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Universidade Federal de Juiz de Fora

Programa de Pós-Graduação em História

Mestrado em História

Álvaro Saluan da Cunha

AS LITOGRAFIAS DA COLEÇÃO “QUADROS HISTORICOS DA GUERRA DO


PARAGUAY” NA DÉCADA DE 1870: PROJETO EDITORIAL E IMAGENS

Juiz de Fora

2019
ÁLVARO SALUAN DA CUNHA

AS LITOGRAFIAS DA COLEÇÃO “QUADROS HISTORICOS DA GUERRA DO


PARAGUAY” NA DÉCADA DE 1870: PROJETO EDITORIAL E IMAGENS

Juiz de Fora

2019
ÁLVARO SALUAN DA CUNHA

AS LITOGRAFIAS DA COLEÇÃO “QUADROS HISTORICOS DA GUERRA DO


PARAGUAY” NA DÉCADA DE 1870: PROJETO EDITORIAL E IMAGENS

Dissertação apresentada ao Programa de


Pós-Graduação em História, da
Universidade Federal de Juiz de Fora,
como requisito final para obtenção do
título de Mestre em História.

Orientadora: Prof.ª. Dr.ª Maraliz de Castro


Vieira Christo

Juiz de Fora

2019
ÁLVARO SALUAN DA CUNHA

AS LITOGRAFIAS DA COLEÇÃO “QUADROS HISTORICOS DA GUERRA DO


PARAGUAY” NA DÉCADA DE 1870: PROJETO EDITORIAL E IMAGENS

Dissertação apresentada ao Programa de


Pós-Graduação em História, da
Universidade Federal de Juiz de Fora,
como requisito final para obtenção do
título de Mestre em História.

Juiz de Fora, 12/02/2019.

Banca Examinadora

__________________________________________

Prof.ª Dr.ª Maraliz de Castro (UFJF) – Orientadora

__________________________________________

Prof. Dr. Paulo Knauss de Mendonça (UFF)

__________________________________________

Prof.ª Dr.ª Silvana Mota Barbosa (UFJF)

__________________________________________

Prof. Dr.ª Rogéria Moreira de Ipanema (UFRJ) - suplente

__________________________________________

Prof. Dr.ª Maria Fernanda Vieira Martins (UFJF) – suplente


Não será ela, será o Martinho
À Zelina.
Avó, amiga e guardiã que sempre lutou pela educação dos seus netos.
À Maria Aparecida.
Mãe, obrigado por me ter permitido o dom de sonhar e voar.
Agradecimentos

Nenhum trabalho, nem mesmo o intelectual, é feito sozinho. Somos diretamente


influenciados pelas relações sociais que mantemos em nossas vidas. E bem, na academia não
seria diferente. Todavia, somos muito mais do que isso e, o quanto antes descobrimos, melhor
é a forma com a qual levamos nossa vida e carreira.

Não teria como começar os agradecimentos sem citar minha família. Minha mãe, a
mulher da minha vida; meus irmãos, Felipe e Gabriel, meus melhores amigos; meus avós
paternos, Manoel e Valdair, que me apoiam sempre que preciso; meus avós maternos, Zelina
e Calil, pessoas que a vida nunca conseguirá substituir, donos da minha saudade. Todos vocês
sempre me deram, cada um à sua maneira, forças pra continuar. Peço enormes desculpas por
ser uma ovelha desgarrada, mas parece que assim quis o destino. A cada um de vocês dedico
estas páginas, fruto de um trabalho de quase 5 anos. Fruto do meu sonho. Nosso sonho.

A minha querida orientadora, Maraliz, por ter acreditado em mim e neste tema. Graças
a você, pude amadurecer e, mais do que isso, evoluir diariamente, seja na escrita, na pesquisa
ou na vida em geral. Como sempre lhe digo, ter sido reprovado na primeira vez pode ser
considerado um dos pontos fundamentais para o sucesso na segunda tentativa, tendo a
pesquisa ocorrido sem desespero ou atrasos. Você me inspira.

Aos membros da banca, que tanto auxiliaram para o sucesso do trabalho. A estimada
Silvana Barbosa, que desde a graduação, sempre deu apoio às minhas empreitadas. Obrigado
por estar presente mais uma vez. Agradeço também por ter me dado um empurrão para ir
além, tendo a honra de poder seguir com um novo trabalho no doutorado. Ao professor Paulo
Knauss, que prontamente respondeu meus e-mails e se interessou pela pesquisa, me guiando
em uma visita maravilhosa ao Museu Histórico Nacional, onde pudemos debater um pouco
sobre De Martino e suas produções.

À Universidade Federal de Juiz de Fora, CAPES, CNPq, ao Programa de Pós-


Graduação em História e seus TAEs e professores, por sempre darem o apoio necessário nos
momentos de dúvida (ou desespero).

Aos meus grandes amigos que foram base e apoio no litoral. Adrian Pérez, que sempre
me abrigou nos momentos que mais precisei e cuidou de mim como um pai; a Raphael Braga,
grande amigo que tive a honra de conhecer na Semana de História da UFF, e que me salvou
com sua dissertação sobre De Martino e me acompanhou na última pesquisa in loco; e ao
grande papai Lucas Cruz, que também me prestou grande assistência nas pesquisas feitas no
Rio de Janeiro, onde sempre terminávamos em um bar refletindo mais sobre história e a vida.
Vocês três me tiraram o medo de andar no Rio de Janeiro. Acredite, isso é impagável.

Aos amigos e amigas do Laboratório de História da Arte (LAHA), que sempre


estiveram ao meu lado, me aturando falar por horas e horas, seja em eventos ou no convívio
diário. A cada pequena ajuda, apoio, palavras de conforto e piadas com a minha tagarelice.
Vocês são parte fundamental em minha formação, e sempre agradecerei a cada um de vocês.

Aos amigos de convívio diário, seja pela internet ou na vida real. Pedro e Hugo Jehle,
Rodrigo Camurça, Guilherme Guimarães, René Eberle e Guido Del’ Duca, Allony Macedo,
Thiago Firmino, Diego Schaeffer, Camila Souza e Matheus Guimarães, que diariamente me
fazem rir da vida (ou choram juntos). Em dias difíceis a vida fica menos complicada com
vocês.

Às equipes dos acervos da Biblioteca Nacional, Museu Histórico Nacional e Arquivo


Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que me receberam de forma bastante gentil, e agilizaram
bastante o processo de pesquisa.

Aos colegas de profissão e amigos, Antônio Gasparetto, Amanda Tostes, Samuel


Vieira e Dievani Vital, por terem me dado todo o apoio necessário ao longo da escrita do
projeto, nas duas tentativas de ingresso no mestrado.

Concluindo, peço as mais sinceras desculpas se, por ventura, me esqueci de alguém. A
trajetória de uma pesquisa e os caminhos da vida são longos e a memória, a cada dia que
passa, mais curta. Portanto, peço gentilmente que, a cada um que tiver me ouvido falar sobre a
pesquisa e teve paciência, sinta-se abraçado. Um pouco dessa conquista também é de cada um
de vocês, amigos, colegas de faculdade e trabalho, ex-namoradas e tantas outras pessoas que
passaram e deixaram um pouco de inspiração.

Em um momento onde o medo parece se personificar, o mínimo a fazer é seguir


estudando, mesmo que o futuro na área acadêmica ainda seja completamente incerto. De
qualquer maneira, seguirei o meu caminho, resistindo ao retrocesso. Pois a educação
transforma e, graças a ela, pude chegar até aqui.
“Eu tentei fugir, não queria me alistar,
Eu quero lutar, mas não com essa farda.”
(Núcleo Base – Ira!)
Resumo

Esta dissertação tem como objetivo explicar a coleção Quadros historicos da guerra do
Paraguay, produzida na década de 1870. Na primeira parte, serão abordados aspectos como
produção, circulação e edição, bem como os editores, escritores, desenhistas e litógrafos
envolvidos, tendo como base a própria coleção e registros da imprensa da década de 1870,
disponíveis na Hemeroteca Digital. Também serão analisados de forma geral os textos
presentes em cada fascículo, que relatam a partir de diferentes perspectivas e fontes os
acontecimentos da guerra. Na segunda parte, serão também abordados os pintores Victor
Meirelles, Pedro Américo e Eduardo De Martino, artistas cujo algumas de suas obras ou
esboços deram origem às gravuras de tradução pertencentes à coleção. Além disso, as
imagens serão analisadas iconograficamente, sendo comparadas com obras congêneres, além
de serem contextualizadas, tratando o que cada uma delas busca narrar, assim como seus
personagens e embarcações.

Palavras-chave: Quadros historicos da guerra do Paraguay, Guerra da Tríplice Aliança,


litografias, século XIX, mercado editorial.

Abstract

This master thesis consists to explain the collection Historical paintings of the war of
Paraguay, produced in the 1870s. In the first part, aspects such as production, circulation and
editing, as well as the editors, writers, designers and lithographers involved will be
approached based on the collection itself and press records of the 1870s, available in the
Digital Library. Also analyzed in general form are the texts present in each issue, which report
from different perspectives and sources the events of the war. In the second part, will also be
approached the painters Victor Meirelles, Pedro Américo and Eduardo De Martino, artists
whose some of their works or sketches gave origin to the translation engravings belonging to
the collection. In addition, the images will be analyzed iconographically, being compared with
similar works, in addition to being contextualized, treating what each of them seeks to narrate,
as well as their characters and boats.

Keywords: Historical paintings of the war of Paraguay, War of the Triple Alliance,
lithographs, nineteenth century, editorial market.
Lista de ilustrações

Imagem 1. ALLEN, James. Vista geral do theatro da guerra: feita a voo de pássaro. 1868.
Litografia de A Vida Fluminense. In: Suplemento da Vida Fluminense. 51 cm x 45cm.
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 2. INGRES, Jean Auguste Dominique. Don Pedro de Tolède baisant l’épée d’Henri
IV, c. 1816. Óleo s/ tela. Chateau de Pau, Pau.

Imagem 3. INGRES, Jean Auguste Dominique. Don Pedro de Tolède baisant l’épée d’Henri
IV, 1816. Assinada e datada (Ingres inv et pinxit / Rome 1816). Lavagem sépia e lápis preto
sobre papel, 26,6 x 19,5 cm. Disponível em:
http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/2017/bekessy-pf1730/lot.453.html.

Imagem 4. INGRES, Jean Auguste Dominique. Don Pedro de Tolède baisant l’épée d’Henri
IV, c. 1832. Óleo s/ tela, 36 x 26 cm. Museu do Louvre, Paris.

Imagem 5. INGRES, Jean Auguste Dominique. Don Pedro de Tolède baisant l’épée d’Henri
IV, c. 1814. Óleo s/ painel de madeira, 48.5 x 40.5 cm. Coleção privada, Nova Iorque.
Disponível em: http://matthiesengallery.com/work_of_art/don-pedro-of-toledo-kissing-the-
sword-of-henri-iv.

Imagem 6. DELAROCHE, Paul. Cromwell et Charles I, c. 1831. Óleo s/ tela, 228,5 × 295,5
cm. Museu de Belas Artes de Nimes, Nimes.

Imagem 7. ROGERS, J.. Baseada em pintura de DELAROCHE, Paul. Cromwell et Charles I,


c. 1853. Gravura feita em chapa de aço com borda decorativa, aprox. 17,0 x 25,0cm.
Disponível em: https://www.antiquemapsandprints.com/english-civil-war-cromwell--charles-
is-body-charles-ii-hides-in-the-oak1853-205043-p.asp. Outras gravuras são datadas de 1859.

Imagem 8. SCHEFFER, Ary. Les ombres de Francesca da Rimini et de Paolo Malatesta


apparaissent à Dante et à Virgile, 1835, assinada em 1851. Óleo s/ tela, 172,7 x 238,8 cm.
Departamento de Pinturas do Museu do Louvre, Paris.

Imagem 9. SCHEFFER, Ary. Les ombres de Francesca da Rimini et de Paolo Malatesta


apparaissent à Dante et à Virgile, 1855. Óleo s/ tela, 171 x 239 cm. Museu do Louvre, Paris.
Imagem 10. GREVEDON, Henri. Amélie Impératrice du Brésil, 1830. Litografia s/ papel
gravada por Louis P. Alphonse Bichebois, 56,8 x 40,5 cm. Acervo da Pinacoteca do Estado de
São Paulo, São Paulo.
Imagem 11. GREVEDON, Henri Pedro Primeiro, Imperador do Brasil, 1830. Litografia s/
papel, 47,6 x 34,6 cm. Coleção Brasiliana Itaú.

Imagem 12. MEIRELLES, Victor. Assalto e ocupação de Curuzú. Litografia baseada em


óleo, Huascar litógrafo, edição de Fígaro, 50 cm x 70,50 cm (aprox.). Museu Histórico
Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 13. MEIRELLES, Victor. Primeira missa no Brasil. 1860. Óleo s/ tela, 268 cm x 356
cm. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 14. VERNET, Horace. Primeira missa em Kabylie. 1853. Óleo s/ tela, 194 cm x 123
cm. Musée cantonal des Beaux-Arts, Lausanne, França.

Imagem 15. MEIRELLES, Victor. Batalha dos Guararapes. 1875-1879. Óleo s/ tela, 500 cm
x 925 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

Imagem 16. GUERRE du Paraguay: Prise de la batterie de Curuzù (3 septembre) par le 2º


corps d'armée brésilien, sous les ordres du lientenant-général vicomte de Porto-Alegre.
Gravura baseada em esboço do M. Paranhos. In: L'Illustration: journal universel, Vol.
XLVIII, nº 1.238, 17/11/1866.

Imagem 17. MEIRELLES, Victor. A passagem de Humaitá. Litografia baseada em óleo,


Souza Lobo litógrafo, 50 cm x 69,50 cm. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 18. MEIRELLES, Victor. A passagem de Humaitá. Gravura feita por Souza Lobo
Lit., em chine-collé, baseada em óleo, 50 cm x 69,50 cm. Hemeroteca Digital.

Imagem 19. MEIRELLES, Victor. Passagem de Humaitá. C. 1868-1872. Óleo s/ tela, 268 cm
x 435 cm. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 20. TURNER, Willian. Fishermen at Sea. 1796. Óleo s/ tela, 91,4 cm x 122,2 cm.
Tate Britain, Londres.
Imagem 21. MEIRELLES, Victor. Esboço de paisagem para Passagem de Humaitá: barranco.
C. 1868-1870, óleo s/ tela, 51,0 cm x 71,8 cm. Museu Victor Meirelles, Florianópolis.

Imagem 22. MEIRELLES, Victor. Estudo para a Passagem de Humaitá. 1886. Guache s/ tela,
53,5 cm x 37 cm. Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo.

Imagem 23. MEIRELLES, Victor. Estudo para Passagem de Humaitá (Abordagem dos
paraguaios ao monitor Alagoas comandado pelo Capitão-Tenente Maurity em 19 de fevereiro
de 1868), C. 1868-1872. Óleo s/ madeira, 44,2 cm x 67,5 cm. Museu Victor Meirelles,
Florianópolis.

Imagem 24. MARTINO, Eduardo De. Passagem de Humaitá, c. 1868. Óleo s/tela, 50 cm x
150 cm., Coleção Fadel, RJ.

Imagem 25. CARVALHO, Trajano Augusto de. Passagem de Humaitá: episódio da guerra do
Paraguai ocorrido em 1868, em que a esquadra brasileira forçou a travessia da posição
fortificada, sob bombardeio inimigo. Marinha do Brasil.

Imagem 26. AGOSTINI, Angelo. Passagem de Humaitá: effectuada, na noite de 19 de


fevereiro de 1868, pelos encouraçados Barroso, Bahia e Tamandaré, levando a reboque os
monitores Rio Grande, Alagoas e Pará. 1868. 25 cm x 44 cm. Biblioteca Nacional, Rio de
Janeiro.

Imagem 27. O Alagoas passando Humayta. C. 1868. Fotografia em papel albuminado preto e
branco, 4,9 cm x 8,8 cm. In: Álbum de retratos e vistas referentes ao Paraguai. Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 28. MEIRELLES, Victor. O Passo da Pátria. Litografia baseada em óleo, 52 x 68,50
cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 29. MEIRELLES, Victor. O Passo da Pátria. Litografia baseada em óleo, A.


Campbell litógrafo. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 30. LÓPEZ, Cándido. Llegada del ejército aliado a la fortaleza de Itapirú, abril 18 de
1866 (entre 1876 y 1885).
Imagem 31. AMÉRICO, Pedro. A rendição de Uruguayana. Litografia baseada em óleo,
desenho de Ângelo Agostini, Vida Fluminense Of. Litográfica, Alf. Martinet litógrafo, 50,50
x 68 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 32. PINHEIRO, Francisco Manoel Chaves. Dois aspectos da Estátua equestre de Sua
Majestade D. Pedro II em Uruguaiana, 1866-1870. Gesso. Museu Histórico Nacional, Rio de
Janeiro. Arquivo pessoal.

Imagem 33. LANGE, Janet; COSSON-SMEETON. Guerre de la Plata: Capitulation des


paragueéns enfermés dans la ville Uruguayana. - D'aprés un croquis de M. Francisco Rubio. 3
February 1866. L'illustration: journal universel, Vol. XLVII, nº 1.197 (03/02/1866).

Imagem 34. AMÉRICO, Pedro. Rendição de Uruguayana. Litografia baseada em óleo, J.


Reis litógrafo, 50,50 x 68 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 35. AMÉRICO, Pedro. Rendição de Uruguayana. Litografia baseada em óleo, A.


Campbell litógrafo. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 36. TERRAGNO, L. Fotografias de D. Pedro II, Conde D'Eu e do Duque de Saxe,
possivelmente em Uruguaiana. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 37. VIENOT, Edouard. D. Pedro II, Campanha de Uruguaiana, Guerra do Paraguai,
1874. Óleo sobre tela, 257 cm x 160 cm. Coleção D. João de Orleans e Bragança.

Imagem 38. VELÁZQUEZ, Diego. 1635. A rendição de Breda. Óleo s/ tela, 307 cm x 367
cm. Museu Nacional do Prado, Madri.

Imagem 39. LEONARDO, Jusepe. The surrender of Jülich. 1634-1645. Oleo s/ tela, 307 cm
x 381 cm. Museu do Prado, Madri.

Imagem 40. THÉVENIN, Charles. Reddition de la ville d'Ulm, le 20 octobre 1805, Napoléon
Ier recevant la capitulation du général Mack. 1805-1815. Óleo s/ tela, 260,5 cm x 392 cm.
Collections du château de Versailles, França.

Imagem 41. PIGEOT, Francois. Prise d'Ulm, le 17 octobre 1805. 1805. Litografia colorida,
34 cm x 48 cm. Paris.
Imagem 42. AMÉRICO, Pedro. O ataque da ilha da Redempção. Litografia baseada em óleo,
J. Vitorino litógrafo, 52,5 cm x 71,5 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 43. AMÉRICO, Pedro. Combate da Ilha de Redenção em 1866. Litografia baseada
em óleo, A. de Pinho lit., 40 cm x 57,5 cm.

Imagem 44. GAILDRAU, Jules. Combat de l’isle de la Rédempcion das le Paraná (10 avril):
la 19ª brigade brésillienne commandée par le colonel Villagran Cabrita repoussant l’assaut
des paraguayens. 1866. In: L'illustration: journal universel, Vol. XLVII, nº 1.215, 09/06/1866.

Imagem 45. SOTO, José C. (org.). Ataque dos paraguaios à Ilha Carayá (depois Cabrita),
guarnecida pelos brasileiros, na noite de 10 de abril de 1866. In: Album de La Guerra del
Paraguay, [Buenos Aires]: [s.n.], 1893-1896, Vol. I.

Imagem 46. CAMINHOA. Ataque da ilha do Carvalho e derrota dos paraguayos no dia 10 de
abril de 1866. Litografia baseada em desenho. Publicada pelo Imperial Instituto Artístico.
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 47. CONSELHEIRO, Octaviano. Plano do Rio Paraná desde as Tres Bocas até
acima do Forte de Itapiru. 1866. Litografia, 29 cm x 46 cm. In: Supplemento da Semana
Illustrada. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 48. MARTINO, Eduardo De. Passagem do Curuzú. Litografia baseada em óleo,
desenho de R. Pontremoli, Alf. Martinet litógrafo, 54,80 cm x 71 cm (aprox.). Museu
Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 49. DE MARTINO, Eduardo. Passagem de Curuzu. Grafite e aguada de aquarela s/


Papel, 12,4 cm x 18,6 cm. Museu Naval. In: GOMES, Patricia Miquilini. A Coleção
Eduardo de Martino no Museu Naval do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Rio de
Janeiro: UNIRIO/MAST, 2018.

Imagem 50. DE MARTINO, Eduardo. Paszaggio de Curuzu. Grafite s/ papel, 11 cm x 17,6


cm. Museu Naval. In: GOMES, Patricia Miquilini. A Coleção Eduardo de Martino no
Museu Naval do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro:
UNIRIO/MAST, 2018.
Imagem 51. CHAVES, João Adrião. Planta da parte do rio Paraguai em que se deu combate
da canhoneira Ivaí com a Fortaleza de Curuzu. C. 1866. Planta cartográfica litografada, 32 cm
x 24,5 cm. In: Semana Illustrada. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 52. MARTINO, Eduardo De. Bombardeio de Curuzú. Óleo s/ tela. Museu Histórico
Nacional.

Imagem 53. FORTUNE, F. El Encorazado Rio de Janeiro echado á pique por un torpedo
paraguayo, frente a Curuzú, el 3 de setiembre de 1866.

Imagem 54. MARTINO, Eduardo De. O reconhecimento de Humaitá. Litografia baseada em


óleo, desenho de R. Pontremoli, 54 cm x 74,5 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de
Janeiro.

Imagem 55. RECONHECIMENTO de Humayta em 16 julho 1869. Carte de visite, papel


albuminado, p&b, 4,7 cm x 8,5 cm. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 56. DE MARTINO, Eduardo. Ataque e tomada do Estabelecimiento. Litografia


baseada em óleo, desenho de R. Pontremoli, 54 cm x 74,5 cm (aprox.). Museu Histórico
Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 57. DE MARTINO, Eduardo. Barone del Triumfo. Bico de Pena a tinta ferrogálica e
aguada de ferrogálica s/ papel, 22,4 cm x 30,8 cm. Museu Naval. In: GOMES, Patricia
Miquilini. A Coleção Eduardo de Martino no Museu Naval do Rio de Janeiro.
Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UNIRIO/MAST, 2018.

Figura 58. DE MARTINO, Eduardo. Duas Cenas de batalhas. Bico de pena a tinta ferrogálica
s/ papel, 26,0 cm x 20,3 cm. Museu Naval. GOMES, Patricia Miquilini. A Coleção Eduardo
de Martino no Museu Naval do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro:
UNIRIO/MAST, 2018.

Imagem 59. DE MARTINO, Eduardo. Cavalei morti e brasiliani. Bico de pena a tinta
ferrogálica e aquarela s/ papel, 20 cm x 28,5 cm. Museu Naval. In: GOMES, Patricia
Miquilini. A Coleção Eduardo de Martino no Museu Naval do Rio de Janeiro.
Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UNIRIO/MAST, 2018.
Imagem 60. JANET-LANGE; COSSON-SMEETON. Prise d'assaut de la forteresse
d'Estabelecimiento, le 19 février, 1867. Gravura baseada em esboço de M. Paranhos. In:
L'illustration, Journal Universel, Volume 51, Paris, 1868.

Imagem 61. AGOSTINI, Angelo. Combate naval do Riachuelo. 1871. Alf. Martinet litógrafo,
48,5 cm x 67,10 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 62. MEIRELLES, Victor. Combate naval do Riachuelo. 1883. Óleo s/ tela, 420 cm x
800 cm. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 63. AGOSTINI, Angelo. De volta do Paraguai. Vida Fluminense, nº 12, junho, 1870.
Imagem 64. Detalhe de AGOSTINI, Angelo. Combate naval do Riachuelo. 1871. Alf.
Martinet litógrafo, 48,5 cm x 67,10 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.
Imagem 65. Detalhe de AGOSTINI, Angelo. Combate naval do Riachuelo. 1871. Alf.
Martinet litógrafo, 48,5 cm x 67,10 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro e

Imagem 66. Detalhe de AGOSTINI, Angelo. Combate naval do Riachuelo. 1871. Alf.
Martinet litógrafo, 48,5 cm x 67,10 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 67. GROS, Antoine-Jean. Napoleon on the Battlefield of Eylau. 1807. Óleo s/ tela,
104,9 cm x 145,1 cm. Toledo Museum of Art, Toledo.

Imagem 68. MARTINO, Eduardo De. Batalha naval do Riachuelo. 1870. Óleo s/ tela. Museu
Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 69. MARTINO, Eduardo De. Batalha Naval do Riachuelo, 1875.

Imagem 70. VON HOONHOLTZ, Antônio Luís (Barão de Tefé). Batalha naval de Riachuelo
no dia 11 de junho de 1865. C. 1865. Litografia baseada em desenho. Publicada pelo Imperial
Instituto Artístico. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 71. VON HOONHOLTZ, Antônio Luís (Barão de Tefé). Scena do Combate Naval
de Riachuelo no dia 14 de junho de 1865. C. 1865. Litografia baseada em desenho, 28 cm x
45 cm. Catálogo da Exposição de História do Brasil In: Supplemento da Semana Illustrada.
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Imagem 72. COSSON-SMEETON & LEBRETON. Bataille navale de Riachuelo, dans les
eaux du Parana. Entre les escadres Brésilienne et Paraguéenne (11 juin), 1865. Gravura
baseada em desenho enviado pelo Sr. Félix Vogeli. In: L'illustration, Tomo XLVI, Paris,
1865.
Lista de tabelas

Tabela 1 - Os Quadros historicos da guerra do Paraguay

Tabela 2 - Compras feitas pelos ministérios


Sumário

Agradecimentos .......................................................................................................................... 6
Resumo ....................................................................................................................................... 9
Lista de ilustrações ................................................................................................................... 10
Lista de tabelas ......................................................................................................................... 18
Sumário..................................................................................................................................... 19
Introdução ................................................................................................................................. 21
PRIMEIRA PARTE: O PROJETO EDITORIAL .................................................................... 31
1. Produção ............................................................................................................................... 33
2. Circulação ............................................................................................................................. 39
3. Editores, desenhistas e litógrafos.......................................................................................... 50
4. Escritores .............................................................................................................................. 58
4.1. Henrique Cesar Muzzio ..................................................................................................... 59
4.2. Augusto Emilio Zaluar ...................................................................................................... 59
4.3. Francisco José Pinheiro Guimarães ................................................................................... 60
4.4. José Ferreira de Menezes ................................................................................................... 61
4.5. Felix Ferreira ..................................................................................................................... 62
5. Textos ................................................................................................................................... 63
SEGUNDA PARTE: PINTORES E IMAGENS ..................................................................... 67
1. Reproduções e réplicas: das pinturas para as estampas ........................................................ 71
2. Victor Meirelles .................................................................................................................... 92
2.1. Assalto e occupação de Curuzú ......................................................................................... 98
2.2. A passagem de Humaitá .................................................................................................. 103
2.3. O Passo da Pátria ............................................................................................................. 116
3. Pedro Américo .................................................................................................................... 119
3.1. A rendição de Uruguayana .............................................................................................. 125
3.2. O ataque da ilha da Redempção ...................................................................................... 136
4. Eduardo De Martino ........................................................................................................... 143
4.1. Passagem do Curuzú........................................................................................................ 149
4.2. O reconhecimento de Humaitá ........................................................................................ 155
4.3. Ataque e tomada do Estabelecimiento ............................................................................ 158
5. Combate naval do Riachuelo: questão de autoria............................................................... 163
Conclusão ............................................................................................................................... 175
Referências bibliográficas ...................................................................................................... 179
Periódicos ............................................................................................................................... 186
Apêndice A – Ordem cronológica da guerra da Tríplice Aliança .......................................... 189
Anexo A – Quadros historicos da guerra do Paraguay ........................................................... 203
Introdução ............................................................................................................................... 203
I. Combate naval do Riachuelo............................................................................................... 204
II. A rendição de Uruguayana................................................................................................. 224
III. O ataque da Ilha do Cabrita ou da Redempção ................................................................ 236
IV. A passagem de Curusú ..................................................................................................... 250
V. A passagem de Humaitá .................................................................................................... 262
VI. A tomada de Curuzú ......................................................................................................... 280
VII. O reconhecimento do Humaitá ....................................................................................... 294
VIII. A passagem do Passo da Patria ...................................................................................... 310
IX. Tomada do forte do Estabelecimiento .............................................................................. 327

Aconselho a iniciar a introdução mostrando como as gravuras foram


gradativamente aparecendo na historiografia como ilustração, sem maiores
cuidados, desconhecendo-se o conjunto e suas condições de produção. Também
enfatizaria a década de 1870 como período de criação de uma memória para o
conflito e aí apresentaria os dados iniciais para o leitor saber que coleção é essa.
Introdução
Conte
Contemporaneamente, a relação dos indivíduos com as imagens é certamente neste
primeiro
naturalizada. Todavia, tal envolvimento nem sempre foi assim, há toda uma construção
parágraf
histórica presente nesse longo processo. Das pinturas rupestres aos computadores e o a
história
fotografias por dispositivos móveis, a difusão das imagens serve para perceber as
resumid
transformações do homem no tempo e no espaço, sendo um bom ponto de reflexão para se a da
coleção,
compreender como a humanidade chegou onde está. Graças aos esforços de variados
para
pesquisadores, tais objetos puderam ser melhor compreendidos, destacando-se aqui neste situar o
leitor.
trabalho a trajetória das gravuras e da imprensa ilustrada no século XIX.
Antes de aprofundar em outras questões, torna-se necessário deixar explícito o
objetivo desta pesquisa. Ela consiste em trazer à luz a coleção Quadros históricos da guerra
do Paraguay e , suas litografias e textos. Serão abordadas questões relacionadas a sua
editoração, produção e circulação; os artistas e escritores envolvidos e a análise iconográfica
de cada uma das gravuras. Paralelamente, serão abordadas questões relacionadas ao cenário
da imprensa brasileira da década de 1870, destacando e comparando as litografias da coleção
com as produções artísticas e dos periódicos ilustrados da última metade do século XIX.
Nessa época, ocorre um grande avanço tanto na produção de arte, quanto na difusão da
imprensa por uma ainda limitada parcela da população. Isso se deve ao fato de o império
atravessar um período de grande evolução, buscando inserir-se no hall das nações ditas
“civilizadas”, termo constantemente cunhado na época.
Porém, para se compreender melhor o que se passava no cenário do objeto estudado, o
Rio de Janeiro, torna-se necessário contextualizar as constantes mudanças do século XIX,
enfatizando-se no desenvolvimento da Corte. A imprensa consolidou um ponto de
convergência das esferas públicas, levando uma série de questões para os jornais, fomentando
ainda mais a opinião pública, ao se tornar território de densos embates, sendo alguns destes
sobre as próprias artes produzidas no momento. Ainda sobre as artes, os periódicos também
tiveram um papel fulcral na divulgação de várias obras através das litografias, potencializando
assim o poder pedagógico das pinturas históricas daquele período. Neste trabalho, serão
analisadas especificamente as produções acerca da guerra feitas entre as décadas de 1860 e
1870.
Nessa aproximação com o conflito, serão tratados também, de brevemente, aspectos da
modernização vivida pela sociedade brasileira oitocentista. As histórias e representações

21
narradas pela coleção, que se encontram integralmente em anexo, trazem à luz questões como,
por exemplo, alguns relatos sobre os feitos dos agora conhecidos patronos das armas
brasileiras e outros personagens, além de batalhas que dão nome a tantas ruas no país e que
pouco são conhecidas pelos populares.
Mas, para que toda essa história possa ser narrada, é interessante regredir alguns anos,
no contexto da própria pesquisa e suas questões, processo por vezes desconsiderado pelos
historiadores e que muito impacta na investigação.
A investigação sobre a coleção Quadros historicos da guerra do Paraguay, tem uma
trajetória interessante e merece ser explicitada. A pesquisa, que teve início em meados de
2013, ainda em uma disciplina da graduação, consistia na análise de apenas uma das nove
litografias, a Rendição de Uruguaiana, litogravura baseada em obra de Pedro Américo. A
partir dela, a ideia inicial era a de observar as relações da litografia com criações congêneres
do autor e também de artistas franceses que abordavam a temática da rendição. Através de um
artigo relacionado ao leilão do Paço Imperial1 e de alguns trechos encontrados em pesquisas
na imprensa oitocentista, foi possível verificar a existência de uma possível pintura e do
esboço que deram origem a essa gravura, mas apenas textualmente. Posteriormente, a
de
pesquisa foi levada adiante sob o auxílio da professora Maraliz Castro Vieira Christo, que
segue orientando-a no Programa de Pós-Graduação em História da UFJF.
Ao longo da investigação sobre esta única litografia, objeto principal do primeiro
projeto de mestrado, foi descoberto que ela fazia parte de um conjunto de gravuras
relacionadas a algumas passagens da guerra da Tríplice Aliança. A partir dessa descoberta e
da busca das fontes in loco, decidiu-se então por estender a análise para toda coleção, com o
objetivo de se compreender a sua totalidade e, desse modo, buscar responder uma série de
questões que serão levantadas ao longo de todo este trabalho.
foi
Parte das buscas desta coleção foram feitas na web, algo que possibilitou a localização
total ou parcial das imagens da coleção. Neste momento, os textos ainda eram desconhecidos.
As imagens, objetivo primário da pesquisa, foram sendo encontradas em diversas formas:
avulsas, em fascículos incompletos e em formato encadernado com todos as imagens e os
textos, algo que abriu ainda mais o leque de oportunidades sobre o conjunto analisado.
Algumas dessas imagens também foram encontradas online por meio de uma página do

1 SANTOS, Francisco Marques. O leilão do paço imperial. Anuário do Museu Imperial. Petrópolis: 1940, v. 1,
p. 151-316.

22
Museu Mariano Procópio2, o que agilizou o processo de análise iconográfica e iconológica.
Nelas, constava uma ficha catalográfica básica que tratava as dimensões das gravuras, artistas,
litógrafos e outros aspectos relevantes.
Porém, no decorrer das análises, foi de extrema importância incluir, estudar e dar
maior ênfase ao entendimento da imprensa do século XIX, justamente para se entender como
tais gravuras e fascículos circulavam pela capital da Corte, o Rio de Janeiro, e até mesmo por
outras localidades. Mais do que isso, buscava-se também captar as dinâmicas e valores
culturais e econômicos das litogravuras para responder uma série de perguntas, que seguiam
surgindo com a constante descoberta das novas fontes, através de variados anúncios em
periódicos.
Embora as pesquisas em acervos como o Acervo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o
Museu Histórico Nacional e a Biblioteca Nacional não tenham tido problemas burocráticos,
elas trouxeram um impasse: a ausência de algumas informações nas fichas catalográficas,
questão que foi sendo gradativamente complementada a partir das informações que foram
sendo obtidas na imprensa. No caso da Biblioteca Nacional, por exemplo, por algum motivo,
no início da pesquisa, as obras não estavam disponíveis digitalmente na Hemeroteca Digital,
algo que causou estranheza até mesmo nos funcionários da casa. Posteriormente, em 2018, ao
se realizar nova busca, foi possível perceber que a edição agora se encontra digitalizada em
alta resolução, algo que provavelmente ocorreu por conta desta pesquisa.
Ao se investigar o cenário das ilustrações no período, faz-se necessário entender a
consolidação da imprensa no país a partir de um lento processo iniciado de forma “oficial” em
1808. Seu ápice aconteceria em meados da década de 1870, produzindo um vasto número de
gravuras, caricaturas e histórias. A produção de imagens baseadas no conflito da Tríplice
Aliança contra Solano López e a República do Paraguai também foi muito abordada,
ilustrando as páginas dos jornais e informando o seleto grupo de leitores.
Ao longo do oitocentos, a imprensa ilustrada europeia se organizava ao perceber que o
recurso visual, no caso a imagem, tornava o produto impresso mais receptivo, sobretudo aos
menos letrados. Este fenômeno ocorreria de forma mais lenta no Brasil, sobretudo pelos
embargos colocados pela coroa portuguesa, como a censura e o controle das publicações. Luiz

2 A página conta com uma considerável parte do acervo do museu digitalizado. Ver mais em:
http://mapro.inwebonline.net/.

23
Marcelo Resende3 esclarece que a “imagem combinada ao texto contribuiu para novas formas
de leitura”, sendo o encontro entre o texto e a imagem na narrativa observado como uma
linguagem amplamente instigadora da crescente indústria cultural. Ele complementa que
“esses encontros tecnológicos aproximaram métiers, criaram novas profissões e remodelaram
a indústria gráfica”. Outro aspecto que deve ser considerado como fator importante na difusão
das imagens da época é o aprimoramento nos transportes e, consequentemente, nos sistemas
de entrega, algo que culminou em um maior raio de alcance dessas gravuras em um espaço de
tempo mais curto, sobretudo a partir da segunda metade do século.
Sobre a recepção dos periódicos, Marco Morel e Mariana Monteiro de Barros tratam
de um período anterior, entre as décadas de 1820 e 1830, mas que pode ser transportado como
exemplo para os leitores da década de 1870, guardadas as devidas proporções e diferenças.
Ao tratar os leitores, os autores os dispõem entre ativos e passivos. Os primeiros, os leitores
ativos, são aqueles com que alguns periódicos priorizavam o diálogo, visto pelos seus autores
como “os membros da República das Letras”, cujo interesse era de interagir com os grupos
dirigentes, ansiando pela consolidação dos grupos letrados, formando assim um grupo
privilegiado que aproximasse as elites culturais das dominantes4.
Já o público leitor observado como passivo, não era necessariamente ausente dos
movimentos sociais e políticos. Muito pelo contrário, estavam apenas fora desta elite letrada e
dos grupos de poder, sendo uma classe muito mais idealizada, considerada rude, pobre,
iletrada e sem instrução. Ou seja, eram vistos pelos letrados como o alvo dos esforços
culturais de uma elite que não queria escrever apenas para os seus pares, mas que tinham
como objetivo aumentar a “República das Letras”5.
Morel e Barros6 concluem que os homens de letras do período acreditavam ser
representantes imbuídos da missão de executar uma missão pedagógica civilizadora,
incorporando à sociedade as camadas menos abastadas, vistas com maus olhos pela elite no
geral. Desejavam alguns destes homens transformá-los em “elementos úteis e integrados, por
meio da educação e da cultura, do trabalho e a um determinado grau de cidadania”. A pobreza

3 RESENDE, Luiz Marcelo. A migração da arte pictórica europeia para a imprensa brasileira no final do século
XIX. 19&20, Rio de Janeiro, v. XII, n. 2, jul./dez. 2017. Disponível em:
http://www.dezenovevinte.net/obras/lmr_imprensa.htm.
4 MOREL, Marco, BARROS, Mariana Monteiro de. Palavra, imagem e poder: o surgimento da imprensa no
Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, pp. 38-39.
5 Ibid, p. 40.
6 Ibid, p. 41.

24
e a ausência do mínimo de instrução eram as características marcantes deste público, tido
como passivo e necessitado das Luzes dos homens esclarecidos.
Além da passividade acima referida, pode-se cogitar ainda mais um motivo para a
expansão das imagens, sendo esta também uma linguagem ainda em definição, porém muito
mais simples do que o processo de alfabetização, uma questão problemática no Brasil. Para se
ter um panorama, a taxa de analfabetismo, em 1820, alcançava 2/3 dos brasileiros, ou seja,
cerca de 64,9% da população acima de quinze anos não sabia ler7. Já os números levantados
nos censos, que vão de 1872 a 18908, giravam em torno de 82,5%9, um dado alarmante do
período. Atribui-se que essa expansão ocorreu por, pela primeira vez, a população escrava ser
incluída nas estatísticas censitárias.
Devem também ser levados em consideração os diferentes tipos de comunicação
presentes no período. Segundo Peter Burke10, o costume de ler em voz alta para diversas
pessoas era bastante corriqueiro no século XIX,

pelo menos como ideal, como atestam muitas imagens. É provável que os textos (...)
que circularam em regiões onde o analfabetismo era alto, fossem lidos em voz alta
nas villées, ocasião em que vizinhos se encontravam para passar parte da noite
trabalhando ou ouvindo esses textos.

A partir do raciocínio de Burke é possível levantar que, hipoteticamente, as pessoas de


menor instrução acabavam por receber as informações difundidas pela imprensa por meio da
linguagem oral, que amplificava o poder de alcance das informações. As gravuras também
podem ser consideradas como forma facilitadora de se fixar as ideias, sendo mais fáceis de
serem lidas.
Ao tratar a produção das gravuras, a autora Rogéria de Ipanema mostra que elas são

(...) é fonte expandida de estudo, porque é arte e aplicação. Encontra seu lugar na
lógica da dispersão, porque é arte e é produto, e como tal executa projetos definidos
em diversos programas, em frente de ações constituídas das necessidades de
informação promovidas pela comunicação visual. Reproduzir é próprio de sua
natureza. Natureza profana vivificada no uso, dentro de um universo que se fez cada

7 FERRARO, Alceu Ravanello. História quantitativa da alfabetização no Brasil. In RIBEIRO, V. M. (org.).


Letramento no Brasil. São Paulo: Global, 2003, pp. 195-207.
8 Nessas ocasiões não foram especificas idades para o levantamento do analfabetismo.
9 Idem. Analfabetismo e níveis de letramento no Brasil: o que dizem os censos? Educação Social, vol. 23, n. 81,
dez. 2012. Campinas: Unicamp, p. 33.
10 BURKE, Peter; BRIGGS, Asa. Uma história social da mídia. De Gutenberg à internet. Rio de Janeiro:
Zahar, 2004.

25
vez mais cotidiano e necessário, dimensionada na própria história da cultura
humana11.

Ao considerar as gravuras dessa forma, a autora mostra que elas vão se consolidando
no cotidiano não só como produtos, mas também como uma forma de arte, dessacralizando-a
do círculo fechado das exposições e colocando em circulação para um número muito maior de
espectadores que talvez jamais tivessem acesso à ideia original. Giulio Argan inclusive
enfatiza que “(...) a cultura artística europeia desenvolveu-se em grande parte, através das
reproduções de obras de arte por meio da gravura em cobre (...)12”. No Brasil, a gravura não é
colocada no mesmo âmbito das belas-artes, sendo considerada como “arte industrial”. Ela
encontrou pouco espaço nas Exposições Gerais de Belas Artes e dentro da própria Academia.
Contudo, contavam com grande aceitação por parte do limitado público para qual ela era
direcionada. Um exemplo disso é a insistência de Henrique Fleiuss para que existisse uma
cadeira de xilografia na Academia, mas sem nenhum êxito.
Em relação a ideia de Fleiuss, Rafael Cardoso explica a partir do decreto n. 8.802, de
16 de dezembro de 1882, o cenário que viviam as gravuras até então, onde se buscava

a criação de uma cadeira de ‘xilographia’ em substituição à gravura de


medalhas e pedras preciosas. O então diretor, Antônio Nicolau Tolentino,
manifestou-se contra a mudança, declarando que a gravura de medalhas era mais
importante em uma academia de belas-artes (grifos nossos), e a congregação
conseguiu arrastar os pés até 1884 quando foi obrigada a elaborar um programa de
concurso para a nova cadeira. O governo alterou este programa, suprimindo as
provas de desenho a pena e de composição histórica como requisitos, ação que
estimulou a comissão de professores encarregada do concurso a redigir uma carta de
protesto. Os autores dessa carta questionaram se o legislativo tinha mesmo por
intenção substituir o ensino de um ramo das bellas-artes por outro meramente
industrial, desfalcando assim a congregação da Academia por retirar um artista para
collocar nella um mesteiral13. A nova cadeira jamais foi lecionada e a polêmica em
torno da xilogravura continuou até o restabelecimento da gravura de medalhas com
os novos estatutos de 189014.

O que se percebe, neste momento, é que ainda se via as gravuras como meios
meramente industriais, feitos por ‘mesteirais’, artífices, reforçando a ideia acima de um

11 IPANEMA, Rogéria Moreira de. A arte da imagem impressa: a construção da ordem autoral e a gravura no
Brasil do século XIX. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, 2007, pp. 2-3.
12 ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e persuasão: ensaios sobre o barroco. Rio de Janeiro: Companhia das
Letras, 2004, p. 16.
13 Atas – Sessões da Presidência do Diretor 1882-1890. [livro A.05; Museu D. João VI], p. 1, 6-8, 61.
14 CARDOSO, Rafael. A Academia Imperial de Belas Artes e o Ensino Técnico. In: 180 Anos da Escola de
Belas Artes. Anais do Seminário EBA 180. 2. impr. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998, pp. 181-195.

26
preconceito ainda muito forte, baseado ainda no enciclopedismo iluminista. A isso, pode
atribuir-se os pensamentos tradicionalmente franceses arraigados na formação artística do
Brasil do século XIX. Mesmo com a Reforma Pedreira, ocorrida após a nomeação de Araújo
Porto-Alegre, em 1854, que buscou implantar, mas sem muito sucesso, o ensino de ofícios na
Academia, pode-se perceber que, mais de vinte anos depois, essa questão seguiria sendo
debatida.
Para explicar melhor essa influência francesa, Joaquim Marçal mostra que no século
XVIII,

o enciclopedismo iluminista classificara cinco áreas de criação (pintura, escultura,


arquitetura, poesia e música) como ‘belas-artes’, relegando todo o resto a um
patamar de inferioridade implícita. As outras formas de criação plástica passaram a
ser designadas por termos como artes ‘aplicadas’, ‘decorativas’, ‘utilitárias’ ou o
temível ‘artes menores’, instaurando uma dicotomia com as supostas ‘artes maiores’
que perduraria até o século 20, e que, ainda hoje, ronda a distinção essencialmente
arbitrária que se faz entre arte e design15.

Com base no enciclopedismo iluminista, o cenário brasileiro seguia reproduzindo


essas questões entre as belas-artes e as artes aplicadas, decorativas e utilitárias que, por vezes,
acabavam sendo citadas como artes menores. Todavia, este amplo debate não reduz a
importância observada contemporaneamente nas gravuras, sólidas fontes para estudos
iconográficos de épocas anteriores, como é o caso deste trabalho.
Isso deve aparecer na primeira citação do autor
Giulio Carlo Argan, historiador e teórico italiano, analisa melhor a questão das
imagens de uma forma geral, cunhando o termo ‘gravura de tradução’ para explicar todo o
processo entre a obra de arte, o olhar do artista que a reproduzia e o resultado final, um objeto
distinto do original. Essas gravuras de tradução eram entendidas por Argan não como cópias,
tampouco como uma subespécie de réplica, implicando em uma

problemática bastante diferente, que tem a sua importância para a história da teoria e
da crítica da arte. A réplica e a cópia pressupõem simplesmente a ideia de que
determinado procedimento operativo que produziu certo resultado possa ser
repetido dando lugar a um resultado idêntico; se, no entanto, a qualidade da
réplica ou da cópia parecer inferior àquela da invenção inicial, esse fato é
imputado à escassa habilidade ou precisão do executante, e não ao princípio de
que a obra de arte seja, por sua própria natureza, irrepetível (grifo nosso)16.

15 ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. A Semana Illustrada e a guerra contra o Paraguai: primórdios
da fotorreportagem no Brasil. Rio de Janeiro, 2011. Tese (Doutorado em História Social) – Instituto de
História, Universidade Federal do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2011, pp. 180-181.
16 Ibid, 2004, p. 16.

27
Embora na coleção estudada nem todas as obras sejam propriamente gravuras de
tradução de outras obras, vale destacar a diferença e a impossibilidade de se reproduzir uma
obra de arte em sua plenitude. Essas gravuras são explicadas por este autor como traduções
feitas, em que

a justa interpretação da arte é aquela que é dada pelo artista, e que, portanto, a
reprodução por gravura nos dá a obra reproduzida como arte vista pelo artista (...).
Mas o método da boa leitura ou da justa intepretação deve ser buscado na
metodologia operacional do gravurista, ou seja, na sua técnica. (...) o que se coloca é
o problema de traduzir em valores de claro e escuro as qualidades específicas das
cores percebidas como elementos construtivos da forma 17.

Ipanema explicita que o trabalho de Argan considera toda a produção visual


constituída sobre a criação, sendo um problema da crítica da arte, onde original e autoral são
fontes da expressão cultural da humanidade18. No caso de alguns objetos desta pesquisa, a arte
original foi criada especificamente para compor a coleção, sendo um invento elaborado
justamente para ser reproduzido em escala. Sabe-se que essas litografias circulavam tanto
dentro da coleção quanto fora dela, sendo feitas inclusive por outros litógrafos que serão
tratados aqui apenas para comparações estéticas e técnicas. De toda forma, percebe-se que, no
período em foco, as oficinas litográficas e os artistas já tinham total consciência do papel das
gravuras nas relações socioculturais do século XIX, haja vista que, frequentemente, elas
serviam como suporte para acaloradas discussões entre críticos e intelectuais da arte.
Essas litogravuras se constituem como fonte histórica de suma importância não só para
a compreensão dos assuntos do período, mas para entender como se dava o consumo e de
quais formas se encaixavam os discursos pedagógicos do período, os quais visavam a criação
de uma identidade nacional. Esse efeito assimila-se ao que pode ser observado na arte
francesa, influente no Brasil desde a Missão Artística Francesa e a consolidação da Academia
Imperial de Belas Artes, com o seu ensino pautado no academicismo francês.
Deve-se olhar para algumas das imagens utilizadas ao longo da dissertação também
como fontes jornalísticas, que buscavam ilustrar o teatro de guerra para os longínquos
moradores da Corte que, paulatinamente, consumiam essas informações juntamente de seus

17 Ibid, p. 19.
18 IPANEMA, Rogéria Moreira de. A arte da imagem impressa: a construção da ordem autoral e a gravura no
Brasil do século XIX. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, 2007, pp. 1.

28
importantes textos de suporte e direcionavam o olhar atento dos espectadores. Mas vale
ressaltar que nem toda imagem é relacionada ao texto, algo percebido no estudo do objeto de
estudo central desta dissertação.
Na primeira parte serão analisados os aspectos de produção, circulação, editoração e
os artistas e escritores envolvidos. Serão analisadas questões mais técnicas, não se
aprofundando detalhadamente no conteúdo de cada uma das páginas. Nesta parte, torna-se
importante explicar de qual maneira foram encontradas várias dessas informações, sendo
necessária uma confrontação das diversas fontes que puderam preencher as lacunas
encontradas pela possível falta de preocupação do período em manter tais aspectos
catalográficos.
Para conseguir captar mais sobre os aspectos que envolvem a coleção, foi criada uma
simples, mas efetiva metodologia: primeiramente, buscava-se extrair o máximo de
informações contidas diretamente nas litografias, que podem contar com nomes de litógrafos,
oficinas litográficas, artistas criadores da obra original e desenhistas. Em um segundo
momento, esses dados seriam confrontados com notícias do período que tratassem a coleção,
divulgando sua produção, circulação e aspectos editoriais. Após isso, eram investigadas as
informações presentes em catálogos do período que pudessem conter mais detalhes tanto das
gravuras de tradução ou das próprias obras originais. Um exemplo bem-sucedido, foram os
dados encontrados no catálogo da Exposição História do Brazil, de 1881, onde foi possível
obter mais conhecimento sobre as gravuras, sendo elas expostas em conjunto. Em certos
casos, dizia qual a origem da litografia, o autor da obra original ou o gravurista, dentre outras
referências. Graças a esse método de captação de informações, novos dados foram trazidos a
luz, sendo possível construir a tabela 1, que se encontra na introdução da primeira parte, com
maiores informações envolvendo cada um dos fascículos.
Na segunda parte, tratar-se-á da transição das pinturas de cavalete para as litografias
em larga escala, buscando aprofundar essa questão pouco discutida na historiografia
brasileira. Além disso, serão analisados os pintores e as obras que deram origem às gravuras
de tradução presentes na coleção. Para isso, foi criada uma metodologia especifica.
Inicialmente, são utilizadas as informações contidas nas legendas de cada uma das gravuras,
que podem evidenciar nomes de personagens retratados, bem como maiores detalhes os
eventos ali narrados. A partir de tais dados, as gravuras de tradução são confrontadas com
seus originais, caso estejam acessíveis ou ainda existam. Depois, serão comparadas com

29
outras obras congêneres dos próprios artistas. O mesmo também é feito com algumas telas e
esbocetos de outros pintores pois, como se sabe, a pintura histórica era dotada de algumas
regras de conduta e também de citações de outras obras, aspecto visível na produção dos três
artistas aqui analisados. Há também a comparação com a produção iconográfica da guerra,
onde muitas das imagens são contemporâneas ao conflito, buscando captar possíveis
semelhanças iconográficas e até mesmo inspirações. Todavia, vale ressaltar que as produções
feitas pela imprensa no conflito contra o Paraguai são feitas com o intuito de ilustrar a notícia,
sendo completamente diferente da composição observada nas pinturas, tendo valor
informativo como, por exemplo, os mapas e litografias baseadas em croquis de enviados
presentes na frente de batalha. Por último, confronta-se o conteúdo das imagens com os
próprios textos da coleção e com a bibliografia especializada no conflito. Com isso, torna-se
mais viável compreender o que se ocorre em cada uma das gravuras, denotando o sentido
histórico que elas buscam trazer aos seus observadores.

30
PRIMEIRA PARTE: O PROJETO EDITORIAL

A unidade bibliográfica intitulada Quadros historicos da guerra do Paraguay, editada


na cidade do Rio de Janeiro, constitui-se de litogravuras acompanhadas de textos, vendidos
inicialmente em fascículos, anunciados em diversos periódicos, a partir do início da década de
1870. Posteriormente, a coleção seria lançada em formato de álbum, também em folio
máximo, com páginas textuais em papel madeira, e as gravuras em suporte de gramatura
maior, embora não seja possível precisar o tipo específico, que não consta nas fichas
catalográficas. A partir de pesquisas, foi possível perceber que neste momento, o suporte de
papel mais utilizado na segunda metade do século XIX, período onde a indústria papeleira já
trabalhava com fibras a partir da celulose extraída da madeira, geralmente o eucalipto. Antes,
na primeira metade deste século os papéis eram feitos de maneira distinta, por uma mistura de
fibras de algodão, obtendo uma melhor qualidade. Porém, o processo era mais complexo e o
papel mais caro. Com a modificação na técnica de produção, foi possível baixar os custos e
produzir mais. A parte da encadernação, no caso dos álbuns, foi feita em chagrin19, contando
com um frontispício, como consta em alguns dos anúncios e exemplares encontrados, algo
que não foi encontrado no período da investigação.
Em dois dos três álbuns consultados presencialmente, na Biblioteca Nacional e no
Museu Histórico Nacional, estavam presentes apenas oito litografias, estando ausente a
gravura referente ao Combate naval do Riachuelo, que consta no álbum completo situado no
Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Sobre essa diferença na composição, acredita-se
que tenha sido possível graças a uma reedição feita do material, em meados de 1880.
Somados, os nove fascículos mais a introdução, sem litografia anexada, reúnem ao
todo trinta e sete páginas. Dessas, nove são litografias e o restante consiste em narrativas
textuais de episódios vitoriosos da Marinha e Exército brasileiro no conflito na região do
Prata. As gravuras são baseadas em pinturas históricas ou esbocetos feitos especificamente
para a coleção. Boa parte dessas imagens pode ser encontrada em acervos digitais de forma

19 Uma espécie de couro granulado, geralmente feito com a pele do traseiro de mula, burro ou cavalo. Pode ser
usado em ligaduras e artigos de couro de luxo, como a capa das encadernações.

31
avulsa, como nos sites do Museu Mariano Procópio20 e na Biblioteca Digital Luso-
Brasileira21.
Crê-se na possibilidade de que a coleção esteja disponível em outros acervos, devido a
sua significativa circulação pelo país no século XIX, algo que será aprofundado ao longo do
texto. Em uma das buscas efetuadas, foi possível encontrar na Universidade de Coimbra, em
Portugal, um álbum com nome e descrição semelhantes ao objeto aqui estudado. Todavia, a
tentativa de contato não foi bem-sucedida.
Os fascículos e gravuras são posteriores ao conflito, sendo algumas delas datadas entre
1871 e 1874, embora essa questão não esteja representada nas catalogações ou nas próprias
imagens, não sendo possível precisar as datas de publicação ou criação de cada fascículo. A
coleção conta com alguns dados imprecisos, algo muito corriqueiro na imprensa do século
XIX, trazendo poucas informações sobre os criadores das litografias e textos, que serão
analisados aqui a partir de uma densa busca nos periódicos, onde foi possível encontrar
maiores informações para a pesquisa.
A coleção encontra-se na seguinte ordem22:

Tabela 1 – Os Quadros históricos da guerra do Paraguay

Baseada
Título da
Nº em óleo Desenhista Litógrafo Título do texto Escritor
litografia
de
Cesar
Intro sem litografia - - - Introdução
Muzzio23

Combate naval Ângelo Alf. O combate naval


1 - *
do Riachuelo Agostini Martinet do Riachuelo

20 Neste site é possível encontrar boa parte do acervo do museu digitalizado. Ver mais em:
http://mapro.inwebonline.net/. Acessado dia 23/02/2018.
21 Tendo um vasto acervo relacionados ao Brasil e a Portugal, a Biblioteca Luso-Brasileira conta com uma série
de materiais para se estudar o século XIX. Ver mais em: http://bdlb.bn.gov.br/. Acessado dia 23/02/2018.
22 Ordem e nomes baseados nos dados cruzados disponíveis no Arquivo Geral do Rio de Janeiro, no catálogo da
Exposição de História do Brazil, de 1881 e no jornal Monitor Campista, n. 282, 15/07/1882, p. 3. Isso não
necessariamente define que todas as possíveis reproduções sejam feitas pelas mesmas oficinas litográficas, algo
que será analisado ao longo da dissertação.
23 De acordo com alguns anúncios em periódicos que serão mostrados a seguir, a Introdução era vendida
juntamente com o primeiro fascículo do Combate naval do Riachuelo. É possível que a autoria do texto também
seja de Cesar Muzzio.

32
J. Reis
A Rendição de Pedro Ângelo Litógrafo A Rendição de A. E.
2
Uruguayana Américo Agostini / Souza Uruguayana Zaluar
Lobo

J.
Vitorino O ataque da ilha Coronel
O ataque da ilha Pedro
3 - Litógrafo do Cabrita ou da Pinheiro
da Redempção Américo
/ A. de Redempção Guimarães
Pinho

Dr.
Assalto e Huascar,
Victor A passagem do Ferreira
4 ocupação de - editada
Meirelles Curusú de
Curuzu por Fígaro
Menezes
A passagem de Victor Souza A passagem de Felix
5 -
Humaitá Meirelles Lobo Humaitá Ferreira
Eduardo
Passagem do R. Alf. A tomada de Felix
6 De
Curuzu Pontremoli Martinet Curuzú Ferreira
Martino
Dr.
O Eduardo O
R. Ferreira
7 reconhecimento De - Reconhecimento
Pontremoli de
de Humaitá Martino do Humaitá
Menezes

Coronel
O Passo da Victor A passagem do
8 - - Pinheiro
Pátria Meirelles Passo da Pátria
Guimarães

Ataque e tomada Eduardo Tomada do forte


R. Felix
9 do De - do
Pontremoli Ferreira
Estabelecimiento Martino Estabelecimiento

Ao longo do levantamento das fontes também foram encontradas outras litografias


baseadas nos mesmos episódios e até mesmo nas próprias litografias baseadas em óleos que
se encontram nesta seleção, elaboradas por outros litógrafos e desenhistas, tendo algumas
diferenças estéticas que serão observadas na segunda parte.

33
1. Produção

A litografia, invenção de Alois Senefelder, era um método muito mais barato, ágil e de
traços mais bem delineados se comparado à xilogravura, uma outra técnica muito usada nas
folhas ilustradas. A partir de então, revolucionava-se a forma com a qual a imprensa lidava
com as imagens, culminando em um crescimento que levava as representações ilustradas cada
vez mais para as páginas do cotidiano. Consequentemente, isso permitiu uma maior difusão
dos trabalhos de inúmeros artistas, os quais tinham uma grande limitação em sua circulação
até mesmo na cidade do Rio de Janeiro, que detinha um considerável público nas Exposições
Gerais de Belas Artes, mas ainda assim tinha um limitado alcance.
Já bem definida em 1860, a imprensa da Corte era ligada ao cotidiano popular, embora
refletisse muito dos costumes da elite letrada em uma relação bastante verticalizada. O
movimentado porto do Rio de Janeiro era extremamente importante para a circulação de
matérias-primas, livros, periódicos estrangeiros e outras imagens e matrizes litográficas que
agitavam ainda mais o ambiente intelectual ilustrado. Essa circulação pode ter exigido das
casas litográficas e da imprensa no geral uma maior qualidade e destreza na elaboração dos
periódicos e imagens, que circulavam em suas mais variadas formas. Dessa maneira, também
se tornava possível a circulação de litografias brasileiras em nações ultramarinas, algo
inovador para o período.
A guerra da Tríplice Aliança foi o momento em que se consolidaram, ainda que com
alguma latência, os periódicos ilustrados, trazendo as cenas do conflito para as páginas dos
jornais do Rio de Janeiro, revolucionando a forma com a qual as notícias e imagens eram
consumidas pela população. Já no pós-guerra, coleções e álbuns como os Quadros historicos
da guerra do Paraguay eram feitos para celebrar os sucessos brasileiros em campo de batalha,
seja pela Marinha ou pelo Exército, explicitando os principais personagens presentes por meio
de suas legendas e textos, bem como pormenorizando as passagens por meio de textos que
continham informações mais detalhadas.
A partir do contato direto com as fontes primárias e a leitura de uma vasta bibliografia
de referência, foi possível perceber algumas das formas pelas quais essa coleção circulava na
Corte e em outras províncias, sendo adquirida através de anúncios feitos nos periódicos
mostrados a seguir. Também era possível adquirir as litografias avulsas, por meio dos
anúncios feitos nesses mesmos jornais por oficinas litográficas que se dispunham a vender os
fascículos completos ou apenas as gravuras ou, posteriormente, a encadernação completa. A

34
isso pode-se atribuir a causa de muitas destas imagens serem encontradas separadas em vários
acervos, sobretudo se analisarmos algumas inconstâncias da imprensa no período, haja vista
que os exemplares que não circulavam eram reaproveitados para criar novos álbuns ou
revendê-las em um preço mais modesto. Também era muito comum que certas edições se
esgotassem rapidamente e fossem reimpressas. Nesses casos, os prelos refaziam as edições,
muitas já removidas das pedras litográficas, culminando em um novo processo de desenho e
impressão, o que pode justificar os diferentes tipos de fonte nos textos e algumas pequenas
modificações nas gravuras. Sobre os casos de reimpressão, há um citado no editorial periódico
A Vida Fluminense, número 8, do dia 22 de fevereiro de 1868, que ilustra bem a situação, ao
anunciar

A grande procura que tem tido os sete primeiros numeros de Vida Fluminense
obrigarão nos a reimprimil-os. Infelizmente a reimpressão, se bem que feita em
grande escala, não pode satisfazer todos os pedidos que nos forão dirigidos. Hoje
que algumas pedras que continhão os desenhos já não existem, vão ser
novamente desenhadas (grifo nosso). Em quanto não ficarem promptas não
podemos aceitar assignaturas senão do mez de Fevereiro em diante 24.

Sendo assim, é possível levantar a hipótese de que as outras versões encontradas de


forma avulsa ou até mesmo álbuns com distinções na formatação possam ser originadas
justamente por esse problema, passando por novas impressões pelas mãos de outros
desenhistas e artistas, seguindo apenas os textos como um ponto em comum. Ao longo deste
capítulo buscar-se-á explicar essa hipótese.
Sabe-se, através de anúncios encontrados, como o citado logo abaixo, que a coleção
estava relacionada aos editores responsáveis pelo periódico ilustrado A Vida Fluminense25, os
senhores A. de Almeida & C., Antônio Pedro Marques de Almeida e Augusto de Castro. O
primeiro era padrasto do então futuro membro dessa sociedade e distinto desenhista, Ângelo
Agostini. Também é tratada a Vida Fluminense Oficina Litográfica, diretamente relacionada
aos três personagens citados, sendo muito provavelmente propriedade da sociedade Almeida,
Castro & Angelo.

24 A Vida Fluminense: folha joco-seria-illustrada, n. 8, 22/02/1868, p. 88. Disponível na Hemeroteca Digital da


Biblioteca Nacional.
25 No período de 1868 a 1875, a redação da revista ocupou, respectivamente, os sobrados de números 59, 52 e
50 da tradicional Rua do Ouvidor, na região central do Rio de Janeiro. AUGUSTO, José Carlos. A Vida
Fluminense, “folha joco-séria-illustrada” (1868-1875). Curitiba: XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da
Comunicação, 2009, p. 2. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-1235-
1.pdf. Acessado dia 04/03/2018.

35
O Diario do Rio de Janeiro, no dia 6 de fevereiro de 187126, na seção “Noticiario”,
referia em um determinado anúncio que os editores da coleção estiveram presentes na
cerimônia de cumprimentos ao imperador D. Pedro II, citando-os apenas como “editores dos
Quadros historicos da guerra do Paraguay”. Tal encontro havia ocorrido novamente, sendo
noticiado em outubro do mesmo ano27.
Ao longo das pesquisas nos periódicos, foi possível perceber determinadas
incongruências nas informações acerca das oficinas litográficas que executaram os desenhos,
bem como a formação da própria coleção. Um exemplo que ajuda a entender e ilustrar melhor
os desejos iniciais dos editores na criação da coleção encontram-se registrado no Jornal da
Tarde, periódico que circulou na capital da corte. Ele anunciava em sua seção “Gazetilha”, a
chegada da coleção, dedicando uma parte de sua segunda página para falar mais sobre a ideia,
enfatizando o desejo de se comemorar as glórias brasileiras por meio das gravuras e textos:

– QUADROS HISTORICOS DA GUERRA DO PARAGUAY. – Nada mais justo


do que procurar qualquer paiz commemorar as suas glorias, transmittindo aos
vindouros perduraveis monumentos que as attestem.
Tão heroicas e brilhantes foram as acções praticadas na ultima campanha pelos
brasileiros, que estes não poderão negar o seu apoio a todo aquelle que procurar
transmittil-as á posteridade.
Os Srs. A. de Almeida & C., propoem-se historiar aquelles feitos gloriosos em uma
publicação de que são editores, e que constará de vinte e quatro quadros, dos
quaes o texto ou a parte litteraria está commettida a hábeis e delicadas pennas e as
gravuras ao habilissimo e bem conhecido lapis do distincto artista, o Sr. Angelo
Agoutini (grifos nossos).
Os quadros historicos da guerra do Paraguay serão inaugurados com o brilhante e
heroico feito da batalha do Riachuelo28.

No dia 8 de fevereiro do mesmo ano, o mesmo Jornal da Tarde novamente abordava,


agora em uma parte voltada a anúncios de produtos na última página, a coleção Quadros
historicos da guerra do Paraguay, dando maiores detalhes:

26 Diario do Rio de Janeiro, nº 37, 06/02/1871, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
27 Diario do Rio de Janeiro, nº 295, 25/10/1871, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional.
28 Jornal da Tarde (RJ), n. 24, 28/01/1871, p. 2. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

36
Todas as nações do mundo civilizado procuram recolher zelosamente os factos que
as elevam na consideração universal, e tratam de colligir de um modo duradouro as
glorias das contendas em que foram vencedoras.
Conservar para a posteridade a memoria dos grandes feitos do nosso tempo é dever
que a historia nos impõe, e tarefa que o patriotismo reclama. O Brazil não podia
esquivar-se a esse empenho de honra.
A porfiada lucta com o dictador do Paraguay, essa peleja gigantesca em que o
depotismo ferrenho e indomavel de um homem tenaz travou guerra de morte com os
brios offendidos de uma nação pundonorosa, conta brilhantissimos feitos, que é
dever commemorar pela penna do historiographo e pelo lapis do desenhista.
Reunidos, como se acham, os elementos e dados precisos para levar á pratica
semelhante projecto, não recuarão os editores desta obra diante de quaesquer
obstaculos.
A obra constará de 24 quadros (para assumpto dos quaes serão escolhidos os
principaes feitos do exercito e marinha brasileira) divididos em duas series de 12
quadros cada uma.
O desenho, que desde já podemos garantir ser feito com a maior verdade
historica, e correcção artistica, acha-se a cargo do Sr. Angelo Agostini; e uma
narração historica, devida á penna de um dos homens mais habilitados a tratar
tal assumpto, acompanhará cada quadro.
Os editores podem, portanto, de antemão assegurar que o trabalho litterario e
artistico será digno do assumpto: e esta convicção lhe dá afouteza para solicitar a
coadjuvação publica, e o au (ilegível) dos espiritos patrioticos para empreza tão
brasileira.
Publicar-se-ha um fascicolo mensalmente que será distribuido pelos Srs.
assignantes, sem que um só exemplar seja exposto á venda avulsa.
A assignatura da primeira serie (12 quadros com texto respectivo, tudo
impresso sob magnifico papel de folio maximo) custará 50$ – (sendo 20$ pagos
logo que entre para prélo o primeiro fascicolo, e 30$ após a entrega do sexto)
(grifos nossos).
O glorioso combate naval de RIACHUELO inaugurará os QUADROS
HISTÓRICOS DA GUERRA DO PARAGUAY. – Os editores A. de Almeida & C.
Assigna-se na rua do Ouvidor n. 52, sobrado (endereço d’A Vida Fluminense, grifo
nosso)29.

O anúncio se repete em mais dois números do mesmo ano: em 18 e 28 de fevereiro,


com os números 42 e 49, respectivamente. Percebe-se no texto uma maior riqueza de detalhes
como valores, forma de pagamento, material utilizado e compra exclusivamente por meio de
assinatura, algo que também parece não ter sido levado adiante. Afinal de contas, os editores
precisavam vender. Essa ideia pode ter sido inicialmente aplicada para que a coleção não
sofresse com problemas financeiros e, consequentemente, atrasos. Esta notícia destaca
novamente a importância de se fazer uma coleção que exalte os feitos no teatro de guerra,

29 Jornal da Tarde (RJ), nº 33, 08/02/1871, p. 4. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

37
buscando conservar a gloriosa memória brasileira nos campos de batalha ante o ditador
Solano López, retratado muitas vezes como o demônio vivo pelos periódicos ilustrados. Além
disso, enfatizava a escolha dos editores em selecionar os episódios mais importantes, os
melhores desenhistas e os escritores mais letrados. Tratam, agora mais detalhadamente, que a
coleção sairia por meio de assinaturas feitas de doze em doze fascículos, todos feitos em papel
de folio máximo30, ou seja, em tamanho aproximado aos das gazetas, utilizando a página
inteira, sem dobras.
A princípio, o desenho ficaria a cargo de Angelo Agostini, que já havia sido
incorporado ao periódico A Vida Fluminense por um breve período. Mas, ao longo das
descrições dos fascículos encontrados e das gravuras avulsas, é possível perceber o nome de
outros impressores e, possivelmente, outros desenhistas. Um caso interessante observado ao
longo da pesquisa trata de três exemplares referentes à Rendição de Uruguayana: um como
sendo de autoria da Vida Fluminense, desenhada por Agostini e impresso por Alf. Martinet;
outro com proporções aproximadas da primeira, porém com traços menos caprichados,
invertida e imprensa por Souza Lobo, sem desenhista citado e feita de forma espelhada ao se
comparar a anterior; e a última em tamanho menor e traços simplórios de Campbell & Co.
Lith.. Dos três exemplares, nota-se a grande diferença na qualidade do desenho feito no
primeiro, evidenciando-se o traço, muito possivelmente de Agostini, ao se comparar com as
outras gravuras. Essas questões serão mais abordadas nas análises da segunda parte,
fomentando ainda mais a hipótese de que outras oficinas também possam ter executado a
coleção.
Outras litografias semelhantes às citadas no início deste capítulo também se encontram
em nome de outros litógrafos e desenhistas. Percebe-se na encadernação encontrada no Museu
Histórico Nacional a ausência da litografia referente ao episódio do Combate naval do
Riachuelo (destoando do que anunciara o número 24 do Jornal da Tarde) e algumas
diferenças na formatação como, por exemplo, fontes de texto do cabeçalho, que não seguiam
um padrão, consistindo em mais um aspecto que leva a crer na possibilidade citada acima.
Infelizmente, as fontes processadas não definem com tanta clareza essa questão, restando
apenas as hipóteses que dão as bases desta dissertação.

30 Em uma explicação simples, folio máximo era o tamanho com o qual o papel era fabricado. Esse formato
poderia ser dobrado várias vezes, rendendo publicações de menor tamanho. No caso da coleção, a folha era
usada sem nenhuma dobra, tendo o tamanho semelhante ao de alguns jornais atuais.

38
Outro aspecto a ser destacado nestes anúncios é que a coleção inicialmente se
constituiria de vinte e quatro gravuras, sendo metade ilustrando os conflitos da Marinha e a
outra parte os episódios do Exército brasileiro. Porém, em todos os anúncios posteriores e
catálogos remetentes à coleção, fala-se apenas nas nove imagens citadas no início do capítulo
que mesclam as duas armas. Essa também é uma questão muito comum da imprensa da época,
que tinha total liberdade de alterar seus planos. Isso poderia ser possível seja pelo baixo índice
de assinaturas, divergências entre os editores, dificuldades para se executar os desenhos ou até
mesmo pelo fim ou modificação na direção da empresa responsável. Sabe-se que, em 1889, o
periódico Vida Fluminense, agora com o subtítulo de periódico illustrado, litterario e
sportivo, era dirigido por Henrique Stepple e impresso pela Casa Litotipográfica de Pereira
Braga. Neste novo momento, teve como redatores França Junior, Artur de Azevedo e Pereira
da Silva e como os ilustradores Teixeira da Rocha Valle e Hilarião Teixeira31.

2. Circulação

A possibilidade da divulgação por meio de fascículos, bem como o papel diplomático


e propagandístico de um império consolidado e vitorioso para além das fronteiras da Corte já
era algo comum, sobretudo pela melhoria gradativa nas condições de transporte. Por meio das
pinturas históricas via-se que o projeto era promissor, sendo óbvia a cogitação de que as
gravuras elevariam exponencialmente esse poder, expandindo as traduções feitas em preto e
branco de grandes obras em imagens menores, do tamanho de uma folha de jornal, chegando
a várias províncias e até mesmo a nações longínquas, como veremos a seguir.
Um registro presente nos Cadernos do Centro de História e Documentação
Diplomática, relata, em uma circular assinada em 1872, a seguinte informação:

Circular32 de 13/11/1872. Índice: “Oferece um exemplar do fascículo sobre a guerra


do Paraguai”. Para as legações de Bolívia, da Santa Sé, de França, da República
Argentina, da Rússia e da Áustria. Em 13 de novembro de 1872.
O ministro dos Negócios Estrangeiros faz seus atenciosos cumprimentos ao sr. ... e
oferece-lhe o 1º e 2º fascículo[s] da obra intitulada Quadros históricos da
Guerra do Paraguai (grifo nosso) 33. Manoel Francisco Correia34.

31 COSTA, Carlos Roberto da. A revista no Brasil, o século XIX. Tese (Doutorado em Ciências da
Comunicação) – Universidade de São Paulo, 2007, p. 258.
32 Segundo uma nota do editor, na mesma data foi enviada circular remetendo o segundo fascículo às legações
da Prússia, América, Grã-Bretanha, Portugal, Espanha e Itália.

39
Nota-se a partir dessa informação que as litografias também circulavam pelo meio
diplomático, sendo entregue a legações de diversos países, constituindo um reflexo da
constante modernização nacional, observada a partir da segunda metade do XIX. Com isso,
essa difusão era parte constituinte de um processo engrandecedor da imagem da nação
enquanto civilizada em âmbito internacional, tanto na divulgação das vitórias na guerra
quanto na produção artística de um país ainda em construção.
Em âmbito nacional, fascículos foram adquiridos por ministérios do Império e
enviados para outras províncias, através de ofícios de requerimento ou como prêmios, com o
intuito de se difundir a coleção e potencializar o acesso aos episódios da guerra. A partir
disso, exercia-se assim um papel pedagógico na consolidação de uma imagem vitoriosa da
monarquia para o seu próprio povo, na busca de se estabelecer uma identidade nacional a
partir destes episódios que exaltavam as glórias brasileiras. Algumas destas compras foram
divulgadas nos Balanços da Receita e Despeza do Imperio, cobrindo os gastos entre os anos
de 1872 a 1881. Segue abaixo uma tabela explicativa que enfatiza os resultados encontrados.

Tabela 2 – Compras feitas pelos ministérios

Ministério Localidade Descrição da compra Anos Valor


Ministerio da Compra da colleção de
Agricultura, quadros historicos da
commercio e obras Municipio guerra contra o
publicas35 da côrte Paraguay 1872-1873 500$000
Dita de quadros
Ministerio do Municipio historicos da guerra do
Imperio36 da côrte Paraguay 1873-1874 500$000

33 Em outra nota, percebe-se algumas diferenças na constituição da coleção, não contando nominalmente com a
Batalha naval do Riachuelo como primeira obra. Os nomes que sucedem as obras aqui retratadas são das pessoas
que redigiram os textos encontrados nos fascículos, sendo que grande parte se encontra sem identificação na
impressão. I. Introdução, sem indicação de autor; II. A rendição de Uruguaiana, sem indicação de autor; III. O
ataque da ilha da Cabrita ou da Redenção, pelo dr. Pinheiro Guimarães; IV. A passagem de Curuzu, sem
indicação de autor; V. A passagem de Humaitá, por O. P.; VI. A tomada de Curuzu, sem indicação de autor; VII.
O reconhecimento do Humaitá, por F. Ferreira; VIII. A passagem do Passo da Pátria, sem indicação de autor;
IX. A tomada do forte Establecimiento, sem indicação de autor.
34 Cadernos do CHDD / Fundação Alexandre de Gusmão, Centro de História e Documentação Diplomática.
Ano 3, n.5. Brasília, DF: A Fundação, 2004, p. 32.
35 Balanço da Receita e Despeza do Imperio, no Exercício de 1872-1873. Rio de Janeiro: Typographia
Nacional, 1875.
36 Balanço da Receita e Despeza do Imperio, no Exercício de 1873-1874. Rio de Janeiro: Typographia
Nacional, 1876.

40
Ministerio da
Agricultura, Fasciculo dos quadros
commercio e obras Municipio historicos da guerra
publicas37 da côrte contra o Paraguay 1874-1875 500$000
Dita de fasciculos da
obra Quadros historicos
Ministerio da Municipio da guerra com o
Guerra38 da côrte Paraguay 1875-1876 2:500$000
Compra de exemplares
Ministerio da Municipio dos Quadros historicos
Guerra39 da côrte da Guerra do Paraguay 1876-1877 8:700$000
Assignatura de
Ministerio da exemplares dos Quadros
Marinha - Secretaria Municipio historicos da guerra do
de Estado40 da côrte Paraguay 1876-1877 1:500$000
Ministerio da Assignatura de
Marinha - exemplares dos
Secretaria de Municipio Quadros historicos da 1877-
Estado41 da côrte guerra do Paraguay 1878 1:000$000
Ministerio do (Compra) de quadros
Imperio - historicos da guerra do
Instrucção primaria Municipio Paraguay, para 1880-
e secundaria42 da côrte premios 1881 300$000

Estes dados são elucidativos para se mostrar os esforços dos ministérios para a
divulgação e circulação da coleção. Mesmo sendo editada em âmbito privado, vale considerar
que, assim como o financiamento da pintura histórica era diretamente ligado ao Império e as
forças armadas, pode-se perceber aqui, de forma considerável, o empenho de alguns
ministérios em adquirir o material. Seja para enviá-los para outras províncias requisitantes,
por conta própria ou como forma de premiação em alguns concursos de instrução primária e
secundária, alguns órgãos do Estado se configuravam como compradores. No entanto, isso
não significa que os periódicos e coleções fossem diretamente controlados pela Coroa. Para

37 Balanço da Receita e Despeza do Imperio, no Exercício de 1874-1875. Rio de Janeiro: Typographia


Nacional, 1877.
38 Balanço da Receita e Despeza do Imperio, no Exercício de 1875-1876. Rio de Janeiro: Typographia
Nacional, 1878.
39 Balanço da Receita e Despeza do Imperio, no Exercício de 1876-1877. Rio de Janeiro: Typographia
Nacional, 1879.
40 Balanço da Receita e Despeza do Imperio, no Exercício de 1876-1877. Rio de Janeiro: Typographia
Nacional, 1879.
41 Balanço da Receita e Despeza do Imperio, no Exercício de 1877-1878. Rio de Janeiro: Typographia
Nacional, 1880.
42 Balanço da Receita e Despeza do Imperio, no Exercício de 1880-1881. Rio de Janeiro: Typographia
Nacional, 1883.

41
efeito de comparação, a imprensa paraguaia, ao contrário do que se via no Brasil, era
diretamente controlada e financiada pelo Estado, que comandava e custeava boa parte da
produção da imprensa. Com isso, manipulavam a opinião pública e auxiliavam no moral das
tropas paraguaias no front43.
Em 1873, por meio da sessão “Parte Official – Expediente do Governo do dia 18 de
agosto”, veiculado apenas no dia 22 do mesmo mês abaixo do subtítulo “Officios”, o Jornal
do Pará mostrava o requerimento feito e endereçado ao bibliotecário público com os dizeres:

- Ao bibliothecario publico. –
Remetto-lhe o 1.º fasciculo dos quadros historicos da guerra do Paraguay, que
faltava para completar a obra existente n’essa biblioteca, e acaba de ser-me enviado
pelo ministerio da guerra á quem solicitei por ofício de 25 de junho último 44.

Já no ano de 1874, novamente o jornal veiculara, no dia 13 de agosto, na mesma


sessão, o “Expediente do Governo do dia 8 de agosto”, desta vez recebendo mais fascículos:

- Ao director do lyceo paraense e da escóla normal (...) – Remeto á vmc., para a


bibliotheca publica um exemplar do 1.º, 2.º, 3.º e 4.º fasciculo dos quadros historicos
da guerra do Paraguay, que com esse destino acabam-se de ser-me enviados pela
secretaria d’estado dos negocios do imperio45.

Em outra ocasião, o mesmo periódico46 traz a informação na seção “Parte official –


Ministerio do Imperio”, com subtítulo “Quadros historicos da guerra do Paraguay”
informações acusando envio e recebimento entre órgãos da presidência do Pará e o Quartel do
Comando do 4º Batalhão de Artilharia em Belém do Pará:

3.ª secção. – Palacio da presidencia do Pará. – Belem 25 de julho de 1877. – Illm. sr.
– Como demonstração da estima e apreço, em que tenho a v. s. e a briosa
officialidade, sob seu commando, tenho a satisfação de oferecer a v. s., para serem
collocados na secretaria desse quartel, nove quadros historicos da guerra do

43 TORAL, André Amaral. Imagens em desordem: a iconografia da guerra do Paraguai (1864-1870). São
Paulo: Humanitas FFLCH USP, 2001, p. 216.
44 Jornal do Pará: Orgão Official, n. 189, 22/08/1873, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional.
45 Jornal do Pará: Orgão Official, n. 181, 12/08/1874, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional.
46 Jornal do Pará: Orgão Official, n. 172, 31/09/1877, p. 2. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional.

42
Paraguay, que, annuindo á minha solicitação, me foram enviados por um distinto
amigo.

Recordando elles os gloriosos feitos do exercito e da marinha nacional, servirão ao


mesmo tempo para encorajar no amor e dedicação ao dever e á honra militar, a
aquelles que estão constituidos os mais immediatos defensores das liberdades pátrias
e da honra e dignidade nacional. (...)

Mais abaixo, na mesma página e seção, direciona-se a resposta do destinatário, feita


três dias após o recebimento:

Quartel do 4º. batalhão de artilharia á pé em Belem do Pará, 28 de julho de 1877. –


Illm. e exm. sr. – Accuso recebido o officio por meio do qual dignou-se v. exe.
enviar nove quadros historicos da guerra do Paraguay para serem collocados na
secretaria deste quartel (grifo nosso). Agradecendo de minha parte e da dos
officiaes do batalhão de meu commando, a quem v. exe. os offereceu, tão valiosa
dadiva que nos recorda as mais gloriosas paginas d’aquella campanha, tenho que as
scenas ali memoradas conservarão sempre vividas a ideia majestosa do dever de o
amor a Patria, e saberão alimentar a viril coragem e resignação de que deu provas o
exercito em cinco annos de incessantes lutas, sendo-nos grande satisfação a delicada
lembrança de v. exe., que sagrou assim os feitos dos nossos valentes camaradas e
manifestou ao mesmo tempo os patrióticos sentimentos do illustrado e provecto
administrador, cujo nome ficará ligado á sua preciosa offerta. – Deus guarde a v.
exe. – Illm e exm. sr. dr. Capistrano Bandeira de Mello Filho, D. presidente da
provincia. – Luiz Henrique de Oliveira Ewbank, tenente-coronel commandante.

O Jornal do Pará exemplifica a questão dos envios, tanto das solicitações via ofício,
quanto do remanejamento dos exemplares recebidos pelo Órgão Oficial, que repassa ao Liceu
Paraense e a Escola Normal, cerca de dois anos após o início da divulgação, em 1871. O
último caso envolvendo o Capistrano Bandeira de Mello Filho, presidente da província e o
tenente-coronel Luiz Henrique de Oliveira Ewbank também ilustra que a coleção também
pode ter sido divulgada por divisões da marinha e exército ao redor do país.
O Diario de Minas, que circulava em Ouro Preto e adjacências, divulgava através de
sua “Parte Official”, o “Expediente do Governo Provincial do mês de julho de 1874”,
contendo um trecho endereçado ao bibliotecário responsável pela Biblioteca Pública de Ouro
Preto:

De ordem &, remetto a V. S. um exemplar de 1.º, 2.º, 3.º e 4.º fasiculos dos quadros
historicos da guerra do Paraguay, que foi remettido pela secretaria de estado dos
negocios do imperio com officio de 30 de Junho ultimo, para fazer parte da
bibliotheca a seo cargo47.

