
estudar o homem como criador de culturas, chegando a estudá-las e ainda compará-
las, para um melhor entendimento dessas obras humanas em um contexto geral. O
estudo do homem é bastante diversificado e por isso a Antropologia é dividida em
estudos especializados, como a Antropologia Física, que é comparada às ciências
biológicas devido a ambas estudarem as características biológicas, e a Antropologia
Cultural, que talvez seja a disciplina mais ampla, porque estuda a constante criação
dos homens como seres sociais. Há ainda outras como a Antropologia Social, que se
identifica bastante com a Sociologia; a Etnologia, que é um estudo que compara a
cultura com os problemas de costumes; a Linguística, estudo das diferentes
linguagens; a Arqueologia, que se ocupa em estudar os materiais de trabalho e sua
evolução histórica. Existem outras divisões, mas não são bem definidas devido à
dificuldade e falta de consenso.
Um bom profissional em qualquer área precisa estar ligado a diversos estudos
de diferentes ramos das ciências. A Antropologia apresenta três setores de
concentração e cada um trabalha sempre relacionado a outras ciências, até porque
para que se tenha uma pesquisa de qualidade nenhum ramo desse pode ser isolado.
Como exemplos, temos a Antropologia Física, na qual o estudioso precisa ter um bom
relacionamento com a Biologia, a Zoologia e a Paleontologia, já que o ramo de estudo
utiliza técnicas comuns a estas ciências. A Arqueologia é considerada uma
Antropologia Social, mas com uma diferença: ela se ocupa a estudar as sociedades
primitivas que já desapareceram, portanto é relacionada aos estudos da História,
Geografia e de outros ramos das ciências naturais. O terceiro ramo é o da Antropologia
Social ou Cultural, que se refere aos diversos tipos de culturas inseridos nos diferentes
tipos de sociedades e, por ser um setor muito amplo, pode ser estudado em conjunto
com todos os outros ramos.
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O estudo da humanidade é necessário em qualquer área, afinal somos seres


humanos e assim como estudamos, descobrimos curas, criamos tecnologias e somos
estudados. Um bom médico, por exemplo, precisa saber tratar bem os seus pacientes,
deve ser uma pessoa “humana”, ou seja, entender bem, para cuidar bem do homem e
isso também serve para os diversos profissionais que lidam com pessoas. A
Antropologia é, sem sombra de dúvidas, a maior ciência humana e social, afirmação
que tem como base o seu objeto de estudo, o homem e suas obras.
Vamos abordar de maneira mais profunda esta temática? Bons estudos!

1. Apresentação do Curso
Um enorme desafio está lançado a partir de agora: compreendermos juntos o
fabuloso mundo de uma ciência humana e social, sobre a qual pode-se dizer que é
apaixonante e certamente te dará estímulo para se aprofundar ao longo dos
principais temas da disciplina.
Falaremos de tudo aquilo que a Antropologia representa no campo
acadêmico, no cotidiano social, como ela pode ajudar na sua vida prática e nas
reflexões que permeiam seus estudos seja de que área do conhecimento você for.
Ao longo desse semestre passaremos a traçar um percurso longo, mas que
será gratificante quando concluirmos, afinal a riqueza intelectual que a Antropologia
agrega aos indivíduos é necessária e importante para enriquecer a noção de seres
humanos e de humanidade que devemos ter.
Trata-se do exercício de olhar o outro como diferente e não como inferior ou
superior a nós ditos “civilizados”, ou até mesmo da noção meramente econômica que
norteia as atividades econômicas mundiais, para tecermos classificações como
emergentes, subdesenvolvidos, ou desenvolvidos, potências etc.
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Falaremos sobre as escolas antropológicas e o longo caminho que a


antropologia percorreu para que pudesse se firmar enquanto uma ciência com
métodos e técnicas de pesquisa próprios, bem como de teorias que norteassem sua
capacidade de refletir e analisar as diferentes culturas e sociedades existentes.
Partiremos da abordagem de temas ricos às ciências sociais, na tentativa de
permitir ao aluno que que se aproxime desse universo acadêmico no campo da
Antropologia, de modo a pensar questões tipicamente nacionais e locais e perceber
que no Brasil temos pensadores que contribuíram também para estudos que são
importantes para a compreensão humana.
O rico e complexo mundo da Antropologia poderá ser encarado muitas vezes
como um caminho difícil e detalhado demais. É preciso calma e persistência, pois essa
disciplina exige muita atenção e percepção de diferentes tipos de pensamentos. Por
mais que apresentemos diversas teorias, todas elas são importantes e essenciais para
que o antropólogo ou o profissional que deseja utilizar a antropologia em sua vida
profissional, tenha êxito. A antropologia só tem a acrescentar na vida acadêmica de
cada um que deseja e se permite dar a oportunidade de compreender essa ciência.

1.1. Princípios gerais da disciplina

Temos como objetivo, a partir de agora, introduzir o leitor, apresentando as


características gerais dos conceitos de cultura e símbolo. Iremos apresentar uma série
de autores que marcaram o campo de desenvolvimento histórico das Ciências Sociais,
basicamente aqueles destinados a compreender a noção de cultura e do simbólico no
meio social.

2. Cultura e Produção Simbólica

O conceito de cultura não é exclusivo da Antropologia, mas a busca da ciência


foi separar a cultura da natureza.

