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Negociações de Bretton Woods

Os EUA querem uma ordem económica aberta e estável, enquanto o RU quer uma ordem
económica internacional a seu serviço. Ao contrário dos EUA, o RU necessitava que o sistema
internacional o ajudasse a recompor a sua situação financeira.

Os EUA queriam um sistema de paridades fixas, a ideia de definir as moedas em um padrão


estável, que na época era o ouro, já que todos aceitavam que era o padrão mais estável.

A ideia americana é prevenir qualquer discriminação que tenha consequências no comercio


internacional e que possa vir da manipulação do valor da moeda, nomeadamente por via da
sua desvalorização.

Os ingleses, por sua vez, defendem uma postura oposta, a do ajustamento automático das
paridades das moedas, o que significa que se pode valorizar ou desvalorizar a própria moeda
em razão das circunstâncias. Paridade é a relação que há em um determinado momento entre
a moeda A e a moeda B.

A manutenção de uma moeda forte prejudica a capacidade de exportação de um país. Isso


coloca outro problema: na visão americana, um estado deve garantir a qualidade da sua
moeda, o que significa que o estado vai ter que pagar os custos dessa manutenção.

UK

Em 1944, os ingleses vão defender a criação de uma organização de carater supranacional,


uma espécie de banco, que pudesse intervir no mercado internacional para corrigir os
desequilíbrios que fossem gerados pela situação de dificuldade económica dos estados. A
responsabilidade da manutenção do equilíbrio global não era dos estados, era da organização.

o plano Keynes diz que, se a situação económica de um estado justificar, a paridade deve ser
automaticamente ajustada e os desequilíbrios corrigidos pela organização internacional, cuja
arquitetura comporta a criação de uma moeda transnacional que será emitida e utilizada
comprando ou vendendo, de acordo com as necessidades do sistema.

USA

O plano White diz que é responsabilidade de cada estado a manutenção da sua moeda,
auxiliado pela organização internacional, que os financia emprestando dinheiro para corrigir os
desequilíbrios.

Os pressupostos fundamentais de Bretton Woods

Padrão Ouro

O primeiro aspecto é que é um sistema de padrão ouro. O valor das moedas dos diferentes
estados que fazem parte do sistema tem que ser lastreado em função do valor do ouro
avaliado na data da assinatura dos acordos. Esse sistema não seria possível hoje, com uma
economia financeirizada e marcada, sobretudo, pelo setor de serviços. No período dos acordos
a economia era essencialmente industrial, o que significava que existia considerável produção
real de riqueza, o que não ocorre do mesmo modo hoje.

Convertibilidade Direta (Gold Species Standard) e convertibilidade indireta (Gold Exchange


Stadard)
Uma coisa é a moeda ser definida em função do ouro, outra coisa é saber como cada moeda se
converte em ouro. Existem dois modelos de funcionamento desse sistema. Há um modelo
segundo o qual todas as moedas são convertíveis em ouro. Esse seria o modelo de
convertibilidade direta. Esse sistema não é possível, porque se cada estado tivesse que garantir
a convertibilidade da sua moeda em ouro significaria que teria que ter reservas de ouro em
valor equivalente à moeda em circulação. Logo, o sistema adotado foi um sistema de
convertibilidade indireta, em que o ouro, que é o padrão do sistema, está no topo da cadeia,
todas as moedas estão na base e o dólar está no centro, realizando a mediação entre as
moedas e o ouro. Isso significava que não poderia haver a conversão direta das outras moedas
para ouro, mas havia a garantia de que o valor da moeda em dólar é sempre o mesmo porque
os EUA não podem alterar o valor da sua moeda e nem os outros países podem alterar as suas.
Além disso, os EUA garantiram que todos os dólares em circulação no mundo são convertíveis
em ouro. Esse é o chamado Gold Exchange Standard, em oposição ao chamado Gold Species
Standard, que é o sistema de convertibilidade direta. Isso foi assim porque os EUA possuíam ¾
das reservas de ouro mundiais.

Esse sistema, no entanto, estava condenado a falhar por ser ele um sistema rígido.

Taxas de Câmbio Rígidas

O primeiro dos princípios fundamentais de Bretton Woods tinha a ver com o Gold Exchange
Standard, ou seja, a cota de cada estado membro era estabelecida em ouro. Era um sistema de
convertibilidade indireta porque o dólar tinha o papel de denominador comum, isto é, era a
única moeda que era diretamente convertida ao ouro. Em segundo lugar, tínhamos as taxas de
cambio. A ideia era a de rigidez dessas taxas. Ao entrar no sistema, e o valor da moeda era
definido em ouro, o estado membro era obrigado a manter essa relação de paridade, a
comprar e a vender a sua moeda pelo valor definido pelo sistema. Se a moeda tivesse que
flutuar, em regra, a mudança do valor da moeda tinha que ser autorizada pelo FMI. Isto só
poderia acontecer se houvesse razões fundamentais que o justificassem. Só quando o estado
demonstrasse ao FMI a existência de desequilíbrios fundamentais que determinavam que não
era sustentável manter o valor da moeda é que o FMI podia dar essa autorização. É um
sistema claramente parametrizado. As regras estão definidas e não podem ser alteradas pela
vontade de cada um. Uma situação destas garantia uma preocupação fundamental, que era a
liberdade de pagamento. Como cada país se comprometia a garantir a convertibilidade da sua
moeda a taxa fixada, com naturalidade os pagamentos internacionais se faziam, porque todas
as moedas eram, de certa forma, credíveis. Essas são as regras do sistema monetário
internacional de então.

Papel do FMI

Mas há uma outra regra a perceber e que também foi alterada com a crise da convertibilidade,
que é o problema do papel do FMI.

Foram duas as perspectivas de Bretton Woods: os EUA sustentavam a necessidade de cada


país manter a responsabilidade de cada país em matéria monetária e depois ter o auxilio de
uma organização internacional, enquanto os ingleses queriam que os estados pudessem
desvalorizar livremente as suas moedas e que existisse uma organização que reequilibrasse
tudo novamente. O que ficou estabelecido foi a visão americana, e a criação de um fundo para
qual qualquer país poderia contribuir e beneficiar em momentos de crise. O FMI é hoje um
banco de desenvolvimento, mas não era assim nos seus primórdios. É um banco que empresta
dinheiro dentro de certos parâmetros que são definidos pelo PIB per capita, havendo,
portanto, um critério de elegibilidade para receber apoios do FMI, só podendo receber quem
tiver o PIB per capita abaixo de determinado valor, que vai sendo ajustado. Mas originalmente
só havia um critério de elegibilidade: ser membro do fundo. Esse critério permanece até hoje.
O que mudou não foi essa natureza do fundo de ter um conjunto significativo de verbas à
disposição de qualquer estado membro, foi a sua condição enquanto gestor do sistema. A
alteração cambial carecia de autorização do FMI, o que já não acontece mais. O FMI tinha
inicialmente duas funções: a função financeira, de empréstimos, e a função de gestão
monetária internacional. Essa segunda dimensão perdeu-se. A função de financiamento é, de
facto, semelhante à de um banco, tal como o Banco Mundial, mas realizada numa escala
macro.

A Crise no Sistema de Bretton Woods

Foram basicamente essas, então, as regras que marcaram o funcionamento do sistema


monetário internacional desde o fim da década de 1940 até 1971.

