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.

Em A conJiçãq

pressupostos :que .
anunciavam a
tt.ansforxnação radical na
maJiteira como o iJI;lÓer é
produzido,.distribuído e

legitimado nas, á:,r.eas 'máisr
.aV'an.ç. . capita;l~sru
. , á das ,do r , , ll
~

contellílPt>râneo.
· Livro seminal, escrito
por um dos mais ftu:iosos
cpticos da pós-modernidad~
,.

·Bem-vindo rugate
Passados praticamente vinte anos desde
seu lançamento em 1979, o livro mais
conhecido de Jean-François #Lyotard
mantém séu poder esclarecedor, ao tra- Universidade federal do Par"
çar de maneira extremamente nítida e
BIBLIOTECA CENTRAL
PPG em Comunicação
sucinta um panorama das transforma-
ções mais profundas que afetam a cultu-
ra ocidental neste nosso fim de século. ~CONDIÇÃO
Na verdade, o arco histórico das trans- POS-MODERNA
formações estruturais abordadas no livro
estende-se entre doid finais de século.
Neste sentido, o panorama de tendências
de curto, médio e longo prazos apontado
por Lyotard vinha sendo preparado, no
nível das condições básicas de produção
de conhecimento e tecnologia, desde os
saltos científicos ocorridos já na . virada
-----...___
D.:tta .... ~ ... ../. ...
T R PRO f I
N. F. i..3J-{S
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············• :2.9~.1.
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· ······· .. 1
do século XIX para o XX. A estrutura FOiiflJECE~~~-~·;~·····························
interpretativa trabalhada em' A condição
pó.:~-moderna é fiel ao essencial da dialética
histórica hegeliano-marxista. Ou seja,
analisa de que maneira uma sucessão de
·-
/ c4: K!>.if,.Z··i-~.D.,QQ_J'º·-Vo
····------·-·

transformações quantitativas pequenas


acaba por determinar um salto qualitati-
vo, uma mudança de época. Do moderno
ao pós-moderno.
A presente edição traz uma novidade
significativa. Corrige o título, restabele-
cendo a correspondência estrita com o
original. Lyotard escreveu um livro so-
bre a condição pós-moderna e não sobre o
"pós-moderno". Nos anos 80, falar em
"pós-moderno", como algo pronto e aca-
bado, era sintoma de um tipo de abor-
dagem fetichista, estilo "nova era", que ia
completamente contra o espírito do texto
de Lyotard. O fJósofo irritava-se pro-
fundamente com esse tipo de apropria-
ção de seu pensamento, bastante comum
entre intelectuais "pós-modernistas"
JEAN-FRANÇOIS LYOTARD

UNIYERSIDt,OE FEDERAL DO PARÁ


BIBLIOTECACENT R~L

.L\ CONDIÇÃO
POS-MODERNA
Tradução
RICARDo CoR.RM BARBosA

Posfácio
SILVIANO SANTIAGO

12a edição

JOSÉ OLYMPIO
EDITORA
Título do original francês: UNIVERSIDADE fEDERAl DO PAR~
IA CONDmON POSTMODERNE BIBLIOTECA CENTRAL

© Les Éditions de Minuit, 1979

Reservam-se os direitos desta edição à


EDITORA JOSÉ OLYMPIO LIDA.
Rua Argentina, 171 -3° andar- São Cristóvão
20921-380- Rio de Janeiro, RJ- República Federativa do Brasil
Tel.: (21) 2585-2060 Fax: (21) 2585-2086
Homepage: www.record.com.br
Printed in Brazill Impresso no Brasil

Atendimento e venda direta ao leitor NOTA


mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002
EDITADO pela primeira vez no Brasil, por
ISBN 978-85-03-00638-5 esta Casa, em 1986, este livro recebeu o
título de O pós-moderno, até sua quarta
edição. Quase vinte anos depois de escrito
- Lyotard o publicou na França, em
Capa: VICIOR BUKI'ON
1979-, procuramos resgatar seu título
original: A condição pós-moderna, por
UNIVERSIDADE FEDERAl DLi' ARÁ representar mais fielmente as idéias do
BIBLIOTECA CENTRAL autor.

Este volume traz um posfácio, assinado


pelo crítico Silviano Santiago, em que assi-
nala a importânCia do pensamento de um
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte dos filósofos mais combativos do nosso
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. século, morto, aos 73 anos, em 22 de abril
Lyotard, Jean-François de 1998.
L997C A condição pós-moderna I Jean-François Lyotard; tradução: Ricardo
12 a ed. Corrêa Barbosa; posfácio: Silviano Santiago - 12 a ed.- Rio de Janeiro:
José Olympio, 2009. Setembro 1998

Tradução de: La condition postmoderne.

l. Pós-modernismo. 2. Civilização moderna - 1950- I. Título.

CDD- 363.4
09- 1400 CDU- 301.175

)I
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
BIBLIOTECA CENTRAL

SUMÁRIO

TEMPOS PóS-MODERNOS ( Wilmar do Valle Barbosa)................... vii


INTRODUÇÃO................ ................................................ ..... ....... XV

A CONDIÇÃO
PÓS-MODERNA

O campo: o saber nas sociedades informatizadas .. :::'..... . 3


O problema: a legitimação .. ....'(..... ....... ....... .. ..... ........ ....... 11
O método.: os jogos de linguagem :.-................................. .. 15
A natureza do vínculo social: a alternativa moderna ... .'::.. 20
A natureza do vínculo social: a gerspectiva pós-moderna 27
' . d o sa b er narrattvo
Pragmauca . ~ ............................................ . 35
Pragmática do saber científico .......................................... .. 44
A função narrativa e a legitimação do saber ........ ............. . 51
Os relatos da legitimação do saber. ........... ..... ................... . 58
A deslegitimação ........................................................... ....... 69
A pesquisa e sua legitimação pelo desempenho .............. . 77
O ensino e sua legitimação pelo desempenho ................. . 88
A ciência pós-moderna como pesquisa de instabilidade .. 99
A legitimação pela paralogia ..... .. .... ... ........... .. .................. .. 111

POSFÁCIO: A EXPLOSIVA EXTERIORIZAÇÃO DO SABER (Silvíano


Santiago) ... .... .. ... . . .. ........ .. ........ ............ ............ ...... ..... ... ... 125
UNIVERSIDADEFEDERAl 00 PARÁ
BIBLIOTECACENTRAL

TEMPOS POS-MODERNOS

"A verdade é que a ciência favoreceu a


idéia de uma força intelectual rude e só-
bria que torna francamente insuportável
todas as velhas representações metafísicas
e morais da raça humana."

(Robert Musil,
O homem sem qualidades, I)

CoM o início, por volta dos anos 50, da chamada "era


pós-industrial", assistimos a modificações substantivas nos
estatutos da ciência e da universidade. O mais im portante
nesse processo de modificação, cuja origem encontra-se na
"crise da ciência" (e da verdade) ocorrida nos últimos de·
cênios do séc. XIX, não foi apenas a eventual substituição
de uma "má" concepção da ciência (a empirista, por exem-
plo) por outra qualquer. O que de fato vem desde então
ocorrendo é uma modificação na natureza mesma da ciên-
cia (e da universidade) provocada pelo impacto das trans-
formações tecnológicas sobre o saber. A conseqüência mais
imediata desse novo cenário foi tornar ineficaz o quadro
teórico proporcionado pelo filósofo (leia-se: meta físico)
moderno que, como sabemos, elegeu como sua questão a
problemática do conhecimento, secundarizando as ques-
tões ontológicas em face às gnoseológicas. Mas, ao proce-
der dessa maneira, fez da filosofia um metadiscurso de
legitimação da própria ciência. A modernidade do quadro
'teórico em questão encontra-se exatamente no fato de con-
ter certos récits aos quais a ciência mndema teve que re-
correr para legit imar-se como saber: dialética do espírito,
, emancipação do sujeito razoável ou do trabalhador, cres-
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cimento da riqueza e outros. Desde o mamemo em que A ciência, para o filósofo moderno, herdeiro do Ilu-
se invalidou o enquadramento metafísico da ciência mo- m_inismo, era vista como algo auto-referente, ou seja, exis-
derna, vem ocorrendo não apenas a crise de conceitos ca- tra e se renovava incessantemente com base em /si mesma.
ros ao pensamento moderno, tais como "razão", ((sujeito", Em outras palavras, era vista como atividade "nobre" ((de-
"totalidade", 1'verdade", ((progresso". Constatamos que ao sinteressada", sem finalidade preestabelecida, send~ que
lado dessa crise opera-se sobretudo a busca de novos en- sua função primordial era romper com o mundo das ((tre-
quadramentos teóricos ('(aumento da potência", '(eficácia", vas", mundo do senso comum e das crenças tradicionais
((optimização das performances do sistema") legitimadores contribuindo assim para o desenvolvimento moral e espi~
da produção científico-tecnológica numa era que se quer ritual da nação.
pós-industrial. O pós-moderno, enquanto condição da cul- Nesse contexto, a ciência não era sequer vista como
tura nesta _!ra, caracteriza:ieexata1J2_ent_g__JZela incredUlida- "valor de uso" e o idealismo alemão pôde então concebê-la
de perante o rnetadiscun_g ilosófico-metafísico, com suas como fundada em um metaprincípio filosófico (a ((vida di-
pretensões atemfl_or4is_e_1JJ1iJ2ff__SJJ.lÍZJ1J.ztes~ vina", de Fichte, ou a ((vida do espírito", de Hegel) que,
_ O cenário pós-moderno é essencialmente cibernético- por sua vez, permitiu concebê-la desvinculada do Estado
d~ sociedade e do capital, e fundar sua legitimidade e~
informático e informacional-:-Neze, expandem-se ca a vez sz mesma.
mais os estudos eas pesqÍtisas sobre a linguagem, com o "Nação" e ((ciência" caminharam juntas, por exem-
objetivo de conhecer a mecânica da sua produção e de plo, na avaliação humboldtiana, de sabor humanístico-libe-
estabelecer compatibilidades entre linguagem e máquina in- ral, e que esteve na base da criação da Universidade de
formática. Incrementam-se também os estudos sobre a ((in- Berlim (1807-10), modelo para muitas organizações uni-
teligência artificial" e o esforço sistemático no sentido de versitárias nos meados do séc. XX.
conhecer a estrutura e o funcionamento do cérebro bem No entanto, o cenário pós-moderno, com sua ((voca-
como o mecanismo da vida. Neste cenário, predominam ção" informática e i11/ormacional, ((investe" sobre esta
os esforços (científicos, tecnológicos e políticos) no senti- concepção do saber científico. Como muito bem notou
do de informatizar a sociedade. Se, por um lado, o avanço Alfred N. W hitehead, o séc. XX vem sen o o pa!Có de
e a cotidianização da tecnologia informática já nos im- Uffradesco erta unaamental. Descobriu-se que a fonte de
põem sérias reflexões,' por outro lado, seu impacto sobre tod~s...3._s fontes chama-se informação e que a ciência -
a ciência vem se revelando considerável. asstm como- qu-arquer-mo-dalíáade de conhecimento -· - na-
da mais é do que um certo modo de organizar,_ estocar e
distribuir certas informações. Longe, portanto, de co~ti­
' Reflexões sobre quest.Jes éticas (direito à informação). questões de·
. ontoló)!icas (relativas à privacidade. à vida privada) questões jurídico-po-- nuar tratando a ciência como fundada na ((vida do espíri-
líticas (transmissão transfronteira de dados - transborder data flow) e a ,t o". ou na ((vida divina"; o cenário pós-moderno começa
questão da soberania e da censura estatal; quc:stõcs culturais (diversidade a ve-1~ como um conjunto de mensagens possível de ser
e identidade cultural e a pos~ívcl homogeneidade da mensagem telemá·
tica transmitida por satélite}; questões político-sociais (democratização da
tradttzrdo em ((quantidade {bits) de informação". Ora, se
informação. rediscussão da censura. pertinência sociocultural da infor- as máquinas informáticas justamente operam traduzindo as
fl1<l<.;ilul mensagens em bits de informação, só será ((conhecimento
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científico" certo tipo de informação traduzível na lingua- newtoniana à recuperação da noção de ((acontecimento" ,
1
gem que essas máquinas utilizam ou então compatível com uacaso" na física, na biologia, na história, o que temos
ela. O que se impõe com o tratamento informático da é a crise de uma noção central nos dispositivos de legiti-
"mensagem" científica é na verdade uma concepção ope- mação e no imaginário modernos: a noção de ordem. E
racional da ciência. Nesse contexto, a pesquisa científica com ela assistimos à rediscussão da nocão de "desordem"/
passa a ser condicionada pelas possibilidades técnicas da o que por sua vez torna impossível submeter todos os dis-
máquina informática, e o que escapa ou transcende tais cursos (ou jogos de linguagens) à autoridade de um meta-
possibilidades tende a não ser operacional, já que não pode discurso que se pretende a síntese do significante, do sig-
ser traduzido em bits. Assim sendo, a atividade científica nificado e da própria significação, isto é, universal e
deixa de ser aquela praxis que, segundo a avaliação hu- consistente.
. manístico-liberal, especulativa, investia a formação do ((es- Por isso mesmo é que as delimitações clássicas dos
pírito", do "sujeito razoável", da "pessoa humana" e até campos científicos entram em crise, se desordenam. Desa-
mesmo da "humanidade". Com ela, o que vem se impondo parecem disciplinas, outras surgem da fusão de antigas;
é a concepção da ciência como tecnologia intelectual, ou as velhas faculdades dão lugar aos institutos de ensino e f ou
seja, como valor de troca e, por isso mesmo, desvincula- pesquisa financiados pela iniciativa privada, pelo poder pú-
da do produtor (cientista) e do consumidor. Uma prática blico ou por ambos. A universidade, por sua vez, enquan-
submetida ao capital e ao Estado, atuando como essa par- to produtora de ciência, torna-se uma instituição sempre
ticular mercadoria chamada força de produção. mais importante no cálculo estratégico-político dos Esta-
Esse processo, fruto da corrosão doS-d.is_~o­ dos atuais. ~ a revolução industrial nos mostrou que sem
dernos-'de ex lica ão da ciência, é muitq a..J!!!!P_riadaJf!!.!!.tC r' ueza ão se tem tecn LQgia....J mesmo ciência, a Cõitdi-
· eszgnado por Lyotard pela expressão "desle itimação". No
ção ás-moderna nos vem mº-!JJ:4nd_Q .fJ.Ue se saber cien-
emzrffto,e le não se a apenas em unção da corrosão do
tífico e técnico não se te111.__riq.ueza. Mais do que isto: mos-
"dispositivo especulativo" (Idealismo alemão, Hegel) ou
do "dispositivo de emancipação" (Iluminismo, Kant, Marx). Úa-nos, através da concentração massiva, nos países ditos
Essa corrosão (que Nietzsche entendeu ser uma das raí- pós-industriais, de bancos de dados sobre todos os saberes
zes do "Niilismo europeu"), muito bem captada em nar- hoje disponíveis, que a competição econômico-política
rativas como Pais e filhos (Ivan Turgueniev), O homem entre as nações se dará daqui para frente não mais em
sem qualidades (Robert Musil) e Sonâmbulos (Herman função primordial da tonelagem anual de matéria-prima ou
Broch), fez surgir novas linguagens que escapam às deter- de manufaturados que possam eventualmente produzir.
minações teóricas dos dispositivos modernos e aceleram sua Dar-se-á, sim,_sm funçg_Q _flCLA-Uant.idad~ão
c
própria deslegitimação. Da segunda lei da termodinâmica
à teoria da catástrofe, de René Thom; do simbolismo quí-
,1 Cf. Communications, n.o 18, 1972 (número especial sobre a retomada
mico às lógicas não-denotativas; da teoria dos quanta à da noção de acontecimento pelas ciências contemporâneas).
física pós-quântica; do uso do paradigma cibernético-infor- 2 Sobre a centralidadc dessa rediscussão na atual fase da pesquisa cientí-
fica, cf. Edgar Morin, La methode 1: La nature de la nature: La methode
mático no estudo do código genético ao ressurgimento da li: La vie de la vie e Le paradigme perdu: la nature humaine, todos
cosmologia de observação; da crise da W eltanschauung pela :E.ditions du Seuil, Paris em 1977, 1980 e 1973, respectivamente.
X xi
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA
BIBliOTECACENTRAL

técnico-cientí ica ue a · des e-centros_ d~ es- dos. A idéia baconiana de que o conhecimento é o poder
quisa orem ca a:rgLdL p_roduziJ:. e.s.Wf;a-r e-Jazer- ClJ.9t.lar parece, sem dúvida, animar a construção do dispositit'O
~~da~~m. _ pós-moderno de legitimação. No entanto, é preciso notar
' O contexto da deslegilimaç~~wde.rtuuz]w_pode, que, para Bacon, pensar dessa maneira constituía um mo·
e vidéttemente passar sem um dis o itivo de legitimação. do de tentar abolir a oposição entre ((técnica" e ((eman-
"À administração da-pJ:..QJl,a' , escreve L yotar ,_ " que _em
' cipação" sem o abandono desta. O filósofo inglês era do
princípio não é senão uma parte da ar~um;~taçao desttna- parecer de que a construção de um ((novo mundo" era obje-
da a obter o consentimento dos destmatarzos da mensa- tivo fundamental e que só pela via de um conhecimento
gem científica, passa assim a ser co~trolada po~ um_ ou;ro que deixasse de ser concebido como contemplação/ desig-
jogo de linguagem onde o que esta _em questao nao e_a nação de uma ((ordem eterna"1 perfeita, divina e trans-
. verdade mas o~ ou seJa, a r:z~lhor rd.gç_a? histórica, poderíamos construir uma comunidade livre de
i~rrnL...(p. 83). Como novo _dis~osztz~o de legztt- uídolos". A problemática do ((novo mundon, no entanto,
mação, o critério do desempenho zmpoe nao apenas o parece não seduzir o filósofo pós-moderno, avesso às filo-
abandono do discurso humanista-liberal por parte do Es · sofias da subjetividade e aos metadiscursos de emancipa- _.
tado, do capital ou mesmo da universidade. Na medida em ção. Preocupado com o presente e com o reforço do cri-
que seu objetivo é aumentar a eficácia, dá primazia à ques- tério de desempenho - critério tecnológico - visando
tão do erro: o importante agora não é afirmar a ver_d~d~, com isso o reforço da ((realidaden e o aumento das chan-
mas sim localizar o erro no sentido de aumentar a efzcacza, ces de se ter ((razãon, ele parece ter abandonado os cami-
ou melhor, a potência. Nessas circunstâncias, a universida- nhos da utopia, esse modo de encantar o mundo que ani-
de, o ensino e a pesquisa adquirem novas dimensões: for· ma as lições de Bacon e de outros modernos. Estas, por
mam-se pesquisadores ou profissionais, investe-se. 11~ pes- sinal, mostram o esforço do filósofo no sentido de supe-
quisa e na sua infra-estrutura não mais com o obwtzvo ~e
.rar o divórcio entre inteligência e emoção. Para isso é sem
preparar indivíduos eventualmente aptos a ~evar a naçao
à sua "verdade" mas sim formar competênCias capazes de dúvida necessário que o conhecimento (inclusive a filo-
saturar as funçõ~s necessárias ao bom desempenho da di- sofia) esteja mais perto do concreto, do presente, coope-
w/m ict~ in st it ucional. rando com as forças do acontecimento, decodificando e
Após essas considerações, parece-nos razoável dizer dando coerência aos detalhes da cotidianidade. Mas tudo
que o texto de Lyotard contém, implícihz, um,a observa- isso com o objetivo de resgatar o encantamento que as
(tlO que reputamos fundamen tal: o contc.;t~ pos-_mo_d~m? religiões proporcionaram aos nossos ancestrais. Estar, sim,
tem/e a eliminar as diferenças epistemologtcas Slf!,lll/lcatt- perto do cotidiano, do presente, mas visando a interpene-
vas entre os procedimentos científicos e os proced iment?s tração da emoção e da ciência, da paixão e da inteligência,
políticos. A retomada pós-modema dess_a post1~·a bac~nta· ,do sonho e da prática, 4_e forma que a poesia possa vir a
na nos coloca em uma v1a não-carteswna, n,w-kantzana, ser a flor espontânea do mundo fu~uro.
desde 0 momeutu em que, contrt~ricmlellte ao pensado
pclo.f dispositiz·os modemos de l!!gitimaçcio, pt~rfl! do pres- Rio de Janeiro, outubro de 1985
.wposto de que ''verdade" e "[)()der" não podem ser separa- WILMAR DO VALLE BARBOSA

xii xiii
UNIVERSIOAOE FEDERAl DO PARÁ
BIBLIOTECA CENTRAL

INTRODUÇAO

EsTE estudo tem por objeto a postçao do saber nas


sociedades mais desenvolvidas. Decidiu-se chamá-la de
"pos-mo
' derna"A
. pa1avra e' usa
da, no contmente
· amen-·
cano, por sociólogos e críticos. Designa o estado da cul.:
tura após as transformações que afetaram as regras dos
jogos da ciência, da literatura e das artes a partir do final
do século XIX. Aqui, essas transformações serão situadas
em relação à crise dos relatos.
Originalmente, a ciência entra em conflito com os
relatos. Do ponto de vista de seüs próprios critérios, a
maior parte destes últimos revelam-se como fábulas. Mas,
na medida em que não se limite a enunciar regularid.ades
utets e ue ~ ue o ver a eiro, deve le itimar suas re-
gras de jogo. Assim, exerce sobre seu pró rio estatuto
umaíscurso d<:_ legitimação, chamado_ fílosofiª. Quando 1
este metadiscurso recorre explicitamente a algum grande
relato, como a dialética do espírito, a hermenêutica do
sentido, a emancipação do sujeito racional ou trabalhador,~
o desenvolvimento da riqueza, decide-se chamar "mo-
derna" a ciência que a isto se refere para se legitimar.
É assim, por exemplo, que a regra do consenso entre o re-
metente e destinatário de um enunciado com valor de
' verdade será tida como aceitável, se ela se inscreve na
perspectiva de uma unanimidade possível de mentalidades
racionais: foi este o relato das Luzes, onde o herói do
saber trabalha por um bom fim ético-político, a paz uni-
XV .
UNIVERSIDAOE FEDERAL DOPARÁ
BIBLIOTECA CENTRAL
versa!. Vê-se neste caso que, legitimando o saber por um cação deste critério a todos os nossos jogos não se realiza
mc:tnrrclato. que implica uma filosofia da história, somos sem algum terror, forte ou suave: sede operatórios, isto é,
conduzidos a questionar a validade <.bs instituições que comensuráveis, ou desaparecei.
regem o víncul~ social: elas também devem ser legitima- Esta lógica do melhor desempenho é sem dúvida
das . A justiça relaciona-se assim com o grande relato, no inconsistente sob muitos aspectos, sobretudo no que s~
mesmo grau que a verdade. r~fere à contradição no campo socioeconômico: ela quer,
Simplificando ao extremo. considera-se "p.ús.:m.o.derna" Simultaneamente, menos trabalho (para baixar os custos
JLincJ:Q~clu-1-i-tl-Mle-em-mlação aós mcrarrelatos. É, sem dú- da produção) e mais trabalho (para aliviar a carga social da
vida, um efeito do progresso das ciências; mas este pro- população inativa). Mas a incredulidade resultante é tal
gresso, por sua vez, .a supõe. Ao desuso do dispositivo que não se espera destas contradições uma saída salva-
. metanarrativo de legitimação corresponde sobretudo a dora, como pensava Marx .
crise da filosofia metafísica e a da instituição universi- A condição pós-moderna é, todavia, tão estranha ao
tária que dela dependia. A~~us desencanto como a OSit ivida e cega da c:Ies' egttínlãção.
. . a_ tores J fupcteurs), o grandes.-he.ro~os gra.ndes perigos, , pós os metarrelatos, onde se po erá encontrar a egíti- .
os grandes périplos_ o grande__ohjetivo. Ela _s.e_dis.persa midade? O critério de operatividade é tecnológico; ele
em- nuvens_ de elementos_ de lin ua em narrativ . s, mas não é pertinente para se julgar o verdadeiro e o justo.
também denotativos, prescritivos, descritivos etc., cada um Seria pelo consenso, obtido por discussão, como pensa
veiculando cens+ge- val' s ragmáticas ~u!..__:ge1:1e,m. Habermas? Isto violentaria a heterogeneidade dos jogos
Cada um de nós vive em muitas estas encruzíl tiadãs:-N'ão de linguagem. E a invenção se faz sempre no dissenti-
formamos combinações de linguagem necessariamente es- menta. O saber pós-moderno não é somente o instru-
táveis, e as propriedades destas por nós formadas não são mento dos poderes. Ele aguça nossa sensibilidade para as
necessariamente comunicáveis. diferenças e reforça nossa capacidade de suportar o in-
Assim, ~asce uma sociedade que se baseia menos comensurável. Ele mesmo não encontra sua razão de ser
numa antropologia newtoniana (como o estruturalismo ou na homologi~ dos experts, mas na paralogia dos inventores.
a teoria dos sistemas) e mais numa pragmática das partí- A questão aberta é a seguinte: uma legitimação do
culas de linguagem. Existem muitos jogos de linguagem vínculo social, uma sociedade justa, será praticável se-
diferentes; trata-se da heterogeneidade dos elementos. So- gundo um paradoxo análogo ao da atividade científica?
mente darão origem à instituição através de placas; é o Em que consistiria este paradoxo?
determinismo local.
Não obstante, os decisores tentam gerir estas nuvens
de socialidades sobre matrizes de input / output, segundo
Ü .__]]XTO que se seg.Ye é um escrito de circunstância.
uma lógica que implica a comensurabilidade dos elemen-
tos e a determinabilidade do todo. Para eles, nossa vida , É uma exposição sobre o saber nas sociedades mais de-
senvolvidas, proposto ao Conselho das Universidades junto
fica reduzida ao aumento do poder. Sua legitimação em
ao governo de Quebec, a pedido do seu presidente. Este
matéria de justiça social e de verdade' científica seria a de
último autorizou amavelmente sua publicação na França,
otimizar as performances do sistema, sua eficácia. A apli- e aqui lhe agradeço.
xvi
xvii
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
Resta dizer que o expositor é um filósofo, e não um BIBLIOTECA CENTRAL
expert. Este sabe o que sabe e o que não sabe, aquele não.
Um conclui, o outro interroga; são dois jogos de lingua-
gem. Aqui eles se encontram misturados, de modo que
nenhum dos dois prevalece.
O filósofo ao menos pode se consolar dizendo que
a análise formal e pragmática de certos discursos de legi-
~CONDIÇÃO
timação, filosóficos e ético-políticos, que sustenta nossa POS-MODERNA
Exposição, verá a luz depois desta. Ela a terá introduzido,
por um atalho um pouco sociologizante, que, embora a re-
.duzindo, a situa.
Tal como está, nós a dedicamos ao Instituto Poli-
técnico de Filosofia da Universidade de Paris VIII (Vin-
cennes), /fieste momentç muito ós-modern em que esta
universidade corre- o risco de desaparecer e o instituto
de nascer.