47 Diario de Minas, n. 334, 08/10/1874, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

43
O mesmo ocorreu na cidade de Desterro, Santa Catarina. O jornal O Despertador
anunciava, como os outros, em sua “Parte Official”, a chegada de alguns fascículos para a
biblioteca da cidade: “Ao bibliothecario provincial – Remetto a vmc., com destino á essa
bibliotheca, dous exemplares do segundo e terceiro fasciculos da obra intitulada – Quadros
historicos da guerra do Paraguay48”.
O periódico carioca A Nação acusava em sua coluna “Folhetim da Nação”, no
subtítulo “Publicações”, o recebimento do terceiro fascículo, elogiando os editores e artistas
envolvidos pela qualidade do material, sendo mais uma forma de se fazer publicidade da
coleção, algo muito comum na imprensa do século XIX, cujos periódicos e produções em
geral eram citadas tanto em críticas quanto neste elogioso caso abordado:

Publicações. – Recebemos o 3º numero dos Quadros historicos da guerra do


Paraguay.
O ataque da ilha da Cabrita ou da Redempção é o feito commemorado neste numero,
já em fiel e explicita narrativa já em uma primorosissima gravura.
Cumprimentamos os autores desta interessante publicação pelo excellente
desempenho do seu programma, sendo de esperar do publico o mais benevolo
acolhimento ao seu mimoso trabalho, digno de toda o interesse e aceitação 49.

No próximo ano, ao veicular os “Actos oficiaes”, o Diario do Rio de Janeiro trouxe


um pedido feito pelos editores Andrade Filho & Almeida ao Ministério da Agricultura,
requisitando o pagamento de 500$ por cem exemplares do segundo fascículo dos Quadros
Históricos, sendo este indeferido50. O Ministério do Império também fez semelhante pedido
ao Ministério da Fazenda, requerendo o pagamento de 500$ por cem exemplares fornecidos
pelos editores para o Arquivo da Secretaria do Estado, em abril de 1877, sendo a notícia
veiculada na primeira página da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro51. Confirma-se a partir
dessas duas requisições que cada fascículo custava 50$, um valor razoavelmente baixo para
uma produção desse nível técnico.

48 O Despertador (SC), n. 1079, 10/06/1873, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.


49 A Nação: folha politica, commercial e litteraria, n. 116, 17/06/1873, p. 2. Disponível na Hemeroteca Digital
da Biblioteca Nacional.
50 Diario do Rio de Janeiro, n. 313, 17/11/1872, p. 3. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional.
51 Gazeta de Notícias (RJ), n. 101, 14/04/1877, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

44
A esse baixo valor pode-se deduzir que, por conta das poucas páginas (média de 3 a 5,
sendo apenas uma ilustrada e as outras com textos cercados por adornos), os editores
conseguiam fazer um preço mais razoável. Para efeitos de comparação, o periódico Vida
Fluminense custava, de 1871 até metade de outubro de 1873, o valor de 1$000 réis, caindo
para 500 réis após esse período, contando com oito páginas na maioria de suas edições
(reduzindo quatro páginas desde seu lançamento). Dessas oito, quatro contavam com
desenhos, embora estes tivessem uma qualidade muito inferior aos apresentados nos Quadros
historicos da guerra do Paraguay.
No que se refere a distribuição além da Corte, o exemplar da Rendição de Uruguayana
foi divulgado para venda nos classificados do Diario de Pernambuco entre maio e junho de
1874, nos números 114, 121, 124, 125, 126, 127, 128 e 130, com o seguinte anúncio:
“COMPRA-SE nesta typographia o 2º folheto dos Quadros historicos da guerra do
Paraguay, contendo a vista da rendição de Uruguayana”, mostrando que a coleção também
estava sendo vendida pela Typographia do Diario, sem valor determinado em anúncio.
Em anúncio de sua bibliografia no jornal O Guarany, a Typographia e lithographia
imparcial de Felix Ferreira & Cª, na seção “Obras Avulsas – Primeiras Impressões”, citava a
coleção, descrevendo-a como “lithographias de A. Agostini com texto explicativo. – Empreza
da Vida Fluminense, rua do Ouvidor n. 52. – fol. maximo52”. Como se sabe, Felix Ferreira era
um dos escritores envolvidos no projeto, dando mais indícios de que houve uma parceria de
várias tipografias e litógrafos para que o projeto tivesse sucesso. Além disso, fomenta a
possibilidade de que a coleção tenha sido reimpressa em algum momento, algo que explica a
exclusão do Combate naval do Riachuelo e as litografias com traços diferentes e invertidas.
O periódico A Reforma também foi um dos que anunciou a venda de um dos
fascículos em sua última página, totalmente dedicada aos classificados, detalhando o primeiro
número:

QUADROS HISTÓRICOS DA GUERRA DO PARAGUAY


Publicou-se o primeiro fascicolo, contendo: Frontespicio. Introdução. Combate
naval do Riachuelo (desenho do Sr. Angelo Agostini e lithographia, a duas
côres, do Sr. Alfredo Martint) (grifo nosso).
Descrição do combate (abrangendo tres grandes páginas).

52 O Guarany: folha illustrada, litteraria, artística, noticiosa, critica, n. 1, janeiro-março, 1871. Disponível na
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

45
Quadro dos officiaes que assistiram ao glorioso feito com designação dos que
ficaram feridos ou pereceriam.
As condições de assignatura estão patentes no escriptorio da empreza, rua da
Prainha 79, nos fundos, onde o fascicolo poderá ser visto pelas pessoas que
desejarem assignar a obra53.

Foi encontrado também semelhante anúncio em outro jornal, o A República, que


anunciava em formato diferente, e texto muito próximo ao citado, divulgando os mesmos
exemplares54.
Em 1881, cerca de dez anos após o primeiro anúncio na Corte, um dos editores da
coleção, o jornalista, antigo proprietário e redator de A Vida Fluminense, Sr. Antonio Pedro
Marques de Almeida, foi até a cidade de Campos dos Goytacazes fazer conhecer a coleção
aos locais. O texto explica que

O fim da visita do Sr. Almeida é fazer conhecer os quadros historicos da guerra do


Paraguay, os quaes achão-se collecionados em um album in folio do formato do
Jornal do Commercio e encadernado em papel chagrin (grifo nosso).
Para o publico julgar da importância desse trabalho, damos em seguida a relação dos
quadros e os nomes de seus insignes autores:
1.º - Introdução, por Cesar Muzzio.
2.º - Uruguayana, quadro de Pedro Americo, texto de A. E. Zaluar.
3.º Ilha da Redempção, quadro de Pedro Americo, texto do coronel Pinheiro
Guimarães.
4.º Passagem do Curuzú, quadro de De Martino, texto do Dr. Ferreira de Menezes.
5.º Humaytá, quadro de Victor Meirelles, texto de Felix Ferreira.
6.º Tomada do Curuzú, quadro de Victor Meirelles, texto de Felix Ferreira.
7.º Reconhecimento de Humaytá, quadro de De Martino, texto do Dr. Ferreira de
Meneses.
8.º Passo da Patria, quadro de Victor Meirelles, texto do coronel Pinheiro
Guimarães.
9.º Estabelecimiento, quadro de De Martino, texto de Felix Ferreira55.

53 A Reforma: Orgão Democratico (RJ), n. 251, 04/11/1871, p. 4. O mesmo anúncio é veiculado na edição 253,
do dia 07/11/1871, na página 4. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
54 A Republica: Orgam diário do partido republicano, n. 173, 04/11/1871, p. 4. Disponível na Hemeroteca
Digital da Biblioteca Nacional.
55 Monitor Campista, n. 282, 15/07/1882, p. 3. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

46
Ao analisarmos as obras tais como foram expostas na notícia, percebe-se a ausência da
litografia referente ao episódio do Combate naval do Riachuelo, algo citado anteriormente.
Ademais, descobre-se o nome dos autores dos textos narrativos presentes nos fascículos, não
sendo possível precisar se foram mantidos os mesmos desde o início. O formato de álbum,
encontrado apenas depois de quse dez anos, endossa que a coleção também foi vendida
integralmente nesta feição – provavelmente já sendo vendida anteriormente na Corte – com o
mesmo formato dos fascículos e encadernada em papel chagrin, como as três encadernações
encontradas ao longo da pesquisa. A despeito disso, como mais uma pista desta investigação
pelos periódicos da época, distingue-se o formato noticiado pelo então editor Antonio de
Almeida, encontrado no Arquivo Geral do Rio de Janeiro. O exemplar encontrado nessa
instituição conta com nove gravuras e a introdução, essa sem numeração, assim como cita o
anúncio veiculado pelo número 251 do periódico A Reforma, observado anteriormente. Já o
encontrado no Museu Histórico Nacional assemelha-se ao anunciado acima, onze anos depois
do primeiro fascículo da coleção, sem constar o Combate naval do Riachuelo, sendo
numerado como o primeiro fascículo a introdução, não constando nenhuma gravura. Isso leva
a crer que a coleção foi modificada em suas outras tiragens, porém não é possível verificar o
motivo que originou essa situação e quantas tiragens foram refeitas, restando poucos vestígios
dos conjuntos.
O que se percebe e se confirma a partir destas fontes aqui levantadas é que já ocorria
no Brasil uma circulação significativa de periódicos e gravuras pelas províncias, chegando até
mesmo em outras nações e “criando uma espécie de rede que interligava os círculos letrados:
por esses impressos as pessoas se aliavam, se insultavam e se conheciam, manifestando-se
publicamente56”, o que formula um espaço social de grande relevância, ainda que em um
primeiro momento restrito a um público letrado.
Merece brevemente ser citada a questão do colecionismo, aspecto presente na
humanidade há tempos, que constitui a ideia dos fascículos da coleção, que busca rememorar
os feitos do país na guerra e leva-los à posteridade a partir dos textos e imagens. Segundo
Rosane Ferraz, autora que dará as bases da concepção de colecionismo utilizada nesta
dissertação

56 MOREL, Marco, BARROS, Mariana Monteiro de. Palavra, imagem e poder: o surgimento da imprensa no
Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p. 47.

47
a coleção é uma instituição universalmente difundida, considerada uma
representação do seu colecionador, em que o mundo está presente em cada um dos
seus objetos de modo organizado. O fato de possuir determinadas peças de coleção
confere prestígio, testemunhando o gosto de quem as adquiriu, ou seus interesses
intelectuais57.

O colecionismo, que pode ser considerado uma prática universal, está presente nas
mais variadas culturas do mundo. Este hábito pode ser refletido como uma operação mental
necessária à vida social, imprimindo nesta prática uma hierarquização de valores, modos de
organização, e o estabelecimento de territórios afetivos e subjetivos. Neste sentido, colecionar
é determinar ordens e prioridades, incluindo ou excluindo determinados aspectos ligados às
dinâmicas da memória e do esquecimento coletivos, cujo os indivíduos dependem
subjetivamente para se mover no espaço social58.
Krysztof Pomian59 explica que os objetos exercem a tarefa de intermediários entre os
espectadores e um mundo imaterial onde se encontram os mitos, os contos e as histórias. Ou
seja, tornam-se uma espécie de enciclopédia de seu tempo, refletindo diretamente os gostos de
seu proprietário.
As coleções formam um teatro da memória, reunindo os passados pessoais e coletivos.
Elas garantem a presença das memórias por meio dos objetos que as evocam. Como em
museus históricos, onde se busca dividir tematicamente os espaços, para que cada sala remeta
a um passado remoto a partir de seus variados objetos e as memórias criadas em torno deles.
Essa presença transubstanciada mostra a ligação entre memória e objeto presente nos
indivíduos60.
A relação entre colecionador e coleção define exatamente, tal qual a exposição de um
museu, os valores e significados aos itens expostos, reordenando a própria natureza deles. Ou
seja, o ato de colecionar está diretamente ligado à necessidade do indivíduo se posicionar na

57 FERRAZ, Rosane Carmanin. Entre usos e funções: a prática do colecionismo de fotografias no século XIX e
sua difusão no Brasil Imperial. Patrimônio e Memória. v. 10, n. 1, p. 183-198, janeiro-junho. UNESP: São
Paulo, 2014, p. 184.
58 ABREU, Regina. Museus etnográficos e práticas de colecionamento: antropofagia dos sentidos. Revista do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, n. 31, p. 100-125, 2005, p. 103.
59 POMIAN, Krzysztof. Coleção. In: Enciclopédia Einaudi: Memória-História. Lisboa: Imprensa Nacional -
Casa da Moeda, 1984, p. 51-86.
60 BLOM, Philipp. Ter e Manter: uma história íntima de colecionadores e coleções. Rio de Janeiro: Record,
2003, p. 219.

48
sociedade por meio destes objetos, suportes de memória, que traçam assim suas relações entre
a sociedade e entre o presente e o passado, de forma indireta61.
Especificamente sobre a obra de arte, Pomian diz que aquilo que é representado, cedo
ou tarde se tornará invisível, ao passo que a imagem permanecerá62. Isso pode ser claramente
transposto para as litografias que, em muito dos casos, ainda potencializaria esse raio de
difusão das pinturas. No exemplo aqui analisado, estas litografias tiveram papel de suma
importância para que algumas destas obras – desaparecidas, destruídas ou em acervos
privados – tenham parte da sua ideia traduzida pelas gravuras, chegando à contemporaneidade
graças a sua reprodutibilidade e salvaguarda em várias instituições e, claramente, por conta do
colecionismo, como é possível perceber em alguns anúncios de venda na internet, feito por
leiloeiros.
Vale ressaltar que a polissemia destas imagens permite ao espectador, seja do século
XIX ou da atualidade, perceberem inúmeros aspectos nos textos e imagens. Contudo, o fato
de que os fascículos estejam reunidos em torno de uma narrativa específica, facilita com que
as análises tenham um foco, como o já citado trajeto de um museu. Caso estivessem separadas
e, claramente sem contexto específico, as imagens e textos certamente teriam análises
distintas e talvez mais abrangentes, visando apenas aquilo que retratam e não o contexto em
que se inserem.
Ao falar especificamente sobre as fotografias no século XIX, Ferraz explica que tais
registros iconográficos, que podem ser também observados nas gravuras, configuram-se como
importantes fontes de estudos para as mais variadas áreas do conhecimento. As litografias,
especificamente, são frutos de um contexto social específico, estando diretamente relacionada
aos valores, costumes e gostos da comunidade de sua época63. No caso, as gravuras baseadas
na guerra foram feitas em dois momentos: contemporaneamente aos eventos, graças aos
enviados de guerra e seus relatos e croquis e, no caso da coleção estudada, posterior ao
conflito, com o intuito de exaltar os feitos em batalha, em um período demarcado por forte
nacionalismo.

61 Ver mais em COSTA, Thainá Castro. Colecionando o invisível: o reordenamento de mundo a partir de
objetos de descarte. 2012. 123 f. Dissertação (Mestrado em Memória Social) – Universidade Federal do Estado
do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.
62 POMIAN, Krzysztof. Coleção. In: Enciclopédia Einaudi: Memória-História. Lisboa: Imprensa Nacional -
Casa da Moeda, 1984, p. 72.
63 FERRAZ, Rosane Carmanin. Entre usos e funções: a prática do colecionismo de fotografias no século XIX e
sua difusão no Brasil Imperial. Patrimônio e Memória. v. 10, n. 1, p. 183-198, janeiro-junho. UNESP: São
Paulo, 2014, p. 190.

49
Percebe-se a partir de seus planos de elaboração nos seus anúncios e no material final,
o desejo de se criar um forte simbolismo em suas páginas, chegando ao outro lado do oceano,
buscando explicitar a caminhada civilizatória do Império brasileiro, um território além-mar
que se espelhava nos ideais europeus para se introduzir no hall das grandes nações mundiais.
Conclui-se que as imagens produzidas neste período devem ser consideradas como
elementos de construção de um discurso de nação, esta que ainda se encontrava em um
processo de formação de sua imagem para o exterior e, principalmente, para a sua própria
população. Assim como a fotografia, os métodos de criação de gravuras, mais ainda,
encontram-se plenamente relacionados ao processo de construção do Império, enfatizando-se
o período do Segundo Reinado.

3. Editores, desenhistas e litógrafos

Como citado anteriormente, a edição dos Quadros historicos da guerra do Paraguay


foi realizada por Augusto de Castro e Antônio Pedro Marques de Almeida, que assinavam
como A. de Almeida & C., vindo a se tornar, após o ingresso de Agostini, enteado de Antônio
de Almeida, na Almeida, Castro & Angelo. Sobre os primeiros editores, as informações ainda
são muito escassas.
Um dos editores, o jornalista Augusto de Castro, seria mais conhecido
posteriormente à coleção, ao publicar, entre 1877 e 1878, o folhetim humorístico “Cartas de
um caipira”, no Jornal do Commercio. Além disso, atuou como compositor bissexto, parceiro
de Chiquinha Gonzaga no batuque Candomblé, editado no ano de 188864.
O historiador Werneck Sodré, em História da Imprensa no Brasil, alega que o
português Almeida fora o responsável por colocar Angelo Agostini na imprensa paulista65,
além de incluí-lo posteriormente na sociedade. Isso se deve por Agostini ter sido um
desenhista singular e um ousado redator, criando personagens marcantes e estando sempre
presente em periódicos de sucesso.
Nascido em 1843, em Vercelli, uma comuna na região do Piemonte, na Itália, o
desenhista radicado no Brasil tem em sua trajetória artística temas cruciais para o império, nos

64 AUGUSTO, José Carlos. A Vida Fluminense, “folha joco-séria-illustrada” (1868-1875). Curitiba: XXXII
Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2009, p. 2. Disponível em:
http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-1235-1.pdf. Acessado dia 04/03/2018.
65 SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999, 4.ed. p. 204.

50
últimos trinta anos do século XIX: a guerra da Tríplice Aliança e as questões do
abolicionismo e, indiretamente, o movimento republicano.
Agostini desembarcara no Rio de Janeiro e logo iria para São Paulo, em meados de
1859, onde era, inicialmente retratista a óleo e fotógrafo66. Posteriormente, ele seria o maior
responsável pelo sucesso dos periódicos Diabo Coxo e O Cabrião, abandonando a cidade
rumo ao Rio de Janeiro devido a censura sofrida pelos órgãos oficiais da cidade, algo que ia
contra a lei da liberdade de expressão, tão defendida no Segundo Reinado67. Em seus anos
iniciais na capital da Corte, via-se uma imprensa ilustrada em consolidação, graças ao
processo litográfico, meio barato de reprodução. No período, o primeiro jornal caricaturesco
regularmente divulgado no Rio de Janeiro era a Semana Illustrada, de Henrique Fleiüss,
iniciando sua circulação em 1860. Após se firmar no Vida Fluminense, Agostini logo atacaria
Fleiüss, alegando que este plagiava descaradamente os desenhos de periódicos franceses, já
demonstrando por si só o que esperar da sua terrível pena.
Porém, a colaboração de Angelo Agostini encerrava-se bem antes do fim d’A Vida
Fluminense, que resistiu até dezembro de 1875. O artista deixava a pena em 6 de novembro
de 1869, sendo substituído pelo jovem Candido. Segundo Gilberto Maringoni, o último
desenho de Agostini seria “uma quarta capa, na qual aparece Solano López demonizado como
o ‘Nero do século XIX’”. O autor complementa que com o desenrolar do conflito, Agostini
deixava de lado a

visão crítica em relação à participação brasileira, exibida em Diabo Coxo e O


Cabrião, e adere ao maniqueísmo belicista. Em desenhos como este, aparentemente
a violência parte apenas do lado paraguaio. A curta carreira de Agostini n’A Vida
Fluminense sobressai-se por marcar um acelerado amadurecimento estético. Seus
desenhos estão mais seguros e as temáticas e os enquadramentos, mais elaborados 68.

O periódico A Vida Fluminense vangloriava-se de sua vasta produção sobre a guerra


contra o Paraguai, afirmando em um artigo publicado no dia 13 de fevereiro de 1869, assinado
por A. de C., alegando que era possível de observar

66 MARINGONI, Gilberto. Angelo Agostini: A Imprensa Ilustrada da Corte à Capital Federal: 1864-1910.
Devir: São Paulo, 2011, p. 63.
67 MONTELLO, Josué. “Caricaturas e escritores”. In: Histórias da Vida Literária, citado por Herman Lima in
História da Caricatura no Brasil, vol. 1. José Olympio Editora: Rio de Janeiro, 1963, p. 95.
68 MARINGONI, Gilberto. Op. Cit., p. 73.

51
nas vidraças de innumeras casas de commercio da capital do Império veem-se cópias
photograficas, em diversos formatos, de todos os episodios da guerra e retratos de
generaes, que temos publicado até hoje; e tal é a procura, que as edições se esgotam
em poucas semanas69.

Porém, mesmo com todo esse sucesso, Agostini fazia um movimento diferente, ao
ingressar no periódico O Mosquito, em janeiro de 1872, onde encontrava-se em sua melhor
forma, mais maduro nos traços e na edição jornalística. Em um de seus trabalhos,

mescla páginas duplas com histórias em quadrinhos, paródias de quadros de Pedro


Américo (1843-1905, pintor de O grito do Ipiranga e A batalha do Avaí), Vitor
Meirelles (1832-1903, autor de A primeira missa e A batalha de Guararapes) e
outros, sequências sobre fatos do cotidiano e a crônica gráfica do comportamento
das diminutas camadas dominantes da sociedade e seus setores agregados 70.

Suas críticas mantinham o tom jocoso, não perdoando nem os artistas sendo, inclusive,
muito crítico ao pintor Victor Meirelles, como será visto posteriormente e na crítica veiculada
ao pintor e a Pedro Américo, agora já na Revista Illustrada, fundada por ele em 1876, sendo
veiculada até 1898:

(...) A experiência tem provado que os grandes louvores não têm tido outro
resultado, senão estragar verdadeiras vocações. Não seremos nós que começaremos
a estragar algumas que se revelam entre os pensionistas da Academia, que
atualmente estão na Europa, apezar de ter-nos bastante agradado os quadros que de
lá enviaram. Nem esperávamos tanto.
Duas grandes victimas dos louvores imerecidos são justamente os dois principais
professores de nossa Academia, considerados gênios por seus amigos e admiradores
(Pedro Américo e Victor Meirelles). Estes entendem tanto de arte quanto
entendemos de hebraico. (...)
O resultado foi uma tremenda decepção, pois que hoje muitos já reconhecem que os
dois gênios não passam, perante a verdadeira arte, senão de duas mediocridades
(...)71.

Essa crítica, a qual abarcava a Exposição de 1884, cita Victor Meirelles e Pedro
Américo de forma jocosa. Primeiro, ao envolver os dois, os trata com desdém, alegando que

69 A Vida Fluminense, n. 59, 13/02/1869, p. 742. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
70 MARINGONI, Gilberto. Op. Cit., p. 75.
71 Revista Illustrada, n. 390, 13/07/1884, p. 6 Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

52
ambos não teriam talento suficiente e não entendiam nada das artes. Ele segue direcionando a
crítica para Pedro Américo, na qual ressalta que o professor de estética também não conhece
os procedimentos artísticos, “tanto na Batalha do Avahy, como nos outros quadros que se
acham no salão72, não se descobre o menor conhecimento dessa ciência da arte”, dizendo que
certamente o pintor consegue fazer uma preleção sobre a estética, mas “senti-la e aplicá-la,
nunca!”. Segue desdenhando das outras obras demonstrando algumas de suas falhas,
criticando o formato da perna de A Carioca, e alega que “apesar de tomar banhos em azeite
para curar a perna esquerda, esta continua cada vez mais inchada”. Sobre A noite, ele ainda é
mais enfático: “Bonito pensamento (se é dele), mas quanto a execução... detestável. Que
desastre!”.
Já sobre Victor Meirelles, faz uma crítica aos erros do Combate naval do Riachuelo e,
nela, não se vê nenhum apuro ao compará-lo com a primeira versão do quadro. Via na tarefa
de corrigir o Combate como repleta de “inúmeras dificuldades, excessivo trabalho e prazo
bastante longo”.
O crítico Angelo Agostini, que iniciava sua carreira em 1871 sendo anunciado como
desenhista das gravuras na coleção mesmo não estando mais n’A Vida Fluminense,
certamente nutria um comprometimento artístico e uma influência crítica bastante vasta. O
personagem, muito envolvido com as classes mais altas da Corte, era conhecido por ser uma
figura cheia de opiniões, além de ser um exímio desenhista, dominando a pena de uma forma
singular, fazendo dela sua maior arma crítica. Tinha nesta classe o seu maior público, estando
sempre presente em festas e eventos da elite carioca, onde exercia forte papel social.
Conhecido como um “faz-tudo” da imprensa, Agostini é um personagem controverso:
ao passo em que convive com as elites cariocas, critica abertamente a abolição para um
público dependente dessa situação. O desenhista tinha algumas posições racistas e
preconceituosas contra os humildes. Angelo Agostini era uma espécie de híbrido: polemista,
repórter e editorialista. Tido também como o criador das narrativas quadrinizadas, utilizava-se
das folhas dos jornais para expressar suas opiniões e críticas, nas quais em muitos momentos
D. Pedro II fora sua vítima73.

72 Alguns quadros de Pedro Américo expostos: A Carioca, A Noite e Joanna d’Arc, Rabequista e Virgem
Dolorosa.
73 MARINGONI, Gilberto. Angelo Agostini: A Imprensa Ilustrada da Corte à Capital Federal: 1864-1910.
Devir: São Paulo, 2011, p. 11.

53
Caricaturista, pintor, precursor dos quadrinhos no Brasil, repórter, jornalista, editor e
militante político, Agostini foi, sem sombra de dúvidas, um dos artistas mais ativos na
imprensa da segunda metade do século XIX. Produziu um vasto material gráfico da sociedade
brasileira e suas mazelas, criticando sempre o monarca, a escravidão e os atrasos em que via
atolar-se a nação, até ela se tornar uma república. Faleceu em 1910 aos 66 anos, no Rio de
Janeiro, lugar onde é perceptível sua dedicação em cerca de quarenta anos na imprensa
ilustrada.
De acordo com as escassas informações sobre os artistas envolvidos na coleção, é
possível estabelecer que Angelo Agostini só desenhou os dois primeiros exemplares –
ironicamente de dois pintores que ele anos antes criticara, como mostrado acima – ilustrando
o Combate naval do Riachuelo e a Rendição de Uruguayana.
Outro desenhista e litógrafo que também faz parte da produção de uma das gravuras da
coleção é de Nicolau Huascar de Vergara, de quem pouco se encontra informações. Um dos
discípulos de Ângelo Agostini, trabalhou em 1865 no Diabo Coxo, e parceiro de trabalho de
Belmiro de Almeida por um breve período, Huascar era também pintor, cenógrafo,
caricaturista e ilustrador. Ativo na Corte, pouco se sabe sobre sua origem, mas é dito que o
artista veio a falecer próximo ao ano de 1886. Sabe-se de sua participação na Exposição Geral
de Belas Artes em 1870 e da sua colaboração com os periódicos Vida Fluminense, em 1871,
próximo ao ano em que executaria uma de suas obras mais conhecidas, o Assalto e ocupação
de Curuzú pelo 2º corpo do Exército ao mando do Visconde de Porto Alegre em 3 de
setembro de 1866, gravura presente nos Quadros historicos da Guerra do Paraguay. Em
1876, foi para São Paulo, onde pintou diversos retratos e ilustrou o semanário humorístico O
Polichinelo. Posteriormente, cooperou com os periódicos A Lanterna, em 1878, e em 1881
com O Binóculo. O crítico Gonzaga Duque o definia como “homem trabalhador e honesto,
porém artista de muito pouco mérito”74 75 76 77.
Nascido na França em 1821, Joseph Alfred Martinet, ou apenas Alfred Martinet, era
um litógrafo, retratista e paisagista que também contribuiu para a coleção em duas ocasiões:

74 GAMA, Luís; AGOSTINI, Ângelo. Diabo Coxo: São Paulo, 1864-1865 (fac-símile). São Paulo: Edusp,
2005, p. 15.
75 LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Artlivre: Rio de Janeiro, 1988, p.
249.
76 LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil. V. 3º, Rio de Janeiro, 1963.
77 STICKEL, Erico João Siriuba. Uma pequena biblioteca particular: subsídios para o estudo da iconografia
no Brasil. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial, 2004, p. 287.

54
no Combate naval do Riachuelo e na Passagem do Curuzú. Chegou ao Brasil em 1841, vindo
do Havre. Atuou na casa litográfica Heaton & Rensburg78, na rua da Ajuda, 68, e na editora
dos irmãos Eduardo e Henrique Laemmert. Com a colaboração de ambos, lançou em 13 de
abril de 1847 o álbum O Brazil Pittoresco, Historico e Monumental, que continha litografias
de paisagens e monumentos cariocas. Estabeleceu-se a partir do ano de 1851 na rua do
Lavradio, 20, com seu estúdio litográfico e de “desenhos para todos os gêneros”, mas que não
funcionava como uma oficina litográfica por não contar com uma prensa. Segundo Orlando
da Costa Ferreira, esse também foi o caso de outros litógrafos como A. de Pinho, que
compravam ou alugavam as pedras litográficas e trabalhavam em casa. Em 1854, Martinet se
associou a outro francês que faria muito sucesso na capital: Paulo Robin. A firma Alfred
Martinet & Paulo Robin situava-se na rua da Ajuda, 113. A partir do dia 1º de junho de 1856,
fundava a Martinet, L. Thérier & Cia., sendo outro estabelecimento litográfico em que o
artista passava. Já no ano de 1867, mudou-se para a rua São José, 53, especializando-se em
registro de santos. Parece frequente a contribuição de Martinet com o editor Leuzinger79 e
também atuou como professor de desenho e pintura, constando no Almanaque Laemmert até
1872, findando sua participação nas notícias e na produção litográfica80.
Gilberto Ferrez alega que Martinet tenha sido “o melhor litógrafo que por aqui
trabalhou”, sendo a obra intitulada “Rio de Janeiro tomado da ilha das Cobras” uma obra
muito bem executada. Ele detalha

belíssimo panorama assinado, feito da ilha das Cobras, tendo, nos primeiros planos:
à esquerda, muralhas do forte da ilha, com um soldado recostado à parede; um
caminho por onde passa um garoto puxando uma cabra; um negro carregando um
cesto na cabeça; e, à direita, casas, igreja e forte da parte alta da ilha. Ao longe, toda
a cidade e suas montanhas, desde a barra, Pão de Açúcar, até a Tijuca, morros da
Conceição e São Bento. A marinha, desde o calabouço até o Arsenal de Marinha,
está executada com toda minúcia e pormenores, podendo-se facilmente reconhecer
prédios, igrejas, conventos, trapiches, etc 81.

78 FERREIRA, Orlando da Costa. Imagem e letra: introdução à bibliologia brasileira - a imagem gravada. São
Paulo: Edusp, 1994, p. 386.
79 Ibid, 1994, pp. 387-388.
80 STICKEL, Erico João Siriuba. Uma pequena biblioteca particular: subsídios para o estudo da iconografia
no Brasil. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial, 2004, p. 350.
81 RIBEIRO, Monike Garcia. O prazer do percurso. Casa de Rui Barbosa: Rio de Janeiro. Disponível em:
http://www.casaruibarbosa.gov.br/oprazerdopercurso/bio_martinet.htm. Acessado dia 05/03/2018.

55
Mais conhecido pelas suas paisagens, Martinet teve sua litografia Praia de Botafogo
em 1846 reproduzida no livro A muito leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro, de Gilberto Ferrez82. Outra gravura de sua autoria, onde mostra o Paço de São
Cristóvão, do Rio de Janeiro, foi publicada no álbum Paço de São Cristóvão, 1817-188083,
editado em Petrópolis. Faleceu na França em 187584.
Antônio de Souza (ou Sousa) Lobo, era um pintor, restaurador, cenógrafo e fotógrafo
nascido em Campos dos Goytacazes em 1840. Ingressa aos quatorze anos na Academia
Imperial de Belas Artes, recebendo posteriormente menção honrosa nas Exposições Gerais de
1865 e 1866. Em 1868, já fora da Academia, apresenta na Exposição, juntamente de Antônio
Barbosa de Oliveira, fotografias do ano de 1866, mostrando seus trabalhos e montagens. Foi
restaurador da Pinacoteca Pública e abriu, de 1867 a 1890, um ateliê de paisagens com o seu
irmão, Carlos Alberto de Sousa Lobo. Lecionou no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de
Janeiro, a partir de 1868, e no Colégio Pedro II. Ganhou sua segunda medalha de ouro em
1870 e duas vezes a primeira, em 1876 e 1879. Trabalhou até 1874 como cenógrafo do Teatro
Provisório, no Rio de Janeiro, mesmo ano em que lança o texto Belas Artes: considerações
sobre a reforma da Academia, em que se mostrava preocupado com os rumos do ensino
acadêmico. Ministra, a partir de 1876, aulas no Asilo de Menores Desvalidos, na capital da
corte, onde é professor de Baptista da Costa. Funda ainda nos anos 1870, juntamente do
escultor Almeida Res e o arquiteto Rodrigues Monteiro, a associação Acrópolis, defendendo a
modernização do ensino de arte no Brasil. No fim de sua vida, dedica-se à fotografia e à
litografia, imprimindo duas gravuras que constam na coleção: a Rendição de Uruguayana e A
passagem de Humaitá.
Atuando em variadas áreas, Souza Lobo é pouco conhecido enquanto pintor, não
deixando nenhuma obra importante. Gonzaga Duque o define como um homem que tem amor
pela arte e dedicado no que faz, conseguindo por vezes algum êxito, mas sem nenhum grande
progresso85. Outros comentadores de arte o mencionam como um artista que se destaca nos

82 FERREZ, Gilberto. A muito leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
Banco Boavista, 1965.
83 LIMA, Alberto; AULER, Guilherme. Paço de São Cristóvão, Rio de Janeiro 1817-1880. Vitor P. Brumlik
Editor: Petrópolis, 1965.
84 LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988, p.
316.
85 DUQUE, Gonzaga. A arte brasileira. Rio de Janeiro: H. Lombaerts & Cia, 1888, p. 93.

56
retratos, mesmo não sendo um pintor de muita qualidade86 87. Seu quadro de maior relevância
retrata Dom Pedro II já adulto e encontra-se atualmente no Museu Nacional de Belas Artes,
no Rio de Janeiro.
Sobre Antonio de Pinho Carvalho, cujo assinatura nas litografias era A. de Pinho,
sabe-se apenas que ele foi aluno da Academia Imperial de Belas Artes, sendo um relevante
artista gráfico no Rio de Janeiro, trabalhando para a Heaton & Rensburg, editora citada
anteriormente. Quanto à J. Reis, José Vitorino Reis, ou apenas J. Vitorino, nenhuma
informação foi encontrada, a não ser algumas litografias impressas por eles, mas sem nenhum
registro biográfico que pudesse endossar a pesquisa.
Os outros desenhos, baseados em óleos de Victor Meirelles, contam com duas
assinaturas visíveis em três litografias, indicando a autoria das gravuras a Raffaele (ou
Raffaello) Pontremoli. O desenhista, também da região do Piemonte, nasceu em Chieri, uma
comuna de Turim, e faleceu em Milão em 1905. Pontremoli estudou na Academia de Artes de
Nice, na França, onde seu pai era rabino. Retornou a sua região de origem, Turim, onde
ingressou na Academia Albertina, sendo premiado em 1852. Estudou com Horace Vernet em
Paris, regressando à Itália em 1859, como correspondente da revista francesa Illustration na
guerra de Independência88, desenhando diversas cenas de batalha, sendo uma delas adquiridas
por Napoleão III. Em 1866, retornava ao teatro de guerra para ilustrá-lo. Também pintor, fez
um retrato do Conde Cibrario, grão-mestre da Ordem dos Santos. Encontram-se vários
esboços seus nas instituições da Lombardia, onde executava seus trabalhos89 90.
Percebe-se a partir deste levantamento o tamanho da equipe envolvida na empreitada
de produzir a coleção. A partir dos dados apresentados, é possível perceber a relevante
presença de personagens estrangeiros na confecção de uma coleção feita com o intuito de
exaltar os feitos brasileiros. Destes, muitos seguiram no Brasil até o fim de suas vidas,
contribuindo para a construção e consolidação da imprensa do século XIX, bem como do
cenário intelectual, letrado e artístico. A produção de todos envolvidos vai além dos Quadros

86 ZANINI, Walter. História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães/Instituto
Walther Moreira Salles, 1983. V. 1, p. 408.
87 CAMPOFIORITO, Quirino. A proteção do Imperador e os pintores do Segundo Reinado: 1850 - 1890.
Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1983, p. 22.
88 Conhecida também como a Segunda Guerra de Independência Italiana, Guerra Franco-Austríaca ou Guerra
Italiana de 1859.
89 GUBERNATIS, Angelo De; MATINI, Ugo. Dizionario degli artisti italiani viventi, pittori, scultori e
architetti. Firenze: Tipi dei successori Le Monnier, 1889, p. 386.
90 GIUSEPPE, Levi; PONTREMOLI, Esdra. L’Educatore Israelita: Giornaletto di letture. Vercelli: Tip. e lit.
de Gaudenzi, 1857, p. 49.

57
históricos da guerra do Paraguay, estando presentes em diversas produções da segunda
metade do século XIX e até mesmo no início do século XX, tornando-os personas importantes
para o cenário nacional. Personagens como Angelo Agostini, Alfred Martinet e Souza Lobo
eram ativamente participantes do cenário ilustrado e artístico do período, enfatizando-se a
composição da equipe editorial por importantes personagens. Agostini ainda se destacaria em
basicamente todos os periódicos no qual foi desenhista, redator e crítico, revolucionando a
imprensa do Brasil ao ilustrar as páginas dos periódicos, onde fazia troça e críticas severas aos
problemas do país, sempre com um tom jocoso.
Da ideia da editoração aos traços litográficos e textos elaborados por intelectuais do
período é notável a importância desta coleção no período. Isso se evidencia por conta da
atenção dada pelos pintores, que dispunham suas obras e alguns esboços e de alguns
ministérios do Império, os quais viam nos fascículos uma vitoriosa propaganda, os enviando
para as províncias e missões diplomáticas de outros países. Havia também um viés
pedagógico muito comum no final do século XIX, onde se buscava estabelecer uma ordem
através do que Giulio Argan considera um processo educativo da sociedade que “se dá
precisamente na medida em que a gravura comunica, junto com a imagem, o valor estético
que lhe é correlato, ou seja, a grandiosa concepção do mundo que os artistas expressam em
imagens91”. A esse caráter pedagógico presente na pintura e amplificado pelas gravuras,
ensinava-se a história da nação, publicizando-a. O que a elite no período buscava com isso era
justamente criar um sentimento de nacionalidade tanto para o seu povo quanto para os
estrangeiros, algo muito comum do Oitocentos. Com isso, as produções artísticas eram
apropriadas como uma representação simbólica de poder e como um instrumento de
propaganda de sua civilidade moderna, buscando abrandar as constantes críticas ao
escravismo vigente e as várias revoltas em território nacional.
Neste capítulo foram expostos os detalhes editoriais que envolvem a elaboração de
uma coleção de gravuras do século XIX, abordando desde os editores, gravuristas e
intelectuais responsáveis pelos textos, que tornaram possível a ideia de Augusto de Castro e
Antônio Pedro Marques de Almeida. Através das fontes encontradas foi possível responder as
hipóteses levantadas com base em estudos feitos sobre outros periódicos e também pela
análise visual elaborada a partir das edições encontradas nos acervos da cidade do Rio de

91 ARGAN, Giulio Carlo. O valor crítico da “gravura de tradução”, In: Imagem e persuasão: ensaios sobre o
barroco. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2004, pp. 17-18.

58
Janeiro. Nelas, foi possível perceber diferenças estéticas em algumas litografias – algo que
será abordado no segundo capítulo –, na diagramação dos textos, observando diferenças nas
fontes tipográficas e adornos utilizados e nas distintas formações anunciadas nos periódicos
onde, por exemplo, encontra-se com oito ou nove litografias.
Outros aspectos como a circulação e o consumo também trouxeram mais respostas a
esta série de hipóteses. Por exemplo, ao contrário do que ocorria em outros países, o Império
não financiava diretamente a elaboração da coleção, embora comprasse uma considerável
quantidade de fascículos. Com isso, os distribuía tanto internamente, para as províncias
distantes, quanto para missões em outros países. Atribui-se a essa circulação a propaganda de
um Império vitorioso e civilizado, sobretudo ante o povo europeu, visto como o epicentro da
civilização no século XIX.

4. Escritores

Os escritores que assinaram a coleção, como poderá ser percebido ao longo de suas
breves biografias, levantadas a partir do Diccionario bibliographico brasileiro, organizado
por Augusto Victorino Alves Sacramento Blake92, foram personagens ativos no cenário
intelectual e na imprensa do século XIX. A partir de algumas buscas na Hemeroteca Digital
ou em bibliografias sobre o período, também é possível encontrar alguns de seus artigos ou
breves informações, algo que leva a crer nessa ativa participação entre as elites.
Estes homens letrados, que em sua grande maioria estiveram envolvidos com o meio
acadêmico da época, empenharam-se em uma série de publicações, como escritores, editores
ou até mesmo tradutores, algo que denota um elevado nível intelectual. Suas áreas de
formação variam entre jornalismo, direito e medicina, algo que explicita que tais discursos
eram feitos a partir de uma perspectiva mais elitista, tanto do ponto de vista intelectual quanto
econômico.

4.1. Henrique Cesar Muzzio

O carioca Henrique Cesar Muzzio, filho de Sebastião José Muzzio, nasceu no dia 18
de setembro de 1831. Doutor em medicina pela faculdade da Corte, foi nomeado como oficial

92 BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Rio de Janeiro:
Typographia Nacional, 1883.

59
intérprete e arquivista do Conselho Naval em julho de 1858. Posteriormente, foi nomeado
como secretário do mesmo conselho, depois de ter servido em comissão de 1865 a 1867 o
cargo de Secretário do Governo Provincial de Minas Gerais. No final de sua vida, foi à
Europa tratar de sua saúde, falecendo em Paris a 16 de dezembro de 1874. Foi condecorado
como Cavaleiro da Ordem da Rosa, sendo um conhecido literato, tendo escrito obras voltadas
à medicina, às belas-artes, romances e outros.
Foi redator da Semana Illustrada, bem como colaborador de diversos periódicos e
revistas, como Typos nacionaes. Ignacio Correia, o caçador de onças, saindo na Bibliotheca
Brasileira, tomo l°, n. 1, 1863, reproduzido em 1882, no Curso de literatura brasileira do dr.
Mello Moraes Filho, 2ª edição, páginas 43 a 47. Há também uma crítica literária sobre A noite
do Castello, feita para o Diario do Rio, n. 244, de 6 de setembro de 186193.

4.2. Augusto Emilio Zaluar

Augusto Emilio Zaluar, ou A. E. Zaluar, foi filho do major José Dias de Oliveira
Zaluar. Nascido em Lisboa a 14 de fevereiro de 1825, naturalizou-se enquanto brasileiro no
ano de 1856. Em sua carreira, estava destinado a cursar medicina, fazendo todos os
preparatórios necessários e se matriculando no curso médico-cirúrgico de Lisboa. Todavia,
decidiu por abandonar a academia e se dedicar ao jornalismo literário, tendo contribuído com
diversas revistas lisboetas e, posteriormente, cariocas, ainda no ano de sua vida, em meados
de 1849. Foi nomeado amanuense da Secretaria de Justiça, porém não permanecendo muito
tempo neste emprego. Excursionou pelas províncias do Rio de Janeiro e São Paulo e, ao
retornar para a Corte, serviu como examinador da instrução pública e também na criação da
Escola Normal em 1881, onde foi nomeado como lente de pedagogia. Era também
condecorado como Cavaleiro da Ordem da Rosa e também era sócio da Sociedade
Auxiliadora da Indústria. Faleceu na capital da corte a 3 de abril de 1882.
Publicou em periódicos como Diario do Rio de Janeiro e Correio Mercantil, e
também poesias nas revistas Lisia Poetica e Grinalda. Traduziu parcialmente nas páginas do
Correio Mercantil o romance Os moicanos de Paris, de Alexandre Dumas, durante os anos de
1854 a 1856. Redigiu também sobre artes, literatura, relatos de viagem, biografias, outras

93 BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Tomo 3. Rio de
Janeiro: Typographia Nacional, 1883, pp. 217-218.

60
traduções, geralmente do francês, e uma série de livros didático-pedagógicos. Sobre a guerra,
o dicionário mostra que o escritor produziu um poema intitulado Uruguayana, em 1865, que
comemorava a retomada da cidade pelos brasileiros. Também colaborou na obra Heroes
brazileiros na campanha do Sul, coleção de 15 livretos feitos em parceria com Eduardo de Sá
Pereira de Castro. E também redigiu sobre a guerra nos periódicos O Parahyba: jornal
consagrado aos interesses commarciaes, industriaes e agrícolas de Petropolis, entre 1857 a
1860, A Civilisação: folha consagrada aos interessas garaes do paiz de Santos, em 1861, n’O
Municipio: jornal scientifico, noticiario e commercial, em Vassouras, 1873, e no periódico
hebdomadário carioca O Vulgarisador: jornal dos conhecimentos uteis, entre 1877 e 187894.

4.3. Francisco José Pinheiro Guimarães

Dr. Francisco José Pinheiro Guimarães, conhecido também com Coronel Pinheiro
Guimarães é filho do também médico, Dr. Francisco José Pinheiro Guimarães. Nascido a 24
de dezembro de 1832 no Rio de Janeiro. Doutor em medicina, pela faculdade da Corte no ano
de 1854, foi nomeado como substituto da Sessão Médica em 1859 e lente catedrático de
fisiologia em 1870.
Foi o primeiro cirurgião da armada na guerra contra o Paraguai, oferecendo-se para
fazer parte dos defensores da pátria, não como médico, mas oficial, presente nas fileiras, com
espada empunhada, apresentando-se como capitão a um corpo de voluntários, sendo
sequencialmente promovido a tenente-coronel. Comandou o corpo para a guerra, sendo
conhecido como bravo e valoroso pelos seus, bem como disciplinado, militar instruído e
completo.
Por conta disso, alega-se que ele entrou em vários combates, que lhe deram a honraria
de ser coronel e depois brigadeiro do Exército, recebendo as condecorações da Cavaleiro,
Oficial e Dignatário da Ordem do Cruzeiro; de Oficial, Comendador e Dignatário da Ordem
da Rosa; a medalha comemorativa da rendição da cidade de Uruguaiana, a do Exército em
operações como Passador de Ouro e a de Mérito e Bravura. A partir de suas considerações,
percebe-se claramente o seu engajamento na luta pelo Império e, portanto, a extrema
relevância que seus textos deveriam ter no calor da guerra.

94 BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Tomo 1. Rio de
Janeiro: Typographia Nacional, 1883, pp. 351-353.

61
A antiga província do Rio de Janeiro posteriormente o elegeu como representante nas
assembleias por várias legislaturas. Faleceu 5 de outubro de 1877, na Corte, por ocasião de
vários ferimentos, sobretudo o ocorrido na batalha de 24 de maio. Em seus escritos, é possível
observar uma série de artigos médicos, alguns voltados à questões fisiológicas, sendo também
redator da Gazeta Medica do Rio de Janeiro entre 1862 a 1864.
Publicou romances, uma série de cartas redigidas para a redação do Jornal do
Commercio, abordando A revolução oriental e outros casos, bem como um drama intitulado
Historia de uma moça rica, peça em quatro atos, que foi representada no Teatro Gymnasio
dramático, escrita no Rio de Janeiro, em 1861, contendo ao todo 104 páginas. Conta com
prefácio escrito por Henrique Cezar Muzzio, já citado acima, que publica uma crítica ao
drama no Diario do Rio de Janeiro do mesmo ano, no dia 13 de outubro.
Sobre a guerra da Tríplice Aliança, o Diccionario destaca apenas um mapa feito com
base em informações dos prisioneiros, em 1869, possivelmente situado no Arquivo Militar.
Escreveu em várias folhas diárias sobre diversos assuntos como, por exemplo, acerca dos
uniformes do Exército, bem como sobre o conflito contra os paraguaios, no Correio
Mercantil, em 186595.

4.4. José Ferreira de Menezes

Dr. José Ferreira de Menezes, ou Ferreira de Menezes, também é nascido na cidade


do Rio de Janeiro em 1845, falecendo lá mesmo, em 6 de julho de 1881. Bacharel em direito
pela Faculdade de São Paulo, residiu por lá depois de formado, exercendo o cargo de
promotor público. Ao retornar a Corte, dedicou-se fervorosamente ao jornalismo, mesmo
desgostando das lutas políticas de seu período, dando-se de volta à advocacia.
Era conhecido como distinto jornalista, orador e poeta, criando a coleção Flores sem
cheiro, estando os trabalhos em revistas ou em forma inédita. Redigia também sobre
literatura, era tradutor, romancista, tendo escrito com o já citado A. E. Zaluar o romancete
Pavorino, saindo também no Civilisação, de Santos, em 1861. Esteve envolvido na fundação
dos jornais Gazeta da Tarde, do Rio de Janeiro, entre 1880 e l88l, e, segundo Levy dos
Santos, também d’O Ypiranga: orgão do partido liberal, de São Paulo, em parceria com o

95 BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Tomo 3. Rio de
Janeiro: Typographia Nacional, 1883, pp. 92-93.

62
conselheiro José Bonifácio e Salvador de Mendonça96. Provavelmente escreveu sobre a guerra
em alguns periódicos, embora não se tenha encontrado nenhuma informação, a não ser os
textos presentes na coleção.

4.5. Felix Ferreira

Talvez o mais conhecido entre os aqui citados, Felix Ferreira nasceu na cidade do
Rio de Janeiro, em 1841, e ali faleceu, em 1889. Sabe-se que foi empregado muito jovem na
Biblioteca Nacional, algo que pode ter o induzido a seguir as carreiras de escritor e livreiro.
Colaborou com a revista Cruzeiro do Brazil, órgão do instituto católico, e na folha ilustrada O
Guarany, ambos no Rio de Janeiro. Estabeleceu-se no comércio de livros entre 1877 e 1878,
na Rua de São José, n. 110, sob a firma Felix Ferreira & C.ª.
Dedicando-se ao jornalismo e as letras, escreveu uma série de romances, comédias,
biografias e críticas literárias, ciências, imprensa e artes. Envolvido diretamente com
imprensa e arte, publicou o Ensino profissional no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro,
em 1876, onde se encontravam os estatutos da Sociedade Propagadora das Belas-Artes e o
regulamento interno do Liceu. Em 1885, produziu o livro Belas Artes: Estudos e Apreciações,
embora não tenha obtido a mesma visibilidade de outros intelectuais da época como Gonzaga
Duque. Fez também a série Notas bibliographicas para o Cruzeiro do Brazil, onde tratava a
Exposição de História do Brazil de 1882, bem como algumas críticas de arte em periódicos
variados. Sua produção é uma das mais extensas entre os escritores aqui biografados97. Por
meio das fontes encontradas, não foi possível saber mais acerca de suas produções sobre o
conflito.

5. Textos

Os textos da coleção, como abordado anteriormente, foram escritos por personagens


à
diretamente ligados a elite cultural da Corte. É interessante se perceber a partir de qual grupo
surgem esses discursos, que exaltam os feitos dos soldados brasileiros em batalha, bem como
as fontes utilizadas por esses escritores. Mais do que isso, torna-se extremamente necessário

96 BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Tomo 4. Rio de
Janeiro: Typographia Nacional, 1883, pp. 426-427.
97 BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Tomo 2. Rio de
Janeiro: Typographia Nacional, 1883, pp. 332-334.

63
enfatizar a importância enquanto fonte de cada um desses textos, que trazem novas e
interessantes informações para a historiografia. sendo a fonte inédita uma nova possibilidade
de análise do conflito e seus discursos.
Logo no fascículo de introdução, é possível se compreender alguns dos objetivos da
coleção, que podem ser considerados fruto do romantismo da época, glorificando os heróis em
batalha e fazendo prevalecer a partir das páginas da coleção parte da memória que se buscava
construir sobre a guerra. Segue parte do trecho inicial:

Emprehendemos uma obra de justiça e de verdade.


De justiça, porque prestamos homenagem devida aos beneméritos da pátria: de
verdade, porque alheios aos ódios e ás sympathias dos corrilhos políticos,
rememorando os fastos da guerra do Paraguay, entendemos engrandecer unicamente
a nação.
O nosso trabalho é modesto; a sua importancia resalta da importancia dos factos.
A narrativa singela apoiada no depoimento unanime dos que emprehenderam e
perfizeram tantas, e tão galhardas e bizarras acções de heroismo e abnegação, servirá
apenas de glosa ao lapis do desenhista.
Pareceu-nos que a verdadeira gloria rutilava mais pura sem os atavios que lhe
empresta a imaginação exaltada.
Na historia da guerra do Paraguay há paginas que ilustrariam qualquer das
mais guerreiras nações do velho mundo (grifo nosso).
E foi um povo de hontem que escreveu!
Foi um povo cuja brandura de costumes e cordialidade de animo lhe fizeram
merecer até hoje, a par da honrosa designação de hospedeiro, a de imbelle e fraco.
Nessa luta sangrenta e tenaz de cinco annos o Brazil assignalou a epocha de sua
virilidade como nação.
Filhos do norte e filhos do sul, congregados por uma só idéa, batalharam naquelles
inhospitos e pestilentes campos paraguayos com a calma e a resignação que dá o
sentimento do dever.
A unidade nacional melhor se affirmou com essa prova de sangue.
O juizo da posteridade ainda não desceu austero e imparcial sobre os homens e sobre
os factos.

Como se percebe, a obra é uma homenagem aos soldados brasileiros, buscando


ressaltar a importância do conflito para o país. Algo que tanto a introdução quanto outros
textos mostram é a constante comparação com guerras e batalhas europeias, sendo este o
principal ponto de equiparação, não só textual, mas até nos próprios desejos do Império
brasileiro, que buscava alcançar a “civilização”, sendo a guerra um dos meios possíveis,
sobretudo ao se vencer o “bárbaro” povo paraguaio.

Em alguns momentos mostra precisam nas datas e horários, além de trazer números
importantes como soldados em combate, mortos e feridos e armas apreendidas.

64
Especificamente, no fascículo referente ao Combate Naval do Riachuelo, encontra-se uma
espécie de planilha que trata do nome dos soldados e navios do conflito, suas patentes e se
foram mortos ou feridos. Tais informações são de suma importância para se ter maiores
detalhes do conflito, indo além da narrativa.

A riqueza de detalhes é outro aspecto interessante. Em diversas passagens é possível


saber quais armas foram utilizadas, os níveis de destruição, bem como a atuação de
determinados agentes. Em um dos relatos, a mulher de Solano López, Elisa Lynch, entra
literalmente em cena, atuando e levantando o moral das tropas:

Mme. Linch vinha animar os soldados e representar uma scena de comedia. A esses
pobres guaranys, que ella tratára sempre com o maximo desdem, começou a
distribuir charutos e sorrisos. Diz-lhes que se vão cobrir de gloria expellindo do seio
da patria os Brazileiros, que os querem levar captivos as longinquas terras,
roubando-lhes os filhos e as mulheres. Promette-lhes grandes premios, assegurando-
lhes ao mesmo tempo ser de facilima execução a empreza que vão tentar: tudo está
previsto e preparado para dar-lhes esplendida e pouco custosa victoria. Arrouba se,
excita-os, e termina declarando que traz-lhes seu mais estremecido filho, menino de
10 annos, para acompanhal-os em tão gloriosa expedição. Os pobres soldados
chorão enternecidos, vendo essa mãi, essa estrangeira, mandar com elles ao combate
seu filho mais querido, e jurão morrer ou voltar riumphantes. Quanto ao menino,
esse não partirá; não o querem os soldados, nem Romero consente. O menino chora,
quer combater pela causa da patria: Mme Linch apoia-o, insiste, irrita-se; mas
Romero não cede, e, como estava combinado, vence afinal.
Toda essa scena fôra magistralmente representada (grifo nosso). Os soldados
ficarão convencidos que se devem deixar matar, não só por obediencia, mas também
por amor dessa heroica mulher e desse filhote de tigre, que chora porque não o
querem deixar confundir com o delles o seu precioso sangue.

Esse é o único momento onde se nota a presença feminina ao longo da coleção. O


relato coloca a madame Lynch como personagem diretamente envolvida com os soldados,
onde buscava atingi-los emocionalmente para que fossem vibrantes para o campo de batalha.
Nesse teatro criado com o filho, os homens acabam comprando sua ideia, onde até choram.
Tal relato traz um lado diferente do conflito, ao abordar questões sobre o moral das tropas
inimigas.
Em outro momento, ao tratar do episódio do Reconhecimento do Humaitá, o escritor
dá a descrição do que os 12 batalhões de infantaria, regidos pelo general Argolo, contavam
naquele momento, trazendo detalhes como a data, os armamentos e maiores detalhes do
conflito:

65
Determinadas assim as cousas, a 22 de Março o general Argollo á frente de 12
batalhões de infanteria, 8 boccas de fogo, 4 estativas de foguetos á congreve 1 corpo
de pontoneiros, 1 de saúde e ecclesiastico, partiu pela madragada de seu
acampamento, e por uma picada de 500 braças, aberta pelos pontoneiros sob
vivissimo fogo do inimigo, atacou a fortificação de Sauce e uma hora depois tomava
della posse por direito da conquista, tendo perdido na acção 3 officiaes e 29 praças,
além dos feridos que foram 10 officiaes e 155 praças. O inimigo perdeu 21 mortos e
6 que cahiram prisioneiros, conseguindo porém escapar-se toda a mais guarnição,
levando 1 bocca de fogo.
A fortificação de Sauce constava de ante-fosso, por onde corria um arroio
alimentado pela agua dos banhados, represada por uma eclusa; esse ante-fosso
media 850 metros de cumprimento e 9 ½ de largura e 5 ½ de profundidade. Entre o
ante-fosso e o fosso havia um terreno daquella mesma extensão, com 120 metros de
largura, e nesse espaço vinte e quatro ordens de boccas de lobo; o fosso tinha 2 ½
metros de profundidade e o parapeito 4 ½ de largura na baze.

Esse tipo de narrativa descritiva é observado em toda a coleção. Isso é possível pois
boa parte dos textos teve como base as informações que circulavam pela imprensa naquele
momento, tanto no Brasil quanto nos outros países e, além disso, cartas e relatos dos soldados.
Em outro exemplo encontrado na narrativa sobre a Rendição de Uruguaiana, o general Mitre
relata ao vice-presidente D. Marcos Paz sobre novas informações da incursão:

“A guarnição da cidade de Uruguayana entregou-se á descripção dos alliados, sendo


superior a mais de 6,000 homens.
“Os tropheos da victoria foram:
“5 canhões,
“9 bandeiras,
“Mais de 5,000 espingardas,
“1,300 lanças com suas bandeirolas das côres paraguayas,
“Clavinotes,
“Correiames,
“Caixas de guerra.
“Além de uma esquadrilha de canôas e chatas, nas quaes intentaram evadir-se da
sorte que os esperava.
“O general D. João Madariaga, que foi meu ajudante de campo, apresentará a V. Ex.
uma das bandeiras paraguayas.
“Havendo-se estiuplado que a guarnição sahiria das trincheiras desrarmada e sem
honras, com seus chefes e officiaes tambem desarmados na frente, e sahindo por
essa occasião da fórma um porta-bandeira, foi della despojado pelo general Cabral,
ajudante de campo do Imperador. Este a recebeu e entregou-m’a, e eu a acceitei em
nome do povo argentino, como recordação do dia de hoje, em que cerca de 7,000
homens desfilaram, rendidos, perante o soberano e os representantes da soberania
dos povos alliados”.

Observa-se a partir desta carta que o sucesso na rendição foi comunicado prontamente
entre os generais e soldados de patente superior. Houve também a prestação do material
capturado, bem como o número de soldados que se renderam no momento, cujo Uruguaiana

66
encontrava-se cercada e sem nenhuma chance de receber suprimentos, tendo a fome assolado
os soldados paraguaios até o momento da rendição.
É interessante perceber que as narrativas não necessariamente falam sobre as
respectivas imagens que as acompanham. Em diversos casos, percebe-se nos textos passagens
anteriormente citadas, mas com o ponto de vista de seu respectivo escritor. Como em toda
narrativa, sobretudo no período pós-guerra, obviamente existem exageros ou informações que
podem ser falaciosas, buscando sempre enfatizar o lado brasileiro e cometer justamente o
contrário com os inimigos.
A palavra “civilização” (geralmente escrita como ‘civilisação’), é outro ponto
interessante a ser analisado. Em diversos momentos, assim como nas pinturas históricas, é
possível perceber a dicotomia uma dicotomia criada entre a Tríplice Aliança, representante da
civilização; contra os bárbaros paraguaios, geralmente tratados como bestas semi-nuas, com
força sobrenatural para a batalha. Tidos como vorazes, corajosos e cruéis, eram tratados pelos
textos como adversários formidáveis, mas, ao mesmo tempo, inferiores aos brasileiros.
O que se percebe nas narrativas dos Quadros historicos da guerra do Paraguay são
textos elaborados com o intuito de exaltar a guerra, com teor ufanista, onde acaba sendo
crítico até aos aliados, enfatizando-se aqui as ações de Mitre, presidente da Argentina e
comandante das forças aliadas e de Flores, presidente do Uruguai. Isso foi possível por dois
motivos: contingente e investimentos muito inferiores ao se comparar com o Brasil e, além
disso, as atitudes erradas de ambos quando estavam em posição de comando. Para se ter uma
dimensão da diferença, o número estimado de soldados em batalha era de 200 mil brasileiros
e apenas 30 mil argentinos e 5583 uruguaios.

67
SEGUNDA PARTE: PINTORES E IMAGENS

Huizinga explicita que “a violência sangrenta só em pequena medida pode caber nas
formas elevadas de cultura98”. Segundo Fernanda Deminicis de Albuquerque e Marcello José
Gomes Loureiro99, em artigo sobre A Passagem do Humaitá, uma das formas possíveis é a
arte, que é capaz “fomentar os sentidos humanos por meio de diferentes estímulos”. Os
autores observam que ela é

capaz de fomentar os sentidos humanos por meio de diferentes estímulos (...) se


apresenta como artifício para despertar o aproveitamento estético aos partícipes de
uma determinada coletividade, além de viabilizar a elaboração de registros materiais
que se prestem à permanência da glória, e que ambicionem a construção ou
continuação de determinada memória.

O caso do objeto de estudo desta pesquisa ilustra uma questão pouco analisada pela
historiografia da arte, a transposição das pinturas históricas para o âmbito da imprensa, algo
que ampliou o potencial dos objetos observados estritamente nos salões. Com isso, acabou
por atingir para além dos membros de grupos específicos, sendo as gravuras de tradução
meios de propagar muito mais do que questões estéticas, difundindo por suas narrativas
discursos específicos. No caso das litografias que serão analisadas a seguir, é possível
perceber, sobretudo ao reuni-las e, em paralelo, analisar os textos, o objetivo de se ressaltar as
glórias brasileiras no conflito.
Muito mais do que apenas uma forma de celebração aos soldados que serviram à
Tríplice Aliança, tais imagens são determinantes para a elaboração de um discurso nacional
que busca exaltar as glórias da então civilização brasileira ante o mundo ocidental. Por meio
de cada uma das imagens que serão abordadas nesta parte, poder-se-á compreender também
alguns dos motivos e envolvimentos de Victor Meirelles, Pedro Américo e Eduardo De
Martino em suas produções. Mais do que isso, serão analisados os contextos que os inseriram
e como suas biografias influenciaram suas escolhas. Tais preferências tocam sensivelmente
cada uma das obras que, diretamente, relacionam-se com o olhar dos gravuristas e desenhistas

98 HUIZINGA, Johann. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 2017, p. 115.
99 ALBUQUERQUE, Fernanda Deminicis de; LOUREIRO; Marcello José Gomes. “Não havia um coração que
não fosse presa dos mais desencontrados sentimentos”: A Passagem de Humaitá, projetos de nação e
representações da guerra. In: Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil. Rio de Janeiro, V. 14, no
27, 2018, p. 58-72.)

68
que a traduzem e, por último, os seus variados espectadores, distinguindo-se a obra primeira
de suas reinterpretações.
Retornando ao pensamento levantado por Albuquerque e Loureiro, a encomenda de
tais pinturas que se prestem especificamente a esse tipo de serviço, algo que pode ser
claramente apropriado pelas gravuras estudadas, demonstram o êxito de uma cultura, de
padrões estéticos e comportamentais. Tornam-se muito mais do que meios de propaganda.
São símbolos de um Império que teve sucesso em suas empreitadas bélicas e,
consequentemente, civilizatórias.
Sabe-se que as habilidades manuais tais como a pintura e as técnicas de gravura foram
largamente empregadas pelo Estado em vários lugares do globo, com variadas
intencionalidades. Aproximam-se as artes da guerra, sendo narradas passagens heroicas com
incontáveis toques típicos das pinturas históricas, focadas em contar e exaltar determinados
feitos, os eternizando em grandiosas telas ou até mesmo em inúmeras gravuras. Ambas
produções, assim como esculturas e tantas outras demonstrações artísticas são recursos
estéticos utilizados para ressaltar a beleza possível na guerra a partir da arte. Nos Quadros
historicos da guerra do Paraguay e nas produções baseadas no conflito, o romantismo ia
além dos textos, tendo forte influência na produção das artes.
O Brasil via-se em processo de acelerada modernização a partir da década de 1840.
Isso era possível através de questões como o constante ingresso de imigrantes em território
nacional, o desenvolvimento das regiões urbanas e o início de algumas atividades industriais.
Com o aumento de profissionais liberais, acarretado por esse processo imigratório, percebe-se
também a presença de talentosos artistas, que atendiam a um tímido mercado, onde
inicialmente pouco recebiam encomendas oficiais. À frente deste escasso mercado, reflexo de
uma nação composta em grande parte por escravos e, posteriormente libertos, com pouca
instrução, o país estava diante de um problema. Isso piorava, ao se levar em consideração o
alto custo das pinturas históricas, algo ampliado por suas grandes proporções físicas e
materiais muitas vezes importados. Embora em número muito reduzido, contudo, existiam
algumas encomendas oficiais. E elas se refletiam na produção de gravuras, que ainda eram
limitadas tanto pela qualidade das oficinas quanto pelo custo, muito inferior aos quadros, mas
ainda inacessível para a maior parte da população.
Produzidas em número reduzido em 1840, as artes visuais sofrem uma virada brusca,
perceptível nos anos de conflito e no pós-guerra. Entre 1860 e 1870, o financiamento das

69
pinturas históricas pelo Império e os órgãos a ele ligados era constante. Victor Meirelles,
Pedro Américo e Eduardo De Martino receberam variadas encomendas no período. Como se
sabe, o gênero histórico, estilo já consolidado na França no período das guerras napoleônicas,
ganharia maior espaço no Brasil graças ao conflito da Tríplice Aliança contra a república
paraguaia. Neste período e posteriormente foram encomendadas e produzidas diversas obras
que narravam os principais confrontos travados no teatro de guerra. Aquecia-se o mercado das
artes com a produção de grandes telas, que participavam constantemente de variadas
exposições nacionais e internacionais. Via-se no conflito e em suas reproduções artísticas um
papel pedagógico, objetivando forjar a manutenção da ordem, exaltando as virtudes dos
homens do Império100.
As exposições, mesmo que não acessíveis a todas as classes sociais, estabeleceriam
novos hábitos na prática do olhar, conduzindo o visitante na leitura das narrativas, algumas
vezes sendo auxiliados por textos produzidos em catálogos. Com isso, ritualizava-se a pintura
no contexto nacional, especialmente se analisarmos os periódicos da época, suas ilustrações e
constantes comentários e críticas sobre as artes da nação101.
Pierre Bourdieu cita que a função dessa arte reside em distinguir socialmente a elite e
afirmar uma divisão de classe, sendo a arte apropriada como representação simbólica do
poder pela ação política da classe senhorial cujo o objetivo principal é o de representar uma
nação civilizada e moderna, buscando tecer uma ordem social102. Nos exemplos a seguir,
veremos tanto o triunfo da pintura histórica por meio de Victor Meirelles e Pedro Américo,
quanto da pintura de marinha de Eduardo De Martino, considerado por Gonzaga Duque como
o melhor pintor de marinha que havia passado por terras brasileiras103.
No campo das gravuras, vale ressaltar as produções litográficas feitas com o sentido de
informar, que antecedem a produção da coleção aqui analisada. Muitas das imagens
veiculadas e que serão utilizadas nessa dissertação foram contemporâneas aos fatos. Isso era
possível por uma série de razões que iam desde os relatos e cartas dos soldados e

100 OLIVEIRA, Raphael Braga de. Mar calmo nunca fez bom pintor: as pinturas de marinha de Eduardo de
Martino (1868-1876). Monografia em História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências
Humanas e Filosofia, 2017, pp. 33-34.
101 PEREIRA, Walter Luiz. Óleo Sobre Tela, Olhos Para a História. 1. ed. Rio de Janeiro: 7 Letras/FAPERJ,
2013, 180p.
102 BOURDIEU, P; DARBEL, A. O amor pela arte: os museus de arte na Europa e seu público. São Paulo:
Edusp/Zouk, 2003.
103 DUQUE, Gonzaga. Graves & Frívolos. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1910, p. 63sg. (Versão com
ortografia atualizada do texto publicado na coletânea). Disponível no site:
http://www.dezenovevinte.net/artigos_imprensa/gd_castagneto.htm.

70
correspondentes presentes na frente de batalha e os desenhos elaborados por alguns destes.
Esses esboços enviados aos jornais – ilustrações e relatos que pudessem contribuir para a
elaboração de desenhos e notícias – em vários casos foram transportados para a prensa
litográfica e veiculados em maior escala, cumprindo tanto o seu papel informativo quanto de
propaganda da guerra para a população.
Um exemplo dos desenhos veiculados pela imprensa no século XIX por meio de seus
suplementos pode ser visto na Vista geral do theatro da guerra: feita a voo de pássaro
(imagem 1). Ela aborda a visão privilegiada de parte do teatro de guerra, costumeiramente
feita pelos aeronautas do período. Misturando paisagem e características de mapas, indica
com certa precisão as principais localizações da frente aliada e do quadrilátero paraguaio nas
regiões em torno do rio Paraná. A elaboração e divulgação deste desenho só foi possível
através das informações obtidas pelos correspondentes de guerra do periódico A Vida
Fluminense e o aeronauta James Allen, sendo posteriormente enviada ao periódico para ampla
divulgação.

Interessante colocar uma nota ter essa imagem circulado como


um lenço, a exemplo do existente no Museu Mariano Procópio.

71
Imagem 1. ALLEN, James. Vista geral do theatro da guerra: feita a voo de pássaro. 1868. Litografia de A Vida
Fluminense. In: Suplemento da Vida Fluminense. 51 cm x 45cm. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

1. Reproduções e réplicas: das pinturas para as estampas

Antes de dar prosseguimento para as biografias dos pintores e as análises


iconográficas de cada uma das nove gravuras, torna-se necessária a abordagem das
transposições das pinturas para os meios de reprodução em escala, questão presente na
coleção analisada.
Graças aos processos de reprodutibilidade em escala e a ascensão dos jornais a um
novo patamar no século XIX, as gravuras foram extremamente importantes para se difundir
uma nova linguagem visual para boa parte da população ocidental. Essa transposição de
buscar-se-a
suportes pouco foi abordada pela historiografia brasileira e, portanto, buscará bases no
exemplo francês, que pode ser considerado como uma das principais bases da arte brasileira,

72
enfatizando-se a influência da Missão Artística Francesa e seus componentes. Mesmo com os
métodos como a litogravura e a xilogravura sendo pouco aproveitados pela Academia
Imperial de Belas Artes, eles tiveram considerável impacto no cotidiano da segunda metade
do Oitocentos. Seja pelos jornais, livros e livreiros ou nas vitrines das oficinas e lojas da
região central do Rio de Janeiro, as imagens reproduzidas eram diretamente e indiretamente
consumidas pela população local, que se espremia por pequenas ruas atrás de novidades e
notícias.
Tal exemplo de sucesso das reproduções pode ser percebido em uma pesquisa
elaborada por Stéphane Paccoud, “L’Empereur m’a beacoup parlé de Delaroche, il a toute
ses gravures” Succès et diffusion du “genre historique” en Europe104, que analisa o contexto
das réplicas e repetições na primeira metade do século XIX, analisando também o impacto das
gravuras e reproduções, além da circulação delas nos países europeus. Esse trabalho dará os
subsídios necessários para levantar hipóteses e comparar alguns aspectos entre as realidades
brasileira e francesa.
Paccoud cita que essa circulação foi possível graças ao fenômeno da multiplicação,
que atinge o seu ápice na França a partir da prática da réplica das pinturas por alunos de
grandes mestres e a repetição de obras mais apreciadas. Há uma distinção entre réplica e
repetição que deve ser considerada. A primeira é a reprodução fiel de uma determinada obra,
geralmente executada por um aluno do mestre que pode retocá-la, em tamanho reduzido. Já a
repetição, assim como é possível de se observar nas gravuras de tradução, pode ter variações
do original. Um dos objetivos dessa prática, que será enfatizada aqui, é a demanda causada
pelo sucesso de determinada obra. Alguns colecionadores, por exemplo, costumavam ter uma
segunda versão de obras de arte francesas ou alemães.
Outra questão que deve ser levada em consideração, é que o objetivo dessa
multiplicação pode ter o objetivo de aperfeiçoá-la. Embora o caso trazido por Paccoud neste
momento trate de reproduções a óleo, pode muito bem, dentro das limitações apresentadas
pelas técnicas de impressão, ser observado nas gravuras. A autora mostra o caso de Ingres,
comentado por Delaborde:

104 A tradução do título pode ser lida como “O Imperador falou-me muito sobre Delaroche, ele tem todas as
suas gravuras”: sucesso e difusão do gênero histórico na Europa. PACCOUD, Stéphane. “L’Empereur m’a
beacoup parlé de Delaroche, il a toute ses gravures” Succès et diffusion du “genre historique” en Europe. In:
BANN, Stephen; PACCOUD, Stéphane (Dir.). L'invention du passé: Histoires de coeur et d’épée em
Europe, 1802-1850. Paris: Hazan/Museé de Beaux-Arts de Lyon, 2014, v. 2, pp. 93-103.

73
Fui observado, e talvez corretamente, que reproduzi minhas composições com muita
frequência, em vez de fazer novos trabalhos. Aqui está o meu motivo: a maioria
dessas obras que eu gosto pelo assunto me pareceu valer a pena fazê-las melhor
repetindo ou retocando, o que muitas vezes aconteceu comigo nas primeiras
que fiz (...). Quando por seu amor pela arte e seus esforços, um artista pode
esperar que ele deixe seu nome para a posteridade, ele não pode fazer o Conferir
suficiente para tornar suas obras mais bonitas ou menos imperfeitas (grifo
nosso)105.

Observa-se que o artista não hesita em repetir suas composições, sendo esta uma
característica do seu trabalho, indo em busca da inatingível perfeição estética. Como observa
Paccoud, cada uma das obras é diferente em seus detalhes, na maior parte essa distinção
encontra-se em sua decoração. Para se ter dimensão, há quatro Don Pedro de Toledo baisant
l'épée d'Henry IV (imagens 2, 3, 4 e 5).

105 “On m’a fait observer, et peut-être avec justesse, que je reproduisais trop souvent mes compositions, au lieu
de faire des ouvrages nouveaux. Voici ma raison: la plupart de ces oeuvres que j’aime par le sujet, m’ont paru
valoir la peine que je les rendisse meilleurs en les répétant ou en les retouchant, ce qui m’est arrivé souvent les
premières que j’ai faites (...). Lorsque par son amour pour l’art et par ses efforts, un artiste peut espérer qu’il
laissera son nom à la postérité, il ne saurait assez faire pour rendre ses oeuvres plus belles ou moins imparfaites”.

74
Imagem 2. INGRES, Jean Auguste Dominique. Don Pedro de Tolède baisant l’épée d’Henri IV, c. 1816. Óleo s/
tela. Chateau de Pau, Pau.

75
Imagem 3. INGRES, Jean Auguste Dominique. Don Pedro de Tolède baisant l’épée d’Henri IV, 1816. Assinada
e datada (Ingres inv et pinxit / Rome 1816). Lavagem sépia e lápis preto sobre papel, 26,6 x 19,5 cm. Disponível
em: http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/2017/bekessy-pf1730/lot.453.html.

76
Imagem 4. INGRES, Jean Auguste Dominique. Don Pedro de Tolède baisant l’épée d’Henri IV, c. 1832. Óleo s/
tela, 36 x 26 cm. Museu do Louvre, Paris.

77
Imagem 5. INGRES, Jean Auguste Dominique. Don Pedro de Tolède baisant l’épée d’Henri IV, c. 1814. Óleo s/
painel de madeira, 48.5 x 40.5 cm. Coleção privada, Nova Iorque. Disponível em:
http://matthiesengallery.com/work_of_art/don-pedro-of-toledo-kissing-the-sword-of-henri-iv.

Adolphe Goupil, editor de arte e um dos maiores marchands da França no século XIX,
foi um dos principais personagens que contribuíram para esta prática, a desenvolvendo em
nível comercial. Ele administrava uma casa especializada na comercialização de gravuras de
tradução, uma sociedade internacional chamada Goupil & Cia., onde vendia as traduções de

78
sucessos contemporâneos. As gravuras eram solicitadas por ele aos burilistas, que deviam
contar com uma réplica do trabalho, pois o original geralmente não podia ser disponibilizado.
Era costume que o pintor fornecesse uma redução de sua composição, por vezes preparada por
um aluno e retocada por ele. No Brasil, muito provavelmente os esboços eram feitos apenas
pelo artista que, como no caso de Pedro Américo, acabava por expor a prévia junto de outras
obras, como será observado no caso d’A rendição de Uruguayana.
Goupil encontrara êxito em suas reproduções, contando com um grande estoque de
gravuras, mas parecia que o marchand ainda queria mais. A partir de 1846, ele decidiu ir
além, adentrando o mercado e diversificando seus negócios ao vender pinturas. E ele não faria
isso sozinho: foi seguido por Alfred Cadard e Ernest Gambart. Existem vários documentos na
Casa Goupil que testemunham que o próprio personagem dava alguns toques em partes das
réplicas vendidas, algo que também era feito por outros alunos. Alguns documentos citam que
em 1852, Goupil vendeu para John Naylor, um comerciante em Liverpool, uma “pintura-
repetição” de Napoleon à Fontainebleau, de Delaroche, além de uma “segunda pintura” dos
Enfants d’Édouard.
Segundo Paccoud, essas réplicas e repetições parecem ser uma característica da
primeira metade do século XIX, que não traz qualquer relutância do público e da crítica que,
por sua vez, aceita muito bem as variações. E dois exemplos de Stephen Bann atestam isso.
No ano de 1850, uma gravura reduzida de Cromwell et Charles I, foi dada pelo comerciante
Friedrich Stamann à cidade de Hamburgo, que a comprou quatro anos antes, para compor um
Kunstverein106. A exposição recebe comentário elogioso de um crítico da revista Deutsches
Kunstblatt que está consciente do status desta obra: “Nossa pintura é do acabamento mais
requintado, seu tom profundamente saturado dá-lhe um efeito que, formando o foco central de
uma parede, ele domina as obras maiores penduradas107”.

106 Traduzido literalmente do alemão como uma “sala de arte”.


107 “Notre tableau est du plus exquis fini, son ton profondément saturé lui donne un effet si fort que, formant le
focus central d’un mur, il domine les oeuvres plus grandes accrochées autour”.

79
Imagem 6. DELAROCHE, Paul. Cromwell et Charles I, c. 1831. Óleo s/ tela, 228,5 × 295,5 cm. Museu de
Belas Artes de Nimes, Nimes.

Em 1850, Delaroche apresenta na Academia Real de Londres uma cópia do mesmo


trabalho, feito sob sua supervisão por seu fiel aluno Charles Jalabert, e retocada por ele.
Novamente, os críticos sabem que não estão lidando com o original, adquirido pela Direção
das Belas Artes e depositado no Museu de Belas Artes de Nimes. Um dos jornalistas do
L’Athenaeum explica que a pintura “dita de Paul Delaroche, foi, no entanto, uma repetição,
alguns dizem uma cópia executada para ele por um estudante em Nice de sua pintura original,
que é tão familiar para o público pelo fato da gravura108”. Conferir

108 “Qui était dit de Paul Delaroche, était cependant une répétition, quelques-uns disent une copie exécutée pour
lui par un élève à Nice de son tableau original, qui est depuis si longtemps familier du public par le fait de la
gravure”.

80
Imagem 7. ROGERS, J.. Baseada em pintura de DELAROCHE, Paul. Cromwell et Charles I, c. 1853. Gravura
feita em chapa de aço com borda decorativa, aprox. 17,0 x 25,0cm. Disponível em:
https://www.antiquemapsandprints.com/english-civil-war-cromwell--charles-is-body-charles-ii-hides-in-the-
oak1853-205043-p.asp. As outras gravuras são datadas de 1859.

A crítica do Bulletin of the American Art-Union elogia a beleza da réplica do aluno:


“Confesso que, à primeira vista, penso que é o trabalho mais bonito da exposição e, em Conferir
relação às qualidades de sua técnica pictórica, eu sempre penso assim”. Na França, a cópia da
pintura, exposta um ano antes por Goupil, causou entusiasmo em Henri Decaisne. O artista
belga escreve para Delaroche: “Goupil me mostrou ontem o ensaio do seu Cromwell, só há
você no mundo que pode refazer essa ideia, uma pintura feita por um longo tempo e cujos
detalhes pareceriam ter escapado de sua memória109”. Paccoud mostra que, em alguns casos, é
possível uma repetição pode ser mais bem-vista pelo artista do que a original. Para ilustrar sua
afirmação, mostra o caso da obra Francesca da Rimini, de Ary Scheffer, cujo Philippe Burty
julga a versão de 1855, situada no Museu do Louvre, superior a primeira, quando é exibida
em 1859 na Escoal de Belas Artes.

109 “Je confesse qu’au premier regard sur le tableau je l’ai pensé la plus belle oeuvre de l’exposition, et, en ce
qui regarde les qualités de sa technique picturale, je le pense toujours”.

81
Imagem 8. SCHEFFER, Ary. Les ombres de Francesca da Rimini et de Paolo Malatesta apparaissent à Dante et
à Virgile, 1835, assinada em 1851. Óleo s/ tela, 172,7 x 238,8 cm. Departamento de Pinturas do Museu do
Louvre, Paris.

Imagem 9. SCHEFFER, Ary. Les ombres de Francesca da Rimini et de Paolo Malatesta apparaissent à Dante et
à Virgile, 1855. Óleo s/ tela, 171 x 239 cm. Museu do Louvre, Paris.

82
Sobre as variadas tentativas e traduções, poucas vozes se faziam distoantes a esse
processo, que foi tão importante para a difusão do chamado “gênero histórico”. No entanto,
alguns pareciam se arrepender dessa multiplicação desenfreada de versões, algo que
desvalorizava as obras no mercado. Em carta enviada por Scheffer a seu primo, o pintor e
comerciante Arie Johannes Lamme, em 1848, o pintor trata de um par de Ingres sobre o tema
de Arentino, que chamou sua atenção:

Para as duas pinturas de M. Ingres, repetiram-se estes quadros três vezes e ele as
redimiu neste momento pela quarta vez. Como eu sei o que está sendo dito na
Holanda sobre esses ensaios, voltei para outro lado e pedi a Ingres que me avisasse a
primeira vez que ele teria uma pequena pintura original para vender (...)110.

Alguns colecionadores, como Adolf Heinrich Schletter, tentam garantir contratos em


busca da singularidade das obras que adquiriam, mas muitas vezes não obtinham sucesso.
Como a lógica dita, quanto mais rara e única uma obra, mais valor de mercado ela terá. Ou
seja, quanto menos reproduções e réplicas no mercado, mais valor terá a pintura.
No caso das gravuras e suas técnicas, muito provavelmente elas não ameaçaram a
superioridade pictórica das pinturas. Inclusive, se forem observadas a partir de uma
perspectiva otimista, elas ainda chamariam atenção dos espectadores mais distantes para
analisa-las de perto, servindo como uma propaganda do original. Além de divulgar o trabalho
dos artistas, também projetavam a outros países questões e discursos abordados na França.
Isso também pode se aplicar, mesmo que anos depois, no contexto das litografias da coleção
Quadros historicos da guerra do Paraguay que, como mostrado na primeira parte, circularam
além da América do Sul, chegando a legações além-mar.
Na primeira metade do século XIX, a estampa é tida como um modo privilegiado de se
difundirem as pinturas, sofrendo ainda mais modificações com a técnica litográfica e,
posteriormente, com o daguerreotipo. Seus objetivos e práticas foram gradualmente alterados,
mas continuam com grande sucesso.
Entre as variadas técnicas utilizadas ao longo do século XIX, a gravura ao buril tem o
mais alto prestígio, tendo todas as honras na França. Ao contrário do exemplo brasileiro, a

110 “Pour les deux tableaux de M. Ingres a répété ces tableaux trois fois et il les refait dans ce moment pour la
quatrième fois. Comme je sais ce qu’on pense en Hollande de ces répétitions, je me suis retourné d’un autre côté
et j’ai prié Ingres de m’avertir la première fois qu’il aurait un petit tableau original à vendre (...)”.

