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História e

Doutrina do
Martinismo

SCA
2

Sociedade das Ciências Antigas

História e Doutrina

Do Martinismo

Compilação de Dados feita

por Martinistas do Chile


3
ÍNDICE

CAPÍTULO HISTÓRICO PÁGINA

I EXPLICAÇÕES GERAIS SOBRE O MARTINISMO 3


A Ordem Templária 4
A Ordem Rosa-Cruz 5
A Ordem Maçônica 6
Emmanuel Swedenborg 7
Martinez de Pasqually 8
Catecismo dos Aprendizes Cohens 9

II ANÁLISE DO “TRATADO DA REINTEGRAÇÃO


DOS SERES” 11

III OS PRINCIPAIS DISCÍPULOS DE MARTINEZ DE


PASQUALLY 18
Jean Baptiste Willermoz 18
Louis Claude de Saint-Martin 20
Extratos das Obras de Saint-Martin 24

IV O MARTINISMO PAPUSIANO 27
Henri Delaage 27
Gérard Encausse 27
O Grupo Independente de Estudos Esotéricos 29

V O MARTINISMO NA RÚSSIA 34

VI PHILIPPE NIZIER, O MESTRE ESPIRITUAL DE PAPUS 40

VII O MARTINISMO POSTERIOR A PAPUS 52


A Ordem Martinista Universal (de Lyon) 54

VIII RITO DE MEMPHIS-MIZRAIME OUTROS RAMOS


MARTINISTAS 57
Ordem Martinista e Sinárquica 62
Ordem Martinista Tradicional 62
Ordem Martinista Retificada 65

IX UNIÃO DAS ORDENS MARTINISTAS 66

X DISCURSO MARTINISTA 71
Declaração dos Princípios da Ordem Martinista do Chile 78

XI SIMBOLISMO MARTINISTA 78

XII DA INICIAÇÃO MARTINISTA 83


4
capítulo i

EXPLICAÇÕES GERAIS SOBRE O MARTINISMO

Qual é a base da Iniciação Martinista? Um ritual da Ordem nos diz nos seguintes termos:

“Encerra a filosofia de nosso Venerável Mestre, baseada especialmente nas teorias dos Egípcios,
sintetizadas por Pitágoras e sua Escola. Contém, em seu simbolismo, a Chave que abre o mundo dos
Espíritos e que não está cerrado; segredo inefável, incomunicável e unicamente compreensível ao
verdadeiro Adepto. Este trabalho não profana a santidade do Véu de Ísis por imprudentes
revelações. Aquele que é digno e está versado na História do Hermetismo, em suas doutrinas e em
seus ritos, em suas cerimônias e hieróglifos, poderá penetrar na secreta, porém real, significação do
pequeno número de símbolos oferecidos à meditação do Homem de Desejo”.

O Martinismo é uma Escola de alto Hermetismo que se descobre a muito pouca gente, preferindo a
qualidade à quantidade, como qualquer associação que não deseja ter ação política e que, se pensa
proceder socialmente, prefere elevar a multidão à seleção, no lugar de descer da seleção até a
multidão.

A Iniciação Martinista é o resultado de um ensinamento, porém há em seu desenvolvimento uma


parte imensa de formação pessoal. A Iniciação é gradual, conforme as capacidades daquele que deve
seguir as fases de seu ensinamento antes de chegar aos graus superiores. Este é o sentimento que
podemos extrair do célebre discurso pronunciado por Stanislas de Guaita e que encontramos no
Umbral do Mistério:

“Fizemos-te iniciar: o papel dos iniciadores deve limitar-se aqui. Se chegares por ti mesmo à
inteligência dos Arcanos merecerás o título de Adepto; mas, vê bem; seria em vão que os mais
sábios Mestres quisessem revelar-te as supremas fórmulas da Ciência e do Poder mágico. A
Verdade Oculta não poderá ser transmitida em um discurso: cada um deve evocá-la, criá-la e
desenvolvê-la em si. És Inciciado: aquele que outros colocaram no caminho; esforça-te em chegar a
Adepto, aquele que conquista a Ciência por si mesmo; em uma palavra: o Filho de suas obras.”

A Iniciação Martinista compreendida desta maneira, não pode transcorrer sem provas; porém estas
não têm nada de comum com as de outras instituições iniciáticas. O discurso de Stanislas de Guaita,
que não podemos aqui transcrever inteiramente, merece estudo e reflexão. Ele desenvolve esta
doutrina: A Iniciação é, certamente, o resultado de um ensino, porém há em seu transcurso uma
imensa parte de formação pessoal. Qualquer poder concedido pela Natureza ou pela Sociedade, para
ser útil, deve desenvolver e adaptar à sua função aquele que deverá beneficiar-se com ele.

Existe uma qualidade de alma que caracteriza essencialmente o verdadeiro Martinista: é a afinidade
entre espíritos unidos por um mesmo grau em suas possibilidades de compreensão e de adaptação;
unidos por um mesmo comportamento intelectual, pelas mesmas tendências, do qual se segue a
constatação obrigatória de que o Martinismo está composto, exclusivamente, por seres isolados,
solitários, que meditam no silêncio de seu gabinete, buscando sua própria iluminação.

Cada um destes seres tem a obrigação, uma vez adquirido o conhecimento das leis do equilíbrio, de
transmitir a compreensão alcançada, para aqueles que possam compreender e participar daquilo que
ele crê constituir a verdade em sua vida espiritual. É aqui, então, que intervém a Missão de Serviço
do Martinismo, é somente neste sentido que esta corrente espiritual especial encontra seu lugar na
Tradição Ocidental.
5
Os assuntos de dinheiro são quase desconhecidos na Ordem; as quotas, “o tronco da viúva”, os
direitos pelos diplomas não existem e os graus são conferidos sempre ao mérito e não podem nunca
ser objeto de tráfico.

Todo chefe de Loja é o proprietário de sua Loja e deve cobrir a maior parte de seus gastos e, em
regra geral, todo membro da Ordem deve cobrir pessoalmente as despesas necessárias ao exercício
de seu cargo.

A filiação à Ordem Martinista é buscada, sobretudo, pela instrução que leva bastante longe e que
compreende o estudo aprofundado das ciências simbólicas e herméticas.

Por outro lado, a Ordem abre suas portas tanto aos homens como às mulheres; não exige de seus
membros juramento nenhum de obediência passiva, nem tampouco lhes impõe nenhum dogma;
acolhe sem distinção a todos os que sentem em seus corações o amor ao próximo e que desejem
trabalhar pelo bem comum.

Dentro da Ordem é de rigor possuir a maior tolerância, ou melhor, o espírito de compreensão mais
acentuado. No que diz respeito à ajuda mútua, ela constitui também uma das características
essenciais do Martinismo, cujos adeptos se esforçam, segundo suas possibilidades, em ajudar aos
demais seres humanos, sejam ou não iniciados, pertençam ou não a nossa Ordem.

A Ordem Martinista compreende três graus: Associado, Iniciado e Superior Incógnito, conferidos de
acordo com rituais que procuram dar a quem os recebe uma ajuda poderosa.

Já dissemos que o Martinismo é uma cavalaria, ou por outra, é uma tendência ou corrente
cavalheiresca que persegue o aperfeiçoamento individual e coletivo. É necessário, portanto, que o
Martinismo em todas as terras esteja formado por servidores perfeitos e sucessores dos verdadeiros
Mestres do movimento; os Superiores Incógnitos, dos quais um dos primeiros a ser conhecido pelo
mundo profano foi Louis Claude de Saint-Martin, que ainda pode ser conhecido como o Filósofo
Desconhecido.

Porém, qual é a origem histórica da Ordem Martinista?

Procuraremos responder brevemente dando uma resenha geral. No mundo nada ocorre por si; da
mesma maneira que as pessoas, as sociedades humanas têm também seus pais e seus antecessores,
quer dizer, sua genealogia.

Começaremos por descrever as etapas principais do desenvolvimento e as correntes mais


importantes do esoterismo ocidental. Não é nosso propósito ocupar-nos agora da história das
tradições (Escolas Esotéricas), das quais falaremos em seu devido tempo. Agora, necessitamos de
uma parte relativamente curta e esquemática desta história.

A ORDEM TEMPLÁRIA

Iniciaremos pelo aparecimento das Escolas Iniciáticas na Europa. Isto foi em 1118, época da
fundação da Ordem dos Templários, que trouxe da Arábia e Palestina, durante as Cruzadas, a Luz
do Ensinamento Gnóstico. O ideal da Ordem era o estabelecimento do Reino de Deus sobre a terra,
encarnado no estado perfeito e equilibrado, nos três planos. Reino da Unidade e da Paz de todas as
nações, sem distinções de raças e nem castas. Em tal estado, o Influxo Superior devia emanar da
região mística, vivificar o poder astral e dirigir e instruir o poder realizador, criando por seu
intermédio a prosperidade, a felicidade e a possibilidade do trabalho evolutivo.
6
A base da doutrina Templária foi o sistema sintético dos três planos da metafísica Egípcia,
conhecido com o nome de Hermetismo; incorporado na corrente das interpretações Cristãs
Gnósticas. O rito principal dos Templários era o culto de Baphomet, palavra que resulta da leitura,
da direita para a esquerda, da frase “Templi Camium Hominum Pacis Abbas”, o que significa: “O
Sacerdote do Templo da Paz de Todos os Homens”. Sobre este termo se tende o instrumento
universal, de realização, quer dizer, o torvelinho astral dos impulsos da Cadeia. A estátua de
Baphomet representava o esquema simbólico do torvelinho astral que na Cabala denomina-se
“Nahash”.

O poder mágico e as grandes riquezas da Ordem produziram temor e inveja por parte do rei da
França - Felipe o Belo, assim como despertaram idêntica reação no Papa Clemente VI. Os
Cavaleiros Templários foram vilmente caluniados e acusados de dedicarem-se à prática da magia
negra e da heresia. Em 1307, parte dos Cavaleiros foram queimados vivos; e seu Grão-Mestre
Jacques Borgundo de Molay ao perecer envolto pelas chamas, citou ao Papa e ao Rei no Juízo de
Deus. Constatamos que ambos morreram antes de cumprir-se um ano da morte trágica do Grão
Mestre.

A ORDEM ROSA CRUZ

Depois de uns oitenta anos da destruição física da Ordem dos Cavaleiros do Templo, a alma
coletiva Templária materializou na terra o movimento denominado Rosa-Crucismo primário. A
nova Ordem, segundo nos conta a lenda, foi fundada na Alemanha por Christian Rosencreutz (1378
a 1484). Era composta por místicos que se reuniam no misterioso Templo do Espírito Santo. Este
Templo suprafísico excitava a curiosidade dos profanos que em vão o buscavam em algum lugar da
Terra. Não se é obrigado a crer nesta lenda, porém devemos admitir que a Ordem Rosa-Cruz é a
herdeira espiritual da Ordem Templária, digamos, sua reencarnação é possuidora da Sabedoria
Gnóstica, do Hermetismo e do Cristianismo Joanita dos primeiros séculos. O ideal da Ordem está
expresso pelo símbolo da Cruz com uma Rosa em seu centro, símbolo da fé e do conhecimento, da
religião e da ciência.

O Rosa-Crucismo primário tinha pouquíssimos adeptos porque as exigências eram muito grandes e
o regulamento da Ordem sumamente severo, sendo poucos os adeptos capazes de cumpri-lo.

No século XV o Rosa-Crucianismo primário se transformou em secundário. Agora se exigia dos


membros da Ordem tão somente estarem dotados de capacidade para o pensamento científico,
possuir interesses amplos e dedicados à idéia do bem. Tratava-se de naturezas altamente místicas,
panteístas (1) e com tendências práticas, porém, em todo caso, eram pessoas excepcionais pelo
desenvolvimento de seu intelecto, erudição, vontade poderosa e com conceitos bem preciosos sobre
a humanidade futura. Possuíam múltiplos segredos da Cabala e procuravam adaptar os ditos
segredos, tanto de modo especulativo como prático. Também não eram alheios ao desejo de
aumentar seu poder em todos os planos do universo, mediante o conhecimento adquirido.
Consideravam-se em si mesmos o espírito da humanidade e a sua atividade como a manifestação
material desse espírito; do ponto de vista metafísico e filosófico tinham razão.

Deve-se mencionar as características que assumiu a política da Ordem com respeito a sua influência
sobre a sociedade. No princípio esta política foi de caráter puramente ético, embora tivesse tomado
depois um forte caráter realizador. Em todo caso, a ação do Rosa-Crucismo secundário no mundo
externo foi muito prudente porque esteve bastante viva a recordação do trágico fim da Ordem

1 - Doutrina que concebe Deus como realidade primordial e o mundo como realidade emanada. O Panteísmo foi
desenvolvido por Spinoza. (N. Rev.).
7
Templária e a alma coletiva da Cadeia de Jacques de Molay vibrava no sentido da cautela. Como
resultado desta vibração nasceu a Ordem Maçônica.

A ORDEM MAÇÔNICA

Existem muitas lendas acerca da genealogia Maçônica e resultaria muito extenso passar revista a
todas estas interpretações. Por outra parte, no momento, nos interessa em maior grau o aparecimento
daquelas correntes Maçônicas provocadas pela atividade do Iluminismo Cristão do século XVII. A
Fraternidade Rosa-Cruz encarrega a alguns de seus membros, entre os quais sobressaem por sua
atividade Ashmole, Fludd e Bacon, da criação desta Ordem com as seguintes finalidades:

1º - Desenvolver e, se possível, propagar na humanidade a confiança no ensino esotérico e em seus


representantes o respeito por seus símbolos e facilitar a preparação moral e espiritual, sem a qual é
impossível assimilar as bases da Cabala.

2º - Assegurar, em sua devida pureza, a transmissão dos elementos do simbolismo.

3º - Criar um meio desenvolvido moral e espiritualmente, para usá-lo como depósito de energia para
atuar sobre a sociedade e, em parte, para escolher entre seus membros, seus futuros adeptos.

Seguindo o caminho dos movimentos iniciáticos ocidentais e da nova Ordem, formada pelas
associações de construtores que no século XVIII recebe a denominação de Maçônica, chegamos à
metade do século XVIII, período no qual nos deteremos para analisar as correntes do Iluminismo
Cristão.

Um espírito novo sopra sobre a humanidade: as antigas crenças se desmoronam e o riso sarcástico
de Voltaire faz retumbar os cantos da velha Europa. Naquela época, como hoje em dia, os povos
bailavam sobre um vulcão de sangue e lodo, que sacudiria o antigo continente na passagem do
século e sepultaria sobre um monte de escombros o estado social carcomido e faria surgir em seu
lugar a espada refulgente de um déspota. A Alemanha estava cheia de sociedades secretas. Umas
iluminadas, outras subversivas sob uma capa de iluminismo, como a de Adam Weishaupt. A
sociedade deste último quase consegue seus fins, de convulsionar a Europa inteira. Tudo está
pronto, falta só acender a mecha, quando em Rastibona, um adepto, um sacerdote apóstata chamado
Lans, cai fulminado por um raio, na rua, ao lado do próprio Weishaupt. Levado à casa de um
particular, encontrou-se em sua carteira o plano da revolta. Avisado a tempo, o Eleitor de Baviera
(2) toma suas precauções, o movimento se esvai... não importa, vinte anos depois nada poderia deter
a Revolução Francesa...

Ocultamente, os partidos se preparam para a luta. Uns personagens misteriosos cercam os povos. O
enigmático Conde de Saint-Germain é o favorito da corte frívola de Luiz XV. Lascaris, mais
enigmático ainda, percorre o mundo pedindo esmolas e deixando atrás de si uma moeda de ouro.
Apesar de todas as investigações não se descobriu, no entanto, o real papel que desempenharam
estes desconhecidos na história secreta daquele tempo, assim como o do fantástico Conde de
Cagliostro. Porém, quaisquer que tenham sido, é evidente que conseguiram diminuir, em parte, os
efeitos do ateísmo, que estava se espalhando de uma maneira alarmante em todas as escalas sociais.

EMANUEL SWEDENBORG (3)

2 - Príncipe alemão que nomeava ou elegia o imperador. (N. Rev.).


3 - Emanuel Swedenborg e o Conde de Cagliostro, apesar de iniciados, são considerados pelos Mestres de nossa Ordem,
posteriores a eles, como falsos profetas. São comparados aos fanáticos precursores do “Iluminismo Alemão”, como o
celerado Adam Weishaupt. São os chefes de um misticismo dissidente e subversivo. A respeito de Cagliostro
encontramos passagens esclarecedoras no Templo de Satã de Stanislas de Guaita. De Swedenborg, Eliphas Levi diz que
8

Mais conhecida é a obra do famoso iluminado Swedenborg, fundador de uma nova escola. Era ele
um sábio conhecido por Conselheiro da Corte da Suécia. Seus antecedentes, sua elevada situação
social, não permitiram a seus contemporâneos considerá-lo como um charlatão e um alienado, como
sucedia e sucede, ainda, aos que se crêem ou se dizem iluminados.

Swedenborg teve segundo parece, a missão de formar uma Ordem de Cavalaria Laica de Cristo. Sua
obra de realização compreendia três seções:

1º - Seção de ensinamento, com estudo de seus livros.

2º - Seção religiosa, com a aplicação ritualística de seus ensinamentos.

3º - Seção encarregada da tradição simbólica e da tradição prática. Estava constituída pelos Graus
Iniciáticos do Rito Swedenborgiano.

É esta seção que nos interessa agora. Ela estava subdividida em três seções secundárias: a primeira
era elementar e Maçônica; a segunda elevava o candidato até o Iluminismo e a terceira era ativa. (4)

A primeira seção compreendia os Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre. A segunda


compreendia os Graus de Aprendiz Cohen (ou Mestre Eleito), Companheiro Cohen e Mestre Cohen.
A terceira era formada pelos seguintes Graus:

1º - Aprendiz Rosa-Cruz.
2º - Cavaleiro Rosa-Cruz, Comendador.
3º - Rosa-Cruz Iluminado ou Kadosh (Mestre Grande Arquiteto).

Entre os Iniciados de Swedenborg, houve um ao qual os poderes invisíveis prestaram uma ajuda
constante e que era dotado de extraordinárias faculdades de realização.

Este era Martinez de Pasqually, (5) do qual falaremos mais adiante. Emmanuel Swedenborg era um
sábio, físico, químico e matemático de grande valor. Como Pascal, foi bruscamente inspirado e
escreveu um certo número de obras entre as quais as mais célebres foram: “Arcanos Celestes” e a
“Nova Jerusalém e sua doutrina celeste”, onde desenvolve uma interpretação mística dos livros
santos e do Apocalipse. Durante sua longa existência, Swedenborg teve muitos discípulos. Nasceu
em 1691 e morreu em Londres em 1771.

foi “o mais honesto e o mais doce dos profetas de falso iluminismo”, e que “não era por isso menos perigoso que os
outros”. (História da Magia. São Paulo, Ed. Pensamento, s/d, página 310). (N. Rev.).
4 - O temo Iluminação, que segundo Joseph de Maistre não deve ser confundido com o Iluminismo Alemão do termo de
Weishaupt (Iluminados da Baviera) é o coroamento da Iniciação. É conseguido pela senda ativa, isto é, pelo trabalho
em todos os planos, pelo esforço individual, pela exaltação da Vontade e pela prática da Caridade. (N.Rev.).
5 - Documentos manuscritos pertencentes à Ordem assinalam que Martiinez de Pasqually teria sido iniciado pelo Conde
de Saint-Germain. Isso não impede, entretanto, que ele tenha tido um primeiro iniciador. É possível, ademais, que tenha
recebido de Swedenborg o esboço do sistema iniciático Cohen e que o tenha aperfeiçoado. Sabemos hoje que o próprio
sistema de Martinez, que foi um grande Mestre, precisava sofrer alterações para ser adaptado à época. Isso foi realizado
por Saint-Martin e Willermoz, seus principais discípulos. Eles buscaram na Alemanha a forma contida no Rito Escocês
Retificado, precisou do Sopro Vivificador de outras formas de revelação para expressar-se com todo o seu esplendor.
Como aconteceu com Swedenborg, a obra de Martinez foi vivificada por seus principais discípulos. Uma vez mais o
iniciado “mata” seu iniciador! Existe, ainda, uma lenda que diz que o “pai” de Martinez, um velho rabino versado em
Cabala, vendo aproximar-se o dia de sua morte, o chamou à Espanha para lhe conferir o último grau de seu sistema
iniciático, bem como todos os manuscritos existentes em seu poder. (N. Revisor).
9
Devemos recordar que foi Emmanuel Swedenborg o primeiro que divulgou a chamada Lei das
correspondências, que se encontra na base de diversos ramos do ocultismo e que é, também,
perfeitamente válida na psicologia objetivamente experimental dos fenômenos de sugestão, hipnose,
sonambulismo, etc. Por correspondente, entendia Swedenborg algo mais, pois designava com essa
palavra toda coisa que, no mundo físico, existe conforme sua correspondente do mundo espiritual e
cujo significado constitui o sinal da influência do espírito sobre o físico.

Porém, Swedenborg não foi um ocultista puramente teórico; com sua vista clarividente soube do
incêndio de Estocolmo antes que chegassem as notícias desta catástrofe ao lugar onde se
encontrava; da mesma maneira predisse a volta e o destino de amigos ausentes.

MARTINEZ DE PASQUALLY

Martinez de Pasqually recebeu em Londres a Iniciação do Mestre e foi encarregado de propagá-la na


França. É assim que o ensinamento de Swedenborg se encontra inteiro no de Martinez. Porém,
quem era Martinez de Pasqually? Ninguém o sabe e nem jamais se soube. Durante muito tempo foi
geral a crença que Martinez foi um judeu-português, crença temerária que não tem sérios
fundamentos, já que seus mais caros discípulos, seus amigos mais íntimos não souberam nunca
onde havia nascido. No entanto, é provável que tenha sido espanhol porque assinava com o título de
Don e não Dom, como teria feito se fosse português.

Não obstante as lacunas que oferece a biografia de Martinez de Pasqually, sabemos por
características suas que era homem de grande generosidade, de sentimentos honrados e de
escrúpulos quase puerís, gostando de gozar a vida sem consumi-la com ambições e decepções. Os
documentos da época que se conservam, indicam claramente que foi ele quem instituiu a
organização denominada Ordem Martinista, pelo menos na Europa. No entanto, vários arquivos
indicam que houve um indivíduo ou um grupo de indivíduos ou Iniciados, que o precederam e que
idealizaram e conceberam a forma física da instituição, que se baseava nas atividades de uma
sociedade muito antiga sobre a qual falaremos mais adiante.

Seja como for, Martinez chegou a Paris em 1750 e ali fundou a Ordem dos Elu Cohen, conhecida
também sob o nome de Martinismo e à qual se poderia denominar com mais propriedade
Swedenborgismo Adaptado, pois Martinez conservou todos os nomes dados nos Graus dos Seres
Invisíveis, os quais foram transmitidos por Swedenborg. Além disso, tanto o rito deste como o
daquele, seguiram o mesmo fim: a reintegração do neófito em sua dignidade primitiva. Seguindo a
moda que reinava na época, a Ordem dos Elu Cohen em seu aspecto ritualista não apresentava senão
analogias com a Maçonaria. Porém, sobre este particular, devemos citar o famoso historiador
Maçônico Arthur Edward Waite, que expressa:

“No entanto existe a possibilidade que Martinez de Pasqually tivesse atuado sob a direção de uma
Ordem anterior, digamos que dos Rosa-Cruzes com quem esteve filiado. Quando apareceu pela
primeira vez em Paris, o fez em sua qualidade de membro dessa misteriosa irmandade”.

No início a Grande Loja da França, em 1765, recusou reconhecer a este sistema e não foi senão mais
tarde que o Grande Oriente, de acordo com sua política de absorção reconheceu-o como Rito
Maçônico.

Para expandir sua Ordem, Martinez viajou através de toda a França. No entanto, suas sedes
principais foram em Bordeaux e em Paris. A Ordem dos Elu Cohen ou Sacerdotes Eleitos alcançou
grande prosperidade entre os anos 1760 e 1775.
10
Até 1771 os arquivos dos Elu Cohen, foram depositados nos arquivos dos Philaléthes (Iluminados),
onde foram encontrados depois da revolução.

O Objetivo da Ordem dos Elu Cohen, como já disse, era conseguir a reintegração dos seres
humanos em sua dignidade primitiva. Para conseguir este objetivo, seus membros esforçavam-se em
adquirir, pela pureza corporal e espiritual, aqueles poderes que permitem ao homem entrar em
relação consciente com os Seres Invisíveis. Martinez conferia o grau mais elevado da Ordem
somente a quem conseguisse pôr-se em contato com ditas entidades. Tratava de desenvolver cada
membro de sua Ordem por meio de seu trabalho pessoal, deixando-lhe toda liberdade e inteira
responsabilidade por seus atos. Selecionava cuidadosamente cada membro e não conferia seus
Graus senão a uma verdadeira aristocracia intelectual.

Os Iniciados já treinados reuniam-se para ajudar-se mutuamente, bem como, aos débeis e aos
principiantes. Estas reuniões tinham lugar em certas épocas astrológicas determinadas.

Do ponto de vista administrativo, a Ordem dos Elu Cohen seguiu exatamente os Graus de
Swedenborg.

Martinez não veio ensinar coisas novas, mas a renovar e a pôr em prática antiquíssimos
ensinamentos, esquecidos e menosprezados, para detrimento da humanidade. No catecismo dos
Aprendizes Cohens, se lê, com efeito, seguinte:

Catecismo dos Aprendizes Cohens

P. - “Qual é a origem da Ordem que professamos?


R. - Sua origem vem do Criador e começa desde os primeiros tempos de Adão e de lá até nossos
dias.

P. - Como pôde perpetuar-se esta Ordem até nós?


R. - Pela misericórdia do Grande Arquiteto do Universo, que enviou emissários adequados para
manifestar esta Ordem entre os homens, para sua própria glória e justiça.

P. - Que utilidade tinha esta Ordem para os homens dos primeiros tempos?
R. - Servia-lhes de base e fundamento espiritual para executar as cerimônias do culto do Eterno e,
também, para conservar a pureza de seus princípios primitivos e suas virtudes e poderes espirituais.

P. - Que emissários empregou o Grande Arquiteto para perpetuar esta Ordem entre nós?
R. - Desde Adão até Noé, desde Noé até Melquisedeck, até Abrahão, Moisés, Salomão, Zorobabel e
o Cristo”.

Martinez proclama, desta maneira, sua ortodoxia e continua a obra social e científica que principiou
quando apareceu o homem sobre a terra e que não concluirá até que a raça humana venha a se
extinguir.

É certo que a Tradição não se perdeu nem pode perder-se, porém, quando os encarregados de
transmiti-la faltam a seu dever, os Guardiões Invisíveis da Verdade, mandam missionários a quem
conferem poderes especiais; afim de que as nações não sumam pôr completo na noite espiritual.

Martinez, no seio da Ordem dos Elu Cohen, praticava o que se denomina operações mágicas.
Conforme o próprio testemunho de Saint-Martin, o Mestre reunia seus discípulos em uma habitação
qualquer, sem dúvida purificada por meio de uma operação preliminar. Martinez traçava em seguida
11
um círculo no centro do quarto e escrevia nele, em língua hebraica, o nome dos Anjos e outros de
caráter Divino que fossem necessários.

Tais preparativos assombravam aos principais e, possivelmente alguns teriam perguntado, no início,
porque eram necessários tantos preparativos para comunicar-se com o Céu. Porém, estes em seguida
davam-se conta que não havia razão para arrepender-se em empregar tais precauções, uma vez que,
desde o instante em que as conjurações eram formuladas, as Influências Superiores começavam a
manifestar-se e a dar eloqüentes provas da realidade de sua existência no mundo invisível. Aqueles
que assistiam a tais experiências tornavam-se iluminados, quer dizer, para eles a existência do
mundo invisível e a imortalidade da alma convertiam-se em realidade mais positiva que a existência
do mundo físico. Desta maneira, estes iluminados chegavam a desprezar a morte e estavam sempre
dispostos a tudo para propagar e defender as doutrinas que professavam.

Nos ensinamentos de Martinez, em conseqüência, os Trabalhos práticos tinham um grande


destaque. Estes trabalhos consistiam na evocação do que Martinez chamava “A Coisa”; a que se
manifestava por certas fases, quer dizer, por aparições fugitivas e luminosas. Esta entidade,
posteriormente, firmou seus escritos com o pseudônimo de Filósofo Desconhecido, pseudônimo que
Louis Claude de Saint-Martin adotou em seguida, pôr ordem da própria “Coisa”. Conforme
declaração própria de Saint-Martin escreveu uma parte de suas obras sob seu ditado. O Filósofo
Desconhecido ditou 166 Livros de Instruções, dos quais Saint-Martin conseguiu copiar alguns.
Destes livros, mais ou menos 80 foram destruídos em 1790 pelo próprio Filósofo Desconhecido, a
fim de que não caíssem em mãos de Robespierre, que havia mandado dois de seus sequazes para
deles se apoderarem.

O último grau dos Elu Cohen era o de Réau-Croix. Os historiadores, seguidamente, confundiam este
grau com o de Rosa-Cruz. No entanto, este último constitui o cume de uma larga Tradição esotérica,
transmitida através dos séculos, enquanto que os Réau-Croix (Poderosos Sacerdotes) constituíam a
mais alta dignidade hierárquica do sistema ocultista de Martinez. Willermoz, em uma carta dirigida,
em 20 de outubro de 1780 ao Príncipe de Hesse, escreveu:

“Admito os conhecimentos dos Rosa-Cruzes, mesmo que se baseiem em um fundamento temporal


em sua natureza, de maneira que não operem senão sobre a matéria mista, ou seja, sobre uma
mistura do material e do espiritual e obtenham, em conseqüência, resultados mais aparentes do que
os Rèau-Croix, que operam sobre o espiritual-temporal e cujos resultados se apresentam em forma
de hieróglifos”.

A influência das idéias de Martinez foi enorme. A ele pode-se atribuir a vocação de Pernety, o
fundador dos Iluminados e dos quais derivaram os Philaléthes, a quem se pode considerar, por sua
doutrina, os precursores da Revolução Francesa.

Martinez contou no número de seus mais ardorosos discípulos, além de Saint-Martin e Willermoz,
dos quais falaremos adiante com mais destaque, o Barão de Holbach, o célebre autor do Sistema da
Natureza; Duchantenau, a quem se devem os quadros místicos mais procurados pelos amantes deste
gênero de pintura; Andreas Chenier; Gazotte; Mirabeau; etc.. Em 1772, Martinez embarcou para
São Domingos, onde um parente seu lhe havia deixado uma herança muito grande. Ali morreu em
1774.

Pode-se dar a denominação de Martinesismo à corrente de pensamento e ao movimento ao qual deu


origem Martinez de Pasqually. A Ordem dos Elu Cohen foi dissolvida em 1780, desaparecendo
oficial e oficiosamente no Convento Maçônico de Wilhemsbad, no qual, entre outros, estiveram
presentes os mais altos dignitários das diversas Ordens Iniciáticas daquela época. Entre estes, deve
12
se mencionar Louis Claude de Saint-Martin, Willermoz e o Conde de Saint-Germain, como
emissário dos Grupos R+C mais secretos da Europa.

Martinez de Pasqually expôs suas doutrinas em seu livro intitulado “Tratado da Reintegração dos
Seres em suas primeiras propriedades, virtudes e poderes espirituais e Divinos” (6). Nesta obra,
Martinez expõe sua teoria da Queda e da Reintegração. O capítulo II estará dedicado a esta obra da
qual transmitiremos uma síntese.

CAPÍTULO II

ANÁLISE DO “TRATADO DA REINTEGRAÇÃO DOS SERES”

Como todos os esoterismos, a doutrina Martinista, tal como foi definida por Martinez de Pasqually
em seu “Tratado da Reintegração dos Seres”, recorreu necessariamente ao exoterismo para
expressar as verdades metafísicas, pouco compreensíveis e difíceis de expressar em razão de sua
natureza. É assim que a doutrina Martinista encontra-se relacionada de maneira integral com a
Tradição Ocidental e, muito especialmente, com a corrente Judaíca-Cristã.

Com respeito ao problema da Causa Primeira (Deus), o Martinismo faz suas, as conclusões a que
haviam chegado os teólogos cristãos e os Cabalistas hebreus, pelo menos no que diz respeito aos
princípios sobre os quais estão de acordo e tem estado sempre as diversas escolas: ternário Divino,
pessoas Divinas, emanações, etc.. Quanto ao resto, é mais particularmente gnóstica (ainda que
apresentando esta tese sob uma forma diferente das escolas conhecidas com esta denominação), já
que faz presente, em princípio, a necessidade igual de Conhecimento e de Fé e a circunstância de
que a Graça deve, para operar completamente, ser completada com ação, com a inteligência e com a
compreensão e a liberdade do Homem. Por estes diversos motivos é que Martinez de Pasqually
apresentou o esoterismo de sua Escola sob o aspecto da tradição judaica-cristã. Esta lenda, cujo
autor certamente foi o Mestre, baseou-se em documentos tradicionais, propriedade de sua família,
depois que um de seus avós, membro do tribunal da inquisição, os havia colhido dos hereges árabes
e judeus, na Espanha. O conjunto destes documentos era formado por manuscritos em latim, cópias
de originais árabes, derivados mesmo, de clavículas hebraicas.

Seja como for, heis aqui um resumo do “Tratado da Reintegração dos Seres”, obra tão rara como
pouco clara para quem não esteja perfeitamente ao corrente das tradições gerais em que se inspirou:

O Mundo, considerado como um “domínio material”, submetido a nossos sentidos e as “regiões


espirituais” do Invisível, não constituem a obra de Deus, considerado como o Absoluto. É o próprio
Evangelho de São João que nos assinala:

“No princípio (quer dizer, no começo dos Tempos, ou seja, daqueles períodos em que se
manifestam os seres relativos), era o Verbo” (o Logos, a Palavra Divina).

“O Verbo estava com Deus...” (expressão literal mais apropriada).

“O Verbo era Deus... (não Deus com maiúscula. O texto grego não levava artigo. O Verbo é pois,
um dos “Elohim”, quer dizer: um dos filhos de Deus (7); esta palavra “Elohim” significa em hebreu
“Eles, os deuses” assim também o assinala e sublima o Abade Loisy, em seu “Quarto Evangelho”).

“Todas as coisas foram feitas por ele; e sem ele nada do que foi feito se fé". (São João 1,3).

6 - Editada em português pela Edições 70 (Coleção Esfinge), em 1979. (N. Rev.).


7 - Para melhor compreensão do que seja o Verbo, veja Stanislas de Guaita, “Le Problème du Mal”. (N. Rev.).
13

É a este Logos que a Cabala denomina Adam Kadmon; (de acordo com todas as tradições religiosas
da antigüidade); ele cria os seres inferiores por meio de sua palavra, designando-os, nomeando-os,
chamando-os (entende-se à “vida real e manifestada”):

“E Adão colocou nome em todos os animais e aves dos Céus e em todos os animais do campo; mas
para o Homem, não achou ajuda que fosse idônea para ele...” (Gênesis: 2, 20).

Estes “animais dos campos”, estas “aves dos Céus” não são os seres comuns que conhecemos com
estes nomes. Com um sentido esotérico denomina-se, dessa maneira, às criaturas que são inferiores
ao Homem-Arquétipo e que povoam os “planos” ou mundos do Invisível, regiões espirituais às
quais já fizemos alusões anteriormente.

Com respeito a esta criação, Deus serve-se de um intermediário. Isto nos confirma o Capítulo 1º do
Gênesis (1, 2, 3), que nos diz:

“A Terra (a matéria primordial, o Caos) era informe e vazia e o Espírito de Deus movia-se sobre as
Águas” (o nous Egípcio, ou seja, o elemento mais sutil desta Matéria). O Termo “Espírito de Deus”
está escrito com maiúscula, designando-se dessa maneira um Espírito diferente de Deus; de
nenhuma maneira se alude desta forma a Deus, o que constituiria um absurdo, pois, Deus é
necessariamente, em si mesmo, espírito. O Gênesis não nos diz que “Deus se movia sobre as
Águas...”

É por isso que, mais adiante, nos diz que “Deus, o Eterno, tomou, pois, o Homem e o colocou no
Jardim do Éden, para que o cultivasse e o cuidasse...” (Gênesis 2, 15).

O dito Jardim é um símbolo que significa o Conhecimento Divino, acessível aos seres relativos.
Com efeito, a Cabala, ou tradição secreta, pode ser designada, com freqüência, como o “Jardim”
místico. Em hebreu jardim ou campo se pronuncia guineth, palavra formada pelas três letras
seguintes: d, b, , (Gimel, Num, Tau ou Tav) e que constituem as iniciais das três ciências
secundárias que são as chaves da Cabala: a Gematria, o Notaricon e a Temurah.

O Homem Primitivo, referido pelo Gênesis em seu relato exclusivamente simbólico, não é um ser
de carne, semelhante em sua forma a nós, mas um espírito emanado de Deus, composto de uma
“forma” (à qual o Gênesis chama “Corpo” porém, semelhante ao “Corpo Glorioso” que definiram
os teólogos, criado pelo Deus eterno, e composto, por outra parte, por uma centelha animadora, que
é integralmente Divina, já que o Gênesis nos dia que foi o Alento mesmo de Deus. Nosso Homem
Arquétipo, é pois, semi-Divino. Por uma parte saiu da Matéria Primordial (do Caos composto de
Terra e de Água, para falar simbolicamente), no que diz respeito a sua “forma”; por outro lado, é
uma emanação de Deus, já que é o alento Divino que o anima (o dito alento provém de Deus
mesmo).

Adão e o Verbo Criador são parecidos, uma vez que o Homem-Arquétipo continua, no simbólico
Jardim do Éden, a obra começada pelo Espírito de Deus. Em conseqüência, este Verbo Criador e o
Verbo Redentor são diferentes.