2.1. A cultura como conjuntos de sistemas simbólicos


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Você quer ler? Recomendamos essa leitura, que é uma das mais importantes em
termos de Introdução à Antropologia. O Autor é Roque de Barros Laraia, grande
antropólogo brasileiro que se debruçou nos conceitos de Cultura. Vale a Pena! Segue
trecho:
(…) Em suma, a nossa espécie tinha conseguido, no decorrer de sua evolução, estabelecer uma
distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. Os fundadores de nossa
ciência, através dessa explicação, tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem,
pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura da natureza do que
com as especulações de ordem cosmogônica. (Laraia, 1986, 28-29)

O termo cultura esteve presente nos primórdios da Antropologia, e tomamos


a contribuição de Edward Tylor na obra Primitive Culture que nos diz “tomado em
seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos,
crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos
adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Essa ainda era uma
percepção da teoria evolucionista. E em Franz Boas temos elementos essenciais para
o entendimento da cultura: ela é uma alternativa explícita à noção de raça como
explicação das diferenças humanas e tem origem em tempos e espaços diferentes.
Para outros autores, como Lévi-Strauss, a cultura surgiu no momento em que
o homem convencionou a primeira regra, a primeira norma. Para o autor, esta seria a
proibição do incesto presente em todos os grupos humanos. Para Leslie White, a
diferença dos animais irracionais para os racionais se dá no momento que somos
capazes de gerar símbolos. É na manipulação dos símbolos que criamos a cultura e
sua continuidade. Ainda para este autor, “todos os símbolos devem ter uma forma
física, pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência, mas o seu
significado não pode ser percebido pelos sentidos”. (Laraia, 1986, p. 56-57). Só
podemos entender os símbolos conhecendo e compreendendo a cultura que os cria
e como as vivenciam.
O conceito de cultura é frutífero, podendo ser um objeto de formulação do
seu entendimento ou mesmo a busca por sua interpretação. Bem mais do que
procurar o conceito como já apresentamos é ir a fundo nas próprias experiências
humanas e compreender como são produzido os sentidos e significados para os
grupos humanos. Esse será nosso caminho de discussão.
Ao longo da trajetória da história da Antropologia podemos perceber que as
questões rituais e simbólicas estão presentes na abordagem dessa ciência, desde o
evolucionismo, com a obra “O Ramo de Ouro” de James Frazer, como também na
obra “As Formas Elementares da vida Religiosa” de Émile Durkheim. Apesar de ser
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um autor clássico da Sociologia, este faz o esforço de trazer a análise simbólica da


sociedade que permeia até hoje os estudos da Antropologia.
Para Durkheim:

(...) há na religião algo de eterno destinado a sobreviver a


todos os símbolos particulares nos quais o pensamento
religioso se envolveu sucessivamente. Não pode haver
sociedade que não sinta a necessidade de conservar e
reafirmar, a intervalos regulares, os sentimentos coletivos e as
ideias coletivas que constituem a sua unidade e a sua
personalidade (DURKHEIM, 1989, p.504-505).

O autor apresenta que a sociologia se depara com problemas diferentes


daqueles da história ou da etnografia. A pretensão seria a explicação de uma
realidade atual, o objeto de estudo deve buscar a compreensão da natureza religiosa
do homem, elementos que sejam comuns para o entendimento das religiões mais
complexas. Para isso, deve-se entender que cada religião tem uma forma de
interpretar e dar sentido através dos símbolos aos fenômenos, ou seja, cada religião
possui uma verdade em que se acredita, respondendo a determinada condição
humana. A pesquisa tem a finalidade de atingir a realidade que representa. É
interessante notar, que o autor apresenta que cada religião possui sua verdade,
demonstra que não há uma religião superior à outra. A religião tem um papel
importante, que serve para manifestar a natureza da vida religiosa, ou seja, ela é um
sistema simbólico classificatório.

2.2. Cultura e Produção Simbólica: construção e reconstrução


permanentes.