Em 1971 dá-se a crise do sistema de Bretton Woods, o que leva os EUA, através da intervenção
de Nixon. Isso acontece por razões várias. Em 1971 se acumulava uma série de problemas. O
fim do sistema de Bretton Woods era uma questão de tempo: não havendo ouro suficiente
que representasse o crescimento da economia mundial, não poderia haver a impressão
correspondente de dólares, que seria a expressão monetária da riqueza. Não havendo a
impressão de moeda não haveria veículo para exprimir, do ponto de vista monetário, a nova
riqueza.

Os EUA põem fim ao sistema de BW sobretudo por uma questão de política interna. Eles
vinham acumulando gigantescos deficits na balança de pagamento. O seu crescimento
económico estava sendo feito através de endividamento. Para se endividar há um problema,
que é a emissão de moeda, o que não funcionaria sem a correspondência em ouro. Acresce a
isso o fato de os outros países, conscientes dessa situação, começarem a pedir a conversão de
dólares em ouro, percebendo a inevitabilidade de um problema. Isso tudo cria uma situação
impossível de ser mantida, podendo chegar ao fim de forma desordenada ou de forma um
pouco mais ordenada através de uma decisão clara. E é isso que os americanos fazem com
Nixon, determinando a suspensão do acordo.

Isso teve consequências imediatas. A tendência do dólar era cair abismalmente, o que levaria
as outras moedas a sofrer, o que leva os outros países a interferirem em favor do dólar. A
queda do valor do dólar não era de todo má, dada a valorização das exportações americanas.

As funções que vão ser implementadas só vêm a ser formalizadas em 1978 com a segunda
revisão dos estatutos do FMI.

As Revisões dos Estatutos

Primeira Revisão (1969)

A circunstância de o sistema estar ligado ao ouro gerou falta de liquidez. Como não se podia
mexer no sistema, o que se alvitrou em 1969, na primeira revisão dos estatutos do FMI, é criar
uma nova moeda, chamada direitos de saque, e, consoante a quota que cada estado tinha no
FMI, alocar montantes de direitos de saque aos estados. Isso foi um ultima tentativa
desesperada de manter o sistema de BW em vigor.
Segunda Revisão (1978)

A segunda revisão vai ser destinada a rever globalmente o sistema de BW e a consagrar nos
estatutos aquilo que interinamente os países já tinham combinado para substituir o sistema de
BW.

1. Lastro Monetário

Os estatutos de 1978 estabeleceram que os estados são livres de adotar os mecanismos que
entenderem de ligação da sua moeda, ou seja, podem ligar a sua moeda a outra moeda ou aos
direitos de saque, mas não podem ligar a sua moeda ao ouro. Esse sistema retira o ouro do
centro do smi.

Antes do euro havia no território europeu o ECU (european currency unit), por vezes chamada
em Portugal de UCE (unidade de conta europeia), que era uma moeda escritural ao qual os
países membros da UE podiam ligar a sua moeda.

2. Câmbio Flutuante

O segundo aspecto dos novos estatutos definia que o sistema de câmbio deixava de ser rígido
e passava a ser flutuante. Os estados podem alterar o valor da sua moeda, desde que o façam
de acordo com princípios de racionalidade.

Os pressupostos de BW desaparecem: o padrão ouro, o papel do dólar como moeda pivot, a


rigidez das taxas de câmbio, o papel de autorização na alteração do valor das moedas do FMI.
O que resta é o papel do FMI do ponto de vista financeiro, e não o papel de autorização, que
foi substituído por um papel de vigilância.

As Quotas

Se o FMI é uma entidade financiadora, a primeira questão que se coloca é: como o FMI
encontra os recursos necessários para financiar a sua atividade? O pressuposto fundamental
do FMI nesta matéria é que ele não pode se endividar nos mercados internacionais. O FMI tem
uma espécie de capital social, que é composto por subscrições de todos os estados. Qualquer
estado, quando se torna membro do FMI, possui uma quota, e é essa quota que começa por
ser o primeiro pé-de-meia. A quota é estabelecida através de um conjunto de variáveis que
tem em conta todos os elementos que são necessários para traçar um retrato rigoroso da
situação económica e financeira de um país. Essa quota é paga pelo estado de duas formas:
25% da quota do estado é paga em moedas fortes (dólares, euros, francos suíços, libras,
direitos de saque), e 75% são pagos na moeda nacional do estado. As quotas são importantes
por algumas razões. Uma delas é porque em certo tipo de operações do FMI o limite de
endividamento tem a ver com a quota. Além disso, as quotas são determinantes para
estabelecer o peso relativo em termos de processo de situação em cada estado. Tal como nas
sociedades o numero de votos depende da quota ou do numero de ações que se tem, também
no caso do FMI o numero de votos que cada estado tem, seja no conselho de governadores,
seja no conselho de administração, é proporcional à sua quota.

As quotas no FMI têm uma multiplicidade de funções: a primeira é evidentemente as


contribuições que o FMI necessita para desenvolver a sua atividade, mas também determinam
o número de votos de cada estado membro, o montante do financiamento que, na
generalidade das operações do FMI, os estados podem pedir emprestado e também que o
número de direitos de saque especiais que cada estado recebe é determinado em função da
sua quota.

A única maneira de acorrer às necessidades financeiras do FMI é aumentar as quotas. No


Banco Mundial isso não é necessário, porque o BM pode se endividar nos mercados
internacionais. O país entrega à administração do banco a responsabilidade de gerir
adequadamente as disponibilidades financeiras que tem com ele para aplicar de acordo com
as necessidades.

Os Direitos de Saque Especiais

O FMI denomina as suas operações “direitos de saque”, e o capital social em direitos de saque
é, hoje, cerca de 450 bilhões, o que equivale a mais ou menos 670 bilhões de dólares, que é
toda a disponibilidade financeira do FMI.

A segunda dimensão financeira do FMI é acerca dos SDR (special drawing rights). Os direitos de
saque especiais foram criados em 1969 por conta da falta de liquidez do sistema do padrão-
ouro. Os DSE são uma moeda escritural, ou seja, não física. O direito de saque não é uma
moeda com curso legal pleno. Curso legal significa a possibilidade de dissolver compromissos
utilizando uma determinada moeda. A plenitude tem a ver com a extensão possível dos
pagamentos realizados com essa moeda. Por exemplo: um estado não pode pagar uma
empreiteira com direitos de saque, mas pode pagar outros estados. Portanto, os DSE não são
uma moeda livremente transacionável.

Como os DSE não são uma moeda com curso legal pleno, não estão sujeitas às regras normais
da oferta e da procura. O valor de uma moeda é definido pelas regras do mercado. Os DSE são
uma moeda cujo valor é feito em função de um conjunto de outras moedas. Inicialmente, os
DSE eram calculados com base num conjunto de moedas dos países que tinham um por cento
do comércio mundial, ou seja, um conjunto muito alargado de moedas. Chegou-se a conclusão
de que isso não era muito brilhante e, uns anos depois, reduziu-se isso a cinco moedas: o
dólar, o franco, a libra, o marco e o iene. A perspectiva era a de que ter muitas moedas
aumentava a flutuabilidade do valor dos DSE.