É indiscutível que o Cristo (a quem Martinez denomina O Reparador) é Deus por sua origem e
homem por sua encarnação. A teologia o demonstrou. Porém, assim como o menino de dez anos e o
ancião serão mais tarde um só e mesmo ser (embora com características e aspectos diferentes)...
existe entre eles absoluta continuidade de consciência, apesar de não existir semelhança no aspecto
ou em suas reações inferiores.
14
Da mesma maneira, a alma que animou um corpo humano em uma encarnação, será idêntica a si
mesma vinte séculos depois animando outro, embora sejam duas manifestações diferentes. Essa
identidade existe, mesmo que as manifestações sejam diametralmente opostas, em razão da
manifestação exilatória, conhecida pelo vocábulo “Carma”.

Paralelamente a Adam Kadmon (o Homem Arquétipo ou Cósmico), existiam outros seres gerados
em sua criação anterior; diferentes por sua natureza e pelo plano em que habitavam, tinham relação
com a que nos explica a tradição contida no Gênesis. Esta Criação anterior se denomina Angélica, à
qual também se referem outras Tradições e teologias. Trata-se de duas criações diferentes que estão
subentendidas pelo Gênesis em seu primeiro versículo:

“No começo, Deus criou o Céu e a Terra”. Imediatamente o Gênesis deixa de lado a primeira
Criação (sobre a qual parece que Moisés não possuía maiores conhecimentos) e passa a referir-se à
segunda:

“A Terra era informe e vazia, as Trevas cobriram a superfície do abismo...” (Gênesis 1, 2).

Outros elementos da Tradição Judaica-Cristã nos ensinam que os seres desta criação primitiva
(simboliza pelo Céu), quer dizer, os Anjos, dividiram-se em duas categorias, os Anjos fiéis e os
Anjos rebeldes, depois de uma prova feita por Deus.

Isto nem sempre foi bem compreendido. Deus, princípio de infinita perfeição, não poderia tentar os
Anjos depois de sua emanação, nem afastá-los depois de sua involução. Muito pelo contrário, certas
entidades, uma vez chegadas ao fim da Missão para a qual Deus as havia emanado (quer dizer, uma
vez liberadas, ou seja, dotadas de livre arbítrio, necessariamente) recusaram reintegrar-se no
Absoluto, conforme correspondia com o plano Divino, fonte do Soberano Bem. Em conseqüência,
preferiram o momentâneo, perecível e ilusório em relação ao Ser Eterno, real e imperecível.
Preferiram viver fora de Deus antes que reabsorver-se Nele e beneficiar-se, desta maneira, com suas
perfeições infinitas. Portanto são estas entidades as que se afastaram momentaneamente de Deus,
em virtude de um ato livre, ainda que errado. Não foi o Absoluto que as afastou injustamente, nem
foi o Absoluto a causa de seu exílio. Disto se conclui que o retorno posterior e sua redenção são
possíveis quando essas entidades caídas quiseram voltar e seguir o caminho da Divindade.

Porém, enquanto não se realiza este retorno à Luz, à Verdade Imanente devido às suas atitudes
egocêntricas, esses seres permanecem: rebeldes (em relação à oferta Divina primitiva e
permanente); extraviados (uma vez que saíram do curso de seu legítimo destino); perversos (já que
vivem fora do Soberano Bem) e, em conseqüência, atolados no mal.

Toda coisa corrompida tende, por sua natureza, a corromper o que é são. E isto ocorre com maior
razão no domínio dos seres espirituais do que no reino dos corpos materiais, uma vez que naqueles
misturam-se a inveja (ou consciência, apesar de tudo, de uma real inferioridade), o orgulho (ou
vontade de dizer a última palavra) e a inteligência (diminuída, porém operando em proporção
máxima em seus erros).

É por isso que a Tradição nos ensina que o conjunto dos seres espirituais perversos (ou Egrégoras
do Mal) simbolizado pela imagem da serpente, sentiu ciúmes do ser perfeito, o Adam Kadmon,
superior a eles e imagem de Deus, do qual pretendiam subtrair-se estas entidades caídas.

Estas entidades atuaram, pois, (ou seja, exerceram uma influência parecida com a Telepática) sobre
Adam Kadmon, incitando-o a passar para além dos limites de suas possibilidades naturais.
15
Ser místico por sua natureza, meio espiritual e meio formal, andrógino no qual se interpenetravam
mutuamente Forma e Espírito, o Homem-Arquétipo devia conservar uma certa harmonia, um
equilíbrio necessário no lugar onde Deus o havia colocado. Devia zelar pela manutenção desta
condição e trabalhar no sentido de continuar a empresa deste Espírito de Deus, do qual era reflexo, o
dirigente, o celeste mestre-Jaques imediato ... O Adam Kadmon estava destinado a desempenhar
este papel de Arquiteto do Universo; embora fosse um Universo mais sutil do que o nosso, tratava
se daquele Reino que não é deste mundo e do qual falam os Evangelhos.

Sob a influência das Entidades metafísicas perversas, o Homem-Arquétipo transformou-se em um


Demiurgo independente. Renovando sua falta, modificou e perturbou as leis que tinha obrigação de
conservar e observar. Pretendeu, de maneira rebelde, fazer-se por sua vez, criador e igualar-se por
suas obras a Deus. Porém, seu único êxito foi modificar seu destino primitivo.

Aqui nos deparamos com duas lendas paralelas e idênticas a de Lucifer, o primeiro dos Anjos e a de
Adam, o primeiro dos Homens. Pode ser desta Tradição que derive o costume de consagrar aos
deuses ou a Deus as primícias de uma colheita ou o primeiro dos animais de um rebanho. É
indubitável que na história simbólica da Humanidade, e conforme nos refere o Gênesis, todos os
primogênitos: Caim, Cham, Israel, Esaú, etc., estão misteriosamente marcados com um destino
contrário.

Enquanto Deus, em suas infinitas possibilidades pode conseguir qualquer coisa do Nada, o Homem,
criatura limitada em suas possibilidades, o que pode fazer é modificar o que já existe, sem poder
extrair coisa alguma do Nada.

O Homem-Arquétipo, desejando criar seres espirituais, da mesma maneira como Deus havia criado
os Anjos, não fez mais do que objetivar seus próprios conceitos. Desejoso de proporcionar-lhes
corpo, não pode fazer outra coisa que integrá-los na Matéria mais densa e grosseira. Querendo
animar o Caos (as Trevas Exteriores), da mesma maneira como Deus havia animado o mundo
metafísico que primitivamente lhe havia confiado, nada mais fez do que afundar-se em areia
movediça.

Com efeito, Deus sendo, no sentido mais absoluto da palavra (“Sou o que sou”, disse a Moisés
sobre o Sinai, deve ser preexistente ao Nada. Para criar a matéria primitiva, Deus simplesmente
separou uma parte de suas infinitas perfeições de uma porção de sua essência infinita. Esta retirada
parcial da perfeição espiritual mais absoluta conduziu, inevitavelmente, à reação traduzida em uma
imperfeição material e relativa. Isto explica porque a Criação, qualquer que seja, não pode jamais
ser perfeição. É necessariamente imperfeita pelo fato dela não ser de Deus.

Imitando o Absoluto, Adam Kadmon pretendeu, pois, criar sua matéria primordial. Por tratar-se de
um alquimista inexperiente, encontramos aqui a origem de sua Queda.

O Homem-Arquétipo é um ser andrógino. Nos diz o Gênesis (Cap. 1, 27 e 28): “E criou; homem e
mulher os criou”. É este elemento negativo, feminino, que Adam vai jogar fora de si mesmo. É o
lado esquerdo, feminino, passivo, lunar, tenebroso, material o qual ao separar-se do lado direito,
masculino, ativo, solar, luminoso, espiritual, dará nascimento à Eva. A Mulher-Arquétipo foi, pois,
extraída de um dos lados do Andrógino e não de uma de suas costelas ... (Todas as religiões antigas
conheceram um ser Divino, original, que era masculino e feminino).

Assim nos expressa o Gênesis (Cap. 2, 23 e 24):


16
“E disse Adam: Isto é agora osso dos meus ossos e carne de minha carne (ele conserva o Espírito, a
alma), esta será chamada Mulher - em hebraico Isha porque do homem foi tirada - em hebraico
Ish.”

É nesta matéria nova, na Eva do Gênesis, a mulher simbólica, a quem Adão penetra para criar a
Vida. O Homem-Arquétipo degradou-se, pois ao tentar igualar-se a Deus. Seu novo mundo ou
domínio foi chamado Mundo Hylico pela Gnosis, nosso universo material, mundo cheio de
imperfeições e de males. O pouco de bom que nele existe provém das antigas perfeições do
Homem-Arquétipo. Uma vez que se dividiu em dois seres diferentes, a soma das ditas perfeições
originais não pode ser total em cada um deles ... daí, pois a Queda. Aqui encontramos a razão pela
qual os antigos cultos haviam deificado a Natureza, que é a Mãe de tudo o que é. Porém, com
respeito a tudo o que é “abaixo dos Céus”..., Isis, Eva, Demeter, Rhea, Cybeles, não são mais do
que símbolos da Natureza material emanada de Adam Kadmon, personificadas pelas Virgens
Negras, símbolos da Matéria Prima.

A essência superior de Adam Kadmon, integrada no seio da nova Matéria, é o Enxofre, expressão
alquímica que designa a alma do mundo. A segunda essência, o mediador plástico, aquele que
constituía a forma de Adam, seu duplo superior, sobreveio do Mercúrio, outra expressão alquímica
que designa o Astral dos ocultistas, o plano intermediário. A Matéria, saída do Caos segundo é o Sal
alquímico, o suporte, o receptáculo, a prisão.

Paralelamente, podemos dizer que Adam é o Enxofre, que Eva é o Sal e que o Caim do Gênesis é o
Mercúrio desta trindade simbólica, termos que a Alquimia também conhece com as denominações
de Rei, da Rainha e do Servidor dos Sábios...

É possível conceber, então, porque em todos os seus graus a Matéria Universal seja algo vivo, como
o admite a antiga e a moderna química e como, em suas manifestações, pode ser mais ou menos
consciente e inteligente.

Através dos quatro mundos da Natureza: mineral, vegetal, animal, hominal (entre os quais não
existe nenhuma solução de continuidade), está o Homem-Arquétipo, o Adam Kadmon, a
inteligência Demiúrgica primitiva, manifesta, dispersa, disseminada, aprisionada. Daí aquele
revestimento de “peles de animal” que se refere o Gênesis: E Deus deu ao homem e sua mulher
túnicas de pele e os revestiu”... (3, 21).

Este novo universo Divino, igualmente o refúgio das Entidades caídas, que se refugiaram nele para
esconderem-se ainda mais do Absoluto, na quimérica esperança de escapar das leis Eternas,
presentes em tudo.

Tais entidades caídas têm, pois, um interesse primordial em que o Homem, disperso, mas presente
em todas as partes da Matéria, que constitui o Universo visível, continue organizando e animando
este domínio, que mais adiante será de propriedade deles.

Como a alma do Homem-Arquétipo ficou aprisionada na Matéria Universal, também assim a alma
do homem individual se encontra prisioneira de seu corpo material. E as mortes físicas e as
reencarnações sucessivas são os meios pelos quais as Entidades caídas manifestam sua solicitude
pelo ser humano. De acordo com isto, nos é possível compreender melhor as palavras do Redentor e
dos Profetas. Assim, Isaias quando nos disse:

“Oh! Morte, onde está tua vitória? Oh! Morte, onde está teu aguilhão?”
17
Com o termo “aguilhão” de alude ao aguilhão dos sentidos, que incitam à alma separada a
reencarnar-se em um corpo material.

A Força, a Sabedoria, a Beleza que se manifestam ainda neste mundo material, constituem os
esforços do Homem-Arquétipo para voltar a ser o que era antes de sua Queda. As qualidades
contrárias constituem a manifestação das Entidades caídas, manifestações destinadas a manter o
clima que desejaram criar para subsistir, tal qual o quiseram, quando deliberadamente
interromperam seu retorno até o Absoluto.

Porém, o Homem-Arquétipo não voltará a tomar posse de seu primitivo Esplendor e de sua
liberdade, senão separando-se da matéria que o absorve por toda parte. Para ele, é necessário que
todas as células que o formam, quer dizer, os homens individualmente considerados, possam depois
de sua morte natural, reconstituir o Arquétipo, reintegrando-se definitivamente nele e escapando,
desta maneira, ao ciclo das reencarnações.

Então, os microcosmos farão o Macrocosmo, os Homens individuais, reflexos materiais do


Arquétipo, são, pois, igualmente, reflexos Divinos (mesmo que inferiores alguns escalões). Da
mesma maneira, o Arquétipo é, também, o reflexo de Deus, do primitivo Verbo Criador ou Logos,
do Espírito de Deus do qual fala o Gênesis.

É correto referir-se a ele, então, como o Grande Arquiteto do Universo. Todo o culto de adoração
dirigido a este último é, pois, um culto satânico, já que é dirigido ao Homem e não ao Absoluto. É
por isso que a Maçonaria o invoca, porém, sem adorá-lo.

Para escapar ao ciclo das reencarnações neste mundo infernal, (in-ferno: lugar inferior) é necessário
que o Homem-individual se liberte de tudo que o atrai para a Matéria e se desprenda desta forma, de
escravidão a que é submetido pelas sensações materiais. Ainda assim, é preciso elevar-se
moralmente. Contra esta tendência para a perfeição lutam as Entidades caídas, tentando-o de mil
maneiras, com o propósito de atrai-lo ao seio de Mundo invisível e manter oculta a influência que
exercem sobre ele (8).

É contra elas que deve lutar o Homem-individual, desmascarando-as e expulsando-as da esfera de


sua existência. Isto se consegue, de uma parte, mediante a Iniciação que o une aos elementos do
Arquétipo já reunidos e reintegrados, o que exotericamente se designa com o nome de Comunhão
com os Santos; e, por outra parte, através do conhecimento libertador, que lhe ensina os meios de
apresentar a libertação pessoal definitiva e da Humanidade enceguecida, valendo-se do trabalho
pessoal.

Referente a estas últimas possibilidades, deve-se referir às grandes Operações Equinoxiais, que
tendem a purificar a Aura Terrestre, mediante exorcismos e conjurações, de acordo com os ritos da
Alta Magia, aos quais os Elu Cohen denominavam Os Trabalhos ou O Culto.

Então, quando houver esta libertação individual, dar-se-á a grande libertação coletiva, aquela que
por si só permitirá a reconstituição do Arquétipo e logo sua reintegração no seio da Divindade, da
qual emanou primitivamente.

Abandonado por si mesmo por seu animador, o Mundo da matéria dissolver-se-á, ao ficar sem a
vida, harmonia e direção do Arquétipo. Sob a pressão naturalmente anárquica das Entidades caídas,

8 - Essa mesma teoria encontramos no livro de Saint-Martin, “LeCrocofile” ou “La Guerre du Bien et du Mal”. (N.
Rev.).
18
esta desagregação das partes do Todo irá se acelerando. Então, o Universo terá chegado ao seu fim;
este será o fim do mundo, anunciado pelas tradições universais.

“Da mesma maneira que um livro cuja leitura termina, terminarão o Céu e a Terra...”

A Essência Divina recuperará, então, gradualmente, o acesso àquelas regiões próprias de sua
essência e das quais se havia separado primitivamente. As ilusões momentâneas chamadas com os
nomes de criaturas, seres, mundos, desaparecerão. Porque Deus é o Todo e o Todo está em Deus,
ainda que o Todo não seja Deus! O Absoluto nada extraiu de um Nada ilusório, que não poderia
existir fora de Ele sem ser Ele próprio.

Só este desprendimento da essência Divina é que permitiu a Criação dos Mundos Angélicos,
materiais, etc., assim como é o desprendimento ou retratação desta mesma essência que permitiu a
emanação dos Seres espirituais.

Desta maneira, realizar-se-á a simbólica Vitória do Bem sobre o Mal, da Luz sobre as Trevas, pelo
simples retorno das coisas até o Divino, mediante uma reassimilação dos seres, purificados e
regenerados.

Tal é o desenvolvimento esotérico da Grande Obra Universal.

Martinez de Pasqually consignou suas teorias iluministas através de graus, em número de nove, em
sua Ordem dos Elu Cohen. Tais graus denominavam-se: Aprendiz, Companheiro, Mestre, Eleito,
Aprendiz Cohen, Companheiro Cohen, Mestre Cohen, Grande Arquiteto e Cavaleiro Comendador.

O sistema deste Rito combina com as teorias expostas no Tratado da Reintegração abrangendo a
criação do primeiro homem, seu castigo e as penas do corpo, da alma e do espírito daquele que
estava em prova. O propósito a que se propõe a Iniciação é regenerar o homem, reintegrando-o em
sua essência primitiva e nos direitos que perdeu por sua queda. Divide-se em duas partes. Na
primeira, o candidato não é, aos olhos daquele que o inicia, mais que um composto de barro e lama
e não recebe a vida senão com a condição de não provar do fruto da Árvore da Ciência. O Neófito
promete cumpri-lo, porém, sente-se seduzido, quebra sua palavra e por isso é castigado e lançado
nas chamas. No entanto, se por meio de trabalhos úteis e de uma vida exemplar e virtuosa, repara
sua falta, renasce para uma vida nova.

Na segunda parte, o candidato se encontra animado de um sopro Divino, está apto para conhecer os
segredos mais ocultos da natureza, a Cabala, a adivinhação, a alta química e a Ciência dos seres
incorpóreos lhe são muito familiares.

Quando em 1767 Martinez de Pasqually se radicou em Bordeaux, contraiu matrimônio com a


sobrinha do senhor Collás, Major do Regimento de Foix, chamada Margarida Angélica Collás de
Saint-Michel. Por motivo de seu matrimônio, Martinez conheceu muitos oficiais do Regimento de
Foix, recrutando entre esses oficiais vários membros para sua Ordem dos Elu Cohen.

No ano seguinte, em 1768, sua mulher deu à Luz a um filho a quem puseram o nome de João Jacob
Felipe Joaquim Anselmo, sendo assistido em seu batizado por quatro cohens da Ordem, como
padrinhos.

Durante todo este tempo trabalhou Martinez, em Bordeaux, na confecção dos rituais de Iniciação
dos diferentes graus, na propaganda e na fundação de novas Lojas, em trabalhos de Magia prática e
em compartilhar seus ensinamentos, por correspondência ou diretamente, a alguns discípulos
19
escolhidos. Com freqüência recebia a visita dos discípulos que viajavam a Bordeaux, a fim de
ficarem uma temporada em contato pessoal com o Mestre.

Martinez de Pasqually vivia modestamente e, às vezes, chegou a passar por situações econômicas
penosas, porém com dignidade.

Em 1772 Martinez embarcou para São Domingos, onde um parente seu lhe havia deixado uma
herança de importância. Ali morreu em 1774.

A última carta que Willermoz recebeu de Martinez de Pasqually, tem data de 03 de agosto de 1774,
do Porto Príncipe, de onde seguia dirigindo a Ordem. Nesta carta anuncia a remessa de rituais para
seis graus da Ordem, por um irmão que viajaria à Europa. Falava de sua enfermidade e nomeava o
irmão Caignet de Lester seu sucessor espiritual na direção da Ordem.

CAPÍTULO III

OS PRINCIPAIS DISCÍPULOS DE MARTINEZ DE PASQUALLY

Martinez de Pasqually faleceu em Porto Príncipe em 20 de setembro de 1774.

Seu sucessor na Ordem dos Elu Cohen foi o Senhor de Gainet, Comissário da Marinha Francesa,
porém, sua atuação influiu muito pouco no desenvolvimento do rito; seus verdadeiros chefes foram
Louis Claude de Saint-Martin e Jean Baptiste Willermoz.

Jean Baptiste Willermoz

A figura de Willermoz, a que já nos referimos, merece destaque por sua importância.

Willermoz nasceu em Lyon, em 1730 e morreu nesta mesma cidade em 1824. Foi iniciado na
Maçonaria em 1750 e em 1755 fundou, em Lyon, a Loja da Perfeita Amizade, da qual foi eleito
Venerável. Organizou a Maçonaria em toda a região Lyonessa; em 1762-1763, chegou a ser Grão
Mestre da Loja Matriz.

Em 1776 Willermoz teve conhecimento da existência da Ordem dos Elu Cohen, sendo nela iniciado
no mesmo ano por Martinez de Pasqually, em Versalhes. Em 13 de março de 1768, Bacon de la
Chevalerie, em sua qualidade de substituto geral do rito dos Elu Cohen, deu a Willermoz o Grau de
Réau-Croix (9).

Em 1771, Willermoz recebeu instruções de Saint-Martin, no qual apreciava a ordem e o método.

Willermoz foi um ocultista muito apegado à organização e às “experiências”, ainda que se sentindo
constantemente decepcionado por seus insucessos. Saint-Martin tratou de fazê-lo acessível à “Voz
Interior”, porém Willermoz, que na vida comum era um comerciante sagaz e por isso,
essencialmente prático, não pode seguí-lo (10).

9 - Bacon de la Chevalerie foi um dos fundadores do Grande Oriente da França. Marechal de campo do exército
Francês, literato e autor da obra intitulada “Estado do Grande Oriente da França”. (N. Rev.).
10 - Após a partida de Martinez de Pasqually para São Domingos, Saint-Martin e Willermoz, assim como os demais
discípulos franceses do Mestre, ficaram desorientados. Eles ainda não estavam em condições de portar todas as verdades
que Martinez poderia lhes transmitir. Por essa época (1782), Saint-Martin tinha editado seu primeiro livro “Dos Erros e
da Verdade” e fazia muito sucesso entre os Iniciados da diferentes seitas e no mundo profano. Willermoz permenecia
em Lyon organizando sua Maçonaria a realizando os trabalhos Cohen com base no sistema de Martinez, em busca da
“Coisa”. Um dia Saint-Martin chegou a Lyon e teve uma grata surpresa, vendo os resultados dos trabalhos de
20

Willermoz necessitava “provas” para afirmar seu espiritualismo. Por outro lado, sentia-se fascinado
pelo cerimonial e pelo ritualismo.

Jean Baptiste Willermoz teve o imenso mérito de organizar o Convento Maçônico das Galias (11)
em 1778 e o Convento de Wilhemsbad em 1782, na Alemanha, que foi presidido pelo Duque de
Brunswick, neto de Frederico II.

Saint-Martin, Willermoz e seus seguidores adotaram os métodos da Ordem dos Elu Cohen até 1782,
ano do Convento de Wilhemsbad, quando fizeram uma aliança com a Ordem da Estrita
Observância Templária. Willermoz recebeu a missão de organizar o chamado Rito Escocês
Retificado, sendo designado Soberano Delegado Geral do Movimento para a região de Lyon.

Disse Roberto Ambelain, em um folheto que publicou em Março de 1948, intitulado “O Martinismo
Contemporâneo e suas verdadeiras origens” (publicado em “Os cadernos dos Destinos”):

“Com efeito, temos estudado cuidadosamente os diversos rituais e instruções (do Rito Escocês
Retificado), tanto de suas Lojas de São João como das Lojas de Santo André e de sua Ordem
Interior. Tudo encontra-se marcado com o selo Martinista. Pode-se comparar as instruções dos
diversos graus dos Elu-Cohen (Sacerdotes Eleitos), publicadas por Papus em sua obra sobre
Martinez de Pasqually, com o Ritual das Lojas Escocesas Retificadas. Observa-se aí a tendência
marcante de perpetuar os ensinamentos teóricos do Mestre. Isto é indiscutível. Esse fato não deve
nos assombrar se recordarmos que no Convento de Wilhemsbad estas instruções foram reimpressas,
apresentadas e aprovadas por Willermoz e seus amigos ...”

“Que o Martinismo teórico seja ignorado pela maior parte dos Maçons do Regime Escocês
Retificado; que o Martinismo prático (ou seja, teúrgico) igualmente o seja pelos altos dignitários da
Ordem Interior (Escudeiros ou Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa), é igualmente indiscutível.”

Em síntese, depois da morte de Martinez de Pasqually, Jean Baptiste Willermoz tratou de perpetuar
seus ensinamentos no seio do Rito Escocês Retificado; dentro do qual a Ordem Interior dos
Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa vinha a ser o quartel general do Martinismo. Em outras
palavras, Willermoz esforçou-se em perpetuar a doutrina de Martinez por intermédio da Maçonaria.
Dentro do Rito Escocês Retificado, o “Colégio dos Grandes Professos”, Cavaleiros Benfeitores da
Cidade Santa, cuja existência devia permanecer secreta, devia ser a instituição depositária e
conservadora da Maçonaria esotérica. No conceito de Willermoz a Maçonaria tinha por objetivo o
estudo das Ciências Ocultas. Os Grandes Professos tiveram seu centro em Lyon. Porém, logo
contaram com filiais em Turim, Nápoles, Cambéry, etc.. Por outro lado, pretendeu Willermoz unir o
ocultismo com o cristianismo, investigar o esoterismo do cristianismo e considerava a Cristo o
Reparador. Crê em Cristo, porém renega decididamente a autoridade do Vaticano e do catolicismo
de Roma. No Rito Escocês Retificado seus princípios aparecem como Cristãos, fundamentados nos
Evangelhos, dos quais fazia um elogio entusiasta.

Willermoz manteve correspondência regular com o Duque de Brunswick, o Duque de Salm, Charles
de Hesse, von Hund, Saint Germain, Cagliostro, Savalete de Lange e pretendeu introduzir na
Maçonaria uma reforma com o objetivo de elevá-la à mais pura iniciação tradicional.

Willermoz. A partir desse dia penetrariam mais intensamente na senda interior a doutrina de Martinez de Pasqually e de
Jacob Boehme. (N. Rev.).
11 - Região de Lyon, França. (N. Rev.).
21
Quando eclodiu a Revolução Francesa, Willermoz correu a uma casa retirada, onde se reuniam os
iniciados e, em dois baús, colocou os arquivos e os trouxe para a cidade. No dia seguinte, aquela
casa ficou reduzida a cinzas. Na casa onde se alojava em Lyon, caiu uma bomba sobre um dos baús
e o desmanchou com todos os documentos. Willermoz fugiu levando o que restava dos arquivos. O
resto enterrou ou colocou em mãos seguras. Estes incidentes foram relatados por ele mesmo em
uma carta que escreveu em 1810 ao Príncipe Carlos de Hesse-Cassel. Poucos anos depois, antes de
sua morte, confiou os arquivos a Profés, seu sobrinho, a quem havia iniciado. Quando este morreu,
sua esposa confiou os papéis a um amigo seguro e que compartilhava das mesmas idéias, Cavarnier.
Este entusiasta do ocultismo dava-se conta da responsabilidade que sobre ele pesava e o depósito
dos arquivos o preocupava. Enquanto isso, havia se constituído novamente a Ordem Martinista na
França, através da filiação de Louis Claude de Saint-Martin com suas características peculiares,
como veremos mais adiante, sob a direção Dr. Encausse (Papus), cujo representante em Lyon era o
livreiro de irmão Elias Steel.

Um dia em que Cavarnier passava diante da livraria de Steel, entrou e através de conversa que teve
com o proprietário, ficou sabendo que era um Iniciado da Ordem Martinista e contou a Steel a
história do depósito dos arquivos de Willermoz. Pouco depois fez a entrega deles à Ordem
Martinista reorganizada por Papus, Stanislas de Guaita e outros.

Em suma, podemos dizer que Willermoz, uma vez passada a tormenta revolucionária, graças aos
rituais que havia salvo, reorganizou a Maçonaria Espiritualista. Após sua morte, subsistiram Lojas
de seu sistema trabalhando com êxito em toda a França, Alemanha e Itália.

Louis Claude de Saint-Martin

Antes de seguir adiante, desejamos esclarecer que o Martinismo é, sobretudo um método de pensar.
Se em certas ocasiões apoiou-se em grupos Maçônicos, isto não foi senão uma tática necessária em
uma disciplina de conduta; porém, queremos insistir no seguinte postulado: A Maçonaria e o
Martinismo são organizações completamente independentes uma da outra. É verdade que
seguidamente os Martinistas provieram de filas Maçônicas, dentre os membros mais esclarecidos da
Maçonaria, porém é necessário esclarecer que não é necessário ser Maçom para ser Martinista.

O principal discípulo de Martinez de Pasqually foi Louis Claude de Saint-Martin. Nasceu em


Amboise, província de Touraine, em 18 de janeiro de 1743. Seus pais eram muito piedosos e de boa
situação social e econômica. Pouco tempo depois de seu nascimento morreu sua mãe e
posteriormente, seu pai voltou a contrair matrimônio. Grande parte da formação espiritual de Saint
Martin deveu-se a sua madrasta, que ensinou ao menino, desde a sua mais tenra idade, a
significação dos mais altos princípios espirituais. Cumprindo o desejo paterno estudou advocacia na
Escola de Jurisprudência de Orleans. No entanto, sua orientação espiritual não se coadunava com o
exercício dessa profissão. Eis porque não é estranho que tenha obtido a nomeação de tenente
comissionado no Regimento de Foix, exercendo as funções na cidade de Bordeaux, posição que lhe
deixava tempo e suficiente tranqüilidade para perseverar em seus estudos filosóficos. Conhecia a
fundo todos os clássicos do século. Foi nesta cidade que conheceu Martinez de Pasqually, ficando
impressionado com sua sabedoria e com as faculdades espirituais que evidenciava e, sobretudo, por
ser ele detentor de uma Teurgia... a arte de mandar nos Seres Invisíveis e de fazê-los aparecer e
desaparecer durante as sessões da Loja, quando sempre se preparava antecipadamente um assento
para quem ia manifestar-se. (12) Saint-Martin iniciou-se na Ordem dos Elu-Cohen em 1768 e

12 - Em seguida Saint-Martin veio a desaprovar essas “manifestações sensíveis”, como dizia. O objetivo era produzir fé
nos presentes. Mas para Saint-Martin aquele que não tem um desejo inato e tendência para a “Coisa” não se sensibiliza
com o fenômeno. “Eu só procuro Homens de Desejo -- dizia - e é para eles que escrevo. Por isso sou obscuro”. A fé
pode ser aumentada pelo bom exemplo e pelo verbo de um homem de vontade, mas ela dev emergir do interior de cada
22
durante os últimos anos que Martinez permaneceu na Europa foi seu Secretário, renunciando à
carreira militar. É a Saint-Martin a quem se deve a idéia do selo que se via e se vê estampado em
todos os documentos Martinistas.

Toda a existência de Saint-Martin, toda sua vida interior foi determinada por esta Teurgia Divina,
que é o grande trabalho interno da Reintegração. Para Saint-Martin já não se tratava de fazer com
que se manifestassem as entidades secundárias, obra da magia elementar, mas de criar no centro do
ser humano, lenta e pacientemente, a Figura do “Eu” Celeste, do qual Jesus é o símbolo. É esta a
grande obra do Alquimista Espiritual, do Mago, e do Iniciado. Toda a obra de Louis Claude de
Saint-Martin centra-se no comentário deste Princípio.

Porém, sua Iniciação na Ordem dos Elu-Cohen foi sua única filiação iniciática? Não! pois Martinez
de Pasqually iniciou-o, igualmente, na Sociedade dos Filósofos Desconhecidos cujas constituições
remontam a 1664 e seus Estatutos foram dados a conhecer em 1784 pelo Barão de Tschoudy, em
sua obra “Estrela Flamejante”. Alguns sustentam que esta Ordem era um ramo dos Rosa-Cruzes da
Boemia. Foi a esta Ordem ou Fraternidade mística que pertenceram Khunrath, Gichtel, Salzmann,
Böehme. Foi a esta Ordem que se uniram os “Irmãos do Oriente” e da qual um dos protetores foi o
Imperador Alexis Cannone e que é ainda mais antiga. Daqui derivaram os símbolos fundamentais
do Martinismo posterior, como os seis pontos misteriosos da Ordem e as letras que mencionam o
terceiro grau da Ordem Martinista. Foi desta Fraternidade que Saint-Martin recebeu as chaves da
Voz Interior, que depositou nas mãos dos membros de sua “Sociedade dos Íntimos”.

Saint-Martin foi iniciado, também, na Franco-Maçonaria em 1785, fazendo parte dela até 1790,
quando solicitou sua exclusão.

Para evitar confusão deve-se esclarecer que Saint-Martin também continuou a obra de seu Mestre
Martinez de Pasqually, porém de forma diferente. Julgou mais útil um trabalho individual, conforme
a Tradição dos Superiores Incógnitos e independente da formação de Lojas, a fim de vencer a
oposição dos Maçons franceses que, sob o pretexto de combater o clericalismo, iam caindo no erro
de afastar-se de toda idéia elevada e espiritual em harmonia com a Iniciação Tradicional. Assim,
pois, Saint-Martin continuou iniciando nas doutrinas e ensinamentos do Martinismo aqueles que
julgou aptos para isso, dando sempre mais importância à qualidade do que à quantidade, o que não
impediu que suas iniciações fossem numerosas. Por outro lado, admitiu na Ordem as mulheres, em
um plano de igualdade com os homens. Recordemos suas próprias palavras:

“Acaso a Alma feminina não provém da mesma fonte que aquela que reveste o corpo masculino?
Acaso não tem que realizar a mesma obra, combater o mesmo espírito e esperar os mesmos
frutos?”.13

Em harmonia com esta linha, Saint-Martin expressa, em sua carta de 04 de julho de 1790, que
renunciou a toda organização Maçônica, começando a propagar seu sistema pessoal somente a partir
de 1793. Sobre este particular é interessante citar alguns parágrafos da cartas que se conservam, do
próprio Saint-Martin, uma das quais, dirigida a Liebirsdorf (carta X), diz:

um. O maior resultado do fenômeno é a profanação dos mistérios. Quem pratica um prodígio está abrindo os véusç do
santuário a um profano. (N. Rev.).
13 - Sem querer contrariar essas afirmações, que julgamos corretas, pois a mulher como ser criado deve reintegrar-se
igualmente na Unidade Divina, lembremos, contudo que Saint-Martin tinha muito cuidado ao iniciar uma mulher. Em
sua autobiografia afirma que elas são “em pequeno número e escrupulosamente examinadas”, “o mal de muitas
mulheres é não saber guardar o silêncio”. É claro que muitos homens sofrem desse grande defeito, pois a força do
Iniciado está em calar. “As grandes verdades só se ensinam bem no silêncio”. (Saint-Martin, Mon Portrait Historique et
Philosophique, pag. 21. (N. Rev.).
23
“Aquelas iniciações pelas quais passei em minha primeira escola e que deixei depois de muitos anos
para dedicar-me à única que é verdadeira ao meu coração .... Posso assegurar-lhes que recebi da voz
interior verdades e gozos mil vezes superiores aos que recebi do exterior. Não existe maior
Iniciação que a de Deus e de Seu Verbo Eterno, que mora em nós ...”

“A única Iniciação que prego e que busco com todo o ardor de minha alma é aquela pela qual
podemos entrar no Coração de Deus e fazer entrar o Coração de Deus em nós... Não existe outro
mistério para chegar a esta Santa Iniciação, do que mergulharmos cada vez mais nas profundidades
de nosso ser ...”

Uma passagem das Recordações do Conde de Geichen nos dá a conhecer que Saint-Martin havia
aberto em Paris uma pequena escola. Um artigo de Varuhagem Von Euse, de 1821, diz: “Saint
Martin decidiu fundar uma sociedade cujo fim seria a espiritualidade mais pura.”

Ragon anota em sua Ortodoxia Maçônica, a existência de um Rito Martinista que compreendia,
inicialmente, dez graus e que, em seguida foram reduzidos a sete. É improvável que Louis Claude
de Saint-Martin em alguma época haja criado um Rito Martinista Maçônico(?). Ocorre que
seguidamente há uma confusão entre o nome de Pasqually e o de Saint-Martin. Daí o nome de
Martinismo dado, indiferentemente, à Maçonaria de Martinez de Pasqually e à organização criada
por Saint-Martin. É inconcebível que Saint-Martin, que havia se retirado da Franco-Maçonaria haja
criado um rito particular e que, sobretudo, lhe tenha dado o seu nome. Além disso, como já
dissemos, Saint-Martin incluiu em seu trabalho uma novidade para sua época, a instituição da
Iniciação Livre, que dava a possibilidade da transmissão dos três elementos: mental, astral e físico,
não sendo necessária a existência de Lojas.

Durante a Revolução Francesa, os Martinistas, que eram contrários à violência, foram perseguidos
encarniçadamente pelos chefes revolucionários, sendo guilhotinados mais de dois mil. Saint-Martin
e Willermoz foram presos e quase subiram ao patíbulo, quando a queda de Robespierre lhes
devolveu a liberdade.

Na Rússia, na pessoa de Novikov, o Martinismo deixou uma aura na educação pública. Ele foi, não
somente o primeiro Martinista, mas, também o primeiro mártir de suas convicções. A imperatriz
Catarina II, assustada com a Revolução Francesa e com a enérgica atividade despendida pelos
Martinistas, especialmente os de Moscou, encarcerou Novikov, em Shliserburg.

O Martinismo dessa época caracterizou-se por contar entre suas fileiras grandes idealistas, místicos
desinteressados e inclinados a toda classe de obras filantrópicas. Sua fonte de inspiração na maioria
dos casos, foi a filosofia espiritual de Louis Claude de Saint-Martin. O Ritual era grandemente
sensível. Compunha-se de Oração e da Cerimônia de Iniciação. Após a morte de Saint-Martin e até
1890 a Iniciação Martinista, seguindo a filiação do Fil  Des, transmitiu-se a poucos. Aos nomes
anteriores, deve-se agregar os de chaptal, Delaage, Eliphas Levi, Balzac, Cazotte, Fabre d’Olivet,
Joseph de Maistre, Saint-Yves de Alveidre, Papus, Stanislas de Guaita, etc..

Passemos agora a estudar a obra escrita de Saint-Martin.