xviii
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA
BIBLIOTECA CENTRAL

O CAMPO: O SABER NAS SOCIEDADES


INFORMATIZADAS

ÍNOSSA hipótese de trabalho é a de que o saber muda


de estatuto ao mesmo tempo que as sociedades entram na
I idade dita pós-industrial e as culturas na idade dita pós-
Lmoderna.' Esta passagem começou desde pelo menos o ·
final dos anos 50, marcando para a Europa, o fim de sua
reconstrução. Foi mais ou menos rápida conforme os paí-
ses e, nos países, conforme os setores de atividade: donde
uma discronia geral, que não torna fácil o quadro de
conjunto.2 Uma parte das descrições não pode deixar de
ser conjecturai. E sabe-se que é imprudente conceder um
crédito excessivo à futurologia. 3 ·
Em lugar de organizar um quadro que não poderá
ser completo, partiremos de uma característica que de-
termina imediatamente nosso objeto. O saber científico
é uma espécie de discurso. Ora, pode-se dizer que há qua-
renta anos as ciências e as técnicas ditas de vanguarda
versam sobre a linguagem: a fonologia e as teorias lin-
güísticas: os problemas da comunicação e a cibernética,5
as matemáticas modernas e a informática,6 os computadores
e suas linguagens,' os problemas de tradução das lingua-
gens e a busca de compatibilidades entre linguagens-
máquinas,8 os problemas de memorização e os bàncos de
dados,9 a telemática e a instalação de terminais "inteli-
gentes"/0 a paradoxologia:11 eis aí algumas provas evi-
dentes', e a lista não é exaustiva.
s
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
8 1E~IO TW WHRI,!_
Parece que a incidência destas informações tecnoló-
gicas sobre o saber deva ser considerável. Ele é ou será desuso. Esta relação entre fornecedores e usuartos do co-
afetado em suas duas principais funções : a pesquisa e a nhecimento e o próprio conhecimento tende ~ tenderá a
transmissão de conhecimentos. Quanto à primeira, um assumir a forma que os produtores e os consumidores de
exemplo acessível ao leigo é dado pela genética, que deve mercadorias têm com estas últimas, ou seja, a forma valor.
seu paradigma teórico à cibernética. Há uma infinidade O s~b~r _é_ e_serg roduzido_nara ser vendido, e_e}_e_ é-e
de outros exemplos. Quanto à segunda, hoje em dia já se set.á consumido para::.se ~alocizado_nu_roaJlQ..va_p--tod.u.ção:
sabe como, normalizando, miniaturizando e comerciali- nos dois casos,_para ser tr_9cado. Ele deixa de ser para si
zando os aparelhos, modificam-se as operações de aquisi- m~u próprig fim; perde o seu "valor de uso".r6 -
12
ção, classificação, acesso e exploração dos conhecimentos. - Sabe-se que o saber tornou-se nos últimos decênios
É razoável pensar que a multiplicação de máquinas infor- a pri~cipal força de produção/ 7 qu~ já modificou se~i­
. macionais afeta e afetará a circulação dos conhecimentos, vêlmente a composição das populações ativas nos países
do mesmo modo que o desenvolvimento dos meios de cir- mais desenvolvidos 18 e constitui o principal ponto de es-
culação dos homens (transportes), dos sons e, em seguida, trangulamento para os países em vias de desenvolvimento.
das imagens (media) 13 o fez. Na idade pós-industrial e pós-moderna, a ciência conser~
Nesta transformação geral, a natureza do saber não vará e sem dúvida reforçará ainda mais sua importância
permanece intacta. Ele não pode se submeter aos novos na disputa das capacidades produtivas dos Estados-nações .
canais, e tornar-se operacional, a não ser que . o conhe- Esta situação constitui mesmo uma das razões que faz
cimento possa ser traduzido em quantidades de informa- pensar que o afastamento em relação aos países em vias
ção.14 Pode-se então prever que tudo o que no saber cons- de desenvolvimento não cessará de alargar-se no futuro/ 9
tituído não é traduzível será abandonado, e que a orien- Mas este aspecto não deve fazer esquecer outro que
tação das novas pesquisas se subordinará à condição de lhe é complementar. Sob a forma de mercadoria infor-
tradutibilidade dos resultados eventuais em linguagem de macional indispensável ao poderio produtivo, o saber j.í
máquina. Tanto os "produtores" de saber como seu~ utilh é e será um desafio maior, talvez o mais importante, na
zadores devem e deverao ter os meios de traduzir nestas competição mundial pelo poder. Do mesmo modo que os
linguagens o que alguns buscam inventare outro~ apren- Estados-nações se bateram para dominar territórios, e com
der. As pesquisas versando sobree stas máquinas-intérpre:- isto dominar o acesso e a exploração das matérias-primas
tes já estão adiantadas.15 Com a hegemonia da informática, e da mão-de-obra barata, é concebível que eles se batam
impõe-se uma certa lógica e, por conseguinte, um con- no futuro para dominar as informações. Assim encontra-se
junto de prescrições que versam sobre os enunciados acei- aberto um novo campo para as estratégias industriais e
tos como "de saber". comerciais e para as estratégias militares e políticas.20
Pode-se então esperar· uma explosiva exteriorização
Contudo, a perspectiva assim aberta não é tão sim-
do saber em relação ao sujeito que sabe (sachant), em ,
qualquer ponto que este se encontre no processo de conhe- ples como se diz. Pois a mercantilização do saber não po-
cimento. O antigo princípio segundo o qual a aquisição derá deixar intacto o privilégio que os Estados-nações mo-
do saber . é indissociável da formação (Bildung) do espí- dernos detinham ·e detêm ainda no que concerne à pro-
rito, e mesmo da pessoa, cai e cairá cada vez mais em dução e à difusão dos conhecimentos. A idéia de que estes
dependem do "cérebro'' ou do "espírito" da sociedade que
4
5
''I' r UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
BIBLIOTECA CENTRAL
I
é o Estado será suplantada à medida qu~ seja ref_?rçad? o para uma revisão séria do papel que se habituaram a de-
princípio inverso, segundo o qual a sociedade nao exi~te sempenhar desde os anos 30, que era de proteção e guía,
e não progride a não ser que as men~ag.ens que nel.a. cir- e até de planificação dos investimentos.22 Neste contexto,
culem sejam ricas em informação e faceis de decodifica~. as novas tecnologias, pelo fato de tornarem os dados úteis
O Estado começará a aparecer como um fator de opact- às decisões (portanto, os meios de controle) ainda mais
dade e de "ruído'' para uma ideologia da "transparência" instáveis e sujeitas à pirataria, não podem senão exigir
comunicacional, que se relaciona estritamente com a co~er­ urgência deste reexame.
cialização dos saberes. É sob este ângulo que se arrisca Em vez de serem difundidos em virtude do seu valor
a apresentar-se com uma nova aa;id~de o prob~em~ ~as "formativo" ou de sua importância política (administr~­
relações entre as instâncias economicas e as mstancias tiva, diplomática, militar), pode-se imaginar que os conhe-
estatais. cimentos sejam postos em circulação segundo as mesmas
Já nos decênios anteriores, aquelas puderam pôr em redes da moeda, e que a clivagem pertinente a seu res-
perigo a estabilidade destas graças às novas forma~ .de peito deixa de ser saber/ignorância para se tornar como
circulação de capitais, às quais deu-se o. no~e generico no caso da moeda, "conhecimentos de pagamento/conhe-
de empresas multinacionais. Estas formas Imphcam que as cimentos de investimento", ou seja: conhecimentos tro..:
cados no quadro da manutenção da vida cotidiana (recons-
parte, ao controle dos Estados-nações. 1 Com ~ tecnologia
decisões relativas ao investimento esca~am, pelo menos e~
tituição da força de trabalho, "sobrevivência") versus cré-
informacional e telemática, a questão corre o risco de tor- ditos de conhecimentos com vistas a otimizar as perfor-
mances de um programa.
nar-se ainda mais espinhosa. Admitamos, por exemplo, .
que uma firma como a IBM seja autori~ada a ocupar ,~m:t Neste caso, tratar-se-ia tanto da transparência como
faixa do campo orbital da Terra para Implantar ~atehtes do liberalismo. Este não impede que nos fluxos de di-
de comunicação e/ou de banco de dados. Quem t~r.a acesso nheiro uns sirvam para decidir, enquanto outros não sejam
a isto? Quem definirá os canais ou os dados prmbidos? O bons senão para pagar. Imaginam-se paralelamente fluxos
Estado? Ou ele será um usuário como os outros? Nova- de conhecimentos passando pelos mesmos canais e de
mente, surgem problemas de direito, e através deles a mesma natureza, mas dos quais alguns serão reservados
questão: quem saberá? . aos "decisores", enquanto outros servirão para pagar a
A transformação da natureza do saber pode assim ter dívida perpétua de cada um relativa ao vínculo social.
sobre os poderes públicos estabele~idos um efeito ~e re-
torno tal que os obrigue a reconstderar suas re~açoes d.e NOTAS
direito e de fato com as grandes empresas e mais generi-
1. A. Touraine, La Société postindustrielle, Denoel, 1969; D. Bell, The Co-
camente com a sociedade civiL A reabertura ?o . merc?do ming of Post-lndustria/ Society, New York, 1973; lhab Hassan. The
mundial, a retomada de uma competição economic~ a.tlva, Dismemberment of Orpheus: Toward a Postmodern Literature, New
York. Oxford U. P., 1971; M. Benamou & Ch. Caramello ed., Perfor-
o desaparecimento da hegemonia. exclusi~a. do capttahsmo mance in Postmodern Culture, Wísconsin, Center for XXth Century
americano, o declínio da alternativa socialista, . a abertura ' Studies & Coda Press. 1977; M . Koler, "Postmodernismus: ein be-
.. griffgeschichtlichcr Ueberblick'', Amerikastudien 22,1 (1977).
provável do mercado chinês às trocas, e mmtos outros 2 . Uma expressão literária doravante clássica é dada por M. Butor, Mo-
fatores, vêm preparar os Estados, neste final dos anos 70, , bile. Etude pour une représentation des Etats-Unis, Gallimard, 1962.

6 7
UNIVERSIDADEFEDERAL DO PARÁ
BIBLIOTEC~. CENTRAL

). li f Fowlo.:s cd .. Hwulhook o/ Futures Research, Wc~tport, Conn .. Gr.:- Os três grandes canais americanos A.B.C., N .B.C. e C.B.S. de tal
enwood Pn:~~. 1978. modo multiplicaram seus estúdios de produção através do mundo,
que quase todos os eventos que ocorrem podem agora ser tra tadÕs
4. N. S. Troubetzkoy. Grwul=iige der 1'/wnulugie. Praga. T.C.L.P .. V 11. eletronicamente e transmitidos aos Estados Unidos por satélite. Apenas
1939; t.f. Cuntineau. Príncipes tle plwnologie. Paris, Klim:k~i.:Lk. 1949. os escritórios de Moscou continuam a trabalhar com filmes, que eles
;. N. Wicner. Cyhemetics um/ Sacie(\'. The Htmum Use o/ Humwr Beings. expedem de Frankfurt para difusão por satélite. Londres tornou-se
Boston. Hougton Mifflin. 1949; t.f. Cybernétique et Suciété. D..:ux Ri- o grande packing point (La semaine media 20, 15 mars 1979).
ves. 1949. 10/I.S. 1960. W. R. Ashby, Ali lntruductiun to Cybemetü·s, 14. A unidade de informação é o bit. Para suas definições, ver Gaudfer-
Londres. Chapman and Hall. 1956. nan & Ta'ib, "Giossaire", loc. cit. Discussão em R. Thom, "Un protée
6 . . Ver a obra de Johanncs von Ncumann (1903-1957). de la sémantique: l'information" (1973), in Modeles mathématiques
7. S. Bcllcrt. "La formalisation des systemcs cybcrnétiquc~". in Le cu11cept de la morphogenese, 10/18, 1974. A transmissão das mensagens em
d'informatiOir cla11s la science contemporaine, Minuit. 1965. código digital permite notadamente eliminar as ambivalências: ver
Watzlawick et a/. op. cit., 98.
8. G. Mounin. Les pruhlemes théoriques ele la tratluction, Gallimard. 1963.
Da:a-se de 1965 a revolução dos computadores com a nova g.:ração 15 . As firmas Craig e Lexicon anunciam a colocação no mercado de
dos computadores 360 IBM: R. Mm:h. "Lc tournant informatiquc··. tradutores de bolso: quatro módulos em línguas diferentes aceitos
JJucumellts cUIItributifs. anncxe IV. L'informati~atioll tle la suciété, simultaneamente, cada um com 1 . 500 palavras e memória. A Weidner
La Documcntation française. 1978. R. M. Ashby. "La secondc g.éné- Communication Systems Inc. produz um Multilingual Word Processing
ration de la mino-élctroniquc", La Redrerce 2 (juin 1970). 127 sq. que permite ampliar a capacidade de um tradutor médio de 600 para
9. C. L. Gaudfernun & A. Talb. ''Giossain:''. in P. Nora & A. Mine. 2 . 400 palavras por hora. Possui uma tríplice memória: dicionário bi-
L'informatisatiun de la société. La Documcntation française. 1978. R. língüe, dicionário de sinônimos, índice gramatical (La semaine media,·
Beca. "Lcs banques de donnécs'', Noul'elle ilrfomwtique et IIUtll'elle 6, 6 déccmbre 197.8 , 5).
croissence. anm:xc I. L'infumwtisatiun .. . , loc. dt. 16. J.Habermas, Erkenntnis und Interesse, Frankfurt, 1968; t.f. Brohm &
lO . L. Joycux. "Les applications avancécs de l'informatique", JJucuments Clémençon, Connaissance et intérêt, Gallimard, 1976.
col!tributifs. loc. cit. Os terminais domésticos (lntegrated Vid.:o Ter- 17. "A base (Grundpfeiler) da produção e da riqueza ( ... ) torna-se a
minais) serão comercializados antes de 1984 por aproximadamente inteligência e a dominação da natureza na existência do homem en-
1.400 dólares. segundo um informe do lnternational R.:soun.:c Uc- quanto corpo social", de modo que "o saber social geral. o knowledge,
vclopmcnt. The Hume Terminal. Conn .. I.R.D. Prc~s. 1479. tornou-se força de produção imediata", escreve Marx nos Grundrisse
11. P. Watzlawick. 1. Helmkk-Bcavin. D. Jadson. J>ragmatics of Jl!llllllll der Kritik der po/itischen Oekonomie (1857-1858), Berlin, Dietz Verlag,
Commwrication. A Study o/ lnteractiollal l'attems. l'atholugie~. wrd 1953, 594; t.f. Dangeville, Fondements de l'économie politique, Anthro-
Paradoxes. N.Y .. Northorn. 1967; t.f. ). Mo~chc, Une /ogiqw: de la pos, 1968, I, 223. Todavia, Marx concede que não é "na forma do
COIIWILIIIÍL'atioll. Seuil, 1972. saber, mas como órgão imediato da práxis social", que o conheci-
mento torna-se força , isto é, como máquinas: estas são "órgãos do
12. T. M. Trcille. do Grupo de análise e de prospectiva dos ~ist~:nHts eco- cérebro humano forjados pela mão do homem, da força de saber
nômicos c tecnológicos (G.A.P.S.E.T.) . d..:dara: "Não se fala o ba~­ objetivada". Ver P. Mattick, Marx and Keynes, The Limits of the
tantc das novas pos~ibilidadcs de diss..:minução da memória. em par- Mixed Economy, Boston, Sargent, 1969; t.f. Bricianier, Marx et Keynes.
ticular graça~ aos ~emicondutor..:~ c aos lasers ( ... ). C.tda üm pud..:ní Les limites de l'économie mixte, Gallimard. 1972. Discussão em J. F.
em breve estocar a baixo preço a informação ond.: ele quiser. c dispor Lyotard, "La place de l'aliénation dans Je retournement marxiste"
além disso de capacidades de tratamento autônomas·· (/.a >elzzaine (1969), in Dérive à partir de Marx et Freud, 10/18, 1973.
media 16. I; février 1979). Segundo uma t.:nquctc da National So.:icn-
18. A composição da categoria de trabalhadores (labor force) nos Estados
tific Foundation . nutis de um em dois alunos de lzi?.lz ~chool utiliza Unidos modificou-se, em vinte anos (1950-1971), como se segue:
corn:ntementc os serviços de um computador; os cstabclc..:imentos es-
colares possuirão os sem· desde o inkio dos anos llJ80 (/.a senwizu! 1950 197 1
media 13. 25 janvier 19./9) .
13. L Brune!. /Jes machine.~ et des lr0111111es. :\1ontreal. Oucb..:t: So.:icnc.::. Trabalhadores de fábricas, de
1lJ78. ]. L \ttissika & D. Wolton. l.es résem1x J)(!II~Wll,, l. ibrairi..: serviços ou agrícolas 62.5% SI A%
t.:cniqu..: ct doc .. 1978. O uso da v:d~oconf..:rêm:ia ent re Oucbc..: c
Paris e~tá em vias de se· tornl!T um hábito: em novembro c d.::z..:mhro Profissionais liberais e técnicos 7,5%
de 1978 n:ali:wu-se o quarto ciclo d.: vidt:O\:onf..:rências L'll dire,·t tpclo
~atélitc Symphonie) entre Ow:bcc c \ttontr..:al. de um lado . ..: l'arb Empregados 30 34
(Univer~ité Paris Nord c Centre Bcaubourg) de outro l/.a sc/llaine
media 5. 30 nov.:mbre 1<:178). Outro cx..:mplo. o .i urna lb mo ..:lcrrô nicu. (Statistical Abstracts, 1971)