Operações com e sem designação

O DS não pode ser utilizado para solver compromissos e, de modo geral, os estados tem o
direito de saque como reserva, mas também não podem, em princípio, utilizá-lo para solver
compromissos, a não ser em circunstâncias excepcionais como, por exemplo, pagar dívidas a
estados e realizar operações com o FMI. A importância do DS se deve ao facto de poder ser
utilizado pelos estados para obter moeda que eles possam livremente utilizar no comércio
internacional. Se um estado necessitar de reservas de dólares, euros, etc., ele pode, através de
operações previstas nos tratados do FMI, utilizar os DS para obter moeda livremente utilizável,
ou seja, o DS é uma reserva que os estados têm todo o interesse em ter porque, no momento
em que precisarem de divisas, podem trocar os DS nessas moedas. Essas operações que
permitem aos estados obter moeda forte através da entrega dos direitos de saque podem ser
feitas de duas maneiras: as chamadas operações com designação e as operações sem
designação. As operações com designação significam que um estado, precisando de moeda
livremente utilizável e não a possuindo, mas dispondo de DS, pode ir ao FMI e pedir a
indicação de um parceiro que possa entrar na operação, um parceiro a quem o estado
requerente possa transferir os DS e que, em contrapartida, transfira a moeda livremente
utilizável correspondente ao valor dos DSE. Essas operações são chamadas “com designação”
porque o FMI vai designar um parceiro para entrar nessa operação. É uma operação triangular.

Os tratados preveem ainda a possibilidade das operações sem designação, operações que são
feitas diretamente entre dois estados membros do fundo sem a intervenção da própria
organização. São denominadas sem designação justamente porque o FMI não designa nenhum
parceiro, sendo as operações bilaterais. Se a operação for sem designação o estado requerido
não é obrigado a participar da operação. Se a operação for com designação o estado requerido
pela FMI não se pode recusar.

Os empréstimos do FMI e a sua fórmula de materialização

A Carta de Intenções

O FMI empresta dinheiro a uma taxa de juros relativamente elevada, o que significa um
sacrifício grande para os estados. Normalmente esse pedido de apoio é feito através da
entrega de um documento vulgarmente conhecida em Portugal como “carta de intenções”. É
de intenções porque, na carta, o estado manifesta a sua intenção de cumprir um conjunto de
medidas destinadas a reequilibrar a situação das suas finanças públicas e a utilizar
adequadamente as verbas que o FMI lhe vai disponibilizar.

Essa “carta de intenções” é apenas o início de um processo que vai evoluir, terminando num
acordo formal entre o FMI e o estado. O inicio das operações através das quais o FMI vai
apoiar o estado resulta de um acordo formal que é estabelecido entre o FMI e o estado,
acordo esse que detalha a natureza das medidas que o estado se compromete a tomar na
aplicação das verbas que o FMI disponibilizar. Se fizermos a comparação entre a carta de
intenções que o estado português remeteu ao FMI e o memorando de entendimento que mais
tarde veio a ser estabelecido com o FMI, constataremos que o documento final é muito
extenso e detalhado, ao contrario do que acontece com o pedido inicial.

Esse acordo final é um acordo extremamente detalhado, em que o estado e o FMI definem
com muito cuidado e de forma calendarizada as medidas que vão ser tomadas. O FMI, para
garantir a monitorização adequada daquilo que disponibiliza aos estados, liberta os
financiamentos em parcelas trimestrais e, no fim de cada trimestre, faz uma avaliação da
implementação das medidas que haviam ficado estabelecidas para o primeiro trimestre.
Existem três possibilidades: o estado cumpriu os compromissos e liberta-se a verba do
trimestre seguinte; o estado não cumpriu os seus compromissos, mas não o fez por razões que
não são culpa sua, procedendo-se então a re-calendarização das medidas e a verba é libertada
na mesma; o estado não cumpre as medidas e a verba seguinte não é liberada.

Concessionalidade e não-concessionalidade

A única condição para beneficiar de apoio do FMI é ser membro, ao contrário do que acontece
com o BM, em que há um critério de elegibilidade que é o PIB per capita.

Estes conceitos têm a ver com as exigências que são feitas ao estado. Falamos em
concessionalidade quando o empréstimo é mais favorável e em não-concessionalidade quando
as taxas são as taxas normais praticadas pelo mercado.
Condicionalidade e não-condicionalidade

Uma segunda ordem de conceitos que importa é a distinção entre condicionalidade e não-
condicionalidade. tem a ver com a circunstância de saber se um empréstimo é concedido
impondo o cumprimento de certas condições ou se o empréstimo é concedido sem condições.

O FMI caracteriza a sua atuação pela condicionalidade, ou seja, sempre que empresta dinheiro
a alguém, impõe condições.

Facilities

Habitualmente, os instrumentos financeiros do FMI chamam-se facilities e tem acontecido que


o FMI crie esses instrumentos para situações particulares. Na altura da crise do petróleo, o FMI
criou o “oil-facility”. A seguir à queda do Muro de Berlin, o FMI criou um instrumento
especificamente dirigido aos antigos países comunistas, especialmente os da Europa do Leste,
que se chamou “systemic transformation facility”. Essas soluções se extinguem quando a
natureza dessa dificuldade deixa de existir.

O que normalmente define a capacidade de endividamento de um estado no FMI é o


montante da sua quota, portanto, quanto maior for a quota, maior a capacidade de
endividamento. O máximo que o estado pode receber é quatro vezes e meia o valor da sua
quota.

durante muito tempo, o FMI basicamente teve soluções destas: aplicava a mesma cartilha a
todos, fossem ricos ou pobres. A partir de certo momento, percebeu-se que não poderia ser
assim, e que as exigências que eram feitas aos países ricos não poderiam ser as mesmas feitas
aos países com situações complicadas. Portanto, o FMI criou soluções de financiamento que
vão ao encontro das necessidades desses países mais frágeis. Uma dessas soluções chama-se
“extended credit facility”. Pensada especificamente tendo em conta a situação dos países mais
pobres, não tem taxa de juros e o período de graça ou de carência (o período dentro do qual
não se paga ou se paga apenas o juro) é de cinco anos e meio.

O funcionamento do FMI

O FMI funciona, basicamente, como uma empresa.

Conselho de Governadores e Conselho Executivo

O FMI inspira-se nessa lógica, tendo uma assembleia, que se denomina conselho de
governadores, e um conselho, que se chama conselho executivo. A assembleia geral, que se
reúne uma vez por ano em conjunto com o Banco Mundial, é um órgão de definição de
orientações gerais, não cabendo a gestão normal do FMI ao conselho de governadores. No
conselho de governadores, têm assento todos os estados membros e cada estado membro
tem um peso relativo determinado em função da sua quota.

A gestão normal do FMI cabe ao conselho executivo. Esse conselho é composto por vinte e
quatro administradores. Há um determinado conjunto de países (8) que mais contribuem para
o FMI e que tem direito de indicar o seu próprio administrador. Isso significa que há uma
espécie de membros permanentes do executive board. Esses países são: EUA, China, Japão,
Reino Unido, Alemanha, França, Rússia e Arábia Saudita. O administrador indicado representa
apenas o país que o indicou e exerce apenas o “número de votos” do país que o indicou. A
única exceção é feita ao administrador russo, que representa também a Síria. Quanto aos
restantes 16 administradores, são designados por grupos de países.
“Entente Cordiale”

O FMI tem também um diretor-geral, uma espécie de presidente do conselho de


administração. Assim sendo, o conselho de administração é composto de facto por 25
membros, 24 escolhidos individualmente ou grupalmente pelos países e o diretor-geral que
preside as reuniões do executive board. Desde há muito existe uma espécie de “entente
cordiale”, de acordo de cavalheiros entre os EUA e a UE no sentido de estabelecer uma espécie
de “Tratado de Tordesilhas” nessa matéria: o diretor-geral do FMI é sempre um europeu e o
presidente do BM é sempre indicado pelos EUA.
O Banco Mundial

A primeira diferença que o BM apresenta relativamente ao FMI é que o BM é um grupo. Não


era na sua origem em Bretton Woods, mas progressivamente foi criando novas instituições
numa relação do grupo, isto é, instituições que são juridicamente autónomas, que tem
tratados próprios, mas que tem uma ligação umbilical com o banco. O banco também tem um
conselho de adminstraçao, e as pessoas que exercem funções de administração no BM, ou
mais propriamente no Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, são as
mesmas que administram as outras entidades do grupo.

