Você está na página 1de 138

ENSINAMENTOS DE

MEISHU-SAMA
COLETÂNEA

ALICERCE DO
PARAÍSO
ORGANIZAÇÃO E TRADUÇÃO:
SECRETARIA DE TRADUÇÃO DA IMMB

SÃO PAULO
6ª EDIÇÃO REVISADA - 2019

1
Copyright by Sekai Kyussei Kyo - Atami

M 456e
Meishu-Sama, / 1882-1955.
Ensinamentos de Meishu-Sama/Organização e tradução IMMB,
6.ed. - São Paulo: Fundação Mokiti Okada, 2019. – (Coletânea -
Alicerce do Paraíso, v. 4)
Título original: Tengoku no Ishizue
ISBN 978-85-8355-146-1
1. Fé no cotidiano 2. Aprimoramento 3. Pragmatismo religioso 4.
Apego 5 Dívidas I. Título II. Série
CDD-299.5631

Catalogação na publicação: Zilda Soledade – CRB 8/9909.

Índices para catálogo sistemático:


1. Igreja Messiânica Mundial: Filosofia espiritualista de origem japonesa

Edição:
FUNDAÇÃO MOKITI OKADA
Edição de Arte
Setor de Comunicação e Marketing
Projeto gráfico e diagramação: Rogério Luiz da Camara
IMMB:
Divisão de Comunicação - Secretaria de Tradução da IMMB
Revisão: Ivna Maia Fuchigami
6ª edição – julho de 2019
Endereço para correspondência:
Rua Morgado de Mateus, 77 – 3º andar – Setor Comunicação
Vila Mariana – São Paulo – SP – CEP 04015-050
Tel.: 11 5087-5000
Direitos autorais reservados. Proibida a reprodução total ou parcial desta obra.

2
APRESENTAÇÃO DA REEDIÇÃO

S ob a proteção do Supremo Deus, temos a alegria de entregar aos leitores a edição


revisada do volume 4 da coletânea Alicerce do Paraíso.
A divisão em capítulos é uma tentativa de apresentar os Ensinamentos de Meishu-
Sama de forma minimamente sistematizada para fins didáticos. No entanto,
tenhamos sempre em mente que os Ensinamentos são Escritos de Deus para que
acessemos a Verdade com vistas à concretização do Mundo da Luz.
Observa-se que a temática “fé”, de alguma maneira, permeia vários textos e é como
um fio condutor de nossa reflexão. Leitores de diferentes faixas etárias e trajetórias de
vida admiram a visão abrangente de Meishu-Sama.
Para o Fundador, fé não é apenas um sentimento humano de veneração a Deus. Fé
messiânica significa justamente a arte de entrosar fé e vida cotidiana.
Meishu-Sama não foi um religioso comum. Até a meia-idade, não professava fé
alguma. Por outro lado, era apreciador da filosofia e, ao se iniciar no mundo da fé,
passou a aplicar a religião ao cotidiano, o que denominou de “Pragmatismo
Religioso”. Ele acreditava que a introdução do espírito religioso nos vários campos da
atividade humana seria a chave para a melhoria do destino do indivíduo e, por
conseguinte, do aumento do bem-estar social.
Conforme entramos em contato com os Ensinamentos, nossa mente se purifica e,
por meio da sua prática, nossa compreensão da vida e comportamento se
transformam. Surgem em nós muitas reflexões: “Deus confia em mim?”; “Sou capaz
de viver o cotidiano com retidão e justiça?”; “Pratico uma fé cega ou uma fé lúcida?”;
“Sou vaidoso e exclusivista ou contribuo para a criação de uma vida civilizada?”, entre
outras.
Aprendemos que fé não combina com preocupação. Segundo Meishu-Sama, “a
pessoa de fé é diferente dos demais: tão logo lhe surge uma preocupação, lembra-se
de entregá-la a Deus e sente grande alívio.” E mais: “Os praticantes da fé precisam
ter uma correta percepção sobre o amor.”
Por meio de vários exemplos, somos levados a compreender a devida ordem
existente entre espírito e matéria. Ordem é lei, é caminho. Antes das leis humanas,
existe a Lei de Deus.
Em se tratando de questões de fé e vida cotidiana, vemos que Meishu-Sama se
fundamentou na Grande Natureza e nos apresentou sua filosofia sobre as dívidas, que
desencoraja a contração de dívidas e recomenda que qualquer projeto seja iniciado de
forma modesta, assim como uma pequenina planta que cresce e se torna uma
frondosa árvore. Tudo a seu tempo.
Quanto às modificações em relação às edições anteriores deste volume, destacam-
se: a) inclusão da fonte em que o Ensinamento foi publicado pela primeira vez,

3
seguido de sua data de publicação (Vide relação na última página); b) deslocamento
do Ensinamento “Fisiognomia das casas e sua posição em relação aos pontos
cardeais” para o capítulo 1 deste mesmo volume; c) retirada do Ensinamento “A
higiênica e agradável agricultura natural nas hortas caseiras”, que será publicado no
volume 5 da coletânea Alicerce do Paraíso; d) criação de um capítulo que reúne apenas
os Ensinamentos em forma de palestras.
As alterações nos títulos estão indicadas no sumário. Com exceção dos textos do
capítulo 9, os demais Ensinamentos constam na coletânea Tengoku no Ishizue (Alicerce
do Paraíso), publicada no Japão. A data do Ensinamento é, via de regra, aquela que
consta nesta mesma coletânea.

4
A FÉ NO COTIDIANO

PRAGMATISMO

N a mocidade, apreciei muito a filosofia. Entre as várias teorias filosóficas, a que


mais me atraiu foi o pragmatismo, do renomado norte-americano William
James(1). Pragmatismo poderia ser traduzido como “filosofia em ação”. Segundo
James, a mera explicação de teorias filosóficas não passa de uma espécie de diversão.
Para ele, a filosofia só tem valor quando manifestada por meio da ação. Acho essa
teoria interessante por levar em conta a realidade, o que mostra uma característica dos
filósofos norte-americanos. Naquela época, simpatizei-me, portanto, com seu
pensamento e me esforcei para incorporar a filosofia ao meu trabalho e até mesmo à
vida cotidiana. Dessa forma, o benefício que o pragmatismo me proporcionou não foi
pequeno.
Mais tarde, ao professar a fé, comecei a considerar a necessidade de estender o
pragmatismo à Religião, ou seja, aplicar a religião ao dia a dia. Podemos imaginar
quão grandes benefícios nos proporcionaria a introdução do espírito religioso em
todas as atividades. Por exemplo, o político, livre dos próprios interesses, não
cometeria desonestidades e, uma vez que visaria à felicidade do povo, obteria a
confiança de todos, e a política fluiria bem. O empresário realizaria suas atividades
honestamente, o que lhe proporcionaria ampla credibilidade, e seus negócios
progrediriam com solidez, porque ele trataria seus funcionários com amor, e estes
trabalhariam com dedicação. Por realizar seu trabalho com sólida fé, o educador seria
respeitado pelos alunos, exercendo sobre eles notável influência. Por agirem com base
na fé, os funcionários públicos e os de empresas privadas realizariam bons trabalhos e
seriam promovidos. Por meio de suas obras, o artista expressaria refinamento e
emitiria elevada vibração espiritual, exercendo boa influência sobre o público. O ator,
por estar centralizado na fé, manifestaria uma arte refinada; com isso, os espectadores
seriam influenciados positivamente e cultivariam uma sensibilidade e consciência
elevadas. Entretanto, tudo isso deve ocorrer sem rigidez didática, de forma bastante
divertida e interessante, sempre com bom humor.
Ademais, é fácil imaginar que, pelo fato de manifestar a fé por meio de ações, a
pessoa, sem distinção de profissão ou situação social, melhoraria seu destino e
prestaria relevantes serviços à sociedade.
Gostaria de chamar a atenção para um fato: ao se aplicar a religião ao cotidiano,
não se deve ostentar a fé, pois isso causa repúdio. Principalmente, os fiéis fervorosos
em demasia devem ter esse cuidado. Existem indivíduos que fazem questão de exibir
sua fé, mas isso é desagradável para as pessoas ao redor. O ideal é não aparentar ser
religioso e portar-se como uma pessoa comum. Devem apenas ser mais gentis com as
pessoas, causar-lhes impressão agradável e manifestar mais nobreza em suas palavras

5
e atos. Em suma, que a fé não seja nem agressiva nem grosseira.
Na sociedade, vemos certos adeptos que se mostram exageradamente fervorosos e
chegamos a suspeitar que sejam psicopatas. São extremamente subjetivos, tornam seu
lar sombrio, de maneira alguma se incomodam em causar transtornos ao próximo e,
consequentemente, acabam suscitando dúvidas sobre o nível da religião que seguem.
A responsabilidade, no entanto, é de quem os orienta e isso exige muita atenção.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

(1)William James (1842–1910): foi um psicólogo e filósofo estadunidense, com formação em medicina. Escreveu
livros sobre a ciência da psicologia, incluindo temas como a educação e a psicologia da experiência religiosa. James
foi um dos formuladores e defensores da filosofia do pragmatismo.

6
O PRAGMATISMO RELIGIOSO(2)

pragmatismo, apresentado inicialmente pelo conhecido filósofo norte-


O americano Charles Sanders Peirce(3), tornou-se uma filosofia de âmbito
mundial propagada por William James que, hoje, chega a ser considerado seu criador.
No Japão, o termo pragmatismo é comumente traduzido como utilitarismo ou
praticismo; no entanto, parece-me mais adequado chamá-lo de “teoria em ação”.
Penso ser desnecessário falar minuciosamente a esse respeito, porque se trata de
uma teoria que todos que se interessam por filosofia já conhecem. No momento,
desejo discorrer sobre o pragmatismo religioso. Já me referi anteriormente a seu
respeito, mas torno a abordá-lo, para uma compreensão mais aprofundada.
Quando se menciona pragmatismo religioso, temos a impressão de que todas as
religiões tradicionais o estejam adotando. Sabemos que elas realizam, por exemplo, a
divulgação por meio de textos, sermões, orações, rituais, abstinências e práticas
ascéticas. Lamentavelmente, não chegam a influenciar o cotidiano, que é o mais
importante. Falando francamente, elas não passam de uma espécie de aprimoramento
espiritual, distante da vida real. Já o pragmatismo filosófico busca introduzir a
filosofia na vida prática, objetivando torná-la útil, o que demonstra claramente o
estilo americano. Pretendo fazer algo semelhante; porém, mais do que introduzir a
religião na vida prática, desejo estabelecer entre ambas uma relação indissociável.
Ao contrário dos religiosos tradicionais, deixemos de ser intolerantes, isolados ou
idealistas. Abandonemos a visão de distanciamento do mundo e sejamos iguais às
pessoas comuns, buscando eliminar qualquer indício de fé que cheire a mofo. Ajamos
sempre de acordo com o senso comum em todos os aspectos, tornando nossa fé
imperceptível aos outros. Creio que a fé deva ser incorporada a esse ponto. Ou seja,
trata-se de agir com flexibilidade e adequação(4).
Com essa explicação, creio que puderam entender, em linhas gerais, o que vem a
ser o pragmatismo religioso.
Jornal Eiko nº 106, 30 de maio de 1951

(2)
Título anterior: “Religião pragmática”
(3) Charles Sanders Peirce (1839–1914): licenciou-se em Ciências e doutorou-se em Química na Universidade
Harvard. Ensinou filosofia nesta universidade e na Universidade Johns Hopkins. Foi o fundador do Pragmatismo
e da ciência dos signos, a Semiótica.
(4) A expressão utilizada por Meishu-Sama foi oshin no hataraki, “a atuação de oshin”, que significa agir de forma

flexível, adequando-se a cada nova situação. Baseada no termo budista oshin, origina-se do sânscrito Nirmanakaya,
normalmente grafado em japonês como ojin. É uma das três manifestações do Buda e refere-se ao Buda encarnado,
à manifestação de Buda no mundo material.

7
8
FÉ É CONFIANÇA

E xistem muitas pessoas que seguem uma religião ou crença, mas é raro o homem
de verdadeira fé. Vou descrevê-lo.
O fato de alguém se achar um religioso exemplar nada significa, pois isso é uma
constatação subjetiva. Só poderá ser considerado como tal aquele que assim for
reconhecido objetivamente.
Como devemos agir para nos tornarmos autênticas pessoas de fé? Teoricamente é
simples: ser alguém que mereça a confiança do próximo. Por exemplo, que as pessoas
possam comentar a seu respeito: “Não há erro no que ela diz”; “Aquela é uma pessoa
magnífica!”; “Posso me relacionar com ela sem nenhum receio”.
E como devemos proceder para obter tal confiança? Isso não é difícil. O essencial é
não mentir e favorecer primeiramente o próximo, deixando os próprios interesses em
segundo plano. Ou seja, se a pessoa for alvo de comentários como: “Ela me ajudou
muito!”; “Sua amizade só me traz coisas boas”; “É uma pessoa realmente gentil...”;
“Sinto-me bem sempre que me encontro com ela”, certamente, terá o respeito e a
estima de todos. Se encontrássemos alguém assim, desejaríamos cultivar sua amizade,
conversar tranquilamente sobre qualquer assunto e, em pouco tempo, nos
tornaríamos amigos próximos. Se vocês pensarem a respeito de si próprios,
compreenderão, de imediato, o que quero dizer.
Gostaria de ressaltar, entretanto, que essa conduta não pode ter caráter passageiro.
Exemplifiquemos com o arroz: quanto mais o mastigamos, mais saboroso ele se
torna. Costumo dizer que o ser humano deve ser como o arroz, que nos é
imprescindível.
Quando observamos o mundo, notamos que existem, em demasia, pessoas que,
sem nenhum receio, agem de forma que as faz perder a confiança do próximo. Em
primeiro lugar, mentem de tal maneira, que podem ser desmascaradas a qualquer
momento. Mesmo que possuam outras qualidades, uma única mentira põe a
confiança a perder, de uma só vez. Realmente, é o cúmulo da estupidez.
Se averiguarmos por que certas pessoas não melhoram de situação, apesar de serem
esforçadas e assíduas no trabalho, veremos que, sem exceção, elas perdem a confiança
devido às suas mentiras. A confiança é realmente um tesouro. Quem a merece, jamais
passará por dificuldades financeiras, pois todos terão prazer em lhe fazer
empréstimos.
Até aqui vinha me referindo à confiança entre os seres humanos. Indo além, digo-
lhes que obter a confiança de Deus é o que há de mais precioso. Se a conseguirmos,
tudo correrá bem e teremos uma vida repleta de alegrias.
Jornal Hikari nº 13, 18 de junho de 1949

9
10
FÉ É RETIDÃO E JUSTIÇA(5)

O que é religião?
Ela, evidentemente, não tem como finalidade ensinar teorias e filosofias da
religião de forma complicada. Em última análise, seu único objetivo é formar pessoas
corretas. Isso, expresso em palavras, parece algo extremamente fácil, embora seja
muito difícil alcançá-lo na prática. É exatamente como diz o provérbio: “Falar é fácil;
fazer é difícil.”
Vou explicar o porquê da dificuldade.
A realidade é que as pessoas estão convencidas de que ninguém alcança o poder,
acumula riqueza ou progride na vida apenas agindo corretamente. Elas acreditam
que, para isso, certa dose de mal é inevitável. Até mesmo em relação ao lazer,
consideram os maus divertimentos mais interessantes que as diversões sadias. Essa
visão prevaleceu durante milhares de anos e acabou se transformando em senso
comum. Embora houvesse esforço para reverter a situação por meio da lei e da
educação moral, os resultados foram inexpressivos.
Assim sendo, nem é preciso dizer que o último recurso seriam as religiões.
Entretanto, devemos analisar a força de atuação de cada uma, pois isso faz toda a
diferença. Não se consegue derrotar o mal por meio de religiões de pouca força. Esta
é a razão pela qual os fiéis de algumas delas falham em vencer o próprio mal. Em
qualquer religião, são poucos aqueles que realmente agem com justiça e retidão.
Conclui-se, pois, que se torna necessário o aparecimento de uma religião capaz de
vencer o mal. Somente assim surgirá uma sociedade permeada pelo bem e um mundo
de paz e felicidade. Este é o significado da expressão “Fé é retidão e justiça”, que
proclamamos.
Jornal Kyusei nº 65, 3 de junho de 1950

(5) Título anterior: “Fé é justiça”

11
FÉ CORRETA(6)

Z hu Xi(7), sábio chinês, afirma que a dúvida é o princípio da fé. Realmente, são
palavras sábias. Digo sempre que, em se tratando de fé, devemos duvidar o
máximo possível.
Na sociedade, existem diversos tipos de fé(8) mas, de modo geral, ou são cheios de
falsidades ou, mesmo que não cheguem a tanto, muitos adoram divindades de nível
inferior ou animais como raposa, tanuki(9), tengu(10), ryujin(11) etc. Pouquíssimas
dirigem sua adoração a divindades corretas.
Por esse motivo, quando observamos as religiões detalhadamente, vemos que a
maioria delas apresenta algum ponto fraco. Assim sendo, em caso de ingresso em
uma religião, em primeiro lugar, deve-se questioná-la bastante, sem se prender, de
forma alguma, a ideias preconcebidas. Se, a despeito de todas as dúvidas, tratar-se de
uma fé que não apresente imperfeições, não haverá alternativa senão segui-la.
Existem religiões que pregam a necessidade de, primeiramente, crer para depois
alcançar graças, o que é um grande erro. Ora, acreditar antes de receber qualquer
graça é o mesmo que enganar a si próprio. Por esse motivo, deve-se, inicialmente,
apenas procurar entrar em contato com ela e analisá-la com atenção, duvidando o
máximo possível. Se, de fato, sua doutrina e teorias religiosas forem racionais e
isentas de críticas e, ainda, se a proteção divina for evidenciada por meio de milagres
no cotidiano, valerá a pena filiar-se a tal notável religião.
Sabemos de religiões que abominam radicalmente o fato de seus seguidores
entrarem em contato com outras, mas isso também é um equívoco, pois revela que
possuem lacunas ou força insuficiente. Se for uma religião elevada, certamente não
haverá nenhuma melhor que ela. Sendo assim, ao invés de temerem o contato de seus
fiéis com outras religiões, deveriam, isto sim, alegrar-se, pois a excelência da religião
professada passa a ser reconhecida, e a fé se fortalece ainda mais.
É bom, contudo, estar atento aos casos em que as manifestações de graças e
milagres são consideráveis. Entre as divindades corretas, também existem diferenças
de força e de nível: superior, intermediário e inferior. Mesmo as de segunda categoria
ou inferiores conseguem manifestar considerável poder e, até certo ponto, promovem
graças e milagres; por esse motivo, a maioria das pessoas acaba sentindo-se grata. A
longo prazo, é possível que essas divindades sejam derrotadas por seres malignos, e
isso faz com que seus seguidores sejam envoltos por dificuldades e infortúnios. Por
outro lado, visto que eles creem nelas, além de darem justificativas e não perceberem
a insuficiência de força, interpretam as dificuldades como provações divinas ou
purificação dos pecados e eliminação das impurezas de seus espíritos.
Até aqueles que têm fé podem ser temporariamente acometidos por doenças e
infortúnios, mas, passada essa fase, a situação melhora, o que comprova a atuação de

12
divindades de grau superior. Em outras palavras, isso se deve à elevação espiritual
decorrente da redução de pecados e impurezas após a ocorrência de doenças e
adversidades.
Ao contrário disso, caso o infortúnio se agrave e perdure por longo tempo, a
situação torna-se desesperadora devido à falta de força de divindades inferiores que
foram derrotadas pelos seres malignos.
Na sociedade, muitas vezes, as graças não ocorrem conforme o desejado mesmo
que se faça todo tipo de sacrifício ou súplica. Isso se dá porque o pedido está além
dos poderes das divindades. Mesmo que elas queiram conceder a graça, não
conseguem. Nesses casos, a pessoa se lamenta: “Por mais que eu tenha rezado
fervorosamente, até agora, meu pedido não foi atendido. Será que os deuses me
abandonaram?” Ela passa a duvidar da existência de divindades, chegando a
abandonar a fé ou a cair em desespero total, o que a leva a um destino ainda mais
infeliz. Vemos muitos exemplos assim. Justamente esse tipo de fé recomenda o jejum,
uma centena de orações e peregrinações a um templo ou a abstinência de alimentos
que a pessoa mais aprecia ou consome diariamente, o que constitui um grande erro.
Por mais que, individualmente, esses sacrifícios sejam realizados com devoção, se
eles não se reverterem em um mínimo de benefício em prol da sociedade, todo
esforço da pessoa terá sido em vão. Se houver divindades que se contentam com tais
práticas, só podem ser de segunda categoria ou inferiores, ou então, espíritos de
raposa, tanuki, tengu etc. Por outro lado, se forem divindades corretas, concederão
graças como forma de recompensa pelo esforço humano em favor da promoção do
bem-estar da humanidade.
Aproveito o ensejo para alertar o leitor sobre algo que se diz desde antigamente:
“Ter fé até em cabeça de sardinha”. Isso é um erro grave. O objetivo de qualquer fé
devem ser as divindades superiores. Isto porque, quanto mais elevadas estas forem, se
as preces a elas dirigidas não tiverem um objetivo correto, tais divindades
simplesmente não concederão graças. Além disso, uma vez que o ser humano as
reverencia e ora a elas, recebe sua luz purificadora e tem seus pecados e impurezas
eliminados gradativamente.
Por mais que a fé seja dirigida a uma “cabeça de sardinha” ou a espíritos de baixo
nível, o que se recebe desses espíritos não passa de energia negativa, que macula a
consciência e acaba transformando facilmente o ser humano em um praticante do
mal. As pessoas em geral não têm conhecimento dessas coisas e pensam que todas as
divindades são louváveis e atendem aos seus pedidos. Não é para menos, porque
desde a antiguidade, ninguém recebe uma formação que lhe permita distinguir se as
divindades são superiores ou inferiores, corretas ou incorretas. Ao mesmo tempo, há
níveis entre seres como raposa, tanuki, tengu, ryujin etc., que podem ser corretos ou
incorretos e possuir diferentes graus de força. Em se tratando dos chefes dessas
divindades, há casos em que manifestam surpreendente poder e concedem até mesmo
significativas graças; motivo pelo qual seus seguidores continuam lhes devotando
ardente fé. No entanto, a maioria dessas manifestações é passageira e, por fim, graças

13
e infortúnios começam a se alternar, sem que a prosperidade eterna seja alcançada.
Por meio dessa explicação, apresentei minha honesta opinião a respeito da fé a fim
de que não se enganem em seu discernimento e não se iludam diante de graças
temporárias.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

(6) Título anterior: “Verdadeira fé”


(7) Zhu Xi ou Chu Hsi (1130–1200): sábio neoconfuciano da Dinastia Sung. Contribuiu para a síntese de todos os
conceitos fundamentais de Confúcio.
(8) Quando Meishu-Sama comenta sobre os diferentes tipos de fé, é importante levar em consideração o politeísmo

do Japão, no qual é muito comum haver divindades protetoras de localidades, divindades para objetivos específicos
ou mesmo animais que são mensageiros de divindades.
(9) Tanuki: cão-guaxinim japonês, conhecido também como um personagem do folclore japonês muito travesso e

alegre.
(10) Tengu: ser mitológico, tem a missão de proteger as montanhas. O que ele mais aprecia é uma discussão;

quando sai vencedor, sua posição espiritual se eleva. É orgulhoso, ambicioso, amante do jogo e também da pintura
e da poesia. Seu maior prazer é a bebida. Nas pinturas e nas máscaras, ele é representado com nariz muito longo e
com o rosto vermelho.
(11) Ryujin: seres mitológicos conhecidos como dragões, que estão em constante atividade para o cumprimento de

suas missões. Fenômenos naturais como o vento, a chuva, o relâmpago e outros são atribuídos aos dragões cujo
objetivo é a purificação do espaço entre o Céu e a Terra. Os dragões grandes, médios e pequenos residem nos
oceanos, nos mares, nos lagos, nos pântanos, nos rios, nos poços e até mesmo nos lagos artificiais, protegendo-os.

14
LIBERDADE NA FÉ

N o Japão, a liberdade religiosa foi estabelecida após a promulgação da nova


constituição(12) e, por essa razão, é desnecessário escrever sobre o assunto.
Pretendo discorrer sobre a liberdade no âmbito da própria fé.
No mundo inteiro, há inúmeras organizações religiosas – grandes, médias e
pequenas –, e como é do conhecimento de todos, cada fiel, sem exceção, considera
sua religião superior, e as demais, obviamente, inferiores. Por esse motivo, advertem
veementemente para não se ter contato com outras religiões. Dizem que elas são
falsas, que o castigo que virá do Deus da sua religião é terrível e que não se poderá
obter a salvação seguindo a dois senhores. Há religiões que são muito rígidas nesse
aspecto. Existem missionários que tentam intimidar seus fiéis dizendo-lhes, por
exemplo, que, se mudarem de fé, sofrerão grandes infortúnios, doenças graves, perda
da própria vida ou da família inteira etc. Trata-se exatamente de recursos típicos de
falsas religiões. Obviamente, tomando-se por base o senso comum, tais afirmações
são absurdas, mas as pessoas, ao contrário do esperado, acreditam nelas e não
conseguem tomar a decisão de abandoná-las. Isso não se restringe às novas religiões;
já que mesmo nas antigas e respeitadas, ocorrem, frequentemente, situações
semelhantes, o que é incompreensível. Analisando com atenção, veremos que a
polêmica do livre pensamento não se restringe ao campo político ou social, pois
parece que os grilhões do feudalismo persistem também no terreno das religiões.
A partir desta realidade, gostaria de falar-lhes sobre a liberdade na religião.
Promover vantagens para a entidade religiosa em detrimento dos fiéis, cerceando sua
vontade, é um absurdo. Aliás, proferir palavras de intimidação com esse objetivo
constitui uma ameaça condenável cometida em nome da fé. Como ilustração, citarei
algo que ouvi de uma pessoa: “Há muito tempo sou adepto fervoroso de uma religião,
mas estamos sempre doentes sem nos livrar da pobreza. Por esse motivo, fui
perdendo a fé e resolvi abandoná-la. Entretanto, o missionário que me atendeu, disse
coisas aterrorizantes. Sem saber como agir, venho pedir um conselho ao senhor.”
Respondi-lhe que aquela religião, sem sombra de dúvida, não era verdadeira e que o
melhor seria deixá-la o quanto antes. No entanto, parece que religiões como essa são
numerosas na sociedade.
Qual seria a razão dessas palavras de intimidação? Naturalmente, pode tratar-se de
um recurso extremo para evitar a diminuição do número de fiéis. Há, ainda, outro
motivo. Desde eras remotas, quando uma religião se sobressai, observa-se a tendência
para o aparecimento de imitações. Eventualmente, isso ocorre até mesmo com a
nossa Igreja. Então, eu explico que a situação é semelhante à dos cosméticos: quando
são bem aceitos, surgem falsificações. Ora, se isto ocorre, é uma prova de ter sido
bem recebida pelas pessoas e, achando graça, digo que não há qualquer problema.

15
Parece que fato semelhante tem se passado no cristianismo, mas de forma
diferente. Trata-se da advertência sobre a vinda do anticristo, do falso salvador(13),
algo que pode ser tanto positivo como negativo. Isso porque, mesmo que surja o
verdadeiro Salvador, poderá ser tomado como falso, e as pessoas deixarão de ser
salvas.
O mais problemático é o grande número de pessoas que professam a fé de forma
intensa, convencidas de que sua religião é superior às demais. Uma vez que de fato
acreditam nisso, apenas elas próprias se contentam com sua salvação espiritual, mas
essa salvação não é verdadeira. Isso porque, se elas não se salvarem também
materialmente e não se tornarem pessoas que levam, material e espiritualmente, uma
vida paradisíaca, não obterão a verdadeira felicidade. No entanto, percebe-se que são
muitos os indivíduos que professam uma fé cega e desconhecem essa realidade. Por
conseguinte, mesmo sendo ativos na fé, a maioria deles não consegue libertar-se da
infelicidade.
A propósito, quero fazer mais uma advertência. O motivo pelo qual uma religião
proíbe seus fiéis de terem contato com outras talvez se deva ao receio de que eles
encontrem uma religião superior à sua e isso significa que existem fragilidades nessa
religião; logo, é necessário muita cautela.
Sinto-me constrangido por parecer autoelogio mas, nesse ponto, a religião
messiânica é, de fato, livre. Como nossos fiéis bem sabem, digo sempre que tenham
bastante contato com quaisquer outras religiões. Naturalmente, é bom pesquisá-las,
pois suas experiências se ampliarão proporcionalmente. Nessas circunstâncias, se
encontrarem algo superior à religião messiânica, não há problemas em mudar de
religião a qualquer momento, e isso jamais constituirá um pecado. Para o verdadeiro
Deus, basta que a pessoa se salve e se torne feliz.
Jornal Eiko nº 177, 8 de outubro de 1952

(12)
A Constituição do Japão foi promulgada em 3 de maio de 1947.
(13) A este respeito, é possível verificar em Mateus 24:4,5 o trecho: “E ele lhes respondeu: vede que ninguém vos
engane. Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo! e enganarão a muitos.” E ainda em Mateus
24:23,24: “Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos
cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos.” (Bíblia
de Estudo Almeida)

16
A RESPEITO DA INCORPORAÇÃO ESPIRITUAL(14)

E mbora eu venha alertando constantemente sobre os perigos da incorporação


espiritual, ainda há pessoas que continuam a praticá-la. É preciso que parem de
uma vez por todas. Vou explicar detalhadamente porque é algo inadequado.
De oitenta a noventa por cento dos casos, as incorporações são de espíritos de
raposa(15), sendo que noventa e nove por cento desses espíritos são malignos. Por esse
motivo, é do seu instinto enganar as pessoas, não se importar em levá-las à prática do
mal e, mais do que isso, divertir-se com a situação. Assim sendo, dentre os espíritos
malignos, os mais “qualificados” passam a se anunciar como divindades, Nyorai,
Bossatsu, Dragão(16) etc. Ao incorporarem em alguém, ao mesmo tempo que fazem
com que a própria pessoa pense que é uma divindade, empenham-se para que outras
também acreditem. Por fim, a pessoa incorporada acaba se convencendo
completamente. Passa a querer ser idolatrada como um deus vivo e respeitada por
muitas pessoas, sendo comum entregar-se a uma vida de luxos. Eis a verdadeira
natureza do espírito de raposa.
Entre os espíritos de raposa, os mais experientes possuem considerável poder
sobrenatural. Ao incorporar em uma pessoa, eles conseguem saber tudo o que esta
pensa e, assim, passam a elaborar artimanhas de acordo com sua intenção. Por
exemplo, se a pessoa tiver o pensamento de ser venerada tal qual uma divindade, esses
espíritos incorporam nela e, sorrateiramente, começam a trabalhar nesse sentido.
Como se sabe, a pessoa incorporada passa a proclamar que é a reencarnação de
alguma magnífica divindade, sendo que o caso mais frequente é denominar-se
Amaterassu-Oomikami. Ao mesmo tempo, os referidos espíritos procuram
estabelecer uma afinidade com a pessoa visada de maneira extremamente astuta, até
mesmo manifestando alguns milagres. É assim que homens e mulheres de bem
acabam caindo em ciladas. Isso tem ocorrido com frequência, na sociedade.
Todos os “deuses da moda” que têm surgido em vários lugares são desse tipo.
Evidentemente, trata-se de espíritos de raposa bastante hábeis que acabam
enganando pessoas ingênuas.
Há, ainda, casos de pessoas que querem enriquecer a todo custo, e quando o
espírito de raposa incorpora, já conhecendo tal desejo, ativa a inteligência ardilosa
delas, fazendo-as ganhar muito dinheiro. Uma vez que esse espírito não escolhe os
meios, na maioria das vezes, as induz a cometer delitos. Por essa razão, apesar de
obterem sucesso temporário, acabam fracassando, havendo aquelas que vão até parar
na prisão.
No caso daqueles que querem seduzir mulheres, o espírito de raposa emprega
métodos muito bem elaborados e faz com que eles se aproximem da mulher desejada
e despertem-lhe o interesse, por meio de atitudes e palavras sedutoras. Há casos em

17
que podem até mesmo ser violentos, o que é perigoso. Por serem espíritos de animal,
não têm noção de bem e mal. Para eles, basta manipular o ser humano livremente, a
seu bel-prazer, como um bobo. Nesses termos, o espírito de raposa se coloca em um
nível acima do indivíduo. Trata-se de uma completa lástima para o ser humano, tido
como o senhor de todas as criaturas. Uma vez constatada essa realidade, creio que ele
não possa se orgulhar nem um pouco dessa condição.
Além dos espíritos de raposa, os de texugo, de dragão, de tengu maligno, entre
outros, podem incorporar e enganar o ser humano. O espírito de dragão maligno é o
mais temível. Por natureza, ele possui um poder extraordinário e muita inteligência.
Portanto, para ele é fácil manipular livremente o homem e, conforme o caso, não se
importa em ferir pessoas ou tirar-lhes a vida. Conforme me referi anteriormente, por
ocasião do incidente ocorrido no ano passado(17), houve a atuação de muitos espíritos
de dragão maligno que agiram com extrema crueldade, a sangue frio. Diferentemente
dos espíritos de raposas, os dragões, que são dotados de capacidade intelectiva, e uma
vez que sua inteligência maligna atua, conseguem manipular livremente o
pensamento humano. Esta é a causa da maioria dos crimes hediondos, cometidos
friamente em nome desta ou daquela ideologia, e também dos males causados à
sociedade.
Comparados aos espíritos de dragão, os espíritos do texugo e os do tengu são até
insignificantes. No entanto, entre a maioria dos tengus, uns possuem força espiritual e
outros, erudição. Pessoas com essas qualificações são manejadas livremente pelos
tengus mais ambiciosos, que se empenham em fazer com que elas se tornem famosas,
prosperem e levem uma vida de ostentação. Assim sendo, casos de incorporação de
tengu são, desde a antiguidade, bastante comuns entre os monges zen-budistas,
estudiosos e fundadores de religião, mas são poucos aqueles cujo sucesso se prolongue
por muito tempo.
Até aqui abordei vários aspectos concernentes à incorporação, mas é importante
que os leitores estejam cientes que, mesmo as divindades malignas não praticam o
mal por força própria. Por trás delas, há um chefe que as controla. Este, sim, é o mais
temível. Perante sua força, a maior parte das divindades fica praticamente sem ação.
Ostensiva ou ocultamente, esse chefe das divindades malignas obstrui continuamente
as atividades da nossa Igreja. Principalmente, por representarmos uma grande ameaça
para tais divindades, quem está à frente dessa batalha contra nós é o próprio chefe
dos chefes. Esta é, de fato, a grande luta entre o bem e o mal.
Há um fator muito importante ao qual devemos ficar atentos. Trata-se do descuido
no qual incorrem os fiéis da nossa Igreja: eles ficam tranquilos, julgando que são
amplamente protegidos e que as divindades malignas não conseguem influenciá-los
tão facilmente. Essa forma de pensar abre uma brecha e permite que sejam possuídos
pelas mesmas. E o que é pior: caso haja, entre esses fiéis, pessoas de fé shojo, quanto
mais fervorosas elas forem, mais facilmente serão influenciadas. É por essa razão que
estou sempre advertindo para esse tipo de fé.
Enfim, quando a divindade maligna atua, ela apresenta argumentos lógicos

18
totalmente de acordo com o bem shojo, enganando com muita astúcia. Desta forma, a
maioria das pessoas não mede esforços, acreditando plenamente que se trata de um
bem. No entanto, já que a premissa está errada, quanto mais elas trabalham, piores se
mostram os resultados. Então, elas se precipitam cada vez mais. Chegando a esse
ponto, sem dar ouvidos aos conselhos recebidos, vão-se afundando cada vez mais.
Existem pessoas que, diante desse beco sem saída, acabam fracassando. Não haveria
problema se elas despertassem logo, mas quando isso não ocorre, ficam
completamente desorientadas e perdem até mesmo a proteção divina. Creio que
assim podem entender como é temerária a prática do bem de shojo. Eis o porquê da
minha habitual afirmação: “O bem de shojo é o mal de daijo.”
O que melhor revela uma pessoa de bem de shojo é o fato de ela sempre adotar
atitudes excêntricas. Isso é o que os espíritos malignos esperam que ocorra. Por essa
razão, seja no que for, jamais incorreremos em erro quando agimos de acordo com o
bom senso. O que as divindades malignas temem é o bom senso e,
consequentemente, eu sempre aconselho as pessoas a respeitá-lo. O número de
exemplos na sociedade para ilustrar o que digo é muito grande. Enquadram-se nesse
grupo, crenças, teorias e ideologias excêntricas, além de religiões mediúnicas. Com
frequência, são veiculadas notícias de problemas e transtornos causados à sociedade
por parte desses segmentos.
Do ponto de vista espiritual, podemos compreender claramente a razão de tais
ocorrências. Os espíritos de raposa, texugo etc., evidentemente são de animais e estes
se encontram abaixo do nível humano. Por conseguinte, se um indivíduo dirige
orações a espíritos de animais que vivem na terra, significa que sua posição está
abaixo da terra. Essa situação corresponde, em termos espirituais, ao fato de o ser
humano ter decaído ao mundo espiritual animal. Uma vez que todas as coisas do
Mundo Espiritual se projetam no Mundo Material, essa pessoa caiu ao Inferno. O
mesmo ocorre com a incorporação espiritual. Como a pessoa se torna um
“depositário” de animais, naturalmente desce ao mundo espiritual dos animais e
acaba vivendo em circunstâncias infelizes.
Mesmo em se tratando de espíritos de raposa, nem todos são malignos: alguns são
benignos e denominados espíritos de raposa branca. Após se regenerarem, esses
espíritos trabalham como mensageiros da divindade que protege o local onde a pessoa
nasceu, e são muito prestativos. Espiritualmente, as raposas possuem peculiaridades
diversas e, semelhantemente às que trabalham para o mal, as que pertencem ao bem,
possuem força considerável e realizam bons trabalhos.
Contudo, há exceções no caso de possessão por divindades(18). Quando o
antepassado ou o espírito protetor guardião desejam comunicar algo importante,
atuam na pessoa temporariamente, dizendo apenas o estritamente necessário,
limitando o tempo e as palavras sem estender-se. Aproveitando a oportunidade, vou
ensinar a maneira de distinguir se a divindade é benigna ou maligna. As palavras
corretas ligadas às divindades jamais são prolixas. É dito somente o essencial de
forma simples e clara. No entanto, em se tratando de espírito maligno, fatalmente se
expressam mais do que o necessário e ininterruptamente. Neste caso, não haverá

19
dúvida que se trata de espírito de raposa. Às vezes, poderá ocorrer o seguinte. O
espírito protetor guardião, desejando comunicar-se verbalmente com a pessoa, atua
por meio do espírito da raposa por saber que este tem facilidade de incorporar e falar
a linguagem humana. Em tais casos, o espírito de raposa poderá se expor além da
conta, revelando sua verdadeira natureza. Por esse motivo, devem acautelar-se ao
máximo.
Jornal Eiko nº 133, 5 de dezembro de 1951

(14) Título anterior: “Incorporação e encosto”


(15) Espírito de raposa: as raposas, em japonês kitsune, são seres presentes na mitologia japonesa. As histórias as
descrevem como seres inteligentes e com capacidades mágicas que aumentam com a idade e sabedoria. Entre estes
poderes mágicos, a habilidade de assumir a forma humana — normalmente na forma de uma mulher.
(16) Nyorai, Bossatsu, Dragão: são qualificações atribuídas às divindades, por exemplo: Komyo-Nyorai, Kanzeon-

Bossatsu, Dragão Dourado.