9
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAR~
BIBLiOTECA CENTRAL
19. Em razão da duração do tempo dô "fabricação" de um técnico supe-
rior ou de um cientista médio relativamente ao tempo de extração
de matérias-primas e de transferência de capital moeda. Ao final dos
anos 60, Mattick avaliava a taxa de investimento líquido nos países
subdesenvolvidos entre 3 e 5% do P.N.B., nos países desenvolvidos
entre 10 e 15% (op. cit., t.f. 287).
20. Nora & Mine, L'in{ormatisation de la société, loc. cit., notadamente a 2
primeira parte: "Les défis", Y. Stourdzé, "Les ~tats-Unis et la guerre
des communications", Le Monde, 13·15 décembre 1978. Valor de mer·
cado mundial dos instrumentos de telecomunicação em 1979: 30 bi- O PROBLEMA: A LEGITIMAÇAO
lhões de dólares; estima-se que em dez anos ela atingirá 68 bilhões
(La semaine media, 19, 8 mars 1979, 9).
21 . F. de Combret, "Le redéploiement industriel". Le Monde, avril 1978;
H. Lepage, Demain le capitalisme, Paris, 1978; Alain Cotta, La France
et l'impératif mondial, P.U.F., 1978.
22. Trata-se de "enfraquecer a administração", de chegar ao "Estado
EsTA é então a hipótese de trabalho que determina o
mínimo". F. o declínio do Welfare State, concomitantemente à "crise" campo no qual pretendemos apresentar a questão do esta-
que se iniciou em 1974.
tuto do saber. Este cenário, similar ao de "informatização
da sociedade", ainda que proposto de maneira totalmente
diversa, não tem a pretensão de ser original, nem mesmo
de ser verdadeiro. O que se reivindica a uma hipótese de
trabalho é uma grande capacidade discriminante. O ce-
nário da informatização das sociedades mais desenvolvi-
das permite iluminar, com o risco mesmo de exagerá-los
excessivamente, certos aspectos da formação do saber e dos
seus efeitos sobre o poder público e as instituições civ.is,
efeitos que permaneceriam pouco perceptíveis noutras pers-
pectivas. Não se deve ois dar-lhe um valor de rev s o
em relação_ à...r_ealidade, mas estraté ico em relª_ção à q.u.e~­
tão a resentada.
Contudo, é grande sua credibilidade, e neste sentido
a escolha desta hipótese não é arbitrária. Sua descrição já
foi amplamente elaborada pelos expert/3 e já guia certas
decisões das administrações públicas e das empresas mais
diretamente afins, como as que gerenciam as telecomuni-
cações. Portanto, pertence, já, em parte, à categoria das
realidades observáveis. Enfim, excluindo-se o caso de uma
estagnação ou de uma recessão geral devida, por exemplo,
a uma ausência persistente de solução relativa ao problema
mundial da energia, este cenário tem boas chances de
prevalecer: pois não se vê que outra orientação as tecno-
lO 11
UN\VERSIDAOEFEDERAl DO PARÁ
BIBLIOTECACENTRAL

logias contemporâneas poderiam tomar que fosse uma al- Além disso, ela interfere no problema essencial, o da
ternativa à informatização da socied~de. legitimação. Aqui, tomamos a palavra em um sentido mais
Isto significa que a hipótese é banal. Mas ela o é so- lato do que lhe é dado na discussão da questão da autori-
mente na medida em que não coloca em causa o paradigma dade pelos teóricos alemães contemporâneos. 27 Considere-
geral do progresso das ciências e das técnicas, ao qual pa- se uma lei civil; seu enunciado é o seguinte: tal categoria
recem evidentemente corresponder o crescimento econô- de cidadãos deve desempenhar tal tipo de ação. A legiti-
mico e o desenvolvimento do poder sociopolítico. Admite- mação é um processo pelo qual um legislador é autoriza-
se como ponto pacífico que o saber científico e técnico se do a .promulgar esta lei como norma. Considere-se um
acumula, discute-se quando muito a forma desta acumu- enunciado científico; ele está submetido à regra: um enun-
lação, que alguns imaginam regular, contínua e unânime, ciado deve apresentar determinado conjunto de condições
e outros como sendo periódica, descontínua e conflitual.24 para ser reconhecido como científico. Aqui, a legitimação
Estas evidências são falaciosas. Para começar, o sa- é o processo pelo qual um "legislador" ao tratar do dis-
ber científico não_/ todo L..Saher; ele se~ re teve IIQãdó curso científico é autorizado a prescrever as condições es-
a seu conceito, em competição com uma outra es écie de tabelecidas (em geral, condições de consistência interna e
s_?ber que, para simplificar, chamaremos e narrativo e que de verificação experimental) para que um enunciado faça
será-câracterizado maiSa diante. Não se trata de dizer que parte deste discurso e possa ser levado em consideração
este último possa prevã ecer sobre ele, mas seu modelo pela comunidade científica.
está relacionado às idéias de equilíbrio interior e de con- O paralelo pode parecer forçado. Veremos que não.
vivialidade,z.' comparadas às quais o saber contemporâneo A questão da legitimação encontra-se, desde Platão, indis-
empalidece, sobretudo se tiver que sofrer uma exteriori- soluvelmente associada à da legitimação do legislador.
zação em relação àquele que sabe (sachant) e uma alienação Nesta perspectiva, o direito de decidir sobre o que é ver-
em relação a seus usuários bem maiores do que antes. A des- dadeiro não é ·independente do direito de decidir sobre o
moralização conseqüente dos pesquisadores e dos profes- que é justo, mesmo se os enunciados submetidos respec-
sores é fato importante, tanto que veio à tona, como se tivamente a esta e àquela autoridade forem de natureza
sabe, junto àqueles que se destinavam a exercer estas pro- diferente. É que existe um entrosamento entre o gênero de
fissões, os estudantes, ao longo dos anos 60, em todas as linguagem que se chama ciência e o que se denomina ética
sociedades mais desenvolvidas, e veio retardar sensivel- e política: um e outro procedem de uma mesma perspec-
mente, durante este período, o rendimento dos laborató- tiva ou, se se preferir, de uma mesma "opção", e esta
rios e das universidades que não conseguiram evitar a sua chama-se Ocidente.
contaminação.26 f)A questão não é e nem foi a de aguardar Examinando-se o estatuto atual do saber científico,
uma revolução, fosse para esperá-la ou para temê-la, como constata-se que enquanto este último parece mais subor-
aconteceu freqüentemente; o curso das coisas da civiliza- dinado do que nunca às potências e, correndo até mesmo
, ção pós-industrial não será mudado de um dia para o outro. o risco, com as novas tecnologias, de tornar-se um do~
Mas é impossível não levar em consideração este compo- principais elementos de seus conflitos, a questão da dupla
nente maior, a dúvida dos cientistas, quando se trata de legitimação está longe de se diluir e não pode deixar, por
isso, de ser considerada com mais cuidado. Pois ela se
avaliar o estatuto presente e futuro do saber científico. \1 apresenta em sua forma mais completa, a da reversão, que
12
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BIBLiOTECA CENTRAL
vem evidenciar serem saber e poder as duas faces de uma
mesma questão: quem decide o que é saber, e quem sabe
o que convém decidir? O problema do saber na idade da
informática é mais do que nunca o problema do governo.
3

O MÉTODO: OS JOGOS DE LINGUAGEM


NOTAS

23 . La nouvelle informatique et ses utilisateurs, annexe 111, "L'informati-


sation, etc.", loc. cit.
24. B. P. Lécuyer, "Bilan et perspectives de la sociologie des sciences PELO que antecede, já se observou que, para analisar
dans les pays occidentaux", Archives européennes de socio/ogie XIX
(1978) (bibliog.), 257-336. Boa informação sobre as correntes anglo-saxô- este problema no quadro que determinamos, preferimos
nicas: hegemonia da escola de Merton até início dos anos 1970, dis-
persão atual. notadamente por influência de Kuhn; pouca informação um procedimento: o de enfatizar os fatos de linguagem
sobre a sociologia alemã da ciência. e, nestes fatos, seu aspecto pragmático.28 A fim de facili-·
25. O termo foi difundido por Ivan Illich, Tools for Conviviality, N.Y., tar o desenvolvimento da leitura, é útil apresentar uma
Harper & Row, 1973; t.f. La convivialité, Seuil, 1974.
visão, mesmo que sumária, do que entendemos por este
26. Sobre esta "desmoralização", ver A. Jaubert e J.-M. Lévy-Leblond ed.
(Auto)critique de la science, Seuil, 1973, parte I. termo.
27. J. Habermas, Legitimationsprobleme im Spiitkapitalismus, Frankfu~t. Um enunciado denotativo29 como: A universidade
Suhrkamp, 1973; t.f. Lacoste, Raison et légitimité, Payot, 1978 (bi- está doente, proferido no quadro de uma conversação ou
bliog.).
de um colóquio, posiciona seu remetente (aquele que o
enuncia), seu destinatário (aquele que o recebe) e seu re-
ferente (aquilo de que trata o enunciado) de uma maneira
específica: o remetente é colocado e exposto por este
enunciado na posição de quem sabe (sachant) (ele sabe
como vai a universidade), o destinatário é colocado na
postura de ter de conceder ou recusar seu assentimento,
e o próprio referente é apreendido de uma maneira pró-
pria aos denotativos, como qualquer coisa que precisa ser
corretamente identificada e expressa no enunciado que
a ele se refere.
Se se considera uma declaração como: A universida-
de está aberta, pronunciada por um decano ou um reitor
quando do início do ano letivo, vê-se que as especifica-
ções precedentes desaparecem. Evidentemente, é preciso
que o significado do enunciado seja compreendido, mas
14 15
I~ UNIVERSIDADE FEDERAl DO PARÁ
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isto é uma condição geral da comunicação, que não per- categorias de enunciados deve poder ser determinada por
mite distinguir os enunciados ou seus efeitos próprios. O regras que especifiquem suas propriedades e o uso que
segundo enunciado, chamado de desempenho 30, possui delas se pode fazer, exatamente como o jogo de xadrez
a particularidade de seu efeito sobre o referente coincidir se define como um conjunto de regras que determinam
com sua enunciação: a universidade encontra-se aberta as propriedades das peças, ou o modo conveniente de
pelo fato de que é declarada como tal nestas condições. deslocá-las.
Isto não está então sujeito a discussão nem a verificação Três observações precisam ser feitas a respeito dos
pelo destinatário, que encontra-se imediatamente coloca- jogos de linguagem. A primeira é que suas regras não
do no novo contexto assim criado. Quanto ao remetente, possuem sua legitimação nelas mesmas, mas constituem
deve ser dotado da autoridade de proferi-la; mas pode-se objeto de um contrato explícito ou não entre os jogadores
(o que não quer dizer todavia que estes as inventem). A
descrever esta situação de modo inverso: ele não é decano
segunda é que na ausência de regras não existe jogo,33
ou reitor, isto é, alguém dotado de autoridade para pro-
que uma modific~ção, por mínima que seja, de uma regra,
ferir este gênero de enunciados, senão quando os profere,
mod1'f'1ca a natureza do Jogo,
. e que um "1ance " ou um I
obtendo o efeito imediato que dissemos, tanto sobre seu
enunCiado que não satisfaça as regras, não pertence ao· (·~
referente, a universidade, quanto sobre seu destinatário,
jogo definido por elas. A terceira observação acaba de ser
o corpo docente.
inferida: todo enunciado deve ser considerado como um \
Um caso diferente é o dos enunciados do tipo: Dêem
meios à universidade, que são prescrições. Estas podem
"lance" feito num jogo. J
Esta última observação leva a admitir um primeiro
ser moduladas em ordens, comandos, instruções, recomen-
princípio que alicerça todo o nosso método: é que f_a.illr
dações, pedidos, solicitações, súplicas, etc. Vê-se que o re-
é combater, no sentido de 'o ar, e gue os atos de lingua-
metente é aqui colocado na posição de autoridade, no sen-
~m34 rovêm de uma a onístic~ geral.35 Isto não signi~ica
tido mais amplo do termo (incluindo a autoridade que o
necessariamente que se joga para ganhar. Pode-se realizar
pecador tem sobre um deus que se declara misericordio- um lance pelo prazer de inventá-lo: não é este o caso do
so), o que significa que ele espera do destinatário a reali- trabalho de estímulo da língua provocado pela fala popu-
zação da ação referida. Estas duas últimas posições sofre~ lar ou pela literatura? A invenção contínua de construções
a seu turno, na pragmática prescritiva, efeitos concomt- novas, de palavras e de sentidos que, no nível da palavra,
tantes.31
é o que faz evoluir a língua, proporciona grandes alegrias.
Outra é ainda a eficiência de uma interrogação, de Mas, sem dúvida, mesmo este prazer não é independente
uma promessa, de uma descrição literária, de uma narra- de um sentimento de sucesso, sobre um adversário pelo
ção, etc. Resumindo. Quando Wittgenstein, reco~eçando menos, mas de envergadura: a língua estabelecida, a cono-
o estudo da linguagem a partir do zero, centrahza sua -
taçao. 36

atenção sobre os efeitos dos discursos, chama os diversos Esta idéia de uma a ~ onística da lin~m (langa-
tipos de enunciados que ele caracteriza desta maneira, e giere) não de"L ocultar o s~ undo rincíQ.io que Uíe é com-
32
dos quais enumerou-se alguns, de jogos de linguagem. pleme~ue norteia nossa análise: é que o vínculo social
Por este termo quer dizer que cada uma destas diversas
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oh ervável é feito de "lan~gllll~. Elucidando 35. A agonístic~. está no p~incípio c.la ontologia de H crú c li to c da dial~­
esta proposição entraremos no cerne do nosso tema. t tc<~ dos so li stas. sem l<~lar dos primeiros trágicos. Aristót.:h:s reser·
va- lhe um~ gran~c .parte de sua rdlcxilu sobre a dialética in Ttipiws
c Ne/lllaç·ues suftsllcas. Ver jC, Nietzsche. ··t.a juutc chez Homcrc·· in
.. Cinq pr0fm:..:s ü cinq livn:s qui n'ont pus ét0 écrits'' ( 1~72). t,:rits
pu.~tlwmes 1870-1873. t.f. H;tckcs. Haar & dc l.aunay . (j<dlinwnl. 1975.
142-200.
NOTAS
3b. Nu sentido cslitbclcc itl u por 1.. H.klmsh:v. l'm le/I.OIIIena to a Theor"
L 111g:lcs~t WhitficlJ. Madisun. U. Wiscunsin Prcss . llJb3:
uf. l.aní!-LI!li;!.C!.
28. Na esteira da semiótica de Ch. A. Peirce. a distinção dos domínios t .l. Una Cangcr. l'ruleJ!,umi!ne!'. à une tlu'orie du /allJW/1.1.'. :\1inuit. JlJbK
sintático, semântico e pragmático é feita por Ch. W . Morris , "Foun- ~: retomado por R. B<trlhcs. I:NIIu'H/s de s''mioloJ!,h' ( 14b4J. Scuil. l'lbb
datíons of the Theory of Sígns", in O. Neurath , R. Carnap & Ch. li IV . I.
Morrís ed., Jnternational Encyclopedia of Unified Science, I, 2 (1938);
77-137. Nós nos referimos sobre este termo sobretudo a: L. Wittgen-
stein, Philosophical Jnvestigations, 1945 (t.f. Klossowski, Jnvestigations
philosophiques, Gallimard, 1961); J. · L. Austin, How to Do Things
with Words, Oxford, 1962 (t.f. Lane, Quand dire c'est faire, Seuil,
1970); J. R. Searle, Speech Acts, Cambridge U.P., 1969 (t.f. Pauchard,
Les actes de langage, Hermann. 1972); J. Habermas, Vorbereitende
Bemerkungen zu einer Theorie der kom.munikativen Kompetens, in
Habermas & Luhmann, Theorie der Gesellschaft oder Sozialtechnologie,
Stuttgart, Suhrkamp, 1971; O. Ducrot, Dire et ne pas dire, Hermann,
1972; J. Puclain , "Vers une pragmatique núcleaire de la communica·
tion", datilog., Université de Montréal , 1977. Ver também Watzlawick
et ai., op. cit.
29 . Denotação corresponde aqui à descrição conforme uso clássico. dos ló-
gicos. Ouine substitui denotation por true of (verdade de). Ver W .
V. Quine, t.f. Dopp e Gochet , Le mot et la chose, Flammarion, 1977,
140, n. 2. Austin, op. cit., 39, prefere constatif a descriptif.
30. Em teoria da linguagem, performativo assumiu desde Austin um sen-
tido preciso (op. cit., 39 e passim). Iremos reencontrá-lo mais adiante
associado aos termos performance e performatividade (de um sistema,
notadamente) no sentido que se tornou corrente de eficiência mensu-
rável na relação input/ output. Os dois sentidos não são estranhos um
ao outro. O perjormativo de Austin realiza a performance ótima.
Na tradução para o português preferiram-se as palavras desempenho ou
eficiência mensurável como tradução de perjormativité e performatif.
(N. do Ed.)
31. Uma análise recente destas categorias foi feita por Habermas , "Vor-
bereitende Bemerkungen . . . ", e discutida por J. Poulain, art. cit.
32 . lnvestigations philosophiques, /oc. cit., § 23.
33 . J. von Neumann & Morgenstern, Theory of Games and Economic
Behavior, Princeton U.P., 1944, 3.• ed., 1954; 49: "O jogo consiste no
conjunto das regras que o descrevem." Fórmula estranha ao espírito
de Wittgenstein, para quem o conceito de jogo escaparia aos ditames
de uma definição, visto que esta já é um jogo de linguagem (op . cit.,
§ 65-84 sobretudo).
34. O termo é de }. H. Searle: "Os atos de linguagem são as unidades
mínimas de base da comunicação lingüística" (op. cit., t.f. , 52). Nós as
colocamos de preferência sob a égide do agôn (a polêmica) que da
comunicação.
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Com Parsons, o princípio do sistema é, se se pode
dizer, ainda otimista: corresponde à estabilização das eco-
nomias em crescimento e das sociedades de abundância ~
4 ~de um welfare state temperado. Para os teóricos-'f
38

alemães de hoje, a Systemtheorie é tecnocrática, e mesmo .


A NATUREZA DO ViNCULO SOCIAL: cínica, para não dizer desesperada: a harmonia entre ne-
A ALTERNATIVA MODERNA cessidades e esperanças dos indivíduos e dos grupos com
as funções que asseguram o sistema não é mais do que·
uma componente anexa do seu funcionamento; a verda-\
deira finalidade do sistema, aquilo que o faz programar-se
SE SE quer tratar do saber na sociedade contemporânea a si mesmo como uma máquina inteligente, é a otimiza-
ção da relação global entre os seus input e output, ou seja,
mais desenvolvida, deve-se primeiramente decidir qual ~ o seu desempenho. Mesmo quando suas regras mudam e
representado met<$dica 'l!!_e dela se fa~. Simplificando ao inovações se produzem, mesmo quando suas disfunções,
êitfemo, pode-se dizer que durante o último meio século, como as greves, as crises, o desemprego ou as revoluções·
pelo menos, esta representação dividiu-se, em princípio, políticas podem fazer acreditar numa alternativa e levan-
entre dois modelos: a) a sociedade forma um todo funcio- tar esperanças, não se trata senão de rearranjos internos
nal; b) a sociedade divide-se em duas partes. Pode-se ilus- e seu resultado só pode ser a melhoria da "vida" do siste-
trar o primeiro com o nome de Talcott Parsons (pelo me- ma, sendo a entropia a única alternativa a este aperfei-
nos, o do pós-guerra) e sua escola; o segundo pela corrente çoamento das performances, isto é, o declínio.39
marxista (todas as escolas que o compõem, por mais dife- Aqui também, sem cair no simplismo de uma socio-
rentes que sejam, admitem o princípio da luta de c~asses logia da teoria social, é difícil não estabelecer pelo menos
e a dialética como dualidade trabalhando a umdade um paralelo entre esta versão tecnocrática "dura" da so-
. 1) •37
SOCla ciedade e o esforço ascético que se pede, sob o nome de
Esta clivagem metodológica que determina duas gran- "liberalismo avançado", às sociedades industriais mais de-
~~des espécies de discursos sobre a sociedade provém do senvolvidas para que se tornem competitivas (e assim oti- -'
~ ~ século XIX. A idéia de que a sociedade f.orma um todo mizar sua "racionalidade") no contexto de retomada da
orgânico, sem o que deixa de ser uma sociedade (.e a so- guerra econômica mundial a partir dos anos 60.
ciologia não tem mais objeto), dominava ? espí~1to dos Para além do imenso deslocamento que conduz do
fundadores da escola francesa; torna-se mais precisa com pensamento de um Comte ao de um Luhmann vislumbra-se
o funcionalismo; assume uma outra modalidade quando uma mesma idéia do social: a sociedade é uma totalidade
Parsons nos anos 50, compara a sociedade a um sistema '=ll.idª•- uma "unicidade". Parsons o formula claramente:

l
auto-re~ulável. O modelo teórico e mesmo material não "A condição mais decisiva para que uma análise dinâmica
é mais o organismo vivo; ele é fornecido pela .cibernética seja boa, é de que cada problema seja contínua e sistema-
que lhe. multiplica as aplicações durante e ao fmal da Se- ticamente referido ao estado do sistema considerado como
gunda Guerra Mundial. um todo ( ... ) . Um processo ou um conjunto de condições
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ou bem 'contribui' para a manutenção (ou para o desen- simplesmente privadas do direito à existência.44 E em toda
volvimento) do sistema, ou bem é 'disfuncional' prejudi- parte, em nome de um ou outro, a Crítica da economia
cando assim a integridade e a eficácia do sistema.'>IO Ora, política (era este o subtítulo do Capital, de Marx) e a crí-
esta idéia é também a dos "tecnocratas" .41 Daí sua credi- tica da sociedade alienada que lhe era correlata são utili-
bilidade: possuindo os meios de se tornar realidad~ ~ zadas à guisa de elementos na programação do sistema.45 _
sui os de a m1strar suas rovas. É o que Horkheimer Seguramente, o modelo crítico manteve-se e apurou-
chamava e fparanó~a~.:=-cra rllZã-OJ_2 se em face deste processo em minorias como a Escola de 1

Mas nãose pode julgar como paranóicos o realismo Frankfurt ou o grupo Socialismo ou barbárie. 46 Mas não
da auto-regulação sistemática e o círculo perfeitamente fe- se pode esconder que o pilar social do princípio da divi-
chado dos fatos e das interpretações, a não ser sob con- são, a luta de classes, tendo se diluído a ponto de perder
dição de se dispor ou de se pretender dispor de um obser- toda radicalidade, encontrou-se finalmente exposto ao pe-
vatório que por princípio escape à sua atração. Tal é a rigo de perder sua base teórica e de se reduzir a uma
função do princípio da luta de classes na teoria da socie- "utopia", a uma "esperança" ,47 a um protesto pela honra
dade a partir de Marx. feito em nome do homem, ou da razão, ou da criatividade,
Se a teoria "tradicional" está sempre ameaçada de ou ainda de determinada categoria social reduzida in extre-
I ser incorporada à programação do todo social como um mis às funções de agora em diante improváveis de sujeito
simples instrumento de otimização das performances deste crítico, como o terceiro mundo ou a juventude estudantil.48
ji último, é que seu desejo de uma verdade unitária e totali-
zante presta-se à prática unitária e totalizante dos geren- I '1IEsta retrospectiva esquemática (ou esquelética) não
teve outra função senão a de esclarecer a problemática na
tes do sistema. A teoria "crítica" ,43 por se apoiar sobre qual pretendemos situar a questão do saber nas sociedades
um dualismo de princípio e desconfiar das sínteses e das industriais avançadas. Pois não se pode entender o estado
reconciliações, deve estar em condições de escapar a este atual do saber, isto é, que problemas seu desenvolvimento
destino. e difusão encontram hoje, se não se conhece nada da socie-
É pois um outro modelo da sociedade (e uma outra dade na qual ele se insere~: E, hoje mais do que nunca, co-
idéia da função do saber que nela se pode produzir e dela nhecer qualquer coisa daquela é primeiro escolher a ma-
se adquirir) que guia o marxismo. Este modelo origina-se neira de interrogá-la, que é também a maneira pela qual
nas lutas que acompanham o cerco das sociedades civis ela pode fornecer respostas. Não se pode concluir que o
tradicionais pelo capitalismo. Não se trata aqui de seguir papel principal do sahe__r_é__o_de-set-um elemento_indis_pen.:-
os périplos que são a matéria da história social, política · Sável do funcionamento da sociedade e agir em canse-'
e ideológica de mais de um século. Basta lembrar o ba- qüência para com ela a não ser que se conclua que esta
lanço que dela se pode fazer hoje, pois seu destino é co- é uma grande máquina.49
nhecido: nos países de gestão liberal ou liberal avançada, Inversamente, não se pode contar com sua função
a transformação destas lutas e dos seus órgãos em regu- crítica e sonhar em orientar-lhe o desenvolvimento e a
ladores do sistema; nos países comunistas, o retorno, em difusão neste sentido, a não ser que se tenha concluído
nome do próprio marxismo, do modelo totalizante e de que ela não perfaz um todo integrado e que continua a
seus efeitos totalitários, tendo sido as lutas em questão ser perturbada por um princípio de contestação.50 A alter-
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ou. antes. as possibilidades técnicas impõem a utilização que delas
nativa parece clara - homogeneidade ou dualidade in- se faz." Habermas opõe a esta lei o fato dos conjuntos de meios
trínsecas do social, funcionalismo ou criticismo do saber técnicos e dos sis!emas de ação racional completa jamais se des.:n-
vo.lve~e!ll de mane1ra_ aut~noma: "Conséquences pratiques du progres
-. - mas a decisão parece difícil de tomar. Ou arbitrária. scJent1ftque et techmque · ( 1968). in Theorie und Praxis, Neuwied.
Luchterha!ld· 1963; t.f. Raulet, Théorie et Praxis, Payot. 11 . 115-136.
Tentou-se dela escapar distinguindo duas espécies de Ver tamb~m J. Ellul, La technique et /'en jeu de la science, Paris . Ar-
saber: um positivista, que encontra facilmente sua aplica- mand Colin. 1954; id. , Le systeme technicien. Paris. Calmann-Lévy.
Que ~s greves e em geral a forte pressão exercida pelas poderosas
ção às técnicas relativas aos homens e aos materiais e que orgamzações de trabalhadores produzem uma tensão finalmente bené-
se presta a tornar-se uma força produtiva indispensável ao fi.c~ para ~ e~iciência mensurável do sistema. é o que Ch. Levinson.
dmgente smd1cal, declara claramente ; explica ele esta tensão como o
sistema, e uma espécie crítica ou reflexiva ou hermenêu- avan<i~ técnico e ~estionário da indústria americana (citado por H .-F.
de Vmeu. Le Matm . décembre 1978. n." spécilll "Que veut Giscard?").
tica que, interrogando-se direta ou indiretamente sobre
40. T . Parsons. Essa_vs in Sociological Theory Pure and Applied, Glencoe.
os valores ou os fins, opõe um obstáculo a qualquer Free P., 1957 (reed.). 46-47.
"recuperação" .51 41. A palavra é tomada aqui segundo a acepção que T. K. Galbraith deu
ao termo tecnoestrutura em Le nouvel l!:tat industriel. Essai sur /e
systeme économique américain. Gallimard. 1968. ou R. Aron ao de
estrutura tecno-burocrática nas Dix-huit leçons sur la société Ílrdus- .
tiel/e, Gallimard. 1962. de preferência ao sentido evocado pelo termo
NOTAS burocracia. Este último é muito mais "duro". porque é tanto socio-
político quanto econômico. procedendo inicialmente de uma crítica
37 . Ver em particular Talcott Parsons, The Social System, Glencoe Free, feita pela Oposição operária (Kollonta'i) ao poder bolchevique. depois
P .. 1967; id .. Sociological Theory and Modern Society. N.Y .• Free P .. pela oposição trotskista ao estalinismo. Ver a este resoeito CL Lefort.
1967. A bibliografia da teoria marxista da sociedade contemporânea Eléments d'une critique de la bureaucratie. Geneb.ra. Droz. 1971.
ocuparia mais de cinqüenta páginas. Pode-se consultar a útil catalo- onde a crítica se estende à sociedade burocrática em seu conjunto.
gação (dossiês e bibliografia crítica) feita por P. Souyri, Le marxisme 42. Eclipse de la raison. loc. cit., 183.
apres Marx. Flammarion. 1970. Uma visão interessante do conflito
entre estas duas grandes correntes da teoria social e de sua mixagem 43 . M. Horkheimer. "Traditionelle und kritische Theorie" ( 1937) in
é apresentada por A. W. Gouldner. The Coming Crisis of Western t.f. Maillard & Muller. Théorie traditionnelle e/ théorie critique. Galli-
Sociology ( 1970). Londres. Heineman. 2.' ed.. 1972. Este conceito mard. 1974. Ver também: t.f. Collectif du College de philosophie.
ocupa um lugar importante no pensamento de J. Habermas. simul- Théorie critique, Payot. 1978. E a bibliografia comentada sobre a
taneamente herdeiro da Escola de Frankfurt e polemizando com a Escola de Frankfurt (francesa, interrompida em 1978) in Esprit 5 (mai
teoria a lemã do sistema social, sobretudo a de Luhmann. 1978). por Hoehn & Raulet.
38. Este otimismo aparece claramente nas conclusões de R. Lynd, Know- 44. Ver CL Lefort. op. cit.: id.. Un homme en trop. Seuil. 1976; C. Cas-
ledge for What?, Princeton U.P., 1939, 239, que são citadas por M. toriadis, La société bureaucratique. 10/18, 1973.
Horkheimer, Eclipse of Reason, Oxford U.P., 1947; t.f. Laizé, Eclipse 45 . Ver por exemplo J. P. Garbier. Le marxisme lénijiant. Le Sycomore,
de la raison. Payot. 1974, 191: na sociedade moderna. a ciência deverá 1979.
substituir a religião "usada até a exaustão" para definir a finalidade
da vida. 46. lÔ o título que tinha o "órgão de crítica e de orientação revolucionária"
publicado de 1949 a 1965 por um grupo cujos principais redatores
39. H. Schelsky. Der Mensch in der wissenschaftlichen Zeitalter. Colô- (com diversos pseudônimos) foram C. de Beaumont. D. Blancha rd .
nia. 1961, 24 sq .: "A soberania do Estado não se manifesta mais pelo C. Castoriadis. S. de Diesbach. CL Lefort. J.-F. Lyotard. A . Maso,
simples fato de que ele monopoliza o uso da violência (Max Weber) ou D. Mothé. B. Sarrel, P. Simon. P. Souyri.
decide sobre o estado de exceção (Carl Schmitt). mas antes de tudo
pelo fato de que decide sobre o grau de eficácia de todos os meios 47. E. Bloch. Das Prinzip Holfnung (1954-1959). Frankfurt , 1967. Ver G.
técnicos existentes em seu seio, que reserva para si aqueles cuja efi- Raulet ed .. Utopie-Marxisme selon E. Bloch, Payot. 1976.
cácia for mais elevada e pode praticamente colocar-se ele mesmo fora
do campo de aplicação destes meios técnicos que impõe aos outros.''
48. r uma alusão às obst ruções teóricas provocadas pelas guerras da
Argélia e do Vietnã, e pelo movimento estudantil dos anos 1960. Um
Dir-se-á que é uma teoria do Estado, não do sistema. Mas Schelsky panorama histórico é dado por A. Schnapp e P. Vidal-Nuquct, jour-
acrescenta: "O próprio Estado vê-se submetido, em função da própria nal de la Commune étudiante, Seuil, 1969, Apresentação.
civilização industrial: a saber. são os meios que determinam os fins,