A primeira instituição dessas foi o BIRD. A medida em que o tempo foi passando, os países
membros foram constatando que havia determinadas necessidades que não estavam a ser
adequadamente tratadas apenas com a existência do banco.

o BIRD é uma entidade que só pode se relacionar com entidades públicas, só que uma parte
muito significativa do esforço necessário para a reconstrução dos países mais pobres passa por
apoiar o desenvolvimento do setor privado. Daí que, em 1956, tenha sido decidido que era
preciso criar soluções que permitissem financiar, não o investimento em infraestruturas, mas
iniciativas privadas que tivessem boas possibilidades de contribuir para o desenvolvimento dos
estados, mas que não tivessem maneira de buscar dinheiro a lado nenhum. É nesse ano que é
criada a Sociedade Financeira Internacional, a segunda instituição do grupo, depois do BIRD,
cujo objetivo é ultrapassar a limitação que o banco havia demonstrado ao apoiar apenas
entidades públicas, financiando investidores privados.

Não há nada que obrigue um estado-membro a se associar ao mesmo tempo ao BIRD e à SFI.

A ideia seguiu uma lógica de especialização, ao invés de alargar progressivamente o banco


para que desempenhasse novas tarefas.

No início da década de 60 vai surgir a terceira entidade do grupo: a AID (Associação


Internacional para o Desenvolvimento).

para o apoio aos países mais pobres, nem todos esses países encontram-se na mesma
situação. O banco empresta dinheiro, mas com determinadas condições.

pratica condições dos seus empréstimos extraordinariamente favoráveis

O BIRD, a SFI e a AID constituem a dimensão financeira do grupo do Banco Mundial, ou seja,
constituem o conjunto das entidades financiadoras do grupo do BM.

Além dessas três há mais duas, que não são de natureza financeira. A primeira delas, criada em
1955-1956, é designada CIRDI-ICSID (Centro Internacional para a Resolução de Diferendos em
matéria de Investimentos). A instituição oferece mecanismos de resolução de diferendos que
estão fora da ordem jurídica do estado.

Em 1985 vem a ser criada a última instituição do BM. Essa agência chama-se MIGA (Agência
Multilateral de Garantia de Investimentos). A MIGA é uma espécie de seguradora.

O BIRD foi criado numa lógica de complementaridade relativamente ao FMI. É um banco de


reconstrução, isso porque no momento da sua criação, durante a Segunda Guerra Mundial,
uma preocupação central era a reconstrução das economias devastadas pela guerra. Mas
também a de auxiliar países que, não estando envolvidos diretamente na guerra, eram países
relativamente pobres. A complementaridade entre o BM e o FMI é evidente, na circunstância
de um país só poder tornar-se membro do BM se previamente pedir adesão ao FMI.

O BIRD

O Financiamento do Banco

Os mecanismos de financiamento do banco são significativamente diferentes daquilo que


acontece com o FMI. No caso do FMI, o financiamento é feito nesses termos: o país, quando se
torna membro, liquida 25% da sua quota em moeda forte, pagando o restante na moeda
nacional. A obrigação que recai para os países é pagar tudo. No caso do BIRD, a situação é
completamente diferente. Quando um estado se torna membro, a única coisa que ele tem que
pagar da sua quota é 2%, que são pagos em ouro ou em dólares. Dezoito por cento da quota
será paga (também em moeda forte) se o banco necessitar desse dinheiro para o
desenvolvimento normal das suas operações. Os restantes 80% só serão pagos em casos
especiais de necessidade do banco para certas operações, e em moeda nacional. O dinheiro
que o banco dispõe é muito menor, porque a possibilidade que ele tem de receber
efetivamente a quota de cada estado é bastante limitada. Isso tem um efeito negativo, que
significa que o banco tem uma limitada disponibilidade de capital, o que indica que há uma
lógica diferente quando comparada àquela do FMI. O FMI depende quase exclusivamente dos
estados. No caso do BIRD, a ideia não é que ele depende das contribuições dos membros.
Desde o início o banco foi pensado para funcionar como um banco, isto é, para atuar no
mercado de capitais e para obter no mercado de capitais o financiamento necessário para
desenvolver as suas atividades, o que significa que ele, fundamentalmente, depende dos
empréstimos que ele consegue obter nos mercados de capitais. As obrigações emitidas pelo
banco são, sistematicamente, classificadas como AAA+, o que significa que inexiste risco de se
fazer aplicações financeiras neste gênero de operações.

Como acontece no caso do FMI, o poder de voto dos estados no caso do BIRD é medido em
função da quota estabelecida para cada estado.

As 4 Categorias de membros

Todos os anos, o banco procede a uma análise de todos os membros, dividindo-os em


categorias, fazendo isso em função do PIB per capita. A primeira categoria é conhecida por LIC
(low income countries), que engloba, atualmente, os estados que tem PIB per capita igual ou
inferior a 1025 dólares. Depois, as economias que tem rendimento baixo ou médio-baixo, que
inclui os países que tem PIB per capita entre 1026 e 3995 dólares. A terceira categoria é
composta pelos países que tem uma economia média ou média-alta, com PIB per capita entre
3996 e 12375 dólares. A última categoria, dos países ricos, é daqueles que possuem valor
superior a 12375 dólares. Isto é importante para estabelecer os termos em que o apoio vai ser
feito a esses estados. Os países mais pobres de todos, os da primeira categoria, são países que,
normalmente, são elegíveis não tanto para o banco, mas para apoios da AID.

A Estrutura do Banco

A estrutura do BIRD é basicamente idêntica à estrutura do FMI, isto é, baseia-se na existência


de um conselho de governadores, de uma assembleia geral, onde estão representados todos
os estados-membros, e num “board of directors”, um conselho de administração onde tem
assento apenas um numero limitado. As quotas pagas pelos estados são o elemento a partir do
qual é apurado a presença e o peso dos estados no processo de decisão. Assim, no conselho de
governadores, o governador indicado por cada governador exerce aí o numero de votos que
cada estado tem. No que diz respeito ao “board of directors”, o conselho de administração, a
lógica é também a mesma. A preocupação foi garantir que houvesse um órgão mais restrito e
mais eficaz nas suas decisões e, ao mesmo tempo, garantir que todos os estados tivessem
presença nesse processo.

Há, no entanto, uma pequena diferença em termos de composição numérica entre o conselho
de administração do FMI e o conselho do BIRD. Como vimos, o conselho do FMI era composto
por 24 administradores. Tradicionalmente, para se manter essa paridade, o conselho do banco
tinha também 24 administradores, mas desde há mais ou menos uma década, passou a ter 25
administradores. Foi criada uma circunscrição específica para alargar a representação dos
países da África Subsaariana. Desses 25, 6 são designados (EUA, Japão, China, França,
Alemanha, Reino Unido). Os restantes são eleitos no conselho de governadores, sendo que há
dois países que tem sempre a garantia de eleger sempre um (Rússia e Arábia Saudita).