O que podemos dizer é que Durkheim estava estabelecendo o campo de estudo


das representações sociais. Nele, o simbólico torna-se objeto de investigação social,
com regras de cunho social que cabe ao sociólogo o esforço de desvendar. É a partir
dele que os estudos sociais avançam em relação ao campo do simbólico e das
representações sociais.
Os escritos do autor se assemelham à forma da escrita das ciências naturais.
Como ele mesmo afirmava, a analogia não é um método demonstrativo propriamente
dito, mas sim um processo de verificação subsidiária. A comparação é o método por
excelência na sua concepção e um meio prático de demonstração dos fatos.
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Ele afirma que os fenômenos sociais, assim como os fenômenos das ciências
naturais, apresentam leis gerais que podem ser desvendadas pelo cientista. As leis
existem e estão na sociedade para ser investigadas. O que molda características dos
indivíduos é a sociedade à qual pertence o indivíduo, são as representações coletivas
daquele determinado grupo. Toda sociedade representa e essa representação dá
sentido ao mundo social, de tal modo que as representações individuais são
determinadas pelas representações coletivas. Os padrões morais, os costumes e os
aspectos culturais formam um consenso entre os indivíduos que determinam os
fenômenos sociais. Apesar de algumas limitações, é importante destacar que
Durkheim inaugura o campo de investigação que vai permitir caminhos de pesquisa
para outras ciências, como a Antropologia. Segundo, Thomas Kuhn, nenhum
paradigma é irretocável, pois o que é paradigma na ciência é, na verdade, um certo
consenso científico que se estabelece por um tempo até que seja superado por um
outro paradigma, ou seja, por uma outra explicação mais detalhada e convincente. O
que nos interessa nesse autor é que ele abre o campo de estudo das representações.
Segundo Durkheim, as sociedades são regida por leis gerais, sejam aquelas
ditas “primitivas”, sejam as modernas. É destacado na obra que a sociedade determina
o indivíduo, pois é nela que o fenômeno simbólico é considerado como elemento
primordial e princípio fundante do social. Durkheim está instaurando o campo da
investigação simbólica. Em As formas elementares da vida religiosa, as representações
sociais tornam-se fundamento explicativo do social. A religião é um sistema simbólico
que se organiza e representa o todo. A religião é um fator de coesão moral porque ela
é um sistema de significação e de classificação do mundo, que organiza o mundo,
classificando-o e dando sentido ao mundo.
O sistema de representação coletiva se faz, então, da comunicação e do
relacionamento entre os indivíduos. Assim, aprendemos os nossos hábitos, costumes,
crenças, comportamentos, gostos etc., de tal maneira que o estudo das representações
sociais nos ajuda na compreensão dos acontecimentos em nosso cotidiano, que faz
parte do processo de socialização, construção e reconstrução dos aspectos culturais e
simbólicos.

2.3. A comunicação intercultural e a compreensão da produção


de diferenças.

A Antropologia passou por mudanças importantes desde as teorias


evolucionistas ao que entendemos hoje por essa ciência. São indiscutíveis as
contribuições trazidas pelos evolucionistas do século XIX. O evolucionismo é a primeira
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escola do conhecimento antropológico a utilizar o modelo comparativo de análise da


explicação da diversidade cultural.
Celso Castro reúne em sua obra sobre o evolucionismo os textos clássicos dos
autores Morgan, Tylor e Frazer, que marcaram um período da Antropologia em que
se predominou o pensamento evolucionista. Castro tem o objetivo de apresentar o
conteúdo geral do evolucionismo cultural, que formula uma teoria e um método de
investigação científica que tem sua importância na história da tradição antropológica.
Quando pensamos na utilização da história na escola evolucionista, o termo é
reduzido a um quadro evolutivo que tonifica uma visão etnocêntrica de um grupo dito
civilizado, ou seja, os grupos humanos seguem uma via unilinear de evolução,
começando pelo primitivo até chegar ao civilizado. É importante destacar que essa
percepção do evolucionismo responde a questões de seu tempo - cada autor vivencia
questões em detrimento do seu contexto. A partir disso, os viajantes que entraram em
contato com outros povos não mais perguntavam se tratava-se de humanos, e sim
buscavam descobrir em que etapa evolutiva eles estão enquadrados.
De antemão, a perspectiva da escola evolucionista tem em certos momentos
linhas diferentes. O que se pode destacar é que a história pensada pelos evolucionistas
é conjectural – a classificação dos grupos humanos se dava pela presença de vestígios,
relatos que os pusessem em determinada etapa evolutiva. Não podemos deixar de
mencionar e reforçar que esse modo de fazer ciência correspondeu a questões da
época de cada autor e, enquanto uma parte da trajetória da ciência antropológica,
essa seria uma via possível de construção de conhecimento.
Lewis Henry Morgan tornou-se o maior especialista americano sobre a nação
dos iroqueses. Em 1851, Morgan publica um livro dedicado a Parker, intitulado A liga
dos Ho-dé-no-sal-nee, ou Iroqueses. O autor dispõe que o livro tinha um objetivo de
“encorajar um sentimento mais bondoso em relação aos índios, baseado num
conhecimento mais verdadeiro de suas instituições civis e domésticas, e de suas
capacidades de futura elevação.” (CASTRO, 2005, p.10).
Nos estudos realizados por Morgan, o autor utilizou o sistema classificatório de
parentesco dos iroqueses para demonstrar similaridade com outras tribos da região,
como também de outras partes do mundo, ou seja, a iniciativa do autor se deu para
apresentar o desenvolvimento humano. Como método de investigação, o autor
utilizou de questionários distribuídos para as missões religiosas, agências
governamentais e instituições de pesquisa, para recolher dados de outras
organizações de povos indígenas. Em 1871, foi publicado Sistemas de
consanguinidade e afinidade da família humana, em que Morgan chegou a apresentar
dois sistemas de terminologia de parentesco: um descritivo e outro classificatório.
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Morgan estudou cinco casos de grupos humanos: os aborígines australianos,