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49. Lewis Mumford, The Myth of lhe Macf1ine. Tecnics and Human
Deve/opment, Londres, Secker & Warburg, 1967; t.f. Le mythe de
la machine, Fayard, 1974.
50. A hesitação entfe estas duas hipóteses se evidencia, no entanto, no
apelo destinado a obter a participação dos intele~tuais no sistema: 5
Ph. Nemo, "La nouvelle responsabilité des clercs", Le Monde, 8
septembre 1978.
51. A oposição entre Naturwissenschaft e Geistwissenschaft tem sua ori- A NATUREZA DO ViNCULO SOCIAL:
gem em W. Dilthey (1863-1911), t.f. Rémy, Le monde de l'esprit, A PERSPECTIVA PóS-MODERNA
Aubíer-Montaigne, 1947.

NÃO seguimos uma solução de divisão como esta. Pos-


tulamos que a alternativa que ela busca resolver, mas que
não faz senão reproduzir, deixou de ser pertinente em
relação às sociedades que nos interessam, e que ela mesma
pertence a um pensamento por oposições que não corres-
pende às manifestações mais eloqüentes do saber pós-
moderno. O "redesdobramento" econômico na fase atual
do cae_itali~íha o e a mutaç-ª~ técnicas e ~s
teCnõlogias S~g!le em aralelo, já se disse, com uma
mudança de função dos Estados: -ª- artir desta_ síndrome
forma-se uma imagem da sociedade gue obriga a revisar.
seriamente os enfoques apresentaQOS comQ_ alternativa. Di-
gamos sumariamente que as funções de regulagem e, por-
tanto, de reprodução, são e serão cada vez mais retiradas
dos administradores e confiadas a autômatos. A grande
questão vem a ser e será a de dispor das informações que
estes deverão ter na memória a fim de que boas decisões
sejam tomadas. O acesso às informações é e será da alçada
dos experts de todos os tipos. A classe dirigente é e será
a dos decisores. Ela já não é mais constituída pela classe
política tradicional, mas por uma camada formada por di-
rigentes de empresas, altos funcionários , dirigentes de
grandes órgãos profissionais, sindicais, políticos, confes-
sionais.52
A novidade é que, neste contexto, os antigos pólos
de atraç@ formados_pelos_ E.s_ta.dos-nações -os Qarti~s,_ os
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UNIYERS\Ot,OEFEDER~l DO PARÀ - . -.
B\BLIOTEC~ CEN'TR~l

rofissionais as institui ões e as tradições históricas ger- que o· sistema pode e deve encorajar estes deslocamentos,
dem seu atr~tivo. E eles não parecem dever ser substituí- na medida em que luta contra sua própria entropia e que
dos, pelo menOs" na escala que lhes é própria. A Comissão uma novidade correspondente a um "lance, não esperado
tricontinental não é um pólo de atração popular. As "iden- e ao deslocamento correlato de tal parceiro ou de tal grupo
tificações" com os grandes nomes, com os heróis da histó- de parceiros que nele se encontra implicado, pode forne-
ria atual, se tornam mais difíceis.'·' Não é entusiasmante cer ao sistema este suplemento de desempenho que ele
consagrar-se a "alcançar a Alemanha", como o presidente não cessa de requisitar e de consumir.57
francês parece oferecer como finalidade de vida a seus Compreende-se atualmente em que perspectiva foram
compatriotas. Pois não se trata verdadeiramem e de uma propostos acima os jogos de linguagem como método geral
finalidade de vida. Esta é deixada à diligência de cada de enfoque. Não retendemos ue toda relaçãp s_ocial seja
cidadão. Cada qual é entregue a si mesmo. E cada qual desta ordem; isto permanecerá aqui uma questão penden-
~sabe que este si mesmo é muito pouco.'
4
te; mas ue os jogos de_lingu-ª _em sejam, por um lado, o
Desta decomposição dos grand_!:s Relatos,_ que anali- mínimo de relação exigido para que haja sociedade, não
saremos mais adiante, segue-se o que alguns analisam como é necessario que se recorra a uma rooinsonãda para que
a dissoh.1ção do vínculo social e a passagem das colétiVT- se faça admiti-lo; desde antes do seu nascimento, haja vista
dades soc-iais ao estado de uma massa composta de átomo:; o nome que lhe é dado, a criança humana já é colocada
individuais lançados num absurdo movimento brown· no." como referente da história contada por aqueles que a cer-
sto não é relevante, é um caminho que nos parece obs- cam58 e em relação à qual ela terá mais tarde de se deslo-
curecido pela representação paradisíaca de uma sociedade car. Ou mais simplesmente ainda_:_a_q.u_e_s.tão_ do vínculo
"orgânica" perdida. social, enquan_!o ~stão é um jQgQ_de lin~agem, o da
O (il) mesmo é ouco, mas n-o está~; é tomado interrogação, ue osicio_na imediatamente a uele ue a

t numa textura de relações mais complexa e mais móvel do


gue nunca. Está se~e , seja jovem ou velho, homem ou
mulher, rico ou po re, colo~ad_~~br~QS "nós_:· ~
apresenta, a uele a uem _ela s~ diri~ e o referente que
ela interro a: esta questão já é assim o vínculo social.
Por outro lado, numa sociedade em que a componente
comunicacional torna-se cada dia mais evidente, simulta-
cuitos de comunicação, por ínfimos gue se·am.' E prefe-
rÍ~el dizer: colocado nas posições pelas quais passam m~ neamente como realidade e como problema/9 é certo qu
sagens de natureza diver~. E ele não está nunC<l, mesmo o aspecto de linguagem (langagier) adquire uma nova im-
o mais desfavorecido, rivado de oder sobre estas men- portância, que seria superficial reduzir à alternativa tra-
~gens q ue o att_avessam pQ.siciQ....nando-q, seja na posição __ dicional da palavra manipuladora ou da transmissão uni-
de remetente, destinat<1rio ou referente. Pois seu deslo- lateral de mensagem, por um lado, ou da livre expressão
c;mento em relação a estes efeitos de jogos de lin~uagem ou do diálogo, por outro lado.
(compreende-se que é deles que se trata) é tolerável pelo Uma palavra sobre este último ponto. Expondo-se
menos dentro de certos limites (e mesmo estes são ins- este problema em termos simples de teoria da comunica-
táveis) e ainda suscitado pelas regulagens, sobretudo pelos ção, se estaria esquecendo de duas coisas: as mensagens
r~entos através dos guais o siste~a é afetad~ a são dotadas de formas e de efeitos bastante diferentes,
fim de elhorar suas /l('rjornumccs. Convem mesmo d1zer conforme forem, por exemplo, denotativas, prescritivas,
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avaliativas, performativas, etc. É certo que elas não ope- ria dos jogos, que inclua a agonística em seus pressupos-
ram apenas na medida em que comunicam informação. Re- tos~ E já se adivinha que, neste contexto, a novidade re-
duzi-las a esta função é adotar uma perspectiva que pri- querida não é a simples "inovação". Encontrar-se-á junto
vilegia indevidamente o ponto de vista do sistema e seu a muitos sociólogos da geração contemt'orânea matéria
único interesse. Pois é a máquina cibernética que funciona com que se possa apoiar este enfoque,60 sem falar de lin-
pela informação, mas, por exemplo, os fins que lhe são güistas ou filósofos da linguagem.
dados quando de sua programação provêm de enunciados Esta "atomização" do social em flexíveis redes de
prescritivos e avaliativos que ela não corrigirá no curso jogos de linguagem pode parecer bem afastada de uma
do funcionamento, por exemplo, a maximização de suas realidade moderna que se representa antes bloqueada pela
performances. Mas como garantir que a maximização das artrose burocrática.61 Invocar-se-á pelo menos o peso das
performances constitui sempre o melhor fim para o siste- instituições que impõem limites aos jogos de linguagem,
ma social? Os "átomos" que formam a sua matéria são, e assim restringem a inventividade dos parceiros em ma-
em todo caso, competentes em relação a estes enunciados, téria de lances. Isto não nos parece constituir uma difi-
e notadamente a esta questão. culdade particular.
E, por outro lado, a teoria da informação em sua ver- No uso ordinário do discurso, numa discussão entre
são cibernética trivial deixa de lado um aspecto decisivo, . dois amigos, por exemplo, os interlocutores lançam mão de
já evidenciado, o aspecto agonístico. Os átomos são_ccl.o- todos os meios, mudam de jogo entre um enunciado c
gidQS em encruzilhadas d _r.daçães_pr.a _máticas mas eks outro: a interrogação, a súplica, a asserção, o relato são
são também deslocados p.elas___mens.ageJlS-SJ.Ue os a rmres- lançados confusamente na batalha. Esta não é desprovi-
sam, num movimento QerQétuo. Cada parceiro de lingua- da de regra,62 mas sua regra autoriza e encoraja a maior
gem sofre por ocasião dos "golpes" que lhe dizem respeito flexibilidade dos enunciados. ·
um "deslocamento", uma alteração, seja qual for o seu Ora, deste ponto de vista, uma instituição difere
gênero, e isto não somente na qualidade de destinatário sempre de uma discussão no que ela requer de pressões*
e de referente, mas também como remetente. Estes "gol- suplementares para que os enunciados sejam declarados
pes" não podem deixar de suscitar "contragolpes"; ora,
todo mundo sabe pela experiência que estes últimos não admissíveis em seu seio. Estas pressões operam como fil-
são "bons" se forem apenas reacionais. Pois, então, eles tros sobre os poderes de discursos, eles interrompem co-
não são senão efeitos programados na estratégia do adver- nexões possíveis sobre as redes de comunicação: há coisas
sário; eles a realizam e vão assim a reboque de uma modi- que não devem ser ditas. E elas privilegiam o.:rtns tipos
ficação. da relação das respectivas forças. Daí a importân- de enunciados, por vezes um único, cuja prnh m1inância
cia que existe em agravar o deslocamento e mesmo em caracteriza o discurso da instituição: há cois''' llue devem
desorientá-lo, de modo a conduzir um "golpe" (um novo ser ditas e maneiras de dizê-las. Assim: os t·mmciados de
enunciado) que não seja esperado. comando nas forças armadas, de prece nas í~n:jas, âe deno-
O que é preciso para compreender desta maneira as tação nas escolas, de narração nas famílias, de interroga-
relações sociais, em qualquer escala que as consideremos,
não é somente uma teoria da comunicação, mas uma teo- • Contraintes. (N .. do T.)
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ção nas filosofias, de desempenho nas empresas ... A bu- tema de "derrelição" do "si mesmo·· com a "crise" das ciências no
início do século XX e com a epistemologia de E. Mach: cita os se-
rocratização é o limite extremo desta tendência. guintes exemplos: "Considerando-se em pa.-ticular o estado da ciên-
Contudo, esta hipótese sobre a instituição é ainda cia. um homem não é feito senão do que se diz que ele é ou que
se faz com o que ele é ( . .. ). E um mundo no qual os eventos vividos
muito "pesada"; ela parte de uma visão "coisista" do ins- tornam-se independentes do homem ( .. . ). ~ um mundo do futuro. o
tituído. Hoje, sabemos que o limite que a instituição opõe mundo daquilo que acontece sem que isto afete ninguém. e sem que
ao potencial da linguagem em "lances" nunca é estabele- ninguém seja responsável" ("la problématiquc du su.ict dans L"humme
sans qualités", Noroit [Arras] 234 & 235 [décembre 1978 - janvkr
cido (mesmo quando ele o é formalmente) .63 Ele mesmo é, 1979]; o texto publicado não foi revisto pelo autor).
antes, o resultado provisório e a disputa de estratégias de 55 . J. Boudrillard , A l'ombre des majorités si/endeuses. ou la /in clu social.
linguagem travadas dentro e fora da instituição. Exemplos: Utopie. 1978.
o jogo de experimentação sobre a linguagem (a poética) 56. ~ o vocabulário da teoria dos sistemas; por exemplo . Ph. Nçmo
IQC......d.t.: ''Representamo-nos a sociedade como um sistema-:- nÕ ~
terá seu lugar núma universidade? Pode-se contar histó- tido da cibernética. Este sistema é uma rede de CC'!nunicaçõcs com
rias no conselho de ministros? Reivindicar numa caserna? encruzilhadas para onde a comunicação converge c de onde é redis·
tribuída ( ... ).''
As respostas são claras: sim, se a universidade abrir seus
57. Um exemplo dado ·p or J.-P. Garnicr. op. cit .. <J3: "O Centro de
ateliers de criação; sim, se os superiores aceitarem deli- informação sobre a inovação social. dirigido por H. Dougicr c ·F.
berar com os soldados. Dito de outro modo: sim, se os Bloch-Laine tem por papel recensear. analisar c difundir informações
limites da antiga instituição forem ultrapassados.64 Reci- sobre as experiências novas de vida cotidiana (educação. saúde. jus·
tiça. atividades culturais. urbanismo c arquitetura. etc.). Estl.! banco
procamente, dir-se-á que eles não se estabilizam a não ser de dados sobre as "práticas alternativas" pres ta seus serviços aos ór-
que deixem de ser um desafio. gãos estatais encarregados de esforçar-si.! para que a ''sociedade civil"'
r Acreditamos que é neste espírito que convém abor- permaneça uma sociedade civilizada: Comissariado do Plano. Se.:re-
tariado di.! ação social , D.A.T.A .R .. etc:·.
1dar as instituições contemporâneas do saber. , . 58. S . Freud acentuou particularmente esta forma de "predestinação".
J~ ~
L> F~"'V\. (..e.r,w!i~?f:_,, (\ _, o_ -r·,-- , , . . ,.e1 1
• r
;.·{l .... c -<. •
Ver Marthe Robert, Roman eles origilws, origine du romwz. Grassct.
1972.
n, ,1)> 11.,_ r} vÇ\_ \, 7--< ~) ;~O V..
_'... ' 59. Ver a obra de M. Serres. notadamente os Hermes I a IV. Minuit.
0 1969-1977.
\i NOTAS
60. Por exemplo. E. Gofrman. Tlze Presentati011 o/ Se/f in l:' t ·eryda~· Uje.
Edinburgh. U. of Edinburgh P .. 19j6. t.f. Ac.:ardo. La mise e11 sci!ne
52. M. Albert, com1ssano do Plano francês, escreve: "O Plano é uma de la t•ie quotidienne (1. La présentation de soi). Minuit. llJ7;: A.
repartição de estudos do governo ( ... ). ~ também uma grande en- W. Gouldner. op. dt .. cap. 10: A. Touraine. ta t•oix et /e regard .
cruzilhada da nação, encruzilhada onde se agitam idéias. onde . se Seuil. 1978: id. et ai .. Lutte étudiante, Seuil. 1978 : M. Callon. "Socio-
confrontam nontos de vista e onde se formam as mudanças ( .. . ). Não logie des techniquçs'!'' . Pamlore 2 (févrin 1979). 28-32: 1'. Watzlawick
podemos fic.ar ·sozinhos. ~ preciso que outros nos esclareçam ( . . . )'' et ai .. op. cit.
(L'Expansion, novembre. 1978). Ver, sobre o problema da decisão.
G. Gafgen, Theorie der wissenschaftlichen Entschiedung, Tübingen . 61 . Ver acima a nota 41. O tema da burocratização geral como futuro
1963; L. Sfetz, Critique de la décision (1973), Presses de la Fondation das sociedades modernas foi desenvolvido inicialmcntl! por B. Rizzo.
nationale des sciences politiques, 1976. La Rureaucratisation clu monde. Paris. 1939.
53. Que se observe o declínio de nomes tais como o de Stalin. Ma o, Castro 62. Ver H. P. Grice. "Logic and Conversation" in P. Coh: & J. J. ~or­
como epônimos da revolução há vinte anos. Que se pense no avilta- gan ed .. Speeclz Acts 11/, Syntax mui Senumtics. N.Y .. Acadcmic 1' ..
mento da imagem do presidente dos Estados Unidos após o caso 1975. 59-82.
Watergate.
63 . Para um enfoque fenomenológico do problema. ver em M. :vtcrkau-
54. ~ um tema central de R . Musil, Der Mann ohne Eigenschajten ( 1930- Ponty CCI. Lefort cd.). Résumés de cours. Gallimard . 1%8. o cur~o do
1933), Humburgo, Rowohlt, t.f. Jacottet, L'homme sans qualités. Seuil. ano 1954-1955. Para um enfoque psi~:ossociológi~:o. 1{, Loun:ttu, L'mw-
1957. Num comentário livre, J. Bouveresse salienta a afinidade deste lyse institutiomu!lle, Minuit. 1970.
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.... -----·. ·~
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64 M. Callon. loc. cit., 30: "A sociológica é o movímento pelo qual os
atores constituem e instituem difercn!faS, fronteiras entre o que é so-
cial e o que não o é. o que é técnico e não o é. c o que é imaginário
e o que I! real: o traçado destas fronteiras é uma disputa c nenhum .
consenso, salvo em caso de dominação. é realizável." Comparar com
o que A. Touraine chama de "sociologia permanente··, Lu l'oix et Je
rcgurd, lot·. ât. 6

PRAGMÁTICA DO SABER NARRATIVO

'
A ACEITAÇÃO sem exame de um conceito instrumen-
tal do saber nas sociedades mais desenvolvidas, fizemos
anteriormente (seção 1) duas objeções. O saber não é a
ciência, sobretudo em sua forma atual; e esta, longe de
poder ocultar o problema de sua legitimidade, não pode
deixar de apresentá-lo em toda sua amplitude, que não
é menos sociopolítica que epistemológica. Precisemos. de
início, a natureza do saber narrativo ; este exame permi-
tirá, por comparação, discernir melhor pelo menos certas
características da forma de que se reveste o saber cientí-
fico na sociedade contemporânea. Ajudará também a com-
preender como se considera hoje, e como não se considera
mais, a questão Ja legitimidade.
O saber em geral não se reduz à ciência, nem mesmo
ao conhecimento. O conhecimento seria o c0njunto dos
enunciados que denotam ou descrevem objetos,~;; excluindo-
se todos os outros enunciados, e susceptíveis de serem de-
clarados verdadeiros ou falsos. A ciência seria um sub-
conjunto do conhecimento. Feita também de enunciados
denotativos, ela imporia duas condições suplementares à
sua aceitabilidade: que os objetos aos quais eles se refe-
rem sejam acessíveis recursivamente, portanto, nas condi-
ções de observação explícitas; que se possa decidir se cada
um destes enunciados pertence ou não pertence à lingua-
gem considerada como pertinente pelos cxperts.M
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69
Mas pelo termo saber não se entende apenas, é cla- etnológicas. Mas uma antropologia e uma literatura vol-
ro, um conjunto de enunciados denotativos; a ele mistu- tadas para as sociedades em desenvolvimento rápido, de-
ram-se as idéias de saber-fazer, de saber-viver, de saber- tectam-lhe a persistência pdo menos em certos setores.70
escutar, etc. Trata-se então de uma competência que exce- A própria idéia de de'senvolvimento pressupô~ o horizon-
de a determinação e a aplicação do critério único de ver- te de um não-desenvolvimento, supondo-se que as diver-
dade, e que se estende às determinações e aplicações dos sas competências estão envolvidas· na unidade de uma tra-
critérios de eficiência (qualificação técnica), de justiça e/ou dição e não se dissociam em qualificações que seriam ob-
de felicidade (sabedoria ética) , de beleza sonora, cromáti- jeto de inovações, debates e exames específicos. Esta opo-
ca (sensibilidade auditiva, visual), etc. Assim compreen- sição não implica necessariamente uma mudança de na-
dido, o saber é aquilo que torna alguém capaz de proferir tureza na situação do saber entre "primitivos" e "civili-
"bons" enunciados denotativos, mas também "bons" zados" .71 Ela é compatível com a tese da identidade for-
enunciados prescritivos, avaliativos. . . Não consiste nu- · mal entre "pensamento selvagem" e "pensamento cien-
ma competência que abranja determinada espécie de enun- tco " ,72 e mesmo com aque1a, aparentemente contrana
t1'f" ' .
ciados, por exemplo, os cognitivos, à exclusão de outros .. à precedente, de uma superioridade do saber que vem dos
Ao contrário, permite "boas" performances a respeito de costumes sobre a dispersão contemporânea das compe-
" •7~
vários objetos de discursos: a se conhecer, decidir, ava- tenCias. ·
liar, transformar. . . Daí resulta uma de suas principais ca- Pode-se dizer que todos os observadores, seja qual
racterísticas: coincide com uma "formação" considerável for o cenário que eles proponham para dramatizar e com-
de competências, é a forma única encarnada em um sujeito preender o distanciamento entre este estado habitual
constituído pelas diversas espécies de competência que o (coutumier) do saber e aquele que é o seu na idade das
compõem. ciências, estão de acordo quanto a um fato: a preeminên-
Uma outra característica a assinalar é a afinidade de cia da forma narrativa na formulação do saber tradicio-
determinado saber com os costumes. Com efeito, o que na1. Uns tratam esta f orma em s1. mesma,74 outros a veem "