Tal como acontece no FMI, há um órgão singular de direção do banco, que no banco é
designado como presidente do conselho de administração, que atualmente é americano.

Os Empréstimos

Há uma diferença fundamental entre o FMI e o banco. O FMI é uma instituição que ajuda
diretamente a estabilização financeira do estado. O banco tem o mesmo objetivo de ajuda,
mas a lógica de execução é diferente, porque o BIRD tem uma atuação direcionada à economia
dos estados, visando criar condições a médio-longo prazo par que os estados possam
desenvolver a sua economia, criando condições para gerar riqueza e independência. Enquanto
os financiamentos concedidos pelo FMI são, na generalidade dos casos, sujeitos à regra da
condicionalidade, isto não existe no caso do Banco Mundial.

Então, que tipo de empréstimos podem ser esses e a que eles se destinam? Podem ser
empréstimos destinados a investimentos precisos (aeroportos, barragens, etc.). E podem ser
também programas de desenvolvimento de setores econômicos inteiros. Em geral, é tendo em
conta essa segunda espécie de objetivo que o banco passou a atuar. Em resumo, pode-se dizer
que o banco financia através de empréstimos, financia o desenvolvimento de políticas e
projetos e financia a assistência técnica, isto é, o acompanhamento da execução e
implementação desses projetos por si financiados.

A natureza dos empréstimos concedidos depende também da situação concreta em que o


estado se encontra. Os bancos comerciais conferem as melhores condições àqueles que
possuem mais, porque tem maiores condições de retornar o empréstimo. No caso do BIRD, a
circunstância é oposta, ou seja, as condições do empréstimo melhoram consoante pior for a
situação do país. Isto se dá porque o objetivo não é o lucro.

Os aspectos dos empréstimos medem-se, fundamentalmente, em três variáveis: taxa de juro,


maturidade do empréstimo (período de duração do empréstimo) e períodos de carência. Se
um estado for mais pobre, tem uma taxa de juro mais baixa, um prazo de reembolso maior e
pode ter período de carência, seja de capital, seja de juro.

Por que o mundo precisa de um banco dessa natureza? O objetivo fundamental de um banco
de apoio ao desenvolvimento é simples: diminuir a pobreza. E faz-se isso através da promoção
do crescimento econômico sustentável, o que é uma tarefa de médio a longo prazo. Isso
explica a diferença dos prazos de empréstimo em comparação com aqueles praticados pelo
FMI.

SFI

Passamos agora à segunda instituição do grupo do Banco Mundial, que é designada em


português por Sociedade Financeira Internacional (IFC, International Finance Corporation, em
inglês). Esse órgão surge pela percepção da necessidade de criação de uma entidade que
financiasse diretamente empresas privadas, já que o BIRD não o faz. Era preciso ultrapassar a
dificuldade que as empresas em países de terceiro mundo enfrentam pela circunstância de o
setor bancário e financeiro nesses países ser normalmente muito frágil. Foi criada em 1956,
sendo a primeira instituição para além da instituição-mãe (BM).

Portugal, sendo um país pequeno, só pode retirar grandes benefícios econômicos da


capacidade de captar financiadores estrangeiros. Mas isso não se passa só com Portugal. No
caso dos países mais pobres o investimento é um contributo determinante para a economia,
dada a sua menor capacidade de angariar recursos internamente. Essa necessidade, no
entanto, é contrabalançada pela instabilidade, o que deixa os investidores estrangeiros
receosos. Foi por isso foram criados o CIRDI-ICSID (Centro Internacional para a Resolução de
Diferendos em matéria de Investimentos) e a MIGA (Agência Multilateral de Garantia de
Investimentos), para encorajar os investidores diminuindo o risco que esses países
apresentam. Isso não resolve o problema do investimento interno, que é parte fundamental
do desenvolvimento económico. O investimento pressupõe poupança e, não havendo
poupança, também não há grande capacidade para financiar os empresários que tenha ideias
viáveis e que contribuam para a criação de riqueza. Daí a importância de uma estrutura como
a IFC que, passando por cima da fronteira estadual, tenha uma relação direta com os
empresários e investidores para que esses possam encontrar aí o que não conseguem
encontrar internamente.

Os 2 Mecanismos de Ajuda

Para responder a essas necessidades, a IFC criou um conjunto de soluções que permitem
responder às necessidades concretas de cada investidor que podem ser respondidas por
recurso a soluções diferentes.

1. Empréstimos

A primeira, e mais natural, possibilidade de atuação da IFD é através da concessão de


empréstimos. A IFC, ao emprestar dinheiro, vai ser procurada pelo investidor que apresenta o
plano de negócios, e vai se chegar à conclusão se o negócio será funcional. Se assim for aceito,
a IFC vai apoiá-lo através de várias possibilidades de solução, a primeira das quais é um
empréstimo. Os empréstimos variam em função daquilo que é o projeto e o seu beneficiário, e
vão variar em todos os seus aspectos, quer em termos dos montantes, quer em termos do
prazo de maturidade, da existência ou não de períodos de carência. Há um ponto importante
na relação entre a Sociedade e os beneficiados: ela é uma entidade que ajuda, não que
substitui. O que está em causa é um negócio que tem condições para ser apoiado e o principal
responsável pelo investimento é o empresário, por isso, o que acontece é que a IFC não deve
ser o principal investidor no projeto. Por regra, a IFC, quando opta por emprestar dinheiro, não
pode emprestar mais de 25% do total estimado do projeto. Isso significa que o empresário tem
que arranjar os outros 75%. Mas a mera presença da IDF é um trunfo a favor do
empreendedor, é um catalisador.
2. Equity (Capital Social)

A segunda possibilidade de ajuda é o equity, o capital social. A IFC pode, por essa via somente
ou complementando os empréstimos que concede, ter uma participação no capital social da
empresa. O seu apoio pode começar não no empréstimo, mas na gênese da empresa.

O verdadeiro objetivo da IFD é impulsionar a economia das nações mais pobres através do
financiamento de negócios locais. Embora seja a principal preocupação da IFC seja a de
fortalecer um setor privado para que esse contribua para a atividade econômica de um país,
não é proibido o financiamento de empresas em que o estado tenha participação.

Os Empréstimos

Quando se trata de apoios através de empréstimos, a regra geral é que os empréstimos têm
um mínimo de 7 anos e um máximo de 12 anos, podendo, excepcionalmente, ir até os 20 anos,
e esse empréstimo não pode exceder 25% do valor total. O que está em causa não é apenas
apoiar um investimento que se crê viável para o país, é necessário desenvolver a mentalidade
própria do setor privado, que é a do risco, da iniciativa e da capacidade de afirmação, o que
não seria possível com o financiamento total. Além disso, o envolvimento da IFC funciona
como um catalisador para o negócio.