(17) Segundo o livro Luz do Oriente, vol. 2, em 29 de maio de 1950, Meishu-Sama foi detido sob a suspeita de um

caso de suborno envolvendo a Igreja Messiânica Mundial. Foi libertado em 19 de junho do mesmo ano, após ter
sido duramente interrogado pelas autoridades.
(18) Vide Ensinamento “Possessão por divindades” – Alicerce do Paraíso, vol. 2.

20
A BEBIDA E A RELIGIÃO

H á uma estreita relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e a religião, mas


parece que poucos têm conhecimento disso. Passarei a tecer considerações
sobre o assunto.
A bebida, quando consumida em quantidade normal, dispensa comentários.
Contudo, o vício em bebida tem uma causa espiritual. Em outras palavras, dentro do
ventre do bêbado alojam-se espíritos que apreciam a bebida como o de tengu, texugo
e, mais raramente, de dragão. Eles absorvem a energia da bebida cuja quantidade se
reduz a uma fração da que foi ingerida. É por essa razão que se diz que ninguém
consegue beber um garrafão de água, mas de saquê, sim. É como se houvesse
esponjas que absorvem o álcool na barriga do bêbado.
Quando um indivíduo embriagado se põe a discutir ou argumentar, tornando-se
arrogante, o espírito dominador é o de tengu. Quando fica bem-humorado e alegre,
dando gargalhadas e, logo a seguir, mostra-se sonolento, é por influência do espírito
de texugo. O espírito de dragão, por sua vez, costuma fazer com que a pessoa fique
de olhar parado e se torne obstinadamente insistente e provocador.
De maneira geral, o estado de embriaguez resume-se a esses três tipos. Basta
observar a fisionomia dos bêbados. É possível notar que estes apresentam feições ou
rosto de um texugo. Tratando-se do espírito de dragão, sua aparência é tal qual esse
animal aparece em desenhos e esculturas: magros com testa angulada e ossos da face
salientes, além de olhos fundos e brilhantes.
Há, ainda, os bêbados violentos que, em estado de embriaguez, perdem totalmente
a lucidez e passam a agir com brutalidade. Geralmente, são encostos de espíritos de
pessoas falecidas que, em outra vida, tiveram suas células cerebrais danificadas pelo
excesso de bebida e, por estarem, ao mesmo tempo, possuídas por espíritos de
animais, tornam-se violentas e causam problemas aos que estão à sua volta.
Assim, o vício em bebida precisa ser inteiramente corrigido pois, como todos
sabem, além de o bêbado prejudicar a si mesmo, causa desarmonia no lar, transtorno
à sociedade e constante sofrimento aos familiares. Por fim, o indivíduo acaba tendo
um destino infeliz. Por mais que busque corrigir a si próprio, seus esforços são
infrutíferos. Isso porque, conforme dito anteriormente, a causa está no “hóspede”
invisível que habita seu ventre. Assim sendo, torna-se evidente que, para corrigir o
vício da bebida, é preciso recorrer ao método espiritual. Ou seja, somente por meio
da religião esse objetivo será alcançado. Entretanto, parece que são raras as religiões
que têm esse poder. Apenas uma ou outra o consegue, empregando a abstinência por
meio do autocontrole, o que não é bom, pois acarreta sofrimentos.
Pode até parecer um autoelogio, mas nossa instituição não recomenda, em
absoluto, nem a abstinência nem a redução da bebida. Simplesmente afirmamos que,

21
se a pessoa quiser beber, pode fazê-lo à vontade. A princípio, os que têm esse vício
ficam contentes. Com o passar do tempo, dizem que o sabor da bebida foi-se
tornando desagradável, e eles se embriagavam mesmo com doses pequenas. No final,
não conseguem beber mais do que a quantidade considerada normal. Em nossa
Igreja, existem muitas pessoas que passaram por experiências semelhantes. O motivo
é que, ao receber continuamente a Luz de Deus, o espírito que se encontra alojado no
ventre da pessoa se enfraquece e, proporcionalmente, a quantidade de bebida
consumida diminui.
Assim, seja qual for a religião, se ela possuir o poder da Luz Divina, conseguirá
eliminar os beberrões do seu quadro de fiéis.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

22
TIPOS DE FÉ

M esmo em se tratando de fé, existem vários tipos. Em linhas gerais, temos:


1º - Fé que visa à graça; 2º - Fé exibicionista; 3º - Fé pró-forma; 4º - Fé
interesseira; 5º - Fé mediúnica; 6º - Fé egoísta; 7º - Fé ostensiva; 8º - Fé ocasional;
9º - Fé volúvel; 10º - Fé inconstante; 11º - Fé aproveitadora; 12º - Fé falsa.
Analisemos cada uma delas.
1º - Fé que visa à graça
Para os seus praticantes basta receber graças: ser útil a Deus ou à sociedade fica em
segundo plano. É uma espécie de fé egoísta que visa somente ao próprio bem e muito
comum entre pessoas acima da classe média. Sabem aproveitar-se da fé religiosa, mas
não sabem agradecer e retribuir as graças que recebem de Deus. Aproveitar-se da fé
religiosa significa colocar o ser humano acima de Deus. Visto que é adorando e
servindo a Deus que se recebem bênçãos, a fé que visa à graça, ao contrário, faz com
que aquelas desapareçam e, por isso, não é duradoura.
2º - Fé exibicionista
Esta fé é seguida por pessoas que se mostram indiferentes à sua religião enquanto
esta é desconhecida na sociedade. No momento em que ela se torna famosa e alvo de
comentários, aqueles que têm esse tipo de fé, repentinamente, se lembram de Deus e
se aproximam, querendo aparecer de alguma maneira.
3º - Fé pró-forma
Observando seus praticantes, estes se mostram agradecidos e aparentam ser
fervorosos mas, na realidade, são destituídos de pensamento amplo, como o de
salvação da humanidade – objetivo maior de Deus. Por ser uma fé extremamente
shojo, eles não têm nenhuma atuação. Por essa razão, trata-se de uma fé de pura
formalidade.
4º - Fé interesseira
Esta fé é professada por pessoas bastante astutas que procuram obter vantagens
financeiras ou que acalentam alguma ambição, aproveitando-se da religião. Quando
constatam a impossibilidade de tirar tais proveitos, elas abandonam rapidamente a
crença.
5º - Fé na possessão por divindades
É o tipo de fé professada pelas pessoas que apreciam os fenômenos de possessão
por divindades e, aprovando sua prática, querem conhecer a respeito do Mundo
Espiritual. Esse desejo não é de todo condenável, mas não é o rumo ideal, embora
seja o trabalho de associações que desenvolvem pesquisas espirituais.

23
Além de aquelas pessoas acreditarem facilmente nas profecias dos espíritos de nível
inferior, demonstram gratidão por suas absurdas e descabidas predições. É, antes de
mais nada, um tipo de fé que se desvia do caminho.
6º - Fé egoísta
Trata-se da fé que visa unicamente satisfazer à ganância. É seguida pelas criaturas
extremamente egoístas, que fazem romarias e oferendas, inclusive monetárias, em
favor de divindades, com a única finalidade de obter graças apenas para si. São
pessoas totalmente indiferentes aos infortúnios que assolam seus semelhantes. É o
tipo de fé mais difundido na sociedade.
7º - Fé ostensiva
É a fé manifestada por aqueles que gostam de se mostrar importantes, de se
beneficiar, de ser benquistos, reconhecidos, elogiados etc. Trata-se de uma fé
superficial, deplorável, que não consegue se desvincular do egoísmo. Também pode
ser classificada como uma fé de baixo nível.
8º - Fé ocasional
É a fé das pessoas que comparecem à Igreja quando ninguém se lembra mais delas.
Pela sua longa ausência, dão-nos a impressão de terem abandonado a fé. Todavia,
semelhantes a fantasmas, repentinamente, elas aparecem na Igreja meio atordoadas.
É preferível que tais pessoas deixem de seguir a fé.
9º - Fé volúvel
Seus praticantes não conseguem seguir uma única fé. São como as plantas
aquáticas, que brotam a cada dia em uma margem diferente, isto é, jamais alcançam
verdadeiramente as graças. Se não professarem alguma fé, sentem-se desolados e
perdidos. Ao ouvirem falar sobre alguma crença, querem aderir a ela de imediato. São
pessoas realmente infelizes.
10º - Fé inconstante
É a fé expressa das pessoas inconstantes e, tal qual as de fé volúvel, vivem mudando
de crença e não conseguem permanecer e devotar-se a uma só fé religiosa. Isto
significa que são andarilhas da religião. Em sua maioria, os que manifestam este tipo
de fé são os intelectuais.
11º - Fé aproveitadora(19)
Os adeptos querem tirar proveito das divindades e da fé para satisfazerem a própria
ambição. Assemelha-se à fé egoísta e é muito comum nas instituições religiosas.
Entre as pessoas importantes, como líderes e intelectuais, é grande o número
daqueles que professam esse tipo de fé.
12º - Fé falsa
Nesta espécie de fé, os adeptos mostram-se fervorosos; mas, no fundo, não
reconhecem, em absoluto, a existência de Deus. Os que possuem esse tipo de fé são
muito eloquentes e, no início, conseguem enganar facilmente as pessoas. Todavia,

24
como Deus não permite isso por muito tempo, chega o momento em que são
desmascarados e acabam fugindo.
Diremos que a fé religiosa é verdadeira quando não corresponde a nenhum dos
tipos que foram citados.
Coletânea Série Jikan, vol. 12, 30 de janeiro de 1950

(19)A expressão utilizada por Meishu-Sama foi katsuobushi shinjin. Katsuobushi é a carne seca de atum, que é
aproveitada para conferir sabor a vários pratos da culinária japonesa. Presume-se que Meishu-Sama tenha lançado
mão dessa imagem para ilustrar o tipo de fé de pessoas que tiram proveito das divindades para satisfazer seus
desejos.

25
OS PECADOS E AS IMPUREZAS(20) E SUA RELAÇÃO
COM A DOENÇA(21)

relação entre o pecado e a doença já veio sendo bastante divulgada no âmbito


A religioso. Essa relação é real, mas vou abordar o assunto sob o ponto de vista da
Medicina Espiritualista.
Conforme me referi anteriormente, à medida que a pessoa acumula maus
pensamentos e más ações, suas nuvens espirituais vão aumentando. Quando estas
atingem certo grau de densidade, tem início um processo natural de purificação a fim
de eliminá-las. Sendo essa regra uma lei inviolável do Mundo Espiritual,
evidentemente ninguém consegue escapar dela. Essa purificação, na maioria das
vezes, manifesta-se em forma de doença, mas há casos em que ela ocorre de outras
maneiras, como as diversas calamidades e desastres naturais. O acúmulo de sangue
tóxico e pus são as manifestações físicas dessas nuvens espirituais. Entretanto, o que
se origina dos pecados e impurezas, não oriundos da parte material, ou seja, as
enfermidades de origem espiritual são difíceis de curar e exigem muito tempo.
Doenças como a tuberculose, a osteomielite, o câncer etc., que apresentam sintomas
persistentes, na maioria contam-se entre esses casos.
Há dois meios para se redimir o pecado: passar por sofrimentos ou praticar o bem.
Escolher o último parece ser o modo mais fácil. Como exemplo, vou contar um fato
ocorrido na época em que eu estava pesquisando a Igreja Tenrikyo.
Um rapaz que sofria de tuberculose pulmonar e fora desenganado, ingressou na
referida religião. Pensando na prática de uma boa ação, decidiu fazer a limpeza do
escarro expectorado por outras pessoas pelas ruas da cidade. Decorridos três anos,
durante os quais fez isso todos os dias, o rapaz estava completamente curado; a
doença tinha desaparecido sem deixar o menor vestígio.
A história que se segue é muito conhecida.
O Sr. Chogoro Yamamoto(22), mais conhecido pela alcunha de Shimizu-no-Jirocho,
encontrou-se, certo dia, com um ilustre monge budista que lhe disse: “Sua face está
marcada pelo estigma da morte. Será difícil o senhor viver mais de um ano.” Jirocho,
preparando-se para morrer, doou todos os seus bens a obras filantrópicas e passou a
viver em um templo budista, aguardando a chegada da morte.
Passou-se um ano, dois anos, mas nada de extraordinário lhe sucedera, o que o
deixou muito zangado. Coincidentemente, surgiu a oportunidade de encontrar-se
com aquele monge e Jirocho pensou em repreendê-lo severamente. Entretanto,
quando se encontraram, foi o religioso quem falou primeiro, revertendo a situação:
“Que coisa estranha... O estigma da morte que havia em sua face quando eu o
encontrei naquele dia, desapareceu completamente. Deve haver alguma razão
profunda para isso, não?” Jirocho, surpreso, contou o que fizera, ao que o monge

26
disse: “O ato de caridade que o senhor praticou transformou sua morte em vida.”
Ampliando essa lógica, o sofrimento de praticamente todo o povo japonês devido à
derrota na guerra nada mais é que o processo de purificação dos pecados decorrentes
do longo período em que o Japão invadia outros países e explorava ou dizimava
outras etnias.
Evangelho do Paraíso, 5 de fevereiro de 1947

(20) Pecados e impurezas: Tsumikegare em japonês. O termo tsumikegare pode ser dividido em duas palavras: tsumi,
que, no âmbito legal, se refere aos crimes, delitos e infrações e, no aspecto religioso, significa “pecado” e descreve
qualquer desobediência à Vontade de Deus, em especial, qualquer desconsideração deliberada das Leis Divinas. Já
a palavra kegare significa “impureza” e é utilizada particularmente no xintoísmo como termo religioso. São causas
típicas de kegare o contato com qualquer forma de morte, parto, doença, menstruação, cuja condição pode ser
remediada por meio de rituais de purificação.
(21) Título anterior: “O pecado e a doença”
(22) Chogoro Yamamoto (1820–1893): foi um bem-sucedido comerciante de arroz. Após a Restauração Meiji,

torna-se empresário na área de transporte marítimo.

27
JOHREI POR MEIO DAS LETRAS(23)

L endo o título acima, talvez os leitores nem façam ideia do que se trata.
Entretanto, com o que escreverei a seguir, creio que poderão compreender
perfeitamente o que pretendo dizer: ler o que eu escrevo é receber Johrei pelos olhos.
A razão está no fato de que todo texto reflete fielmente o pensamento [sonen(24)] da
pessoa que o escreveu. É preciso que tenham pleno conhecimento disso. Em termos
espirituais, significa que, por meio das letras, o espírito do escritor se transmite ao
espírito do leitor. Da mesma forma, uma vez que os textos que escrevo são a própria
Vontade Divina, o espírito de quem os lê se purifica.
Dessa maneira, a leitura poderá influenciar a alma do leitor positiva ou
negativamente. Portanto, evidencia-se quão grande é a influência que a personalidade
do escritor exerce sobre as pessoas. Quer se trate de um romance ou de um artigo de
jornal, gostaria de pedir aos escritores e também aos jornalistas que pensem
seriamente no assunto. Ao mesmo tempo, isso não significa que sermões sejam
recomendáveis.
Evidentemente, se a reportagem ou a obra não forem realmente interessantes, elas
não serão lidas com prazer e não cumprirão seu papel, pois, afinal de contas, o mais
importante é que a obra tenha o encanto que cativa os leitores. Quando eu analiso a
literatura atual, percebo que a maioria dos autores têm como objetivo principal a
venda e parece que só querem despertar o interesse geral, ganhar fama, comercializar
mais livros e, finalmente, ter a obra adaptada para o cinema. Dessa maneira, os textos
não passam de um amontoado de palavras e, terminada a leitura, sentimos que deles
nada se aproveita. Esses escritores não são autênticos romancistas, mas meros
fabricantes de romances e novelas que podem ser comparados às pessoas vazias de
conteúdo. Mesmo que se tornem famosos temporariamente, todos sabem que
chegará o dia em que cairão no esquecimento.
Observando a sociedade atual, ficamos surpresos ao constatar que esta apresenta
inúmeras falhas. Se os escritores quiserem tomá-las por tema, não faltará assunto.
Gosto muito de cinema, do qual sou frequentador assíduo. Às vezes, quando vejo
filmes que apontam as falhas da sociedade, fico entusiasmado e, como se tivesse
encontrado velhos companheiros de causa, sinto vontade de reverenciar seus
roteiristas e produtores. Obras desse tipo sempre se tornam famosas e nunca deixam
de ser reconhecidas pelo público, dando lucro tanto às livrarias quanto às empresas
cinematográficas. Escrevi o texto acima, conforme meu pensamento foi fluindo.
Jornal Eiko nº 184, 26 de novembro de 1952

(23)
Título anterior: “Johrei através das letras”
(24) Sonen: palavra japonesa comumente traduzida como “pensamento”, a qual não se limita ao ato de pensar

28
racionalmente. Seu significado abrange o sentimento, a vontade e a razão.

29
(25)
LEIAM O MAIS POSSÍVEL OS ESCRITOS DIVINOS(26)

C omo todos sabem, até agora viemos nos valendo do Johrei e das publicações
para divulgar nossa religião. Daqui em diante, vamos difundi-la também em
diversas localidades por meio de simpósios, palestras etc., ou seja, por meio da
audição. Até agora, tínhamos a difusão por meio da cura de doenças e da visão.
Daqui em diante, acrescentaremos a difusão por meio da audição. Esperamos obter
resultados significativos com esse método “três em um.”
Naturalmente, a difusão por meio da audição significa que explicaremos tudo sobre
nossa religião por meio da palavra, demonstrando que se trata de uma religião
extraordinária. Entretanto, para conduzirmos as pessoas a tal compreensão, é
necessário que nós mesmos tenhamos vasto conhecimento sobre a fé. Afinal de
contas, precisamos despertar-lhes o sentimento de desejar ingressar na fé messiânica
por sentir que é realmente boa e maravilhosa.
Muitos dizem que não sabem falar bem e que são péssimos oradores. Todavia, esse
é um pensamento equivocado, pois não é com belas palavras que conseguimos tocar o
coração do próximo. Como sempre digo, o que move as pessoas é o nosso makoto(27).
É com ele que tocamos a alma do ouvinte, ou seja, nós a despertamos e a movemos.
É só isso. Logo, falar bem ou não é uma questão de segunda ordem.
Mesmo para sensibilizar as pessoas com nosso fervor e makoto, precisamos ter
entendimento suficiente para tal. Assim sendo, faz-se necessário aprimorar o próprio
conhecimento e, acima de tudo, ler os escritos divinos.
Haverá muitas oportunidades em que as pessoas nos farão perguntas e, obviamente,
elas não ficarão satisfeitas se as respostas não forem convincentes. Por conseguinte,
por mais difíceis que sejam essas perguntas, precisamos dar-lhes respostas
convincentes. Devemos nos acautelar o máximo, pois há pessoas que, sob pressão,
respondem com mentiras. Às vezes, diante de perguntas difíceis, há quem se esquive
por meio de respostas evasivas, mas isso não deve ocorrer de maneira nenhuma. Aos
seguidores de Deus mentir é imperdoável. Caso não souberem responder, deverão
dizê-lo francamente. No entanto, pelo receio de que, agindo assim, serão
desprezados, costumam fingir que sabem. Procedendo dessa forma, o efeito será
sempre o oposto. Por outro lado, quando se admite desconhecimento, a confiança se
estabelece graças à sinceridade do outro. Por mais inteligente que alguém seja,
ninguém sabe tudo. Portanto, desconhecer algo não é nenhuma vergonha.
Às vezes, as pessoas me fazem perguntas sobre assuntos que já estão publicados nos
Escritos Divinos. Isso se verifica porque elas estão faltando com sua leitura no
cotidiano. Portanto, os Escritos Divinos devem ser lidos tanto quanto possível.
Quanto mais os fiéis o lerem, mais aprofundarão sua fé e mais polida se tornará sua
alma. Aqueles que negligenciam sua leitura, vão perdendo a força gradativamente. À

30
medida que a fé se aprofunda, mais a pessoa terá vontade de ler. É bom que o faça
repetidas vezes, até que os escritos se tornem parte do seu ser. Evidentemente,
quanto mais leitura realizar, mais nítida será a compreensão da Vontade Divina.
Gostaria de aproveitar a oportunidade para acrescentar outro ponto. Muitas vezes,
no caso do Johrei, há ministrantes que, embora não saibam a causa da doença, fazem
ares de quem a conhece, o que é o mais repreensível. Tais pessoas, em especial,
tendem a usar o subterfúgio de dizer que algo é espiritual quando não ocorre a cura
esperada. Na verdade, é difícil determinar se a causa de uma doença é material ou
espiritual. Originariamente, o homem é uma unidade espírito-matéria; logo, não há
tal distinção no caso do Johrei. Isto porque, se o espírito se cura, o mesmo ocorre
com a matéria, e vice-versa. Por outro lado, quando o praticante de Johrei vê que há
recuperação rápida através deste, acha que se trata de uma purificação comum; se
ocorre o contrário, pensa que a causa é espiritual, mas isso é um grande erro. Tal
postura assemelha-se à do médico que atribui características de tuberculose a uma
doença de difícil cura.
Jornal Eiko nº 80, 29 de novembro de 1950

(25)
Título anterior: “Leia o mais possível os meus Ensinamentos”
(26) Meishu-Sama referia-se aos seus Ensinamentos com a palavra goshinsho ou shinsho, que pode ser traduzida
como “Escritos Divinos”.
(27) Makoto: palavra japonesa que possui significado amplo, podendo ser compreendida como: sentimento sincero

e verdadeiro, comprometimento, devoção, amor, fé, lealdade, dedicação, fidelidade, cordialidade, verdade,
coerência, lisura, constância etc.

31
FISIOGNOMIA DAS CASAS E SUA POSIÇÃO EM
RELAÇÃO AOS PONTOS CARDEAIS(28)

M uitos me perguntam sobre a fisiognomia das casas(29). Por essa razão, resolvi
escrever resumidamente sobre o assunto.
Assim como existe fisiognomia dos seres humanos, existe a das casas. A
fisiognomia boa ou má do homem se relaciona intimamente com a sua boa ou má
sorte. O mesmo ocorre com a casa. A orientação que vou apresentar é muito
diferente daquela utilizada, por exemplo, pelos adivinhos. Quero deixar bem claro
que o que estou expondo aqui, se baseia exclusivamente no resultado de minhas
experiências e percepções espirituais.
Tal como os fisiognomistas em geral, dou importância ao Nordeste; só que minha
interpretação é diferente. O ponto cardeal Nordeste [kimon(30)], que se diz ser
agourento, está situado entre o Norte e o Leste. É uma direção muito importante,
pois dela vem uma energia espiritual puríssima. Daí a razão de os antigos dizerem
que não se deve macular o Nordeste. Se construirmos nessa direção, por exemplo, o
banheiro, a sala de banho, a cozinha, a porta, a energia espiritual impura proveniente
dessas partes da casa contamina a que vem do Nordeste e, como consequência,
facilita a atuação de espíritos malignos, que são os causadores de doenças e desgraças.
Em decorrência disso, devemos procurar manter a energia espiritual que vem daquela
direção, a mais pura possível. Nesse sentido, o ideal é construir, se possível, um
pequeno jardim na direção nordeste plantando um pinheiro macho e outro fêmea.
Em seguida, vou referir-me ao Sudoeste [urakimon(31)], que se opõe ao Nordeste, e
como o nome indica fica entre o Sul e o Oeste. Dizem que do Sudoeste provém uma
energia que traz muita riqueza material, portanto, no que diz respeito à obtenção de
riquezas, é muito importante. Para isso, é bom dispor de água e pedra; por exemplo,
um lago, ainda que pequeno, ornamentado com pedras.
Quanto ao portão da casa, convém que este fique direcionado para o Sudeste, isto
é, entre o Sul e o Leste. Será excelente se o caminho do portão até a entrada tiver
uma elevação gradativa. No que concerne à localização, não é bom que a casa esteja
no meio de uma ladeira ou no sopé da mesma, ou ainda, num nível abaixo da rua.
Não é interessante morar por muito tempo em casas que têm essa localização.
Quando afirmamos que é bom que a casa fique em lugares altos, referimo-nos à
situação da construção em relação aos arredores sem que haja a necessidade de nos
preocuparmos com as montanhas altas ou baixas que se localizam longe da moradia.
A entrada da casa deve estar em posição tal que, transpondo o portão, não tenhamos
de recuar para alcançá-la. Convém que a mesma fique localizada à direita ou à
esquerda do portão e também que, do lado oposto da entrada, não haja nenhuma
saída; caso contrário, significa que a sorte vem, mas não permanece. Também é

32
muito bom que o aposento do chefe da casa esteja dois ou três degraus acima dos
demais compartimentos.
Para determinarmos a fisiognomia da casa com base nos pontos cardeais, a bússola
deve ser posicionada no local certo. A maioria dos fisiognomistas toma como ponto
de referência o centro da casa e marca as direções a partir daí, o que é um grande
erro. O ser humano não foi criado para a casa; esta é que foi criada para o ser
humano. Ele é o principal, e ela, secundária: sua construção ou destruição dependem
da vontade do dono. Por conseguinte, como o chefe da casa é o centro, o local em
que ele dorme deve ser considerado o centro a partir do qual devem ser estabelecidas
as direções.
No que se refere ao formato, devem ser evitadas as que possuem reentrâncias, mas é
bom que haja algumas proeminências. Do mesmo modo, é muito boa a casa que, da
entrada, estenda-se para ambos os lados, como uma ave abrindo as asas.
Com relação ao número de tatami(32), é apropriado para o quarto do chefe da casa, o
cômodo com dez tatami, que é denominado “aposento da união do fogo e da água”.
É igualmente adequado o aposento com oito tatami, que é denominado aposento do
fogo, porque este ocupa posição superior. Os de seis tatami se chamam aposentos da
água, sendo adequados à esposa. Para a quantidade de tatami, os números pares são
bons, sendo que quatro e meio, sete, nove etc. não são recomendáveis. Nesses casos,
deve-se completá-los com um piso de madeira para que se tornem pares.
De acordo com a regra geral, o tokonoma(33) deve ficar à direita, e as duas prateleiras
estilo tigaidana(34) à esquerda de quem se posiciona de frente para o fundo da sala.
Entretanto, dependendo da entrada, não tem importância que seja o inverso. Se não
houver tokonoma, a melhor posição na sala será o local mais distante da entrada. Não
é bom que ele esteja próximo desta ou que, adentrando o recinto, a pessoa tenha de
retroceder para chegar em frente a ele.
É desaconselhável que a sala de estilo ocidental fique situada no andar superior (no
caso de sobrado). Isto porque as pessoas entram no referido aposento com sapatos e,
assim, com a inversão de posições, ela se iguala à rua.
No tocante à localização da casa, não há muita relação entre os pontos cardeais e a
idade das pessoas. Costumam dizer que a mudança em direção ao Nordeste não é
boa; mas é justamente o contrário, pois, conforme expus anteriormente, dali vem
uma energia espiritual puríssima. Existe, porém, um problema: quando alguém se
muda para uma casa com essa localização, seu comportamento e trabalho devem ser
corretos. Isto porque, aquela energia possui uma grande força purificadora e, por sua
causa, quando os pensamentos são negativos e os atos são impuros, os sofrimentos
purificadores sobrevêm mais rapidamente. Até hoje, por terem pensamento e
trabalho incorretos, muitas pessoas, temendo a ocorrência das purificações, detestam
o Nordeste.
Coletânea Assuntos sobre fé, 25 de janeiro de 1949

(28) Título anterior: “Fisiognomonia das casas e sua posição em relação aos pontos cardeais”
(29) Fisiognomia das casas: em japonês kaso, é um método de prever o futuro do morador pela posição dos

33
cômodos de sua residência ou do terreno.
(30) Kimon: direção nordeste. Pode ser traduzido literalmente como “portal do demônio”. Uma corrente diz que a

origem do termo vem da China, onde havia uma montanha habitada por um demônio e, na sua direção nordeste,
havia um portal.
(31) Urakimon: direção sudoeste, igualmente considerada agourenta.
(32)
Tatami: esteira de 1,80 x 0,90m feita de pé de arroz, que cobre o chão, como fazem os assoalhos.
(33) Tokonoma: nas casas japonesas, é considerado o local nobre de um cômodo, com uma reentrância que fica

ligeiramente mais elevada que o assoalho e que geralmente toma toda uma parede. No tokonoma, penduram-se
quadros ou panôs e colocam-se vivificações florais. Costumeiramente recebem-se as visitas na sala onde fica o
tokonoma.
(34) Tigaidana: prateleira própria para tokonoma. É formada de duas tábuas, uma do lado esquerdo e outra do lado

direito, em níveis diferentes uma da outra e ligadas nas pontas por outra tábua.