é um "bom" enunciado prescritivo ou avaliativo senão como a vestimenta em diacronia dos operadores estrutu-
uma "boa" performance em matéria denotativa ou técni- rais que, segundo eles, constituem propriamente o saber
ca? Uns e outros são julgados "bons" porque estão de que encontra-se em jogo; 7' outros ainda lhe dão uma inter-
acordo com os critérios pertinentes (respectivamente, de pretação "econômica" no sentido freudiano .76 Não é pre-
justiça, beleza, verdade e eficiência) admitidos no meio ciso reter de tudo isto senão o fato da forma narrativa.
formado pelos interlocutores daquele que sabe (sachant). O relato é a forma por excelência deste saber, e isto em
Os primeiros filósofos~7 chamaram de opinião este modo muitos se idos.
de legitimação dos enunciados. O consenso que permite rimei:o, estas his~rias ---~ ulares con~~ o_ que se Q)
circunscrever tal saber e discriminar aquele qu~ sabe da- pode harnar de formaçoes ~"Btlâungett posltlvas ou ne-
quele que não sabe (o estrangeiro, a criança) é o que cons- gat~isto e, os sucessos ou os frac~ssos que coroam as
titui a cultura .de um povo.NI tentativas os erots; e estes sucessQLQlJ fraçassos ou_dão
Este breve sumário acerca do que o saber pode ser sua egitimidãde às instituTçõeS"da sociedade (fl.Ulção dos
como formação c como cultura é baseado em descrições rrü tos, ' ou r.ep_reseiitam moáefõSOsi tlVOs"ou negati.v:~,he~
36 37
üNIVERSIOAOE FEDERAL DO PARÁ
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róis felizes ou infelizes) de integra ão às instituiç§es esta- que a contou a vocês é. . . (nome cashinahua), entre os
belecidas (lendas, contos). Estes relatos perrilitem e~tão, brancos ..• (nome espanhol ou português)."78
por um la~;, definir
/ - -os-critérios de competência que são Uma análise sumária desta dupla instrução pragmá-
0~ da _so.çjeda4e nas quais e es sa() con t!dos e, por outro tica revela o seguinte: o narrador não pretende manifestar
lado, !!Y~iar, graçãs a estescritérios, a§_p_er/ormances que sua competência em contar a história, mas apenas pelo
aí ~~po em se_realiz.ar. fato de dela ter sido um ouvinte. O narratário atual, ouvin-
{:;J Em segundo lugar, ajorma narrativa, diferentemen- do-o, eleva-se potencialmente à mesma autoridade. De-
clara-se o relato como exposto (mesmo se a performance
te das formas desenvolvidas dos discursos de saber, admi-
narrativa for fortemente inventiva) e exposto "desde sem-
~ nela mesma uma Qluralidade de jogos de linguag~: pre": seu herói, que é cashinahua, foi então, ele também,
encontram facilmente lugar no relato dos enunciados de· narratário e talvez narrador deste mesmo relato. Devido
notativos, que versam, por exemplo, sobre o céu, as esta a esta similitude de condição, o próprio narrador atual pode
ções, a flora e a fauna; dos enunciados deônticos que pres- ser o herói de um relato, como o foi o Antigo. Com efeito,
crevem o que deve ser feito quanto a estes mesmos refe- ele o é, necessariamente, pois leva um nome, revelado ao
rentes ou quanto ao parentesco, à diferença dos sexos, às final de sua narração, que lhe foi atribuído conforme o
crianças, aos vizinhos, aos estrangeiros, etc.; dos enuncia- relato canônico que legitima a distribuição cashinahua dos
dos interrogativos que estão implicados, por exemplo, nos nomes de família (patronímicos).
episódios de desafio (responder a uma questão, escolher · A regra pragmática ilustrada por este exemplo não
um elemento em um lote); dos enunciados avaliativos, é evidentemente universalizável.79 Mas ela fornece um in-
etc. As competências cujos critérios o relato fornece ou dicativo de uma propriedade geralmente atribuída ao sa-
aplica encontram-se aí misturadas umas às outras num teci- ber tradicional: os "postos" narrativos (remetente, desti-
do cerrado, o do relato, e ordenadas numa perspectiva de natário, herói) são de tal modo distribuídos, que o direito
conjunto, que caracteriza este gênero de saber. de ocupar um deles, o de remetente, fundamenta-se sobre
o duplo fato de ter ocupado o outro, o de destinatário, e
Examinaremos um pouco mais longamente uma ter- de ter sido, pelo nome que se tem, já contado por um
ceira propriedade, relativa à transmissão destes relatos. relato, quer dizer, colocado em posição de referente diegé·
Sua narração obedece freqüentemente a regras que lhe
tico de outras ocorrências narrativas.80 O saber que estas
fixam a pragmática. Isto não significa que por instituição
determinada sociedade confere o papel de narrador a tal narrações veiculam, longe de se ater exclusivamente às
categoria de idade, sexo, grupo familiar ou profissional. funções de enunciação, determina assim ao mesmo tempo
Queremos falar de uma pragmática dos relatos populares o que é preciso dizer para ser entendido, o que é preciso
que lhe é, por assim dizer, intrínseca. Por exemplo, um escutar para poder falar e o que é preciso representar (so-
contador de histórias cashinahua77 sempre começa sua nar- bre a cena da realidade diegética) para poder se constituir
rativa por uma forma fixa: "Eis aqui a história de ... , no objeto de um relato.
tal como sempre a ouvi. Eu vou contá-la por minha vez, Os atos de linguagem81 que são pertinentes para este
escutai." E ele a encerra com uma outra fórmula igual- saber não são portanto efetuados somente pelo interlo-
mente invariável: "Aqui termina a história de . .. Aquele cutor, mas também pelo ouvinte e ainda pelo terceiro do
38 39

I
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qual se fala. O saber que se desprende de um tal dispo- temporalização que se choca em cheio com a regra de ouro
sitivo pode parecer "compacto", em oposição àquele que do nosso saber: não esquecer.
chamamos de "desenvolvido". Deixa perceber claramente Ora, deve haver uma congruência entre, por um lado.
como a tradição dos relatos é ao mesmo tempo a dos cri- esta função letal do saber narrativo e, por outro, entre as
térios que definem uma tríplice competência - saber- funções de formação de critérios, de unificação de com-
dizer, saber-ouvir, saber-fazer - em que se exercem as petências e de regulagem social que citamos mais acima.
relações da comunidade consigo mesma e com o que a A título de imaginação simplificadora, pode-se supor que
cerca. O que se transmite com os relatos é o grupo de uma coletividade que faz do relato a forma-chave da com-
regras pràgmáticas que constitui o vínculo social. petência, não possui , contrariamente a toda expectativa,
:Jr' Um quarto aspecto deste saber narrativo mereceria necessidade de poder lembrar-se do seu passado. Ela en-
contra a matélia de seu vínculo social não apenas na sig-
ser examinado com cuidado. Trata-se de sua incidência
sobre o temi?o· A~arra ·va obedece a um ritmo, nificação dos relatos que ela conta, mas no ato de recitá-
é a síntese de um metro que marca o tempo em pe íodos los. A referência dos relatos pode parecer que pertence ao
regulares e com um acento que modifica o comprimento tempo passado, mas ela é, na realidade, sempre contempo-
ou a amplitude de algumas dentre elas.x2 Esta propriedade rânea deste ato. É o ato presente que desdobra, cada vez,
vibratória e musical torna-se evidente na execução ritual a temporalidade efêmera que se estende entre o Eu ouvi
de alguns contos cashinahua: transmitidos nestas condi- dizer e o Vocês vão ouvir.
ções iniciáticas, de uma forma absolutamente fixa, numa o im ortante nos protocolos pragmáticos desta espé-
linguagem que torna obscuros os desregramentos lexicais cie de narra ão é ue eles marcam a identidade de prin-
e sintáticos se lhe inflige, são cantados em intermi- cípio de todas as ocorrências do relato. Ele pode ser irre-
náv~ melo éia Estranho saber, dir-se-á, que nem ao levante, o que acontece freqüentemente, mas não se deve
,, ~o~ se az compreender pelos jovens a quem se dirige! dissimular o que existe de humor ou de angústia no res-
•fí'l ;· É entretanto um saber muito comum , o das cantigas peito desta etiqueta. Em suma, a importância é dada à
.. ~nfantis, aquele que as músicas repetitivas em nossos dias cadência métrica das ocorrências do relato e não à dife-
tentaram reencontrar ou pelo menos dele se aproximar. rença de tom de cada performance. É assim que se pode
Apresenta uma propriedade surpreendente: à medida que chamar esta temporalidade simultaneamente de evanescen-
o metro prevalece sobre o acento nas ocorrências sonoras, te e imemorial. 85
faladas ou não, o tempo deixa de ser o suporte da memo- Enfim, assim como não tem necessidade de se lem-
rização e torna-se uma cadência imemorial que, na ausên- brar do seu passado, uma cultura que concede a preemi-
cia de diferenças observáveis entre os períodos, impede nência à forma narrativa, sem dúvida não tem mais neces-
de enumerá-los e os relega ao esquecimento.84 Se interro- sidade de procedimentos especiais para autorizar seus re-
garmos a forma dos ditos, provérbios e máximas que são latos. Mal se imagina, de início, que ela isola a instância
como que pequenos fragmentos de relatos possíveis, ou narrativa das outras para lhe conceder um privilégio na
matrizes de relatos antigos e que continuam ainda a cir- pragmática dos relatos; que em seguida ela se interroga
cular em certos patamares do edifício social contemporâ- sobre o direito que o narrador, assim desconectado do
neo, reconheceremos na sua prosódia a marca desta bizarrll narratário e da diegese, teria de contar o que ele conta;
40 41
70. Ver o surgimento dos folclores europeu~ " partir do final do século
enfim, que ela empreende a análise ou a anamnese X V 111 em relação com o romantismo: estudos dos irmãos Grimm, de
Vuk Karadic (contos populares sérvios). etc.
de sua própria legitimidade. Imagina-se ainda menos que
ela possa atribuir a um incompreensível sujeito da narra- 71. Era esta. sumariamt:nte. a tese de L. Lévy·Bhrul , Lu mentalité primi-
tive. Alcan. 1922.
ção a autoridade sobre os relatos. Eles possuem esta auto- 72 . Cl. Lévi-Strauss. La pensée sauvage. Plon. 1962.
ridade por si mesmos. O povo não é, num sentido, senão 73 . R. Jaulin. La paix blandze, Seuil, 1970.
o que os atualiza, e ainda o .faz não somente contando-os, 74. VI. Propp. "Morphology of the Folktale". Tnternational fournal o f Lin-
mas também ouvindo-os e fazendo-os contar por eles, isto guistics 24. 4 (october 1958); t.L M. Dcrrida. Todorov & Kahn. Mor-
é, "encenando-os" em suas instituições: assim, tanto colo- phologie clu conte. Paris. Seuil. 1970.
cando-se nos postos do narratá·rio e da diegese, como do 7j. Cl. Lévi-Strauss. "La structure des mythes" ( 1955), in Anthropologie
structurule. Plon . 1958; id .. "La structure de la forme. Rérlexions sur
narrador. un ouvrage de Vladimir Propp". Cahiers de l'lnstitut de science écono-
Existe assim uma incomensurabilidade entre a prag- mique uppliquée 99. série M. 7 (mars 1960).
mática narrativa popular, que é por si legitimante, e este 76 . Geza Roheim . Ps_vchoanal_vsis anel Anthropology. N.Y., 1950; t.f., Psy-
chanalyse et untrupologie. Paris. 19ó7.
jogo de linguagem conhecido do Ocidente que é a ques- 77 . André M. d'Ans. Le dit eles vrais homnzes. 10/18. 1978.
tão da legitimidade ou, antes, a legitimidade como refe- 78. lhid.. 7.
rente do jogo interrogativo. Os relatos, já o vimos, deter- 79. Nós a mantivemos por causa da "etiqueta'' pragmática que envolve
minam os critérios de competência e/ ou ilustram a sua apli- a transmissão dos relatos e da qual o antropólogo nos informa com
cação. Eles definem assim o que se tem o direito de dizer cuidado. Ver P. Clastres. Le grand Parler. Mythes et ,-hants sacrés
eles lncliens Guarani. Seuil. 1974.
e de fazer na cultura e, como também eles são uma parte 80 . Para uma narratologia que faz intervir a dimensão pragmática, ver
desta, encontram-se desta forma legitimados. G. Genette. Figures lll, Seuil, 1972.
81 . Cf. nota 34.
82 . A relação metro/acento que faz e desfaz o ritmo está no centro da
reflexão hegeliana sobre a especulação. Ver Phénomenologie de l'Es-
NOTAS
*
prit. Prefácio. IV.
81. Estas informações são devidas à cortesia de A. M. d'Ans. a quem
agradeço.
65. Aristóteles circunscreve o objeto do saber definindo o que ele chama 84. Ver as análises de D. Charles. Le temps et la voix. Delarge, 1978. E
de apophantikos: "Todo discurso significa alguma coisa (sémantikos), de Dominique Avron. L'apparei/ musical, 10/18. 1978.
mas todo discurso não é denotativo (apophantikos): só o é aquele ao
qual cabe dizer do verdadeiro ou falso. Ora, isto não se produz em 85 . Ver Mircea Eliade. Le mythe de l'éternel retour: Archét,,·pes et répéti-
todos os casos: a prece, por exemplo, é um discurso, mas ela não é tiolls, Gallimard, 1949.
nem verdadeira nem falsa" (Péri herméneias 4, 17 a).
66. Ver K. Popper, Logik der Forschung, Viena, Springer, 1935; t.f. Thys-
sen-Rutten & Devaux, La logique de la découverte scientijique, Payot,
1973; id., "Normal Science and its Dangers", in I. Lacaios e A. Mus-
grave ed., Criticism and the Growth of Knowledge, Cambridge (G.B.)
U.P., 1, 1970.
67. Ver Jean Beaufret, Le poeme de Parménide, P.U.F., 1955.
68. No sentido de Bildung ainda (inglês: culture), tal como foi difundido
pelo culturalismo. O termo é pré-romântico e romântico; cf. o Volks-
geist de Hegel.
69. Ver à escola culturalista americana: C. DuBois, A. Kardiner, R. Lin-
ton, M. Mead.
42
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dições. Antes disto ele não poderá ser considerado como
alguém que efetivamente conheça a matéria.
Em terceiro lugar, o referente, a trajetória dos pla-
netas .da qual fala Copérnico, supõe-se "expressa" pelo
7 enunc1ado conforme o que ela é. Mas, como não se pode
saber o que é senão por enunciados da mesma ordem
PRAGMATICA DO SABER CIENTiFICO que os de Copérnico, a regra da adequação constitui um
problema: o que eu digo ~ verdadeiro porque o provo;
mas o que prova que a mmha prova é verdadeira?
A solução científica desta dificuldade consiste na
TENTEMOS caracterizar, mesmo que sumariamente; a observância de uma dupla regra. A primeira é dialética
pragmática do saber científico tal como ela emerge da con- ou mesmo retórica de tipo judiciário: 87 é referente o que
cepção clássica deste saber. Distinguir-se-á o jogo da pes- pode fornecer matéria comprobatória no debate. Não é
quisa e o do ensino. isso: posso provar porque a realidade é como eu a digo;
Copérnico declara que a trajetória dos planetas é cir- mas, quando posso provar, é permitido pensar que a reali-
.dade é como eu a digo.88 A segunda é metafísica: o mesmo
cular.!ló Que a proposição seja verdadeira ou falsa, ela com-
referente não pode fornecer uma pluralidade de provas
porta um conjunto de tensões e cada uma influencia sobre
contraditórias ou inconsistentes; ou ainda: "Deus" não
cada um dos postos pragmáticos que ela coloca em jogo
é falacioso. 89
- remetente, destinatário, referente. Estas "tensões" são
tipos de prescrições que regulam a aceitabilidade do enun- Esta dupla regra sustenta o que a ciência do século
ciado enquanto "de ciência". XIX chama verificação e a do século XX, falsificação.90
Inicialmente, supõe-se que o remetente diz a verda· Ela permite dar ao debate dos parceiros, remetente e des-
de a propósito do referente, a trajetória dos planetas. O tinatário, o horizonte do consenso. Todo consenso não é
que isto significa? Que supõe-se seja ele capaz de, por um i.t?.dicativo de verdade; mas supõe-se que a verdade de um
lado, reunir as provas do que diz e, por outro lado, refu- enunciado não pode deixar de suscitar o consenso.
tar qualquer enunciado contrário ou contraditório versan- Isto quanto à investigação. Vê-se que ela faz apelo
do sobre o mesmo referente. ao ensino como seu complemento necessário. Pois é ne-
Em seguida, supõe-se que o destinatário pode con- cessário ao cientista um destinatário que possa, por sua
ceder validamente o seu consentimento (ou recusá-lo) do vez, ser um remetente, que seja um parceiro. Senão a
enunciado que ele ouve. Isto implica que ele mesmo é verificação do seu enunciado é impossível por falta de um
pot_encialmente um remetente pois, quando formula seu debate contraditório, que a não·renovação das competências
assentimento ou o seu dissentímento, será submetido à terminaria por tornar impossível. E não é somente a ver-
mesma dupla exigência de provar ou refutar que o reme- dade do seu enunciado mas sua própria competênCia que
tente atual, Copérnico. Supõe-se assim que ele reúna po- está em jogo neste debate; pois a competência não é nunca
tencialmente as mesmas qualidades que este: ele é seu par. adquirida, ela depende do enunciado proposto ser ou não
Mas não o saberá, a não ser quando falar, e nestas con- considerado discutível numa seqüência de argumentações
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e de refutações entre pares. A verdade do enunciado e a
e cientista se se pode proferir enunciados verificáveis ou
competência do enunciador são assim submetidas ao assen-
timento da coletividade de iguais em competência. É pre- falsificáveis a respeito de referentes acessíveis aos experts.
ciso, portanto, formar iguais.
A didática assegura esta reprodução. Ela é diferente 2 - Este saber encontra-se assim isolado dos outros
do jogo dialético da pesquisa. Resumindo, seu primeiro jogos de linguagem cuja combinação forma o vínculo so-
pressuposto é que o destinatário, o estudante, não sabe o cial. Em relação ao saber científico, ele não é mais uma
que sabe o remetente; com efeito, é por esta razão que componente imediata c partilhada como o é o saber narra-
existe algo a se aprender. Seu segundo pressuposto é o tivo. É uma componente indireta, porque torna-se uma
de que ele pode aprender e totnat=.s.e__.u.m_ex_pert da mesma profissão e dá lugar a instituições, sendo que nas socie-
competência que seu mestre.91 Esta dupla exigência supõe dades modernas os jogos de linguagem se reagrupam sob
uma terceiíií':existeme nunciados a respeito dos quais a a forma de instituições animadas pelos participantes quali-
troca de argumentos e a administração das provas que ficados, os profissionais. A relação entre o saber e a socie-
formam a pragmática da pesquisa são consideradas como dade (quer dizer, entre o conjunto dos participantes na
tendo sido suficientes e que podem assim ser transmitidas agonística geral, enquanto eles não são profissionais da
de saída a título de verdades indiscutíveis no ensino. ciência) exterioriza-se. Um novo problema aparece, o da
Em outras palavras, ensina-se o ue se sabe: e!.L_Q relação entre instituição científica c sociedade. Poderia o
~xpetj_,_, Mas, à medida que o estudante (o destinatário problema ser resolvido pela didática, por exemplo, s~gundo
dadidática) melhora sua competência, o expert pode co- o pressuposto de que todo átomo social pode adquirir
locá-lo a par do que ele não sabe mas busca saber (se pelo competência científica?
menos o expert for, por outro lado, um pesquisador). O
estudante é assim introdqzido na dialética dos pesquisa-
dores, isto é, no jogo da formação do saber científico. . 3 - No seio d jogo_da_pesquisa, a~mmpetêpcia
Se se compara esta pragmática à do saber narrativo, r~.u_erid~ versa unicamente sobre a posição do enuncia-
notar-se-ão as seguintes propriedades: dor. Não existe competência particular como destinatário
(ela não é exigível senão na didática: o....estudante deve
ser inteligente). E não existe nenhuma competência como
1 - O saber científico exige o isolamento de um
referente. Mesmo se_se _trata de ciências humanas,_o__re_fe-
jogo de linguagem, o denotativo; e a exclusão dos outros. O rente que é entãp determinado__asp_e_cto_do comportamento
critério de aceitabilidade de um enunciado é o seu valor J~ humano, é em princípio colocado na exterioridade em re-
verdade. Encontram-se com certeza outras classes de enun- lação aos parceiros da dialética científica. Não existe aqui,
ciados, como a interrogação ("Como explicar que ... ? ") como no narrativo. algo como saber ser o que o saber
e a prescrição ("Seja uma série enumerável de elemen- diz que se é.
tos ... "); eles são apenas suportes na argumentação dialé-
tica; esta deve terminar em um enunciado denotativo.92
Assim, é-se um erudito (neste sentido) se se pode pro- 4 - Um enunciado de ciência não extrai nenhuma
ferir um enunciado verdadeiro a respeito de um referente; validade do que é relatado. Mesmo em matéria de peda-
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gogia, não é ensinado senão enquanto é sempre presen- Não se poderia assim julgar nem sobre a existência
temente verificável por argumentação e prova. Em si, não nem sobre. o valor do narrativo a partir do científico, nem
está nunca ao abrigo de uma "falsificação" .93 Desta ma- o inverso: os critérios pertinentes não são os mesmos para
neira, o saber acumulado em enunciados aceitos anterior- um ou outro. Há, apenas, que se admirar com esta varie-
mente pode sempre ser recusado. Mas, ao contrário, todo dade de espécies discursivas, como se faz com as espécies
novo enunciado, se for contraditório em relação a um vegetais e animais. ~amentar-se sobre "a 2erda do sentido"
enunciado anteriormente admitido que verse sobre o mesmo na pós-modernidade seria ~eplo.r.a que- o- saber- não...seja
referente, não poderá ser aceito como válido a não ser que ~principalmente_nar.ratiY...o,. É uma inconseqüência. Uma
refute o enunciado precedente com argumentos e provas. outra não é menor: a de querer derivar ou engendrar (por
operadores tais como o desenvolvimento, etc.) o saber cien-
tífico a partir do saber narrativo, como se este contivesse
5 - O jogo de ciência implica então uma tempo- aquele em estado embrionário.
ralidade diacrônica, isto é, uma memória e um projeto. No entanto, como as espécies vivas, as espécies de
Supõe-se que o remetente atual de um enunciado cientí- linguagem têm relações entre elas, e estas relações estão
fico tenha conhecimento dos enunciados precedentes que longe de ser harmoniosas. A outra razão que pode justifi-
dizem respeito a seu referente (bibliografia) e não pro- car o relato sumário das propriedades do jogo de lingua-
ponha um enunciado sobre este mesmo assunto a não ser gem da ciência refere-se precisamente à sua relação com
que ele difira dos enunciados precedentes. O que se cha- o saber narrativo. Dissemos que este último não valoriza a
mou de "acento" de cada per/orma11ce é aqui privilegiado questão de sua própria legitimação; ele autoriza-se a si
em relação ao "metro", e ao mesmo tempo à função polê- mesmo pela pragmática de sua transmissão sem recorrer
mica deste jogo. Esta diacronia supondo a memorização à argumentação e à administração de provas. Por isso
e a pesquisa do novo delineia em princípio um processo· acrescenta à sua incompreensão dos problemas do discurso
cumulativo. O "ritmo" deste, que é a relação entre acento científico uma tolerância determinada a seu respeito: con-
e metro, é variável.94 sidera-o de início como uma variedade na família das cul-
turas narrativas. 95 O inverso não é verdadeiro. O cientista
interroga-se sobre a validade dos enunciados narrativos e
constata que eles não são nunca submetidos à argumen-
Estas propriedades são conhecidas. Todavia, elas me-
tação e à prova.96 Ele os classifica conforme outra menta-
recem ser lembradas por duas razões. De início, o para-
lelismo da ciência com o saber não científico (narrativo) lidade: selvagem, primitivo, subdesenvolvido, atrasado,
faz compreender, pelo menos sentir, que a existência da alienado, feito de opiniões, de costumes, de autoridade,
primeira é tão necessária quanto a da segunda, e não me- de preconceitos, de ignorâncias, de ideológias. Os relatos
nos. Uma e outra são formadas por conjuntos de enun- são fábulas, lendas, mitos bons para as mulheres e as
ciados;_ estes são "lances" apresentados por jogadores no crianças. Nos melhores casos, tentar-se-á fazer penetrar a
quac:fro das regras gerais; estas regras são específicas de luz neste obscurantismo, civilizar, educar, desenvolver.
cada saber, e os "lances", considerados bons aqui ou ali, Esta relação desigual é um efeito intrínseco das re-
nao podem ser da mesma espécie, salvo por acaso. gras próprias a cada jogo. Conhecem-se os seus sintomas.
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É toda a história do imperialismo cultural desde os iní-
cios do Ocidente. É importante reconhecer o seu teor,
que o distingue de todos os outros: está comandado . pela
exigência de legitimação. 8