A segunda possibilidade de apoio é através do equity, o capital social, ou seja, a base financeira
com que todas as empresas têm que começar, que resultam de contributos de seus sócios. Isto
significa que uma maneira que a IFC tem de apoiar as empresas é entrar diretamente no
negócio através da sua qualidade de investidor. O limite de participação nesse caso é de 20%
do capital social. A IFC nunca pode ser o acionista principal. Uma vez mais é a mentalidade de
risco, do setor privado, que está em causa. Também não pode ser gestora do projeto. É
possível ainda que a IFC esteja presente numa empresa pelos dois métodos de apoio. A IFC
não pode aceitar nem pedir garantias de estado, o que significa que tudo se passa na relação
entre a SFI e a empresa em causa. Uma vez mais, o que se pretende é formatar a “mentalidade
do setor privado”.

O envolvimento da SFI é temporário, tendo em vista a autossustentabilidade dos projetos


apoiados. É preciso relembrar que a SFI funciona como um banco, emprestando a juros. No
caso da participação direta no capital não há prazo, o que não significa a sua presença
perpétua, o que significa que ela deixa sua participação no capital social o mais rápido possível
vendendo as suas ações no mercado bolsista local. O termo técnico para bolsa é mercado de
capitais, onde se compra e vendem participações, obrigações, etc. A SFI, preferencialmente,
aliena o capital que tem das empresas que financia através do mercado de capitais, ou seja,
não faz isso em negociações particulares, faz através de uma OPV (oferta pública de venda).
Além de conferir maior transparência para a negociação, este gênero de prática tem outra
vantagem: ajuda a fortalecer e a credibilizar o mercado de capitais local.

28/04/20 (TP)

AID (Associação Internacional para o Desenvolvimento)

A AID é a terceira entidade financeira do grupo do BM, sendo a primeira o BIRD, criada em BW,
e a segunda a SFI, criado em 1956. A AID, por sua vez, é criada em 1960. Fundamentalmente, o
BM é essas três entidades financeiras.
Ela foi criada a partir da constatação de que o intervalo, em termos de PIB per capita, dentro
do qual o BIRD pode atuar é muito variado. Por isso, a ideia foi simples: era preciso
encontrar soluções que permitissem ir ao encontro dos países mais necessitados sem lhes
estar a exigir determinados tipos de imposições que sejam injustas e que tornem impossível
o apoio por incapacidade de cumprimento dessas mesmas imposições. Tal como aconteceu
no caso da SFI, a questão tinha duas soluções: ou coloca-se o BIRD a fazer isto ou busca-se uma
solução alternativa que responda a essa dificuldade e que não descaracterize a atuação do
banco. Mas aqui está em causa apenas o empréstimo a entidades públicas. Optou-se pelo
segundo caminho. Também aqui se quis que essa solução fizesse parte do pacote global do
BM.

Só se pode ser membro da AID se for membro do Banco. O contrário não é necessário.

A lógica do grupo funciona de tal forma que os administradores do banco e da SFI são, ao
mesmo tempo, administradores da AID.

Critérios de Elegibilidade

A primeira questão que colocamos passa pela definição de critérios de elegibilidade. Até onde
é que se justifica que um país se beneficie das condições extremamente favoráveis concedidas
pela AID? Atualmente o critério ronda os 1200 dólares. Um país com rendimentos per capita
até esse valor é plenamente elegível para financiamentos da AID. A partir daí e até os 5000
dólares o país passa a ser elegível para empréstimos (créditos) mistos, podendo se beneficiar
simultaneamente de empréstimos do banco e da AID. A partir dos 5000 dólares deixa de poder
receber créditos. Acresce que, ao contrário dos financiamentos do BIRD, que são, em larga
medida, empréstimos econômicos, os financiamentos da AID são, sobretudo, destinados ao
preenchimento de necessidades sociais básicas, ou seja, para desenvolver projetos que não
têm consequências econômicas imediatas, tais como os relacionados à educação, aos serviços
de saúde, água e saneamento, etc.

Cerca de 70 países podem se beneficiar da ajuda da AID, o que demonstra bem a situação
atual de pobreza no mundo.

A AID é hoje a principal fonte de financiamento concecional do mundo (ver conceito de


concecionalidade e não-concecionalidade).

Quando falamos de empréstimos, as condições mais relevantes são: taxa de juros, período de
maturidade (duração) e existência ou não de períodos de carência (período em que se paga
apenas os juros ou não se paga coisa alguma). A taxa de juro normalmente praticada pela AID
é 0%. Isso significa que, dependendo das taxas de inflação, a AID acaba por perder dinheiro. O
que se agrava pelo fato de que, concedendo empréstimos para a satisfação de necessidades
básicas, esses empréstimos vão ser relativamente alargados no tempo, sendo que o período
de maturidade desses empréstimos varia entre 20 e 40 anos. Os períodos de carência variam
entre 5 e 10 anos.

A AID também concede apoios sem a obrigação de devolução, ou seja, subvenções, apoios a
fundo perdido. Há uma diferença entre países muito pobres e países em risco e quando se
trata desses últimos a AID pode conceder apoios sem a obrigação de devolução.

Forma de Financiamento
A única maneira de financiar isso é indo ao bolso dos estados membros, mas isso não funciona
no sistema de quotas como nas outras organizações. A AID é financiada através de sucessivas
reconstituições de capital. Isto é como se, de tantos em tantos anos, a AID fosse recriada e os
países membros tivessem que pagar a quota novamente, com um agravante: cada vez que a
reconstituição de capital acontece a participação de cada país aumenta. Esse é o único meio
que a AID dispõe verdadeiramente para financia a sua atividade.

A AID precisa de regularmente de uma reconstituição de capital, estabelecida atualmente para


ser realizada de três em três anos. Estamos já na décima oitava reconstituição do capital da
AID. Essa reconstituição repousa sobre os ombros dos países mais ricos, chamados doadores,
que são 52. Não é, no entanto, uma responsabilidade exclusiva. A reconstituição de capital se
faz de três maneiras: o contributo dos 52 estados doadores; a contribuição do grupo Banco
Mundial através da transferência de lucros do BIRD e da SFI em beneficio da AID; e
empréstimos concedidos a AID. Estes empréstimos vêm, em sua maior parte, dos estados
membros, mas pode-se também buscar recursos no mercado internacional.

CIRDI

Com a criação do CIRDI em 1955 entramos numa lógica diferente, uma lógica de
disponibilização de soluções de encorajamento para os investidores. O que está em causa não
é o financiamento, é a criação de mecanismos que deem ao investidor a garantia de
recuperação de investimentos caso algo ocorra mal. Entre os dois ou três principais fatores de
desencorajamento do investidor está o funcionamento da justiça.

Os estados estão livres para aderir ao CIRDI, mas é evidente que têm interesses nisso, porque
os estados e/ou os investidores só podem beneficiar do acesso aos mecanismos de resolução
de litígios que o CIRDI disponibiliza se forem parte no seu tratado institutivo. É preciso que os
dois países envolvidos no negócio sejam membros da organização.

Os 2 Mecanismos de Resolução do CIRDI

O CIRDI não é ele próprio uma entidade que resolva litígios, não é um tribunal. O que acontece
é que o centro disponibiliza aos envolvidos num litígio, meios para o resolver. Esses meios são
dois: o mecanismo da conciliação e o mecanismo da arbitragem. Os envolvidos no litígio
escolhem qual meio desejam. O Centro funciona como mecanismo de apoio a resolução do
litígio e, tendo uma lista organizada de árbitros e conciliadores, vai apoiar administrativamente
e logisticamente o funcionamento dessa atividade. Não é o CIRDI que estabelece a decisão
final.