34
PENSAMENTO E SENTIMENTO

O SER HUMANO DEPENDE DO SEU PENSAMENTO


[SONEN](35)

realmente verdade que gratidão gera gratidão e lamúria atrai lamúria. Isto ocorre
É porque o coração agradecido comunica-se com as forças divinas, e o queixoso,
com as forças malignas. Assim, quem vive agradecendo, torna-se naturalmente feliz e
quem vive lamuriando, torna-se infeliz. O ensinamento da religião Oomoto:
“Alegrem-se que virão coisas alegres” é, realmente, uma sábia afirmação.
Jornal Hikari nº 25, 3 de setembro de 1949

(35)
Título anterior: “O homem depende de seu pensamento”

35
MISTÉRIO DO MUNDO ESPIRITUAL

Mundo Espiritual é realmente extraordinário e misterioso e, pelo senso comum


O do homem contemporâneo, é difícil compreendê-lo. Escreverei sobre como o
pensamento [sonen] do ser humano influencia o Mundo Espiritual.
Uma vez que o Mundo Espiritual é o mundo do sonen, o Nada gera a existência e a
existência volta ao Nada, o que resulta em infinitas variações. Imaginemos, por
exemplo, que uma divindade seja retratada em forma de uma pintura ou escultura. O
espírito da divindade ou buda que assentará nessa imagem se diferenciará
naturalmente de acordo com a personalidade do artista que produziu a obra. Se a
personalidade deste for elevada, assentará um espírito de divindade de alto nível
correspondente. No entanto, se a personalidade do artista for de baixo nível, mesmo
que outra obra tenha forma idêntica, assentará, correspondentemente, um espírito
representante daquela divindade ou uma divisão sua, em conformidade com o caráter
do artista.
Outro exemplo da influência do sonen é a manifestação plena da força da divindade
quando a pessoa ora perante uma imagem com toda sinceridade. Caso a pessoa
expresse seu sonen apenas formalmente, sem o devido respeito e makoto, a força
manifestada pela divindade ficará reduzida. Outra observação é que quanto maior o
número de pessoas que oram diante dessa imagem, mais intensa será a manifestação
da Luz e da força desse espírito de divindade.
Há um antigo provérbio que diz: “Ter fé até em cabeça de sardinha.” Qual será o
sentido dessas palavras?
Suponhamos que uma pessoa qualquer produza uma imagem de divindade e passe
a divulgá-la, utilizando-se de hábeis métodos de propaganda. Se muitas pessoas
cultuarem a imagem durante algum tempo, por força do sonen dessas pessoas, cria-se
a forma dessa divindade no Mundo Espiritual. Assim, ela passará a manifestar
considerável poder e até a conceder graças aos seus seguidores. Trata-se de uma
materialização resultante do sonen do ser humano, o que é de fato um mistério. Por
um período, apresentam-se resultados, mas que não são verdadeiros. Por serem
produtos da imaginação temporária, em algum momento desaparecem. Todos sabem
que tais casos ocorrem com frequência. Os conhecidos deuses da moda são desse
tipo.
Acima referi-me aos espíritos de divindades, mas gostaria de falar também sobre os
demônios.
É realmente grande o número de perversos que, por ambição, causam
aborrecimentos e sofrimentos às pessoas, levando-as à infelicidade. Conforme tenho
dito sempre, é claro que isso é consequência do pensamento materialista, que não
acredita no invisível. Do ponto de vista espiritual, trata-se de algo bizarro e realmente

36
assustador. Como fazem os outros sofrer, os prejudicados infalivelmente sentem
raiva, rancor, ódio e desejo de vingança. Tal sonen é enviado aos perversos por meio
dos elos espirituais. A expressão espiritual da ira e do rancor é tão pavorosa, que se
pudesse vê-la, até a mais malvada das pessoas se renderia sem resistência. Quando as
pessoas prejudicadas não são apenas uma ou duas, mas milhares ou milhões, a
somatória do sonen dessas pessoas faz surgir criaturas sobrenaturais horripilantes que,
assumindo diversos aspectos, circundam os perversos, sem cessar, a fim de destruí-
los. Nesse caso, mesmo que estes sejam muito poderosos ou grandes heróis, acabam
perecendo em meio a um destino trágico. Relembrando os grandes personagens da
História, desde a antiguidade, vemos que todos eles, sem exceção, tiveram
semelhante fim.
Além destes, observando o fim trágico dos políticos corruptos, a decadência dos
que enriqueceram repentinamente e, ainda, dos que seduziram e enganaram muitas
mulheres, dos agiotas inescrupulosos etc., compreenderemos claramente por que
tiveram tal destino.
Ao contrário, as pessoas que praticam boas ações, recebem o sonen de gratidão e de
alegria dos beneficiados, o qual, se transformando em luz, passa a envolvê-las,
tornando-as ainda mais virtuosas e felizes porque os espíritos malignos temem essa
luz e não conseguem aproximar-se dos que praticam o bem. A auréola que se vê nas
imagens das divindades e budas simboliza essa luz.
Pelo exposto, creio que puderam compreender o quanto devemos levar a sério o
sonen do ser humano.
Revista Tijo Tengoku nº 9, 25 de outubro de 1949

37
MAKOTO(36) [SINCERIDADE](37)

O makoto é a chave que resolve todos os problemas do mundo, da nação e dos


indivíduos.
A pobreza política é decorrente da escassez de makoto.
A carência de recursos materiais tem origem na ausência de makoto.
A decadência da moral tem a mesma causa.
A degradação da ordem social também surge onde não há makoto.
Enfim, todos os problemas abomináveis têm como origem a falta de makoto.
Religião, Ciência e Arte que não têm o makoto como foco, passam a representar
meras formas sem conteúdo.
Oh, makoto, makoto!...
Homens, a chave da solução dos problemas está unicamente no makoto.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

(36)
Vide nota de rodapé nº 27 no Ensinamento “Leiam o mais possível os Escritos Divinos”.
(37)
Título anterior: “Sinceridade”

38
É POSSÍVEL MUDAR O DESTINO LIVREMENTE(38)

C omo todos sabem, desde os tempos antigos, o ser humano costuma resignar-se a
tudo – seja a uma situação boa ou ruim – atribuindo o desenrolar dos
acontecimentos ao destino, definindo-o como “algo que não pode ser mudado”.
Todavia, eu desejo ensinar que todos podem mudá-lo livremente; em outras palavras,
originariamente, o destino foi criado de tal forma que a própria pessoa possa
transformá-lo. A compreensão deste fato nos leva não só a abandonar a visão
pessimista do mundo, mas a encarar este de maneira extremamente otimista.
Nem é preciso dizer que ninguém deseja ter um destino infeliz. É natural que todos
almejem a boa sorte e empreendam incomensuráveis esforços, fazendo das tripas
coração para isso. Apesar de a felicidade ser uma aspiração comum a todos, quantas
pessoas a alcançam? Entre cem indivíduos, talvez não haja sequer um feliz. Em geral,
partem para o outro mundo em meio a muitas dúvidas sobre como obtê-la. Viver
assim é realmente desolador!
Conforme Buda Sakyamuni afirmou: “Tudo muda e nada é permanente.” Muito
raramente alguém alcança a boa sorte de fato. Diante disso até surgem pessoas que se
mantêm firmes em busca de seus sonhos e despertam para a consciência de que o
mundo é bom.
Nada seria mais maravilhoso do que um método para se alcançar verdadeiramente a
boa sorte. Como ninguém conhece tal método, as pessoas acabam traçando um
destino infeliz, isto é, criam para si uma prisão e vivem em sofrimento dentro dela.
Na realidade, o mundo está repleto dessas pessoas dignas de compaixão.
O que é necessário, então, para o ser humano se tornar feliz?
É mais do que evidente que basta semear o bem. Desde os tempos antigos, há a
expressão budista: “O bem produz bons frutos e o mal, maus frutos.” A semente do
mal tem origem na concepção egoísta que leva as pessoas a objetivar benefícios
apenas para si e a não se importar com o sofrimento e o prejuízo que possam causar
ao próximo. A semente do bem origina-se no amor altruísta de querer alegrar e
favorecer o semelhante. Tudo isso parece simples, mas é muito difícil. A vida é
realmente muito complexa. Afinal, como devemos proceder? Precisamos crer no
princípio acima mencionado e tornar nosso espírito capaz de acatá-lo pois, assim,
acabaremos praticando o bem. Para tanto, evidentemente não há outra forma a não
ser seguir uma fé. Não obstante, devemos ser cautelosos, pois, mesmo em se tratando
de fé, há diferenças entre elas. Obviamente, há necessidade de selecionar uma entre
as muitas que existem. Modéstia à parte, a fé messiânica é a que está mais concorde
com as condições que citei. Em razão disso, aconselho aos sofredores e infelizes que
ingressem na nossa fé o quanto antes.

39
Jornal Eiko nº 145, 27 de fevereiro de 1952

(38) Título anterior: “Nós é que traçamos o destino”

40
PRÁTICAS DE HUMILDADE(39)

D esde antigamente, fala-se sobre práticas de humildade. Para se viver bem em


sociedade, elas são deveras importantes, sobretudo para quem cultiva a fé.
Tenho visto, com certa frequência nas organizações religiosas, atitudes que denotam
falta de humildade entre os mestres que divulgam sua doutrina. Os velhos provérbios:
“O falcão inteligente oculta as garras” e “Quanto mais carregada de grãos, mais se
curva a espiga de arroz” referem-se à humildade.
Desejos egocêntricos tais como o de querer se exibir, de se mostrar importante ou
conhecedor de tudo, de se vangloriar etc. produzem efeito contrário. O ponto fraco
do ser humano é gostar de “se mostrar” tão logo comece a se destacar. Por exemplo,
quando uma pessoa que, até então, exercia uma profissão comum, levava uma vida
igual aos outros, ou mesmo uma pessoa menos favorecida socialmente que,
repentinamente, passa a ser chamada por algum título, como “professor”, “doutor”,
irá indagar-se: “Será que sou mesmo assim tão importante?” De início, ela se sentirá
feliz e agradecida. Com o passar do tempo, no entanto, ficará cada vez mais ansiosa
por ver reconhecida sua importância, e isso se passa com a maioria. Até então tudo ia
bem, mas daí em diante, a situação piora, e a pessoa torna-se impertinente, embora
dificilmente tome consciência disso.
Deus abomina a vaidade. Tanto a virtude da modéstia quanto a humildade são
realmente inestimáveis, principalmente na vida civilizada.
O comportamento de querer o melhor lugar nas conduções e em locais de grande
concentração de pessoas, empurrando-as, revela uma espécie de pensamento
exclusivista, digna de reprovação.
Criar uma sociedade agradável de forma harmoniosa expressa o ideal democrático,
e é algo que não mudou no passado e não se altera, um mínimo sequer, no presente.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

(39)
Título anterior: “Treino de humildade”

41
SATISFAÇÃO E INSATISFAÇÃO

N em é necessário dizer que todos almejam alcançar um estado em que tudo lhes
seja satisfatório. Todavia, a vida é de tal forma que essa condição não é obtida
conforme o desejado. Dependendo da maneira de encarar, isso é até intrigante.
Pensando bem, uma vez que a evolução da cultura é motivada pelo sentimento de
insatisfação do ser humano, não se podem interpretar os fatos do mundo de forma
tão simplória, pois, quanto mais insatisfação existir, maior será o desenvolvimento e o
alcance das reformas e avanços. No entanto, a insatisfação excessiva poderá causar
complicações. Por exemplo, pode tornar-se a causa de conflitos e até levar à
destruição. No que concerne ao indivíduo, há, às vezes, o perigo de ocorrer
problemas como desarmonia no lar, desavença entre amigos e conhecidos, discussões,
casos de polícia, autodestruição etc. Em termos sociais, a insatisfação pode levar à
criação de grupos extremistas que praticam atos de violência, como o arremesso de
coquetéis molotov e outros atos. Às vezes, chega-se até mesmo à guerra civil;
portanto, não podemos menosprezar a insatisfação.
Por outro lado, há pessoas que são tidas como ingênuas e bondosas, que aparentam
não ter muitas insatisfações e estão sempre contentes. Na verdade, são essas pessoas
que nada contribuem, porque são incapazes.
Ora, se tanto a satisfação como a insatisfação apresentam aspectos condenáveis,
qual delas escolher? A resposta é simples: como os extremos são condenáveis, é
preciso lidar habilmente com ambas. Falar é fácil, e fazer é difícil: esta é a realidade
da vida. O essencial é ter flexibilidade em meio às diferentes alternativas e alicerçar-
se no makoto. Pessoas com tais características são úteis à sociedade, bem-sucedidas e
obtêm boa sorte na vida.
Jornal Eiko nº 200, 18 de março de 1953

42
LIBERTE-SE DO GA(40)

N a vida cotidiana do ser humano, nada é mais temível do que o ga(41). Isso pode
ser bem compreendido se atentarmos para o fato de que, no Mundo Espiritual,
a eliminação do ga é considerada o aprimoramento fundamental.
Quando eu era membro da religião Oomoto(42), encontrei os seguintes trechos no
Ofudesaki(43): “Não há coisa mais temível do que o ga, pois até mesmo as divindades
fracassaram por causa dele.” E também: “Devem ter ga e não devem ter ga; é bom
que o tenham, mas não o manifestem.” Fiquei profundamente impressionado com
estas explicações tão diretas sobre a essência do ga. Evidentemente, refleti muito
sobre o assunto.
No Ofudesaki, havia, ainda, as seguintes palavras: “O mais importante é a
docilidade.(44)” De fato, são palavras extraordinárias. Digo isso porque, até hoje, quem
aceita o que eu digo sem refutar, progride sem nenhum problema. Entretanto, há
quem sinta dificuldades em fazê-lo devido ao seu forte ga. É realmente penoso ver os
constantes fracassos decorrentes de tal comportamento.
Como foi exposto, o princípio fundamental da fé consiste em não demonstrar o ga,
não mentir e ser dócil.
Jornal Kyusei nº 50, 18 de fevereiro de 1950

(40)
Título anterior: “Domine o “ga””
(41) O termo ga significa “eu humano” ou “qualidade particular e distintiva de uma pessoa”, geralmente utilizado
para indicar egocentrismo. Conforme o contexto, significa aquele que insiste no próprio ponto de vista sem levar
em conta as palavras de outrem. Suas origens remontam ao sânscrito atman e é utilizado no budismo para indicar
“indivíduo humano” e “vida centrada no indivíduo”.
(42) Meishu-Sama foi membro da religião Oomoto de junho de 1920 a setembro de 1934.
(43) Ofudesaki: é o nome da coletânea de ensinamentos da fundadora da Oomoto, Nao Deguchi.
(44) O trecho do Ofudesaki citado por Meishu-Sama, originariamente, é “sunao ga itto”. O termo sunao em geral

traduzido como “obediência”, na verdade, comporta uma gama de sentidos. A seguir, destacamos algumas
explicações: 1) Qualidade de ser natural ou espontâneo, sem se importar com as aparências; simplicidade; 2)
Atitude dócil e tranquila de quem age sem contrariar ou confrontar o outro; 3) Postura de quem ouve calado e
com atenção; 4) Pessoa de fácil trato.

43
O EGO(45) E O APEGO(46)

O ser humano possui, em sua personalidade, o ga e o apego, que se assemelham a


dois irmãos. Ao analisarmos questões confusas e de difícil solução,
descobriremos que quase tudo se deve ao ga e ao apego.
Temos casos, por exemplo, de políticos que, apegados a suas posições, deixam
passar a melhor ocasião de se retirar da vida pública e caem no esquecimento geral.
Isso também se deve ao ga e ao apego.
Há empresários que, devido ao apego ao dinheiro e ao lucro, importunam seus
clientes e perdem boas negociações. Momentaneamente, parecem obter vantagens,
mas geralmente, a longo prazo, levam prejuízo.
Também no campo dos relacionamentos, quem muito se apega, acaba sendo
rejeitado. Há, ainda, muitos exemplos de problemas causados pelo excesso de ga e
apego.
Relembrando os fatos do passado, todos concordarão que, em razão do ga,
causamos sofrimentos aos outros e a nós mesmos além de gerarmos conflitos.
Nesse sentido, o principal objetivo da fé é eliminar o ga e o apego. Tão logo me
conscientizei disso, venho empenhando-me para livrar-me deles. Como
consequência, primeiramente minhas inquietações se amenizaram e tudo corre a
contento. Certo ensinamento diz: “Não sofra pelo que ainda não ocorreu e nem pelo
que já passou.” São palavras admiráveis.
A finalidade maior do aperfeiçoamento no Mundo Espiritual é livrar-se do apego.
À medida que o apego se reduz, a posição espiritual se eleva.
A respeito disso, podemos dizer o seguinte:
No Mundo Espiritual, é raro um casal permanecer junto. A razão disso está na
diferença da posição espiritual dos cônjuges. O convívio só é permitido a casais que se
tornaram paradisíacos. Entretanto, aqueles que alcançaram certo grau de
aperfeiçoamento, têm permissão de se encontrar, mas apenas por um tempo. Essa
licença lhes é concedida pelas divindades responsáveis pela camada que habitam.
Mesmo levados pela saudade, esses casais não podem se permitir qualquer tipo de
intimidade. Caso haja pensamentos lascivos, seus corpos ficam rijos e perdem o
movimento. Isso demonstra o quanto o apego é condenável.
Dessa forma, a posição espiritual se eleva conforme o apego desaparece por meio
do aprimoramento no Mundo Espiritual. Sendo assim, o encontro do casal será
facilitado à medida que os cônjuges se elevarem. Creio que o leitor pode
compreender como o Mundo Espiritual é diferente do Mundo Material.
Conforme afirmei em outra ocasião, a materialização do apego se manifesta em
forma de espírito de cobra, o que é pavoroso. A transformação do espírito humano
em espírito de cobra se inicia pela região dos pés, sobe pelo corpo e se completa após

44
um tempo razoável. No passado, fiz o tratamento espiritual em uma pessoa que
possuía corpo de cobra e cabeça humana. No caso, seu espírito se transformara
parcialmente em cobra.
Por ocasião da divulgação da fé, a postura persuasiva e insistente se confunde com
fervor, mas os resultados não são favoráveis. Ou seja, na ocasião de se recomendar a
fé a alguém, é melhor falar pouco e prosseguir a conversa apenas se a pessoa
demonstrar interesse. Caso contrário, deve conter-se e aguardar um momento
oportuno.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

(45) Vide nota de rodapé nº 41.


(46) Título anterior: “Egoísmo e apego”

45
A ENTREGA A DEUS(47)

F requentemente ensino as pessoas a entregar completamente suas aflições a Deus.


O que quero dizer é que, independentemente do que ocorra, não devem se
preocupar. Parece algo simples que conseguimos realizar sem nenhuma dificuldade,
mas na realidade não o é. Eu mesmo, quando me vejo nessa situação, faço um grande
esforço para entregar tudo a Deus; entretanto, as preocupações começam a me
rondar. Afinal, neste mundo cheio de perversidades, é quase impossível conseguir
isso. Por outro lado, a pessoa de fé é diferente das demais: tão logo lhe surge uma
preocupação, lembra-se de entregá-la a Deus e sente grande alívio.
Gostaria de salientar um ponto que as pessoas não percebem. Se interpretarmos
espiritualmente, veremos que o pensamento [sonen] de preocupar-se é uma espécie de
apego. Ou seja, o apego à preocupação é como um mal que influencia negativamente
todas as coisas.
Geralmente, quando se fala em apego, pensa-se no apego que se liga ao desejo de
ter sucesso, de obter dinheiro, de viver no luxo e de satisfazer todas as vontades. Há,
ainda, outro tipo de apego, de caráter maligno, que se manifesta em desejos como:
“Aquele sujeito é um insolente, um atrevido, e eu o odeio! Vou lhe dar uma boa
lição.”
Entretanto, o apego ao qual me refiro não é aquele tão óbvio. É um apego que
geralmente passa despercebido. Trata-se da preocupação com o presente ou da
ansiedade excessiva. Refiro-me também ao sofrimento pelo que ficou no passado.
Quando se trata de um fiel, embora Deus queira conceder-lhe graças, o apego acaba
formando espiritualmente um obstáculo e, quanto mais forte ele for, mais fraca é a
proteção divina e, por esse motivo, as coisas não correm a contento.
Um bom exemplo disso é que, à proporção que se deseja muito alguma coisa, mais
difícil é consegui-la. Qualquer um já teve a experiência de ver concretizar seu desejo
quando já tinha desistido dele.
Às vezes, quando almejamos muito fazer isso ou aquilo, nada se concretiza. No
entanto, esse desejo se realiza quando já o tivermos esquecido.
Na prática do Johrei, dá-se o mesmo. À medida que a vontade do ministrante de
curar alguém se intensifica, fazendo-o pensar: “Quero curá-lo de qualquer maneira”,
o restabelecimento será mais demorado. Entretanto, quando o Johrei é ministrado
com desprendimento ou até mesmo com um pouco de dúvida: “Não sei se esta pessoa
se restabelecerá ou não, mas em todo caso vou ministrar-lhe Johrei”, para surpresa
geral, o doente se recupera mais facilmente.
Em outra situação, apesar de os familiares e amigos próximos ansiarem pela cura, o
doente em estado grave que parecia estar se recuperando, não se restabelece e, muitas
vezes, acaba morrendo. Ao contrário, observa-se que a recuperação advém de forma

46
relativamente fácil e rápida, quando o enfermo fica um tanto indiferente ante a ideia
da vida e da morte, e seus familiares parecem não se preocupar muito.
Temos, ainda, casos de doentes e seus familiares que desejam a salvação a todo
custo. Contudo, a doença se agrava, até chegar ao ponto em que, ante a perspectiva
do inevitável desenlace, todos acabam desistindo. É então que sobrevêm melhoras
rápidas, e firma-se a cura. É um fato curioso, mas há enfermos que insistem, dizendo:
“Não posso morrer com uma doença tão simples como essa. Mostrarei que sou capaz
de curá-la pela minha força mental.” Geralmente, tais pessoas acabam morrendo, e a
causa principal está no apego à vida
Creio que puderam compreender, por meio desses exemplos, quão pavoroso é o
apego.
Assim sendo, em casos de doentes sem qualquer chance de salvação, primeiramente
deve-se deixar subtendida a improbabilidade de cura e dizer que rogaremos a Deus
que lhes conceda a salvação no Mundo Espiritual. É bom deixá-los bem cientes
disso, bem como comunicar os familiares. A partir de então, com a ministração de
Johrei, muitas vezes, o estado de saúde começa a melhorar.
Embora o assunto seja diferente, constatamos que situação semelhante se manifesta
no relacionamento entre pessoas de sexos opostos. O demasiado interesse de uma
pode afastar a outra, causando-lhe repulsa. Pode parecer extremamente irônico, mas
é o apego de um que esfria o coração do outro. Aliás, os fatos deste mundo, na sua
maioria, têm, realmente, caráter irônico. Por esse motivo, são complicados e também
interessantes.
Pelo exposto, creio que puderam compreender que quase sempre o apego é a causa
do insucesso. É nesse sentido que digo frequentemente para visarem ao efeito
contrário: é a ironia das ironias, mas é a pura verdade.
Jornal Eiko nº 132, 28 de novembro de 1951

(47) Título anterior: “Entregue-se a Deus”

47
SABOR DA FÉ

D esejo falar a respeito do sabor da fé. Não existe, neste mundo, nada que seja
destituído de sabor. Tudo possui seu sabor, seu encanto: as coisas, o ser
humano e a vida cotidiana.
Se o excluirmos da vida, esta se tornará insípida e o ser humano, certamente,
perderá a vontade de viver. Por conseguinte, creio que não é exagero dizer que o seu
apego à vida decorre do deleite proporcionado pelo sabor. Evidentemente, também
na fé existem aquelas com e sem sabor. Pode parecer estranho, mas no mundo, há
exemplos de fé que suscitam medo. Seus adeptos temem as divindades e vivem sob
fortes restrições, aprisionados pelos mandamentos e sem nenhuma liberdade.
Denomino de fé infernal esse tipo de fé.
Originariamente, o ideal da fé é um contínuo estado de tranquilidade em que o ser
humano vive com alegria e prazer. Então, ele percebe que a beleza da Natureza
expressa nas flores, nas aves, na brisa, na lua, no canto dos pássaros, nas águas e nas
montanhas são dádivas de Deus para confortá-lo. Agradece profundamente por ser
abençoado com alimentos, vestuário e moradia. Sente proximidade não apenas dos
humanos, mas de todos os seres vivos da fauna e da flora. É preciso chegar a um
estado de espírito em que, após o máximo esforço em qualquer situação, a pessoa se
entrega a Deus. Isso significa “estar em estado de graça(48)”.
Sempre que me deparo com uma questão difícil de ser resolvida, procuro entregá-la
aos cuidados de Deus e aguardo. Numerosas experiências minhas demonstraram que
essa atitude leva a resultados melhores do que os esperados. Posso afirmar que
nenhuma vez ocorreu de os resultados terem sido da forma como eu temia. Costumo
alimentar esperanças e acho interessante o fato de os resultados superarem as
expectativas. Quando surge algo desagradável, momentaneamente me preocupo, mas
logo penso que se trata da premissa para bons acontecimentos. Entrego o problema a
Deus e percebo que a situação ruim, infalivelmente, traz coisas boas. Já que, por
vezes, são preocupações infundadas, não me contenho de tanta gratidão. Em suma,
sou uma pessoa agraciada de milagres. Eis o que denomino de maravilhoso sabor da
fé.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

(48)No original, a expressão é houetsu no kyoti, que significa “felicidade que brota no coração pela fé”, segundo
ensinamentos budistas. Também significa “uma alegria que encanta” ou “estado de êxtase”. Na tradição cristã,
uma pessoa que está em estado de graça vive na amizade e amor de Deus. O vocábulo “graça” provém do latim
gratia, que deriva de gratus (grato, agradecido). Também significa “gratificar”, que, desde o século XV, equivalia a
agradecer.

48
49
AÇÃO

FILOSOFIA DA INTUIÇÃO

Q uando jovem, fui simpatizante da teoria do renomado filósofo francês Henri


Bergson. Ainda me lembro de suas teorias com frequência e, nesta
oportunidade, desejo apresentá-las por considerá-las de grande utilidade até mesmo
do ponto de vista da fé.
A filosofia de Bergson se baseia nos três pontos que se seguem: “Tudo muda
constantemente”, “Teoria da intuição” e “O eu do momento”(49). Dentre eles, o que
mais me tocou foi a “Teoria da intuição”, segundo a qual não é simples para o ser
humano ver as coisas como elas são, sem a menor distorção. A apreensão da realidade
das coisas é verdadeiramente difícil. Por que será?
Originariamente, os seres humanos carregam dentro de si uma combinação de
conceitos que foram formados pela educação, pela tradição, pelos costumes etc. e se
encontram latentes em seu íntimo como uma barreira. Contudo, eles mal percebem
que ela existe. Por essa razão, no momento em que observam as coisas, essa barreira
atrapalha. No caso, por exemplo, de analisarem as religiões novas, eles afirmam que
todas são religiões falsas e supersticiosas, heréticas ou fraudulentas, mas isso é devido
à interferência dessa barreira.
As pessoas de hoje são constantemente influenciadas pela opinião dos repórteres
por meio da leitura de jornais e revistas. Por intermédio da audição, sofrem a
influência de rádios e escutam boatos, o que contribui para tornar a referida barreira
ainda mais sólida. Mesmo presenciando um milagre da cura de uma doença pela fé
que o médico foi incapaz de resolver, não conseguem aceitar o fato sem relutância.
Antes de mais nada, ocorre-lhes a desconfiança, mas isso também é devido ao
bloqueio. No centro deste, existe uma concepção de que a medicina é que cura as
doenças; por conseguinte, se vier a ocorrer a cura, dizem que foi em razão do
momento propício para tal. Assim, todos nós sabemos, por experiência vivida, que a
barreira cria inúmeros pretextos e distorce a realidade.
Nesse sentido, é a “Filosofia da intuição” que corrige os equívocos em que o ser
humano facilmente incorre, ou seja, possibilita que o “eu” se mantenha aberto para
observar os fatos, livre das influências da barreira. Para tanto, eu aconselho as pessoas
a vivenciar o “eu do momento” pelo motivo de que a impressão imediata, captada
pela intuição ao se ver algo, não constitui erro, já que aquela é a essência daquilo que
foi observado. Portanto, caso testemunhem a cura de uma grave doença, devem
acreditar nela sem relutância, pois esta é a correta visão.
O fato de as pessoas considerarem impossível a cura de doenças por meio de algo
invisível semelhante ao nada – sem o auxílio de aparelhos ou remédios – significa que
elas estão bloqueadas pela barreira. A hipótese de alguém afirmar: “Isto é uma

50
superstição e não existe tolice maior” significa que a barreira dessa pessoa colaborou
para aumentar o obstáculo. Portanto, devemos estar bastante atentos para esse ponto.
O que apresentei é uma pequena noção da “Teoria da intuição”.
A seguir, vejamos a teoria “Tudo muda constantemente”, que significa que todas as
coisas estão em constante mudança. Por exemplo: nós, hoje, não somos os mesmos
que fomos ontem, pois, sem dúvida, estamos diferentes em algum ponto. Da mesma
forma, somos diferentes do que fomos há cinco minutos. O mundo de ontem
também não é o mesmo de hoje. Evidentemente, isso ocorre igualmente com a
sociedade, com a cultura, bem como com as relações internacionais. Assim sendo, o
ser humano deve manter a visão clara sobre as mudanças, e esta é a maneira correta
de ver as coisas.
Por essa lógica, as pessoas deveriam mudar igualmente sua forma de ver e pensar a
religião e a cultura. No entanto, como julgam as religiões novas utilizando-se da visão
sobre as religiões formadas há centenas ou milhares de anos, é natural que não
atinjam o discernimento correto.
Este é o significado da teoria “Tudo muda constantemente”.
Coletânea Série Jikan, vol. 12, 30 de janeiro de 1950

(49)
Conforme Bergson todo ser humano possui um “eu superficial”, voltado para a ação, para a vida material, cuja
compreensão é determinada por pré-conceitos, convicções, opiniões e crenças arraigadas, que formariam
“camadas” que nos separam da realidade, bem como um “eu profundo”, livre, capaz de apreender a realidade tal
como ela é sem a mediação de tais elementos. O “eu do momento” na literatura messiânica corresponderia ao “eu
profundo” e sua atividade intuitiva.

51
NOVAMENTE A RESPEITO DE BERGSON

O utrora, escrevi a respeito do renomado filósofo francês Henri Bergson. Como


tive vontade de referir-me novamente a ele, vou fazê-lo a seguir. Isso se dá
porque me perguntam várias coisas, mas poucas pessoas captam com facilidade o
significado do que eu digo. Apesar de serem assuntos de fácil compreensão,
dificilmente as pessoas compreendem. Embora tenham considerável grau de
instrução, como não se convencem, cito vários exemplos com explicações minuciosas
e, assim, finalmente elas entendem. Nessas ocasiões, o que me vem sempre à
lembrança é a filosofia de Bergson.
Analisando por que as pessoas não assimilam assuntos tão simples, posso afirmar
que o motivo é o que se segue. Creio que isso se dá pelo fato de elas não vivenciarem
o “eu do momento” da teoria de Bergson. Evidentemente, elas nem devem estar
cientes disso. Quando o ser humano começa a ter noção das coisas à sua volta, ouve
várias coisas, e as tradições e os conhecimentos lhe são incutidos por meio dos
estudos até à fase adulta. Segundo a teoria de Bergson, isso tudo se transforma em
uma espécie de bloqueio da mente. Por essa razão, mesmo ouvindo a respeito de
diferentes teorias, esse bloqueio impede a entrada de outras teorias no pensamento
[sonen] da pessoa. No entanto, se este estiver livre de barreiras, a teoria penetra no
pensamento sem dificuldades, e a compreensão é alcançada de imediato. É com razão
que se fala sobre nos tornarmos uma folha de papel em branco. Contudo, parece que
quase não existem pessoas que percebem a existência das referidas barreiras.
À vista disso, recomendo ao leitor que, a partir de agora, vivencie o “eu do
momento”, o qual se refere à impressão do exato instante em que se observa ou se
ouve algo. É como uma criança que não tem barreira para atrapalhar. Muitas vezes,
ficamos admirados com sua resposta, ao dialogar com um adulto. Isso ocorre porque
ela não tem o mínimo bloqueio.
Bergson denominou-a “Teoria da intuição”. Em outras palavras, essa teoria
significa que devemos ver as coisas tais quais elas são, sem distorções. Esta é a correta
visão que complementa o “eu do momento”.
Na filosofia de Bergson, encontramos outra teoria muito interessante que diz:
“Tudo muda constantemente.” Isso significa que tudo está em constante movimento,
sem a mínima interrupção. Por exemplo, este ano, em algum ponto, difere do ano
passado. Podemos dizer o mesmo em relação ao mundo, à sociedade, ao nosso sonen
e ao ambiente em que vivemos. Sem dúvida, existe diferença entre a minha pessoa de
ontem e a de cinco minutos atrás. Possui o mesmo significado a antiga expressão:
“Um passo à frente é o desconhecido.” Assim, tudo muda sem a mínima pausa.
Portanto, se aplicarmos esta teoria ao ser humano, será da seguinte forma. Ao se
deparar com alguma situação, é preciso que sua visão e pensamento sejam distintos

52
dos do ano anterior. Em uma escala maior, observaremos uma completa mudança no
Japão entre os períodos que antecederam e sucederam à guerra. É surpreendente sua
mudança em tão curto espaço de tempo. Entretanto, as pessoas, na sua maioria, não
conseguem apreender, com exatidão, a realidade atual porque continuam bloqueadas
pelo modo de agir de centenas de anos ou de pensar de dezenas de anos herdados de
seus antepassados. Creio que a essas pessoas são atribuídas as denominações de
“conservadoras” e “antiquadas”, por se manterem estagnadas, enquanto tudo flui, em
mudança constante. Elas acabam sendo deixadas para trás e terão um destino infeliz.
Basta uma reflexão com base na teoria de Bergson, para entendermos o motivo da
inatividade das religiões tradicionais.
Por conseguinte, mudar sempre, em concordância com a teoria “Tudo muda
constantemente”, sem se desviar o mínimo dela, vem a ser também a ação de
Kanzeon Bossatsu(50). Essa divindade é igualmente denominada de Oshin-Miroku,
que significa mudar sempre, pois oshin quer dizer reagir com o corpo, isto é,
responder de forma livre e desimpedida ao mundo exterior. A denominação
Mugueko(51)-Nyorai(52) tem o mesmo significado.
Em suma, significa que aos idosos devemos dirigir palavras adequadas a eles; às
senhoras e às crianças, falar de modo suave e delicado; aos intelectuais, expressar-nos
de forma culta e, ao povo em geral, de forma simples. Por conseguinte, basta que
conversemos com quem quer que seja de modo que as pessoas nos ouçam com prazer,
compreendendo e interessando-se pelo que dizemos.
Se recomendarem a fé às pessoas com base nessa orientação, os resultados serão
surpreendentemente satisfatórios.
Jornal Eiko nº 113, 18 de julho de 1951

(50)
Kanzeon Bossatsu: em sânscrito, Avalokiteshvara (“Aquele que enxerga os clamores do mundo”) é o bossatsu
que representa a suprema compaixão. Conhecido no Japão também apenas como Kannon.
(51)
Mugueko: significa luz da salvação e sabedoria de Buda, que não podem ser bloqueadas por nada. Essa
expressão, de modo geral, se refere à luz de Buda Amida.
(52) Nyorai: uma das manifestações de Buda.