A FUNÇAO NARRATIVA E A LEGITIMAÇAO


DO SABER
NOTAS

86. O exemplo é tirado de Frege, "Ueber Sinn und Bedeutung" (1892);


" t. ing. "On Sense and Reference", Philosophical Writings, Oxford,
Blackwell, 1960.
87. Br. Latour, "La rhétorique du discours scientifique", Actes de la re-
EsTE problema da legitimação não é mais considerado
cherche en sciences sociales 13 (mars 1977). hoje como uma fraqueza no jogo de linguagem da ciência.
88. G. Bachelard, Le nouvel esprit scientifique, P.U.F., 1934. Seria mais justo dizer que ele é por si mesmo legitimado
89. Descartes, Méditations métaphysiques 1641, Meditação IV. como problema, isto é, como instrumento heurístico. Mas
90. Ver por exemplo K. Hempel, Philosophy of Natural Science, En· esta maneira de tratá-lo, por inversão, é recente. Antes
glowood Clíffs (N.J.), Prentice Hall, 1966; t.f. Saint-Sernin, Eléments de se chegar a ela (isto é, ao que alguns chamam de posi-
d'epistémologie, Armand Colin, 1972.
91. Não se pode abordar aqui as dificuldades que esta dupla pressuposi- tivismo), o saber científico pesquisou outras soluções. É
ção suscita. Ver Vincent Descombes, L'inconscient malgré lui, Minuit, de se admirar que por tanto tempo estas soluções não
1977. tenham podido evitar o recurso a processos que, aberta-
92. Esta observação mascara uma dificuldade importante, que apareceria mente ou não, relacionam-se ao saber narrativo.
também no exame da narração: a que concerne a distinção entre jogo
de linguagem e gênero de discurso. Não a estudaremos aqui. Este retorno do narrativo ao não-narrativo, sob uma
93. No sentido anteriormente indicado na nota 90. forma ou outra, não deve ser considerado como ultra-
94. Th. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, Chicago U.P., passado para sempre. Uma prova grosseira: que fazem os
1962; t.f. La structure des révolutions scientifiques, Flammarion, 1972.
95. Cf. a atitude das crianças nas suas primeiras aulas de ciências, ou a
cientistas chamados à tele;•isão, entrevistados nos jornais,
maneira como os aborígines interpretam as explicações dos etnólogos após alguma "descoberta"? Eles contam a epopéia de um
(ver Lévi-Strauss, La pensée sauvage, loc. cit., cap. 1, "La science du
concret"). saber que, entretanto, é totalmente não-épica. Satisfazem
96. E assim que Métraux diz a Clastres: "Para poder estudar uma socie· assim às regras do jogo narrativo, cuja pressão não so-
dade primitiva, é preciso que ela já esteja um pouco decomposta." mente junto aos usuários da mídia, mas em seu foro inte-
E preciso, com efeito, que o informador indígena possa examiná-lo
com o olho de um etnólogo, colocando-se a questão do funciona- rior, permanece considerável. Ora, um fato como este não
mento de suas instituições e, portanto, de sua legitimidade. Refletindo é trivial nem secundário: diz respeito à relação entre . sa~
sobre seu fracasso junto à tribo dos Aché, Clastres conclui: "E por
isso, num mesmo movimento, os Aché recebiam os presentes que não ber científico e saber "popular" ou o que disto resta. O
pediam e recusavam as tentativas de diálogo porque estavam suficien-
temente fortes para precisar disto: começaríamos a falar quando eles Estado pode despender muito para que a ciência possa
estivessem doentes." (Citado por M. Cartry, "Pierre Clas·tre", Libre figurar com~ epopéia: através dela ele _ganna creill-
4 [1918].)
bilidade, cria o assentimento público de que seus próprios
decisores têm necessidade.91 - - -

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Não está assim excluído que o recurso ao narrativo Acontece que a questão da legitimidade do próprio
seja inevitável; ao menos na medid!,l -em que o jogo de jogo, considerando-se sua natureza cientí(ica, deve também
linguagem da ciência zele pela verdade dos seus enuncia- · _ fazer parte das questões que são levantadas no diálogo.
dos e que ele não possa legitimá-la por seus próprios meios. Um exemplo conhecido, c importante, à medida que ar-
Neste caso, seria preciso reconhecer uma necessidade d.e - ticu.la_ sem difi,culdade esta questão à da autoridade socio-
história irredutível, compreendendo-a, como já esboçamos, política, é dado nos livros VI e VII da República. Ora,
não como uma necessidade de recordar-se e de projetar
sabe-se que a resposta consiste, pelo menos em parte,
(necessidade de historicidade, necessidade de "acento"),
num · relato, a alegoria da caverna, que conta por que e
mas, ao contrário, como uma necessidade de esquecimento
(necessidade de "metro") (seção 6). - como os homens querem relatos e não reconhecem o saber.
Este ·encontra-se assim fundado pelo relato de seu martírio.
É no entanto prematuro chegar a este ponto. Mas
ter-se.:á presente ao espírito, nÓ correr das éonsiderações . Há mais, porém: é em sua própria forma , os Diálo-
seguintes, .a idéia de que as soluÇões aparentemente em gos çscritos por Platão, que o esforço de legitimação en-
desuso que puderam ser dadas ao problema da legitimação trega · as armas à narração; pois cada um deles assume
não o são e~< princípio, mas somente nas expressões que semp{e a forma do relato de uma discussão científica.
tomaram, e que não é de se espantar ao vê-las persistir Que a história do debate seja mais mostrada do que rela-
hoje sob outras formas. Nós mesmos não temos necessi- tada, mais encenada do que narrada,W e assim refira-se mais
dàde, neste momento, de prep~tar um relato do saber ao trágico que ao épico, importa pouco aqui. O fato é
científico oÇidental para precisar seu estatuto? que o -discurso platônico que inaugura a ciência não é cien-
Desde os séus inícios, o jogo de linguagem apresehta tífico, e isto à medida que pretende legitimá-la. O
· b;_problema de sua própria legitimidade, como em Platão. saber científico não pode saber e fazer saber que ele é o
Este não é o;~Jugar de se fazer a exegese das passagens verdadeiro saber sem recorrer ao outro saber, o relato,
dos Diálogof.'-em que a pragmática da ciência coloca-se que _é para ele o não-saber, sem o que é obrigado a se
explicitamente como telliá .o ,<i~ :·implicitamente como pres- pressupor a si mesmo e cai assim no que ele condena, a
suposto. O jogô do diálogo, com suas exigências especí- petição de princípio, o preconceito. Mas não çairia tam-
ficas, a resumer- incluindo em si mesmo a dupla função bém Çisto valendo-se do relato?
de pesquisa e ensino. Reencontramos aqui algumas regras Não vamos aqui acompanhar esta recorrência do nar-
anteriormente enumeradas: a argumentação unicamente com , rativo no científico através dos discúr~bs de legitimação
fins de consenso ·(homologia), a unicidade do referente deste último, que são, pelo menos em parte, as grandes
como garantia da possibilidade de chegar a um acordo, filosofias antigas, medievais e clássicas. É um tormento
a paridade dos participantes, e mesmo o reconhecimento .contínuo.
indireto de que se trata de um jogo e não de um destino, Um pensamento tão incisivo como o de Descartes
visto que dele encontram-se excluídos todos aqueles que não pode expor a legitimidade da ciência a não ser no
não aceitam suas regras, por fraqueza ou por insensibi- .~ que Valéry chamava a história de um espírito ou ainda
100

lidade.98 · nosta espécie de romance de formação . (Bildungsroman)


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que é o Discurso do Método. Aristóteles sem dúvida foi é o sujetto cujas prescrições são as normas para aqueles
~m do.s ~ais ~odernos isolando a descrição das regras que elas obrigam?
as quais e preciso submeter os enunciados que se decla- Este modo de interrogar a legitimidade sociopolítica
ram como científicos (o Organon), da pesquisa de sua
legitimidade num discurso sobre o Ser (a Metafísica). E combina-se com a nova atitude científica: o nome do herói
ll'!ais ainda sugerindo que a linguagem científica, inclu- é~> o sinaLdaJegitimidade seu consenso, a delll»
stve em sua pretensão de definir o ser do referente, não ração seu modo de normativação. Disto resulta infalivel-
í é f~ita senão de argumentações e de provas isto é de metífe a ideia de progresso; ela não representa outra coisa
a.i àlétip .10• ' • senão o movimento pelo qual supõe-se que o saber se
Com a ciência moderna, duas novas componentes acumula, mas este movimento estende-se ao novo sujeito
aparecem na problemática da legitimação. De início, para sociopolítico. O povo está em debate consigo mesmo so-
responder à questão: como provar a prova?, ou, mais bre o que é justo e injusto, da mesma maneira que a comu-
·geralmente: quem decide sobre o que é verdadeiro?, des- nidade dos cientistas sobre o que é verdadeiro e falso; o
via-se da busca metafísica de uma prova primeira ou de povo acumula as leis civis, como os cientistas acumulam
uma autoridade transcendente, reconhece-se que as condi- as leis científicas; o povo aperfeiçoa as regras do seu con-
ções do verdadeiro, isto é, as regras de jogo da ciência, senso por disposições constitucionais, como os cientistas
são imanentes a este jogo, que elas não podem ser esta- revisam à luz dos .seus conhecimentos produzindo novos
belecidas de outro modo a não ser no seio de um debate ''paradigmas'' .102
já ele mesmo científico, e que não existe outra prova de Vê-se que este "povo" difere completamente daquele
que as regras sejam boas, senão o fato delas formarem o que está implicado nos saberes narrativos tradicionais, os
consenso dos experts. ~ quais, como se disse, não requerem nenhuma deliberação
Esta disposição geral da modernidade em definir os instituinte, nenhuma progressão cumulativa, nenhuma pre-
elementos de um discurso num discurso sobre estes ele- tensão à universalidade: são eles os operadores do saber
mentos combina-se com o reestabelecimento da dignidade científico. Não deve causar espanto que os representantes
da nova legitimação pelo "povo" sejam também os des-
das culturas narrativas (populares), já no humanismo re- truidores ativos dos saberes tradicionais dos povos, per-
nascentista, e diversamente no iluminismo, no Sturm und cebidos de agora em diante como minorias ou como sepa-
Drang, na filosofia idealista alemã, na escola históri'ca na ratismos potenciais cujo destino não pode ser senão obs-
França. A narração deixa de ser um lapso da legitimação. curantista.103
Este apelo explícito ao relato na problemática do saber é Concebe-se igualmente que a existência real deste su-
concomitante à emancipação dos burgueses em relação às jeito forçosamente abstrato (porque modelado sobre o pa-
autoridades tradicionais. O saber dos relatos retorna no radigma do único sujeito conhecedor, isto é, do remetente-
Ocidente para fornecer uma solução à legitimação das no- destinatário de enunciados denotativos com valor ·de ver-
vas autoridades. É natural que, numa problemática nar- dade, excluindo-se os outros jogos de linguagem) seja sus-
~~a, esta questão espere a resposta de um nome de penso às instituições nas quais ele é admitido para deli-
~j quem tem o díreito de decidir_ p.elª-sociedade? qual berar e decidir, e que compreende todo ou parte do Es-
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.... --~--- - - -- -- - - -- - - - - , .
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103. M. de Ccrtau. D. Jul ia c J. Revel. U11e politique de la lcmgue. La


tado. É assim que a questão do Estado encontra-se estrei- Rh·ulutiUil frml~·aisc: L'l les patois. Gallimard. 1975.
tamente imbricada com a do saber científico. 104. Sobre a distinção cnu·.: pr..:scriçõ.:s c normas. ver G. Kal inowski, "Ou
métalangagc cn logilju..:. R0fkxions sur la log iqu~: d0ontiqu..: ct son
Mas vê-se também que esta imbricação não pode ser rapport nv.:c la logilju<: d..:s norm.:s". /Jucwnc:lll> de: trcH•uif 48 (no-
simples. Pois o "povo" que é a nação ou mesmo a huma- \'<:mbr.: 1(.)75). Uniwr,ilil di Urbino.
nidade não se contenta, sobretudo em suas instituições
políticas, em conhecer; ele legisla, ou seja, formula pres-
crições que têm valor de normas. 104 Exerce assim sua com-
petência não somente em matéria de enunciados denota-
tivos dependentes do verdadeiro, como também em ma-
téria de enunciados prescritivos tendo pretensão à justiça.
É exatamente esta, como se disse, a propriedade do saber
narrativo, donde seu conceito é retirado, de encerrar am-
bas as competências, sem falar do resto.
O modo de legitimação de que falamos, que reintro-
duz o relato como validade do saber, pode assim tomar
duas direções, conforme represente o sujeito do relato como
cognitivo ou como prático: como um herói do conheci-
.mento ou como um herói da liberdade. E, em razão desta -
alternativa, não somente a legitimação não tem sempre
o mesmo sentido, mas o próprio relato aparece já como
insuficiente para dar sobre ela uma versão completa.

NOTAS

97. Sobre a ideologia cientificistn. ver Surl'il're 9 (aoüt-septembrc 1971).


repetido em Jaubert e Lévy-Leblond ed .• _op. cit .. 51 sq. Encontra-se
no final desta uma bibliografia dos periódicos e dos grupos que lutam
contra as diversas formas de subordinação da ciência ao sistema.
98 . V. Goldschmidt. Les Dialogues de Platon. P.U.F., 1947.
99. Termos tirados de G. Genettc. Figures 111. foc. cit.
100. P. Valéry, Jntroduction à la méthode de Léonard da Vinci (1894).
Gallimard , 1957 (contém também "Marginália·· [1930), "Note et di-
gression'' [1919]. "Léonard et Ies philosophcs" [1929]).
101. P. Aubenque, Le probleme de l'ltre cltez Aristoie, P.U.F., 1962.
102. P. Duhem. Essai sur la notion de théorie physique de Platon à Ga/ilée.
Hermimn. 1908; A. Koyré. Etudes galíléennes ( 1940). Hermann. 1966:
Th. Kuhn, op. cit.
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beres na população. O mesmo raciocínio vale a fortiori
para a fundação das instituições propriamente científicas.
Reencontra-se o recurso ao relato das liberdades cada vez
que o Estado toma diretamente a si o encargo da formação
9 do "povo" sob o nome de nação e sua orientação no ca-
minho do progresso. 107
OS RELATOS DA LEGITIMAÇAO DO SABER Com o outro relato de legitimação, a relação entre
a ciência, a nação e o Estado dá lugar a uma elaboração
bastante diferente. É o que se deu quando da fundação
da Universidade de Berlim, entre 1807 e 1810.10$ Sua in-
fluência será considerável sobre a organização dos cursos
ExAMINAREMOS duas grandes versões do relato de
superiores nos países jovens nos séculos XIX e XX.
legitimação; uma mais política, a outra mais filosófica, am-
bas de grande importância na história moderna, em parti- Por ocasião desta criação, o ministério p~ussiano foi
cular na do saber e de suas instituições. surpreendido com um projeto de Fichte e considerações
opostas apresentadas por Schleiermacher. Coube a Wilhelm
Uma é a que tem por sujeito a~o
von Humboldt resolver o caso; decidiu a favor da opção
herói da liberd-ªde. Todos os povos têm direito à ciência.
Se o sujeito social já não é o sujeito do saber científico mais "liberal" do segundo.
é porque foi impedido nisto pelos padres e tiranos. O di- Lendo-se o relatório de Humboldt, pode-se ser ten-
reito à ciência deve ser reconquistado. É compreensível tado a reduzir toda sua política sobre a instituição cientí-
que este relato oriente mais uma política dos ensinos pri- fica ao célebre princípio: "Buscar a ciência em si mesma".
mários que das universidades e escolas.105 A política es- Isto seria equivocar-se sobre a finalidade desta política,
colar da III República ilustra claramente estes pressupostos. muito próxima daquela que Schleiermacher expôs de modo
Quanto ao ensino superior, este relato parece dever mais completo e em que predomina o princípio de legiti-
limitar o seu alcance. É assim que, em geral, se descrevem mação que nos interessa.
as disposições tomadas a este r~speito por Napoleão, cui- Humboldt declara, é certo, que a ciência obedece às
dando de produzir as competências administrativas e pro- suas regras próprias, que a instituição científica "vive e
fissionais necessárias à estabilidade do Estado. 106 Assim renova-se sem cessar por si mesma, sem nenhum cercea-
ignora-se que este último, na perspectiva do relato das mento nem finalidade determinada". Mas acrescenta que
liberdades, não recebe sua legitimidade de si mesmo, e a universidade deve remeter seu material. a ciência, à "for-
sim do povo. Se as instituiçõ~s de ensino superior são mação espiritual e moral da nação". 1 Como este efeito
(1<1

consagradas pela política imperial a serem estufas dos qua- de Bildung pode resultar de uma pesquisa desinteressada
dros do Estado e, secundariamente, da sociedade civil, é do conhecimento? O Estado, a nação, a humanidade in-
porque através das administrações e· das profissões em que teira não são indiferentes ao saber considerado em si
se exercerá sua atividade, a própria nação está autorizada mesmo? Com efeito, o que lhes interessa é, como declara
a conquistar sua liberdade graças à difusão dos novos sa- Humboldt, não o conhecimento, mas "o caráter e a ação".
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O conselheiro do ministro coloca-se assim face a um poderes públicos em matéria de ciência, é porque o prin-
conflito maior, que lembra a ruptura introduzida pela crí- cípio desta não reside, mesmo indiretamente, naqueles. O
tica kantiana entre conhecer e querer, o conflito entre um sujeito do saber não é o povo, é o espírito especulativo.
jogo de linguagem feito de denotações que não emanam Ele não se encarna, como na França de após a Revolução,
senão do critério da verdade, e um jogo de linguagem que num Estado, mas num Sistema. O jogo de linguagem de
orienta a prática ética, social, política, e que comporta legitimação não é político-estatal, mas filosófico .
necessariamente decisões e obrigações, ou seja enunciados A grande função que as universidades têm a desem-
dos quais não se espera que sejam verdadeiros, mas jus- penhar é a de "expor o conjunto dos conhecimentos e
tos, e que portanto não emanam em .íltima análise do evidenciar os princípios ao mesmo tempo que os funda-
saber científico. mentos de todo saber", pois "não existe capacidade cien-
A unificação destes dois conjuntos de discursos é, no tífica criadora sem espírito especulativo". 111 Aqui , a espe-
entanto, indispensável à Bildung visada pelo projeto hum- culação é o nome que o discurso sobre a legitimação do
boldtiano, e que consiste não somente na aquisição de discurso científico recebe. As escolas são funcionais; a uni-
conhecimentos pelos indivíduos, mas na formação de um
versidade é especulativa, isto é, filosófica. 112 Esta filosofia
sujeito plenamente legitimado do saber e da sociedade.
deve restituir a unidade dos conhecimentos dispersados em
Humboldt invoca assim um Espírito, que Fichte também
chamava de Vida, movido por uma tríplice aspiração, ou ciências particulares nos laboratórios e nos cursos pré-uni-
melhor, por uma aspiração simultaneamente tríplice e uni- versitários; ela não pode fazê-lo senão num jogo de lin-
tária: "a de tudo fazer derivar de um princípio original", guagem que una ambos os aspectos como momentos no
à qual corresponde a atividade científica; "a de tudo re- devir do espírito, portanto, numa narração ou, antes, numa
ferir a um ideal", que governa a prática ética e social; metanarração racional. A Enciclopédia de Hegel (1817-27)
"a de reunir este princípio e este ideal em uma única buscará satisfazer este projeto de tota~_ão_, já presente
Idéia", assegurando que a pesquisa das verdadeiras causas em Fichte e em Schelling como idéia d SistemàJ
-~