Sua primeira obra, Dos Erros e da Verdade, ou os Homens chamados ao Princípio Universal das
Ciências, foi publicada em 1775, com o seguinte título: Obra na qual, fazendo notar aos
observadores a incerteza de suas buscas e seus contínuos desprezos, se lhes indica a rota a seguir
para adquirir a evidência física sobre a origem do bem e do mal, sobre a justiça civil e criminal,
sobre as Ciências, as línguas e as artes. Por um Filósofo Desconhecido.
24
Esta obra foi escrita por Saint-Martin quando estava radicado com Willermoz, em Lyon. Willermoz
e o pequeno círculo de fiéis tomavam conhecimento da obra à medida que Saint-Martin a revista.
Debatiam, então, o que se podia dizer e o que e devia calar. Não era muito fácil decidir e mais de
uma vez se abriram discussões. As melhores provas sobre a existência do mundo imaterial e Divino
eram justamente aquelas sobre as quais haviam jurado guardar um segredo inviolável.

Que grau de esclarecimento podia dar-se às noções sobre o porquê e como das coisas cujo
conhecimento está reservado, em todos os tempos, a um número reduzidíssimo?

Estavam todos de acordo em que não era necessário expressar tão preciosas verdades, senão de uma
maneira simbólica com o fim de salvaguardar as promessas sagradas que em todos os séculos tem
sido ordenadas rigorosamente aos Iniciados: O Silêncio e o Incógnito.

Isto explica as obscuridades e as reticências que se encontram no livro.

A segunda obra de Saint-Martin é o Quadro Natural das relações que existem entre Deus, o Homem
e o Universo, publicado em 1792 (14); O Novo Homem, em 1792; Considerações filosóficas e
religiosas sobre a Revolução Francesa, em 1796; O Crocodilo, ou a guerra do bem e do mal, em
1798; O Homem de Desejo, em 1790; Ecce Homo, em 1792; Luz sobre a Associação Humana, em
1797; O Mistério do Homem-Espírito, em 1802, para citar apenas suas principais obras.

Saint-Martin traduziu algumas obras de Jacob Böehme, notadamente A Aurora Nascente ou a Raiz
da Filosofia, da Astrologia e da Teologia.

Esta obra foi publicada em 1800 e fez-se uma reimpressão em idioma francês em Milão, em 1927 e
em 1976 (15).

Estratos das Obras de Saint-Martin

Para dar uma compreensão da doutrina de Saint-Martin citaremos algumas passagens de suas obras,
tiradas da recapitulação publicada por André Tauner, em 1946.

Eis aqui um extrato sobre a Origem e o Fim do Homem contido no Quadro Natural. Sente-se
nitidamente, nesta passagem, a influência de Martinez de Pasqually e da doutrina da Reintegração:
“Afastemos pois, de nós as idéias criminosas e insensatas desse nada, à qual homens cegos
ensinam que devemos nossa origem. Não envileçamos nosso ser, que é feito de uma sublime
diferença que constitui seu Princípio, pois segundo as leis físicas, nada pode elevar-se senão ao
grau de onde desceu. No entanto, essas leis deixariam de ser verdadeiras ou universais se o
princípio do homem fosse o nada. Tudo nos indica nossas relações com o mesmo centro, produtor
da universalidade material e da universalidade corporal, mesmo que todos nossos esforços tendam
continuamente, a apropriar-nos de um ou de outro e a atrair as virtudes até ao redor de nós”.

“Observemos, ainda, que está doutrina sobre a emanação do ser intelectual do homem, concorda
com a que nos ensinaram, que todos nossos descobrimentos não são senão reminiscências. Pode-se
dizer, ainda, que estas duas doutrinas sustém-se mutuamente, pois se somos emanados da fonte
universal da verdade, nenhuma verdade deve parecer-nos nova e, reciprocamente, se alguma
verdade nos parece nova, ela é só aparente. No entanto, nós não percebemos senão a recordação e

14 - Esta obra foi reimpressa em 1900 por Papus e reeditada em 1976. O livro tem 22 capítulos, em analogia aos 22
arcanos do Tarot. (N. Rev.).
15 - Lembremos também que Saint-Martin traduziu de Böehme: Da Tríplice Vida do Homem (1793); Dos três
Princípios da Essência Divina, 2 vol. (1802). (N. Rev.).
25
a representação do que estava escondido em nosso interior; em conseqüência, devemos ter tomado
conhecimento dessas verdades, primitivamente, na fonte universal da verdade.”

“Pode-se dizer que todos os seres criados e emanados na região temporal, inclusive o homem,
trabalham na mesma obra: redescobrir sua identidade com o Princípio, isto é, crer sem cessar até
chegar ao ponto de produzir seus frutos. Eis aí porque o homem, tendo a recordação da luz e da
verdade, prova que ele descende da morada da luz e da verdade.”

As seguintes considerações sobre o tempo e o espaço, são notoriamente metafísicas:

“O tempo não é mais que um intervalo entre dois atos, não é mais que uma contração, uma
suspensão nas faculdades de um ser. Também cada ano, cada hora, cada momento, o Princípio
Superior tira e dá poderes aos seres; é esta alternativa que forma o tempo, que está submetida às
mesmas progressões do tempo, que faz com que o tempo e o espaço, sejam progressivos.”

“Enfim, consideremos o tempo e o espaço contido entre duas linhas que formam um ângulo ou
vértice, tanto mais obrigados estão a dividir sua ação, para completá-la ou para percorrer o
espaço que fica entre uma linha e outra. Ao contrário, quanto mais perto estão dessa ponta, tanto
mais se simplifica sua ação. Julguemos, pois, o que deve ser a simplificação de ação, no Ser
Fundamental e Princípio de tudo, que é a ponta do ângulo. Este Ser não tendo que recorrer senão à
unidade de sua própria essência para alcançar a plenitude de todos seus atos e de todos seus
poderes, não reconhece senão a nulidade do tempo, o tempo é absolutamente nulo para Ele ...”

Eis aqui uma passagem que não seria desaprovada por nossos físicos modernos:

“É inquestionável que a matéria não existe senão pelo movimento, pois vemos que, quando os
corpos encontram-se privados dele, dissolvem-se e desaparecem insensivelmente. É também
igualmente verídica a observação que o movimento é o que dá a vida aos corpos e que não lhes
pertence, propriamente, uma vez que o vemos cessar neles, tendo deixado de ser sensíveis a nossos
olhos, e nós mesmos não podemos duvidar que eles estão completamente sob sua dependência, uma
vez que ao parar este movimento, acontece o primeiro ato de sua destruição. Concluímos, pois, que
se tudo desaparece à medida que o movimento cessa, é evidente que a existência não existe senão
pelo movimento; é bem diferente dizer que o movimento pertence à existência e que está na
existência ...” (Extratos de Dos Erros e da Verdade).

Para Saint-Martin, o candidato à Iniciação espiritual denomina-se Homem de Desejo. Eis aqui
algumas linhas do Ministério do Homem-Espírito, que esclarecerão esta denominação:

“Por um lado, a magnificência do destino natural do homem, consiste em poder, real e


radicalmente, querer por seu desejo, somente a coisa que pode, real e radicalmente, possuir. Esta
coisa só é o desejo de Deus; todas as outras coisas que arrastam o homem, este não as deseja em
absoluto, sendo tão somente escravo ou joguete delas. Por outro lado, a magnificência de seu
mistério consiste em não poder, radical e realmente, atuar senão de acordo com a ordem positiva,
pronunciada a todo instante, como por um professor ao seu redor, e isto por aquela autoridade que
só é eqüitativa, boa, conseqüente, eficaz e conforme o desejo eterno”.

O Martinismo é Cristão, porém não é católico

Já se disse, com razão, que o Martinismo é essencialmente cristão. É Cristão porque se relaciona
com o fundo da religião cristã, independente de toda forma ou culto, porém não é católico romano
26
(16). Para convencermo-nos basta recorrer a certas críticas de Saint-Martin contra o catolicismo
romano e recordar que, em seus últimos instantes de vida, repeliu a ajuda de um sacerdote católico,
conforme nos relata Joseph de Maistre. Porém, leiamos a respeito, suas próprias frases:

“O Catolicismo, ao qual pertence o título de religião, é o caminho das provas e dos trabalhos para
elevar o Cristianismo. O Cristianismo é a região da emancipação e da liberdade; o catolicismo não
é mais que um seminário do Cristianismo, é a região das regras e da disciplina do neófito.”

“O Cristianismo banha toda a terra tal como o espírito de Deus. O catolicismo não banha senão
uma parte do globo, ainda que o título que leva, apresente-o como universal.”

“O Cristianismo leva nossa fé até a região luminosa da eterna palavra Divina; o catolicismo limita
esta fé à palavra escrita ou à tradição.”

“O Cristianismo dilata e estende o uso de nossas faculdades intelectuais; o Catolicismo encerra e


circunda o exercício dessas mesmas faculdades. O Cristianismo mostra Deus descoberto, no seio
de nosso ser, sem o auxílio de fórmulas; o Catolicismo nos deixa a sós para encontrar a Deus, sob
um ritual e cerimônias. O Cristianismo não faz nem monges nem anacoretas, porque não pode
afastar-se da luz do sol; o Cristianismo expandiu por todas as partes seu esplendor. É o
catolicismo que provou os desertos de solitários e as cidades de comunidades religiosas, uniu-os
para conseguir de uns sua salvação particular e de outros para oferecer ao mundo corrompido
algumas imagens de virtude e de piedade, que o despertassem de sua letargia.”

“O Cristianismo não tem nenhuma seita, uma vez que abraça a unidade sendo só, não pode ser
subdividida. O Catolicismo viu nascer em seu seio, multidões de sistemas, seitas e cismas que
aumentaram mais o reino da divisão do que o da concórdia; e é neste Catolicismo, no qual se crê
no mais perfeito estado de pureza, que encontramos apenas dois de seus membros nos quais a
crença seja uniforme. O Cristianismo criou guerra apenas contra o pecado, porém o catolicismo,
criou-a contra os homens.”

A seguinte citação do Quadro Natural demonstra claramente que Saint-Martin acreditava que o
Espírito do Homem é só e verdadeiramente o Templo particular:

“O homem, ao descobrir a ciência de sua própria grandeza, aprende que se apoiando sobre uma
base universal, seu ser intelectual chega a ser o verdadeiro Templo, que as tochas que devem
iluminá-lo são as luzes do pensamento que o rodeiam e o seguem por toda parte, que o Sacrificador
é a confiança na necessária existência do Princípio da ordem e da vida; é esta persuasão, ardente e
fecunda, que faz desaparecer a morte e as trevas e com a qual os perfumes e as ofertas traduzem-se
na oração, no desejo, o ciúme pelo reino da unidade exclusiva; que o altar é esta convicção eterna,
fundada sobre sua própria emanação e à qual Deus e o homem vêm render-se para encontrar ali,
um sua glória, outro sua felicidade. Em uma palavra, que o fogo destinado à consumação dos
holocaustos, esse fogo que jamais deve extinguir-se, é o da centelha Divina que anima o homem e
que, se houvesse sido fiel à sua primitiva lei, a teria mantido sempre como uma lâmpada refulgente,
situada no círio do Trono do Eterno, a fim de clarear os passos dos que caminhavam afastados;
porque, enfim, o homem já não deve duvidar de que recebeu a existência somente pelo sentido vivo
da luz e da Divindade.”

A verdade alumia cada fenômeno do Universo. O conhecimento íntimo e profundo é acessível a


cada um, se sabe meditar e compreender. Tal o exórdio que faz Louis Claude de Saint-Martin no
Quadro Natural, comparando o Universo com um livro:

16 - Católico significa Universal; o termo Católico Romano é uma limitação daquele. (N. Rev.).
27

“A Causa Primeira é o escritor ou a Natureza Naturante. A Natureza é o livro escrito. O Homem é


o leitor. Porém, este leitor não compreende (ou muitas vezes compreende mal) o sentido exato das
páginas do livro; é necessário, para isto, ter a inteligência de pacientes meditações.”

Saint-Martin distingue duas naturezas no homem: o ser sensível e o ser intelectual. O primeiro
manifesta-se no impulso dos sentidos e o segundo na deliberação do espírito.

“O Pensamento Criador é superior e anterior ao objeto criado pelo homem, que dispõe de sua
máquina pensante antes que chegue a mecanizar seu pensamento. Porém, de quem ou de que o
homem tira sua faculdade de pensar? De quem ou de que tira seu ser físico?”

“É impossível pensar que só o acaso tenha produzido o mundo. Diante de uma máquina qualquer,
construída por um homem, ao ser examinada pode-se conhecer o inventor, seu ser físico, suas
faculdades espirituais. No entanto, os materialistas, ao tentarem explicar o mundo, constatam que
a máquina está feita para funcionar; examinando atentamente todo o mecanismo, maravilham-se
com o jogo exato e preciso de todos os órgãos, porém assombram-se quando se admite um possível
inventor, independentemente da máquina.”

“Nossos descobrimentos, em todos os domínios, não fazem mais que deixar claro a relação que
existe entre nossa própria luz e as coisas. Esta dependência do homem dá idéia de uma força e de
uma sabedoria suprema e única.”

“Todas as doutrinas filosóficas e religiosas tendem para a Unidade. O Martinismo é inteiramente a


doutrina da Unidade. Nenhuma religião, nenhuma filosofia respeita tanto o individualismo dos que
participam delas, como o Martinismo. Esta doutrina eleva o homem, espiritual e interiormente,
porque é verdadeiramente esotérica.”

Para os espíritos piedosos, que suspiravam doloridos ante a difusão aterradora da incredulidade e a
impiedade de Voltaire e da Enciclopédia, Saint-Martin era um profeta, que fazia renascerem as
fontes das crenças antigas, uma vez que havia elaborado um novo Cristianismo transcendental,
oposto ao Cristianismo exotérico que é uma religião feita para o vulgo, e se elevava de grau em grau
às verdades sublimes, tais como as que possuíam os primeiros cristãos, que eram os verdadeiros
iniciados nos mistérios.

No próximo capítulo trataremos do Martinismo moderno e sua linha de sucessão ou de filiação


iniciática, até chegarmos à Gerard Encausse (Papus) e a Agustin Chaboseau.

capítulo IV

O MARTINISMO PAPUSIANO

HENRI DELAAGE

Papus foi Iniciado no Martinismo em 1882 por Henri Delaage, poucos meses antes de sua morte.
Impôs-lhe as mãos e o consagrou S. I. , conforme a Tradição. É a esta Iniciação que se refere Papus,
sem nomeá-la, em seu interessante folheto Martinesismo, Willermosismo, Martinismo e Franco
Maçonaria, quando escreve:

“Alguns meses antes de sua morte, Dellage quis transmitir a outro a semente que lhe havia sido
confiada e da qual já não pensava obter nenhum fruto. Humilde depósito, construído por duas
letras e alguns pontos que reúnem a doutrina da iniciação e da trindade, que havia iluminado todas
28
as obras de Delaage. Porém, ali estava presente o Invisível, que encarregou-se de vincular as obras
à sua origem real e de permitir a Delaage lançar a semente em uma terra na qual podia
desenvolver-se.”

Delaage nasceu em 1825 e morreu em 1882.

A Iniciação de Papus, em conseqüência, remonta a esta época. Henri Delaage foi o autor de um
certo número de obras, entre as quais podemos citar: Iniciação nos Mistérios do Magnetismo
(1874); Aperfeiçoamento Físico da Raça Humana (1850); Doutrinas das Sociedades Secretas
(1852); O Mundo Profético (1853); A Eternidade Revelada (1854); O Mundo Oculto (1856); A
Ciência do Verdadeiro (1882).

Não possuímos maiores informações sobre Henri Delaage.

GERARD ENCAUSSE

Nasceu em 13 de julho de 1865 em La Corunã, Espanha. Foi filho do médico Francês Louis
Encausse e de mãe espanhola, originária de Valladolid, Espanha. Formou-se em medicina em 1894.
Conforme expressou-se em uma de suas obras, foi a leitura das três obras de Louis Lucas: A Nova
Química (1854); O Romance Alquímico (1857) e A Nova Medicina, que o encaminhou ao estudo do
ocultismo.

Desde logo, travou amizade com F. K. Gaboriau, que dirigia a revista Le Lotus Rouge da Sociedade
Teosófica; com Barlet (seu verdadeiro nome Albert Faucheaux), que foi um dos mais sábios
ocultistas da época. Porém, foi somente a partir de 1887 que o Dr. Gerard Encausse começou a
ocupar-se ativamente do ocultismo.

Em outubro de 1887, entrou como membro do Ramo Francês da Sociedade Teosófica (17). No seio
da Sociedade Teosófica deu numerosas conferências e colaborou em Le Lotus Rouge. O Lotus era
uma “revista de altos estudos teosóficos, tendentes a favorecer a aproximação do Oriente com o
Ocidente, sob a inspiração de H.P. Blavatsky.”

Em O Ocultismo Contemporâneo Papus se referiu a Mme. Blavatsky com os seguintes termos:


“Iniciada no Oriente, caluniada por todos os lugares, Secretaria da Sociedade Teosófica e
escritora muito distinguida, é autora de uma obra admirável sobre o Ocultismo, intitulada Isis sem
Véu. É um dos poucos autores, que, segundo nosso conhecimento, une a prática à teoria...”

Quando ocorreu o falecimento de Mme. Blavatsky, o Dr. Encausse rendeu uma nova homenagem à
sua personalidade, consagrando-lhe, na revista A Iniciação, as seguintes palavras:

“O chefe intelectual da Sociedade Teosófica deixou de existir. Mesmo que tenham sido diferentes
nossos caminhos de realização, a morte cobre com um véu sagrado as personalidades, somente as
obras subsistem.”

“A obra de realização de Mme. Blavatsky é considerável. Foi a primeira que quebrou os hábitos
das Sociedades Esotéricas; foi a primeira a chamar as multidões para participarem dos
ensinamentos, até então conservados secretos, do hermetismo; forçou as Sociedades Ocidentais a
saírem de suas reservas e organizar a difusão dos dados elementares da Ciência Oculta.”

17 - Porém não ficou muito tempo, por discordar do sistema preconizado pela Sociedade Teosófica. Segundo Papus, os
métodos adotados no Oriente não podem ser aplicados no Ocidente, onde os costumes são bastante diferentes. (N. Rev.).
29
“A imprensa fez justiça à personalidade de Mme. Blavatsky. Subscrevemos de todo o coração estes
elogios merecidos por uma vida de luta, dura, tenaz e sem piedade ... O porvir pertence agora aos
pesquisadores independentes. Oxalá não esqueçam a grande realizadora que foi Mme. Blavatsky.”

Papus foi co-fundador, em Outubro de 1888, do Ramo Hermes da Sociedade Teosófica, com sede
em Paris. “Porém em seguida, compreendendo que a Sociedade Teosófica - escreve Marc Haven -
lançava o ocultismo sobre um falso terreno e um caminho onde sua fecunda atividade cairia,
trocada por uma estéril obediência de sectarismo, apresentou sua renúncia ao Ramo Hermes,
sendo seguido por Gaboriau. Papus desejoso de defender a tradição puramente Ocidental, deu uma
nova orientação às suas atividades.”

Papus lutou energicamente, em nome das tradições ocidentais, contra o ocultismo puramente
oriental dos teósofos. Papus não participava, inteiramente, das crenças dos teósofos dos Mahatmas
confinados nas regiões inacessíveis do Tibet, os quais, segundo eles, seriam os únicos depositários
do Saber. Sem negar sua existência (a este respeito é clara sua carta de 22 de junho de 1890, dirigida
a Mme. Blavatsky) argumenta que não eram os únicos depositários da Ciência Sagrada. Acreditava
na existência de uma Tradição conservada nos tempos do antigo Egito e que havia perpetuado até
nós.

“O Caminho que nos conduziu a nossas concepções atuais concernentes ao Homem, ao Universo e
a Deus - escreveu em O que é o Ocultismo? - esta muito longe de ser novo, uma vez que se vincula
às idéias ensinadas nos Templos Egípcios desde 2600 anos antes de Jesus Cristo. Essas idéias
constituíram mais tarde o Platonismo e, em grande parte, o Neoplatonismo ... Muitos
pesquisadores de boa fé dirigiram-se a esta antiga filosofia dos Patriarcas, dos Iniciados Egípcios,
de Moisés, dos Gnósticos e dos Cristãos Iluminados, dos Alquimistas e dos Rosa-Cruzes, tradição
que jamais variou em seus ensinamentos através dos séculos ... Esta filosofia é conhecida
atualmente sob a denominação de Ocultismo.”

Em outra obra sua, O Diabo e o Ocultismo, Papus reafirma sua fé no Cristianismo ao escrever:

“Consagramos esta obra ao encaminhamento da elite intelectual da França à crença no Invisível;


empregamos a época mais querida de nossa juventude, nossos ganhos e esforços, utilizamos
revistas, Sociedades de Estudos, Congressos, Conferências, Grupos Fechados e Sociedades de
Iniciação e, em alguns anos, havíamos comovido muitas consciências, encaminhando muitas almas
extraviadas a terem fé. Interessamos nestes fenômenos inquietantes este grande mundo e estas
pessoas distantes cujo frio ceticismo afetava a alma nacional em seus mais íntimos movimentos”.

Foi após ter abandonado, a Sociedade Teosófica que Papus, juntamente com outros iniciadores e
colaboradores, fundaram e organizaram o Grupo Independente de Estudos Esotéricos (Gidee),
círculo exterior, e reorganizou sob novos moldes a Tradição Iniciática que denominamos
Martinismo.

O GRUPO INDEPENDENTE DE ESTUDOS ESOTÉRICOS

Disse Phaneg na obra que consagrou ao Dr. Papus, em 1909: “As finalidades do GIDEE, que depois
tomou o nome de Escola Hermética, eram as seguintes:

1º - Dar a conhecer, no possível, os dados principais da Ciência Oculta em todos seus ramos;

2º - Formar membros instruídos para todas as sociedades ocultistas: Rosa-Cruz, Martinismo,


Franco-Maçonaria e Teosofia;
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3º - Formar conferencistas em todos os ramos do ocultismo;

4º - Estudar os fenômenos do espiritismo, do magnetismo e da magia, tanto do ponto de vista


teórico como prático.

“E tudo isto proclamado por todas as partes que a Verdade é uma e que nenhuma religião pode
reclamá-la somente para si. Os professores do GIDEE ensinaram que em toda filosofia, em toda
religião, pode-se encontrar algumas manifestações da Verdade Una e eles sempre se esforçam por
conciliar as antinomias, buscando aquilo que pudesse uni-los. Na Escola Hermética não se estudou
senão o aspecto atraente das Ciências Ocultas: O Hebraico, o Sânscrito e a Alquimia formavam,
igualmente, parte do programa, pois é necessário que todos os estudantes sejam capazes, pelo
menos, de procurar uma palavra sânscrita ou hebraica em um dicionário e de compreender o
sentido geral da linguagem alquímica ...”

“Os representantes da Igreja Católica Romana não puderam ver sem desconfiança a autoridade
moral e o êxito desses homens que diziam a todos os que haviam abandonado a religião: não
confundam o clero com as idéias religiosas. O Homem pode, sem intermediários, chegar à
conclusão de que existe um Criador no Universo, podendo, ainda que sem conhecer sua essência,
sentir por si próprio como os Raios do Sol Invisível projetam-se até ao investigador sincero.
L’INITIATION começou a ser publicada em junho de 1891 e os mais hábeis escritores católicos
fizeram todo o possível para destruir este movimento espiritualista livre. Certos redatores católicos
de L’INITIATION foram obrigados a demitir-se, para não serem excomungados. No entanto o
GIDDE continuou seu progresso sem ter que enfrentar maiores problemas.”

No ano de sua fundação, o GIDDE outorgou 42 cartas Constitutivas e contou com 350 membros.
Possuía uma biblioteca, uma livraria e uma sala de conferências. Ao mesmo tempo, publicava, em
Paris, a revista mensal L’INITIATION e o diário LE VOILE D’ISIS, em Lyon, a revista mensal
L’UNION OCCULTE FRANÇAISE.

O GIDDE transformou-se em um ponto de reunião de poetas, escritores, artistas, estudantes e sábios


como Victor Emile Michelet, Peladan, Chamuel, Stanislas de Guaita, Albert Poisson, Barlet, Polti,
Gay de La-Croze, o Coronel de Rochas, Paul Adam, Lemerle, Paul Sédir, Marc-Haven, Agustin
Chaboseau, Phaleg, o Dr. Rozier, Jollivet Castelot, Serge Basset e tantos outros cuja influência foi
imensa.

Este foi o círculo exterior. E o círculo interior?

Em sua documentada obra, História e Doutrina do Martinismo, Robert Ambelain evoca desta
maneira a obra desempenhada por Papus no que diz respeito ao Martinismo:

“Nesta época, Agustin Chaboseau, bibliotecário do Museu Chimet, Jean Moréas, Charles Maurras
e o Dr. Encausse, cada terça-feira almoçavam juntos em um pequeno restaurante que havia na
margem esquerda do Sena. Durante estes almoços falava-se de tudo e de todos; e foi assim, por
pura casualidade, durante uma conversa, Papus e Chaboseau, que havia sido iniciado em 1886 por
sua tia Mme. Amélie de Boisse-Montemart, descobriram serem ambos discípulos legítimos e
regulares de Louis Claude de Saint-Martin; em seguida, Papus e chaboseau trocaram suas
Iniciações e resolveram constituir em Paris o primeiro Supremo Conselho da Ordem. Esta dupla
Iniciação teve lugar em 1888. Em março de 1891, os membros do Supremo Conselho eram: Papus,
Chaboseau, Stanislas de Guaita, Oswaldo Wirth, L. Chamuel, Blitz, Barlet, Lejay, Marc-Haven,
Paul Sedir, G. Montière, Burget, Pèladan, Paul Adam, Georges Vitoux, J. Lermina, Dr. Fugarion,
Eugène Nus, Emile Goudeau e duas irmãs: a Princesa Lanskoy e Mme. Wolska. Alguns, em
31
seguida, foram substituidos, como sucedeu em Pèladan ao cabo de um ano e Blitz na América, por
causas que conheceremos mais adiante ...”

As primeiras Iniciações pessoais, confirma Papus em seu folheto Martinismo, Willermosismo,


Martinesismo e Francomaçonaria, tiveram lugar entre 1884 e 1885. A primeira loja teve sua sede
na Rua Pigalle e nela iniciou-se Arthur Arnould, começando aí os estudos que deviam separá-lo,
definitivamente, do materialismo. Os membros do GIDDE, transformado depois na Escota Superior
Livre de Ciências Herméticas, julgados com condições, foram Iniciados nas quatro lojas Martinistas
de Paris: A Esfinge, grande Loja-Mãe onde faziam-se os estudos gerais; na Loja Hermanúbis,
dirigida por Sédir e na qual se aprofundava o estudo do misticismo e da Tradição Oriental; na Loja
Velleda, consagrada ao estudo do simbolismo e, finalmente, a Loja Fenix, reservada sobretudo às
adaptações artísticas.

Já mencionamos como chegaram em mãos do Supremo Conselho recém formado da Ordem


Martinista os arquivos primitivos de Willermoz. Logo a Ordem Martinista designou delegados e
fundou Lojas, tanto na França, como em outros países da Europa, nas duas Américas, no Egito e na
Ásia.

Desta maneira, a Ordem prosseguiu sua luta contra o ateísmo e o materialismo, servindo de porta de
entrada à maior parte das Ordens Iniciáticas mais herméticas da época.

Em maio de 1898 o número de Grupos Martinistas era o seguinte: França 27; Bélgica 3; Alemanha
3; Dinamarca 1; Espanha 3; Itália 8; Boêmia 1; Suécia 9; Holanda 1; Suíça 2; Romênia 1; Rússia 2;
Grã-Bretanha 2; Vietnã 2; Egito 1; Tunísia 1; USA 36; Havana 1; Colômbia 1; Argentina 7; ou seja,
um total de 113, com 73 novos grupos em relação a maio de 1897. Na época da morte de Papus, em
1916, seu número era 160.

A obra do Martinismo é muito interessante por suas diversas projeções, inclusive no que diz
respeito à Franco-maçonaria Chilena. Já citamos como membro do Supremo Conselho, o Irmão
Oswaldo Wirth, da Ordem Martinista. Houve um grupo de Irmãos daquela época que se
preocuparam em infiltrar na Maçonaria uma influência do mais puro espiritualismo, procurando
levá-la ao estudo sério e profundo de seu simbolismo, em harmonia com a Tradição Rosa-Cruz
verdadeira e Martinista.

Atualmente, por autorização expressa do Irmão Oswald Wirth, concedida à Grande Loja do Chile
em 1894, os LIVROS DE APRENDIZ, COMPANHEIRO E MESTRE constituem a fonte mais
preciosa de Instrução Maçônica, da qual beberam as sucessivas gerações de Maçons tanto no Chile
como em outros países da América do Sul.

Inúmeros SS. II. contribuiriam desinteressada e silenciosamente, na tarefa de manter acesa a Luz do
esoterismo tradicional nas Lojas Maçônicas.

É um problema difícil fazer um breve esboço da personalidade e vida de um Iniciado do porte de


Gerard Encausse, porque sua vida foi pródiga em realizações. Foi, sobretudo, um divulgador do
ocultismo e muito especialmente, um REALIZADOR, tanto em sua vida interna como externa.

Phaneg, em sua biografia de Papus conta a seguinte anedota: uma dama ricamente vestida desceu de
um carro, em frente á porta do Dr. Papus. No mesmo instante em que ela entrava no consultório
médico, o Dr. Gérard Encausse a fitou e lhe disse: “Senhora, por que dúvida? Não é necessário
consultar um médico em quem não se tem confiança. Você padece de uma nevralgia, há muito
tempo e que lhe afeta o rosto por cima do olho esquerdo. Só vai ter mais uma crise e sua dor vai
desaparecer. “A dama quedou-se admirada da entrada tão repentina na matéria e seu assombro
32
aumentou, ainda mais, depois que Papus começou a revelar-lhe detalhes de sua família, sobretudo
de sentir que sua nevralgia havia desaparecido subitamente. Agradeceu-lhe e colocou discretamente
uma moeda de ouro sobre a mesa, dando volta para retirar-se. Papus a olhou deteve-a um momento
e, logo, com voz um tanto comovida, lhe disse: “Tomai esse dinheiro, senhora, pois não tem tanto
em vosso lar. “A dama caiu em pranto confessando que essa era sua triste realidade. O carro não lhe
pertencia e era este seu último dinheiro.

Esta história nos retrata Papus por inteiro, mostrando-nos sua maravilhosa clarividência, seus
poderes e sua bondade.

Igualmente acontecia de dizer a um cliente que vinha em seu consultório pela primeira vez: “Seu
caso é muito menos sério que o de fulano (um familiar, um irmão, uma irmã, um amigo íntimo do
cliente), diga-lhe que venha ver-me. O cliente não podia acreditar em seus próprios ouvidos, já que
não tinha tido tempo de pronunciar uma palavra para dar a conhecer sua identidade. O Dr. Gérard
Encausse já podia fazer diagnósticos à distância, com referência a pessoas que não conhecia
previamente.

Finalmente, desejo narrar uma última história acerca do Iniciador Papus, publicada em 1º de janeiro
de 1930 no jornal O Mercúrio da França e que reproduz uma carta do grande pintor O.D.U.
Guillonet:

“Fazia aproximadamente um ano que tinha feito um desenho de Mme. Mac Leod para uma
Messalina, sem saber desta perigosa criatura mais do que o que ela mesma havia contado. Uma
tarde recebi a visita do Dr. Encausse. Enquanto conversávamos, eu arrumava e guardava os
desenhos. De repente o doutor lançou uma exclamação:

-Oh! Mostra-me essa cabeça de mulher! Quem é?

- Um modelo que pousou para mim somente durante uma sessão, tem um tipo singular.

- Bem, respondeu-me o Dr. Encausse, esta mulher mostra os sinais mais terríveis que se podem
contemplar. Em seu rosto, leio que será causadora de duelos, mortes trágicas, ruínas, etc.. Será
interessante seguir o curso de sua vida. Oh! Porém isto é espantoso!... Poderia dar-me este
desenho? Classificá-lo-ei em minhas fichas e tratarei de saber o que chegará a ser Mme. Mac Leod.
É um demônio.”

Mme. MacLeod, posteriormente, veio a ser a famosa espiã Mata Hari.

Assinalo este caso como uma espécie de adivinhação, se assim quereis explicá-lo, como um curioso
caso de leitura do caráter pela análise dos traços fisionômicos.

Disse o Dr. Philipe Encausse, seu filho: “devo esclarecer, finalmente, que o dom de clarividência e
às vezes de clariaudiência, não se manifestavam em Papus de maneira permanente e que meu pai
incorria, às vezes, em erros mais ou menos graves, o que é necessário reconhecer aqui com toda a
imparcialidade. Teria de ser Deus para não errar jamais. Porém é um fato fora de dúvida que Papus
tinha dons notáveis. E, no entanto, não era mais do que um “garotinho” ao lado de seu Mestre
Espiritual, Philipe de Lyon, de quem falaremos mais tarde.

Ao eclodir a primeira guerra mundial Papus alistou-se como voluntário, sendo designado médico
chefe, com o posto de capitão, entregando-se inteiramente a seu trabalho patriótico e humanitário.
Sua dor foi imensa ao presenciar tanto sofrimento e tanta destruição. As linhas seguintes, extraídas
de sua última obra Ce que devienennent nos Morts, provam-no:
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“A chaumont-sur-Argonne, perto de Pierrefitte, em uma trincheira encontrava-se morto um jovem


alemão, tendo sobre a cabeça, na altura dos olhos, seu livro de orações...”

“Pobre vítima da loucura dos grandes, te saúdo e uno minhas orações àquelas que iluminaram teu
espírito no momento da partida. Sentindo chegar a morte, preparaste valentemente tua alma para a
separação física e, obscuro herói, conseguiste chamar Aquele que nos houve a todos. ... Bendito
seja teu gosto. Que me importa que sejas inimigo de minha Pátria e um enviado desses orgulhosos
que sacrificaram a flor e a nata de seus homens para a baixa satisfação de suas ambições.”

“Pequeno grão de areia neste choque imenso; partiste, obedeceste e foste destruído fisicamente em
uma trincheira qualquer, em meio dos campos da França e perto dos bosques ... Porém, se teu
corpo retorna à Terra que te havia nutrido e feito crescer, teu Espírito sobre o qual nenhuma força
material tem poder, libertou-se e, gloriosamente, elevou-se até os planos do empíreo ...”

“No coração de Nosso Senhor, não existem amigos nem inimigos, quando a morte vem, terrível;
não existem mais, senão Espíritos que sacrificaram-se pelo Ideal e que chegaram ao brusco fim de
seu caminho terrestre.”

“E o perfume da oração santificou teus últimos momentos... Passei e senti teu Espírito sereno em
sua bem conquistada
“Inimigos de ontem, evolução
saibamos ecomungar-nos
eu quis, também
hoje
unir
nominhas
Ideal Superior,
orações às
que
tuas...“
está por cima das lutas

humanas.”

“Tens uma família, pobre garoto, uma mãe que te vai prantear, irmãos que hão de te recordar e
irmãos talvez, que imitar-te-ão...”

“E todos em tua dor vão, também, ajoelhar-se e orar... Vítima inocente de cegas ambições contra
a evolução consciente e luminosa dos Povos Livres, cumpriste teu dever, porém a mão Inexorável
do Destino assinalou-te com seu dedo e tua evolução realizou-se.”

“Amanhã retornarás à terra, porém já terás bebido o leite ... vítima desconhecida ... saúdo-te e
rezo contigo ...”
(Nice, 19 de setembro de 1914)

Durante meses Papus consagrou-se inteiramente aos feridos. Esforçou-se, com uma tenacidade
digna de elogios, na luta contra a Morte, contra o Mal, destruidor das vidas humanas.
Lamentavelmente, seu corpo físico, esgotado por tanto trabalho, somado ao seu trabalho incessante
por mais de 33 anos, já não pode resistir mais. Diabético, o médico chefe Encausse contraiu a
tuberculose e teve que retirar-se. Foi nomeado para desempenhar suas funções no hospital militar de
Tours, em Paris, onde trabalhou até o limite de suas forças. Até o último instante permaneceu fiel a
seu Ideal. Sabia que logo teria de abandonar o plano físico. Havia assinalado a data de 25 de
outubro, para seus amigos.

Com efeito, foi em 25 de outubro de 1916 que seu corpo já extenuado, negou-se a obedecer-lhe.
Havia ido ao Hospital de Caridade para consultar com seu amigo o Dr. Sergent, tisiólogo famoso.
Ao subir a escada, bruscamente rolou pelos degraus, fulminando pela tuberculose galopante que o
minava. Faleceu no mesmo lugar em que havia começado sua carreira médica. Esta morte súbita -
conta-nos Philipe Encausse - impediu que meu pai avisasse minha mãe que o esperava em seu carro
estacionado diante da porta do hospital. Do hospital telefonaram para nossa casa, porém não havia
ninguém em nosso lar. Foi uma amiga fiel, a Condessa de Béarn a quem Papus admirava
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especialmente por suas faculdades de vidência e desdobramento no astral, a primeira a ser advertida
em circunstâncias bastante curiosas. Com efeito, uma hora depois da morte de Papus, evento que
ignorava, percebeu a seu lado seu amigo Papus, vestido como na véspera, o qual, com ar muito
preocupado lhe disse: “Querida amiga, não sei o que acaba de suceder-me. Eu caí. Já me
examinaram. É necessário avisar minha pequena Jeanne, minha mulher, com urgência. Conto com
você.” Subitamente ele desapareceu. A condessa de Béarn não esqueceu jamais esta última visita de
seu médico e amigo.