53
TER OU NÃO TER MAKOTO [SINCERIDADE](53)

G ostaria de escrever sobre um método simples para saber se a pessoa tem ou não
makoto: quem o possui, respeita e honra, sobretudo, seus compromissos.
As pessoas em geral não pensam que cumpri-los ou não seja importante. Na
realidade, porém, não deveriam proceder dessa maneira, pois o fato de não honrá-los,
significa enganar o próximo, e isto constitui uma espécie de pecado. Entre os
compromissos, o mais negligenciado é o que se refere ao horário. Pensemos no que
ocorre, quando não somos pontuais. Uma vez que a pessoa nos espera contando com
nossa presença, o aborrecimento e a impaciência causam-lhe um grande sofrimento.
Assim como bem demonstra o provérbio: “Pior do que ser esperado é esperar os
outros”, é necessário levar em consideração o estado de espírito daquele que aguarda.
Quem não pensa dessa forma, é porque não possui makoto, e isso acaba anulando as
demais qualidades. Por conseguinte, como fiéis de Deus, não negligenciem o
cumprimento dos compromissos e respeitem os horários. Se não conseguirem agir
dessa maneira, serão reprovados na fé.
Senhores fiéis, gravem isso no fundo do coração e jamais se esqueçam disso!
Jornal Hikari nº 47, 28 de janeiro de 1950

(53)
Título anterior: “Sinceridade”

54
(54)
AURA E ONDAS ESPIRITUAIS(55)

J á falei a respeito do misterioso raio de luz, utilizado como o poder de curar


doenças, mas desejo explicar de forma ainda mais minuciosa.
O corpo espiritual do homem possui a mesma configuração do corpo carnal, sendo
que a única diferença é que, no corpo espiritual, existe uma “veste”, que, no Ocidente,
é denominada “aura”, a qual se irradia do corpo espiritual incessantemente, em forma
de ondas de luz. É exatamente como se fosse a veste do corpo espiritual, e é por isso
que tem esse nome. Geralmente, sua cor é branca, mas dependendo da pessoa,
apresenta-se levemente roxa ou amarelada. A diferença de espessura é enorme:
normalmente é de três centímetros e, no enfermo, é fina. De acordo com a gravidade
da doença, a aura vai-se estreitando cada vez mais e, no momento que antecede a
morte, desaparece. A expressão popular, “Parece que fulano está com a sombra da
morte na face”, é devido à sua aura, que se apresenta fina. Nas pessoas saudáveis, ao
contrário, ela é grossa e, nas virtuosas, ainda mais, assim como suas ondas de luz são
mais intensas. Nos heróis, a aura é mais larga do que nas pessoas em geral. Nas
criaturas admiráveis, é muito mais espessa, sendo extraordinariamente densa nos
santos.
Entretanto, a largura da aura não é fixa e varia constantemente de acordo com o
pensamento [sonen] e os atos da pessoa. Quando esta pratica ações virtuosas, baseadas
na justiça, sua aura torna-se larga; ao contrário, ela se estreita. É regra geral não
enxergar a aura, mas, raramente, há quem o consiga. Só que, mesmo as pessoas
comuns, se observarem atentamente, haverá possibilidade de vislumbrá-la até certo
ponto.
A largura da aura tem uma forte relação com o destino do ser humano. Quanto
mais larga ela for, mais feliz ele será. Contudo, se for mais estreita, menos feliz. As
pessoas que possuem aura larga são mais calorosas e, pelo fato de envolver as demais
com sua aura, causam-lhes sensações agradáveis, o que permite atrair muitas delas.
Por outro lado, no contato com as que têm aura estreita, temos a sensação de frieza,
de desconforto e de isolamento. Além disso, hesitamos permanecer perto delas.
Nesse sentido, o esforço para aumentar a largura da aura vem a ser a fonte para se
obter a boa sorte. Então, o que devemos fazer para tornar a nossa aura larga? Antes
de responder, gostaria de explicar a respeito da natureza da aura.
Nem é preciso dizer que, ao analisarmos todos os pensamentos e atos humanos,
estes pertencem ao bem ou ao mal; e, portanto, sua quantidade é que determina a
largura da aura. Quer dizer, na ocasião em que a pessoa pensa no bem e o pratica,
surge-lhe o sentimento de satisfação em seu íntimo. Por esse motivo, seu sonen
transforma-se em luz e, agregando-se ao corpo espiritual, a luz aumenta. Ao
contrário, pensar no mal e praticá-lo efetivamente gera nuvens espirituais e aumenta

55
sua quantidade no corpo espiritual.
No relacionamento entre pessoas, na ocasião em que se faz o bem, o sonen de
gratidão do beneficiado transforma-se em luz, que é transmitida ao praticante do
bem por meio do elo espiritual, o que lhe aumenta ainda mais a luz. Em
contraposição, sentimentos como ódio, raiva e inveja transformam-se em máculas,
que retornam a quem provocou tal sonen. Consequentemente, o número de máculas
se amplia cada vez mais. Assim sendo, o ser humano deve praticar o bem e alegrar o
próximo e jamais receber o sonen negativo semelhante aos exemplos acima
mencionados.
Frequentemente, vemos pessoas que conseguiram obter a fortuna e o sucesso
rapidamente, mas fracassaram e caíram na ruína. A causa reside no que acabei de
dizer. Considerando que o motivo do sucesso repentino está na capacidade e no
esforço próprio, essas pessoas gradativamente caem na presunção e na vaidade, ficam
egoístas e arrogantes, e vivem uma vida de luxo. Como resultado da concentração de
nuvens espirituais decorrentes de ódio, raiva e inveja, sua aura vai perdendo a luz e
afinando, e acaba sobrevindo a ruína. O motivo da decadência de famílias renomadas
de várias gerações e de milionários se dá igualmente pelo fato de os mesmos terem
alcançado posições de alto nível, graças às benesses recebidas da sociedade e do país,
razão pela qual deveriam ter retribuído. Sem dúvida, precisariam ter praticado boas
ações em larga escala e em benefício da sociedade para que, dessa forma, suas nuvens
espirituais fossem continuamente eliminadas. No entanto, a maioria das pessoas só
pensam em satisfazer a própria ganância e, devido à escassez da prática altruísta, as
máculas continuam aumentando. Assim sendo, apesar da aparência maravilhosa, a
parte espiritual se mostra miserável. Por essa razão, pela Lei Espírito Precede a
Matéria, a pessoa acaba em ruína.
Pouco tempo antes do grande terremoto de Tóquio(56), um vidente disse-me que, ao
invés das avenidas com altas e magníficas construções, visualizava apenas casebres
enfileirados. Fiquei surpreso, pois, de fato, aquela cidade se tornara tal qual o vidente
havia afirmado.
Vou citar outro exemplo. Trata-se de um fato ocorrido nos Estados Unidos, na
época em que John D. Rockfeller(57) era ainda um jovem aprendiz de uma loja.
Baseado no conceito de que o ser humano deve praticar o bem, ele passou a fazer
donativos a uma igreja cristã. No início, a contribuição semanal era de cinco
centavos. À medida que sua renda aumentava, o donativo crescia para dez, cinquenta
centavos, alguns milhares, milhões de dólares e, por fim, ele chegou a instituir o
renomado Rockfeller Research Center. Ele registrava as quantias doadas no verso de
uma caderneta que, segundo dizem, é considerada tesouro de família.
Há também o exemplo de Andrew Carnegie(58), fundador da Bethlehem Steel
Corporation(59), a maior firma do gênero da América do Norte. No momento de sua
morte, fez prevalecer a opinião que ele sempre defendera: destinou a maior parte de
sua fortuna, avaliada em bilhões de dólares, às obras de assistência social. Para o
herdeiro, deixou apenas um milhão de dólares e a educação universitária garantida.

56
A propósito, o grande psicólogo alemão Hugo Munsterberg(60) elogia, em sua obra
“The American People” (1912), o caráter desse milionário, que não deixou uma
grande herança para os descendentes. Em sua narrativa, Munsterberg conta que, só
no ano de 1903, as doações do milionário americano às universidades, bibliotecas e
institutos de pesquisas somaram mais de dez milhões de dólares, sendo que as
doações anônimas teriam superado essa quantia em várias vezes.
Logo após a Primeira Guerra Mundial, Andrew Carnegie doou uma quantia
extraordinária à International Peace Foundation e, graças a uma parte dessa
importância, as áreas científicas e acadêmicas da Alemanha foram revitalizadas. A
publicação da grande pesquisa – a primeira do mundo – a respeito das guerras e dos
crimes, realizada pelo professor Moritz Liepmann(61) (1857–1950), entre outras
pessoas, foi possível graças a essa ajuda. Dizem que tais pesquisas inestimáveis
contribuíram imensuravelmente para a felicidade mundial. Ao pensar em tais fatos,
posso compreender o motivo da tão ampla prosperidade alcançada pelos Estados
Unidos. No entanto, os grandes conglomerados financeiros do Japão foram
excessivamente egoístas, e acredito que o motivo da sua queda não é mera
coincidência.
E ainda, quanto mais estreita for a aura, mais sujeita estará a pessoa às desgraças e
ao infortúnio. A razão é que, em virtude das nuvens espirituais, o cérebro fica
embotado, o raciocínio falha, a força de decisão diminui, e a pessoa não consegue ter
uma previsão correta das coisas. Por conseguinte, ela se precipita, sonhando com o
sucesso temporário. Nessa situação, até pode alcançar algum sucesso, mas, ao longo
do tempo, com certeza, acaba fracassando. Nesse sentido, se a política de uma nação
encontra-se ruim, é devido ao fato de a aura de seus governantes se encontrar estreita,
assim como a do povo, que sofre as consequências da má política. Por esse motivo,
realmente não há o que se fazer.
Àqueles que têm grande quantidade de nuvens espirituais, as purificações ocorrem
com facilidade e, por isso, estão sujeitos a frequentes doenças e padecimentos.
Aqueles que sofrem acidentes de trânsito, apresentam uma aura estreita. Quem tem a
aura larga, em qualquer situação, consegue livrar-se do perigo. Por exemplo, por
ocasião de um acidente com um veículo, o espírito deste se chocará com a pessoa,
cuja aura se encontra estreita. Contudo, não ocorrerá o choque, se a aura estiver larga.
Nesse caso, mesmo se a pessoa for arremessada longe, nada sofrerá em decorrência da
elasticidade de sua aura.
Refletindo sobre o exposto, podemos concluir que o único meio de a pessoa se
tornar afortunada, é praticar a virtude e aumentar a largura de sua aura. Existem
criaturas que se resignam diante da má sorte, dizendo que “são azaradas de nascença”.
Sinto pena delas, pois a causa disso reside no desconhecimento do motivo acima
referido. Além do mais, quanto mais larga for a aura dos praticantes do tratamento
da nossa Igreja, melhor será o resultado da cura das doenças. Salvando o maior
número de pessoas, maior será a quantidade de agradecimentos que receberão, o que
fará aumentar a espessura da aura e obter excelente resultado. Dentre os meus
discípulos, muitos são assim.

57
Evangelho do Paraíso, 5 de fevereiro de 1947

(54)
Título anterior: “Aura”
(55) Ondas espirituais: presume-se que, ao longo do texto, Meishu-Sama teria utilizado a expressão “ondas de luz”
para exprimir seu conceito de “ondas espirituais”.
(56)
Grande terremoto de Tóquio, ocorrido em 1923, no leste do Japão.
(57) John Davison Rockfeller (1839–1937): foi um homem de negócios norte-americano, fundador da Standard

Oil, que se tornou a maior companhia petrolífera do mundo em seu tempo. Considerado o homem mais rico da
história dos Estados Unidos, foi também um importante filantropo.
(58) Andrew Carnegie (1835–1919): foi um empresário e filantropo estadunidense nascido na Escócia, fundador

da Carnegie Steel Company em 1892, a qual se tornou uma das maiores empresas siderúrgicas daquele tempo.
Vendeu-a em 1901, o que constituiu uma das maiores transações comerciais do início do século XX e tornou
Andrew Carnegie o homem mais rico dos Estados Unidos da América na época. Sua ascensão é a fábula norte-
americana clássica do homem que enriqueceu do nada.
(59) Em pesquisa recente, soube-se que a empresa fundada por Andrew Carnegie foi, na verdade, a Carnegie Steel

Corporation, em 1892.
(60) Hugo Munsterberg (1863–1916): estabeleceu as bases e justificativas da psicologia industrial na administração

científica. Munsterberg relacionou as habilidades dos novos empregados com as demandas de trabalho da
organização.
(61) Moritz Liepmann (1869–1928): foi um jurista e professor de criminologia na Universidade de Hamburgo,

Alemanha. Dentre suas publicações mais conhecidas, estão: Krieg und Kriminalität in Deutschland. (1930), Die
Lehre von Verbrechen und Strafe (1912) e Die Todesstrafe. Ein Gutachten. (1912).

58
BONDADE E CORTESIA(62)

A o observar as pessoas da atualidade, acredito que a bondade e a cortesia são as


qualidades que mais faltam a elas. Vou tecer comentários sobre o assunto,
tomando a nossa Igreja como base.
Existe um critério que permite avaliar a evolução da fé e o polimento da alma. Essa
avaliação não é tão complicada quanto parece. Antes de mais nada, a pessoa passa a
abominar o conflito, depois torna-se bondosa e cortês. Possui alma polida, aquela que
demonstra esse tipo de sentimento e postura, pois este ponto é o que mais evidencia
o valor da fé. Uma pessoa assim será estimada e respeitada por todos, e suas atitudes
se tornarão uma silenciosa divulgação de fé.
Ao observar o mundo contemporâneo, notamos a demasiada escassez de bondade e
cortesia. Por toda parte, existem pessoas que estão sempre à procura dos defeitos
alheios, odiando e repreendendo o próximo. Infelizmente, presenciamos fatos
realmente repugnantes. Podemos dizer que, sobretudo, a cortesia é realmente escassa
nas pessoas da atualidade. Por serem egoístas, exibicionistas e argumentadoras, não se
importam muito em serem malquistas pelos outros. Por conseguinte, não há outra
forma de interpretar, senão que o liberalismo excessivo as tornou adeptas do
egocentrismo.
O mais vergonhoso é revelar os segredos das pessoas e defender ideias de exclusão,
demonstrando uma grande falta de empatia. Com o aumento de pessoas dessa
natureza, a sociedade torna-se sombria e fria, crescendo cada vez mais o número de
pessimistas com relação à vida. Ultimamente, a quantidade de suicidas é grande, mas
será que a causa não estará neste ponto? Assim sendo, a verdadeira civilização
resultará do crescente número de pessoas que agem conforme o cavalheirismo inglês
ou a filantropia americana. Dessa maneira, a ética social permitirá a formação de uma
sociedade agradável e boa de se viver. Se considerarmos tal sociedade um paraíso
neste mundo, poderemos afirmar que este se encontra, de fato, ao nosso alcance.
Observando por outro ângulo, atualmente o turismo no Japão está sendo defendido
como assunto de suma importância, em termos de estratégia de política nacional. De
fato, as instalações materiais são fundamentais. No entanto, creio que o mais
importante é causar uma boa impressão aos visitantes estrangeiros. Assim sendo, no
contato com estes, é preciso que as três condições como a bondade, a cortesia e a
higiene estejam presentes, pois, além de não custarem dinheiro, são elementos
essenciais para atrair os turistas estrangeiros.
A condição fundamental para a formação de pessoas com essas características é,
sem dúvida, a fé. É com base nessa diretriz que nossa Igreja vem-se empenhando
cada vez mais.

59
Jornal Eiko nº 75, 25 de outubro de 1950

(62)
Cortesia: Meishu-Sama usa a palavra japonesa okuyukashisa, que se refere a uma pessoa que, além de cortês, é
modesta e nobre, que inspira admiração e respeito.

60
PESSOA SIMPÁTICA(63)

T alvez não exista outra palavra que soe tão agradavelmente quanto simpatia.
Pensando bem, na vida, a simpatia é mais importante do que imaginamos, pois,
não se limitando ao destino do indivíduo, sua relação com a sociedade é grande. Por
exemplo, se alguém se sentir bem ao ter contato com uma pessoa simpática e se essa
corrente for se propagando continuamente, é óbvio que a sociedade se tornará
bastante agradável. Por conseguinte, situações abomináveis, principalmente o conflito
e o crime, diminuiriam e, espiritualmente, surgiria o Paraíso. Não existe outro meio
melhor que este, pois não requer dinheiro, não é trabalhoso e pode ser posto em
prática imediatamente. Embora isso pareça deveras fácil e simples de praticar, como
todos sabem, na realidade, não é, já que não basta que a simpatia seja apenas
aparente.
A verdadeira simpatia aflora do interior; é indispensável, portanto, que a pessoa seja
sincera de coração, o que depende do sentimento. Em suma, o fundamental é o
espírito de amor altruísta.
A esse respeito, gostaria de escrever um pouco sobre a minha pessoa.
É estranho eu mesmo falar, mas, desde jovem, aonde quer que eu fosse, quase
nunca era odiado ou detestado. Pelo contrário, na maioria das vezes, era estimado e
amado pelas pessoas. Analisando a razão desse fato, concluí que possuo algo que me
parece ser o motivo: em qualquer circunstância, deixo meus interesses e satisfação
pessoal em segundo plano; procuro ter em mente apenas aquilo que satisfaz e deixa os
outros felizes. Ajo assim, não por razões morais ou religiosas, mas naturalmente. Ou
seja, esta é a minha natureza. Em outras palavras, é até um hobby para mim. Por essa
razão, muitos dizem que possuo uma personalidade privilegiada, e é possível que
tenha mesmo. Depois que me tornei religioso, obviamente essa característica se
intensificou. Então, quando vejo uma pessoa sofrendo por doença, não consigo ficar
parado e impassível, e sinto vontade de curá-la a qualquer custo. Ministro-lhe Johrei,
ela é curada e fica feliz. Ao ver sua alegria, esta se reflete em mim e eu me sinto feliz
também.
Por ser assim, no passado, criei inúmeros problemas e sofri muito. Mesmo quando
percebia que não havia mais chance de cura e que deveria desistir logo, atendendo às
súplicas por parte da própria pessoa e sua família, eu cedia e, não pesando os prós e os
contras, persistia nas visitas, ainda que fossem em locais distantes. Gastava tempo e
dinheiro e, no final, o resultado não era bom. Desapontava a todos e, muitas vezes,
recebia queixas e era odiado. Sempre que isso ocorria, eu me censurava, achando que
deveria tornar-me menos sensível.
Minha personalidade me ajudou muito também na construção do protótipo do
Paraíso Terrestre e do Museu de Belas-Artes; portanto, creio que ela me tenha sido

61
atribuída por Deus.
Por exemplo, quando estou diante de uma magnífica obra de arte ou de uma
paisagem maravilhosa, não vejo graça nenhuma em apreciá-las sozinho e até fico
incomodado. Nasce em mim, o desejo de mostrá-las e de entreter o maior número de
pessoas possível. Dessa forma, ao invés de desfrutar das mesmas sozinho, minha
maior satisfação é divertir e alegrar o próximo, o que também me traz alegria e
prazer.
Jornal Eiko nº 257, 21 de abril de 1954

(63)Pessoa simpática: Meishu-Sama descreve essa pessoa simpática com a expressão kanji no yoi, que contempla
outras virtudes, além da simpatia. Trata-se de uma pessoa que nos transmite uma sensação agradável, bondosa e
amorosa, e inspira segurança e tranquilidade. Cabe ainda ressaltar a origem da palavra simpatia: do latim
simpathia, “comunhão de sentimentos”, do grego sympatheia, “capacidade de sentir o mesmo que outrem, de ser
afetado pelos sentimentos alheios (positivos ou negativos)”, formada por syn, “junto”, mais pathos, “sentimento”.

62
TEORIA SOBRE OS EFEITOS CONTRÁRIOS

A o observar as pessoas em geral, há aquelas que não obtêm resultados satisfatórios


naquilo que executam com esforço ou naquilo que realizam acreditando que seja
um bem. Isto ocorre porque desconhecem totalmente a teoria dos efeitos contrários,
ou melhor, falta-lhes discernimento a respeito daquilo que vai além da razão. Vou
explicar a respeito disso. Aquele que ler e entender essa teoria, poderá obter um
ganho inesperado. Apresentarei alguns exemplos.
O fato a seguir tem-se passado com frequência entre os fiéis que estão na posição
de ministro. Baseado no pensamento de se valorizar, eles tentam mostrar-se mais
elevados, mais importantes do que realmente são. Contudo, ao manifestarem seu
verdadeiro interior, pelo contrário, deixam de ser vistos como importantes. Por essa
razão, aqueles que mantêm uma atitude moderada e se sentem satisfeitos em ser
modestos, ao contrário, passam a ser vistos como pessoas dignas de consideração.
Existem, também, os que gostam de contar seus sucessos, o que desagrada aos
ouvintes. A exibição é condenável. Quem expõe os fatos tal qual eles se apresentam,
granjeia maior simpatia, e seu modo moderado de falar o enobrece perante o ouvinte.
Ao ajudar alguém, deve-se evitar falar como se estivesse vendendo favores, pois isso
só serve para diminuir o apreço das pessoas.
Conforme vemos pelos exemplos acima, em tudo há os efeitos contrários. Por essa
razão, devem levar em consideração essa realidade, pois assim procedendo, o
resultado será, em geral, melhor do que se esperava.
Certa vez, cedi à insistência de um visitante a quem vinha evitando, e concedi-lhe
uma entrevista. Ele perguntou-me:
“– Qual é o deus da Igreja Messiânica Mundial?”
“– Ignoro-o completamente”, respondi.
Então, ele tornou a interrogar-me:
“– Meishu-Sama, o senhor prevê todos os acontecimentos, não é?”
“– Eu nada sei, porque não sou Deus”, disse-lhe. Parece-me que ele se decepcionou
e nunca mais voltou.
Da mesma forma, nas ocasiões em que desejo comprar um terreno e a pessoa quer
vendê-lo, pergunto-lhe o preço. Querendo tirar proveito, diz um preço bem alto.
Então, não demonstro qualquer interesse e fico aguardando. Dias depois, ela vem à
minha procura, toda ansiosa. Aí, informo-lhe que não quero mais adquirir o terreno.
A pessoa acredita no que eu disse e passa a me oferecer um preço mais acessível.
Outrora, apareciam muitas pessoas que queriam me enganar e extorquir dinheiro.
Nessas ocasiões, antes que tocassem no assunto, eu lhes indagava se não conheciam
alguém que pudesse emprestar-me dinheiro, porque eu estava muito necessitado.
Então, elas acabavam se retirando, sem mencionar o motivo que as trouxera até mim.

63
Há igualmente ocasiões em que, ao ver uma pessoa que tem qualidades e que
futuramente poderá ser útil, intencionalmente trato-a com frieza. Nesse momento,
ao invés de se tornar desinteressada e negligente, ela passa a mostrar empenho ainda
maior e a realizar ótimos trabalhos. É justamente essa pessoa confiável que eu
procuro utilizar em uma posição importante.
Muitos outros exemplos poderiam ser citados, mas ressalto que considerar a teoria
dos efeitos contrários é de grande utilidade a todos.
Jornal Eiko nº 124, 3 de outubro de 1951

64
RELACIONAMENTO

NÃO FIQUE IRADO(64)

D esde tempos antigos, há um famoso ditado que diz: “Tolerar o que é fácil está
ao alcance de todos, mas a verdadeira tolerância está em tolerar o que é
intolerável.” Outro ditado aconselha: “Leva sempre o saco da paciência no pescoço e
costura-o toda vez que ele se romper.” É exatamente isso.
Frequentemente, as pessoas me perguntam: “Que aprimoramentos o senhor
realizou para ser o que é hoje? Fez retiro em montanha e banhou-se em cachoeira?
Jejuou ou fez outras práticas ascéticas?” Então, esclareço-as, dizendo: “Jamais
pratiquei tais coisas. Meus aprimoramentos consistiram em duas coisas: suportar o
sofrimento das dívidas e saber lidar com a ira.” Quem ouve, fica surpreso, mas nada
posso fazer, por tratar-se da pura verdade. Principalmente, pelo fato de me deparar,
sucessivamente, com fortes motivos para ficar irado, acredito que Deus agia dessa
maneira para aperfeiçoar-me. Por natureza, detesto sentir raiva, mas chega a ser
estranho o quanto fico assim.
Certa vez, fui alvo de um sério mal-entendido que me deixou em uma situação tão
vergonhosa, que mal conseguia encarar as pessoas. Minha indignação era tão grande,
que eu não conseguia reprimi-la. Justamente nessa ocasião, fui chamado para tratar
de uma questão. Por determinado motivo, eu não tinha como recusar e dirigi-me ao
local. Lá, permaneci disperso e, para me descontrair, pedi e tomei uma dose de saquê.
Na época, eu não bebia nenhum gole e isso demonstra quão séria era a situação.
Somente após dois ou três dias consegui voltar à normalidade.
Mais tarde, vim a saber que tudo aquilo me livrou de uma grande desgraça. Se, na
ocasião, não tivesse ficado irado, eu teria recebido um terrível golpe. Realmente, fui
salvo pela ira e não pude conter minha emoção, pela grande graça que Deus me
concedeu.
Como podemos observar, Deus submete a quem tem missão maior a vários tipos de
mitamamigaki(65). Creio que, entre eles, o de conter a ira é a provação maior.
Portanto, aquele que tem muitos motivos para se irritar, mais deve pensar que sua
missão é grandiosa. Nesse sentido, caso consiga não se deixar abalar nem um pouco
pela ira, mantendo a calma, significa que conseguiu concluir uma das etapas de seu
aprimoramento.
A respeito disso, há um episódio interessante. Na Era Meiji (1868–1912), houve
uma pessoa famosa pela sua paciência, o Sr. Buei Nakano, presidente da Câmara de
Comércio. Por não se irritar em nenhuma circunstância, perguntaram-lhe a razão
disso. Ele respondeu: “Por natureza, eu era muito irritado. Certo dia, ao visitar o
renomado empresário Eiichi Shibuzawa, ouvi-o discutindo com a esposa no cômodo
contíguo àquele em que eu me encontrava. Informado de minha presença, ele abriu a

65
porta corrediça e se sentou. Trazia a fisionomia serena de sempre e nem parecia que
acabara de ter um desentendimento. Admirei-me e, ao mesmo tempo, percebi a
importância da capacidade de reprimir a ira. Compreendi que aquele era o segredo de
seu grande prestígio no mundo empresarial e que eu devia seguir seu exemplo e
conseguir reprimir a ira com facilidade. Desde então, passei a esforçar-me nesse
sentido, e tudo começou a correr satisfatoriamente em minha vida, até eu atingir a
condição atual.”
No momento em que os senhores sentirem que vão irar-se, devem pensar que estão
sendo polidos por Deus. Esta vem a ser a postura de uma pessoa de fé.
Gostaria de voltar ao assunto das dívidas, baseado na minha experiência: a causa da
dívida é a precipitação, a qual acaba forçando a situação. Haja o que houver, jamais se
deve fazer isso, pois esta é a pior escolha. Aquilo que é realizado, forçando-se a
situação, poderá até mesmo resultar em um sucesso temporário. Contudo, em algum
momento e infalivelmente, a pessoa acabará deparando-se com um inesperado
obstáculo. Por essa razão, apesar de achar que a situação evoluiu rapidamente, terá
que voltar ao ponto de partida e corrigi-la.
Exemplificando, a causa da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial se deu
porque tudo era realizado irracionalmente.
Para começar, na ocasião em que a pessoa se precipita ou força a situação, sua
mente perde a tranquilidade e, por isso, não surgem boas ideias. Nesse caso, ela não
deve, de forma alguma, tentar fazer alguma coisa a todo custo. Só deve fazê-lo,
depois de surgir uma boa ideia, isto é, após cuidadosa reflexão. Como dizem: “Pensar
muito bem antes de agir e, quando agir, ser de forma decisiva.”
Portanto, uma dívida poderá até ser contraída após minuciosa análise e em caso de
certeza do seu pagamento e de sua absoluta necessidade. Assumindo a dívida, esta
deve ser liquidada o quanto antes e jamais ser prorrogada. De fato, saldar a dívida é,
quase sempre, muito difícil. Se a dívida se prolongar por muito tempo, os juros
aumentarão, e o sofrimento psicológico torna-se grande, o que leva à perda da paz de
espírito, prejudicando o fluxo das boas ideias e a inteligência. Por conseguinte, não
há como ter êxito no trabalho.
Existem dívidas ativas e passivas. As ativas são para investir na expansão dos
negócios e as passivas, para cobrir os prejuízos. Embora, muitas vezes, as ativas sejam
inevitáveis, as passivas nunca devem ser contraídas. Se formos vítimas de prejuízos,
devemos deixar de lado as falsas aparências e, reduzindo os gastos, esperar que surjam
novas oportunidades.
Há, ainda, um ponto sobre o qual desejo chamar a atenção: evitar ser ganancioso.
Como diz o provérbio: “Quem tudo quer, tudo perde.” A causa de oito a nove entre
dez perdas ou prejuízos está no excesso de ganância. Frequentemente, deparamo-nos
com pessoas que nos propõem o pretenso “negócio-da-china”, mas devemos saber
que, no mundo, é praticamente impossível ocorrer situações tão oportunas. Por esse
motivo, devemos nos acautelar com esse tipo de negócio. Geralmente, os
empreendimentos que não se mostram muito atraentes em primeiro momento, são os

66
que, ao contrário, oferecem melhores perspectivas a longo prazo. A respeito disso,
vou apresentar minha experiência.
Em determinada época, desejando saldar as dívidas o quanto antes e obter ainda
mais fundos para impulsionar a obra religiosa, não entrava dinheiro algum. Assim
sendo, resignei-me e entreguei tudo nas mãos de Deus, deixando de pensar em
dinheiro. Depois de proceder dessa forma, inesperadamente começaram a chegar às
minhas mãos quantias além do esperado. Então, compreendi que as coisas do mundo
não podem ser entendidas apenas com base na razão.
Coletânea Assuntos sobre fé, 25 de janeiro de 1949

(64)Título anterior: “Não se irrite”


(65)Mitamamigaki: a expressão mitamamigaki é formada pelas palavras mi (corpo), tama (alma) e migaki
(polimento, aprimoramento, aperfeiçoamento) e tem o sentido de purificação do espírito e do corpo, com o
intuito de aperfeiçoar o indivíduo.

67
VENCER A IRA

P ouco tempo atrás, Deus ensinou-me o método para aplacar a ira. Portanto,
desejo transmitir aos leitores esta boa-nova. Certamente, não há nada que cause
ao ser humano, enquanto habitante deste mundo, tanto sofrimento quanto a ira.
Embora sejam raros, existem indivíduos que nunca ficam irados, dando a impressão
de que são felizes. Contudo, eles são pessoas com comportamento fora do normal.
Entre as pessoas comuns, podemos afirmar que quase não existem as que não ficam
com raiva. Desde os tempos antigos, existem métodos de autoaperfeiçoamento para
vencer a ira, como o tokyujutsu(66), entre outros, mas é muito difícil encontrar um que
seja realmente eficiente. Se a questão fosse apenas contê-la, poderíamos nos livrar do
sofrimento que ela nos causa, mas isso de nada adianta já que surgem outras aflições a
serem refreadas. Quanto maior for o sofrimento causado pela ira, proporcionalmente
maior será a angústia para controlá-la. Por essa razão, o sofrimento duplica.
Contudo, por intermédio do método que Deus me ensinou, é possível neutralizá-la
com facilidade. Realmente, é uma maravilha! Vou expô-lo a seguir.
O local denominado desde a antiguidade como “boca do estômago”, situado no
centro do corpo humano, é uma região muito importante, chamada plexo solar.
Dizem frequentemente que o umbigo é o centro do corpo e da região abdominal. É
também o centro das vontades, tais como a coragem, a determinação e a capacidade
de decisão.
Como sempre tenho afirmado, a parte frontal da cabeça comanda a razão, que está
relacionada à inteligência, à memória etc.; a parte posterior comanda os sentimentos
como a alegria, a ira, a tristeza, o prazer, entre outros. Por conseguinte, a
consubstanciação da trilogia vontade, razão e sentimento, conforme já disse, está
localizada no plexo solar, ou seja, também por ocasião do surgimento da ira, o
pensamento [sonen] ali se concentra. Quando isso ocorre, o que sentimos, em
primeiro lugar, é algo como se houvesse um nó na região do plexo solar. Creio que a
maioria já experimentou essa sensação e sabe disso. Existe a expressão hara(67)ga tatsu,
que significa “ficar com raiva” e remete à imagem de um nó que faz “erguer” o plexo
solar.
Quando a pessoa com raiva recebe Johrei nesse local, logo se sente aliviada como se
um nó estivesse se desatando e, junto a uma sensação agradável no peito, percebe que
a mente vai-se tornando mais leve e até se envergonha por ter se zangado. Daí a
expressão: “A raiva passou.” É isso o que realmente acontece.
Além do mais, uma vez que o Johrei possibilita não só a cura de outras pessoas, mas
também do próprio ministrante, nada supera o Johrei. Ora, a ira é a causa não só dos
conflitos pessoais e familiares, mas em uma escala maior, também dos conflitos
sociais e da quebra da paz no cenário internacional. Dessa forma, podemos afirmar

68
que o Johrei constitui realmente uma grande salvação.
Jornal Eiko nº 106, 30 de maio de 1951

(66)
Tokyujutsu: método de autoaperfeiçoamento criado por Marumitsu Yokoyama (1780–1854) em 1834. O
tokyujutsu ensina que a personalidade e as características de uma pessoa são determinadas por fatores como o dia
do nascimento e as feições do rosto. Uma vez compreendendo essas características, a pessoa busca corrigir suas
falhas e vícios inatos no intuito de purificar os sentimentos, melhorar o destino e se tornar feliz.
(67) Hara: significa barriga ou região abdominal. Em língua japonesa, há várias expressões com a palavra hara que

se referem ao ser humano e às suas características no campo das vontades. Por exemplo, hara ga dekiteiru indica
que a pessoa é decidida; futotta hara da significa que é uma pessoa magnânima e corajosa e hara ga suwatte iru quer
dizer que é uma pessoa resoluta.