A escolha pela conciliação ou pela arbitragem depende apenas das partes. A diferença entre os
mecanismos é que, no primeiro caso, busca-se uma solução intermédia, pacífica, que permita
o entendimento das duas partes e a resolução em benefício delas; já no segundo caso, o que
se verifica na realidade é a construção de um tribunal arbitral. Quando ao tribunal arbitral,
difere este dum tribunal regular por ser criado apenas para a resolução de um litígio específico
e cujos juízes são nomeados pelas partes envolvidas.

Não é o mesmo lidar com um litígio entre dois particulares e um litígio entre o estado e um
particular, portanto, os estados têm sempre algum receio em ficar dependentes de alguma
instituição internacional que eles não controlam. Não surpreende que o tratado que cria o
centro estabeleça algumas medidas de proteção dos estados. A primeira delas é que, mesmo
que um estado se torne parte do centro, o recurso à conciliação ao à arbitragem é sempre
facultativo. O particular não pode por si só requerer a intervenção da arbitragem do centro.
Para que tal aconteça é preciso que o estado aceite o recurso a esses mecanismos. A situação
é de salvaguarda do estado. Mas a intervenção do centro exige sempre o acordo entre ambas
as partes.

Em geral, os investimentos estrangeiros possuem um contrato em que consta uma cláusula


especificando os procedimentos para a resolução de possíveis litígios. O que pode acontecer é
que as partes assumem que, se houver entre elas um litígio, esse litígio será necessariamente
resolvido através dos mecanismos do CIRDI. Se isso acontecer, os problemas de submissão das
partes ao centro desaparecem, visto estarem obrigatoriamente ligados por via do contrato.

Consequências dos 2 Mecanismos

As consequências da opção por um caminho de resolução de diferendos ou por outro não são
as mesmas, ou seja, se as partes optarem pela conciliação elas se comprometem a terem
consideração às recomendações que o(s) conciliador(es) fizerem. Apenas isso. Se a opção for
pela arbitragem, que é um procedimento de natureza judicial e que termina com uma
sentença, as partes comprometem-se a cumprir a decisão arbitral e, mais especificamente, a
cumprir as obrigações pecuniárias.

MIGA

Criada em 1985, a agência funciona como uma espécie de “seguro obrigatório” a nível de
investimento.

As garantias oferecidas pela MIGA só têm sentido se falarmos de garantias de riscos não
comerciais, isto é, garantias que tenham a ver com a atuação direta do estado, ao que se pode
chamar riscos “políticos”. A convenção que cria a agência estabelece quatro (5) categorias de
riscos não comerciais que a agência pode cobrir.

1. Inconvertibilidade e a restrição de transferência de moedas

Em primeiro lugar, a inconvertibilidade e a restrição de transferência de moedas. Protege


contra perdas decorrentes da incapacidade do investidor de converter legalmente moeda local
(capital, juros, lucros, royalties e outras remessas) em moeda forte (dólar, euro ou iene) e / ou
transferir moeda forte para fora do país anfitrião onde tal situação resulta de uma ação do
governo ou falha na ação. A depreciação da moeda não é coberta. No caso de uma
reclamação, a MIGA paga uma compensação na moeda forte especificada no contrato de
garantia.

2. Expropriação

Protege, em segundo lugar, contra perdas decorrentes de certas ações governamentais que
podem reduzir ou eliminar a propriedade, controle ou direitos sobre o investimento segurado.
Além da nacionalização e confisco, a expropriação "rasteira" - uma série de atos que, com o
tempo, têm um efeito expropriatório - também é abordada. A cobertura está disponível em
uma base limitada para expropriação parcial (por exemplo, confisco de fundos ou ativos
tangíveis).

No caso de expropriação total de investimentos em ações, a remuneração do segurado é


baseada no valor contábil líquido do investimento segurado. Para expropriação de fundos, a
MIGA paga a parte segurada dos fundos bloqueados. Para empréstimos e garantias, a MIGA
pode garantir o principal em aberto e quaisquer juros acumulados e não pagos. A
compensação seria paga mediante a cessão da participação do investidor no investimento
expropriado (por exemplo, ações ou participação em um contrato de empréstimo) à MIGA.

3. Guerra, terrorismo e distúrbios civis

Protege contra perda, dano ou destruição ou desaparecimento de ativos tangíveis ou


interrupção total dos negócios (a total incapacidade de realizar operações essenciais à
viabilidade financeira geral de um projeto) causada por atos de guerra politicamente
motivados ou distúrbios civis no país, incluindo revolução, insurreição, golpes de Estado,
sabotagem e terrorismo.

4. Quebra de contrato

Protege contra perdas decorrentes da violação ou repúdio do governo de um contrato com o


investidor (por exemplo, uma concessão ou um contrato de compra de energia). A quebra da
cobertura do contrato pode ser estendida às obrigações contratuais das empresas estatais em
determinadas circunstâncias. No caso de uma suposta violação ou repúdio, o investidor deve
invocar o mecanismo de solução de diferendos (por exemplo, uma arbitragem) estabelecido
no contrato subjacente. Se, após um período de tempo especificado, o investidor não puder
obter um prêmio devido à interferência do governo no mecanismo de resolução de disputas
(negação de recurso), ou tiver obtido um prêmio, mas o investidor não tiver recebido
pagamento sob o prêmio (não pagamento de um prêmio), a MIGA pagaria uma compensação.

5. Não cumprimento das obrigações financeiras soberanas

Protege contra perdas resultantes de uma falha do governo em fazer um pagamento devido
sob uma obrigação de pagamento financeiro incondicional ou garantia relacionada a um
investimento elegível. Não exige que o investidor obtenha uma sentença arbitral.

Financiamento

A MIGA tem um mecanismo de financiamento mais simples. Como ela presta um serviço de
concessão de garantias ou seguros, faz sentido que seja através dessa prestação de serviços
que ela consiga obter a parcela mais relevante dos recursos que necessita para fazer face aos
seus compromissos, ou seja, é da soma da subscrição de capital dos estados membros e dos
prêmios de seguro que recebe que a agência deve retirar os financiamentos necessários para
garantir o desenvolvimento da sua atividade.

É em função da subscrição de capital, das ações que detêm, que o peso relativo dos estados
membros se faz sentir.

A lógica de funcionamento da agência é simples. Ela cobre riscos não comerciais. Se algum dos
casos supracitados ocorrer, o que se procede é o seguinte: o investidor dirige-se a agência,
demonstra que o risco que estava garantido ocorreu, que um prejuízo decorreu por força disso
e requer a agência que pague a indenização pelo prejuízo que ocorreu. O investidor anula da
equação o estado, indo diretamente a agência.

Do ponto de vista do investidor o problema está resolvido. O que se verifica é o fenômeno da


sub-rogação, o que significa a substituição nos direitos e deveres, o que significa que a agência
passa a ter o direito que tinha o investidor de pedir ao estado uma indenização pelos prejuízos.
Esse litígio pode ser resolvido de três maneiras: através de negociações diretas entre a agência
e o estado. Se não for possível resolver através de negociações diplomáticas diretas, o tratado
constitutivo prevê a possibilidade de recorrer à conciliação ou à arbitragem.

Similitudes e diferenças entre o FMI e o BM

Há elementos que aproximam muito as duas instituições, não é por acaso que se chamam
instituições gêmeas. Essa proximidade vai até ao ponto de os Conselhos de Governadores do
FMI e do BM se realizarem ao mesmo tempo. Por outro lado, são organizações que lidam com
assuntos econômicos, que emprestam dinheiro aos estados e que tem organizações muito
parecidas.