No transcurso desta existência agitada, de uma vida fulgurante, faleceu aos 51 anos Gerard
Encausse - Papus. Teve, como todos, seus pesares, suas dores e desfalecimentos; porém triunfou,
sabendo esconder por trás de um perpétuo sorriso, suas dores e suas angústias pessoais. Teve o valor
de carregar não só sua cruz, que era bastante pesada, mas também a dos outros.

Como médico e, sobretudo como ocultista, Papus publicou um bom número de livros e artigos. No
entanto, é necessário mencionar que suas principais obras ocultistas, foram escritas em sua
juventude: O Tratado Elementar de Ciência Oculta aos 23 anos; O Tarot dos Bohemios aos 24
anos; O Tratado Metódico da Ciência Oculta aos 26 anos; A Cabala aos 27 anos; O Tratado
Elementar de Magia Pratica aos 28 anos. São estes, entre tantos outros, títulos de glória de Papus.

capítulo v

O MARTINISMO NA RÚSSIA

Na Rússia, os três ramos da árvore da Tradição Ocidental, a Franco Maçonaria, principalmente


através do Rito Escocês Antigo e Aceito, a Ordem Martinista e um ramo importante da Rosa-Cruz,
estiveram brilhantemente representados.

Eugênio Lennhoff disse em sua obra Os Maçons ante a História, que a primeira Loja Maçônica
Russa foi a de Moscou, fundada em 1731 pela Grande Loja de Londres, porém até 1771 não se
estabeleceu a Loja de São Petesburgo. Em 1772 criou-se a primeira Grande Loja Russa, com o que
iniciou-se o período mais florescente e brilhante que teve a Maçonaria na Rússia. Não houve nobre
que não tivesse recebido a Luz Maçônica.

No início, Catarina II protegeu a Maçonaria, fomentando o estabelecimento de Lojas em seus


Estados, dando-se o título de protetora da Loja Clio, ao Oriente de Moscou. A mesma imperatriz
levou seu filho Paulo I à Iniciação.

Época muito importante foi o ano de 1783, quando foi fundado em Moscou um Ramo da Ordem
Rosa-Cruz, que passou a ser conhecido na Europa pelas iniciais F.F.R.C.R., que significam Rosa
Cruzes Russos da Fama Fraternitatis.

No fim do reinado de Catarina nasceu o Martinismo na Rússia, na Universidade de Moscou, tendo


por chefe o Professor Schwartz, que professava as mesmas doutrinas dos Martinistas franceses.
Traduziram algumas obras de Saint-Martin e realizaram um grande trabalho de realização espiritual.

Joseph de Maistre fundou, durante sua permanência em São Petesburgo, de 1802 a 1816, um Centro
Martinista. Tanto o Conde de Saint-Germain, que colaborou ativamente com a Ordem dos Elu
Cohen, como os altos oficiais das Ordens Iniciáticas da época, fizeram inúmeras viagens à Rússia,
de acordo com as atividades místicas.
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Porém, voltemos aos Elu-Cohen da época de Catarina II. Além de João Eugênio Schwartz
sobressaíram-se por seu trabalho, projetado até o mundo profano, o célebre fundador do periodismo
russo Nicolai Ivanovitsch, Novikov, Lopzeu, o Príncipe Truvetzkoy, Gamaleg, Turgenev e outros.

Todos eles eram homens muito cultos que não só influíram ativamente na Ordem Maçônica e
Martinista, como também na vida intelectual da Rússia.

O Rosa-Cruz Schwartz era professor de filosofia e de alemão. Além disso, foi diretor do Instituto
Pedagógico da Universidade de São Petersburgo. Fundou hospitais, escolas de ensino primário e
vários institutos docentes, publicou ainda, livros texto.

Sucessor hierárquico de Schwartz foi Novikov.

“Novikov considerou, também, como um dos fins essenciais da Maçonaria, combater por todos os
meios o analfabetismo e a falta de cultura para elevar o nível das massas populares. Fundou e
dirigiu uma impressora com a qual foram editados uma grande quantidade de livros populares,
científicos e religiosos. Uma magnífica biblioteca estava à disposição de todas as classes sociais.
Por outro lado, seus amigos incentivavam financeiramente a educação de meninos pobres, cujas
atitudes despertavam algumas esperanças para o futuro.”

“Novikov - prossegue E. Lennhoff - desenvolveu amplamente a obra iniciada por Schwartz. Novas
escolas e hospitais foram fundados e, coisa incrível naqueles tempos, criou uma sociedade cujo
objetivo era proporcionar subsistência aos habitantes das vastíssimas zonas que, freqüentemente,
sofriam as conseqüências de más colheitas.”

A imperatriz Catarina simpatizava e mantinha correspondência com os enciclopedistas franceses e a


maioria dos filósofos de seu tempo. Porém logo assustou-se com os acontecimentos da revolução
francesa e com a força e desenvolvimento que iam adquirindo os ideais de Liberdade, Igualmente e
Fraternidade, cujos maiores propagandistas eram os Iniciados da época.

Em seguida, Catarina mudou radicalmente sua atitude ante os Maçons e Martinistas. Em carta por
Catarina ao Conde Bezborod, disse: “Veio ao meu espírito aproveitar a primeira ocasião que se
manifeste, para dirigir um manifesto ao meu povo, para colocá-lo em guarda contra a sedução de
uma invenção estrangeira: as Lojas Maçônicas de toda a espécie e, junto com elas, as doutrinas
alquimistas dos Martinistas e outras heresias místicas que lhes estão afiliadas. Elas tendem a
destruir a ortodoxia cristã e todo o governo. Em todos os lugares fazem nascer a desordem sob a
forma de uma pretendida igualdade que não existe na natureza, ao mesmo tempo fomentam todos os
crimes contra as leis humanas e Divinas do mundo civilizado, renovando cerimônias pagãs, as
invocações aos espíritos, a busca do ouro ou de uma panacéia universal.”

Catarina chegou a escrever várias obras teatrais, nas quais pretendeu pôr em ridículo os Maçons e
Martinistas:

O Mentiroso, comédia em cinco atos, na qual apresenta uma espécie de iluminado ou Martinista. O
Enganado, comédia em cinco atos. Este enganado acredita saber como se fabrica o ouro e os
diamantes no crisol; como se fabricam os metais com o sereno da noite e certas ervas; acredita
conversar com os invisíveis, etc.. Para terminar, declara ter sido enganado e compromete-se por
escrito, “a não entrar onde estão os Martinistas de triste figura”. Em O Chacal da Sibéria,
comédia em cinco atos, termina com esta réplica: “Vós, em todo o caso, vos pareceis com os
Chacais. Tanto vós como eles, vos equivocais igualmente, assim como todos os que em vós
confiam.” Em O Segredo da Sociedade Anti-Absurda, um pequeno folheto, Catarina compara os
Franco-Maçons com crianças e suas lendas com contos de amas secas.
36

Porém, a atitude de Catarina não se limitou unicamente ao campo literário, pois os esforços deste
grupo de Iniciados para dissipar um pouco as trevas russas não tardaram em tropeçar com tenaz
resistência. Desta maneira, os fanáticos e intolerantes que se chamavam “verdadeiros crentes” e que
se levantaram em todas as partes contra a Maçonaria, não se descuidaram, também, na Rússia.
Acusaram Novikov de propagar idéias subversivas entre as massas.

O local onde estava estabelecida e imprensa foi cercado, buscando-se ali as armas que se dizia
estarem depositadas para concretizar a conspiração contra o regime estabelecido. Nada foi
encontrado, no entanto, Novikov foi condenado a quatro anos de prisão na fortaleza de
Schlisselburg. Desta maneira, os inimigos do progresso conseguiram que, subitamente, fosse
destruído todo o trabalho tão positivamente iniciado pelo irmão Schawrtz. Novikov somente
recuperou a liberdade com o advento de Paulo I. Alexandre II, que herdou o trono em 1885 esteve
filiado as Ordens Principais da Europa e manteve contato com numerosos ocultistas da Rosa-Cruz
de seu tempo.

O museu de Moscou exibe hoje insígnias e jóias usadas em seus rituais por estes primeiros
Martinistas Russos.

Papus foi apresentado ao último Tzar, Nicolau II, pelo Grande Duque Nicolau Michailovitch. Papus
fez três viagens à Rússia: em 1901, 1905 e 1906 e permaneceu em relações com a família imperial e
sua corte até sua morte.

Em sua qualidade de Presidente do Supremo Conselho da Ordem Martinista, fundou em São


Petesburgo um Loja Martinista, cujo Filósofo Desconhecido, segundo consta, foi o próprio Tzar
Nicolau II. As mais altas personalidades da corte foram membros desta Loja. Por outro lado, em
1914 a maior parte dos Príncipes balcânicos eram Martinistas, conforme nos relata Victor-Emile
Michelet em sua obra Companheiros da Hierofania.

Papus foi muito estimado na corte da Rússia pelos membros da família imperial e seu Tratado
Elementar de Ciência Oculta foi traduzido para o russo.

Maurice Paléologue, membro da Academia Francesa, em suas recordações como embaixador da


França na corte russa, revelou a cena impressionante que teve lugar diante de Nicolau II e da
Tzarina.

“... No início de outubro de 1905, Gerard Encausse foi mandado a São Petersburgo por solicitação
de seus discípulos russos, que tinham grande necessidade de suas luzes na inevitável crise que
atravessava a Rússia.

Os desastres da Mandchúria haviam provocado em todas as partes do Império transtornos


revolucionários, lutas sangrentas, cenas de pilhagem, massacres e incêndios. O imperador vivia
consumido em uma cruel ansiedade e não se decidia em escolher entre os conselhos apaixonados e
contraditórios de seus familiares, de seus ministros, de seus dignatários e generais e de membros
de sua corte.

Uns lhe diziam que não tinha o direito de renunciar ao autocratismo ancestral e exortavam-no a
não desfalecer ante os rigores necessários a uma reação implacável; outros aconselhavam-no a
deixar o lugar às exigências dos tempos modernos e inaugurar lealmente um regime
constitucional.”
37
“No mesmo dia em que Papus chegava a São Petersburgo, um motim desencadeava o terror em
Moscou, enquanto que um misterioso sindicato proclamava a greve geral dos ferroviários.”

“O Mago foi chamado imediatamente a TzarskoieSélo. Após uma rápida conversa com o
Imperador e a Imperatriz, organizou-se para o dia seguinte um grande ritual de encantação e
necromancia. Além dos soberanos, somente uma pessoa assistiu a esta liturgia secreta, um jovem
ajudante de câmara de sua Majestade, o Capitão Mandhyka, hoje Major General e Governador de
Tiflis. Por uma condensação intensa de sua vontade o “mestre espiritual” teve êxito em evocar o
espírito do piedoso Tzar Alexandre III; sinais indiscutíveis provaram a presença do espectro
invisível.”

“Apesar da angústia que lhe constrangia o coração, Nicolau II perguntou calmamente a seu pai,
que se apresentava, se devia ou não reagir contra a corrente liberal que ameaçava tomar conta da
Rússia. O Fantasma respondeu: “Deves fazê-lo, custe o que custar, deves sufocar a revolução que
se inicia; porém um dia ela voltará a renascer e será mais violenta do que hoje. Porém, não importa,
meu filho, não deixes de lutar.”

“Enquanto os Soberanos meditavam com espanto nesta predição agourenta, Papus lhes afirmou
que seu poder mágico permitia-lhe conjurar a catástrofe predita, porém que a eficiência de sua
conjuração cessaria tão logo deixasse de existir sobre o plano físico. Finalmente, executou
solenemente os ritos conjuratórios.”

“Depois de 25 de outubro último, já o Mago Papus não mais existia sobre o plano físico e, assim,
ficou abolida a eficácia da conjuração. Isto significa que a revolução está acercando-se ...”

“Depois de haver deixado a Mme. R...., acrescenta Maurice Paléologue, retornei à embaixada e
abri a Odisséia, no canto XI, no famoso epsódio de Nekina. Sob a influência do relato que acabo de
escutar, esta cena magnífica da humanidade primitiva, essa fantasmagoria tenebrosa e bárbara
parece-me também muito natural, tão natural como se tivesse tido lugar agora. Contemplo Ulisses
no brumoso país dos Cimérios, oferecendo seu sacrifício aos defuntos, sondando a terra com sua
espanada, fazendo libações de vinho e de leite e logo degolando na beira da fossa um cordeiro
negro. E a multidão de sombras, surgindo do Érebo, precipitando-se para beber o sangue
derramado. Porém, o rei de Itaca os expulsava violentamente, por que a única alma que desejava
ver aparecer é a de sua mãe, a venerável Antilea, a fim de que lhe descubra o futuro por intermédio
do Divino Tirérias... E imagino que de Ulisses a Nicolau II, só transcorreram trinta séculos...”

Este relato de Maurice Paléoloque foi desmentido pelo “Véu de Isis”, em outubro de 1922, com as
seguintes palavras:

Conforme o que dizem pessoas que estão a par dos assuntos russos, o dito artigo contém muitos
erros. A cena de encantamento é pura imaginação, assim como o fato de escrever que Papus
afirmara possuir o poder necessário para conjurar a ameaça que se apresentava sobre a Rússia e a
corte. Jamais Papus pronunciou tais palavras. Papus só dizia sorrindo: “Dizem que sou a
reencarnação de Cagliostro, porém, na realidade não é assim. “Escrever que um homem pode
suspender o destino de um povo inteiro ou da humanidade, sim se observa o curso dos
acontecimentos, é sustentar algo inverossímil. Nenhum homem teve jamais semelhante poder, nem
os Budas, nem Moisés, nem mesmo Cristo teve tal poder.”(18)

18 - O problema central, a meu ver, não está em saber se o Adepto tem poderes para realizar prodígios, mas em discutir
se ele deve procurar o fenômeno. O adepto sabendo agir sobre a Luz Astral, tem poderes para comandar a Natureza.
Entretanto, por princípios, pela própria condição do Adeptado, ele não age contra os desígnios da Providência, mas a
senda ativa do interior; não opera diante de profanos, pois sua ciência é sagrada. Se por ventura age no sentido de
aliviar o sofrimento de uma alma, por Caridade, o faz no silêncio. Os milagres que sabemos de Jesus foram realizados,
38

“Sim, Papus foi um grande coração, que sempre será defendido pelos amigos verdadeiros. Foi um
dos renovadores e divulgadores do ocultismo. De Mago não teve senão o nome.” (19) (Este artigo
foi assinado por Tidianeu).

Philippe Encausse, em sua obra Ciências Ocultas falou sobre este assunto:

“Se bem que participo inteiramente da opinião de Marc Haven e de Tidianeu ao afirmarem que
Papus não podia e não tinha o poder de conjurar a ameaça que se abatia sobre a Rússia e a corte,
não estou de acordo com eles quando parecem pôr em dúvida a existência da mesma sessão de
evocação. Papus conhecia suficientemente o manejo das forças astrais (consultar a respeito seu
Tratado Metódico de Magia Prática), para conseguir obter uma manifestação desta natureza. É por
isso que estou certo que a sessão à qual se referiu Maurice Paléologue teve realmente lugar e que o
Tzar conseguiu comunicar-se com seu falecido pai. Já tive oportunidade de assistir a diversas
evocações sérias e posso assegurar que elas não tiveram nada de ridículo nem de abstrato. O
contato com os mortos é muito raro PORÉM EXISTE. Assim o afirmo, ainda que cada qual seja
livre de ter sua opinião a respeito.”

No decorrer de uma conferência esotérica Papus referiu-se, sem nomeá-lo, a seu Mestre Espiritual,
sem ocultar a admiração que sentia por ele. Daí despertou o interesse em conhecê-lo, e a indiscrição
de um Martinista Russo revelou sua identidade. Porém, a biografia do Mestre Philipe será o tema de
outro capítulo; por agora limitarnos-emos a relatar o desenvolvimento do Martinismo na Rússia.

Foi em 1910 que o Dr. Czinski Czeslaw (Punas Bhava) foi designado Soberano Grão-Delegado da
Ordem Martinista na Rússia. Já um ano antes o governo de São Petesburgo o autorizou, em sua
qualidade de representante oficial da Ordem, a dar conferências sobre ocultismo. A partir daí a
Ordem experimentou um grande desenvolvimento nesse país. O órgão ocultista Isida chegou a ser
publicação oficial do Martinismo na Rússia.

No mesmo ano, em 1910, o Conselheiro de Estado Grégoire Ottnovich de Mébes (GOM) preside a
nova Loja Martinista de São Petersburgo. Talvez seja interessante confirmar que GOM foi, ainda,
Sereníssimo Grão Mestre na Grande Loja Franco-Maçônica de São Petersburgo, que trabalhava no
Rito Escocês Antigo e Aceito. Por outro lado era dignitário da Rosa-Cruz.

Mestre GOM tem para nós muita importância, pois nosso ramo Martinista conta com os Cadernos
de Instrução que GOM distribuiu em sua Loja Martinista de São Petersburgo na época czarista. Da
mesma maneira os Martinistas Chilenos beneficiam-se dos ensinamentos ministrados tanto pelo
Martinismo na Rússia como na França.

A partir de 1910 e nos anos seguintes, foram fundadas na Rússia as seguintes Lojas Martinistas:

- Estrela Nórdica e Apolo, em São Petersburgo.


- Leo Ardens e São João, em Moscou.
- Santo André, em Kiev.
- Cruz e Estrelas, no Palácio Imperial, em TzarsKoie-Sélo, presidia pelo Tzar Nicolau II.
- Delphinus, em Tiflis.

na maior parte, no silêncio. Foi a indiscrição dos próprios benefíciados, apesar do silêncio pedido, assim como o relato
posterior dos discípulos, que popularizou os feitos do Mestre. (N. Rev.).
19 - Deve-se entender aí “Mago” no sentido da Magia Vulgar, tal como relatam que ele teria feito na Rússia. Existe uma
magia que atua no Mundo Fenomênico e outra que opera no Plano Divino, que Eliphas Levi chama de “Alta Magia” ou
Teurgia.
39
Ao iniciarem-se os distúrbios revolucionários, as Ordens Tradicionais foram toleradas até chegar o
ano de 1926. Neste ano, o Ilustre Irmão Boris Astromov, sem consultar os demais Presidentes de
Lojas Martinistas, decidiu apresentar um requerimento a Stálin para legalizar tanto a Maçonaria
como o Martinismo. O resultado não se fez esperar. As Lojas Maçônicas, Martinistas e Rosa-Cruzes
foram arrasadas pela polícia secreta e seus membros.

A primeira vítima foi o próprio Irmão Astromov, juntamente com mais trinta Irmãos. Todos foram
submetidos a Processo Secreto em um dos tribunais da G.P.U.. Não se lhes deu a oportunidade de
defenderem-se e foram condenados de acordo com o parágrafo 58º do Código Penal, por
pertencerem a organizações burguesas contra revolucionárias.

Nessa ocasião, o diário Pravda de Leningrado, deu a conhecer publicamente que a polícia havia
surpreendido a existência de organizações maçônicas contra revolucionárias e que os maçons russos
se autodenominavam “espigas não ceifadas no campo revolucionário.”

Os dignitários, oficiais e membros das três Ordens foram presos imediatamente. Assim aconteceu
com os Irmãos de Mébes, Astromov, Palisadov, que presidia a Loja Martinista Leo Ardens,
Gredinger, o Barão Drisen e A.M. Petrov, entre outros. Todos foram relegados por três anos ao
campo de concentração de Solovki, em uma pequena ilha do Mar Branco, onde havia existido um
mosteiro. Posteriormente, foram trazidos ao continente, ao campo de concentração de Medveya.
Cumpridos os três anos de prisão, aplicaram-lhes mais três anos de exílio. De Mébes foi exilado
para a pequena cidade de Ust Sisolsk. A Astromov, o Barão Drisen, Petrov e Gragiergev exilaram
para um local nos montes Urais. Palisadov e outros Irmãos foram exilados em Tashkevt. Todos
esses Irmãos eram Presidentes de Lojas Martinistas. O resto dos Irmãos Martinistas foram enviados
para Narin, na Sibéria e para a Ásia Central.

No entanto, nenhum dos exilados em 1925 foi fuzilado, embora muitos tivessem morrido no exílio.
De Mébes faleceu em Ust Sisolsk em 1930, aos 76 anos de idade.

As Lojas Martinistas que não foram surpreendidas continuaram trabalhando com a maior prudência
e discrição.

Mesmo em Moscou, as Lojas prosseguiram suas atividades sob a direção de um discípulo do Irmão
Palisadov, o Irmão Petr. Mijailovitch Kayser, professor no Instituto de Idiomas Orientais de
Moscou.

Porém, a espionagem comunista era intensa e em 1930 a G.P.U. descobriu as atividades destas
Lojas Martinistas. Desencadeou-se uma onda de prisões e desta vez a detenção foi ainda mais
severa. O Irmão Kayser foi fuzilado e os demais Martinistas foram condenados a trabalhos forçados
em diversos campos de concentração. Durante as investigações e interrogatórios o Irmão Kayser
manteve-se firme e sereno e não delatou nenhum Martinista que ainda não havia sido preso. Por isso
seus colaboradores que conseguiram escapar à prisão, não foram molestados.

Junto com o Ilustre Irmão Kayser foram fuzilados em Leningrado, os seguintes dignitários e
queridos Irmãos, também pertencentes à Maçonaria Russa: Alexander Serguvich, ex-coronel do
Exército; o Barão George Aksevich e o Irmão Klodt, ex-subtenente do regimento de Pablo.

O Ilustre Irmão Dr. Czynski Czeslaw faleceu em Paris, pouco depois de eclodir a revolução.
Posteriormente, começou-se a trabalhar individualmente ou em grupos pequenos de dois ou três
Irmãos Martinistas, sem que se mantivesse conexão entre os diferentes grupos.

capítulo vI
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PHILIPPE NIZIER, O MESTRE ESPIRITUAL DE PAPUS

Gérard Encausse (Papus) penetrou ainda mais na senda interior depois que conheceu Mestre
Philippe. Saint-Yves d’Alveydre, de quem se falará posteriormente, foi seu Mestre Intelectual;
Philippe foi seu Mestre Espiritual.

Este “Enviado” que apregoava a caridade, a bondade e a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, foi para
Papus seu Mestre venerado, como atesta a carta que ele dirigiu a Philippe em 1904:

“Recebi sua carta, que agradeço, uma vez que sempre constitui para mim um prazer receber
correspondência sua. O que você me disse é demasiado certo para que não obedeça imediatamente.
Conversei com você a respeito, em nossa entrevista em Lyon, e nesse momento não me fez objeções.
Você fez-me conhecer a amar o Cristo. Disto hei de ficar eternamente grato e não posso evitar de
pronunciar o nome do Amigo ao falar do Grande Pastor. Se recorri à sua autoridade foi porque,
desde muitos anos e até neste mesmo momento, combatemos contra um movimento anticristão,
poderosamente organizado. Este movimento manifesta-se por meio de revistas e livros e é neste
mesmo terreno que me esforço por combatê-lo, ainda que estando certo de ser mais pecador e
orgulhoso que meus irmãos que atacam a Cristo. Porém, pelo menos, faço com que amem os
Evangelhos e seu autor.”

“Sirva-me o Céu de testemunha que na Rússia fiz com que o amem, ainda que sem nomeá-lo e foi a
indiscrição de um Martinista que fez conhecer seu nome aos poderosos daqui de baixo. Porém,
tiveram que pagar muito caro uma vez que estes pequenos, deixaram de receber suas visitas e
deixaram de vê-lo desde o dia em que você foi chamado ao palácio... Por onde tenho passado,
tenho feito que o amem e que o honrem...”

Papus consagrou uma de suas Conferências Esotéricas à definição do termo Mestre. Segundo ele,
somos guiados passo a passo em nossa evolução. Os guias que nos enviaram do Invisível provém de
diferentes planos ou moradas, segundo o gênero de faculdades que devemos evoluir. Estes são os
Mestres, porém é necessário dar a este termo sua verdadeira significação. O Mestre é um guia que
pode dedicar-se a fazer evoluir três classes de faculdades humanas. Papus distingue, em
conseqüência:

a-) O mestre que dirige a evolução da coragem, do trabalho manual ou das forças físicas e que atua
sobre a parte física das faculdades da humanidade. É o caso do Conquistador que faz evoluir as
células humanas da mesma maneira que a febre, quer dizer, mediante o combate, o terror, o
sacrifício e a matança em todos os planos.

b-) O Mestre cuja ação se projeta sobre a evolução do plano mental da humanidade. Esta classe de
Mestrado é dominada por um enviado do plano Invisível e se caracteriza pelas luzes que projeta em
todos os planos de instrução. É o que Papus denominava de Mestre Intelectual e que, em seu caso
foi Saint-Yves d’Alveydre.

c-) O Mestre propriamente dito e que só ele tem direitos a este título, tendo a seu cargo fazer evoluir
as faculdades espirituais da humanidade, para o que põe em movimento certas forças pouco
compreendidas e cujo poder é extraordinário. Trata-se do Mestre Espiritual, segundo a terminologia
que emprega Papus; a quem Marc Haven, em sua bela obra consagrada a Cagliostro, chama o
Mestre Desconhecido, aquele a quem Sédir, em seus comentários sobre os evangelhos, denomina o
Homem Livre.

É ao Mestre Espiritual a quem se refere Sédir em uma de suas conferências:


41

“Quando o Mestre aparece é como um sol que surge no coração do discípulo, todas as nuvens
dissipam-se, tudo o que é baixo se desagrega. Expande-se uma nova claridade sobre o mundo;
esquecem-se as amarguras, os desesperos e as ansiedades e o pobre coração lança-se até as
radiantes paisagens entrevistas e sobre as quais o aprazível esplendor da Eternidade despeja suas
glórias; nada obscurece a natureza; tudo, enfim, se harmoniza na admiração, na adoração e no
amor.”

Porém, de onde provém este nome de Mestre? Papus explica na referida conferência:

“Este termo provém do latim Magister que decomposto em suas raízes, nos dá:

MAG, fixação em uma Matriz (intelectual ou espiritual) do princípio A pela Ciência G;

IS, domínio da serpente S pela Ciência Divina I, característica do nome ISIS;

TER, proteção pelo sacrifício abnegado de toda expansão R.”

Se, deixando de lado as chaves hebraicas e o Tarot, das quais acabamos de nos servir, recorrendo ao
sânscrito, obteremos duas palavras: MaGa, que significa bondade e sacrifício, com seu derivado
Magoni, a Aurora e: isTa, que quer dizer o corpo do sacrifício, a oferenda.

“O Mestre, o Mago Ista, ou o Magister, o Mago, é, pois, aquele que se sacrifica, o que oferece seu
próprio ser em oferenda para o bem de seus discípulos. Agora, vários compreenderão o símbolo
maçônico do Pelicano.”

Philippe Nizier era um Mestre Espiritual em toda a acepção da palavra e foi, para Papus, a tocha
que iluminou seus últimos anos sobre a terra...

Filho de pais franceses, José e Maria Vachot, Philippe nasceu em 1849, em uma pequena cidade de
Savoya, quando era ainda italiana. Seus pais eram muito pobres e o pequeno Philippe os ajudava da
melhor forma que podia. Entre outros trabalhos, levava as ovelhas a pastar nos vales e planaltos
dominados pelo Monte Tournier.

Com idade de 14 anos abandonou Lasieux, sua pequena aldeia, dirigindo-se a Lyon, onde viveu em
casa de seus tios, donos de um açougue, a quem ajudava encarregando-se de repartir a mercadoria
entre os fregueses. Fez seus estudos no Instituto Saint-Barbe, em Lyon, onde um dos padres sentiu
por ele um grande afeto. Já nesta época manifestavam-se em Philippe Nizier certas faculdades. É o
que acentuou M. Schewebel no artigo que consagrou ao Mago Philippe no Mercure de France de
16 de junho de 1918, no qual transcreve as seguintes palavras do próprio Philippe:

“Ignoro tudo sobre a minha pessoa, jamais compreendi nem tratei de explicar meu mistério.
Quando tinha 6 anos apenas, já o cura de minha aldeia inquietava-se com certas manifestações, a
respeito das quais eu não tinha consciência... Conseguia curar desde a idade de 13 anos e, então,
era ainda incapaz de dar-me conta das coisas estranhas que se realizavam em mim.”

Philippe resolveu estudar medicina e tomou quatro inscrições na Faculdade de Medicina de Lyon,
entre novembro de 1874 e julho de 1875. No Hospital freqüentou diversos cursos, seguindo
assiduamente as classes clínicas do Professor B. Teissier.

Em suas Lembranças sobre o Mestre Philippe, Mme. Lalande refere-se desta maneira, sobre a
passagem do Irmão Philippe pelos hospitais de Lyon:
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“Freqüentou os hospitais de Lyon, sendo apreciado por uns e detestado por outros. Consolava os
enfermos e, seguidamente, solicitava aos médicos que não os operassem. Ás vezes, os enfermos
saravam antes da data fixada para a operação. Vendo os aflitos e os enfermos, e distribuindo entre
os pobres tudo o que recebia, Philippe retornava, de tempos em tempos, à Savoya para ver sua
família, sem que esta pudesse dar-se conta da extensão de suas faculdades.”

Porém, soube-se um dia, no hospital, que era um curador, embora não houvesse obtido o diploma
oficial. Que sacrilégio para os representantes da ciência acadêmica! Daí porque, devido à
intervenção do médico interno Albert, Philippe foi afastado do curso do Professor Teissier, e foi-lhe
recusada sua quinta inscrição por “praticar a medicina oculta e por ser um verdadeiro charlatão...”

Este gesto sem igual não impediu, felizmente, o Mestre de continuar em seu trabalho de aliviar o
sofrimento dos demais, proporcionando-lhe consolo e cura.

Contraiu matrimônio em 6 de outubro de 1877 com a Srta. Landar, pertencente a uma importante
família de industriais de Lyon e que, conforme expressa André Lalande:

“Trouxe-lhe uma grande ajuda; possuía muitas casas na cidade e uma nos arredores de Arbresle, o
domínio de Colonges, o sítio Landar, cujo castelo, o vasto terraço e os plátanos dominam a entrada
do túnel por onde passa a antiga linha de Bourbonnais. Esta fortuna acrescenta André Lalande, era
utilizada por Philippe para ajudar seus semelhantes. Aos pobres e aos enfermos ele enviava
discretamente os recursos e os medicamentos necessários, indo às vezes pessoalmente realizar sua
caridade.”

Creio útil mencionar aqui algumas de suas curas, conforme foram contadas por diversos
testemunhos, entre os quais Papus e o Doutor Lalande. Elas podem parecer incríveis a alguns
leitores desta biografia, porém como disse o Dr. Philippe Encausse: “Não ponho dúvida em tais
fatos, embora pareçam estranhos a um leigo.”

“Em 21 de maio de 1897, foi levada a Philippe uma menina de 10 anos. Sua mãe a conduzia em
uma cadeira de rodas, já que não podia mover suas pernas e apresentava um marcado desvio na
coluna vertebral. A mãe explicou que sua filha permanecia neste estado há sete anos e que os
médicos não tinham conseguido nenhuma melhora. Philippe perguntou-lhe se estava em condições
de pagar o que ia pedir. A mulher pôs-se a chorar, crendo que lhe pediria uma soma em dinheiro.
Não é fortuna que lhe peço acrescentou Philippe, mas unicamente a promessa de nada dizer a
ninguém até que sua filha tenha 21 anos de idade. Promete-me?”

“Uma vez que a mãe, banhada em lágrimas, respondeu afirmativamente, Philippe fez a menina
descer de sua cadeira, dizendo-lhe:” Examine sua filha e veja se observa alguma melhora.” Estava
curada! Logo, dirigindo-se a menina disse-lhe: “Levanta-te, sozinha, sem apoiar-se neste banco.”
Depois de algum esforço a garotinha levantou-se sã, enquanto todos os presentes a comtemplavam
cheios de emoção.”

Um garotinho de 5 anos, incapaz de andar por si só, foi conduzido a Philippe por sua mãe. Seu caso
havia sido abandonado pelos médicos. O mestre disse que o garoto estava curado e, na realidade, o
menino voltou caminhando da sala contígua, enquanto sua mãe chorava de alegria.

O Dr. Bricaud fala em seu livro sobre O Mestre Philippe nos seguintes termos:

“Consegui presenciar estranhas sessões de magnetismo oculto. As curas efetuadas pelo Mestre
pareciam ser verdadeiros milagres. Suas faculdades de clarividência e clariaudiência, sua
43
percepção das enfermidades a distância, sempre produziam espanto, mesmo entre seus alunos que
podiam contemplar, sem obstáculos, freqüentes exemplos como os anteriores.”

Papus, por seu turno, assinala dois casos de cura de que foi testemunha:

“Em uma das sessões chegou uma pobre mulher do povo, levando em seus braços um menino
raquítico, de 18 meses, que foi examinado por dois médicos e dez testemunhas. Possuía um desvio
em arco, do círculo das tíbias; o menino não conseguia permanecer de pé um segundo que fosse.”

“Como essa senhora é muito rica, disse Philippe (tratava-se evidentemente de uma riqueza
espiritual), vamos solicitar a Deus a cura de seu filho.”

“A cura produziu-se em dez segundos. Os dois médicos e as dez testemunhas puderam verificar que
as tíbias endireitaram; a criança firmou-se sobre as pernas, enquanto que a mãe caía em prantos.”

“No dia seguinte chegou outra mãe, cuja aparência exterior demonstrava ser uma pessoa
abastada. Sua filha de 10 meses padecia de uma bronquite tuberculosa, complicada por uma
tuberculose intestinal. O médico da família, depois de fazer uma junta com um professor, declarou
a irremediavelmente perdida.”

“Senhora, disse-lhe Philippe, não sois suficientemente rica pagar-me. Desfruta da riqueza
material, porém fala muito mal de uns e de outros; partilhou tão pouco de sua riqueza com os
pobres que dispõe muito pouco das moedas da provas, do sofrimento e da abnegação, as únicas
moedas que o Céu reconhece e que em seu acentuado favor nos autorizou a receber, apesar de
indignos que somos. A moeda de César aqui não circula, só a moeda do Cristo é respeitada neste
lugar. No entanto nos vem pedir que o Céu cure a sua filha?” Não é difícil adivinhar a resposta da
mãe.

“Bem, continuou Philippe, solicitaremos aos presentes que nos auxiliem a curar sua filha. Senhores
e Senhoras desejais que esta menina sare?” Todos os presentes responderam afirmativamente.

“Bem! Todos vós prometeis não falar mal de vosso próximo durante três dias? Prometei-o? Sim!”

“Senhora, promete-me a mesma coisa, tendo presente que disto depende a vida de sua filha?
Promete-me não caluniar mais, sucessivamente, suas amizades?” Prometo-o de todo o coração e
para sempre” - respondeu.

“Só lhe peço três meses de esforço. Pode retirar-se, sua filha está curada.”

“Pudemos constatar - acrescenta Papus - a manutenção integral da cura. Estes dois exemplos
demonstram a verdade da frase: Enriquece-os, ainda que somente para saber de que riqueza se
trata.”

O Dr. Bricaud nos proporcionou alguns detalhes interessantes acerca da organização habitual das
sessões:

“Eram realizadas duas vezes ao dia. Tão logo chegavam os enfermos, Philippe fazia duas seleções,
perguntando-lhes se vinham pela primeira vez ou se já haviam seguido seu tratamento; depois
despedia as pessoas capazes de perturbar a atmosfera fluídica. Os presentes tomavam assento em
fileiras de cadeiras como na igreja e ele lhes solicitava que se recolhessem em si mesmos enquanto
se retirava para uma peça vizinha. Quando fazia sua entrada definitiva, geralmente dizia:
Levantem-se!”
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“Logo recomendava o recolhimento durante alguns minutos e que fizessem uma invocação ao Ser
Supremo. Durante este tempo olhava um a um, fixamente, todos os presentes. Fazia-os sentarem-se
e, depois, com as mãos atrás das costas, passeava pela nave central. De repente, bruscamente,
detinha-se diante de um doente, tocava-o e olhando fixamente, dava-lhe a ordem de sarar.
Continuava andando por entre os assistentes, dedicando a cada um, alguns minutos de atenção e
colocando-lhes seguidamente a mão sobre o ombro, lhe dizia: Isto vai passar - falava com plena
segurança da cura. Sobre certos enfermos fazia passes magnéticos, a outros recomendava orar, em
determinadas condições” (O Mestre Philippe).

“Acusando-o de charlatanismo, embora não cobrasse jamais honorários por suas curas, e
alegando que lhes privava de uma boa parte de sua clientela, os médicos da cidade fizeram-no,
muitas vezes, comparecer ante o tribunal, acusando-o do exercício ilegal da medicina; finalmente,
os médicos Lyoneses cessaram de perseguir Philippe e, ainda houve alguns deles que lhe enviavam
seus clientes, em casos para eles sem solução.”

No Tratado Elementar de Ocultismo, Papus se refere aos poderes de Philippe, que eram realmente
extraordinários. Por isso é fácil compreender que muitos de seus adversários, ainda que entre os
diplomados, não hajam persistido em desprezá-lo e, muito pelo contrário, lhe deram sua confiança.

“Encontrava-me ali - escreve Papus - com outros dois médicos, quando uma mulher de 20 a 22
anos aproximava-se trazendo em seus braços um menino de 5 anos, tendo a cabeça pendente e os
olhos vidrados. Esta dama disse a Philippe: Meu filho deve morrer dentre de duas horas e como já
me salvou a vida há 10 anos atrás, venho agora pedir-lhe que salve a meu filho.”

“Nós os médicos, examinamos o menino e diagnosticamos um caso de meningite tuberculosa muito


avançada. O garotinho estava condenado a morrer. Diante de todos os que o rodeavam, disse
Philippe: Pode-se curar este pequeno, uma vez que todos se comprometam a não falar mal dos
ausentes durante três meses. - Respondemo-lhe que era impossível obter a cura. - Compreendo,
respondeu o Mestre Philippe, porém prometem-me não falar mal de vossos semelhantes durante
duas horas? - O menino, enquanto isso estava na sala ao lado. Depois de duas horas foi buscá-lo.
Tomou-o pela mãozinha e deu uma volta em torno da sala. Estava completamente são.”