69
NÃO JULGUE O PRÓXIMO(68)

U ma vez que existem, até mesmo entre os membros da Igreja, aqueles que,
inconscientemente, incorrem no erro de julgar o próximo, vou escrever sobre
esse tema, pois embora já o tenha feito, vez ou outra, fico sabendo que tal fato
continua ocorrendo. Por esse motivo, gostaria de expor o assunto novamente.
Há pessoas que costumam criticar, dizendo que certa pessoa é boa ou má. O pior
comentário é: “Tome cuidado com fulano, pois um espírito maligno incorporou
nele.” Gravíssima falta! Quem aponta a outra pessoa como espírito maligno é que, na
realidade, se acha sob sua influência. Isto porque, o ser humano não tem condições
de conhecer o bem e o mal, o correto e o incorreto do seu próximo, pois isso compete
a Deus. Quem se arroga o poder de julgamento, está tentando ocupar a posição de
Deus na condição de ser humano. Por esse motivo, trata-se de uma absurda
demonstração de vaidade.
Nesse sentido, essas pessoas certamente estão sob influência do espírito maligno e,
por isso, deve-se ter muita cautela. Obviamente, elas não acreditam realmente em
Deus e, por essa razão, com ares de seriedade, tecem críticas como: “A fé de fulano
está errada”; “A administração de determinada Igreja precisa melhorar”, entre outras.
Ora, se de fato existirem pessoas más entre os fiéis, Deus as julgará com rigor;
portanto, convém deixá-las aos Seus cuidados. Toda e qualquer preocupação humana
é perfeitamente dispensável. Quem não crê nisso é porque acredita mais na força
humana do que em Deus e, por conseguinte, não passa de um grande vaidoso.
Na Igreja Messiânica, é o Supremo Deus que a tudo lidera, portanto, àquele que
estiver errado, Deus concede primeiramente um aviso para que possa perceber o erro.
Quando isso não ocorre, há vários casos em que Deus lhes tira até a vida. Nossos fiéis
mais antigos conhecem bem exemplos desse tipo.
Portanto, além de seguirem obedientemente o preceito “Não julgue o próximo”,
devem julgar constantemente a si mesmos. Quem age assim, realmente compreende a
Deus.
Jornal Eiko nº 157, 21 de maio de 1952

(68)
Título anterior: “Não julgueis”

70
(69)
OUTRAS FORMAS DE VAIDADE(70)

F requentemente, encontramos adeptos que, movidos pelo ardor da fé, criticam o


responsável e os diretores da Igreja à qual pertencem, dizem que seus
procedimentos não são bons, sugerem reformas na instituição, entre outros
comentários. Quando suas ideias não são aceitas, por vezes ficam muito aflitos e
impacientes. Por essa razão, desejo expor sobre o assunto.
Uma vez que esse tipo de pensamento é motivado pelo makoto desses fiéis, não diria
que seja algo ruim, mas há um ponto que deve ser levado em consideração. Trata-se
de um pensamento próprio da fé shojo(71). Como tenho dito sempre, nossa religião
caracteriza-se pela fé daijo(72) e, por esse motivo, seu pensamento difere bastante da
visão comum. Enquanto não reconhecerem isso, significa que não estarão de acordo
com a Vontade de Deus. Na realidade, o fato de julgar se uma pessoa é boa ou má, já
constitui vaidade, uma vez que somente Deus consegue distinguir o bem ou o mal do
ser humano. Já escrevi a respeito disso e aconselho que ajam com muita ponderação.
Se a pessoa estiver errada ou for má, Deus tratará de julgá-la, sendo desnecessária
qualquer preocupação. Por conseguinte, creio que o fato de o ser humano se
preocupar e sofrer sem necessidade significa que ele não acredita na força de Deus.
Como prova do que digo, há vários casos de pessoas que, devido a um equívoco em
sua fé, foram julgadas por Deus e algumas chegaram até mesmo a perder a vida. Os
fiéis antigos já vivenciaram inúmeras experiências dessa natureza. Logo, antes de
julgar o bem ou o mal do próximo, devem observar o bem e o mal existentes no
próprio interior.
Sei perfeitamente que as pessoas que ingressam na nossa religião possuem makoto e,
portanto, não faz sentido que tenham um sentimento ruim. Em relação ao makoto,
existe o amplo e o restrito e, por essa razão, precisamos ficar atentos. Tenho dito
sempre que o bem de shojo é o mal de daijo. Mesmo em se tratando do bem, se o
makoto estiver baseado no pensamento shojo, o resultado será negativo.
Nossa religião se propõe a realizar uma grandiosa obra de salvação da humanidade,
inédita desde a criação do mundo. Por conseguinte, devemos confiar os assuntos
internos da Igreja a Deus, tendo sempre em mente a sociedade, ou melhor, o mundo.
Em suma, a visão deve estar voltada sempre para fora e não para dentro da religião.
Gostaria de dizer, ainda, que uma vez que o Plano Divino é extremamente
profundo, obviamente não há como compreendê-lo por meio da visão e do intelecto
humanos. Há o seguinte ensinamento da Oomoto(73): “No cerne de Deus, ainda há
profundidade. Como há o profundo do profundo no Seu Plano, as pessoas não
conseguem compreendê-lo. Quem pensa não compreender as coisas do Mundo
Divino, é porque de fato as compreendeu.” Outro ensinamento adverte: “Seria
possível reconstruir os três mil mundos(74) por meio de um plano tão superficial, capaz

71
de ser compreendido pelo ser humano?” Acho que essas são palavras realmente
simples e que expressam bem tudo isso.
Jornal Eiko nº 121, 12 de setembro de 1951

(69)
Título anterior: “Presunção”
(70) Vaidade: a palavra manshin, que foi usada por Meishu-Sama, além de vaidade, tem a conotação de arrogância,
presunção e orgulho.
(71) Shojo: refere-se à religião de caráter fundamentalista, de preceitos rigorosos, que preza pelo bem-estar do

indivíduo e não da sociedade.


(72)
Daijo: diz respeito à religião de caráter liberal, abrangente, que preza pelo bem-estar da coletividade acima do
bem-estar individual ou de apenas um grupo.
(73)
Oomoto: religião japonesa fundada por Nao Deguchi (1836–1918) em 1892.
(74) Três Mil Mundos: expressão budista que se refere a todos os mundos contidos no Universo.

72
NÃO JULGUEIS

H á fiéis que tecem críticas, dizendo que fulano é bom ou mau ou que nos causa
transtornos. Se, mesmo em número reduzido, ainda existem fiéis que agem
dessa forma, significa que os meus Ensinamentos ainda não foram devidamente
assimilados.
Como tenho dito repetidas vezes, o fato de alguém julgar o próximo, qualificando-
o como bom ou mau, significa que está profanando a posição de Deus, e isto é um
erro gravíssimo. Portanto, gostaria que se prestasse muita atenção a esse assunto
porque o ser humano é incapaz de discernir o bem ou o mal do próximo. Quem
pensa consegui-lo é porque, sem perceber, atingiu o auge da vaidade. Isto é uma
prova de que, na verdade, essa pessoa ainda nem adentrou o portão da fé.
A Obra Divina não é tão superficial a ponto de ser compreendida pelo raciocínio
humano. É preciso que as pessoas se conscientizem bem deste ponto. Seja como for,
por ser uma Obra Divina realmente grandiosa, inédita desde a antiguidade, que visa
salvar os três mil mundos, se o ser humano não tiver um pensamento realmente
amplo, não será capaz de perceber o quão magnífica ela é. Ou seja, querer ver por
meio da visão shojo, é o mesmo que tentar espiar o céu através de uma fresta do
telhado da casa.
Já me cansei de dizer que a fé não pode ser shojo e que somente por intermédio da
fé daijo é possível conhecer a Vontade Divina. Não sei mais o que fazer, pois parece
que as pessoas têm dificuldade de entender e, do mesmo modo, há aquelas que
continuam errando.
Ao observarmos a sociedade em geral, notaremos que, em todos os seus setores, há
o predomínio do aspecto shojo, e isto parece ser muito mais evidente no Japão.
Até mesmo as organizações religiosas criam internamente grupos que lutam pelo
poder, e essa má conduta tem repercutido nos jornais. Da mesma forma, os partidos
políticos, as repartições públicas e as empresas não fogem à regra. Essa situação,
evidentemente, causa prejuízos à eficiência e ao progresso dos empreendimentos.
Aliás, por ser um mundo tão equivocado, Deus irá reconstruí-lo. Examinando as
causas, podemos afirmar que, sem exceção, as más condutas decorrem da atitude
shojo.
Por conseguinte, se o mundo não estiver fundamentado na atitude daijo,
certamente não será possível concretizar uma sociedade justa e magnânima. No
entanto, apesar de serem fiéis da nossa Igreja, se houver entre eles pessoas que ainda
possuem resquícios do pensamento shojo, gostaria que tomassem consciência disso o
quanto antes e mudassem seu pensamento para que possam tornar-se autênticos
messiânicos. Caso contrário, à medida que a purificação se intensificar, visto que
gradativamente o julgamento de Deus se tornará mais severo, no momento decisivo,

73
mesmo que sintam remorso, será tarde demais. Assim sendo, se for o caso de se
arrepender e se modificar, aconselho que o façam agora, antes que seja
demasiadamente tarde.
Estou de pleno acordo com o ensinamento que a Oomoto apresenta
reiteradamente: “A vaidade e a compreensão errada são as causas de grandes
sofrimentos.” O mesmo pode ser entendido das palavras de Jesus Cristo: “Não
julgueis.”
Em suma, ao invés de julgar o bem ou o mal do próximo, devemos julgar o nosso
bem e mal. O correto é manter-nos neutros em relação aos atos do próximo.
O que me deixa ainda mais surpreso é o fato de existirem pessoas que pensam:
“Fulano está agindo de forma inconveniente; porém, não sei se Meishu-Sama não
está percebendo.” Ou então: “Como ele é uma pessoa misericordiosa, deve estar
fazendo vistas grossas.” Ou ainda: “Como é difícil falar sobre isso, ele está evitando
interferir. Sendo assim, nós é que devemos, no lugar dele, advertir aquele fulano.” A
meu ver, isto é um grave equívoco e deixa a situação ainda mais desagradável. Isto
porque, essas atitudes me fazem pensar: “Será que as pessoas acham que sou tão
ingênuo assim? Pensem bem. Se eu fosse realmente tão ingênuo, não teria condições
de realizar o grandioso trabalho de salvação da humanidade e, tampouco, de lutar e
vencer o chefe dos demônios. Na minha opinião, essas pessoas que se mostram tão
‘boazinhas’ é que são ingênuas. Aliás, mais do que isso: são verdadeiramente
‘imaturas’”. Conforme já disse, esta é, de fato, a ingenuidade de subestimar quem não
é ingênuo.
Como os nossos fiéis já sabem, atualmente, não há quem não possua toxinas, e essa
situação ocorre também no corpo espiritual. Também não existe ninguém sem falhas.
É por isso que Deus nos concede a salvação por meio da purificação. É tal qual a
famosa frase: “Quando penso sobre o outro: ‘que tolo ele é’. Na verdade, estou me
referindo à minha pessoa. E também quando penso: ‘que ingênuo ele é’, trata-se de
mim mesmo.”
Aproveitando a oportunidade, vou falar a respeito de mais uma coisa. Eu consigo
saber perfeitamente, e somente o necessário, o que qualquer pessoa sente. Só que,
como não conto isso às pessoas, estas ficam preocupadas e acham que não estou
sabendo o que está se passando. Na verdade, estou ciente de tudo, só que calado, e
deixo nas mãos de Deus. Procedo dessa maneira, porque Deus retira as pessoas que
não têm mais jeito. Ou então, em caso de pessoas más, Ele resolve a questão,
tirando-lhes até mesmo a vida. Isso já ocorreu com algumas pessoas e, por esse
motivo, creio que os fiéis mais antigos estejam cientes disso. Conforme já disse, deixo
tudo nas mãos de Deus. Já que me mantenho sem preocupações, meu sentimento
assemelha-se à suave brisa da primavera. Do meu ponto de vista, posso dizer que a
maioria das pessoas são ingênuas. Mesmo os heróis em âmbito mundial ou os
dignitários do Japão são pobres coitados que me parecem crianças inocentes. Entre
todas, as pessoas perversas são as mais ignorantes. Isso é interessante, pois a
fundadora Sayo Kitamura, da religião Odoru Shukyo(75), só de ver a fisionomia da

74
pessoa era capaz de chamá-la de verme. Sua maneira de se expressar é rude, mas
acredito ser uma verdade. Vou encerrar minha explanação, pois acabei me desviando
muito do assunto propriamente dito.
Jornal Eiko nº 208, 13 de maio de 1953

(75)
Odoru Shukyo: denominação popular da religião Tensho Kotai Jingu-kyo, uma das novas religiões, fundada em
1945. Sua prática doutrinária objetiva alcançar o estado da impessoalidade pela eliminação do apego e do egoísmo
por meio de uma dança hipnótica.

75
REPUTAÇÃO E EMOÇÕES(76)

É do conhecimento de todos que, muito mais do que se supõe, existe uma relação
entre a boa ou a má reputação do ser humano e seu destino. Nem podemos
imaginar o quanto podem influenciar no destino de uma pessoa comentários como:
“Aquela pessoa é confiável devido ao seu bom nome” ou: “Devemos tomar cuidado
com tal pessoa, devido à sua má fama.” Obviamente, nada é melhor do que ter uma
boa reputação. Uma vez que essa questão se encontra profundamente relacionada
com a fé, desejo falar a respeito disso porque os espíritos malignos se aproveitam
muito dessa situação.
Inclusive, nesse sentido, nossa religião vem sendo muito visada por esses espíritos
até hoje. Seu método consiste em utilizar-se dos meios de comunicação orais e
escritos para espalhar boatos e tentar prejudicar nossa reputação. Já que a expansão da
Igreja é bastante afetada devido a isso, não podemos nos descuidar. Em termos
individuais, é preciso estar muito atento. Afinal, as emoções controlam o ser humano
e, portanto, por mais irrelevante que seja o motivo, ferir os sentimentos é mais
prejudicial do que se imagina. Logo, é melhor não impor o nosso ga, tentando levar
adiante a própria opinião. Em resumo, mesmo que percebamos que a colocação da
pessoa está um tanto equivocada, é melhor demonstrar concordância e generosidade.
Em outras palavras, sem pensar em vencer, deixar que o oponente vença sempre. A
afirmação “perder para vencer” é uma expressão apreciável. Tenho adotado esse
critério e vejo que o resultado é sempre melhor.
Embora afirmemos que é melhor deixar que as pessoas nos vençam, existem
situações nas quais não devemos perder, mesmo que isso raramente ocorra. Em dez
casos, é melhor perder em oito ou nove. Às vésperas de ser crucificado, Cristo disse:
“Venci o mundo(77).” Acredito que ele nos ensinou a referida verdade. Mesmo
baseado em minhas experiências vividas durante muito tempo, acredito que cheguei à
condição atual por ter perdido inúmeras vezes. O ser humano sempre tem a forte
vontade de vencer e não quer perder, mas é melhor que pense de forma contrária.
Jornal Eiko nº 232, 28 de outubro de 1953

(76) Título anterior: “Sentimento e reputação”


(77) João 16:33: Bíblia de Estudo Almeida.

76
NÃO SEJA ODIADO

J á lhes disse que não devemos odiar ninguém. Digo-lhes, também, que não sejamos
odiados porque, quando isso ocorre, os maus pensamentos da outra pessoa, como o
ódio, o ciúme, o desejo de vingança, entre outros, chegam até nós por intermédio dos
elos espirituais. E isso nos atrapalha, provocando sempre desconforto e mau humor e
impedindo a boa sorte e o bom andamento do nosso trabalho. Sendo assim, é preciso
que tomemos o máximo de cuidado.
Todavia, neste mundo, existem muitas pessoas que não se importam em torturar o
próximo e torná-lo infeliz. Apesar disso, são elogiadas pelo êxito que alcançam em
suas profissões. Os que as observam não conseguem perceber além do que é visível e
procuram imitá-las, julgando ser esse o caminho certo para o sucesso. Devido ao
aumento do número de tais criaturas, o mundo não melhora. Se observarmos isso a
longo prazo, veremos que “se semeamos o mal, colhemos o mal”. Dessa maneira,
todos os perversos, sem exceção, infalivelmente se arruinarão.
Assim, para que possamos viver prazerosamente, para que nosso trabalho se
desenvolva satisfatoriamente e para que as desgraças sejam mínimas é preciso, ao
contrário do que foi apontado, alegrar nossos semelhantes e torná-los felizes. Quem
age assim, merece ser chamado de sábio. E o fundamento da Religião é divulgar esse
princípio.
Conforme costumo dizer, a frase: “Tolo é a denominação do homem mau” é uma
eterna verdade.
Jornal Eiko nº 113, 18 de julho de 1951

77
NÃO TRANSGRIDA A ORDEM(78)

D esde os tempos antigos, existe a máxima: “Deus é ordem.” Essa afirmação é de


vital importância para tudo em nossa vida. Por esse motivo, é preciso que
tenham consciência disso.
Observando os movimentos de todas as coisas da natureza, podemos notar que
estas se movem dentro de uma perfeita ordem. Por exemplo, as estações do ano
seguem determinada sequência: do inverno passa para a primavera, depois para o
verão e, finalmente, para o outono. As flores também desabrocham seguindo essa
mesma ordem: primeiramente as das ameixeiras, depois as das cerejeiras, seguidas das
glicínias e das íris. A criação e o desenvolvimento na natureza ocorrem todos os anos
sem nenhuma falha. Assim, ela nos ensina a ordem. Se o ser humano desconhecer o
que é ordem e lhe for indiferente, nada se passará em harmonia. Os obstáculos serão
frequentes, e o caos se estabelecerá facilmente. No entanto, até hoje, a maioria dos
seres humanos não têm respeitado a ordem, o que é compreensível, pois não há quem
os ensine a fazê-lo. Buscarei apresentar um panorama sobre ordem que deve ser
conhecido por todos.
Primeiramente, é necessário saber que os fenômenos do Mundo Material são
“transferências” vindas do Mundo Espiritual e, ao mesmo tempo, se refletem no
Mundo Espiritual. Uma vez que ordem significa caminho e lei(79), transgredi-la
significa desviar-se do caminho, violar a lei e não manter a civilidade. O termo
budista doho-reissetsu(80) expressa esses aspectos a respeito da ordem.
Há uma ordem a ser respeitada pelo ser humano em suas atividades cotidianas bem
como no comportamento entre os familiares. Por exemplo, quanto à disposição das
pessoas em um aposento, a parte principal deste é o tokonoma e, na sua ausência, essa
parte será o local mais afastado da entrada. Nessa ordem, deve sentar-se o pai, depois
a mãe, o primogênito, a primogênita, o segundo filho, a segunda filha e assim por
diante. Procedendo-se assim, as conversas em família transcorrerão em harmonia.
Por mais que se preze a democracia, se estivermos em desacordo com a lei,
evidentemente não há razão para que os resultados sejam positivos. Vejamos:
suponhamos que haja uma ponte que só pode ser atravessada por uma pessoa de cada
vez. Se muitas pessoas tentarem atravessá-la ao mesmo tempo, obviamente o tumulto
se estabelecerá, e todas se precipitarão no rio. Não haverá outra forma, senão
atravessar uma de cada vez. Nessa ocasião é que se observa a necessidade da ordem.
Outro exemplo: suponhamos que alguém venha nos visitar. O assento a ser
ocupado pelo visitante e sua localização no aposento obedecem a uma ordem que
depende da relação do visitante com o dono da casa: se é a primeira vez que se
encontram, se são amigos ou conhecidos; se é um superior ou subalterno. Da mesma
forma, as saudações devem ser adequadas ao momento, pois de acordo com a pessoa,

78
há diferença. Por conseguinte, se atentarmos para esses pontos, tudo correrá bem e
não haverá nenhum mal-estar. Mesmo em relação às senhoras, aos idosos e às
crianças, é igualmente importante levar em consideração a atitude e a maneira de
conversar. O essencial é, na medida do possível, causar-lhes uma impressão
agradável. Este deve ser o critério principal.
Existem famílias que reservam os aposentos dos filhos e dos empregados nos
andares superiores da casa e o dos pais no andar inferior, mas esse procedimento não
está correto. Nessas famílias, os filhos e os empregados passam a não mais dar
ouvidos aos respectivos pais e patrões. E quando, ao invés do marido, a esposa dorme
na parte principal do aposento, ela deixa de ser gentil.
Há pessoas que cultuam budas e divindades em altares entronizados no andar
térreo e dormem no andar superior. Uma vez que a divindade fica em posição inferior
em relação ao ser humano, ela não consegue manifestar forças para a concessão de
graças. Além disso, trata-se uma grande falta de respeito, sendo até preferível deixar
de entronizá-los. O mesmo se aplica ao altar dos antepassados: posicionar-se acima
dos antepassados é uma grave falta de respeito por parte dos descendentes. Afinal de
contas, como os eventos ocorridos no Mundo Material se refletem no Mundo
Espiritual, o equilíbrio existente entre os dois mundos é rompido.
Esta lógica também se aplica ao país e à sociedade, sendo que a consequência mais
grave é o conflito no setor industrial, entre capitalistas e trabalhadores. Nenhuma
ação é mais transgressora à ordem do que o controle dos meios de produção que é,
em especial, o pior de tudo. Vamos supor o caso de uma empresa. Para administrar e
fazê-la progredir, é preciso que a ordem seja observada em todos os sentidos. Em
outros termos, o presidente deve assumir o controle geral; os membros da diretoria
devem tomar parte na deliberação dos assuntos de maior importância; os técnicos
devem empenhar-se em suas especialidades e os trabalhadores, naquilo que lhes
compete. Se todos se organizarem em forma de pirâmide, com certeza, a empresa não
deixará de prosperar. No entanto, uma vez que aquele que controla os meios de
produção inverte a pirâmide, fica evidente que o negócio acabará entrando em
colapso. Já que o conflito entre capitalistas e trabalhadores acaba por arruinar ambas
as partes, isso constitui uma tolice. É necessária, portanto, uma administração que
concilie as partes, observe a ordem e priorize a paz. Não há outro meio para que
todos alcancem a felicidade.
Creio que o primeiro passo para se obter a prosperidade consiste em eliminar a
desagradável palavra “conflito” do setor industrial. No entanto, no passado, a
administração excessivamente egoísta dos capitalistas e a exploração da classe
trabalhadora acabaram originando o comunismo. Hoje, como reação à reação, o
comunismo passou dos limites, e a indústria entrou em decadência, causando a
redução da produção. Por esse motivo, desejo que despertem o quanto antes para essa
realidade e manifestem, ao máximo, o espírito de colaboração com vistas à construção
de um novo Japão. Eis o sentido das minhas palavras: “Respeite a ordem.”
Durante a Segunda Guerra Mundial, o primeiro-ministro japonês Hideki Tojo(81)

79
conclamou os presidentes de empresas a tomar a dianteira e a liderar seus
trabalhadores, assim como ele agia em seu governo. Contudo, não existe erro maior
nesse procedimento, pois, desde os tempos antigos, o termo keirin – que significa
administrar negócios –, também tem o sentido de “fazer girar uma roda”. Ou seja, o
líder corresponde ao eixo de uma roda. Quanto menos o eixo se mover, melhor a
roda gira. Quanto mais próximo do eixo, menor o giro. Quanto mais distante, maior
o giro. Se o eixo estiver frouxo, é natural que a roda não gire bem.
De acordo com a lógica acima, quanto mais próximo do eixo, menor é o número de
pessoas encarregadas. À medida que se afasta do centro, cresce o número de pessoas
envolvidas. Em torno da roda do carro, há os pneus que, por estarem em contato
direto com as ruas e estradas, executam uma tarefa mais árdua. Creio que, por meio
desse exemplo, puderam compreender o que significa ordem. Assim sendo, se os
líderes se mantiverem na retaguarda, comandando por meio de sua inteligência, todos
os seus empreendimentos se desenvolverão a contento.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

(78)
Título anterior: “Respeite a ordem”
(79) Aqui, Meishu-Sama se refere à lei como no budismo, considerando-a um código de procedimentos. Lei
também pode ser o conjunto de regras advindas dos costumes, tradições e convenções de determinada cultura.
(80) Conforme publicado no Jornal Eiko nº. 102, de 2 de fevereiro de 1951, Meishu-Sama explica que dōhō

significa caminho e lei: “Caminho é estar de acordo com o Dōri (Caminho Pefeito) e, por afastar-se dele, surgem
os conflitos entre as pessoas, a desarmonia no lar e o distúrbio da ordem social. A lei à que me refiro não é somente
a criada pelo ser humano, mas também a lei divina, que é invisível, mas não deve ser violada de forma alguma. (...)
Em relação à palavra reissetsu (etiqueta, boas maneiras, civilidade), esta é, sem dúvida, a mais necessária ao homem
contemporâneo. Principalmente, porque as boas maneiras entre as pessoas de hoje decaíram muito mais do que no
passado.”
(81) Hideki Tojo: foi primeiro-ministro do Japão de 18 de outubro de 1941 a 22 de julho de 1944. Lutou pela

contenção do comunismo na Ásia.

80
ORDEM

D esde os tempos antigos, dizem: “Deus é ordem.” Concordo plenamente. Em


qualquer situação, se algo não transcorre tranquilamente, é porque a ordem não
está sendo respeitada, principalmente no que diz respeito às relações humanas. Há
uma máxima em chinês que afirma: “Mesmo entre um casal, deve haver distinção
entre as partes. Entre o mais velho e o mais jovem, deve haver ordem(82).” Realmente,
são palavras sábias.
É surpreendente a quebra de ordem que vem ocorrendo ultimamente na sociedade.
A ordem e a civilidade estão intimamente relacionadas, e isso exige especial atenção.
Conforme podemos comprovar quando observamos a Grande Natureza, tudo segue
uma ordem: a sequência da primavera, do verão, do outono e do inverno; a
alternância dos dias com as noites; o crescimento da vegetação etc. Jamais ocorre de
as flores da cerejeira desabrocharem antes das flores da ameixeira.
Podemos citar vários exemplos.
De nada adianta ir orar a uma divindade depois de tratar de outro assunto
qualquer, pois, nesse caso, o “outro assunto” se tornou prioritário, e a divindade ficou
relegada a segundo plano. O mesmo se passa quando alguém vai receber Johrei em
situação de doença. Primeiramente, devemos dirigir-nos à Igreja para recebê-lo e,
depois, resolver outras questões. Assim procedendo, nem é preciso dizer que a
eficácia do Johrei será mais notável.
Tenho observado frequentemente pessoas que constroem casas, reservam para seus
filhos os aposentos do andar superior e ficam com o cômodo do térreo. Por estarem
ocupando uma posição superior, os filhos passam a não mais dar ouvidos aos pais. O
mesmo se dá no caso de patrão e empregado. Por essa razão, é preciso prestar muita
atenção a esse aspecto.
Pode parecer irrelevante, mas o mesmo cuidado se deve ter para com a ordem dos
assentos em uma sala. O chefe da família deve ocupar a parte principal; em seguida, a
esposa e, depois, o primogênito, a primeira filha, o segundo filho etc. Procedendo-se
assim, o ambiente se torna plenamente harmonioso. Do contrário, é muito natural
que possam ocorrer contendas e situações desagradáveis. Já participei de muitas
reuniões cujo clima pesado podia ser logo percebido por quem chegasse. Notei que
isso geralmente se passava quando a disposição dos assentos não estava de acordo
com a ordem.
De modo geral, para se definir os lugares, devem ser considerados de ordem
inferior aqueles que ficam próximos à entrada do recinto, e de honra, os que estão
mais afastados. Sabemos que a parte principal é a que se localiza em frente do
tokonoma. Portanto, é preciso levar em conta o tokonoma e a entrada e definir os
lugares com base no bom senso.

81
Em relação ao lado direito ou ao lado esquerdo, vemos que este é de ordem
superior, pois representa a parte espiritual; o lado direito se subordina a ele, pois
equivale à parte material. Note-se que o braço direito é o mais utilizado, por
corresponder à matéria.
Coletânea Série Jikan, vol. 5, 30 de agosto de 1949

(82)
Preceito preconizado por Mêncio (filósofo e sábio chinês, 370 a.C. – 289 a.C) com base nas Cinco Virtudes
Cardeais do confucionismo. Segundo tal preceito, para que uma sociedade pudesse prosperar e funcionar de
maneira harmoniosa e ordenada, eram necessárias a justiça e a retidão entre soberanos e servos; a amizade entre
pais e filhos; a distinção entre marido e esposa; a ordem entre velhos e jovens, e a confiança entre amigos.

82
AMOR BENÉVOLO E AMOR MALÉVOLO(83)

F requentemente ouvimos dizer que fé é amor. Todavia, existem vários tipos de


amor: o benévolo, o malévolo, o amplo, o limitado etc. É por isso que os
praticantes da fé precisam ter uma correta percepção sobre o amor.
Em primeiro lugar, vejamos alguns exemplos de amor benévolo. Temos,
naturalmente, o amor familiar, ou seja, entre cônjuges, pais e filhos, e irmãos. Há
também o amor entre amigos, parentes, conhecidos e outros tipos de amor comum
entre os seres humanos. Por mais que essas espécies de amor se intensifiquem, não há
o que criticar. Contudo, o problema é o amor malévolo.
Não é necessário explicar que o amor malévolo é o oposto do benévolo e destrói a
harmonia entre o casal, provoca o distanciamento entre pais, filhos e irmãos, e
acarreta discórdia entre amigos e parentes. É o que se tem verificado amplamente na
sociedade, e sua causa reside ora no amor malévolo, ora no amor escasso.
Acima, fiz uma classificação sumária entre amor benévolo e amor malévolo. Em se
tratando de amor, o relacionamento amoroso é o que mais necessita ser comentado.
Já me referi a respeito desse assunto em outras oportunidades, mas mesmo em se
tratando de relacionamento amoroso, há o benévolo e o malévolo. Naturalmente, o
namoro sincero entre os jovens que objetivam o casamento, é o benévolo. Entretanto,
há um tipo de relacionamento que tem ocorrido frequentemente na sociedade, levado
pelo capricho e pelo impulso momentâneo, um amor intempestivo como uma febre:
este é, naturalmente, um amor malévolo. Em suma, devemos considerar amor
malévolo aquele que não apresenta nenhum traço de Inteligência Superior(84). Se o
amor atinge um grau extremo, invariavelmente gera situações trágicas. Isto porque,
apesar de a pessoa já ter marido ou esposa, acaba dirigindo seu interesse amoroso
para outro alvo, o que gera uma situação complicada. Há pessoas que, por se
entregarem a um prazer temporário, acabam arruinando sua existência, havendo
ainda aquelas que acabam perdendo a vida. Não há nada mais absurdo; por essa
razão, digo-lhes para serem extremamente prudentes.
Comentei, acima, sobre o relacionamento amoroso benévolo e malévolo. Agora, o
que mais gostaria de falar é sobre a amplitude do amor. O tipo de amor a que me
referi anteriormente, isto é, o amor entre os familiares e pelas pessoas que nos
rodeiam é amor shojo(85), ou seja, um tipo de amor egocêntrico e bastante comum
entre as pessoas em geral. É inerente às pessoas tidas como bondosas, existindo
inclusive naquelas que não seguem nenhuma religião. Nestes casos, não tenho
nenhuma crítica a fazer. Em se tratando de verdadeiros praticantes da fé, porém, a
situação se torna completamente diferente. O amor dos que têm fé é do tipo daijo(86),
ou seja, altruísta. Este amor, ampliado ao máximo, é o amor à humanidade, é o amor
de âmbito mundial.

83
Devemos atentar para o fato de que os japoneses, até o fim da Segunda Guerra
Mundial, desconheciam o verdadeiro amor daijo. Para eles, a mais elevada forma de
amor era o amor à pátria. Como se sabe, oferecer a vida em prol da nação era seu
maior propósito. Todavia, por ser um amor shojo e por acreditarem que era algo
elevado, o resultado foi a atual e lamentável situação em que o Japão se encontra.
Partindo deste princípio, como o amor a uma etnia ou a uma classe não é
verdadeiro, por mais que aqueles que o cultivam progridam por um tempo, seu
fracasso é inevitável. Consequentemente, como já lhes disse, mesmo que as pessoas se
esforcem com um objetivo limitado, afirmando pertencer a esta ou àquela ideologia,
não há possibilidade de obter um grande sucesso. Assim sendo, tratando-se de
ideologias, só o cosmopolitismo(87) é verdadeiro. Nesse sentido, mesmo no caso da
religião, se ela não for de caráter mundial, não se pode dizer que se trata de
verdadeira salvação. É por esse motivo que a nossa Igreja teve seu nome completado
com o termo “mundial”.
Jornal Eiko nº 74, 18 de outubro de 1950

(83)
Título anterior: “Amor correto e amor incorreto”
(84) Inteligência Superior é aquela manifestada pelas pessoas sábias. Vide Ensinamento “Cinco Inteligências” no
volume 3 da coletânea Alicerce do Paraíso.
(85) Shojo: refere-se àquilo que é micro, preso ao particular em detrimento do todo; é estreito, limitado, restrito,

individual, exclusivista e de curto prazo.


(86) Daijo: refere-se àquilo que é macro; visa ao todo sem se prender ao particular; é largo, amplo, extenso, coletivo,

integral e de longo prazo.


(87) Cosmopolitismo: Meishu-Sama se referiu ao pensamento filosófico que considera a humanidade uma única

nação, não vendo diferença entre os países.