os índios iroqueses, os astecas, os gregos e os romanos. O autor trabalha com duas
linhas de pesquisa: as invenções e descobertas; e as instituições com o intuito de
indicar os principais estágios de desenvolvimento humano. Para entender a unidade
humana, o autor busca comparar os grupos humanos a partir de alguns eixos:
subsistência, governo, linguagem, família, religião, vida doméstica e arquitetura e
propriedade. Esses eixos estão presentes em diferentes períodos étnicos, em que o
autor produz um sistema de classificação que investiga os grupos humanos em
diferentes períodos, cada um com um determinado padrão de organização com base
nos eixos apresentados.
Em 1855, Edward Burnett Tylor faz uma viagem pelos Estados Unidos e por
Cuba, antes de ir para o México, em que conheceu um homem chamado Henry Christy,
responsável por roubar relíquias preciosas de ruínas dos astecas, e que se encontram
no Museu Britânico. Dessa viagem, o autor publicou o primeiro livro intitulado
Anahuac: ou México, antigo e moderno, em 1861, com a preocupação às antiguidades
do período pré-colombiano. Em 1865, Tylor publica Pesquisas sobre a antiga história
da humanidade e desenvolvimento da civilização, em que procurou organizar dados
trazidos pela arqueologia e pela Antropologia sobre a pré-história humana, o que
levou a publicar o seu livro mais importante Cultura primitiva: pesquisas sobre o
desenvolvimento da mitologia, filosofia, religião, linguagem, arte e costume, publicado
em 1871.

Você sabia? Tylor foi considerado como o pai da Antropologia cultural por ter
fornecido a primeira definição formal de cultura ou civilização: “(...) é aquele todo
complexo que inclui conhecimento crença, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras
capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade.”
(CASTRO, 2005, p. 69). Essa definição seria utilizada para o entendimento de leis do
pensamento e da ação humana, na busca de fenômenos recorrentes na humanidade,
ou seja, o fazer antropológico é a comparação de costumes e crenças.

Tylor volta o interesse em tratar os grupos como humanos, visto que fazemos
parte de uma mesma espécie - humanidade -, que apenas nos diferencia em estágios
evolutivos. Dessa forma, a tarefa do pesquisador é utilizar os dados coletados e
classificar os grupos os distribuindo na geografia, história, e na relação existente entre
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eles, ou seja, o papel do antropólogo é ter um método científico que busque leis e
regularidades das sociedades.
O autor apresenta que a tarefa do etnógrafo é investigar as causas que
produzem os fenômenos de cultura e das leis, montando um esquema de evolução. O
objetivo da ciência, portanto seria esboçar o curso teórico da civilização humana,
utilizando o método comparativo para investigação dos estágios evolutivos.
Em 1908, James George Frazer já consagrado como antropólogo, teria a
condição de se tornar professor de uma disciplina chamada Antropologia Social. Na
Universidade de Liverpool, o autor realizou uma palestra que daria o nome de O
escopo da antropologia social. A Antropologia foi uma das últimas ciências a se firmar,
que tinha como objetivo fazer um estudo abrangente do homem como um todo, não
só em termos de estrutura física e mental, mas também comparar as raças de homem,
seguindo a evolução do pensamento e das instituições humanas. Para Frazer, “a
antropologia, no sentido mais amplo da palavra, visa descobrir as leis gerais que
regularam a história humana no passado e que, se a natureza for realmente uniforme,
é de se esperar que a regulem no futuro.” (CASTRO, 2005, p.104).
A antropologia social, diferente da sociologia, tem um departamento particular
de interesse, e não pretende tratar da totalidade da sociedade humana, passada,
presente e futura, segundo Frazer a pretensão seria buscar a infância, a meninice, o
estudo do passado no presente.

Pois o melhor fruto do conhecimento é a sabedoria, e é


razoável esperar que uma intimidade mais profunda e mais
ampla com a história passada da humanidade permita, em
algum momento, que nossos dirigentes moldem o destino da
raça de formas mais justas do que as que nós, desta geração,
viveremos para ver. (CASTRO, 2005, p. 105).

O conhecimento da Antropologia é tirar dos nativos as verdades contidas nas


condições humanas, ou seja, os ditos “primitivos” trariam as evidências do passado,
que para o autor seria possível através do método comparativo, usar a hipótese de
que a mente humana é similar em todas as raças humanas. Isso sugere que a civilização
evoluiu a partir do selvagem.
Podemos perceber maneiras próprias de se fazer ciência na escola
evolucionista, por exemplo, Morgan realizou visitas a grupos nativos realizando
entrevistas, preocupado em fazer os registros desses povos como resgate do passado
da humanidade. Essa preocupação também é vista no discurso proposto por Frazer,
que atentava para os esforços da Antropologia em registrar os grupos humanos ditos
primitivos, para que estes não se perdessem ou fossem esquecidos, pois eles são parte
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de nossa história passada. Aqui o que entra em debate é perceber nos evolucionistas
pensadores de seu tempo. Eles buscavam um modo de se fazer ciência, e a
classificação dos grupos não é apenas um instrumento utilizado pelos evolucionistas.
Nesse momento, era um modelo próprio de se fazer ciência, o que trouxe certos
equívocos para o pensamento evolucionista.
O período subsequente ao evolucionismo traz novos desafios no estudo da
Antropologia. Pensar na sociedade como formas inferiores e superiores na escala de
evolução não era mais consenso e não respondia mais às novas questões que se
colocava a ciência antropológica. O pensamento evolucionista, ao analisar outros
grupos humanos, o fez sob a ótica de valores do mundo ocidental. A diversidade
cultural é complexa e, para ser entendida, requer o esforço de observar a partir de seu
próprio universo, e não uma imposição. A compreensão passa pelo modo com que
cada povo dá sentido à sua própria existência. Cabe ao antropólogo o desafio de
buscar nos grupos humanos as respostas para suas questões. É imprescindível o
esforço de reconhecer que a produção cultural de cada sociedade é legítima e lógica
dentro do seu próprio modo de viver e produzir significados. Para isso, a Antropologia
precisa se desenvolver para questionar sobre a humanidade a partir das
particularidades e sistematizar as respostas a partir do sentido e significado que os
grupos humanos oferecem a sua existência. É nesse sentido que abrimos as discussões
para o método da observação participante e o trabalho de campo da Antropologia
cultural.