“Tive a oportunidade de presenciar outros casos, como o de uma pessoa que sofria do estômago.
Ninguém havia conseguido diagnosticar a sua enfermidade. Philippe que era muito modesto e
gentil e que sempre tratava de ocupar o lugar mais humilde, roga aos médicos presentes que
examinem o paciente. Meus colegas e eu mesmo o examinamos e não encontramos absolutamente
nada. Logo, Philippe nos perguntou amigavelmente: Já verificaram se tem apêndice xifóide?
(Trata-se de um pequeno osso situado abaixo do esterno).”

“Novamente voltamos a examinar o doente e constatamos que o externo detinha-se claramente


apêndice xifóide. Em seguida, Philippe nos disse: “Creio que o apêndice xifóide tenha dado volta
até ao interior. Este desprendimento produz uma pressão sobre o estômago e provoca a
gastralgia.” - Colocamos a mão sobre a parte afetada, e, enquanto pressionamos ali, ligeiramente,
o apêndice xifóide voltou a tomar sua posição normal sem que Philippe haja tocado no enfermo.
Havia produzido uma ação a distância.”

“Como já se disse, Philippe passou nos exames de medicina, porém não pode receber o diploma de
doutor em seu país, porque teve a audácia de ressuscitar um morto, enquanto era apenas estudante
de primeiro ano. Como conseqüência, não lhe permitiram voltar a matricular-se. Por outra parte,
era filho de camponeses pobres. O que sabia, possuía de nascimento. No entanto, era-lhe
necessário passar pela Faculdade para aprender as coisas terrestres; sendo muito pobre e não
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desejando solicitar nada a ninguém, Philippe empregou-se em um açougue e se encarregava de
distribuir a mercadoria entre os fregueses. Com o dinheiro proveniente do trabalho, custeava seus
estudos”.

“Finalmente, Philippe recebeu na Rússia seu diploma de doutor em medicina. Em seus últimos
exames devia diagnosticar cinco enfermos. Assinalarei um fato curioso: os médicos terrestres
notaram que todo enfermo visitado por Philippe Nizier obtinha, em seguida, sua cura. Os
examinadores indicaram-lhe um enfermo e pediram-lhe que diagnosticasse; Philippe respondeu
que tinha um abcesso (Abcesso de Richer) no ouvido. Os médicos opinaram que não era verdade e
que se tratava de um reumatismo. Enquanto discutiam sobre este segundo diagnóstico, de repente
arrebentou o abcesso e o pus começou a derramar-se para fora da orelha. O enfermo havia obtido
a cura. Philippe Nizier, em conseqüência, passou na Rússia pelos exames práticos e clínicos mais
completos e que tem um certo valor para os médicos. Posteriormente, o Tzar confiou-lhe uma
missão de importância na saúde dos portos, com o cargo de general do exército Russo.”

“Porém, Philippe não foi só um terapeuta digno deste nome, já que possuía outros poderes, entre
eles o de mandar nos elementos. Foi assim que, em presença de Papus, atraiu um raio que veio a
cair a seus pés, em um pátio do imóvel que ocupava na Rua Tête-D’Or, em Lyon.”

“Papus durante toda sua vida, ficava comovido ao recordar este feito.”

“Outra vez, escreve Mme. Lalande, o Mestre estava de visita em nossa casa, acompanhado de toda
sua família. Encontravam-nos no campo; estavam presentes outras pessoas e convidados
impressionados e nervosos, temendo que de um momento para outro, desabasse uma tempestade.
Minha mãe disse, dirigindo-se a Philippe e observando as nuvens negras, que se desabasse a
tempestade, certamente vários adoeceriam. O Mestre olhou o céu respondeu com aquele sorriso tão
cheio de bondade que o caracterizava: Bem! Hoje não teremos tormenta.”

“Para nossa satisfação, observamos que as nuvens se dispersavam imediatamente e o céu


continuava sereno e calmo.” (Minhas Lembranças do Mestre Philippe).

Durante sua permanência na Rússia, de 1901-1902, o Dr. Lalande viu o Mestre acalmar o vento e a
tempestade que se havia desencadeado, enquanto o Tzar dava um passeio de iate e isso a pedido do
próprio Tzar.

“Na mesma época um grande vendaval ia estragar uma revista. O Mestre disse ao Dr. Lalande que
o vento não podia ser suprimido, porém seria possível desviá-lo para que não tocasse na terra e
não levantasse poeira.”

“Durante seu matrimônio, ao nascer sua filha e quando do casamento desta com o Dr. Lalande,
produziram-se tremores e tempestades. Neste último caso, produziu-se na saída da Igreja e do
restaurante, uma tempestade sobre Lyon e caíram mais de sessenta raios! O Dr. Lalande lhe havia
solicitado evitar a presença de curiosos e inoportunos!”

“Durante um desfile militar na Rússia, Philippe acompanhava, vestido de civil, a Tzarina em seu
carro... Um dos Grão-Duques, observando de longe este civil sentado ao lado da Soberana, chegou
a galope, assombrado por esta anomalia contra as normas protocolares e da etiqueta. Em seguida
constatou que a Tzarina estava sozinha! Isto ocorreu várias vezes em muitas ocasiões... Philippe se
havia feito invisível.”

“Depois de meio dia havia caído uma tempestade. Papus encontrava-se com o Mestre Philippe no
pátio. Sem deixar de fumar seu cachimbo, perguntou a Papus se havia visto alguma vez cair um
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raio; este lhe respondeu negativamente e os dois dirigiram-se imediatamente ao jardim enquanto o
céu fulgurava com os relâmpagos. De imediato caiu um raio, fazendo saltar os pedregulhos do
jardim”.

“Em Abresle uma praga havia atacado todas as vinhas, com exceção das suas.”

“Durante uma sessão para demonstrar a Papus o que é a morte, tomou um dos presentes e lhe
deteve o coração. A pessoa caiu desmaiada. Depois de alguns minutos devolveu o movimento ao
coração do paciente, o qual levantou-se dizendo ter sonhado que havia tomado o trem.”

“Um dia o procurador da República acusou-o de atrair às sessões, pessoas para despojá-las de
suas jóias. Dois dias depois o filho do Procurador caiu enfermo; o pai, desesperado, vem suplicar
lhe que salve seu filho. Philippe roga a cura a Seu Amigo e a obtém.”

“Em 1870 celebrava suas sessões perto de Perrache. Desde manhã, cerca de 500 pessoas
dirigiram-se ao Prefeito para reclamar. Este faz com que ele compareça à sua presença e lhe pede
que dê um exemplo do poder que lhe é atribuído. Um conselheiro da prefeitura, presente à
entrevista, indivíduo alto e forte, desafia-o para que o faça cair enfermo... O Mestre recolhe-se
durante alguns segundos e os presentes verificam em seguida, que o conselheiro cai como um
objeto inanimado sobre o solo. Havia desmaiado.”

“Uma de suas primeiras curas remonta a 1866 em George du Loup onde um menino havia
morrido, apesar dos cuidados de dois médicos. Tomavam-se já as medidas necessárias para os
funerais, quando Nizier disse ao menino que se levantasse, o que fez com grande surpresa dos
presentes.”

“Uma vez o Mestre explicava que existem sete véus ou cortinas e que detrás do primeiro
encontram-se ocultos os seres mais avançados que já habitaram este mundo. Solicita a cooperação
de um jovem e nos anuncia que vai levantar o primeiro véu, que separa este mundo do outro.
Imediatamente, todos os presentes sentem uma corrente de ar mais fria e mais rápida, que produz
um inexplicável bem-estar.”

“Havendo todos expressado o desejo de que levantasse o segundo véu, o Mestre consente. No
mesmo instante, o jovem cai desmaiado e todos os presentes sentem-se possuídos pelo medo, alguns
experimentando algo semelhante a uma atração para o vazio. A impressão geral foi de que todos
teríamos experimentado o mesmo fenômeno se o Mestre não houvesse parado com a experiência.”

“Durante outra sessão encontram-se presentes 110 pessoas, alunos e pacientes. Uma enferma de
60 anos assistia pela primeira vez; ela tinha uma dormência no ombro esquerdo há três anos; era
uma anquilose do cotovelo que lhe impedia de mover o antebraço e os dedos. O Mestre nos disse:
há um mundo no qual ao homem são outorgados todos os poderes. Vou dar-lhes um exemplo. -
Logo nos explica que faria com que os fluídos magnéticos se condensassem e que seriam
depositados sobre nossas pernas-. Imediatamente e com a rapidez de um relâmpago, os presentes
sentiram uma pressão sumamente fria sobre suas pernas. O Mestre acrescenta: Neste mundo o
homem faz o que é bom, porque ele mesmo é a Força e a Luz. É por isso que lhes afirmei que esta
mulher obteria, imediatamente, sua cura.”

“Efetivamente! A enferma levanta seu braço como se não tivesse nenhuma enfermidade! Em
seguida, o Mestre nos disse: Vede o que se fez, sem a menor aplicação da vontade e sem nenhum
esforço próprio do magnetismo. Não fui eu quem o fez, mas Deus assim o quis para demonstrar nos
que não pertencemos a este mundo, mas que estamos chamados a ir muito mais alto.”
47
Refere Papus:

“Conhecia uma família burguesa, rica, considerada com um pouco da respeitabilidade tão
procurada pelas famílias burguesas da província. O pai havia morrido; a mãe ficou só com sua
própria mãe e dois meninos de 10 e 12 anos. Pude observar como a miséria entrava pouco a pouco
nessa família enquanto a mãe fazia todo o possível para manter o lar, valorosamente. No entanto, a
miséria aumentava sem piedade e tiveram que vender seus móveis e todos os seus bens e,
finalmente, a família só pode subsistir pela caridade, vivendo refugiada em um sótão. Eu quase
havia acusado o céu pelo que fazia com esta mãe de família.”

“Foi então, que expressei meu pesar por esta situação diante do Mestre, quando nos
encontrávamos em um pequeno aposento, ao lado da sala onde fazia suas curas milagrosas.
Recorrendo à oração, de repente se me apresentou um espetáculo. Philippe me disse: Vais ter
resposta à tua pergunta; será um grande bem para ti, porém também uma grande responsabilidade.
Antes de receber esta resposta eras ignorante e recebias o salário dos ignorantes; agora serás
instruído e receberás o salário dos que sabem. Mais tarde compreenderás o que quero dizer.
Solicitamos ao Amigo que levante para ti os véus que separam os planos.”

“Nesse mesmo instante, parece que os muros do pequeno recinto se abriram. - É uma criação de
minha imaginação? Trata-se de uma realidade? É, certamente, a iluminação de um clichê, devido à
palavra do Mestre?... Que importa!”

“Philippe disse: Estas mulheres deixaram morrer de fome um familiar do qual queriam herdar e
diante de mim contemplo o velho castelo feudal, reconheço a mãe e a avó, não obstante diferentes
em seus trajes. Vejo uma jovem mulher encerrada em uma masmorra escura, suplicando a essas
mulheres que não a deixem morrer de fome e que lhe dêem alimento. Foram miseráveis - ajunta o
Mestre. Voltaram à terra depois de haverem aceitado pagar suas faltas e de haverem consentido
em morrer de fome, da mesma maneira como haviam feito morrer sua parente. Porém, a Virgem
piedosa, mediante uma oração de seus antepassados, mudou o destino e lhes permitiu que
pudessem alimentar-se e, depois de haverem sido humilhadas, voltarão a viver uma vida normal. E
assim aconteceu, com efeito. A mãe e a avó salvaram-se graças ao trabalho dos dois filhos, que
foram dois grandes espíritos encarnados pelo céu nesta família de demônios femininos, para salvá
las.”

“Este relato, para mim, tem um grande valor, por ter sido dado para minha instrução pessoal.
Pouco importa que se tome com lenda ou realidade! A parte de outro que encerra é bastante
brilhante, o suficiente para esclarecer aos corações capazes de compreender.”

Em outra obra, O Tratado Elementar de Ocultismo, Papus cita outro exemplo do poder do Mestre:

Um senhor assistia a uma das sessões de Philippe e manifesta seu desejo de falar-lhe. Philippe
pergunta-lhe: “Sua consulta é sobre algum assunto pessoal?” “Sobre mim”, responde-lhe este
senhor... - “Acredita-me tão idiota como todos os que estão aqui? Não! Venho cumprir um encargo
e de minha parte nada tenho a pedir-lhe.” Philippe olha-o e responde: “Senhor, teria a bondade de
acompanhar-me à sala ao lado?” - O interessado aceita e o Mestre dirigindo-se a ele diz:
“Recorda o que o senhor fez em 28 de julho de 1884, às 3 horas da tarde?... quando estrangulou
uma mulher! Não tema, só eu o vi, porém a polícia não tardará em descobri-lo. Se deseja
sinceramente pedir perdão ao Céu, imediatamente, não será descoberto.”

“Então, prossegue Papus, este indivíduo que queria se fazer de forte, cai de joelhos e implora ao
Céu que o perdoe.”
48
“Possuía uma noção completa da vida presente em todos os seus detalhes e dos seres terrestres
com os quais se punha em contato; Dizia-lhes: “Tal dia você quis suicidar-se em tal condição;
tinha tudo preparado para que se pensasse em acidente, porém em dado momento isto não ocorreu
porque eu estava invisível ao seu lado.”

“Um dia, ao entrar em uma igreja para ser o padrinho de um dos filhos de Durville, o pequeno
Henri, inclinou-se para falar ao ouvido de um mendigo, pseudo - paralítico, meio oculto entre as
portas e lhe disse: Tens 15000 francos ocultos em teu colchão, 10000 francos em ouro e 5000 em
notas; neste exato momento vão te roubar. - O mendigo, espantado, saiu correndo em toda
velocidade para salvar o seu dinheiro, o qual, efetivamente, corria perigo.”

“Segundo uma Tradição Secreta, existem sempre sobre a terra, três enviados do Pai, seja que
encarnem na mesma época ou que operem cada um em um plano diferente, isso pouco importa.
Cada um destes enviados possui uma característica especial. O que nosso coração recordará
sempre, pelas palavras de vida que nos ensinou, chamava-se o espírito mais velho da terra; tinha
grandes poderes, um poder especial sobre o raio que obedecia a suas ordens e mandava
igualmente no elemento ar e água. Seriam necessárias páginas e páginas para relatar tudo o que
fazia este enviado do Pai sobre a terra. Era como um raio de sol dissipando as trevas infernais, era
riqueza de piedade entre corações de pedra, era um raio de luz em meio do egoísmo e crueldade
que nos rodeiam e isso nos fazia amar um pouco a vida.”

“Tais são, os que vêm voluntariamente, são aqueles que recordam verdadeiramente porque, na
realidade, recordam, porém não dizem jamais que tenham sido tal ou qual personagem, nem sequer
evocam o que realizaram em suas existências anteriores.” (A Reencarnação).

J. Bricaud também nos proporcionou interessantes detalhes sobre o Mestre, que teve oportunidade
de conhecer em Lyon: “Fui apresentado ao Mestre Philippe, escreve Bricaud, no decurso de uma
das sessões da Rua Tête-d”Or, por seu genro o Dr. Lalande e me citou como um de seus
discípulos.”

“À primeira vista, nada no Mestre atraía a atenção. De ombros quadrados, de forte corpulência,
de aspecto jovial, podia ser tomado como um pequeno capitalista bonachão. Cabelos castanhos,
abundantes, repartidos ao meio, rodeando uma fronte alta e descoberta. Uma ruga bastante
acentuada separava os olhos que, por contraste azul, irradiavam bondade, com as pálpebras
caídas, índice de predisposição à clarividência. Apresentava um grande bigode, meio caído. Um
pescoço forte suportava este conjunto fisionômico.”

“Devido à sua origem campesina, conservava um aspecto de bonomia e gostos sensíveis.”

“Tal era a impressão que produzia à primeira vista. Só depois de conversar com ele é que a
assombrosa doçura de seu olhar penetrante, a gentileza de suas palavras, o som de sua voz e seu
sorriso, produziam uma grande influência. Era em alto grau um persuasivo, servido por
maravilhosas qualidades psíquicas.”

“Com seu encanto e a torrente de fluidos magnéticos que projetava ao seu redor, exercia uma
grande influência sobre aqueles que o rodeavam, podendo lhes impor as mais severas disciplinas,
exercendo uma autoridade que nenhum homem poderia alcançar. Pertencia à raça dos grandes
homens, dos que engendram a fé, aquela fé que move montanhas.”

“Porém, o Mestre Philippe não era somente um terapeuta inato, como aqueles que se encontram de
tempos em tempos e que, graças a uma faculdade psicológica ainda inexplicada pela medicina
moderna, realizava curas tão reais como surpreendentes, já que os sobrepujava infinitamente por
49
seu profundo sentimento das forças desconhecidas, pela vivência da presença Divina e por sua
inspiração, ao mesmo tempo em que por sua autoridade moral, que exercia sobre a multidão. O
espetáculo de sua atuação fazia pensar aos que ali estavam, ainda que fosse como simples
observadores, como seriam os Profetas, rodeados por seus Apóstolos.” (André Lalande).

“Algo de extremamente livre se desprendia de sua pessoa e sua autoridade absoluta se traduzia
sem nenhum esforço em “mise en scène”. Seguidamente, ao acercar se alguém do Mestre, lhe dizia
em duas palavras algo acerca do que o preocupava desde algum tempo e que não sabia como
expressá-lo convenientemente a Philippe. Outras vezes, relatava a um dos presentes um feito
qualquer da vida deste, conhecido somente por ele ou uma palavra dita por essa pessoa em segredo
e, sobretudo, dava a quem o rodeava, a força moral para suportar as provas... Operava numerosas
curas à distância. Ao observar o sofrimento no coração angustiado de algum dos presentes, dava
lhe o consolo ou às vezes fazia uma observação que, durante o intervalo de sua assistência às
sessões, não havia cumprido com a promessa feita para obter a cura ou que havia atuado de
maneira errada, circunstância que pensava ser ignorada por todo o mundo. Quem era sacudido
desta maneira, ficava confundido e não sabia onde meter-se...”

“Philippe estimava e afirmava que a prática vale muito mais do que a teoria, ainda que a prática
ensinada por ele dirigia-se, quase sempre, a um auditório composto por pessoas sensíveis e, muito
seguido, sem cultura. Não é necessário, por isso, concluir que Philippe não falava jamais de outra
maneira; ele respondia a cada um conforme seus conhecimentos e capacidades.”

“Era tão diferente de nós, tão grandes seus conhecimentos, tão livre, que nenhuma de nossas
medidas se lhe adaptavam. Lógica, moral, sentimentos familiares, tudo isso não era para ele o que
é para nós, já que a vida inteira se lhe apresentava unida, com o passado e o futuro, em um só todo
espiritual, do qual conhecia a natureza, a essência, as razões, as leis e seu encadeamento. Falar
dele? Para isso seria necessário antes falar com o Mestre durante dias, escutá-lo, referir-se a tudo
o que nos rodeia: matéria, força, pensamento, sensação de haver chegado a obter uma concepção
perfeita sobre o Universo e o ser humano. Depois, quem o houvesse escutado, teria a vivência de
que o centro de tudo está em nós e que esse centro é o coração e não a razão haveria chegado a
experimentar a realidade, a verdade de um ser como ele, não como algo possível, mas necessário.
E somente então, quem falasse sobre ele poderia, talvez, ter chegado a compreendê-lo.”

“E, como já se disse, o ensinamento que dava Philippe Nizier resumia-se em pouca coisa, a bem
pouca coisa... a um só ponto, do qual dependem todos os demais: a modificação de si mesmo, do
temperamento, das maneiras, o aperfeiçoamento individual até que a pessoa chegue a expulsar de
si o egoísmo, enchendo sua vida de amor e de bondade para com os demais, pois sem isso tudo o
mais é necessariamente falso e está fadado a morrer, uma vez que se trate de ciência ou virtude,
atos, teorias, pensamentos, vida ou felicidade... tudo!”

“Em troca, tudo lhes é dado... progresso, harmonia, poder, alegria e a possibilidade de dar
felicidade, e desta maneira pode-se conseguir o conhecimento progressivo de tudo, do mundo e de
Deus.”

“Juro-lhes que é tudo o que Philippe ensinava e praticava. Porém, como ele estava já tão alto
sobre este caminho, tão alto que não podíamos dizer se estava a três quartas partes do apogeu ou
mais além, uma vez que estávamos tão abaixo; possuía o conhecimento, o poder do qual já lhes
falei e com o qual sonhamos e ele, com suas curas morais e físicas, com seus atos de sabedoria e os
milagres (quer dizer, a ciência para nós), provava-nos que seu ensino era verdadeiro.” (Dr.
Lalande).
50
“Eis aqui umas frases de Philippe: Para construir uma casa é necessário começar pela base,
porque se começa por cima, tudo vira abaixo. É preciso ter materiais e os materiais são “amar a
seu próximo como a si mesmo” e o que nos falta, muito seguidamente, são esses materiais”. (Mme.
Marie Lalande; Recordações de Mestre Philippe).

“Sem ser rico, Philippe desfrutava de uma certa fortuna. Muito zeloso de sua independência, não
lhe agradava dever nada a ninguém, ainda que fosse de um grande da terra. Provou-o recusando,
sistematicamente, tudo o que o Tzar quis oferecer-lhe: cargos, honras, condecorações, pensões...
declinou de
“Nicolau acrescentou sua estima por este homem que não lhe pedia nada. No palácio Peterhof,
II tudo.”

os personagens da Corte não podiam perguntar ao Tzar o que lhe havia dito Philippe, então
interrogavam a este que se abstinha de responder-lhes.”

“Eis porque Philippe, como os que o freqüentavam, fizeram-se suspeitos. Como eu pertencia a estes
últimos (declara Papus), acusaram-nos à polícia; como esta não pode averiguar nada interessante,
imaginou que Philippe e eu devíamos ser dois gênios maus que havíamos tomados ascendência
sobre o espírito do Tzar, fazendo com que os mortos falassem.”

“Estas linhas de Papus, expressa nosso Grão-Mestre Philippe Encausse, referem-se à ação de
Philippe Nizier e de Papus na Rússia sob o império dos Tzares, onde exerceram uma ação, com
efeito, sumamente importante.”

“Em novembro de 1895, por proposta de Papus (que alguns anos antes havia conhecido Philippe
por intermédio de Mme. Encausse, cuja mãe morava em Arbresle e que havia ficado maravilhada
com os poderes do Mestre), foi fundada a Escola Secundária de Magnetismo e de Massagem, em
Lyon. Philippe foi convidado para assumir a direção do estabelecimento a aceitou. Foi designado,
então, professor titular da classe de Clínica Magnética e, de acordo com a proposta de Jean
Chapas, foi também designado mestre de conferências, cargo dos cursos de história do
magnetismo. Esta escola obteve um legítimo êxito.”(20)

“Philippe encarregou-se inteiramente de dar ajuda a todos, aos humildes camponeses ou aos
grandes da terra. Porém, se teve amigos devotos até sua morte, também teve invejosos sectários e
espíritos fortes, que se esforçavam em aniquilá-lo. Suas duas viagens e suas intervenções na Rússia
atraíram-lhe novos ataques e pesares, no que se distinguiu muito especialmente certo policial. O
estado de sua saúde alterou-se. Logo veio o grande sofrimento de sua vida: a morte prematura, em
1904, de sua filha muito amada; a doce e jovem Vitória Lalande. Ele que assombrava os
desconhecidos e que até havia conseguido ressuscitar os desconhecidos e que até havia conseguido
ressuscitar os mortos, nada podia fazer por sua filha, conforme as leis do ocultismo.”

“Estas vendo o que me sucede! - dizia a uma amiga da família e seu rosto se alterava com
indescritível emoção. Porém, foi corajoso e se inclinou humildemente ante a vontade Divina.
Encontrei uma pequena nota manuscrita do Mestre, escrita em 13 de julho de 1896, às 19 horas e
15 minutos: Meu Deus, aceito as conseqüências de meu pedido e te prometo suportar com
resignação todas as provas que queiras enviar-me.”

“E, portanto, Philippe esforçou-se em resignar-se ante a cruel prova, conforme o que havia escrito
e ensinado, porém o choque não deixou de ser, menos doloroso... Depois da morte de sua filha,
Philippe sofreu mais e mais. Seguidamente passava semanas inteiras em Paris, para grande alegria

20 - Parece-me que essa escola não tinha outro papel que o de legitimar perante a lei as sessões e demais trabalhos
realizados pelo Mestre. (N. Rev.).
51
de Papus e de seus demais discípulos parisienses, entre os quais estavam Phaneg e Sédir. A eles
anunciou sua próxima partida para os planos superiores... Retornou ao sítio Landar, Em
Arbresle.”

“Em 2 de agosto de 1905, aos 56 anos de idade, este grande espírito, o guia que era todo amor, o
poderoso terapeuta das almas e dos corpos, abandonou o plano físico, onde havia cumprido tão
fielmente sua missão, tendo posto em prática, sempre, a comovedora lição de amor de Nosso
Senhor Jesus Cristo, seu Mestre e Amigo...”

“Alguns dias antes de sua morte escreveu a seu fiel amigo Papus, que sua morte estava próxima.
Porém, Papus não pode crer em um desaparecimento tão rápido e foi em Paris que recebeu a triste
notícia, através do seguinte telegrama enviado pelo Dr. Lalande: Meu pobre amigo, chora comigo!
Abandonou-nos esta manhã. Enterro no sábado pela manhã às 10 horas. Avisa os amigos de
Paris.”

Mais adiante, no curso dos Graus Martinistas e através dos capítulos sucessivos, voltaremos a nos
referir à pessoa deste Venerável e amado Mestre Philippe Nizier, teremos o privilégio de conhecer
seus ensinamentos e outros detalhes e histórias de sua vida, que não podem ser tratados nestes
capítulos preparatórios à Iniciação Martinista.

No entanto, podemos adiantar que este Ilustre e Amado Mestre foi o Orientador Espiritual da
Ordem Martinista... segue sendo... e o será ainda por muito tempo... na sucessão dos anos terrestres,
que não são senão fugazes instantes no acontecer Cósmico... Sua orientação e proteção espiritual
está incentivando nossos Grupos e cada um de seus Iniciados.

CAPÍTULO VII

O MARTINISMO POSTERIOR A PAPUS

Para compreender o que segue, é necessário recorrer a um resumo já expresso, seguindo a exposição
cronológica do Martinismo, segundo Papus.

Devemos distinguir na Tradição Martinista quatro correntes que enumeraremos e que sucederam-se
no tempo, até nossa época atual.

1º - O Martinismo - Quer dizer, o movimento originado de Martinez de Pasqually e que


manifestou-se entre 1767 e 1780 na Ordem dos Elu Cohens. Em 1780, esta Ordem desapareceu
oficialmente, ainda que na Alemanha, Itália e outros países, continuem existindo Lojas de Elu
Cohens. (21)

2º - O Willermozismo - Willermoz tratou de perpetuar o ensinamento de seu Mestre Martinez de


Pasqually no seio da Maçonaria, corrente que se manifestou entre 1772, ano em que Martinez de
Pasqually abandonou a França para mudar-se para São Domingos, e 1824, época em que faleceu
Jean Baptiste Willermoz.

Willermoz, cumprindo sua missão, constitui e funda o Rito Escocês Retificado. A existência deste
Rito foi aprovada em 1782, no Convento Maçônico de Wilhelmsbad, presidido pelo Duque
Fernando de Brunswich. Lá estiveram representados a maioria dos poderes Maçônicos Europeus.

21 - O Grão-Mestre atual da Ordem dos Elu Cohens é Ivan Mosca e sua sede está na Itália; mas esta Ordem está
desativada. (N. Rev.).
52
Apoiaram Willermoz no dito Convento, o Conde de Saint-Germain, Louis Claude de Saint-Martin e
outros ilustres Dignitários da Maçonaria e das Ordens Tradicionais do Ocidente.

O Rito Escocês Retificado era formado por dois círculos; o círculo exterior, formado pelos
seguintes Graus: Aprendiz, Companheiro, Mestre, e Mestre Escocês. O círculo interno era secreto e
estava formado pelo grau de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa ou da Beneficência e estava
dividido em três sessões: Noviço, Professo e Cavaleiro. O círculo transmitia o ensinamento teórico;
o círculo interior o ensinamento prático do Martinismo.

Cabe acrescentar que, tanto a Ordem dos Elu Cohens como o Rito Escocês Retificado eram ordens
exclusivamente masculinas, em obediência ao Landmark tradicional que fez da Maçonaria uma
Ordem masculina, em harmonia com seu simbolismo e rituais e que, portanto, não harmonizavam
com a presença feminina em suas colunas, pela modalidade de seu trabalho profano, que foi, muitas
vezes, perigosa (e segue sendo), dado os fortes interesses sectários que sempre se opuseram a seu
trabalho.

3º - O Martinismo propriamente dito - Quer dizer, o grande movimento que deu origem Louis
Claude de Saint-Martin, o Filósofo Desconhecido e que manifestou-se, principalmente, no plano
organizativo, ideológico, cultural e espiritual. Foi entre 1780, ano em que Saint-Martin fundou sua
secreta Sociedade dos Sábios Solitários ou Sociedade dos Íntimos e 1883, ano em que faleceu Henri
Delaage, que durou esse movimento.

O Martinismo caracterizou-se pela instituição da Iniciação Livre, quer dizer, pela transmissão desta
corrente espiritual diretamente de Iniciador a Iniciado, prescindindo da existência de Lojas e de todo
o elemento Maçônico. Saint-Martin iniciou igualmente a mulher. Esta Ordem ou corrente iniciática
possuía a espiritualidade mais pura e o ritual era sumamente sensível.

4º - O Martinismo Moderno - É o movimento maravilhoso e dinâmico reorganizado por Papus


que, introduziu os ensinamentos ocultos de Saint-Martin nos moldes organizados por Willermoz,
criando a instituição que é a Ordem Martinista. Ela foi fundada em 1888 e continua com força e
vigor até o presente. O Martinismo de Papus caracterizou-se por manter-se estritamente
independente de toda a conexão Maçônica. Iniciou a mulher em igualdade de condições com o
homem. Combinou o regime de Iniciação Livre como o da Iniciação em Lojas, Grupos ou Centros
Martinistas, constituindo na realidade, uma Ordem Iniciática dirigida por um Supremo Conselho e
com Lojas em todas as partes do mundo.

Em 1899 o Supremo Conselho da Ordem Martinista designou Delegados Gerais e Delegados


Especiais em alguns países europeus, assim como na Grã-Bretanha, Estados Unidos da América,
Argentina e em países do Oriente.

“Até 1902, o Dr. Blitz, que era o Soberano Delegado da Ordem na América do Norte, nomeado por
Papus, teve êxito em organizar um grupo de membros Martinistas de bastante importância,
possuindo uma Carta Constitutiva emanada, como já se disse, de Papus.”

“Em 1902, o Dr. Blitz publicou umas notas acerca de sua Ordem Martinista modificada, através
das quais informava que ia fazer de sua seção americana uma organização semi-maçônica, na qual
só seriam admitidos Franco-Maçons. Pretendia ser, também, o Supremo Mestre desta Ordem
Martinista modificada. Reuniu uma convenção geral da Ordem em Cleveland, Estado de Ohio, em
2 de junho de 1902 e publicou um Manifesto Americano. Neste Manifesto proclamava que sua
organização Martinista e seus Ritos modificados, serviriam de chave para a interpretação do
cerimonial e alegorias Franco-Maçônicas. Ao ler-se tal Manifesto tinha-se a impressão que os
Franco-Maçons obteriam maiores vantagens se fossem filiados à Ordem Martinista do Dr. Blitz do
53
que pertencendo a suas próprias Lojas Maçônicas. Em seu Manifesto não fazia a menor menção ao
Supremo Conselho da Ordem em Paris, assim como, tampouco, falava da autorização que havia
recebido em Paris para estabelecer a Ordem Martinista nos E.U.A.. Este Manifesto, em sua
totalidade, tinha a aparência de um alegado em favor do reconhecimento do Martinismo Norte -
americano pelas Lojas Franco-Maçônicas da América.”

“Este procedimento do Dr. Blitz não foi aprovado por Papus e o Supremo Conselho da Ordem na
França. Em conseqüência, publicou-se um edital em Paris, em uma pequena revista chamada A
Estrela do Oriente onde se acentuava que a Ordem Martinista estabelecida nos E.U.A. não era um
rito Maçônico, mas uma Ordem de Cavalaria Cristã Laica. Além disso expressava que a Ordem
Martinista baseava-se em princípios Martinistas e não em princípios Maçônicos. Este edital
anunciava, também, que o cargo de Soberano Grão Delegado Geral para os Estados Unidos, que
se havia conferido ao Dr. Blitz, ficava abolido e que o referido cargo era repassado pelo Inspetor
Geral da Ordem para os EUA., e conferido a Margaret B. Peeke, a única entre os Martinistas
Norte-americanos, que tinha posse do Grau Rosa-Cruz. Em conseqüência, este decreto de Papus e
do Supremo Conselho, dissolvia o Grande Conselho da Ordem Martinista dos EUA., na forma
como o havia organizado o Dr. Blitz.”

“Nada se sabe do trabalho do Dr. Blitz e de sua Ordem Martinista, depois da censura da Papus
por motivo de seu Manifesto Americano. É provável que a organização tenha desaparecido
rapidamente; como é lógico supor, os Maçons dos EUA. não lhe haviam permitido funcionar como
uma dependência da Franco-Maçonaria.”

“Em 1916 Papus morreu e não se sabe de outras comunicações de sua parte, com a América.”

“Em 1902 um Rito Martinista Modificado foi fundado na Inglaterra. Ele abriu suas portas os dois
sexos, porém sem pretender obter um reconhecimento da Maçonaria. Copiou, no entanto, alguns
dos Rituais da Organização do Dr. Blitz, embora evidenciando características muito peculiares.”

“O Martinismo na América só pode prosperar com a condição que os Franco Maçons não tenham
motivos e razões para crerem que o Martinismo revele os segredos Maçônicos, nem imaginarem
que o Martinismo aspira obter um reconhecimento da parte deles. Para alcançar um certo êxito na
América, o Martinismo deve ser absolutamente independente da Maçonaria e não seria conveniente
repetir o erro do Dr. Blitz. Não podemos saber quando faleceu o Dr. Blitz; sabemos somente que
deve ter ocorrido entre 1920 e 1924.”

(Este documento vem do Dr. H. Spencer Lewis e estes dados foram tomados de fontes americanas
dignas de fé e de algumas anotações do próprio Papus).

Papus faleceu sem designar um sucessor para o cargo de Grão Mestre da Ordem. O certo é que o
Ilustre Irmão Téder (Charles Detré) foi designado por alguns membros do Supremo Conselho, para
sucedê-lo. No entanto, neste ponto quebrou-se a unidade da Ordem Martinista de Papus, já que o
sucessor do Irmão Téder, o ilustre Irmão Jean Bricaud, que assumiu a Presidência do Supremo
Conselho e o cargo de Grão Mestre da Ordem, ao falecer Téder após dois anos da sua designação,
iniciou uma série de reformas na Ordem que, praticamente, significaram o nascimento de outra
Ordem completamente distinta e diferente do Martinismo de Papus. O Irmão Victor Blanchard
separou-se, em vista deste situação, fundando a Ordem Martinista e Sinárquica, e outros membros
do Supremo Conselho, que não aceitaram a presidência de Blanchard, constituíram a Ordem
Martinista Tradicional. Joules Boucher, em 1948, constituiu a Ordem Martinista Retificada.

Passemos a nos referir a cada um destes ramos, baseando-nos em dados que temos em nossos
arquivos.
54

ORDEM MARTINISTA UNIVERSAL


(de Lyon)

Depois da morte de Papus, como já foi dito, o Irmão Charles Detré (Téder) foi designado Grão
Mestre da Ordem Martinista e Presidente do Supremo Conselho. Foi Téder quem redigiu junto com
Papus, em 1913, o Ritual da Ordem Martinista, na forma que hoje é conhecido. Téder faleceu dois
anos após ser designado para seu alto cargo. Foi substituído, então, pelo Irmão Jean Bricaud, de
Lyon.

Bricaud conhecia Papus desde 1899. Porém, só em 1903 recebeu o terceiro grau da hierarquia
Martinista. Não obstante foi somente a partir de 1908, por ocasião do Congresso Espiritualista, que
intensificou suas relações com a Ordem.

Chevillon escreveu uma biografia de Jean Bricaud em 1934. Conforme o que expõe Chevillon em
seu trabalho, o programa Martinista de Papus havia se estabelecido sobre bases que discordavam da
sã tradição Willermozista. Eis porque Bricaud tomara a decisão de corrigir as coisas para “Colocá
las em seu reto caminho”, segundo as próprias palavras de Chevillon. Acrescenta este que Téder e
alguns iniciados mostravam-se desgostosos com o aumento de adeptos, praticado sem
discriminação.

Em 1914, Bricaud havia lançado em Lyon o movimento Martinista, sobre as bases das normas
aceitas em 1911, de acordo com as regras de seleção de adeptos, adotada já antes por Willermoz e
Antoine Pont, seu sucessor.

“Papus, escreveu Chevillon, era um ocultista brilhante, dotado de profunda erudição. Assimilava
com extraordinária facilidade. No entanto, era um discípulo demasiadamente exclusivo de Eliphas
Levi, de Saint-Yves e de Fabre d’Olivet, razão pela qual havia descuidado de atender a uma elite de
membros do Iluminismo. (22) Téder, pelo contrário, conhecia e, consequentemente, completava
Papus, permanecendo na sombra. É por meio de Téder que Bricaud conseguiu convencer Papus a
associar o Martinismo com a Gnosis. Bricaud presidia uma organização denominada Igreja
Gnóstica Universal; era o Patriarca Gnóstico Universal. Em 1911, conseguiu convencer Papus a
firmar um tratado que fazia da Igreja Gnóstica Universal a Igreja oficial do Martinismo.”