na ciência não pode deixar de coincidir com a persecução É aí, no dispositivo de desenvolvimento de uma Vida
de justos fins na vida moral e política. O sujeito legítimo que é ao mesmo tempo Sujeito, que se nota o retorno do
constitui-se desta última síntese. saber narrativo. Existe uma "história" universal do espí-
Humboldt acrescenta de passagem que esta tríplice rito, o espírito é "vida", e esta "vida" é a apresentação
aspiração pertence naturalmente ao "caráter intelectual e a formulação do que ela mesmo é; ela tem como meio
da nação alemã". 110 É uma concessão. mas discreta, ao ou- o conhecimento ordenado de todas as suas formas nas
tro relato, isto é, à idéia de que o sujeito do saber é o ciências empíricas. A enciclopédia do idealismo alemão é
povo. Na verdade, esta idéia está longe de se conformar a narração da "história" deste sujeito-vida. Mas o que ela
ao relato da legitimação do saber proposto pelo idealismo produz é um metarrelato, pois o que conta este relato
alemão. Sinal disto é a suspeita de um Schleiermacher, de não deve ser um povo estrangulado na positividade par-
um Humboldt e mesmo de um Hegel a respeito do Es- ticular de seus saberes tradicionais, e tão pouco o con-
tado. Se Schleiermacher teme o nacionalismo estreito, o junto dos cientistas que são limitados pelos profissiona-
protecionismo, o utilitarismo, o positivismo que guia os lismos correspondentes às suas especialidades.
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Este não pode ser senão um metassujeito em vias e vindo a ser também o saõer destes saberes, isto é, espe-
de formular tanto a legitimidade dos discursos das ciên- culativo. Sob o nome de Vida, de Espírito, é a si mesmo
cias empíricas, como a das instituíções imediatas das cul- que nomeia.
turas populares. Este metassujeito, revelando seu funda- Um resultado apreciável do dispositivo especulativo,
mento comum, realiza seu fim implícito. O lugar em que é o de que todos os discursos de conhecimento sobre todos
habita é a universidade especulativa. A ciência positiva os referentes possíveis são aí considerados não com seu
e o povo não são outra coisa senão suas formas brutas. valor de verdade imediato, mas com o valor que eles assu-
O próprio Estado-nação não pode exprimir validamente o mem pelo fato de ocuparem um certo lugar no percurso do
povo a não ser pela mediação do saber especulativo. Espírito ou da Vida, ou, se se prefere, uma certa posição
Era necessário resgatar a filosofia que ao mesmo na Enciclopédia que descreve o discurso especulativo. Este
. tempo legitima a fundação da universidade berlinense e os cita expondo por si mesmo o que sabe, isto é, expondo-
devia ser o motor do seu desenvolvimento e do saber con- se a si mesmo. Nesta perspectiva, o verdadeiro saber é
temporâneo. Como já foi dito, esta organização universi- sempre um saber indireto, feito de enunciados recolhidos,
tária serviu de modelo para a constituição ou a reforma e incorporados ao metarrelato de um sujeito que assegura-
dos cursos superiores nos séculos XIX e XX em muitos lhe a l~gitimidade.
países, a começar pelos Estados Unidos.113 Mas sobretudo, Isto vale para todos os discursos, mesmo se eles não
esta filosofia, que está longe de ter desaparecido, princi- forem de conhecimento como, por exemplo, os do direito
palmente no meio universitário, 114 propõe uma representa- e do Estado. O discurso hermenêutica contemporâneo116
ção particularmente viva de uma solução dada ao proble- emerge desta pressuposição que assegura finalmente que
ma da legitimidade do saber. há sentido a conhecer e que confere assim sua legitimi-
Não se justifica a pesquisa e a difusão do conheci- dade à história e, notadamente, à do conhecimento. Os
mento por um princípio em uso. Não se pensa de modo enunciados são tomados como autônimos deles mesmos,117
algum que a ciência deva servir aos interesses do Estado e colocados num movimento onde se admite que eles se
e/ ou da sociedade civil. Negligencia-se o princípio huma- engendrem uns aos outros: tais são as regras do jogo de
nista segundo o qual a humanidade eleva-se em dignidade linguagem especulativo. A universida~e, como seu nome
e em liberdade por meio do saber. O idealismo alemão o indica,_ é-ª-~ua instituição. . exclus.iva.
recorre a um metaprincípio que simultaneamente funda- Mas, como se disse, o problema da legitimidade pode
menta o desenvolvimento ao mesmo tempo do conheci- resolver-se pelo outro processo. É preciso marcar-lhe a
mento, da sociedade e do Estado na realização da "vida" diferença: a primeira versão da legitimidade reencontrou
de um Sujeito que Fichte chama "Vida divina" e Hegel um novo vigor hoje, enquanto o estatuto do saber encon-
"Vida do espírito". Nesta perspectiva, o saber encontra tra-se desequilibrado e sua unidade especulativa fragmen-
de início sua legitimidade em si mesmo, e é ele que pode tada.
dizer o que é o Estado e o que é a sociedade.115 Mas não O saber não encontra aí sua validade em si mesmo,
pode desempenhar este papel senão mudando de patamar, num sujeito que se desenvolve atualizando suas possibili-
por assim dizer, deixando de ser o conhecimento positivo dades de conhecimento, mas num sujeito prático que é a
do seu referente (a natureza, a sociedade, o Estado, etc.), humanidade. O princípio do movimento que anima o povo
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não é o saber em sua autolegitimação, mas a liberdade em os membros, se consideram que esta não é bem represen-
sua autofundação ou, se se prefere, em sua autogestão. tada por aquele. Este tipo de legitimação lhe reconhece
O sujeito é um sujeito concreto ou suposto como tal, sua a autoridade, a título de seres humanos práticos, de
epopéia é a de sua emancipação em relação a tudo aquilo recusar em prestar sua colaboração de cientistas a um po-
que o impede de se governar a si mesmo. Supõe-se que der político que eles julgam injusto, isto é, não fundamen-
as leis que para si mesmo estabelece sejam justas, não por- tado sobre a autonomia propriamente dita. Eles podem
que elas estarão ajustadas a determinada natureza exterior mesmo até fazer uso de sua ciência para mostrar como
e sim pelo fato de que, por constituição, os legisladores esta autonomia de fato não é. realizada na sociedade e no
não são outros senão cidadãos submetidos às leis e que, Estado. Reencontra-se assim a função crítica do saber.
em conseqüência, a vontade de ·que a lei faça justiça, que Acontece que este não tem outra legitimidade final senão
é a do cidadão, coincide com a vontade do legislador, que a de servir os fins visados pelo sujeito prático que é a
, é a de que a justiça seja lei.
coletividade autônoma.119
Este modo de legitimação pela autonomia da vonta- Esta distribuição dos papéis na tarefa de legitimação
de118 privilegia, como se vê, um jogo de linguagem bem é interessante, segundo o nosso ponto de vista, porque
diverso, o que Kant chamava de imperativo e os contem- supõe, ao contrário da teoria do sistema-sujeito, ~ue não
porâneos chamam de prescritivo. O importante não é, ou existe unificação nem totalização possíveis dos Jogos de
não é apenas, legitimar os enunciados denotativos, depen- linguagem num metadiscurso. Aqui, ao contrário, o privi-
dentes do verdadeiro, como: A Terra gira em torno do légio concedido aos enunciados prescritivos, que são os
sol, mas enunciados prescritivos, dependentes do justo, que o sujeito prático profere, torna-os independentes, em
como: É preciso destruir Cartago, ou: É preciso fixar o
princípio, dos enunciados de ciência, que não têm mais
salário mínimo em x francos. Nesta perspectiva, o saber
positivo não tem outro papel senão o de informar o sujeito função senão a de informação para o dito sujeito.
prático da realidade na qual a execução da prescrição deve
se inscrever. Ele lhe permite circunscrever o executável,
o que se pode fazer. Mas o executório, o que se deve lJuas ·observações:
fazer, não lhe pertence. Que um empreendimento seja
possível é uma coisa; que ele seja justo, outra. O saber 1 - Seria fácil mostrar que o marxismo oscilou entre
os dois modelos de legitimação narrativa que descrevemos.
não é mais o sujeito, ele está a seu serviço; sua única legi-
O Partido pode tomar o lugar da universidade -.o yro-
timidade (mas ela é considerável), é permitir que a mora- letariado, o do povo ou da huma~üdade, o matenal~smo
lidade venha a ser realidade. dialético o do idealismo especulativo, etc.; pode dat re-
Assim introduz-se uma relação entre o saber e a so- sultar o 'estalinismo e sua relação específica com as ciên-
ciedade e seu Estado, que é, em princípio, a relação entre cias, que lá estão apenas enquanto cit~ção do meta~relato
meio e fim. Os cientistas não devem se prestar a isso a da marcha para o socialismo como eqUivalente da vtda do
não ser que julguem a política do Estado justa; isto é, o espírito. Mas ele pode, ao contrár~o; conforme a segunda
conjunto de suas prescrições. Eles podem recusar as pres- versão desenvolver-se em saber Cfltlco, postulando que o
crições do Estado em nome da sociedade civil de que são sociali~mo não é senão a constituição do sujeito autônomo
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UNIVERSIDADE FEDERAL 00 PARÁ
818LIOTF.CA CENTRAL
rion. 1977. ~ igualmente esta norma, ao que parece, que orienta a
e que toda a justificação das c1encias é dar ao sujeito em- estrutura dos programas dos C.E.G.E.P. de Quebec, e sobretudo os
pírico (o proletariado) os meios de sua emancipação em de filosofia (ver por exemplo os Cahiers de l'enseigment collégial
relação à alienação e à repressão: sumariamente, foi esta 1975-1976 para a filosofia).
a posição da Escola de Frankfurt. 106. Ver H. Janne. "L'Université et les besoins de la société contemporai-
ne", Cahiers de l'association internationale des universités 10 (1970),
5; citado in Commission d'études sur les universités, Document de
consultation, Montreal 1978.
107 . Encontra-se uma expressão "dura" (quase místico-militar) em Júlio
2 - Pode-se ler o Discurso que Heidegger proferiu de Mesquita Filho, Discurso de Paraninfo da primeira turma de licen-
no dia 2 7 de maio de 19 3 3, quando de sua ascensão ao ciados pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade
de São Paulo (25 de janeiro de 1937); e uma expressão adaptada aos
reiterado da Universidade de Friburgo,120 como um episó- problemas modernos do desenvolvimento no Brasil no Relatório do
dio infeliz da legitimação. A ciência especulativa tornou-se Grupo de Trabalfw, Reforma Universitária, Brasília, Ministério da
Educação e Cultura. do Planejamento, etc., agosto de 1969. Estes
.o questionamento do ser. E~e é ~des-t-i-ne~do........p.o_vo documentos fazem parte de um dossiê sobre a universidade brasi-
alemão, chamado _:povo_ histórico_:es iritual". É a este su- leira que me foi amavelmente comunicado por Helena C. Chamlian
e Martha Ramos de Carvalho. da Universidade de São Paulo. e a
jeito que se devem os três serviços: do trabalho, da defe- elas agradeço.
sa e do saber. A universidade assegura o metassaber de 108. O dossiê é acessível ao leitor de língua francesa graças a Miguel
seus três serviços, isto é, a ciência. A _ legitima~az Abensour e ao College de philosophie: Philosophies de l'Université .
L'idéa/isme al/emand et la question de l'université (textos de Schel-
e_ntão como no ideali~o- p_or meio de_uULll1el.!ldiscurso ling, Ficht, Schleiermacher. Humboldt, Hegel), Payot, 1979.
chamado_ cLênci~, ~do tRe.ten~ica. Mas ele é 109. "Sur l'organisation interne et externe des établissements sdentifiques
questionante (é nã.u ~i. E, por outro lado, a uni- supérieurs à Berlin" (1810). in Philosophies de l'Université, loc. cit.,
321.
sl a e, que é o lugar onde ele existe, deve esta ciência
110. Ibid., 323.
a um povo cuja "missão histórica" é a de cumpri-la traba-
11 I. F. Schleiermacher, "Pensées de circonstance sur les universités de con-
lhando, combatendo e conhecendo. Este povo-sujeito não ception allemande" (1808). ibid., 270-271.
tem vocação para a emancipação da humanidade, mas para 112. "O ensino filosófico é reconhecido de maneira geral como o funda-
a realização de seu "verdadeiro mundo do espírito", que é mento de toda atividade universitária" (ibid., 272).
"o poder de conservação mais profundo· de suas forças de I 13. A. Touraine analisa as contradições desta transplantação em Univer-
sité et société aux Etats-Unis. Seuil, 1972. 32-40.
terra e de sangue". Esta inserção do relato da raça e do
114. Sensível até nas conclusões de um R. Nisbet, The Degradation o/
trabalho no relato do espírito é duplamente infeliz: teori- Academic Dogma: the University in America, 1945-1970, Londres.
camente inconsistente, bastaria, contudo, para encontrar Heinemann, 197 I. O autor é :->rofessor na Universidade da Califórnia.
no contexto político um eco desastroso. Riverside.
115. Ver G . W. Hegel, Philosophie des Rechts (1821), t.f. Kaan Principes
de philosophie du droit. Gallimard, 1940.
116 . Ver P. Ricouer, Le con/lit des interprétations. Essais d'herméneu-
tique, Tübingen. Mohr. 2." cd.. 1965. t.f. Vérité et méthode, Seuil.
NOTAS 1976.
117 . Sejam dois enunciados: (1) La /une est levée; (2) O enunciado /La
/une est /evée/ é um enunciado denotativo. Diz-se que em (2) o sin-
105. Encontra-se um vestígio desta política na instituição de uma classe tagma /La /une est levée/ é o autônimo de (1). Ver J. Rey-Dcbovc.
de filosofia ao final dos estudos secundários. E ainda no projeto do Le métalangage, Le Robert. 197.8, parte IV.
Grupo de pesquisas sobre o ensino da filosofia de ensinar "a filosofia"
desde o primeiro ciclo dos estudos secundários: G.R.E.P.H .. "La phi· 118 . O princípio. em matéria de ética transcendental pelo menos. é kan-
Josophie déclassée .. , Qui a peur de la philosophie?, Paris. Flamma- tiano: ver a Crítica ela razão prática. Em matéria de política e de

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ética empírica, Kant é prudente: como ninguém pode se identificar
com o sujeito normativo transcendental, é mais exato teoricamente
compor com as autoridades existentes. Ver por exemplo: Antwort
an der Frage: "Was ist 'Aufklãrung'?", (1784), t.f. Piobetta, "Qu'est-ce
que les Lumieres?" in Kant, La Philosophie de l'histoire, Aubier.
1943.
119. Ver I. Kant, art. cit.; J. Habcrmas, Strukturwandel der Oejjentlich·
10
keit, Frankfurt, Luchterhand, 1962; t.f. de Launay, L'espace public.
Archéologie de la publicité comme dimension constitutive de la so- A DESLEGITIMAÇAO
ciété bourgeoise, Payot, 1978. Os termos public e publicité signifi·
cam "tornar público uma correspondência privada", "debate público",
etc. Este princípio de Oeffentlichkeit guiou a ação de muitos grupos
de cientistas, ao final dos anos 1960, notadamente o movimento "Sur·
vivre", o grupo "Scientists and EAgineers for Social and Political
Action" (USA) e o grupo "British Society for Social Responsability
in Science" (G.B.).
120. G. Granel traduziu-o para o francês em Phi, Suplemento dos Annales
NA SOCIEDADE e na cultura contemporânea, socieda-
de l'université de Toulouse-Le Mirai/, Tculouse (janvier 1977). de pós-industrial, cultura pós-moderna,121 a questão da le-
gitimação do saber coloca-se em outros termos. O grande
relato perdeu sua credibilidade, seja qual for o modo de
unificação que lhe é conferido: relato especulativo, relato
da emancipação.
Pode-se ver neste declínio dos relatos um efeito do
desenvolvimento das técnicas e das tecnologias a partir da
Segunda Guerra Mundial, que deslocou a ênfase sobre os
meios da ação de preferência à ênfase sobre os seus fins;
ou então o redesdobramento do capitalismo liberal avan-
çado após seu recuo, sob a proteção do keynesianismo du-
rante os anos 19 3 0-1960, renovação que eliminou a alter-
nativa comunista e que valorizou a fruição individual dos
bens e dos serviços.
Buscas de causalidade como estas são sempre decep-
cionantes. Supondo-se que se admita uma ou outra destas
hipóteses, resta explicar a correlação das tendências refe-
ridas com o declínio do poder unificador e legitimador dos
grandes relatos da especulação e da emancipação.
O impacto que, por um lado, a retomada e a pros-
peridade capitalista e, por outro lado, o avanço .descon-
certante das técnicas podem ter sobre o estatuto do saber
é certamente compreensível. Mas é preciso primeiramente
resgatar os germes de "deslegitimação"122 e de niilismo que
eram inerentes aos grandes relatos do século XIX para
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compreender como a ciência contemporânea podia ser sen- tima, e estaria. com a ciência, imersa no non sense, pelo
sível a estes impactos bem antes que eles acontecessem. menos de acordo com o idealismo.
O dispositivo especulativo encerra inicialmente uma Mas pode-se compreender esta pressuposição num
espécie de equívoco em relação ao saber. Ele mostra que sentido totalmente diferente, que nos aproxima da cultura
este não merece seu nome a não ser que se reponha (se pós-moderna: ela define, dir-se-á na perspectiva que ado-
releve} hebt sich auf) na citação que ele faz dos seus tamos anteriormente, o grupo de regras que é preciso ad-
próprios enunciados no seio de um discurso de segundo mitir para jogar o jogo especulativo.124 Tal apreciação supõe
nível (autonímia) que os legitima. Isto significa que, em primeiramente que se aceite como modo geral da lingua-
gem de saber o das ciências "positivas". Em segundo lugar,
sua imediaticidade, o discurso denotativo que versa sobre
que se considere que esta linguagem implica pressuposi-
um referente (um organismo vivo, uma propriedade quí- ções (formais e axiomáticas) que ela deve sempre explici-
mica, um fenômeno físico, etc.) não sabe na verdade o que tar. Com outras palavras, Nietzsche afirma isto quando
ele acredita saber. A ciência positiva não é um saber. E mostra que o "niilismo europeu" resulta da auto-aplicação
a especulação nutre-se da sua supressão. Deste modo, JL da exigência científica de verdade a esta própria exi-
relato especulativo hegeliano contém nele mesmo, e como gência.125
confessa o próprio Hegel,123 um ceticismo em relação ao Surge assim a idéia de ~ que não é distan-
conhecimento positivo. te, pelo menos neste ponto,~ ~gos de linguagem.
Um~ ciência_que-nãe-efleeatrou_sua legiti-midade não Tem-se aí um processo de deslegitimação cujo motor é a
é uma ciência verdadei a; ela cai no níVel o mais · o, o exigência de legitimação. A "crise" do saber científico,
de- iâeo agia ou de J ns.t.rJlmento de BQdet:, se o discurso cujos sinais se multiplicam desde o fim do século XIX,
que deveria legitimá-la aQarec~ ele mesmo como depen- não provém de uma proliferação fortuita das ciências, que
dente de um saber pré-científico, da mesma cate oria que seria ela mesma o efeito do progresso das técnicas e da
um r~vulgar" . O que n~o deixa- .: a~ontecer e se expansão do capitalismo. Ela procede da erosão interna do
volta contra ele as regras do Jogo da c1enc1a que ele de- princípio de legitimação do saber. Esta erosão opera no
nuncia como empírica. jogo especulativo, e é ela que, ao afrouxar a trama enci-
Considere-se o enunciado especulativo: um enuncia- clopédica na qual cada ciência devia encontrar seu lugar,
do científico é um saber somente se for capaz de situar-se deixa-as se emanciparem.
num processo universal de engendramento. A questão que As delimitações clássicas dos diversos campos cienti-
surge a seu respeito é a seguinte: seria este enunciado um ficas passam ao mesmo tempo por um requestionamento:
saber no sentido que ele determina? Ele não o será, a não disciplinas desaparecem, invasões se produzem nas fron-
ser que possa situar-se num processo universal . de engen- teiras das ciências, de onde nascem novos campos. A hie-
dramento. Ora, ele o pode. Basta-lhe pressupor que este rarquia especulativa dos conhecimentos dá lugar a uma
processo existe (a Vida do espírito) e que ele mesmo é rede imanente e, por assim dizer, "rasa,, de investigações
uma de suas expressões. Esta pressuposição é mesmo in- cujas respectivas fronteiras não cessam de se deslocar. As
dispensável ao jogo de linguagem especulativo. Se ela não antigas "faculdades" desmembram-se em institutos e fun-
é feita, a própria linguagem da legitimação não seria legí- dações de todo tipo, as universidades perdem sua função
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de legitimação especulativa. Privadas da responsabilidade faz à sua maneira, e o que fazem, cada um a seu modo,
da pesquisa que o relato especulativo abafa, elas se limi- pensadores como Martin Buber e Emmanuel Levinas, 127
tam a transmitir os saberes julgados estabelecidos e asse- abre caminho a uma corrente importante da pós-moderni-
guram, pela didática, mais a reprodução dos professores dade: a ciência joga o seu próprio jogo, ela não pode legi-
que a dos cientistas. É neste estado que Nietzsche as en- timar os outros jogos de linguagem. Por exemplo: escapa-
contra e as condena!26 lhe o da prescrição. Mas antes de tudo ela não pode mais
Quanto ao outro procedimento de legitimação, o que se legitimar a si mesma como o supunha a especulação.
resulta na Aufklarung, o dispositivo da emancipação, seu Nesta disseminação dos jogos de linguagem, é o pró-
poderio intrínseco de erosão não é menor do que aquele prio sujeito social que parece dissolver-se. O vínculo social
que opera no discurso especulativo. Mas ele se refere a é de linguagem (langagier), mas ele não é constituído de
·um outro aspecto. Sua característica é a de fundamentar a uma única fibra. É uma tecitura onde se cruzam pelo me-
legitimidade da ciência, a verdade, sobre a autonomia dos nos dois tipos, na realidade um número indeterminado, de
interlocutores ·engajados na prática ética, social e política. jogos de linguagem que obedecem a regras diferentes.
Ora, esta legitimação, como vimos, constitui de imediato Wittgenstein escreve: "Nossa linguagem pode ser consi-
um problema: entre um enunciado denotativo de valor cog- derada como uma velha cidade: uma rede de ruelas e pra-
nitivo e um enunciado prescritivo de valor prático, a dife- ças, de casas novas e velhas, e de casas dimensionadas às
rença é de pertinência, portanto de competência. Nada novas épocas; e isto tudo cercado por uma quantidade de
prova que, se um enunciado que descreve uma realidade novos subúrbios com ruas retas e regulares e com casas
é verdadeiro, o enunciado prescritivo, que terá necessa- uniformes. " 1211 E, para mostrar que realmente o princípio
riamente por efeito modificá-la, seja justo. de unitotalidade, ou da síntese sob a autoridade de um
Considere-se uma porta fechada. Entre A porta está metadiscurso de saber, é inaplicável, ele faz a "cidade" da
fechada e Abra a porta não existe conseqüência no sentido linguagem passar pelo velho paradoxo do sorita, pergun-
da lógica proposicional. Os dois enunciados referem-se a tando: "A partir de quantas casas ou ruas uma cidade co-
dois conjuntos de regras autônomas, que determinam per- meça a ser uma cidade?"129
tinências diferentes e, por conseguinte, competências dife- Novas linguagens vêm acrescentar-se às antigas, for-
rentes. Aqui, o resultado desta divisão da razão em cog- mando os subúrbios da velha cidade, "o simbolismo quí-
nitiva ou teorética, de um lado, e prática, do outro, tem mico, a notação infinitesimal".130 Trinta e cinco anos após,
por efeito atacar a legitimidade do discurso dê ciência, não pode-se acrescentar a isto as linguagens-máquinas, as ma-
diretamente, mas indiretamente, revelando que ele é um trizes de teoria dos jogos, as novas notações musicais, as
jogo de linguagem dotado de suas regras próprias (cujas notações das lógicas não denotativas (lógicas do tempo ,
condições a priori do conhecimento são em Kant um pri- lógicas deônticas, lógicas modais), a linguagem do código
meiro esboço), porém sem nenhuma vocação para regu- genético, os gráficos de estruturas fonológicas, etc.
lamentar o jogo prático (nem estético, aliás). Ele é assim Pode-se retirar desta explosão uma impressão pessi-
posto em paridade com os outros. mista: ninguém fala todas essas línguas, elas não possuem
Esta ." deslegi timação", por pouco que a acompanhe- uma metalíngua-universal, o projeto do sistema-sujeito é
mos, e se ampliarmos o seu alcance, o que W ittgenstein um fracasso, o da emancipação nada tem a ver com a ciên-
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cia, está-se mergulhado no posttlvtsmo de tal ou qual co- 122. C!. Mueller emprega a expressão "a process of delegitimation" em
The Politics o/ Communication, loc. cit., 164.
nhecimento particular, os sábios tornaram-se cientistas, as
123. "Caminho da dúvida( ... ), caminho do desespero ( ... ),ceticismo",
reduzidas tarefas de pesquisa tornaram-se tarefas fragmen- escreve Hegel no Prefácio da Fenomenologia do Espírito, para des-
tárias que ninguém domina; 131 e, do seu lado, a filosofia crever o efeito da pulsão especulativa sobre o conhecimento natural.
especulativa ou humanista nada mais tem a fazer senão 124. Com receio de sobrecarregar a exposição, deixamos para um estudo
ulterior o exame deste conjunto de regras.
romper com suas funções de legitimação,132 o que explica
125. Nietzsche, "Der europaische Nihilismus" (ms N VII 3): "Der Nihilis-
a crise que ela sofre onde ainda pretende assumi-las, ou mus, ein normaler Zustand" (ms W 11 1): "Kritik dem Nihilismus"
sua redução ao estudo das lógicas ou das histórias das (ms W VII 3); "Zum Plane" (ms W 11 1), in Nietzsches Werke kri-
tische Gesamtausgabe, Vll, I & 2 (l887-1889) , Berlin, de Gruyter.
idéias, quando conformando-se com a realidade, renunciou 1970. Estes textos são objeto de um comentário de K. Ryjik, Nietzsche,
1as funçoes.
a'que -!33 le manuscrit de Lenzer Heide, datilog., Departamento de Filosofia.
Universidade de Paris VIII (Vincennes).
. Este pessimismo é o que alimentou a geração do iní-
126. "Sur l'avenir de nos établissements d'enseigment" (1872), t.f. Backês.
cio do século em Viena: os artistas, Musil, Kraus, Hof- in F. Nietzsche, Ecrits posthumes 1870-1873, Gallimard, 1975.
mannsthal, Loos, Schonberg, Bloch, mas também os filó- 127. M. Buber, /e et Tu, Aubier, 1938; id. Dialogisches Leben, Zürich.
sofos Mach e Wittgenstein} 34 Sem dúvida eles desenvol- Müller, 1947. E. Levinas, Totalité et lnfini. La Have, Nijhoff, 1961;
id., "Martin Buber und di e Erkenntnistheorie ( 1958)", in Divers.
veram o mais possível a consciência e a responsabilidade Philosophen des 20 fahrhunderts, Stuttgart, Kohlhammer, 1963 ; t.f.
teórica e artística da deslegitimação. Pode-se dizer hoje "Martin Buber et la théorie de la connaissance", Noms propres, Mont-
pellier, Fata Morgana, 1976.
que este trabalho de luto foi consumado. Não se deve re-
128. Investigations philosophiques, loc cit., § 18. Cf. trad. de José Carlos
começá-lo. A força de Wittgenstein consistiu em não colo- Bruni, in Os Pensadores, Abril Cultural, p. 18.
car-se ao lado do positivismo que o Círculo de Viena de- 129. Ibid.
senvolviam e de traçar em sua investigação dos jogos de · 130. lbid.
linguagem a perspectiva de um outro tipo de legitimação 131. Veja por exemplo "La taylorisation de la recherche" in (Auto)cri"
que não fosse o desempenho. É com ela que o mundo pó-;- tique de la science, loc. cit., 291-293. E sobretudo D. ). de Solla Price
moderno mantém relação. A própria nostalgia do relato (Little Science, Big Science, N.Y. Columbia U.P., 1963) , que subli-
nha a clivagem entre um pequeno número de pesquisadores de pro-
perdido desapareceu para a maioria das pessoas. De forma dução elevada (avaliada em número de publicações) e uma grande
alguma segue-se a isto que elas estejam destinadas à bar- massa de pesquisadores de fraca produtividade. O número destes
bárie. O que as impede disso é que elas sabem que a legi- últimos cresce o dobro do número dos primeiros, embora este só
aumente verdadeiramente a cada vinte anos. aproximadamente. Pricc
timação não pode vir de outro lugar senão de sua prática conclui que a ciência considerada como entidade social é undemo·
de linguagem e de sua interação comunicacional. Face a cratic (59) e que the eminent scientist está cem anos na dianteira
qualquer outra crença, a ciência que ironi;:a (sourit dans em relação ao the minimal one (56). (Em inglês, no original.)
132. Ver J. T. Desanti, "Sur le rapport traditionnel des sciences et de la
sa barbe) ensinou-lhes a dura sobriedade do realismo. 136 philosophie", La Philosophie silencieuse, ou critique des philasophies
de la science, Seuil, 1975.
133. A reclassificação da filosofia universitária no conjunto das ciências
humanas é sob este aspecto de uma importância que excede em
NOTAS muito os cuidados da profissão. Nós não acreditamos que a filosofia
como trabalho de legitimação esteja condenada; mas é possível que
121. Ver a nota 1. Alguns aspectos científicos do pós-modernismo são ar· ela não possa cumpri-lo, ou pelo menos desenvolvê-lo. senão revendo
rolados em I. Hassan, "Culture. lndeterminacy, and lmmanence: seus vínculos com a instituição universitária. A propósito, ver o
Margins of the (Postmodern) Age", Humanities in Society I. lhiver Preâmbulo ao Projet d'un institui po/ytechnique de philosophie, Dé-
1978), 51·85. partement de philosophie, Université de Paris VIII (Vincennes), 1979.
74 75