3. A RENOVAÇÃO DA ANTROPOLOGIA PELA


PESQUISA DE CAMPO
O estudo antropológico como uma ciência do homem busca o entendimento
de outras formas culturais de viver e se relacionar com o mundo. Compreender o outro
como ser diferente faz parte do processo de formação da Antropologia e fez parte das
diferentes linhas de pensamento.

3.1. As principais teorias antropológicas do século XX

O que constitui um estudo antropológico não é onde é conduzido ou


em que tipo de povo é realizado, mas sim o quê é estudado e como é
estudado. (E. Evans-Pritchard).

Com base nessa afirmação, a Antropologia deixa de se debruçar em relatos de


viajantes para a construção de um método comparativo para o entendimento das
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sociedades ditas “primitivas” para se voltar à questão da observação participante e


trabalho de campo como característica distintiva da Antropologia das outras ciências.
O desaparecimento dos povos ditos primitivos levou à preocupação por parte dos
estudiosos em coletar e registrar os costumes dos povos e exigir uma compreensão
do fenômeno cultural. Franz Boas traz uma nova maneira de prática antropológica. Ao
ir a campo tudo deve ser anotado. Tudo deve ser objeto de descrição. O autor critica
firmemente a ideia de estágio evolutivo e apresenta que um costume só tem
significação se for relacionado ao seu próprio contexto. E para compreender esse
universo particular, somente o Antropólogo pode dar conta cientificamente de um
grupo humano e apreender em sua totalidade. Pesquisador e pesquisado reunidos
nesse esforço de compreensão.
Malinowski em sua obra “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, de 1922, foi o
primeiro pesquisador a conduzir cientificamente uma experiência etnográfica.

Fonte: Revista ComCiência. Disponível em: <http://www.comciencia.br/tag/bronislaw-malinowski/>

Ele viveu entre o grupo estudado e recolheu todos os materiais necessários para
entender a cultura por dentro, sem interferência do mundo ocidental. É através desse
autor que a Antropologia se torna uma ciência da alteridade no estudo das
características particulares dos grupos humanos. Os costumes dos povos da Ilha
Trobriand têm significação e coerência. Esse esforço do autor em pensar sobre essa
lógica resulta na elaboração da teoria funcionalista. Ele parte do modelo das ciências
da natureza que cada indivíduo sente certo número de necessidades. Cada cultura tem
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como função satisfazer essas necessidades na elaboração de instituições, sejam elas


econômicas, políticas, a fim de organizar a seu modo meios de atender a essas
necessidades. Malinowski trouxe importantes considerações para a Antropologia, na
compreensão de que o único modo de conhecimento em profundidade é a
participação e a prática da observação participante. Não apenas estar lá e olhar, mas
também escrever restituindo a vida cotidiana de um povo.
A Antropologia é uma ciência “dos observadores capazes de observarem a si
próprios.” (LAPLANTINE, 1998, p. 170). A partir do estudo de Malinowski, o trabalho
de campo se firmou como prática antropológica. A imersão no trabalho de campo e
os métodos aplicados de investigação passaram a ampliar o olhar da Antropologia
sobre os aspectos culturais. O esforço do pesquisador se faz em observar os costumes
e práticas sociais como parte integrante de uma determinada realidade social.
Compreender os significados e sentidos dessas práticas a partir do “outro”, através do
olhar do “outro”. O antropólogo traz em sua bagagem todo o aparato teórico
estudado durante sua passagem pela universidade, que vai encaminhar o olhar para
os encontros com aqueles que podem ajudar nas respostas para suas questões. A ida
ao campo é o esforço de estar atento e registrar aquilo que aqueles que participam
não percebem. É abrir a janela para o mundo do outro. Assim, surgem novos olhares
para o fazer antropológico que não cessa.

3.2. Das abordagens deterministas e etnocêntricas para


abordagens caracteristicamente relativistas.