83
Academia de Belas Artes da França fazia parte da tradição trazida ao seu ápice no século
XVII, por Mella e Nanteuil, depois ilustrada por Bervic e Boucher-Desnoyers. No entanto, a
técnica com o buril exige além de um alto tecnicismo, um longo tempo de trabalho, tendo um
alto custo. Era a técnica mais utilizada para transcrever pinturas de histórias clássicas, ou
“gênero anedótico”.
Uma das primeiras impressões conhecidas foi produzida por Auguste Boucher-
Desnoyers, depois de François I e Marguerite de Navarre, por Fleury François Richard,
dedicada a Luís XVIII e exposta no Salão de 1817, contando com qualidade excepcional. O
buril desempenha assim um papel importante, ao celebrar e difundir amplamente várias
pinturas. Paccoud trata o caso das Honneurs rendus à Raphael après as mort, por Pierre
Nolasque Bergeret, que foi traduzida por Louis Pauquet e Alexandre Vincent Sixdeniers,
sendo apresentadas no Salão de 1822.
Em paralelo à técnica do buril, surgem outros processos de execução mais veloz e
moderno, algo que ampliará ainda mais o poder das reproduções. A maneira negra e aquatinta,
mais observada nos gravadores ingleses, oferecem a possibilidade de tons negros mais
profundos e aveludados, variando os valores tonais. Jean Pierre Marie Jazet é um especialista
nesta técnica, onde torna-se o privilegiado intérprete de Horace Vernet.
Avançando ainda mais, a litografia é prontamente importada para a França – chegando
com certo atraso no Brasil, como falado anteriormente – sendo abraçada pelos pintores, que se
encantaram com as possibilidades que ela trazia. Seu processo, muito semelhante ao do
desenho à mão livre, embora requira treinamento mais específico, trouxe a impressão um
novo nível de reprodutibilidade em escala, estando ao alcance de todos, sobretudo por não ser
uma técnica cara. Sua renderização assimila-se ao observado no lápis, permitindo
espontaneidade na impressão, desejo da geração romântica, que buscava novas nuances. Em
1820, muitos artistas como Bergeret, Coupin de la Couperie, Laurent ou Delaroche tentam se
aproximar da técnica, que adquire status de nobreza com gravadores como Hyacinthe Aubry-
Lecomte e Henri Grevedon. O último, apresentou, em 1827, uma transcrição de Paolo et
Francesca, de Coupin de la Couperie, sendo uma das primeiras realizações desta técnica. Este
artista reproduziu em duas gravuras a Imperatriz Amélia e D. Pedro I, estando ambas as
litogravuras presentes na Brasiliana Iconográfica.

84
Imagem 10. GREVEDON, Henri. Amélie Impératrice du Brésil, 1830. Litografia s/ papel gravada por Louis P.
Alphonse Bichebois, 56,8 x 40,5 cm. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo.

Imagem 11. GREVEDON, Henri Pedro Primeiro, Imperador do Brasil, 1830. Litografia s/ papel, 47,6 x 34,6
cm. Coleção Brasiliana Itaú.

85
A técnica, que já era utilizada para a distribuição de impressões, ganhou popularidade
por ser a forma pela qual o Salão criava os catálogos de galerias e museus. Charles Lando
tornou essas publicações em sua especialidade, tendo sucesso com seus Anais do Museu e da
Escola Moderna de Belas Artes, publicado por entrega desde 1801, comentando as obras das
coleções do Louvre. Posteriormente, o hábito sai de moda, sobretudo com o surgimento da
imprensa artística na década de 1830, que favorece outros tipos de reprodução, tidos como em
maior sintonia com as aspirações do tempo. A revista Le Magasin Universal, por exemplo,
ofertava xilogravuras bem-sucedidas de obras apresentadas nos Salões. Em 1831, os artistas
escolheram a litografia, convocando talentosos colaboradores como Auguste Bouquet e
Adolphe Mouilleron para traduzir as composições de pintores consagrados como Delaroche,
Robert-Fleury, Gallait ou Johannot. As publicações luxuosas, com litografias conhecem então
um alcance jamais visto.
Sobre a questão mercadológica, vale a pena retornar à década de 1820, onde o ímpeto
dos comerciantes, que acompanhavam o crescimento do gênero anedótico até o gênero
histórico, contribuíram para a consolidação de um mercado de gravuras. O primeiro deles é
John Arrowsmith, de origem familiar inglesa, que contava com um bom conhecimento das
práticas comerciais vigorantes através do Canal da Mancha, onde ele importava mercadorias
para Paris. Ele comprou uma série de pinturas para gravá-las, as revendendo posteriormente.
Um dos exemplos trazidos pelo trabalho de Paccoud foi o caso de Jeanne d’Arc, de
Frase mal construída
Delaroche, artista cujo ele é o primeiro a criar interesse. As gravuras publicadas por ele são
feitas em parceria com Henry Rittner. Todavia, este o abandona rapidamente para se juntar a
Adolphe Goupil, recém-chegado ao mercado. Em 1829, a parceria rende uma casa com ambos
os nomes, que seguiu publicando e comercializando gravuras. Segundo um cronista do
periódico L’Artist, o crescimento desta empreitada cresceu tanto em alguns anos que Goupil
veio a publicar as gravuras mais importantes daquele momento.
Com uma visão apurada para o mercado, Goupil adquire a exclusividade de reproduzir
as ibras de Delaroche, Ary Scheffer e Vernet, convidando os maiores burilistas de sua época,
Louis Pierre-Dupont, Luigi Calamatta, Alphonse François e Paolo Mercuri. Esse nítido
esforço de Goupil mostra sua ousadia ao financiar grandes realizações, que exigiam muito
tempo. Em um caso mais extremo, Mercuri leva vinte e dois anos para completar a transcrição
de Jane Grey, de Delaroche, reconhecida como o apogeu técnico. No mesmo período,

86
Henriquel-Dupont é celebrado como o melhor gravador de seu tempo, recebendo uma
medalha de honra na Exposição Universal de 1855.
Em paralelo com esse propício cenário das gravuras na França, Goupil demonstra
inteligência comercial ao usar as mais modernas técnicas para desenvolver uma gama de
produtos a preços variados, permitindo a distribuição de obras apreciadas no Salão,
enfatizando-se as do gênero histórico. Ele busca fomentar a nascente fotografia, solicitando o
auxilio de Robert Jefferson Bingham, um dos pioneiros nas reproduções de obras de arte. Em
1858, ele publica um dos primeiros catálogos com fotografias, com a retrospectiva do trabalho
de Delaroche, organizado na Escola de Belas Artes de Paris. Com êxitos e inovações, o
empreendimento de Goupil cresce de tal forma que o marchand abre várias sucursais ao redor
do globo, em Bruxelas, Berlim, Londres, Viena, Haia e, em conjunto com Knoedler, em Nova
Iorque.
Outros editores se distinguem de Goupil, utilizando técnicas diferentes das dele,
tornando a difusão de gravuras em um mercado cada vez mais bem-sucedido, sendo as
imagens do gênero histórico as mais adquiridas. O sucesso das reproduções de Delaroche
segue até o início do século XX. E o fenômeno das reproduções vai além da esfera francesa.
Na Polônia, a La mort de Barbara Radzwill, obra de Józef Simmler, é litografada por
Wladyslaw Walkiewicz, tendo grande sucesso, estando presente em quase todas as casas
litográficas da Europa.
E aqui entra um dos aspectos mais interessantes, ao se fazer um paralelo com o
contexto brasileiro. Na França, enquanto as gravuras tornam-se uma das formas de se atingir o
sucesso, os artistas buscam promove-las a nível internacional. Vernet e seu genro Delaroche
foram os primeiros a dar atenção especial a essa questão. A correspondência de Vernet com
sua esposa, traz um testemunho que ilustra a importância das reproduções: “Eu tenho que
enviar minha gravura de Thamar diretamente ao Imperador. Você pode se juntar a Jument aux
loups, e acho que não daria mal ao apresentar no rolo a Sainte Cécile, de Delaroche111”. Na
França, casos como o estudo de Stéphanne Paccoud analisam a relação da difusão das
gravuras com o sucesso dos pintores. Outro relato retrata um diálogo entre Delaroche e Robert
Fleury sobre a necessidade de se existirem as gravuras, sendo a carta endereçada a Adolphe
Goupil, que detinha imenso interesse nas obras de Delaroche:

111 “J’ai obtenu que tu adressasses ma gravure de Thamar directement à l’Empereur. Tu peux y joindre la
Jument aux loups, et je crois qu’il ne serait pas mal d’introduire dans le rouleau la Sainte Cécile de Delaroche”.

87
Esta preocupação era constante, pode-se dizer quase aguda. Sua mente
naturalmente dolorosa tinha a ansiedade do futuro pelo menos tanto quanto a
do presente. Ele entendeu que o futuro de um pintor só vai para a multidão por
meio da difusão pelas gravuras, e que a multidão hoje é posteridade amanhã.
Por fim, ele sentiu que a gravura era o único meio de garantir sua glória contra
o desaparecimento de suas obras, a aniquilação pelo fogo ou simplesmente a
aquisição por amadores cujas galerias são necessariamente fechadas ao público.
Muitas vezes ele repetiu a respeito que ele queria, através da gravura, levantar,
durante sua vida, um monumento á sua memória (grifos nossos)112.

Percebe-se nesta carta a que Delaroche pensava nas gravuras como meios de longo
prazo, fazendo perpassar uma ideia para além dos anos, sendo praticamente impossível
destruir todas elas. Além disso, via a possibilidade de sucesso entre o público em geral por
meio da difusão dessas imagens de forma ainda mais ampliada, sendo elas o único meio de
garantir a glória de suas criações, preocupando-se com aspectos como tragédias e até mesmo a
aquisição de determinados exemplares que fiquem restrito a coleções particulares, limitando a
circulação e o acesso das gravuras. Concluindo, Delaroche via nas gravuras um monumento à
sua memória.
E, por meio da difusão das imagens, Vernet, ao escrever da Rússia para sua esposa,
conta que o tsar conhece muitas coisas sobre Delaroche, tendo todas as suas gravuras. Outro
exemplo levantado por Paccoud é do contato por correspondência da grã-duquesa Maria
Pavlovna de Saxe-Weimar-Eisenach com Delaroche, constantemente solicitando que
reproduções de trabalhos do pintor sejam enviadas. Em uma das cartas, ela agradece as
gravuras que o pintor enviou, alegando que elas “(...) foram um testemunho muito agradável
de sua atenção; seu mérito a faz apreciar o êxito de seus originais113”.
Paccoud mostra que, embora o exemplo de Delaroche seja o mais marcante, este não é
o único, sendo o fenômeno objeto de estudo por parte de vários pesquisadores. Observando
esse sucesso, outros naturalmente buscaram imitar. Alguns foram apoiados pela casa

112 “Cette préoccupation était constante, l’on pourrait dire presque aiguë. Son esprit naturellement chagrin avait
l’inquiétude de l’avenir au moins autant que celle du présent. Il comprenait que l’avenir d’un peintre ne va à la
foule qu’au moyen de la diffusion par la gravure, et que la foule, aujourd’hui, c’est la postérité demain. Il sentait
enfin que la gravure était le seul moyen de garantir sa gloire contre la disparition de ses oeuvres, leur
anéantissement par le feu, ou simplement leur acquisition par les amateurs dont les galeries sont nécessairement
fermées au public. Il répétait souvent à ce propos qu’il voulait, par la gravure, élever, de son vivant, un
monument à sa mémoire”. Carta de Joseph Nicolas Robert-Fleury à Adolphe Goupil, 30 de julho de 1878, no
quadro do processo de oposição à família Delaroche-Vernet à Goupil, citado por P.-L. Renié, Delaroche por
Goupil, retrato do pintor artista popular, em Nantes, Montpellier 1999-2000, p. 194.
113 “Les estampes que vous avez eu l’obligeance de me faire parvenir m’ont été un très agráble témoignage
d’attention de votre part; leur mérite met à même d’apprécier le mérite de leurs originaux”.

88
litográfica de Goupil. O pintor Alfred Johannot, cuja fama foi consolidade a partir das
gravuras feitas por meio de chapas aço e transcritas com aquatinta por Paul Girardet, expôs
pinturas no Salão da década de 1830, antes de morrer prematuramente.
Para concluir, Zola comenta o caso de Gérôme, um dos funcionários de Goupil:
Não se pode chamar de funcionário um dos maiores pintores franceses do período.
o Sr. Gerôme trabalha para a casa de Goupil, ele faz um gráfico para que esta pintura
seja reproduzida por fotografia e gravura, e seja vendida em mil cópias. Aqui o
assunto é tudo e a pintura não é nada, a reprodução é melhor que a obra 114.

Gradualmente, a difusão por gravuras teve um êxito jamais observado no cenário


artístico europeu, sendo o exemplo francês uma boa forma de se ilustrar a situação da
primeira metade do século XIX. Surge a partir do gênero anedótico, tendo seu ápice na década
de 1830, levando o gênero histórico ao sucesso internacional. Essas transferências artísticas
coincidem com a Exposição Universal de Paris, em 1855, oferecendo ao público e à crítica
uma confrontação internacional das diferentes escolas. O reconhecimento do gênero histórico
é observado quase que com unanimidade. Como Delecluze escreve:

Este gênero, que exige estudos menos severos, que lisonjeia a curiosidade e a
autoestima das nações, foi cultivado há mais de trinta anos com superioridade em
toda a Europa e, em particular, na França, onde, no entanto, não deixamos de
a grande
cultivar uma ótima pintura. Mas pode-se argumentar, acredito, sem medo de ser
negado, que é porque a moda, a arte, os assuntos anedóticos e contemporâneos, que
as escolas estrangeiras brilham para a nossa, e em particular as da Bélgica e da Grã-
Bretanha115.
Rever tradução

De forma paradoxal, esse estilo pictórico dá origem a uma incompreensão constante


na crítica e no público francês, à espera de particularismos nacionais e bastante decepcionada
em encontrar em cada escola os mesmos princípios. Rever também
O gênero histórico pode ser percebido no Brasil a partir da segunda metade do
Oitocentos, sendo utilizado como forma de propaganda dos feitos do Império na guerra da
Tríplice Aliança. Embora a transposição das pinturas para as reproduções em técnicas como a

114 “Evidemment, M. Gérôme travaille pour la maison Goupil, il fait un tableau pour que ce tableau soit
reproduit par la photographie et la gravure et se vende à des millier d’exemplaires. Ici le sujet est tout, la peinture
n’est rien, la reproduction vaut mieux que l’oeuvre”.
115 “Ce genre, qui exige des études moins sévères, que flatte d’ailleurs la curiosité et l’amour-propre des
nations, a été cultivé depuis plus de trente ans avec supériorité dans toute l’Europe, et particulièrement en
France, où cependant on n’a pas cessé de cultiver la grande peinture. Mais on peut avancer, je crois, sans crainte
d’être démenti, que c’est parce mode l’art, les sujets anecdotiques et contemporains, que brillent les écoles
étrangères à la nôtre, et en particulier celles de la Belgique et de la Grande-Bretagne”.

89
xilografia e a litografia tenham alcançado seu ápice na capital da Corte em meados da década
de 1870, muito depois da França, o exemplo europeu pode auxiliar a levantar novas hipóteses
e trazer luz ao tardio cenário brasileiro.
A preocupação de Delaroche com o receio de sua obra se perder no tempo é tão real,
que a própria Rendição de Uruguayana, de Pedro Américo, é um exemplo disso, tendo a
original sido destruída e jamais refeita. Esse ponto será mais aprofundado na análise da
gravura, que endossa a ideia de Delaroche, sendo o único traço remanescente daquilo que já
foi uma pintura e/ou um esboceto.
Há uma outra diferença que pode ser percebida entre o exemplo francês e o brasileiro:
a capacidade e os interesses observados na circulação das gravuras. No primeiro caso,
constituindo um sólido mercado, como o próprio caso de Goupil ilustra, havia um maior
incentivo dos próprios pintores para que suas obras fossem difundidas para outros países. O
caso de Grevedon e as gravuras da imperatriz Amélia e D. Pedro I, que se situam no Brasil,
ressaltam o sucesso da circulação francesa. Já no Brasil, esse fenômeno se dá em ritmo mais
lento, sobretudo se for levada em consideração a censura imposta por D. João VI desde antes
da vinda da Família Real em 1808. A partir de algumas informações levantadas por meio da
imprensa do da década de 1870, é possível perceber que pintores como Pedro Américo e
Eduardo De Martino tiveram preocupação com a reprodução de suas obras. O primeiro
elaborou esbocetos, que foram litografados e veiculados tanto pela coleção quanto em alguns
outros periódicos. Além disso, o artista foi caricaturista e produziu trabalhos especificamente
para a reprodução em escala. Já De Martino enviou imagens baseadas em algumas de suas
obras, gravadas por Pontremoli, exclusivamente para que fossem reproduzidas pela imprensa
do período, possivelmente como forma carinhosa de brindar o Brasil e seu êxito na guerra,
algo que também será levantado ao longo desta parte.
As proporções artísticas na França se deram muito mais antecipadamente no Brasil,
mas isso não significa necessariamente que tais fenômenos não tenham ocorrido por aqui,
muito pelo contrário. Embora os objetivos possam ser distintos, vale ressaltar que o Brasil
também consolidou um mercado de imagens a partir dos últimos 50 anos do século XIX,
ilustrando a realidade de milhares de pessoas, que consumiam direta ou indiretamente
gravuras, enfatizando-se nesse estudo a realidade do Rio de Janeiro, epicentro cultural do
Brasil imperial.

Vc poderia citar alguns exemplos como A "Galeria dos


brasileiros ilustres" do Sisson de 1861. Não é a mesma coisa, 90
mas mostra projetos de circulação de gravuras
No levantamento feito por Paccoud, não foi possível precisar o envolvimento do
Estado francês com as reproduções, algo que, por si só, poderia culminar em uma interessante
pesquisa. Já no Brasil, percebe-se através do exemplo da própria coleção Quadros historicos
da guerra do Paraguay a compra de diversos fascículos por ministérios do Império, com
objetivos específicos, fazendo circular os textos e imagens por considerável parte do território
nacional e até mesmo além-mar, como foi abordado na primeira parte.

2. Victor Meirelles

Natural de Desterro do Sul, atual Florianópolis, Victor Meirelles de Lima foi aluno da
Academia Imperial de Belas Artes. Juntamente com Pedro Américo, que será abordado a
seguir, era um dos maiores frutos da formação acadêmica de pintores brasileiros entre as
décadas de 1860 e 1870.
Filho de imigrantes portugueses que trabalhavam no comércio, Meirelles teve uma
infância de recursos limitados116. Todavia, desde os 5 anos de idade, sendo educado na Escola
Régia, começava a ser instruído em latim, português e aritmética, mas o seu interesse eram os
desenhos de bonecos e paisagens, bem como a cópia de folhetos e imagens117.
Entre os 10 e 11 anos, aprofundava seu conhecimento em latim, bem como em francês
e filosofia, sendo instruído pelo padre Joaquim Gomes d’Oliveira e Paiva. O talento de
Meirelles evidenciava-se cada vez mais ao longo do tempo, tendo amplo incentivo da família
e das autoridades locais.
Em 1845, teria aulas de desenho geométrico com o engenheiro argentino Mariano
Moreno, doutor em direito e em teologia. Segundo Teresinha Franz, simultaneamente “Victor
Meirelles deve ter frequentado o Colégio dos Jesuítas (...) em apenas dois anos”. Lá, seguiria
seus estudos em latim, francês, filosofia e geometria e acrescentava aos seus conhecimentos
história elementar, geografia e retórica118.

116 RUBENS, Carlos. Pequena História das Artes Plásticas no Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1941, pp.
123-131. Disponível em: http://www.brasiliana.com.br/obras/pequena-historia-das-artes-plasticas-no-
brasil/pagina/126/texto. Acessado dia 29/04/2018.
117 FRANZ, Teresinha Sueli. Mariano Moreno e a primeira formação artística de Victor Meirelles. 19&20, Rio
de Janeiro, v. VI, n. 1, jan./mar. 2011. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/artistas/vm_mmoreno.htm.
Acessado dia 28/04/2018.
118 Ibid. Acessado dia 28/04/2018.

91
Regis Mallmann explica que, logo após a formação inicial de Victor Meirelles, seus
desenhos tomam maior vigor e personalidade, refletindo “o traço de uma pessoa dotada de um
dom espetacular”. Tal transformação criativa mudaria de uma vez por todas o destino do
jovem Meirelles. Em passagem por Desterro, o conselheiro do Império Jerônimo Francisco
Coelho fica sabendo através da população do talento nato do prodigioso menino e suas
criações. Ao apreciar alguns desenhos de Meirelles, o conselheiro os mostra a Félix-Émile
Taunay, diretor da Academia Imperial de Belas Artes no período. O retorno positivo dado ao
futuro pintor o levaria para a cidade do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1847, ingressando na
Academia com apenas 14 anos119.
Mallmann diz que a questão financeira do pintor inicialmente não seria um problema,
já que “um grupo de mecenas bancaria os custos dos estudos e de sua permanência na
metrópole, (...) para, numa primeira fase, matricular-se na classe de desenho120”. Além do
patrocínio, recebe abrigo na casa de João Moreira da Costa Lima, seu primo-irmão. A partir
daí o artista passa por um processo de aprendizado que intensifica seu talento na pintura, algo
que se consolida no recebimento da cobiçada medalha láurea conquistada no primeiro ano de
Academia121.
Após duas temporadas na capital da Corte, Victor Meirelles retorna brevemente a
Desterro, onde pinta retratos para angariar fundos, sendo os mais relevantes o Retrato de
Marciano Moreno, seu primeiro professor, e a Vista do Desterro122. Em 1849, regressa ao Rio
de Janeiro, matriculando-se novamente na Academia, na classe de pintura histórica, gênero
com o qual o pintor se consagraria na história da arte brasileira. O primor desenvolvido no
gênero o colocaria mais próximo do imperador D. Pedro II e do círculo de artistas e
intelectuais da segunda metade do século XIX123.
No ano de 1852, o artista prestara concurso para o cargo de lente substituto de pintura
da Academia Imperial de Belas Artes, não sendo selecionado. Mas, no mesmo ano, ganhava o
prêmio de viagem ao exterior, seguindo para a Europa aos 20 anos. Desembarcava em Havre

119 MALLMANN, Régis. Os passos do maior pintor brasileiro do século XIX entre Desterro, Paris e o Rio de
Janeiro. Museu Victor Meirelles, 01/11/2010. Disponível em: http://archive.li/O7ggN#selection-247.0-247.91.
Acessado dia 28/04/2018.
120 Ibid. Acessado dia 28/04/2018.
121 MALLMANN, Régis. Os passos do maior pintor brasileiro do século XIX entre Desterro, Paris e o Rio de
Janeiro. Museu Victor Meirelles, 01/11/2010. Disponível em: http://archive.li/O7ggN#selection-247.0-247.91.
Acessado dia 28/04/2018.
122 MEIRELLES, Victor. Vista do Desterro, 1846. Aquarela, guache, grafite s/ papel colado em cartão, 71,7
cm x 119,2 cm. Museu Victor Meirelles, Santa Catarina.
123 MALLMANN, Régis. Op. Cit.. Acessado dia 28/04/2018.

92
em junho de 1853, passando por Paris e chegando finalmente em Roma, seu destino final. Lá
conheceria Agostinho da Motta e Paliére Grandjean Ferreira, responsáveis por apresentar ao
novato o cenário artístico da cidade. Lá, estudou com Tommaso Minardi e Nicola Consoni.
Depois, seguiria temporariamente para Florença, onde produziria cópias de Veronese,
Tintoretto e Tiziano124.
Em 1856, graças ao seu excelente rendimento, demonstrado pelas cópias enviadas à
Academia, o artista teve sua bolsa prorrogada por mais três anos, sendo exigidas novas
reproduções de outros artistas. Graças a isso, seguiu para Milão e novamente para Paris, onde
tentaria, com a ajuda de Porto Alegre, ser aluno de Paul Delaroche, que faleceria subitamente,
frustrando seus planos125.
Já em abril de 1857, começava seus estudos na École Impériale et Spéciale des Beaux-
Arts, tendo aulas com Leon Cogniet e Andrea Gastaldi, onde seguiria as reproduções de
artistas como Géricault, Gros e Scheffer126.
Teve sua carreira diretamente influenciada por Manuel de Araújo Porto Alegre, com o
qual trocava correspondências ao longo de sua formação. Porto Alegre o sugeriu a privilegiar
os fatos históricos marcantes da nação, algo que daria origem a uma de suas mais célebres
composições, A Primeira Missa no Brasil127, também orientada por Porto Alegre. Graças à
obra, seria digno de muitas homenagens, recebendo do Imperador D. Pedro II a Imperial
Ordem da Rosa no grau de cavaleiro128.
Foi nomeado como Professor Honorário da Academia, promovido para Professor
Interino e, posteriormente se tornaria Titular de pintura histórica, sendo amplamente
respeitado por seus alunos devido a sua dedicação ao ofício129. Em 1864, o artista seria mais
uma vez condecorado com a Ordem de Cristo por seus serviços prestados ao Brasil.

124 BOPPRÉ, Fernando. Victor Meirelles: quando ver é perder. In: VALLE, Arthur & DAZZI, Camila (orgs.).
Oitocentos - Arte Brasileira do Império à República - Tomo 2. EDUR-UFRRJ / DezenoveVinte, 2010, p.
255-260. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/800/tomo2/files/oitocentos%20tomo%202.pdf.
Acessado dia 29/04/2018.
125 Ibid, p. 254. Acessado dia 29/04/2018.
126 Ibid, p. 251. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/800/tomo2/files/oitocentos%20tomo%202.pdf.
Acessado dia 29/04/2018.
127 MEIRELLES, Victor. A primeira missa no Brasil, 1860. Óleo sobre tela, 2,68 x 3,56 m. Museu Nacional
de Belas Artes, Rio de Janeiro.
128 MALLMANN, Régis. Os passos do maior pintor brasileiro do século XIX entre Desterro, Paris e o Rio de
Janeiro. Museu Victor Meirelles, 01/11/2010. Disponível em: http://archive.li/O7ggN#selection-247.0-247.91.
Acessado dia 28/04/2018.
129 RUBENS, Carlos. Pequena História das Artes Plásticas no Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1941, pp.
123-131, Disponível em: http://www.brasiliana.com.br/obras/pequena-historia-das-artes-plasticas-no-
brasil/pagina/126/texto. Acessado dia 29/04/2018.

93
O pintor realizaria posteriormente por meio de encomendas oficiais uma série de
quadros sobre a guerra entre 1868 e 1872, dos quais alguns encontram-se nesta coleção:
Abordagem do encouraçado Alagoas, na passagem de Humaitá, esboço feito em 1868;
Combate do Riachuelo, em 1869; em 1872 repetiria o Combate naval do Riachuelo130, sendo
a primeira versão destruída, elaborando também a Passagem do Humaitá131 no mesmo ano.
A passagem de Humaitá e o Combate naval do Riachuelo, seus dois trabalhos de
maior relevância que abordam o conflito contra o Paraguai, foram confiados a ele em agosto
de 1868. As obras foram encomendadas pelo então ministro da Marinha, Afonso Celso de
Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, para a Academia Imperial, que colocou
Meirelles a cargo da tarefa, sobretudo por ser professor na cadeira de Pintura Histórica e por
seu conhecido sucesso como pintor. O valor das duas obras foi de 16:000$000132.
Segundo consta em ata do dia 6 de junho de 1868, referindo ao processo de
encomenda:
Consta o expediente de 7 avisos da Secretaria do Estado dos Negócios do Império; a
saber: [...] de 30 de Maio, comunicando ter sido concedida a licença que solicitou o
Ministério da Marinha, a fim de que o professor desta Academia Victor Meirelles de
Lima possa cumprir o contrato que fez com o mesmo Ministério, relativamente à
pintura, em dois painéis, dos feitos da nossa Esquadra “Batalha de Riachuelo e
Passagem de Humaitá”, declarando também que o dito Professor fica sem direito ao
vencimento de sua cadeira, enquanto, por motivo daquela Comissão, estiver
impedido de exercer suas funções nesta Academia 133.

Para a elaboração dos quadros citados, o pintor fez a série de desenhos intitulada de
Estudos paraguayos, que o guiariam na elaboração de seus primeiros esboços e trabalhos.
Segundo André Toral, estes desenhos foram elaborados em Humaitá e Pilar, no sudeste
paraguaio, onde o pintor esteve a bordo do navio-chefe Brasil entre agosto e setembro de
1868 a convite da Marinha134.
O Despertador, periódico de sua cidade natal, anunciava a chegada de um transporte
de guerra em 20 de junho de 1868:
Transporte de guerra. Procedente do Rio de Janeiro chegou ontem o Vassimon.
Conduz cerca de 300 praças para o exército e a esquadra no Paraguai. Nesse navio

130 MEIRELLES, Victor. Op. Cit..


131 Idem. Combate naval do Riachuelo, 1882-1883. Óleo sobre tela, 4,20 m x 8,00 m. Museu Histórico
Nacional, Rio de Janeiro.
132 TORAL, André. Imagens em desordem: a iconografia da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP, 2001, p. 121.
133 Ata de 06/06/1868. Arquivo do Museu D. João VI / EBA / UFRJ, Ata das Sessões Presidência-Diretor
(1856-1874). Pasta 6152, p. 182. Disponível em http://docvirt.com/MuseuDJoaoVI/. Acessado dia 13/03/2018.
134 TORAL, André. Imagens em desordem: a iconografia da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP, 2001, p. 127.

94
segue o Sr. Victor Meirelles de Lima, habilíssimo cultor das Belas Artes incumbido
pelo governo imperial de formar dois quadros representando em um a gloriosa
batalha naval do Riachuelo e noutro a não menos gloriosa passagem de Humaitá. A
escolha foi acertada, tanto pelas incontestáveis habilitações deste nosso distinto
patrício, já reconhecidas na prática, como porque o governo vai se convencendo que
deve aproveitar o gênio raro deste insigne artista. Bom é que o país vá manifestando
à essas nações estrangeiras que presumem ser proprietárias das ciências e artes, que
entre nós há nacionais que rivalizam com os seus homens de mais vulto 135.

A sua visita bem próxima aos conflitos permitiu que registrasse bem de perto o
acampamento da Tríplice Aliança em Tuiuti, bem como as trincheiras paraguaias ocupadas e
os arredores de Humaitá136. O atento pintor buscava captar com seu lápis e papéis em variados
tamanhos tudo o que os seus olhos poderiam alcançar e que lhe pudesse servir para a
elaboração das duas telas137. Estas análises de campo já foram suficientes para a elaboração de
suas composições.
Porém, Toral138 o critica alegando que o realismo de seus desenhos não apareceria em
nenhum momento em suas obras, sendo desprezada pelas pinceladas do artista,
predominantemente romântica. As composições foram elaboradas com o intuito de exaltar os
feitos da Marinha e seus personagens, sendo um deles o almirante Barroso. Sobre o Combate
naval do Riachuelo, alega que a composição é “óbvia, literal, e rigorosamente de acordo com
as prescrições acadêmicas” algo que afastava a obra de “uma representação realista, dando-lhe
um aspecto de alegoria fantasmagórica”.
O que se percebe é que Victor Meirelles não narrava em suas telas a guerra de forma
realista, contrastando com seus desenhos dos seus Estudos paraguayos, que são uma prova
bastante detalhada das informações obtidas dos locais de batalha. Ele havia observado a
guerra e seus efeitos, esboçando inclusive alguns desenhos da igreja de Humaitá, destruída
pelos navios ao longo do confronto. Ou seja, ele viu de perto, desenhou de forma
extremamente fiel, sem idealizações das vítimas, mas não seguia esse realismo na constituição
final de suas pinturas139.
Todavia, o que deve ser levado em consideração neste caso é que Victor Meirelles,
como qualquer outro pintor, não elaborava cenas de guerra verossímeis, mas pinturas,

135 O Despertador (Nossa Senhora do Desterro), 20/06/1868, n. 565. Disponível na Hemeroteca Digital da
Biblioteca Nacional.
136 Ibid, p. 127.
137 Ibid, p. 141.
138 Ibid, 2001, pp. 141-142.
139 Ibid, p. 142.

95
obedecendo as convenções e narrando da forma com a qual melhor servia aos seus propósitos.
Isso é muito comum na pintura histórica, que não tem a realidade como único referencial,
sendo as idealizações e preferências do pintor que conduzem a pintura, assim como a escolha
da palheta de cores e os planos que devem estar ou não evidenciados na epopeia retratada.
Ainda segundo Toral140, se Meirelles não estivesse tão preso aos princípios da
Academia, “poderia desarmar boa parte dos críticos de seu tempo, que recebiam com reservas
seus quadros de temas bélicos, censurando, justamente, sua falta de ‘realismo’”. O autor
continua ao analisar que essa restrita aquiescência das pinturas de guerra de Victor Meirelles
se dava por conta do estilo já superado no Brasil entre 1860 e 1870, sendo mais bem avaliados
os trabalhos de Pedro Américo. Já nas aquisições, os compradores davam preferência aos
quadros menores de Eduardo De Martino, algo que será explicado mais adiante. A guerra
trazia à tona a grande oportunidade de Victor Meirelles despontar, mas infelizmente ele já
estava fora de moda, segundo parte da crítica.
Ambas as obras foram confeccionadas em um salão no Convento de Santo Antônio,
adaptado como ateliê141, sendo alugada e custeada pelo barão de Cotegipe. Encontrar um
lugar adequado para a elaboração de grandes pinturas era tarefa difícil no período. Para se ter
uma dimensão, A Passagem do Humaitá mede 2,68 por 4,35 metros, e a maior, O Combate
naval do Riachuelo, conta com as proporções de 4,60 por 8,2 metros.
O trabalho de Victor Meirelles nestas duas composições teria fim em 1872, mesmo
ano em que ambas foram expostas na 22ª Exposição Geral da Academia Imperial de Belas
Artes, que contou com a ilustre presença de D. Pedro II. A fama de ambas pinturas levou
cerca de 64 mil visitantes ao salão142, sendo um grande sucesso para o período, mostrando
uma primeira recepção positiva do público e dos membros da Academia. Porém, a recepção
pela imprensa não tinha sido positiva, sendo muitas vezes hostil. O exemplo mais comum são
as críticas veiculadas por Ângelo Agostini no periódico A Vida Fluminense. Estas duas obras,
somadas a consagrada A primeira missa também representaram o império Brasileiro na
exposição da Filadélfia, em 1876.
Mesmo sendo observado como “fora de moda” como cita André Toral, as obras de
Meirelles são as que mais figuram na coleção Quadros historicos da guerra do Paraguay,

140 Ibid, p. 142.


141 ROSA, Ângelo Proença; MELLO JÚNIOR, Donato; PEIXOTO, Elza Ramos. Victor Meirelles de Lima:
1832-1903. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982, pp. 70-71.
142 Ibid, p. 72.

96
estando presentes em quatro fascículos que aqui serão analisados. Ironicamente, o mesmo
jornal que o criticava teve ligação com a editoração da coleção, sendo inclusive o Combate
naval do Riachuelo desenhado pelo próprio algoz crítico de Meirelles, Ângelo Agostini. O
desenhista soube distinguir o sucesso entre o público, o respeito aos feitos brasileiros em
batalha e a crítica, muitas vezes pessoal e exagerada, e acabou por agir profissionalmente ao
traduzir os traços da pintura para o papel.
A produção de Victor Meirelles sobre a guerra da Tríplice Aliança narrou diversas
batalhas navais, mas não se limitou a essas composições, como poderá ser observado nas
litografias baseadas em seu trabalho que se encontram no conjunto.
Com a Proclamação da República em 1889, vários artistas que serviram a monarquia
foram perseguidos, o que culminou na demissão de Meirelles da Academia Imperial de Belas
Artes, que se tornava Escola Nacional de Belas Artes. Ele faleceu a 22 de fevereiro de 1903,
aos 71 anos em uma casa simples no Rio de Janeiro.

97
2.1. Assalto e occupação de Curuzú

Imagem 12. MEIRELLES, Victor. Assalto e ocupação de Curuzú. Litografia baseada em óleo, Huascar
litógrafo, edição de Fígaro, 50 cm x 70,50 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

A composição elaborada por Meirelles retrata a tomada de Curuzú pelo Visconde de


Porto Alegre, permitindo analisar a incredulidade nas faces paraguaias ante a figura central da
imagem, amparada pelo seu exército, sendo o maior destaque da gravura. Aos lados
encontram-se os paraguaios caídos, derrotados, formando uma elipse que leva o olhar do
espectador diretamente ao centro. Ao fundo, relata-se a esquadra brasileira que metralhou as
trincheiras antes do ataque por terra, auxiliando a vitória brasileira em mais um conflito. A
direita, abaixo da árvore, está o tenente-coronel Astrogildo, que, segundo a descrição na tarja
abaixo da gravura, foi “o primeiro que, de lança em punho, contornou a trincheira inimiga e
nela penetrou a cavalo”.
A forma circular com a qual o pintor idealizou essa passagem remete perfeitamente a
uma outra obra de sua autoria, a Primeira missa no Brasil (imagem 13). Em ambas imagens,
percebe-se o uso da natureza e dos corpos humanos para trazer o olhar à figura central,
enfatizando o herói na primeira e o altar e sua cruz na segunda. Esse efeito foi baseado na

98
obra de Horace Vernet, a Primeira missa em Kabylie (imagem 14). Embora a litografia não
proporcione tão bem a mesma imersão das pinturas, nota-se que essa forma circular de
compor a narrativa traz uma maior sensação de profundidade e de preenchimento na tela.

Imagem 13. MEIRELLES, Victor. Primeira missa no Brasil. 1860. Óleo s/ tela, 268 cm x 356 cm. Museu
Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

99
Imagem 14. VERNET, Horace. Primeira missa em Kabylie. 1853. Óleo s/ tela, 194 cm x 123 cm. Musée
cantonal des Beaux-Arts, Lausanne, França.

Além das comparações já citadas, pode-se perceber uma aproximação desta gravura
com a Batalha dos Guararapes (imagem 15), as quais utilizam do ideal do primeiro plano.
Também, em Assalto e ocupação de Curuzu (imagem 12), são apresentados corpos de
soldados inimigos amontoados, os olhares dos paraguaios derrotados, destroços e as já
referidas consequências causadas por um conflito de grandes proporções como o foi a guerra
contra a república paraguaia. Além disso, o escape das obras é sempre colocado à direita das
composições, dando a sensação de fundo nas imagens.

100
Imagem 15. MEIRELLES, Victor. Batalha dos Guararapes. 1875-1879. Óleo s/ tela, 500 cm x 925 cm. Museu
Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

É possível observar nestas breves comparações a repetição de certos artifícios


utilizados por Victor Meirelles na elaboração de suas obras que tratam a guerra de forma a
enaltecer as conquistas brasileiras, mas também colocando em pauta toda a destruição advinda
de um conflito de proporções jamais vistas na América latina.
Há uma gravura reproduzida pelo periódico francês L’Illustration, que mantinha
correspondentes no Brasil e constantemente tinha desenhos baseados em esboços de M.
Paranhos, abreviação feita para José Maria da Silva Paranhos Júnior, que seria o futuro Barão
do Rio Branco, patrono da diplomacia no Brasil. Também conhecido como Juca Paranhos,
esteve envolvido na imprensa desde 1863, na revista Popular, falando sobre Luís Barroso
Pereira, comandante da fragata Imperatriz. No ano de 1866, desenhou e escreveu sobre a
guerra no L’Illustration e também contribuiu para a Semana Illustrada.
Na imagem abaixo, observa-se a tomada da bateria de Curuzú, mostrando o momento
em que os brasileiros desembarcavam e iam de encontro aos inimigos, estando presentes
várias navegações ao fundo. Ao que parece, a passagem narrada pelo periódico francês
(imagem 16) optou por retratar momentos anteriores da tomada, trazendo uma outra
perspectiva. Essa hipótese é possível a partir do que dizem ambas as legendas, que mostram
que as cenas ocorreram no dia 3 de setembro de 1868. A primeira (imagem 12), trata de um
momento de maior glória ao se comparar com a segunda (imagem 16), tendo uma composição
muito mais aproximada da pintura histórica característica de Meirelles, enfatizando na

101
posição central o Visconde de Porto-Alegre e seus comandados. Já a segunda mostra um
momento de maior ação com o desembarque e o bombardeio feito pelos vapores, bem como
todo o caos do embate do exército brasileiro, onde os soldados avançam sobre a elevação,
buscando ganhar território ante os inimigos paraguaios. Há de se levar em consideração as
reproduções feitas por jornais, que buscam ilustrar notícias, diferindo-se assim das produções
de pintura histórica. Estas priorizam muito mais a composição do que o fato em si, colocando
em voga os principais personagens, constituindo o episódio a partir de um determinado
discurso, no caso, o do vencedor e dos vencidos.

Imagem 16. GUERRE du Paraguay: Prise de la batterie de Curuzù (3 septembre) par le 2º corps d'armée
brésilien, sous les ordres du lientenant-général vicomte de Porto-Alegre. Gravura baseada em esboço do M.
Paranhos. In: L'Illustration: journal universel, Vol. XLVIII, nº 1.238, 17/11/1866.

102
2.2. A passagem de Humaitá

Imagem 17. MEIRELLES, Victor. A passagem de Humaitá. Litografia baseada em óleo, Souza Lobo litógrafo,
50 cm x 69,50 cm. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 18. MEIRELLES, Victor. A passagem de Humaitá. Gravura feita por Souza Lobo Lit., em chine-collé,
baseada em óleo, 50 cm x 69,50 cm. Hemeroteca Digital.

103
A Passagem de Humaitá (imagens 17 e 18), assim como outras obras de Victor
Meirelles, foram fruto dos desenhos e estudos feitos in loco registrado em seus Estudos
paraguayos. O pintor contava com um ateliê montado dentro da embarcação na qual havia
estado, o que o auxiliava a esboçar diferentes versões para os episódios. Feita entre 1868 a
1872, a obra encomendada pelo Museu da Marinha, fez com que o pintor tirasse licença do
cargo de professor da Academia Imperial de Belas Artes, indo a campo em 1868.
A primeira, encontrada no Museu Histórico Nacional, encontra-se com em tons de
claro e escuro, não tendo a técnica observada na segunda, conhecida por chine-collé, uma
técnica que permite ao gravador imprimir em uma superfície mais delicada, como papel ou
linho japonês, extraindo detalhes mais precisos da chapa. Outra finalidade, observada na
segunda gravura, é a de fornecer uma coloração de fundo, diferente da folha de apoio. Graças
a tal técnica, torna-se possível perceber a tonalidade rubra no horizonte da gravura,
representando o fogo da batalha.
Em descrição encontrada abaixo da gravura, é possível compreender o sentido de
alguns aspectos iconográficos como o foguete ao fundo, sendo um “signal atirado pelo
encouraçado por ter transposto o fosso”, além de ressaltar a presença da Igreja de Humaitá, ao
fundo, das embarcações Lima Barros Barroso, Silvado, Colombo, Cabral, Bahia, Brazil,
Tamandaré e o monitor Pará, além do Alagoas descendo sobre a Ponta das Pedras, bem como
a Bateria de Londres e do marquês de Herval. A fonte não indica de onde veio essa descrição,
mas ela pode auxiliar a se compreender melhor o que se passa na narrativa.

104
Imagem 19. MEIRELLES, Victor. Passagem de Humaitá. C. 1868-1872. Óleo s/ tela, 268 cm x 435 cm. Museu
Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

O caótico evento retratado por Victor Meirelles tende a lembrar a composição


Fisherman at sea, de William Turner (imagem 20), contendo uma densa neblina que, no caso
do Combate, se mistura com a fumaça do conflito, tornando difícil a visualização dos navios e
personagens presentes na obra, sendo uma complexa composição143. Embora as obras não
narrem episódios semelhantes, é perceptível na definição das formas como Meirelles se
aproxima da ideia de Turner, sobretudo na escolha predominante de cores escuras, limitando
as gradações. Outro aspecto próximo é a presença da lua em ambas telas que, no caso do
Meirelles, encontra-se encoberta pela fumaça, mas ainda um pouco visível, e na composição
de Turner tem um importante papel, iluminando o primeiro plano e o fundo, trazendo à luz os
navios. Na escuridão da composição de Victor Meirelles, os traços só são definidos graças ao
extenso incêndio ao fundo, que evidencia as silhuetas da costa e das embarcações.

143 COELHO, Mario Cesar. Os Panoramas perdidos de Victor Meirelles: aventuras de um pintor acadêmico
nos caminhos da modernidade. Tese (Doutorado em História) - Universidade Federal de Santa Catarina,
Florianópolis, 2007, pp. 2-84.

105
Imagem 20. TURNER, Willian. Fishermen at Sea. 1796. Óleo s/ tela, 91,4 cm x 122,2 cm. Tate Britain,
Londres.

Tanto na reprodução litográfica quanto no óleo, é possível perceber que há fogo e


fumaça que saem dos navios e dos pontos de incêndio. E em meio a essa fumaça negra, se
evidencia parcialnmente encoberta, mas brilhante, a lua minguante. No lado direito da
composição, há uma pequena paisagem na encosta, sendo esta muito provavelmente baseada
em seu estudo (imagem 21), que enfatiza, junto com parte do fundo, o fato desse episódio se
passar em um rio. Próximo a essa encosta e na região central do quadro, é possível perceber
certos destroços, reforçando, juntamente com a explosão ao lado de um dos navios, que ali
estava se encerrando o conflito144. Menos visível na litogravura, e evidente no quadro, é a
presença de um clarão vermelho ardendo ao fundo, dividindo o horizonte da obra entre o céu
esfumaçado e as escuras águas do rio e as sombras das embarcações e da própria fumaça que
quase escondia o luar e as outras embarcações.

144 Ibid, 2007, Pp. 2-84.

106
Imagem 21. MEIRELLES, Victor. Esboço de paisagem para Passagem de Humaitá: barranco. C. 1868-1870,
óleo s/ tela, 51,0 cm x 71,8 cm. Museu Victor Meirelles, Florianópolis.

Vale ressaltar que, na litogravura, provavelmente foi o litógrafo quem deu clareza a
cena representada pelo quadro, buscando evidenciar o que se escondia por trás da escuridão
da fumaça na narrativa de Victor Meirelles. O céu, ao contrário do que se vê na pintura, tem
um tom mais claro, excluindo a densa escuridão presente no original, algo que traz uma maior
suavidade ao caos. Graças a isso, é possível analisar melhor o desenho das embarcações e o
próprio fundo da imagem.
Na obra, Victor Meirelles delineia os traços de forma sutil, enfatizando-se o desenho e
usando poucas cores, focando exatamente no cinza, preto e marrom, integrando o céu com a
vegetação. Sintetizando, a obra traz uma melancolia advinda da batalha e da destruição por
ela causada, captando, neste caso, uma forma mais obscura, ainda que leve, da densidade da
guerra145.
A obra pouco se importa em retratar os personagens que se encontravam em meio à
batalha, se preocupando em imergir o espectador no cenário caótico de destruição, sem
necessariamente explicitar esses horrores. Nesta composição, Meirelles parece pouco se

145 Ibid, pp. 2-84.

107
importar com a criação didática da obra, algo tão comum da pintura histórica, trazendo o
observador para dentro daqueles conflitos que seus próprios olhos captaram nos dois meses
em que estivera em campo.
A pintura de Victor Meirelles foi duramente criticada na época devido à ausência dos
personagens, algo que iria totalmente contra a didática das pinturas históricas do século XIX,
sendo vista por alguns destes críticos como uma “grandiosa nuvem de fumaça”. Por outro
lado, também recebera elogios, sobre a já citada forma com a qual o artista retratava parte da
realidade por ele vivida in loco, estando juntamente com soldados e marinheiros em meio ao
terror do front146.
O crítico Gonzaga Duque destacou o sucesso da composição, alegando que

A Passagem de Humaitá não conseguiu mais do que provar um grande


conhecimento de perspectiva. Os longes são pintados com saber imenso. Mas,
afinal, que impressão deixa no observador este quadro cheio de manchas negras e
clarões vermelhos? Vê-se unicamente um horizonte avermelhado, bojos de navios
debuxados entre nevoeiros densos de fumo, e um céu enorme, sujo de nuvens,
iluminado pela palidez do crescente e pelas chamas da fornalha que arde ao longe.
Sem a menor dúvida, esse conjunto é pintado admiravelmente, mas falta-lhe uma
figura que o anime. A vista apenas percebe num e noutro lado trevas e clarões,
massas negras e massas vermelhas. Não obstante, fora injustiça dizer mal dessa
obra, ela é o assunto. A esquadra brasileira transpôs Humaitá alta noite, e foi
precisamente essa passagem que o governo encomendou ao artista 147.

Nesta crítica, enfatiza-se a habilidade de Victor Meirelles ao trabalhar as noções de


perspectiva na obra, sobretudo por ser uma batalha noturna, onde ele escolheria formas
diferentes das vistas em pinturas noturnas de história. O crítico dá falta de uma “figura que a
anime”, algo também ditado pela pintura histórica. Todavia, recorda uma questão importante
da obra, que consiste na ordem do ministério, que exigia que este fosse o momento
representado na obra, onde a esquadra brasileira finalmente conseguia transpor o Humaitá.

Outra observação pertinente a se fazer na elaboração da Passagem de Humaitá e seus


esboços são as diferenças entre as composições. Em um dos estudos (imagem 22), percebe-se
uma composição muito mais serena, com resquícios da batalha, já encerrada, como a pequena

146 ARAÚJO, Aline Praxedes de. Há tantas formas de se ver o mesmo quadro: uma leitura de O Combate
Naval do Riachuelo de Victor Meirelles (1872/1883). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade
Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015, pp. 19-129.
147 ESTRADA, Luís Gonzaga Duque. Arte brasileira. Campinas: Mercado de Letras, 1995, p. 174.

108
porção de fogo na direita e os destroços na margem deixam claros. O céu encontra-se
nebuloso e, ao mesmo tempo, evidencia a lua que se esconde, com uma bela escolha de
iluminação elaborada pelo pintor. Ao se comparar com a versão final, nota-se também que
não há uma fumaça excessiva e, mais do que isso, se percebe pela calmaria do rio um silêncio
na imagem.

Imagem 22. MEIRELLES, Victor. Estudo para a Passagem de Humaitá. 1886. Guache s/ tela, 53,5 cm x 37 cm.
Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo.

Há uma obra (imagem 23), presente na exposição Victor Meirelles - um artista do


império, em 2004148, intitulada como Estudo para a Passagem do Humaitá. A tela é tomada
por corpos paraguaios seminus em cima de pequenos barcos olhando atônitos para a
embarcação centralizada na imagem. Nela, encontram-se os soldados brasileiros, em número
reduzido e sem feições definidas, disferindo seus projéteis em “selvagens” indefesos, com
poucas armas em punho, lutando para conter a ofensiva brasileira. Os soldados imperiais têm
no episódio o seu heroísmo acentuado pelo reduzido contingente e, mais do que isso, pela
posição central em meio as barquetas que se multiplicam pela composição. Além disso, os

148 A exposição passou pelos seguintes locais: Museu Oscar Niemeyer, Curitiba; Palácio das Artes, Belo
Horizonte; Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

109
corpos paraguaios, retratados desta forma para enfatizar a “ausência de civilidade” daquele
povo, parecem se somar à paisagem, enquanto os uniformes escuros dos brasileiros se
ressaltam na clareza do fundo. Outra escolha feita por Victor Meirelles nesse estudo é do
anonimato aos personagens presentes, sendo cada um deles uma sombra, figurando-se assim
os inúmeros soldados do país que foram para a frente de batalha. Mais do que isso, nesse
estudo em que se evidencia a dor da guerra, é possível perceber que, mesmo com o triunfo
brasileiro, não há o que comemorar, sendo todos os personagens vítimas. Os corpos
amontoados no primeiro plano explicitam isso, em meio aos outros que ainda cairão com o
prosseguimento da peleja.
No entanto, Maraliz Christo esclarece que o referido episódio é “um evento entre as
várias ações da passagem de Humaitá149”, não sendo este um esboço da passagem. Ela
ressalta a estranheza causada pela total diferença entre as composições. Além disso, mostra
que, no mesmo período, haviam sido encomendadas três obras, citando um relatório150 de
Thomas Gomes dos Santos, diretor da AIBA, que informa sobre a encomenda de uma
representação d’A abordagem dos paraguaios ao monitor Alagoas comandado pelo Capitão-
Tenente Maurity em 19 de fevereiro de 1868151. Christo encontra no periódico A Vida
Fluminense uma notícia em que o vereador Bithencourt da Silva propunha em uma sessão da
Câmara um pedido para a execução de representações da passagem de Humaitá e o episódio
do monitor Alagoas152. O que se percebe através da análise feita por Christo é que a referida
imagem está, na verdade, relacionada à abordagem do monitor Alagoas e não à passagem do
Humaitá, como o título da exposição a referia.

149 CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Uma batalha cromática: Victor Meirelles e a Passagem de Humaitá.
XI Encontro de História da Arte – UNICAMP. São Paulo, 2015, p. 356. Disponível em:
https://www.ifch.unicamp.br/eha/atas/2015/Maraliz%20de%20Castro%20Vieira%20Christo.pdf. Acessado dia
29/04/2018.
150 SANTOS, Thomas Gomes dos. Relatório do diretor da Academia das Belas Artes. In: SOUZA, Paulino Jose
Soares de. Relatório do ano de 1868 apresentado a Assembléia Geral Legislativa na 1ª sessão da 14ª
legislatura. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1869, p. 3.
151 CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Op. Cit.. Acessado dia 29/04/2018.
152 A Vida Fluminense, n. 11, 14/03/1868. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

110
Imagem 23. MEIRELLES, Victor. Estudo para Passagem de Humaitá (Abordagem dos paraguaios ao monitor
Alagoas comandado pelo Capitão-Tenente Maurity em 19 de fevereiro de 1868), C. 1868-1872. Óleo s/ madeira,
44,2 cm x 67,5 cm. Museu Victor Meirelles, Florianópolis.

Na obra pintada por Eduardo De Martino (imagem 24) que retrata a mesma passagem,
pode-se perceber uma escolha mais clara dos matizes. Elas conseguem trazer ao clima
noturno do final da batalha, além de melhores definições, tornando viável a identificação das
embarcações e do forte. Isso é possível ao se perceber as escolhas tomadas por De Martino na
composição, as quais propiciam um diálogo bem-sucedido entre o primeiro plano e o
horizonte. O céu ainda se encontra esfumaçado e envolto em caos, tanto pelo fogo e pelo
tempo nublado quanto pela fumaça tanto do incêndio ao fundo. Ele se mistura entre o cinza,
os tons avermelhados e os seus reflexos na água, elementos fundamentais para evidenciar o
forte e as embarcações, os quais ainda sofrem com alguns ataques, sendo perceptíveis
algumas explosões dentro do rio.

111
Imagem 24. MARTINO, Eduardo De. Passagem de Humaitá, c. 1868. Óleo s/tela, 50 cm x 150 cm., Coleção
Fadel, RJ.

A composição (imagem 25) atribuída ao almirante Trajano Augusto de Carvalho,


engenheiro da Marinha e inventor concidadão de Victor Meirelles, articula uma nova ótica em
torno do evento. Aqui, a perspectiva vem de dentro do rio Paraguai, mostrando o momento da
curva e ultrapassagem dos monitores brasileiros na frente do forte de Humaitá, tido como
intransponível. Isso se deve pelo fato dessa parte do rio encontrar-se cercada por correntes de
uma margem a outra, algo que tecnicamente deveria impedir a navegação153.
Aqui, o autor optou por tratar a obra noturna de uma forma muito mais clara do que a
de Meirelles, priorizando o relato e ignorando completamente a escuridão daquela noite. O
que também é perceptível na composição é a simplicidade dos traços, algo possível devido a
formação distinta do almirante, que dominava o desenho, mas não de forma artística. A forma
com a qual ele trata da iluminação da narrativa demonstra isso. O céu encoberto esconde a
claridade da Lua cheia (um recurso simplório), algo comum em todas as representações da
passagem, bem como a claridade excessiva colocada nas margens do forte enfatiza com seu
tom rubro que ali recentemente ocorrera um conflito, e ela se ilumina de tal forma que reflete
em toda a obra.

153 CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Uma batalha cromática: Victor Meirelles e a Passagem de Humaitá.
XI Encontro de História da Arte – UNICAMP. São Paulo, 2015. Disponível em:
https://www.ifch.unicamp.br/eha/atas/2015/Maraliz%20de%20Castro%20Vieira%20Christo.pdf. Acessado dia
29/04/2018.

112
Imagem 25. CARVALHO, Trajano Augusto de. Passagem de Humaitá: episódio da guerra do Paraguai ocorrido
em 1868, em que a esquadra brasileira forçou a travessia da posição fortificada, sob bombardeio inimigo.
Marinha do Brasil.

No desenho de Angelo Agostini (imagem 26), a visão aérea do conflito consegue


mostrar melhor todos os seis monitores, bem como a formação em U da passagem pelo forte,
demonstrando toda a dificuldade enfrentada pela esquadra brasileira. Como dito
anteriormente, os desenhos elaborados para os periódicos tinham o objetivo de informar,
como bem ilustra a arte de Agostini. Percebe-se a partir dela a movimentação dos navios
brasileiros, que passavam por uma difícil prova sob os disparos do forte paraguaio, que por
sua posição privilegiada na curva, que freava as embarcações, tinha maiores chances de
alvejar e abater a armada brasileira. Todavia, o que se vê na imagem são alguns projéteis
proferidos da margem direita, mas sem sucesso.

113
Imagem 26. AGOSTINI, Angelo. Passagem de Humaitá: effectuada, na noite de 19 de fevereiro de 1868, pelos
encouraçados Barroso, Bahia e Tamandaré, levando a reboque os monitores Rio Grande, Alagoas e Pará. 1868.
25 cm x 44 cm. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Para um pintor de história do século XIX, era necessário inovar a forma com a qual as
passagens seriam narradas. A não ser pelos barcos, os estudos não evidenciam se os soldados
envolvidos são da Marinha ou do Exército, algo que também pode ter suscitado a mudança, já
que a obra era encomendada pelo ministério da Marinha. De toda forma, ficam registrados
alguns dos olhares e interpretações do pintor para o teatro de guerra.
Por último, há na Biblioteca Nacional uma fotografia em papel albuminado do monitor
encouraçado Alagoas passando por Humaitá (imagem 27). Embora a imagem não contenha
tanta qualidade, é possível perceber as margens direita e esquerda, o Alagoas a soltar fumaça
e, ao que parece, no primeiro plano, restos da batalha. Outro aspecto é a fidelidade com que
ambas as imagens aqui tratadas mostram da embarcação, aproximando-se diretamente do que
é visto na fotografia.

114
Imagem 27. O Alagoas passando Humayta. C. 1868. Fotografia em papel albuminado preto e branco, 4,9 cm x
8,8 cm. In: Álbum de retratos e vistas referentes ao Paraguai. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Como se nota nas litografias de Souza Lobo, a reprodução litográfica pode se utilizar
de artifícios para tornar a imagem mais compreensível, dando uma maior claridade ao evento,
mas sem descaracterizar a ideia lançada pela pintura de Victor Meirelles (imagem 19).
Entretanto, é possível perceber as diferentes formas dos artistas ilustrarem um evento noturno,
tarefa difícil, onde os focos de iluminação fazem toda a diferença para a composição.
Tais representações são de extrema importância para a narrativa do evento. Nelas,
distinguem-se os modos de execução artística de cada autor. Elas são individualmente
produzidas conforme uma série de fatores: relatos, possíveis fotografias como a última citada,
e também os anseios individuais de cada artista, que podem levá-lo a enfatizar, ignorar ou
simplesmente criar, não sendo necessariamente verossímeis os traços com os quais o evento é
descrito.

115
2.3. O Passo da Pátria

Imagem 28. MEIRELLES, Victor. O Passo da Pátria. Litografia baseada em óleo, 52 x 68,50 cm (aprox.).
Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

A litogravura acima (imagem 28) narra o desembarque do exército brasileiro em


território paraguaio, sendo escoltado pelas corvetas Parnahyba e Belmonte e a canhoneira
Mearim, presentes ao fundo da composição encobertas pela névoa. Encontram-se retratados
nesta gravura, à direita, Manuel Luís Osório, o marechal Osório, juntamente de membros do
seu Estado-Maior e os lanceiros do Rio Grande ao fundo. A presença do Estado-Maior exalta
a importância do ainda marechal Osório, o grande personagem a ser destacado, e outros
membros que não são sinalizados na legenda, mas que são citados no texto como os tenentes-
coronéis Vilagran Cabrita e José Carlos de Carvalho, responsáveis pela engenharia aliada na
travessia.
O pavilhão brasileiro está presente na posição central da imagem, onde é possível ver
o brasão imperial, estando envolto por soldados que dialogam sobre algum assunto, muito

116
provavelmente sobre os conflitos que se seguirão. Logo à direita, dois soldados reportam a um
superior, montado em cavalo sobre alguma questão.
No primeiro plano, alguns militares descarregam caixas e dialogam entre si, algo que
denota um tom mais calmo para a composição. Diferentemente da maior parte das obras aqui
analisadas, não se relata nenhum conflito, apenas o desembarque dos brasileiros e aliados em
terras paraguaias. A imagem enfatiza os soldados em terra, mas dialoga também com a
importância da Marinha brasileira, tanto pela proteção feita pelas corvetas e a canhoneira
quanto pela necessidade das embarcações para a travessia até o território inimigo e os
sucessivos bombardeios que facilitavam a tomada do lado paraguaio pelos aliados.
Ao fundo, em terra, há um grande contingente de soldados, levando ao espectador a
crer na magnitude da infantaria brasileira presente atrás das linhas inimigas. À esquerda delas
estão várias chatas, embarcações de transporte tradicionais da região, saindo da margem
oposta. A ideia que ambos aspectos passam é do grande contingente brasileiro e aliado em
terra e mar, enfatizando importantes personagens e, mais do que isso, ressaltando a união da
Marinha e do Exército brasileiro e seus papéis fundamentais no desenrolar da guerra e da
história da nação.
Outra gravura, em menor escala (imagem 29), também foi encontrada ao longo da
pesquisa no Museu Histórico Nacional. Com traços muito mais simples e material mais frágil,
a gravura abaixo traduz de forma mais descompromissada a ideia que a imagem principal
tenta trazer, sendo possivelmente utilizada em algum periódico do período ou mesmo em uma
coleção de custo menor. Nela, vários detalhes são perdidos, dificultando a compreensão dos
personagens presentes. Possivelmente, a gravura pode também ter sido acompanhada de um
texto explicativo, embora estivesse avulsa no acervo em que foi encontrada.

117
Imagem 29. MEIRELLES, Victor. O Passo da Pátria. Litografia baseada em óleo, A. Campbell litógrafo. Museu
Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Na obra Llegada del ejército aliado a la fortaleza de Itapirú (imagem 30), do pintor
argentino autodidata Cándido López, percebemos a chegada dos aliados em Itapirú, situada ao
lado do Paso de Patria154, em terras paraguaias. Nela, o pintor relata o desembarque ocorrido
durante a batalha, que ocorreu entre 16 a 23 de abril de 1866. O que se percebe é uma intensa
movimentação adentrando a região do Itapirú, sem nenhuma resistência visível, a não ser a
pela pequena nuvem de fumaça negra vindo do lado direito da imagem. Sabe-se que a data da
legenda da imagem se refere ao mesmo dia em que o forte fora tomado, seguindo a ofensiva
aliada rumo ao Passo da Patria, que seguia resistindo aos bombardeios dos navios imperiais,
caindo no dia 23 de abril. O forte do Itapirú seria tomado cinco dias antes, no dia 18 do
mesmo mês.
Como dito anteriormente, López era um pintor autodidata, algo que se percebe em sua
composição fria e pouco dotada de movimentação, em que os soldados se misturam em
pelotões, priorizando a composição como um todo e não seus detalhes, distinguindo-se do que

154 Há duas localidades de nomes semelhantes: Paso de Patria (ou Passo da Pátria, como é aqui citado), no
Paraguai; e o Paso de la Patria, próxima a Corrientes, na Argentina.

118
é costumeiramente visto no gênero de pintura histórica. A produção sobre a guerra é vasta e
bastante conhecida, sendo o pintor-soldado um dos que mais criara composições sobre o
conflito, estando presente em vários dos seus eventos, como a própria passagem do Passo da
Patria. Boa parte de suas obras não aborda questões bélicas, más travessias, acampamentos e
embarque e desembarque de tropas aliancistas.

Imagem 30. LÓPEZ, Cándido. Llegada del ejército aliado a la fortaleza de Itapirú, abril 18 de 1866 (entre 1876
y 1885).

Sobre o conflito são encontradas poucas referências iconográficas, sendo mais comuns
as referências sobre a batalha no forte do Itapirú, localização próxima ao Passo da Patria.
Enfatiza-se nas duas únicas composições a chegada das tropas aliadas ao território inimigo, o
que levou o conflito a uma nova fase, deslocando o confronto para o território inimigo. Outros
episódios bélicos em terras paraguaias são tratados em algumas litografias presentes na
coleção Quadros historicos da guerra do Paraguay.

3. Pedro Américo

Conhecido no período como “papa medalhas” por conquistar muitos títulos na


Academia Imperial de Belas Artes, Pedro Américo de Figueiredo e Melo foi um dos maiores
pintores brasileiros no século XIX, tendo realizado suas principais produções entre os anos de
1860 e 1870. Natural de Areia, na Paraíba, nasceu em 1843, sendo considerado por alguns de
seus biógrafos como um prodigioso jovem, algo observável ao longo de sua trajetória. Seus
talentos artísticos se ressaltavam tanto que em 1852, por ocasião da passagem de uma

119
expedição científica liderada pelo naturalista Louis Jacques Brunet155, o qual impressionou-se
ao conhecer o jovem artista e seus desenhos, culminando em sua contratação. Ele seguiria
Brunet por 20 meses por todo o Nordeste ilustrando a expedição156.
Mais tarde, em 1854, apenas aos 11 anos, Pedro Américo iria para o Rio de Janeiro,
onde estudaria no Colégio Pedro II, cursando diversas disciplinas e se destacando em meio
aos alunos157. Posteriormente, já apto a ocupar o seu lugar na Academia Imperial de Belas
Artes, cursou Desenho Industrial, onde viria a conquistar 15 medalhas em desenho, geometria
e modelo vivo. Em decorrência dessas conquistas surgiu o seu apelido de “papa-medalhas”,
dado por Manuel de Araújo Porto Alegre158, que seria futuramente seu sogro.
Mesmo antes de terminar o curso, D. Pedro II ofereceu uma pensão para que o artista
se aprimorasse na França, chegando lá em maio de 1859, estudando na École des Beaux-Arts.
Esteve neste período próximo a artistas como Léon Cogniet, Hippolyte Flandrin e Dominique
Ingres, embora sua maior influência tenha sido de Horace Vernet, especialista em temas
militares159. Também ampliou sua formação Academia de São Lucas, na Itália160.
Respeitando os termos de sua bolsa, Pedro Américo deveria enviar constantemente
trabalhos para o Brasil. Com isso, demonstrava o seu progresso e enviava cópias de obras de
artistas consagrados para uso da Academia. Fazendo jus a sua alcunha, receberia mais
prêmios de primeira classe.
Em sua estadia na Europa, Pedro Américo aprofundava-se também em outras áreas
como Física, Arqueologia e Ciências Sociais, onde foi bacharel pela Sorbonne.
Posteriormente, doutorava-se em Ciências Naturais na Universidade Livre de Bruxelas. Outro
aspecto interessante na trajetória do pintor que deve ser ressaltado são suas viagens a diversos
países como Holanda, o Grão-Ducado de Baden, Dinamarca, Marrocos e Grécia. Essas
experiências marcariam o ousado artista, que regressaria ao Brasil em 1869.

155 OLIVEIRA, J. M. Cardoso de. Pedro Américo: sua vida e suas obras. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1943, p. 26.
156 BARROS, Francisca Argentina Gois. A Arte como Princípio Educativo: uma nova leitura biográfica de
Pedro Américo de Figueiredo e Melo. Tese de Doutorado em Educação. Universidade Federal do Ceará, 2006.
157 MELLO JÚNIOR, Donato. Pedro Américo de Figueiredo e Melo: 1843-1905. Rio de Janeiro:
Pinakotheke, 1983, pp. 15-16.
158 OLIVEIRA, J. M. Cardoso de. Pedro Américo: sua vida e suas obras. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1943, p. 33.
159 TORAL, André. Imagens em desordem: a iconografia da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP, 2001, pp. 109-110.
160 MELLO JÚNIOR, Op. Cit, p. 32.

120
Retornando ao Rio de Janeiro, em 1870, já casado com Carlota, filha de Araújo Porto
Alegre, passou a dedicar-se a pinturas de cunho mitológico, retratos e a narrativas históricas,
estilo este que lhe consagrou. No mesmo período, o artista também era professor de
Arqueologia, História da Arte e Estética, sendo muito criticado por se ausentar inúmeras
vezes de suas obrigações docentes. Por um breve período, também seria caricaturista do
periódico A Comédia Social.
Já no período após a guerra contra o Paraguai, onde afloravam-se representações do
conflito a todo momento em que se enfatizavam as vitórias da Tríplice Aliança, o pintor
percebe a lacuna nas representações sobre o Exército brasileiro. Ao observar o sucesso das
composições feitas por Victor Meirelles e os feitos da Marinha, Américo pôs-se a elaborar,
por conta própria, a tela Batalha de Campo Grande, onde coloca o Exército em voga. Na
grande composição, buscava exaltar a monarquia e o seu maior representante naquele
momento: o Conde D’Eu161, comandante-em-chefe das forças brasileiras que tomava o lugar
do Duque de Caxias, que já considerava a guerra como vencida162.
O sucesso da Batalha de Campo Grande foi tão grande que a imprensa ficaria dias
debruçando-se sobre o seu autor e a obra, entre críticas e elogios. Sua exposição contou com a
visita de mais de 60 mil pessoas na capital da Corte. Graças a esse estrondoso sucesso, a obra
foi vendida para o Ministro da Guerra, o barão de Jaguaribe, em 28 de janeiro de 1872, pelo
valor de 13.000$000 (treze mil contos de réis)163.
Sua ideia de cobrir a lacuna das pinturas históricas sobre o Exército foi tão bem
executada que posteriormente se tornaria um pintor nacionalmente conhecido, juntando-se a
Victor Meirelles como Pintor Histórico da Imperial Câmara. El também receberia a Imperial
Ordem da Rosa, primeiro como Oficial, depois Grande Dignitário e Comendador.

Em 1871, iniciava também os esboços da Batalha do Avahy, 24 de maio e da Rendição


de Uruguayana, seguindo sua produção sobre o conflito. Posteriormente, continuava a
empreitada com os episódios do Passo da Pátria, Passagem do Chaco e a monumental
Batalha do Avahy. A última obra foi encomendada em 1872 por João Alfredo Correia de

161 ZACCARA, Madalena. Pedro Américo: Um artista brasileiro do século XXI. Recife: Editoria
Universitária UFPE, 2011, pp. 86-87.
162 CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Quando os subordinados roubam a cena: a batalha de campo
grande de Pedro Américo. Revista de História, n. 19, jul./dez. 2008, pp. 83-84. Disponível em:
http://periodicos.ufpb.br/index.php/srh/article/viewFile/11409/6523. Acessado dia 27/04/2018.
163 Ibid, p. 84. Acessado dia 27/04/2018.

121
Oliveira, ministro do Império que daria liberdade para que ele retratasse algum episódio da
guerra.

O óleo sobre a Batalha do Avahy foi executado entre 1874 a 1877, na cidade de
Florença164. Quando exposta ainda na Itália, a tela de proporções monumentais impactava os
seus espectadores, tornando-o famoso por lá, agora como artista. Por conta desse sucesso, teve
seu rosto colocado na galeria de retratos dos Uffizi, estando entre Ingres e Flandrin, que foram
seus mestres na École de Beaux-Arts.
Em 1º de março de 1877, a monumental obra seria exposta em Florença. O evento foi
aberto por D. Pedro II, a tela foi vista por mais de 100 mil pessoas em 18 dias165 e citada por
mais de 300 periódicos internacionais como o Corriere d’Italia, Voz de São Petersburgo,
Londoner Zeitung, Estrela de Estocolmo e vários outros166.
Posteriormente, seria conhecida no Brasil em 1879, na Exposição Geral, lado a lado
com a Batalha dos Guararapes (obra que anteriormente Américo recusaria executar por se
sentir extemporâneo ao episódio), de Victor Meirelles. A primeira pintura seria atacada por
alguns críticos que a alegavam como fantasiosa, de pouca verdade histórica. Porém, uma
pintura não tem necessariamente de narrar o fato tal como ele ocorrera, sendo isso
praticamente impossível, ela é uma composição, que busca respeitar diversos aspectos, mas
sem ter que refletir a realidade tal como fora concebida no conflito.
O artista ressaltava na apresentação do quadro O brado do Ypiranga (ou
Independência ou morte) em 1888 que,
Um quadro histórico deve, como syntese, ser baseado na verdade e reproduzir as
faces essenciaes do facto, e, como analyse, (ser baseado) em um grande numero de
raciocinios derivados a um tempo da ponderação das circumstancias verosimeis e
provaveis, e do conhecimento das leis e das convenções da arte167.

164 TORAL, André. Imagens em desordem: a iconografia da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP, 2001, p. 122.
165 OLIVEIRA, J. M. Cardoso de. Pedro Américo: sua vida e suas obras. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1943, p. 96.
166 Ibid, p. 123.
167 FIGUEIREDO, Pedro Americo de. O Brado do Ypiranga. Proclamação da lndependencia do Brasil.
Algumas palavras acerca do facto historico e do quadro que o commemora. Florença: Typografia da arte della
stampa, 1888, p. 13-14.

122
Maraliz Christo alega que essa posição é uma reafirmação do pintor, tendo ele se
posicionado sobre esse assunto em 1877168, defendendo-se de críticas sobre a Batalha do
Avahy. Em tempo, Pedro Américo dizia que
Ora ahi têm como é o meu idealismo: muito mais positivo do que o positivismo dos
que negão e criticão sem saber: idealismo que basêa-se nos factos essenciaes e só
despreza ou transforma aquilo que pode ser alterado ou omitido sem offensa dos
grandes principios da arte ou da dignidade da historia169.

Christo conclui que Pedro Américo buscava em suas composições equilibrar


“veracidade histórica e liberdade de criação”, situando-se como “um intelectual ativo, que
pensa o fato histórico e o presente, tal qual um historiador”170. Ainda segundo a autora, a
preocupação do artista com a História do Brasil o aproximaria do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro e da tarefa de se construir uma memória nacional171.
Gonzaga Duque, talvez um dos mais ativos críticos do período e ferrenho opositor dos
acadêmicos, aspecto perceptível em seu romance Mocidade Morta172, acreditava que o artista
havia finalmente se livrado do academicismo, criando um estilo próprio173. Isso muito
provavelmente pode ter ocorrido graças à sua bagagem europeia, onde visitara diversos
museus e galerias de arte, frequentando esporadicamente círculos sociais fora do país, algo
perceptível a partir dos relatos presentes na obra biográfica de J. M. Oliveira174.
Posteriormete, seria acusado de plagiar a obra Batalha de Montebelo, de Andrea Appiani175.
Pedro Américo também responde a essa acusação mostrando a diferença de plágio e citação,
algo ainda muito confundido na arte brasileira da época, elaborando um Discurso sobre o
plágio.

168 CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Pintura, história e heróis no século XIX: Pedro Américo e
“Tiradentes Esquartejado”. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas. Campinas, São Paulo: [s. n.], 2005, pp. 56-58.
169 Jornal do Commercio (RJ), nº 298, 24/10/1877, p. 2. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional.
170 CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Pintura, história e heróis no século XIX: Pedro Américo e
“Tiradentes Esquartejado”. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas. Campinas, São Paulo: [s. n.], 2005, pp. 57-58.
171 Ibid, pp. 57-58.
172 ESTRADA, Luís Gonzaga Duque. Mocidade Morta. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1995.
173 ZACCARA, Madalena & PEDROSA, Sebastião. Artes Visuais: Conversando Sobre. Pernambuco:
Editora Universitária UFPE, 2008. pp. 45-56.
174 OLIVEIRA, J. M. Cardoso de. Pedro Américo: sua vida e suas obras. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1943.
175 ZACCARA, Madalena de F. P. A temática, na pintura do século XIX no Brasil, como veículo de
afirmação e sobrevivência: Pedro Américo de Figueiredo e Mello. 19&20, Rio de Janeiro, v. III, n. 3, jul.
2008. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/artistas/pa_zaccara.htm. Acessado dia 05/03/2018.

123
Por conta da Exposição de 1879 e a proximidade com a obra de Victor Meirelles, visto
que a Batalha do Avahy seria exposta ao lado da Batalha dos Guararapes, ocorria mais uma
polêmica fomentada pelos críticos e a imprensa, que tentavam estabelecer quem seria o
melhor, sendo o episódio conhecido como a Questão Artística de 1879176. Nessa questão,
observa-se como a imprensa do período já levantava em suas páginas discussões sobre arte,
haja vista que os jornais, ainda que expressassem a visão de grupos seletos, não deixavam de
fomentar críticas polêmicas em relação ao panorama artístico e político. Américo e Meirelles
não deveriam ser vistos como rivais, mas como artistas de estilos distintos, desejos e
trajetórias distintas, sendo ligados apenas pela formação na Academia Imperial de Belas
Artes.
Mais tarde, o pintor pretendia dar sequência a sua produção sobre a guerra, tentando
vender ao governo a ideia de pintar a já esboçada batalha de 24 de maio, mas sem sucesso.
Mesmo oferecendo o trabalho gratuitamente, o projeto não vingou. O artista sentia-se
desiludido, tentando demitir-se da Academia, algo que lhe foi negado várias vezes. Isso não
fazia diferença, já que depois ele conseguiria uma nova licença, indo mais uma vez rumo à
Europa. Por lá, Américo tenta projetar uma batalha histórica, agora para o governo da Itália,
mas novamente sem sucesso177.
Posteriormente, executaria em 1888 uma de suas mais famosas obras, o Grito do
Ipiranga. Isso foi possível graças a sua insistência de vender suas ideias, que foram
financiadas pelo estado de São Paulo. Em sequência, já com o Brasil sendo uma República,
realizaria novamente pinturas históricas marcantes como a imagem de Tiradentes
Esquartejado, a Libertação dos Escravos, Honra e Pátria e Paz e Concórdia178.
Em 1890, com seu estado de saúde cada vez mais debilitado, se tornava deputado por
Pernambuco, defendendo a criação de museus, galerias e universidades no país. O artista veio
a falecer no dia 7 de outubro de 1905, em Florença, deixando um legado que ia além das artes,
sendo um importante personagem na história brasileira.

176 GUARILHA, Hugo. A questão artística de 1879: um episódio da crítica de arte do II Reinado. 19&20,
Rio de Janeiro, v. I, n. 3, nov. 2006. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/criticas/questao_1879.htm.
Acessado dia 06/03/2018.
177 ZACCARA, Madalena. Pedro Américo: Um artista brasileiro do século XXI. Recife: Editoria
Universitária UFPE, 2011, p. 123.
178 Ibid, pp. 161-181.

124
3.1. A rendição de Uruguayana

Imagem 31. AMÉRICO, Pedro. A rendição de Uruguayana. Litografia baseada em óleo, desenho de Ângelo
Agostini, Vida Fluminense Of. Litográfica, Alf. Martinet litógrafo, 50,50 x 68 cm (aprox.). Museu Histórico
Nacional, Rio de Janeiro.

A Rendição de Uruguayana (imagem 31) consiste em um quadro pintado por Pedro


Américo, de 1871 a 1873, por decisão própria179, na cidade de Florença180, Itália. Em 1871,
com 25 anos, o autor aproveitando-se da ascensão patriótica advinda da vitória brasileira na
guerra contra os paraguaios, havia pintado por conta própria a Batalha do Campo Grande,
obra que lhe gerou grande reconhecimento como pintor no Brasil, sendo constantemente
citado nos periódicos. Após o sucesso, em janeiro de 1872, a obra seria adquirida por 13.000
contos de réis pelo Ministro da Guerra, o Barão de Jaguaribe181. Tanto prestígio rendeu-lhe o

179 Ou seja, não era uma encomenda do Estado, como as endereçadas a Victor Meirelles, pintor oficial do
Estado, cargo que posteriormente também seria dado a Pedro Américo.
180 JÚNIOR, Donato Mello. Pedro Américo de Figueiredo e Melo: 1843-1905. São Paulo: Pinakotheke. 1983.
181 CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Quando os subordinados roubam a cena: a batalha de campo grande de
Pedro Américo. Revista de História, n. 19, n. 19, jul./dez. 2008, p. 84. Disponível em:
http://periodicos.ufpb.br/index.php/srh/article/viewFile/11409/6523. Acessado dia 27/04/2018.

125
título de Pintor Histórico da Imperial Câmara182. Ele retornou à Florença no mesmo ano e deu
início à produção da obra que aborda a rendição, a concluindo em 1873.
O quadro tem como base um episódio da guerra, o cerco da cidade de Uruguaiana,
ocorrido entre 16 de julho a 18 de setembro de 1865183 quando tropas da Tríplice Aliança
retomavam a cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, do domínio paraguaio ao
renderem o coronel Estigarribia e seus homens, após longo período de sítio, em que o inimigo
se encontrava sem recursos e assombrado pela fome. A vitória da Tríplice Aliança frustrou os
planos de uma ofensiva em território brasileiro, planejada pelo presidente Solano López.
Porém, o óleo original já não existe mais para ser comparado com a litografia. Após a
expulsão da Família Imperial do país, com a Proclamação da República, em 1889, parte dos
bens deixados no interior do palácio de São Cristóvão foram leiloados. Segundo o Anuário do
Museu Imperial184, a pintura original do episódio foi atirada no pátio da Quinta da Boa Vista e
partida em quatro pedaços com sua rica moldura. A obra deveria seguir para a França, como
desejava D. Pedro II, não ficando para o Leilão do Paço, mas acabou tendo este trágico fim.
Todavia, graças aos registros litográficos do período, a reprodução da obra encontra-se sob a
tutela de diversos museus e instituições, tais como o Museu Mariano Procópio, em Juiz de
Fora, a Biblioteca Nacional e o Museu Histórico Nacional, ambos na cidade do Rio de
Janeiro.
O episódio da rendição também deu origem a outras representações como a escultura
de Manoel Chaves Pinheiro intitulada Estátua equestre de sua majestade o Imperador em
Uruguaiana (imagem 32), realizada em tamanho natural. Executado em 1866, o gesso foi
apresentado na Exposição Universal de 1867, em Paris, e na XXI Exposição Geral de Belas
Artes, de 1870, pertencendo hoje ao Museu Histórico Nacional, sem nunca ter sido fundido
em bronze. Outras reproduções que remetem ao episódio também foram veiculadas pela
imprensa do século XIX. Uma delas, feita por Janet Lange e Cosson-Smeeton, na França,
baseava-se no desenho in-loco feito por M. Francisco Rubio, constando no periódico
L'illustration: journal universel em 1866 (imagem 33).

182 ZACCARA, Madalena. Pedro Américo: Um artista brasileiro do século XIX. Recife: Universitária
UFPE, 2011.
183 DORATIOTO, Francisco. O conflito com o Paraguai: a grande guerra do Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
184 SANTOS, Francisco Marques. O leilão do paço imperial. In: Anuário do Museu Imperial. Petrópolis: 1940,
v. 1, p. 151-316.

126
Imagem 32. PINHEIRO, Francisco Manoel Chaves. Dois aspectos da Estátua equestre de Sua Majestade D.
Pedro II em Uruguaiana, 1866-1870. Gesso. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Arquivo pessoal.

Imagem 33. LANGE, Janet; COSSON-SMEETON. Guerre de la Plata: Capitulation des paragueéns enfermés
dans la ville Uruguayana. - D'aprés un croquis de M. Francisco Rubio. 3 February 1866. L'illustration: journal
universel, Vol. XLVII, nº 1.197 (03/02/1866).

127
As litografias baseadas em óleo de Pedro Américo (imagens 31, 35 e 36) demonstram
a rendição do general paraguaio e seus homens diante do imperador D. Pedro II e dos generais
das repúblicas argentina e uruguaia, Bartolomeu Mitre e Venâncio Flores. Faz-se importante
ressaltar a presença do líder brasileiro e seus genros em um episódio da guerra, deslocando-se
da distante capital da corte até a região Sul do país. Nota-se em seus variados personagens
duas expressões distintas: a postura dos paraguaios, derrotados, cabisbaixos, em que o padre
Ignacio Duarte se encontra de joelhos pedindo clemência; enquanto os vencedores situam-se
em um plano elevado, montados em seus cavalos, transmitindo a ideia de superioridade diante
de seus inimigos185, algo muito comum nas pinturas de rendição. Pode-se analisar em sua
composição um eixo diagonal que dá maior ênfase à dicotomia retratada. Percebe-se, assim, o
elemento antitético e tradicional com que o artista constrói sua composição, opondo através
de seu gestual os vencedores e os vencidos.
Não se tem nenhum registro de que a obra tenha sido exposta nas Exposições Gerais186
do período, embora Gonzaga Duque em Mocidade Morta187, romance de teor autobiográfico
escrito em 1899, descreva em uma das passagens a possível exposição. Nela, fala sobre uma
obra de “Telésforo de Andrade”, personagem geralmente associado pela crítica a Pedro
Américo, que “(...) expunha à admiração patrícia o seu novo quadro, um vasto painel
estendido por 14 metros, contando 12 de altura (...) Olhos fixavam, parvamente, na tarja baixa
da moldura, um círculo de louros entrelaçados ao redor do dístico: Rendição de Uruguaiana”.
A pintura histórica é um gênero de obra de arte comumente criado sob encomenda,
evidenciando um tipo de produção plástica comprometida com a tematização da nação e da
política. Ou seja, é criada para exaltar realizações do Estado, buscando uma imagem positiva
sobre seus feitos. No Segundo Reinado ela buscou esboçar traços de uma identidade nacional,
sendo um importante instrumento dos “valores nacionais”. Porém, como a bibliografia
mostra, Pedro Américo iniciou algumas de suas obras por conta própria, sendo a Rendição de
Uruguayana mais um exemplo.

185 Aqui faz-se necessário citar todos os personagens que se encontram na obra. Ao fundo: a cidade de
Uruguaiana. No plano principal: o padre Ignacio Duarte, o coronel Estigarribia, o conselheiro Angelo Muniz, o
imperador D. Pedro II, o general Venâncio Flores, o general Bartolomeu Mitre, o Conde D’Eu, o Duque de
Caxias e o Conde de Porto Alegre. Sabe-se disso pois, abaixo da litografia, encontram-se estes nomes.
186 Entre 1840 e 1884 a Academia Imperial de Belas Artes organizou 26 Exposições Gerais de Belas Artes.
187 ESTRADA, Luís Gonzaga Duque. Mocidade Morta. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1995.