84
PESSOAS MEDROSAS

O bservando o trabalho que estou realizando atualmente, as pessoas sempre se


mostram espantadas, dizendo que me acham realmente audacioso e que tudo o
que faço é baseado em concepções grandiosas. Concordo plenamente com elas. Uma
vez que desejo salvar a humanidade e construir um mundo sem doença, pobreza e
conflito bem como transformar este mundo em paraíso, é natural que as pessoas
comuns considerem que isso não passa de uma megalomania. De fato, eu também
me surpreendo com meus planos grandiosos e com a minha convicção na sua
concretização.
Quando eu era jovem, nunca cheguei a pensar em planos tão extraordinários. Dos
quinze aos vinte anos mais ou menos, eu era muito mais medroso que qualquer outra
pessoa. Sem nenhuma razão aparente, tinha pavor de me encontrar com
desconhecidos. Quando achava que a pessoa era um pouco mais importante, nem
conseguia falar direito com ela. Diante de moças, eu enrubescia, minha visão
escurecia e eu mal conseguia olhar para seu rosto ou lhes falar. E isso me deixava em
um estado de profundo pessimismo. Consequentemente, ficava muito preocupado
pensando se conseguiria, já homem feito, integrar-me à sociedade. Assim sendo,
naquela época, quando via uma pessoa, não havia como não ter a impressão de que
ela era mais inteligente e importante que eu. Comparando o que eu era com o que
sou atualmente, fico admirado com a enorme diferença que se operou em mim.
O motivo que me levou a escrever sobre o assunto foi o desejo de fazer com que os
jovens tímidos, tão frequentes na sociedade, possam ler este texto e inspirar-se.
Coletânea Série Jikan, vol. 5, 30 de agosto de 1949

85
A IRRESPONSABILIDADE DOS SUICIDAS

T odos sabem que, em nossa história, sempre existiram suicidas. Atualmente,


parece que o número deles é maior. Assim, percebemos que não há relação entre
o progresso da cultura e o suicídio.
Creio que o motivo dos suicídios no Japão é bem diferente dos cometidos em
outros países. A meu ver, o que leva os estrangeiros a esse ato extremo é o estresse
psicológico, mas a razão parece ser outra em nosso país.
Durante o feudalismo, o suicídio tinha, na maioria dos casos, uma motivação
psicológica considerada nobre: como forma de pedido de perdão, advertência ao
senhor feudal ou prova de inocência. Dessa forma, chegava a existir certo respeito
pelos suicidas. Podemos perceber essa realidade mais claramente, tomando o caso do
general Maresuke Nogui(88), que, após suicidar-se, passou a ser cultuado como
divindade.
No entanto, podemos dizer que, na atualidade, esses motivos quase não existem. O
estudante e agiota Akitsugu Yamazaki(89), que se suicidou recentemente, por um
momento ficou conhecido pelo sucesso financeiro que obtivera com a agiotagem, mas
acabou em um beco sem saída e, talvez para fugir do sofrimento ou então para se
desculpar publicamente, não viu outro recurso a não ser o suicídio. Analisando bem,
foi um ato de extrema irresponsabilidade. Depois de ter causado grande transtorno
aos outros, “fugiu” para o Mundo Espiritual sem ter reparado, o mínimo que seja, o
mal que fizera. Portanto, podemos dizer que se trata de um ato totalmente
inadmissível. Na verdade, Yamazaki deveria ter empenhado a própria vida para viver
o maior tempo possível e ter-se esforçado em compensar, ainda que fosse em
pequena proporção, o transtorno que causou. Por não ter agido dessa maneira,
podemos considerá-lo um covarde.
Com relação aos famosos suicídios de escritores ocorridos recentemente, também
podemos afirmar que não há como livrá-los da crítica de que foram irresponsáveis.
Talvez eles tenham dado fim à própria vida para acabar de vez com o sofrimento
gerado pela sua conduta imoral; mas o caso é que suas mortes causaram muita
infelicidade e problemas a seus familiares e às pessoas de suas relações.
O que desejo ressaltar é que aqueles que louvam os suicidas cometem um tipo de
pecado. Como prova disso, vou citar o exemplo do Sr. Hidemitsu Tanaka(90), que se
suicidou recentemente em frente ao túmulo do Sr. Osamu Dazai(91). Talvez ele tenha
feito isso para expressar a admiração pelos atos deste último. E não é só isso: não
consigo conter minha surpresa diante do fato de que, após o senhor Dazai ter-se
suicidado saltando nas águas do canal Tamagawa, dezenas de pessoas pularam
exatamente do mesmo lugar. Podemos citar o caso de Missao Fujimura(92), que, há
várias dezenas de anos, se atirou das Cataratas de Kegon. Ainda hoje muitas pessoas

86
seguem seu exemplo, o que é uma prova evidente daquilo que estou querendo dizer.
A seguir, falarei sobre uma das principais causas dos suicídios da atualidade
decorrentes da dependência de drogas como Philopon e Adorm(93). São casos dignos
de profunda reflexão. É preciso fazer com que as pessoas se conscientizem
profundamente de que, embora elas comecem com uma simples dose, no futuro, o
vício em drogas lhes custará a vida. Atualmente, as autoridades perceberam a
gravidade do problema e começaram a proibir seu uso, mas parece já ser tarde
demais.
Desejo pedir especialmente aos jornalistas que não enalteçam, de forma alguma, o
suicídio; pelo contrário, peço que enfatizem categoricamente que ele é um ato de
extrema irresponsabilidade e covardia.
Naturalmente, do ponto de vista religioso, não se devem criticar os mortos; mas,
com o objetivo de, a partir de agora, evitar novos suicídios, resolvi advertir sobre o
quão reprovável é o suicídio. Dessa forma, creio que os espíritos daqueles que
praticaram esse ato se sentirão confortados.
Jornal Hikari nº 45, 14 de janeiro de 1950

(88)
Maresuke Nogui (1849–1912): militar que serviu no Exército Imperial Japonês. Suicidou-se quando o
Imperador Meiji faleceu, como prova de sua lealdade.
(89) Akitsugu Yamazaki (1923–1948): foi presidente do Clube Hikari, que era uma associação criada por

estudantes da Universidade de Tóquio em 1948 e que emprestava dinheiro fora do mercado de crédito legítimo e
sem autorização do governo.
(90) Hidemitsu Tanaka (1913–1949): conhecido escritor japonês do gênero Buraiha, foi discípulo do escritor

Osamu Dazai, de 1935 a 1948. O suicídio de seu mestre, em junho de 1948, foi um forte choque psicológico para
Hidemitsu, que, em última instância, se suicidou em novembro de 1949, no santuário Zenrinji, em frente ao
túmulo de Dazai.
(91) Osamu Dazai (1909–1948): prestigiado escritor japonês, considerado um dos melhores do século XX. Seus

romances se caracterizavam pelo tom pessimista e o discurso em primeira pessoa. Teve suas obras traduzidas em
diversos idiomas e, no Brasil, há o romance Declínio de um Homem (2015). Dazai cometeu suicídio com a sua
última companheira, Tomie Yamazaki, em junho de 1948.
(92)
Missao Fujimura (1886–1903): estudante japonês que cometeu suicídio atirando-se do alto das Cataratas de
Kegon, um famoso ponto turístico. Antes de se atirar, Missao talhou um poema de despedida em uma árvore
próxima. Seu caso teve grande repercussão na época e seu poema intitulado Gantou no Kan, também traduzido
para o inglês como Thoughts on the precipice, é conhecido até os dias de hoje.
(93) Philopon e Adorm: são nomes de marcas de medicamentos vendidos no Japão da época. Philopon é uma

metanfetamina e Adorm, um calmante.

87
TEMPO

AGUARDAR O TEMPO CERTO

Q uando observamos os vários segmentos da sociedade, notamos como é grande o


número de fracassados.
Se o resultado do fracasso se restringisse ao sofrimento do indivíduo e este o
aceitasse como azar ou falha própria, a questão estaria encerrada. A realidade,
entretanto, é que isso não ocorre. O infortúnio de uma só pessoa abate a família e
causa transtornos até mesmo a parentes e amigos, constituindo-se uma espécie de
mal social. Evidentemente, no início de tudo, a pessoa não tinha intenção de
prejudicar ninguém; no entanto, do ponto de vista do resultado, a situação se torna
um problema que não pode ser ignorado.
Assim sendo, é preciso examinar com profundidade o motivo do insucesso, que
normalmente se encontra em um ponto que passa despercebido. Ou seja, ao conceber
um plano, inicialmente a pessoa prepara-o cuidadosamente para que nada falhe. Pelo
menos ela imagina assim, mas, quando se entrega à execução da obra, infelizmente as
coisas não correm como esperava. Inesperadamente, começam a surgir dificuldades e
obstáculos, a pessoa fica perdida sem saber como agir e acaba perdendo o rumo. Esta
é a trajetória habitual dos que não têm sucesso. Vejamos, agora, onde se encontra a
razão do fracasso.
Resumindo em uma frase, podemos dizer que o motivo se deve ao menosprezo do
fator tempo. O tempo é um fator absoluto em tudo o que se relaciona ao ser humano.
Por exemplo, as flores, os frutos, os produtos agrícolas, tudo tem seu momento.
Mesmo que as demais condições sejam favoráveis, se o momento não for condizente,
não há como os resultados serem bons.
As flores desabrocham na primavera, porque seus bulbos são cultivados no outono;
aquelas que nos encantam do verão ao outono, são plantadas na primavera.
Os frutos também têm sua época de amadurecimento. Não podemos saboreá-los
enquanto estão verdes; quando maduros, tornam-se alimentos deliciosos. Os
produtos agrícolas têm seu tempo certo de semeadura e transplantação. Além disso,
naturalmente, eles precisam de temperatura e clima adequados.
Conforme pudemos ver, a Grande Natureza ensina ao ser humano a importância
do tempo. Ela, em seu estado original, é a própria Verdade. Por essa razão, o homem
deve ter sempre a Grande Natureza como referência em todas as suas realizações.
Aprender com ela é a condição suprema para não fracassar.
A terapia espiritual(94), o cultivo de produtos agrícolas sem o uso de fertilizantes(95) e
outros métodos que eu preconizo praticamente não fracassam e geram bons
resultados porque os mesmos respeitam a Grande Natureza.
Assim sendo, jamais me precipito com relação a um planejamento. Analiso de

88
maneira objetiva e exaustiva todos os ângulos possíveis e, após uma madura reflexão,
certifico-me de que o projeto é correto, útil à humanidade e duradouro em todos os
aspectos. Depois disso, faço os preparativos necessários e aguardo o tempo certo para
sua execução.
Sucede-se que a maioria das pessoas não têm paciência para esperar o momento
propício. Como se lançam à obra prematuramente, surge o desequilíbrio entre o
projeto e o tempo, e o andamento não evolui conforme o desejado. Desse modo, a
pessoa se precipita, aumentando ainda mais o descompasso e aí sobrevém o fracasso –
as coisas acabam seguindo essa ordem. Portanto, o essencial é ter paciência para
aguardar a chegada do tempo certo. Todas as coisas possuem seu melhor momento.
São totalmente procedentes os velhos provérbios: “Quem espera, sempre alcança”,
“Se esperarmos, teremos bom tempo para navegar” e “Mire e acerte o alvo.”
Outrora, muitas pessoas se impacientaram com a minha maneira de agir. Houve
também as que me apresentaram sugestões e manifestaram suas aspirações. Como eu
demorasse a executá-las, elas se impacientavam ou se questionavam. Quanto a mim,
estava tão somente à espera da chegada do tempo adequado para iniciá-las. As
conhecidas falas, “Aproveite os bons ventos”, “Espere a chance, mas não a deixe
passar” e “Aproveite o momento oportuno”, confirmam muito bem essa lógica.
Então, como podemos concluir que se trata do momento propício? Primeiramente,
já com todas as condições preenchidas, as circunstâncias nos impulsionam a colocar o
plano em execução. Sendo este o momento em que o tempo se encontra
suficientemente amadurecido, ao iniciarmos a concretização do plano, tudo se
processará, com facilidade, sem se forçar a situação. Assim sendo, pouparemos
esforços e tudo correrá suave e naturalmente. Em suma, devemos agir sempre após
cuidadosa ponderação. Por exemplo: caso haja um obstáculo na frente de uma pedra
pesada que desejamos empurrar ladeira abaixo, necessitaremos de muita força. Se
soubermos esperar pacientemente, o obstáculo cederá pelo peso da própria pedra.
Com o tempo, ela rolará até com o empurrão de um dedo.
“Se o rouxinol não canta, esperarei até que ele cante”. Este poema é alusivo ao
caráter de Ieyasu Tokugawa(96), fundador de uma dinastia que perdurou trezentos
anos, o qual sabia dar tempo ao tempo.
Creio que com o que eu disse puderam compreender o quanto é importante o
tempo certo. Conforme consta no Ofudesaki(97): “Com o Tempo, nem Deus pode.”
Realmente, trata-se de uma sucinta, porém, extraordinária afirmação.
Jornal Hikari nº 14, 25 de junho de 1949

(94) Na época em que este Ensinamento foi escrito, o Johrei era chamado de terapia espiritual.
(95)
Nessa época, a Agricultura Natural era referida simplesmente como agricultura sem uso de fertilizantes.
(96) Ieyasu Tokugawa (1543–1616): fundador e primeiro xógum do Xogunato Tokugawa, dinastia que durou de

1600 a 1868.
(97) Ofudesaki: livro sagrado de revelações divinas da religião Oomoto.

89
90
O DEUS DO TEMPO(98)

T udo o que existe, inclusive as coisas relativas ao ser humano, são regidas pelo
deus do Tempo. O ininterrupto desenrolar da história em períodos de ascensão
e decadência, as definições do que é bem e do que é mal, do certo e do errado, nada
disso ocorreria fora do seu domínio. Nesse sentido, aquilo que agora é tido como um
bem, daqui a alguns anos poderá ser um mal; aquilo que hoje é considerado verdade,
poderá cair em desuso daqui a alguns anos por constituir uma inverdade. A história
do passado nos mostra claramente que as coisas que atualmente estão no apogeu, no
futuro, infalivelmente, chegarão à decadência. Assim, dizem que não existem nem
bem nem mal absolutos. Há também uma expressão antiga que afirma que o bem e o
mal são duas faces da mesma moeda. Certamente, tudo isso é verdade.
Um fato não muito distante é que, até antes do término da Segunda Guerra
Mundial, os japoneses acreditavam que não havia nada que superasse o amor à pátria
e a lealdade ao Imperador e tratavam suas preciosas vidas levianamente. No entanto,
como será que eles estão vivendo hoje em dia? Certamente, o resultado foi
completamente contrário às expectativas da época e, diante do trágico destino
enfrentado, acredito que tenham compreendido e gravado profundamente, em suas
mentes, o quanto estavam equivocados.
É claro que essa inversão ocorreu abruptamente com o fim da guerra; por essa
razão, não resta dúvida de que foi algo definido pelo próprio Tempo.
Há um exemplo muito ilustrativo que ocorreu em uma época não muito remota da
nossa história e que não podemos deixar passar despercebido. Com a restauração da
Era Meiji, todos os senhores feudais da então próspera Era Tokugawa acabaram
perdendo prestígio. Por outro lado, um simples estudante, um quase desconhecido,
tornou-se ministro de Estado, fato que se assemelha muito à conjuntura atual. De
que forma as pessoas encaram a decadência das classes privilegiadas do pré-guerra
como a família imperial, a nobreza e os milionários? Indubitavelmente, isso ocorreu
graças ao deus do Tempo. O ensinamento da fundadora da Igreja Oomoto: “Com o
Tempo, nem Deus pode” – são palavras de profunda sabedoria. Por esse motivo,
sinto que não seria inconveniente afirmar que o deus do Tempo é que rege tudo o
que existe sobre a Terra.
Pelas razões aqui expostas, não posso deixar de pensar que o ser humano precisa
prestar mais atenção a este ser absoluto chamado Tempo.
Revista Tijo Tengoku nº 5, 25 de junho de 1949

(98)
Título anterior: “Tempo é Deus”

91
92
APRIMORAMENTO

A PARÁBOLA DA ESPADA

D esde os tempos antigos, para se fazer uma boa espada é necessário caldear o
ferro até a incandescência, batê-lo com martelo sobre uma bigorna e, em
seguida, mergulhá-lo na água. Repete-se várias vezes essa operação para forjar uma
espada. Acho esse processo muito interessante, pois também pode ser aplicado à vida
do ser humano.
Após sua instituição, com o decorrer do tempo, nossa religião tem recebido tanto
elogios quanto críticas e ataques. Diversas vezes fomos lançados à água escaldante e
mergulhados na água fria.
Muitas vezes, as pessoas me perguntam: “Por que ocorrem tais fatos?” Como
resposta, apresento-lhes o exemplo do caldeamento da espada, e elas compreendem
facilmente.
Desde os tempos mais remotos, quem realiza um trabalho extraordinário, sem
exceção, passa por provações semelhantes ao processo de forjar uma espada.
Analisando sob o aspecto religioso, isso significa que Deus impõe maiores
dificuldades a quem tem maior missão. Portanto, ao contrário do que pensamos,
devemos nos alegrar.
1949

93
BECO SEM SAÍDA

N ão só as pessoas em geral, mas também nossos fiéis, frequentemente, utilizam a


expressão “beco sem saída”. Eles assim se expressam por não conseguirem
discernir a verdade das coisas.
Se são os impasses que abrem caminho para o progresso, então não são, de fato,
impasses. Estes se assemelham à pausa para tomar fôlego em uma corrida ou aos nós
do bambu. As varas do bambu se mantêm firmes devido à formação de nós no curso
de seu desenvolvimento; se faltassem nós, elas não apresentariam sua conhecida
resistência. Quanto mais nós tem o bambu, mais forte ele é. A natureza é sempre um
bom exemplo. Observá-la detidamente facilita a compreensão da maioria das coisas.
Referi-me aos nós que vemos na natureza. Entretanto, o problema é que não são
poucas as pessoas que criam “nós” artificiais para si mesmas por falta de sabedoria e
incapacidade de prever as consequências. Essas pessoas é que acabam se deparando
com obstáculos, ficando sem poder avançar nem recuar. A elas recomendo que leiam
atentamente o presente texto e o guardem no fundo do coração. E, no momento em
que se encontrarem diante de uma dificuldade, se olharem para trás e refletirem
profundamente, compreenderão as causas e perceberão em que ponto erraram.
O ser humano precisa manter sua inteligência sempre aguçada e, para tal, deve ler
os Escritos Divinos tantas vezes quanto possível.
Jornal Eiko nº 180, 29 de outubro de 1952

94
DÚVIDA

palavra “dúvida”, embora não soe muito bem aos nossos ouvidos, representa o
A que há de mais precioso. Com efeito, a dúvida pode ser considerada a mãe da
civilização, pois, com certeza, é a partir dela que nascem novas filosofias, teorias e
ciências. O sábio chinês Zhu Xi(99) disse: “A dúvida é o princípio da crença.” De fato,
são palavras eternas.
Por exemplo, é natural que, entre as pessoas em geral, surjam dúvidas como: “Por
que a Igreja Messiânica Mundial, uma religião nova, expandiu-se tanto em tão pouco
tempo?”; “Por que será que ocorrem milagres tão maravilhosos como os relatados nas
experiências de fé?”; “Como se explica a rápida construção dos protótipos do Paraíso
Terrestre por meio de grandiosos projetos sem precedentes?”
Contudo, duvidar apenas por duvidar nada significa. Acredito que surja a vontade
de desvendar esses mistérios. Isso é louvável porque, a partir dessa vontade, será
possível compreender a verdade, ampliar o conhecimento e desenvolver-se.
Portanto, devo dizer que, quanto mais a pessoa duvida, mais progressista ela é e
terá um futuro promissor. Existem, porém, algumas sem muita sorte que, embora
duvidem, infelizmente, não encontram quem lhes possa mostrar a Verdade e acabam
enveredando por um labirinto em que as dúvidas geram mais dúvidas. Grande parte
das pessoas é assim. Entre elas, há algumas que fazem pouco caso das verdades
pregadas pela nossa Igreja e as deixam passar despercebidas. São criaturas
extremamente infelizes.
Ao imaginar as pessoas que, antes, duvidavam e, hoje, após o ingresso na nossa
religião foram salvas e estão repletas de alegria, conclui-se que não há nada melhor
que a dúvida. Assim sendo, creio que puderam compreender que o ser humano deve
ser capaz de duvidar e mais: ter coragem para expor as próprias dúvidas.
Dúvida, oh, dúvida, és maravilhosa!
Jornal Eiko nº 96, 21 de março de 1951

(99) Vide nota de rodapé nº 7 do Ensinamento “Fé correta”.

95
LIBERTAÇÃO(100)

D esde os tempos antigos, ouvimos falar bastante em libertação. Contudo, não se


pode defini-la facilmente como algo bom ou ruim. De acordo com a
interpretação geral, libertação significa sair de um estado de incertezas e obter a
Iluminação espiritual, desapegar-se ou saber desistir. Trata-se, evidentemente, de
uma visão baseada no budismo. Todavia, tal explicação parece soar como fuga ou
afastamento do mundo, um pensamento característico dos orientais.
O fato é que quando a Iluminação atinge um nível alto, geralmente ocorre o
enfraquecimento da força produtiva. Evidentemente, com a perda do espírito
competitivo, em se tratando da população, sobrevém a decadência, como é o caso da
Índia.
Se, por um lado, as incertezas geram forças para o ser humano viver, por outro
lado, o excesso delas é igualmente perigoso. Do mesmo modo, a resignação tem a
inconveniência de provocar uma queda na vitalidade, na energia da pessoa, e a falta
de resignação gera tragédias, principalmente quando se trata do relacionamento
amoroso. Portanto, a libertação total é pouco aconselhável, pois, no final, a pessoa
chega a achar a existência desinteressante, torna-se solitária e vive por viver.
Refletindo sobre o que acabamos de expor, percebemos que, em tudo, o exagero é
prejudicial, ou seja, devemos saber respeitar o limite. O mundo é realmente
complicado e interessante, o sofrimento e o prazer são realidades, e concluímos que a
alegria e o sofrimento são as duas faces da mesma moeda. Esta é a verdadeira
imagem do ser humano. Todavia, a conclusão só será possível com uma explicação
mais aprofundada. É o que farei a seguir.
Há momentos em que o ser humano deve desistir e outros, em que não deve fazê-
lo. A incerteza surge na ocasião em que ele tenta, forçando a situação, tomar uma
decisão. Se não consegue chegar a uma resolução, é porque não está no momento
certo e, por isso, basta esperar sua chegada. O fundamental é, de acordo com o
jishoi(101) e com as circunstâncias, descobrir o melhor método, o que exige Inteligência
Superior. É essa faculdade que gera o poder do correto discernimento, atuando mais
naqueles que possuem menos nuvens espirituais.
Portanto, o essencial é eliminar as nuvens espirituais e, para tanto é preciso ter
makoto, o qual nasce da fé. Podemos chamar de pessoa de grande Iluminação quem
consegue compreender e praticar este princípio.
Revista Tijo Tengoku nº 20, 25 de janeiro de 1951

(100)
O ideograma utilizado para a palavra “libertação” aqui corresponde ao mesmo ideograma utilizado no
budismo, remontando a um de seus princípios. Em outras palavras, “libertação” refere-se à libertação do
sofrimento, também entendido como Nirvana, estado de perfeita paz da mente, na qual a pessoa se liberta das
preocupações e desejos mundanos.

96
(101) Jishoi: termo originário do neoconfucionismo japonês do início da Era Edo (1603–1868), seu significado
literal é “tempo-local-posição.” Transmite o sentido de que o ser humano deve agir em conformidade com o
tempo-local-posição em que se encontra, pois o que é bom em um momento, pode ser ruim em outro. De acordo
com este preceito, aquele que consegue adaptar-se habilmente às situações, está em conformidade com o Caminho.

97
INSTINTO E ABSTINÊNCIA

S egundo o conhecido filósofo alemão, Friedrich Wilhelm Nietzsche(102), o ser


humano já nasce com vários instintos, que é praticamente impossível conter pela
força humana. Esses instintos assemelham-se ao predestino, em relação ao qual nada
pode ser feito. À primeira vista, até poderíamos concordar, mas a explicação apenas
nesses termos dá a entender que a imoralidade também é admissível, o que vem a ser
uma ideologia perigosa. Em se tratando de intelectuais, poderão encará-la como uma
teoria, mas do nosso ponto de vista, como religiosos, de forma alguma podemos
aceitá-la.
No entanto, existem teorias completamente contrárias às de Nietzsche que vêm
sendo praticadas desde os tempos antigos. Entre as religiões, algumas, por exemplo,
adotam uma visão pecaminosa sobre os instintos. Por esse motivo, seus seguidores
praticam o asceticismo de maneira radical, acreditando que o sofrimento decorrente é
sagrado e até o consideram uma forma de aprimoramento e disciplina pessoal. Ao
observarmos objetivamente essa situação, ao mesmo tempo em que não podemos
aceitá-la, notamos que são justamente essas religiões que se apegam aos seus
princípios intransigentemente, não se integrando à sociedade. Podemos citar o
islamismo, o bramanismo da Índia, o puritanismo cristão etc. como sendo os mais
expressivos dentre esse tipo de fé. No Japão, são vistas poucas seitas nos moldes que
citei, mas restam algumas muito similares.
Comparando essas duas correntes contraditórias, não podemos dar ganho a
nenhuma das duas, pois ambas tendem ao extremismo. A respeito disso, Deus nos
tem apresentado um rígido padrão de referência. Assim sendo, tal erro deveria ser
facilmente percebido, mas pela maneira leviana como as pessoas tendem a encarar a
questão, parece que não chegam a compreendê-la. Em suma, trata-se da “Teoria do
Caminho do Meio”, preconizada por Confúcio. Tenho feito considerações a respeito
dessa teoria sob as mais variadas formas; portanto, acredito que os fiéis já estejam
suficientemente cientes. O fato é que, como disse o referido sábio chinês, “falar é
fácil, fazer é difícil”. Não obstante, o Caminho do Meio, em verdade, é o verdadeiro
caminho da fé assim como a Iluminação espiritual pregada por Buda Sakyamuni. Por
essa razão, vou explicar a respeito da maneira mais simples possível.
Primeiramente, tomemos um exemplo comum: o clima nas estações do ano.
Ninguém gosta da época de frio intenso nem do calor excessivo, mas todos acham
extremamente agradável e ficam contentes com a temperatura moderada da
primavera e do outono. Desde os primórdios, o budismo realiza a Cerimônia do
Equinócio, o Higan-e(103), na primavera e no outono. Nesta época, o clima mostra o
estado real do Gokuraku Jodo, o mundo paradisíaco dos budistas. Contudo, o que eu
estou querendo falar é sobre nossa conduta de vida. Devemos, principalmente, evitar

98
os extremos a qualquer custo e em todas as ocasiões. No entanto, a realidade é que o
ser humano tende a optar por um lado ou pelo outro, o que não deveria ocorrer.
Podemos dizer que a causa do fracasso geralmente se encontra neste ponto. Por outro
lado, há casos em que precisamos decidir, o que é realmente muito difícil. Se
aprofundarmos esse ponto, quando decidimos que não vamos decidir, tal atitude já
constitui uma decisão. Por conseguinte, não devemos decidir nem deixar de fazê-lo e,
muito menos, devemos ficar no meio do caminho. Parece-nos uma situação
realmente ambígua, mas esta é uma lei rigorosa que torna o mundo interessante. Em
suma, basta que a pessoa alcance o estado de livre adaptação à situação de cada
momento [ohen-jizai] e o estado de liberdade e desimpedimento [jiyu-mugue]. O
importante é não ficar preso a nada. Outra denominação da divindade Kanzeon
Bossatsu(104) é Mugueko Nyorai (Deus da Luz Desimpedida), cujo sentido é não ficar
preso a nada.
Nas atuais questões políticas e ideológicas, tem ocorrido o mesmo. O erro está em
rotular os pensamentos de esquerda ou direita, capitalista ou comunista. Isto porque,
tal definição já está sendo limitadora e, em decorrência disso, os confrontos são
inevitáveis. Nos tempos atuais, algo insignificante, infalivelmente, dará origem a
problemas, e esta é a razão da existência de conflitos em toda parte. Vemos o mesmo
tipo de situação nas relações internacionais, em que os desentendimentos não têm
fim. É compreensível que esses choques venham sendo inevitáveis até hoje, pois
graças a eles é que a cultura material alcançou o desenvolvimento atual. Contudo,
daqui para frente, o quadro se tornará diametralmente oposto e isso significa que será
preciso mudar a mentalidade. Em outros termos, finalmente, está prestes a chegar a
era da verdadeira civilização. Basta que avancemos tomando como critério o clima
ameno da primavera e do outono. Esta é a característica da nossa religião messiânica.
Jornal Eiko nº 188, 24 de dezembro de 1952

(102) Nietzsche: Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844–1900) se propõe a fazer uma crítica dos valores morais que
compõem a cultura. Ele coloca em questão esses valores e sugere transformá-los por completo. Sua filosofia
constitui uma exaltação de todos os valores vitais e é uma crítica, – especialmente da tradição filosófica e do
cristianismo – que, segundo ele, levaram o homem à submissão e o impediram de se desenvolver como um espírito
livre. Centralizou sua doutrina em quatro pontos fundamentais: a vontade de potência, o super-homem, a
autossuperação da moral e o eterno retorno.
(103)
Como o equinócio é o momento em que dia e noite têm a mesma duração, acredita-se que, nesse momento, o
Nirvana encontra-se mais próximo e o ato de “cruzar para a outra margem” (a margem da Iluminação) fica mais
fácil.
(104) Vide nota de rodapé nº 35 no Ensinamento “Novamente a respeito de Bergson”.

99
ABSTINÊNCIA

D esde os tempos antigos, pensava-se que, para destacar-se como religioso, era
necessário levar uma vida de abstinência, chegando-se mesmo a pensar que esse
era o melhor meio de compreender e intuir a Verdade, e polir a alma. No entanto, eu
discordo e vou expor minha opinião de forma compreensível.
Tudo na natureza existe em favor do ser humano. Observem as flores da primavera,
os bordos do outono, o cantar dos pássaros e dos insetos, a beleza dos rios e das
montanhas, o encanto das noites de luar, as fontes de águas termais etc. Devemos
pensar no porquê da existência de tudo isso.
Se Deus não criou todas essas coisas para o deleite do ser humano, qual terá sido a
outra possível razão?
As belíssimas vozes dos cantos, a dança, as obras literárias e artísticas etc.
evidentemente satisfazem os próprios autores como também seus apreciadores. Não
apenas isso: os alimentos deliciosos, as construções arquitetônicas, os jardins, as
vestimentas etc., além de suprirem as necessidades da vida humana, contêm
elementos para realmente nos comprazer. Ao saborearmos os alimentos e as bebidas,
nosso corpo se nutre e mantemos a vida. As vestimentas, os alimentos e as residências
poderiam ser simples e sem beleza, se visássemos apenas prover nossas carências. Da
mesma forma, é dispensável dizer que os filhos não são gerados apenas por uma
questão de necessidade.
Uma vez que Deus concedeu ao ser humano a faculdade de apreciar a Grande
Natureza e as criações humanas, o certo é desfrutá-las. A abstinência, que faz a
criatura rejeitar tudo isso e contentar-se apenas com o essencial para a subsistência, é
um pensamento que nega a profunda benevolência divina.
Por outro lado, as classes privilegiadas de até então careciam de altruísmo,
devotavam sua atenção apenas ao divertimento próprio ou ao de seus familiares, sem
considerar o próximo e a sociedade. Era parca a manifestação do sentimento de amor
pela humanidade e o desejo de compartilhar da alegria com as pessoas em geral, o
que constitui um monopólio das bênçãos de Deus. Creio que abrir os grandiosos
jardins e expor as obras de arte pertencentes aos magnatas, enfim, proporcionar a
apreciação de ambos junto ao povo corresponde à Providência Divina.
Vejamos a vida dos antigos santos. Eles levavam uma vida de abstinência em que a
alimentação e as vestimentas eram extremamente simples. Doavam suas preciosas
vidas em nome do lema “um fundador religioso veste roupas feitas de papel a vida
inteira”. Penso que isso contraria as bênçãos divinas. No entanto, quem não percebe
esse ponto, lamentavelmente, tende a não valorizar os religiosos que não praticam a
abstinência. Como já disse, sou contra essa prática e, por essa razão, vivo do mesmo
modo que as pessoas em geral. Penso que isso corresponde à Vontade Divina.

100
O Paraíso Terrestre, portanto, é um mundo de elevado padrão de vida para a
humanidade em que prosperam a arte e outros bons divertimentos.
Além disso, na trilogia Verdade, Bem e Belo, a Verdade significa a ausência da
falsidade, o Bem é a prática de ações corretas e o Belo se refere às coisas belas. Na
vida de abstinência, existe o Bem, mas não há Verdade nem Belo. Por esse motivo,
sinto que essa forma de viver obstrui a evolução da cultura.
É preciso pensar sobre a realidade da Índia que, por tender apenas para uma vida
espiritual, se tornou um país estagnado e defasado culturalmente, conforme podemos
constatar na atualidade.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

101
APRECIAR O BEM(105)

Q uando analiso os divertimentos do mundo, buscando classificá-los em bons ou


maus, vejo que, lamentavelmente, a preferência pelos maus divertimentos
parece ser muito maior. Assim sendo, não são poucas as pessoas que acham que
divertimento é sinônimo de mal.
Ao alcançarem estabilidade financeira, chefes de família passam a querer frequentar
zonas de meretrício e a sustentar amantes. Além disso, parece que, na maioria das
vezes, o dinheiro gasto com isso é ganho de forma escusa. Obviamente, essas práticas
se enquadram no mal. Por essa razão, tais indivíduos se arriscam, causam prejuízos à
sociedade e à nação e, quebrando a harmonia familiar, passam a ter uma vida
intranquila. Apesar disso, julgam que êxito e divertimento são os objetivos máximos
da vida na Terra; porém, sem perceber, acabam levando uma vida infernal. Tais
pessoas quase sempre pertencem à classe acima da média. O povo, encantado tão
somente com o que as aparências lhe permitem ver, é tomado pela inveja e,
acreditando que isto é que é vida, tenta imitá-las. Dessa forma, jamais surgirá uma
sociedade sadia.
Existe até a expressão: “Os honestos saem perdendo.” Isto mostra que as pessoas
que vivem honestamente ficam em uma situação desvantajosa e as que se arriscam
por caminhos tortuosos, obtêm êxito e usufruem uma vida luxuosa. Esta é a situação
atual. Além disso, há as gratificações dos funcionários públicos, o lucro ilícito dos
funcionários de empresas privadas, a renda fraudulenta dos políticos etc. Assim
sendo, gostaria de indagar qual seria o número de pessoas que realmente têm a
consciência limpa, sem nada que as acuse?
Meu propósito é orientar as pessoas da atualidade quanto à apreciação do bem. Ou
seja, mesmo que se tornem figuras de destaque na sociedade, devem evitar as zonas
de meretrício. Caso tenham disponibilidade financeira, devem contribuir em prol da
comunidade, praticando a virtude e ajudando os pobres. Devem devotar-se a Deus e,
regularmente, divertir-se com os familiares, indo ao cinema e ao teatro bem como
realizar excursões e viagens. Tal comportamento gera harmonia em família; a esposa
passa a respeitar e agradecer ao marido, e desaparecem as preocupações de que os
filhos se tornem delinquentes. Consequentemente, uma vez que a intranquilidade
financeira e os problemas de saúde são superados, os apreciadores do bem são
abençoados com longevidade, alegria e esperança.
Kihatiro Okura(106), famoso milionário da Era Meiji, fez uma afirmação muito
interessante: “Se quiserem ter vida longa, não façam dívidas.” Isto porque, não há
sofrimento psíquico maior que o provocado pelas dívidas. Creio que consigo
compreender bem a afirmação de Okura, pois eu também experimentei esse
sofrimento durante vinte anos.

102
No entanto, entre os homens da atualidade, há aqueles que infringem as leis; são
corruptos; preferem negócios obscuros; mantêm segredos conjugais que causam um
grande caos quando descobertos, ou fazem empréstimos com juros altos. Temerosos,
eles vivem constantemente preocupados e buscam aliviar os sofrimentos na bebida.
Eis por que é enorme o consumo de bebidas alcoólicas, não obstante seu alto preço.
Ora, tudo isso afeta a saúde e encurta a vida. Quem entra em um “atoleiro” como
este, via de regra, não consegue escapar. A única maneira de sair dessa situação é
ingressar na religião. Não há outra opção.
Acima, expus o caminho do bem e do mal, ou seja, o caminho daquele que aprecia
o bem e daquele que aprecia o mal. Meus leitores, entre os dois caminhos, qual deles
escolher? Peço que reflitam cuidadosamente sobre o assunto.
Coletânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

(105)
Título anterior: “Apreciação das virtudes”
(106) Kihatiro Okura (1837–1928): empreendedor de origem camponesa que viveu no período inicial de
modernização do Japão. Fundou o grandioso grupo financeiro Okura e, em 1917, construiu o Museu de Arte
Okura – o primeiro museu de arte privado no Japão. Fundou, ainda, a Escola Comercial Okura, que, mais tarde,
se tornou a Universidade de Economia de Tóquio, em 1949.