O FMI é uma organização que visa criar condições para uma estabilidade do sistema monetário
internacional, o que pressupõe a estabilidade das moedas. Como hoje já não tem o direito de
dizer se a moeda aumenta ou diminui seu valor, podendo ela flutuar em função do valor de
mercado, importa que ele ajude os estados a manter as suas moedas equilibradas. Os
desequilíbrios locais têm efeitos mundiais, daí a importância do Fundo. Por isso o FMI financia
todos os países membros.

O BM, porque visa promover o desenvolvimento económico dos países mais pobres, só
financia os países (ou empresas, como no caso da SFI) até um patamar determinado em função
do PIB per capita.

A diferença está, essencialmente, entre finanças e economia.

OMC

Criada pelo Acordo de Marraquexe em 1994. A OMC está responsável pela gestão do mais
importante setor para o crescimento da economia mundial, isto porque todos os países se
beneficiam do crescimento dela. É precisamente isto que, paradoxalmente, explica a razão de
nunca antes ter havido uma instituição dessas. Muitos países não queriam regulações
excessivas do comércio internacional, porque achavam que a desregulamentação do comércio
as beneficiava.

Antes da existência da OMC, foi criado o GATT (General Agreement on Tarifs and Trade), em
1947. Este acordo foi uma tentativa de resolver de imediato o problema do incentivo ao setor
que era, então, o motor da economia mundial: o industrial, abrindo assim os mercados e
inserindo o GATT no âmbito da Organização Internacional do Comércio assim que ela viesse a
existir, o que não aconteceu. Isso fez com que o GATT, que era apenas um acordo e não uma
organização internacional, não fosse incorporado pela OIC e existisse de forma independente
até 1994, quando foi absorvido pela OMC.

Por que a criação de uma organização mundial do comércio?

As negociações que conduziram à criação da OMC se prolongaram por muitos anos (1986-
1994), ao longo dos quais muitos eventos importantes têm lugar: o fim da URSS, a criação da
União Europeia, o crescimento exponencial da globalização, etc. Essas novas circunstâncias
não podiam passar batidas e o GATT não podia mais responder às necessidades mundiais.

O sucesso do GATT é mensurável em termos do contributo que ele deu para a redução de
tarifas. O valor médio das tarifas aduaneiras aplicadas a bens era, em 1947, em torno de 22%.
Com o Uruguay Rounds (1987), que foi a ultima das negociações multilaterais do GATT 47%, o
valor médio das tarifas era de 5%, o que significa que em 40 anos se tinha verificado uma
redução de cerca de ¾ do valor médio das tarifas.

O GATT previa, desde o início, a realização de negociações multilaterais comerciais, os rounds,


que periodicamente iriam fazer a avaliação do comércio internacional e aprofundar as medidas
de desmantelamento dos obstáculos ao comércio internacional. O número de países
fundadores do GATT são 23. No quadro do GATT 1947 tiveram lugar 8 rounds, o último dos
quais sendo o Uruguay Round, que começou em 1986 e terminou em 1994.

A OMC não veio para substituir o GATT, até porque o GATT é um acordo. Com a criação da
OMC o GATT não morreu. Quando falamos em GATT referimo-nos a dois GATTs: o de 47 e o de
94. Isto também não significa que o GATT 1947 foi substituído pelo GATT 94, sendo que este
absorve o GATT 47, adicionando novos compromissos.

No contexto da celebração do Tratado de Marraquexe, vamos assistir à modernização do GATT


47 e à criação de dois novos tratados internacionais destinados a regular áreas até então não
reguladas. O primeiro deles é o GATS (General Agreement on Trade and Services), e o segundo
é o TRIPS (Trade Related Aspects of Intelectual Property Services). Vê-se que há uma
preocupação de alargar o âmbito de regulação do comércio internacional. Não é possível um
estado ser membro da OMC sem aderir a todos os tratados. Além disso, foram criados mais
dois organismos pelo Tratado de Marraquexe, sem os quais não se pode aderir à OMC: o
Mecanismo de Revisão de Políticas Comerciais e o Mecanismo de Resolução de Litígios.

Fundamentos do comércio internacional

Existem três grandes obstáculos ao comércio internacional: [1] impostos, tarifas aduaneiras;
[2] medidas quantitativas, o comércio gerido não por regras de procura, mas por
predeterminações administrativas ou políticas; [3] dumping, a venda em mercados externos de
bem com valor inferior ao seu valor real, de modo a inviabilizar a produção nacional.

É nesta dupla preocupação (a de a OMC assegurar um comércio progressivamente mais


desenvolvido e mais justo, transparente e sério) que se inserem as questões do que não deve
ser permitido no comércio internacional.

O primeiro princípio que tem regido o comércio internacional é a cláusula geral da nação mais
favorecida, que é um instrumento comercial e de política externa dos estados. Originalmente
chamado apenas de cláusula da nação mais favorecida. Um exemplo disto é o Tratado de
Methuen. Essa cláusula assenta numa lógica de descriminação positiva. Esse mecanismo
tradicionalmente utilizado para discriminar países e beneficiar uns face a outros, passa a ser
um instrumento para desenvolver o comércio e beneficiar todos os países, passando a chamar-
se cláusula geral da nação mais favorecida. Dentro da atual lógica da OMC, isso significa que a
concessão de determinados favorecimentos a um país automaticamente se estende aos outros
países membros, ou seja, inverteu-se o propósito inicial.

Mas essa regra geral tem exceções. A primeira delas tem a ver com a União Europeia. As
facilidades que os membros de uma zona de integração, de uma zona de comércio livre, de
união aduaneira conferem uns aos outros não se comunicam internamente. A segunda
exceção, inicialmente não prevista, tem a ver com a possibilidade de um tratamento especial
dos países em via de desenvolvimento. Com a progressiva independência dos países pobres, o
comércio deveria passar a ser visto não apenas como instrumento de criação de riqueza, mas
que desse um contributo para o desenvolvimento. Há países que precisam de tempo para
fortalecer suas estruturas económicas para poder resistir ao embate da abertura do seu
mercado. As regras especiais a que estes países estão submetidos passam por uma lógica de
não-reciprocidade. Isto significa que os produtos vindos dos países mais pobres têm acesso
facilitado aos maiores mercados, enquanto o contrário não se verifica.

o conceito de SPG (Sistema de Preferências Generalizado) surge com a preocupação de fazer a


ligação entre o conceito de comércio e o conceito de desenvolvimento. A ideia que está na
base deste sistema é a concessão, por parte dos países mais desenvolvidos, de acesso aos
mercados aos produtos provenientes de países menos desenvolvidos, o que significa a não
cobrança de tarifas, não existindo contrapartida por parte dos países subdesenvolvidos.

O SPG mais antigo e mais trabalhado do mundo é o da UE.

Os acordos de SPG normalmente têm cláusulas de segurança. Se for possível a um país


desenvolvido demontrar que está sofrendo prejuízo significativo em determinado setor de
atividade por força das facilidades comerciais que oferece, é possível suspender a concessão
de benefícios.

Princípio do Tratamento Nacional

Como o nome deixa antever, visa evitar discriminações entre produtos de um certo mercado e
produtos importados. Se a ideia subjacente a tudo isto é facilitar o comércio internacional,
então faz sentido que seja proibido a um determinado país tratar no seu mercado de forma
distinta um produto local e um produto importado.