128
Imagem 34. AMÉRICO, Pedro. Rendição de Uruguayana. Litografia baseada em óleo, J. Reis litógrafo, 50,50 x
68 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

129
Imagem 35. AMÉRICO, Pedro. Rendição de Uruguayana. Litografia baseada em óleo, A. Campbell litógrafo.
Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Acima estão os três exemplares referentes à Rendição de Uruguayana citados


anteriormente: a primeira (imagem 31), como sendo de autoria do periódico Vida Fluminense,
desenhada por Ângelo Agostini e impresso por Alf. Martinet; a segunda litogravura (imagem
34), com proporções aproximadas da primeira, porém com traços inferiores e turvos, impressa
por J. Reis, sem desenhista citado e feita de forma espelhada ao se comparar a anterior; e a
última (imagem 35), em tamanho bem inferior e traçado bem simplório de Campbell & Co.
Lith. Desses três exemplares, percebe-se a grande diferença na qualidade do desenho feito na
primeira, evidenciando-se a pena de Agostini ao se comparar as outras gravuras. Além disso,
é possível levantar a hipótese de que a imagem 26 tenha sido feita em um processo de
reimpressão, sendo a reprodução da primeira, que muito provavelmente já tivera a matriz
apagada. O último desenho, por ser muito pequeno e em qualidade inferior, pode ter servido
como forma de ilustrar alguma notícia.
Como se sabe, a fotografia era uma referência bastante usual da época na elaboração
de pinturas e desenhos que buscavam trazer detalhes importantes como a indumentária e os
traços dos personagens no período. Muito provavelmente, ela também foi utilizada tanto na
estátua equestre quanto na pintura de Pedro Américo e em outras tantas reproduções do século

130
XIX. Os exemplos das fotografias de L. Terragno, que registrou D. Pedro II, o Conde D’Eu e
o Duque de Saxe (imagem 36) servem exatamente para exemplificar como se dava o
processo, sendo perceptível a semelhança das indumentárias presentes nas imagens com as
usadas na litografia e em pintura sobre a campanha de Uruguaiana feita por Edouard Vienot
(imagem 37).

Imagem 36. TERRAGNO, L. Fotografias de D. Pedro II, Conde D'Eu e do Duque de Saxe, possivelmente em
Uruguaiana. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

131
Imagem 37. VIENOT, Edouard. D. Pedro II, Campanha de Uruguaiana, Guerra do Paraguai, 1874. Óleo sobre
tela, 257 cm x 160 cm. Coleção D. João de Orleans e Bragança.

132
Ao se analisar a temática das rendições ao longo da história da arte, torna-se possível a
observação de certas convenções entre alguns dos mais variados exemplos. Em A rendição de
Breda (imagem 38), Velázquez trata a capitulação da cidade com certa cortesia, embora a
Rendição de Uruguayana seja narrada justamente de forma mais distinta. Todavia, existem
alguns pontos em comum. O primeiro a ser observado são as figuras centrais da composição,
dando a entender exatamente quem pertence ao lado vencedor e o vencido, não só pela
entrega da chave da cidade, mas pela altura do olhar do vencedor, estando acima dos olhos do
vencido. As lanças ao fundo no lado direito demonstram superioridade numérica no exército,
que deixa um rastro de destruição ao longo do caminho, algo perceptível no cenário ao fundo
da obra.

Imagem 38. VELÁZQUEZ, Diego. 1635. A rendição de Breda. Óleo s/ tela, 307 cm x 367 cm. Museu Nacional
do Prado, Madri.

Outra composição que trata de um evento próximo à rendição de Breda na Guerra dos
oitenta anos, a The surrender of Jülich (imagem 39), busca ilustrar a rendição de uma outra
forma, sendo mais próxima ao caso de Uruguayana. Nela também se observa o vencedor no

133
ponto mais alto, sobre o seu cavalo e a superioridade militar refletida pelas lanças, mesmo
artifício usado na imagem 29, colocando mais uma vez em cena os lanceiros espanhóis.
Porém, diferente da cordialidade vista na obra sobre Breda, a imagem 31 mostra justamente o
contrário: os vencidos cabisbaixos, entregando a chave da cidade de joelhos, em um eixo
diagonal entre os olhares dos personagens centralizados.

Imagem 39. LEONARDO, Jusepe. The surrender of Jülich. 1634-1645. Oleo s/ tela, 307 cm x 381 cm. Museu
do Prado, Madri.

Já o óleo que trata da rendição da cidade de Ulm (imagem 40), ambos personagens
centrais estão na mesma altura, embora o exército vencedor esteja ocupando o maior e mais
alto ponto. Isso é notado em várias outras representações das guerras napoleônicas (imagem
41), onde reside a dicotomia entre os vencedores e vencidos, elaboradas a partir destes
artifícios citados anteriormente como a geografia do local, expressões físicas, superioridade
numérica do exército vencedor e a imponência do vencedor e sofrimento do derrotado.

134
Imagem 40. THÉVENIN, Charles. Reddition de la ville d'Ulm, le 20 octobre 1805, Napoléon Ier recevant la
capitulation du général Mack. 1805-1815. Óleo s/ tela, 260,5 cm x 392 cm. Collections du château de Versailles,
França.

Imagem 41. PIGEOT, Francois. Prise d'Ulm, le 17 octobre 1805. 1805. Litografia colorida, 34 cm x 48 cm.
Paris.

135
3.2. O ataque da ilha da Redempção

Imagem 42. AMÉRICO, Pedro. O ataque da ilha da Redempção. Litografia baseada em óleo, J. Vitorino
litógrafo, 52,5 cm x 71,5 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

O ataque a Ilha da Redempção (imagem 42) é mais uma das gravuras de tradução
presentes na coleção baseada em óleo de Pedro Américo. Sua autoria é atestada por dois
aspectos: pelo nome do autor impresso no lado inferior esquerdo da gravura e pelos anúncios
exibidos nos periódicos, como observado no primeiro capítulo. Todavia, não existe nenhuma
fonte visual que possa confirmar as escolhas utilizadas na gravura acima, que
costumeiramente pode sofrer com algumas alterações por parte de seu desenhista. Como se
sabe, o hábito dos artistas de elaborar vários esbocetes de um determinado tema é comum na
pintura, uma vez que se busca através de inúmeros estudos uma composição que corresponda
aos anseios criativos.
Sabe-se através das fontes que o pintor havia esboçado várias de suas obras, sendo a
Rendição de Uruguayana uma delas, algo que também pode ter sido executado neste caso,
embora não exista nenhuma citação. Ela pode estar desaparecida ou foi destruída ao longo dos
anos, o que é uma questão corriqueira nas artes. A litogravura acima pode não ter passado de

136
uma ideia esboçada do pintor, mas, mesmo assim, foi aproveitada, sobretudo pelo seu elevado
status no século XIX.

Imagem 43. AMÉRICO, Pedro. Combate da Ilha de Redenção em 1866. Litografia baseada em óleo, A. de
Pinho lit., 40 cm x 57,5 cm.

A primeira gravura analisada (imagem 42) mostra traços pouco definidos, podendo ser
uma cópia da cópia ou um trabalho feito em tempo mais curto, aspecto muito comum nas
oficinas litográficas da época. A composição demonstra uma parca perspectiva de
profundidade, onde as canoas paraguaias ao horizonte mais parecem riscos, sem nenhuma
definição. Além disso, o movimento de curva das embarcações é rígido e pouco apurado. Já
na segunda reprodução (imagem 43), fica perceptível a diferença técnica e estética na
litogravura, muito provavelmente constando na primeira edição editada da coleção. Os traços
são mais definidos, as proporções são mais bem elaboradas, embora ainda sejam limitadas
devido a técnica litográfica. Outro aspecto mais bem projetado são os traços dos personagens
e uma maior imersão no caos que a reprodução tenta trazer ao espectador.
No primeiro plano, encontra-se presente a Ilha da Redempção (também conhecida
como Banco de Itapiru, Banco Purutué, Ilha Carayá, Ilha de Carvalho, Ilha do Cabrita ou Ilha
da Vitória). Nela, é possível observar à esquerda o desembarque de soldados paraguaios das

137
canoas vindas do outro lado, sendo retratados com o dorso nu, semelhantes a selvagens, se
perdendo no meio da multidão e lutando contra os Aliados. Do lado direito, situa-se o exército
Aliado saindo das trincheiras para o ataque, sendo observada a vestimenta padrão do exército,
em tonalidade mais escura. Dois soldados brasileiros encontram-se no meio da composição,
em primeiro plano, onde um brada a espada ao ar e o outro utiliza a corneta, que servia para a
comunicação com as tropas sobre as ações a serem tomadas como, por exemplo, “avançar” ou
“carga”. Porém, só está identificado na legenda o tenente-coronel João Carlos Villagran
Cabrita, que liderava o 7º corpo de Voluntários da Pátria, e faleceria nesta mesma batalha
atingido por um tiro de canhão. O antagonismo dos lados da obra também fica perceptível
pelas duas bandeiras içadas, onde encontram-se os pavilhões brasileiro e o paraguaio, que
teria sido derrubada em três oportunidades, sendo em todas elas reerguido188.
Ao fundo, encontra-se o forte do Itapirú sendo sucessivamente atacado pelas
canhoneiras Greenhalg e Henrique Martins, retratadas na imagem, mas a defesa também
contaria com a Chuí, que possivelmente está encoberta pela fumaça. As investidas da
esquadra são perceptíveis pelas nuvens de fumaça em tom mais claro que saem do chão e dos
rastros negros deixados pelos disparos das embarcações.
A reprodução trazida pelo jornal L’Illustration (imagem 44), mostra um ponto de vista
distinto do que traz a litogravura da coleção, mas mantendo as mesmas informações, de forma
invertida: à esquerda, o exército brasileiro descendo e lutando contra os paraguaios que
tentavam retomar a privilegiada posição no rio Paraná, amparados pela bandeira no alto do
morro. Do outro lado, as duas canhoneiras brasileiras, semelhantes à composição de Américo,
o forte do Itapirú e a bandeira paraguaia, quase desaparecida entre a fumaça.

188 TAVARES, Aurélio de Lyra. O combate da Ilha da Redenção. In: Villagran Cabrita e a engenharia do
seu tempo, 1981. Disponível em: http://www.academia.org.br/academicos/aurelio-de-lyra-tavares/textos-
escolhidos. Acessado dia 23/03/2018.

138
Imagem 44. GAILDRAU, Jules. Combat de l’isle de la Rédempcion das le Paraná (10 avril): la 19ª brigade
brésillienne commandée par le colonel Villagran Cabrita repoussant l’assaut des paraguayens. 1866. In:
L'illustration: journal universel, Vol. XLVII, nº 1.215, 09/06/1866.

Existem também outros desenhos feitos por estrangeiros. Neste caso, em obra não
identificada presente no Album de la guerra del Paraguay (imagem 45), dirigido pelo
argentino José C. Soto. No desenho, há uma aproximação da linha de análise, dividindo tanto
a composição entre as chalanas paraguaias que atravessavam o rio e a luta travada entre os
soldados. Corpos aparecem estirados ao chão e nuvens de fumaça fazem os soldados e suas
armas emergirem em meio a nebulosidade, sendo a narrativa tomada pelas pouco definidas
formas humanas e a luta pela defesa ou conquista da pequena ilha.

139
Imagem 45. SOTO, José C. (org.). Ataque dos paraguaios à Ilha Carayá (depois Cabrita), guarnecida pelos
brasileiros, na noite de 10 de abril de 1866. In: Album de La Guerra del Paraguay, [Buenos Aires]: [s.n.], 1893-
1896, Vol. I.

A litografia de perspectiva aérea Ataque da ilha do Carvalho e derrota dos


paraguayos no dia 10 de abril de 1866 (imagem 46) traz mais dados do combate, abordando a
cena por uma diferente perspectiva, analisando o evento de cima. Próximo às margens da ilha
dominada pelos brasileiros encontram-se diversos pontos remetentes aos soldados que faziam
a travessia para a ilha e caíram ou foram atingidos pelo caminho. Novamente, também é
possível observar as bandeiras, estando na esquerda a paraguaia e, no lado oposto, o lábaro
brasileiro. As navegações são identificadas, sendo a Henrique Martins a mais centralizada,
estando entre as duas margens e, consequentemente, ao fogo cruzado; o vapor Greenhalg,
entre as duas embarcações maiores; abaixo, o vapor Chuy; acima, afastado do combate, o
encouraçado Tamandaré, que foi à pique após a primeira embarcação sofrer com um tiro para
auxiliar a manobra, não sendo retratado na litografia da coleção e, por último, a chata
brasileira em que foi morto Villagran Cabrita e seu secretário.
O intuito desta imagem era justamente levar ao público do século XIX, de forma mais
ilustrada os momentos cruciais do conflito, com uma legenda explicativa que auxilia o olhar
dos interessados nos pormenores do episódio, tendo um objetivo completamente diferente das
pinturas e litogravuras mais artísticas. Outro costume comum da imprensa no período com a

140
intenção de ilustrar os conflitos de maneira mais formal, mas com o mesmo objetivo de
informar, era o de se anexar mapas topográficos (imagem 47) nos jornais e suplementos e
anuncia-los constantemente.

Imagem 46. CAMINHOA. Ataque da ilha do Carvalho e derrota dos paraguayos no dia 10 de abril de 1866.
Litografia baseada em desenho. Publicada pelo Imperial Instituto Artístico. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

141
Imagem 47. CONSELHEIRO, Octaviano. Plano do Rio Paraná desde as Tres Bocas até acima do Forte de
Itapiru. 1866. Litografia, 29 cm x 46 cm. In: Supplemento da Semana Illustrada. Biblioteca Nacional, Rio de
Janeiro.

Entre soldados se digladiando, canhoneiras e pequenas canoas, o cenário da batalha


tem algumas características já observadas em obras de Pedro Américo, que costumeiramente
relatava em uma mesma composição há várias cenas diferentes. Todavia, a litogravura,
embora tendo o papel de divulgação e de fazer uma ideia ser disseminada para um maior
público, faz com que parte da reprodução perca qualidade, cobrindo várias lacunas, mas,
simultaneamente, abrindo outras.
A litografia baseada em óleo de Américo consegue trazer em meio ao conflito a
presença de importantes personagens, como fora explicado acima, seguindo a fórmula da
pintura histórica que prioriza os personagens, dando-lhes posição privilegiada na composição.
Outro aspecto considerável trazido pela litografia é a importância observada aos relevos,
presentes nas outras representações e em mapas que, como se sabe, serviam como referência
para os artistas. A necessidade de se situar bem os locais onde a peleja aconteceu é uma das
formas de se trazer verossimilhança a uma composição criada, que não necessariamente deve
seguir à risca os fatos, mas de ilustrá-los da melhor maneira possível. Isso é muito bem
demonstrado na antítese criada, separando em margem os protagonistas bem como suas
bandeiras hasteadas. Constam no lado esquerdo os “bárbaros” paraguaios e do lado direito os

142
“heroicos” soldados brasileiros, que defendem bravamente sua posição ante o ataque
sorrateiro e feroz dos inimigos, que viriam a perecer posteriormente.

4. Eduardo De Martino

Nascido em 1838, próximo à comuna de Sorrento, na região de Campanha, Nápoles189,


o pintor de marinhas Eduardo190 Federico De Martino viria ao Brasil com um diferencial
pouco explorado pela arte nacional. Em seus registros, se destacava por meio de suas pinturas
de marinha, sendo constantemente elogiado por valorizar minuciosamente as embarcações,
característica atrelada ao seu passado militar, quando serviu a armada italiana, passagem que
será explicada a seguir. Seus traços evidenciam-se dos demais devido à alta qualidade das
representações, muito bem detalhadas, e pelo seu controle das relações entre matizes e luz.
Suas pinturas de marinha, apesar de não terem as proporções das telas históricas, ainda são
consideradas grandes. Suas escolhas e estilo contrastam com os aspectos observados do
gênero histórico, que enfatizam a presença dos personagens, portanto, há de ser analisado de
forma distinta dos artistas citados anteriormente. Todavia, nesta coleção o pintor apresenta
duas obras baseadas em episódios do exército, algo pouco estudado por seus biógrafos.
Mostra em seus quadros um caráter romântico, sobretudo por enfatizar a atmosfera da
cena, preferindo uma composição em que evitava os contornos e dava maior ênfase às
manchas, algo que o fazia explorar mais as cores e as luzes, utilizando-se de fenômenos
naturais como névoa, nuvens e fumaça. Com seu estilo diferente do visto na Academia, tanto
do ponto de vista técnico quanto do gênero histórico vigente, foi muito valorizado pela crítica
de arte do período, se tornando um artista singular no cenário brasileiro do século XIX191.
Aos onze anos, De Martino entrava para a Real Escola Naval de Nápoles. O mar era
parte constituinte da cultura de sua região, tendo gosto pelas atividades náuticas, algo que
certamente influenciou no seu estilo e nas suas futuras escolhas. Ao longo de sua formação, o

189 ROMANO, Roberto Vittorio. Dicionário Biográfico dos Italianos. Volume 38, 1990.
190 É possível encontrar o mesmo autor sendo referenciado enquanto “Edoardo”. Todavia, o pintor assinava
seus desenhos como “E. De Martino” ou “Eduardo De Martino”, sendo a segunda opção a mais utilizada.
191 OLIVEIRA, Raphael Braga de. Mar calmo nunca fez bom pintor: as pinturas de marinha de Eduardo de
Martino (1868-1876). Monografia em História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências
Humanas e Filosofia, 2017, p. 16.

143
pintor também participou de cursos noturnos no Instituto de Artes Plásticas de Nápoles 192.
Alguns autores o tratam equivocadamente como autodidata, o que não procede, sendo apenas
a sua formação distinta da observada na Academia Imperial de Belas Artes.
Segundo Luigina de Vito Puglia, uma das biógrafas de De Martino,

no verão de 1865, de Martino serviu como oficial novato na corveta à vapor Ercole.
O navio fazia parte da Divisão Naval Italiana no rio da Prata, que desempenhava
tarefas políticas, diplomáticas e científicas, visando especialmente representar as
numerosas comunidades italianas presentes nas costas argentina e uruguaia. Esta
ação é de fundamental importância, especialmente durante os conflitos que
atingiram a América do Sul na segunda metade do século XIX (tradução nossa)193.

Enquanto oficial da Marinha italiana, o pintor chega ao Brasil após fazer parte da
Divisão Naval italiana presente na região do Rio da Prata em 1865, durante a guerra194.
Residiu brevemente em Porto Alegre, onde divulgava suas obras e ministrava aulas de
pintura. Em 24 de maio de 1870, ganhava a medalha de ouro pelo trabalho realizado em favor
da loja maçônica Luz e Ordem, de Porto Alegre195.
No dia 20 de setembro de 1868, já fixo no Rio de Janeiro, o artista expôs dois
trabalhos na Academia Imperial de Belas Artes: Abordagem de Encouraçados e a Passagem
do Humaitá, pintando ambas obras no mesmo ano. A partir daí “definiu-se então sua trajetória
de sucesso no Brasil, que resultou em diversas exposições de destaque (...). As telas de
marinha faziam muito sucesso em uma sociedade que valorizava a pintura monumental196”.
Por conta da guerra da Tríplice Aliança e o sucesso de algumas de suas obras nela
baseada, foi encarregado por D. Pedro II como pintor oficial, sendo incumbido de registrar os
feitos militares dos brasileiros e estando presente em alguns conflitos como a batalha de
Humaitá. Em 1871, foi condecorado pelas autoridades nacionais como “Membro

192 PUGLIA, Luigina de Vito. Eduardo de Martino: Da ufficiale di marina a pittore di corte. Bolonha: Con-
Fine Edizioni, 2012.
193 “Nell’estate 1865 de Martino prestava servizio come ufficiale di rotta sulla pirocorvetta Ercole. La nave
faceva parte della Divisione Navale italiana al Rio de la Plata che svolgeva compiti politici, diplomatici e
scientifici, mirando in particolare a rappresentare le numerose comunità italiane presenti sulle coste argentine e
uruguaiane. Azione questa di fondamentale importanza specialmente durante i conflitti che dilaniarono
l’America Meridionale nella seconda metà dell’Otocento”. PUGLIA, Lugina de Vito. Eduardo De Martino: Da
ufficiale di marina a pittore di corte. Moghidoro: Con-fine, 2012, p. 47.
194 PUGLIA, Luigina de Vito. Eduardo De Martino. Da ufficiale di marina a pittore di corte. Bolonha: Con-
Fine Edizioni, 2012, p. 47.
195 Ibid, p. 47.
196 OLIVEIRA, Raphael Braga de. Mar calmo nunca fez bom pintor: as pinturas de marinha de Eduardo De
Martino (1868-1876). Monografia em História. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências
Humanas e Filosofia, 2017, p. 19.

144
correspondente da Academia Imperial de Belas Artes”197, algo que o alavancou ainda mais no
cenário nacional.
Após isso, Eduardo De Martino desertava da Real Armada Italiana, com receio de
sofrer alguma represália por parte do Conselho de Guerra ao estar em trabalho no momento de
um acidente com um navio italiano em Montevidéu. Pouco depois, o imperador brasileiro o
enviava de volta ao teatro de guerra para acompanhar os oficiais brasileiros como pintor
oficial da Corte. O artista esteve a bordo de duas embarcações entre 1868 e 1869: na fragata
Imperatriz, na região de Curupaity, estando ao lado de Duque de Caxias; e em Humaitá, agora
no navio Lima Barros, conhecendo o posto de guarda avançada, onde ele tomou notas e
desenhos para algumas obras que fazem parte deste objeto de estudo. Todavia, De Martino
não pôde desembarcar em Humaitá em abril de 1868. As tropas brasileiras ainda estavam
tentando dominá-lo198.
Alguns destes desenhos deram origem a grandes telas: o Ataque aos encouraçados
brasileiros Lima Barros e Cabra, a Abordagem dos encouraçados brasileiros Barroso e Rio
Grande por canoas paraguaias em frente ao Tagy, a Passagem de Humaitá e também a Cena
do Gran Chaco199.
Estas obras só foram executadas graças ao auxílio do Estado, responsável por colocá-
lo de volta ao palco da guerra e o financiar. Sabe-se que as pinturas ligadas aos fatos
históricos no período tinham um alto custo e em muitos dos casos os artistas desejavam ir aos
locais dos conflitos, não bastando os relatos, os quais também eram utilizados como fontes.
Por meio destas relações cada vez mais aprofundadas com a família real e importantes figuras
nacionais e internacionais, Eduardo De Martino se articulava e se concretizava também no
mercado, obtendo mais sucesso comercial do que Pedro Américo e Victor Meirelles.
O pintor deixaria o Brasil rumo à Inglaterra em 1876, mas o país ainda seguiria vivo
em sua memória. Em maio de 1877, a Gazeta de Notícias veicula a informação de que
litografias desenhadas por Rafaello Pontremoli, feitas com base em seus óleos, chegavam da
Itália:

197 Diário do Rio de Janeiro, n. 305, 05/11/1871, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional.
198 TORAL, André. Imagens em desordem: a iconografia da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP, 2001, p. 143.
199 BELLUZO, Ana M. de M. (org.). Edoardo De Martino: pintor e marinheiro. São Paulo: Companhia São
Paulo de Petróleo/Pancrom, 1988.

145
Acabam de chegar da Italia as lithographias de alguns quadros historicos da guerra
do Paraguay, pintado pelo festejado artista Eduardo De Martino, representando A
passagem da esquadra brasileira em frente a Curuzú; A tomada do
Estabelecimiento; O reconhecimento de Humaytá pelo invicto general Osorio e A
invasão do território paraguayo pelo exercito brasileiro.
As lithographias foram fielmente executadas pelo habil artista italiano
Pontremoli.200

Destas gravuras citadas, três fazem parte da coleção Quadros históricos da guerra do
Paraguai, sendo inclusive creditados os desenhos ao também italiano Pontremoli, como é
possível analisar nas obras, sendo todas elas assinadas por ele. Percebe-se a partir desta
notícia o empenho de se colocar gravuras de artistas consagrados nesta coleção.
Acerca das críticas brasileiras sobre De Martino, Gonzaga Duque cita o artista,
afirmando que

A pintura de marinhas teve, no Brasil, poucos representantes. Foram esses - Eduardo


de Martino, Gustavo James e Emílio Rouède. Dos três o que mereceu maior
aceitação, sem dúvida exagerada por simpatias pessoais e complacência da crítica,
embora tenha hoje vantajosa cotação no mundo oficial da Inglaterra, foi De Martino.
Nenhum deles, porém, acusou um temperamento de eleição. De Martino era forte
desenhista do aparelho náutico, conhecia bem a construção naval, mas pintava
defeituosamente, com maneirismos e descuidos201.

Mesmo sendo criticado por seus “maneirismos e descuidos”, o crítico enfatiza o


conhecimento do pintor acerca da aparelhagem náutica, tão comum na rotina do artista. Seu
estilo dava ênfase as embarcações, sendo estas as personagens que ele gostaria de ressaltar na
composição, tendo maior capricho na elaboração. A imprensa ilustrada e vários intelectuais,
ao contrário de alguns críticos trataram-no muito bem, sendo ele próximo de D. Pedro II e da
imperatriz Teresa Cristina, nascida em Nápoles, a mesma região do pintor.
Segundo Puglia, em 1889, De Martino levava sua pintura a óleo para a Academia
Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, sendo esta
a última vez que ele participou de uma exibição pública, pois estava
convencido de que o julgamento dos críticos ou especialistas nem sempre era

200 Gazeta de Notícias (RJ), n. 101, 16/05/1877, p. 1. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional.
201 DUQUE, Gonzaga. Graves & Frívolos. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1910, p. 63. (Versão com
ortografia atualizada do texto publicado na coletânea). Disponível em:
http://www.dezenovevinte.net/artigos_imprensa/gd_castagneto.htm. Acessado dia 06/03/2018.

146
competente e objetivo, mas ele não precisava mais aparecer para conseguir
compradores202.

Observa-se através de comparações entre as bibliografias que entre os três pintores


aqui citados Eduardo De Martino foi o mais bem-sucedido no mercado artístico, direcionando
majoritariamente suas criações para vendas entre colecionadores. Contudo, sabe-se que em
questão de qualidade, o profissional era considerado inferior a Pedro Américo e Victor
Meirelles. Justifica-se essa grande quantidade de encomendas por aquisições de moradores da
região do Prata que preenchiam suas coleções privadas, algo não muito observado no Brasil
do século XIX. A carreira dos pintores em terras brasileiras focava-se mais na elaboração de
encomendas feitas pelo Estado ou em ser professor na Academia ou ateliês privados.
Em suas obras, De Martino misturava ficção e realidade, sobretudo a partir dos
desenhos elaborados in loco, algo feito com o possível objetivo de ganhar tempo para a
elaboração de suas pinturas, o produto final de todo o trabalho. Ele buscava compor suas
obras com documentos e reconstituições, esboçando preliminarmente estes desenhos para
chegar ao melhor resultado possível. Toral o critica por ser acadêmico na elaboração dos
esboços203, algo mais comum na pintura histórica, que era uma composição e não um retrato
fiel aos fatos. Todavia, De Martino preocupava-se também com a fidelidade histórica e isso
era visível nos detalhes das embarcações.
Walter Luiz Carneiro de Mattos explica que Eduardo De Martino construía suas obras
a partir da política de construção do imaginário, buscando o que desejava o discurso oficial de
exaltação aos feitos brasileiros. A imprensa fomentava tal discurso ao descrever
minuciosamente as suas composições, corroborando com o seu tom oficial. Ambos fatores
foram importantes para fortalecer o Império do Brasil, trazendo a memória da guerra para o
povo, algo visto como parte de um “processo civilizador contra a barbárie por meio de
momentos de glória e triunfo204”, o que pode ser observado nos outros pintores aqui citados.

202 “Fu l'ultima volta che partecipò ad un'esposizione pubblica, poichè si convinse che il giudizio dei critici o
degli esperti non fosse sempre competente e oggetivo, ma frose non aveva più bisogno di esporre per travare
acquirenti”. PUGLIA, Luigina de Vito. Eduardo de Martino: Da ufficiale di marina a pittore di corte. Bolonha:
Con-Fine Edizioni, 2012, p. 77.
203 TORAL, André. Imagens em desordem: a iconografia da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP, 2001, p. 144.
204 PEREIRA, Walter Luiz Carneiro de Mattos. Guerra do Paraguai: o discurso e a memória nas telas de
Eduardo De Martino. Monografia de Bacharelado – UFF, Niterói: 1999, p. 149-159.

147
Uma questão curiosa e pouco analisada na trajetória de Eduardo De Martino e que os
Quadros históricos da guerra do Paraguai trazem à tona são as litografias baseadas em óleos
do artista, remetendo aos soldados brasileiros em terra, algo pouco observado em sua vasta
produção. As duas obras, o Reconhecimento de Humaitá e o Ataque e tomada do
Estabelecimiento remetem a episódios ocorridos na região de Humaitá, por onde ele teria
passado entre 1868 e 1869. Ambas as obras serão analisadas a seguir.
Em reconhecimento aos seus trabalhos, o imperador o condecorou como Cavaleiro da
Ordem da Rosa, assim como Victor Meirelles e Pedro Américo. Além disso, assumiu o posto
de pintor da Corte brasileira e, posteriormente o de Marine painter in ordinary, pela rainha
Vitória, na Inglaterra. Isso ocorreu a partir do reconhecimento de suas obras e da grande
amizade com o príncipe e a princesa de Gales. Essa ligação com a Corte inglesa lhe deu ainda
mais visibilidade internacional, sendo posteriormente patrocinado pelo kaiser Guilherme II,
da Alemanha; pelo tzar Nicolau II, da Rússia e outros líderes europeus 205. Faleceu em 1912,
na cidade de Londres, onde alcançou um enorme público e prestígio entre os monarcas da
época.
As três gravuras presentes na coleção, enviadas e desenhadas por Raffaello
Pontremoli, não apresentam qualidade técnica favorável, não fazendo jus ao que é
costumeiramente observado em suas pinturas. No entanto, deve-se levar em consideração
inúmeros aspectos que podem ter reduzido drasticamente a qualidade das litogravuras
originais. Um deles é o fato de que o gravurista que executou a tradução das imagens de
Pontremoli pode não ter uma destreza artística apurada ou teve de fazer as reproduções
apressadamente. O que se nota nas três imagens são composições rígidas, que contam com
uma parca noção de profundidade, de formas e até mesmo de estética. Esses detalhes serão
abordados de uma maneira mais bem detalhada a seguir.

205 TORAL, André. Imagens em desordem: a iconografia da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP, 2001, pp. 127-128.

148
4.1. Passagem do Curuzú

Imagem 48. MARTINO, Eduardo De. Passagem do Curuzú. Litografia baseada em óleo, desenho de R.
Pontremoli, Alf. Martinet litógrafo, 54,80 cm x 71 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

A Passagem do Curuzú (imagem 48) é um dos eventos iniciais na campanha de


ocupação da região de Curuzú, ocorrida entre os dias 1º e 3 de setembro de 1866. Esta
litografia, provavelmente está relacionada ao segundo dia, quando o 2º corpo do exército,
regido pelo visconde de Porto-Alegre faz a passagem rumo a terras paraguaias com a
esquadra comandada pelo almirante Tamandaré. Neste momento, os navios brasileiros
presentes eram os encouraçados Barroso, Lima Barros, Brasil e Biberibe, onde estava o
almirante Tamandaré.
O encouraçado Rio de Janeiro, que se encontra destruído na imagem, havia sido
atingido por minas submersas (chamadas de torpedos na época) na proa e na popa e
explodido. Isso ocorreu logo após o desembarque dos mais de 8000 soldados de Porto-Alegre,
sendo ela a única embarcação destruída no combate, atingindo cerca de 50 soldados. Metade

149
havia falecido por conta do naufrágio ou por disparos inimigos 206. Estavam presentes também
a corveta Mearim e o vapor Greenhalg. Outros navios estão retratados em segundo plano na
imagem, mas sem identificação.
Ao fundo, situa-se o forte de Curuzu207, com quem a esquadra brasileira trocara tiros
durante 4 horas. Na esquerda, os navios desembarcam alguns dos soldados pelas matas do
Chaco, com o objetivo de destruir a base de onde soldados inimigos disparavam brulotes e
despejavam no rio vários torpedos contra as embarcações. Porém, tal vegetação parece uma
nuvem de fumaça devido aos seus traços mal definidos.
Na posição central, dentro de uma das chatas que se dirigem ao olhar do espectador,
percebe-se um personagem de uniforme mais escuro que os demais soldados na embarcação,
algo que leva a entender que se trata de um personagem de patente mais alta. Provavelmente
este é o visconde de Porto-Alegre, personagem chave no evento, comandante do 2º corpo do
Exército. Embora seja destacado na legenda, o almirante Tamandaré não aparece, estando
apenas relatada sua presença no encouraçado Biberibe.
Os grafites abaixo (imagens 49 e 50), de mesmo título, mostram outras ideias de
concepção de De Martino para retratar a Passagem. Mesmo com as imagens em qualidade
relativamente ruim, é possível perceber a formação das navegações, fuligem e destroços,
sendo elas distintas da ideia da obra que compõe a coleção. Nos dois esboços, percebe-se a
posição distinta da faixa de terra, estando mais alinhada à direita. Esses grafites são
interessantes para se pensar acerca das possibilidades levantadas pelo pintor, buscando
ressaltar as embarcações e o sucesso da manobra.

206 DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia
das Letras, 2002, pp. 95-96.
207 O forte de Curuzu situava-se na margem leste do Rio Paraguai, estando equipado com três baterias de
canhão apontadas para o rio, uma trincheira com cerca de 900 metros de comprimento, além de um fosso na
parte frontal com dois metros de profundidade, por dois de altura e um parapeito de quatro metros abrigando
cerca de 2.500 soldados paraguaios. O forte foi construído com a finalidade de cobrir Humaitá, local onde se
encontrava o sistema defensivo de Solano López. GONÇALVES, Leandro José Clemente. Tática do exército
brasileiro na guerra do Paraguai entre 1866 e 1868. Dissertação (Mestrado em História – Universidade
Estadual Paulista, Franca, 2009, pp. 27-28.

150
Imagem 49. DE MARTINO, Eduardo. Passagem de Curuzu. Grafite e aguada de aquarela s/ Papel, 12,4 cm x
18,6 cm. Museu Naval. In: GOMES, Patricia Miquilini. A Coleção Eduardo de Martino no Museu Naval do
Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UNIRIO/MAST, 2018.

Imagem 50. DE MARTINO, Eduardo. Paszaggio de Curuzu. Grafite s/ papel, 11 cm x 17,6 cm. Museu Naval.
In: GOMES, Patricia Miquilini. A Coleção Eduardo de Martino no Museu Naval do Rio de Janeiro.
Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UNIRIO/MAST, 2018.

A narrativa executada por De Martino reproduzida nesta gravura parece remeter a um


período de calmaria entre os bombardeios, onde é possível ver alguns poucos destroços, bem

151
como o encouraçado Rio de Janeiro prestes a afundar, estando tombado. Não se notam
disparos ou quaisquer vestígios de fumaça que estes causam, estando apenas as chaminés dos
navios a criar algumas nuvens, preenchendo a cena no primeiro plano.
A litografia de João Chaves, divulgada pelo Supplemento da Semana Illustrada
(imagem 51) expõe a partir de uma visão panorâmica a disposição dos barcos no segundo dia.
Além disso, mostra várias embarcações paraguaias a pique, bem como o encouraçado Rio de
Janeiro, já citado acima. Nesta imagem, percebe-se melhor a topografia do local, situando e
detalhando os nomes das embarcações e posições nas margens. Todavia, há de se levar em
consideração que o autor não contava com uma escala precisa, sendo este mais um desenho
produzido com o intuito de ilustrar o evento, demonstrando aspectos importantes do conflito.
No caso, ele ainda apresenta na parte superior esquerda um breve texto, exaltando
personagens importantes na peleja e relatando o ocorrido com a canhoneira Ivahy, tendo
provavelmente um texto maior em anexo.

Imagem 51. CHAVES, João Adrião. Planta da parte do rio Paraguai em que se deu combate da canhoneira Ivaí
com a Fortaleza de Curuzu. C. 1866. Planta cartográfica litografada, 32 cm x 24,5 cm. In: Semana Illustrada.
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

152
Já em outra composição, feita também por Eduardo De Martino, o óleo Bombardeio
de Curuzú (imagem 52), traz uma perspectiva diferente dos três dias de peleja. Aqui, observa-
se, do ponto de vista paraguaio, reforçado pela bandeira içada na esquerda, o bombardeio feito
pela esquadra brasileira. A composição é dividida pela porção de água que enfatiza os dois
lados da batalha. Os navios brasileiros, com as bandeiras destacadas em tons de verde e
amarelo, seguem a todo vapor em direção à margem enquanto soldados paraguaios tentam
abatê-los, como é visível na explosão localizada no centro da pintura.
Na parte inferior esquerda, estão retratados alguns poucos mortos e feridos que
atestam um possível sucesso da investida brasileira. Aos paraguaios parece não restar muito a
fazer a não ser recuar e defender as fortificações, que foram parcialmente atingidas pelas
embarcações, estando envoltas de fumaça. Logo mais ao fundo, notam-se alguns edifícios,
mas sem denotar a presença de outros soldados. Como se sabe, De Martino buscava em suas
pinturas enfatizar os feitos da Marinha, sendo os navios seus principais personagens.

Imagem 52. MARTINO, Eduardo De. Bombardeio de Curuzú. Óleo s/ tela. Museu Histórico Nacional.

A imagem El Encorazado Rio de Janeiro echado á pique por un torpedo paraguayo,


frente a Curuzú, el 3 de setiembre de 1866 (imagem 53) enfatiza o encouraçado Rio de
Janeiro quase todo submerso, enquanto alguns de seus sobreviventes fogem a nado, sendo que
alguns ainda estão pulando da embarcação. Os navios seguem com o desembarque dos
soldados, como é observável por conta das várias chatas no rio. Na gravura, elas parecem

153
ainda sofrer com alguns disparos, que batem na água, como é visível no primeiro plano da
imagem e ao fundo.
O ponto principal da gravura é dirigido aos momentos de tensão vividos na
embarcação Rio de Janeiro estar prestes a afundar, embora ao fundo ainda seja possível
observar alguns dos outros aspectos bélicos também citados nas outras imagens. Outro
aspecto mais bem abordado aqui é a vegetação nativa nas margens, que contrastam com o
vazio do céu e a movimentação da esquadra abaixo. O artista utiliza-se das margens para
guiar o olhar do espectador das embarcações para o fundo da imagem, trazendo uma sensação
de movimento.

Imagem 53. FORTUNE, F. El Encorazado Rio de Janeiro echado á pique por un torpedo paraguayo, frente a
Curuzú, el 3 de setiembre de 1866.

Como dito anteriormente, sabe-se da importância dada por De Martino as


embarcações, sendo este um pintor de marinhas. No caso da passagem do Curuzú, também há
maior sentido em se retratar as embarcações, colocando os personagens que nela se encontram
como meros coadjuvantes, embora na litografia ainda tenha em detalhe um personagem no
primeiro plano que destoe dos demais, mas não se comparando a grandeza das embarcações.
Nas outras gravuras é possível perceber o uso dos mesmos artifícios, mudando apenas de
perspectiva e selecionando quais embarcações entrarão ou não na cena, algo difícil de se

154
identificar. Neste episódio anterior ao Assalto e ocupação de Curuzu (imagem 10), ambos
artistas buscam retratar os feitos da Marinha brasileira sob o comando do almirante
Tamandaré, que possibilitou o sucesso da tomada das fortificações do Curuzú e de eventos
posteriores como a tomada de Humaitá.

4.2. O reconhecimento de Humaitá

Imagem 54. MARTINO, Eduardo De. O reconhecimento de Humaitá. Litografia baseada em óleo, desenho de
R. Pontremoli, 54 cm x 74,5 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Com as tropas em terra, o exército brasileiro fazia o reconhecimento da pantanosa


região do Chaco, como se percebe na litografia acima, que retrata o Reconhecimento de
Humaitá (imagem 54). Tal manobra buscava surpreender as forças inimigas pela
retaguarda208. Este episódio antecede o cerco feito a região da cidade de Humaitá, posição
estratégica de extrema importância para a inteligência paraguaia. À direita da imagem

208 DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia
das Letras, 2002, p. 360.

155
percebemos a cavalaria retornando do reconhecimento da região, sendo um diferencial dos
brasileiros na guerra. O piquete era coordenado pelo visconde do Herval, o marechal Osório.
Junto dele, na posição central da gravura, estão o barão do Triumpho, e o coronel Castro.
Atrás deles estão os soldados de diversas divisões da infantaria brasileira. Ao fundo da
composição provavelmente encontra-se a cidade de Humaitá.
Nesta composição, tão diferente das costumeiras pinturas de marinha de De Martino,
percebe-se a ênfase dada aos personagens centrais, tal como é observado no gênero de pintura
histórica. Abandonam-se as embarcações e entra em cena o exército. A posição central dos
personagens, bem como o tratamento dado aos rostos desses e dos demais soldados que se
misturam aos montes, mostram o domínio de De Martino sobre os traços. A litografia
traduzida por Rafaello Pontremoli, seu patrício, pode ter sofrido ligeiras modificações, o que
era muito comum para valorizar certos aspectos na reprodução em papel.
A importância dada a vegetação mostra o domínio do artista, que preza pela
verossimilhança dos fatos narrados na parte escrita da coleção. Porém, assim como as outras
imagens, ela é apenas uma composição, buscando atender inicialmente os anseios do pintor,
não sendo um retrato fidedigno do reconhecimento. Isso é perceptível devido a ausência de
maiores detalhes sobre o episódio no próprio texto que acompanha a litografia.
A reprodução de autor desconhecido Reconhecimento de Humayta em 16 julho 1869
(imagem 55), também narra o reconhecimento, mas de uma perspectiva diferente, muito mais
gloriosa. Nela se percebe um momento completamente distinto da primeira, com os soldados
dando a entender um movimento de investida ante o inimigo, atravessando região alagadiça
dos arredores da cidade, assim como na primeira imagem. Encontram-se na parte inferior
esquerda e central alguns corpos estirados ao chão em meio a disparada vibrante da cavalaria
e da infantaria, dando a entender que já estavam pelejando contra o exército paraguaio. No
canto inferior direito, há um soldado brasileiro com a machadinha armada em posição de
ataque, algo que corrobora para a posição ofensiva do conflito.
No centro, embora sem identificação na ficha catalográfica ou em qualquer legenda,
provavelmente está o marechal Osório com a espada em riste em cima de seu alazão, prestes a
pular em uma área inundada. O olhar de boa parte dos personagens parece mirar diretamente
o espectador, mostrando os rostos bem definidos dos personagens, em meio aos quais também
provavelmente podem estar presentes o Barão do Triumpho e o coronel Castro.

156
Imagem 55. RECONHECIMENTO de Humayta em 16 julho 1869. Carte de visite, papel albuminado, p&b, 4,7
cm x 8,5 cm. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Em ambas as gravuras é possível distinguir a preocupação com os principais


personagens, que se encontram em privilegiada posição, centralizados e mais bem
desenhados, atraindo o olhar do espectador. Esse aspecto comum da pintura histórica não só
enfatiza os personagens, mas também os marca nos anais da história nacional, os colocando
como indivíduos a serem ressaltados, vistos como grandes heróis. O marechal (ou general,
patente obtida depois da guerra) Osório é um destes exemplos, tendo seu nome em diversas
ruas e avenidas do país, bem como em monumentos.

157
4.3. Ataque e tomada do Estabelecimiento

Imagem 56. DE MARTINO, Eduardo. Ataque e tomada do Estabelecimiento. Litografia baseada em óleo,
desenho de R. Pontremoli, 54 cm x 74,5 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

No Ataque e tomada do Estabelecimiento209 (imagem 56), a perspectiva do espectador


encontra-se no meio do conflito, em meio ao caos da infantaria e o desespero da fuga
paraguaia. Estão presentes a cavalaria e a infantaria, que perseguem o inimigo que recua
diante da superioridade brasileira no embate. O barão do Triumpho, personagem central,
encontra-se a pé, atirando à queima roupa em um oficial inimigo sem identificação na
legenda. A formação elíptica da obra formada pela perseguição aos inimigos, juntamente do
eixo vertical feito pelo olhar do soldado caído na parte inferior, dirigem o olhar do observador
a cena ocorrida no centro da composição.
Logo mais acima, há um soldado com o pavilhão brasileiro em mãos, fazendo gestos
que ordenam o avanço das tropas, que se encontram claramente em um momento privilegiado.

209 “Ao lado de Humaitá, a mata cobria uma posição fortificada denominada Estabelecimento, na margem da
lagoa Cierva, localizada pouco acima dessa fortaleza”. DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova
história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 315.

158
À esquerda, estão alguns membros da cavalaria, mas sem identificação, que observam o exato
momento do disparo a poucos metros de distância. Na parte direita da gravura, há um soldado
com o trompete, que também sinaliza para as tropas avançarem, sendo esta ferramenta muito
utilizada nas batalhas brasileiras na campanha do Paraguai. O fundo da gravura é tomado por
uma densa nuvem de fumaça onde o grande grupo de soldados gradativamente somem,
trazendo uma noção de profundidade interessante para a composição.
Foram também encontrados três esboços (imagens 57, 58 e 59), provavelmente sobre a
manobra, que colocam o Barão do Triunfo em diferentes cenários. Em todos pode-se perceber
a figura central atirando a queima-roupa em seu inimigo. Todavia, o fundo dos desenhos
distingue-se completamente do resultado final, parecendo a cena ser retratada dentro do forte,
algo perceptível pelas grossas paredes e suas trincheiras. Não há um relevo considerável
quanto na primeira, onde a impressão dada é de que os soldados partem em disparada para
subir a elevação, onde provavelmente se situava o Estabelecimiento.

Imagem 57. DE MARTINO, Eduardo. Barone del Triumfo. Bico de Pena a tinta ferrogálica e aguada de
ferrogálica s/ papel, 22,4 cm x 30,8 cm. Museu Naval. In: GOMES, Patricia Miquilini. A Coleção Eduardo de
Martino no Museu Naval do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UNIRIO/MAST, 2018.

159
Figura 58. DE MARTINO, Eduardo. Duas Cenas de batalhas. Bico de pena a tinta ferrogálica s/ papel, 26,0 cm
x 20,3 cm. Museu Naval. GOMES, Patricia Miquilini. A Coleção Eduardo de Martino no Museu Naval do
Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UNIRIO/MAST, 2018.

Imagem 59. DE MARTINO, Eduardo. Cavalei morti e brasiliani. Bico de pena a tinta ferrogálica e aquarela s/
papel, 20 cm x 28,5 cm. Museu Naval. In: GOMES, Patricia Miquilini. A Coleção Eduardo de Martino no
Museu Naval do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UNIRIO/MAST, 2018.

160
Em mais uma reprodução feita no jornal francês L’Illustration (imagem 60), baseado
em desenho do correspondente M. Paranhos, o Barão do Rio Branco, Janet-Lange e Cosson-
Smeeton afastam ainda mais a perspectiva, dando maiores proporções ao momento da tomada
da fortificação. Segundo José Bernardino Bormann, “centenas dos nossos bravos que neste
momento (...) atiram-se ao recinto, enovelam-se, matam à baioneta, à sabre e à coice d’arma
os artilheiros e infantes inimigos (...)”210. O relato condiz diretamente com as cenas das duas
litografias, embora não seja possível confirmar uma relação direta entre o texto e a execução
das imagens. No primeiro plano identifica-se o rastro de destruição acarretado pelo conflito,
estando estirados corpos de soldados e de um cavalo, além de alguns destroços.
À esquerda, um soldado aponta aos outros o caminho, provavelmente dando ordens
para que a infantaria siga atacando, como faz o outro pelotão perfilado ao centro. Na direita,
um soldado montando em um cavalo branco, o único da cena, que está à frente dos outros, faz
um movimento semelhante, ordenando o avanço da cavalaria. Ao fundo, na parte superior,
diferente da primeira composição, está parcialmente visível uma parte da muralha da
fortificação, com uma bandeira içada acima. É perceptível em cada pelotão destacado na
gravura o mesmo movimento, indo todos em direção ao forte. A fumaça demonstra a
resistência paraguaia ante o avanço brasileiro, mas sem grande sucesso, sendo a fortificação
logo depois tomada, apertando ainda mais o cerco contra a região da cidade de Humaitá.

210 BORMANN, José Bernardino. História da Guerra do Paraguay. Curitiba: Impressora Paranaense, 1897,
v. 2, p. 113.

161
Imagem 60. JANET-LANGE; COSSON-SMEETON. Prise d'assaut de la forteresse d'Estabelecimiento, le 19
février, 1867. Gravura baseada em esboço de M. Paranhos. In: L'illustration, Journal Universel, Volume 51,
Paris, 1868.

Em ambas composições são ressaltadas as ações da infantaria e da cavalaria brasileira.


Todavia, a primeira gravura tem um foco muito mais específico nos personagens do que a
segunda, que busca retratar os inúmeros soldados envolvidos no combate, dando uma maior
dimensão do conflito em um panorama mais geral, tratando de um contingente maior de
soldados. Dada a posição privilegiada da fortificação, em uma parte mais alta, é provável que
o exército tenha sofrido várias baixas nessa investida.

162
5. Combate naval do Riachuelo: questão de autoria

Imagem 61. AGOSTINI, Angelo. Combate naval do Riachuelo. 1871. Alf. Martinet litógrafo, 48,5 cm x 67,10
cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Como se sabe a partir da historiografia da arte, existem diversas reproduções artísticas


do combate naval do Riachuelo. As mais conhecidas são pintadas por Victor Meirelles e
Eduardo De Martino, dois artistas já trabalhados aqui. Porém, esta última gravura não conta
com nenhum registro sobre o óleo original, como é observado nas outras. A partir dos
anúncios feitos nos periódicos, sabe-se que o desenhista dela é Angelo Agostini, e isso
basicamente responde à questão da autoria, mas pesquisa não se furtará à apenas essa
informação. A questão que se busca levantar aqui é: é possível que tal litogravura seja
baseada em algumas das pinturas que retratam o mesmo episódio? O que há de semelhante ou
distinto? Para se entender o contexto, serão analisadas as obras de Victor Meirelles e Eduardo
De Martino, bem como outras gravuras acerca do evento, e os traços de outras representações
elaboradas por Agostini para que então seja possível levantar algumas respostas hipotéticas
para as questões feitas acima.

163
Iniciando a partir da pintura histórica mais conhecida, o Combate naval do Riachuelo,
de Victor Meirelles, esta investigação abordará sua história interessante envolvendo suas duas
versões. A primeira versão de sua pintura foi encomendada em 1868 pelo ministro da
Marinha, Afonso Celso Assis de Figueiredo211. No mesmo ano, Meirelles iniciava a
composição, finalizando-a em 1872, sendo exposta em alguns eventos no Brasil e,
posteriormente, na Exposição Universal da Filadélfia de 1876. Na última ocasião, por falta de
cuidados após a exibição, a tela acabou ficando extremamente danificada.
Segundo Donato Mello Júnior, o Combate naval do Riachuelo, juntamente d’A
primeira missa no Brasil e a Passagem do Humaitá foram enviadas para a Exposição
enroladas em cilindros de madeira. Após o período em que ficaram expostas ao público,
retornaram aos cilindros, permanecendo ao relento, configurando assim para a tinta e o tecido
um cenário completamente desfavorável, pois a umidade se proliferou e criou fungos. Para
piorar a situação, ficaram guardadas nesses cilindros até serem finalmente enviadas de volta
para o Brasil a bordo do vapor Donati. Chegariam na cidade do Rio de Janeiro em 19 de
janeiro de 1877. Ao longo da viagem as obras foram expostas às intempéries e, quando
chegaram ao solo, ficaram presas na Alfândega até o dia 14 de fevereiro. Retornaram para a
salvaguarda da Academia Imperial de Belas Artes apenas no dia 8 de março do mesmo ano.
No entanto, continuaram acondicionadas no mesmo suporte de madeira, que já havia sofrido
com inúmeras avarias no traslado. Os responsáveis erroneamente acreditavam que tais danos
estavam presentes apenas no lado externo do suporte, não retirando as telas para uma análise
mais apurada. Elas só seriam investigadas em dezembro do ano seguinte, quando foi atestada
a situação catastrófica de cada uma delas. Essa análise só aconteceu devido a Exposição Geral
de 1879, onde elas seriam expostas212. Porém, das três obras, só a Passagem de Humaitá e A
primeira missa no Brasil tiveram chances de ser restauradas, perdendo-se para sempre a
primeira versão do Combate naval do Riachuelo.

211 ARAÚJO, Aline Praxedes de. Há tantas formas de se ver o mesmo quadro: uma leitura de O Combate
Naval do Riachuelo de Victor Meirelles (1872/1883). 2015. 153 f. Dissertação (Mestrado em História) -
Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015, p. 42.
212 ROSA, Ângelo Proença; MELLO JÚNIOR, Donato; PEIXOTO, Elza Ramos. Victor Meirelles de Lima:
1832-1903. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982, pp. 73-74.

164
Imagem 62. MEIRELLES, Victor. Combate naval do Riachuelo. 1883. Óleo s/ tela, 420 cm x 800 cm. Museu
Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

A sua segunda versão (imagem 62), foi realizada em 1883, em Paris, e exposta até os
dias atuais no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro213, tendo uma excelente recepção.
No período, essa versão receberia uma série de críticas positivas, tanto de críticos nacionais
quanto internacionais. No Brasil, nomes como Félix Ferreira, Gerôme, Santana Néri e
Guillaume, sendo este último professor do Colégio de França, fizeram inúmeras referências
ao êxito na pintura de Meirelles214. Todavia, a obra também sofreria críticas, como num
trecho trazido por Mello Júnior da Revista Illustrada, em que se criticava o fato de a obra não
ser tão distinta da primeira, passando “completamente desapercebida no Salon de Paris”,
servindo como prova da “incapacidade artística de seu autor em composições dessa
ordem”215. Os exageros nas opiniões eram costumeiramente veiculados nos jornais do
período, sobretudo por representarem um pequeno grupo de pessoas, sendo muitas vezes estas
críticas de cunho excessivo.
Já fora do país, logo após ser exposta no Salon de 1883216, ela rendeu ao artista um
jantar comemorativo organizado por vários críticos de arte e jornalistas para celebrar o feito,

213 ARAÚJO, Aline Praxedes de. Há tantas formas de se ver o mesmo quadro: uma leitura de O Combate
Naval do Riachuelo de Victor Meirelles (1872/1883). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade
Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015, p. 1.
214 RUBENS, Carlos. Victor Meirelles: sua vida e sua obra. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945, pp. 60-
61.
215 ROSA, Ângelo Proença; MELLO JÚNIOR, Donato; PEIXOTO, Elza Ramos. Victor Meirelles de Lima:
1832-1903. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982, p. 78.
216 Ibid, p. 103.

165
no dia 19 de maio de 1883, nos salões do restaurante Brebant217. Diversas críticas positivas
circularam nos jornais franceses do período. Carlos Rubens destaca algumas:

No Patriote Franc-Comtois, A. de Sancy dizia: “Um grande combate naval de


Meireles, episódio da guerra do Brasil, merecia uma medalha; obra concienciosa e
estudada, muitas minudências e interesse”. Le Moniteur de l’Armée elogiava o
movimento, o desenho e o colorido do quadro; Le Courrier International salientava
ser Vítor Meireles o único representante da pintura histórica no Salon e que
“levantou a arte brasileira ao nível de altitude da arte da Europa, trabalhando assim
mais para o seu país do que para a glória própria”; também The Continental Gazzete
elogiava o Combate, enquanto havia quem igualmente escrevesse: “Seu trabalho, no
entanto, foi um dos que atraíram a atenção, um dos poucos citados nas críticas
rápidas das gazetas de Paris”218.

A litografia presente na coleção (imagem 61) encontra-se em um formato


completamente distinto do que foi elaborado por Victor Meirelles, como é possível analisar na
imagem 3, estando a narrativa e a própria perspectiva da gravura completamente divergentes.
Percebe-se facilmente as alterações da obra original ao se observar os primeiros
planos, sendo estes completamente distintos. Na litogravura, estão presentes na parte inferior
esquerda uma série de soldados paraguaios atônitos, um deles leva a mão à cabeça em claro
sinal de desespero, observando o naufrágio de uma de suas embarcações aliadas, lembrando
uma imagem feita posteriormente pelo próprio Agostini (imagem 63). A litogravura parece
não desejar utilizar o mesmo recurso da pintura para relatar o momento de glória, optando por
uma formação caótica.

217 Ibid, pp. 61-62.


218 Ibid, p. 62.

166
Imagens 63 e 64. AGOSTINI, Angelo. De volta do Paraguai. Vida Fluminense, nº 12, junho, 1870, e detalhe de
AGOSTINI, Angelo. Combate naval do Riachuelo. 1871. Alf. Martinet litógrafo, 48,5 cm x 67,10 cm (aprox.).
Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Ao se comparar com o óleo de Victor Meirelles, onde o almirante Barroso encontra-se


a bordo da fragata Amazonas, saudando os outros soldados com seu quepe erguido,
enfatizando o discurso do vencedor, característica clássica da pintura histórica. Na
litogravura, é possível perceber ao fundo da fragata apenas alguns soldados com os braços
para cima, em um potencial gesto de comemoração.

Imagens 65 e 66. Detalhe de AGOSTINI, Angelo. Combate naval do Riachuelo. 1871. Alf. Martinet litógrafo,
48,5 cm x 67,10 cm (aprox.). Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro e detalhe de AGOSTINI, Angelo.
Combate naval do Riachuelo. 1871. Alf. Martinet litógrafo, 48,5 cm x 67,10 cm (aprox.). Museu Histórico
Nacional, Rio de Janeiro.

167
Outra distinção entre as imagens se refere na disposição espacial dos inimigos. Na
litografia, poucos corpos surgem, estando presentes no rio alguns homens nadando em direção
a margem, sendo resgatados por seus compatriotas. Já em terra, há um corpo estirado no chão
e outro sendo carregado para fora da composição pelos soldados. Na pintura, ocorre
justamente o contrário: Victor Meirelles busca enfatizar alguns aspectos mais cruéis da
guerra, contradizendo a crítica de Toral, uma vez que podem ser encontrados vários corpos
estirados e soldados em desespero, usando suas armas para atirar na fragata e seus tripulantes.
Há também uma figura em específico que merece atenção no óleo: o marinheiro
mulato localizado ao centro da obra. Presente em um eixo diagonal que guia o olhar do
espectador do primeiro plano do navio destruído à saudação dos marinheiros, está este
personagem que se põe à frente de um tiro desferido à fragata, tornando-se um mártir, dando
sua vida pelo seu país e pelos irmãos de guerra. Sua posição de altivez divide a atenção da
obra, sobretudo pelo ato heroico que antecede o tiro à queima roupa.
Os corpos do primeiro plano no óleo, distintos do que é observável na litografia
trazem a barbárie, semelhante à obra de Antoine-Jean Gros (imagem 67), onde ambos optam
por retratar no primeiro plano das composições os corpos, consequências da guerra,
mostrando o desespero e a morte nos conflitos, sendo impactantes aos olhos do espectador ao
eternizar os horrores da guerra.

168
Imagem 67. GROS, Antoine-Jean. Napoleon on the Battlefield of Eylau. 1807. Óleo s/ tela, 104,9 cm x 145,1
cm. Toledo Museum of Art, Toledo.

Os óleos elaborados por Eduardo De Martino (imagens 68 e 69) aproximam-se muito


mais da litografia analisada. A sensação da batalha ocorrer em um rio e não em mar aberto
fica muito mais evidente, aspecto muito distinto da pintura de Meirelles. A presença do
barranco na margem à esquerda e até mesmo a formação de terra são muito mais aproximadas
do que a gravura da coleção representa. Como será visto adiante, De Martino geralmente
buscava enfatizar as embarcações, sendo estas as personagens principais de suas composições.
Todavia, ele também não ignora o gestual comemorativo dos tripulantes da fragata, mesmo
não os enfatizando como bem fez Meirelles. As pinturas de marinha, diferenciam-se da
pintura histórica, gênero proposto por Victor Meirelles, que coloca o protagonismo em figuras
como o soldado mulato ou o gesto do almirante. Ainda na composição do pintor italiano, é
possível perceber alguns respingos de explosões e corpos se arrastando para fora do mar,
aparentando uma possível retirada.
A representação da imagem 69 parece ser uma versão aprimorada da imagem 68, onde
o pintor define melhor o traçado da narrativa e acrescenta alguns soldados atordoados,
aumentando o tom dramático do conflito. O céu está menos encoberto, possivelmente com o

169
intuito de valorizar a iluminação da composição. Alguns aspectos seguem semelhantes, como
a margem presente à esquerda de ambas obras, a disposição das embarcações principais e a
fumaça advinda dos disparos e das chaminés.

Imagem 68. MARTINO, Eduardo De. Batalha naval do Riachuelo. 1870. Óleo s/ tela. Museu Histórico
Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 69. MARTINO, Eduardo De. Batalha Naval do Riachuelo, 1875.

Como dito anteriormente, muitas das produções litográficas veiculadas pela imprensa
foram quase que contemporâneas aos fatos. Isso era possível por uma série de razões que iam

170
desde os relatos e cartas dos soldados e correspondentes presentes na frente de batalha até os
desenhos elaborados por alguns deles, que por vezes eram enviados diretamente aos jornais.
Estes por sua vez pediam constantemente essas informações aos seus leitores, tendo
considerável êxito, como será explicitado a seguir.
Há duas gravuras sobre o combate do Riachuelo (imagens 70 e 71), feitas a partir de
desenhos esboçados por Antônio Luís von Hoonholtz, o Barão de Tefé, primeiro-tenente e
comandante da canhoneira Araguari. Presente no conflito do Riachuelo e em outros, foi
responsável pela produção de mapas e desenhos que ilustram a guerra, sendo veiculados
contemporaneamente aos eventos. Suas composições são mais simplórias e limitadas, mas
serviam para ilustrar as notícias cotidianas sobre o combate, algo muito comum na imprensa.
A partir dessas reproduções, as imagens tomavam um espaço ainda maior no cotidiano do
século XIX, informando e ilustrando aos leitores os movimentos e fatos ocorridos no teatro de
guerra.
Com grau informativo, essas duas litogravuras mostram as embarcações envolvidas no
combate, constando abaixo da primeira (imagem 70) números que são explicados na legenda
colocada abaixo do desenho. Na segunda gravura (imagem 71), o desenhista busca mostrar o
momento em que a artilharia do Riachuelo dispara contra a esquadra brasileira, enquanto
enfatiza sua embarcação em meio as outras. Diferentemente da imagem anterior, a legenda
não contem números, mas situa-se na direção dos respectivos pontos e embarcações
assinaladas. Os respingos no rio provavelmente remetem aos tiros da artilharia que não
obtiveram sucesso e caíram n’água. O incêndio e possível naufrágio do vapor inimigo
Paraguary também é citado na legenda abaixo.

171
Imagem 70. VON HOONHOLTZ, Antônio Luís (Barão de Tefé). Batalha naval de Riachuelo no dia 11 de
junho de 1865. C. 1865. Litografia baseada em desenho. Publicada pelo Imperial Instituto Artístico. Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro.

Imagem 71. VON HOONHOLTZ, Antônio Luís (Barão de Tefé). Scena do Combate Naval de Riachuelo no dia
14 de junho de 1865. C. 1865. Litografia baseada em desenho, 28 cm x 45 cm. Catálogo da Exposição de
História do Brasil In: Supplemento da Semana Illustrada. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

172
Já a Bataille navale de Riachuelo, dans les eaux du Parana. Entre les escadres
Brésilienne et Paraguéenne (imagem 72), circulada no periódico francês L’Illustration traz
uma reprodução de Cosson-Smeeton e Lebreton baseada em desenho feito pelo francês Félix
Vogeli. Ele ficou em missão no Brasil entre 1856 a 1870, provavelmente enviando
informações como esta para a redação do jornal, já que era envolvido no meio da imprensa,
participando da fundação de um dos primeiros jornais republicanos de Isera219.

Na reprodução, observa-se as navegações atracando-se, priorizando o momento do


combate naval, onde não se enfatiza a presença humana, mas as embarcações e toda a
movimentação. Ao fundo, percebe-se uma das margens do rio Paraná, que perpassa toda a
composição, provavelmente, mais além, está sendo retratado o acampamento paraguaio de
Santa Catalina, observável na legenda da segunda cena (imagem 71) da imagem de
Hoonholtz.

Imagem 72. COSSON-SMEETON & LEBRETON. Bataille navale de Riachuelo, dans les eaux du Parana.
Entre les escadres Brésilienne et Paraguéenne (11 juin), 1865. Gravura baseada em desenho enviado pelo Sr.
Félix Vogeli. In: L'illustration, Tomo XLVI, Paris, 1865.

Ao se comparar a produção iconográfica do combate naval do Riachuelo, é possível


concluir que a ideia executada por Angelo Agostini em sua litogravura assemelha-se muito
mais com a pintura de Eduardo De Martino, feita em 1870 (imagem 68). Já a criação de 1875
(imagem 69), feita posteriormente pelo pintor italiano, parece ser uma releitura que parece

219 JOLLY, Jean. Félix Vogeli. Biographie extraite du dictionnaire des parlementaires français de 1889 à
1940. Disponível em: http://www2.assemblee-nationale.fr/sycomore/fiche/%28num_dept%29/7437. Acessado
dia 29/04/2018.

173
considerar as ideias de Agostini, levando a crer que tais composições possivelmente tenham
se influenciado, sendo a obra de De Martino a mais bem-sucedida nessa permuta de ideias.
Portanto, não seria nenhum exagero levantar a hipótese de um diálogo entre os dois artistas
italianos, que muito provavelmente se valeram de algumas destas gravuras aqui apresentadas,
croquis, retratos e relatos divulgados simultaneamente pela corte ao longo da guerra e após
ela.
Eduardo De Martino habitualmente já compunha suas cenas dando ênfase aos vapores,
como é possível perceber em suas produções voltadas para a as passagens da marinha. E a
imprensa também parece seguir por esse mesmo viés, uma vez que as embarcações se tornam
as principais personagens do conflito, sendo os seus tripulantes citados nos textos anexados,
como no caso da litografia aqui estudada, em que a imagem é acompanhada de uma detalhada
tabela e de uma narrativa. Essa escolha provavelmente visa enfatizar não só a Marinha
brasileira no conflito, mas o fato de haver combates decisivos e a vital importância delas para
o sucesso da Tríplice Aliança na guerra.

Aqui é necessário começar em outra página.


Conclusão
obra
Desvendar uma fonte e seus objetivos de forma plena é quase que uma tarefa
impossível. Todavia, a partir do métier do historiador, torna-se viável a compreensão de
no qual?
diversas questões sobre a sua produção e, mais do que isso, do período em qual ela foi
inserida. No caso de uma produção como os Quadros historicos da guerra do Paraguay,
projeto que se mostrou , a partir da imprensa da época , como uma empreitada repleta de
personalidades e artistas importantes, tem-se as fontes primárias como possibilidade de
informações. Graças aos periódicos dos últimos 30 anos do século XIX e, claramente, aos
esforços das instituições que os disponibilizaram até a contemporaneidade, foi possível
mapear questões cruciais para se compreender os objetivos nesta produção e outros aspectos
técnicos.
Compreender o projeto editorial foi possível graças a esse processo de busca por meio
dos jornais da época, presentes digitalmente na Hemeroteca Digital. Por meio de palavras-
chave, foram encontradas diversas notícias sobre a produção. Em duas notícias específicas,
notou-se o objetivo dos editores Augusto de Castro e Antônio Pedro Marques de Almeida em
ressaltar as “heroicas e brilhantes” ações dos brasileiros na campanha contra o Paraguai, tendo

174
como fim transmiti-las à posteridade. Mesmo com a coleção sendo ainda um objeto
desconhecido (ou parcialmente utilizado, enfatizando-se aqui as imagens em avulso), é
possível dizer que a empreitada de Castro e Almeida foi muito bem-sucedida, sobretudo por
suas imagens e textos terem sobrevivido por quase 150 anos, tornando-se objeto desta
pesquisa e, mais do que isso, uma importante fonte histórica do conflito.
Mesmo não tendo sido cumpridos os 24 quadros citados pelos editores no Jornal da
Tarde, do dia 8 de fevereiro de 1871, algo que pode até ser considerado comum para aquele
momento, onde o mercado editorial se consolidava no Brasil, dependendo de encomendas e,
obviamente, do capital financeiro de seus clientes, atendeu em suas imagens e textos aquilo
que almejava, reunindo intelectuais e artistas em torno de um único objetivo: ressaltar a
grandeza da “civilização” brasileira.
Outro aspecto que foi levantado ao longo das buscas foi sobre a circulação desse
material, mapeando até onde ele teria ido e como havia sido distribuído. Como se destacou na
primeira parte, a coleção foi feita em fascículos, que deveriam ser vendidos mensalmente,
pelo valor de 50$ cada, a ser pago 20$ ao entrar no prelo e mais 30$. Não se pode precisar se,
de fato, os fascículos foram feitos ou não mensalmente. Hipoteticamente, eles perderam a
periodicidade a partir do terceiro ou quarto número. Houve também, em um primeiro
Não é
momento, a obrigatoriedade da encomenda, sendo vedada a entrega apenas aos clientes que a ao
efetivassem. Isso parece não ter se concretizado, sobretudo pela latente necessidade financeira contrári
o?
que tais empreendimentos requeriam, tendo gastos com, por exemplo, mão de obra e
materiais.
Posteriormente, ao final da produção de todos eles, possivelmente foram criadas duas
versões em álbum: uma, com as nove litogravuras e textos e outra, possivelmente do final da
década de 1870, com apenas oito gravuras e nove textos, a contar a Introdução, onde não
estava presente o Combate Naval do Riachuelo. Isso possivelmente ocorreu pelo fato de a
pedra litográfica já ter sido desmanchada, algo corriqueiro na imprensa daquele momento.
Os fascículos e álbuns da coleção circularam consideravelmente. Tanto dentro do
Você
Brasil, indo a distantes localidades, como Belém, ilustram os esforços dos editores e, mais do repete
que isso, do Império, por meio de seus Ministérios, em divulgar as imagens. Como foi muito
essa
mostrado na segunda tabela, o governo brasileiro havia investido um grande montante na express
ão
compra desses fascículos, que eram dados como prêmios ou como forma de propagar os feitos
na guerra para locais distantes. Além disso, tais imagens e textos circularam para legações

175
além-mar como, por exemplo, Grã-Bretanha, Rússia e Áustria, bem como países da América
Latina. A isso, atribui-se o desejo de mostrar ao mundo uma vitória da civilização brasileira
contra a barbárie paraguaia, algo facilmente notado nas imagens e textos. explicitar
à
Em paralelo a produção nacional, foi possível também perceber que tais informações
também circulavam internacionalmente, contando com produções em periódicos europeus
como o L’Illustration, que recebia de seus correspondentes situados no sul do continente
esboços e textos relatando fatos da guerra. Um deles era o patrono da diplomacia brasileira,
José Maria da Silva Paranhos, o barão do Rio Branco, que também esteve envolvido em
questões diplomáticas antes, durante e após o conflito.
A partir de variadas fontes, foi possível também mapear mais informações sobre boa
parte dos desenhistas e litógrafos, bem como dos escritores. Essas informações são
importantes, sobretudo ao levantar outras produções em que cada um deles esteve envolvido
naquele momento, onde a imprensa ilustrada era cada vez mais difundida na Corte, enchendo
os jornais e as vitrines das ruas do Rio. Figuras conhecidas como os estrangeiros Angelo
Agostini, Martinet e Pontremoli, mostram como artistas internacionais circulavam pela Corte.
A produção escrita, bem como os intelectuais que dela fizeram parte, foram também
brevemente biografados aqui, buscando, quando possível descobrir um pouco mais sobre suas
vidas e projetos através do Diccionario Bibliographico Brazileiro, de Sacramento Blake,
disponível virtualmente na Biblioteca do Senado Federal. Ao compreender suas respectivas
formações e obras, é possível afirmar a ligação deles com uma elite letrada bastante ativa nos
periódicos e publicações do século XIX. Em casos específicos, como o de Francisco José
Pinheiro da Silva Guimarães, médico e coronel, o único dos intelectuais que participou
ativamente da guerra, é possível perceber um laço muito maior com o conflito. Diz-se que o
personagem havia falecido a 5 de outubro de 1877, na Corte, justamente por conta de vários
ferimentos, enfatizando no Diccionario o ocorrido na batalha de 24 de maio de 1866, a
primeira batalha de Tuiuti, tida como a mais sangrenta da guerra. Todavia, sua produção,
a
assim como a dos outros integrantes, era variada, indo desde a romances, críticas, publicados
em jornais ou em outras produções.
Na segunda parte, voltada aos pintores e imagens, foram levantadas as biografias de
Victor Meirelles, Pedro Américo e Eduardo De Martino, pintores que tiveram suas obras
traduzidas pelas mãos de outros artistas e colocadas na coleção. Ao analisar suas trajetórias,
foi possível perceber como cada um sofreu influências bastante específicas que culminaram

176
nos diferentes estilos de pintura e formas de narrativa. Percebe-se também a presença de tais
nomes muito ligados à produção de pintura fomentada pelo Império ou seus órgãos, sendo
todos muito próximos de D. Pedro II. Talvez o que mais destoe dentre os três é De Martino. O
italiano teve uma produção particularmente mais voltada para o mercado, como é percebido
através de suas biografias.
Já Victor Meirelles e Pedro Américo, pintores brasileiros e professores da Academia Pedro
Imperial de Belas Artes, tiveram uma formação marcada pelos prêmios de viagem, que os Américo
não
possibilitaram não só estudar, mas também conviver com grandes nomes das artes na Europa. ganhou
prêmio
Ambos tiveram reconhecimento internacional e, embora muito se fale, não eram
de
necessariamente rivais, embora a imprensa fomentasse uma rivalidade entre seus estilos e viagem
obras. Suas trajetórias são perceptíveis nas suas escolhas: o primeiro, teve maior ênfase em
pinturas históricas baseadas em conflitos da Marinha, tendo obras encomendadas pela arma.
Já o segundo, que iniciou sua produção sobre a guerra por conta própria, focando-se na lacuna
das produções sobre o Exército, conseguiu vender boa parte de suas pinturas e,
posteriormente, recebeu encomendas oficiais.
Ao analisar iconograficamente gravura por gravura, foi criada toda uma metologia que
culminou em interessantes informações. A partir disso, foi possível comparar as produções
sobre o conflito e seus diferentes suportes e meios de produção. Buscou-se comparar pinturas,
fotografias, esboços, litogravuras, xilogravuras e todo tipo de produção. Em paralelo, para
buscar contextualizar o que se ocorria em cada uma das imagens, foram utilizadas fontes
primárias e secundárias, que elucidavam questões como o nome de algumas localizações,
embarcações e personagens. Há também de se levar em consideração o interessante corpus
documental que se formou em torno das nove imagens.
Distinguindo-se de todos, o caso do Combate Naval do Riachuelo teve uma análise
especial, levantando a questão de sua autoria. Com obras de mesmo nome feitas por Victor
Meirelles e Eduardo De Martino, além de gravuras elaboradas para diversos suportes por
diferentes artistas, ousou-se a compreender de quem seria aquela gravura. A conclusão final é
que, de fato, a imagem foi feita por Angelo Agostini. Sabe-se através dos anúncios que, de
fato, a produção é atribuída a ele. Porém, como um exercício de comparação, buscou-se
levantar possibilidades de comparação com as congêneres, percebendo diversas semelhanças
com as duas obras de De Martino.

177
Não menos importante, a segunda parte tentou traçar paralelos entre a transposição de
pinturas para as gravuras, baseando-se no exemplo francês que, como se sabe, é diretamente
à
relacionado a formação da Academia Imperial de Belas Artes, por meio da Missão Artística
Francesa. Com base em artigo de Stéphane Paccoud, intitulado “L’Empereur m’a beacoup
parlé de Delaroche, il a toute ses gravures” Succès et diffusion du “genre historique” en
Europe, foi possível entender como tal fenômeno se dava não só na França, mas em outros
locais da Europa. E, ao se analisar semelhanças e diferenças com a produção brasileira, foi
possível levantar hipóteses de como essa transposição foi pensada no Brasil, mesmo que com
uma série de lacunas.
É possível concluir que a dissertação conseguiu responder ou, pelo menos, levantar Refa
zer
hipóteses sobre os Quadros historicos da guerra do Paraguay. Mais do que isso, deve-se
considerar todo o corpus documental trazido por ela, abrindo precedentes para novas e
distintas pesquisas. Dos periódicos aos textos e imagens que se encontram no corpo da
dissertação, existem inúmeras possibilidades de análise. Os textos, por exemplo, brevemente
discutidos, podem abrir inúmeras chaves de interpretação e possibilidades para pesquisadores
em geral. O apêndice, criado especificamente para guiar os leitores que desconhecem maiores
detalhes da guerra, também pode ser utilizado como norte para se compreender de forma
básica questões como os motivos que levaram a guerra a acontecer, ataques, batalhas e até
mesmo o conturbado período após o conflito.

178
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188
Apêndice A – Ordem cronológica da guerra da Tríplice Aliança

O período pré-guerra

1863

Abril – O general Venâncio Flores e os colorados invadem o Uruguai, pelo território


Argentino, apoiados por Mitre e pelos liberais dos brasileiros do Rio Grande do Sul.

Julho – Missão uruguaia na capital paraguaia, Assunção, buscando uma aliança contra a
Argentina e o Brasil. López hesita.

Setembro/novembro – O Paraguai adverte que a independência uruguaia é condição para o


equilíbrio das forças na região do Rio da Prata.

1864

Janeiro – Novo governo liberal-progressista no Brasil, com Zacarias Góis e Vasconcelos


(substituído em 31 de agosto por Francisco José Furtado, outro liberal, que se manteve no
poder até maio de 1865).

Fevereiro – Mobilização geral no Paraguai.

Março – Berro renuncia, transferindo o Poder Executivo no Uruguai para Atanásio Aguirre,
presidente do Senado.

Maio – José Antônio Saraiva chega a Montevidéu como chefe da missão diplomática
brasileira (seguido pelo vice-almirante Tamandaré e pela esquadra brasileira)

18 de junho – Os enviados em missão do Brasil, Argentina e Inglaterra se reúnem para a


mediação do fim da guerra civil no Uruguai, estando presente representantes tanto do governo
oficial, de Atanásio Aguirre, quanto do chefe da rebelião, Venâncio Flores. Nenhum acordo é
firmado e a guerra civil prossegue.

Junho/julho – Fracasso das representações de Saraiva, do chanceler argentino Rufino Elizalde


e do ministro britânico em Buenos Aires Edward Thornton, junto ao governo uruguaio.

Agosto – Governo brasileiro ameaça intervir o Uruguai com forças militares caso o governo
não tome medidas contra os responsáveis pela violência contra a população brasileira

189
residente no país. Em nota enviada a diplomatas brasileiros, governo do Paraguai protesta
contra qualquer invasão do território do Uruguai.

4 de agosto – Ultimato brasileiro aos uruguaios: cumprimento das exigências ou retaliação.

30 de agosto – Ultimato paraguaio ao Brasil, advertindo contra a intervenção no Uruguai.


Uruguai rompe relações com o Brasil.

16 de outubro – Tropas brasileiras invadem o Uruguai para apoiar Flores, e a marinha


brasileira bloqueia Montevidéu. Para os paraguaios, o casus-belli.

Início da Guerra

1864

12 de novembro – O Paraguai precipita a Guerra, apreendendo o vapor mercante brasileiro


Marquês de Olinda – que trazia a bordo o presidente do Mato Grosso –, que zarpara de
Assunção em direção a Corumbá.

Novembro – Rompem-se as relações diplomáticas entre o império brasileiro e a república


paraguaia.

13 de dezembro – O Paraguai declara formalmente guerra ao Brasil e dá início à invasão do


Mato Grosso.

27 e 28 de dezembro – Invasão paraguaia ao Forte de Coimbra, no Mato Grosso.

1865

2 de janeiro – Segue a invasão paraguaia para Nioaque, no Mato Grosso.

4 de janeiro – Invasão de Corumbá, Mato Grosso.

7 de janeiro– Com o decreto nº 3.371, do Império do Brasil, criam-se os Corpos de


Voluntários da Pátria. Como um contraponto, foram prometidas várias recompensas para
quem se voluntariasse à luta.

12 de janeiro – Os paraguaios ocupam Miranda, também no Mato Grosso.

190
Janeiro – A Argentina recusa o pedido de permissão paraguaio para atravessar o território
disputado das Missões, de maneira a atacar o Rio Grande do Sul e dar apoio aos blancos no
Uruguai.

21 de janeiro – Decreto nº 3.383, feito pelo Império brasileiro convoca a Guarda Nacional
para se juntar ao Exército. Ela era composta por cerca de 440 mil homens. Todavia, pouco
mais de 40 mil participaram do conflito. Na época, ser alistado na Guarda tinha função de
mostrar status social.

Fevereiro – Queda de Montevidéu, com a vitória colorada na guerra civil uruguaia.

20 de fevereiro – Acordo de paz em na Villa de la Unión. Flores, antes presidente entre 1854
e 1855, é novamente nomeado presidente provisório do Uruguai, aguardando uma eleição
(que não aconteceria). Seu governo durou entre fevereiro de 1865 a fevereiro de 1868.

18 de março – O Paraguai declara guerra à Argentina e dá início à invasão, pela província de


Corrientes.

1º de maio – É firmado o Tratado da Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e


Uruguai contra o Paraguai. Os objetivos levantados pela Tríplice são: o fim da ditadura de
López; livre navegação no sistema fluvial; anexação do território reivindicado pelo Brasil, no
nordeste do Paraguai, e pela Argentina, no leste e oeste do Paraguai (uma cláusula secreta).

Maio/junho – O exército paraguaio, sob o comando do coronel Antonio de la Cruz


Estigarribia, invade Corriente e cruza Missões e tomando São Borja e Itaqui, no Rio Grande
do Sul. A ordem de López era de que Estigarribia seguisse até Alegrete, sendo ela
desrespeitada.

11 de junho – Batalha do Riachuelo: A marinha paraguaia investe contra a brasileira, às


margens do Arroio Riachuelo, uma afluente do rio Paraguai, na província argentina de
Corrientes, mas é vencida e destruída em uma vitória decisiva para os aliados. Em meio aos
tiros de canhoneiras estrategicamente posicionadas em chatas, os navios brasileiros são
duramente atingidos. Na batalha, o almirante Tamandaré, surpreendido pelo ataque inimigo,
ousa na estratégia. Ele usa a embarcação Amazonas como aríete, já que contava com rígido
casco couraçado, batendo na estrutura do Jejuí e de uma chata. Neste momento, o navio
Parnaíba, que encontrava-se ocupado por paraguaios, iça novamente a bandeira brasileira.
Novamente, a Amazonas faz o movimento, dessa vez contra o Salto e contra o também

191
ocupado Marques de Olinda, tendo sucesso em ambos os casos. O Paraguai é bloqueado, mas
o avanço aliado ao longo do rio Paraguai é detido pela artilharia da linha de Curupaiti e
principalmente pela fortaleza fluvial de Humaitá. Contudo, a região dos rios da bacia platina
até a fronteira paraguaia é de controle dos aliados, garantindo a logística às forças de terra e
impedindo qualquer ajuda ou movimentação de López na região.

10 a 19 de junho – Batalha de São Borja. Mesmo com a derrota na Batalha de Riachuelo, os


paraguaios seguiram seu avanço com o coronel Antonio de la Cruz Estigarribia pelo Rio
Grande do Sul, atravessando o rio Paraná com algumas chatas cerca de 6 mil homens. Os
paraguaios encontraram o 1º corpo de Voluntários da Pátria que, em número muito reduzido,
cerca de 650, seguraram por dois dias a ofensiva inimiga para que a cidade fosse evacuada.
Logo depois, no dia 12, os paraguaios a saqueariam por uma semana, seguindo no dia 19 para
Uruguaiana.

26 de junho – Combate do Butuí, no riacho de mesmo nome, também conhecido por M’Butuí,
entre São Borja e Itaqui. Segue-se o avanço de Estigarribia, que ruma para Uruguaiana,
mesmo encontrando destacamentos brasileiros no caminho que o atrasassem. Todavia no dia
26, cerca de 500 paraguaios comandados pelo major José Lopez e 2 mil brasileiros liderados
pelo coronel Fernandes Lima, se engajam em escaramuças, tendo os inimigos 236 baixas e os
brasileiros 115. Os paraguaios sobreviventes se retiraram, retornando para a posição de
Estigarribia.

16 de julho – Inicia-se o cerco de Uruguaiana pelas tropas paraguaias.

5 de agosto – Tropas paraguaias tomam a cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

Agosto – Bartolomé Mitre torna-se comandante das forças aliadas.

11 de agosto – Batalha de Paso de Mercedes, em Bella Vista, na província de Corrientes,


Argentina. O conflito ocorreu em Bella Vista e à oeste de Mercedes, no rio Paraná. O conflito
é ligado ao final da Batalha do Riachuelo, onde o comandante paraguaio José María brugez
muda seus homens e as baterias do major Aquino para Punta Mercedes, aproximadamente a
24 quilômetros ao norte de Corrientes, até o quilômetro 1157 do rio Paraná. Ele tinha como
objetivo cortar o abastecimento aliado, colocando as baterias no alto de penhascos, disparando
contra as embarcações inimigas. A frota brasileira consistia nos vapores Amazonas (navio-
bandeira) e Apa; nas canhoneiras Beberibe, Ipiranga, Mearim, Araguary, Ivahy e Iguatemy; as

192
corvetas Belmonte, Parnaíba, Magé e o Itajaí. Estavam sendo lideradas pelo almirante
Barroso, que fez a passagem com sucesso, continuando por quase 10 quilômetros, parando
apenas à noite.

12 de agosto – Batalha de Paso de Cuevas, sequência do ocorrido na Batalha de Paso de


Mercedes, durante a invasão paraguaia a Corrientes. Nela, Bruguez segue para Punta Cuevas,
25 quilômetros de Bella Vista, repetindo a sua ação anterior, também sem sucesso.

17 de agosto – Acontece a Batalha de Jataí, perto de Paso de los Libres, na região de


Corrientes, Argentina. O conflito ficaria marcado como a primeira maior batalha em território
paraguaio. A vitória aliada neste conflito foi marcada pelo aprisionamento de soldados
uruguaios ligados ao Partido Blanco, executados por Flores como traidores da nação uruguaia.

14 de setembro – Estigarribia rende-se a D. Pedro II, Mitre e Flores, em Uruguaiana. O


episódio é conhecido como a Rendição de Uruguaiana.