Recordamos termos assistido em 1942-1943 reuniões presididas pelo Ilustre Irmão Leon Tournier,
nas quais pudemos ouvir a exposição de algumas das doutrinas filosóficas do primitivo gnosticismo,
sobre a base de material remetido ao Chile pelo Irmão Bricaud.

Prossegue Chevillon: “A Maçonaria e o Martinismo se superpõem sem se confundirem. As duas


organizações tem suas raízes na Gnosis por intermédio dos Templários e dos Rosa-Cruzes, seus
sucessores... O Martinismo de Papus tinha sua origem no espiritualismo, porém possuía um
ecletismo demasiado vasto. Dava a seus adeptos uma orientação geral, ainda que sua finalidade
fosse imprecisa em um ideal de reintegração mal definido. Representava no mundo espiritual o que
a classe dos invertebrados representa no reino animal. Naturalmente que a principal causa desta
situação era o materialismo, tendência cada vez mais predominante na Maçonaria Latina. Porém,
isto não era suficiente e assim o compreendeu Jean Bricaud, que conhecia as doutrinas de
Chefdebier, Marconis e Willermoz, Iluminados tradicionais.”

22 - Papus, juntamente com Stanislas de Guaita, representava a senda ativa da iniciação, aquela que conduz o Adepto a
tomar “o céu por assalto”. O Desejo transmuta-se em Vontade; a Vontade exalta-se e pela Graça produz a luz. Augustin
Chaboseau, Sedir e outros eram os representantes da corrente mística, passiva, doutrina derivada do Oriente. (N. Rev.).
55
Bricaud faleceu em Lyon, em 21 de fevereiro de 1934.

Em síntese, a Ordem Martinista de Lyon tinha as seguintes características:

1º - Não aceitava como membros senão Mestres Maçons.


2º - Não aceitava mulher na Ordem.
3º - Deixava de lado certos ramos do conhecimento oculto, como por exemplo a Astrologia,
considerando a organização que Papus havia dado ao Martinismo como amorfa.
4º - Manifestou um evidente afastamento de tudo o que fosse ensino do Oriente.
5º - Requisito prévio para conferir o Grau de Associado era possuir o 3º grau da Maçonaria; para
obter o grau de Iniciado, o grau 18º; para ser consagrado S.I., o grau 30º e, para ser iniciado no grau
de S. I. I. , o grau 33º.

A Ordem Martinista de Lyon estabeleceu no Chile uma Grande Loja Martinista, designando como
Delegado Geral para a América do Sul o Irmão Leon Tournier, conforme decreto expedido em
Lyon, em 1º de abril de 1940, com o nº 538. Este Decreto levava os nomes dos Ilustres Irmãos
Constant Chevillon como Presidente do Supremo Conselho e de Henri Dupont como Grande
Chanceler. (23)

Temos em nossos arquivos uma cópia dess Decreto, pelo qual era facultado ao Irmão Tournier
nomear Delegados e Inspetores da Ordem, para iniciar em todos os graus hierárquicos, orientar o
trabalho de Triângulos e Lojas Martinistas em todo o território da América do Sul.

Devemos acrescentar que o Irmão Leon Tournier havia sido iniciado na Ordem Martinista, na
França, pelo próprio Irmão Papus. Esteve radicado vários anos em Concepción, onde realizou um
intenso trabalho Martinista, que desenvolveu em seguida em Santiago.

Nesta capital fundou a Loja Lumen, cujas colunas viram-se enriquecidas por elementos de real
valor. Devemos dizer que o Irmão Tournier era membro destacado da Grande Loja do Chile (30º) e
Chefe do Departamento de Ritos e Simbolismo, ex-Venerável Mestre, de Lojas Maçônicas e de
grande preparação no campo do esoterismo.

No entanto, devemos expressar, com pesar, que uma vez mais repetiu-se a desagradável experiência
do Dr. Blitz nos E.U.A., porém agora no Chile.

Pessoalmente, consideramos errada a direção dada pelo Irmão Bricaud e seus sucessores, ao Ramo
de Lyon, ao estabelecer uma relação sui generis entre o Martinismo e a Maçonaria, que não se
justifica, do ponto de vista tradicional e iniciático, como bem o compreenderam Papus e o Supremo
Conselho de sua época.

Tanto a Franco-Maçonaria como o Martinismo são dois ramos da Iniciação Ocidental que operam
em duas esferas diferentes, seus trabalhos estão destinados a diferentes modalidades de
investigadores e ambas as ordens devem seguir trabalhando, como sempre o fizeram, dentro de seus
respectivos campos, com completa independência.

Recordemos a triste experiência de Martinez de Pasqually, ao tentar introduzir o Rito dos Elu
Cohens na Maçonaria Francesa; lembremos que Louis Claude de Saint-Martin obteve o mesmo

23 - Os sucessores de Papus na presidência da Ordem Martinista foram, pela ordem: Téder (1916-1918); Jean Bricaud
(1918-1934); Constant Chevillon (1934-194.); Henri Charles Dupond (194.- 1960); e Philippe Encausse, filho de Papus,
após 1960. (N. Rev.).
56
resultado, renunciando à Maçonaria para continuar a obra de seu mestre Martinez de Pasqually,
mediante a Iniciação Livre. Pouco nos resta hoje do Rito Escocês Retificado.

Para receber os graus da hierarquia Martinista era indispensável, na Ordem Martinista de Bricaud
ou de Lyon, como vimos, possuir certos graus Maçônicos. O Irmão Tournier, devido às dificuldades
em obter para seus filiados no Martinismo esses graus na Maçonaria Chilena, que exige requisitos
muito estritos de antiguidade e outros não menos drásticos de preparação e trabalho ativo dentro da
Ordem, viu-se na necessidade de fundar uma Loja Maçônica para esse fim, o que fez sob os
auspícios do Rito Oriental de Memphis e Misraim.

O Rito de Memphis e Mizraim foi sempre olhado pelas Grandes Lojas da Europa e América com
certas reservas quando à sua “regularidade”.

Como acredito ser de interesse para alguns de nossos Irmãos conhecer certos aspectos desse Rito,
vamo-nos permitir fazer um parêntesis em nossa exposição para dedicar algumas linhas a esta
interessante matéria.

CAPÍTULO VIII

RITO DE MEMPHIS-MIZRAIM E OUTROS RAMOS MARTINISTAS

Apesar de não pertencermos aos Ritos de Memphis e Mizraim, temos em nosso poder alguma
documentação interessante sobre a matéria.

Os Ritos Orientais de Memphis e Mizraim representavam na Europa a Maçonaria Ocultista e


Hermética. Em tais ritos procurava-se admitir aqueles Irmãos que tinham interesse em se aprofundar
no estudo da doutrina Maçônica. Através de seus rituais, graus, símbolos, inserem-se uma série de
Tradições Iniciáticas Antigas que não deixam de interessar aos SS. II. e FF. RR. CC.. A própria
denominação destes Ritos: Memphis e Mizraim, perpetua dois importantes Centros da Iniciação e
do Sacerdócio Egípcio na mente de todos os iniciados do Ocidente.

A este Rito pertenceu na Europa o Irmão Ragon, que esteve em contato com o Imperator R+C ou
Chefe dos Rosa-Cruzes e, inclusive, foi seu aluno o Conde de Saint-Germain. Por outro lado, na
Itália este Rito teve uma grande importância nos acontecimentos históricos que deram nascimento à
nação Italiana. Devemos recordar que Garibaldi pertenceu a esta Ordem. No nosso vizinho país, a
Argentina, o Rito de Memphis teve um período de grande esplendor não faz muito tempo, chegando
a contar com cerca de setenta Lojas.

O Rito de Memphis é de origem oriental. Foi renovado em 1820 pelo Irmão Boulage, professor da
Faculdade de Direito de Paris, sujeitando-se ao plano dos Grandes e dos Pequenos Mistérios do
Egito e da Grécia Antiga. O Rito de Misraim, também denominado Egípcio e, as vezes, judaico, foi
fundado em Paris, em 1805, pelo Irmão Lechangeur.

Conforme o traçado arquitetônico destes Ritos da Maçonaria Oriental, a origem da Ordem se


remonta às primeiras idades do mundo, supondo-se que um nasceu na Índia o outro no Egito, nas
margens do Nilo, sendo uma continuação dos antigos Mistérios. Consideram-se fundadores diretos
do Rito os Cavaleiros da Palestina e os Irmãos Rosa-Cruzes do Oriente.

Os diversos graus do Rito de Memphis e Mizraim foram tomados do Escocismo, do Martinismo, da


Maçonaria Hermética e de vários outros sistemas e reformas que praticaram-se com êxito na
Alemanha, França e Itália, em épocas anteriores a 1730. Um documento muito interessante sobre a
57
Maçonaria Oriental e Espiritualista é a “Muito Santa Trinosofia” escrita pelo Conde de Saint
Germain.

O Rito conta com um total de 96 graus divididos em três séries: simbólica, filosófica e mística. Por
outro lado, o Rito Misraim conta com 90 graus classificados em quatro séries e divididas em 17
categorias, a saber:

1º - Série - Simbólica: compreende os 33 primeiros graus divididos em seis classes, que ensinam
a moral e o estudo do homem.

2º - Série - Filosófica: compreende 33 graus a partir do 34º ao 66º, divididos em 4 classes.


Ensina as ciências naturais, a filosofia da história e explicação os mitos poéticos da Antigüidade
que, sob a alegoria da fábula, encerram a origem dos Mistérios.

3º - Série - Mística: compreende 11 graus, do 67º ao 77º, divididos em 4 classes, desenvolve a


parte transcendental da Filosofia Maçônica.

4º - Série - Cabalística: Inclui os 13 últimos graus, do 78º ao 90º, divididos em 3 classes e


contém as chaves do ensinamento e doutrinas do Rito, chaves que são de índole Cabalista, conforme
as Tradições Rosa-Cruzes do Oriente.

Cabe-nos esclarecer que estes Ritos não são trabalhados em todos os graus, e seus números,
palavras de passe, sinais, toques, marchas, aclamações, etc., traduzem profundos significados
relacionados com uma série de tradições iniciáticas.

A organização e estabelecimento destes Ritos exige por parte dos Dignitários um perfeito
conhecimento das Tradições Iniciáticas do Oriente e do Ocidente, além de outras condições muito
especiais que não se podem improvisar. A menos que estes requisitos sejam cumpridos, torna-se
muito difícil subsistirem tais ritos.

Em seguida transcreveremos algumas denominações de seus graus, nos quais os SS. II. e os FF. RR.
CC. notarão como os Ritos Orientais Memphis e Miszraim conseguiram perpetuar um conjunto de
símbolos muito sagrados da Iniciação Antiga e Medieval. Ainda que em alguns aspectos esta
terminologia possa nos parecer pomposa e bizarra, devemos compreender que não era considerada
desta maneira no século XVIII, a cujo espírito e compreensão obedece.

Cavaleiros: da Abóbada Sagrada, da Espanha e do Oriente, de Jerusalém, da Águia Vermelha e


Negra, do Oriente e do Ocidente, Rosa-Cruz, Noaquita ou da Torre, da Serpente de Bronze, da
Cidade Santa da Alegria, do Tabernáculo.

Filalete: Doutor dos Planisférios, Sábio Sivaísta, príncipe do Zodíaco, Sublime Filósofo Hermético,
Cavaleiro das Sete Estrelas, das Sete Cores ou do Arco-Iris, Rei Pastor dos Hurtz, Príncipe da
Colina Sagrada, Sábio das Pirâmides.

Filho da Lira: Cavaleiro da Fênix, da Esfinge, do Pelicano, Sábio do Labirinto, Pontífice de


Cadméa, Mago Sublime, Príncipe Brahman, Cavaleiro do Templo da Verdade, Sábio de Heliópolis,
Pontífice de Mithra, Guardião do Santuário, Sublime Kavi, Sapientíssimo Muni.

Sublime Príncipe da Cortina Sagrada: Intérprete dos hieróglifos, Doutor Órfico, Guardião dos Três
Fogos, Guardião do Nome Incomunicável, Doutor do Fogo Sagrado, Doutor dos Vedas Sagrados,
Cavaleiro do Tesouro de Ouro, Sublime Cavaleiro do Triângulo Luminoso, Sublime Cavaleiro do
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Temível Sadah, Sublime Cavaleiro Teósofo, Sublime Mestre do Anel Luminoso, Sublime Mestre da
Grande Obra, Soberano Príncipe de Memphis, etc..

Alguns dos Sinais Hieroglíficos e Cabalísticos:

Paralelograma com 7 pontos - arco-íris - o ponto no centro de um quadrado - duas linhas cruzadas
dentro de um quadrado - duas linhas cruzadas dentro de um quadrado com um ponto no centro - um
círculo com um quadrado dentro e um ponto no centro destes - dois círculos concêntricos dentro de
um quadrado - quadrado - quadrado - quadrado com três pontos, no centro, formado um triângulo -
duplo círculo encerando a estrela de quatro pontas - edifício quadrado e de pedra sobre o qual
repousam as bases de quatro triângulos em cujo centro figura um olho, ou uma gama, uma estrela,
esferas, crescentes, flechas, claves, orlas dentadas, serpentes, águias negras ou vermelhas, varetas
floridas e de ouro, as Tábuas da Lei, a Arca da Aliança - o Tabernáculo, altares de sacrifício e dos
perfumes, palmas e lauréis, candelabros de 3, 7 ou 9 velas, o Livro dos Sete Selos, salamandras,
castelo com ameias, abóbadas estreladas, subterrâneos luminosos, Sol de Ouro, Lua, Estrela Polar,
uma medalha de ouro cunhada em 2995 AC, o Zenite e o Nadir, cabeças de mortos e ossaturas...
uma tumba, etc..

Os diferentes graus contém invocações a Jehovah, Adonai, Iod, Alá, Emmanuel, Salomão, Hiram,
Zorobabel, Abraão, Daniel, Jonas, Zabulão, com elementos das lendas Hebraícas, Caldéias e
Islâmicas.

De seus rituais convém lembrar o termo “Autópsia”, tomado dos Mistérios Antigos. Nenhum outro
poderia simbolizar melhor a conclusão da Obra Iniciática. Da mesma maneira que o médico busca
nos órgãos a causa da morte de um sujeito para tentar preservar os outros seres humanos, assim
também o Iniciado deve buscar nele as causas do Mal para combatê-lo e fazer triunfar o Bem.

Transcrevemos a continuação, tomados de seus diferentes graus, algumas máximas morais e


filosóficas enunciadas em seu simbolismo e que merecem o interesse dos Iniciados:

Demi-our-gros, reunião das palavras gregas: Demo (eu construo), ouranos (o céu), gros (a terra),
simbolizando o “Grande Arquiteto do Universo”.

“Pensa que, para chegar à esfera da inteligência, é preciso sondar, sem medo, os mistérios da morte
física.”

“Despoja-te do homem velho para renascer na virtude. Lança um olhar para teu passado. Busca
motivos de esperança no porvir.”

“A morte não pode separar o que está unido pela virtude. Proceda assim como queres que procedam
contigo.”

“Se a bebida que te oferecem é amarga em lugar de ser agradável, ao menos, bebe-a com resignação,
porém afasta-a dos demais, já que a bebida amarga é o símbolo da adversidade.”

“Tu que desejas passar rapidamente pelos graus de instrução, recorda que antigamente não era
admitido ninguém a Maestria senão depois de transcorridos sete anos dedicados ao estudo das
ciências úteis ao gênero humano e haver compreendido os segredos da Natureza. Estuda suas forças
e busca suas causas segundas.”

“Busca as causas e as origens, compreende o mito poético dos antigos, desenvolve teu sentido
humanitário e compreensivo.”
59

“O Conhecimento completa, ao Iniciado, sua ascensão para além do plano em que moram seus
semelhantes.”

“O mundo é uma eterna figueira, cujas raízes estão no céu e que estende seus ramos sobre o abismo.
Recorda este princípio dos Vedas.”

“Tudo segue de 7 em 7, em todos os sistemas e em todas as seitas: 7 esferas celestes dos antigos, os
7 dias da semana, as 7 cores e os 7 sons fundamentais, etc..”

“O gênero humano é Um, apesar da diversidade de línguas.”

“Todas as religiões assemelham-se com suas lendas: Rama, o Indiano; o Egípcio Osiris; Adônis;
Hércules e Baconos Gregos; o Atys dos Frígios e o Cristo não são mais que uma só e mesma
alegoria.”

“Não te ocupes senão de trabalhos úteis, iluminando-os com a tocha da tua razão e trabalha na
elevação e enobrecimento do espírito humano.”

“O mais útil dos conhecimentos é o de si mesmo, pelo qual aprenderás a desenvolver tua natureza,
tomando consciência de tua dignidade.”

“Para que uma civilização material não se degenere, é necessário que seja limitada por uma
civilização moral.”

“A escala misteriosa das existências deve ser subida progressivamente pelos que se acham dignos
de chegar perfeitos ao triângulo. Não é senão pelo estudo e a perseverança que se pode chegar até
lá.”

“O Espírito sobrevive à matéria, animada por sua força e que vai se aperfeiçoando mediante os
corpos que vai animando sucessivamente.”

“As partículas da Matéria, animadas por esta força, aglomeram-se para constituir, reconstituir e
aperfeiçoar as espécies.”

“A morte é um sono seguido de renascimentos.”

“Recorda as máximas e conselhos do programa iniciático.”

“A iniciação não é nem uma ciência nem uma religião, mas uma escola em que se é instruído nas
Artes, Ciências, Moral, Filosofia e nos fenômenos da Criação, com o propósito de conhecer a
verdade sobre todas as coisas.”

“Não é a iniciação que faz o iniciado, mas a educação e a meditação.”


“Faz sair a luz das Trevas, a Beleza da Incoerência.”
“Mais vale esclarecer os inimigos da virtude do que combatê-los.”
“Regula as ações de acordo com a Razão e não conforme as paixões.”

“Os atos dos homens não são senão a sucessão do que viram e aprenderam, da mesma maneira que a
forma da pedra bruta depende dos golpes que o artista vai lhe dando com seu martelo e cinzel.”
60
“O homem é mais ou menos vicioso, ou mais ou menos esclarecido, segundo as verdades ou os
erros que se lhes inculquem.”

“Estuda a arte de dirigir os homens para concentrar o domínio da Verdade, modular a propagação,
deter a perigosa e demasiada dispersão.”

“A inteligência é a causa e não o efeito da evolução.”


“A cadeia das causas e dos efeitos constitui o Mundo.”
“A pluralidade, concentrada na Unidade, governa tudo.”
“Saber, calar, querer, ousar. Sabedoria, Força, Beleza na harmonia.”

“Tudo vem do Fogo, condensador e animador universal, sem o qual o Grande Todo voltaria a cair
na noite do caos primitivo.”

Em um interessante folheto publicado por J. Bricaud, em Lyon, em 1933 e reeditado por Chevillon
em 1938, intitulado “Notas históricas sobre o Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Mizraim”,
consta que, “em 1908, constituiu-se em Paris um Soberano Grande Conselho Geral do Rito de
Memphis e Mizraim para a França e suas dependências. A Patente Constitutiva foi outorgada pelo
Soberano Santuário da Alemanha e estava assinada e selada em 24 de junho, em Berlim, pelo Grão
Mestre Théodor Reuss Peregrinos.”

“Foram designados Grão-Mestre e Grão-Mestre Adjunto”, escreve Bricaud, “o Dr. Gérard Encausse
(Papus) e Charles Détré (Téder). A Loja “Humanidade”, anteriormente auspiciada pelo Rito
Nacional Espanhol, chegou a ser a Loja-Mãe do Rito de Memphis e Mizraim para a França.” (24)

Em sua obra “O que deve saber um Mestre Maçon”, Papus que havia obtido os graus 33, 90 e 96
diz:

“Se a Franco-Maçonaria é uma simples sociedade de ação social, por que existem então estes
mistérios, esta linguagem tão peculiar e toda essa decoração? Se isso não serve de nada,
francamente, poderia ser suprimido. Porém, se sob esses símbolos oculta-se uma elevada verdade,
cujo conhecimento pode conduzir a adaptações sociais libertadoras da Humanidade, então
estudemos esta ciência maçônica com todo o devido respeito.”

“Não é na França, onde quase todas as tradições, lamentavelmente, se perderam, mais no


estrangeiro, na Inglaterra, na Espanha e, sobretudo, na Alemanha, que prossegui minhas
investigações sobre esse ponto.”

“Em minhas conversações com o meu Ilustre Irmão John Yarker, chefe Supremo do Rito Primitivo
e Original; com o Dr. W. Wescott, da Sociedade Rosacruciana da Inglaterra; com Villarino del
Villar, ilustre Maçon Espanhol e com os Rosa-Cruzes e Alquimistas da Alemanha é que consegui
estudar de uma maneira séria, fora dos livros, a origem da Ciência Maçônica.”

Em nosso país, o estabelecimento do Rito de Memphis e Mizraim atraiu a censura da Grande Loja
do Chile, que sentiu-se menosprezada em sua exclusividade para auspiciar Lojas Maçônicas no
território da República, conforme o direito de território que possuem as Grandes Lojas.

24 - Papus, assim como Téder e Bricaud, estava consciente de que o Martinismo deveria respaldar-se na Maçonaria,
onde buscaria seus adeptos e onde instruiria os seus próprios iniciados no simbolismo. A Maçonaria fornece um
embasamento tanto filosófico como moral, acostumando o iniciado a obedecer a hierarquia e relacionar-se com os
irmãos. (N.Rev.).
61
Como conseqüência disto os Ilustres Irmãos que, na realidade, sustentavam as Colunas de Memphis
e Mizraim com seu talento e capacidade, retiraram-se, deixando o dito Rito abandonado à sua sorte,
porque a Ordem de Memphis e Mizraim deixou de existir no Chile, em seu aspecto espiritual e
iniciático. Atualmente, continuam trabalhando com esse Rito, algumas Lojas de Santiago e
Valparaiso, ainda que sem maiores irradiações espirituais e cada dia com maior flacidez.

Conversações mantidas com Irmãos conhecedores de ambos os Ritos: o Escocês Antigo e Aceito e o
de Memphis e Mizraim, levaram-nos à conclusão de que as poucas Lojas deste Rito, que ainda
existem em nosso país, realmente não justificam sua existência. Na realidade contribuem apenas
para semear a confusão e a anarquia no campo Maçônico. A Grande Loja do Chile é o único poder
regulador da Maçonaria Simbólica no Território Nacional. Em tal qualidade, está reconhecida pela
maioria das Grandes Lojas do estrangeiro. Em conseqüência, não se justifica, no Chile, a
organização de outras Obediências.

Uma vez mais, a corrente do Martinismo de Bricaud, só havia produzido uma situação desagradável
e desconfortável para o Martinismo no Chile, pela tendência em confundir duas esferas da Iniciação:
a Martinista e a Maçônica, que pelo menos no Chile, devem funcionar com absoluta independência,
pois seus campos de estudos cobrem áreas diferentes. (25)

A ORDEM MARTINISTA E SINÁRQUICA

Tendo em vista as reformas introdutórias por Bricaud, que praticamente eqüivaliam a estabelecer
uma nova Ordem, Victor Blanchard, que fora Grão-Mestre Substituto da Ordem Martinista,
separou-se da Ordem Martinista de Bricaud e fundou a Ordem Martinista e Sinárquica, na qual foi
reconhecido Grão-Mestre.

Na palavra “sinárquica” não devemos ver uma orientação política, mas uma homenagem à obra de
Saint-Yves d’Alveydre.

Este ramo extinguiu-se durante a última guerra mundial.

A ORDEM MARTINISTA TRADICIONAL

Em 1931, alguns membros do Supremo Conselho de Papus, que não admitiram as diretrizes e
reformas de Bricaud e que, por outro lado, não seguiram Blanchard, fundaram a Ordem Martinista
Tradicional, da qual foram seus Grão-Mestres os Irmãos Victor Emíle Michelet, Augustin
Chaboseau e Jean Chaboseau.

Temos em nosso poder uma cópia de um Manifesto, enviado aos Martinistas por este Ramo do
Martinismo e que diz assim:

ORDEM MARTINISTA TRADICIONAL


Manifesto aos Martinistas Americanos anteriores.
Paris, 10 de agosto de 1939.

“A Ordem Martinista, que teve um período de perfeita atividade iniciática desde sua organização em
Obediência em 1890, infelizmente, ficou muito diminuída desde 1919.”

25 - O Martinismo e a Maçonaria são realmente duas correntes autônomas. Nada impede, entretanto, que os Martinistas
frequentem as Lojas Maçônicas, ou que Martinistas possam manter uma Lojas Maçônicas, ou que Martinistas possam
manter uma Loja independente de qualquer potência Maçônica nacional ou internacional. (N. Rev.).
62
“Em realidade, desde essa época, com bons propósitos e por iniciados reais, fizeram-se intentos para
modificar os Regulamentos e Tradições da Ordem, porém em flagrante contradição com a
organização imutável de nossa Venerável Ordem. Desta maneira, pode-se observar a abolição
errônea das Iniciações, dos Grupos, não admissão de Irmãs e algumas outras obrigações.”

“Em 1931, os irmãos Augustin Chaboseau, Victor Emile Michelet e Lucien Chamuel, únicos
sobreviventes do Supremo Conselho de 1890, decidiram continuar e conservar a Ordem, conforme
suas precedentes diretivas e normas, e sabida consideração e seus poderes “ad vitam”. Em
conseqüência procederam à reorganização, em Silêncio e discretamente, do Supremo Conselho, do
qual eram os únicos membros. Com a ajuda dos Irmãos da Ordem, com os quais novamente se
haviam reunido, começaram a realizar novas Iniciações, dando força e vitalidade a duas Lojas, que
desde então, alcançaram grande prosperidade e insuperável vitalidade. Estabeleceram-se vários
Capítulos ou Grupos e mantiveram incomunicável a Constituição da Ordem com referência ao
direito imprescritível dos SS. II. para transmitir a Iniciação.”

“Trabalhando sob o Manto, suas realizações não foram vãs; Irmãos e Irmãs da França e de países
estrangeiros, assim como os membros do Supremo Conselho que foram designados posteriormente
aos fundadores, e que haviam trabalhado separadamente, novamente se uniram à atual Ordem
Martinista Tradicional.”

“A passagem ao Oriente Eterno de vários membros notoriamente conhecidos, autores de várias


reformas tanto no Supremo Conselho como na Ordem, a perpetuação de sua sucessão e a
manifestação de ser Presidente da Ordem, obriga os membros do Supremo Conselho Tradicional a
saírem de seu silêncio e reserva, vendo-se obrigados a fazê-lo ao contemplar a extraordinária colisão
do Martinismo com diversas organizações iniciáticas, Igrejas Esotéricas, agrupamentos pró
maçônicos, etc., que podem ser muito respeitáveis em si mesmos, porém com respeito às quais, a
Ordem Martinista parece nãos ser mais que uma espécie de anexo.”

“Em vista da confusão que subsistia após a Presidência de seu Primeiro Grão-Mestre, PAPUS, os
promotores da restauração de 1931, decidiram estabelecer, novamente, a Ordem e desde tal ano isso
foi regulamente assegurado. O S. I. que no presente dirige os destinos da Ordem Martinista, deve
seus poderes a seus pares, os quais livremente o elegeram e os direitos e prerrogativas dos AA., II. e
Superiores Incógnitos são mantidos e preservados, tal como foi promulgado pelos fundadores da
Ordem.”

“A Ordem Martinista está aberta a todos os investigadores sinceros, a todos os Homens de Desejo, a
todos os seres que tenham sede de conhecimento iniciático; todos podem participar de seus
Mistérios, sem haver diferenças de sexo, raça, credo ou profissão, isso após uma rigorosa
investigação com respeito à moralidade do solicitante.”

“As Lojas ou Grupos que dependem de nossa jurisdição, podem admitir como visitante ou à
filiação, todos os Martinistas regularmente Iniciados, que estejam de posse dos Sinais e Palavras de
passe e que prestem sempre sua formal promessa de obediência ao Martinismo Tradicional, do qual
o Supremo Conselho Universal é só e exclusivo depositário.”

“Agora, mais que nunca, os Homens de Desejo devem unir-se para conhecerem-se e apreciarem-se
fraternalmente e é com este propósito que estamos remetendo a presente comunicação.”

“Pelos Números, somente de nós conhecidos, o saudamos, muito querido Irmão!”

SUPREMO CONSELHO DA ORDEM


MARTINISTA TRADICIONAL
63

Como está referido no Manifesto anterior, dirigido a todos os Martinistas, um pequeno número,
porém suficiente, de sobreviventes do Supremo Conselho de 1890 reuniu-se em 1931 e proclamou a
perenidade da Ordem que Papus fundara com eles, como uma continuação da Sociedade dos Íntimos
de Saint-Martin, declarando serem os únicos indicados para manifestar esta regularidade,
constituíram um Supremo Conselho que elegeu como Grão-Mestre o mais antigo em idade profana
e Iniciática e fundaram Grupos de acordo com os usos dos antigos.

Devemos lembrar que, além dos antigos sobreviventes do primeiro Supremo Conselho, já
nomeados, e que responderam ao chamado de Augustin Chaboseau, figuraram o Dr. Béliar, preso
pela Gestapo durante a ocupação alemã; o lembrado Gustave Louis Tautain, Jean Chaboseau, etc..

Augustin Chaboseau foi, até seu falecimento, um dos mais esforçados animadores da Ordem
Martinista Tradicional. Seu filho Jean participou, também, muito ativamente da O.M.T. da qual
chegou a ser, a pedido de Augustin Chaboseau e depois de regular votação, o Grão Mestre. No
entanto, o Ilustre Irmão Jean Chaboseau julgou ser seu dever, em Setembro de 1947, apresentar sua
renúncia face às dificuldades, tanto materiais como morais, que enfrentou.

Assim, a Ordem Martinista Tradicional deixou de existir em Paris, situação que permanece até
agora. (26)

“Pelo interesse histórico, transcrevo a Carta de Filiação Iniciática do Supremo Conselho da Ordem
Martinista Tradicional, que seguia junto com o Manifesto já citado.”

LOUIS CLAUDE DE SAINT-MARTIN

Tendo sido iniciado por Martinez de Pasqually na Ordem dos Elu Cohens, Saint-Martin foi
admitido, em 1793, na Sociedade dos filósofos Desconhecidos, com a missão de perpetuar a
Iniciação Tradicional dos Superiores Incógnitos, tal como foi estabelecida na França, pela
Constituição de 1646.

LOUIS CLAUDE DE SAINT-MARTIN

Abbé de la NOUE CHAPTAL

Antoine HENNEQUIN

Adolphe DESBAROLLES (DESCONHECIDO)

H. de la TOUCHE DELAAGE
(Paul - Hyacinthe de
Nouel de la TOUCHE)

Amélie BOISSE de MONTEMART


(Filha do irmão mais velho de Henri PAPUS
de la TOUCHE) (Iniciado em 1889, aos 24 anos,
três anos depois de CHABOSEAU
Augustin CHABOSEAU e mediante uma filiação diferente)
(Neto do irmão mais velho de Henri

26- Alguns grupos da O. M. T. permaneceram funcionando nos Estados Unidos, junto com a Amorc. Foi através da
AMORC que a O. M. T. retornou à França. (N. Rev.).
64
de la TOUCHE), Iniciado em 1886)

SUPREMO CONSELHO DE 1890


(Criação da Ordem Martinista)

Michelet Chamuel Sair Téder


(1931)

Jean Chaboseau O. Beliard G. Lagreze

SUPREMO CONSELHO DA ORDEM MARTINISTA TRADICIONAL


(E Comitê Permanente)
1939

Augustin Chaboseau Jean Chaboseau O. Béliard G. Lagreze


Grão Mestre Grande Secretário Chanceler Inspetor Principal

O certo é que Jean Chaboseau não obteve, em 1947, a unanimidade dos votos do Supremo Conselho
da Ordem Martinista Tradicional, motivo pelo qual vários de seus membros demitiram-se e
retiraram-se da Ordem. Em setembro desse mesmo ano, como já foi dito, o Irmão Chaboseau
abdicou por sua própria vontade, afirmando a ilegitimidade de uma Ordem Martinista qualquer,
assim se expressando:

“Não devo designar nenhum sucessor porque jamais foram determinadas os Regulamentos Gerais
e Particulares da Ordem Martinista Tradicional e porque não reconheço nenhum outro valor que o
da presidência administrativa deste pretendido cargo. Assim, parece-me difícil que um novo Grão
Mestre possa fazer-se reconhecer “urbi et orbi”, salvo que isso ocorra só pela vontade de quem
deseja que assim seja.”

A ORDEM MARTINISTA RETIFICADA

Em 1948, Jules Boucher fundou na França a Ordem Martinista Retificada. No entanto, o Ilustre
Irmão Boucher faleceu em 1955 e nada mais podemos saber do destino desse Ramo Martinista.

Durante a última guerra mundial a França sofreu com a ocupação nazista. Quando os alemães
apoderaram-se de Paris, Pétain promulgou um decreto pelo qual ficava proibido a existência de
Ordens Iniciáticas e ordenava que as mesmas fossem dissolvidas. Imediatamente a Gestapo lançou
se à perseguição da Maçonaria, das Lojas Martinistas e Rosa-Cruzes em toda a Europa ocupada
pelos alemães.

Houve um ramo especial da polícia secreta alemã encarregada de deter os membros destas Ordens,
os quais eram mandados, sem maiores trâmites, aos campos de concentração.

Lançaram-se sobre os Templos Maçônicos, destruindo-os e apoderando-se de seus arquivos. O


mesmo ocorreu com os diferentes Ramos Martinistas e Rosa-Cruzes. Foram muitos os Irmãos
destas Ordens e Sociedades Inciáticas que pagaram com a vida a devoção aos ideais espirituais.
65
Entre eles, o Irmão Constant Chevillon, Grão-Mestre da Ordem Martinista de Lyon, que foi
assassinado em Paris por militares por ordem dos alemães.

CAPÍTULO IX

UNIÃO DAS ORDENS MARTINISTAS

Já descrevemos as diversas correntes que se produziram dentro do Martinismo, de maneira que


poderíamos perguntar-nos qual é a característica essencial do Martinismo. É aqui que nos ajudam as
palavras do Irmão Jean Chaboseau, contidas em sua renúncia e que são perfeitamente claras, sobre
este particular:

“Nosso lembrado Irmão Augustin Chaboseau escreveu algumas notas sobre o que chamou de sua
“Iniciação” pela sua tia Amélia de Boisse-Montemart, que não deixam a menor dúvida a respeito.
Tratava-se unicamente da transmissão oral de um ensinamento particular e de certas compreensões
das leis do universo e da vida espiritual, o que em nenhum caso pode-se considerar uma iniciação
ritualística propriamente dita. As linhas que uniram Augustin Chaboseau, Papus e outros e que
provém de Saint-Martin são, com efeito, linhas de afinidades espirituais...”(27)

“É justamente neste ponto que aparece a profunda contradição existente, de um lado, entre o
desejo de liberdade interior que deve desprender-se de todo formalismo para permitir à
personalidade espiritual estabelecer-se e definir-se fora de toda classe de coletividades e, de outro
lado, esta espécie de desmentido ao anterior que parecem aportar certos ocultistas dos fins do
século XIX, ao criar suas associações, Ordens e Sociedades”.

Citamos no início deste livro:

“Existe uma qualidade de alma que caracteriza essencialmente o verdadeiro Martinista, é aquela
afinidade entre espíritos unidos por um mesmo grau em suas possibilidades de compreensão e
adaptação, por um mesmo comportamento intelectual, pelas mesmas tendências, de tudo o qual se
segue a constatação obrigatória de que o Martinismo está composto, exclusivamente, de seres
isolados, solitários, que meditam no silêncio de seu gabinete, buscando sua própria iluminação”.

“Cada um destes seres tem o dever, uma vez que adquiriram o conhecimento das leis do equilíbrio,
de transmitir a compreensão adquirida ao seu redor, a fim de que aqueles que forem chamados a
compreender, participam daquilo que ele cria, por sua vida espiritual ou pela verdade que encerra.
É aqui, então, que intervém a “missão de serviço” do Martinismo e é somente neste sentido que esta
corrente espiritual especial encontra seu lugar na Tradição Ocidental.”

“É isto é tão verdadeiro que sempre se manteve nos diferentes Ramos Martinistas, o regime da
Iniciação Livre, em forma paralela àquela que se conferia nas Lojas, como uma recordação daquela
liberdade individual de que dispunha todo verdadeiro Martinista e que, em princípio, está por cima
de toda “Obediência”.”

Em conseqüência, existe uma grande contradição entre o espírito digno e livre do mesmo Claude de
Saint-Martin, de seus sucessores, os SS. II. e a atitude de alguém que se sentiu o exclusivo
depositário da Tradição do Filósofo Desconhecido, declarando-se possuidor da categoria de
regulador supremo desta Iniciação e o único Martinista regular, excluindo a todos os que não o
seguissem.

27 - Documentos da época de Papus atestam que Papus e Augustin Chaboseau iniciaram-se mutuamente, unindo as duas
correntes de que eram depositários, para não deixar dúvida quanto à legitimidade das iniciações que portavam e que
remontavam a Saint-Martin. (N. Rev.).
66

Ainda mais, devemos recordar que cada Fil. Desc. ou Presidente de Grupos ou Lojas Martinistas
pode dar à sua coletividade a orientação espiritual que julgue mais conveniente, de acordo com sua
consciência, conhecimento e experiência.