103
SUBJETIVISMO E OBJETIVISMO

N a vida, o ser humano tende a prender-se à sua visão subjetiva. É fato que isso
ocorre com frequência no universo feminino. Ser vítima do próprio
subjetivismo é altamente perigoso. Isto porque ele – preso a suas convicções e
considerando-as corretas – avalia o próximo de acordo com os próprios critérios, e as
coisas não correm satisfatoriamente. Além de causar sofrimentos aos semelhantes, ele
mesmo se aflige.
Por esse princípio, o ser humano sempre deve analisar-se objetivamente, isto é,
deve criar dentro de si um “segundo eu”, que o observe e o critique. Agindo assim,
certamente não incorrerá em erros.
Há um episódio interessante que envolve Ruiko Kuroiwa, ex-diretor do antigo
jornal Yorozu Choho e conhecido tradutor de romances. Ao mesmo tempo, ele era
um pensador que eu ouvia com frequência. Citarei um trecho dele que muito me
impressionou: “Ninguém nasce perfeito. Se o ser humano deseja verdadeiramente se
aperfeiçoar, deve criar um ‘segundo eu’, o que se pode chamar de um segundo
nascimento.” Ainda hoje, sinto o quanto fui movido e beneficiado por essa teoria.
Jornal Kyusei nº 54, 18 de março de 1950

104
VERDADE E MENTIRA

VERDADE E MENTIRA(107)

melhor optar pela verdade ou mentir? É evidente que a opção pela verdade é o
É melhor caminho. Uma vez que a vida não é simples, há situações em que a
verdade deve ser escolhida e outras, em que a mentira se faz necessária. É
considerado inteligente ou notável, quem consegue distinguir tais situações. Eu penso
o seguinte sobre como fazer essa distinção. Por regra básica, deve-se optar pela
verdade, sempre que possível. Todavia, há casos em que é impossível agir assim; por
exemplo, quando lidamos com um doente. Mesmo que pensemos: “Sua aparência
não é boa; não deve durar muito...”, é melhor mentir. Quer dizer, não há outro
recurso a não ser a mentira.
Contudo, na sociedade, há pessoas consideradas experientes na vida que – para
surpresa geral –, preferem mentir. Analisando o mundo, constata-se que são
numerosos os casos de fracassos devido às mentiras. No entanto, raramente se
fracassa quando se opta pela verdade.
Coletânea Série Jikan, vol. 5, 30 de agosto de 1949

(107)
Título anterior: “Honestidade e mentira”

105
A SUPERSTIÇÃO DA MENTIRA(108)

E ntre os vários tipos de superstições existe uma, pouco notada, que é a superstição
da mentira, ou seja, trata-se da superstição que leva a pessoa a pensar que obterá
êxito mesmo mentindo. Realmente, o homem da atualidade mente demais. A
maioria, acostumada a esse hábito, não se dá conta que mente. Ou seja,
provavelmente não nota que a mentira já foi incorporada à sua pessoa. Quando isso
ocorre com meus servidores, costumo chamar-lhes a atenção, mas a maioria deles não
consegue sequer distinguir a verdade da mentira. Só percebem haver mentido e
pedem desculpas depois de eu lhes explicar claramente a respeito. Mentir tornou-se
tão natural a ponto de deixá-los incapazes de distinguir os limites entre a mentira e a
verdade.
Deixarei de lado as mentiras menores, que não vêm ao caso. Vou procurar escrever
sobre as mentiras que não podem ser desprezadas, ou seja, aquelas que são ditas
consciente e premeditadamente por muitas pessoas.
Começarei por analisar as mentiras proferidas pelos políticos, que são de grandes
proporções. Embora não tenham muita convicção, eles prometem planejar ou tomar
certas medidas políticas. Depois de declará-las com todo aparato, no final, deixam de
cumprir as promessas e, por isso, muitas vezes, são responsabilizados. Há, também,
muitos parlamentares que desprezam os compromissos assumidos com seus eleitores
e julgam essa atitude perfeitamente normal. Do mesmo modo, existem muitos
educadores cujos atos contradizem a grandeza de suas palavras. Também é
considerado senso comum os jornais publicarem artigos repletos de mentiras.
Evidentemente, as propagandas exageradas são igualmente mentirosas.
No entanto, o que constitui o maior problema são os impostos dos dias atuais. É
uma competição de mentiras entre arrecadadores e contribuintes, sumamente
complicada e desagradável.
Há médicos que dão esperanças a pacientes incuráveis. É possível que ajam assim
pois, caso contrário, não conseguiriam se sustentar. Da mesma forma, não acho
conveniente os religiosos fazerem uso das mentiras de ocasião. Desde os tempos
antigos, multiplicam-se as mentiras pregadas pelos comerciantes ao povo em geral.
Embora resumidas, pudemos constatar todas estas variedades. Portanto, é possível
até afirmar que o mundo é um “mar de mentiras”. É uma desonra o fato de os
japoneses serem principalmente conhecidos no mundo como bastante mentirosos.
Mesmo em se tratando de mentiras, existem as que quase não causam danos às
pessoas e as que são malignas por natureza. Entre estas, as mentiras mais
problemáticas são, por exemplo, as proferidas pelas autoridades cuja função é julgar
crimes. Em relação ao “Caso Mitaka(109)”, que foi manchete dos jornais recentemente,
entre os vários presos sentenciados à pena de morte, com exceção de um deles, os

106
demais foram inocentados. Outro caso é o de dois criminosos que foram condenados
à prisão perpétua e, hoje, passados três anos, outro indivíduo se apresentou como o
verdadeiro autor do crime. No “Caso Daizo”(110), ocorrido na cidade de Osaka, o
promotor pediu uma pena de cinco anos de prisão para duas pessoas que,
posteriormente, foram declaradas inocentes. Ultimamente, casos como esses têm
ocorrido com certa frequência, e as pessoas envolvidas são, de fato, vítimas da
mentira dos promotores.
Ao ouvir esses fatos, o leitor poderá pensar: “Não há motivo para que uma pessoa
como um promotor se utilize de mentiras assim.” Por experiência própria, afirmo que
isso pode ocorrer.
Desde a época do incidente do ano passado até o atual julgamento de que estou
sendo alvo, é grande o empenho dos promotores que, usando de mentiras, querem
me incriminar. E, toda vez que isso sobrevém, cresce minha dúvida sobre o porquê
do esforço em acusar pessoas inocentes. É um enigma para o qual realmente não
encontro explicação. O promotor público tem o dever de pedir a condenação do
criminoso, mas é inacreditável a frequência com que se incrimina uma pessoa de
bem. A realidade é inegável e, contra isso, não há o que se fazer. Só que estes fatos
não chegam ao conhecimento da maioria das pessoas. É difícil saber prontamente se
um suspeito é culpado ou inocente, mas salvo crimes hediondos, creio ser possível
distinguir a verdade dos fatos após uma breve investigação. Já que o próprio ato de
buscar incriminar alguém a todo custo já demonstra que não houve crime.
Voltando ao assunto inicial, afirmo que o que move o indivíduo a mentir é o
pensamento de que jamais será descoberto.De fato, trata-se de uma ingenuidade.
Com efeito, se não houvesse Deus, isso seria possível e favoreceria o argumento de
que a mentira perfeita é sinal de inteligência. Contudo, a realidade é bem diferente
uma vez que a existência de Deus é inegável. Por conseguinte, mesmo que consiga
enganar alguém habilmente, isso será temporário e, certamente, a mentira virá à tona.
Sem dúvida, tal fato acarreta um grande prejuízo para quem mente, porque,
contrariando seu primeiro objetivo, ele se expõe à vergonha, perde o crédito, e uma
sanção lhe é imposta.
Pensar que Deus não existe, simplesmente porque Ele é invisível, iguala-se às
pessoas da era selvagem, que pensavam que o ar não existia porque não o viam. Pobre
homem culto! Portanto, por mais que ele exerça um cargo excepcional, de nada valerá
quando tomar conhecimento desta verdade. Sobretudo as pessoas que têm o sagrado
dever decorrente da profissão de determinar o certo e o errado das pessoas, precisam
prestar a máxima atenção a esse ponto. Devem saber que, ao mesmo tempo que
julgam as pessoas, também são julgadas por Deus. Se não conseguem acreditar em
fatos tão evidentes, significa estar completamente dominadas pela superstição das
mentiras. Sendo assim, nosso desejo é que todos os magistrados se tornem fiéis de
uma religião correta e reconheçam a existência de Deus. O fato de os juízes
estadunidenses serem benevolentes e de os julgamentos serem comparativamente
imparciais se deve ao grande número de cristãos presentes na população do país. Esta
é uma realidade inegável.

107
Jornal Eiko nº 120, 5 de setembro de 1951

(108)
Título anterior: “O hábito da mentira”
(109) Caso Mitaka: acidente ocorrido em 15 de julho de 1949, quando um trem de sete vagões que vinha em alta
velocidade descarrilou na estação de Mitaka, Tóquio. Seis pessoas morreram e, aproximadamente, vinte ficaram
feridas. Dez membros do Sindicato dos Ferroviários (a maioria, integrante do Partido Comunista Japonês) foram
condenados à pena de morte pela sabotagem do trem. Logo na primeira instância, apenas Keisuke Takeuchi, que
não era integrante do partido, foi acusado de ter arquitetado o crime sozinho. Os outros nove suspeitos foram
inocentados.
(110) Caso Daizo: incidente ocorrido em 1947, no qual diretores de uma fábrica de armamentos em Osaka foram

acusados de apropriação indébita. Apesar de, em primeira instância, terem sido acusados de abuso de confiança em
decorrência da violação às ordens das forças armadas aliadas (forças do exército americano que ocupavam o Japão
na época), devido à apelação posteriormente, foram declarados inocentes.

108
AMBICIOSOS SEM AMBIÇÃO(111)

V ou falar a seguir sobre a pessoa sem ambição e não sobre a pessoa má(112). Ao me
referir a pessoas sem ambição, o leitor poderá achar estranho, por isso vou
explicar de forma compreensível a todos. Ao observar a sociedade atual, constato que
existe um grande número de ambiciosos, embora, na verdade, sejam todos sem
ambição. O fato de serem ambiciosos sem ambição é estranho, mas na realidade,
trata-se de pessoas que só pensam em lucrar temporariamente e não percebem que,
depois disso, passarão a ter prejuízos. No início, elas proferem mentiras bem
arquitetadas. Todavia, como a mentira é sempre revelada, acabam perdendo
totalmente a confiança dos outros.
Quanto mais hábil for o mentiroso, mais tempo levará para ser descoberto. Por esse
motivo, durante algum tempo, ele pode pensar que se saiu bem; no entanto, a
verdade sempre vem à tona. Criaturas assim caem na ilusão de que jamais serão
desmascaradas e, por esse motivo, não se corrigem e continuam a se empenhar em
enganar as pessoas. Obviamente, não acreditam na existência de Deus e, por estarem
“moldadas” pelo materialismo, é difícil lidar com elas. Ao serem expostas, como toda
a confiança depositada nelas cai por terra, enfrentam perdas incalculáveis, pois os
outros não mais lhes dão ouvidos.
Em tais ocasiões, fico com pena dessas pessoas e ponho-me a pensar que, se
tivessem agido honesta e corretamente desde o início, certamente seriam merecedoras
de crédito e obteriam grandes lucros, ao invés das vantagens efêmeras que tiveram.
Por esse motivo, lamento e penso comigo mesmo: “Mas que pessoas sem ambição
são elas?” Conclui-se, portanto, que essas pessoas são realmente desprovidas de
ambição.
A maioria dos indivíduos da atualidade que estão em apuros financeiros ou cujos
empreendimentos não vão bem, é por serem ambiciosos, mas do tipo sem ambição.
Seja como for, a pessoa deve conquistar, em primeiro lugar, a confiança de todos.
Não há riqueza maior que esta. Da riqueza chamada confiança surgem “juros” sem
limites, e mesmo que a sociedade esteja atravessando dificuldades financeiras, os
“ricos” desta ordem nunca passarão apuros. É por isso que, de qualquer modo, devem
acreditar na existência de Deus, que é invisível. Para tanto, só há um caminho:
tornar-se um praticante da fé. Quem pratica a fé, é dono de um ilimitado tesouro:
além de ser autenticamente feliz, é de fato profundamente ambicioso.
Jornal Kyusei nº 49, 11 de fevereiro de 1950

(111)
Título anterior: “Gananciosos sem ganância”
(112)Em japonês, a expressão yoku nai ninguen pode ser traduzida como “pessoa sem ambição” ou “pessoa má”. Por
essa razão, Meishu-Sama fez o referido esclarecimento.

109
110
COMO DISTINGUIR A PESSOA MÁ(113)

H á muito tenho estado em contato com diferentes tipos de pessoas e concluí que,
para viver, o mais importante é saber distinguir a pessoa boa da pessoa má.
Penso assim, principalmente por me aparecerem, ultimamente, muitos indivíduos
querendo me extorquir. No entanto, acho interessante o fato de eles possuírem, cada
qual, sua peculiaridade. Vejamos.
Em primeiro lugar, eles são incrivelmente “hábeis” no falar. Embora estejamos
prevenidos, há vezes em que acabamos encantados com seus discursos. Nesse ponto,
quase não existem exceções. Em segundo lugar, eles falam muito alto e são
persistentes. Outra coisa interessante e contra a qual devemos nos acautelar é que
alguns agem infundindo o medo, e outros, pelo contrário, atuam com muita
gentileza.
Em geral, imaginamos que pessoas perversas possuem fisionomia amedrontadora,
mas na maioria das vezes, ocorre o contrário, ou seja, elas aparentam ser bastante
gentis e afáveis. Pensando bem, veremos que, se tivessem de fato um semblante
assustador, as pessoas ficariam vigilantes e, dessa forma, a possibilidade de sucesso
seria pequena. Por outro lado, apresentando uma feição bondosa, fica mais fácil
ludibriar os ingênuos.
Agora, falarei sobre as pessoas bondosas. Pela minha longa experiência, observo
que as pessoas inábeis ao falar, mas com um desempenho adequado no trabalho, são
mais numerosas do que as habilidosas. Ora, isso ocorre, pois quem é bom de conversa
consegue ludibriar e passa a viver enganando os outros com naturalidade. Ao
contrário, quem não o consegue, procura melhorar seu desempenho por meio do
próprio esforço alcançando, portanto, bons resultados.
Jornal Hikari nº 17, 9 de julho de 1949

(113) Título anterior: “Como identificar o homem mau”

111
A RESPEITO DAS DÍVIDAS

A CAUSA DA POBREZA

O objetivo da nossa Igreja é construir um mundo isento de doença, pobreza e


conflito. No que diz respeito à doença, penso já ter apresentado considerações e
explicações a partir de diferentes ângulos. Oportunamente deverei esclarecê-la do
ponto de vista da medicina revelada por Deus, mas por ora vejamos as questões
relacionadas à pobreza e ao conflito. Antes de mais nada, nem preciso dizer que a
causa da pobreza, obviamente, é a falta de saúde. Contudo, existem outras causas
importantes sobre as quais escreverei a seguir.
A causa da pobreza está na doença que, além de não permitir que a pessoa trabalhe,
requer uma grande soma para despesas com tratamentos médicos. Se a doença durar
pouco tempo, a situação ainda é suportável; mas, quando se prolonga, leva ao
desemprego. Assim, o infortúnio causado pela doença é acrescido das dificuldades
financeiras, de modo que a pessoa, com a aflição duplicada, tem seu futuro envolto
em nuvens escuras de insegurança, sem poder avançar ou recuar. Podemos dizer que
esse é realmente um sofrimento típico das profundezas do inferno.
O mundo está repleto de criaturas infelizes que se encontram nessa situação. Ao
conhecerem nossa religião, elas conseguem livrar-se imediatamente do tormento e,
vislumbrando uma luz no fim do túnel, iniciam uma vida repleta de alegrias. Relatos
dessa natureza podem ser vistos em grande quantidade nas experiências de fé que
publicamos.
A maior parte dos casos de pobreza pode ser solucionada dessa forma.
Aprofundando-me um pouco mais, abordarei outro aspecto importante. Para que
possam conhecer o segredo para a solução definitiva do problema da pobreza,
relatarei minha experiência sobre o assunto.
Quando eu era jovem, apesar de não professar fé alguma, sempre tive o intenso
desejo de melhorar a sociedade. Achando que, para isso, não havia meio mais eficaz
do que instituir uma empresa jornalística, fiz alguns estudos e fiquei sabendo que
precisaria de mais ou menos um milhão de ienes. Ora, eu sou de família pobre e só
pude me casar e ter uma família graças à pequena soma que herdei de meus pais.
Abri, então, uma loja de miudezas a varejo, cuja metragem frontal era de dois
metros e setenta centímetros. Como os resultados de vendas foram bons, em pouco
mais de um ano, comecei um comércio por atacado e, aproximadamente dez anos
depois, eu era considerado bem-sucedido no mundo dos negócios. Por volta de 1919,
meus bens somavam o equivalente a cento e cinquenta mil ienes.
Precipitando-me em conseguir logo a quantia necessária à abertura do jornal, quis
dar um passo maior que a perna e acabei ficando com um enorme saldo negativo
devido ao fracasso que tive no empreendimento. Consequentemente, fui obrigado a

112
desistir da ideia do jornal e recorrer à religião para confiar a Deus meus sofrimentos
em decorrência das vultosas dívidas que se estenderam por aproximadamente vinte
torturantes anos. No entanto, hoje vejo que tudo isso constituiu minha prática
ascética. Em geral, os religiosos se isolam nas montanhas, banham-se em cascatas e
fazem jejum, mas acho que minha prática ascética foi muito mais difícil e sofrida que
a deles. E não foi apenas uma ou duas vezes que me vi na mais profunda pobreza.
Vou revelar a “filosofia da pobreza” que consegui intuir nessa época.
Além da doença, as dívidas são a causa da pobreza. Cheguei à conclusão de que, se
não as contrairmos, jamais ficaremos pobres. Ora, quando se toma dinheiro
emprestado, é certo que chegará o dia em que se tem de pagá-lo. A quantia a restituir
é definida, mas o dinheiro que se deveria ter, nem sempre entra no prazo previsto. Aí
é que os cálculos se desencontram. Quando se faz uma dívida, correm juros
infalivelmente todos os dias, até que ela seja liquidada completamente. Por
conseguinte, ainda que os cálculos mostrem um ganho considerável, subtraindo-se os
juros, não haverá o lucro esperado. Além do mais, a dívida acarreta um abalo
psicológico e uma constante intranquilidade espiritual, que, embotando a
inteligência, torna impossível o surgimento de boas ideias.
Assim sendo, podemos afirmar que a causa da maioria dos fracassos e da pobreza
na sociedade está no endividamento. Depois que concluí a respeito dessa realidade,
digo sempre às pessoas: “Se você tiver cem mil ienes, empregue no negócio apenas
um terço dessa quantia, isto é, trinta mil ienes.” À primeira vista, essa forma de
empreendimento parece modesta, mas com o tempo, acaba crescendo. A razão do
meu conselho é que, uma vez sendo empregada essa quantia, caso ocorra um revés, a
pessoa poderá recomeçar com outros trinta mil ienes e, desta vez, aplicando um novo
método baseado na experiência do fracasso. Com isso, geralmente, se chega ao
sucesso. Mesmo que, eventualmente, o empreendimento incorra em um novo
fracasso, ainda restarão à pessoa os últimos trinta mil ienes; se ela fizer nova tentativa,
é certo que será bem-sucedida.
No entanto, se tiverem cem mil ienes, as pessoas, em sua maioria, começam o
negócio empregando o total da quantia. Às vezes, até fazem empréstimo de mais
cinquenta mil. Assim, começam com cento e cinquenta mil, o que é realmente
arriscado. Se o empreendimento falhar, é certo que elas recebam um golpe do qual
nunca mais conseguirão se recuperar. Todavia, quem agir de acordo com o meu
método, terá uma reserva monetária. Assim, se surgirem oportunidades de aquisição
de mercadorias mais baratas ou alguma transação de lucro certo, poder-se-á fechar o
negócio de imediato e, assim, obter lucros, de certa forma, inesperados. Em
contrapartida, quando todos os recursos estão empatados, às vezes podem surgir
dificuldades na hora do pagamento ou mesmo inadimplência e, dessa maneira, a
perda do crédito. Havendo uma reserva de dinheiro, a pessoa poderá honrar o
pagamento sempre no prazo e, com isso, conquistar maior crédito. Assim, usufruirá
de múltiplos benefícios.
A respeito disso, desejo dar um exemplo de um fato de grandes proporções que
ocorreu recentemente.

113
O principal motivo da derrota do Japão na última grande guerra foi sua política de
empréstimos. Parece que são poucas as pessoas que têm percebido esse fato, mas é
um assunto que merece a atenção de todos.
Até o início da guerra, o Japão veio aumentando excessivamente suas importações a
cada ano. Como as dívidas foram se avolumando, tornou-se necessário fazer novos
empréstimos para pagar a dívida anterior. Foi com esses empréstimos que nosso país
aumentou o poderio militar, expandiu seu território e estendeu cada vez mais suas
mãos para invadir outros países. Naturalmente, além de empréstimos externos,
também se realizaram empréstimos internos, de modo que o Japão acabou ampliando
a política de dívidas públicas além de seu limite. Os prejuízos que a Ferrovia
Nacional está sofrendo atualmente são herança dessa política. Caso o Japão não a
tivesse adotado, talvez não tivessem surgido pessoas ambiciosas, ávidas por invasões.
E mais: ao contrário do que ocorreu, anualmente, o comércio teria aumentado o
volume de exportações e, sem sombra de dúvida, o Japão se tornaria imensamente
próspero. Em consequência, é evidente que a cultura pacifista teria se expandido
amplamente, a moral do povo se elevaria e seríamos uma nação feliz, estimada pelo
mundo inteiro. Se nosso país fosse próspero, poderia importar somente o necessário
em matéria de alimentos. E, por proporcionar aos demais países uma sensação de
segurança, as nações de grande extensão territorial receberiam, com muito prazer, os
imigrantes japoneses, e o controle da natalidade seria desnecessário.
Se a política de empréstimos de uma nação tem essas consequências, ocorre o
mesmo no nível pessoal. Acredito que, com o que expus, puderam compreender a
forma de se solucionar o problema da pobreza.
Jornal Hikari nº 50, 30 de junho de 1949

114
A RESPEITO DAS DÍVIDAS

C omo sempre tenho dito, durante longo tempo sofri em razão das dívidas e posso
dizer que não há nada que nos cause mais aborrecimentos. Talvez as pessoas, na
sua maioria, já passaram por essa experiência e estão cientes de que, quando se
contrai uma dívida, é muito difícil conseguir saldá-la.
Ao fazer um empréstimo, a pessoa pensa em pagar o mais rápido possível.
Entretanto, ainda que consiga o recurso suficiente, é próprio do ser humano não
saldá-lo tão prontamente. Pensando em ficar com o dinheiro por mais algum tempo
e investi-lo, arranja pretextos que lhe convêm, acreditando que não será tarde demais
pagar o empréstimo depois de lucrar mais um pouco. Se, por felicidade, a pessoa
toma a decisão de quitar a dívida de uma vez, quem lhe concedeu o empréstimo,
mostra-se confiante e disposto a emprestar dinheiro novamente. Assim sendo, ela
terá a oportunidade de pedir outro empréstimo, de valor até mais elevado do que o
anterior.
O dinheiro quase nunca entra de acordo com o previsto, mas sempre sai conforme
o estabelecido, e é por isso que não se consegue devolvê-lo no prazo estipulado. O
empréstimo é como uma mancha que, uma vez impregnada, não fica limpa por
completo. Assim sendo, contrair dívidas acaba se tornando um vício. Existe até quem
não se sente bem quando não tem dívidas. Talvez, em dez pessoas, não haja uma só
que, uma vez tendo feito uma dívida, consiga livrar-se dessa prática para sempre.
Atualmente, entre os problemas mais abomináveis e os de maior ocorrência estão as
questões que envolvem empréstimo de dinheiro. Dizem que a maioria dos casos
judiciais, senão todos, têm como origem as contendas causadas por empréstimos. Por
conseguinte, a condição fundamental para eliminar os conflitos que existem no
mundo, é fazer todo o possível para não contrair dívidas. E quando estas forem
inevitáveis, deveremos saldá-las o quanto antes. Se todas as pessoas agissem assim,
diminuiriam os aborrecimentos que permeiam os relacionamentos humanos e nem
haveria necessidade de frisar que assim se formaria uma sociedade feliz.
Outro fato que eu gostaria de enfatizar é que as dívidas encurtam nossa vida.
Conta-se que o Sr. Kihatiro Okura(114) aconselhava as pessoas com essa mesma
afirmação. Digo que se trata de uma citação verdadeiramente correta porque nada
obscurece mais o sentimento do homem do que as dívidas. Tomando como exemplo
minha experiência, ao libertar-me delas, senti como se tivesse saído de uma prisão
após um longo período.
Jornal Kyusei nº 51, 25 de fevereiro de 1950

(114)
Vide nota de rodapé nº 81 no Ensinamento “Apreciar o bem”.

115
116
DEVEMOS OU NÃO FAZER DÍVIDAS?(115)

D urante mais de vinte anos, experimentei todos os sofrimentos causados pelas


dívidas. Para que possam fazer uma ideia, sofri vários confiscos de bens e uma
falência. A filosofia sobre as dívidas que exporei a seguir, se baseia nas conclusões que
tirei de todas essas experiências. Farei uma análise de uma pessoa que está prestes a
fazer uma dívida.
Falando sobre as dívidas de uma maneira simples, existem as ativas e as passivas. A
dívida ativa é aquela que se faz para começar um empreendimento, já se calculando
que uma quantia X vai dar um lucro Y, isto é, faz-se o cálculo de modo que fique um
valor condizente depois de descontados os juros da dívida. E isso já é do
conhecimento de todos. Todavia, no caso das dívidas passivas, elas são feitas porque a
despesa é maior do que a receita e, por isso mesmo, falta dinheiro. Dessa forma, é
comum a pessoa fazer dívidas por não ter uma alternativa. E, quando estas começam
a pressioná-la cada vez mais, não tem tranquilidade para pensar no futuro. Diante
dessa situação difícil, ela sente a premente necessidade de livrar-se dos compromissos
urgentes e, por esse motivo, não leva mais em conta o valor dos juros, sejam estes
altos ou não. O que importa é conseguir o empréstimo. Os artigos publicados
atualmente nos jornais sobre empréstimos a juros altos se referem a esse tipo de
atividade. Podemos dizer que, entre dez pessoas nessa difícil situação, oito ou nove
estão a um passo do abismo.
Acima, procurei classificar as dívidas a grosso modo. Agora, gostaria de cogitar
sobre a não realização de empréstimo.
Abrir mão de empréstimos significa começar o empreendimento com o capital que
se possui no momento. Por conseguinte, não há outro jeito senão este constituir,
realmente, um empreendimento de pequeno porte. Suponhamos, por exemplo, que
uma pessoa tenha um capital de cem mil ienes. Inicialmente, emprega metade ou um
terço desse capital para começar o negócio. Como o restante fica reservado, é possível
que o negócio progrida lentamente. Além disso, esses cem mil ienes têm que ser fruto
do próprio esforço, acumulados sem a ajuda de terceiros. Por ser dessa forma, pode-
se dizer que esse dinheiro é como se fizesse parte da própria pessoa e, por essa razão,
tem muita vibração. Outrossim, o negócio deve ser iniciado da forma mais modesta
possível. Exemplifiquemos:
Comecei o “Método de Terapia pela Fé” no mês de maio de 1934, alugando uma
casa de cinco cômodos, situada em Hiraga-tyo, no bairro de Koji, Tóquio, por
setenta e sete ienes. Achei que a casa era de um padrão alto demais; entretanto, como
as condições eram ótimas, decidi alugá-la. Na época, eu ainda tinha dívidas antigas
consideráveis, mas iniciei o empreendimento pensando em colocar em prática a
filosofia que intuí em virtude das dívidas.

117
Adquiri os fundamentos dessa filosofia a partir das indicações da Grande Natureza.
Isso pode ser bem compreendido por meio da observação do ser humano. O bebê, a
partir do seu primeiro choro após o nascimento, vai crescendo com o passar dos
meses e anos e, cada vez mais, sua força e inteligência vão amadurecendo. O mesmo
se dá com as plantas. Plantando-se uma pequena semente, esta germina, formando
um broto; depois, surgem as folhas propriamente ditas, o caule se desenvolve, os
galhos se expandem, até que a planta se torna uma árvore enorme. Esta é a Verdade.
Portanto, os seres humanos também devem aprender com isso, seguindo-a como
exemplo. Eu intuí que, praticando fielmente esse princípio, certamente obter-se-á
grande sucesso. E decidi que qualquer que fosse o empreendimento, iniciaria sempre
da menor escala possível.
No entanto, as pessoas, na maioria, tentam, desde o início, realizar seus
empreendimentos de forma demasiadamente grande e chamativa. Quando as
observamos bem, vemos que a maioria acaba fracassando. É realmente grande o
número de casos desse gênero. Grande parte dos empreendimentos na sociedade é
desse tipo. Vemos frequentemente exemplos de pessoas que começam negócios em
grande escala e só depois do fracasso é que, não tendo alternativa, se organizam,
economizam e começam tudo de novo, agora de maneira mais modesta. Só então é
que conseguem obter o sucesso.
A propósito, neste mundo, os negócios nunca transcorrem de acordo com a lógica
ou com os cálculos. Existem vários motivos, mas o maior deles é o fator psicológico.
Como o dia do vencimento da dívida chega sem atraso, essa preocupação fica
martelando na cabeça. Naturalmente, a realidade nunca acompanha o orçamento.
Com a mente dominada constantemente pela angústia, não será possível o
surgimento de boas ideias, e este é o ponto mais desvantajoso. Ademais, com os
bolsos sempre vazios, as pessoas não conseguem ficar animadas. Mesmo que
mantenham as aparências, seu interior é pobre material e espiritualmente falando.
Por essa razão, tais pessoas são passivas diante de qualquer coisa, não têm iniciativa
para crescer e, por essa razão, estão sempre descontentes. Os comerciantes, então,
mesmo encontrando mercadorias mais baratas, não conseguem comprar e,
consequentemente, deixam de lucrar.
Geralmente, as pessoas prorrogam o prazo do pagamento da dívida e, assim, a
confiança diminui. Os juros também não podem ser desprezados tão simplesmente,
pois se o prazo for estendido por muito tempo, começam a correr juros em cima de
juros, e a pessoa começa a se afobar e a forçar a situação. E, em qualquer
circunstância, quando isso ocorre, é o fim. Eu tenho sempre advertido no sentido de
evitarem precipitar-se e forçar as situações. Contudo, as pessoas, em sua maioria, não
têm percebido que, com essas práticas, podem obter sucessos passageiros e não
duradouros.
Vou apresentar alguns exemplos. Os famosos generais, Nobunaga(116) e
Hideyoshi(117), fracassaram porque se precipitaram e forçaram situações. Em
contrapartida, o governo dos Tokugawa durou trezentos longos anos, porque no lema
de Ieyassu Tokugawa, desde o início do xogunato, não houve afobação ou excessos.

118
Ieyassu utilizava-se da célebre tática de guerra do “perder é vencer” e, ao sentir que a
situação estava um pouco difícil, retirava-se e esperava o tempo, isto é, aguardava a
ocasião ficar favorável. Assim, fez com que o poder chegasse por si mesmo às suas
mãos, o que foi correto.
Eis o conselho de Ieyassu: “A vida humana é como uma longa caminhada em que
se carrega um pesado fardo; por isso, não se deve ter pressa.” Estas palavras
expressam muito bem sua personalidade. A derrota do Japão, na Segunda Guerra
Mundial, teve várias causas, mas não há dúvida de que essa afobação e os excessos
cometidos foram as causas desse infortúnio, porque o procedimento dos japoneses foi
um erro desde o início. Sem perceber essa realidade, eles agiram com precipitação,
forçaram a situação, e isso talvez seja o motivo.
Diante de dificuldades financeiras, o maior erro é fazer dívidas para saldar outras.
Contudo, foi o que se verificou na derrota na Segunda Guerra Mundial. Pelo mesmo
motivo, emitiram papel-moeda em excesso, o que foi a grande causa da inflação.
O Reino Unido, logo após a formação do gabinete do Partido Trabalhista, tomou
um empréstimo de três bilhões e setecentos milhões de dólares dos Estados Unidos.
Na ocasião, pensei o quanto seria bom se, no futuro, esse empréstimo não se tornasse
motivo de problemas financeiros; mas, de fato, fizeram dívidas em cima de dívidas. A
atual desvalorização da libra esterlina também é uma consequência desse fato. Na
época em que o Império Britânico era próspero, sua receita anual era de trezentos
milhões de libras, provenientes de suas colônias e de outras fontes. Realmente, não
consigo entender essa diferença. A solidez financeira do Reino Unido, que até então
era um dos motivos de orgulho, após passar por duas guerras, encontra-se nessa
situação, a qual podemos considerar resultado de uma sina da qual não conseguiu
escapar.
Escrevi sobre a verdade de que não se devem contrair dívidas e que tudo deve ser
iniciado de forma modesta. Façam disso um lema a ser seguido. Contudo, a dívida é
admissível em caráter excepcional, quando existir a absoluta certeza de saldá-la em
curto prazo.
Esta é a filosofia sobre as dívidas que eu preconizo.
Jornal Hikari nº 35, 12 de novembro de 1949

(115) Título anterior: “Devemos ou não devemos fazer dívidas?”


(116)
Nobunaga: Oda Nobunaga (1534–1582) foi um grande senhor feudal que conquistou quase todo o Japão no
Período Sengoku (1467–1573), uma fase de instabilidade na história japonesa, repleta de guerras.
(117)
Hideyoshi: Toyotomi Hideyoshi (1537–1598), de origem humilde, ascendeu até se tornar um grande senhor
feudal que sucedeu seu mestre, Oda Nobunaga. Foi um dos personagens mais relevantes para o fim do Período
Sengoku (1467–1573), unificando o Japão.