Setembro – Brasil solicita empréstimo de 7 milhões de libras ao banco de Rothschild.

Setembro/novembro – O exército paraguaio recua, através do Paraná, retirando-se de todo o


território aliado, exceto o Mato Grosso, que era utilizado para defender a fronteira sul.

1866

31 de janeiro – Batalha do Pehuajó, nomeada também como Batalha de Corrales ou Batalha


de Itati, conflito no qual soldados paraguaios comandados pelo general Francisco Isidoro
Resquín e o tenente Celestino Prieto surpreendem uruguaios e argentinos liderados por
Bartolomé Mitre e o general Emilio Conesa. Porém, após uma série de insucessos e o fim da
munição argentina, ao fim da noite, os Aliados forçam um ataque à carga de baionetas,
posteriormente se retirando por ordem de Conesa. O combate serviu para Mitre repreender as
tropas argentinas, ordenando maior cautela em ataques furtivos.

10 de abril – Ocorre o Combate da Ilha da Redenção, ilha também chamada de Banco de


Itapiru, Banco Purutué, Ilha Carayá, Ilha de Carvalho, Ilha do Cabrita ou Ilha da Vitória. A
região, quase no meio do rio Paraná, próxima ao forte de Itapirú, é uma espécie de banco de
areia, coberto por vasto capinzal. Os brasileiros decidiram ocupar a região, sobretudo por sua
posição estratégica, próxima ao acampamento e forte inimigo. Após isso, no dia 5 de abril, o

193
tenente-coronel da engenharia José Carlos de Carvalho (um dos soldados que dão nome ao
banco de areia) levou uma série de armas para defesa da posição, entre elas uma bateria La
Hitte de 12 e 4 morteiros de 10 polegadas, além do material necessário para a cobertura. Lá
ficaram 100 praças do Batalhão de Engenheiros, e os batalhões do 7º corpo de Voluntários da
Pátria e 14º de linha, comandado pelo tenente-coronel João Carlos Villagran Cabrita. Antes
do sol nascer, por volta das 4 horas da madrugada, forças paraguaias tentam invadir
sorrateiramente na ilha, atravessando o trecho do rio com chatas disfarçadas com mato,
aproveitando a escuridão. Embora tenham tido algum sucesso no início da invasão, foram
logo repelidos pelos brasileiros, que contavam também com auxílio da esquadra, que teve de
se afastar por conta dos bombardeios advindos da fortificação de Itapirú. Logo após o final da
batalha, uma bomba vinda do forte inimigo atingiria Villagran Cabrita e alguns comandados,
que estavam em uma chata com munições para a guarnição. O nome Ilha da Cabrita é dado
em sua homenagem.

16 de abril – As forças aliadas cruzam o alto do Rio Paraná, dando início à invasão do
Paraguai, estabelecendo-se na região do Tuiuti.

16 a 23 de abril – Batalha do Passo da Pátria: A aldeia paraguaia de mesmo nome, situada na


margem direita do rio Paraná ficava em um ponto estratégico, ao norte da fortaleza de Itapirú.
O plano do almirante Tamandaré era o de bombardear com a esquadra brasileira, juntamente
do exército, as posições paraguaias. Com isso, distraia os inimigos e permitia a passagem das
embarcações brasileiras que transportavam em média 10 mil homens, entre eles o general
Osório. Após a bem-sucedida passagem, os soldados do Império já em terra repeliram os
paraguaios restantes, que recuaram para Laguna-Sirena, sofrendo novo ataque, agora de toda a
Tríplice Aliança. Os paraguaios resistiram até o dia 23.

17 a 18 de abril – Durante os eventos da Batalha do Passo da Pátria, ocorria também a


Batalha de Itapirú, travada nas proximidades da fortaleza de mesmo nome, marcando a
sequência da invasão aliada ao território inimigo. As forças aliadas contavam com 10 mil
homens, forçando Solano López a dar ordens para os paraguaios abandonarem a fortificação,
ocupada no dia seguinte e servido de acampamento para a Tríplice Aliança. O sucesso das
duas batalhas permitiu com que as forças aliadas adentrassem o Paraguai.

2 de maio – Batalha de Estero Bellaco: A região localizada na região de Ñeembucú, Paraguai,


sediou um dos conflitos mais sangrentos da guerra da Tríplice Aliança. O ataque surpresa

194
articulado pelo general paraguaio José E. Díaz ao acampamento aliado foi bem-sucedido no
início. Mas sua ganância em querer continuar, anseando destruir o restante da tropa aliada
acabou custando caro. Ao seguir o avanço sobre o acampamento, os paraguaios se depararam
com um número muito maior de rivais, o que os forçou a recuar desordenados, levando
algumas peças de artilharia inimiga dispostas no campo. Os inimigos perderam mais de 2 mil
homens e tiveram ainda 300 feitos de prisioneiros pelos Aliados. O contra-ataque seria
planejado pelo general Osório, que presenciou a ofensiva inimiga. Esse foi o primeiro teste
dos Voluntários da Pátria, algo que mostrou ao Império que os soldados precisavam de
melhores treinamentos.

24 de maio – Primeira Batalha de Tuiuti, ocorrida nas margens de lago do mesmo nome. Esse
foi o primeiro grande teste de força, sendo considerada a mais sangrenta batalha da América
do Sul, contando com mais de 50 mil homens. Luta difícil, onde o Paraguai fracassa na
tentativa de desalojar os aliados, que não avançam em território inimigo até setembro. As
tentativas inimigas de atacar em três partes não tiveram sucesso: buscavam avançar pelo
centro e nas duas alas, contando cada uma com 9 mil homens, sendo superados
numericamente por aliados. A vitória da Tríplice Aliança contou com 3011 divididas entre
argentinos e brasileiros. Já os paraguaios tiveram mais de 6 mil baixas paraguaias,
configurando um verdadeiro desastre.

10 e 11 de julho – Batalha de Yataytí-Corá. Nesse conflito, 2 mil e 500 paraguaios


comandados pelo general Jose Diaz atacaram as posições argentinas no perímetro próximo a
Tuiuti. Vitória dos argentinos.

16 de julho – Batalha de Boquerón. O general brasileiro Guilherme Souza conduziu os


Aliados para atacar as trincheiras defendidas pelo coronel Elizardo Aquino, morto em
combate após 16 horas de confrontos e quatro contra-ataques. Com 2 mil baixas do lado
paraguaio e muitos feridos entre os brasileiros e argentinos, a batalha foi vencida pelos
Aliados.

18 de julho – Batalha de Sauce. Em novo ataque contando com os três países aliados, o
general Flores, ataca os inimigos comandados pelos generais José Luis Mena Barreto e
Victorino J. C. Monteiro. Morreram cerca de 2 mil paraguaios nessa investida.

3 de agosto – Zacarias volta ao poder como chefe do novo gabinete liberal do Brasil.

195
1 a 3 de setembro – Batalha do Curuzú, onde o comandante Mitre aproveita para atacar o
forte de Curuzú com milhares de homens trazidos pelo visconde de Porto Alegre. No dia 1º de
setembro, logo pelo início da manhã, a esquadra brasileira se movimenta para a frente do forte
com os encouraçados Barroso, Lima Barros, Bahia, Rio de Janeiro e Tamandaré, a canhoneira
Magé fica próxima à ilha do Palmar, juntamente das embarcações de madeira Araguari,
Belmonte, Beberibe, Greenhalg, Ipiranga, Ivaí e Parnaíba. Durante cerca de 4 horas as
embarcações trocam tiros com o forte, ao passo em que os barcos de madeira desembarcam
800 soldados no chaco, para destruírem o forte. No segundo dia de conflito, a esquadra
bombardeava o forte, durante o desembarque dos homens do visconde de Porto Alegre, que
repeliram os inimigos. No último dia da batalha, o exército tomou o forte, que ainda contava
com considerável resistência. Embora a Tríplice Aliança tenha saído vitoriosa, perdeu cerca
cerca de 8 mil e 300 homens. Os paraguaios que sobreviveram fugiram para Curupaiti.

12 de setembro – Encontro entre Mitre e López, em Yatayti-Corá, fracassa na tentativa de


acabar com a Guerra.

22 de setembro – Batalha do Curupaiti. Após o sucesso na queda de Curuzú, a força aliada


segue para o entrincheiramente de Curupaiti, sendo impedida de avançar. É considerada a pior
derrota brasileira na guerra. Cessam-se os avanços, que retornam apenas em julho de 1867.
Esse desastre teve impacto direto nos rumos da guerra. A opinião pública no Império culpava
o insucesso por conta dos fracassos de Venancio Flores, que retornaria para Montevidéu; após
a derrota também são reduzidas as forças argentinas e uruguaias no conflito. Porém, a aliança
ainda seguia.

10 de outubro – O marechal Luís Alves de Lima e Silva, até então marquês de Caxias, é
nomeado comandante-em-chefe das forças brasileiras terrestres e navais.

6 de novembro – Feito novo decreto, nº 3.725-A, do Império do Brasil, que tinha como
objetivo libertar os escravos que servissem o exército contra os paraguaios.

Novembro – Levante Montonero contra Mitre e Guerra, em Cuyo, província da Argentina,


comandado por Felipe Varela.

1867

196
8 de maio a 11 de junho – Retirada da Laguna pela força expedicionária brasileira, no Mato
Grosso. O ainda território paraguaio, e hoje região do atual Mato Grosso do Sul, foi uma das
localizações inicialmente alcançadas por uma coluna brasileira da força expedicionária. Eka
teve início em 1865, com uma coluna partindo do Rio de Janeiro, posteriormente recebendo
reforços de Uberaba, na província de Minas Gerais, percorrendo até Coxim, no Mato Grosso,
localização já abandonada. Alcançaram posteriormente Miranda, em setembro de 1866,
encontrando a cidade na mesma situação. Em 1867, a coluna encontra-se reduzida a 1680
homens, que decidem invadir o Paraguai, indo até Laguna, em abril. Por muito tempo, a tropa
foi vítima de doenças como a cólera, beribéri e tifo, vendo-se obrigada a se retirar, sobretudo
por se encontrar distante do Brasil, sendo atacada pela cavalaria paraguaia em várias ocasiões.
Isso auxiliava a dizimar a coluna, que se retirou de Laguna, chegando a 11 de junho de 1868
com apenas 700 homens às margens do rio Aquidauana, no Mato Grosso.

22 de julho – As forças aliadas, sob o comando temporário de Caxias, iniciam o movimento


de cerco a Humaitá.

2 de agosto – Ocupação aliada da posição norte da região do Humaitá.

3 de agosto – Combate de Puru-Hué (ou Peru-Huê), também identificado como Combate de


Penimbu ou do Arroio Hondo. Na ocasião, o barão do Triunfo vence juntamente da cavalaria
o ataque elaborado por uma coluna paraguaia.

18 de agosto – Navios de guerra brasileiros, sob o comando do almirante Joaquim José Inácio,
investem contra as baterias de Curupaiti.

3 de novembro – Segunda Batalha de Tuiuti. As forças paraguaias atacam, mas fracassam na


tentativa de deter o movimento do cerco de Humaitá.

21 de outubro – A Batalha de Tatayibá, travada pela cavalaria paraguaia, liderada por


Bernardino Caballero, futuro presidente do Paraguai, contra a cavalaria brasileira, liderada
pelo marquês de Caxias. Superando os inimigos em quase 3 a 2, a tropa aliada sagrou-se
vencedora. No caso, uma armadilha foi estabelecida pelos brasileiros, que observavam a saída
a cavalaria inimiga percorrendo as matas. Essa artimanha aliada consistia em colocar poucos
cavaleiros à vista dos paraguaios, que correriam atrás, encontrando o contingente brasileiro
escondido na mata. Com isso, os rivais foram cercados em Tatayibá, tendo apenas alguns
fugindo para Humaitá.

197
27 e 28 de outubro – A Batalha de Potrero Obella foi um episódio envolvendo apenas 300
paraguaios contra 5 mil brasileiros. Os primeiros, ainda que em número reduzido conseguiram
matar 85 soldados e deixar 310 feridos. O general brasileiro Barreto, foi enviado de Villa del
Pillar para capturar Tayi, nas margens do rio Paraguai e Potreto Obella, buscando bloquear as
guarnições paraguaias, tendo sucesso na investida. Os inimigos sobreviventes foram pra
Humaitá.

1868

13 de janeiro – Mitre transmite a Caxias o comando do exército da Tríplice Aliança e regressa


a Buenos Aires.

19 de fevereiro – Acontece a Passagem de Humaitá, onde a marinha brasileira passa pela


artilharia do forte de Humaitá, pelo rio Paraguai, com seis monitores. Na ocasião, o
comandante-em-chefe da frota brasileira, o visconde de Inhaúma, autoriza a passagem à força
pela fortificação, sem as embarcações sofrerem graves avarias.

19 de fevereiro – Rebelião no Uruguai, liderada pelo ex-presidente Berro. Flores é


assassinado. Mais tarde, no mesmo dia, Berro é capturado, preso e morto.

19 de fevereiro – Tomada do Forte do Estabelecimiento ou Reduto Cierva pelos aliados. Essa


fortificação, junto com a de Humaitá selava o acesso por via fluvial da capital paraguaia. O
ataque ocorre por conta da bem-sucedida Passagem de Humaitá, graças aos seis pequenos
monitores couraçados comandados por Delfim Carlos de Carvalho, capitão-de-mar-e-guerra.
Após quatro tentativas de assalto aliadas, o major paraguaio Olavarrieta ordenou a evacuação
de seus homens para a fortificação de Humaitá, do outro lado do rio, já que estavam sem
munição. Embora os aliados tenham tido sucesso na missão, tiveram entre mortos e feridos
1200 homens. Já os paraguaios, 150 homens e 9 peças de artilharia.

22 de fevereiro – A marinha brasileira aporta em Assunção.

2 de março – Abordagem aos couraçados Lima Barros e Cabral por canoas paraguaias
disfarçadas de ramagens, aproveitando-se da escuridão da noite, mas sem sucesso.

3 de março – López abandona a fortaleza de Humaitá, armando novo quartel-general a 10


quilômetros, em San Fernando.

198
12 de junho – Eleições na Argentina. O chanceler Rufino Elizalde, herdeiro político de Mitre,
vence Domingo Faustino Sarmiento, que defendia uma plataforma política contra a Guerra.

16 de julho – No Brasil, vence o gabinete conservador do visconde de Itaboraí.

18 de julho – Batalha de Acayauazá, ocorrida nos arredores do Reduto-Corá, contando com a


vitória dos paraguaios, comandados pelo coronel Caballero, que armou uma armadilha contra
os argentinos e brasileiros que sempre circulavam pela região, algo que os levou para uma
emboscada. Morre no combate o coronel argentino Martínez de Hoz, e é tomado como
prisioneiro o tenente-coronel argentino Gaspar Campos.

22 de julho – Humaitá é evacuada.

5 de agosto – Ocupação de Humaitá pelos aliados. O marquês de Caxias sugeria ao barão de


Muritiba o final da guerra, julgando a ofensa de López aos aliados como quitada, mas se
pondo à disposição do Império. Antes do episódio de Humaitá, Caxias já demonstrava
interesse em deixar o conflito.

3 de novembro – Segunda Batalha do Tuiuti: Os paraguaios, atacando com 9 mil homens,


liderados pelo general Vicente Barrios, tomaram rapidamente as trincheiras aliadas situadas
na parte exterior, empurrando os aliados para a segunda linha, no campo de abastecimento. Os
paraguaios começaram a efetuar saques no local, sendo posteriormente atacados pela
artilharia da força aliada comandada pelo visconde de Porto Alegre, que contava com 1800
homens e 14 canhões. Na chegada da cavalaria paraguaia a Tuiuti, a infantaria recuou, entrava
em combate o corpo de cavalaria argentina, contando com 800 homens vindos de Tuyucue,
sob o comando do general Horno, dando fim ao combate às 21 horas.

Dezembro – Ocorrem uma série de ataques aliados às posições paraguaias, campanha


conhecida como Dezembrada, indo em rumo a cidade de Assunção, capital paraguaia.

6 de dezembro – Acontece a Batalha de Itororó, comandada pelo então Marquês de Caxias.


Para se chegar a ponte de Itororó, os brasileiros passaram pela cidade de Santo Antônio, em
um caminho difícil de se percorrer. Ao chegar na ponte, o exército brasileiro iniciou a
investida, senda a sua retaguarda defendida pelo 1º Batalhão de Infantaria. O coronel
Fernando Machado dava ordens para que as cavalarias, brigadas e bocas de fogo fosse para a
frente auxiliar o combate. Os paraguaios, por sua vez, reforçaram a defesa do local, sabendo
do iminente combate, colocando as tropas próximas à frente e uma boca de fogo estratégica

199
que barraria qualquer inimigo que ultrapassasse a partir da outra margem. A campanha contou
com seis investidas brasileiras. Nas primeiras, as tropas aliadas sentiram muita dificuldade
para fazer a travessia. Os aliados conseguiam aos poucos infiltrar a partir da terceira investida.
Na quarta, o coronel Fernando Machado morreria, sendo substituída a liderança da 5ª Brigada
de Infantaria pelo tenente-coronel Oliveira Valporto. Além disso, chegavam reforços, sendo
tomada a direção do combate pelo marechal-de-campo Alexandre Gomes Argolo Ferrão
Filho, comandante do 2º Corpo do Exército. Na sexta e última investida, o exército imperial
encontrava-se enfraquecido depois dos homens mortos e fora de combate. Com o atraso das
tropas de Osório, Caxias viu-se obrigado a marchar em direção ao inimigo, dando vivas ao
imperador, levando consigo seus homens para o “tudo ou nada”. As tropas vibravam ao
mando de Caxias, algo que levantou o moral de forma com que tomassem de vez a posição.
As baixas brasileiras chegaram a 285, 1356 feridos, 128 contusos e 95 praças extraviadas. Já
do lado inimigo, estiveram 1600 paraguaios, mortos ou feridos.

11 de dezembro – No arroio de mesmo nome, acontece a Batalha do Avaí. Faz parte da


Dezembrada, constando em mais uma vitória de Caxias. Osório também encontrava-se nesta
batalha. Ao decorrer do conflito, a força paraguaia lutou firmemente, mas foi pega por um
movimento de flanco, que a destruiu. Cerca de 100 paraguaios, incluindo o
general Bernardino Caballero, tiveram êxito ao escapar. A tradição oral do povo paraguaio
conta que centenas de mulheres participaram do combate.

21 e entre 27 a 30 de dezembro – A Batalha de Lomas Valentinas ou Batalha de Ita Ybate, na


qual o exército paraguaio é finalmente aniquilado. Tendo o primeiro avanço contido no dia
21, o marquês de Caxias ordena nova investida a 27 de dezembro, tendo três dias de duração.
Após o sucesso brasileiro, López foge para a cordilheira a leste de Assunção.

30 de dezembro – Rendição de Angostura: O coronel e engenheiro George Thompson rende-


se na última fortificação fluvial paraguaia, situada em Angostura, com 1907 homens, sem
combate.

1869

1º a 4 de janeiro – Ocupação e saque de Assunção pelas tropas brasileiras. A cidade já estava


evacuada, estando cercada por 30 mil soldados comandados pelo conde D’Eu, sendo

200
saqueada. O próprio Arquivo Nacional do Paraguai foi apoderado por José da Silva Paranhos,
fazendo parte do catálogo da coleção Rio Branco, presente na Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro. A guerra é considerada finalizada. Caxias ataca o teatro das operações paraguaias.

Janeiro/agosto – López forma novo exército paraguaio, retornando as operações de guerrilha.

Fevereiro – Missão de José Maria da Silva Paranhos, o futuro visconde do Rio Branco, em
Buenos Aires e Assunção, com o intuito de se discutir sobre a formação de um governo
provisório no Paraguai.

15 de abril – O conde d’Eu chega como novo comandante-em-chefe das forças aliadas.

5 de maio – Fundição de Ibicuí, onde eram produzidas as armas paraguaias, é destruída.

11 de junho – Estabelecido o governo provisório em Assunção.

12 de agosto – Batalha de Piribebuy: Assalto das forças aliadas, que tomam Peribebuí, capital
provisória do Paraguai. Os defensores estavam mal armados e contavam com crianças entre
eles. As tropas brasileiras, lideradas pelo conde d’Eu, ainda tentaram negociar duas rendições,
sendo ambas recusadas pela cidade. Das 4 às 8 da manhã, a cidade foi bombardeada, e os
aliados tiveram sucesso, com enorme superioridade numérica: 20 mil homens contra apenas
1600 paraguaios.

16 de agosto – Batalha de Campo Grande, também conhecida como Batalha de Los Niños ou
Acosta Ñu pelos paraguaios, na região entre os arroios Piribebuí e Iuquiri. As tropas
paraguaias foram duramente massacradas, sendo este o último grande confronto da guerra.
López consegue escapar mais uma vez, recuando para o norte.

Setembro de 1869 – López é perseguido pelas forças aliadas.

1870

Março – Continuam as buscas por López em território paraguaio.

1º de março – Batalha de Cerro Corá. López é encurralado e morto em Cerro Corá, pelo
soldado José Francisco Lacerda, conhecido como Chico Diabo, no extremo norte do Paraguai,
sendo esta a sua última resistência e o início do fim do conflito.

201
O pós-guerra

20 de julho – Tratado preliminar, assinado pelo governo provisório paraguaio, a Argentina e o


Brasil, em Assunção; fim da guerra e livre navegação no sistema fluvial (questões territoriais
são discutidas mais tarde).

Julho – Eleições para a Assembleia Constituinte paraguaia.

Novembro – Nova Constituição do Paraguai.

1870-1871

As Conferências em Buenos Aires e Assunção fracassam na condução do tratado geral de paz.


Negociações são feitas em separado.

1872

9 de janeiro – Tratado de Paz entre Brasil e Paraguai. O Brasil garante o território


reivindicado no nordeste do Paraguai, entre os rios Apa e Branco.

1876

Fevereiro – Tratados de Paz entre a Argentina e o Paraguai são consolidados. A Argentina


detém Missões, garante o Chaco central, entre os rios Bermejo e Pilcomayo, concorda em
submeter à arbitragem dos Estados Unidos o território entre o rio Pilcomayo e Arroyo Verde e
renuncia à reivindicação do norte do Chaco, também requerido pela Bolívia.

22 de junho – Última tropa brasileira deixa o Paraguai, cerca de seis anos depois do final da
guerra.

Novembro – O presidente norte-americano Hayes concede ao Paraguai a área disputada pela


Argentina.

202
1879

Maio – Retirada da última tropa argentina do Paraguai.

203
Anexo A – Quadros historicos da guerra do Paraguay

Introdução

Emprehendemos uma obra de justiça e de verdade.


De justiça, porque prestamos homenagem devida aos beneméritos da pátria: de
verdade, porque alheios aos ódios e ás sympathias dos corrilhos políticos, rememorando os
fastos da guerra do Paraguay, entendemos engrandecer unicamente a nação.
O nosso trabalho é modesto; a sua importancia resalta da importancia dos factos.
A narrativa singela apoiada no depoimento unanime dos que emprehenderam e
perfizeram tantas, e tão galhardas e bizarras acções de heroismo e abnegação, servirá apenas
de glosa ao lapis do desenhista.
Pareceu-nos que a verdadeira gloria rutilava mais pura sem os atavios que lhe
empresta a imaginação exaltada.
Na historia da guerra do Paraguay há paginas que ilustrariam qualquer das mais
guerreiras nações do velho mundo.
E foi um povo de hontem que escreveu!
Foi um povo cuja brandura de costumes e cordialidade de animo lhe fizeram merecer
até hoje, a par da honrosa designação de hospedeiro, a de imbelle e fraco.
Nessa luta sangrenta e tenaz de cinco annos o Brazil assignalou a epocha de sua
virilidade como nação.
Filhos do norte e filhos do sul, congregados por uma só idéa, batalharam naquelles
inhospitos e pestilentes campos paraguayos com a calma e a resignação que dá o sentimento
do dever.
A unidade nacional melhor se affirmou com essa prova de sangue.
O juizo da posteridade ainda não desceu austero e imparcial sobre os homens e sobre
os factos.
Há porém d’entre aquelles e d’entre estes, alguns que já consagraram immortaes o
juizo unanime dos contemporaneos, o dos proprios inimigos, o dos que sempre nos negaram
até o direito de sermos uma nação independente.
De uns e de outros nos vamos nós tambem occupar, com singelo e despretensioso
desejo de sermos justos e verdadeiros.

204
Se o conseguirmos, repetiremos com o velho poeta quando se dirigia aos bons
ingenhos do seu tempo:
Eu desta glória só fico contente
Que a minha terra amei, e a minha gente.

I. Combate naval do Riachuelo

I
Invadida e assolada a provincia de Matto Grosso pelas hostes de Barrios e Resquin,
occupada a de Corrientes pelo numeroso e disciplinado exercito de Robles, e ameaçada a do
Rio Grande do Sul pelas columnas de Estigarribia e Duarte, - bem critica e temerosa era, em
Junho de 1865, a posição da triplice alliança contra o Paraguay.
Só a fé robustissima nos destinos da civilisação e da liberdade, só a esperança dos
prodigios que sóem realizar os brios de povos offendidos em sua honra e pundonor, podião,
nesses dias de angustia, pôr em duvida o triumpho completo do marechal Lopez.
Accommettidas de sorpreza, as nações alliadas apressadamente reunião, organisavão e
transportavão á enormes distancias os recursos, que o inexcedivel patriotismo de seus filhos
improvisara, para resistir ao immenso poder militar, que se creára e desenvolvêra no
Paraguay, durante 10 annos de incessantes e laboriosos cuidados.
Á superioridade de suas forças, compostas de 80,000 soldados perfeitamente
adestrados, cerca de 500 peças de artilheria e uma esquadra, que além dos navios de véla
contava com 17 vapores, apropriados aos rios em que tinhão de operar, á escolha da
opportunidade para a aggreessão, e ao desarmamento dos alliados, reunia o marechal Solano
Lopez, como outros tantos elementos que lhe devião assegurar a victoria, o perfeito
conhecimento do terreno em que ia travar-se a luta, a obediencia passiva, a abnegação e
fanatismo nunca vistos de uma nação de que dispunha como arbitro supremo, e a traição, que
só aguardava momento asado para manifestar-seno proprio seio dos alliados.
Houvessem as armas paraguayas alcançado a menor vantagem em territorio
correntino, e esse seria o signal de deffecções muito mais graves que as vergonhosas
debandadas de Basualdo e de Toledo.
Os federaes de Entre-Rios, e os blancos de Montevidéo converter-se-ião em guardas
avançadas dos exercitos de Corrientes e Uruguay, que encerrarião em um circulo de ferro e
fogo, impossivel de romper-se os 6,500 homens mal armados de Paunero e Caceres, e os

205
12,000 recrutas de Mitre e Ozorio reunidos na Concordia - unicas forças arregimentadas, que
contava nessa época a triplice alliança.
E assim como, no seculo 4º, os barabaros do norte invadirão a Europa, derrubarão
estados florescentes e fundarão um poderoso imperio, assim tambem a raça guarany, forte por
sua submissão e valor, derramando-se, qual irresistivel avalanche, pelas planicies da America
do Sul, ergueria ás margens do Rio da Prata, com os despojos de trez nações civilisadas, o
throno almejado pelo moderno Attila, á quem cegamente obedeceria e por quem heroicamente
sacrificou-se!
Só uma cousa faltava para a completa realisação do ousado plano, que concebêra o
desposta de Assumpção. Era a livre navegação do rio, que lhe interceptavão duas divisões da
esquadra brasileira, ao mando do immortal chefe Francisco Manoel Barrozo.
Dominando as aguas do Paraná, Lopez receberia os ultimos recursos, que aguardava
da America do Norte e da Europa, sua esquadra levaria em poucos dias á Buenos-Ayres, á
Montevidéo ou ao Rio Grande, os exercitos de Robles e Estigarribia, e desde logo quasi
impossivel seria evitar o anniquilamento da alliança e o predominio do elemento barbaro no
continente sul-americano.
Era, pois, sobre o rio que se tinha de jogar a partida suprema; era ali que se devia
decidir da sorte de toda a campanha.
Bem o comprehendeu o dictador do Paraguay, e com a astucia, propria da raça
indigena de que descendia, tudo dispôz e preparou, para assegurar-se do successo, que
dess’arte se lhe antolhava infallivel.

II
Alvorecêra brilhante o dia 11 de Junho de 1865, Domingo da Santissima Trindade.
Duas leguas abaixo da cidade de Corrientes, na extensa curva que ahi faz o rio Paraná,
entre a ponta d’aquelle nome e a de Santa Catalina, ao sul, vião-se em linha de combate, mas
com os ferros no fundo e fogos abafados, 9 canhoneiras a vapor, em cujos penóes tremulava a
bandeira brasileira.
Erão a 2ª e a 3ª divisões de esquadra, que depois de juntar ás glorias de Tonelero as de
Paysandú e Corrientes, ali bloqueava o littoral occupado pelo inimigo.
Testa de columna a Belmonte, do commando de Abreu, e fechando a retaguarda a
Araguary, de Hoonhlotz; no centro arvorava a insignia do chefe o Amazonas, commandado

206
por Brito. Occupavão os intervallos a Mearim, commandante Elisiario Barbosa, Beberibe,
commandante Bonifacio, Ypiranga, commandante Alvaro, Jequitinhonha, commandante
Pinto, içando a flamula do chefe Gommensoro, a Parnahyba, commandante Garcindo, e por
ultimo a Iguatemy, commandante Coimbra.
O céo radiava-se de côres esplendidas, e as aguas do rio, correndo rapidamente, em
uma largura de tresentas braças, por entre as ilhas da Palomera e bancos adjacentes, fazião
luzir nos estreitos e tortuosos canaes palhetas de oiro e prata, até que ião quebrar-se em
franjas de alva espuma, duas leguas além, na ponta de Santa Catalina.
Na margem esquerda, coberta de basto e corpulento arvoredo, projectavão-se ainda
algumas sombras, em formoso contraste com a da direita, onde a natureza virgem do Chaco
ostentava todos os esplendores de sua selvagem belleza á luz do astro nascente.
Se o olhar experimentado do nauta podesse, aos primeiros albores da manhã,
descortinar por entre as arvores gigantescas e emmaranhadas silvas da margem correntina, o
que se ali passava, não reinaria tanta calma nos descuidosos vasos, e prompto soaria em todos
elles o toque d’alarma, porque um grande perigo os ameaçava!
É que ao longo do littoral, na parte baixa da curva em que vem desaguar o Riachuelo,
desdobrava-se extensa fila de abarracamentos, erguidos no silencio e escuridão da noite. Dous
mil infantes inimigos, cozendo-se com a terra, e tendo ao lado as mortiferas armas,
espreitavão o combinado ensejo para atirarem certeiros sobre uma preza, que reputavão
segura, por estar desprevenida.
Mais longe, no extremo da ponta, sobre as desigualdades do terreno e mascarada pela
matta, collocára o coronel Bruguez formidavel bateria de foguetes á congréve e 22 canhões,
cujas pontarias firmava sobre todos os estreitos passos, que deverião descer e subir, transpôr e
cruzar as canhoneiras brasileiras, afim de destruil-as com seus fogos.
Tudo fôra planejado pela sagaz perfidia do guarany, que não confia só da
superioridade numerica das forças o exito dos combates, senão principalmente dos embustes
imprevistos e dos lances de sorpreza.
A sorte dos navios brasileiros, porem, estava bem protegida pela santidade da causa,
que deffendião, e indomavel coragem de seus inperterritos tripolantes.
Concluida a faina da baldeação, parte das guarnições vogára para terra em busca de
lenha com que supprir a escassez de carvão, e o resto descançava, á excepção das vigias que
estavão alerta nos cestos de gavia e dos homens necessarios á guarda da tolda.

207
Os sinos de bordo soarão nove horas da manhã.
Repentinamente por sobre a ponta de Corrientes, á enfrentar com a ilha de Meza,
levantou-se ligeira nuvem de fumo, e após essa outra e mais outras, e quasi ao mesmo tempo
ouvio-se cahir do tópe de vante da Belmonte este grito - navio á prôa! e logo este outro -
esquadra inimiga à vista!
Rufão os tambores e sibillão os apitos em todos os navios da divisão; o Amazonas
desfralda aos ventos o terrifico signal - preparar para combate!
Um estremecimento electrico corre pelas vêas dos valentes officiaes, marinheiros e
soldados; todos accodem pressurosos e contentes aos seus postos, porque é finalmente
chegado o momento de dar um dia de gloria á patria querida, e de inflingir o primeiro castigo
pelas atrocidades commetidas em Matto Grosso contra populações inermes, delicadas
mulheres e innocentes crianças!
Já os fogos estão despertos, já as amarras são largadas sobre boias, as peças e os
rodizios achão-se em bateria, abrem-se os paióes, as balas e metralhas empilhão-se no convez,
as gaveas guarnecem-se de atiradores, e os contingentes do exercito enfileirão-se nas bordas.
Pairando sobre as pás e de morrões accesos só esperão os navios o signal de fogo!
Metade das guarnições e os melhores praticos achão-se em terra. Não importa!
Recolher-se-hão aos primeiros estrondos do combate, e o enthusiasmo duplicará as forças dos
que ficarão.
O inimigo desce com grande velocidade, ajuda-o a correnteza do rio; - dentro de 15
minutos prolongar-se-ha com as divisões. -Eil-o!

III
Junto á ilha Meza avistão-se oito vapores, rebocando seis chalanas razas, a nivelarem-
se com as aguas, e offerecendo como unico alvo a extremidade de grosso canhão de 68 e 80.
Flamejão-lhes nos topes as 3 cores da republica; trazem os bojos pejados de gente e larga
facha encarnada divisa-se-lhes por sobre as bordas.
São os homens destinados á abordagem, que revestem como em dia de festa seu rubro
uniforme de gala.
Formão estes um tabalhão inteiro, o 6ºda infanteria de marinha, o mais aguerrido do
exercito paraguayo, e cujas façanas em Matto-Grosso corrião de boca em boca nas ruas de
Assumpção.

208
Possantes e herculeos, forão designados na vespera em Humaitá, pelo proprio dictador,
que armou-os de machados e sabres. Poclamára-lhes ao embarcarem recommendando que não
matassem todos os prisioneiros, como promettião, levando-lhes vivos alguns.
Rompia a marcha o Paraguary, que commandava o capitão Alonso, seguindo-lhe as
aguas o Igurey, commandante Ortiz, o Iporá commandante Robles, o Salto, commandante
Alcaraz. Também ali vinha o Marquez de Olinda, armado em guerra, depois de apresado pelo
Taquary, navio capitanea, que fechava a linha.
Nelle arvorava sua insignia de commando o velho chefe Meza, que tinha por capitão
de bandeira o commandante Cabral.
A esquadra paraguaya largou de Humaitá á meia noite, e, segundo as instrucções do
dictador, antes de amanhecer, devia passar ao largo dos brasileiros, aproar depois aguas
acima, prolongar-se cada navio com um dos vasos inimigos, descarregar-lhe toda a artilharia e
saltar á abordagem. Os atiradores e a bateria de terra devião protegel-os e apoial-os, nas
peripecias do combate, se nesse primeiro arremesso não conseguissem aprezar os navios
brasileiros.
Em marcha, porém, desarranjou-se a machina do Iberá, que tambem fazia parte da
expedição, dando causa as tentativas feitas para reparar esse sinistro, á que já dia claro
entestassem com os navios de Barrozo.
Logo trocarão entre si as duas esquadras as devidas continencias: ao cruzarem-se
despejarão-se reciprocamente nutridas bandas de artilheria, chovendo de parte a parte balas e
metralhas. Era uma chuva de respeito! (As palavras griphadas são da parte official de
Barrozzo.)
Apenas dobrarão a ilha de Palomera os navios paraguayos aporarão contra a corrente,
como se pretendessem executar o plano de abordagem; mas, parando em meio caminho,
cahirão á ré e de novo seguirão aguas abaixo, acossados pelo vigoroso fogo dos rodizios de
pôpa de seus adversarios.
Onde irião? Desanimados pela resistencia, ou já desbaratados pelas perdas e avarias,
tentarião acaso fugir, procurando os canaes de agua escassa, inacessiveis aos navios
brasileiros, todos de grande calado?
Irião aguardar o combate em lugar préviamente escolhido, onde tivessem sobre os
inimigos, que forçosamente havião de encalhar, a vantagem das manobras e movimentos
livres?

209
Tal foi o problema que rapidamente formulou-se no pensamento do denodado chefe
Barrozo, que sem hesitar, resolveu ir-lhes ao encontro. Deixando a Parnahyba, onde
desfraldára sua insignia na primeira phase do combate, regressou ao Amazonas, que já então
havia recebido o pratico, e fez aos seus commandados os seguintes sinaes: bater o inimigo
que estiver mais proximo; - o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever.
Reproduzindo as sublimes palavras de Nelson, antes da batalha de Trafalgar, o chefe
brasileiro não lhe ficou somenos no arrojo com que affrontou a morte, sendo, como elle, o
primeiro á dar o exemplo do que exigia de seus commandados.
Nelson entrou em fogo, adornado com todas as suas condecorações, offerecendo-se
assim como alvo aos tiros do inimigo. Debalde seus officiaes lhe representarão, que sua
posição de almirante em chefe lhe impunha o dever de não expor-se com tanto ardimento. Ali
ficou até cahir mortalmente ferido.
Tambem Barrozo, de pé sobre a caixa das rodas, ondeando-lhe ao vento a comprida e
alva barba, apresentava sua imponente e marcial figura, como ponto de mira, aos milhares de
projectis, que chovião-lhe em torno como granizo.
Tendo aos lados o intrepido Brito e o habilissimo pratico Gustavino, só desceu de
posto tão arriscado, quando já não havia inimigos a debellar.
Como o heróe da Victory, podia também repetir ao terminar a batalha; - graças a Deus
cumpri o meu dever!

IV
Esperava e não fugia (*parte official de Barrozo) o inimigo; collocado em linha de
batalha, sob a protecção da artilheria e fusilaria de terra, estava elle ao abrigo de qualquer
tentativa de abordagem, e, para maior segurança, amarrara as chatas com espias, conservando-
se os vapores sobre rodas, cosidos com a barranca.
A escolha da posição fôra verdadeiramente inspirada! O canal tortuoso, em que os
navios brasileiros tinhão de manobrar, tão estreito era, que ao lado da ilha a oscillação das
aguas, causada pela passagem dos vapores, desmoronava a terra da margem.
Ao fazerem a travessia, em frente do Riachuelo, os brasileiros erão obrigados á passar
tão rente á alterosa barranca, em que Bruguez assestára sua bateria, que até pedras arrojavão
sobre o convéz os soldados paraguayos, cautelosamente agachados dentro das vallas, em que
se occultára a infanteria.

210
Onde quer, porém, que se refugiassem, resolvera Barroso ir procural-os e nenhum
obstaculo fal-o-ia recuar.
Ao signal do navio chefe as divisões, seguindo nas aguas da Belmonte, (testa da
columna e a primeira á inverter a linha de frente) manobrarão para descer o rio até haver
lazeira, (**Lazeira, termo do homem de mar, que designa espaço para manobrar) para dar a
volta, prolongar-se com o inimigo, e batel-o.
Não permittião a differença de calado e cumprimento dos navios brasileiros que elles
fizessem a volta no mesmo lugar, sendo-lhes preciso distanciarem-se grandemente até
encontrar espaço.
O Amazonas teve de percorrer uma larga distancia chegando a perder de vista o resto
da esquadra, em consequencia das sinuosidades do canal. Dahi resultava para os paraguayos
mais uma vantagem importante, qual a de facilmente poderem cortar a linha brasileira, o que
effectuarão.
Atravessou a Belmonte o arriscado passo e fel-o com toda a galhardia, supportando
ella só todo o fogo da esquadra inimiga, dos atiradores e da bateria de terra, que então se
desmascarou.
Virando aguas abaixo, encalhou o Jequitinhonha em um banco de arêa, que separa
dous canaes estreitos, justamente em frente á artilheria de Bruguez. Fez a tripolação esforços
sobrehumanos para safal-o, recebendo á tiro de pistola o mortifero fogo do inimigo. Não o
conseguiu; e travou-se então uma luta desesperada e desigual, entre a bateria e tres navios
paraguayos, que tentão abordal-a, e a canhoneira immovel.
Rarêa a tripolação disimada pela metralha, mas conserva-se heroicamente sobre o
convéz, despejando com suas oito peças violento fogo contra a bateria, que a fulmina, e
repellindo a abordagem com maior denodo.
Tombão as vergas e mastros, o tubo do vapor deixa sahir a fumaça, que se escapa em
borbotões pelos buracos que o crivão; a prôa, as amuradas, os escalares voão em estilhaços,
convertendo-se em outros tantos projectis contra a propria guarnição.
Nem assim deixa ella seu posto de honra, e somente cessa de atirar, ao cahir da noite,
depois de calados os fogos do inimigo. Ali encontra morte gloriosa o esperançoso guarda
marinha Lima Barros: mais 17 cadaveres e grande numero de feridos enchem o tombadilho. É
contuso o chefe Gommensoro, recebendo á seu lado gloriosos ferimentos Freitas, Lacerda e
Castro Silva, seus officiaes.

211
Repetindo contra varios navios a tentativa de abordagem, expressamente ordenada por
Lopez, os paraguayos afinal conseguem dal-a á Parnahyba, que descia.
Cercão-na o Paraguary, o Taquary e o Salto. É o primeiro repellido á metralha, mas
os outros acostão-se á bombordo e estibordo. A valente guarnição dirigida por Garcindo, e
enthusiasmada pelos heroicos exemplos do immediato Chaves e dos officiaes do exercito
Pedro Affonso Ferreira e Maia, oppõe aos assaltantes invencivel resistencia.
Mas, acommette-a tambem pela pôpa o Marquez de Olinda, que lhe despeja dentro
numeroso golpe de gente de aspecto feroz, armada de sabres, machadinhas e revolvers.
Trava-se, corpo á corpo, medonho combate ou antes horrorosa carnificina, no meio da
qual os denodados officiaes, negros fumo e cobertos de sangue, erguem-se como vultos
homericos, com a espada em punho. Greenhalg, inda criança, prostra com um tiro o official,
que ousára intimal-o á ferro frio e succumbindo depois de completamente mutilados.
Maia tendo já decepada a mão direita, apanha a espada com a que lhe restava, e ainda
faz frente ao inimigo.
Marcilio Dias, simples marinheiro, eterniza seu nome combatendo á sabre com quatro
paraguayos, dous dos quaes rolão a seus pés: vacilla e cede, crivado de feridas, exangue e
muribundo, aos féros botes dos outros dous.
Escorrega-se no sangue, tropeça-se sobre cadaveres, mas a luta continúa ardentemente
acesa; já o inimigo é senhor do convéz desde a pôpa até o mastro grande, apoderou-se do
leme e arreou a bandeira!
Durava já essa luta suprema uma hora, e os brasileiros terião talvez de succumbir ao
numero, por que officiaes e soldados cahião um apoz outro, quando o navio chefe a Mearim e
a Belmonte, apercebendo-se do que occorria ao verem arriada a bandeira, aprôão cada um por
seu lado para esse grupo tremendo de quatro navios, que se envião reciprocamente a morte.
Comprehendendo os abordantes o perigo, que os ameaça, largão o costado da
Parnahyba, abandonando os que pelejavão no convéz. Estes hesitão, ao passo que os
brasileiros cobrando maior denodo carregão, indo á frente o immediato Chaves, e os que não
se precipitão no rio são trespassados á bayoneta.
Os restos da destemida guarnição atroão os ares com os gritos de victoria. A
Parnahyba está salva, e de novo tremula em sua pôpa a nobre bandeira um momento abatida.
Entretanto, todos os demais navios tinhão vindo occupar seu posto na linha de
combate, que se tornara geral e cruamente se feria.

212
É quasi impossivel descrever o sublime horror desse prelio infernal, concentrado em
poucas braças de espaço, e no qual cerca de quatro mil homens procuravão desapiedadamente
exterminar-se!
Os tiros das peças de artilheria, o estourar dos foguetes á congréve e o crepitar da
fuzilaria succedião-se de parte a parte com rapidez tal, que seu ininterrompido atroar,
immensamente augmentado pelos echos do rio, afigurava-se á população atterrada de
Corrientes, e mais longe á anciosa guarnição de Humaitá, o roncar incessante de medonha
trovoada. Estremecia o solo á leguas de distancia, e nas agrestes planuras corrião, eriçados os
pellos, milhares de animaes á esconder-se assustados na escuridão das selvas.
O proprio ardil de que os paraguayos se servirão, mascarando a bateria com a matta,
foi-lhes fatal.
Não perdião os navios brasileiros um só tiro. As balas despedidas da esquadra levavão
de rojo corpulentas arvores, que erão outras tantas monstruosas palanquetas á desmontar
canhões, esmagar artilheiros e abrir claros enormes nas filas dos atiradores, collocados á
retaguarda.
A Mearim ao mando do bravo Elisario Barbosa, postada a 50 braças da esquadra e
bateria inimigas, arremessa-lhes cerradas descargas de artilheria e fusilaria, repelle
abordagens e só abandona o posto quando vôa em soccorro da Parnahyba ou da Belmonte,
prestes á sossobrar. Em seu tombadilho encontra nobremente a morte o guarda marinha
Torreão.
Depois de aguentar ella só toda a furia do inimigo, a Belmonte vê-se presa do
incendio, ateado por uma explosão. Pelos 37 rombos que tem nos costados penetra a agua e
apaga as chammas, mas d’ali mesmo lhe vem maior perigo. As bombas e baldes não
conseguem esgotal-a; o liquido elemento sobe rapidamente; alaga dous pés acima da coberta;
a prôa mergulha…. Só então o intrepido Abreu, que apezar de ferido conserva-se no
passadiço, tracta de encalha-la como unico meio de salvação, e immediatamente cuida de
tapar-lhe os rombos para voltar ao combate.
Cahem, morto á seu lado o 2º tenente Teixeira Pinto, e ferido o pratico Pozzo.
No Beberibe o commandante Bonifacio comporta-se com toda a bravura, expondo
denodadamente a vida preciosa, que dias depois devia ser sacrificada no forçamento de
Mercedes; na Iguatemy o imperturbavel Coimbra, é conduzido em braços para a camara; o
immediato Pimentel que o substitue no passadiço perde, 5 minutos depois, a cabeça, levada

213
por uma bala; assume então o commando o joven Gomes dos Santos, que executa com
denodo as instrucções que lhe envia o prostrado commandante. Este navio collocára-se ao
lado do Jequitinhonha, para defendel-o, e ahi supportou com elle todo o fogo da bateria e da
esquadra paraguayam qye se encarniçárão contra a desmantellada canhoneira; no Ypiranga, o
denodado Alvaro, gravemente enfermo, rivalisa em arrojo e sangue frio com os mais valentes,
e consegue metter no fundo uma chata.
Hoonholtz, admiravel de enthusiasmo e bravura, revela na Araguary, qualidades de
commando raras em tão poucos annos.
Elle bate-se com vivacidade extrema, e ao mesmo tempo que procura causar o maior
prejuizo ao inimigo e cortar-lhe a retirada, soccorre por suas proprias mãos, atirando-lhes
cabos, os infelizes que debatião-se contra a correnteza. Entre o banco e a bateria, no mais
estreito passo, cercão-no os tres vapores que tinhão abordado a Parnahyba; o Taquary,
approxima-se á 10 braças, mas recua, recebendo á queima buxa os disparos de seus 3 rodizios,
simultaneamente carregados a metralha e bala.
Os paraguayos, por sua parte, pelejão com uma coragem inexcedivel. Não é só o
despreso da morte que ostentão, senão o desejo de conseguil-a como heróes. Com uma
tenacidade cega arremessão-se á abordagem de quantos navios se avisinhão nas diversas
peripecias do combate, e as successivas derrotas que experimentão, as perdas enormes, parece
que mais redobrão-lhes o furor, mais lhes accendem a selvagem bravura.
Suas chatas, atirando ao lume d’agua com os grossos canhões que montavão,
despedação os flancos dos navios brasileiros, ameaçando submergil-os de instante á instante.
A artilheria e fusilaria da margem arrojão tambem sobre elles milhares de bombas, balas e
metralha.
A batalha tocou ao seu auge e é talvez ainda duvidoso o exito de tão mortifera
contenda, quando na mente do velho Barrozo, surge a tremenda concepção, que lhe vai pôr
glorioso termo.
Depois de inquerir do commandante Brito sobre a força do navio, e do pratico sobre a
profundidade do canal, transmitte a ordem, que mais tarde reproduzida por Teghethoff em
Lissa, deu aos Austriacos tão celebre victoria.
Deixemos que elle propria descreva rapidamente, como cumprimento de um dever
commum, em linguagem simples e modesta, esse feito memorando.

214
“Subi a prôa sobre o primeiro, e o esmigalhei, ficando completamente inutilisado com
agua aberta, e indo pouco depois a pique.
“Segui a mesma manobra com o segundo, que era o Marquez de Olinda, inutilisei-o, e
depois ao terceiro que era o Salto, o qual ficou no mesmo estado.
“Os quatro restantes, vendo a manobra que eu praticava, e que me dispunha a fazer-
lhes o mesmo, trataram de fugir rio-acima.
“Depois de destruir o terceiro vapor, puz a prôa em uma das canhoneiras fluctuantes, a
qual com um choque e tiro foi ao fundo.
“Exm. Sr. almirante, todas estas manobras eram feitas sob o fogo mais vivo, quer dos
navios e chatas, quer das baterias de terra e fuziliaria de mil espingardas.
“Nossa intenção era destruir por esta fórma toda a esquadra paraguaya, antes que
descesse ou subisse, porque necessariamente mais tarde ou mais cedo tinhamos de encalhar,
por ser naquella localidade muito estreito o canal.
“Finda esta tarefa pelas 4 horas da tarde, cuidei de tomar as canhoneiras fluctuantes,
que ao chegar-me á ellas eram abandonadas, pulando todos no rio e nadando para terra que
ficava a curta distância.”
Anniquilados assim por essa terrível manobra, que soube converter em monitor um
simples navio de madeira, 4 de seus melhores vapores, e apprehendidas ou mettidas á pique as
terriveis chatas, reconheceu o commandante Cabral, que assumira a direcção do combate,
depois de ser mortalmente ferido o chefe Meza, que a perda total da esquadra paraguaya era
inevitavel, e fez do Taquary signal de retirada, sendo o primeiro a fugir, seguido do Iporá,
Igurey e Pirabébé.
Dão-lhe caça a Beberibe e a Araguary, e por ultimo só esta, que percorre cerca de 3
milhas, fazendo-lhes incessante fogo com o rodizio de prôa; mas Hoonholtz comprehende que
seria loucura proseguir com uma guarnição cançada por 8 horas de lucta, sem esperança de
soccorro, contra um inimigo tão superior em forças, e volta á dar fundo entre seus
companheiros de gloria.
A perda da esquadra brasileira foi de 86 mortos e 148 feridos, além de avarias
importantes em quasi todos os navios. Os paraguayos perderão para mais de 1,000 homens
entre mortos e feridos, 4 vapores e 6 baterias fluctuantes.

215
A batalha do Riachuelo, considerada debaixo do ponto de vista exclusivamente
militar, foi um dos maiores feitos navaes de que reza a historia.
Ella assignalou uma época notavel nos annaes da marinha, innovando audaciosamente
a tactica até então conhecida.
Só em combates parciaes se tinha apreciado o proveito á tirar do vapor, jámais
experimentado nas grandes lutas de esquadra contra esquadra.
Ao Brazil coube a gloria de resolver esse problema, mostrando o genio militar do
chefe Barroso que um simples navio de madeira, de rodas e calado improprio para o theatro
de suas evoluções, podia ser empregado como irresistivel ariete.
A apreciação insuspeita das grandes nações maritimas ainda mais realça os louros
colhidos pelo imperio, no memoravel dia 11 de Junho de 1865.
“A esquadra brasileira, disse o Moniteur Universel, mostrou quanto póde a bravura,
alliada á sciencia e á disciplina; e o modo porque manobrarão as canhoneiras colloca a armada
do Brasil e sua officialidade á par das marinhas europêas.”
“O Brasil, proclamou o Morning Herald, justificou a sua pretenção á ser considerado a
primeira nação da America do Sul e o direito á ser futuro inscripto entre as grandes potencias
da Europa.”
Riachuelo, foi um facto culminante na guerra provocada pelo dictador do Paraguay.
A victoria que ali ganhou o Brasil, graças á inexcedivel bravura de seus marinheiros e
á pericia de seu denodado commandante, influio decisivamente na sorte de toda a campanha.
Por um lado, Robles desistio da invasão de Entre-Rios, onde iria encontrar o efficaz
auxilio dos federaes, e suspendeu sua marcha até então triumphante.
Por outro, Estigarribia achou-se compromettido e isolado ás margens do Uruguay. Na
impossibilidade de receber soccorros não poude impedir nem o anniquilamento de uma parte
do seu exercito em Jatahy, nem a rendição do resto em Uruguayana.
Desde logo, o marechal Lopez comprehendeu que não lhe restava outro recurso senão
a guerra deffensiva, nos tremedaes e invias serras de seu desgraçado paiz.
Debalde tentou illudir a opinião do mundo civilisado, qualificando de vergonhosas
traições a rendição de EStigarribia e a repentina immobilidade de Robles.
Este, talvez o mais habil de seus instrumentos, foi prezo e mais tarde fusilado, com o
unico fim de apparentar-se a pretendida traição.

216
A historia attestará que assim como era impossivel á Estigarribia manter-se em
presença das forças, que lhe oppuzerão os alliados, tambem o exercito de Corrientes não
podia proseguir, depois do desbarato da esquadra paraguaya, que tornou summamente
difficeis suas communicações com o territorio da republica, base das operações.
E disso é prova irrecusavel o movimento de retirada que foi gradualmente executando
o general Barrios, successor de Robles no commando, até que em Novembro de 1865 suas
ultimas columnas repassarão o Paraná.
Assim desassombradas dos invasores, e desanimados seus inimigos internos, as nações
alliadas puderão preparar com segurança os elementos necessarios para continuar a luta de
honra, cujos ultimos clarões lampejarão sobre as remotas e solitarias aguas do Aquidaban.
E justo motivo de orgulho nacional deve ser a recordação de que ali, como em
Riachuelo - a bandeira brasileira achou-se só diante do inimigo.

VI
Os generaes Flôres e Mitre approximaram-se então das portas da cidade, ficando do
lado de fóra das trincheiras.
Nesse momento chegou o ministro Ferraz com Estigarribia.
Ao declarar o chefe inimigo que estava rendido, o nosso ministro da guerra tirou-lhe a
espada e o revolver, que trazia á cinta.
Em seguida a este vinha o célebre padre Duarte, tão tranzido de medo que mal podia
caminhar, vendo-se o general Cabral obrigado a amparal-o, e a dizer-lhe para tranquillisal-o: -
“Não tenha medo, que o Imperador garante-lhe a vida.”
Ás 5 horas da tarde os representantes das tres potencias alliadas acercaram-se das
trincheiras para ver desfilar os prisioneiros.
O Imperador estava no centro.
O general Flôres á direita.
O general Mitre á esquerda.
Pungente foi o quadro que então se desenhou á vista dos exercitos aliados e seus
chefes.
Pareciam cadaveres ambulantes, ou loucos fugidos de um hospital.
Em suas physionomias estavam pintadas a fome e a miseria.

217
Os poucos officiaes que havia sahiram desarmados; outros achavam-se doentes na
povoação.
A cidade era um cemiterio. Exhalava cheiro pestifero. Os sitiados não tinhão já que
comer e apenas lhes restavam alguns cavallos magros.
Eis o que a respeito deste memoravel acontecimento escreve o Sr. Dr. Tenente-coronel
Antonio José do Amaral, testemunha occular deste feito, e que por consequencia deve
merecer inteiro credito.
“Reunidas as forças alliadas no acampamento em numero sufficiente para assaltar a
cidade occupada pelos Paraguayos, e cuja fortificação não se conhecia bem, investio-se a
praça, seguindo-se todos os preceitos da arte. Pelo rio, fizeram cerco os vapores de guerra
Taquary, União, Onze de Junho e Uruguay, e mais duas chatas; por terra, o sitio estabeleceu-
se collocando-se pelo lado de L. a 1ª divisão, commandada por Canavarro, com 4 brigadas de
infantaria e cavallaria; pelo lado do S. a 2ª divisão do barão de Jacuhy, composta de 4
brigadas de cavallaria; ao N. estendiam-se as duas divisões alliadas, uma do general Flores,
contendo uma brigada brasileira, e outra do general Paunero acampada na margem esquerda
do rio Imbaá, á retaguarda da divisão Canavarro.
“Todo o exercito sitiante continha cerca de 22,000 homens com 40 bocas de fogo,
sendo 10 nossas e 30 das forças alliadas. A marinha dispunha de 12 peças de grosso calibre.
“O inimigo tinha perto de 6,000 homens, com 5 boccas de fogo de campanha.
“Apertado o sitio, ficou o inimigo em tristes condições e fortes embaraços, limitando-
se sómente aos recursos encontrados em Uruguayana.
“Para salvarem-se os principio de humanidade, podia-se, pela fome, obrigar a praça a
entregar-se á discrição; mas este desfecho trazia uns 15 ou 20 dias mais de demora, e era
necessario activarem-se as operações de guerra; além de que alguma outra força paraguaya
poderia vir em soccorro dos sitiados, e isto seria um novo estorvo a remover-se.
“Ás 6 horas da manhã do dia 18 de Setembro, dia designado para o attaque, todas as
forças sitiantes levantaram acampamento, e na mesma ordem em que estavam acampadas
seguiram em columnas contiguas para Uruguayana. Ás 11 horas a praça estava
completamente investida, e a força disposta em ordem de combate. Á direita da linha achava-
se o exercito brasileiro, a divisão argentina no centro, e a oriental na esquerda; toda a
cavallaria estava á esquerda da linha, á retaguarda e em posição conveniente para protegel-a.
O ataque devia ser precedido por um forte bombardeamento.

218
“A força sitiada estava irremediavelmente perdida.
“.... Investida a praça, notificou-se o rendimento a seu commandante, e, depois da
troca de algumas notas entre os chefes das forças sitiantes e sitiadas, os paraguayos
depuzeram as armas e, humilhados, desfilaram por entre as alas de seus generosos
vencedores.
“Baqueado perante a civilisação o baluarte levantado pelo barbarismo na bella e
heroica provincia de S. Pedro do Rio Grande do Sul, achava-se esta livre de seus selvagens
invasores.”
A seguinte carta, não menos importante, do general Mitre ao vice-presidente D.
Marcos Paz, completa as informações que nos fornecem do proprio theatro dos
acontecimentos:
“A guarnição da cidade de Uruguayana entregou-se á descripção dos alliados, sendo
superior a mais de 6,000 homens.
“Os tropheos da victoria foram:
“5 canhões,
“9 bandeiras,
“Mais de 5,000 espingardas,
“1,300 lanças com suas bandeirolas das côres paraguayas,
“Clavinotes,
“Correiames,
“Caixas de guerra,
“Além de uma esquadrilha de canôas e chatas, nas quaes intentaram evadir-se da sorte
que os esperava.
“O general D. João Madariaga, que foi meu ajudante de campo, apresentará a V. Ex.
uma das bandeiras paraguayas.
“Havendo-se estipulado que a guarnição sahiria das trincheiras desarmada e sem
honras, com seus chefes e officiaes tambem desarmados na frente, e sahindo por essa occasião
da fórma um porta-bandeira, foi della despojado pelo general Cabral, ajudante de campo do
Imperador. Este a recebeu e entregou-m’a, e eu a acceitei em nome do povo argentino, como
recordação do dia de hoje, em que cerca de 7,000 homens desfilaram, rendidos, perante o
soberano e os representantes da soberania dos povos alliados.”
Assim se completou esta phase da campanha do Paraguay.

219
Victoria explendida que não custou uma gotta de sangue aos vencidos nem aos
vencedores.

VII
Pouco depois deste memoravel dia de tanto alcance para o explendor e para a
preponderancia das forças alliadas, e de tão desastradas consequencias para os temerarios
planos do dictador Lopes, o Imperador voltou de novo ao rio grande, e d’ali embarcou para
esta côrte.
Grandes foram as manifestações de regosijo publico que se prepararam na capital do
Imperio para receber o Monarcha, que voltava victorioso de uma batalha incruenta, a qual
influio, no emtanto, poderosamente no exito final da campanha.
Arcos triumphaes, illuminações, festas e bailes, nada faltou para assignalar a data
gloriosa da rendição de Uruguayana, no dia 18 de Setembro de 1865.
A população do Rio de Janeiro exultou de jubilo, e a noticia, espalhada com a maior
rapidez por todos os angulos do imperio, foi acordar nos corações brasileiros estremecimentos
de alegria e de contentamento patriotico.
Entre as significativas demonstrações de prazer nacional, deve mencionarse um
explendido saráo litterario offerecido a S. M. o Imperador nos salões do Club Fluminense.
Ali se celebraram sob todas as formas litterarias as expressões do sentimento publico.
Escriptores nacionaes e estrangeiros concorreram a esta festa das letras, tão brilhante
quanto memoravel.
Não só no Brasil e entre os alliados teve uma grande significação esta victoria
incruenta: tambem entre os estranhos foi ella considerada como um facto significativo para a
civilisação desta parte da America do Sul.
Os sentimentos de patriotismo que animavam o nosso exercito só podem ser
comparados á humanidade e á generosidade com que sempre procedeu com o inimigo
selvagem e feroz, além de traiçoeiro.
As guerras européas, assim terrestres como maritimas, fizeram ainda mais realçar estas
qualidades de nossos valerosos soldados.
Em quanto os nossos concidadãos assignalavam a sua passagem no Paraguay por actos
de valor heroismo, não menos se distinguindo por acções meritorias, os soldados europeus,
filhos dessa outra parte do mundo onde a civilisação está tão adiantada, davam funestas

220
provas de seu barbarismo incendiando cidades, que eram reliquias veneradas de seculos, e
matando e devastando povoações inermes e desprevenidas.
Nenhuma desta maculas manchou felizmente as nossas armas. O soldado brasileiro,
apezar de sua educação civil e falta de tactica militar, foi o verdadeiro soldado do nosso
tempo - paciente, generoso, invencivel!
Tal é o feito que faz o assumpto de nosso segundo quadro.
A rendição de Uruguayana foi um dos mais bellos episodios da campanha do
Paraguay.
Depois do combate de Riachuelo e do aprisionamento de Estigarribia e suas forças, os
acontecimentos bellicos tomaram necessariamente uma outra direcção.
Entraram então os exercitos alliados em uma phase nova, em um novo plano
estrategico.
Depois de haverem desalojado o inimigo do territorio invadido, era preciso, para que a
desaffronta fosse completa, perseguil-o até o seu ultimo reducto, e ali exterminal-o para
sempre.
Os mesmos louros que souberam conquistar nos dois feitos, que já temos mencionado,
os acompanharam, como veremos, nas subsequentes victorias.

221
Segunda divisão commandada pelo Chefe de Divisão Francisco Manoel Barroso da Silva
Armada Exercito
Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas
Comte. Capitão de Frag. Theotonio Raymundo de Brito F. F. Cor. Comte. De Batalhão João Guilherme Bruce -
Capitão-Tenente Delfim Carlos de Carvalho - Tenente assistente José Clarindo de Queiroz -
Primeiro Tenente Luiz da Costa Fernandes - Alferes dito Emiliano Ernesto de M ello Tamborim -
Dito dito José Hypolito de M enezes - Cadete addido Francisco Felix de Bruce -
Dito dito Carlos Frederico de Noronha - Capitão Francisco Borges de Lima -
Dito dito José Antonio Lopes - Tenente Antonio Raymundo Caldas -
Segundo Tenente Julio Cesar de Noronha - Dito Roberto Ferreira da Costa Sampaio -
Amazonas

Guarda-M arinha José Ignacio da Silva Coutinho - Alferes Jacintho Augusto da Cunha Rocha -
Dito dito M anoel José Alves Barboza - Dito M anoel da Silva Rosa Junior -
Segundo Cirurgião Dr. Joaquim Costa Antunes - Dito Carlos Ignacio da Rocha -
Pharmaceutico José Caetano Pereira Pimentel - Cadete Augusto Frederico Pereira de Carvalho -
Capellão Padre Francisco do Carmo Guimarães Diniz - Dito M arcellino Jorge de Campos -
Commisario, 1.ª classe Ignacio da Silva M ello F. F. Dito M anoel Alcantara de Souza Carneiro -
Escrivão, 2.ª dita Carlos Augusto Ribeiro de Campos - Dito Capitolino Bandeira de M ello Loureiro -
Pratico Bernardino Gustavino - Dito M anoel Nonato Neves Seixas -
Dito Augusto Cesar de Alencar -
Dito M anoel Eustaquio Luiz da Silva -
Dito Leopoldo Custodio da Rocha -
Dito Braziliano Bandeira de M ello Loureiro M . em C
Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas
Comte. Capitão Tenente Aurelio Garcindo Fernandes de Sá - Tenente-Coronel José da Silva Guimarães -
Primeiro Tenente Felippe Firmino Rodrigues Chaves - Capitão Pedro Affonso Ferreira M . em C
Dito dito Antonio Pompêo de Albuquerque Cavalcanti - Dito Timoleão Peres de Albuquerque M aranhão -
Dito dito M iguel Joaquim Pederneira - Tenente Leopoldo Custodio da Rocha F. L.
Dito dito M iguel Antonio Pestana - Dito Feliciano Ignacio de Andrade M aia M . em C
Parnahyba

Guarda-M arinha Affonso Henrique da Fonseca M . em C. Alferes Francisco de Paula Barros -


Commisario, 2.ª classe José Guilherme Greenhalg F. F. Dito Pedro Velho de Sá Barreto -
Escrivão, 2.ª dita José Corrêa da Silva - Dito Francisco Antonio de Sá Barreto F. G.
Cadete Luiz José de Souza F. L.
Dito Luiz Francisco de Paula Albuquerque F. L.
Dito Antonio Francisco de M ello F. G.
Dito Liberato Ferreira da Costa -
Dito Luiz Leopoldino Arsenio Barboza -
Dito Caetano Alves Pacheco M . em C
Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas
Comte. Primeiro Tenente Antonio Luiz von Hoonholtz - Tenente Joaquim M anoel da Silva e Sá -
Primeiro Tenente Eduardo Augusto de Oliveira - Dito M anoel Erasmo de Carvalho M oura -
Dito dito Eduardo Frederico M eunier Gonçalves - Alferes José Placido Lucas Brion -
Araguary

Segundo Tenente M anoel Augusto de Castro M enezes - Dito Feliciano de Lira -


Guarda-M arinha Rodrigo Antonio De-Lamare - Dito Albino José de Farias -
Primeiro Cirurgião Dr. Domingos Soares Pinto - Dito Alvaro Conrado Ferreira de Aguiar -
Commisario, 3.ª classe M anoel Candido da Silva F. F. Primeiro Cadete M anoel de Faria Lemos -
Escrivão, 3.ª dita Crioncides de Castro Ferreira Chaves - Dito dito M anoel José da Silva Leite -
Pratico M anoel M ontavio - Segundo dito M arcolino Franco da Silva Lessa -
Dito dito M iguel M uniz Tavarez -
Dito dito Joaqui José de M ello Filho -
Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas
Comte. Primeiro Tenente Justino José de M acedo Coimbra - Tenente-Coronel João José de Brito F. F.
Primeiro Tenente Francisco Xavier de Oliveira Pimentel - M ajor Antonio Luiz Bandeira de Gouvêa F. L.
Iguatemy

Dito dito José Gomes dos Santos - Capitão Domingos Carlos de Sá M iranda -
Segundo Cirurgião João Bernardino de Araujo - Tenente Pedro M artini -
Commisario extranum. Dr. Joaquim de Carvalho Bettamio - Dito Candido José Corrêa da Silva Bourbon -
Escrivão dito Francisco M artins de Oliveira Godoy - Alferes Luiz José Garcia -
Pratico Thomas M anceira - Dito Antonio Luiz Rodrigues -

Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas


Comte. Primeiro Tenente Eliziario José Barboza - Capitão Antonio José da Cunha -
Primeiro Tenente Augusto Cesar Pires de M iranda - Tenente Antonio Pacheco de M iranda Extraviado
Dito dito Arnaldo Leopoldo de M urinelly - Alferes Firmino José de Almeida -
Mearim

Segundo Tenente Filinto Perry - Dito João Carlos de M ello e Souza -


Guarda-M arinha Antonio Augusto de Araujo Torreão M . em C. 222
Aspirante Joaquim Candido do Nascimento F. F.
Commissario, 3.ª classe José Antonio de Sousa Guimarães -
Escrivao, 3.ª dita João Evangelista de M enezes -
Pratico Santiago Pedemonte -
Terceira divisão commandada pelo Capitão de Mar e Guerra José Secundino Gomensoro
Armada Exercito
Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas
Comte. Capitão-Tenente Joaquim José Pinto - M ajor Francisco M aria dos Guimarães Peixoto F. F.
Primro. Ten. (Secret.º) Francisco José de Freitas F. L. Tenente Eduardo Emiliano da Fonseca F. F.
Dito dito Lucio Joaquim de Oliveira - Alferes Sebastião Raymundo Ewerton F. G.
Jequitinhonha

Dito dito Pedro Antonio do M onte Bastos - Dito Francisco de Paula Pereira -
Segundo Tenente M anoel Nogueira de Lacerda F. G. Dito Helvecio M uniz Telles de M enezes -
Guarda-M arinha M anoel do Nascimento Castro e Silva F. G. Dito Antonio Carlos da Silva -
Dito dito Francisco José de Lima Barros M . em C. Cadete Francisco Goularte Pereira Botafogo -
Segundo Cirurgião Dr. M anoel Baptista Valladão -
Capellão Padre Antonio da Immaculada Conceição -
Commissario extranum. José M anoel de Almeida -
Pratico André M otta M . em C.
Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas
Comte. Capitão-Tenente Bonifacio Joaquim de Sant'Anna F. F. M ajor João Baptista de Souza Braga -
Primeiro Tenente João Gonçalves Duarte - Tenente M anoel Francisco Imperial F, L.
Dito dito Estanisláo Przewodowski - Alferes Ajudante José Theotonio de M acedo -
Beberibe

Segundo Tenente Francisco Felix da Fonseca Pereira Pinto - Alferes Secretario José M arcolino de Andrade -
Guarda-M arinha João Gomensoro Wandenkolk F. F. Alferes Clementino José Fernandes Guimarães -
Dito dito Francisco Eustachiano da Costa Penha F. F. Dito Francisco Antonio Leitão da Silva -
Segundo Cirurgião Dr. José Caetano da Costa - Dito Joaquim Castanheda Pimentel -
Comissario, 3.ª classe Francisco Ferreira de Oliveira - Dito Alexandre de Azeredo Coutinho -
Escrivão, 2.ª dita Victor M aria de Guimarães Peixoto -
Pratico Pedro Broches F. F.
Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas
Comte. Primeiro Tenente Joaquim Francisco de Abreu F. L. Capitão Antonio dos Santos Rocha -
Primeiro Tenente Francisco Goularte Rollim - Dito Antonio M uniz Tello de Sampaio -
Belmonte

Dito dito José Antonio de Alvarim Costa - Tenente Antonio Tiburcio Ferreira de Souza -
Segundo Tenente Julio Carlos Teixeira Pinto M . em C. Cadete Leovigildo Cavalcanti de M ello -
Segundo Cirurgião Dr. José Pereira Guimarães - Dito M iguel M aria Gerrard -
Escrivão extranumer.º M anoel Vicente da Silva Guimarães -
Pratico João Baptista Pozzo F. F.
Patentes Nomes Notas Patentes Nomes Notas
Comte. Primeiro Tenente Alvaro Augusto de Carvalho F.F. Tenente João Corrêa de Andrade -
Primeiro Tenente Joaqui Candido dos Reis - Alferes Antonio Firmino da Costa -
Ypiranga

Segundo Tenente José Candido Guillobel - Dito José Joaquim Rodrigues de Araujo -
Dito dito Antonio M aria do Couto F. F. Dito D. Faustino José da Silveira F. L.
Guarda-M arinha Francisco Augusto de Paiva Bueno Brandão -
Segundo Cirurgião Dr. M anoel Joaquim de Saraiva -
Comissario, 3.ª classe D. José de Tavora Noronha A. de Vasconcellos -
Escrivão, 2.ª dita João Carlos de Gouvêa Faria F. F.
Pratico José Picardo -
Declarações
M . em C. Morto em Combate.
F. G. Ferido Gravemente.
F. L. Ferido Levemente
C. Contuso.
F. F. Fallecido.

223
II. A rendição de Uruguayana

I
As paixões do momento falseam muitas vezes o juizo dos contemporaneos,
prejudicando a verdade dos factos na apreciação da historia.
É, pois, difficillimo encargo escrever os annaes do tempo de que somos coevos.
O escriptor, collocado mais proximo dos acontecimentos, não os descreve no seu
complexo absoluto e universal, porque os não examina senão sob o aspecto de uma
perspectiva mais ou menos parcial e systematica.
A maior parte dos chronistas da antiguidade, e quase todos os da idade média, na
proximidade dos principes e na dependencia deles, tornaram-se os seus panegryistas
exclusivos, deixando na sombra as conquistas moraes das idéas e as grandes evoluções da
humanidade na incessante, mas caprichosa unidade da civilisação.
São raros os Tacitos entre os aduladores cortezãos.
A penna vingadora do inflexivel romano só teve raros imitadores.
A corrupção dos costumes e a barbaria dos povos, ainda na infancia do
desenvolvimento intellectual, sem a consciencia dos direitos da liberdade e sem a luz da
sciencia, concorreram para que as obras dos historiadores dessem uma razão convencional aos
factos em menospreso da verdadeira critica e da verdadeira philosophia da historia.
Modernamente Thierry, Guizot, e outros, abriram novo horisonte a este fertil e tão mal
explorado campo das letras. Os eminentes escriptores proclamaram no dominio do
pensamento a emancipação da verdade historica, como nas revoluções politicas destes ultimos
dous seculos o espirito da liberdade proclamou a independencia de todas as legitimas
aspirações sociaes.
Procuremos imitar até onde fôr possivel tão salutar exemplo, e emprehendamos a
succinta descripção deste bello lance da grande epopeia nacional da guerra do Paraguay, sem
outro intuito senão o de sermos justos, e por consequencia escrupulosamente verdadeiros.
Antes, porém, de entrar na parte historicoa e descriptiva do cerco e rendição de
Uruguayana, assumpto que desde já reputamos muito superior ás nossas forças.
acompanhemos primeiro o desenvolvimento do espirito publico nas primeiras phases dessa

224
lucta guerreira, cujos episodios assumiram mais tarde proporções incontestavelmente
gigantescas.

II
A indole do povo brasileiro, como a de todos os povos essencialmente agricolas e
commerciaes, é pacifica e ordeira. A lavoura, que é o fundamento da propriedade, estabelece
interesses estaveis e permanentes. As nações, creadas nos costumes e habitos dessa natureza,
preferem as revoluções lentas da idéa ás explosões rapidas e violentas da força.
Grande é o sacrificio que se lhes impõe, quando são obrigadas a sahir bruscamente
deste estado de quietação productiva para se empenharem nos riscos e nos azares de uma luta
bellicosa, em que quasi sempre é certa a ruina de muitas fortunas laboriosa e longamente
adquiridas.
O sentimento da dignidade nacional, ferido em seus brios mais generosos, é mais forte
porém que todos os estimulos da paz e todas as esperanças douradas e seductoras do futuro.
O cidadão, nas supremas crises da existencia nacional, esquece a familia e o lar, para
só ter presente a imagem severa e augusta da patria desolada.
Então o cordeiro torna-se leão; o pacifico instrumento do trabalho transforma-se em
arma formidavel e destruidora; aos cantos de amor e de paz succedem as estrophes estidentes
e enthusiasticas dos hymnos e das canções guerreiras.
Rapida foi entre os brasileiros esta transformação patriotica. Todos os homens se
converteram em soldados, todas as povoações em acampamentos.
Os paes abraçavam-se aos filhos, e separavam-se delles recommendando-lhes que o
santo amor da terra natal lhes inspirasse denodo e valor invencieis; as mães, como a antiga e
civica romana, entregavam-lhes com as lagrimas nos olhos, mas no coração o fogo do
patriotismo, as armas com que deviam debellar o inimigo e inscrever nos fastos do Brasil as
suas paginas immorredouras.
Ricos e pobres, fracos e fortes, moços e velhos, e alguns ainda no mais fresco verdor
da juventude-accorreram de todos os pontos do immenso Imperio, de suas provincias e
povoações mais proximas, como das mais remotas da capital, a pagar ao governo o tributo de
seu sangue, a entregar á nação a grandiosa offerta de sua vida.
E não foi só a vida, que em honroso holocausto offereceram para desaffronta da
nacionalidade offendida; foi também os haveres, as dadivas de todos os generos, formando

225
avultadissimas contribuições que immediatamente foram offerecidas ao Estado, para accudir
ás immergencias da guerra e ás difficuldades da situação.
Vidas e dinheiro, que tudo devora o genio destruidor das batalhas, augmentam com
abundancia os elementos de resistencia e as probabilidade do triumpho.
Foi deste enthusiamso universal, deste grito expontaneo do patriotismo que nasceram
os VOLUNTARIOS DA PATRIA, os valentes e invenciveis cidadãos soldados, que, á
semelhança das legiões de Pompeo, comparação que tantas vezes lhes prodigalisou, e que
nem por isso deixa de ser menos apropriada, brotaram de todos os pontos da terra brasileira e
formaram um exercito e uma esquadra poderosos.
O Brasil não teve somente de preparar um exercito de terra, numeroso e aguerrido: foi-
lhe tambem preciso, e simultaneamente, armar uma esquadra, não para as francas manobras
do alto mar, mas nas especiaes condições de formidaveis encontros navaes nas voltas e nos
meandros de rios de poucas aguas e constantes embaraços.
Pois exercito e esquadra se apparelharam em pouco tempo, honra aos brios da nação e
ao enthusiasmo heroico de seus filhos!
Na gigantesca provação por que ia passar o Imperio Americano estava-lhe reservado
um duplo triumpho fluvial e terrestre.
Sobre as aguas já vimos o que praticaram os nossos bravos compatriotas no
memoravel combate de Riachuelo, tão eloquentemente descripto em nosso primeiro numero
por penna tão brilhante quanto adestrada: veremos agora como o seu ardente patriotimso se
manifestou nos recontros posteriores áquella grande batalha naval, cuja influencia tão
poderosa foi na marcha e nos destinoes subsequentes da guerra.
O combate de Riachuelo foi o primeiro e decisivo golpe que baqueou com o dictador
do Paraguay.
A inspiração audaz do chefe Barroso, coroada de tão brilante exito, preparou uma serie
de revezes á desvairada ambição do presidentes Lopes, que, sonhando já o domínio e o
senhorio das republicas platinas, esperava constituir-se o arbitro da politica e do destino
daquella parte da America do Sul.
Outro papel, porém, lhe estava reservado nos decretos da Providencia.
O resultado da batalha naval de Riachuelo fez com que Robles, animado até alli pelos
triumphos obtidos e esperando encontrar valiosa cooperação na alliança dos federaes,

226
desistisse da invasão de Corrientes, e paralysasse por este motivo a unidade do plano
estrategico do inimigo, mallogrando-lhe mais esta esperança.
O mesmo aconteceu a Estigarribia. Confinado e isolado nas margens do Uruguay,
perdeu parte de seu exercito na celebre batalha de Jatahy, e o resto, como vamos ver,
dissolveu-se de todo na rendição de Uruguayana.
E este o segundo quadro memoravel da campanha do Paraguay, que vamos apresentar
ao publico, completando o primoroso desenho que acompanha esta descripção, devido ao
inspirado talento de um notavel artista brasileiro, essa parte ideal e luminosa dos
acontecimentos que a penna do escriptor não pôde reproduzir.

III
A altiva e heroica provincia do Rio Grande do Sul foi aquella a que coube, pelo seu
espirito aguerrido e pela sua posição geographica, maior quinhão de sacrificios e tambem de
gloria nesta prolongada campanha contra os insultos e as imprudentes aggressões de Lopes.
Sentinella avançada do Imperio, attenta ao rumor e ao movimento das nações visinhas,
com as fronteiras abertas ás excursões dos aventureiros, não podia ella deixar de ser o
primeiro alvo das depredações do inimigo barbaro e enfurecido.
Repetidos e assustados foram os terriveis episodios, que ensanguentaram as plagas da
terra riograndense.
Em muitos pontos o terror apoderou-se de tal modo das povoações, que estas tiveram
de abandonar os lares e procurar refugio mais propicio nos desertos e nas florestas
impenetraveis.
O exercito invasor, composto de hordas selvagens e ferozes, obedientes á tyrannia, e
enthisiasmadas pelo fanatismo, desempenhava-se, como torrente indomita, de nascentes
tenebrosas e desconhecidas, invadindo as pacíficas moradas de nossos criadores e estanceiros,
e espalhando por toda a parte a destruição, a deshonra, a affronta, as lagrimas e o sangue.
Sem a segurança da vida, desappareciam as garantias da propriedade. O panico, mal
contagioso, apoderou-se dos invadidos inermes.
A notícia de todos estes acontecimentos, transmittida rapidamente á capital do
Imperio, e tomando maior vulto com a indignação nacional, produzio a mais profunda e
dolorosa impressão em todos os corações brasileiros.
Foi bello nesse momento o espectaculo que offerecem a cidade do Rio de Janeiro.

227
Nacionaes e estrangeiros pareciam animados do mesmo sentimento. todos
desposavam, como sua propria, a causa do Brasil; e entre maldições ao inimigo, o governo
recebia a cada instante a sincera manifestação e a cooperação activa de todas as classes de
nossa população.
Ao grito: - Vamos para o Sul! - alistavam-se a todos os minutos as valentes phalanges
dos voluntarios da patria.
Todos os dias se annunciava a partida de um ou de mais transportes para a provincia
do Rio Grande do Sul, levando novos e avultados contingentes de forças, importantes
munições de guerra, e finalmente todos os immensos recursos indispensaveis para improvisar
um exercito de respeitaveis e temiveis proporções.
Aos eloquentes discursos pronunciados pelos mais notaveis oradores da nossa tribuna
parlamentar, nos dous ramos da representação nacional, que tão nobre e patriotica attitude
assumiram, juntava-se a voz da imprensa unanime, transmittindo ella mesma o impulso que
recebia da opinião indignada.
O patriotismo então electrisou todas as cabeças, e robusteceu todos os braços.
O Imperador, como era de esperar, collocou-se a frente do movimento patriotico.
Seus augustos genros foram inseparaveis a seu lado.
Estigarribia já acossado, porém ainda forte com o resto de sua expedição,
entrincheirou-se e fortificou-se em Uruguayana.
O exercito alliado, perseguindo o inimigo, pôz cerco á praça.
Deve suppôr-se quanto empenho o inimigo devia ter na conservação dessa posição,
um dos ultimos ductos da ambição de Lopes e uma das ultimas esperanças do partido
reaccionario oriental.
Invadindo a provincia do Rio Grande e apoderando-se de Uruguayana, Estigarribia
não se affastou nunca do plano estrategico do dictador do Paraguay.
A traição, a sorpreza, a emboscada foram sempre os caminhos tortuosos que elles
seguiram em toda a campanha, não só quando ainda podiam conceber alguma probabilidade
de victoria, mas até ao proprio momento em que, depois da tomada de Assumpção, o general
Lopes succumbio em Aquidaban, no dia 1º de Março de 1870, dissipando-se como fumo a
vida e os sonhos audaciosos de sua ambição.

228
A invasão e a tomada de Uruguayana pela divisão de Estigarribia foram, como todas
as incursões paraguayas, assignaladas por actos de verdadeira e cruel selvageria, que a penna
se recusa a reproduzir, com temor de envergonhar a historia.
A sanguinolenta hecatombe das victimas exigia reparação prompta e solemne.
O Imperador e seus genros, resolvidos a tomar parte na luta, decidiram dirigir-se ao
theatro da guerra, acompanhados de luzidos e valentes auxiliares bellicosos.
O patriotismo do chefe do Estado, que, em todas as immergencias publicas, se mostrou
sempre tão acrysolado, recrescera ainda, se possivel é, ao espectaculo continuo das tocantes
despedidas com que, a sabida de cada novo contigente de tropa de linha ou voluntarios da
patria, abraçava os officiaes e os soldados na hora da separação.
Mal poderá avaliar essas scenas varonis e ao mesmo tempo compungentes quem não
assistio a ellas!
Era de ver como essa hora suprema os nossos bravos concidadãoes, apartando-se da
patria e de todas as caras affeições que ahi lhe ficavam, embarcavam resolutos, entre as
acclamações e os vivas da população commovida e enthusiastica!

IV
Resolvida a partida, o Imperador mostrou-se inabalavel em sua resolução. Os
conselhos previdentes dos amigos, as manifestações collectivas, os argumentos e razões
políticas com que se pretendia combater este alvitre, não conseguiram demover o animo
imperial.
No dia 10 de Julho de 1865 embarcava Sua Magestade e seus genros no vapor Santa
Maria, em direcção á desolada provincia do Rio Grande do Sul.
Grande foi a emoção popular nesse dia. As multidões agglomeravam-se no littoral da
cidade para saudar os Augustos Voluntarios. A bahia do Rio de Janeiro offerecia um
espectaculo tão pittoresco como imponente. Em terra, a massa confusa de milhares de
cabeças; sobre as aguas do rio, as tripolações subidas ás vergas dos navios, emquanto as
fortalezas e os vasos de guerra saudavam com o estrondo da artilharia a partida do Monarcha.
No dia 16 o vapor Santa Maria entrava na barra do Rio Grande.
Este acontecimento infundio novo animo aos filhos aguerridos da heroica provincia.
A presença do Sr. D. Pedro II no meio de seu exercito foi um mincio de victoria.
O Imperador partio logo apoz em direcção de Uruguayana.