Em conseqüência, Jean Chaboseau, ex-Grão Mestre da Ordem Martinista Tradicional, não deixa de
ter razão ao afirmar:

“As distensões de toda espécie nada mais são do que a prova da ilegitimidade fundamental de toda
Ordem Martinista oficializada.” (28)

“Sinceramente desejo, em razão desta circunstância, que o Martinismo volte a ser o que sempre
devia ter sido: uma simples associação de espíritos unidos pelas mesmas aspirações espirituais e
guiados pelas mesmas investigações, sob a luz do Cristo... fora de toda e qualquer preocupação de
Ordem ou Obediência.”

“O Martinismo é essencialmente Cristão. Não se pode conceber um Martinista que não seja um fiel
discípulo de Jesus Cristo, o Salvador e Reconciliador, Encarnação do Verbo!” (Devemos
esclarecer que nosso conceito de Jesus, o Cristo, não concorda com o do Catolicismo Romano, mas
com o gnosticismo e da corrente Joanita Rosacruciana ou Cristianismo Esotérico da Igreja de João).
“Porém, parece que um grande número de Martinistas não esteve, ou não está compenetrado deste
espírito perfeitamente universal na mais ampla significação do termo. Desejando singularizar-se,
particularizar-se, desejando presidências, Grão-Mestrados, títulos, graus e honras, em nome de um
Filósofo no qual a modéstia e a sensibilidade eram proverbiais, parecem ter esquecido um dos
primeiros princípios ou preceitos cristãos... “(29)

Sabemos que os Grupos e Lojas Martinistas para seu bom funcionamento, devem ter sua diretoria,
oficialidade, regulamentos, etc... Mas essa estrutura deve permanecer sempre enquadrada dentro dos
limites essenciais e genuínos ao espírito do que chamamos Martinismo. Ele está em contradição
com as vaidades, ambições, ansiedade em escalar graus, colecionar títulos e dignidades iniciáticas;
são atitudes que revelam falta de maturidade espiritual.

O verdadeiro Martinista é um ser silencioso, humilde, tolerante e compreensivo.

Em nosso grupo Bethel esperamos que todo o membro Aderente e Associado saiba colocar-se em
um plano de compreensão que lhe permitia elevar-se acima dessas ninharias. Se não for assim, na
realidade estaria incapacitado para beneficiar-se dos conhecimentos espirituais da Ordem.

Terminaremos estas “Explicações Gerais sobre o Martinismo”, transcrevendo um importante


documento emanado do Supremo Conselho da Ordem Martinista, com sede em Paris:

UNIÃO DAS ORDENS MARTINISTAS

28 - Muito se tem escrito sobre a legitimidade da transmissão iniciática das diversas ordens que, através dos séculos,
povoaram a terra de grandes homens. Antes de nos preocuparmos se um agrupamento iniciático é o legítimo
representante de uma Ordem legendária qualquer, é preciso que examinemos seus princípios de base, sua doutrina, e
verificarmos se estão de acordo com o ensinamento e objetivos tradicionais. De nada adianta pertencermos a uma
Ordem que no passado produziu seus Adeptos, se hoje ela perdeu o Conhecimento. Por outro lado, é possível atingirmos
a Luz partindo de uma sociedade “nova”, fundada há um século ou na década passada, desde que essa sociedade seja
séria, que busque a Verdade e que seja “Legitimada” pela Graça de Deus. É dito que a Egrégora Diviina muda tanto de
Ordem como de povo, em função das mutações por que passa a humanidade. Assim, mais vale procurar a Ordem que
detém o Círio da Verdade do que a legitimidade hereditária entre as sociedades humanas. (N. Rev.).
29 - Jean Chaboseau fala dos Martinistas cismáticos, classificando aí seu próprio pai, que se rebelaram contra a
orientação do Chefe da Ordem, Jean Bricaud, legítimo sucessor de Téder e de Papus. (N. Rev.).
67

Câmara de Direção

Artigo I

Em uma reunião fraternal celebrada em Paris, no dia 26 de outubro de 1958, por iniciativa do
Doutor Philippe Encausse, congregando os representantes qualificados do Martinismo de Tradição,
constitui-se uma “União da Ordens Martinistas”, dirigida pelos três sobreviventes legítimos e
atuais desse Martinismo, a saber:

a-) A Ordem Martinista-Martinezista (Ramo de Lyon), da qual é Soberano Grão-Mestre o Muito


Ilustre Irmão Henri Charles Dupont, como sucessor legítimo e regular dos Muito Ilustres e
lembrados Irmãos Téder, Bricaud e Chevillon, sucessão que remonta a 1916, quando da morte do
Muito Ilustre e saudoso Irmão Papus, falecido a 25 de outubro desse ano, cujo aniversário de morte
comemorou-se no cemitério de Père Lachaise, na véspera da referida reunião.

b-) A Ordem Martinista, da qual é Soberano Grão-Mestre o Muito Ilustre Irmão Philippe
Encausse, sucessor natural e regular do Muito Ilustre Irmão Doutor Gérard Encausse (Papus) seu
pai - Ordem reativada em 1953, em Paris.

c-) A Ordem Martinista dos Elu-Cohen, da qual é o Soberano Grão-Mestre o Muito Ilustre
Irmão Robert Ambelaim, uma vez que foi nomeado Grão-Mestre Substituto pelos Ilustres e
lembrados Irmãos Georges Lagreze e Camille Savoire, “Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa”;
tinha tal caráter por ocasião do despertar da Ordem em 1942 e era detentora regular dos arquivos
autênticos (século XVIII) do Martinismo.

Artigo II

O organismo diretor desta União das Ordens Martinistas é uma Câmara de Direção formada por
seis membros, composta pelos três Grão-Mestres acima nomeados e por outros tantos Irmãos
Assistentes, substitutos de cada um deles.

Artigo III

A União das Ordens Martinistas tem como objetivo manter os contatos mais fraternais entre os
Irmãos das três Ordens, por meio de visitas recíprocas entre os Grupos e Lojas e pela participação
em conferências comuns.

Artigo IV

A Câmara de Direção velará por intermédio de seus Membros, com plena confiança e sinceridade,
que o Supremo Conselho de cada uma delas, dirijam e orientem lealmente os candidatos eventuais,
ainda profanos, atendendo os interesses e tendências espirituais de cada um desses candidatos, para
a Ordem cuja orientação espiritual melhor corresponda às suas próprias tendências e suas
capacidades físicas, psíquicas e espirituais: O Martinismo de Saint-Martin (Via “Cardíaca”); o
Martinismo de Dom Martinez de Pasqually (Via “Operativa”);

Artigo V

Considerando que as três Ordens Martinistas que a constituem representam as três fontes
autenticamente indiscutíveis do Martinismo Moderno, de diversos graus e diferentes ângulos:
Martinismo, Willermozismo e Martinezismo; considerando que todos os Grupos Martinistas atuais,
68
no plano internacional, derivam sem exceção, seja do Movimento fundado em 1891 pelo ilustre
Irmão Gérard Encausse (Papus), que foi assessorado pelo Ilustre e não menos lembrado Irmão
Augustin Chaboseau; seja do Regime pró-maçônico dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa,
constituído em Lyon, em 1778 pelo Ilustre e lembrado Irmão Jean-Baptiste Willermoz (Eques ab
Eremo); seja (se esta fonte ainda existe em sua pureza primitiva) da Ordem dos Cavaleiros Maçons
Elu-Cohen, fundada em 1758 por Dom desta maneira, todos os grupos Martinistas internacionais,
quanto à sua própria origem, derivam seus poderes de constituição, de alguma destas três Ordens,
que tiveram sua origem na França e que ainda existem em tal país.

“Por estas razões, a União das Ordens Martinistas declara-se habilitada para conferir, somente ela,
por meio de uma das três Ordens que a compõem, os poderes de constituição de novos Grupos
Martinistas internacionais, como para confirmar aos já existentes os poderes que detenham.”

“Detentora, pelas três Ordens que a compõem, das Tradições e dos arquivos do Martinismo
autêntico e regular, a União das Ordens Martinistas considera-se igualmente habilitada para zelar
pela perpetuação e a pureza original das duas vias tradicionais desta Escola:

- O Martinismo de Saint-Martin (Via “Cardíaca”).

- O Martinezismo de Don Martinez de Pasqually (Via “Operativa”).”

Artigo VI

“Para levar a efeito a decisão solene do dia 26 de outubro de 1958, a União das Ordens Martinistas
decide que sua Câmara de Direção deverá reunir-se quatro vezes ao ano, pelo menos, sem prejuízo
de outras sessões, quando justifiquem as necessidades ou as circunstâncias. Em princípio, tais
sessões realizar-se-ão no primeiro domingo que siga a um equinócio ou solstício.”

Artigo VII

“A Câmara de Direção preocupar-se-á, no prazo mais breve possível, em voltar a tomar contato com
os diversos Grupos Martinistas estrangeiros.”

“Procederá com toda sinceridade e lealdade ao resolver, imparcialmente, as divergências que


possam surgir entre duas organizações Martinistas de um mesmo Estado.”

“Com o objetivo de obter que os Martinistas do estrangeiro, de todas as tendências, voltem a unir-se
fraternalmente pelo bem da Tradição Comum, a Câmara de Direção cuidará para que se constituam,
com a maior brevidade, Ordens que, no plano nacional e estrangeiro, repitam o que realizou a União
das Ordens Martinistas, em Paris, no dia 26 de outubro de 1958. É preciso obter, em um breve
prazo, que os Irmãos do estrangeiro voltem a se encontrar nas Cadeias de União que, por serem
diferentes em sua própria organização e em suas práticas externas, estarão, no entanto, iluminadas
por uma Luz comum. Com efeito, trata-se de uma União, de um agrupamento das Ordens
Martinistas, nas quais cada uma conserva sua independência; porém, têm tantos pontos comuns em
suas finalidades, que não podem continuar ignorando-se e, por isso, devem unir seus esforços no
prosseguimento dos trabalhos e realizações, no domínio do Espírito.”

Artigo VIII

“Em caso de demissão ou falecimento de um Membro-Assistente, o Grão-Mestre do qual obteve


diretamente seu cargo, deverá designar seu sucessor.”
69
“No caso de falecimento de algum dos três Grão-Mestres, seu sucessor na Câmara de Direção será
ipso-facto o Grão-Mestre que se nomeie ou lhe suceda.”

Artigo IX

“A Câmara de Direção está facultada para outorgar plenos poderes e para conferir mandato de
representação ao Irmão de alguma das três Ordens que ela ache conveniente nomear, para o
propósito de que a represente em qualquer Convenção, Assembléia, Posse de Grupo ou de Loja,
tanto no plano nacional como no internacional.”

Artigo X

“Toda a correspondência relacionada com a Câmara de Direção deverá ser dirigida ao Doutor
Philippe Encausse, 46 Bld. de Montparnasse, em Paris (15 e), França que a encaminhará aos
interessados.”

“A revista A INICIAÇÃO, fundada por Papus em 1888, publicada sob sua direção desde 1888 até
1914 e novamente impressa desde 1953, sob a direção do Ilustre Irmão Philippe Encausse, como
órgão oficial da Ordem Martinista, passa a ser órgão oficial da União das Ordens Martinistas.
Cada uma das três Ordens disporá de certo número de páginas para publicação a partir de 1959.”

Artigo XI

“Os Irmãos signatários, titulares e assistentes, ao firmarem o presente texto que serve de Estatuto e
de Convenção, reconhecem que, com isso comprometem, não só sua honra, em consideração aos
artigos que o constituem, mas também a das Ordens que lhes outorgaram mandatos e lhes deram
poder para agir em seu nome.”

“Subscrito em Paris, domingo, 15 de dezembro de 1958 e firmado com o Selo de cada Ordem.”

- Seguem as firmas dos Soberanos Grão-Mestres:

ORDEM MARTINISTA-MARTINEZISTA: Henri Dupont.


ORDEM MARTINISTA: Philippe Encausse.
ORDEM MARTINISTA DOS ELU-COHEN: Robert Ambelain.

Em 1º de dezembro de 1959, os três Grão-Mestres decidiram uniformizar no âmbito das três Ordens
as palavras, sinais e toques, tanto para os Associados, como para os Iniciados e para os Superiores
Incógnitos.

“No sábado, 13 de agosto de 1960, em Coutances (Manche), o Ilustre e lembrado Irmão Henry
Charles Dupont, Soberano Grão-Mestre da Ordem Martinista-Martinezista (ex-Ordem Martinista
de Lyon), designou o Ilustre Irmão Philippe Encausse, filho de Papus e Soberano Grão-Mestre da
Ordem Martinista, como seu sucessor único e regular. Dupont presidia a Ordem desde a morte do
Ilustre e lembrado Irmão Constant Chevillon, assassinado na cidade de Lyon em março de 1944,
por militares a soldo dos invasores hitleristas.”

“Henry Charles Dupont faleceu aos 84 anos de idade, em 1º de outubro de 1960, às 22 horas, em
Coutances.”

É conveniente assinalar, por outra parte, a existência no estrangeiro de duas Ordens Martinistas,
nascidas das Ordens criadas originalmente na França, após a morte do Doutor Gérard Encausse
70
(Papus). Trata-se, respectivamente, da Ordem Martinista e Sinárquica (Grã-Bretanha, entre outros
países) e a antiga delegação para os Estados Unidos da América da Ordem Martinista Tradicional,
cujo fundador foi o Ilustre Irmão Agustin Chaboseau, companheiro desde a juventude de Papus e
que faleceu em 2 de janeiro de 1946, em Paris.

“As Lojas da Inglaterra e do Canadá da Ordem Martinista e Sinárquica concedem o direito de visita
aos membros (regularmente iniciados) das Ordens que constituem a União das Ordens Martinistas,
atualmente agrupando a muitos milhares de membros, repartidos em trinta países.”

CAPÍTULO X

DISCURSO MARTINISTA

As seguintes palavras foram dirigidas a vários profanos por um Ilustre Irmão que presidia um Grupo
Martinista na França, há quase um século. Pronunciou-as ante um grupo de neófitos que estavam
sendo cuidadosamente preparados para receber a Iniciação Martinista. Seus conceitos são tão
válidos naquela época como hoje, pois delimitam plenamente a esfera e finalidade dos estudos de
nossa Venerável Ordem. Deve-se meditar cuidadosamente em seu significado e transcendência, já
que este capítulo constitui um passo a mais no processo de preparação que deve culminar na
Iniciação ao Grau de Associado Martinista:

“Tudo que estás no umbral do mistério, que força te empurra a afrontá-lo? É simples curiosidade?
Queres com mão ímpia, já que será indiferente, levantar o véu que esconde o que somente grandes
estudos podem revelar? Se é este propósito, retirar-te e não sigas adiante, uma vez que a nossa é
uma obra de trabalho, não uma diversão.”

“Persegues a satisfação dos instintos grosseiros e a dominação do Mundo? Esperas encontrar


nestes estudos a possibilidade de saciar tuas paixões, teus ódios, teus amores, tuas ambições e teus
rancores? Neste caso, nossos estudos não estão destinados a ti. Seu conteúdo não te
proporcionaria mais que desilusões, já que o objetivo a que se propõe é totalmente diferente, ainda
mais, completamente oposto.”

“Desejas o benefício material? Não será aqui que o encontrarás; nossos estudos são
desinteressados e buscam dar a todos a felicidade proporcionada pela paz da alma e do bem feito a
seus semelhantes. Aqui não há nenhuma idéia ambiciosa.”

“Simples curioso sóis vós, ambicioso, que credes haver nascido para conquistar o mundo: nossa
obra não foi feita para vós, nem para vossas almas, que albergam um núcleo de paixões vãs. Vós
não podeis dar o que solicitam estes trabalhos: um coração tranqüilo e uma alma forte. Não
falamos a mesma linguagem e os conceitos que emitiríamos não fariam mais que alargar a
barreira que nos separa; assim, pois, se não modificais vossos não prossigais, não tenteis levantar
o véu.”

“Porém tu, que sofreste intensamente e a quem a dor revelou a palavra do grande enigma que
conduz ao umbral do caminho verdadeiro; tu que queres abrigar-te da tormenta e devolver o bem
pelo mal; tu, que, sinceramente desejas que os demais participem da paz Divina que o sofrimento
fez nascer em teu coração, dedica-se a estes estudos; estão destinados para ti, bem como a todos os
que se apaixonam na busca desinteressada do bem e da verdade.”

“Tu que vens a nós imbuído destes sentimentos, segue valentemente o caminho iniciado. É o
caminho que buscas em tua angústia e no final do qual encontrarás a alegria que proporciona a
71
força tranqüila e soberana e a paz Divina que não se encontram, a não ser seguindo o caminho do
bem.”

“Nós ajudar-te-emos a encontrá-los, a fim de que tua colheita seja tão doce como foi clara a
semeadura; a dor é uma semeadora cruel, porém muitas vezes necessária. Podes entregar-te a estes
estudos com toda a segurança, os quais te seduzem e em cuja prática acharás as energias
desejadas.”

“Se tua ambição é somente aperfeiçoar-te no silêncio, acelerar a evolução de teu espírito, sem se
deixar levar pela opinião alheia, estuda, trabalha; o resultado não se fará esperar; sobrepujará o
limite de tuas esperanças.”

“Se teu coração, oprimido na vida material, aspira aos mais formosos e vastos horizontes, segue os
passos dos Iniciados; vem conosco, seguindo o caminho que conduz até a luz, vem e verás brilhar
uma nova vida sob a caricia de um sol sempre radiante. A verdade, a Alegria e a Paz brilham no
cume da subida.”

“Vem, estamos a teu lado para sustentar-te.”

“Nossa obra não contém nada de novo. Louca pretensão seria imaginar que se renova seguindo os
Sábios e os Iniciados. Não ensinaram eles, em todos os tempos, as verdades eternas, seguindo sua
própria natureza e sua própria missão? Se estas palavras servem para expressar-se, é necessário
adaptá-las à vida moderna para que seu fruto seja mais abundante. As palavras, não sendo novas,
perdem a força? Não se escuta sempre com agrado uma velha música, ouvida infinitas vezes? O
que ama não experimenta uma grande emoção ouvindo murmurar, novamente palavras que o
culminam de felicidade? Não lhe são cada dia mais queridas? O coração apaixonado vibra sempre,
docemente, ao evocar doces recordações.”

“A ciência que tu buscas é uma ciência de todos os tempos. Sua finalidade é aperfeiçoar o ser
humano e fazê-lo feliz, não lhe oferendo satisfações grosseiras e envilecedoras, mas fazendo-o
conhecer seu lugar exato no mundo, revelando-lhe o objetivo que deve alcançar. Os elementos
desta ciência estão repartidos em muitos livros.”

“Longe das miradas profanas, encontramos singular prazer em folhear os velhos livros onde dorme
a Sabedoria do mundo, em decifrar os enigmas que os sábios viram-se obrigados a consignar nos
tempos das perseguições; em encontrar no símbolo das antigas religiões e iniciações, os
pensamentos que rejuvenescem e vivificam nosso espírito.”

“Propomo-nos a ensinar uma ciência: porém qual? Esta ciência confere poderes: porém quais? Os
autores antigos ensinavam as iniciações severas e medidas que se usavam em seu tempo. Indicam
com palavras cobertas, porém claras para aquele que quer entendê-las, os dons sublimes que
resultavam do trabalho árduo, ao qual se ligavam. A humanidade pode orgulhar-se do magnífico
patrimônio que representam.”

“Trabalhando produz-se uma magnífica reação. A intuição, que todos possuímos em estado latente
e em diversos graus, não é no Adepto um dom caprichoso, sumindo de acordo com variações
imprevistas. Esta intuição chega a ser um sentido aperfeiçoado e chega-se a governá-lo como a
vista ou o ouvido. Aprende-se a ver a sentir, não somente os fatos que afetam diretamente os órgãos
dos sentidos, mas também os que se encontram longe deste raio de ação e até os que se produzem
no mundo interior da alma. O mesmo pode-se dizer das demais faculdades que adquirem uma
perfeição e uma flexibilidade que ultrapassam todas as previsões.”
72
“Saluscio definiu perfeitamente o objetivo da Iniciação, dizendo: “A finalidade da Iniciação é
elevar o homem até Deus.” O platônico Proclus acrescentou: “A Iniciação serve para retirar a alma
do mundo material, enchendo-a de Luz.” Para ver a vida sob um novo aspecto, concede-nos mais
formosura moral e mais energia física e intelectual, resumindo-se em um desenvolvimento integral
de todo o ser, até uma beleza mais perfeita. A Iniciação permite-nos sentir os ritmos e as
harmonias que convertem a vida em algo tão maravilhoso como os mais formosos poemas. Também
nos permite conhecer as leis que regem os fatos tangíveis (como o ritmo do universo) e nos mostra
a necessidade de conhecê-los.”

“Um novo ciclo começa para ti, já que cedes ao prazer apaixonante da ciência. Apreciarás todos
os encantos de uma nova vida, se souberes refletir e embeber-te bem dos ensinamentos que vais
receber. Não é somente um ensinamento teórico, mas também uma doutrina moral e intelectual e
um chamado que tem por objetivo modificar-te profundamente. Seque os conselhos que te serão
dados e sentirás crescer teu espírito para abraçar as idéias magníficas e eternas. Teu coração
abrir-se-á fraternalmente ao amor.”

“Em ti, como em um diamante bruto, reside uma força que pode fazer milagres; no que se refere ao
diamante, primeiramente deverá ser arrancado da pedra e é necessário que seja talhado para
receber o puro beijo da luz e irradiá-la em cores cintilantes. O que seria a luz se a recebesses sem
projetá-la sobre o mundo com a mesma potência e doçura com que te foi dada?”

“Talvez este trabalho te pareça pesado; mas ele não o é, em absoluto! A solidão pode converter em
áridos os mais admiráveis pensamentos, sobretudo quando é necessário valer-se de si mesmo para
adquiri-los. Neste caso, em troca, terás apoio e ajuda, sentir-te-ás em perfeita harmonia com um
grupo fraternal que compartilha teus sentimentos.”

“A solidão que experimentas-te, fez-te refletir as desilusões que sofreste levaram-te a considerar
este mundo e a vida sob um prisma mais exato. Livrando a ti mesmo, converteste no crisol duro da
prova, tudo o que obscurecia a pureza de tua visão. Duvidaste do bem e do mal. Sentiste que caías
sem ter apoio nem em ti mesmo, contra o desespero que te afligia. Agora, com passo seguro,
marcharás para a luz que pressentes e buscas e que algumas vezes já se revelou no fundo de teu ser
agitado, em forma de breves relâmpagos, como uma miragem brilhante. Estes relâmpagos
passageiros converter-se-ão em uma forte claridade constante, que não deixará de iluminar todos
os passos de teus caminhos. A sombra dissipa-se, completamente, quando se busca a luz fora das
trevas do egoísmo.”

“A vida se abre ante teus passos; a vida tal como é e deve ser, a vida em sua formosa plenitude.
Vais dirigir-te ao conhecimento do que somente imaginas e que te acolherá com a benfeitora paz,
concedida aos que trabalham. Diante de ti, vão revelar-se vastos horizontes de pensamentos,
embriagando ao mesmo tempo tua vista e teu espírito. O esplendor destas serenas visões é tão
grande e tão perfeita que sua formosura penetrará até o fundo de teu coração como a harmonia de
um canto. Guiado por estes suaves encantos, avançarás com crescente alegria até chegar ao templo
da Sabedoria.”

“Considerando que estamos rodeados de forças, muitas delas malignas, devemos procurar não ser
sua presa fácil. Para obter êxito, não há outro caminho senão fazer um chamado às forças
superiores e construtivas que nunca nos negam sua ajuda. Uma vez conhecidas e invocadas, nos é
possível sair da tormenta, buscar e encontrar a paz do coração, a expansão do espírito e o ritmo de
evolução. Tu, que te aproximaste destes estudos, com toda segurança experimentas a sensação de
que não estás só; une teus esforços aos dos outros. Vendo-te ao mesmo tempo ajudado sentirás
reviver teu coração maltratado.”
73
“Deves começar por conhecer-te a ti mesmo. Não é sem razão que os antigos haviam feito deste
conhecimento o primeiro estudo de sua iniciação. Deves saber quais são tuas qualidades e teus
defeitos; deves desenvolver as qualidades e eliminar os defeitos. Purificar-se tem sido a primeira
parte de todas as Iniciações e tem sido praticada em todos os tempos e em todos os agrupamentos
de filósofos.”

“Primeiramente, deves limpar teu corpo; por meio de uma higiene racional, deves dar-lhe as
forças e a potência que pode haver perdido, por uma enfermidade, por alimentação deficiente, ou
por falta de ar e exercício. Deves adotar uma regra de vida mais saudável, baseada nos princípios
que regerão tua conduta. Teu corpo deve obedecer a teu espírito; se ele não estivesse em condições
de seguir o movimento do pensamento, para que te serviria? Então deveria ser considerado um
mau servidor. Se segues as regras que aconselhar-te-emos, adaptarás tua economia material e os
órgãos que te estão submetidos a ritmos que são o eco dos ritmos superiores. Por meio desta
cultura aderirás ao plano Divino.”

“Cumprido este preceito, será necessário que efetues a educação de teu espírito. Esforçar-te-ás por
obter dele uma direção mais segura e uma vontade tranqüila e ativa. Deves desenvolver em ti estas
faculdades e não entregar-te à idéia de que não podes adquiri-las. Desenvolve também teu
discernimento já que, sem ele, a vontade é como uma barca sem piloto, abandonada aos escolhos
do mar e da vida.”

“Cultiva também o silêncio; nele ser-te-ão revelados os poderes ocultos. Trata-se de obter calma
em teus pensamentos para que se desenvolvam harmoniosamente. Cala, e ante manifestações de
opiniões contrárias, reflete. Tua força consistirá em dizer, no final, a palavra conciliadora que une
todas as opiniões. Tu só, não podes possuir toda a verdade. Tem calma e teu exemplo será mais
eficaz que as palavras. É o primeiro passo que se deve dar para obtenção dos altos poderes, a
conquista de forças em ti e em teu redor.”

“Em seguida, efetuarás a educação do coração. A maioria, sobretudo os que já sofreram por esta
causa, esquecem este cuidado tão necessário e estão crentes que procedem bem negando-se
completamente ao coração; estes males são conseqüências de escutar demasiadamente os próprios
impulsos. Finalmente, tratarás de refrear a impulsividade e o entusiasmo exagerado.”

“Talvez, atraído por qualidades exteriores, te sintas empurrado para pessoas que não estão à
altura de teu ideal elevado. A essas pessoas não podes pedir um intercâmbio de idéias semelhantes
às tuas; quando manifestam-se contrariamente a teus desejos, causam-te profunda contrariedade.
Isto sucede por julgar os demais semelhantes a ti, o que deve ser evitado cuidadosamente. A dor
que sofreste tem a vantagem de te servir de experiência e guia para futuros acontecimentos. Seu
papel consiste em iluminar-nos para que saibamos compreender o que nos convém; também nos
ensina a ter paciência para esperar a manifestação dos sentimentos alheios. De todas as maneiras,
refrear os impulsos do coração não quer dizer suprimi-los, mas ao contrário. Quando teu caminho
apareça seguro, animado pelos melhores sentimentos, poderão buscar a alegria e o carinho de um
afeto compartilhado. A satisfação de haver encontrado um ideal sonhado proporcionar-te-á
alegrias jamais sentidas, já que o objetivo de tua busca não será o de um desejo momentâneo ou de
uma vitória passageira, mas uma comunhão de idéias que te levará a desejar o bem do ser amado
antes que o teu. Teu coração dilatar-se-á e, deixando a parte os sentimentos conhecidos,
aprenderás a amar a Natureza e a extrair de seu seio amigo lições de calma, de bondade, de
doçura e de fraternidade universal. Gostarás da expansão de uma nova vida e da alegria superior
de compreender o que começaste a seguir, cegamente.”

“A Natureza mesma te oferecerá o ensinamento dos altos poderes. Que mais podes desejar?
Obterás estas faculdades que pertencem ao Iniciado, se fores digno disso. Tu o serás se em lugar de
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pedir o domínio não pedires os que buscam seu caminho. Assim, semelhante ao Sol, irradiarás
sobre o Universo todas as forças benfeitoras.”

“O Verbo humano, modelo de forças elevadas, tem poderes ilimitados, acessíveis ao que sabe
fazer-se dono delas. Experimentarás e poderás conhecer a potência mágica de que está dotado todo
ser humano, quando a Iniciação te revelar e quando souberes conquistar teu império interior.”

“A realidade dos feitos se volta sempre contra nós, quando forem efetuados com intenções egoístas.
Peladan já disse: Aquele que pede ao Hermetismo o poder da sedução, de vencer seus inimigos e de
humilhar seus rivais, perecerá. É a transposição mágica das palavras do Cristo: “Aquele que fere
com a espada perecerá por ela.” A teu redor irradiam forças e vibrações inéditas que podes criar e
dirigir a teu gosto. Esta atmosfera física influi nos que te rodeiam e até podes trabalhar à
distância. Uma vez que hajas penetrado neste arcano, que não se confia rapidamente, conhecerás o
segredo do Poder e da Atração, se fores servido pelas forças misteriosas.”

“A medida que o Templo da Iniciação abrir seus imensos horizontes, tua vista estender-se-á por
Mundos que, em tua ignorância, não havias nem sequer suspeitado. Então descobrirás qual é teu
verdadeiro lugar no Universo e verás que não tens mais valor que uma célula consciente na maré
da vida.”

“Por que tens orgulho? Quem és tu no imenso Cosmos? Compara tua pequenez com à grandeza do
infinito e perderás o mesquinho orgulho e as vaidades insuportáveis que ontem te pareciam
importantes.”

“Se a meditação é mortal à tua vaidade, crescerá tua felicidade. Pequena célula consciente deves
conceber a idéia sublime de que estás submetido aos Ritmos e que os Ritmos são sempre os
mesmos, do átomo ao astro, e te verás submetido, com tudo o que te rodeia, aos Ciclos
incomutáveis sob seus diversos aspectos.”

“Examina o Ciclo das estações; estuda as horas de inverno: sobre a terra tudo nos parece morto e
sem esperanças, as folhas e as flores desapareceram. Transcorre o tempo; a alma desperta de um
pesado sono e a Natureza retorna sob a carícia do Sol. É a primavera, é a esperança, é a promessa
de uma nova vida, é a certeza das próximas colheitas. O Sol ardente que doura os trigais não se faz
esperar. Todas as flores abrem suas corolas; os frutos estão prontos para amadurecer. Também
passam os dias radiantes e ardentes. O outono, enriquecido com os frutos que a primavera
prometeu, nos leva às realizações esperadas. A juventude e as flores já passaram, nada mais falta
senão preparar-se para o inverno que não pode deixar de vir. O inverno de velhice e de morte
corporal será para ti a estação da calma e do repouso já que fizestes ricas provisões de felicidade e
de bem, com vistas à tua evolução. Nesta evolução continuarás os Ciclos iniciados, acrescentando
sempre algo às tuas aquisições, aumentando o resultado de teus valentes esforços.”

“À medida que faças esta maravilhosa ascensão, mesclar-te-ás mais intimamente aos Ritmos
superiores e, purificando teu coração, compreendê-los-ás melhor. Sentirás uma doce fraternidade
para com todas as criaturas e com o astro que segue no céu tua carreira rítmica; as grandiosas
harmonias da criação proporcionarão um encanto contínuo. Os mundos revelarão a força
misteriosa que os dirige em suas evoluções pelo espaço e o teu desejo será o de colocar-te de
acordo com as maravilhas Divinas.”

“Desde o momento em que conheças estas forças, poderás chamá-las e elas te atenderão, sentindo
te em todo o tempo inundado por sua potência. Irão dar-te um apoio insuspeito que te
proporcionará uma felicidade perfeita. A alegria do dever cumprido inundará teu coração
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consciente e livre. No espaço imenso e entre todas as criaturas, sentirás a majestosa presença de
Deus, que criou todas estas coisas, concedendo-lhes leis e cuja perfeita beleza nos deslumbra.”

“Voltando novamente ao mundo conhecido, descobrirás em tudo uma mesma vida, um equilíbrio
igual, matizado por diferentes cores. Porém, com a mesma essência e dirigido sempre pela justiça
eterna. Compreenderás que tua existência atual, com suas dores e seus prazeres, é a legítima
conseqüência de tuas existências passadas. Submeter-te-ás sem reclamar. Aceitarás as más
condições como dívidas que devem ser pagas e as provas que serás obrigado a sofrer ser-te-ão
utilíssimas, já que libertar-te-ão rapidamente do pesado fardo de tua passividade.”

“Que alegria sentir-se cada dia mais livre, ainda que o credor seja benévolo! A Iniciação permitirá
pagar mais prontamente, subir mais rapidamente até as magnificências que parecem chamar-te e
que efetivamente assim o fazem. Cada novo passo conduzir-te-á até o mundo da perfeição. Sairás
da tormenta que te sacudia. Dissiparás as forças más que pesavam sobre ti. Sendo tudo útil e justo,
não poderás desesperar-te porque conhecerás as causas de tudo o que pode suceder-te. Passarás
do pessimismo ao otimismo e a face do mundo mudará para ti.”

“Alcançarás prontamente a alegria que sinceramente te prometemos se fizeres um esforço contínuo


até ela sustentado, no transcurso do caminho, por uma fé mais viva. A Fé e a Felicidade consistem
no conhecimento da vida, em sua finalidade e em seus verdadeiros interesses. Adquirido este
conhecimento, chegarás necessariamente a uma outra concepção e amarás tuas dores passadas. A
meditação e a reflexão, que antes te pareciam muito austeras, serão então duas amigas, duas
irmãs, que cheias de ternura, iluminarão teu caminho.”

“Adepto futuro que te sentes inclinado até a Iniciação: trabalha, medita e persevera. Assim ser-te-á
revelado o grande segredo. É indispensável firmar-se, analisar-se, adquirir por si mesmo os
conhecimentos necessários, desenvolver a percepção dos sentidos, sobretudo a intuição, que
acrescenta tanta potência aos sentidos habituais... O trabalho pessoal é inevitável e longo. O
estudo parece árido a muitos, porém é fácil ao que se entrega a ele com Fé; ela mesma ajudar-te
á.”

“Para descobrir o grande segredo, estuda-te, desenvolve paralelamente teu espírito e teu coração.
As forças que queres possuir para teu bem e de teus irmãos, estão em ti e ao teu redor; aprende a
buscá-las e a descobri-las. A Natureza está diante de ti como um imenso livro aberto, cujos doces
ritmos dar-te-ão a lei dos outros ritmos sob cujos compassos palpita e se move a vida. Eleva-te até
aquele que os fixou com o sopro de seus lábios e com o gesto de sua mão. Busca e todas as coisas
te mostrarão Deus, como um fragmento de espelho refletiria ao Sol. Quando houveres sentido a
unidade do Universo, chegarás a ser um Iniciado e a vida terá para ti um saber novo e
inesperado.”

“Verás que todos os seres estão ligados e que o esforço teria que ser comum. Teu dever consiste em
sacrificar-te, ajudar teus semelhantes e encontrar a pacífica colina que os salvará da tempestade, e
a amar teus irmãos. Teu coração já sentiu o poderoso clamor do altruísmo. Não aguardas mais que
conhecer-te melhor para dar tuas forças, teus ensinamentos, teus pensamentos que podem animar a
tantos seres. Assim viverás na alegria.”

“A finalidade que persegues é grandiosa; todos os Iniciados aspiram a ela. Para consegui-la,
desenvolve tua via interior, tão rica em ensinamentos pessoais. Em determinadas horas, encerra-te
em tua torre de marfim, no asilo interior que não permite que os tesouros de teu coração e os
pensamentos de teu espírito se dispersem no vago torvelinho do mundo. Á medida que sobes as
escadas dessa torre, sentirás a forte alegria do esforço; terás prazer também durante longas horas
com alegria do esforço; terás prazer também durante longas horas com a alegria do bem
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prometido; a felicidade dos segredos descobertos no livro aberto da Natureza; a imensa quietude,
longe das agitações mundanas, a paz que nos permite sentir todas as pulsações de nosso coração,
todos os movimentos da Natureza, todos os ritmos e imagens que fazem do Universo um poema
imenso que nos encanta por sua beleza. Nada pode penetrar neste refúgio e, por conseguinte, nele
só reina a calma. É o alto aposento da meditação e esta meditação profunda nos concede, sem
cessar, paisagens maravilhosas e segredos que não imaginamos.”

“De qualquer maneira, é necessário descer e não nos deixar embriagar pelo doce ópio de um
misticismo que nos faria abandonar a terra, faltando com o nosso dever. É necessário equilibrar a
Fé com a Ciência e o Sentimento com o Trabalho. Todos nossos deveres estão sobre a Terra; no
entanto, ainda não soou a hora de nos livrar-nos deles. Somente evoluiremos se os cumprirmos sem
protestar e com alegria.”

“Naturalmente que te elevando às regiões da torre de marfim, abandonarás, como lastro pesado,
as agitações e o egoísmo que te encadeiam à terra. Uma vez que hajas desenvolvido a percepção de
tua sensibilidade e te sintas livre do fardo de preocupações, apreciarás melhor o chamado dos que
sofrem e choram. Aguçarás o ouvido e te emocionarás sinceramente. Animado por um impulso
fraternal lançar-te-ás até eles para tomar em teu coração toda sua dor e toda sua miséria. Sentir
te-ás chamado para fazer obra útil, para levar primeiramente a felicidade e a luz a teu lar e, em
continuação, a teu país, `a tua raça e à Humanidade inteira. Todos teus irmãos tem necessidade de
ti. Não te negues a acudir ao seu chamado.”

“O Iniciado não recebe a Luz para ele só. Recebe-a par difundi-la ao seu redor, como diamante
que se cobre de cintilações irradiantes. Os raios da Luz não te pertencem, vêm de um sol sublime
que nem mesmo o espírito pode alcançar. Não concebas o orgulho de que vais adquiri-lo; difunde
o somente e serás feliz com o bem que verás florescer.”

