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O Mensageiro

Por Daniel Rosa

Os céus vermelhos tremiam. Os raios negros desciam com fúria, vindos de todas as partes. As nuvens, negras, brancas,
amarelas e de toda a sorte de cores se misturavam, se juntavam e rodopiavam. A terra ferida sangrava seu magma incandescente. Ali,
aonde todas as nuvens, vapores, raios e gases convergiam, estava a última Boca do Inferno aberta ao plano terrestre que restava no Velho
Mundo. Era o último dos portais a se fechar. No interior do portal, o Plano da Noite Eterna... certamente era um dos piores planos para se
habitar. À frente do portal, estava um dos habitantes deste local, de pé, sem nem mesmo ser afetado pelo poder de sucção do portal, sobre
uma pilha de mortos nativos daquele plano terrestre tão lindo, que, embora tenham nascido de pois de que este já tivesse sido dominado,
eram os donos por direito daquele lugar. Por enquanto. De fato, a criatura poderia ficar na Terra eternamente. Mas não era hora. O tempo
iria chegar e ele e seus irmãos iriam reclamar a coroa.
— Um outro anoitecer — diz, enquanto olha, sonhador, para a paisagem do local, não tão linda quanto é normalmente, graças
à abertura do portal.
Logo, a criatura levanta um dos homens que estava aos seus pés, ferido e derrotado, e olha profundamente para os seus olhos
negros. O mortal tremia de medo. Fedia a humanidade. Exalava fraqueza. Ele implorava por piedade. Seus braços magros até mesmo
soltam a clava que segurava, por não suportar mais lutar. Seus músculos se contraem... A adrenalina... O batimento acelerado... O sangue
correndo, tão quente, tão rápido... Ele até tenta se soltar da mão do demônio, como um rato tenta escapar das garras de um predador pelo
menos cinco vezes mais forte que ele... e o predador apenas sorri. Era ótimo brincar com comida... Mas agora, aquele mortal não seria
devorado. Ele seria eterno. O demônio encara o humano. E este se apavora mais do que poderia se apavorar com qualquer outra coisa.
Ganha mais forças devido ao seu medo. Mas, logicamente, não é o suficiente nem para fazer o braço do demônio se mexer.
— Me ouça! — grita o demônio na língua dos mortais, fazendo o humano ficar tão estático quanto uma apavorada estátua de
pedra — Você não merece, é um fraco como a todos os de sua repugnante raça, mas farei o que farei para que ninguém se esqueça... Farei
de você meu filho e Mensageiro... E minha Mensagem será colocada em você... Serás mais forte, mais ágil e mais terrível que qualquer
um de sua raça, para que possa espalhar a Mensagem... Então preste atenção à ela... Em cada palavra... EU exijo que não te esqueças
nunca: você e seus filhos deverão predar seus iguais e controlá-los, para que eu e meus iguais, seus mestres, ao voltarmos, possamos
tomar conta do lugar que é nosso por direito. Para que todos os seus filhos façam isso sem nem mesmo exit ar, imbuirei em você a sede
pela vida dos seus iguais e retirarei deles qualquer bondade que exista em seus corações... Receba a sua marca, criatura: você é filho de
Jork! Nasceu para nos servir e serás incapaz de morrer até que cumpra sua missão! E, até que nós voltemos, exijo que espalhe a
Mensagem!
O pescoço do mortal então se quebra, após ouvir a ultima sentença. Após assassinar o humano, o demônio o solta, deixando
que ele caia no chão. Ele olha para trás. Suspira novamente. E entra pelo portal, que n este mesmo instante, se fecha e deixa como sempre
foi a paisagem do local: bela, agradável, suave.
E quando a noite caiu, naquele mesmo lugar, levantou o homem que fora amaldiçoado com a obediência eterna. Com o tempo,
teve filhos. Com o tempo, ele e seus filhos foram amaldiçoados com mais fraquezas por bruxos ou deuses que eram contrários às suas
ideologias. Com o tempo, seus netos e bisnetos foram ficando diferentes, mais humanos. Com o tempo, não sabia nem mais quem eram
eles, nem quantas gerações passaram-se, mas sabia que não foram apenas séculos. Foram milênios roubando vidas e tentando adquirir o
controle. Suavam, mas não se deixavam cansar. Sentiam a dor, mas não se deixavam sofrer. E esta criatura que era incapaz de morrer,
ainda que seus descendentes tivessem adquirido diversas vulnerabilidades, tornou-se um dos únicos que ainda poderia dizer que viu um
milênio passar, dada a fraqueza a que chegaram as diversas linhagens que surgiram do seu sangue.
Até que o tempo chegou. Os Jork retornaram. E tomaram seu poder. O Primeiro dos Vampiros não havia cumprido sua
função, a de dominar a humanidade, ainda que tenha tentado (afinal fora derrotado diversas vezes pelos campeões que os Poderes Que
Valem colocaram em seu caminho). Até que um dia O Primeiro dormiu e se esqueceu. E foi esquecido. Hoje, existem menos de 8
criaturas no plano Terrestre que sequer tenham ouvido a fábula que foi a sua vida. Poucos sabem que ele destruiu mais de uma civilização
inteira, que tinha poderes capazes de fazer frente a cem homens.
Mas o seu criador não se esqueceu dele. Estava na hora do Mensageiro acordar.