229
A sua marcha por terra foi assignalada por episodios, que o tornaram bemquisto de
todos os corações rio-grandenses.
O Imperador e seus genros, tomando parte activa nas fadigas da campanha, poderam
avaliar de perto a disciplina e a coragem dos soldados brasileiros, faltos muitas vezes dos
mais indispensaveis recursos, fazendo longas marchas forçadas por entre caminhos inhospitos
e asperrimas brenhas, sem que nunca lhes arrefecesse no peito o amor da patria e o valor
inexcedivel.
Accommettidos de noite por um temporal, o Imperador e sua comitiva tiveram ccasião
de assistir ao expetaculo medonho e ao mesmo tempo sublime dos elementos em luta, e
grande foi o seu assombro ao contemplarem de madrugada os destroços da tormenta, cujo
açoite arrancará as barracas do accampamento e alastrara a campina de animaes mortos.
Assim como o frio e a fome, que supportou com heroica resignação, não conturbaram
o animo de Sua Magestade, o mesmo lhe aconteceu com as ruinas do temporal.
Commoveu-o, porém, a vista de um soldado quasi morto e enregelado pelo frio, que
teria sem duvida succumbido a não acudir-lhe o Imperador, que com sua capa o agasalou e lhe
prodigalisou os possiveis soccorrros, esquecendo-se de si proprio em auxilio de um
desgraçado.
Narrando as peripecias desta jornada, diz uma publicação feita pouco tempo depois
nesta côrte:
“Nem chuva, nem vento, nem frio, impedem o Imperador de viajar, de passar revista
ás tropas que vae encontrando pelo caminho, e de expedir ordens no sentido de facilitar a
marcha de forças que se dirigem ao theatro da guerra. No meio do sentimento de aversão que
o cannibalismo inimigo levanta em todos os corações brasileiros, o Sr. D. Pedro II não se
esquece de recommendar á seus soldados a generosidade que devem dispensar aos vencidos, e
promette severo castigo áquelle que ousar manchar a pureza do pavilhão brasileiro com
qualquer ação de barbaridade, destinado a desvirtuar o elemento civilisador que suas armas
representam”.

V
Estigarribia, apezar de cercado pela força imponente de tres exercitos, não modera a
sua linguagem.
Ás intimações que le são dirigidas responde com arrogancia intoleravel.

230
A prolongação do sitio de Uruguayana foi devida a este facto, se bem que não faltasse
quem a attribuisse a emullação despertada pelos generaes alliados no commando em chefe do
exercito.
Quando mesmo assim fosse, a presença do Imperador n’aquelle momento acabava
com todas as pretenções, e dava ao Brasil o lugar que naturalmente lhe competia no deselace
da acção.
Achava-se nesse tempo o Sr. conselheiro F. Octaviano d’Almeida Rosa na missão
diplomatica de nosso enviado extraordinario junto ás republicas platinas, nossas alliadas e o
Sr. conselheiro Angelo Muniz da Silva Ferraz, mais tarde visconde de Uruguayana, então
ministro da guerra, no proprio theatro da guerra.
Foi por informação destes dous distinctos cavalheiros que lhe haviam sido feitas, e
tendo-se providenciado a tudo para a acção decisiva, ordenou o Imperador que se apertasse o
cêrco e se obrigasse por uma vez Estigarribia á ultima resistencia e a final capitulação.
No plano do attaque, a collocação dos exercitos era a seguinte: no centro o argentino, á
direita o brasileiro, e á esquerda o oriental.
Para chegar á povoação era preciso passar um arroio, que demorava a 20 quadras do
acampamento recentemente levantado pelos nossos, o que se fez com tanta presteza que, ao
meio dia do memoravel 18 de Setembro de 1865, os tres corpos rodearam uma parte da
cidade, apoiando-se á direita e á esquerda das divisões argentinas e oriental, sobre o lado do
cemiterio abandonado.
As notas de que extrahimos estas informações acrescentam que as nossas baterias
foram collocadas a 6 braças da praça, em quanto o corpo da infantaria formava a columna da
retaguarda.
Magestoso era o quadro que apresentava a marcha rapida desses 22,000 homens sobre
a povoação, inebriados pelo som das musicas marciaes e pelo ardor do enthusiasmo.
A artilharia e a infantaria avançaram rapidamente sobre as trincheiras, sem que se
désse um só tiro, e chegaram a menos de 2 quadras dos fossos.
Os generaes, com seus estados maiores, conservavam-se impassiveis, observando o
interior da cidade, visto que toda a guarnição se achava no longo do seu baluarte de defeza.
Tanto o Imperador como os Principes trajavam modestamente á moda do Rio Grande,
trazendo ponches e chapéos pretos de abas largas.

231
O general Mitre, segundo refere Hector Varella, disse, no momento de se
aproximarem aos fossos: “Se não se renderem, damos=lhe uma descarga d’artilharia, e em
seguida tomamos a praça á bayoneta”.
Em menos de um quarto de hora mais de mil paraguayos tinham transposto o unico
fosso que os separava do acampamento alliado, e commerciaval com os nossos soldados.
O general Porto Alegre, encarregado das negociações, regressou da praça, ás 2 horas
da tarde, para o campo do Imperador.
Sua Magestade conferenciou com os generaes Mitre e Flôres; e, em seguida, o Sr.
conselheiro Angelo Ferraz dirigio-se á praça a fim de terminar a capitulação.
Ás 3 ½ horas da tarde o conselheiro Ferraz mandou avisar o Imperador que tudo
estava concluido. Estigarribia rendera-se.

VI
Os generaes Flôres e mitre approximaram-se então das portas da cidade, ficando do
lado de fóra das trincheiras.
Nesse momento chegou o ministro Ferraz com Estigarribia.
Ao declarar o chefe inimigo que estava rendido, o nosso ministro da guerra tirou-lhe a
espada e o revolver, que trazia á cinta.
Em seguida a este vinha o célebre padre Duarte, tão tranzido de medo que mal podia
caminhar, vendo-se o general Cabral obrigado a amparal-o, e a dizer lhe para tranquillisal-o: -
“Não tenha medo, que o Imperador garante-lhe a vida”.
Ás 5 horas da tarde os representantes das tres potencias alliadas acercaram-se das
trincheiras para ver desfilar os prisioneiros.
O Imperador estava no centro.
O general Flôres á direita.
O general Mitre á esquerda.
Pungente foi o quadro que e ntão se desenhou á vista dos exercitos alliados e de seus
chefes.
Os soldados paraguayos inspiravam a um tempo, como diz o citado informante,
compaixão e desprezo.
Pareciam cadaveres ambulantes, ou loucos fugidos de um hospital.
Em suas physionomias estavam pintadas a fome e a miseria.

232
Os poucos officiaes que havia sahiram desarmados; outros achavam-se doentes na
povoação.
A cidade era um cemiterio. Exhalava cheiro pestifero. Os sitiados não tinham já que
comer e apenas lhes restavam alguns cavallos magros.
Eis o que a respeito deste memoravel acontecimento escreve o Sr. Dr. Tenente-coronel
Antonio José do Amaral, testemunha occular deste feito, e que por consequencia deve
merecer inteiro credito.
“Reunidas as forças aliadas no acampamento em numero sufficiente para assaltar a
cidade occupada pelos Paraguayos, e cuja fortificação não se conhecia bem, investio-se a
praça, seguindo-se todos os preceitos da arte. Pelo rio, fizeram cerco os vapores de guerra
Taquary, União, Onze de Junho e Uruguay, e mais duas chatas; por terra, o sitio estabeleceu-
se collocando-se pelo lado de L. a 1ª divisão, commandada por Canavarro, com 4 brigadas de
infantaria e de cavallaria; pelo lado do S. a 2ª divisão do barão de Jacuhy, composta de 4
brigadas de cavallaria; ao N. eestendiam-se as duas divisões alliadas, uma do general Flores,
contendo uma brigada brasileira, e outra do general Paunero acampada na margem esquerda
do rio Imbaá, á retaguarda da divisão Canavarro.
“Todo o exercito sitiante continha cerca de 22,000 homens com 40 bocas de fogo,
sendo 10 nossas e 30 das forças alliadas. A marinha dispunha de 12 peças de grosso calibre.
“O inimigo tinha perto de 6,00 homens, com 5 bocas de fogo de campanha.
“Apertado o sitio, ficou o inimigo em tristes condições e fortes embaraços, limitando-
se sómente aos recursos encontrados em Uruguayana.
“Para salvarem-se os principios de humnanidade podia-se, pela fome, obrigar a praça a
entregar-se á discrição; mas este desfecho trazia uns 15 ou 20 dias mais de demora, e era
necessario activarem-se as operações de guerra; além de que alguma outra força paraguaya
poderia vir em soccorro dos sitiados, e isto seria um novo estorvo a remover-se. Decidio-se,
portanto, o assalto, depois da intimações aconselhadas pela humanidade e civilisação, as
quaes foram repellidas com estupida selvageria.
Ás 6 horas da manhã do dia 18 de Setembro, dia designado para o attaque, todas as
forças sitiantes levantaram acampamento, e na mesma ordem em que estava acampadas
seguiram em columnas contiguas para Uruguayana. Ás 11 horas a praça estava
completamente investida, e a força disposta em ordem de combate. Á direito da linha achava-
se o exercito brasileiro, a divisão argentina no centro, e a oriental na esquerda; toda a

233
cavallaria estava á esquerda da linha, á retaguarda e em posição conveniente para protegel-a.
O ataque devia ser precedido por um forte bombardeamento.
“A força sitiada estava irremediavelmente perdida.
“.... Investida a praça, notificou-se o rendimento a seu commandante, e, depois da
troca de algumas notas entre os chefes das forças sitiantes e sitiadas, os paraguayos
depuzeram as armas e, humilhados, desfilaram por entre as alas de seus generosos
vencedores.
“Baqueado perante a civilisação o baluarte levantado pelo barbarismo na bella e
heroica provincia de S. Pedro do Rio Grande do Sul, achava-se esta livre de seus selvagens
invasores”.
A seguinte carta, não menos importante, do general Mitre ao vice-presidente D.
Marcos Paz, completa as informações que nos fornecem do proprio theatro dos
acontecimentos:
“A guarnição da cidade de Uruguayana entregou-se á descripção dos alliados, sendo
superior a mais de 6,000 homens.
“Os tropheos da victoria foram:
“5 canhões,
“9 bandeiras,
“Mais de 5,000 espingardas,
“1,300 lanças com suas bandeirolas das côres paraguayas,
“Clavinotes,
“Correiames,
“Caixas de guerra.
“Além de uma esquadrilha de canôas e chatas, nas quaes intentaram evadir-se da sorte
que os esperava.
“O general D. João Madariaga, que foi meu ajudante de campo, apresentará a V. Ex.
uma das bandeiras paraguayas.
“Havendo-se estiuplado que a guarnição sahiria das trincheiras desrarmada e sem
honras, com seus chefes e officiaes tambem desarmados na frente, e sahindo por essa occasião
da fórma um porta-bandeira, foi della despojado pelo general Cabral, ajudante de campo do
Imperador. Este a recebeu e entregou-m’a, e eu a acceitei em nome do povo argentino, como

234
recordação do dia de hoje, em que cerca de 7,000 homens desfilaram, rendidos, perante o
soberano e os representantes da soberania dos povos alliados”.
Assim se completou esta phase da campanha do Paraguay.
Victoria explendida que não custou uma gota de sangue aos vencidos nem aos
vencedores.

VII
Pouco depois deste memoravel dia de tanto alcance para o explendor e para a
preponderancia das forças alliadas, e de tão desastradas consequencias para os temerarios
planos do dictador Lopes, o Imperador voltou de novo ao Rio Grande, e d’ali embarcou para
esta côrte.
Grandes foram as manifestações de regosijo publico que se prepararam na capital do
Imperio para receber o Monarcha, que voltava victorioso de uma batalha incruenta, a qual
influio, no emtanto, poderosamente no exito final da campanha. Arcos triumphaes,
illuminações, festas e bailes, nada faltou para assignalar a data gloriosa da rendição de
Uruguayana, no dia 18 de Setembro de 1865.
A população do Rio de Janeiro exultou de jubilo, e a notícia, espalhada com a maior
rapidez por todos os angulos do imperio, foi acordar nos corações brasileiros estremecidos de
alegria e de contentamento patriotico.
Entre as significativas demonstrações de prazer nacional, deve mencionar-se um
explendido saráo litterario offerecido a S. M. o Imperador nos salões do Club Fluminense.
Ali se celebram sob todas as formas litterarias as expressões do sentimento publico.
Escriptores nacionaes e estrangeiros concorreram a esta festa das letras, tão brilhante
quanto memoravel.
Não só no Brasil e entre os alliados teve uma grande significação esta victoria
incruenta: tambem entre os estranhos foi ella considerada como um factor significativo para a
civilisação desta parte da America do Sul.
Os sentimentos de patriotismo que animavam o nosso exercito só podem ser
comparados á humanidade e á generosidade com que sempre procedeu com o inimigo
selvagem e feroz, além de traiçoeiro.
As guerras européas, assim terrestres como maritimas, fizeram ainda mais realçar estas
qualidades de nossos valerosos soldados.

235
Em quanto os nossos concidadãos assignalavam a sua passagem no Paraguay por actos
de valor e heroismo, não menos se distinguindo por acções meritosas, os soldados europeus,
filhos dessa outra parte do mundo onde a civilisação está tão adiantada, davam funestas
provas de seu barbarismo incendiando cidades, que eram reliquias venerandas de seculos, e
matando e devastando povoações inermes e desprevenidas.
Nenhumas desta maculas manchou felizmente as nossas armas. O soldado brasileiro,
apezar de sua educação civil e falta de tactica militar, foi o verdadeiro soldado do nosso
tempo-paciente, generoso, invencivel!
Tal é o feito que faz o assumpto de nosso segundo quadro.
A rendição de Uruguayana foi um dos mais bellos episodios da campanha do
Paraguay.
Depois do combate de Riachuelo e do aprisionamento de Estigarribia e suas forças, os
acontecimentos bellicos tomaram necessariamente uma outra direcção.
Entraram então os exercitos alliados em uma phase nova, em um novo plano
estrategico.
Depois de haverem desalojado o inimigo do territorio invadido, era preciso, para que a
desaffronta fosse completa, perseguil-o até o seu ultimo reducto, e ali exterminal-o para
sempre.
Os mesmos louros que souberam conquistar nos dois feitos, que já temos mencionado,
os acompanharam, como veremos, nas subsequentes victorias.

III. O ataque da Ilha do Cabrita ou da Redempção

Corria o mez de Abril de 1866.


Havia pouco mais de um anno que o Chefe supremo do Paraguay, fazendo-se
mantenedor do equilibrio sul-americano, que só elle aliás pretendia romper, arrojará sobre os
povos vizinhos desarmados e desprevenidos suas hostes semi-barbaras e fanatisadas.
Ao noirte, na provincia de Matto-Grosso, provincia remota, despovoada e limitrophe
do Paraguay, o pavilhão tricolor do povo guarany maculava ainda com a sua sombra
sangrenta o solo sagrado do Brazil; mas ao sul, revezes sobre revezes tinhão succedido aos
seus primeiros triumhpos, filhos da sorpreza e da felonia.
O exercito alliado, composto em grande parte de homens que na vespera havião
abandonado a enxada ou a lima, a penna ou o pincel, as lides do commercio ou os trabalhos

236
do gabinete, e que, reunidos ás pressas em batalhões, sem disciplina nem instrução, marcharão
sobre o inimigo de que estavão separados por centenares de leguas, havia esmagado 3,000
Paraguayos em Jatahy, aprisionado 5,000 em Uruguayana e enxotado da Confederação
argentina as numerosas phalanges de Resquin, emquanto a esquadra brazileira escrevia nos
fastos heroicos da humanidade essa pagina esplendente, que se chama a batalha naval de
Riachuelo.
Deixando mais tarde os acampamentos da Lagôa brava e da Tala-Corá, onde
demasiadamente se demorará, viera elle afinal fincar as suas tendas na margem esquerda do
rio Paraná, em frente ao Passo da Patria, quartel-general de Lopes, e ao alcance de artilharia
do Itapirú, fortim erguido na ribanceira opposta pelo pai do dictador.
Sahindo apressadamente do territorio argentino, o exercito paraguayo abandonára a
offensiva audaciosa com que começára a luta, e que lhe dera tão amargos fructos, para
collocar-se francamente na defensiva.
Desde então começarão as retiradas; retiradas seguidas de longas paradas em pontos
protegidos por obstaculos naturaes, fortificados pela arte, e entremeiadas de ataques bruscos,
de sortidas e sorprezas mais ou menos felizes, porém, sempre vigorosa e valentemente
executadas. Terrivel systema, capaz de eternisar a guerra por maiores que sejão os recursos, o
valor-e a superuoridade numerica dos adversarios, quando fôr energicamente dirigido e posto
em pratica com abnegação e coragem. E Lopes deu provas de uma energia inquebrantavel;
seu exercito tinha o valor e a disciplina que levarão o soldado á morte certa sem cuidados,
sem murmurios, sem hesitação; seu povo possuia bastante abnegação para, em obediencia a
uma simples ordem, abandonar tranquilamente o lar, destruir as searas affrontar a fome e fugir
do contacto de um inimigo que lhe offerecia liberdade e protecção, deixando-lhe sómente
campos talados, arvores cuidadosamente despidas de fructos, e a agua de seus brejos, onde
saciando-se a sede muitas vezes se bebia a morte.
Além disso, o paiz, cortado de rios, coberto de pantanos e de tremedaes sem fundo,
sobretudo na região por onde podia ser mais facilmente atacado, erriçado de mattas tropicaes,
quasi sem estradas e de seculos vedado ao estrangeiro, estava talhado para taes operações.
Lopes comprehendeu tudo isto; tarde para triumphar, se triumphar podia, mas ainda
em tempo de paralysar durante annos os esforços de tres povos contra elle colligados.

237
Tendo o exercito de Resquin transposto o Paraná, o dictador reunio-o ás suas outras
forças, e postou-o na margem direita desse rio collosal, interpondo assim um fosso enorme
entre os seus canhões e as bayonetas da alliança.
Fôra executada a primeira retirada ia ter lugar a primeira parada.
Primeira retirada, primeira parada, que devião ser seguidas de outras muitas, durante
quatro annos, através de todo o territorio paraguayo, desde o Passo da Patria até ao
Aquidaban, e que constituem outras tantas peripecias da epopéa da defesa, epopéa brilhante,
se o seu principal protogonista não alliasse a uma indomavel tenacidade a fereza do tigre; se
os outros personagens, grandes ou pequenos, não deixasem transparaecer, mesmo nos seus
feitos mais notaveis, antes a obediencia passiva do escravo que morre porque o senhor lh’o
ordena, do que o enthusiasmo viril do cidadão que por impulso proprio á patria se sacrifica.
Fazendo alto na margem direita do Paraná, o execrito paraguayo esperava o inimigo
protegido por um tremendo obstaculo que os alliados devião transpor, se as nações que
representavão não se contentassem, como não se contentavão, em repellir a invasão que tão
brutalmente lhes fôra levada.
A expulsão de Lopes das livres terras da America era para ellas não só questão de
ponto de honra, mas garantia de um futuro tranquilo e desassombrado. Derrocar de uma vez o
fatal sisteema implantado por Francia no Paraguay, e que fazia do povo dessa republica um
grande exercito, feroz e disciplinado até o automatismo, afiada espada sempre apontada aos
peitos dos vizinhos, tornára-se para ellas uma necessidade indeclinavel, se querião afazer os
braços de seus filhos antes ao serviço do arado ou aos trabalhos da industria, do que ao
manejo da lança e aos exercicios da artilharia, se ambicionavão vel-os a labutar nas officinas e
herdades, e não agglomerados nas fronteiras, de espingarda ao hombro e de patrona á cinta.
Atravessar, porém, um grande rio, guardado por um exercito numeroso e valente,
tendo-se de penetrar em regiões desconhecidas e mysteriosas, é sempre uma operação
arriscadissima. Era, entretanto, preciso executal-a, e quanto antes.
O tempo necessario para preparal-a já parecia por demais longo ás nações alliadas,
que, ardendo na febre da vingança, pedião em altos brados prompta e completa desforra dos
insultos recebidos.
Havião entregue aos seus generaes o mais puro de seu sangue, posto á sua disposição
todos os seus thesouros; nem hesitavão em comrpometter o futuro, nem as assombrava a
miseria e o luto. - Vingai-nos, dizião; e vingai-nos já.

238
Mas a responsabilidade dos generaes era immensa; as febres populares dissipão-se; a
reflexão vem depressa quando a despertão o pranto das mãis, os gemidos dos orphãos e a
aspera voz do fisco a reclamar a maior parte do producto de afanoso labor.
Era preciso atravessar o Paraná; perseguir a fera no seu antro: mas os que estavão á
testa do exercito devião assegurar, tanto quanto possivel, um exito feliz a essa perigosa
operação, para que mais tarde não se lhes pedisse severa conta do sangue inutilmente
derramado, dos recursos esbanjados por falta de tino e de prudencia.
Entretanto, a impaciencia que lavrava no animo dos povos alliados trabalhava tambem
o espirito de seus exercitos: cumpria fazer-se alguma cousa; tiral-os dainacção em que havião
cahido; do contrario se crearia talvez o desanimo, ou pelo menos se adormeceria o nobre afan,
a sêde de combates de que estavão animados.
Foi, cremos, principalmente sob a pressão dessas considerações que o general em
chefe dos exercitos alliados accedeu ao plano apresentado em conselho pelo então major Dr.
José Carlos de Carvalho, chefe da Commissão de Engenheiros do exercito brazileiro. Esse
distincto official, que mais tarde veio a succumbir no serviço do paiz, propunha que fosse
occupada a ilha, ou antes o banco, que na vasante o Paraná deixa a descoberto em frente ao
Itapirú.
Essa idéa fôra muito impugnada. Fizera-se notar que a occupação da ilha não traria
vantagens e sujeitaria as forças que nella terião de permanecer ao fogo do inimigo e a penosos
sacrificios. De posse della sem duvida de mais perto se poderia bombardear o Itapirú; porém
este fortim mais facilmente seria destruido pelos pesados canhões dos encouraçados do que
pela pequena artilharia do exercito. Occupada a ilha facilitava-se a passagem do Paraná?
Directamente, de certo que não. Indirectamente, talvez que sim; servindo essa occupação para
illudir os Paraguayos em frente á ilha, no ponto mais guardado da margem paraguaya, e sob o
fogo dos canhões das suas fortificações.
Quer porém interviessem decisivamente, como cremos, as considerações de ordem
moral acima apontadas, quer não, o que é facto é que o plano de occupar-se a ilha foi
abraçado pelo general em chefe.
Na noite do dia 5 de Abril algumas canôas guarnecidas por praças do exercito, e
conduzindo a parte do 3º batalhão de infantaria brazileira, acompanhávão um vaporzinho qem
que ião o chefe e outros membros da commissão de engenheiros, dirigindo-se da margem
correntina para a ilha, onde sem novidade chegárão.

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Chefe e membros da commissão de engenheiros, officiaes e praças do 3º de infantaria
em pouco tempo a percorrêrão.
Estava desertam e seu solo completamente arenoso prestava-se a que em poucas horas
nella se erguessem fortificações passageiras.
Feito o reconhecimento, regressou a expedição.
No dia seguinte (6 de Abril) reinava notavel animação nos arraiaes do exercito
brazileiro. Sabia-se já que se ia occupar a ilha naquelle mesmo dia, e esse acto de franca
offensiva exaltava os espiritos.
Na beira do rio batião-se os ultimos pregos das jangadas que devião servir ao
transporte, nos acampamentos dos corpos dava-se a ultima de mão aos cestões e salsichões,
que se estavão preparando havia dias; na quartel-mestrança recebião-se milhares de saccos
entregues pelos fornecedores, e na commissão de engenheiros reunião-se pás, enxadas e
picaretas.
A tarde estava tudo prompto, e em jangadas, canôas e pequenos vapores forão
embarcados cestões, saccos, salsichões, utensilios de sapa, munições de boca e de fogo, 4
canhões e outros tantos morteiros; os primeiros, pertencentes á primeira bateria do 1º batalhão
de artilharia a pé, sob o commando do capitão Francisco Antonio de Moura, os segundos,
constituindo uma bateria especial, sob o commando do capitão Antonio Tiburcio Ferreira de
Souza.
Depois chegou a vez de embarcarem-se o 14º de infantaria, formado em grande parte
por guardas nacionaes do municipio neutro e commandado pelo major Joze Martini/ o 7º de
voluntarios, organisado em S. Paulo e tenente-coronel Francisco Joaquim Pinto Pacca; um
contigente do batalhão de engenheiros, sob o commando do capitão Brazilio de Amorim
Bezerra.
O embarque de todo esse pessoal, novecentos homens, e sobretudo de tão pesado
material, consummio toda a tarde e os primeiros momentos da noite.
Concluio elle, jangadas e canôas, a reboque dos pequenos vapores, puzerão-se a
caminho para a ilha, e a ella aportárão já a hora avançada, sem terem sido incommodados pelo
inimigo, a quem de certo não havião escapado os preparativos da expedição, mas que
ignorava o seu destino.

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A ilha, como já dissemos, é um simples banco de arêa, completamente submergido nas
grandes cheias do Paraná. Tem uma fórma um tanto oval e o seu maior diametro fica paralello
ás margens do rio.
Esta muito mais proxima do territorio paraguayo, a que pertence, de que do correntino:
mas é ainda separada daquelle por um canal assás largo e, como depois se soube, bastante
profundo.
Quando nella desembarcou a expedição estava em grande parte coberta de alta e
espessa macega. Dominava-a o fortim de Itapirí, a alcance de um tiro de carabina.
A bateria desse fortim, e as que os Paraguayos collocassem na margem do rio,
poderião facilmente varrel-a.
A posição seria, pois, insustentavel, se os occupantes não tratassem logo, na mesma
noite de seu desembarque, de levantar seguras trincheiras, que os abrigassem na manhã
seguinte das balas, que, era de esperar, choverião sobre eles.
Foi esse o primeiro cuidado do tenente-coronel João Carlos de Willagran Cabrita,
commandante da força expedicionaria.
Com uma actividade digna dos maiores ecomios traçou logo a linha das trincheiras e
distribuio o trabalho entre os seus subordinados, que com ardor puzerão mãos á obra.
Os cestões e os salsichões estavão preparados; não faltava arêa para encher os saccos;
sobravão enxadas e pás para cavar um terreno pouco consistente; os braços erão robustos e
diligentes. Estes preparão o fosso, aquelles enchem os saccos outros empilhão e collocão
cestões e salsichões. Durante toda a noite esses novecentos homens trabalhárão sem cessar;
mas quando o dia surgio uma forte linha de trincheiras, guarnecida por oito bocas de fogo, os
protegia da artilharia inimiga, estavão desde então solidamente estabelecidos em um pedaço
do solo paraguayo.
As trincheiras erão duas, mas formavão uma unica linha defensiva, desenvolvida
pouco mais ou menos no sentido longitudinal da ilha. A da direita era um pouco obliqua á
direcção das margens do rio. Mais approximada na sua extrema direita da margem correntina
do que da paraguaya, formava depois na esquerda um angulo obtuso, cujo vertice era dirigido
para o Itapirú. A parte dessa trincheira que, vindo da direita, precedia o angulo, abrigava o 7º
de voluntarios e o 14º de infantaria; a parte que succedia ao angulo estava guarnecida por
dous canhões. No prolongamento dessa parte artilhada, em uma direcção parallela ás margens
do rio, erguia-se a trincheira da esquerda, mais cuidadosamente feita do que a da direita, e

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guarnecida por dous canhões e quatro morteiros. A trincheira da direita não chegava ao rio;
havia ahi um pequeno espaço limpo de fortificação por onde se podia passar com facilidade.
Entre a trinchieira da direita e a da esquerda ficava também uma abertura, no centro da qual
foi plantado o mastro da bandeira; entre a trincheira da esquerda e o rio permanecia um
extenso tracto de terreno sem nenhuma obra de arte, offerecendo portanto a maxima
facilidade a quem quizesse contornar a fortificação e entrar nella por um flanco.
Desta tão succinta descripção vê-se que, se essas trincheiras abrigavão a guarnição dos
canhões inimigos, mal a resguardarião se ella fosse assaltada.
Mas não se temia um assalto: de dia seria elle impossivel; á noite deveria ser
considerado altamente temerario; pois quando mesmo os assaltantes conseguissem tomar a
ilha, serião despedaçados pela metralha dos grossos canhões da esquadra.
Começava-se a guerra; não se sabia até que ponto de audacia, mesmo de loucura,
chegarião as aggressões paraguayas e podia-se pensar assim. Mais tarde, Cabrita não confiaria
nesse raciocinio: a esquadra guardaria a retaguarda da fortificação, e esta formaria um recinto
fechado.
No dia 7 pela manhã virão os Paraguayos, naturalmente com o pasmo, o pavilhão
brazileiro hasteado na ilha.
O Itapirú abrio logo fogo; a resposta não se fez esperar.
Começou um combate de canhão e de que um ou outro tiro de carabina. Nessa luta
realmente improficua de lado a lado, ora vigorosa, ora fracamente sustentada, escoárão-se os
dias 7, 8 e 9, e assim se escoarião provavelmente todos os que lhes succedessem, se Lópes
não fosse o director supremo do exercito paraguayo.
Era Lopez um general excepcionalissimo. Fugindo pessoalmente do perigo, cauteloso
da propria individualiudade até o ridiculo, só lhe aprazião, entretanto, as operações arriscadas.
Não o intimava o plano mais audaz, comtanto que outros que não elle o executassem.
Cheio de estulta vaidade, desprezava os mais positivos principios da arte militar. Se uma
operação tinha dez probabilidades a favor e noventa contra por isso mesmo a preferia; e
dotado de um profundo desprezo pela vida dos homens que derramavão seu sangue para
satisfazer-lhe a ambição, empenhava-os em tentativas arriscadissimas, mandando-os á morte
com implacavel serenidade.

242
O coronel Dias, seu favorito então, lhe suscitou a idéa de expellir da ilha os
Brazileiros, tomando-lhes os primeiros canhões que nessa guerra havião rolado sobre o solo
paraguayo.
Se tivessem bom exito, esse golpe desmoralisaria o exervito alliado, se corresse mal,
perder-se-hião algumas centenas de vidas, cousa para Lopes de minima importancia.
A idéa era atrevida, por isso mesmo agradou; e entre o dictador, Mme. Linch e o
coronel Dias foi logo concertado o plano da operação.
Mil e duzentos homens, escolhidos entre as melhores praças do exercito paraguayo,
serião divididos em tres columnas de 400 homens cada uma.
O commando da primeira caberia ao major Romero, homem astuto e refalsado.
Essa columna embarcar-se-hia em canôas um pouco acima da ilha, e, deixando-se
levar pela correnteza, a favor das sombras da noute a deveria alcançar, desembarcar sem ser
presentida, atacar a trinhceira, tomal-a de sorpreza, aproveitando-se da estupefacção de seus
defensores.
As outras duas partirião uma após outra do ponto mais vizinho da ilha, e ganhal-a-hião
a força de remos, logo que a primeira tivesse desembarcado: constituião as reservas, e devião
decidir da victoria, caso esta fosse disputada.
Na noite do dia 8 estava tudo preparado para a realização desse plano.
Grande numero de canoas cercadas de agua-pés amarrados ás bordas, para occultar-
lhes as fórmas sob uma capa de verdura, esperavão os soldados que devião transportar. Estes
estavão reunidos na margem, armados e municiados.
Ia dar-se a ordem de embarcar, quando ouvio-se tropel de cavallos.
Pouco depois estacou em frente da tropa uma amazona montada em soberbo ginete,
tendo a seu lado um menino e atrás um numeroso estado maior.
Se a noite não fosse tão escura, ver-se-hia que essa amazona era uma mulher de trinta
annos, d e porte elevado e de fórmas amplas e acentuadas. Bastos cabellos castanhos, quasi
louros, emoldurávão-lhe a testa elevada e lisa. Suas feições regulares podião passar por bellas,
se já não estivessem como que empastadas por uma camada demasiadamente abundante de
tecido adiposo, que alterava a pureza das linhas. Seus olhos azues, com reflexos amarellados
quando a ira os accendia, tinhão o brilho incommodo e frio do aço polido, se ella
intencionalmente os não ameigava. Era de certo pujante a natureza daquella mulher.
Brunehaut e Fredegonda forão sem duvida assim. Naquella fronte que sabia vergar-se com a

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mais perfeita humildade, erguer-se com soberba imperial, e illuminar-se de uma aureola
seraphica, conforme as necessidades de momento, assentava bem a corôa que cingirão
aquellas duas rainhas francas. Como ellas ambiciosa, hypocrita, intelligente, perversa e
lasciva, era capaz de passar ainda palpitante de volupia da mysteriosa recamara votada a
Venus ao severo gabinete do conselho, onde, inspirada pela sêde do poder, ninguem se
mostrava mais calmo, mais friamente calculista, mais habil em forjar intrigas, em formular
planos, em preparar vingança.
Essa amazona era Mme. Linch, a amazia de Lopes, o máo genio do Paraguay,
apanhada pelo dictador nos prostibulos de Pariz, para vir com seus pés, que parecião
destinados somente a levantar o pó das bodegas da grande capital, pisar sobre a cabeça de um
povo americano, cujas donzellas prostituio, cujas matronas chicoteou, cujos homens fez matar
ou envileceu sem dó nem compaixão: sonhará com um imperio para si e para seu amante, e
queria alcançar o throno mesmo passando por cima de montões de cadaveres!
Mme. Linch vinha animar os soldados e representar uma scena de comedia. A esses
pobres guaranys, que ella tratára sempre com o maximo desdem, começou a distribuir
charutos e sorrisos. Diz-lhes que se vão cobrir de gloria expellindo do seio da patria os
Brazileiros, que os querem levar captivos as longinquas terras, roubando-lhes os filhos e as
mulheres. Promette-lhes grandes premios, assegurando-lhes ao mesmo tempo ser de facilima
execução a empreza que vão tentar: tudo está previsto e preparado para dar-lhes esplendida e
pouco custosa victoria. Arrouba se, excita-os, e termina declarando que traz-lhes seu mais
estremecido filho, menino de 10 annos, para acompanhal-os em tão gloriosa expedição. Os
pobres soldados chorão enternecidos, vendo essa mãi, essa estrangeira, mandar com elles ao
combate seu filho mais querido, e jurão morrer ou voltar riumphantes. Quanto ao menino,
esse não partirá; não o querem os soldados, nem Romero consente. O menino chora, quer
combater pela causa da patria: Mme Linch apoia-o, insiste, irrita-se; mas Romero não cede, e,
como estava combinado, vence afinal.
Toda essa scena fôra magistralmente representada. Os soldados ficarão convencidos
que se devem deixar matar, não só por obediencia, mas também por amor dessa heroica
mulher e desse filhote de tigre, que chora porque não o querem deixar confundir com o delles
o seu precioso sangue.
São tres horas da manhã: é preciso partir.

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Enchem-se as canôas e arrancão da margem. Com algumas remadas alcanção o fio da
corrente. Recolhem-se os remos, e ahi vão ellas na escuridão da noite caminhando unicamente
impellidas pela correnteza. Só o piloto tem a cabeça fóra da borda; os outros agachão-se no
fundo.
A esse tempo, na margem correntina, dorme o exercito alliado a somno solto:
unicamente as sentinellas e rondas estão alerta, como de tempos a tempos o annuncião as
pancadas seccas da bandoleira sobre a espingarda e o tropear abafado e lento de dous ou tres
cavallos, que se parão aqui ou alli ao grito de-quem vem lá?
Na esquadra, cujos vasos estão todos distantes da ilha, reina profundo socego.
Na mesma ilha tudo revela a maior tranquilidade. Na vespera o Itapirú, em vez de
cessar o seu fogo, como de costume, ao pôr do sol, o prolongará até as nove horas. Mas
depois callára-se. Quasi toda a guarnição da ilha dorme por detrás das trincheiras.
Este sonha com a mãi a abraçal-o lavada em lagrimas de alegria no dia do regresso;
aquelle com a noiva, que lá ficou na patria, a offerecer ao seu primeiro beijo a fronte coberta
de pudico rubor. Quantos sonhos fagueiros não acodem nestas noties mal dormidas, em frente
do inimigo, sob a abobada celeste, o corpo estendido sobre o chão molhado pelo rocio, a
cabeça apoiada na moxilla!
Dormem e sonhão os defensores da ilha, e aquella massa negra que boia sobre o rio,
approximando-se delles cada vez mais, traz-lhes talvez a morte. E ninguem a pressente, a
traiçoeira!
Entretanto, fóra da trincheira, uma linha de vedetas borda a ilha em frente á margem
paraguaya. Vigião ellas? Sondão, como era de seu dever, com o olhar attento e perspicaz a
superficie das aguas, já cobertas de alguns tenues vapores, que pesadamente se vão
leevantando com a approximação da madrugada? É licita a duvida. A noite está a findar; o
frio da manhã começa a fazer-se sentir; murmura monotonamente o rio, lambendo as margens
da ilha: tudo está tão tranquillo!
O que é verdade é, que a massa negra se avizinhava sempre, e ninguem ainda soltou o
grito de alarma.
Se alguem a viô, tomon-a de certo por uma dessas ilhotas trançadas de verdura, que o
rio quando engrossa arranca ás suas margens.
Por entre as sombras da noite que ainda envolvem em seu crepe negro aguas, florestas
e terras, com effeito difficilmente se poderião distinguir as canôas paraguayas,

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artificiosamente cercadas de verdura e agrupadas, destas ilhotas que ás dezenas, durante os
dias e as noite anteriores, havião passado por junto do banco.
Nenhuma remada as denuncia; nenhuma voz as atraiçoa; vêm vagarosa, mas
incessantemente chegando-se. Já distão poucas braças da ilha. -Sentinella, álerta! É tempo
ainda; dispara a tua espingarda; acorda teus camaradas, que descansão confiados na tua
vigiliancia. -Mas, as sentinellas dormem, ou estão illudidas, e a massa negra das canôas
paraguayas se encostou à ilha.
Como se fosse uma jaula repentinamente aberta, com pulos de panthera saltão della
para a ilha 400 homens. Algumas vedetas são mortas, antes talvez de terem despertado; outras
lutarão a ferro frio: algumas; algumas buscão as trincheiras, e um immenso grito de triumpho
“Vivão os Paraguayos!” seguido de feroz vozeria, atrôa os ares. Mas, uma fita de fogo orlou a
crista das trincheiras: a valente guarnição estava a postos, e acolhia o inimigo com uma
descarga cerrada. A essa descarga succedeu um fogo por filas admiravelmente sustentado: não
se diria que por detrás daquelles parapeitos estavão recrutas, que pela primeira vez entravão
em combate e que havião despertado quasi sentido o ferro do inimigo. Tanta segurança,
serenidade e precisão revelava aquelle fogo que parecia executado em parada por tropas
veteranas e adestradas.
Felizmente foi sobre a trincheira da direita, pela frente della, que convergirão os
esforços dos Paraguayos; quer porque a macega não lhes tivesse deixado ver quando era facil
penetrar pelo centro, pela extrema direita e sobretudo pela extrema esquerda, contornando a
fortificação; quer porque não se pudessem guiar bem na escuridão da noite. Comprehendendo
os lados fracos de sua posição, Cabrita, sempre sereno, apenas foi sentido o inimigo, mandou
o valente capitão Tiburcio defender o espaço aberto da extrema esquerda, confiou o centro ao
intrepido tenente Eudoro Emiliano de Carvalho e dirigio-se para a direita, onde batião-se
encarniçadamente o 7º de voluntários e o 14º de infantaria, dirigidos por seus distinctos
chefes.
Repellidos das trincheiras os mais audazes Paraguayos, que no primeiro impeto a ião
galgando, debalde insistem os outros, pretendendo romper por aquella chuva de balas que os
dezima.
Foi reforçada a primeira com a segunda columna: sobra-lhes valor e disciplina; mas os
grupos que formão cambaleão sob a fuzilaria e alguns tiros de metralha, que sobre elles fez
disparar o bravo capitão Moura.

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Não tardão a rarear-se: cahem os homens como espigas ceifadas por destros
lavradores.
Porém não fogem, os bravos; deitão-se na macega e mesmo deitados fazem fogo sobre
as trincheiras: não mais esperando tomal-as, querem ao menos vender caro as vidas.
Aos primeiros tiros disparados na ilha acordarão os exercitos alliados: erão gritos de
sinistra alegria, como devem soltar cannibaes prestes a devorar em horrido festim as carnes
ainda quentes do inimigo vencido. Os batalhões formárão-se immediatamente, sem saberem
no primeiro momento onde era o combate; mas a direcção de onde vinhão os tiros e a vozeria
demonstrou logo que a luta se travára na ilha.
Pouco a pouco a margem esquerda do rio ficou coberta de espectadores. O mesmo
certamente aconteceu na direita; e assim quatro exercitos, debruçados sobre o largo Paraná,
assistião, testemunhas offegantes, a esse ingente duello, que tinha por theatro um banco de
arêa, ergui lo alguns palmos sobre o nivel das aguas. Solemne partida, jogada de um lado pela
civilisação e a liberdade, servidas pela dedicação; do outro pela tyrannia e a ignorancia,
apoiadas na mais completa obediencia de que o mundo tem memoria!
D’entre os alliados, como de razão, os mais anciosos erão os Brazileiros; pois
Brazileiros erão os que naquelle momento batião-se pela honra da alliança.
Um batalhão de infantaria dormia todas as noites na margem do Paraná para ser
transportado á ilha, caso a guarnição desta carecesse de socorro; nessa noite coubera ao 12
esse serviço.
Osorio, cuja impaciencia era extrema, quiz fazel-o partir: era impossivel; suas ordens a
esse respeito não havião sido cumpridas; o batalhãi estava prompto, mas seis canôas sem
remos não podião transportal-o.
Como batião forte todos os corações; como o olhar se aguçava debalde, para
descortinar os incidentes da lucta? O que se percebia era, que se valente fôra o ataque, valente
também era a defesa. Ardia em fogo a ilha; a fuzilaria incessante illuminava-a de mil
relampagos a um tempo. Ouvia-se sempre a grita dos Paraguayos, mas respondião-lhe as
nossas cornetas tocando sem cessar a fogo. Ninguém podia prever os resultados do combate,
tão bem ferido parecia elle por um e outro lado.
Os espectadores quasi não respiravão: a anciedade tinha chegado ao seu auge.
De subito um raio de sol rompendo as trevas da noite e as brumas da manhã, que
cercavão a ilha, bateu em cheio sobre a parte superior da haste da bandeira; um brado unisono

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sahio de todos os peitos: lá estava flammejante o pavilhão auri-verde, altivamente desfraldado
ás brisas da madrugada!
A luz desceu depressa e veio illuminar a ilha. Soou o hymno nacional, e todos virão
distinctamente a guarnição saltar por cima das trincheiras e carregar á bayoneta os
Paraguayos, que fugião espavoridos. A victoria era certa - Gloria á guarnição da ilha! gloria
aos palatinos da patria, da liberdade e da civilisação!
Mas o dia 10 de Abril, que surgia cheio de fulgores, devia ainda marcar a data de
outros nobres feitos.
O Henrique Martins, pequena canhoeira de madeira, fazia parte da vanguarda da
esquadra brazileira. Seu commandante, o 1º tenente Jeronymo Francisco Gonçalves, vendo a
ilha atacadam mandou tocar a póstos, fez acender as caldeiras e dirigio-se ao commandante da
vanguarda para participar-lhe que a ilha fôra assaltada e pedir ordem para soccorrel-a. Sem
ouvir as ponderações que lhe erão feitas relativas á necessidade de intervenção superior,
tomou a responsabilidade sobre si, e seguido do Greenalgh, commandado pelo tenente
Marques Guimarães, a todo vapor caminhou para a ilha, chegando a tempo de metralhar pelo
flanco os Paraguayos, já completamente desbaratados.
A terceira columna paraguaya, chegada mais tarde do que as outras, ainda não tinha
desembarcado toda, ou teve tempo de reembarcar-se em parte, apezar de Cabrita ter mandado,
quando a derrota se pronunciou, cortar com machadinhas os cabos que prendião as canôas á
ilha.
O canal entre a ilha e o Itapirú, por onde se escapavão os Paraguayos fugitivos, era
completamente desconhecido e estava defendido por canhões de 68. O commandante do
Henrique Martins não hesita; enfia por elle, e lança a sua canhoneira sobre a flotilha de
canôas paraguayas. Com a prôa mette umas a pique; com as rodas levanta outras e as
emborca, enquanto a marinhagem de revolver e carabina em punho mata-lhes os tripolantes,
que procurão fugir a nado.
Os canhões paraguayos atirão com verdadeiro frenezi sobre a audaz canhoneira que
lhes passa a tiro de pistola. A canhoneira responde-lhes metralhando os que da margem lhe
fazem fogo. Percorre lentamente o canal, limpa-o de inimigos, e surge ovante do outro lado da
ilha. Estava consummada a victoria. Então o bravo Gonçalves aproou para o navio chefe da
esquadra brazileira. Chegando á falla, participou ao almirante Tamandaré, que os Paraguayos
havião sido completamente esmagados, e pedio-lhe licença para encalhar, pois a sua

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canhoneira, tendo sido atravessada de lado a lado por balas de 68, tinha os quarteis de prôa e
pôpa inundados, e estava prestes a sossobrar. Felizmente ainda em tempo encalhou: mais
alguns minutos de demora e o Henrique Martins se afundaria nas aguas em que se cobrira de
gloria!
Dos 1,200 homens que atácarão a ilha rarissimos de certo conseguirão voltar ao
exército de onde havião partido cheios de confiança. 649 cadáveres de Paraguayos alastravão
a ilha. Canoas cheias de mortos forão apanhadas pela esquadra, bem como alguns nadadores
feridos ou não, que, vendo-se cortados pelo Henrique Martins, dirigirão-se para os navios
brasileiros.
Na ilha cahirão prisioneiros 62 paraguayos, dos quaes só 16 não estavão feridos: entre
estes figurava o major Romero, commandante da 1ª columna de ataque.
Oitocentas espingardas, grande numero de pistolas e sabres de cavallaria pertencentes
aos Paraguayos, forão apanhadas no theatro da acção: 39 canoas ficácrão em poder da
guarnição da ilha.
O enthusiasmo que esse combate despertou não morreu no ambito do acampamento
brazileiro: Argentinos e Orientaes, esquecendo velhas e entranhadas rivalidades, corrêrão a
felicitar os officiaes e chefes brazileiros, não cessando de elogiar calorosamente o bizarro
comportamento da guarnição da ilha.
Infelizmente essa aspera lição inflingida a Lopes custou aos Brazileiros alguns
sacrificios; poucos, é verdade, em relação á maguitude dos resultados colhidos, mas ainda
assim dolorosos.
A briosa guarnição da ilha teve 149 homens fóra de combate, 49 mortos e 100 feridos.
…………………………………………………………………………………………………..
Terminado o combate, Cabrita recolheu-se a uma chata que estava à sombra da ilha e
que servia de deposito: ia tomar uma refeição e escrever a sua parte.
Estavão com elle o alferes Woolf o tenente Carneiro da Cunha e o capitão Sampaio,
seu amigo, que de terra o fôra felicitar. Os Paraguayos, enfurecidos pela derrota,
bombardeavão a ilha com furia desusada. O rio tinha enchido, a chata se elevara com as aguas
e mais exposta ficára. Uma bomba lançada do Itapirú, e dirigida pela mão certeira da
fatalidade, arrebenta entre Carneiro da Cunha, Sampaio, Woolf e Cabrita, que como Nelson
succumbe gloriosamente, findo o combate, na hora do triumpho, haptizando com o seu sangue

249
o desconhecido banco por seu valor illustrado. Carneiro da Cunha e Woolf são gravemente
feridos; Sampaio cahe redondamente morto.
Tristissimo epilogo de tão vibrante victoria!

____________

O combate da ilha do Cabrita, que acabamos de narrar, omittindo muitos feitos do


mais subido quilate, não foi sem duvida um desses acontecimentos grandiosos que decidem
do exito de uma campanha.
Se Lopes não tivesse imprudentemente mandado atacar a ilha, a occupação desta não
teria dado em resultado senão incommodos á sua guarnição.
Se, aceita a idéa do ataque, fosse este conduzido por outro modo -: pela retaguarda, ou
mesmo pelos flancos largamente abertos da fortificação - quem sabe o que terião de soffrer
seus defensores? Na peior hypothese os canhões da esquadra brazileira os vingarião, é certo;
mas nem por isso deixaria o exercito de ter sido victima de um golpe doloroso.
Como as cousas se passárão, o ataque da ilha teve importantissimas consequencias.
Perdeu o inimigo mil e tantas praças escolhidas. As circumstancias que acompanhárão o
combate, dando-lhe o mais vivo realce, superexcitarão o exercito alliado, e
incontestavelmente concorrêrão para apressar a passagem do Paraná, effectuada seus dias
depois com o maior denodo, com maxima confiança e com o mais feliz exito.

Dr. Pinheiro Guimarães.

IV. A passagem de Curusú

I
Onze dias depois dos combates de 16 e de 18 de Julho, ganhos pelo general Polydoro,
pisava terras do Paraguay o segundo corpo de exercito brasileiro, confiado ao Barão de Porto-
Alegre.
Embora sanguinolentos, aquelles combates haviam reanimado nossa gente e como que
mitigado as saudades pelo chefe querido, que por enfermo se ausentára - o general Osorio.
Reconhecendo o general Polydoro, como o confessou em ordem do dia, a honrosa mas
difficil tarefa de substituiur soldado d’aquelle valor, atirára-se áquelles combates como a

250
unica e possivel ordem do dia de um general nas suas circumstancias e nas circumstancias do
exercito brasileiro.
Feridos os combates, Polydoro encetára logo os trabalhos de fortificação para garantia
das posições tomadas, e o somno da victoria mais uma vez cerrára todos os olhos.
Foi quando aportou ao Passo da Patria Porto-Alegre com um exercito de sete mil e
quinhentos homens das tres armas.
Polydoro o apresentou aos soldados do 1º corpo de exercito em um lance tão
dramatico quanto justo de seu boletim:
“Sabeis, soldado, quem é esse general?”
“Os batalhões veteranos que digam quem as conduzio á victoria nos campos de
Moron.”
Definido assim por um camarada o seu valor, tomou a si mesmo completar a sua
figura o veterano de Moron(*):
“Briosos soldados do 2º corpo de exercito! Ides pela primeira vez pelejar com um
inimigo que, desconhecendo as leis da guerra entre povos civilisados, não as respeita,
practicando inauditos actos de atrocidade.”
“Não useis, pois, de represalias, que elles não têm consciencia do mal que fazem; e
demais, a generosidade é qualidade inherente aos valentes.”
Bem completa ficou, pois, a figura aos olhos do exercito: valor de soldado, alma
grande. O resto, o que constitue os heróes, só a sorte o dá. Ella é quem faz vencer em
Austerlitz e apaga em Waterloo o facho da maior fortuna guerreira que o mundo tem
conhecido.

II
Vencedores desde 18 de Julho os soldados do 1º corpo do exercito, e chegados desde o
dia 29 do mesmo os soldados do 2º, só a 18 de Agosto puderam ou foram chamados a
conselho os generaes.
N’esse conselho prevaleceu o plano de que cinco ou seis mil homens do 2º corpo de
exercito, embarcados na esquadra, seguiriam rio acima o Paraguay, e, vencidas as
difficuldades que porventura encontrassem, se procurasse bombardear e atacar as fortificações
de Curusú e Curupaity, fazendo um desembarque para ameaçar pela retaguarda o flanco
direito das principaes e extensas linhas formadas pelo inimigo.

251
Assentou-se mais que esse movimento da esquadra, considerado como uma operação
prévia, ou antes um reconhecimento á mão armada, devia ser feito de inteira combinação com
o exercito alliado, afim de que pudesse este opportunamente lançar não só sobre o flanco
esquerdo das fortificações inimigas uma forte columna de cavallaria - apoiada
convenientemente por forças de infantaria e artilharia - como tambem columnas de ataque
sobre um ou mais pontos centraes das linhas contrarias; combinando-se igualmente todos
esses movimentos com um violento cruzamento de fogos de artilharia sobre a extrema direita
d’aquellas fortificações. (**)
Este plano, que talvez a fortuna coroasse de loiros, se logo depois de Curusú tivessem
as armas alliadas atacado Curupaity, não deu comtudo, á parte as glorias de Curusú, senão os
desastres diante daquella outra fortaleza, em 22 de Setembro.
Seja como fôr, uma vez assentado o plano referido, tratou-se de pol-o em practica, e
no dia 30 de Agosto o 2º corpo de exercito, logo que recebeu alguma cavalhada, deixou as
praias de Itapirú, onde até então se havia conservado, e foi acampar mais proximo á boca do
rio Paraguay.
Ahi encontrou o exercito os transportes a vapor Leopoldina, Izabel, Marcílio Dias,
Presidente, General Flôres, Galgo, Diligente e Pedro II. A bordo do Apa achava-se o vice-
almirante Tamandaré.
Quando veio a noite ergueram-se do 1º corpo de exercito varios foguetes ao ar, afim
de determinar a situação respectiva dos dois campos.
Naquella escuridão, na vespera de tantas mortes, que sinistros lumes aquelles! Que
sentenças escriptas no ar!
O dia 31 gastou-se ainda na passagem das cavalhadas para o 2ºcorpo de exercito e na
conferencia entre o general, almirante e o ministro Octaviano; conferencia que fixou o plano
de ataque que devia iniciar-se no seguinte dia por um reconhecimento de esquadra.
Ia, pois, essa poderosa armada sahir do seu lethargo de mezes e escrever mais uma
pagina de heroismo no livro de sua vida maritima.

III
Rompeu o dia 1 de Setembro, o mez das primaveras, das alegrias do campo, e dos
sorrisos do céo!

252
O sol marcava sete horas quando o vice-almirante, presa sua insignia da corveta Magé,
ordenou á esquadra que singrasse aguas acima.
A ordem daquelle cortejo da morte e da gloria foi a seguinte:
Corveta Magé, Lima Barros e Bahia (encouraçados), Parnahyba (canhoneira), Brasil,
Barroso, Rio de Janeiro e Tamandaré (encouraçados), Beberibe, Ypiranga, Belmonte,
Araguay e Greenhalgh (canhoneiras).
Subiram lentamente, já pela estreiteza do canal e já tambem pela perfidia d’aquellas
aguas cheias de torpedos.
E no entando de lado a lado as mattas tão ridentes, tão opulento o sol, e tão ebrios de
alegria os estandartes da patria!
Quando a ilha do Palmar ostentou-se bella e verdejante á tona d’agua, bella como uma
nayade descuidosa e despenteada surprehendida no banho, deu signal o vice-almirante para
que ficassem ahi os navios de madeira e seguissem, até frontear Curusú, os encouraçados.

IV
Não tardaram as luvas de desafio do inimigo, e as luvas em resposta dos nossos.
Era meio-dia: muitos paraguayos e brasileiros iam viver os ultimos minutos da sua
vida.
Quatro horas, quatro longuissimas horas durou o canhoneio.
Era a festa da morte! O rio, as mattas, os coraçõe e os estandartes estremeciam todos
ao som da medonha musica. Só…. os céos impassiveis! Deus que fiava a teia dos destinos
destas Americas, e o valor brasileiro cheio de confianças n’elle!
Era scenario para os olhos de um poeta, e lá estava um, disfarçado nas honras de
ministro, mas n’aquella occasião brasileiro sómente e poeta contemplador.
Quando nos dará elle, tão admirador das façanhas dos Achilles, em Homero, esses
quadros condignos, que a sua boa estrella lhe permittio vêr?

V
Chovia, pois, as balas, e como victima, que a sorte já designára para os sacrificios do
dia segunite, o Rio de Janeiro enfeitava-se de glorias e dos loiros immortaes, tintos de fumo e
sangue!
Toucava-se ainda a victima já sobre a sepultura.

253
Silvado, o commandante, o noivo escolhido para as nupcias eternas, como que
brincava ainda com a noiva, já ás portas da alcova, e se ainda pedia alguns momentos como
que era pra escrever em cada bala que mandava aos inimigos um legado de gloria para a
Patria, a quem tudo deixou, tudo: o nome, o coração, o valor, o brio, os ultimos suspiros e
aquella sublime estrophe do poema nacional:
“Só lhe negou o corpo, dadiva indigna dos nomes immortaes.”

VI
Descrevamos, porém. O Rio de Janeiro, mais ousado do que todos os encouraçados,
approximára-se mais que nenhum das baterias inimigas.
Era como um duello corpo a corpo que elle provocara. Duas balas paraguayas de
calibre 68 oscularam-lhe a boca da casamata, acertando uma d’ellas em uma peça sua
d’aquelle calibre, que ficou amolgada e fendida.
Bem pouco era e seria se não fossem os estilhaços que, penetrando na mesma
casamata, feriram gravemente o 1º tenente Napoleão Jansen, e mataram duas praças.
O Lima Barros, que tivera a honra de trocar o primeiro tiro de artilharia com o
inimigo, continuava a ser alvo da predileção e multiplicação das balas paraguayas.
Rivalisavam com elle o Bahia, o Brasil e o Barroso.
Já o Voluntario da Patria - pequeno mas galhardo vapor, tendo a seu bordo o
1ºtenente Francisco Romano Steple da Silva e o practico Fernando Etehbarne - tinha ido
reconhecer os obstaculos que o inimigo porventura houvesse lançado no canal do rio até
aquelle ponto, Curusú.
O resultado do reconhecimento combinou perfeitamente com as informações dos
transfugas paraguayos, quaes eram: a existencia de torpedos e de uma estavada de navios a
pique em frente á bateria do Curusú.
Bons paraguayos! Como sabiam fazer a guerra, e como aqui seriam invenciveis se a
astucia brasileira não houvesse verificado que o canal das margens do Chaco dava facil
accesso até á estacada!
Era labor este para o dia seguinte; perigos que a esquadra deveria vencer. Infelizmente
a sorte já plantára naquelles lenhos a pique a cruz que ia marcar a sepultura do Rio de Janeiro.

VII

254
Com o cahir da tarde afrouxou o bombardeio.
A esquadra tinha galhardamente cumprido o seu dever n’esse dia e sabia que no
seguinte outras dividas tinha de pagar ao seu paiz. Não faltou, e foi com o mais puro do seu
sangue que solveu as suas obrigações de gloria.
Descendo a noite, o chefe Elisario, commandante da 2ª divisão, fez descer o
encouraçado Rio de Janeiro para que transportasse os seus feridos para outro navio, e,
aproveitando-se das sombras, os practicos Etchbarne e Bernardino Gustavino com o
engenheiro norte-americano G. H. Tombs reconheceram e sondaram um canal fundo e livre
de obstaculos pelo meio da estacada de navios a pique, pouco acima da bateria.
Ao romper do dia (2) os encouraçados Lima Barros, Brasil, Bahia e Barroso
avançaram até perto da estacada de Curupaity e romperam fogo vivissimo contra aquella
fortaleza.
Do lado do Chaco haviam já desembarcado na vespera os batalhões 12º e 13º de
voluntarios, com o fim não só de dominar a margem do rio na parte occupada pela esquadra,
como para chamar a attenção do inimigo para aquelle ponto, emquanto se effectuasse o
desembarque do 2º corpo.
Quando as primeiras luzes da madrugada vinham annunciando o dia, a divisão do
chefe Alvim rompeu fogo despejando bomba e metrablha contra as mattas que escondiam o
inimigo.
Tinha ficado decidido que o general Porto-Alegre desembarcaria n’esse dia.
Emquanto não chegava a hora oportuna, reboava o bombardeio, levando ao longe, ao
coração do Paraguay, as noticias d’aquella luta de gigantes.

VIII
E o que era Curusú? O que valia?
Situado meia legua abaixo de Curupaity e quasi fronteiro á ilha do Palmar, constituia o
apoio do flanco direito do inimigo.
Por muito tempo escondêra-se este nas mattas, como fera que espera a presa, ou como
castello da fabula; mas havia dous mezes que nas suas caçadas pelo rio Paraguay, caçadasde
torpedos, descobrira a esquadra aquella caça feroz, como por entre as folhas dos palmares
sorprendem o viajante os olhos do jaguar.

255
E como quem traz noticias da bôa que espreita no caminho, já alguns passados haviam
tambem informado d’ella.
Constava Curus´de um grande reducto, amparado por parapeitos de quase tres braças
de altura solidamente construidos.
Um fosse de 7 palmos de profundidade sobre 12 de largura o circumvallava.
Treze peças de diversos calibres, inclusive uma de 68, artilhavam a fortificação, ao
mesmo tempo defendida por 500 homens d’infantaria, além dos reforços numerosos que, em
occasião de ataque, deviam acudir, como acudiram, em numero de tres mil homens.
Os paraguayos tinham na defesa d’essa posição as vantagens de espessa matta que os
protegia dos fogos da esquadra. Isto na direita.
A esquadra apoiava-se na lagôa Pires, e em frente havia um estero que dava estreita
passagem sómente por dous passos ou picadas, que canhões de grande calibre enfiavam.
Tal era Curusú, que a todo o custo era preciso tomar, e que aos olhas da junta militar
de 18 de Agosto tinha parecido uma bella posição contra o flanco direito das linhas
paraguayas e um ponto de communicação entre a esquadra e os exercitos alliados.

IX
O bombardeio continuava.
Fundeados a 500 braças apenas de Curupaity, os encouraçãdos Bahia, Lima Barros,
Brasil e Barroso trocavam as cortezias da morte com a fortaleza, que lhe fazia fogo com
bombas e balas rasas esphericas de calibre 68 e com projectís oblongos de artilharia raiada de
calibre 80, systema americano!
Nenhuma marinha do mundo desdenharia de subscrever as paginas que o marinheiro
brasileiro escreveu alli n’esse dia.
Desdenharia? Honra seria para todas!
Do seu lado o encouraçado Tamandaré e as bombardeiras Pedro Affonso e Forte de
Coimbra distrahiam-se com Curusú.
Duas chatas paraguayas - que o almirante convertêra em bombardeiras - com
morteiros francezes de 10 ¾ pollegadas davam escellente resultado. Outra chata ex-paraguaya
e tambem com uma peça de calibre 68, unia as suas vozes ao concerto.

256
Ia chegando a hora….
Algumas canhoneiras principiaram a varrer com artilharia o ponto da margem
esquerda do rio, escolhido para o desembarque.
Á uma hora e vinte minutos a quarta divisão da esquadra bombardeava e metralhava as
mattas adjacentes á guarda do Palmar.
Ao mesmo tempo desembarcava o general do 2º corpo de exercito.
Aos sons de que hymno punha pé o conquistador na terra da conquista!
Compunha-se o exercito de 8,300 praças das tres armas, sendo 4,500 de infanteria.
Bravo até o delirio, arrojado como um fatalista e mesclad de Ney e Murat, confiante
como aquelle na estrella do seu destino, namorado como este da gloria, e como este taful no
meio dos combates, Porto-Alegre foi o primeiro que saltou em terra.
Convicto de que a luta é a festa do soldado, entra elle em fogo com o esmero de um
casquilho que tem de lutar e de vencer nas salas.
Traz a farda com rigorismo da disciplina prussiana, mas atavia-se de ouro como Murat
ou assume as proporções de um d’aquelles generaes mouriscos quando iam á conquista de
Granada, pois que iam-se mirar no espelho d’esta bella - o Xenil.
Porto-Alegre, esperando sempre a victoria, enfeita-se para recebel-a. Ao sahir do
campo póde penetrar n’um salão: nem as luvas sequer lhe faltam.
Tal é a rapidez e singelos traços o vulto para quem no momento convergiam as vistas e
os destinos do inimigo, os olhos e as esperanças da Patria.
E como se a natureza já lhe annunciasse a victoria, o sol ao zenith coroava de ouro e
fogo, de purpuras e de azul o vasto theatro do sanguinolento drama que a orchestra dos
canhões preludiava desde a vespera.
Deixemol-o, porém, por emquanto fitando aquelles horiznontes e dispondo entre seus
commandados a ordem de marcha.

XI
Approximava-se a hora do terrivel episodio que devia naquelle dia envolver de crepe o
estandarte victorioso do Brasil.
O encouraçado Rio de Janeiro conservára-se, como já o dissemos, na frente da linha.
Silvado, o seu commandante, zombava das balas inimigas e desafiava a morte.

257
Os paraguayos tinham juncado o rio de torpedos, e entre elles e sobre elles o Rio de
Janeiro baloiçava-se, brincava, ria-se da morte, dos paraguayos e dos seus torpedos.
Para tão descommunaes perigos, audacia mais descommunal.
Eram duas horas da tarde ainda. O Rio de Janeiro, tendo reparado as avarias da
vespera, avançava para tomar o seu lugar na frente, como um soldado que, mal conchegando
os labios de uma ferida mortal, voltava para as fileiras, e por denodo para as fileiras da frente.
Avançava….
De repente, como quem tropeça, toca em um torpedo - proximo á estacada dos navios
a pique - do qual não havia o menor indicio.
Tocado o torpedo, seguio-se a medonha explosão mesmo debaixo da pôpa da formosa
nave.
Formoso sim, mas monstruoso, o gigante estremeceu, vacillou nas aguas, como um
Leviathan varado pelo ventre.
Um calafrio de morte percorreu-lhe a espinha e obrigou-o a tremer como treme o
dorso de um cetaceo á flor das aguas, sentindo os estilhaços de uma bala. Devisme nas
cavidades do peito.
Pelo rombo feito penetra tumultuosa, rouquenha, gritadora, uma columna d’agua.
É muito, é, sem duvida, para o gigante; mas, como quem em luta de morte, recebido o
golpe, abafa-o com a mão e avança ainda, e ainda encara ultumos instantes, vivendo para ver
se mata, o Rio de Janeiro avança uma vez mais; não avança sómente, atira-se como uma fera
ferida no rastro da polvora….
Um outro torpedo, perfido e terrivel como o primeiro embaraça o caminho ao monstro,
e arrebenta desta vez á prôa, como seixo de David na fronte de Goliath.
Era demais! A morte seguio-se instantanea: n’uma columna de fumo o gigante
arqueja, arfa e vai exhalando a vida….
Morre sereno como quem sabe que cumprio o seu dever e que, aos olhos do inimigo,
deve a compostura ser o ultimo pudor e o derradeiro respeito por uma grande vida.
Vai exhalando a vida; mas, como um duellista cahido no chão do combate, arqueja
ainda sobre um lado, e só, quandode todo o sôpro final lhe abandona o corpo, deixa tombar a
cabeça e a entrega ao pó, o Rio de Janeiro vai pouco a pouco virando sobre uma das bordas,
dando (t)empo a que os heróes que o pisam se salvem.

258
XII
Silvado, o commandante, e Coelho, o immediato, bem haviam sentido morto o seu
navio; mas, sendo d’aquelles que entedem que o amor da vida é somenos do que o amor da
honra, conservaram toda a serenidade como se fosse terra firme aquelle tumulo em que
pisavam.
Silvado expede ordens para que salvem a vida dos seus commandados, d’aquelles que
a Patria lhe havia confiado, emquanto que as aguas engolem o navio.
Salvas as que foi possivel salvar, não se julga ainda livre das obrigações a que a honra
e o brio o vincularam: desce á camara para salvar os papeis do navio, a biographia, os
segredos, o testamento daquelle morto.
Á um ultimo olhar despede-se d’elle: nada mais tem a fazer. Agora sim, lembra-se de
que tem uma vida a guarda, que não é sómente sua, pois da familia o é e tambem da Patria.
Vai a sahir…. approxima-se de uma das portas do seu encouraçado, fita em frente, dá
o primeiro passo….
Era tarde…. o Rio de Janeiro, ferido mortalmente e cansado de esperar por elle, ou
suppondo-o já salvo, exhalára o suspiro derradeiro, e, virando do lado em que o heróe se
achava prestes a sahir, submerge-o comsigo.
Foi acaso o abraço do afogado arrastando um companheiro á morte - juntos?
Quiz servir de tumulo a formosa nave ao seu commandante?
Ou este foi que no momento da despedida sentio os encantamentos da morte e deixou-
se atirar aos braços das mysteriosas ondinas, sabendo e bem sabendo que era uma morte
gloriosa que legava á Patria?
Mysterios, mysterios que só Deus terá conhecido.
Mas não desceu só ás habitações da morte o bravo marinheiro.
Como uma guarda de honra, ultima homenagem prestada, escoltaram-no o 2 tenente
Coelho e 62 praças da guarnição.
Foram-se; e, volvidos poucos instantes, as aguas como uma cortina de theatro
correram sobre aquelle drama e sobre aquelles incommensuraveis actores.
Correram e desde então começaram a entoar a triste monodia sobre a memoria d’elles.
Dormi, dormi, vós todos. Como o rei Harpalgar das lendas allemãs de Heine sonhaes
talvez a vida e relembraes as façanhas, nos braços das ondinas, aos canticos que ellas desatam
dos labios.

259
Sonhae, sonhae, que bem haveis merecido da Patria.
Dia e noite a agua corre sobre a vossa sepultura e só aos astros foi dado escrever com
luzes sobre a superficie os vossos epitaphios.
Dormi, dormi, dormi!
Um de profundis unisono, grave e mysterioso, modulam as aguas, as arvores e os
genios errantes d’essas ribas; e á beira Deus faz nascer as flôres de mil cambiantes e a
saudade as esfolha pela manhã e pela tarde sobre a vossa sepultura.
Sonhae, sonhae, oh! tristes argonautas d’esse dia nefasto, oh! semideuses d’essa hora
de heroismos!

XIII
Deixámos o general Porto-Alegre desembarcando o exercito e dando as primeiras
ordens.
Estava elle tres quartos de legua abaixo de Curusú, ponto objectivo.
Em menos de duas horas estavam em terra esses oito mil e tantos homens.
Determinada a ordem de marcha, fez Porto-Alegre seguir na frente a 2ª brigada,
levando o 11º batalhão de linha na vanguarda.
Esse batalhão levou ordem de occupar o extremo da picada que desembocava em
frente ao forte e aonde se construio depois uma trincheira.
O commandante do 11º batalhão de linha, destacado assim, e o resto da brigada, logo
que avistaram a bandeira do inimigo, trocaram os primeiros tiros; mas os paraguayos
despejaram incontinenti tiros de metralha, e as primeiras victimas regaram com o sangue o
solo do adversario.
A posição era pessima: a brigada achava-se estendida pela estreita picada e por essa
enfiava o inimigo seus tiros.
Era um combate sem nome na historia e sem precedentes.
Não contentes ainda os paraguayos, lançaram fogo ás mattas, e os brasileiros tinham
ao mesmo tempo de vencer o inimigo, dominar as balas e varar por um corredor de fogo e de
fumo, percorrido sem cessar pela bala e pela metralha!
Nunca mostrára a morte tanta imaginação na decoração dos seus scenarios.

260
Aquelles que a metralha não lançava por terra ou atirava aos ares, asphyxiava-os o
fumo nos densos novellos. Á quem o fumo não vencia, as labaredas apagavam o lume dos
olhos e deixavam ás tontas n’esse inferno de carnificina!
Era para endoidecer ou para desanimar!
Mas esse exercito, contra o qual lançavam obstaculos nunca imaginados, era o exercito
commandado por Porto-Alegre, e ao lado d’elle extremeciam de valor Alexandre Manoel
Albino de Carvalho, Manoel Lucas de Lima, o tenente-coronel José Antonio da Camara, que
devia acabar essa guerra, Astrogildo Pereira de Castro, o major Manoel de Almeida Gama
Lobo d’Eça, o coronel Antonio Peixoto de Azevedo e outros muitos bravos de valor igual.
De facto, recebendo como fica dito os invasores, os paraguayos preparavam-lhes
apenas os elementos de uma victoria formidavel, pois que tremenda era a posição.
Iam sahir victoriosos d’esse combate de Salamandras!
Os batalhões 11º de linha e 8º de voluntarios sahiram da picada e estabeleceram-se
para a direita em uma garganta que depois vio-se dava em um campo.
Ahi, logo que chegado foi o batalhão provisorio de engenheiros, tratou o major Rufino
Enéas Gustavo Galvão de levantar com o capitão Frota uma trincheira que cortando a picada
impedia que o inimigo os sorprenhendesse.
As labaredas, o fumo, as balas, a orchestra da chamma nas folhas e na madeira, estes
gritos e ululos das matas, mil vozes mysteriosas sahidas, arrancadas do seio d’ellas, as féras,
os reptis que talvez esbarraram com os homens e emudeceram com a morte….. nada poude
deter a loucura dos brasileiros…
A cavallaria rompeu por essa garganta do inferno: eram dezenas de pontes de Arcole
presas umas ás outras, era um Bonaparte cada um d’aquelles obscuros soldados que levavam,
atravez das chammas, das balas, da metralhadora e do fumo, e o estandarte das duas côres e ae
honra d’esta terra.
Ás 4 ½ horas da tarde, quando o general dirigio-se ao logar em que o batalhão
provisorio de engenheiros havia levantado uma trincheira, deu ordem de construir um
espaldão para assestar n’elle a artilheria.
Escolhido o ponto para a referida construcção e sendo elle muito além dos piquetes
avançados, foi concedido ao major Galvão um batalhão de infantaria para proteger os
trabalhos de engenharia.
Antes das dez horas da noite estavam elles começados.

261
Ás quatro horas da madrugada estava prompto o espaldão.
Quando a noite desceu, o exercito tomára posição debaixo das baterias inimigas.
Vencidos todos os tremendos obstaculos do dia, os soldados sob a sombre sinistra do
reducto esperavam o amanhecer….
Que vigilia essa! Em pé junto das peças e de morrões accesos, tal foi o somno que lhes
foi dado a dormir.
Deos accendeu uma por uma todas as suas estrellas no ambiente azul do firmamento.
Quarenta teriam no dia seguinte de fazerem por sua vez?
A lugubre fortaleza que pensamentos influio em cada um d’aquelles bravos que alli
quedavam firmes sem a certeza do dia que ia surgir!
Aos fogos dos morrões, á luz das estrellas no firmamento, aos gemidos e lamentos dos
feridos, na ausencia de todos os entes caros, eras tu, Patria, que enchias todos aquelles
corações, eras tu, que elles viam além d’aquellas muralhas, d’aquelles horizontes, além dos
perigos e da morte.
…………………………………………………………………………………………………
…………………………………………………………………………………………………
Não és pois um vão nome, uma mentira, oh! mãi sublime!

V. A passagem de Humaitá

I
As armas da triplice alliança se havião já opulentamente enfeitado de louros marciaes
durante as operações militares, dirigidas contra o tyranno do Paraguay; o pavilhão brazileiro
tremulava ovante no acampamento de seus bravos mantenedores; a gloria o enramava de
palmas immarcesciveis, ceifadas pelo heroismo dos combatentes em tantos estadios de
victoria, quantos compos de batalha contava por episodios immorredouros o vivissimo
entrecho da sublime Illyade nacional.
Muito se havia adiantado já para a consummação do sacrifício cruento nas aras da
patria; o sangue borbulhára profuso da arteria rôta para a lustração da bandeira auri-verde,
nodoada pelo insulto protervo e imprudente de um despota; o guante lançado com insolito
desgarro fôra erguido do chão com um rasgo de altiva nobreza cavalheirosa: a honra patria
sellára ante o aggravo e ante a historia o voto de quebrar com elle proprio as cadeias, que

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algemavão o povo envilecido de Francia e de Lopes, e de recalcar depois ainda com elle, a
leiva funeraria da tyrannia paraguaya, sinão do tyranno altanado.
Opimos erão os trophéos, que se erguião a consolar as angustias do holocausto, bastos
os laureis que exornvão os escudos do Brazil; mas tambem, copioso o pranto, pungente a dôr,
e pesado o luto, que vergavão diante d’elles os corações lancinados de mãis, viuvas, orphãs e
desamparados perguntando em côro de soluços - porque é que a gloria pede tão caro o preço
de seus triumphos?
Si a gloria lhes podera responder diria: - é que nada se commette e se alcança de
verazmente grande no mundo sem sacrificios: para que a luz fulgure o fogo devora o
combustivel; para que a victoria explenda a luta devora as victimas; para que a partia se
desaggrave seus filhos se immolão por ella nas hecatombes do heroes; os hymnos de triumpho
se descantão aos gemidos dos que o consquistárão com o devotamento da vida!
Não é que estivesse esmorecido o patriotismo brazileiro, depauperado a esgotar-se o
manancial de suas forças, de sua perseverança; sua espada não podia embainhar-se emquanto
não rematasse o desforço do pundonor: antes d’isso fôra vergonha a trégoa, deserção a paz;
mas, urgia levar por diante com redobrado vigor o empenho da guerra; o paiz arfava em
crescente pressão sob o peso do esforço que despendia; não era só o melhor do seu sangue que
se escoava nas terras e nas aguas paraguayas, era a gleba da lavoura, que se esterilisava ociosa
ao abandono dos braços, que havião lançado a enxada da agricultura por empunhar a
espingarda do voluntario; era ainda a seiva de sua prosperidade material, os recursos do seu
erario, que fluindo em jorros, oberavão a geração coeva e contrahião gravames temerosos para
as gerações vindouras.
O sobresalto que o patriotismo soe promover, o deslumbramento que as victorias
motivão offuscão com as illuminações festivas e legitimas do orgulho nacional as reservas
meticulosas das finanças, os queixumes que á surdina do Thesouro ousa desferir ao abeirar-se
com os passos vacillantes do abysmo da banca rôta; é natural que seja assim: quem é que vai
orçar dispendios, contar moedas em cima da bandeira da patria e das corôas que a enflorão?!
essa bandeira não é panno de tavola para lanços a calculos dos jogos financeiros; quando a
viscera da honra nacional está vibrante a fibra do egoismo economico se paralysa…
No entanto, as finanças são uma realidade implacavel, o Thesouro é uma barreira de
ferro, o elasterio da fortuna publica assignala inflexivelmente a medida das ousadias
nacionaes.

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Por tudo era mister levar ao cabo a guerra do Paraguay, leval-a com a victoria, porém,
prompto.
Desde a jornada titanica do Riachuelo, que levantára um portico magestoso ás
evoluções triumphaes das armas brazileiras, até o Tuyuty, larga, gigantesca, luminosa era já a
estrada percorrida para o Aquidabam, fulgente o sulco traçado pelo meteoro da bravura do
Brazil.
Lopes vencido nas aguas gloriosas, que o dia 11 de Julho de 1865 immortalisou,
cahindo esmagado nos plainos do Jatahy, rendida a espada na capitulação da Uruguayana,
desistira do arrojo aggressivo; cego de vaidade, mirando o facil successo de sua causa nos
reflexos fascinadores das 80.000 baionetas de suas hostes, sonhára aniquillar nos proprios
territorios os tres povos, que se colligárão contra seu jugo e sua petulancia.
Abusão do deslumbramento, vertigem do suicidio! o tigre lançou o salto sobre o que
se lhe antolhava a presa; esta ergue-se em tempo, e, illudindo o arremesso, suplantou a
temeridade da féra.
Um rebate o instincto de conservação avisou; sahira-lhe malograda e funesta a
investida; inverteu a traça da campanha, cahiu em defensiva, tentou a guerra de recursos, o
appello do belligerante em transes desesperados; aggravou para as brenhas invias, para os
banhados perfidos, para os rios invadiaveis, para as intemperies, para as fomes as sêdes, as
pestes, que erão os seus alliados naturaes! A patria das féras e dos despostas é bem essa - o
deserto com todas as suas mosntruosidades selvaticas, traiçooiras e mortiferas!
Recuando elle, cumpria seguil-o, acossal-o, encantoal-o até que tombasse vencido; o
feito logo se deparou arriscado a quantos o sondárão com a intuição, apoiada no que se
conhecia das forças inimigas, da ferrenha e servil disciplina que demudava em machinas de
morte o povo escravisado, na bravosidade e rudesa do theatro em que se ia empenhar a
tragedia dos combates.
Nem era motivo para hesitação o ardimento do passo; não havia azo para escolhas;
onde quer que approuvesse aos modernos vandalos arrastar os marcos da estacada, era ahi a
lição das batalhas.
A tatica que se abrigou Lopes recommendava-se-lhe por tradicções muito para
seduzir: foi com ella que os Parthas vencerão os gregos da Bactriania, submetterão a India até
o Hyphaso, conquistárão a Media a Babylonia e a Assyria, arrebatárão as aguias romanas das
legiões de Crassus e Antonius; foi ainda com ella que a Hespanha empanou o prestigio

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magico, que circundava a fronte alterosa do vencedor de Rivoli, das Pyramides, Marengo,
Austerlitz.
O exercito da triplice alliança entrou em marcha em Abril de 1866; suas bandeiras
fluctuárão á margem esquerda do Paraná, o inimigo estanciava na riba direita; a 16, as tropas
brazileiras pisárão territorio paraguayo; o general Manoel Luiz Ozorio esculpiu nos marmores
da gloria nacional a primeira estrophe do poema de que se havia de fazer pelo tempo adiante o
Achylles: á frente de 12 lanceiros, formados em guerrilha, recuou combatendo e
immortalisou-se recuando em face de uma força numerosa com que Lopes imaginou esbarrar
os primeiros passos dos vencedores do Jatahy no solo de sua patria, que era a sua victima
tambem.
A essas lanças temerarias do Passo da Patria ata-se a cadeia de louros, que pela outra
ponta se foi elar na barranca onde o despota exhalou o derradeiro suspiro na extrema vasca de
uma derrota longamente protahida, em damno do povo, que quase se aniquillou até o ultimo
homem, debatendo-se contra o impossivel de uma victoria, que o desampara porventura em
pena da escravidão, que tão humildemente soffrera.
Deus abandona em seus ferros, em sua ignomina e fraqueza os povos, que deixão
estrangular suas liberdades, e curvão covardemente a cerviz ao jugo do despotismo.
Os anneis mais salientes dessa cadeia de glorias sao: o 17 de Abril, o Itapirú o 2 de
Maio, o 24 de Maio, o 16 de Julho, o 18 Julho, a tomada do Curuzú, a passagem do
Curupaity, o arroio Hondo, o Tagy, o assalto de Tuyuty e…
O Humaitá.
Cortemos a concatenação das estrellas inscrustadas pela heroicidade dos bravos nos
brazões de seu paiz; exige-o a traça que nos foi prescripta aos rasgos da penna, que quizera
poder molhar-se em luz fulgurosa para embeber em um engaste de irradiações impericiveis as
joias magestosas do orgulho patrio.
Dos fuzis, que compõem o colar nobilitario do exercito e da armada do Brazil, coube-
nos para descrever um, que de si bastára á consagrar no pedestal da posteridade mais remota o
povo, que o soube forjar nos raios do pratiotismo e do devotament.
Paremos junto delle; ha muito deslumbramento nos olhos do que o comtempla a não
haver audacia para relancear-se a vista além…

II

265
Os ultimos mezes do anno 1867 virão o exercito e a armada do Brazil apertando em
circulo de ferro as fortificações do Humaitá.
Diante do colosso ao qual Lopes se escorava, sorrindo de orgulho e desafio ao arrojo
dos alliados, estes estanciavão como que irresolutos, porque acaso se lhes afigurava
inexpugnavel a cavernacouraçada do tyranno.
No entanto, não corria desaproveitado o tempo, não jazião ensarilhadas as espingardas,
muda a artilharia, ociosas as lanças, colhidas em quietação imbelle as bandeiras de 24 de
Maio; o exercito combatia á trechos frequentes, a esquadra não apagava nunca os morrões de
suas peças.
Após os recontros de Outubro e Novembro as forças paraguayas se havião encerrado
nas trincheiras; apenas uma ou outra sortida, conspirada com as sombras da noite, salteava de
improviso os piquetes avançados do exercito, e logo batia em retirada, deixando alguns
mortos no campo e alguns feridos nas mãos dos vencedores.
Lopes, perdido o Tagy, tinha atravessado o rio Paraguay, e abrindo estrada no Chaco
até a foz do Tebiquary, se evadira ao arrocho do bloqueio com o grosso de suas forças.
O mez de Janeiro de 1868 levarão-no os alliados em tiroteios; um d’elles avultou em
batalha pela gloria com que cingio o legendario brigadeiro barão do Triumpho e pela
mortualha com que o inimigo alastrou dos seus soldados o terreno da peleja.
A vanguarda da esquadra rompêra viva canhonada contra as baterias do Humaitá; erão
os encouraçados, os heroes do Curuzú, que mandãvão suas balas, exploradoras tremendas,
indagar, batendo nas muralhas do monstro, se com efeito ellas erão vulneraveis ou si alguma
divindade escusa as havia temperado de inexpugnavel inflexibilidade.
Corria voz assustadora por todo o exercito, pelo Brazil, pelas republicas alliadas, pela
Europa mesmo, que invulneravel de véras era o castello de Lopes!
A imprensa dizia: - Não ha força capaz de bater o gigante! - representantes illustres de
marinhas estrangeiras repetião: - nem a esquadra da Inglaterra levaria de vencida aquella
garganta do inferno! - um official francez, M. Mouchez, exclamava: - o Humaitá fecha
hermeticamente o rio Paraguay! - por aqui não se passa! - parecião dizer as 180 boccas de
fogo da fortaleza; - por alli se passará? - perguntavão os bravos, de Riachuelo e Curupaity!
Quando o enthusiasmo alvoroçava os vencedores, que tinhão vindo precipitando o
inimigo de derrota em derrota até o acampamento do Tuyú-Cué, uma sombra toldava de
subito o horizonte illuminado pelos fogos do triumpho; era o Humaitá que a projectava! um

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echo amortecia o estrepito dos hymnos nacionaes, era o reboar do canhão do Timbó que o
vibrava!
A fortaleza tinha um alliado tremendo, mais forte que ella propria, o terror; a cabeça
da Medusa fabulogica estava escuplida em suas casamatas; sua estatura, como a de um
phantasma visto nos trances de um ephialta, se agigantava até o inverosimil, até o impossivel!
Era na realidade para temer-se esse obstaculo erguido ás quilhas da esquadra e ás
marchas do exercito: a fortuna de um povo inteiro, sangrado pelo cutello dos despotas,
comprara da engenharia militar aquelle especimen de Malakoff; tudo quanto póde tornar uma
fortificação d’esse genero afoita ainda em frente de uma armada poderosa, Lopes, o velho, e
Lopes, o successor havião reunido alli!
Tambem, o primeiro se estremecia de amor pelo monumento de sua philaucia e de seu
poder; e o segundo jurava aos deuses da guerra não receiar do universo, umo vez coberto com
o escudo, que lhe forjarão os cyclopes para a impunidade de seus crimes.
Era preciso, porém, passar o Humaitá.
Demais se paralysava a evolução invasora dos alliados em face d’aquellas baterias.
Duellar a canhão não bastava, não havia victoria decisiva; apenas alguns mortos,
alguns feridos, excoriações mais ou menos graves; cumpria que houvesse contusão profunda,
golpe de morte.
- Ao Humaitá! ao Humaitá! era o grito de uma cruzada; o povo e o governo insistião; a
propria honra das armas brazileiras reclamava.
Bastava! não era fraqueza d’animo o que retinha a esquadra, erão combinações de
planos estrategicos, apparelhamentos de condições preparatorias do grande comettimento.
Bastava! o valor dos generaes e dos soldados não carecia de aculeo; assaz o havião
demonstrado.
Á frente do exercito estava o marquez de Caxias, uma velha dedicação e uma bravura
moça; á frente da esquadra o barão de Inhaúma, a heroicidade e o civismo de uma vida
inteira; atrás d’elles o patriotismo brazileiro pulsava nos peitos de milhares de heroes.
Ambos os chefes responderão ás incitações: - si a marinha do Brazil não carece senão
de audacia o paiz será em breve satisfeito. -
Foi assim que disse o almirante Villeneuve indo encontrar-se com Horacio Nelson nas
aguas do Trafalgar; mas, agora era Nelson que agredia, o Alagoas ia-se transformar no
Victory, e as glorias de Trafalgar no feito immortal da passagem do Humaitá.