119
DINHEIRO MAL GANHO, DINHEIRO MAL GASTO

H á um provérbio que encerra uma grande verdade: “Dinheiro mal ganho,


dinheiro mal gasto.” Vou interpretá-lo espiritualmente.
Em se tratando de especulação existem vários tipos, tais como a Bolsa de Valores, o
aumento ou a redução do preço das mercadorias, as apostas em corridas de cavalos
etc. De todos eles, o mais representativo é a Bolsa de Valores e, por essa razão, vou
me deter em sua análise.
Na época em que eu não seguia nenhuma religião, lancei mão desse tipo de
aplicação financeira. Durante alguns anos, vendi e comprei ações, mas acabei tendo
um grande prejuízo. Naturalmente, esse também foi um dos motivos que me levaram
a entrar para a vida religiosa, e os conhecimentos que adquiri sobre o lado espiritual
da questão me mostraram que jamais se deve fazer tal tipo de aplicação. Gostaria,
portanto, que as pessoas interessadas na Bolsa de Valores não deixassem de ler este
artigo.
É costume dizer que, na Bolsa de Valores, cem pessoas perdem para uma lucrar, e é
exatamente assim. Não existe, entretanto, uma só pessoa que, tendo-se tornado rica
da noite para o dia, consiga conservar a fortuna por muito tempo. Ao mesmo tempo,
quem tem grandes ganhos, é quem mais perde; quanto mais a pessoa lucra, um
precipício ainda maior estará à sua espera. Espiritualmente, a explicação é a seguinte:
As pessoas que perdem na Bolsa de Valores, na sua maioria, sentem-se
decepcionadas, inconformadas, querendo recuperar o dinheiro de qualquer jeito.
Assim é o sentimento humano. Consequentemente, o ressentimento converge para
quem lhes tirou o dinheiro. Uma vez que não se sabe quem é essa pessoa, nem onde
ela reside, esse sentimento acaba sendo direcionado, evidentemente, para a Bolsa de
Valores e se acumula nas notas de dinheiro. Analisando espiritualmente, no dinheiro
utilizado nas operações da Bolsa de Valores projetam-se as imagens do ressentimento
de milhares de pessoas. Como essa imagem e as próprias pessoas prejudicadas estão
ligadas pelo elo espiritual, o pensamento [sonen] de recuperar o dinheiro
constantemente o puxa para si. Por essa razão, esse dinheiro nunca permanece por
muito tempo nos cofres de quem o ganhou. Chegará o dia em que ele será arrancado,
e a pessoa sofrerá um grande prejuízo, ficando sem um centavo sequer.
Isso não ocorre apenas nos casos de especulação, mas em tudo o que se relacione
com dinheiro. Ou seja, quando as riquezas são obtidas de forma ilícita; quando não se
gratifica a quem de direito ou propositalmente concede-se um valor menor ou
quando não se paga uma dívida etc. Em tais situações, a pessoa lesada fica com ódio.
Dessa forma, como já disse, quem causa prejuízo a alguém não conseguirá impedir
que o dinheiro escape.
Outro fato que se precisa saber é que, desde os tempos antigos, muitas construções

120
religiosas ficaram reduzidas a cinzas em consequência de incêndios. Parece
incompreensível que templos, santuários, capelas, mosteiros e outras construções
realizadas com donativos sejam destruídos pelo fogo dessa forma. Na realidade, existe
um motivo. É que, por ocasião de se angariarem fundos para construí-los, forçou-se a
situação. Por exemplo, às vezes, determina-se uma quantia para os membros ou
igrejas filiais, que são forçados a colaborar, o que não é natural. Tratando-se de
donativo religioso, o correto é que a quantia seja determinada pela livre vontade da
pessoa. Só quando se faz com alegria e satisfação é que a oferta se torna verdadeiro
donativo. Outro fator é que a utilização dessas construções deve estar de acordo com
a vontade dos deuses e não pode haver atitudes que sejam errôneas ou que tornem as
edificações impuras. Caso contrário, elas receberão o “batismo pelo fogo”.
Voltando ao caso da Bolsa de Valores, quando o objetivo da compra de ações não
for a especulação, mas sim os juros, ou seja, os dividendos, trata-se de um bom
investimento, porque isso não representa “comprar” rancores ou qualquer outro
sentimento negativo. Pelo contrário, investimentos são muito necessários ao
desenvolvimento da indústria e, por essa razão, sua prática merece ser bastante
incentivada.
Jornal Hikari nº 14, 25 de junho de 1949

121
ENSINAMENTOS EM FORMA DE PALESTRAS

O PENSAMENTO DAIJO E O PENSAMENTO SHOJO EM


RELAÇÃO À DEDICAÇÃO(118)

U m perigo é acreditar cegamente no que as pessoas dizem. Por essa razão, mesmo
que achemos correto o que elas afirmam, primeiramente devemos analisar se
está ou não em conformidade com os propósitos de Deus. No caso de achar que
algum ponto não está de acordo, devem ler e consultar os Escritos Divinos, pois a
maioria dos assuntos poderá ter resposta em alguma parte dos mesmos. Baseados
neles é que devem tirar uma conclusão. Há muitas pessoas que se equivocam nesse
ponto.
Recentemente, houve um fato que quero mencionar. Um membro começou a dizer
o seguinte: “Como a Igreja Messiânica construirá o Paraíso, os lares também devem
ser paradisíacos. Sendo assim, no que diz respeito ao dinheiro, somente a quantia que
sobrou do orçamento deve ser doada, evitando criar dificuldades financeiras.” Ainda
segundo sua afirmação, este seria o procedimento correto, pois assim não se sofreria
monetariamente. Doar dinheiro em condições financeiras difíceis significa a criação
de outro sofrimento e isso não estaria de acordo com a Vontade de Deus. É uma
afirmação que se baseia no antigo ditado: “A fé só nasce quando se vive com
tranquilidade.” Um membro, ao ouvir tal argumentação, ficou impressionado e,
então, esse ponto de vista foi-se espalhando. No final, chegaram a dizer que os lares
não se tornavam paradisíacos porque o dinheiro era doado com sofrimento.
Então, outro membro começou a dizer que Deus está, atualmente, precisando de
muito dinheiro; logo, mesmo passando por um pouco de dificuldade, devemos
ofertá-lo. Então, criou-se uma divergência entre esses dois discursos. Não sei por que
motivo, a primeira sempre ganhava da segunda. Dado que a situação continuava
confusa, chamei as partes e disse-lhes o seguinte:
“A primeira afirmação de fazer com que o lar não passe por dificuldades está certa.
De fato, é isso mesmo. Também está correta a segunda afirmação que Deus está
precisando de muito dinheiro... e que é preciso ofertar dinheiro a todo custo, por
maior que seja o sofrimento, para construir, o quanto antes, o Paraíso Terrestre e
salvar o mundo. Ambas estão corretas. Só que uma é daijo e a outra é shojo. A
primeira é um pensamento shojo; a segunda, um pensamento daijo. Então, no
segundo caso, será que as pessoas passarão por dificuldades por ofertarem dinheiro?
Obviamente que não. Se for um Deus que, embora Lhe ofereçam dinheiro, deixa a
pessoa no estado de sofrimento, é melhor deixar de adorá-Lo. Experimente doar em
meio a algum sofrimento. Ofereça com a deliberada intenção de passar por
dificuldades. O valor doado retornará multiplicado por dez. Longe de passar por
dificuldades, o dinheiro retornará a você abundantemente.”

122
Falando-lhes dessa forma, ambas as partes entenderam. Principalmente as pessoas
de pensamento shojo compreenderam bem e, outro dia, vieram pedir-me desculpas.
Estamos sujeitos a esse tipo de acontecimento; por esse motivo, achando que seria
interessante que os senhores também soubessem da existência de problemas dessa
natureza, referi-me a eles aqui.
Coletânea de Ensinamentos nº 11, 7 de junho de 1952

(118)
Título anterior: “A atitude ‘Daijo’ versus a atitude ‘Shojo’ nas doações”

123
A FORTE VONTADE DE CRESCER(119)

O mais importante de tudo é a vontade de progredir, o constante desejo de


crescer. Esta atitude é fundamental.
O pensamento: “Não sou capaz” é o mais prejudicial de todos. Por essa razão, é
essencial ter a seguinte postura: “Eu também sou um ser humano. Se outras pessoas
conseguem, eu também consigo.”
Aquelas que possuem uma forte determinação para realizar seus trabalhos, mesmo
incorrendo em fracasso ou sendo ridicularizadas pelos outros, com certeza vão-se
desenvolver. Eu sou assim. No entanto, o mesmo não ocorre com quem desiste logo
no primeiro insucesso.
Costuma-se dizer que a “resignação é fundamental”. Conforme a circunstância, isso
faz sentido mas, dependendo da situação, a “não resignação é fundamental”.
Portanto, é importante renunciar às coisas ruins e não desistir do que é bom.
Registro das Palavras de Luz, vol. 8, 30 de maio de 1949

(119) Título anterior: “Atitude mental”

124
A RESPEITO DO ESPÍRITO DA PALAVRA

N a Bíblia está escrito: “No princípio era o Verbo. (...) Todas as coisas foram
criadas por meio dele.”(120) Isso se refere à ação do espírito da palavra. Vou
explicar a respeito partindo do seu ponto fundamental. Evidentemente, o espírito da
palavra(121) é formado e emitido por meio da voz, da língua, dos lábios e dos
maxilares. A origem dessa emissão é o pensamento [sonen] expresso por meio da
palavra. O sonen é a expressão da vontade. Falando de forma compreensível, o sonen
entra em ação para expressar alguma vontade surgida no íntimo do ser humano.
Naturalmente, a atividade do sonen inclui, ainda, o discernimento do certo e do
errado, do bem e do mal, do sucesso ou do insucesso, entre outros. A síntese disso
vem a ser a sabedoria. O espírito da palavra é que dá forma à vontade e ao
discernimento, entre outros; a ação é que concretiza o espírito da palavra. Por esse
princípio, é correto considerar que haja três etapas: o sonen, o espírito da palavra e a
ação.
Dessa maneira, o sonen pertence ao Mundo Oculto(122), o espírito da palavra, ao
Mundo do Espírito da Palavra e a ação, ao Mundo Material. Em outras palavras, o
espírito da palavra é o intermediário entre o oculto e o manifesto. Pode-se dizer que
ele é o mediador entre a pensamento e a ação. Creio que assim puderam
compreender a importância do espírito da palavra.
O espírito da palavra assemelha-se ao operador de marionetes: manipula livremente
deuses e demônios. Irritar as pessoas ou fazê-las rir; preocupá-las ou tranquilizá-las;
entristecê-las ou alegrá-las; provocar o conflito ou a paz; obter sucesso ou fracassar,
tudo depende do espírito da palavra. Portanto, usá-lo de forma leviana é muito
perigoso. Manejá-lo habilmente não passa de uma simples técnica, tal como a de um
comediante ou de um contador de histórias. Se, na essência do espírito da palavra,
não houver força capaz de manifestar determinada influência, ele perde seu sentido.
Mesmo em se tratando de força, há distinção entre a força do bem e a do mal. Em
outros termos, o espírito da palavra do mal gera pecados enquanto o espírito da
palavra do bem cria virtudes. Portanto, o ser humano deve esforçar-se para usar o
espírito da palavra do bem, o qual, se fundamenta no makoto, o qual provém de Deus.
Em virtude disso, é imprescindível reconhecer a existência de Deus. Se a pessoa não
possui fé, não consegue manifestar o verdadeiro makoto e, portanto, não há condições
de a força do bem surgir no espírito da palavra.
1950

(120)
João 1:1-3: Bíblia de Estudo Almeida.
(121)
Espírito da palavra: no Japão, desde a antiguidade, existe a crença de que há uma espécie de poder espiritual
misterioso presente nas palavras e influencia a realidade tal qual seu significado.

125
(122)
Mundo Oculto ou yugenkai, em japonês. O termo yugen foi utilizado pela primeira vez em textos filosóficos
chineses com o sentido de mistério. Yugen refere-se a um profundo sentimento interno. Meishu-Sama utilizou o
termo yugenkai para expressar o invisível mundo misterioso ao qual o sonen pertence.

126
A LUTA ENTRE O BEM E O MAL(123)

C onforme venho dizendo sempre, nossa Igreja também tem alcançado bons
resultados e se beneficiado graças aos espíritos malignos. Consequentemente,
não há problema enquanto nos limitamos a dizer que algo é bom ou mau. Todavia, o
que não se pode fazer é definir o bem e o mal. Até porque, Deus faz uso do lado mau
das coisas. São os espíritos malignos que realizam os aprimoramentos para polir a
alma e evoluir a pessoa. Eles fazem a pessoa sofrer e, em consequência disso, ela se
aprimora. Portanto, esses espíritos são como um esmeril para a formação de pessoas
boas.
A luta entre o bem e o mal simplesmente não ocorreria se todas as pessoas fossem
boas. O fato é que não podemos deixar que os espíritos malignos nos derrotem. Se
isso ocorrer, o mundo se tornará maligno; precisamos, portanto, vencê-los. No
entanto, até agora, esses espíritos eram mais fortes e, por essa razão, Deus perdia
temporariamente, o que gerava infelicidade e desgraça. De agora em diante, basta
que Ele prevaleça sobre o mal.
Mesmo após a concretização do Mundo de Miroku, o mal não será extinto por
completo. Ele continuará existindo, mas perderá para Deus. Os espíritos malignos,
por serem persistentes, continuarão tentando, sem jamais desistir. Na realidade, esta
é a sua função. Não precisamos ficar pensando sobre esse assunto. Basta que não
sejamos derrotados pelo mal. Embora pensemos somente em ganhar, há casos nos
quais, agindo com sabedoria, é melhor perder. Por essa razão, diz-se até hoje que,
mesmo perdendo para os espíritos malignos, Deus vence no fim. Como todos sabem,
o mal nunca triunfa sobre o bem, já que a retidão sempre alcança a vitória final.
Entretanto, até agora, tais espíritos tinham mais força e, por conseguinte, o tempo
em que o bem permaneceu subjugado foi longo. Gradativamente, essa situação se
reverterá e, quando ela mudar por completo, o Mundo de Miroku se estabelecerá.
Em conclusão, temer os espíritos malignos e definir pessoas e situações como más
constitui um grande erro, pois isso significa violar o que é do domínio de Deus.
Registro de Orientações, vol. 23, 1º de agosto de 1953

(123) Título anterior: “O conflito entre o Bem e o Mal”

127
CEDA PARA CONQUISTAR

A pesar de constituir uma prática difícil, o ser humano precisa remover de si a


intransigência. Como tenho dito sempre, na maioria dos casos, é melhor perder.
Em discussões e nas demais situações, convém deixar-se ser derrotado, o que, aliás,
vem a ser um aprimoramento. É penoso ouvir a mentira alheia como se fosse
verdade, mas isso constitui um treinamento para que consigamos ouvir as pessoas
com calma e paciência. Este, de fato, é o verdadeiro aprimoramento vivo. Sendo
assim, um mal-entendido ou uma derrota temporária jamais terão longa duração. Em
algum momento, a outra parte pedirá desculpas por ter se arrependido ou por ter
compreendido o próprio erro. E, a partir desse momento, passará a nos respeitar
muito. Ela também pensará: “Aquela pessoa é realmente admirável! No outro dia,
apesar de eu ter dito absurdos, ela ouviu-me com toda atenção. Realmente, é uma
pessoa muito generosa.” A partir daí, ela passará a confiar em nós.
Registro de Orientações, vol. 21, 1º de junho de 1953

O motivo da minha insistência para que todos sejam dóceis está no fato desse
procedimento conduzir à vitória. A pessoa que faz questão de ser obedecida, no final,
acaba sendo rebaixada. Frequentemente, ouvimos dizer: “Perder é vencer.” Muitas
vezes, em uma discussão, discutimos e perdemos. Entretanto, na verdade, vencemos;
pelo fato de o adversário já ter apresentado seus argumentos, não terá mais nada a
nos dizer.
Quem venceu, não conhece os argumentos do outro, que docilmente se sujeitou à
derrota. Por essa razão, o primeiro se sente inseguro. No entanto, quem perdeu, fica
tranquilo. No início, até poderá ficar bastante amedrontado por ter passado por
momentos difíceis. Todavia, com o passar do tempo, tal temor desaparece. Pode até
sentir-se mais leve imaginando que a outra parte esteja satisfeita.
O vencedor, que fez o outro sofrer, poderá pensar: “Essa pessoa deve estar me
odiando. Será que não está pensando em se vingar de mim?” Desse modo, ele se
sente atormentado. Por conseguinte, quem perdeu é quem realmente venceu. Logo,
em qualquer situação, devemos deixar que o adversário vença, permitindo que sua
opinião prevaleça. Isto equivale ao sentido da expressão “tirar a força da barriga”, ou
seja, diminuir a tensão. Dessa maneira, mesmo quando algum de meus discípulos
está dizendo coisas desagradáveis, procuro prestar atenção.
Apenas quando sou tripudiado pelo mal, imponho minha opinião, caso contrário,
acato a situação. Em geral, as pessoas pensam que dar ouvidos a subalternos acarreta
perda de autoridade. É realmente cômico. Bernard Shaw(124) escreveu muitas
comédias sobre isso.
O general Douglas McArthur(125) fugiu ao ser atacado nas Filipinas. Antes de fugir,

128
ele disse que um dia retornaria. Naquela ocasião, comentei que ele era um grande
homem e ainda empreenderia um trabalho muito importante. Isso foi possível porque
ele perdeu e fugiu. Seja como for, um militar que tem a coragem de bater em
retirada, torna-se um grande comandante. Os que avançam, atacando até o fim,
sacrificando até mesmo a própria vida, são realmente os piores. Sendo assim,
podemos observar que os efeitos são completamente opostos.
Como disse há pouco, trata-se de algo provisório. É como nos tratamentos
médicos: não basta a recuperação temporária da saúde, é preciso melhorar de forma
duradoura. Creio que esta é uma verdade que está de acordo com a lógica. Por esse
motivo, se a pessoa viver baseada no lema “Perdendo é que se vence”, com certeza,
alcançará sucesso. Afinal, quem perde, sempre acaba vencendo.
Dessa maneira, a maioria dos fatos ocorre de forma inversa e, por isso, resultados
inversos, manifestações inversas. Por conseguinte, devemos aprender observando
esses fatos. Tal procedimento nos leva a ser bem-sucedidos, facilmente.
Na época em que iniciei nossa Igreja, aliás, antes disso, eu já dizia aos fiéis que
agissem sem alvoroço, o mais discretamente possível, sem fazer uma divulgação
maciça da Igreja. Sem chamar a atenção, silenciosamente. Eu sempre dizia isso a
todos. Entretanto, havia sempre pessoas que me diziam que era melhor divulgá-la,
mas eu continuei agindo discretamente. No entanto, a Igreja passou a ser conhecida.
A isto denomino efeito contrário.
As religiões que realizaram propagandas, objetivando ser amplamente conhecidas,
tiveram resultado oposto.
Todavia, em outras atividades, a coisa é diferente. Por exemplo, as vendas de
medicamentos, sabonetes etc. fazem anúncios. Ao contrário, em se tratando de
trabalho sério, é melhor realizá-lo da maneira mais reservada possível.
Por essa razão, ao abrirmos unidades religiosas e ao atuarmos com o desejo de que
as mesmas sejam amplamente conhecidas pela sociedade, ocorre o contrário.
Atuando comedidamente, acabam tornando-se famosas.
Coletânea de Ensinamentos, vol. 11, 6 de junho de 1952

(124) Bernard Shaw: dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês, nascido em 26 de julho de
1856, faleceu em 2 de novembro de 1950. Foi também o autor de comédias satíricas de espírito irreverente e
inconformista.
(125) Douglas McArthur: oficial militar norte-americano que serviu tanto no Exército dos Estados Unidos quanto

no Exército Filipino e desempenhou um papel proeminente durante a Segunda Guerra Mundial. Foi o único
homem a ser marechal de campo das Forças Armadas das Filipinas.

129
SEJA UM BOM OUVINTE

É errado censurar as pessoas que mentem. Devemos, sim, ouvi-las, demonstrando


admiração: “Ah, é verdade?!” Todavia, no íntimo, devemos estar cientes que elas
estão mentindo. O homem precisa tornar-se astuto a esse ponto.
Há antiquários que me procuram e, subestimando-me, dão explicações sobre
objetos de arte: “Este é assim; aquele é falso! ” Então, eu lhes respondo: “Observando
bem, acho que o senhor está certo!” Embora, no íntimo, eu pense: “O que é que esse
sujeito está dizendo? Ele é um tolo. Acha que eu não sei isso e fala comigo dessa
maneira?”, permaneço ouvindo-o com aparente admiração. Fazendo isso, às vezes
consigo aprender alguma coisa e penso: “É, ele diz coisas interessantes! De fato, ele
tem razão.”
Um chinês (de cujo nome não me lembro) disse o seguinte: “Não faça distinção
para conversar com as pessoas.” Há coisas ditas por um simples camponês ou por um
trabalhador braçal que nos ensinam muito. Por esse motivo, não devemos discriminar
as pessoas. Em princípio, tudo o que ouvirmos deverá ser levado em consideração.
Também há ocasiões em que aprendemos com as crianças. Acredito que já tiveram
essa experiência. Às vezes, elas dizem coisas muito interessantes. Como as crianças
têm a intuição autêntica, dizem coisas maravilhosas, o que nos faz lembrar a “Teoria
da Intuição” de Bergson. Nas discussões entre mãe e filho, muitas vezes a verdade
está do lado do filho.
Registro de Orientações, vol. 21, 1º de junho de 1953

130
A ALEGRIA, O TEMPO E A ORDEM

D e certa forma, realizo meu trabalho como se estivesse me divertindo, sem ter a
impressão de estar sofrendo. Parece um hobby.
Entre os Kannon, há o que se denomina Yugyô Kannon [Kannon Caminhante].
Trabalho exatamente dessa forma, pois, assim, consigo obter bons resultados. Ao
contrário, se o faço com sofrimento e sem vontade, os resultados são ruins.
É neste ponto que somos o oposto das pessoas do mundo de hoje. O mesmo se dá
com os membros da nossa Igreja. Se realizam algo contra a vontade ou sofrendo, as
consequências são sempre péssimas.
Há ocasiões em que somos solicitados a dar assistência a um doente e, ao realizá-la
com alegria, com certeza, a pessoa se restabelece rapidamente. E uma vez que vemos
o restabelecimento, somos motivados a prosseguir e, por ser assim, é que é bom. Por
conseguinte, quanto mais facilmente se restabelecem as pessoas, maior será a
expansão. É neste ponto que diferimos do mundo de até então.
No entanto, infelizmente, o ser humano adquire vários maus hábitos e acaba
aceitando o próprio sofrimento, achando que esse estado é normal. Isso se passa
também comigo, com frequência. Quando as coisas não fluem da forma esperada e
não transcorrem satisfatoriamente, dou-me conta do seguinte: eu as estava realizando
com sofrimento. Assim, deixo de lado o que estava fazendo e passo para outra coisa.
Há outro fator extremamente importante, que é o momento adequado. Mesmo em
se tratando de um plano bem elaborado ou de uma atividade que achamos que dará
certo, se ambos forem colocados em ação prematuramente, o resultado não será
satisfatório. Isto se dá não porque o que se faz é ruim, mas porque a ocasião não era
boa. É preciso que a pessoa tenha tieshokaku(126) para perceber isso.
Ordem também é outro fator muito importante. Há ocasiões em que ficamos
pensando que algo deve correr bem, que deve ser de determinada forma, mas isso não
se verifica. Em tais situações, uma análise mais profunda nos leva a concluir que a
ordem está equivocada. Respeitando-a, tudo flui rápida e facilmente. Conseguir
descobrir a causa e solucioná-la rapidamente deve-se ao tieshokaku.
O tieshokaku é profundamente significativo, ou melhor, exerce poderosa influência
sobre as coisas. Dessa maneira, quem possui essa inteligência, é capaz de perceber os
fatos. A forma mais simples de compreender este ponto é por ocasião da ministração
de Johrei. Às vezes, a demora na cura nos faz desconfiar de que há algo inexplicável e,
ao analisar a situação, logo verificamos que não havíamos percebido o essencial ou
que a ordem seguida na ministração estava errada etc.
Portanto, a ordem deve estar sempre de acordo com a lógica, com o procedimento
racional. Por exemplo, no caso de um doente, se houver alguém que se oponha por
motivos diversos ou que o pensamento do próprio doente esteja em completa

131
dissonância, o tratamento não será satisfatório.
É justamente nesse ponto, ou seja, na não ocorrência da cura, que se encontra o
motivo. Sem o devido conhecimento, o doente pode até mesmo duvidar, contestar ou
receber o Johrei com o intuito de apenas experimentá-lo. Nesse caso, é óbvio que
Deus não o condenará.
Ao contrário, há aqueles que, apesar de já terem ouvido muito sobre nossa Igreja,
de já terem lido os Escritos Divinos, havendo mesmo alguns que acabaram
ingressando na fé, praticam-na com um pensamento [sonen] não condizente com
tudo isso. Dessa forma, a cura torna-se demorada e não ocorre de forma favorável.
Para esses casos, existe um motivo lógico. Ou seja, quando as pessoas que duvidam
são curadas rapidamente, enquanto que as que possuem fé demoram mais, o motivo é
este que apresentamos.
Por mais que vacilem, isso é perdoável porque essas pessoas nada sabem. Não
obstante, as que continuam duvidando mesmo após terem presenciado os fatos, verão
que nada ocorrerá como desejado. Analisando bem esses casos, notamos que os
mesmos estão perfeitamente de acordo com a lógica.
O tieshokaku faz com que a pessoa descubra e compreenda rapidamente a referida
lógica. Significa que ela se reflete no espelho da mente; assim, se o espelho se
encontra embaçado, o reflexo não será bom. Mantendo-se o espelho sempre polido, a
descoberta será sempre mais rápida.
Desejo apresentar um ponto na fé que, em geral, não recebe a importância devida,
mas que é de suma relevância.
No budismo, Buda Sakyamuni(127) referiu-se por diversas vezes à inteligência. É a
isso que me refiro.
As pessoas que obtiveram certo grau de inteligência são denominadas iluminadas e
grandes iluminadas. Estas últimas são as mais elevadas.
Assim sendo, Buda Sakyamuni afirmou que “Bossatsu(128) é aquele que alcançou a
percepção verdadeira” e “Nyorai é o grande iluminado”. Assim sendo, podemos
concluir que a percepção vem a ser a própria inteligência.
Por esse motivo, há pessoas que conseguem perceber e descobrir as coisas
rapidamente, por serem iluminadas e por possuírem poucas nuvens espirituais.
Assim sendo, o melhor meio para manter esse estado de poucas máculas e de
pureza da alma, é a prática constante da leitura dos Escritos Divinos.
Mesmo lendo os Escritos Divinos, os pontos que antes não se compreendiam
claramente, passam a ser apreendidos na próxima leitura ou depois de algum tempo:
“É isso!”; “Que maravilha!”; “Está tudo tão claro! Por que eu não conseguia
compreender?” Isto se dá porque, na leitura anterior, o espírito estava nublado. Assim
sendo, à medida que as nuvens espirituais vão sendo eliminadas, a pessoa passa a
compreender melhor.
Coletânea de Ensinamentos nº 29, 5 de dezembro de 1954

(126) Tieshokaku: nome utilizado por Meishu-Sama para designar a sabedoria humana que se desenvolve

132
proporcionalmente à elevação espiritual do indivíduo. É também chamada de inteligência da suprema iluminação.
Vide Ensinamento “Camadas do Mundo Espiritual”, contido no livro Alicerce do Paraíso, volume 3.
(127) Buda Sakyamuni: título referente a Sidarta Gautama (563 a.C.–483 a.C.), cujos ensinamentos deram origem

ao budismo na Índia.
(128) Bossatsu: em sânscrito, bodhisattva. Termo budista utilizado para designar uma pessoa que já tem um

considerável grau de Iluminação e que procura usar sua sabedoria para ajudar outros seres humanos a se livrar do
sofrimento.

133
UTILIZAR O DINHEIRO CORRETAMENTE(129)

I nterlocutor: Mesmo trabalhando diligentemente, por não acreditar na grande


purificação que está por vir, existem muitas pessoas que pensam da seguinte
maneira: “Não penso que este servir seja o melhor caminho. Portanto, não me
importa como será o julgamento que está por vir.” Que tipo de punição receberão
essas pessoas?
Meishu-Sama: Essas pessoas são membros da nossa Igreja?
Interlocutor: Não, não são.
Meishu-Sama: Não são membros... É assim mesmo. Se eles trabalharem
diligentemente e não cometerem muitos pecados, serão salvos.
É perigoso a pessoa achar que será salva só pelo fato de ser membro da nossa Igreja
e nada fazer. Mesmo quem não for membro, se tiver sentimento e atitude corretos,
será salvo. A diferença entre os membros e os não membros é que os primeiros
aprendem a forma de salvação do próximo. Assim sendo, neste caminho, por meio da
salvação de outras pessoas, seus pecados diminuem.
O mesmo ocorre com o dinheiro. Mesmo que se consiga obtê-lo, de nada adianta
deixá-lo simplesmente guardado ou gastá-lo em futilidades, pois, inversamente, o
dinheiro acaba se transformando em algo prejudicial. É preciso, pois, usá-lo para
finalidades relevantes. Aprendemos esse método ao nos tornarmos messiânicos.
Quanto à utilização do dinheiro, o caminho mais eficiente é empregá-lo em prol da
propagação dos nossos Ensinamentos. Mesmo que se aprenda o caminho correto, de
nada adiantará se este não for colocado em prática.
Ou seja, aprende-se o melhor modo de salvar as pessoas nas aulas de princípios
messiânicos. Contudo, de nada adiantará receber essas aulas e não salvar ninguém.
Registro das Palavras de Luz, vol. 7, 23 de abril de 1949

(129) Título anterior: “O dinheiro deve ser usado de maneira correta”

134
FONTES DOS ENSINAMENTOS E RESPECTIVA
TRADUÇÃO EM JAPONÊS:

Coletânea Assuntos sobre Fé [Shinko Zatsuwa]


Coletânea de Ensinamentos [Mioshieshu]
Coletânea Série Jikan [Jikan Sosho]
Evangelho do Paraíso [Tengoku no Fukuin]
Jornal Eiko [Eiko]
Jornal Hikari [Hikari]
Jornal Kyusei [Kyusei]
Registro das Palavras de Luz [Gokowaroku]
Registro de Orientações [Gossuijiroku]
Revista Tijo Tengoku [Tijo Tengoku]

135
Índice
APRESENTAÇÃO DA REEDIÇÃO 3
A FÉ NO COTIDIANO 5
PRAGMATISMO 5
O PRAGMATISMO RELIGIOSO 7
FÉ É CONFIANÇA 9
FÉ É RETIDÃO E JUSTIÇA 11
FÉ CORRETA 12
LIBERDADE NA FÉ 15
A RESPEITO DA INCORPORAÇÃO ESPIRITUAL 17
A BEBIDA E A RELIGIÃO 21
TIPOS DE FÉ 23
OS PECADOS E AS IMPUREZAS E SUA RELAÇÃO COM A
26
DOENÇA
JOHREI POR MEIO DAS LETRAS 28
LEIAM O MAIS POSSÍVEL OS ESCRITOS DIVINOS 30
FISIOGNOMIA DAS CASAS E SUA POSIÇÃO EM RELAÇÃO AOS
32
PONTOS CARDEAIS
PENSAMENTO E SENTIMENTO 35
O SER HUMANO DEPENDE DO SEU PENSAMENTO [SONEN] 35
MISTÉRIO DO MUNDO ESPIRITUAL 36
MAKOTO [SINCERIDADE] 38
É POSSÍVEL MUDAR O DESTINO LIVREMENTE 39
PRÁTICAS DE HUMILDADE 41
SATISFAÇÃO E INSATISFAÇÃO 42
LIBERTE-SE DO GA 43
O EGO E O APEGO 44
A ENTREGA A DEUS 46
SABOR DA FÉ 48
AÇÃO 50
FILOSOFIA DA INTUIÇÃO 50
NOVAMENTE A RESPEITO DE BERGSON 52
TER OU NÃO TER MAKOTO [SINCERIDADE] 54
AURA E ONDAS ESPIRITUAIS 55
BONDADE E CORTESIA 59
PESSOA SIMPÁTICA 61

136
TEORIA SOBRE OS EFEITOS CONTRÁRIOS 63
RELACIONAMENTO 65
NÃO FIQUE IRADO 65
VENCER A IRA 68
NÃO JULGUE O PRÓXIMO 70
OUTRAS FORMAS DE VAIDADE 71
NÃO JULGUEIS 73
REPUTAÇÃO E EMOÇÕES 76
NÃO SEJA ODIADO 77
NÃO TRANSGRIDA A ORDEM 78
ORDEM 81
AMOR BENÉVOLO E AMOR MALÉVOLO 83
PESSOAS MEDROSAS 85
A IRRESPONSABILIDADE DOS SUICIDAS 86
TEMPO 88
AGUARDAR O TEMPO CERTO 88
O DEUS DO TEMPO 91
APRIMORAMENTO 93
A PARÁBOLA DA ESPADA 93
BECO SEM SAÍDA 94
DÚVIDA 95
LIBERTAÇÃO 96
INSTINTO E ABSTINÊNCIA 98
ABSTINÊNCIA 100
APRECIAR O BEM 102
SUBJETIVISMO E OBJETIVISMO 104
VERDADE E MENTIRA 105
VERDADE E MENTIRA 105
A SUPERSTIÇÃO DA MENTIRA 106
AMBICIOSOS SEM AMBIÇÃO 109
COMO DISTINGUIR A PESSOA MÁ 111
A RESPEITO DAS DÍVIDAS 112
A CAUSA DA POBREZA 112
A RESPEITO DAS DÍVIDAS 115
DEVEMOS OU NÃO FAZER DÍVIDAS? 117
DINHEIRO MAL GANHO, DINHEIRO MAL GASTO 120
ENSINAMENTOS EM FORMA DE PALESTRAS 122

137
O PENSAMENTO DAIJO E O PENSAMENTO SHOJO EM RELAÇÃO À 122
DEDICAÇÃO
A FORTE VONTADE DE CRESCER 124
A RESPEITO DO ESPÍRITO DA PALAVRA 125
A LUTA ENTRE O BEM E O MAL 127
CEDA PARA CONQUISTAR 128
SEJA UM BOM OUVINTE 130
A ALEGRIA, O TEMPO E A ORDEM 131
UTILIZAR O DINHEIRO CORRETAMENTE 134
FONTES DOS ENSINAMENTOS E RESPECTIVA TRADUÇÃO EM
135
JAPONÊS:

138

Você também pode gostar