“Lutarás com todas as tuas forças contra as sombras vagas das idéias falsas, que entristecem e
entorpecem tua atmosfera. Levarás a luz e a serena ternura à multidão que geme na sombra. Dá
lhes tudo o que sabes. Teu dever ideal é sustentar aos que enfraquecem e que se arrastam sem
esperança e sem Fé, desesperados, rastejantes e sem valor. Esforçar-te-ás em formar um ideal que
viva latentemente em seu cérebro e em seu coração, porém afogado por tantos escombros, que por
si mesmos não podem fazê-lo reviver, nem provar ou realizar uma ação social.”

“Todos estendem os braços para um amanhã melhor, que deverá suprimir as lutas de classe e os
racionamentos econômicos, que fará desaparecer as guerras e extinguir todos os ódios. Aos
Adeptos lhes corresponde atender a este chamado desesperado. A Humanidade dolorida e ansiosa
debate-se entre uma sombra compacta. As necessidades do momento nos criam deveres novos. A
nós compete prodigalizar a Harmonia e a Luz onde não existem.”

“Eis aqui eu ideal. Terás o poder de difundi-lo e não te faltará ajuda para realizá-lo. A hora das
próximas auroras soou para ti. Todos os trabalhadores levantam-se; deves trabalhar mais que
aqueles que trabalham sem Fé e sem Esperança. Anda depressa; se a tarefa é dura, a recompensa
sobrepuja toda a esperança.”

DECLARAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DA ORDEM MARTINISTA DO CHILE

Artigo 1º - A Ordem Martinista do Chile é um centro ativo de treinamento e ensino superior e


de difusão iniciática. Foi constituída para propagar os ensinamentos esotéricos seguindo as linhas da
Tradição Ocidental Cristã. Em conseqüência, inspira-se especialmente nos ensinamentos dos
Cristianismo primitivo e nas doutrinas promulgadas pelo Mestre Jesus, o Cristo, a quem considera o
Iluminador da raça branca em todos os planos.
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Artigo 2º - Propõe-se a divulgar, dentro do permitido, os princípios e ensinamentos esotéricos,


mediante conferências, palestras, publicações e trabalhos de investigação, porém, só admite à
Iniciação quem pela honorabilidade de sua vida, idealismo e espírito de trabalho desinteressado e
altruísta para com a humanidade, for merecedor de participar na Obra da Instituição.

Artigo 3º - Aceita como princípio fundamental a Liberdade de consciência, a tolerância em


matérias filosóficas e metafísicas, renegando toda afirmação dogmática. Recusa definitivamente
aceitar para si mesma ou impor a seus membros a mínima restrição ou preferências em matéria
doutrinária. Ensina tudo o que lhe parece bom e de interesse, deixando a cada membro a mais
completa liberdade para que aplique os ensinamentos recebidos, segundo sua compreensão, pois
reconhece na liberdade de consciência o único caminho da realização espiritual.

Artigo 4º - É eminente esoterista; admite todos os meios de investigação, desde os mais


ocultistas e místicos até os mais acadêmicos e científicos, e em seu ensinamento, também não
descuida o conhecimento das correntes iniciáticas do Oriente.

Na Ordem Martinista do Chile praticam-se os rituais e estudam-se os símbolos Martinistas,


exclusivamente, sendo a Instituição completamente independente de toda outra Sociedade ou
Ordem Simbólica, Filosófica ou Ocultista.

CAPÍTULO XI

SIMBOLISMO MARTINISTA

Continuando nossas explicações sobre a Ordem Martinista, podemos informar que atualmente
existem vários Grupos e Lojas Martinistas, organizados ou em processo de organização, tanto no
Peru como no Paraguai, Argentina, Colômbia, Venezuela, Brasil e outros países Sul Americanos.

Nesta ocasião, estamos presenciando o despertar de um grande interesse na América Latina, pelas
atividades da Ordem, por seu genuíno e desinteressado espiritualismo.

Todos os documentos da Ordem Martinistas levam impresso o Pantáculo abaixo:

Trata-se do chamado Pantáculo Universal, que não tem deixado de intrigar intensamente os
profanos, desde que a Ordem Martinista apareceu na Europa, no século XVIII.

Alguns rituais da Ordem nos proporcionam as seguintes explicações:

-As iniciais que encabeçam o Pantáculo significam “A Glória de Ieoshua, Grande Arquiteto do
Universo”. IESHUA está escrito em letras Hebraicas. Cada inicial das palavras latinas vai seguida
de seis pontos, que podem adornar a firma dos SS. II. da Ordem.
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Encontramo-nos aqui em pleno Iluminismo Tradicional, corrente à qual pertence a Ordem


Martinista.

Vejamos, pois, sumariamente e muito sucintamente a que correspondem estes Seis pontos que o
Mestre Louis Claude de Saint-Martin deixou como herança a seus discípulos e que eles, por sua vez,
transmitiram a seus sucessores.

Reportando-nos à Escola Pitagórica, devemos analisar aspectos relacionados com a aritmética e a


geometria iniciática. Notamos, pois, desde logo, que a soma aritmética de seis é igual a 21
(1+2+3+4+5+6). Este número corresponde ao produto do triplo setenário. Este e o zero, formado
pela circunferência passando pelos seis pontos, nos lembra as 22 lâminas do Tarot. Podemos dizer
de passagem, igualmente, que a obra do célebre L. C. de Saint-Martin: O quadro Natural das
relações que existem entre Deus, o Homem e o Universo, consta de 22 capítulos, sem que levem
nenhuma outra denominação.

Passemos à geometria. Dispondo os Seis Pontos na forma habitual, ou seja, formando os vértices e
lados de um hexágono regular, cujo raio seja igual ao raio de um círculo circunscrito, diversas
relações vão se originar:

- O Espírito e a Matéria.
- Os quatro Elementos.
- O Cosmos e Deus.

O Espírito e a Matéria, ou a Força e a Inércia, estão representados o primeiro (o Espírito) pelo


triângulo com o vértice para cima, que se obtém ao unir os dois pontos de baixo com o de cima, e a
segunda (a Matéria) pelo triângulo cuja ponta está dirigida para baixo, que se obtém ao unir os dois
pontos de cima com o de baixo.

O conjunto destes dois triângulos nos proporciona o famoso Selo de Salomão, símbolo da energia
cósmica, que caracteriza pelo seu equilíbrio perfeito e que existe entre a FORÇA e MATÉRIA, dois
elementos que, concebidos como absolutos, revelam-se ao ocultista como relativos.

Ainda mais, trata-se do símbolo do positivo e do negativo, da dupla polarização, sempre relativa, do
Binário no nosso mundo: Bem e Mal, Masculino e Feminino, Homem e Mulher, o que não são se
não dois aspectos do único ADAM KADMON, o HOMEM ANDRÓGINO.

Traçados os dois triângulos vamos ver aparecer, sucessivamente, os quatro elementos: Fogo, Ar,
Água e Terra.

Ao traçar nosso primeiro triângulo, com o vértice para cima, vemos logo o símbolo empregado
pelos alquimistas para representar o elemento FOGO. Se traçarmos uma linha horizontal que divida
o triângulo, obteremos a figura que representa o elemento AR. Se, no lugar de traçar o triângulo
com o vértice para cima, traçarmos o triângulo com o vértice para baixo, encontramos a figura que
representa o elemento ÁGUA. Se dividirmos esta figura com uma linha horizontal, obteremos a
figura simbólica que representa o elemento TERRA.

Nosso hexagrama simboliza os quatro elementos, combinados no seio da energia cósmica


duplamente polarizados e aparecem pelo movimento. Isto fica testemunhado pelo símbolo da
circunferência, a qual não é, em verdade, mais que o resultado do deslocamento, sempre
eqüidistante, de um ponto ao redor de um centro.
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Encontramos, em conseqüência, no simbolismo destes Seis Pontos: a representação da Energia
Cósmica, da Força da Matéria (do Espiritual e do Temporal); dos Quatro Elementos constitutivos e
que formam a base de tudo o que existe e, mesmo, do Cosmos.

Porém, não nos detenhamos aqui e consideremos atentamente, O INVISÍVEL, quer dizer, o PONTO
CENTRAL que sem estar desenhado, impõe sua presença e sem o qual todo o resto não poderia ser.
Em outras palavras, poderíamos dizer que “o essencial é o invisível”.

Desta maneira, o Centro do Círculo simboliza Deus; o círculo a Natureza e o Raio o Homem;
encontramos, assim, visíveis à sua maneira, a Natureza e o Círculo. O resto não é perceptível senão
em virtude de uma limitação de uma limitação aparente; logo, o invisível, implicado com o caráter
do necessário: Deus o centro do círculo. Enfim, encontramos o Homem que é representado pelo raio
igualmente implicado e projetado nas seis linhas, inscritas na Circunferência, as que formam os seis
vértices do hexágono regular: “O Homem é a medida do Universo.”

Observamos, no entanto, que o Homem e Deus podem, igualmente, aparecer em nossa figura
simbólica. Para que isto suceda basta unir, mediante uma linha vertical, os vértices dos dois
triângulos, o do FOGO e o da ÁGUA (Espírito e Matéria), para logo traçar uma linha horizontal que
esteja em ângulo reto com a vertical recém traçada, de maneira que ambas se cortem precisamente
no ponto médio dos dois triângulos.

Desta maneira, surgem o Raio e o Centro, buscando o Homem, encontraremos Deus.

Eis aqui porque se diz: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses” e também,
“O conhecimento de si mesmo, adquirido com humildade, é uma via muito mais segura para ir até
Deus, do que lançar-se na investigação de uma ciência por profunda que seja.”

Não desejo dar por finalizadas estas explicações sobre o Pantáculo Martinista, sem antes transcrever
o seguinte comentário que figura em um antigo Ritual da Ordem:

“Deus, o Princípio de toda União, está representado pelo Centro do Círculo, símbolo da
Eternidade. A ação da Eternidade (que passa do estado latente ao de manifestação) está
simbolizada pela relação mística que existe entre o Centro e a Circunferência; é o Raio, projetado
seis vezes ao redor do Círculo, que produz o Hexágono, emblemados seis períodos da Criação. O
Ponto Central insinua o sétimo período, o do Repouso. É através destas emanações criadoras que a
Natureza vai evoluindo, movida pelas grandes correntes denominadas Involução e Evolução
(Triângulo ascendente de cor branca e descendente de cor negra).”

“A Natureza, simbolizada pelo Selo de Salomão, não chega a coincidir totalmente com Deus, nem
por meio dela podemos descrever Deus, mas somente as forças criadoras que d’Ele emanam. Do
Centro do Universo ao Círculo desenvolve-se o poder do Homem, realizando-se, desta maneira, a
união dos efeitos produzidos pela Divindade. Há o encadeamento necessário e fatal dos processos
da Natureza na Unidade de sua livre vontade, simbolizada pela Cruz, que une a Alma Humana do
Centro do Universo com o próprio Deus. Tais são as explicações que podemos proporcionar, neste
momento, sobre o Pantáculo ou o símbolo mais sintético que o gênio do Homem já descobriu.
Revela todos os mistérios da Natureza; é verdadeiramente efetivo tanto na Física como na
Metafísica, tanto com o respeito às Ciências Naturais, como à Teologia. É o Selo que une a Razão
com a Fé, o Materialismo com o Espiritualismo, a Religião com a Ciência.”

“Quanto ao Selo de Salomão ou estrela de seis pontas, que faz parte do Pantáculo Martinista, o
mencionado Ritual explica como segue:
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O Selo de Salomão representa o Universo e seus dois ternários, Deus e a Natureza; ele é, por este
motivo, chamado o “Sinal do Macrocosmos” ou do Grande Mundo, em oposição à estrela de cinco
pontas que é o “Sinal do Microcosmos”, do Pequeno Mundo, ou seja, do Homem. O Selo de
Salomão é formado por dois triângulos. O que tem seu vértice para cima representa tudo o que
ascende, simboliza o Fogo e o Calor; psiquicamente, representa as aspirações que o ser humano
eleva até seu Criador; em um sentido material significa a evolução das forças físicas, desde o
Centro da Terra até o Centro do Sistema planetário ao qual pertencemos, até o Sol. em uma
palavra, expressa o retorno natural das forças morais e físicas até o Princípio do qual emanaram.
O triângulo com a ponta para baixo representa tudo o que desce; é o símbolo hermético da Água e
da Umidade. No mundo espiritual representa a ação da Divindade sobre Suas Criaturas; no mundo
físico corresponde à corrente involutiva que parte do Sol, centro de nosso sistema planetário, até
chegar ao Centro da Terra. Estes dois triângulos combinados expressam, não só a Lei do
Equilíbrio, como também a Lei da Atividade Eterna de Deus e do Universo; representam o
movimento perpétuo, a Degeneração, e a Regeneração incessantes pela Água e pelo Fogo; quer
dizer, mediante a Putrefação - termo usado antigamente, em lugar da palavra mais científica de
Fermentação. O Selo de Salomão é, pois, a imagem perfeita da Criação e é com este significado
que Louis Claude de Saint-Martin o inclui em seu Pantáculo Universal. Explicações mais
profundas, assim como suas adaptações práticas e realizadoras, dar-se-ão no transcurso dos
ensinamentos de nossa Ordem Martinista.”

Nenhuma filosofia pode demonstrar a existência de Deus. Nenhuma lógica, ainda que seja
cientificamente estabelecida, pode conduzir-nos a adquirir uma convicção certa.

Trata-se de um ponto que é preciso, imediatamente, sublinha; tudo aquilo que tem relação com a
Divindade não pertence à esfera de nosso intelecto e de nossa reflexão, mas apenas a de nosso
coração e de nossos sofrimentos. O coração é a Fonte da Vida, das emanações e da inspiração; no
entanto, nosso coração não quer dar-se, a menos que seja esclarecido pela luz que emana do cérebro.

Constitui um trabalho maravilhoso esforçar-se para explicar, seguindo as palavras de nossa razão
atual, o caminho sempre igual da verdade e da vida. Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a
Vida”. É o que o Martinismo repete.

Que é, pois, o Martinismo? Martinismo é a designação de um método de pensar, é uma


interpretação e explicação do Mundo, do Universo e de Deus, assim como também das relações de
Deus com o ser humano; possui um método que, seguindo o caminho místico, permite a comunhão
do Iniciado com a esfera mais pura e elevada, onde reina a perfeição total e incomunicável.

Assim como de muitas lâmpadas diferentes não emana senão uma só e única luz, também uma só e
única Verdade emana de muitas fontes diferentes e às vezes, de aparências opostas.

O Iniciado deve saber reconhecer a Religião Primeira sob os múltiplos cultos que a traduzem aos
profanos, pois assim como não há mais de uma Verdade, também não existe mais que uma só
religião.

Nenhum culto, que se denomine Brahmanismo, Budismo, Cristianismo, Islamismo, pode atribuir-se
o monopólio de sua posse. Esta religião única e primordial constituía o fundo das iniciações antigas,
dos Mistérios de Memphis, de Eleusis, de Mithra, etc..

Naquela época, os sacerdotes de todos os cultos eram Iniciados e, em conseqüência, sabiam unir e
sintetizar todas as crenças na Unidade magnífica das revelações filosóficas do Esoterismo. A
finalidade da maior parte das sociedades iniciáticas é voltar a estabelecer esta união entre as
inteligências esclarecidas.
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Pensemos no imenso progresso que significaria, nas marchas dos povos até a perfeição, esta
comunhão universal dos sacerdotes e fiéis de todos os cultos e, então, poderíamos compreender a
grandiosidade da idéia perseguida.

Tal como a Fé, a Ciência deve ver nascer a unidade da diversidade, mediante a síntese científica que
consegue, ao fim, conciliar o materialismo com o idealismo, na concepção total do verdadeiro.

O mundo, reino da multiplicidade e da divisão, tende com todas suas forças até a Unidade. O bem
supremo ao qual aspiram todos os seres humanos, tanto em suas relações com os outros homens
como em relação a sua alma chama-se PAZ. No entanto, a Paz não pode nascer senão no estado
unitivo; o princípio, a força atuante que impele até esta Unidade, chama-se AMOR e sua expressão
religiosa denomina-se CRISTO.

Um ex-Grão Mestre da Ordem, o Dr. Gérard Encausse (Papus), traçou a síntese dos princípios
fundamentais do Martinismo, para entregá-la à meditação dos Homens de Desejo que aspiram à
Iniciação Martinista. Constituem a doutrina fundamental da Ordem:

1º) - Escolher sempre um local onde a oração se pratique, qualquer que seja o culto.

2º) - Recordar que nem sempre os Verdadeiros Mestres são excessivamente aficionados aos livros e
que colocam a sensibilidade e a humildade acima de toda ciência. Desconfiar dos Pontífices e dos
homens que se dizem perfeitos.

3º) - Não alienar jamais a liberdade por um juramento que a prenda, provenha ele do clero ou de
uma sociedade secreta; só Deus tem direito a receber um juramento de obediência passiva.

4º) - Recordar que todo poder invisível vem do Cristo, Deus encarnado através de todos os planos.
No invisível, não ficar jamais em relação com um ser astral ou espiritual que não reconheça desta
maneira Cristo. Não buscar a obtenção de “poderes”, mas aguardar que o Céu decida se sois dignos
deles.

5º) - Não julgar as ações dos outros e não condenar o próximo. Todo espiritualista, em razão das
provas que a vida vai colocando em seu caminho por causa dos sofrimentos que deve enfrentar ou
em virtude de sua filosofia, seja cristão, israelita, muçulmano, budista ou livre pensador e, em geral
todo ser humano, conta com as faculdades necessárias para evoluir ao Plano Divino. Julgar é
próprio do Pai e não dos homens...

6º) - Ter a certeza de que o ser humano jamais é abandonado pelo Alto, mesmo em seus momentos
de negação e de dúvida. Lembrar que nos encontramos no plano físico com a finalidade de servir os
demais e não para satisfazer nossos próprios fins egoístas.

7º) - Recordar que a purificação física, recorrendo a um regime especial, constitui uma atitude
infantil se não se apoiar na purificação astral, na caridade, no silêncio, na purificação espiritual e no
esforço perseverante de não pensar nem falar mal do próximo. Saber muito bem que a Oração, que
proporciona Paz ao Coração, é preferível a toda magia que somente traz orgulho.

O homem deve optar entre dois mestres. Deixando de lado o príncipe deste mundo, o Martinismo
elegeu e quis consagrar-se a Cristo, por cima de toda classe de clerezias. É como uma Cavalaria
Laica do Homem-Deus. Sua finalidade: desenvolver, em quem vem à Ordem Martinista, o coração e
os sentimentos para que aprenda a amar. São seus meios de ação: a pobreza, o silêncio, a paciência,
a Fé.
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O Deus em que crêem os Martinistas é o Senhor dos Tempos. Os que quiserem ver, verão. Os que
chamarem poderão entrar. O Martinismo abre suas portas a todos os homens e mulheres de boa
vontade. E ... como presente de boas vindas, lhes dá o que há de mais precioso em meio dos
tormentos, dos infortúnios e das desgraças: A PAZ DO CORAÇÃO!

CAPÍTULO XII

DA INICIAÇÃO MARTINISTA

Iniciação deriva-se da palavra latina “initium” que significa começo. Em conseqüência, a Iniciação
Martinista deve ser interpretada como o começo:

A) - de um novo estado;
B) - em um novo caminho.

Parte-se da idéia básica que o profano é um ser encadeado, cego, prisioneiro das trevas e dos erros;
presume-se que é um peregrino ameaçado pelos múltiplos perigos que o esperam nas encruzilhadas
de sua vida; é uma pessoa que vive em um estado de tensão e desconformidade consigo mesma,
estado do qual esforça-se por sair. Seguindo o simbolismo alquímico, é o chumbo que deve ser
convertido em ouro, depois de passar por todas as fases da transmutação metálica. É a pedra que
forma com a rocha uma só massa e que, no entanto, deve ser extraída para ser lavrada na forma de
pedra cúbica perfeitamente enquadrada. É a cruz dos elementos sobre cujo centro deve germinar a
rosa vermelha e perfumada da alma.

Porém, é a Iniciação que verdadeiramente gera no Membro Aderente Martinista uma nova condição,
graças à qual chega a libertar-se dos preconceitos do mundo comum e corrente, como culminação de
certa Iluminação pessoal. Essa Iluminação, por outro lado, lhe confere maior fortaleza e poder
espiritual.

Desta maneira, o Membro Aderente vê como se abre diante de seus olhos um novo Caminho. As
Verdades Cósmicas começam a serem-lhe paulatinamente reveladas com ajuda do simbolismo, que
constitui a chave de marfim que lhe será entregue para que decifre os mistérios e enigmas de seu
próprio ser e do universo que o circunda, chave de que necessitam os profanos.

Consequentemente surge a possibilidade, assim como o dever, de utilizar a nova luz, de que ficou
provido, no SERVIÇO DESINTERESSADO E IMPESSOAL DA HUMANIDADE. Desta maneira,
o Iniciado Martinista deve transformar-se em um foco de irradiações, livrando-se do egoísmo de
toda classe de interesses mesquinhos. Esta irradiação ou emissão de luz é, simultaneamente, calor,
energia e poder.

Tal poder é o resultado de uma espécie de indução mental que circula do Iniciador ao Iniciado,
criando-lhe uma nova condição mental. Ela é exaltada mediante uma polarização magnética, gerada
pela ação do Iniciador e do Cerimonial, destinada a pôr em conexão o Membro Aderente com a
Egrégora Invisível que participa dos trabalhos da Ordem. Tudo isto tende a criar um equilíbrio mais
perfeito em todas as atuações do Iniciado. Não há dúvida que se estabelece uma corrente espiritual
entre o doador e o recebedor, o que cria a harmonia.

Uma vez despertada essa harmonia, constitui um novo poder que tem caráter permanente: “Tu és
sacerdos in aeternum”; e o que de tal maneira fica estabelecido jamais poderá ser desfeito, ainda
que o novo Iniciado chegue, posteriormente, a cair em indignidade.
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O Iniciador Martinista é um pai para seus Iniciados e quando nasce um filho para dito pai, essa
condição não poderá ser alterada no futuro.

Essa influência espiritual ou poder iniciático foi transmitida de homem a homem, através de uma
Cadeia ininterrupta de Iniciados, na sucessão dos tempos e das idades. Os Iniciados têm sido,
sempre, os veículos humanos da Luz e do Poder Espiritual. É o que pode simbolizar a frase
Sucessão Apostólica.

A referida influência espiritual transmite-se com a ajuda de um ritual especial, que tem a virtude de
abrir caminho a uma corrente de influências Superiores; produz-se a intervenção de certas forças
espirituais onipresentes que atuam como catalisadoras e que queimam o sedimento e o lastro que
consigo trazem os Homens de Desejo, começando então, a nascer, no interior do Associado
Martinista o Novo Homem: o Cristo Interno ou Mestre Interior. Porque, como disse ECKHART:
“De nada adianta Cristo nascer mil vezes em Belém se não nascer em teu coração”.

O Martinista é, simultaneamente, beneficiário e veículo deste poder ou influência espiritual. Em


conseqüência, os SS. II. II. assumem obrigação de irradiá-lo e com este propósito devem eleger um
discípulo ou grupo de discípulos que cheguem a ser seus substitutos e sucessores para que fique
assegurada a permanência ininterrupta da Cadeia Iniciática. Receberam de seus antecessores a
Sagrada Tocha e devem, por sua vez, transmiti-las cuidando para que a chama não se apague ou
fique abafada pelas cinzas da negligência ou da indignidade.

A Iniciação Martinista é Iniciação Real; é diferente das Iniciações meramente simbólicas ou


filosóficas, que se limitam a transmitir uma série de símbolos e doutrinas de caráter teórico. O
Martinismo trabalha com forças inerentes a seu ser físico e psíquico, assim como as energias
Cósmicas. Ao ser Iniciado e ao participar do trabalho litúrgico da Ordem, ajuda a movimentar sua
Cadeia Invisível. O trabalho Martinista diferencia-se do trabalho das Ordens simbólicas e filosóficas
porque é essencialmente Operativo.

Isso implica em sérias responsabilidades e a ameaça de um castigo indescritível a quem se atreve a


usar este poder para obter lucros materiais egoístas, para satisfazer apetites sexuais ou prazeres
mundanos em luta com a ética; ou a quem tente comerciar com as Iniciações, trocando diplomas ou
cartas constitutivas por dinheiro. A Egrégora não o permite e sua reação é sumamente drástica.

Os rituais mágico-teúrgicos geram um ambiente astral e fluídico que rechaçam a quem não possua
pureza de propósitos e de intenção. É por isso, que no capítulo anterior como neste, insistimos neste
ponto importantíssimo.

Isto que foi dito não significa que o Iniciador ou os Irmãos dos Centros Martinistas recorram a
medidas especiais para castigar aquele que caiu em falta. O que acontece é muito diferente. Através
do cerimonial da Ordem Martinista, põem-se em movimento certas forças espirituais de caráter
evolutivo e espiritualmente muito elevadas e poderosas.

Recorrendo a uma analogia convido-os a imaginar um imenso rio que nasce na montanha e faz
descer suas águas até o Oceano (=Consciência Cósmica). Contemplamos suas águas cristalinas,
serenas e aprazíveis. Se nos lançarmos na água, segundo o curso da corrente a experiência será
agradável e fácil. Ao contrário, se nadarmos contra seu curso chegará o momento nos será mais
difícil prosseguir; se, não obstante esta dificuldade perseveramos em nosso empenho, vai chegar o
momento em que nos sentiremos extenuados e desfalecidos, correndo o perigo de ser arrastados
pelas águas, batendo-nos contra as rochas das margens e ainda afogando-nos. A situação seria ainda
mais séria, quando quem procede dessa maneira for um temerário que nem sequer sabe nadar; em
tal caso, o perigo seria ainda muito maior.
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A única coisa que pode fazer nossa Ordem é afastar da Iniciação quem ainda careça de certa
maturidade espiritual e moral, e prevenir destas circunstâncias quem considerar digno de receber a
Iniciação Martinista. Com respeito a estes temerários e imprudentes, que se empenham em nadar em
sentido contrário à corrente evolutiva, só nos cabe orar por eles, a fim de que a ligação dolorosa
coloque-os futuramente, de forma definitiva, no caminho da Reintegração Espiritual.

A Iniciação Martinista constitui individualmente, uma fonte inestimável de elevação e superação.


Este último estado é o que os Martinistas denominam Reintegração. Sustentam os ensinamentos
tradicionais do Martinismo que a humanidade, primitivamente, desfrutava de um estado espiritual
sumamente elevado, no seio do Eterno Pleroma (a esfera, plano ou reino mais próximo da
Divindade), estado do qual caiu a humanidade, ficando prisioneira nas redes da matéria. O trabalho
do Martinismo em conseqüência, consiste em ajudar os seres humanos a compreender e adiantar-se
em relação à humanidade corrente, na marcha desta até o destino que lhe for designado pelo Ser
Supremo (ler e meditar na parábola do Filho Pródigo: Evangelho segundo São Lucas; capítulo 15,
versículos 11 a 32), reintegrando-se ao Divino Pleroma, de onde saiu para vagar pelo Cosmos pelas
infinitas mansões do universo material e psíquico. Todo este princípio da Queda e da Reintegração
dos Seres está simbolizado, precisamente, no nome do grupo Martinista BETHEL. Em hebraico se
escreve (da direita para a esquerda): Beth, Iod, Thau, Aleph, Lamed. Corresponde à teofania (=
manifestação ou aparição da Divindade) que experimentou Jacob e que é consignada no Gênesis,
capítulo 28, versículos 10 a 22, que reproduzimos:

“E saiu Jacó de Beer-Seba e foi a Harán; e encontrou um lugar e ali dormiu, porque o sol já se
havia posto; e tomou das pedras daquele lugar e colocou-as em sua cabeceira e encostou-se
naquele lugar.”

“E sonhou ele que uma escada estava apoiada na terra e sua cabeça tocava no Céu, e que anjos de
Deus subiam e desciam por ela.”

“E Jehová estava no alto dela, e que disse: Eu sou Jehová, o Deus de Abraham, o Deus de Isaac; a
terra em que estás deitado darei a ti à tua semente.”

“E será tua semente como o pó da terra, e te estenderás ao ocidente e ao oriente, de norte a sul; e
todas as famílias da terra serão benditas em ti e em teus semelhantes.”

“E estou contigo e te guardarei por onde fores, e te farei voltar a esta terra, porque não te deixarei
até quando hajas feito o que te disse.”

“E despertou Jacó de seu sonho e disse: Certamente Jehová está neste lugar e eu não o sabia.”

“E teve medo e disse: Que terrível é este lugar! Não é outra coisa que casa de Deus e porta do
céu.”

“E levantou-se Jacó pela manhã e tomou da pedra que havia posto em sua cabeceira, elevou-a e
derramou azeite sobre ela.”

“E chamou o nome daquele lugar Beth-el, já que luz era o primeiro nome da cidade.”

“E Jacó fez voto dizendo: Se Deus for comigo e me guardar nesta viagem e me der pão para comer
e vestido para vestir.”

“E se retornar em paz à casa de meu pai, Jehová será meu Deus.”


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“E esta pedra que coloquei por título, será a casa de Deus; e de tudo o que me deres, hei de
apartar o dízimo para ti.”

As fileiras de anjos que descem e que sobem simbolizam as Ondas de vida que o Ser Supremo, o
Ancião dos Dias, emanam de Si e que descem até a matéria, coagulando-se ou involuindo,
revestindo-se de formas cada vez mais densas e às quais anima, até alcançar o máximo de
materialidade e condensação. Em seguida, esta onda de Vida sobe do ponto máximo de
condensação e materialidade, para retornar ao Pleroma, que denominamos evolução, onde é
necessário libertar-se cada vez mais das formas, mediante a sutilizarão ou sublimação das forças.

Em outras palavras, trata-se do vôo que realiza a alma humana, através dos Mil Véus da Ilusão. Do
estado de plenitude na Unidade, cai na Multiplicidade, que se caracteriza porque nesta condição
rege a necessidade, a tensão e a construção, para novamente, subir até a Unidade ou Reintegração do
Ser em seus primeiros princípios.

Eis porque todas as Escolas de Mistérios tem considerado o homem um deus caído e encadeado à
terra ou mundo físico, morada na qual jamais poderá encontrar a imperecedoura felicidade. Às
vezes tem a vaga recordação de sua glória passada. Outras vezes sente a desilusão, a amargura, e o
tédio do estado de máxima materialidade, de máxima descida e cristalização própria da esfera física.
Em outras oportunidades, apaixona-se por flores e frutos encantados e belíssimos que existem no
Jardim do Plano físico. Luta por isto, rola pelo solo e se lastima por conseguí-los. No entanto, logo
que os tenha na palma da mão observa entristecido, como se transformam em cinzas... e assim
continua vagando por este formoso Jardim, presa de infinitos brilhos e ilusões, em um estado que se
assemelha ao sonho. Através da vida após vida, de encarnação após encarnação prossegue sua
peregrinação até que, de repente, começa possivelmente a intuir que talvez tudo não seja mais que
um belo e apaixonante jogo... e se detenha a pensar que talvez em todas essas sombras que o
apaixonam, nada exista na realidade e que seja ele somente que lhes dá o sentido, prestando-lhes
uma realidade, da qual por si mesma carecem. É possível então que cesse a ilusão e a alma
encontra-se novamente desperta e pronta para começar seu retorno ou processo de reintegração.
Então, todo o seu futuro progresso caracterizar-se-á pelo máximo desenvolvimento de seu princípio
consciente até que este chegue a harmonizar-se perfeitamente com a Unidade Divina. E da mesma
forma que a gota de água, entre as infinitas gotas que formam o caudal do rio que há pouco
imaginávamos, desemboca e se funde nas águas do Oceano Infinito da Divindade.

Então, a Onda de vida, formada por todos os Seres Vivos que animam o Universo material (não só
os seres humanos) retorna ao Divino Pleroma e logo se reintegra no seio da própria Divindade e o
Universo deixa de existir, dissolvendo-se no Nada Primordial (melhor dito, na energia primordial).
É a Noite Cósmica que dura até que, novamente, a Divindade emane de Si outro Universo, para logo
emanar de Si Infinitas Hierarquias de Seres, que vão povoar e animar suas esferas, planos e
moradas, começando o Período de Manifestação Cósmica ou Dia Cósmico.

Tradicionalmente, se fez uma diferença entre Deus Manifestado e Deus Imanifestado,


simbolizando-se isto com um Triângulo Equilátero com um Olho em seu centro, aberto ou fechado,
conforme o caso. Nas Escolas Egípcias simbolizava-se esta situação da mesma forma que nas
tradições Hindus com a Ave Hamsa que no Céu celeste punha um Ovo Cósmico, dentro do qual
involuía e evoluía um Universo. Logo voltaremos a este tema.

Neste último capítulo Preparatório, destinado aos Membros Aderentes que estão sendo preparados
para sua Iniciação na Ordem Martinista, aproveitamos a oportunidade para nos referirmos à atitude
que deverão assumir os futuros “Associados” com seu Iniciador e com seus Irmãos e Irmãs
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Martinistas. Certamente, através da leitura deste livro, já deram se conta de quão difícil é o trabalho
dos SS. II. II. ou Presidentes dos Grupos Martinistas.

Em razão de suas Promessas e Juramentos prestados em sua Iniciação, os Iniciadores tem o honroso
e nobre trabalho de serem, na realidade, verdadeiros Pais Espirituais para seus Iniciados. Isto lhes
impõe uma série de compromissos e obrigações livre e espontaneamente aceitas. Em tal qualidade,
os Iniciadores estão obrigados, ante sua própria consciência, a dar de si para o êxito de sua missão, o
quanto lhes seja possível, com pleno desinteresse, sem pedir nada, absolutamente nada, nem
favores, serviços ou dinheiro, a seus Iniciados, salvo em caso de extrema urgência ou necessidade e,
ainda assim, é preferível que não o façam. Já se disse que dentro do possível, nos Grupos e Centros
Martinistas, não se deve cobrar quotas, a menos que isso seja indispensável para financiar os gastos
de aluguel do local, que por sua quantia seja difícil de ser pago pelo Presidente.

Os Presidentes dos Grupos Martinistas devem ser respeitados como a máxima autoridade
hierárquica dentro de seu Grupo, já que sobre eles recai a grande responsabilidade de serem os
Orientadores Espirituais e Intelectuais de seu Grupo de Iniciados, assim como os transmissores da
Tradição Martinista consignada nos rituais e livros de Iniciação.

Nenhum Irmão ou Irmã deve solicitar aumentos de grau a seu Iniciador, mas trabalhar bem, em
silêncio e com sinceridade, até ser convidado a participar no trabalho do grau superior.

Por outro lado, todos os Martinistas estão unidos entre si pelos laços da mais pura fraternidade, o
qual requer delicadeza no trato recíproco. O Martinista jamais trata de impor suas idéias, somente
insinua, sugere e cala. Interessa-lhe, sobretudo, demonstrar com a retidão de sua própria vida, a
verdade dos princípios que sustenta.

Todo Grupo Martinista caracteriza-se por ser uma verdadeira reunião de Filósofos Desconhecidos
nos quais é impossível que prime a paixão, o amor próprio, a vaidade ou orgulho. Na serenidade dos
Templos Martinistas só se trabalha com Clichês Cósmicos e em presença da Cadeia Invisível da
Ordem. Movem-se e dinamizam-se idéias, sentimentos superiores, dentro de um ambiente da mais
absoluta paz e serenidade, de tal maneira que, como relâmpago e raios, as influências geradas e
produzidas mediante o trabalho ritualista possa difundir-se através da aura fluídica da terra, levando
consolo, paz, fortaleza, inspiração e novos ideais a quem carece deles. É por isso que os Martinistas
são os verdadeiros colaboradores do Espírito Crístico crucificado e que com seu Abnegado
Sacrifício permitiu a evolução dos seres que animam o planeta. Sua encarnação sublime manifestou
se através do Mestre Jesus... Já se disse que a Ordem não dogmatiza, nada manda nem ordena a seus
Iniciados. Só lhes expõem certos ensinamentos, lhes assinala certos ideais e práticas, e logo... deixa
a cada um o dever de assumir a responsabilidade de vivê-los e aplicá-los em sua própria vida.

Cada um é livre de aceitar o que se lhe ensina ou deixar para o futuro. Isto entra dentro da
autonomia e liberdade interior de cada ser humano, que o Martinismo respeita sobre todas as coisas.

A missão essencial de cada grupo Martinista é, na realidade, de formar iniciadores capazes de


organizar e presidir, no futuro, seu próprio Grupo de Iniciados, dessa maneira, fica assegurada a
continuidade e perenidade da Ordem. É assim que os ensinamentos que está recebendo cada
Martinista de 1º, 2º ou 3º graus - este já vinculado a um grupo ou trabalhando isolado - estão
destinados a servir-lhe de ponto de apoio para que elabore, posteriormente, e uma vez investido da
qualidade de Iniciador e Presidente de Grupo, seus próprios ensinamentos para instruir a seu
grupo de Iniciados que lhe corresponderá Iniciar e orientar no futuro.

Em conseqüência, nas reuniões, o trabalho de cada Martinista, independente do grau que possua,
deve ser ativo. Isto significa que deve perguntar, interrogar, analisar, meditar, criticar
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construtivamente. Deve, desta maneira, ir VIVENDO O MARTINISMO. Em conseqüência, quando
tiver a responsabilidade de presidir seu próprio Grupo, possuirá sua própria síntese filosófica e
teúrgica; síntese vivida pessoalmente, tanto na esfera espiritual, como na intelectual, emocional e
física. Não esquecer jamais que cada Associado deve agir em função do trabalho que lhe espera no
futuro. Chegará o momento em que deverá assumir essa nobre e delicada responsabilidade, sem
poder negar-se a isso e por um imperativo de sua própria consciência interna.

“Ninguém, depois de acender uma candeia, a põe em lugar escondido, nem debaixo do alqueire,
mas no velador a fim de que os que entrem vejam a Luz.”

(Lucas: 11-33)

FIM

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