267
III
O marquez de Caxias e o vice-almirante barão de Inhaúma traçárão um plano de
ataque geral ás fortificações inimigas: o marquez acommetteria o reducto do Estabelecimento
entre o Humaitá e Laurelles, a esquadra bombardearia a fortaleza, uma divisão de
encouraçados forçaria a passagem.
Na noite de 18 de Fevereiro uma columna de 5.000 homens de infantaria, 2.000 de
cavallaria e algumas boccas de fogo ao mando do general em chefe, avançou sobre o flanco
esquerdo do Humaitá e tomou posição.
Deixemol-a em fórma fitando o reducto com o olhar da aguia que mede o surto para
arremetter á presa: transportemo-nos á asquadra, vai comnosco o applauso da patria, que, se
não pôde reslembrar os bravos do Estabelecimento, não tem enthusiasmos bastantes para os
heroes da divisão avançada.
Grande era o alvoroço que agitava a armada no dia 18 de Fevereiro; dentro de cada
encouraçado palpitava a onda irrequieta do ardor bellico; dentro de cada marinheiro latejava
essa inquietação, que excitão as conjuncturas mais graves da vida, e que é como o fervor do
metal fundido forjando-se em barra inflexivel: forjava-se de feito uma resolução em todos os
corações, a do denodo; compunhão-se energias para um devotamento, o sacrificio do sangue
em suffreagio a honra nacional.
Estavão todos aquelles corações entre uma victoria e uma temeridade, entre um
heroismo coroado de exito feliz e outro heroismo sobre o qual as corôas que pairavão erão,
não as de louros festivos, porém, as funebres de goivos…
Entre os encouraçados mal avultavão na exiguidade do porte tres munitores, que de
data recente havião jurado bandeiras; erão recrutas da vespera, porém, fado para invejar,
saudavão-nos já por benemeritos da patria!
Na noite de 13 esses pygmeos se havião erguido gigantes diante de Curupaity, e no
porto Elisiario tudo erão ovações para celebrar tão promissorio baptismo de fogo.
Nem era só pelos trophéos que ostetavão, que as vistas da marinagem convergião para
elles, por um outro ponto magnetico attrahião a attenção e a inveja também, fóra que o dedo
do almirante os assignalára com a honra eximia de se irem no dia proximo sepultar entre a
chuva de balas do Humaitá e a explosão dos torpedos do rio Paraguay!

268
Perto do Rio Grande, do Alagoas e do Pará tres encouraçados de maior vulto se
apercebião igualmente para partir, erão como elles os eleitos do sacrificio, os privilegiados da
immolação.
O Humaitá estava alli a tiro de canhão desafiando do alto do seu renome o esforço dos
mais bravos; sabia-se que o rio era tortuoso e esparcelado, que o canal roçava quasi as baterias
que a artilharia inimiga encadeava para desencadear em tempo uma tempestade de balas, que
sob as aguas embuscavão-se torpedos traiçoeiros, que enormes correntes obstruião o passo;
sabia-se que as couraças quebrão-se, que as chapas varão-se, que as explosões submergem.
não se ignorava ou não se pensava talvez! que a temeridade tem um limite insuperavel na
fatalidade da morte!
Mas, não importava! contra tudo isso, essa pedreira talhada em ataúde, esse rio que vai
porventura recusar agua para a voga dos navios, essa chamma latente que se conchava com as
vagas, transgredidas as repugnancias naturaes, que lhes extremão e excluem os elementos,
contra tudo isso, e contra mais que fôra si preparavão os encouraçados, monstros de ferro
animados de armas de fogo, e consciencia do dever, incude sublime na qual se tem temperado
os mais gloriosos heroismos de quantos a historia enrama com esse laurel, que jamais murcha,
a admiração da justiça!
Não importava! aquelle rio era o caminho da immortalidade, sendo cavada de
abysmos, mas levantada de eminências grandiosas para quem se arrojasse a galgal-as; era a
estrada triumphal, ou fosse que désse no tumulo ou fosse que acabasse na victoria, os
materiaes com que se fabricão pedestaes para a posteridade lá se achavão aos que os
apanhassem nos pelouros, que a fortaleza ia vomitar, e nas insidias, que se escondião no
remanço tredo das onças.
A resolução estava feita nos animos - a morte ou o triumpho -, inscrevendo-se uma ou
outra dentro da mesma esphera luminosa - a gloria pelo denodo!
O almirante ateára o enthusiasmo; sua palavra lançada á 3.ª divisão d’aquella tribuna,
que os raios da guerra alumiavão, vibrara em todas as almas.
- “É preciso que o Charlestown d’estas amaldiçoadas piagas fique reduzida ao silencio
dos tumulos, e riscado dos mappas em que o fazem dizer ao mundo - aqui não se passa! -; é o
que vai fazer a divisão brazileira ao mando do capitão da mar e guerra Delphim Carlos de
Carvalho”.

269
- É preciso -, repetião os officiaes e a marinhagem da esquadrilha, e decidião-se a
tentar; - é o que vai fazer a divisão -, e esforçavão-se para vencer.
Ao cahir da tarde cada monitor procurou o costado de bombordo do seu matalote: o
Barroso com o Rio-Grande na testa da linha, o Bahia com o Alagoas no centro, o Tamandaré
com o Pará fechando a vanguarda.
Arthur Silveira da Motta e Antonio Joaquim, Gulherme José Pereira dos Santos e
Joaquim Antonio Cordovil Maurity, Augusto Cesar Pires de Miranda e Custodio José de
Melle, e com as insignias de chefe Delphim Carlos de Carvalho, eil-os ahi os officiaes aos
quaes foi commettida a honra do pavihão nacional diante do Humaitá.
- “E nós, disse ainda o almirante, que ficamos em nosso posto de honra, cumprimos
tambem nossos deveres como militares e como homens de caragem e brio, e dizendo-lhes o
adeus saudoso da despedida, repitamos nossos gritos de guerra”.
As palavras do barão de Inhaúma como que tinhão lagrimas, d’essas que um bravo
sabe fazer evaporar ao fogo do valor tão logo como brotem do peito: é que esse - adeus
saudoso da despedida -, o velho marinheiro receava talvaz que fosse o ultimo!...

IV
Era pela hora primeira do 19 de Fevereiro: a noite envolvia em sombras o horizonte,
ao rutilos das estrellas urdião por sobre o rio Paraguay uma têa de ouropel, como saio de
doirada filigrana revestindo o vulto de uma serpente de bronze.
Era a hora assignalada para a partida da 3.ª divisão: os encouraçados desferrarão do
porto Elisiario, e travados aos pares, ferirão as ondas com as pás das helices.
O Bahia, o Lima Barros e o Silvado se affrontavão já com as baterias de Londres.
A esquadrilha segue rio acima em demanda do passo; não se ouve senão os
murmurios mysteriosos da noite…
Calma presaga das tempestade, o recolher para se retemperarem das energias do
cyclone.
N’aquelles momentos como que a morte carregava silenciosamente os canhões do
Humaitá, da esquadra e de exercito, e se antegostava do prazer da carnificina!
A esquadrilha segue rio acima; além, ante o Estabelecimento á columna que vai dar o
assalto afigurava-se, debuxando na imaginação, o vogar surdo dos monitores e dos
encouraçados, protogonistas da jornada; além, no Tagy, além, no Curuzú no Tuyú-Cué, além,

270
onde quer que campeão forças brazileiras, a expectação com que se alonga o olhar, que não
póde vêr, com que se applica o ouvido, que nada escuta, comprehende-se, mas não se
descreve.
A voga dos seis navios é o polo de uma atracção immensa, irresistivel.
O Barroso, avança velozmente, tem a firmeza de uma resolução inabalavel, que se ia
realisar, o Bahia desgoverna porém, vai de encontro a terra, encalha; mas, dentro em pouco
safa e prosegue… Não é augurio ominoso tropeçar ao penetrar-se a liça de um combate, é por
vezes curvar-se para cortejar a victoria que se antevê; Cesar pensava assim, assim provou-o.
Compõe-se de novo a marcha; o silêncio é profundo e a expectação crescente..
São 3 horas: o Humaitá demora já a tiro de canhão da esquadrilha; no entanto, apenas
os murmurios da noite e o ruido das helices.
A fortaleza faz como o tigre, que deixa a presa approximar-se incauta, arma o salto na
espessura do juncal, e só arremete-te quando conta certo abatel-a sem resistencia.
Cada soldado em seu posto; os morrões accesos; as pontarias enfiando talvez
mathematicamente os alvos; porém, silencio ainda…
São 3 horas e 35 minutos: a divisão investe o canal.
Um estrondo horrivel, como o desabar de um serro, atroou o espaço, um clarão
immenso afogueou as sombras da noite, as aguas do rio espadanarão em torno dos navios…
era Humaitá que rompia o duello.
A luva d’aquellas balas devolve-a a esquadrilha; cada encouraçado despeja metralha
sobre as baterias.
Começa a luta: de um lado uma sanha louca de exterminio, do outro um intuito
inquebravel de salvar as bandeiras e a honra de uma patria, que sulcava alli com um punhado
de bravos por cima de um abysmo.
60 canhões vomitão mil raios sobre a divisão; os pelouros batem nas couraças como
graniso açoitado pelo vendaval; as chapas estalão, fendem-se… a onda penetra o bojo das
naves!...
As baterias, que se havião feito revolver de bombas, raivavão em furia indescriptivel;
mas, a divisão sulca as aguas do canal… O delirio invadira os canhões da fortaleza: no rudir
de suas fauces flammivomas ha por vezes como que o arquejar epileptico do energumeno: era
a colera despeitada por não se poderem atirar elles mesmo como projectis sobre os
impossiveis encouraçados.. que sulcão as aguas do canal!

271
Espectaculo que se não descreve!
Dentro de cada navie ha a serenidade como que suicida do perigo no auge; a voz dos
commandantes mal se faz ouvir permeando a grita da canhoada - fogo e avante! - era o brado
com que tinhão jurado vencer ou morrer e com que ião passando mal feridos.
A cada momento a morte podia vir; ella fincava as garras de fogo nas couraças; mas,
não erão tanto essas garras as mais para temer na situação, o que se receiava e o que parecia ja
tardar, era o embate com inimigo oculto nas vagas, era a explosão dos torpedos!
Expectaculo que não se descreve!
O Chaco era um incendio; os paraguayos atearão n’elle as chamas de immensas
fogueiras para alumiar o duello, e pôr mais em vulto o objectivo de seus tiros; entre os fogos
da margem e os fogos das baterias prosegue a 3º divisão sua estrada de heroismo.
- Na minha longa vida militar nunca vi espectaculo tão grandioso! assevera o vice-
almirante Joaqui José Ignacio.
25 minutos durava o combate, 25 minutos de expectativa soffrega, suffocadora para a
armada, para o exercito, para a patria e para a historia.
São 4 horas: o estouro de um foguete resôa além do Timbó.
Uma acclamação enorme faz-lhe echo em torno de Humaitá; um viva! no qual se
desentranha todo o enthusiasmo sobreleva o ribombo do bombardeio!
Um outro foguete!... Ainda outro!...
As acclamações tocam ao delirio; o enthusiasmo tem convulsões da loucura; o Brasil é
saudado por uma tempestade de alvoroço patriotico; os bravos da divisão avançada são
victoriados por uma ovação igual na intensidade, na demasia ás sanhas do Humaitá!
Era que esses foguetes acabavão de escrever no ar, sobre a tela do fumo que o
Paraguay estendera para mortalha da esquadrilha um hymno de victoria!
Querião dizer, que os encouraçados havião superado o abysmo, e que á salvo cahião
nos braços do corpo do exercito brazileiro, postado no Tagy.

V
Nos navios que deffrontavão com as baterias de Londres, essa acclamação, esse
enthusiasmo esfria subito; o alvoroço regela, a ovação espasma!
Pois não vencemos? É mentira esse triumpho?! É miragem sobre uma catastrophe esse
sol de gloria?

272
Aguas abaixo, desvairando pela corrente encapellada do rio, envolto em espumas das
vagas, deriva um monitor da divisão…
É o Alagoas!
Seme ha um cadaver, é um heroi, que baqueou na luta.
Baqueou, mas ergueu-se, e tanto, e tão alto, que offuscou com seu vulto a estatura
digantesca de seus rivaes em brios, em denodo!
Assim, o esmorecimento da alegria foi curto, as acclamações recrudecem, o
enthusiasmo mais caloroso e o alvoroço mais vivo resurgem do que se afigurára uma
catastrophe e foi a corôa sublime do feito!
Contemos o episodio:

VI
Quando a 3.ª divisão desferrou do porto Elisiario, o Alagoas seguiu com ella atracado
fortemente ao bombordo do encouraçado Bahia.
Pouco avança quando encalha, estalando os cabos de reboque; novos viradores o ligão
as escudo do matalote com que se abraçara para affrontar a luta; desencalhado, prossegue…
Ás 3 horas e 25 minutos monta a ponte de pedras do Humaitá e faz face ás baterias; a
chuva de fogo o alcança, o fere porfiadamente, mas, elle prosegue…
Ás 3 horas e 35 minutos, transpondo as grossas correntes rompem-se ás balas inimigas
os cabos de reboque; desgoverna, vira águas abaixo…
Essas balas não o molestarão, elle as agradecia; os canhões que as despedirão fizerão-
se alliados de sua gloria; um desgosto pesava insoffrivelmente na alma do 1.º tenente Maurity
e de seus bravos companheiros: era a sombra do encouraçado Bahia na qual se eclipsava o
pequeno monitor; aquella tutela era um jugo, porque o inimigo estava ao lado e o perigo em
frente! aquelles viradores que o atavão erão grilhões, porque o protegião das ondas e dos
pelouros, e elle era um navio, isto é, um lutador das vagas, e era um navio de esquadra
brasileira, isto é, um lutador da guerra!
- Bem vindas as balas! disse cada marinheiro dentro em si.
Aguas á baixo voltêa o Alagoas até além da 1.ª divisão.
Orienta-se ao cabo de esforço da manobra; navega em prôa ao navio almirante; vai
receber instrucções talvez, recebe-as de feito:
- Dê fundo!

273
Maurity empallidece. Dar fundo! arrear bandeira quando outros batalhão! parar
quando outros caminhão! viver quando elles vão quiçá anniquilar-se! Quem dirá que o
desgoverno do meu navio não foi premeditado?! Não pódem amanhã accusar-me de ter fugido
com medo da gloria, porque avultava atrás do perigo?
O Alagoas não dá fundo!
Vai sepultar-se talvez na vorage: não terá certamente força para arrostar só, isolado, o
que se pregoa impossivel a uma esquadra: porém, prefere ir morrer diante do Humaitá a
obedecer á ordem, que lhe intima a vida.
Aprôa de novo e caminha pela corrente, que o desvairára.
- “Arrojos como esses só os pratica um verdadeiro bravo! Deixemol-o seguir seu bello
destino: Deus proteje actos tão nobres -” era o almirante que perdoava a transgressão de suas
ordens: era Parker, que saudava Nelson, o rebelde de Copenhague.
Caminha o monitor: monta a ponta de pedras pela segunda vez: mas abalroa com o
Herval, desgoverna ainda vira aguas abaixo até a 1.ª divisão.
A machina se revoltára contra o homem, a arma contra o braço; o rio repellia a victima
por muito somenos talvez; mas, não havia obstaculos para o valor e tenacidade de Maurity: a
machina deve obedecer, a arma é uma escrava, o rio, se repulsa a victima, hade aceitar o
verdugo!
Pela terceira vez o monitor investe em direcção ao Chaco: atravessa os redomoinhos
das pontas de pedra, e se arrasta até ás cadêas; a machina vai resistindo á força do piloto,
porém, vai vencida.
Ás 5 horas e 15 minutos enfrenta com a igreja do Humaitá; o fogo das baterias o quer
esmagar; de subito parão as machinas, uma avaria as paralysa! Parecendo ao inimigo que
fugia, desgoverna ainda uma vez e deriva pela corrente até ir quasi encontrar a ponta de
pedras!
Rompe o dia: cumulo de complicação a luz! mais um adversario, o sól!
O monitor parado é um alvo seguro, facil; a claridade da madrugada o expõe ao
esmagamento: assim, a artilharia aponta e dispara freneticamente contra a perseverança
suicida.
Ao estrepido das balas ferindo as chapas a marinhagem repara as avarias da machina:
a helice recobra o movimento, e Maurity a esperança.

274
Pela quarta vez investe o Alagoas: o despeito exaspera a fortaleza; exasperada faz
fogo: - ao menos este ficará -, e para que fique não poupa a actividade do odio, do desespero!
O monitor, porém, está resolvido a não ser vencido onde seus emulos e camaradas
forão vencedores: responde como póde ao odio exterminador e cégo com o heroismo sereno
do patriotismo!
Investe e passa!
Pela pôpa já lhe ficão as tremendas baterias; as ultimas balas, que lhe vomitão,
morrem longe na ardentia que rasga nas ondas.
São 7 horas: agora as margens do rio não estrondão mais; as fortificações ficarão
aquem; a uma e outra banda numerosos rebanhos de gado disparão pelas campinas,
concitados pelo ribombo da tempestade mortifera, tão atroadora como nunca fôra a furia do
vendavel nos pampas nativos!
São 9 horas e 25 minutos; pela prôa do lado do Chaco divisa-se uma barranca
fortificada; novo inimigo!
Não importa! o monitor faz agua por muitos rombos, porém, ainda ha munições;
demais, não é provavel que afunde antes de algumas horas!
Prosegue, deffronta-se com fortificação; a barranca está disposta a vingar a vergonha
do Humaitá; não frue da fama de inexpugnavel, porém, para acabar com um adversario
mutilado, agonisante, basta ser forte.
Forte é com effeito; sua grossa artilharia a fizera temivel a uma esquadra, muito mais a
um pequeno navio fulminado, porém de pé.
Dos projectis que arremessa em saraivada 10 ferem! era muito, era demais! alguns
d’elles, porventura todos, baterão em chagas já abertas!
O monitor responde-lhe com bombas e lanternetas e vai passando…
Passa a final!
Está mais ferido que d’antes, porém, ainda com algumas reliquias de força para
disputar por algum tempo a existencia á submersão.
Está no atravéz das baterias vencidas; salvo!
Ainda não! o inimigo não se resigna a deixar seguir a impune o vencedor do
inexpugnavel; os canhões forão humilhados; - talvez o Alagoas seja invulneravel ás balas;
mas, póde ser abordado: abordado, lança-se tropa no convéz, e ao cutello e á clavina
succumbirá a tripulação!

275
Assim se faz: 40 chalanas carregadas de paraguayos acomettem-no pela prôa e pelos
dous bordos; grita infrene, selvatica atrôa o espaço; são barbaros os que atacão, trazem arcos e
flexas, vem semi-nús; os filhos das selvas tem a sanha das féras de seus desertos patrios:
arremettem com os botes das onças dos sertões, saltão já no convez!...
O navio marcha mal, não póde acelerar o passo trepidante, a avaria ainda se faz
sentir…
Maurity está no convez junto da escotilha da coberta: - governa sobre as chalanas e
fogo! - brada ao practico e á guarnição: 3 canôas afundão com o choque do ariete; 3 outras
sossobrão despedaçadas pela metralha; a fuzilaria certeira e nutrida empilha cadaveres no
fundo das outras, e tinge de sangue o rio: as que se aproximão são repellidas á sabre, á
rewolvers; os que ousão abordar tambam fulminados!
Baldado o esforço, as chalanas cahem aguas abaixo e buscão abrigo na barranca.
O Alagoas está salvo!
Mas aos inimigos ainda resta uma esperança!
São 10 horas e 15 minutos: o monitor monta o Timbó: era elle a esperança; bem
fundada de certo! O navio inflexivel vai disputar o ultimo combate com o derradeiro quadrado
da fortaleza inexpugnavel.
É horrivel a explosão do Timbó vulcanisando-se para subverter o adversario; todas as
coleras desvairadas das outras baterias redobrão, multiplicão-se, transbordão aqui em
erupções de balas!
Tudo quanto arrostou e superou o monitor é cousa pouca em confronto com o esforço
diabolico em que se desentranha a nova barranca para vingar uma serie de derrotas, e
anniquilar outra serie de triumphos!
Mas, o Alagôas não podia ser vencido no ultimo passo de sua victoria, uma
circumstancia inflamma o enthusiasmo até o delirio na guarnição, avista-se o Bahia de longe,
além de Laurelles, o Bahia arquejante das convulsões da luta e mais do peso dos louros,
avista-se o Tagy, a multidão do exercito nacional apinhada nas barrancas, saudando os heroes
da passagem, avistão-se ainda as bandeiras da patria como que victoriando-os tambem no
tremular aos ventos.
As palmas da gloria estão tão proximas, que fôra assaz doloroso morrer sem attingil-
as; aquelle tremular dos estandartes está vibrando a electricidade do patriotismo nas almas..
- Fogo e avante! - brada Maurity com realentada voz.

276
O monitor dardeja metralha sobre o Timbó, este retruca-lhe com uma cascata de fogo.
São 11 horas: está salvo o Alagôas! d’esta vez, salvo, em que pese ao desespero
importente das inexpugnaveis baterias!
Sôa o meio-dia, emquanto o monitor encalha, batido por mais de 200 balas, junto á
prôa do Bahia, Maurity e seus immortaes companheiros depõem no altar da patria, presente
sob as bandeiras do exercito, os tropheos de uma das mais grandiosas victorias de que já se
orgulho um povo!

VII
Quando os ofguetes, nuncios do triumpho naval do Humaitá, estourarão nos ares além
de Laurelles, os 7.000 homens que o marquez de Caxias fizera marchar contra o
Estabelecimento calarão baionetas e levarão de escalada o reducto, e de vencida os
paraguayos, que o defendião.
O combate foi no entanto renhido, mas, o despojo basto: a morte ou o aprisionamento
de toda a guarnição, e a tomada de 15 canhões.
O Estabelecimento foi uma repercução da victoria do Humaitá, o enthusiasmo que
ateou-se nos animos do exercito incendiou as trincheiras inimigas.
Pouco depois d’esses feitos houve entre o general em chefe dos exercitos alliados e o
vice-almirante no commando da esquadra o seguinte dialogo, inserto nos officios, que entre si
trocarão:
Barão de Inhaúma. - “Permitta V. Ex. que em meu nome e no de todos os meus
subordinados demos a V. Ex. e ao brilhante exercito de seu commando os mais sinceros
parabens pela victoria alcançada no mesmo dia e na mesma hora em que nós marinheiros
pelejavamos; victoria, que por certo lhe vai dar em breve a posse de Assumpção e a
consequente terminação d’esta desastrosa guerra”.
Marquez de Caxias. - “O ousado commettimento, que acaba de realizar a esquadra, a
eleva a maior altura e gloria, ella fez mais do que tem sido praticado pelas marinhas européas
e norte-americana!”.
Barão de Inhaúma. - “Se me fora dado lançar n’este momento as dragonas de official
superior sobre os hombros do meu heroico camarada Maurity eu o faria com o maior dos
contentamentos; arrojos como o d’elle, concordara V. Ex., só os pratica um verdadeiro
bravo”.

277
Marquez de Caxias. - “Enche-me de enthusiasmo impossivel de descrever o episodio
do Alagôas: eu no caso de V. Ex. teria tambem grande pezar de não poder transpôr as
barreiras da lei escripta para collocar sobre os hombros do bravo e joven commandante
Maurity as dragonas de official superior da armada”.
Barão de Inhaúma. - “Em nome da nação brazileira, da honra e do brio louvo ao Sr.
chefe da 3ª divisão, aos bravos commandantes, officiaes e guarnições, que o acompanharão”.
Marquez de Caxias. - “Desejo que os feitos do exercito possão merecer de V. Ex. e da
esquadra, que passou o Humaitá, sympathica approvação”.
Aos dois generaes, representantes do exercito e da esquadra, abraçados e confundido
seus louros na jornada memoravel do 19 de Fevereiro, em nome da nação brazileira da honra
e do brio, a patria ainda hoje louva e agradece, - á um no repouso sagrado do tumulo; ao outro
sob as cans venerandas da velhice.

VIII
A passagem do Humaitá é, uma das datas culminantes e gloriosas da campanha do
Paraguay.
Não póde estar olvidado no indifferentismo da geração, que lhe foi contemporanea e
que lhe saudou com tão entranhado ardor e pompas de orgulho o lustr com que cobrio os
brazões nacionaes; não poderá tão pouco ser esquecida pelas gerações vindouras.
Um povo que deslembra em curto prazo as grandes dedicações e os grandes
heroismos, que lhe exaltão e que lhe exornão os timbres de suas armas, está em plena
decadencia, d’essa que vai precipitada ao fundo do abysmo de um exicio ignobil, porque
começa por eivar a alma, matando n’ella o sentimento que mais a acentúa e a exalsa, a
gratidão patriotica, que é um modo de ser do patriotismo mesmo.
Não, brilha á todo o reconhecimento e admiração do sol do 19 de Fevereiro; aos raios
d’esse astro de gloria se refrigera das dôres que padece, e se alenta para as esperanças que
nutre, com o paiz em cuja historia elle explende.
Considerada de perto, aparte a lente hyperbolica do enthusiasmo pela qual nos será
perdoado tel-a visto e discripto, a passagem das fortificações do Humaitá persiste um arrojo
tão temerario quanto heroico, tão heroico quanto feliz.
O valor dos que commetterão e levarão ávante a empreza fica o que elle é, ainda
desnudo das ramarias do estylo com que acaso o queiramos enfeitas, fica um dos mais

278
excelsos testemunhos da impossibilidade e força de que é capaz, em hora dada, o coração
brazileiro.
Não apouca no merecimento dos bravos, que perdurará intacto, considerar que entrou
muito em nosso prol essa como providencia, que tanto e tantas vezes tem aplainado espinhos
e desviado naufragios diante dos passos do Brazil.
Era bem provavel que Humaitá redundasse em um desastre a despeito de toda a
bizarria e pericia das armas e da pilotagem: essa apprehensão atribulava todos os espiritos
antes do triumpho, e depois d’elle verificou-se, que bem assentes erão os receios, pois pouco
ficava aquem da fama quasi supersticiosa a realidade do perigo.
Mas, as causas justas tem um alliado nato da justiça, que sendo a maior força moral,
tarde ou cedo, porém, indeffectivelmente em algum momento se traduz em victoria no mundo
contingente.
A justiça embarcára na 3.ª divisão; como estava no Amazonas em Riachuelo; como
tem estado sempre vigilante e protectora assistindo o direito e a prosperidade da terra de
Santa-Cruz.
O barão de Inhaúma reconheceu-a e saudou-a: - “eu que tenho a fortuna de ser christão
não posso deixar de attribuir a mais decidida protecção do nosso bom Deos o tão alto favor
d’esse grande triumpho, que bem pouco sangue precioso de nossos bravos companheiros nos
custou”.
A reputação a que alteou-se, ainda acima da que conquistara em Riachuelo e Curuzú
a marinha brazileira, acclamou-a a imprensa do Prata, a imprensa européa; ciumes recalcarão-
se, antipathias renderão-se para celebrarem em levantamentos de hymnos e encomios a pagina
magestosa, que os seis encouraçados nacionaes escreverão nos fastos militares.
Na constellação onde fulgem Salamina, Lepanto, Catana, Aboukir, Trafalgar,
Navarino assignou-se lugar de honra para o Humaitá.
O mundo soube, si o ignorava, que o Brazil, como o Cincinnatus romano, póde deixar,
quando cumpra, a relha do arado agricola cravado na gleba de seus campos para sahir com
galhardia á arena em que esvoaçava a bandeira de seu pundunor!
Ainda bem, que foi quasi incruenta, para os nossos bravos essa victoria!
Isso a engasta grandiosamente no espirito do seculo XIX, que eleva tanto mais o
triumpho quanto menos sangue regou para vicejar os laureis, que o coroão.

279
O. P.

VI. A tomada de Curuzú

I
Ainda nos ares se enovelava o fumo dos fataes torpedos que tão desastrosamente
submergiam o encouraçado - Rio de Janeiro - e com elle o bravo 1.º tenente Silvado, o 2.º
tenente Coelho e sessenta e duas praças da guarnição; e já doforte Curuzú rompia incessante
fogo de artilharia e fuzilaria contra o 2.º corpo do nosso exercito que, ao mando do general
Porto Alegre e por entre macegas em chamas, ia ousado tomar posição em frente ao inimigo e
ahi, a fé firme, aguardar o dia seguinte, 3 de Setembrp, em que a historia tinha de registrar
mais um feito brilhante das armas brazileiras.
A noite decorreu morosa e fria como soem correr, em taes circumstancias, as horas
plenas de anciedade e perigos.
E que tremendas horas aquellas! De um lado a vida, as honras, a victoria: de outro a
derrota, a vergonha e a morte! De um lado os risos, os vivas e os hymnos: de outro as
lamentações, os gemidos e as lagrimas! A esperança e a incerteza, o calculo e a duvida, o
sonho e a realidade!
Com que violencia não pulsavão os corações, com que anciedade não offegavão os
peitos!
Em balde alongavão-se os olhares pelo espaço: tudo era trevas - trevas da noite, trevas
do futuro. Os successos, como os horisontes, erão impenetraveis. Ao olhar humano nada era
dado devassar.
Os 8,300 homens, de que se compunha o 2.º corpo do exercito, alli estavam em frente
do forte Curuzú, como, outr’ora, o gladiador romano em face do contrario antes do signal
dado para o começo da luta.
No meio desses milhares de cabeças uma havia, mais que qualquer outra, que velava e
meditava: era a do chefe. Sobre o aguerrido general pesava immensa responsabilidade. A
Historia e a Patria o esguardavão immoveis e silenciosas como o infinito.
Uma - a Patria, confiára-lhe oito mil filhos e a dignidade de sua bandeira; outra, - a
História, apontava-lhe o passado, desenrolava-lhe ante os olhos as paginas dos feitos de
Moron, que, não lhe era mais dado desmentil-os.

280
Quem pudesse nessa noite memoravel devassar o que se passava no espirito do velho
guerreiro - que episodio sublime não escreveria na epopeia do heróe!
Que de projetctos, que de triumphos, que de sonhos não nascião e esvahião-se
naquelle cerebro como luminosas scentelhas electricas que fulgem e fogem em um céo, ermo
de estrellas, em noite de caliginosa tempestade!
Quantas vezes não caminharia elle prompo, cheio de coragem como quem se
apressava a colher os virentes louros que lhe estendia o anjo das victorias; e quantas tambem
não pararia irresoluto, vacilante, como quem deante de si via erguer-se fatidica a mão do
exterminio! Quantas vezes não escutaria enlevado os hymnos do vencedor, e quantas tambem,
cheio de consternação, não ouviria as lamentações do vencido!
Cada hora, cada minuto, cada instante era para elle um dia, um anno, uma vida inteira!
O passo tardo, pesado e surdo da sentinella, o tinir da arma annunciando - alerta, - o
ciciar do vento entre a folhagem, e o lugubre piar da ave nocturna, tudo emfim, era para
entibiar animo o mais resoluto e desilludir esperanças as mais bem nascidas. No entanto, o
veterano da Independência, que, dispensando-se dos gozos da reforma que no lar querido fruia
cheio de doçura, empunhára de novo a velha espada para com ella vingar os brios da patria,
alli estava de pé, calmo, firme, em seu posto de honra como quem, conscienciosamente
cumpria o seu dever.
A noite avançava, fria e serena como a fatalidade. Escoavão-se as horas, e o dia do
porvir aproximava-se cada vez mais.
Se o exercito brazileiro velava, tambem mais tranquilla não descançava a guarnição do
forte. Os inimigos que, no correr do dia, sustentarão vivissimo e inimterrompido fogo com os
nossos, occupavão-se, durante a noite, em reunir elementos de deffesa e destruição.
Não menos corajosos e intrepidos que os nossos soldados, os paraguayos supprião o
patriotismo que inspira a liberdade, pela obediencia que impõe o servilismo.
O forte Curuzú, guardado por 3,000 homens, era um reducto digno de respeito não só
pela sua construcção solida e feita sob todos os preceitos da architectura militar, como
tambem pela avantajada posição em que se achava colocado e pelas ires bocas de fogo que o
deffendião por todos os lados.
A guarnição do forte era, em geral, composta de gente escolhida, dextra e de ha muito
tempo descançada, o commandante não era destituido de valentia e nem de todo ignorante na
difficil arte da guerra.

281
Melhor estréa não podia, pois, fazer o 2.º corpo do nosso exercito. Em seu primeiro
combate não se ia haver com destroçados pelotões e gente bisonha, não tinha de atacar
nenhum desmantellado reducto nem escalar muradas de improviso: ao contrario, deante de si
tinhão os estreantes muralhas solidas, e um forte respeitavel guarnecido por soldados
aguerridos e bem disciplinados.
Dizia-se geralmente, mas era uma calumnia e calumnia - que em vez de desmerecer o
exercito inimigo só servia para amesquinhar as nossas victorias - que os batalhões do exercito
de Lopes erão compostos de mulheres, velhos e crianças, nús e esfaimados! Não era exacto: e
nem podia sel-o pois que uma nação, qualquer que seja, não póde exclusivamente compôr-se
desses tres elementos, e nem o dictador do Paraguay seria tão estulto que a taes mãos,
entregasse uma causa que era, como foi para elle, de vida e morte.
A população da capital do imperio teve muitas vezes occasião de vêr os prisioneiros,
que de lá vinhão; não erão Hercules, é certo, mas muito menos pigmeus; não desmerecião ao
lado dos nossos soldados senão quanto ao garbo e uma certa vivacidade de movimentos que
tem todo aquelle que não é obriigado a simular o que sente. Um povo livre sempre tem mais
vida, mais emthusiasmo, que um povo escravisado e subjeito á disciplina tyranica do
despotismo.
Os soldados paraguayos erão, na maior parte, moços, corpulentos e robustos;
avançavão com coragem, batião-se com denodo e morrião com heroismo. Se erão ou não
inspirados pelo fanatismo é o que não podemos affirmar; mas que se dedicavão cegamente á
causa que deffendião demonstrarão-n’o elles por tantas vezes quantas se empenharão nas
renhidas e cruentas batalhas nas quaes, posto que para gloria nossa sahissem quasi sempre
vencidos, derão exemplos de não vulgar heroismo e coragem.

II
A noite do dia 2 de Setembro foi cheia de perigos e trabalhos; o corpo provisorio
d’engenheiros, sob o commando e direcção do major Rutino Eneas Galvão, occupou-se
afanosa mente levantar trincheiras para abrigo do exercito.
Eis como a parte do major Rufino, dirigida ao então ministro da guerra Angelo Muniz
da Silva Ferraz, descreve esse feito do brioso corpo d’engenheiros do qual era elle tão dignno
chefe.

282
“Em virtude da ordem de S. Ex. o Sr. general em chefe, marchei para a frente afim de
reconhecer as posições do inimigo, indo commigo o capitão d’estado maior de 1.ª classe Julio
Anacleto Falcão da Frota, membro desta commissão, e excercendo interinamento o lugar de
secretario-militar, que havia-se offerecido para esse serviço”.
“O commandante do batalhão 11.º de linha, que ia na frente, destacou-se - logo que
avistamos a bandeira do inimigo - uma guerrilha, trocando-se em seguida tiros entre ella e o
inimigo; porém dentro em pouco dirigio-nos este tiros de metralha, resultando diversos
ferimentos, sendo alguns graves”.
“Nossa posição era má, porque a brigada achava-se estendida epal estreita picada pela
qual enfiava o inimigo seus tiros”.
“Aquele batalhão e o 8.º de voluntarios da patria, sahirão da picada e estabelecerão-se
para a direita em uma garganta que depois vio-se que dava em um campestre”.
“Logo que chegou o batalhão provisorio de engenheiros tratei de levantar com o
referido capitão Frota uma trincheira que, cortando a picada, impedisse que o inimigo nos
surprehendesse”.
“Ás 4/2 horas da tarde, quando S. Ex. o Sr. general em chefe dirigio-se a esse lugar
dei-lhe parte do occorrido, e recebendo ordem do mesmo Exm. Sr ás 7 ½ horas da noite para
escolher uma posição, afim de n’ella construir um espaldão para assestar nossa artilharia,
marchei pelas 8 horas com os outros membros da commissão, que tinhão-se apresentado ao
mesmo Exm. Sr. logo que desembarcarão, segundo foi-lhes determinado, sendo a commissão
na escolha desse ponto muito auxiliada pelo incansavel tenente-coronel Astrogildo Pereira da
Costa”.
“Ficamos a nossa posição além dos piquetes avançados, pedi um batalhão de infanteria
para proteger os trabalhos de engenharia, aos aques dei começo antes das 10 horas da noite; e
pouco depois das 4 horas da madrugada achando-se prompto o espaldão, constando de cinco
canhoneiras, entreguei-as ao commandante do batalhão 36º de voluntarios da patria, que
esteve de protecção aos trabalhos, mandando retirar o batalhão provisorio de engenheiros, que
muito trabalhou”.
“Durante a noite o inimigo lançou fogo em diversos pontos ao redor do nosso
acampamento que esteve ameaçado de ser devorado pelas chammas, se o vento fresco que
soprava não tivesse rondado e se não nos tivessemos esforçado em mandar extinguir o fogo
em frente ao lugar onde a commissão levantava o espaldão”.

283
“Nesse serviço estiverão sempre commigo os capitães Francisco Xavier Lopes de
Araujo, Francisco Antonio Pimenta Bueno e Antonio Villela de Castro Tavares; o primeiro do
corpo de engenheiros e os dous ultimos do estado-maior de 1ª classe, bem como o 1º tenente
de engenheiros Vicente Pereira Dias e o 1º tenente de artilharia José Arthur de Murinelly,
todos membros desta commissão, que não se esquecerão um só momento de seus deveres, e
trabalharão durante a noite com muita dedicação”.

III
Raiou emfim a desejada aurora.
O dia 3 de Setembro de 1866 surgio do cháos do porvir, e o futuro, até então incerto e
duvidoso, começou a desenhar-se nos horizontes da vida.
O toque da alvorada resôou sonoro pelas campinas e florestas. A soldadesca ergueo-se
lesta, tocou-se a postos, unirão se as companhias e formarão-se os batalhões.
Ás frescas brisas desfraldarão-se os auri-verdes pendões, alegres hymnos saudarão o
novo dia e os guerreiros beberão a largos haustos as auras matinaes.
Ás 6 horas o inimigo ropmpeu vivissimo fogo de artilharia contra as nossas
improvisadas fortificações; a esquadra, do rio, e o exercito, de terra, acudirão promptos a
responder ao cumprimento da manhã.
O canhoneio, de parte a parte, nada houvera a invejar. O forte Curuzú atirava com
rapidez e certeza, a esquadra respondia com vigor, e as baterias de terra fazião-lhe honra.
Apoz uma boa hora de metralhada, o general Porto Alegre enviou aviso ao almirante
Tamandaré que fizesse cessar o fogo da esquadra.
Ia-se começar o assalto.
Separada a divisão de infateria em duas columnas, foi entregue o commando da que
devia operar pela direita ao brigadeiro Alexandre Manoel Albino de Caravalho e pela
esquerda ao brigadeiro Joaquim José Gonçalves Fontes.
Duzentos homens a cavallo, sob o commando do major Vasco Pereira da Costa
marchavão na rectaguarda, para obstar qualquer movimento de flanco que, porventura, o
inimigo quizesse emprehender.
Os clavineiros e lanceiros da 3ª divisão que, por falta de cavallos marchavão a pé,
commandados pelo coronel Manoel Lucas de Lima, servião de reserva e devião acudir aos
pontos que, pelas circumstancias do combate, exigiessem promptos soccorros.

284
Guardava a rectaguarda uma força de cavallaria da guarda nacional do Rio Grande do
Sul.
Emquanto se punha o exercito nessa ordem, as baterias do nosso espaldão continuavão
a sustentar fogo de artilharia com o forte inimigo, que já então havia soffrido algumas avarias
produzidas pelos tiros da esquadra.
Assim disposto o 2º corpo do exercito, em linha de tabalha, marchou para o reducto. A
guarnição paraguaya vendo avançar as nossas hostes redobrou de actividade enviando contra
ellas repetidas cargas de artilharia e fuzilaria.
Por algum tempo marcharam os nossos homens com a lentidão e regularidade que em
taes casos requer a prudencia e o sangue frio; até que chegado o preciso momento, á voz de
seus commandantes, galgarão rapidos o espaço que os separava das muralhas inimigas.
A vaga irada que do seio do oceano se ergue em noite de tempestade, e que espumante
e bramidora, elevando-se a prodigiosa altura, desaba sobre o costado de um navio fazendo-o
em mil pedaços, não é nem mais imponente, nem mais medonha do que foi aquella mole de
corpos humanos precipitando-se contra o inexpugnavel reducto.
Ao vêr-se, de longe, esse exercito avançando com tão vertiginosa rapidez, acreditar-
se-hia que um descomunal pampeiro levantado do solo enormissima tromba de areias ia
suffocar, sob espessas camadas, aquella fracção do territorio paraguayo.
Espetaculo mais horrido-sublime não se offereceria, por certo, aos olhos de quem
nesse momento contemplasse o combate que ia dar-se entre aquella mole humana e as rigidas
muralhas de Curuzú.
Ao approximar do reducto, o general Porto-Alegre ordenou que cessasse o fogo da
nossa artilharia e immediatamente mandou tocar a avançar a marche-marche.
Possuidos do mais patriotico ardor e inexcedivel coragem, os nossos soldados
lançárão-se ao forte como um bando de esfaimados leões contra um rebanho de bufalos
selvagens.
Recebidos a ponta de lança, a golpes de machado, a carga de baioneta e de fuzilaria á
queima-roupa, a nossa gente cahia, morta e ferida, como basta messe ao roçagar de cegadora
fouce.
Cabeças sem corpos, corpos sem cabeça, braços, pernas, troncos mutilados epalhavão-
se no solo como fructos maduros ao sacudir do tronco por mão robusta e fera.

285
Os batalhões de voluntarios da patria 29º da Bahia e 34º do Pará forão os primeiros
que tocarão as trincheiras. Rapidos vadearão os fossos. Servindo as costas de uns de escadas
para outros, com denodado valor, galgarão os parapeitos, e antes de recobrados da maxima
impressão já os paraguayos cahião crivados pelas nossas baionetas.
Ao capitão Marcolino, homem preto e natural da Bahia, coube a gloria de ser o
primeiro assaltante que pisou dentro do forte.
O tenente-coronel Astrogildo, do Rio Grande do SUl, de lança em punho, contornando
a trincheira inimiga até encontrar a entrada do forte, penetrou nelle, só, a cavallo. raio de
morte, seu armado braço, possante e adextrado, cahio sobre a guarnição paraguaya como o
anjo do exterminio. As patas de seu brioso corcel esmagavão cabeças que a invencivel lança
abatia vencidas.
Batidos por todos os lados, os inimigos tratavão de saltar-se, abandonando o forte e
fugindo em magotes desordenada e desesperadamente.
O brigadeiro Fontes vendo-os fugir, lançou-se-lhes ao encalço com um troço de bravos
que tão longe levarão com elle a ousadia, que chegaram até a vista das trincheiras de
Curupaity, d’onde retrocederão, em numero de cem, exaustos de forças e munições.
O tenente-coronel Lima e Silva honrou o nome que tão dignamente usa; o major
Lopes, commandante do 11º de linha e tenente-coronel José Antonio Corrêa da Camara
fizerão prodigios de valor.
Ao penetrarem os batalhões no forte cahio mortalmente ferido o intrepido 1º tenente
Vicente Pereira Dias e pouco depois foi tambem ferido gravemente o capitão Francisco
Antonio Pimenta Bueno, ambos officiaes d’engenheiros que, além dos pesados trabalhos que
durante a noite supportarão levantando o espaldão, distinguirão-se nobremente no ataque,
avançando na vanguarda tão denodadamente que com seu sangue baptisarão aquelles feitos.
Ao lado do visconde de Porto Alegre cahio morto um dos seus officiaes, o que não
impedio que o indomito general proseguisse ávante, sendo sempre o primeiro a correr aos
lugares onde mais empenhada e decisiva se monstrava a luta.
Em hora e meia o forte de Curuzú, reputado quasi como inexpugnavel e no qual Lopez
tanto baseava o seu plano de defeza, foi assaltado e tomado pelo 2º corpo do nosso exercito,
cujo commandante em chefe se mostrou nesse dia em tudo digno da reputação que de ha
muito gozava, e não menos dos bravos que assim soubera conduzir á victoria.

286
Para comprovar o denodo e a valentia com que foi dirigida e executada esta cção,
basta dizer-se que em tão curto espaço de tempo tivemos perto de 1,000 homens fóra de
combate.
É indiscriptivel a valentia com que os nossos atacarão o forte de Curuzú; “desde o
general em chefe, diz um correspondente de Buenos-Ayres, ao ultimo soldado, não houve
quem não quizesse ser o mais bravo nesse dia. Os commandantes de divisão e de brigada, que
a principio tratarão de enthusiasmar as tropas, tiverão de empenhar-se depois em conter seu
excessivo ardor, o que fez com que o assalto fosse dado com tanta precisão como efficacia”.
As perdas do inimigo forão avultadas. Mais de 800 paraguayos ficarão sem vida,
contando-se no numero destes o major Avalos que commandava o forte.
As peças tomadas forão em numero de 13, sendo: uma de 68, duas de 32, quatro de
ferro de 12, uma longa de bronze de 9 e cinco de bronze de 4 a 12.
Além da bandeira que tremulava na bateria cahirão mais duas em poder dos nossos,
bem como muito armamento e munições.

IV
Curuzú estava emfim vencido; esse baluarte que por tanto tempo se oppuzera ao
proseguimento da guerra estava desfeito. Ao general Porto Alegre cabia essa não pequena
gloria.
“A tomada de Curuzú, diz o supracitado correspondente, póde-se considerar com um
dos feitos mais completos da guerra do Paraguay, porque com ella se conseguirão todos os
fins que se tinhão em vista”.
“O primeiro era, - tomando um ponto na costa do rio Paraguay, sobre o flanco do
exercito inimigo - tirar-lhe o forte apoio do rio para a sua direita; o segundo fazer com que o
nosso 2º corpo de exercito, vindo collocar-se á esquerda do 1º, ligasse a esquadra ao campo
dos alliados, formando assim uma linha offensiva muito superior a toda a frente do inimigo; o
terceiro era apossar-se da primeira fortificação do littoral do Paraguay, que, demorando a
meia legua de Curupaity, servisse de base de operações para o ataque que se levasse contra
aquelle forte”.
“Tudo isso foi plenamente alcançado, e além do prejuizo material causado ao inimigo,
o facto de perder elle a sua primeira trincheira com toda a artilharia leva-lhe muita
desmoralisação á defesa de suas linhas”.

287
“Tão importante e tão gloriosa como foi essa acção para as armas brazileiras, seus
effeitos sobem de ponto se se considerar a continuação necesaria que ia ter”.
E assim foi; no dia 4 o general Polydoro, commandante do 1.º corpo do exercito,
chegou a Curuzú para felicitar o visconde de Porto Alegre pela brilhante victoria que acabava
de alcançar e ao mesmo tempo combinar o andamento das operações contra as linhas
inimidas.
A 7, o 2.º corpo do exercito, tendo protegido seu flanco direito com trincheiras na
previsão de algum ataque que o inimigo podesse trazer-lhe com forças superiores, tinha
collocado suas avançadas em frente do Curupaity, começando, por agua, o bombardeamento
da esquadra.
Nesse mesmo dia o general Mitre teve uma conferencia com o Sr. Conselheiro
Octaviano, ministro plenipotenciario do Brazil, e os viscondes de Porto Alegre e Tamandaré.
A 13 embarcou em Itapirú o general Mitre com o exercito argentino de 4,000 homens
e seis batalhões brazileiros, commandados pelo coronel Paranhos, e incorprando-se ao 2.º
corpo do nosso exercito formou um pé de 16,000 homens.
Tudo parecia predisposto para um proximo e decisivo ataque, mas assim não
aconteceu. Sempre que o general Mitre assumia o commando em chefe das tropas as delongas
e adiamentos deixavão a campanha cahir em completa inacção.
Passaram-se dias e dias, até que a 18 de Setembro os generaes Flores e Polydoro,
receberam ordem de Mitre para atacarem Tuyuty, dispondo se elle por sua parte a atacar mais
tarde Curupaity. Era justamente o contrario do que havião em conferencia de generaes
combinado!
Dessa inexplicavel modificação de plano feita por Mitre resultou o revez que soffrerão
as armas aliadas em Curupaity.
Adiado por muito tempo o ataque a essa fortificação, assentou-se afinal em effectuar-
se no dia 17 de Setembro, o que não permittio a chuva que nesse dia cahio em torrentes.
Depois de novos reconhecimentos determinou-se o dia 22 desse mesmo mez para dar-
se o ataque diffinitivo a Curupaity.
Logo pela manhã, aproveitando o tempo claro e fresco que fazia, os navios Brazil,
Barroso, Bahia, Tamandaré, Belmonte, Parahyba e Henrique Martins, 2 bombardeiras e 2
morteiros em chatas romperão fogo do rio, que durou por muito tempo, sem porem se

288
reconhecer o resultado em razão de uma espessa mata que se interpunha entre a esquadra e o
forte.
Dispunha Curupaity de 56 bocas de fogo, sendo algumas de 68 a 32 e outras de 12, 6 e
4; dous reductos nas extremidades da linha cruzavão com efficacia seus fogos; esses reductos
erão deffendidos por um fosso largo e profundo.
A pequena distancia desses fosses havião abatizes; á esquerda um matagal e á direita
um enorme pantano.
Apenas começou por agua o bombardeamento, o exercito de terra, formou-se em
quatro columnas, sendo a da esquerda commandada pelo brigadeiro Gonçalves Fontes, a do
centro pelo brigadeiro Albino de Carvalho, e as outras duas columnas, que erão argentinas,
sob o commando do general Paunero. A primeira columna atacaria a extrema esquerda do
bluarte e a segunda ficar lhe-ia de protecção.
Ás 8 horas e meia mandou-se avisar a esquadra, que tomou nova posição proseguindo
no fogo ao qual respondia o forte com energia e violencia.
Avançou então o corpo do exercito, atacando a columna esquerda o flanco direito do
entrincheiramento inimigo, ao passo que a segunda columna atacava o flanco esquerdo. Uma
columna de infantaria argentina, apoiada por outra de reserva, batia o centro.
Intrepido e arrojado foi o assalto, tenaz a resistencia; as columnas de ataque erão
recebidas com rigoroso fogo tanto de bombas de grande calibre como da infantaria, que
guarnecia os parapeitos do entrincheiramento; ellas porém investião com grande valor e em
pouycos momentos cahio em seu poder a primeira linha do entrincheiramento inimigo, que
consistia em um fosse de 12 palmos de largo e 10 de profundidade, guarnecido de artilharia de
campanha, sendo esta retirada immediatamente para nossa rectaguarda.
Ás 11 horas o almirante deu ordem para se romperem as estacadas, afim dos
encouraçados Brazil, Barroso e Tamandaré baterem as trincehiras paraguayas o que não
conseguirão efficazmente em consequencia da grande altura das trincheiras.
Não podião atirar por elevação porque desse modo offenderião gravemente o nosso
exercito; alguns tiros, que tentarão, produziram alguns estragos em nossas fileiras.
Os garibaldinos de S. Fidelis, que estavam no Chaco, causarão grande damno ás
baterias paraguayas das barrancas.
Passando a estacada a esquadra teve de cessar fogo.

289
Depois de occupada a primeira linha inimiga, esbarrarão os nossos com o mais forte
entrincheiramento de Curupaity.
Era elle de primeira ordem; constava de uma enormissima muralha, ligada pelas
extremidades aos baluartes, e tanto estes como aquellas, guarnecidas de artilharia de grosso
calibre; tudo circundado por um fosso de 27 palmos de largura e 18 de profundidade.
A vista dessa formidavel fortificação longe de intimidar os nossos - a artilahria que
sem cessar vomitava sobre elles chuva de balas, em vez de fazel-os recuar, parecia que mais
os animava e attrahia ao renhido e sanguinolento assalto.
Possuidos do maior enthusiasmo, inspirados pelo anjo das victorias avançarão os
nossos bravos áquele fortissimo entrincheiramento com tanto denodo, firmeza e audacia que o
teriam levado de vencida se obstaculos imprevistos não se oppuzessem á realização de tão
arrojado quão glorioso feito. Um grande banhado, insuperavel por meio de abatizes embargou
os passos áquelles intrepidos soldados.
Em presença de tantas barreiras, quer naturaes quer levantadas pela mão do homem,
impossivel era levar assim de assalto tão grande e tão potente baluarde, no qual o inimigo
havia concentrado a melhor e maior parte de suas avultadas forças.
Quarenta bravos das nossas fileiras conseguindo, apesar de tamanha e tão victoriosa
resistencia, penetrar no forte, apoderarão-se de quatro bocas de fogo; mas, victimas illustre de
tão ousado quão pratiotico arrojo, succumbiram na luta que travarão braço a braço contra
massas compactas de inimigos, que sobre elles cahirão como uma torrente impetuosa sobre
relvados campos, que tudo esphacela e esmaga sob sua espumante e indomita passagem.
Era impossível ir mais longe e combater-se por mais tempo: mandava a prudencia e o
criterio que se recuasse em regra para não perder-se todo o exercito, que ainda sob tantos
revezes se mostrava animado e disposto a manter-se firme por muito tempo ainda.
Tocando-se então a retirada, operou-se ella na melhor ordem possivel, carregando-se
não só os feridos como os mortos, sem ousar o inimigo sahir de suas linhas e perseguir-nos.
Emquanto se sustentava o assalto de Curupaity, o general Flores, com a sua cavallaria,
pela esquadra do entrincheiramento de Riojas, internava-se tão ousadamente que chegou até
aos hospitaes do inimigo, a uma legua de distancia de seu entrincheiramento. Ahi encontrando
um piquete paraguayo bateu-o completamente. Sabendo, porém, do que se passava em
Curupaity, retirou-se para evitar que fosse cortada a sua rectaguarda.

290
O general commandante do 1º corpo do exercito também não perdia o seu tempo;
durante o dia bombardeava com suas forças o inimigo, conservando-se sempre promtpo a
atacal-o vigorosamente caso para isso se lhe deparasse oppurtunidade.
O ataque de Curupaity foi uma operação malograda, é certo: mas não mariou o brilho
das nossas armas; antes pelo contrario, deu occasião a que mais uma vez dessesm os nossos
bravos soldados uma das bellas provas, que na campanha do Paraguay exibirão, de muita
constancia, valor e disciplina. Batendo-se contra aquellas formidaveis trincheiras patentearão
ao mundo que sabem desprezar a morte quando se trata da honra da patria.
O feito de 22 de Setembro posto que não lograsse o almejado fim, deve ser comtudo
reputado, como reconhecimento militar a viva força, um dos mais brilhantes das armas
brasileiras. Não foi certo vencer-mos, mas não fomos vencidos!
A retirada operou-se com summa felicidade. Não perdemos um palmo do terreno
conquistado ao inimigo, nem ficaram prejudicadas as posições anteriores tomadas.
Foi um combate renhido e sangrento como poucos contão as armas da memoravel
campanha do Paraguay. Tivemos do 2º corpo do nosso exercito 1,900 homens fóra de
combate, sendo mortos 34 officiaes e 344 praças de pret, feridos 119 officiaes, 1,261 praças
de pret, contusas 48 officiaes e 94 praças de pret.
A força argetina contou mais de 1,500 homens fóra de combate, entre mortos e
feridos; notando-se entre estes o coronel Rivas e no numero daquelles os coroneis Cuarlan,
Dias e Reneti.
As perdas do inimigo não forão somenos; avalia-se em cerca de 2,000 homens cahidos
entre os que receberão leves e graves ferimentos ou a morte.

V
O desastre de Curupaity entristeceu o 2º corpo do exercito que tão brilhantemente
estreara na tomada de Curuzú, mas o animo patriotico do bravo general Porto-Alegre em nada
arrefeceu com tal successo, ainda que no intimo d’alma lhe sangrasse dolorosamente ver
assim voltar a Curuzú os companheiros da gloriosa jornada de 3 de Setembro.
De volta ao campo desta brilhante e immorredoura victoria, dirigio elle a seu exercito
esta proclmação, em que cada linha transparece o nobre enthusiasmo e o amor da patria que se
aninhavam naquelle peito de verdadeiro soldado e cidadão.

291
“Soldados! Reconhecer e tomar, se fosse possivel, a posição de Curupaity foi o nosso
empenho na jornada de 22 de Setembro.
“O estandarte brazileiro não tremulou nos muros daquelle forte, mas ainda assim bem
merecestes da patria, que solicita vos contempla.
“Cincoenta e oito bocas de fogo, convenientemente collocadas e 13,000 homens de
infantaria arremeçavão-nos abobadas de balas.
“Os insuperaveis fossos, revestidos com os accessorios que a arte ensina, davão animo
aos escravisados soldados do tyranno Lopez. Sobre essa posição assim artilhada, investistes
com denodo.
“Ao vosso lado pelejavão os valentes argentinos; elles e vós cumprirão com admiravel
intrepidez o sacrificio que a patria exige, que a honra ordena e a liberdade espera.
“Muitos dos nossos conterraneos encontrarão morte gloriosa sobre as ultimas baterias
inimigas! Honra a esses bravos, cuja memoria jámais perecerá.
“O vacuo de vossas fileiras attesta com eloquencia irrespondivel quão mortifera foi a
peleja, e o vosso denodo conteve o inimigo em suas posições, observando admirado a mais
tranquila das retiradas. Quatros horas tinha durado o combate.
“Soldados! Ainda quando o movimento do dia 22 podesse ser considerado um - revez
para as armas aliadas - elle retemperou os nossos animos sem diminuir o brilho das nossas
armas. Os bravos que tomarão parte naquelle glorioso combate podem com arrogante altivez
dizer ao mundo: - em Curupaity ficou ilesa é certo, mas nem por isso deixou a infelicidade do
successo de influir fatalmente no proseguimento da campanha e no animo do exercito que, por
tibieza de alguns generaes-shefes, cahio de novo em profunda apathia; ficando o 2º corpo
acampado em Curuzú, reduzido á simples deffensiva.
A honra da bandeira nacional ficou ilesa é certo, mas nem por isso deixou a
infelicidade do sucesso de influir fatalmente no prosseguimento da campanha e no animo do
exercito que, por tibieza de alguns generaes-chefes, cahio de novo em profunda apathia;
ficando o 2º corpo acampado em Curuzú, reduzido á simples deffensiva.
Os paraguayos reconquistando a perdida coragem, levantarão entre Humaitá e
Curupaity novas fortificações guarnecidas de desoito peças de 68 e 32, e cheios de audácia
passando da deffensiva á offensiva, atacarão as avançadas do 2º corpo com um tiroteio
vivissimo e, posto que repellidos galhardamente, nem por isso deixarão de dissimar aquelle
corpo de modo que, em fins de Outubro, achava-se reduzido a 7,000 homens.

292
Obrigado a permanecer inactivo o general Porto Alegre desgostava-se de dia para dia
profundamente.
A divergencia manifesta de que ha muito existia entre os generaes de terra e mar,
concorria ainda mais para a resolução a que Porto Alegre parecia inclinar-se de abandonar a
campanha.
Nomeado, por decreto de 10 de Outubro de 1866, commandante em chefe das forças
imperiaes na guerra contra o Paraguay, partio o venerando Marquez de Caxias da côrte a 29
daquelle mesmo mez e chegou a Corrientes a 16 de Novembro, d’onde immediatamente
participou aos viscondes de Porto Alegre e Tamandaré ali achar-se presente.
O commandante do 2º corpo do exercito e o almirante da esquadra, respondendo ao
officio daquella participação, communicarão igualmente ao novo general em chefe das nossas
tropas que desejavam retirar-se para o imperio. Esta resolução porém deixou de ser diffinitiva
da parte de Porto-Alegre, pois continando a permanecer no commando só a 26 de Fevereiro
do anno seguinte o passou ao general Argollo para gozar apenas um mez de licença, que
posteriormente pedira para ir ao Rio Grande do Sul.
Velho camarada do Marquez de Caxias, o Visconde de Porto-Alegre não pôde resistir
as suas instancias. O illustre commandante em chefe das nossas forças apreciava bastante o
caracter, a valentia e a disciplina do antigo companheiro das suas primeiras lidas de guerra,
para que pudesse prescindir de tão valioso concurso. Por isso, concordando com a voluntaria
retirada do almirante da armada, por fórma alguma annuio a outro tanto com respeito ao
commandante do 2º corpo.
Entrado no gozo da curta licença que apenas, e a muito custo, lhe fôra concedida,
apressou-se o heroe da jornada de 3 de Setembro em partir para o lugar de seu berço, onde
cheias de saudade aguardavão esposa e filhas, que tanto o estremeciam.
Escravo da disciplina não ultrapassou Porto-Alegre o tempo concedido para abraçar os
seus, a 2 de Março, já de novo assumia o commando dos bravos companheiros de Curuzú,
onde, logo no dia seguinte, teve occasião de auxiliar efficazmente o bombardeio da esquadra
contra Curupaity.
Permaneceu ainda o 2ºcorpo do exercito em Curuzú, por mais tres longos mezes, não
de todo inactivo, mas sem ensejo de particar nenhum feito condigno daquelle que o empossara
desa fortificação.

293
A 29 de Maio, uima enchente assoberbou o rio Paraguay tão desmesuradamente como
não havia exemplo nem memoria em mais de sessenta annos. As aguas innundarão o
acampamento do 2º corpo por tal modo que as peças de artilharia ficarão submergidas.
Zeloso e disvelado acudio o Sr. Marquez de Caxias em auxilio dos innundados, e
reconhecendo a necessidade de quanto antes tiral-os de tão embaraçosa posição, resolveo
remover d’esse ponto o 2º corpo do exercito, deixando apenas a guarnição necessaria para
manter a posse da fortificação.
Como essa retirada não podia ser feita sem que as tropas paraguayas a embaraçassem
fortemente, ordenou o illustre general em chefe um simulado ataque a Curupaity, que servisse
de roconhecimento do estado dessa fortificação com a enchente, e que ao mesmo tempo, para
ali atrahindo toda a attenção do inimigo, protegesse a nossa retirada.
A esquadra seguindo immediatamente até Curupaity começou um energico
bombardeio que durou das 3 [as 6 horas da tarde, lançando no correr desse tempo mais de 600
bombas, e recebemdo em troca umas 100 que apenas os contrarios puderão enviar, sem nos
causar graves prejuízos.
Ficando 1,500 homens e 13 peças de guarnição a Curuzú, embarcou o resto do 2º
corpo, e com feliz successop acampou em numero de 4,500 homens no Passo da Patria.
Ahi, nesse memoravel theatro de um dos mais arrojados feitos do legendario Osorio,
aguardou o visconde de Porto-Alegre novos e viventes louros a que o seu patriotismo e
bravura tinham ainda direito.
F. Ferreira

VII. O reconhecimento do Humaitá

Estava-se em frente a Humaitá.


O famoso baluarte, guarda unico de todas as esperanças de Lopez, continuava
invencivel, desfraldando impavido a bandeira inimiga. Para os exercitos alliados Humaitá era
mais que uma fortaleza - era uma sphinge - , enigma indicifravel escripto em caracteres de
pedra, desconhecidos inteiramente de todos aquelles que, em vão, tentavam descobrir-lhe o
calcanhar do Achilles.
Havia quasi dous anos que o marechal Caxias assumira o commando em chefe das
nossas forças militares em campanha. A 19 de Novembro de 1866 chegando a Tuyty, o velho
cabo de guerra limitára-se em sua primeira ordem do dia, a communicar ao exercito brazileiro

294
que assumia-lhe o commando e pouco mais. Essa peça tão singella e tão eloquente digna é de
ser aqui reproduzida, como specimen da linguagem de um valente e brioso general tão
costumado á victoria quanto adstricto á disciplina.
“Por decreto de 10 de Outubro proximo passado, - assim começa aquelle manifesto, -
houve por bem Sua Magestade o Imperador nomear-me commandante em chefe de todas as
forças brazileiras em operações contra o governo do Paraguay na guerra a que nos provocou o
chefe desta republica.
“Assumindo o commando, acho-me mais uma vez no meio de vós para vos coadjuvar
e dirigir.
“Se já vos não conhecesse, eu vos reccomendaria valor; mas nos innumeros combates
até hoje havidos tender dado sobejas provas dessa virtude militar.
“Tambem não vos venho preceituar subordinação, pois sempre testemunhei a conducta
do militar brazileiro nas mais arduas campanhas.
“Conto, porém, com a vossa constancia e dedicação ao paiz para levarmos a cabo a
gloriosa empreza em que estamos empenhados.
“Mais um exforço e os nossos trabalhos serão coroados pela victoria!
“Eu o creio e espero, porque a causa que defendemos é justa e o Deus dos exercitos
nos ha de proteger.
“Novos reforços chegam a estes campos; de todas as provincias do Imperio marcham
denoadados brazileiros a duplicar vossas fileiras, e a mão beneficente do nosso monarcha não
deixará sem recompensa os sacrificios que fazeis pela honra da nossa patria.
“Eia, pois, camaradas e amigos; prosigamos no caminha da gloria que haveis
trilhado”.
Depois desta simples apresentação tratou o marechal Caxias de passar revista aos dous
grandes corpos do exercito brazileiro, e de organizal-os e provel-os de todo o necessario. Para
isso completou com os recrutas, que iam chegando, os batalhões mais dizimados pela
metralha e pelas emfermidades que não cessavam de assolal-os; augmentou a infanteria,
diminuindo a cavallaria do 2º corpo por estar esta em muito maior numero que aquella
produzindo um desequilibrio desvantajoso á essa divisão do exercito; fardou e equipou de
novo ambos os corpos e remontou a cavallaria em 5,000 animaes novos e bem tratados.
A esquadra, bloqueando o rio Paraguay até ao ponto em que estacionava, deixava o
Paraná, do Passo da Patria para cima, em completo abandono, facultando assim livre

295
passagem de Corrientes para o Paraguay, a tudo quanto o inimigo precisasse, e que com a
melhor boa vontade obtinha dos mercadores daquella provincia; tanto mais que nella havia
muitos individuos, tanto negociantes como particulares, que favoreciam Lopez e nos eram
abertamente adversos.
Nas margens do Paraná, nas circumvizinhanças daquella situação, foram encontrados
caixões vasios com indicios muito pronunciados de terem sido alli abandonados por tropas
paraguayas, e de terem esses caixões de reconhecida procedencia correntina contido
armamento, munições e até victualhas.
Sabedor de tal occurremcia ordenou immediatamente o marechal Caxias que o
commandante da esquadra mandasse para o rio Paraná uma divisão de navios pequenos; o que
logo se fez, seguindo o Mearim, Ivahy e o Henrique Martins a estacionar no porto suspeito.
Em Curuzú fez recuar a fortificação, deixando a trincheira que havia como vanguarda,
para dar mais amplo acampamento ao 2º corpo do exercito n’um terreno menos paludoso do
que aquelle que até então occupára.
Todos estes melhoramentos, todas essas medidas e providencias tomou-as o
experimentado marechal e as introduzio no exercito e na ordem das cousas com a calma e
prudencia que são peculiares aos verdadeiros cabos de guerra.
Não obstante, porém, a face das cousas era a mesma: apathica e ingloria. Urgia
proseguil-a, compria terminal-a. Mas como? - Estava-se em Tuyuty, em frende de Humaitá,
caminho de Assumpção, mas nada se sabia, nem um kilometro se conhecia além das cercanias
do acampamento da vanguarda!
Esta ignorancia, porém, não era tão cuplosa ao nosso exercito como pretendiam tornal-
a os nossos desaffectos. O Paraguay era um paiz quasi tão desconhecido como os centros
africanos antes das viagens memoraveis do grande Lavingstone; nenhum estrangeiro lográra
até então viajal-o livremente porque a isso se oppuzera sempre o itneresse dos dous Lopez,
pae e filho, como antes delles Francia e antes de Francia os jezuitas. E nem é de extranhar que
o nosso exercito apesar da longa permanencia noterritorio paraguayo, ainda o desconhecesse,
quando em Argelia as tropas francezas durante vinte oito annos viram-se reduzidas a
reconhecimentos parciaes por instrucções de espiões, elemento esse que nunca obtivemos por
preço algum.
Não podendo caminhar ao acaso mas sob um plano de antemão assentado em bazes
seguras, como aconselhava a prudencia, ao marechal Caxias occorreu a idéa de servir-se de

296
um meio original de reconhecimento, que, sendo coroado de feliz successo, foi mais tarde
imitado na guerra franco-prussiana; - o de um estudo topographico em balões aereostaticos.
Encarregados nesta côrte os irmãos Green, norte-americanos, da construcção de duas
dessas machinas, que deram a immortalidade e o martyrio ao celebre paulista Bartholomeu de
Gusmão, foram, depois de promptas, levadas ao acampamento de Tuyuty e ahi subio no dia
24 de Junho o primeiro, levando na barquinha o norte-americano Green e um engenheiro
polaco que servia no exercito argentino, não se obtendo, porém, todo o esperado resultado por
terem os paraguayos com tiros de peça e fogueira enfumaçado por tal fórma a athmosphera
que interceptou ás vistas do engenheiro todo o terreno que ia reconhecer.
Nos primeiros dias do mez de Julho renovou-se a ascenção, elevando-se a machina a
cerca de 100 metros de altura, preza por cordas que soldados nossos seguravam em terra. Os
paraguayos, mudando então de tactica, para frustrar o nosso intento atiraram sobre os
soldados que prendiam as cordas; mas, posto que quatro destes perdessem a vida, não
conseguiram burlar a singular exploração; o major Chodasiewlay auxiliado pelo tenente
paraguayo Cespedes que então o acompanhava, esboçou tranquillamente a planta de todas as
fortificações, caminhos, banhados, lagôas e esteios desde o ponto em que se achava até além
do Curupaity.
O exercito brazileiro achava-se reconstituido, o 2º corpo passado do Curuzú para o
Passo da Patria, o 1º em Tuyutu, o 3º esperando a cada momento, as plantas levantadas, o
plano de campanha delineado e bazeado, tudo emfim prompto para um proseguimento
glorioso e promettedor de grandiosos triumphos. Não eram factos esses que pudessem passar
desapercebidos nos nossos alliados argentinos.
A imprensa dessa republica insta então com o presidente Mitre para assumir o
commando geral dos exercitos, e não deixar que os esperançados triumphos laureem a
encanecida fronte do nosso velho Caxias.
Ainda não estava sequer abalada a covicção que tinha então profunda e ainda hoje
talvez um tanto firme, o general Mitre de sua capacidade militar; acreditava, como a maioria
de seus compatriotas e mesmo o como nosso governo, ser elle o unico competente para
commandar os exercitor alliados; por isso, deixando-se facilmente induzir pela imprensa de
seu paiz, fez embarcar alguma tropa argentina e seguio apoz a reassumir o commando geral
dos exercitos dos alliados.

297
Emquanto se reconstituiam o 1º e o 2º corpos do exercito, a instancias do marechal
Caxias, o Governo ordenava o levantamento de um 3º corpo, na provincia do Rio Grande do
Sul, confiando ao general Ozorio o commando geral e organisação desse mesmo corpo.
A provincia do Rio Grande já havia dado 12.000 homens para a guerra, e não seria por
isso facil reunir mais gente, se á dedicação e patriotismo de Ozorio não se houvesse juntado a
intelligencia e boa vontade do Dr. Homem de Mello, que presidia então essa provincia.
Graças porém ao prestigio do general a quem o governo tão acertadamente entregara o
commando do novo corpo, e á prudencia e tino administrativo do digno presidente, que soube
tão habilmente conciliar os interesses individuaes dos cidadãos com as necessidades da
guerra, ainda 4.500 homens cheios de patriotismo e coragem seguiram a reunir-se a seus
irmãos d’armas, sob o mando do intrepido e legendario heróe do Passo da Patria.
Reunidos emfim em Tuyuty 35.000 brazileiros e 3.000 argentinos, dividido esse
grosso do exercito em tres corpos distinctos, assim determinou a ordem do dia n. 2 de 21 de
Julho a marcha que deveria effectuar-se na manhã seguinte, com excepção do 2º corpo de
5.000 homens e uma força argentina sob o commando do general Porto-Alegre, que ficaria
ameaçando o flanco direito inimigo.
“VANGUARDA. - Sobo commando do general barão do Herval - 1ª e 2ª divisão da
cavallaria brazileira, infanteria e artilharia oriental, 4ª divisão da infanteria brazileira
reforçada com a 4ª e 12ª brigadas da mesma arma e nacionalidade; quatro estativas de
foguetes a congréve e quatro peças raiadas da artilharia brazileira.
“GROSSO DO EXERCITO. - Commandado pelo marechal Caxias. Todo o exercito
argentino; 5ª divisão da cavallaria brazileira; 3ª companhia do batalhão d’engenheiros; corpo
de atiradores; 1ª divisão de infanteria brazileira; 1º regimento de artilharia montada, idem; 2ª
divisão de infanteria, idem; menos a 4ª brigada da mesma arma e nacionalidade: transportes e
policia; 6ªdivisão de cavallaria brazileira.”
Antes da partida vieram ainda avolumar o grosso do exercito 2.400 homens recrutados
nos hospitaes pelo coronel Dr. Pinheiro Guimarães, que na dupla qualidade de commandante
e medico, prestou nessa occasião relevantissimo serviço desempenhando a commissão de que
o incumbira o marechal Caxias de passar em revista todas as enfermarias, onde, sob pretexto
de ligeiros incommodos, se achava fóra do acampamento tão avultado numero de soldados.
O exercito movel poz-se em marcha vagarosamente em razão dos pesados carros de
transporte que levava; por isso, só ao fim de seis dias chegou ao lugar destinado a

298
acampamento. Na noite de 27 para 28 chega a Tuyuty o general Mitre com um séquito mais
brilhante que numeroso de 200 homens, e logo incontinenti dirige ao general Gelly y Obes um
officio communicando-lhe sua chegada e encarregando-o de participal-a ao marechal Caxias.
Posto que esse procedimento do general Mitre estivesse mais nos usos e practicas
argentinas, que nos preceitos da boa cortezia, não se eximio com tudo o nosso marechal de
dirigir ao presidente da republica argentina, o seguinte officio, que tanto tem de nobre como
de condigno.
“- Illm. Exm. Sr. - Ao Exm. Sr. general A. Gelly y Obes devo o favor de haver-me
communicado a feliz chegada de V. Ex. ao acampamento de Tuyuty pelo que eu e os
exercitos alliados nos felicitamos, esperando as ordens que V. Ex. queira transmittir-me como
general em chefe, para executal-as como me cumpre.
“Entretanto levo desde já ao conhecimento de V. Ex. que tendo emprehendido a minha
marcha á frente dos exercitos alliados no dia 22 do corrente, dirigi-me ao passo denominado
Tio Domingos e vadeando n’aquelle ponto o esteiro Rojas parallelamente com elle buscando a
esquerda do entrincheiramento inimigo, onde me parece ter-se elle reconcentrado, sem haver
contudo opposto até agora obstaculo algum á nossa marcha.
“A posição que hoje ocupamos é a de Negrete, que, como V. Ex. sabe, dista do esteiro
Rojas e do Passo Pires uma legua apenas, mantendo-se, por tanto, ainda livre a communicação
com a nossa base de operações. Quer isto dizer que se V. Ex. satisfazendo o desejo dos
exercitos alliados, resolver vir honrar este campo com a sua presença, o poderá fazer com a
maior segurança.
“Muito grata me será, Exm. Sr., a noticia de que, apezar dos incommodos que de
ordinario acompanham as viagens. nenhuma alteração soffreu V. Ex. na sua preciosa saude, -
Approveito a occasião, etc. De V. Ex. - Marquez de Caxias.”
O exercito alliado acampou emfim em Tuyù-Cué, á vista de Humaitá.
No dia 31 de Julho chegou o general Mitre e a 1º de agosto reassumiu o commando
em chefe.
Apoz dois annos de inacção ia-se afim encetar a verdadeira campanha que teria de
terminar tão nefasta guerra.
Caberia ao general Mitre esse triumpho, para o qual tanto predispuzera o tino e a
pratica guerreira do nosso velho marechal? - Para maior e mais limpida gloria das nossas
armas, ainda bem que não.

299
Acampado em Tuyù-Cuè com grande magua vio o illustre marechal brasileiro voltar o
exercito á antiga apathia, cahir de novo nessa innacção que tão funesta lhe fôra. As columnas
tão cerradas, tão bem dispostas que com tanta fadiga organisára e disciplinara, e que sob seu
immediato commando fizera avançar em offensiva, via-as agora reduzidas a uma deffensiva
tão ingloria como ridicula.
O inimigo que ao ver-nos avançar resolutos até aquelle ponto, não ousára sahir ao
encontro de nossas tropas, desde que, em vez de o atacarmos, nos limitavamos a nos preparar
para uma deffeza, tomou elle então a offensiva, levando o arrojo até sorprender em Tuyty a
ala esquerda dos alliados, que teria soffrido grande e vergonhosa derrota, se o general Porto-
Alegre não houvesse com tal intrepidez que nesse conflicto colheu uma das mais virentes
palmas de sua invejavel corôa de triumphos.
“O general Mitre, escreveu um dos historiadores da campanha do Paraguay, vio do
alto do seu mangrulho de Tuyù-Cuè o perigo em que se achava a sua esquerda; mas nem por
isso julgou que a offensiva, quando não fosse senão para prestar uma valiosa protecção á sua
ala ameaçada, deixou-se ticar em seu campo sem atinar com o que devia fazer; é o que de
ordinario succede aos generaes irresolutos, que manobram sem principios e sem planos. As
indicisões, os mezzo termine perdem tudo na guerra.”
No fim de seis mezes passados em conselho de generaes, conferencias, estudos e
modificações de planos, o que quer dizer completo inexpediente; vendo-se desconceituado no
exercito e desacreditado no estrangeiro como cabo de guerra, e, talvez, reconhecendo a final a
sua total inaptidão, o general Mitre passa de novo o commando em chefe ao nosso marechal e
volta a Buenos-Ayres onde em vez dos hymnos de triumpho o acolhem sorrisos de piedade.
Estava de novo o marechal Caxias de posse do mando supremo dos exercitos alliados.
Não esvacera-se-lhe o ardor como não se lhe exgotára a paciencia nos longos mezes que teve
de se submeter á supperioridade official de quem tão somenos lhe era em meritos guerreiros;
mas a ordem de consas estaria tambem no mesmo pé de ha seis mezes passados? - Isto é que
não. A opportunidade de um ataque talvez decisivo fôra-se, e com ella todos os principaes
elementos que deveriam concorrer efficaz e seguramente para o mais brilhante successo.
Em Janeiro de 1868, quando o general deixou para sempre o commando em chefe dos
exercitos, todo o terreno occupado pelo inimigo em Tuyù-Cuè passára por grandes
modificações, de desguarnecido e franco como estava ao chegar áquelle ponto o nosso
exercito via-se agora coberto de abatizes e de fossos, contrafossos, cheio em fim de

300
obstaculos e mil ciladas que impossibilitavam um assalto frente a frente. Para ousar um ataque
abertamente precisava-se de 60.000 homens pelo menos, e o marechal Caxias apenas podia
dispôr da metade. Uma derrota seria ali fatalissima, a ruina seria total. Mais uma prova de seu
tino guerreiro e legitima prudencia deu o experimentado general conservando-se por algum
tempo da deffensiva a que o obrigára a inaptidão do general Mitre.
O estacionamento do exercito em Tuyù-Cuè não deixava de produzir alguns
vantajosos resultados: o inimigo vendo-o a pé firme e não sabendo como traduzir essa
perplexidade não ousaria atacal-o, e emquanto se ia passando o tempo escasseavam cada vez
mais os viveres que elles, inimigos, já não podiam receber nem do interior nem do exterior
pelo sitio que lhes puzera as nossas forças de mar e terra; e essa carencia de victualhas não
poderia deixar de ser funesta a um exercito que comsigo tinha tão crescido numero de
mulheres e crianças como sempre se faziam acompanhar as tropas paraguayas. Não obstante
mandava a vigilancia e bons principios militares que se não estivesse em completa innacção, e
era isso que mais preocupava ozelo do illustre marechal que nem um momento se descuidava
de manter em pé de guerra activa os postos, que nossas tropas occupavam em Tuyty, Tuyù-
Cuè, Passo Pecú, Paré - Cué e Tayi.
Depois dos ataques de mais vulto de Outubro e Novembro de 1867, os inimigos
encerraram-se em reducto, d’onde apenas sahiam em pequenas partidas a fazer surprezas
parciaes que as mais das vezes lhes custavam caro.
Desde que o nosso exercito occupou Taiy, Lopez começou a passar forças para o
Chaco, margem direita do Rio Paraguay, onde abrio uma estrada até á foz do rio Tibiquary,
lugar esse em que tinha uma das suas fortificações ribeirinhas. As nossas tropas que estavam
no Chaco guardava um dos pontos terminaes da estrada de ferro que se construira para maior
facilidade de comunicação.
Chegando a Curuzú os ultimos monitores construidos nesta côrte, o marechal Caxias
resolveu ir conferenciar com o vice-almirante e ao mesmo tempo passar revista ás tropas em
Tuyty, Passo da Patria e Chaco. Para isso sahio de Tuyù-Cuè ás 6 horas da manhã de 31 de
Janeiro e ás 5 horas da tarde chegou á esquadra onde ficou durante a noite; seguindo no dia 1.º
de Fevereiro no encouraçado Brazil, com o almirante Inhauma, para Humaitá a examinar a
bateria denominada Londres, que com toda a justiça passava pela mais inexpugnavel.
Depois de examinar detidamente essa fortificação e de reconhecer a sufficiencia da
força que havia no Chaco, para resistir e repelir qualquer ataque inimigo; e que não convinha

301
tentar por ali nenhum movimento, regressou o marechal, chegando ao Passo da Patria na noite
de 1º de Fevereiro.
Ao amanhecer de 31 de Janeiro a esquadra rompera fogo sobre Humaitá, mas
semnenhum proveito. Durante todo esse mez a guerra não passou de algum canhoneio de
parte a parte sem grandes perdas para nenhum dos lados contrarios. Varias tentativas fez o
inimigo para surprender as nossas guardas avançadas, ma sempre em vão.
A cavallaria Paraguaya não ousava atacar em grosso. Para chamal-a a campo o
brigadeiro barão do Triumpho na noite de 31 de janeiro emboscou perto das linhas
Paraguayas 260 homens a cavallo sob o mando do Tenente-coronel Hypolito Ribeiro; e ao
amanhecer do dia seguinte 12 desses homens adiantaram-se até o alcance dos tiros dos
inimigos. Estes mal os avistaram sahiram em numero de 8 e perseguiram-nos até que cercados
pelos emboscados foram quasi todos victimas ou prisioneiros.
Com estas e outras que taes pequenas sortidas se entretinham os nossos, emquanto os
capitães do corpo d’engenheiros Julio Anacleto Falcão Frota e Antonio de Sena Madureira,
por ordem do marechal Caxias, procediam a um exame ocular nas fortificações inimigas á
direita de Humaitá.
Desse detido e minucioso exame resultou saber-se que: “ - O reducto era de fórma
rectangular, completamente isolado do entrincheiramento geral, tendo as suas faces pouco
mais ou menos 50 braças de comprimento e os flancos 30. O relevo e os fossos erão de
dimensões ordinarias nesse genero de fortificações, tendo sido reservadas nos flancos duas
aberturas por onde se faria a communicação com o exterior. O flanco esquerdo do reducto
apoiava-se na matta que margeava o rio Paraguay, e o direito em um esteiro que se ia lançar
no mesmo rio; de um lado e de outro communicado com o grande banhado, que separa este
acampamento das linhas geraes.”
Começava-se emfim a decifrar o enigma pelo lado da terra, como por agua não tardou
a decifrar-se na memoravel madrugada de 19 de Fevereiro em que se effectuou o brilhante
feito da passagem, em que o inclito Maurity deveu seu nome ao fastigio da historia, dando ao
mundo um dos mais bellos exemplos de intrepidez e amor á gloria.
Emquanto por agua se preparavam os encouraçados para forçarem aquella famigerada
passagem, reputada quase impossivel por nacionaes e estrangeiros na noite de 18 de
Fevereiro, pelas 10 horas, uma columna de 7.000 homens, composta da 1ª brigada
commandada pelo coronel João do Rego barros Falcão, da 2ª sob o mando do coronel

302
Frederico Augusto de Mesquita e da 5ª ao mando do coronel Dr. Pinheiro Guimarães, dirigida
pelo marechal Caxias em pessoa, marchou em direcção ás fortificações inimigas.
Ás 5 horas fazendo alto, deixou o valente marechal a tropa em linha de batalha e foi
com o seu estado maior reconhecer o terreno e a fortificação inimiga, voltando pouco depois a
dirigir o ataque que se operou com tanta galhardia quanta felicidade.
As nossas forças avançaram resolutamente debaixo de uma viva fuzilaria e renhido
canhoneio de 15 peças inimigas, emquanto a cavallaria, tambem nossa, guarnecia os flancos
fazendo fogo de carabina. Tres batalhões da vanguarda escalaram as muralhas da primeira
trincheira e avivando-se o fogo dos contrarios e sendo numerosas as nossas perdas ordenou o
marechal que o 10º batalhão sob o commando do major Netto e o 1º ao mando do tentente-
coronel Valporto atacassem a ultima trincheira. Já a esse tempo o coronel Pinheiro Guimarães
avançára com dous batalhõos de sua brigada, e o brigadeiro Silva Guimarães com o 1º, 2º e 5º
de sua divisão de outro lado davam decisivo assalto as trincheiras, levando os nossos a ferro e
fogo de vencida o inimigo.
O forte do Estabelicimiento era nosso; 15 bocas de fogo, armamento e munições em
regular quantidade foram os despojos dessa jornada. Os hospitaes Tuyú-Cué receberam nesse
dia 408 feridos, sendo, d’entre elles 42 officiaes e 11 Paraguayos. Se as perdas por nosso lado
foram avultadas, muito maior foi o numero dellas no inimigo pois contaram cerca de 600
mortes.
O mez de Fevereiro não ficou só com os brilhantes feitos da passagem por agua e da
tomada do Estabelicimiento: a 27 o general Victorino fez um reconhecimento em Laurelles e
acto-continuo tomou essa posição de assalto com 100 praças apenas de cavallaria
commandadas pelo tenente-coronel Chonaneco e 60 de infantaria sob o mando do capitão
Castello Branco.
Com a enchente do Rio Paraguay difficultou-se por tal forma a communicação entre as
duas divisões da esquadra que tornou-se necessario transportar em chalanas os viveres para a
primeira dessas divisões pelos lugares onde haviam estado acampadas as forças de terra! O
lento abaixamento das aguas cedo tornou ainda mais difficil o transporte por falta de fundo
sufficiente para a navegação das chalanas.
Para pôr termo a estes embaraços e ao mesmo tempo estreitar mais o sitio, projectou o
marechal Caxias tomar de assalto o forte de Curupaity.