A Antropologia Evolucionista do Século XIX pautou a discussão sob o ponto de


vista da evolução privilegiando o pensamento de Charles Darwin. A sociedade
europeia era considerada a mais evolutiva e as sociedades indígenas, aborígenes como
“mais primitivas”. O que nos leva ao conceito de “civilização” como justificativa para o
domínio de outros povos. Para os povos ditos “primitivos” e inferiores havia uma
necessidade de avançar cientificamente para alcançar povos ditos “civilizados” e
superiores. Essa maneira de entender o mundo a partir de uma lógica civilizacional
impede de perceber as diferenças entre os povos. Essa é uma visão etnocêntrica.
Nas contribuições da obra “O que é etnocentrismo” de Everardo Rocha,
passamos ao entendimento que o etnocentrismo é uma característica humana, ele não
nasce com o indivíduo, nasce com o coletivo, isto é, o indivíduo é construído
coletivamente. Ao estar em sociedade o indivíduo também está inserido no processo
de socialização. O indivíduo se relaciona, pensa, sente, age, enxerga o mundo de uma
forma, e essa maneira de olhar para si mesmo e perceber que faz parte de um grupo
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o faz entender que, como grupo, ele pode encarar que seja um grupo melhor que os
outros.
O etnocentrismo não é um fenômeno exclusivo de uma sociedade. Os
indivíduos enxergam o mundo, sociedade ou grupo em que eles vivem como sendo
um mundo positivo e o que não está nele é algo negativo. Isso pode ser percebido na
colonização, em que os índios não faziam parte de uma visão de mundo ocidental,
que era cristão, dita civilizada. Os europeus percebiam os índios como sendo
diferentes, inferiores, pois eram incapazes de reconhecer o outro como sendo de uma
cultura diferente, com costumes, hábitos, valores diferentes dos deles. Por não
pensarem dessa forma, eles impuseram sua visão de mundo aos índios, acreditando
que esse seria um caminho civilizador.
O que se pode apreender é que o etnocentrismo pode ser usado para
valorizarmos o que somos, mostrando ao outro que temos algo de bom, que podemos
apresentar como lidamos com o mundo e vice-versa. E que não devemos usar o
etnocentrismo para julgar, inferiorizar o outro, não é uma visão errônea de raça que
vai dizer o que realmente somos, e sim a forma como agimos, pensamos, vemos e
vivenciamos o mundo.
Percebemos ao longo do estudo sobre a antropologia que ela se torna cada
vez mais fundamental em questões que envolvem conflitos culturais. Na obra
Relativizando, de Roberto DaMatta, a ideia do etnocentrismo dá lugar ao relativismo,
em que aprendemos que existe uma diversidade cultural e que essa diversidade deve
ser respeitada. Nessa perspectiva a obra consiste em uma leitura do mundo sobre o
ponto de vista do autor. Oferece caminhos para compreender sociedades complexas.
A Antropologia Social estuda o que ainda é desconhecido ou pouco conhecido das
sociedades, tornando o conhecimento sobre si mesmo infinito. Em suas discussões,
DaMatta trata de modelos evolutivos que apenas legitimam modos de viver ocidentais
que fomentaram as expansões e colonizações.
Superar esse pensamento era a verdadeira evolução da ciência antropológica,
de constituir o olhar ao entendimento entre homens e o meio onde está inserido na
busca de conhecimento mais humanizado do “outro” como caminho de compreensão
de nós mesmos. O esforço constante dos pesquisadores é tornar o familiar em exótico
e o exótico em familiar, essa é a missão de produção de conhecimento na
Antropologia. As Ciências Sociais estudam eventos complexos, bem diferente do
objeto das Ciências da Natureza. A principal característica das Ciências Sociais é
estudar eventos inerentes aos acontecimentos humanos. O pesquisado e pesquisador
são parte de um mesmo plano e diferenciam-se apenas em seus modos de viver. O
cientista social faz parte do mesmo universo do pesquisado e seu olhar se lança na
interpretação dos fenômenos sociais a partir dos atores sociais. DaMatta destaca a
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questão de perceber nossos próprios costumes a partir da observação dos costumes


e práticas de outros indivíduos. Portanto, ao priorizar a relativização dos processos
sociais, a Antropologia Social foge da ideia de etapas de evolução para distinguir os
povos, bem como a superação do preconceito e do pensamento em sociedades
inferiores e superiores, e passa a valorizar, pelos próprios indivíduos, quais os sentidos
e significados de suas experiências e vivências.

Você quer ver? O filme Dicionário de Cama conta a história de amor entre o jovem
oficial britânico John Truscott e sua intérprete Iban Selima. A situação apresentada se
passa na década de 1930 e tem como pano de fundo os conflitos entre comunidades
na Malásia colonial, subjugada à Inglaterra. A paixão dos protagonistas surge como
ponto de divergência entre colonos e nativos, o que provoca uma guerra.

4. O FATO SOCIAL TOTAL E A ANÁLISE DA


RECIPROCIDADE
Assim sendo, o objetivo da Antropologia é o estudo da humanidade como um
todo. A ciência se preocupa em pensar os indivíduos como seres pensantes capazes
de produzir cultura. Olhar sobre as experiências humanas de forma particular revela o
conhecimento do homem e seu comportamento a partir de suas experiências. Todo
esse universo particular é dotado de lógica e revela práticas sociais que são base para
o entendimento das instituições e organizações sociais. É nesse caminho que abrimos
as discussões sobre o fato social total e o princípio de reciprocidade.

4.1. Os fenômenos sociais e suas dimensões psicológica,


fisiológica e histórica.

Em o “Ensaio sobre dádiva. Forma e razão de troca nas sociedades arcaicas” de


Marcel Mauss, o autor parte de uma análise do regime de direito contratual e o sistema
de prestação econômicas de sociedade ditas “primitivas”, o autor observou
sistematicamente que a prática de dar e receber presentes entre esses povos revelou
a necessidade de dois importantes objetivos: o primeiro, compreender à natureza
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Ciência Social

dessas transações humanas, levando a questões morais e econômicas; segundo, ao


voltar o olhar para a nossa sociedade constata que essa moral e economia ainda
funcionam nas sociedades mais modernas.
Ao observar o cotidiano da vida social percebemos que numa representação
individual de cada ator social podemos encontrar aspectos sociais. No esforço de
identificar o que leva a retribuir a dádiva, Mauss percebe que muito mais do que uma
simples operação econômica de troca de bens materiais essa prática revela dimensões
fundamentais da vida social dos que realizam a troca. Nesse sentido, o esforço do
cientista social é compreender o que está por trás dessas relações. Na troca percebe-
se um conjunto de valores sociais que reforçam as relações sociais.