303
Se essa operação fosse realisada com feliz sucesso, immensas seriam as vantagens
para o desenlace da guerra. A esquadra ficaria com as communicações francas, o 2º corpo do
exercito poderiamanobrar mais desassombradamente, e as cavallarias seriam aproveitadas
para a guarnição dos comboios.
Para levar a effeito este seu projecto, partiu o general a conferenciar com o almirante
Inhaúma, e de passagem por Tuyuty ordenou ao general Argollo que procedesse um
reconhecimento a viva força, á esquerda de seu acampamento, sobre a posição denominada
Sauce, que formava a frente, ao sul, do polygono, não determinado limites a esta operação,
que poderia estendel-a até onde permitisse a occasião.
Para distrahir a attenção do inimigo determinou tambem o marechal Caxias ao general
Ozorio que, com as tropas argentinas e brazileiras que estavam sob o seu commando,
simulasse um ataque às posições inimigas fronteiras a seu acampamento.
Ordenou tambem o general em chefe que o coronel Hypolito marchasse com sua
brigada de cavallaria para as immediações de Humaitá e que do acampamento central
marchassem dous batalhões, com seis boccas de fogo cada um, para S. Solano.
Determinadas assim as cousas, a 22 de Março o general Argollo á frente de 12
batalhões de infanteria, 8 boccas de fogo, 4 estativas de foguetos á congreve 1 corpo de
pontoneiros, 1 de saúde e ecclesiastico, partiu pela madragada de seu acampamento, e por
uma picada de 500 braças, aberta pelos pontoneiros sob vivissimo fogo do inimigo, atacou a
fortificação de Sauce e uma hora depois tomava della posse por direito da conquista, tendo
perdido na acção 3 officiaes e 29 praças, além dos feridos que foram 10 officiaes e 155
praças. O inimigo perdeu 21 mortos e 6 que cahiram prisioneiros, conseguindo porém
escapar-se toda a mais guarnição, levando 1 bocca de fogo.
A fortificação de Sauce constava de ante-fosso, por onde corria um arroio alimentado
pela agua dos banhados, represada por uma eclusa; esse ante-fosso media 850 metros de
cumprimento e 9 ½ de largura e 5 ½ de profundidade. Entre o ante-fosso e o fosso havia um
terreno daquella mesma extensão, com 120 metros de largura, e nesse espaço vinte e quatro
ordens de boccas de lobo; o fosso tinha 2 ½ metros de profundidade e o parapeito 4 ½ de
largura na baze.
Durante o tempo em que o general Argollo praticava esse feito brilhante das nossas
armas o general Ozorio, em cumprimento das ordens do marechal Caxias, avançava até a

304
primeira trincheira inimiga e com ella engajava um tiroteio de fuzilaria e artilharia que durou
das 6 horas ás 9 ½ da manhã; perdendo nessa jornada cinco homens apenas.
Emquanto isto se passava em terra reparando o almirante Inhaúma que Curupaity
parecia silencioso, e notando tambem haver incendio nos ranchos que ali serviam de quarteis
ao inimigo, ordenou ao Magé e Beberibe que descessem o rio até à frente daquella
fortificação.
Aproximando-se os navios e nada achando, desembarcaram os marinheiros e içaram
em tres differentes pontos a bandeira brazileira. Verificou-se então, que todo o espaço
comprehendido entre a bocca de Paraguay e Humaitá estava abandonado.
O inimigo reconcentrara-se no formidavel Sebastopol americano.
Era tempo de decifrar o enigma!
O cerco por terra estreitava-se cada vez mais: por agua um activissimo bombardeio
choveu na cidadella no dia 28 de Março, tão intenso que chegou a produzir um incendio; os
paraguayos procuravam desviar a attenção para outro lado, atirando sobre o acampamento de
Paré-Cué, mas embalde: o ponto objectivo para onde convergiam todas as vistas quer do
exercito quer da armada era Humaitá! Humaitá era sphinge cujos hierogliphos começavam a
desenhar-se distinctamente: força era pois decifral-os. Lopez sentia-se vacillar a proporção
que o sitio sobre aquelle baluarte estreitava-se moroso mas seguramente.
O general em chefe tratou então de cercar o terrivel reducto pelo Chaco, unico ponto
por onde se communicavam ainda o interior e recebiam algum gado; para isso, uma expedição
argentina de 1.200 homens commandados pelo coronel Rivas partia da de Curupaity, e outra
brazileira de 1.600 homens sob o commando do coronel Falcão sahida de Tagy,
encontrarando-se em lugar determinado, onde, poude em debandada um força paraguaya,
firmaram a baze de suas operações.
A força argentina abrio caminho pelo matto até encontrar estrada, por onde fugiam
paraguayos acossados pela força brasileira que os attacara por lado opposto. No dia 4 de Abril
os inimigos, cobrando alento, attacaram por sua vez a nossa posição do Chaco, mas foram
rechassados com grande perda.
Emquanto isto se passava em terra, por agua proseguia o bombardeio, ao qual
respondia Humaitá com 5 a 6 tiros por dia, e observando que a posição que havia sido
abandonada estava servindo de apoio ao inimigo e que mais tarde este poderia ali reconstruir-

305
se em pé de difficil expulsão, ordenou que na manhã seguinte se désse um attaque áquelle
ponto de modo á desmontar d’alli completamente o inimigo.
O coronel argentino Martinez com seu batalhão e mais dois outros brazileiros
empenharam a luta, da qual sahiram vencedores apoz renhido combate em que de ambos os
lados se exhibiram exemplos de verdadeira coragem e admiravel valentia: chegando os
soldados brazileiros a perseguirem á ponta de bayoneta os paraguayos que se internavam pelo
matto a dentro.
Depois deste ultimo combate a guerra pareceu por algum tempo limitar-se a ligeiras
escaramuças e bombardeios da esquadra, mais inquietadores para o inimigo que damnosos:
bombardeio esse que nos valeu em desforra, uma ousada abordagem dos paraguayos sobre os
encouraçados Barroso e Rio Grande, que, comquanto sem proveito para elles, não deixou
comtudo de ser pouco lisongeiro para nós; pois só a falta de vigilancia deixaria chegar as
cousas ao ponto a que chegaram. Ainda assim, felizmente, não causou esse arrojo paraguayo
mais que a perda, aliás deploravel, do commandante e do capitão-tenente Antonio Joaquim,
segundo daquelles encouraçados.
Em principios de Julho tendo o general em chefe noticia de que os paraguayos
estavam passando de Humaitá para o Chaco grande numero de canôas carregadas de gente, e
tendo se observado que na noite de 15 fôra lançado um foguete daquella fortaleza, incidente
esse que parecia um signal convencionado -, tratou o prudente general de tomar a offensiva
antes que fossemos arrastados a uma deffensiva não só ingloria como até vergonhosa.
Avisado o general Ozorio para que na madrugada do dia 16 se achasse prompto e em
ordem de marcha, com a sua tropa; ás 5 ½ horas da manhã indo-se-lhe reunir o illustre
marechal, e tomando-lhe a vanguarda, apoz uma pequena e rapida marcha ordenou-lhe que
com as forças ds tres armas de seu commando, avançasse, approximando-se o mais possivel
das trincheiras afim de reconhecel-as e mesmo penetrar nellas se tanto fosse possivel.
Era o primeiro ataque directo feito pelas forças da terra áquelle tremendo baluarte e
para honral-o, como por sua fama e renome merecia, dera-lhe o marechal Caxias por chefe
d’expedição o valente cabo de guerra que tantos e tão assignalados feitos havia praticado no
decurso dessa longa e valentissima campanha contra o Paraguay.
Era justo que quem fôra o primeiro a pisar terra do inimigo, fosse tambem o primeiro a
atacar face a face o famigerado reducto.
Humaitá era digno de um Ozorio!

306
O valente Riograndennse que, acompanhado de doze homens ousára, á frente delles,
ser o primeiro a bater com o coto da sua lança no solo inimigo, tinha jus, por direito de
conquista, a ser tambem o primeiro a atacar aquelle inexpugnavel reducto. Em todo o periodo
de seu brilhante commando em chefe, nunca o marechal Caxias honrou tão galhardamente o
merito e o denodo de um soldado, como quando entregou a Ozorio o primeiro assalto áquellas
terriveis muralhas que ha tanto zombavam impavidas de nossas forças.
Manoel Luiz Ozorio, ou o Visconde do Herval, como já o crismára a munificencia
imperial em galardão de seus heroicos serviços, era o cabo de guerra mais digno de quantos se
achavam então naquella campanha de fazer o primeiro reconhecimento a Humaitá; e
encarregando-o dessa gloriosa mussão o Marquez de Caxias dava-lhe a mais eloquente prova
de quanto sabia aquilatar o valor inexcedivel de seu companheiro de fadigas e de triumphos.
As forças ao commando do general Ozorio elevavam-se então a:
CORPOS ESPECIAES:
Officiaes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113

ARTILHARIA:
Officiaes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
Praças de pret . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 727 767

CAVALLARIA:
Officiaes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 371
Praças de pret . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3,032 3,403

INFANTERIA:
Officiaes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 642
Praças de pret . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10,262 10,904
15,192
Se o intrepido general se houvesse movido com toda esta gente se a acção fosse de
antemão assentada em plano mais vasto, se em vez de um simples reconhecimento o general
em chefe tivesse ordenado um ataque decisivo, nesse dia Humaitá teria sido vencido, Ozorio
teria plantado em suas muralhas o pavilhão brazileiro, seu nome iria á posteridade tão fulgente

307
de gloria como heroe de Humaitá, como irá não menos brilhante como legendario heroe do
Passo da Patria.
Infelizmente para maior gloria do bravo general, a prudencia obrigou o marechal
Caxias a limitar-se a um simples reconhecimento com uma gracção do 3.º corpo e isso foi
talvez o que tornou a acção pequena para tão grande heroe.
Avançou o bravo cabo de guerra com duas divisões de infanteria, um corpo de
cavallaria, um batalhão de engenheiros e a brigada de artilharia volante; ficando o general em
chefe á frente da 3ªdivisão de infanteria em posição conveniente para marchar em auxilio
daquellas forças, se fosse necessario.
Vivissimo fogo de atradora metralha rompeu das muralhas inimigas. Salva condigna
da approximação do invicto bravo dos bravos!
Resoavam os clarins unisono tocando avançar, rapidos voavam os corceis da nossa
cavallaria e em celera marcha seguia a infantaria; corriam em desalinho as carretas d’artilharia
como que entre si apostando qual seria a primeira a chegar ao ponto de fazer ir as nossas balas
ao interior do baluarte. Á frente de tão denodadas hostes lá ia Ozorio, como o genio das
batalhas conduzindo os exercitos á victoria.
Era um espectaculo esse horrido-sublime, em que se via o heroismo impellido pela
gloria correr ao encontro da morte. Da morte sim, que a metralha inimiga varria nossas fileiras
no descampado como ao sopro de uma criança caem castellos de cartas.
Ozorio o intrepido Ozorio não via diante de si senão aquellas altivas muralhas onde
tremulava ainda invencivel o pendão inimigo de sua patria. Era preciso abater, humilhar este e
derrocar e pisar aquellas; era preciso porque assim o exigia o pundunor do paiz por cuja causa
ali estava e por cuja honra não lhe importava a vida.
Grande é o exemplo das virtudes heroicas! Vendo o seu general desprezar a vida e
desafiar a morte, as legiões brasileiras que o seguiam avançavam sempre!
Transpuzeram a primeira linha de trincheiras e teriam transposto a ultima se tão longe
os levasse o ardor do general.
O 4º e o 13º batalhão de infantaria e o 39º de voluntarios, ao mando do coronel
Frederico Augusto de Mesquita, affrontando mortifera chuva de metralha, granadas e
fuzilaria, e superando toda a sorte de difficuldades, que a cada passo encontrava sobre um
terreno revestido de abatizes e de outros accesorios de deffeza, chegou a contra escarpa das
muralhas.

308
Mas vendo o bravo commandante da gloriosa expedicção que o inimigo oppunha
tenaz resistencia, encoberto, pelos externos e elevados parapeitos; tornando-se, por esse
obstaculo, impossivel a escalada, mandou disso dar parte ao marechal Caxias que julgou
prudente recuar antes que continuar em uma offensiva mais fatal que proveitosa.
Censuram alguns entendidos ao genera Ozorio o não se ter servido, como convinha, da
artilharia, antes de approximar a infantaria. É certo que a artilharia foi sempre arma favorita
de Napoleão, mas este grande chefe de guerra era um artilheiro scientifico que além do
conhecimento pratico que tinha da armada juntava-lhe o amor da sciencia. Ozorio é um
soldado feito nos campos do combate, a peleja foi a sua escola, a intrepidez é a sua sciencia.
O amor da patria acendido pelas chammas da coragem, não consentiria que de animo
tranquillo, frio, impassivel se conservasse por uma ou duas horas o brioso chefe emquanto
jogava a artilharia calculando mathematicamente quantas balas partiam e quantas produziam
effeito!
Diante do inimigo o scientifico póde domar a natural intrepidez e lançar mão dos
meios que lhe faculda a sciencia, mas ao cabo de guerra que só sabe combater e vencer, esses
meios não lhe aproveitam. O canhão foi feito para os heroes disciplinados nas escolas
theoricas e não para os praticos; demais o general Ozorio vendo-se em face de muralhas
cuidou antes de escalal-as que de derrocal-as pedaço a pedaço a balas enviadas de certa e
calculada distancia.
Se todo o 2º corpo de seu commando o houvesse acompanhado nessa gloriosa
expedição, talvez que o dia 16 de Julho de 1868, fosse a data mais gloriosa da campanha
contra o Paraguay; ainda assim, porém, ella é uma das mais brilhantes pois marca um dos
arrojados feitos de um dos mais valentes cabos de guerra da America do Sul.
Recordando tão grande acção cumpre não esquecer os nomes dos bravos camaradas do
heroe do reconhecimento de Humaitá, que a historia patria guarda cheia de nobre e justo
orgulho:
O brigadeiro Carlos Resin; coroneis Emilio Luiz Mallet e Frederico Augusto de
Mesquita tenentes-coroneis Conrado Maria da Silva Bittencourt, Antonio de Campos Mello,
Vasco Antonio de Fontoura Chananeco, Severiano Martins da Fonseca e Alexandre Augusto
de Frias Villar; majores João Nepomuceno da Silva, José Maria do Nascimento, Antonio José
Pereira Junior, Dyonisio Amaro da Silveira, e Joaquim Antonio Ferreira da Cunha, capitães
Francisco da Silveira filho e João Teixeira Guimarães; tenentes Henrique de Azevedo Pires,

309
Manoel Luiz da Rocha Ozorio, José Simões Torres, José Rodrigues e Manoel Aprigio da
Cunha; alferes Frederico Ferreira Rangel, Domingos José da Silva filho e João Carlos da
Rocha Ozorio; cirurgiões do corpo de saude Drs. Silverio Gomes de Araujo, Francisco
Homem de Carvalho, José Rufino de Noronha e Joaquim Marianno de Macedo Soares; e os
academicos Arsenio de Souza Marques, Manoel Pinto Ferreira Junior, José Pinto da Silva,
Elpidio Rodrigues Seixas e Lucindo Pereira dos Passos Junior.
Taes foram os mais distinctos companheiros de Ozorio na gloriosa jornada, que deu
assumpo a esse quadro.

VIII. A passagem do Passo da Patria

I
Ao receber o affrontoso insulto que, em um momento de desvario, lhe irrogou á face o
ex-dictador do Paraguay, D. Solano Lopez, soltando o seu grito de guerra, que repercutiu do
Prata ao Amazonas, o Brazil não tinha nem armas nem soldados.
Paíz novo, laborioso e cheio das mais nobres aspirações, descançava nos braços da paz
com a consciencia de quem trabalhar, e reparte a sua casa e a sua mesa com todo aquelle que
lhe bate á porta e pede hospitalidade. Não receiava de que ninguem o viesse perturbar do meio
de seus labores senão para acudir á liça d’essas grandes pelejas da intelligencia e do trabalho,
que se chamam exposições industriaes.
Cuidando de seus mananciaes de fortuna, pouco pensava no provimento de seus
arsenaes e no numero de seu exercito. Queria antes os seus filhos aptos no manejo da
ferramenta que no das armas, mais dextros no guiar do arado que no sopesar da espada; por
isso foi que, apanhando-o de sorpresa, a guerra do Paraguay encontrou-o inerme e quasi sem
defesa; por isso foi que o imprudente Lopez, aprisionando um navio mercante em plena paz,
invadiu á mão armada duas provincias do imperio e assolou-as tão barbara quanto
deshumanamente.
Em 1864, quando o nosso plenipotenciario, exgotados todos os recursos conciliatorios,
viu-se forçado a declarar guerra em nome do Brazil, á republica do Uruguay, o nosso exercito
era realmente menos de 10,000 homens, inhabeis, mal armados e disseminados em pequenos
destacamentos pelas provincias, mais como simples corpos de polícia que batalhões de
exercito. Em 1866, isto é, dous annos depois, o Brazil reunia á margem corrientina do Paraná
33,000 homens, não diremos aguerridos, mas disciplinados, fardados e bem armados.

310
Deve-se ao decreto de 7 de Janeiro de 1865, esse prodigio do esforço nacional; a
creação dos Voluntarios da Patria, foi a vara magica do Moysés politico que, quasi a um
aceno, fez reunir naquelle ponto um exercito forte se não pelo numero ao menos pelo valor de
seus soldados, disciplinado se não pela pratica, ao menos pelo patriotismo, que os guiava á
desaffronta dos brios nacionaes.
Mas, assim como cabe ao decreto de 7 de Janeiro de 1865, a criação de um tão bello
corpo de exercito, ao general Osorio cabe não menos a gloria de haver feito d’esse corpo de
noveis e bisonhos soldados o punhado de bravos que no percurso da longa campanha tantas e
tão brilhantes provas deram da mais arrojada valentia.
Á medida que se iam formando os corpos de voluntarios nas provincias, marchavam
para a Côrte e d’aqui seguiam armados e equipados a se reunirem ao exercito no sul,
marchavam simples portadores de armas e ao cabo de dous a tres mezes de exercicio á
margem do Uruguay, trasnformavam-se em soldados habeos e promptos ao primeiro alarma.
Respeitavel já era o nosso pé de exercito, e quasi dous annos havia que o brado de
guerra ao Paraguay fôra soltado aos quatro ventos pelas nações alliadas e posto que o general
Mitre na expansão de seu enthusiasmo empenhasse sua palavra e sua espada que em oito dias
estaria em campo e em quinze bateria ás portas de Assumpção, o mundo, de olhos fitos no
theatro da guerra sul-americana, embalde esperava a verdadeira iniciação das operações
militares que, ou deviam aniquilar Lopez, ou abater a seus pés as bandeiras das tres nações
que elle só ousára provocar ao campo da peleja.
Foi longa a espera. Um anno, dia por dia, gastou-se a preparar o exercito e a armada
para encetar campanha decisiva; mas, faça-se justiça: esse tempo não era muito para um paiz
como o nosso que não só não tinha armamento nem navios como lhe faltavam officiaes para
fabrical-os. Tudo tinha-se de mandar vir da Europa, o que com muita difficuldade se podia
obter; invocava-se a neutralidade, e os paizes que forneciam a Lopez, ainda depois da
declaração da guerra, negavam-se a nos fornecer armas e munições, cedendo ás intrigas
diplomaticas que o dictador do Paraguay sabia pôr em serviço da sua causa.
Quando, compulsando a hisioria ainda de hontem, vê-se que em 1827, após tres annos
de guerra o Brazil não ter mais de 6,000 homens para oppor ás forças inimigas que
dominavam mais de metade da provincia do Rio Grande, e posteriormente não poder jámais
reunir mais 3,000 para n’essa mesma provincia debellar os rebeldes que por espaçõ de nove
annos lograram ali a manter erguido o pendão da revolta; vendo-se trinta annos mais tarde,

311
levantar-se em 14 mezes, um pé de exercito de 37,000 homens - 33,000 á margem do Paraná e
4,000 á margem do Uruguay, força é confessar que o imperio progrediu e muito em pouco
mais de um quarto de século.
As forças ao mando do general Osorio, promptas a pizar terras inimigas, compunham-
se de 3,200 homens de artilheria, 4,8000 homens de cavallaria e 25,000 de infantaria. Todo
esse exercito achava-se bem fardado e armado como os melhores da Europa, a artilheria
principalmente era da mais moderna e excelentemente fabricada.
“Quanto á organisação do exercito, diz um testemunho insuspeito que de perto
acompanhava o movimento das nossas armas, não póde desconhecer-se que a inexperiencia
do commando em chefe de que se achava de posse o marechal Osorio, e tendo de fazer o seu
primeiro ensaio com as forças tão crescidas, alguns defeitos devia fazer apparecer. Não se
devia rasoavelmente acreditar que o exercito adquirisse sob sua direcção, e em alguns mezes,
a disciplina e instrucção necessarias, se o general em chefe tivesse que principiar formando os
generaes de divisão, logo os commandantes de brigada, e, emfim, os chefes de batalhões. Mas
a sua boa estrella poupou-lhe tão arduo encargo.
“Se o Brazil não tinha exercito, tinha um numero crescido de officiaes superiores
formados na boa escola militar, nas ultimas guerras e comprovados em muitos campos de
batalha. Assim, e sahindo a tempo a promoção de muitos delles a postos superiores, todas as
divisões tiveram á sua frente brigadeiros ainda moços, as brigadas coroneis na flor da idade e
os corpos commandantes moços e cheios de enthusiasmo.”
Commandava a força geral de artilharia o brigadeiro José da Victoria Soares Andréa, e
as seis divisões do exercito os brigadeiros Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, Antonio de
Sampaio Guilherme Xavier de Souza e Victorino José Carneiro Monteiro. As duas divisões de
cavallaria estavam sob o commando dos brigadeiros Candido Augusto Sanches da Silva
Brandão e José Joaquim de Andrade Neves. Uma brigada ligeira de voluntarios commandava
o brigadeiro Antonio de Souza Netto, e outra de infantaria destacada a bordo da esquadra o
brigadeiro João Guilherme de Bruce.
Todo esse exercito dividia-se em 19 brigadas, formando 1 regimento e 5 batalhões de
artilheria, 18 regimentos de cavallaria e 40 batalhões de infanteria, e compunha-se de 2,164
officiaes e 30,914 praças; ao todo 33,078 homens.
Para fornecimento immediato desse exercito havia em Corrientes um estabelecimento
pyrotechnico montado e dirigido por engenheiros brasileiros.

312
Além do corpo principal ao mando do general Osorio, havia mais duas divisões
argentinas uma ao mando do general Paunero, outra do general Emilio Mitre, e uma pequena
força da republica do Uruguay ao mando do general Venancio Flores. Estes corpos auxiliares
ficavam como de reserva: o exercito brasileiro é quem ia iniciar as já tão desejadas operações
em terras do inimigo.
Vacillou-se por algum tempo no ponto do rio em que se devia effectuar a passagem,
assentando-se afinal no Passo da Patria, para onde se dirigiu o grosso do exercito e acampou
até a hora do embarque.

II
O logar preferido para a passageem do nosso exercito foi de indicação do tenente-
coronel de engenharia José Carlos de Carvalho, uma das mais bellas intelligencias, que
prestou todo o seu talento e coragem á causa da patria, perdendo até emfim gloriosamente a
vida nessa memoravel campanha na occupação da ilha de Itapirú. Episodio esse, que se liga
tão intimamente ao feito do Passo da Patria que não póde deixar aqui de ser consignado e até
mesmo narrado com mais alguma particularidade.
Proposta e demonstrada pelo mesmo engenheiro José Carlos de Carvalho a
conveniencia de tal occupação, autorisam-no a leval-a a effeito o general Osorio e o almirante
Tamandaré, que de concerto dirigiram as operações por terra e por agua.
No dia 29, á 1 ½ horas da noite o mesmo engenheiro, acompanhado de outros collegas
e mais de 80 praças do 3º batalhão de infanteria, saltou na ilha a fazer os primeiros
reconhecimentos.
Eram esses os primeiros brasileiros que pisavam terras paraguayas como inimigos
vingadores dos ultrages irrogados ao seu paiz.
Desembarcada a pequena força, emquanto em linha de atiradores explorava o terreno,
os engenheiros levantavam a planta e determinavam o logar em que se deveria levantar a
fortificação.
A occupação deveria immediatamente seguir-se ao reconhecimento, mas o general
Osorio entendeu dever sobrestal-a.
Recebendo tão inesperada ordem, o tenente-coronel Carvalho deu-se pressa em
obedecer, mas para logo esforçar-se em fazel-a revogar, por entender que tal sobrestação
podia-nos ser funesta; e, ou porque conseguisse elle despersuadir o general de sua ultima

313
resolução ou porque houvesse cessado o inconveniente que este via na occupação da ilha, o
certo é que de novo foram dadas ordens para a realisação do plano primitivo.
Na noite de 5 para 6 de Abril foram embarcadas para a ilha 6 peças a La Hitte de 12,
commandadas pelo capitão Moura; 4 morteiros de 0m 22, commandados pelo capitão
Tiburcio, ambos do 1º batalhão de artilheria; o 7º batalhão de voluntários, commandado pelo
tenente-coronel Francisco Joaquim Pinto Pacca; o 14º de infanteria de linha, commandado
pelo major José Martini, e 100 praças do batalhão de engenheiros: toda essa força sob o
mando geral do tenente-coronel João Carlos de Willagran Cabrita, e a parte technica sob a
direcção do tenente coronel José Carlos de Carvalho.
Os encouraçados Bahia e Tamandaré e as canhoneiras Henrique Martins e Greenhalg
protegeram o trasporte collocando-se o mais perto da ilha que lhes foi possivel.
Apenas desembarcados, formaram-se em duas baterias, uma de canhões e outra de
morteiros dando a frente ao forte de Itapirú e á costa paraguaya que se estende a esquerda do
mesmo forte. Ao amanhecer do dia 6, arvoraram o pavilhão auri-verde, rompendo vivo fogo
de artilharia contra a fortificação contraria.
Desde essa memoravel noite o exercito brasileiro tomara pé em territorio paraguayo,
d’onde não teria de sahir sem de uma vez para sempre trucidar um por um todos os baluartes,
exercitos e até o proprio dictador Lopez.
Ao fogo não interrompido da bateria respondeu o forte com as duas unicas peças que
lhe restavam, sendo mais tarde acompanhado por outras de calibre 68, collocadas por detraz
delle, ou em chatas. As balas e bombas da ilha foram reduzindo a escombro o forte, e
causando perdas consideraveis a qualquer força paraguaya que ousava descobrir-se. Ao
mesmo tempo que a bateria da ilha, os encouraçados Bahia e Tamandaré e a canhoneira
Mearim bombardeavam a fortaleza. Todo o dia durou o fogo de artilheria de um e de outro
lado, sem que o inimigo causasse aos nossos grande damno.
Á tarde como regressassem da expedição acima de Ytati os vapores brasileiros e
argentinos, ao passarem a ilha de Sant’Anna, os paraguayos descobrindo uma bateria de
canhões que ahi tinha, fizeram fogo e lançaram alguns foguetes á Congrève, dos quaes um
acertou no Greenhalg, mas sem causar-lhe nenhuma avaria grossa.
Nos dias 7, 8 e 9 continuaram ainda a sustentar vivissimo fogo de parte a parte,
conseguindo uma bomba inimiga matar dous soldados nossos.

314
No dia 9 foram as canhoneiras que apiavam a ilha substituidas pelo Itajahy e Belmonte
conservado-se porém firme em seu posto o encouraçado Tamandaré. A guarnição da ilha
pedindo para não ser substituida antes de obter uma completa victoria sobre o inimigo,
continuou a manter-se em sua tão gloriosa quão arriscada posição.
Havia dous dias que não tinham senão rapidos momentos de descanço. Durante o dia
respondiam constante e interrompidamente ao inimigo, e a noite passavam toda a abrir fossos
e a reforçar trincheiras, porque a previdencia de seus habeis chefes temia de um momento
para outro um assalto do inimigo.
Na noite de 9 para 10, bastante fria e brumosa, passaram as vedetas em continuos
sobressaltos ouvindo a cada instante por entre o murmurio da brisa o bater de remos sobre as
aguas dormentes do rio. A cada momento como que sentiam o bafeejo de halito inimigo que
mais e mais se approximava.
De feito, na madrugada do dia 10, das 3 para as 4 horas, muitas canôas carregadas de
paraguaios remando tão mansos que mais depressa foram vistos que ouvidos, approximaram-
se da ilha. Aos gritos de - quem vem lá? - os inimigos responderam: - viva D. Pedro II, viva o
Imperador do Brazil; mas não lhes valeu o embuste, porque as nossas sentinellas tomando-os
pelo que elles realmente eram, replicou-lhes com descargas de espingardas.
Quiuze canôas aportaram logo ao norte e dellas saltaram 400 paraguayos
commandados pelo capitão José Romero, ao mesmo tempo que pelo noroeste saltava outra
força igual.
Avançou immediatamente ao encontro dos primeiros o 7º de voluntarios ao mando do
tenente-coronel Pacca, em quanto que permanecendo uma parte de nossas forças nas
fronteiras, deixava approximar os inimigos até ao alcance á queima-roupa, para esmagal-os
nos fossos.
Succedendo que as ultimas forças desembarcadas, occultas nas macegas, fizessem
deitadas mortifero fogo sobre os nossos, o tenente-coronel Cabrita, por indicação do
engenheiro Carvalho, fazendo abrir uma portinhola ao lado direito da bateria, por ella varreu a
viva metralha nos occultos atiradores, pondo-os em completa desordem.
Nesse momento o tenente-coronel Cabrita, inspirando-se da sua peculiar bravura,
ordenou ao batalhão de engenheiros, que fazendo uma descarga geral sobre o inimigo o
seguisse fóra da trincheira para carregal-a á arma branca. Os engenheiros unidos aos dous
batalhões de infanteria, cahiram sobre os paraguayos com a irresistivel bravura.

315
Sendo difficil de armar os sabre-bayonetas nos mosquetões, ordenou mais o tenente-
coronel Cabrita que os nossos soldados se servissem de machadinhas contra o inimigo que
trazia a bayoneta calada em suas espingardas e reflees; atiraram-se os nossos bravos com
incrivel bravura renovando, por esse modo, um daquelles combates da idade-média, em que
só a ferro frio se batiam os guerreiros corpo a corpo.
Ao vel-os armados de machadinhas tentavam os paraguayos fugir, mas debalde; os
que escapavam do machado do batalhão de engenheiros espetavam-se nas bayonetas do 7º de
voluntarios, cujo commandante, o tenente-coronel Pinto Pacca, animava com o seu exemplo a
briosa phalange, a que bradava recordando-lhes a terra natal: - Camaradas! a provincia de S.
Paulo vos contempla!
Ao amanhecer o dia via-se o solo da ilha juncado de cadaveres, muitos deitados em
linha como a morte os surprendera, outros em grupos como haviam sido atacados e vencidos.
Indo o tenente-coronel Carvalho bater com alguns soldados as macegas ao norte da
ilha, sahiu-lhe ao encontro humilhado, o capitão Romero, pedindo a protecção para si e para
os seus que ainda restavam. Algumas canôas carregadas de paraguayos tentaram ainda
approximar-se da ilha para prestar auxilios a seus compatriotas, mas as canhoneiras Henrique
Martins e Greenhalg bateram-n’as e meteram-n’as a fundo.
Perto de 650 cadaveres juncavam a ilha, 600 espingardas e 200 refles foram recolhidos
pelos nossos que de seu lado tiveram 49 mortos e 100 feridos.
Toda a imprensa do Rio da Prata applaudiu com enthusiasmo tão brilhante feito das
nossas armas. “Os brasileiros, disse a Nação Argentina, combateram com a coragem de leões
e a pericia dos melhores soldados.”
Seis horas depois do combate, quando os écos dos nossos hymnos de victoria ainda
iam-se amortecendo ao longe, e a história mal registrava tão glorioso feito dos nossos bravos,
uma bala do forte inimigo batendo fatalmente em uma chata onde os chefes da expedição
redigiam a parte official, matou desastradamente o intrepido tenente-coronel Cabrita e o major
Luiz Fernandes Sampaio, ferindo tambem gravemente dous outros officiaes do corpo de
engenheiros.
Triste epilogo de tão esplendido episodio, cujos louros entretecidos de funereos
goivos, perdurarão eternos nos fastos nacionaes, e despertarão sempre que a posteridade
folhear estas paginas da nossa historia, tão justa magoa por tão prematuras perdas, como
enthusiasmo por tão admiravel feito.

316
III
“Soldados! proclamou o inclito general Osorio ao dar ordem de embarque. A margem
do rio que tendes á vista é o termo de vossas fadigas e dos sacrificios da nação brasileira.
Chegou a hora da expiação para esse inimigo cruel, que devastou nossos campos indefesos e
commetteu tantos actos de ferocidade contra populações inermes.
“O ingrato a quem o Brazil encheu de beneficios verá agora que não nos impunha pela
importancia de seus recursos; já e muito tarde vai conhecer que a politica generosa do
governo imperial em relação ao Paraguay, era inspirada pela magnanimidade de seus
principios e pela nobreza do caracter brasileiro.
“Soldados e compatriotas! Tenho presenciado a vossa serenidade no meio das
privações e a vossa constancia nos soffrimentos. Tendes dado o mais bello exemplo de
dedicação á patria, a cujo chamado acudistes enthusiasticamente, vindo dos mais longinquos
pontos de todas as provincias do imperio a reunir-vos aqui em torno do pavilhão nacional.
Aproveito este momento solemne para agradecer-vos em nome do Brazil e do governo de Sua
Magestade, o Imperador.
“Soldados! É facil a missão de commandar homens livres; basta mostrar-lhes o
caminho do dever.
“O nosso caminho está ali em frente. Não tenho necessidade de recordar-vos que o
inimigo vencido e o Paraguay, desarmado ou pacifico, devem ser cousas sagradas para um
exercito composto de homens de honra e de ecoração.
“Ainda mais uma vez mostremos ao mundo que as legiões brazileiras no Rio da Prata,
só combatem o despotismo e fraternisam com os povos. Avante, soldados!”
Na manhã do dia 15 de Abril foram expedidas as ordens á esquadra e ás 3 horas da
tarde veio ella prolongar-se com a margem do rio e proximo das pontes por onde devia se
effectuar o embarque.
“N’esse momento, escreve uma autorisada penna, uma especie de agitação dominava
no porto do Passo da Patria; mas agitação methodica e solemne, principiava no Apa, navio
chefe, e se transmittia aos extremos d’essa numerosa frota. Sobre a margem do rio via-se o
tenente-coronel Carvalho e os dez officiaes da comissão de engenheiros, prevenir tudo para
facilidade do embarque e segurança das tropas á bordo dos transportes.

317
“Penetrando nos acampamentos do exercito, a mesma agitação methodica se mostrava;
e era um quadro grandioso esse que apresentavam 33,000 homens arrumando-se para o
desembarque em territorio inimigo, o que importava dizer - para uma batalha ao saltar em
terra. O marechal Osorio se reproduzia onde quer que a sua presença era necessaria.
“Ás cinco horas da tarde, uma expedição de tres canhoneiras foi ao rio Paraguay
escolher posição acima da foz. Ás 11 horas da noite começou o embarque das tropas nos
transporte, de modo que ao amanhecer do dia 16, viam-se elles apinhados de tropas.”
A parte do exercito embarcado compunha-se da:
1.ª divisão, commandada pelo brigadeiro Argollo Ferrão, composta de duas brigadas;
uma sob o mando do coronel Jacintho Machado Bittencourt e outra do coronel Carlos Resin.
3ª divisão, commandada pelo brigadeiro Antonio Sampaio, composta de duas
brigadas, commandadas uma pelo coronel André Alves Leite de Oliveira Bello, outra pelo
coronel D. José Balthazar da Silveira.
A 7ª brigada, composta do 1º e 13º batalhão de infanteria, do 6º, 9º e 11º de
voluntarios e 2 companhias de zuavos.
A 10ª brigada composta do 2º batalhão de infanteria, e 2º e 26º de voluntarios.
Ás 7 horas da manhã de 17 de Abril, a corveta Magé, as canhoneiras Ivahy, Ypiranga,
Araguaya, Greenhalg, Chuy e Mearim, os encouraçados Brazil, Bahia, Tamandaré, e
Barroso, as corvetas Paranahyba e Belmonte, as canhoneiras Mearim e Itajahy, e Henrique
Martins, e duas chatas com peças de 68 formaram uma extensa e vistosa linha de protecção
para apoiar a passagem dos transportes.
Assim que a linha naval achou-se formada e prompta para qualquer emergencia, oito
transportes a vapor rebocando pontões, chalanas e balsas puzeram-se em marcha, servindo-
lhes de guia uma canhoneira. Eram 8 horas.
Ás 9 horas ouviu-se fogo de infanteria na margem opposta do Paraguay:
immediatamente as canhoneiras do rio Paraná romperam sobre a costa inimiga vivissimo fogo
de metralha e bombardas.
Um quadro magestoso, tremendo e imponente rasgava-se á vista deslumbrada do
espectador.
Na margem esquerda do rio Paraguay, onde se fazia o desembarque, empenhava-se
um combate que de instante a instante se tornava mais serio; depois, em uma extensão de
perto de duas milhas, a linha dos nossos navios dominando todo a costa. Além a bateria da

318
ilha sustentando a peleja ha onze dias empenhada tão valente quão galhardamente; emfim, na
extrema, tres canhoneiras batendo a costa onde se occultava sob as cortinas de mattas
numerosa força inimiga.
Todo esse movimento da armada e do exercito occupava um espaço de cerca de 4
milhas, e tudo quanto ahi se agitava, os 20 navios de guerra, os 8 transportes, o enorme
material de desembarque, a guarnição da ilha, os 100 canhões, os 17,000 homens que já
combatiam ou estavam prestes a isso, tudo era brazileiro.
A passagem do exercito para o Paraguay, a primeira invasão do territorio inimigo foi
exclusivamente brazileira. Feitura toda nossa que nos enche de orgulho e cumulo de gloria,
sem que nos venha mesclar os nossos louros a minima folheta de alheias grinaldas.
Osorio, o nosso grande Osorio, era o Napoleão americano conduzindo as nossas
phalanges por aquelle novo Egypto, onde em vez dos quarenta seculos das pyramides,
contemplavam-nos pasmas as duas republicas alliadas que deixavamos em uma margem e a
republica oppressao pela tyrannia de um despota na outra margem, para onde ousado palinuro
nos guiava a invencivel espada do valente general.
Ao desembarcarem em uma praia baixa e arêenta, reconheceu-se a necessidade de uma
ligeira exploração prévia.
Foi então que deu-se o grandioso episodio que constitue um dos mais arrojados feitos
de guerra que a historia registra em seus annaes: feito que cobrindo de louros Osorio eleva-o a
proporções legendaria, que com o correr dos seculos o transformará em um desses semi-
deuses da poesia popular, como os doze pares de França ou os mais remotos Achilles e Enéas
que deram assumpto ás impereciveis epopéas dos Virgilios e Homeros.
Á frente de 12 homens o bravo general quiz por si mesmo reconhecer o terreno
imimigo, e com quasi louca temeridade embrenhou-se por invias veredas, ora calcando
macegas, ora encharcando-se em brejaes extensos e invadeaveis.
Tamanho e tão raro exemplo de coragem e de dedicação á causa patria foi como uma
fagulha cahida em bem provido paiol; o enthusiasmo apossou-se dos nossos soldados e aos
primeiros tiros inimigos dados sobre a pequena força de cavallaria que seguia na retaguarda
do general, voaram as nossas hostes a empenhar o primeiro combate dado em terra dos
contrarios.
A força brazileira, embora ainda em grande desproporção coma a do inimigo avançou
sobre elle dando uma carga de bayoneta contra a infanteria paraguaya. O inimigo recuou, mas

319
não sem deixar 41 mortos e 5 feridos. Pela nossa parte perderam-se 3 homens e ficaram 10
feridos.
Grande foi a vantagem moral que adquiriu desde logo o nosso exercito sobre o
inimigo, conseguindo ao primeiro encontro e em desigualdade de forças sahir-se vencedor.
E não menor foi ainda o resultado que para a exploração resultou de tal encontro, pois
avançando os nossos no ardor da peleja descobriram uma estrada do porto do desembarque
até um terreno alto e firme, e desse ponto o prolongamento da mesma estrada até o forte de
Itapirú.
Desassombradamente pôde então adiantar-se não só a infanteria, como a artilharia,
cerca de tres quartos de legua até um sitio commodo e seguro onde assentaram acampamento.
Ás duas horas da tarde sobrevindo uma furiosa tormenta, sobrestou as hostilidades até
ás cinco horas, em que de novo recomeçou com dobrado vigor, e sem maior victoria, quer
para um, quer para outro lado. Um corpo de cavallaria paraguaya carregou porém sobre um de
infanteria nosso, até que este ganhando superioridade levou-a de vencida até embrenhar-se no
matto.
Emquanto se davam essas escaramuças na margem paraguaya, na corrientina
embarcava o general Flores com 5,000 homens, e impedido pela tormenta, só depois della
pôde aportar ao logar de embarque, que effectou com a maior facilidade.
Tentou ainda o mesmo general Flores approximar-se desde logo de Osorio, mas foi
isso impossivel por terem as cuvas tornado intransitavel o terreno anteriormente percorrido
por este.
Com a pequena parte do exercito; sem poder juntar-lhe aos 5,000 homens de Flores,
tão proximo do exercito paraguayo, em terreno ainda quasi inexplorado, grande vigilancia era
mister da parte de Osorio para não ser sorprendido, principalmente por um inimigo tão audaz
quão astucioso.
De facto, não foram em vão as cautelas e providencias tomadas pelo nosso general: na
madrugada de 17 empenhou-se a segunda peleha entre as forças paraguayas e as brazileiras.
Uma divisão de 3,000 homens das tres armas, com quatro peças de artilharia
apresentou-se-nos a offerecer batalha.
Mandou o general Osorio os batalhões 1.º e 13.º de linha, ás ordens do coronel
Jacintho Machado Bittencourt tomar de flanco a columna do inimigo, que teve de dar-lhe a
sua frente, cobrindo o seu flanco direito com as quatro peças de artilharia, mandou mais o 10.º

320
de voluntarios, commandado pelo tenente-coronel Joaquim Mauricio Ferreira, atacar esse
flanco inimigo, o que causou em suas fileiras graves perturbações.
Os tres primeiros batalhões carregaram sobre a frente do inimigo á bayoneta calada, os
esquadrões de cavallaria ao vel-os avançar, apearam-se e esperaram-nos a pé firme.
Travou-se o combate renhido e tão pleno de valentia de uma parte como de outra, mas
bem depressa a victoria decidiu-se pelo nosso lado, pondo-se os inimigos em debandada.
Duas peças de artilheria, muito armamento, umas bandeiras e até cavallos arreiados
ficaram em nosso poder. As perdas paraguayas calculavam-se em 500 mortos e 50 feridos, e
nosssas em 250 hpmens fóra de combate.
Emquanto uma parte do nosso exercito operava esses brilhantes feitos em terra, por
agua os nossos encouraçados e canhoneiras, entrando na enseada de Itapirú, rompiam tão
grande fogo de metralha contra o forte que ás 9 horas da manhã obrigou-o a arrear a bandeira
paraguaya.
A força que estava na ilha foi então reunir-se ás que estavam com Osorio, e o pavilhão
nacional tremulou impavido sobre os destroços da fortaleza inimiga.
Do dia 20 a 22 effectuou-se a passagem do resto do exercito. Feito glorioso todo
devido à bravura do general Osorio e à scinencia do tenente-coronoel José Carlos de
Carvalho.
A passagem do Passo da Patria tendo sido a verdadeira iniciação da guerra decisiva
contra o Paraguay, foi tambem o primeiro feito d’armas do novel exercito que desde esse dia
mereceu ser collocado entre os mais aguerridos exercitos do mundo.
Aos dous velhos cabos de guerra, Osorio e Caxias, deve-se principalmente a gloriosa
campanha tão brilhantemente estreada no Passo da Patria e tão bem determinada.
Osorio, de um grande numero de homens sem os menores habitos militares, sem
disciplina, sem escola, formou um pé de exercito, valente e destro que pisou em terras
inimigas cheio de coragem e logo aos primeiros encontros deu provas de seu valor e
dedicação á causa nacional; Caxias, de reliquias esparsas desse pé de exercito tão disseminado
por successivas pelejas, continuas e longas jornadas e por desoladoras epidemias, abatido e
quasi desanimado, formou um outro pé de exercito que levou triumphante o auri-verde
pendão ao coração da capital inimiga.
Se só com o disciplinamento do novel exercito, com a transformação de homens
bisonhos em soldados adestrados, Osorio conquistou um dos mais proeminentes logares entre

321
os benemeritos da patria, mais alto ainda se eleva, em letras de ouro refulge seu nome no
pantheon nacional com a admiraval passagem do Passo da Patria e o assombroso episodio do
reconhecimento feito por elle, apenas seguido de doze cavalleiros!
De lança em punho, a cavallo, internando-se com seus doze companheiros por um paiz
inimigo que lhe era totalmente desconhecido, Osorio semelha-se a um desses heróes dos
tempos barbaros em que o valor pessoal era tudo, e o ferro de um guerreiro valia por um
exercito. Só, tratava uma peleja e, levando de vencida os contrarios ou cahindo-lhes aos pés,
era sempre um heróe.
E esse feito do Passo da Patria, que será um dia assombro para os que lerem no futuro,
narrou-o o heróe ao general em chefe dos exercitos alliados D. Bartholomeu Mittre com uma
linguagem tão singela e tão verdadeira, que mais sobreleva a grandeza da acção a modestia
com que a descreve o heróe.
“Exm. Sr., escreveu elle no dia immediato á passagem. - Tendo hontem, ás 9 horas da
manhã desembarcado, segundo estava disposto, no territorio inimigo, cerca de meia legua
acima da embocadura do rio Paraguay, effectuei o conveniente reconhecimento, que dirigi em
pessoa, acompanhado de 12 homens de cavallaria, encontrei um profundo e atoladissimo
banhado, unicamente vadeavel por um desfiladeiro que dava passagem com agua pelo peito
dos cavallos.
“Ahi travou o meu piquete uma guerrilha com o inimigo, que se oppoz, sendo o
piquete immediatamente sustentado por uma pequena força de infantaria, que mandei seguir-
me ao desembarcar. Foi necessario grande esforço para que essas guerrilhas, mui diminutas
em numero, podessem conter o inimigo, que nos aggredia com forças das tres armas e em
numero avultado, figurando tres batalhões de infanteria, duas peças de artilheria ligeira e
alguma cavallaria, que apparecia e desapparecia no bosque; mas reforçadas as guerrilhas com
uma ala do 2;º batalhão de voluntarios muito bem commandada, batalhão esse a que pertencia
a guerrilha de infanteria, facil foi pôr os paraguayos em completa derrota, até á posição que
actualmente occupo, em espesso bosque abaixo de Itapirú.
“Por ser tarde, estabeleci o acampamento das duas divisões e oito peças de artilheria,
que compunham a expedição sob meu commando, em bom campo, com vantajosas posições,
e onde póde estabelecer-se todo o exercito, no caso de continuar a chuva que cahe com
abundancia desde hontem ás duas horas da tarde.

322
“Desde o desembarque até esse ponto ha uma boa estrada de rodagem, que
provavelmente segue para Itapirú. Quando cessou a perseguição que fizemos ao inimigo, o
qual embrenhava-se nos bosques que tenho em frente, voltou subitamente á carga um corpo
de cavallaria paraguaya contra um piquete do 12.º de linha que estava em frente da artilheria;
com uma descarga e uma carga de bayoneta do piquete, voltou a cavallaria paraguaya para os
seus montes, deixando alguns mortos.
“Tomamos ao inimigo 5 prisioneiros feridos e 41 mortos, tendo a minha força até
hontem á meia noite 3 mortes e 10 feridos, incluso um official subalterno.
“No decurso da noite precedente foram mortos dous paraguayos e ferido gravemente
um dos que ficaram escondidos nos grandes paúes que ha neste campo, e que protegidos pela
noite faziam fogo sobre as sentinellas.
“Ás 8 horas da noite atacaram-me a primeira linha de vedetas, foram rechaçadas,
voltando ao paúl donde tinham sahido, e causando apenas leves ferimentos em tres praças do
1.º batalhão de linha, que formava a dita linha.
“Ao anoitecer veio ver-me o Sr. general Flores, com quem desde logo me puz de
accordo sobre ulteriores movimentos. - Osorio.”
“P. S. - O inimigo apresentou-se hoje forte e combate vivamente”.
Como complemento desta peça tão tocante pela sua simplicidade como digna pela
lealdade que respira, trasncrevemos esta outra de um juiz competente, que nas palavras que
sublinhamos dá a medidade de sua admiração pelo nosso grande general:
“Exm. Sr. D. Bartholomeu Mitre. - O Sr. marechal Osorio distingue-se com as forças
brasileiras combatendo como heróes. Hoje tomaram ao inimigo duas peças e uma bandeira. Já
estamos com todas as forças reunidas. O general Paunero vai fallar-lhe em nome do general
Osorio e no meu, para combinar o ataque de Itapirú. Receba as minhas felicitações pelo
triumpho das armas alliadas. Mande-nos munições e alguns viveres para o primeiro corpo
argentino. Hoje poderão vir as forças que fôr possivel enviar durante o dia, apezar de que
considero sufficiente o que ha. - Venancio Flores.”
No dia 19 D. Bartholomeu Mitre enviou ao presidente da republica argentina D.
Marcos Paz o seguinte officio, no qual faz o mais insuspeito elogio aos nossos bravos em
geral e particularmente ao nosso glorioso general.
“Tenho a honra de remetter a V. Ex. o boletim n. 2 do exercito alliado, contendo as
partes que noticiam a invasão do territorio inimigo pelo Passo da Patria, pelas forças do

323
exercito alliado, cujo feliz e glorioso acontecimento succedeu no dia 16 do corrente: assim
como dos combates sustentados por essas mesmas forças contra outras do inimigo, que se
oppuzeram á passagem no acto de effectuar-se o desembarque, e outras que se apresentaram a
meio caminho de Itapirú; tendo-se em ambos os encontros conduzido as ditas forças, nas suas
totalidades brazileiras, e ás ordens do Sr. marechal Osorio, com toda a honra e bizarria;
derrotando o inimigo e causando-lhe sensiveis perdas em mortos, feridos e prisioneiros; e
arrancando-lhe como trophéu uma bandeira paragaya e duas peças de artilharia. Felicito a V.
Ex. por estes importantes feitos de tanta transcendencia para os ulteriores da campanha, e que
tanto honram os governos e os povos alliados”.
Sejam alguns extractos da ordem do dia n. 152 do general Osorio a ultima transcripção
em que finalisemos este esboço historico de um dos mais brilhantes feitos da guerra do
Paraguay; porque nella rende o illustre marechal a merecida justiça áquelles que com mais
denodo e valentia o acompanharam em tão gloriosa jornada e o ajudaram á colheita dos
virentes louros que então colheu o exercito brazileiro.
“Quartel general do commando em chefe do 1. corpo do exercito em operações.
Acapamento na Republica do Praguay, junto ao Passo da Patria, a 25 de Abril de 1866.
“S. Ex. o Sr. general em chefe, congratulando-se com o exercito do seu commando
pelo feliz successo da operação que nos deu a posso das posições que occupava o inimigo
n’esta margem do Paraná e conseguintemente a passagem franca dos exercitos alliados para o
territorio paraguayo; manda fazer publico ao mesmo exercito as partes especiaes dos corpos
das duas divisões que compuzeram a expedição, os quaes tiveram occasião de se encontrar em
combate com o inimigo, afim de que chegue ao conhecimento de todos o modo porque foi
apreciado o comportamento d’aquelles que se distinguiram.
“Os Sr.s brigadeiro Jacintho Pinto de Araujo Corrêa, chefe do estado-maior Antonio
de Sampaio, Alexandre Gomes Argollo Ferrão, commandantes da 1.ª e 3.ª divisão; os Srs.
coroneis Jacintho Machado Bittencourt, commandante da 7.ª brigada e que commandou a
força da vanguarda na manhã do dia 17; Carlos Resin, commandante da 10 brigada; André
Alves Leite de Oliveira Bello, da 5.ª; D. José Balthazar da Silveira, da 8.ª; não desmentiram o
conceito de que gozam, guardando os respectivos postos com serenidade, activando e
dirigindo cada um sua parte o movimento das fracções de forças do seu respectivo
commando, á medida que as circumstancias do terreno o permittiam ou que a necessidade se
apresentava de reforços neste ou n’aquelle ponto.

324
“Os officiaes que compunham o estado-maior de cada um d’estes generaes e
commandantes de brigada não deixaram de desenvolver a actividade precisa e exigivel,
quando a qualquer d’elles cabia a vez de transmittir ordens ou guiar forças.
“Os Srs. commandantes dos corpos que tomaram parte nos combates parciaes e geral
dos dias 16 e 17 do corrente, até chegarmos a tomar posso do forte de Itapirú e suas
visinhanças, são especialmente felicitados por S. Ex. pelo sangue frio, valor e actividade que
patentearam.
“O Sr. major Manoel Deodoro da Fonseca, commandante do 2.ºde voluntarios,
dirigindo com denodo a vanguarda, composta das fracções de differentes corpos que já
haviam desembarcado no momento em que o piquete de S. Ex. se achava em luta com o
inimigo no desfiladeiro, mo banhado, avançando intrepidamente em apoio do mesmo piquete
e obrigando o inimigo a bater-se em retirada, prestou relevantissimo serviço na protecção do
desembarque da nossa força. Os nossos tenentes-coroneis Domingos José da Costa Pereira,
commandante do 12.º batalhão de infanteria; Joaquim Mauricio Ferreira do 10.º corpo de
voluntarios; Francisco Antonio de Souza Camisão, do 8.º de infanteria; Salustiano Jeronymo
dos Reis, do 2.º da mesma arma; majores Francisco Frederico Figueira de Mello,
commandante do 26.º corpo de voluntarios; Francisco Maria dos Guimarães Peixoto,
commandante do 1.º de infanteria; Augusto Cesar da Silva, commandante do 13.º da mesma;
João de Souza Fagundes, commandante do 16.º da mesma arma; e Innocencio Cavalcanti de
Albuquerque, commandante do 11.º corpo de voluntarios, cujos corpos tiveram occasião de
entrar em fogo no dia 16 e principalmente no dia 17, mostram-se dignos da confiança que até
o presente tem merecido de S. Ex.
“O Sr. tenente-coronel Emilio Luiz Mallet, commandante do 1.º regimento de
artilharia a cavallo, que dirigia as oito boccas de fogo que acompanhavam a expedição,
confirmou os seus precedentes, desenvolvendo a actividade, bravura e energia que ha muito
lhe eram conhecidas.
“O Sr. tenente-coronel José Carlos de Carvalho, chefe de commissão de engenheiros,
que acompanhou o Sr. general em chefe no dia 16, mostrou-se activo e zeloso em codjuval-o
naquillo que poderia concorrer.
“O Sr. tenente-coronel João Simplicio Ferreira, empreago junto a S. Ex., cuja bravura
já é muito conhecida, faz excessos de energia; o Sr. tenente Joaquim Pantaleão Telles de
Queiroz, commandante do piquete de S. Ex., o mesmo que no ataque da ilha fez-se admirar

325
dos seus camaradas pelo valor e energia que desenvolveu, não foi menos admiravel
combatendo com a pequena força de cavallaria que primeiro teve de fazer frente ao inimigo,
continuando depois a exercer com a mesma energia as funcções de ajudante de ordens, os Srs.
tenente-coronel Candido Antonio Figueiró; capitães do 3ºregimento de cavallaria ligeira
Izidoro Fernandes de Oliveira, e do 1º corpo da brigada ligeira Luiz Alves Pereira, que nesta
occasião fizeram parte do estado-maior de S. Ex., ajudantes de campo, tenente Manoel
Jacintho Osorio e alferes Manoel Luiz Osorio, portaram-se muito dignamente, nada deixando
a desejar no cumprimento de seus deveres.
“S. Ex. elogiando a intrepidez e serenidade do Sr. Luiz da Costa, commandante dos
poucos atiradores á cavallo da brigada ligeira que naquella occasião formava o seu piquete,
lamenta profundamente que tivesse a infelicidade de ser baleado gravemente no combate da
manhã de 17.
“Os mais officiaes inferiores que compunham o piquetee de S. Ex. cumpriram o seu
dever.
“Plenamente satisfeito do comportamento dos poucos batalhões que têm tido occasião
de medir-se com o inimigo, S. Ex. reconhece com prazer, que, além do brio natural que anima
e enche de valor o soldado brazileiro no combate, não têm sido perdidos os esforços
empregados em sua disciplina e instrucção, e que os diferentes chefes bem tem correspondido
á confiança que lhe tem merecido.
“S. Ex. o Sr. general em chefe entende que faltaria a um dever sagrado se nesta
occasião e perante o execito de seu commando deixasse de manifestar-se grato aos nossos
bravos irmãos de marinha e ao seu digno chefe pelo muito que ocncorreram para o feliz exito
da nossa expedição, coadjuvando o transporte das tropas para este lado, já metralhando o
inimigo e desconcertando-o em sua retirada, já finalmente bobardeando o seu decantado
acampamento intrincheirado no Passo da Patria, sendo só a ella devido o desalojamento
precipitado do grosso de suas forças, que, guardadas em suas trincheiras, julgavam nos
impedir o passo para Humaitá”.

326
IX. Tomada do forte do Estabelecimiento

Depois dos ultimos combates do anno de 1867, o exercito paraguayo, como que
extenuado, deixou-se ficar inactivo em suas trincheiras; uma ou outra partida de cavalaria
sahia ás vezes em correrias que pouco ou mesmo nenhum resultado lhes dava.
Por conveniencia nossa mantinha o exercito alliado esse estado de cousas, e assim se
passaram ainda os mezes de Janeiro e Fevereiro de 1868.
Desde que as tropas brazileiras occuparam Tagy, Lopes começou então a passar forças
para o Chaco, margem direita do rio Paraguay, onde abrio uma estrada que alcançava a foz do
rio Tibiquary, que é a margem esquerda do Paraguay.
As tropas alliadas que estavam no Chaco eram necessarias para deffender os pontos
terminaes da estrada de ferro e manter livre a communicação entre a esquadra encouraçada,
fundeada acima de Curupaity, e a de madeira, fundeada abaixo desta fortificação, como se
verificou quando os paraguayos as viream atacar para tentar hostilisar os navios que estavam
ancorados nas proximidades do Chaco.
Tendo chegado a Curuzú os ultimos monitores, construidos nesta côrte, e do Passo da
Patria reforços de tropa, o Marquez de Caxias resolveu ir conferenciar com o vice-almirante
sobre o plano de proximas operações, e tambem passar revista ás tropas de Tuyuty, Passo da
Patria e Chaco.
Depois de conferenciar, o general em chefe deu algumas providencias, das quaes não
surtiam extraordinarios effeitos; nem para tanto as idéara o Marquez de Caxias, que com
louvavel prudencia aguardava o momento de operar com energia.
Durante o mez de Janeiro as operações de guerra limitaram-se a alguns tiroteios e
canhonadas. Tendo o Marechal verificado que o canhão Whitworth dava bons resultados,
mandou levar alguns do mesmo systhema para Tuyú-Cué, o que se fez com muito trabalho
pelas difficuldades do caminho.
Varias tentativas manobrou o inimigo para surprehender, de noite, guardas nossos ou
matar sentinellas avançadas; mas, como de nossa parte havia extrema vigilancia, foi elle
sempre rechaçado.
Para chamal-o a campo descoberto, mandou o Barão do Triumpho na noite de 31 de
Janeiro emboscar em uma mata, perto da linha paraguaya, um corpo de cavallaria de 260
praças, commandado pelo tenente-coronel Hypolito Ribeiro.

327
Ao amanhecer do dia seguinte, 12 soldados desse corpo adiantaram-se até ás guardas
inimigas, provocando-as ao combate.
Uma força inimiga de 80 homens accometteu logo os 12 soldados brazileiros, que ora
parecia querer-lhes fugir, ora fazer-lhes frente. Assim lograram trazel-os para junto dos
nossos, que os aprisionaram em grande parte, matando alguns na luta que empenharam com
muito denodo e bizarria.
O inimigo teve 32 mortos, inclusive 3 officiaes, e trouxeram ao nosso campo 2
officiaes e 14 soldados prisioneiros. Na nossa cavallaria houve 3 feridos.
No dia 8 de Fevereiro, o general Caxias foi á fortificação de Tagy e passou revista ás
tropas; no dia seguinte foi á villa do Pilar, onde tambem passou revista ás divisões de
cavallaria sob o commando do general Mena Barreto.
Finda a revista, seguio para Tuyu-Cué e dahi para S. Solano onde soube pelo
brigadeiro Barão do Triumpho do reconhecimento realisado sobre o lado direito do Humaytá.
Este reconhecimento feito com o mais feliz successo foi a 9 de Fevereiro de 1868; a
11 o Marquez de Caxias mandou ir do Chaco para Tuyu-Cué os batalhões de infanteria 16º e
34º e de Tagy para o mesmo os batalhões 7º, 9º e 21º, seguindo para Tagy o 17º e 18º de
cavallaria, commandados pelo coronel Bento Martins de Menezes.
A 13 de Fevereiro passaram as baterias de Curupaity os tres monitores recemchegados
do Rio de Janeiro e que foram reunir-se aos encouraçados.
No dia 17 o commandante Giriboni, com 100 homens de cavallaria e 80 de infantaria,
indo fazer uma descoberta no campo, foi atacado pelos paraguayos que estavam emboscados
pela frente e pelo flanco; Giriboni morreu na acção e com elle 3 officiaes e 47 soldados
argentinos de seu commando.
A 19 effectuou-se a gloriosa passagem de Humaytá pelos encouraçados; feito
prodigioso a respeito do qual o Standart, folha que sempre nos foi hostil, escreveu então que
“o Brazil pôde bem ufanar-se de sua victoria, porque não só lhe dará o dominio completo do
Paraguay e demolirá o mais forte baluarte do poder paraguayo, mas deu ainda um dia de
gloria ao seu poder naval, que a posteridade hade venerar.
“Nenhum acontecimento de igual importancia occorreu ainda nesta parte do mundo
nesta geração; e, para honra do pavilhão brazileiro, é necessario confessar que a victoria naval
alcançada é a todos os respeitos digna de figurar a par de Aboukir e Trafalgar.”

328
Emquanto operava por agua a esquadra tão denodada quão gloriosamente, por terra o
Marquez de Caxias aprestava o exercito para uma das mais brilhantes jornadas que se deram
sob seu commando.
Ás 10 horas da noite de 18 de Fevereiro, uma columna composta da 1ª brigada do
commando do coronel João do Rego Barros Falcão, da 2ª sob o mando do coronel Frederico
Augusto de Mesquita, e da 5ª ao mando do coronel Francisco Pinheiro Guimarães punham-se
em ordem de marcha e promptas a seguir ao primeiro signal.
Ás 11 horas da noite partio de seu quartel general o Marquez de Caxias acompanhado
de seu estado maior, do qual fazia parte o chefe do corpo de saude o Dr. Francisco Bonifacio
de Abreu, seu secretario, cinco medicos e dous pharmaceuticos.
Aprestadas aquellas tres brigadas, puzeram-se todos em marcha vagarosa para não
fatigar a tropa. A columna marchou toda a noite.
Ás 4 horas da manhã, já á pouca distancia do ponto fortificado, ouvio-se o fogo de
artilharia muito nutrido em Humaytá; era a passagem dos encouraçados que se effectuava. A
subida ao ar de foguetes annunciava ao exercito o bom exito da empreza.
Ás 5 horas da manhã chegou o Marquez de Caxias com a sua columna á vista das
forças inimigas que ia atacar. Ahi fez-se alto emquanto o general em chefe seguia com seu
estado-maior a reconhecer o terreno.
Voltando a tomara direcção do ataque ordenou o general em chefe que a brigada
commandada pelo coronel Barros Falcão, composta dos batalhões 16º do commando do
coronel Antonio Tiburcio de Souza, 31º do commando do major Assumpção, e do corpo de
atiradores do commando do capitão Mayer, carregassem a marche-marche sobre a trincheira.
Avançado valentemente esta parte das forças, atacavam o reductor inimigo, que
immediatamente rompeu tenaz e vivissimo fogo sobre os nossos.
Estava travada a peleja.
A luta foi rapida porém homerica.
A cavallaria, a intrepida cavallaria ao mando do Barão do Triumpho, avançou
denodada contra o inimigo operando prodigios de valor.
Andrade Neves, como que rebatptisava-se com o nome que a munificencia imperial
recompensára seus passados feitos; o Barão do Triumpho, não podia nem devia de então por
diante deixar de triumphar.

329
Á frente de seus bravos camaradas dava elle o mais bello exemplo de intrepidez e
patriotismo.
Em um momento os tres batalhões, que primeiro avançaram, escalaram as trincheiras,
sob um fogo nutrido e ininterrompido.
O marquez de Caxias ordena então que o 10º batalhão sob o commando do major
Modesto Netto e o 1º ao mando do tenente-coronel Valporto avancem sobre ultima trincheira.
O coronel Pinheiro Guimarães com estes dous batalhões de sua brigada auxilia os
outros corpos, carregando todos sobre a segunda trincheira.
Conseguem tambem estes escalar, e um combate a ferro e fogo trava-se renhido e
porfiado.
Eram valentes os nossos, mas não menos audazes eram os inimigos.
Os paraguayos batiam-se com verdadeira coragem; disputavam até o ultimo alento a
posse daquelle ponto de defesa.
As tres brigadas 1ª, 2ª e 3ª que compunham a 3ª divisão commandada pelo brigadeiro
José Antonio da Silva Guimarães, portavam-se com desusada bizarria.
No meio daquella luta de vida e morte, em face daquelle reducto, onde se estavam
dando episodios dignos de tuba homerica, o vulto imponente e magestoso do velho cabo de
guerra alteava-se dominando todo o conjuncto como a esthetica do quadro.
Sua voz mascular e autosiada mandava todas as evoluções da acção; seu olhar firme e
experimentado avaliava o estado de todas as situações.
Rodeado de seu brioso estado maior, afrente daquella acção travada franca e
desassombradamente, o Marquez de Caxias avultava, crescia.
Era bello de ver-se illuminado pelos raios do sol, sob um céo enegrecido pelo fumo
dos canhões, aquella figura nobre e varonil dando ao mundo o mais admiravel exemplo de
verdadeiro amor da patria.
De todos quantos partiram para os campos do Paraguay, de todos os quantos tomaram
parte naquella porfiada luta de cinco annos, nenhum foi mais voluntario e mais desinteressado
que o Marquez de Caxias.
Comulado de honras e grnadezes, nada mais tendo a ambicionar porque tudo quanto a
Patria lhe podia dar já lhe havia dado, velho, cançado e enfermo, que seducções poderiam
actuar no espirito do velho cabo de guerra para fazel-o abandonar seu lar e seus commodos,
para ir em paiz inhospito e inimigo supportar as fadigas e os perigos da guerra?

330
As paixões politicas, a inveja dos contemporaneos procuram debalde escurecer tão
nobre e tão memoravel sacrificio, debalde esforçam-se para baixar ao nivel commum esse
sacrificio sublime que eleva o marechal Caxias a uma altura, onde já não o alcançam os
impotentes votos de seus pigmeus desaffectos.
O heroe elevou-se muito alto; seu pedestal de gloria está bem solido para que o
camartello dos iconoclastas consiga derrubar o idolo que a posteridade de ha muito esguarda.
No ataque do Estabelecimiento, como no de Itororó, no de Lomas Valentinas e em
todos quantos sua espada vencedora mostrou aos nossos a trilha da victoria, o marechal
Caxias provou até á evidencia que a velhice e a emfermidade do corpo desapparecem quando
o espirito, remoçado pelo fogo sagrado do patriotismo, lhes impõe o sacrificio do dever.
A dupla operação, por agua e por terra, que derrocando o importantissimo reducto do
Estabelecimiento assegurou-nos livre e franca passagem até Assumpção, desmontando de
uma vez para sempre Humaytá, não foi um acontecimento fortuito, filho de mero acaso, mas
sasonado cructo de acurado estudo, seguro resultado de acertados planos. Militar encanecido
no serviço das armas, o Marquez de Caxias, na campanha do Paraguay, provou que os annos e
a pratica não lhe eram infructiferos. Da seguinte parte dada ao Ministro da Guerra, prova-se
até a evidencia o que avançamos:
“Em minha confidencial datada de 4 do corrente mez, levei ao conhecimento de V. Ex.
que, como resultado das conferencias que tive com o Barão de Inhauma, ficou entre nós
ambos resolvido que se forçasse a passagem de Humaytá, aproveitando-se o crescimento das
aguas do rio Paraguay, e devendo essa perigosa empreza ser secundada por um ataque geral
simultaneo contra toda a linha de fortificações inimigas por parte do exercito.
“Tambem mandei dizer a V. Ex., nesta data, que seguiria breve para Tagy, por ter de
tomar algumas medidas connexas com aquella manobra, e de tudo quanto se passasse
posteriormente daria eu parte a V. Ex.
“Agora que as armas imperiaes se cobriram de gloria tanto em terra como no rio
Paraguay, é com o sentimento do mais vivo jubilo que eu nesta data me dirijo a V. Ex. a fim
de narrar-lhe, ainda que succintamente, tudo quanto praticaram o exercito e a esquadra
brazileira ao amanhecer do dia 19 do corrente, que fôra ultimamente escolhido por mim e pelo
Barão de Inhauma, em consequencia de ter o rio começado a baixar no dia 17, e não se poder
calcular qual o estado de suas aguas no dia 23 que anteriormente fôra designado.

331
“Havia dado as minhas ordens e expedido as convenientes instrucções para que, logo
que se ouvissem, na madrugada de 18 para 19 do corrente, os tiros convencionados da
esquadra, o exercito começasse seu movimento.
“O marechal Alexandre Gomes d’Argollo Ferrão que, como V. Ex. sabe, commanda o
2º corpo do exercito, o qual fórma nossa ala esquerda em Tuyty, devia romper o fogo em toda
a linha, ameaçando aquelle ponto della que parecesse mais fraco, devendo anteriormente, por
meio de catos preparatorios buscar chamar a attenção do inimigo, afim de poder elle crer que
ali ia ser diffinitivamente atacado.
“Da lagôa Pires duas ou tres canhoneiras, da 2ª grande divisão da esquadra, deveriam
tambem bombardear em direcção do Passo-Pocù.
“Ao general argentino D. Juan A. Gellyy Obes encarreguei eu de, com iguaes
manobras, ameaçar o angulo esquerdo do quadrilatero inimigo, nas proximidades do Passo
das Canôas.
“O Barão do Herval recebeu as minhas orden para ao mesmo tempo romper o
bombardeamento contra o Passo Pocù, ameaçando-se e fazendo crêr que era o ponto
escolhido para um ataque sério e decisivo; e, para que o inimigo tivesse razões para ganhar e
robustecer essa crença, determinei que durante o dia 18 houvesse no campo do 3º corpo de
exercito grande e ostensivo movimento nas carretas e demais vehiculos de conducção, na
artilheria da campanha, que deveria manobrar em differentes direcções, tendo o inimigo visto
que ao declinar da tarde desse dia vieram de S. Solano e procuraram o acampamento do 3º
corpo de exercito forças consideraveis de cavallaria.
“Duas brigadas de infanteria pertencentes á 3ª divisão da mesma arma, commandada
pelo brigadeiro José Antonio da Silva Guimarães, foram por ordem minha postar-se em
posição conveniente, na tarde desse mesmo dia, e eu lhes passei revista, tendo tudo sido
observado pelo inimigo.
“Logo porém que anoiteceu as forças de cavallaria que tinham vindo de S. Solano
contramarcharam, e até ás 11 horas da noite em ponto marchei eu á frente de 10 batalhões de
infanteria, uma bateria de 12 boccas de fogo de campanha e uma divisão de cavallaria de
1.700 homens, dos quaes 200 eram Argentinos, e me dirigi para o nosso flanco direito, ou á
esquerda do inimigo, que desta minha marcha se não apercebeu, tendo-me eu conservado com
esta força emboscado até serem ouvidos os tiros da esquadra, ordenando então ao Barão do
Triumpho que, á testa de tres batalhões de infanteria e de uma brigada de cavallaria, desse

332
assalto contra um forte dos mais importantes que o inimigo possue na extrema de sua linha e
proximidade de Humaytá, e que guarda e deffende grandes armazens, cujos depositos
forneciam Humaytá de munições de todo genero e armament, havendo alem disto grandes
fabricas de telha e tijolo, de cujo producto se abasteciam ainda as fortificações inimigas.
“Alem disto, uma outra razão ha para que o forte que mandei atacar fosse julgado pelo
inimigo de subida importancia, e consiste ella em ser bordada essa localidade por uma lagoa
extensiva e profunda, por onde recebia o gado que do interior e pelo caminho do Chaco lhe
chegava.
“É por tudo isto que esse forte estava deffendido por tres fossos e duas muralhas, onde
estava asseestadas 15 peças de differentes calibres, e guarnecido por dous batalhões, um
regimento de cavallaria e o s artilheiros sufficientes para fazer jogar aquellas boccas de fogo.
“Avançar nossa columna de ataque, assaltar, transpôr os fossos e apoderar-se da 1ª
linha de fortificação, foi obra de um instante. Nem a metralha do inimigo, nem o fogo
incessante e o nutridissimo de seus fuzis, puderam arrefecer a coragem indomavel dos nossos
soldados e o impeto com que praticaram tão brilhante accommettimento.
“O inimigo, concentrando-se então na sua 2ª linha, resistiu com energia e pertinencia
ao ataque das nossas forças contra esse ponto, durante o longo espaço de 3 horas; e só depois
dellas, da chegada de reforços que fiz marchar, bem como de emprego de machados contra
uma ponte levadiça que fizera levantar e que servia de portão a essa linha, cedeu e se declarou
vencido. A bandeira paraguaya cahiu e foi substituida pela brazileira, no meio da acclamação
unanime de nossos officiaes e soldados.
“Posso assegurar a V. Ex. que o inimigo se bateu com incrivel audacia e valor. A
mortandade foi grande, mas os cadaveres eram encontrados nos lugares em que, momentos
antes, a defesa da fortificação era sustentada com o maior vigor.
“O inimigo, entre mortos e feridos, perdeu toda a força que tinha no reducto inclusive
seu chefe; e aquelles que, depois de vencidos, procuraram atravessar um banhado proximo e
por elle se escapar, cahiram aos tiros de dous batalhões, e a cuja intimação para se renderem
os Paraguayos fugitivos resistiam com incrivel perseverança.
“As 15 peças de artilheria, de que acima fallei, ficaram em nosso poder, e bem assim
uma quantidade extraordinaria de armamento e munições bellicas e de arreiamento, de que os
depositos se achavam atulhados.

333
“Dous vapores inimigos o Taquary e Juarez, que estavam no Humaytá antes de
forçada a sua passagem, vieram abrigar-se contra o fogo dos nossos encouraçados na lagoa
que já fiz menção, e dahi bombardeavam as nossas forças ao tempo em que atacavam ellas as
trincheiras; vendo-se, porém, obrigados a fugir, com muitas avarias, da posição que haviam
tomado, depois que os mandei metralhar por algumas boccas de fogo de campanha, que fiz
convenientemente assestar.
“Asseguro a V. Ex. que a acção foi importantissima, eu a commandei e dirigi em
pessoa, levando commigo os generaes Barão do Riumpho, commandante da cavallaria, e
brigadeiro José Antonio da Silva Guimarães, commandante de infanteria, sendo a artilheria de
campanha dirigida pelo seu commandante, o coronel Emilio Luiz Mallet.
“Dizer que estes distinctos chefes se houveram com valor, pericia e dedicação, é
repetir aquillo que os annaes da presente guerra já reconhecem.
“De nossa parte tivemos, entre mortos, feridos e contusos 500 a 600 homens postos
fóra de combate, figurando entre elles numero crescido de officiaes subalternos dos corpos
que assaltaram o forte, o que prova o açodamento e coragem com que se bateram.
“Na ordem do dia que farei brevemente publicar declarei os nomes dos commandantes
de brigada, dos corpos de que ella se compoz, dos officiaes e praças que entraram nessa luta
gloriosa, afim de os recommendar á consideração do governo e á munificencia do imperador.
“Concluirei este topico declarando a V. Ex. que, terminado o combate e ganha tão
assignalada victoria, mandei lançar fogo para destruir completamente a todos esses vastos
armazens, depositos, fabricas e dependencias do reducto atacado, e que é conhecido do
Paraguay pelo nome de Estabelecimiento, não esquecendo as grandes canôas que cahiram em
nosso poder, e que facilitavam as communicações do inimigo com o Chaco.
“Os navios da esquadra que forçavam a pssagem do Humaytá, levantando muito alto o
pavilhão nacional e escrevendo gloriosa e imorredoura pagina para a mesma esquadra foram
os tres encouraçados Tamandaré, Barroso e Bahia, cada um dos quaes passou levando
atracado um monitor.
“O commandante dessa esquadrilha, que tão galhardamente se houve na mais difficil e
perigosa empreza, foi o capitão de mar e guerra Delphim Carlos de Carvalho.
“Não se perdeu uma só vida, ficando apenas levemente contuso o mesmo
commandante da esquadrilha e o intrepido e dedicado Etchbarne, o que tanto é mais digno de

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admirar, quanto é certo que o monitor Alagoas foi abordado por força inimiga, que armada de
lanças e espada ousára tentar tomal-o.”
O trecho seguinte de uma correspondencia particular completa os detalhes dessa
brilhante jornada.
“O Marquez de Caxias resolvido a atacar uma das fortes posições que Lopes possuia
acima do Humaytá e que eram o Estabelecimiento e Lourelles, deu mui habilmente
preferencia ao primeiro.
“Era elle o mais forte, custaria portanto maior esforço, mas conquistado esse ponto,
Lourelles não podia conservar-se, e pois com um só combate tomavam-se duas fortificações
inimigas, e se encurtava de duaus leguas a sua linha. Demais impossibilitava-se a passagem
de recursos por Humaytá.
“Não só pelos seus meios proprios, mas pelos auxilios que podia Lopes mandar-lhe de
prompto, o ataque do Estabelecimiento podia dar lugar a uma verdadeira batalha, e o Marquez
a quiz dirigir em pessôa, levando 7000 homens, sendo 5000 de infanteria, 2000 de cavallaria e
algumas secções de artilheria.
“Tendo tomado posição durante a noite, ás 5 horas da manhã de 19 de Fevereiro
principiaram o ataque das forças brazileiras, jogando sua artilheria durante uma hora ou
menos. O inimigo, presenindo que ia ser atacado, havia nessa mesma noite pedido reforço a
Humaytá, que lhe mandou dous batalhões e dous vapores para apoiar pelo rio. Assim a força
Paraguaya excedia a 1600 homens com 15 canhões, fóra os 10 ou 12 vapores.
“Sendo grande a superioridade do inimigo em artilheria, o Marquez não quiz
prolongar o combate com essa arma, e resolveu-se dar o assalto. Duas altas trincheiras tinham
os Paraguayos, com largos fossos, abatizes etc. e como o terreno não permittia tomar parte no
combate senão a uma certa porção de nossas forças, o Marquez designou cinco batalhões de
infanteria e um regimento de cavallaria desmontada para levarem e sustentarem o ataque, que
foi disposto de modo que a sua violencia suprisse o menor numero de forças, que podia
empregar.
“As valentes tropas brazileiras mostraram ainda nesse dia que nada tem que invejar
aos melhores soldados do mundo. Debaixo de um fogo vivissimo de metralha e fuzilaria
arremessaram-se de encontro ás trincheiras.
“As primeiras fileiras cahiram por inteiro; as outras avançavam e cahiam tambem até
que algumas, muito dissiminadas abordavam o fosso. Com fachinas e com os cadaveres de

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seus companheiros cegaram esse fosse e tentaram logo escalar as trincheiras. Ahi, com seu
fogo vivissimo e á bayoneta, o inimigo os repellia, mas animados os nossos soldados pela voz
e exemplo dos officiaes conseguiram trepar aos parapeitos. Uma parte da força Paraguaya
fugiu, mas a outra susteve o combate a arma branca, ficando uns 600 delles mortos dentro e
pelos flancos de suas fortificações.
“As perdas do exercito brazileiro não podiam tambem deixar de ser consideraveis. Em
officiaes tivemos 16 mortos, 45 feridos e 17 contusos, mencionando-se entre elles alguns
muito distinctos e muito moços que davam lisongeiras esperanças.
“Foi pois perda geral: 147 mortos, 339 feridos e 42 contusos, e na sua totalidade 529
homens fóra de combate. Calculando-se que mais de metade dos feridos e contusos póde
salvar-se, a perda absoluta importa em 339 homens.
“Em todo o caso a magnanimidade do triumpho a compensa.
“Sendo dupla a perda em homens no inimigo, deixou elle ainda mais em nosso poder
os 15 canhões, um crescido material de guerra e uma posição que fecha Humaytá.
“Por pouco mais deixava elles os seus dous maiores vapores, pois soffrendo alguns
certeiros tiros da nossa artilheria fugiram desmantelados, e com que foram embicar em um
ponto da costa do Chaco, d’onde não pódem escapar.
“No combate de que fallo são varios os nomes dos chefes brazileiros que se citam
como tendo-se distinguido pela sua bravura, serenidade e pericia, mas sendo incompletas
minhas informações, prefiro ser omisso a parecer injusto; nenhum mencionarei.
“Os documentos officiaes o terão feito ou farão logo; eu só direi que todos os que
tomaram parte nesta jornada, tão heroica, que os emulos do Brazil a invejam e seus inimigos a
atacam, conquistaram gloria para seus nomes e a gratidão do paiz agora e sempre.
“Um nome, porém, acha-se bem destacado e enaltecido nesse feito d’armas: - o do
Marquez de Caxias. Á pericia com que planejou a operação o general idoso, juntou o denodo
e a actividade que o illustraram em sua juventude, e seus biographos tem uma bella pagina
para consinguar e a que não faltou mesmo um singular episodio.
“Tão singular que podia custar a vida ao nosso illustre cabo de guerra.
“Depois de 36 horas em que os cuidados e ordens que tinha de dar sobre as
importantissimas operações desse dia não haviam deixado ao Marquez um instante de
descanço, e depois de ter estado oito ou dez horas a cavallo, S. Ex. tendo com seus ajudantes
tomado uma ligeira refeição, deitou-se na rede de um pequeno rancho, dentro do forte que

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acabava de ser tomado ao inimigo. Por cima da rede havia preso ao tecto, um couro estendido,
e que no paiz chama-se noque, no Rio Grande giráu e que serve para guardar os viveres e
tudo o mais.
“O Marquez tinha dormido uma ou duas horas, quando resolvendo ir a Lourelles
mandou arrasar as trincheiras do estabelecimiento e queimar os ranchos. Nesse momento
deixou-se cahir do giráu um soldado paraguayo ferido que alli tinha conservado occulto
vendo o Marquez dormir, como ingenuamente confessou.
“Se aquelle homem não estivesse ferido e sobretudo desarmado, e sabido o fanatismo
com que os soldados paraguayos ainda depois de rendidos procuram matar, embora morram
logo, que seria da vida do general em chefe quando tão preciosa era ella?
“Com razão, dizem as folhas argentinas, que só a feliz estrella do Marquez o podia
livrar de um perigo tão immediato e terrivel. Prudente será todavia não repetir a prova duas
vezes.”
Tal é o summario desse rapido mas glorioso assalto que enriqueceu os fastos do
exercito brazileiro com mais uma data immorredoura.
O ataque do Estabelecimiento é um episodio, mas um episodio d’aquelles que
resplandecem e se destacam do conjuncto, como do quadro do artista o raio de luz que
illumina a tela inteira.
Entre os brilhantes e victoriosos feitos de sua invencivel espada, o venerando Duque
de Caxias conta esse como um dos mais esplendidos e impereciveis. O ataque do
Estabelecimiento é uma dupla pagina de ouro para a Patria e para o velho cabo de guerra.

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