A troca não é um edifício complexo, construído a partir das obrigações


de dar. Receber e de retribuir, com o auxílio de um cimento efetivo e
místico. É uma síntese imediatamente dada ao e pelo pensamento
simbólico, que na troca como em toda outra forma de comunicação,
supera a contradição que lhe é inerente de perceber as coisas como os
elementos de diálogo, simultaneamente sob a relação de si e de outro
e destinados por natureza a passar de um para o outro. (Lévi-Strauss
IN Introdução de Marcel Mauss).

Marcel Mauss conceitua fato social total como,

(..) tudo se mistura, tudo o que constitui a vida propriamente social das
sociedades que precederam as nossas – até as da proto-história.
Nesses fenômenos sociais “totais”, como nos propomos chamá-los,
exprimem-se, ao mesmo tempo e de uma só vez, toda espécie de
instituições: religiosas, jurídicas e morais – estas políticas e familiais ao
mesmo tempo; econômicas – supondo formas particulares de
produção e de consumo, ou antes, de prestação e de distribuição, sem
contar os fenômenos estéticos nos quais desembocam tais fatos e os
fenômenos morfológicos que manifestam estas instituições. (Mauss,
1974, p. 41).

E ainda nos revela que se aparentemente o ato de dar, receber e retribuir era
espontâneo ao aprofundar o olhar percebemos que eles eram obrigatórios. Em todas
as sociedades, tradicionais ou modernas, é possível observar o sistema de
reciprocidade que conduz a tríplice obrigação coletiva de doação, de recebimento e
devolução dos bens simbólicos e materiais é o que ele entende por Dádiva. Esse ato é
anterior aos interesses contratuais e às obrigações legais e nos traz uma nova
perspectiva sobre as relações sociais. A ideia de uma ação social neste ato do que é
dado, recebido e retribuído interfere diretamente na distribuição dos membros do
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grupo social, como o estabelecimento de alianças políticas, quem ocupa os espaços


de poder, a sucessão de bens, os vínculos de direito.
Ele introduz o conceito de fato social total na descrição dos fenômenos de troca
e contrato. Mesmo sem ter realizado pesquisa de campo, realizou pesquisa a partir de
dados e eventos que apresentam aspectos de contrato e contraprestações. A dádiva
produz alianças, seja ela matrimonial, política, pacificações e impede guerras. A
sociabilidade da dádiva não se limita a política. A troca pode ser material ou espiritual,
pois dar e receber: se doa uma parte de si, o ato aproxima as pessoas e cria laços
sociais, nos colocamos no lugar do outro e o ato não é desinteressado.

Marcel Mauss ao analisar as práticas de troca de várias tribos norte-americanas


percebe que a obrigação de dar é a essência do potlatch. O potlatch era um sistema
de trocas desenvolvidas por fratrias de uma mesma tribo. “Um chefe deve dar potlatch,
por si mesmo, por seu filho, seu genro ou sua filha, por seus mortos”. (Mauss, 1974, p.
104-105). A doação era um meio de manter a autoridade do chefe. No potlatch
também ocorria troca de gentilezas, ritos, banquetes, mulheres, danças etc. Não se
pode recusar o potlatch. Assim como a obrigação de retribuir é imperativa. A proposta
do autor sobre o potlatch é que como um fato social total é capaz de integrar as mais
variadas esferas da vida social, e ao mesmo tempo, percebe que a partir da experiência
individual caracteres do coletivo. E nas observações de Lévi-Strauss o fato social total
forma-se por uma estrutura sincrônica (social), diacrônica (histórico) e psico-fisiológico
(individual). O entendimento em o Ensaio sobre a dádiva é que nas sociedades ditas
primitivas o presente dado fosse obrigatoriamente retribuído.
O autor oferece grandes contribuições às Ciências Sociais ao trazer o conceito
de fato social total, que além das sociedades estudadas e observadas por Mauss a
mesma análise pode ser realizada nas sociedades contemporâneas. E podemos trazer
algumas conclusões importantes.
O sistema de prestações econômicas e bens materiais constitui o mais antigo
sistema de direito e economia. É nele que encontramos a moral da dádiva. Parte de
nossa vida e da nossa moral está na ideia da dádiva, da obrigação. Aquele que não
retribui o que foi dado é inferiorizado, pois não existe dádiva sem a expectativa da
retribuição. As sociedades progridem à medida que elas mesmas e os subgrupos
estabeleceram as relações de dar, receber e retribuir. A vida social não é somente
circulação de bens, mas também de pessoas, pois pode ser realizado a prestações de
serviços espirituais.
A noção de contrato revela a sociabilidade criada pela dádiva e apresenta as
regras da própria organização social. O fato social total apresenta que trocar permite
uma relação entre homens, entre subjetividades, uma sociabilidade. A antropologia se
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Ciência Social

dispõe a compreender o estudo dessas relações e as regras que a estabelecem. Regras


que se manifestam na religião, política e economia. Podemos perceber a diversidade
nas formas de troca. É a coletividade que se obriga mutuamente a trocar.

4.2 Os fatos sociais da observação direta as representações

Marcel Mauss define que a sociedade é primeiramente instituída pela dimensão


simbólica que independe ser tradicional ou moderna. A ideia do fato social total é uma
representação simbólica. A sociedade como um todo integrado produz os vínculos
sociais no interior das práticas sociais. O interesse se faz em perceber no cotidiano, no
dia-a-dia o que circula entre os atores sociais que produz o vínculo social que são
exatamente os bens materiais e simbólicos de que a sociedade se dispõe para se
reproduzir por meio das relações sociais. Como vimos a dádiva é muito mais do que
uma troca econômica ela se manifesta em objetos como dinheiro, carros, roupas, mas
também na gentileza, nos sorrisos, na hospitalidade, nas alianças, entre outros. Para
Mauss, o que circula nas relações sociais influi decisivamente como se formam os
atores sociais e como são definidos seus papéis sociais na sociedade.
As relações entre os indivíduos são mais importantes que os papéis
desempenhados por eles na sociedade. O sistema de dádiva é mais claro nas relações
interpessoais. Como parte da rede de sociabilidade familiar, de amigos, de vizinhos,
de colegas de trabalho. Está presente em todos os planos da vida social mediante a
expectativa da retribuição, da reciprocidade. Basta se pedir um favor a alguém se sente
a necessidade de um dia retribuir esse favor. Podemos exemplificar também que ir a
uma festa de aniversário sem presente nos traz vergonha, nos sentimos constrangidos.
Isso é parte da nossa experiência e vivências culturais. Os rituais e cerimônias são parte
das relações sociais e implicam em obrigações impostas pelo social de manter certas
regras que nada mais é que o princípio de reciprocidade.
Portanto, o indivíduo é parte do processo de socialização. Socialização é
compreendida como padrões que coordenam as ações individuais, assim como
também a interiorização desses padrões que o torna parte da sociedade, como parte
de uma cultura. Na troca de bens materiais e simbólicos entre ele e as instituições é o
que transforma a sociedade. De tal forma, que podemos observar os comportamentos
individuais e compreender os vários aspectos que direcionam a conduta dos
indivíduos.

Síntese
Antropologia: Cultura e Sistema Simbólico - Unidade 1 - A Formação da Antropologia Enquanto
Ciência Social

Nesta unidade, vimos que a cultura é produzida a partir de aspectos que são
compartilhados numa sociedade. As práticas, costumes, ritos são parte da cultura. A
cultura é um sistema de símbolos. Observamos que desde a teoria evolucionista, os
pesquisadores no esforço do seu tempo demonstraram a partir de dados colhidos por
relatos a diferença técnica entre os povos, apesar de distinguir os grupos humanos
por etapas evolutivas. Era necessário entender que o homem é um ser pensante que
produz cultura.
Em resumo, nesta unidade aprendemos que:
● Cada grupo humano tem seus aspectos culturais particulares e foi nesse
caminho que a ciência começa a constituir novos desafios a partir da teoria
funcionalista trazida por Malinowski;
● A observação participante e o trabalho de campo inauguraram uma prática
antropológica seguida até hoje pelos cientistas sociais na Antropologia;
● As instituições, organizações, ritos, costumes, comportamento geram
significados e são dotados de sentido pelos indivíduos;
● Os símbolos são construídos socialmente e foram eles que impulsionaram as
obras de Durkheim sobre a religião e Dádiva de Mauss;
● A maneira que cada grupo humano produz cultura e constroem seu sistema
simbólico é o que nos diferencia.

Na próxima unidade abordaremos métodos e técnicas de pesquisa, além de


conhecer as teorias antropológicas. Até lá!
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Ciência Social

Bibliografia

CASTRO, Celso. Evolucionismo cultural/textos de Morgan, Tylor e Frazer; textos


selecionados, apresentação e revisão, Celso Castro; tradução, Maria Lúcia de Oliveira
– Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005.

DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. 6. ed. Rio de


Janeiro: Rocco, 2000.

DURKHEIM, Émile. Sociologia e Filosofia. Prefácio de C. Bouglé. Paris, F. Alcan. (Trad.


port. de J. M. de Toledo Camargo. Rio de Janeiro, Ed. Forense, 1970.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na


Austrália/ Émile Durkheim: tradução Paulo Neves – São Paulo: Martins Fontes, 1996 –
(Coleção Tópicos).

ROCHA , Everardo. O que é Etnocentrismo, Ed. Brasiliense. 1984.

LARAIA , Roque. Cultura. Um Conceito Antropológico, Jorge Zahar Editor. 1986.

__________________.“Da Ciência Biológica à Social: A Trajectória da Antropologia no


Século XX”, in Habitus, V. 3, n. 2, p. 321-345, jul./dez. 2005.

MALINOWSKI, Bronislaw. Argonauts of the Western Pacific, Prospect Heights, Ill.,


Waveland. 1984 (1922).
Antropologia: Cultura e Sistema Simbólico - Unidade 1 - A Formação da Antropologia Enquanto
Ciência Social

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva, Lisboa, Edições 70. 1988 (1924)

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