I
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
BIBLIOTECACENTRAL
134. Ver A. Janik & St. Toulmin, Wittgenstein's Vienna, N.Y., Simon &
Shuster, 1973. J. Piei ed., "Vienne début d'un siecle", Critique, 339-
340 (aoftt·septembre 1975).
135. Ver J. Habermas, "Dogmatisme, raison et décision: théorie et pra·
tique dans une civilisation scientifisée" (1963), Théorie et Pratique 11
li, Toe. cit., 95.
136. "La science sourit dans sa barbe" é o título de um capítulo de
L'homme sans qua/ités. de Musil; citado e comentado por T. Bouve- A PESQUISA E SUA LEGITIMAÇAO
resse, "La problématique du sujet . . .'', Toe. cit.
PELO DESEMPENHO

VOLTEMOS à ciência e examinemos de início a pragmá-


tica da pesquisa. Ela é hoje afetada em suas regulações
essenciais por duas modificações importantes: o enrique-
cimento das argumentações e a complicação da adminis-
tração das provas.
Aristóteles, Descartes, Stuart Mill, entre outros, su-
cessivamente tentaram fixar regras pelas quais um enun-
ciado com valor denotativo pode obter a adesão do desti-
natário.137 A pesquisa científica não tem grande considera-
ção por estes métodos. Ela pode usar e usa linguagens,
como se disse, cujas propriedades demonstrativas parecem
desafios à razão dos clássicos. Bachelard fez-lhe um balan-
ço; ele já está ultrapassado!38
O uso destas linguagens, contudo, não é qualquer um.
Ele está submetido a uma condição que se pode dizer prag-
mática, a de formular suas próprias regras e de perguntar
ao destinatário se ele as aceita. Satisfazendo esta condi-
ção, define-se uma axiomática, a qual compreende a defi-
nição dos símbolos que serão empregados na linguagem
proposta, a forma que deverão respeitar as expressões
desta linguagem para poderem ser aceitas (expressões bem
formadas), e as operações que serão permitidas sobre estas
expressões, e que definem os axiomas propriamente ditos.119
Mas como se sabe o que deve conter ou o que con-
tém uma axiomática? As condições que foram enumeradas
são formais. Deve existir uma metalíngua determinante se
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uma linguagem satisfaz às condições formais de uma axio- línguas deixam-se nela traduzir; mas ela não é consistente
mática: esta metalíngua é a da lógica. em relação à negação: permite a formação de paradoxos. 144
Deve-se fazer aqui uma observação. Que se comece Neste sentido, a questão da legitimação do saber
por fixar a axiomática para dela retirar em seguida os coloca-se de outro modo. Quando se declara que um enun-
enunciados que são aceitáveis, ou que, ao contrário, o cien- ciado de caráter denotativo é verdadeiro, pressupõe-se que
tista comece por estabelecer os fatos e por enunciá-los, e o sistema axiomático no qual ele é decidível e demonstrá-
que ele busque em seguida descobrir a axiomática da lin- vel foi formulado, que é conhecido dos interlocutores e
guagem da qual se serviu para enunciá-los, não constitui aceito por eles como tão formalmente satisfatório quanto
uma alternativa lógica, mas somente empírica. Ela tem cer- possível. É neste espírito que se desenvolveu, por exem-
tamente uma grande importância para o pesquisador, e plo, a matemática do grupo de Bourbaki.145 Mas, observa-
. também para o filósofo, mas a questão da validação dos ções análogas podem ser feitas para as outras ciências:
enunciados apresenta-se paralelamente nos dois casos!40 elas devem seu estatuto à existência de uma linguagem
Uma questão mais pertinente para a legitimação é a cujas regras de funcionamento não podem ser demonstra-
seguinte: por meio de que critérios o lógico define as pro- das, mas são consensuais entre os experts. Estas regras são
priedades exigidas por uma axiomática? Existe um modelo exigências pelo menos para algumas das ciências. A exi-
de uma língua científica? Este modelo é único? É verifi- gência é uma modalidade da prescrição. x
cável? As propriedades em geral exigidas pela sintaxe de A argumentação exigível para a aceitação de um
um sistema formaP 41 são a consistência (por exemplo, um enunciado científico está assim subordinada a uma "pri-
sistema não consistente em relação à negação admitiria nele meira" aceitação (na realidade, constantemente renovada
mesmo, paralelamente, uma proposição e seu contrário), em virtude do princípio de recursividade) das regras que
a completude sintática (o sistema perde sua consistência fixam os meios da argumentação. Daí, duas propriedades
caso um axioma lhe seja acrescentado), a decidibilidade notáveis deste saber: a flexibilidade dos seus meios, isto
(existe um procedimento efetivo que permite decidir se é, a multiplicidade de suas linguagens; seu caráter de jogo
uma proposição qualquer pertence ou não ao sistema), e pragmático, a aceitabilidade dos "lances" que lhe são fei-
a independência dos axiomas uns em relação aos outros. tos (a introdução de novas pr0posições) dependendo de
Ora, Godel estabeleceu de maneira efetiva a existência, no um contrato realizado entre os participantes. Daí também
sistema aritmético, de uma proposição que não é nem de- a diferença entre dois tipos de "progresso" no saber: um,
monstrável nem refutável no sistema; donde se segue que correspondendo a um novo lance (nova argumentação) no
o sistema aritmético não satisfaz à condição da comple- quadro das regras estabelecidas, o segundo à invenção de
tude.t42 . a uma mudança de Jogo.
novas regras e, assim, . ~

Como se pode generalizar esta propriedade, é preciso A esta nova disposição corresponde evidentemente um
então reconhecer que existem limitações internas aos for- deslocamento maior da idéia da razão. O princípio de uma
malismos!43 Estas limitações significam que, para o lógico, metalinguagem universal é substituído pelo da pluralidade
a metalíngua utilizada para descrever uma linguagem arti- de sistemas formais e axiomáticos capazes de argumentar
ficial (axiomática) é a "língua natural", ou ''língua coti- enunciados denotativos, sendo estes sistemas descritos nu-
diana"; esta língua é universal, visto que todas as outras ma metalíngua universal mas 'hão consistente. O que pas-
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sava por paradoxo e mesmo por paralogismo no saber da Esta definição da competência técnica é tardia. As
ciência clássica e moderna pode encontrar em algum desses invenções realizam-se por muito tempo intempestivamente,
sistemas uma força de convicção nova e obter o assenti- por ocasião de pesquisas ao acaso ou que interessam mais
mento da comunidade dos experts. w O método pelos jo- ou tanto às artes (technai) que ao saber: os gregos clássi-
gos de linguagem que seguimos aqui adota modestamente cos, por exemplo, não estabelecem uma relação evidente
esta corrente de pensamento. entre este último e as técnicas.152 Nos séculos XVI e XVIl,
Somos levados a uma direção inteiramente diversa os trabalhos dos "perspectivistas" emanam ainda da curio-
pelo outro aspecto importante da pesquisa que diz respeito sidade e da inovação artística/53 e isto até o fim do século
à administração das provas. Esta é, em princípio, uma XVIII. 154 E pode-se afirmar que ainda em nossos dias as
parte da argumentação destinada a fazer aceitar um novo atividades "selvagens" de invenção técnica, por vezes se-
enunciado como o testemunho ou a prova material, no melhantes a devaneios anárquicos, continuam fora das ne-
caso da retórica judiciária. 1 ~~ Mas ela suscita um problema cessidades da argumentação científica.155
especial: é com ela que o referente (a "realidade") é con- No entanto, a necessidade de administrar a prova
vocado e citado no debate entre os cientistas. se faz ressentir mais vivamente à medida que a pragmática
Dissemos que a questão da prova constitui um pro- do saber científico toma o lugar dos saberes tradicionais
blema, no sentido de que seria preciso provar a prova. ou revelados. Já ao final do Discurso, Descartes solicita
Pode-se pelo menos publicar os meios da prova, de manei- créditos de laboratório. O problema é então exposto: os
ra que os outros cientistas possam assegurar-se do resul- aparelhos que otimizam as performances do corpo humano
tado repetindo o processo que conduziu a ela. Acontece visando administrar a prova exigem um suplemento de des-
que administrar uma prova é fazer constatar um fato. Mas pesa. Portanto, nada de prova e de verificação de enun-
o que é uma constatação? O registro do fato pela vista, ciados, e nada de verdade, sem dinheiro. Os jogos de lin-
1 9
pelo ouvido, por um órgão dos sentidos? ~ Os sentidos en- guagem científica vão tornar-se jogos de ricos, onde os
ganam; e são limitados em extensão, em poder discrimi- mais ricos têm mais chances de ter razão. Traça-se uma
nador. equação entre riqueza, eficiência, verdade.
Aqui intervêm as técnicas. Elas são inicialmente pró- O que se' produz ao final do século XVIII, quando
teses de órgãos ou de sistemas fisiológicos humanos que da primeira revolução industrial, é a descoberta da recí-
têm por função receber dados ou agir sobre o contexto. 1' 0 proca: não há técnica sem riqueza, mas não há riqueza sem
Elas obedecem a um princípio, o da otimização das per- técnica. Um dispositivo técnico exige um investimento;
formances : aumento do output (informações ou modifica- mas visto que otimiza a performance à qual é aplicado,
ções obtidas), diminuição do in put (energia despendida) pode assim otimizar a mais-valia que resulta desta melhor
para obtê-las.151 São estes, pois, os jogos cuja pertinência performance. Basta que esta mais-valia seja realizada, quer
não é nem o verdadeiro, nem o justo, nem o belo, etc., di~EÍ' que o roduto da p_er ormancesefavendiâ.o-:-E pode-
mas o eficiente: um "lance" técnico é "bom" quando é se oquear o sistema a seguinte maneira: um~ arte do
bem-sucedido e/ou quando ele despende menos que um pro uto esta venCia é absorviâ.a e o fUndo de esgyjsa
outro. destimrdo a- melhn-rar am a _mais a p_erf.grmance. É _E~
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tl_!omento preciso que a ciência torna-se uma força de P!ü- A administração da prova, que em princípio não é
dl;!~' isto é, um momento na c"rcula.ção do capital. senão uma parte da argumentação destinada a obter o con-
É mais o desejo de enriquecimento que o de saber sentimento dos destinatários' da mensagem científica, passa
que impõe de início aos técnicos o imperativo da melhoria assim a ser controlada por um outro jogo de linguagem
das performances e de realização dos produtos. A conjun- onde o que está em questão não é a verdade mas o de-
ção "orgânica" da técnica com o lucro precede a sua jun- sempenho, ou seja a melhor relação_in.pul/ outpu_t. O Es-
ção com a ciência. As técnicas não assumem importância tado e/ou a empresa abaíldona o relato de legitimação
no saber contemporâneo senão pela mediação do espírito idealista ou humanista para justificar a nova disputa: no
de desempenho generalizado. Mesmo hoje, a subordinação discurso dos financiadores de hoje, a única disputa con-
do progresso do saber ao do investimento tecnológico nã<;> fiável é o poder. Não se compram cientistas ~ técnicos ~pa­
. é imediata.156 re~os para saber a ver a e, mas para a:um.entar..JLPQdet...
Mas o capitalismo vem trazer sua solução ao proble- A questão é saber em ue ode consistir o disq.trso
ma científico do crédito de pesquisa: diretamente, finan- do P-Qder, e se e e pooe constituir uma legkimaçãQ. O que
ciando os departamentos de pesquisa nas empresas, onde a primeira vista parece impedi-lo é a distinção feita pela
os imperativos de desempenho e de recomercialização tradição entre a força e o direito, entre a força e a sabe-
orientam com prioridade os estudos voltados para as "apli- doria, isto é, entre o que é forte, o que é justo e o que
cações"; indiretamente, pela criação de fundações de pes- é verdadeiro. Foi a esta incomensurabilidade que nos refe-
quisa privadas, estatais ou mistas, que concedem créditos rimos anteriormente nos termos da teoria dos jogos de
sobre programas a departamentos universitários, laborató- linguagem, distinguindo o jogo denotativo, onde a perti-
rios de pesquisa ou grupos independentes de pesquisado- nência dá-se k10 nível de verdadeiro/falso, o jogo prescri-
res, sem esperar do resultado dos seus trabalhos um lucro tivo, que é da alçada do justo/injusto, e o jogo técnico,
imediato, mas erigindo em princípio que é preciso finan- cujo critério é eficiente/ineficiente. A "força" não parece
ciar pesquisas a fundo perdido durante um certo tempo relacionar-se senão com este último jogo, que é o da téc-
para aumentar as chances de se obter uma inovação deci- nica. Faz-se exceção do caso em que ela opera por meio
siva e, portanto, muito rentável. 157 Os Estados-nações, so- do terror. Este caso encontra-se fora do jogo de lingua-
bretudo em seu episódio keynesiano, seguem a mesma re- gem, já que a eficácia da força procede então inteiramente
gra: pesquisa aplicada, pesquisa fundamental. Eles cola- da ameaça de eliminar o parceiro, e não de um melhor
boram com as empresas por meio de agências de todo o "lance, que o seu. Cada vez que a eficiência, isto é, a ob-
tipo.158 As normas de organização do trabalho que preva- tenção do efeito visado, tem por motor um "Diga ou faça
lecem nas empresas penetram nos laboratórios de estudos isto, senão não falarás mais", entra-se no terror, destrói-se
aplicados: hierarquia, decisão do trabalho, formação de o vínculo social.
equipes, estimativa de rendimentos individuais e coletivos, Mas é verdade que o desempenho, aumentando a ca-
elaboração de programas vendáveis, procura de cliente, pacidade de administrar a prova, aumenta a de ter razão:
etc. 159 Os centros de pesquisa "pura" padecem menos, mas o critério técnico introduzido brutalmente no saber cien-
também eles beneficiam-se de créditos menores. tífico não deixa de ter influência sobre o critério de ver-
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dade. O mesmo poderia ser dito da relação entre justiça var, beneficiando, assim, o desempenho. A repartição dos
e desempenho: as chances de que uma ordem seja consi- fundos de pesquisa pelos Estados, empresas e sociedades
derada como justa aumentariam com as chances dela ser mistas obedece a esta lógica do aumento de poder. Os
executada, e estas com o desempenho do prescritor. É setores da pesquisa que não podem pleitear sua contribui-
assim que Luhmann acredita constatar nas sociedades pós- ção, mesmo indireta, à otimização das performances do
industriais a substituição da normatividade das leis pela sistema, são abandonados pelos fluxos de créditos e fada-
eficiência mensurável de procedimentos.160 O "controle do dos à obsolescência. O critério de bom desempenho é ex-
contexto", isto é, a melhoria das performances realizadas plicitamente invocado pelas administrações para justificar
contra os parceiros que constituem este último (seja este a recusa de apoiar este ou aquele centro de pesquisas.163
a "natureza" ou os homens) poderia valer como uma espé-
·cie de legitimação. 161 Seria uma legitimação pelo fato.
O horizonte deste procedimento é o seguinte: sendo
NOTAS
a "realidade" que fornece as provas para a argumentação
científica e os resultados para as prescrições e as promessas 137. Aristóteles nos Anal/ticos (- 330 aproximadamente). Descartes nas
de ordem jurídica, ética e política, pode-se vir a ser senhor Rcp,ulae ad directionem ingenii (cerca de 1628) e os Príncipes de la
de ambas tornando-se senhor da "realidade", o que as téc- philosophie (1644), Stuart Mill no Systeme de logique inductive et
déductive (1843) .
nicas permitem. Reforçando-as, "reforça-se" a realidade, 138. G. Bachelard, Le rationalisme app/iqué, P.U .F .. 1949: M. Serres, "La
conseqüentemente, as chances de ser justo e de ter razão. réforme et les sept péchés", L'Arc 42 (n. spécial Bachelard). 1970.
0

E, reciprocamente, reforça-se tanto as técnicas de que se 139 . D. Hilbert. Grundlagen der Geometrie, 1899; N. Bourbaki "L'ar-
pode dispor do saber científico e da autoridade decisória. chitecture des mathématiques", in Le Liónnais ed .. Les grands cou-
rants de la pensée mathématique, Hermann, 1948; R. Blanché, L'ct:do-
Assim toma forma a legitimação pelo poder. Este não matique, P.U.F., 1955.
é somente o bom desempenho, mas também a boa verifi- 140 . Ver Blanché, op. cit., cap. V.
cação e o bom veredito. O poder legitima a ciência e o 141. Seguimos aqui R. Martin, Logique contemporaine ct jorma/isatio11.
P.U.F., 1964, 33-41 e 122 sq .
direito por sua eficiência, e esta por aqueles. Ele se auto-
142. K. Godel, "Ueber formal unentscheidbarc Satzc der Principia Ma-
legitima como parece fazê-lo um sistema regulado sobre thematica und verwandter Systeme". Monalschrift für Mathematik
a otimização de suas performances. 162 Ora, é precisamente und Physik 38 (1931). Para uma exposição acessível ao leigo do teo-
rema de Godel, ver D. Lacombe, "Les idécs actuelles sur la structurc
este controle sobre o contexto que deve fornecer a infor- des mathématiques", in Divers, Notion de structure ct structure de la
matização generalizada. A eficácia de um enunciado, seja connaissance, Albin-Michel, 1957, 39-160.
ele denotativo ou prescritivo, aumenta na proporção das 143. J. Ladriere, Les limitations internes des formalismes , Louvain & Pa-
ris, 1957.
informações de que se dispõe relativas ao seu referente .
144 . A. Tarski , Logique, sémantique, métamathématique I. Armand-Colin ,
Assim, o crescimento do poder e sua autolegitimação passa 1972. J. P. Desclês & Z. Guen •..:heva-Descles, " Métalangue, métalan-
atualmente pela produção, a memorização, a acessibilidade gage, , métalinguistique" , Documents de travail 60-61 , Università di
Urbino (janvier-février 1977) .
e a operacionalidade das informações. 145. Les éléments des mathématiques, Hermaun, .1940 sq. Os pontos de
A relação entre ciência e técnica inverte-se. A com- partida longínquos deste trabalho encontram-~e nas primeiras tenta-
tivas de demonstração de certos "postulados" da geometria euclidiana
plexidade . das argumentações parece, então, interessante, Ver L. Brunchvicg, Les étapes de la philosophie mathématique
sobretudo porque ela obriga a sofisticar os meios de pro- P.U.F., 3." ed., 1947.

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146. Th. Kuhn. T!Je Structure . . .. loc. cit. Citado por D. Morrison. "The Beginning of Modern Mass Communi-
147. Encontrar-se-á uma classificação dos paradoxos. lógico-matemáticos cation Research'', Archives européennes de sociologie XIX. 2 ( 1978).
em F. P. Hamsey. The Foundations of Mathematics and Other 1-ogi- 347-339.
cal Essays, N.Y., Harcourt. Brace & Co .. 1931. 158. Nos Estados Unidos. o montante dos fundos consagrados pelo Es-
148. Ver Aristóteles. Retórica 11. 1393 a sq. tado federal a R. & D. igualou com o dos capitais privados no curso
do ano de 1965; a partir de então. ele o ultrapassou (O.C.D.F .. 1965).
149. ~ o problema do testemunho c da fonte histórica principalmente: o
fato é conhecido por dele se ouvir falar ou de visu? A distinção apa- 159 . Nisbet, op. cit., cap. 5. faz uma descrição amarga da penetração do
rece em Heródoto. Ver F r. Hartog, "Hérodote rapsodc et arpentcur". lligher capitalism na universidade sob a forma de centros de pesquisa
Hérodote 9 (décembrc 1977), 56-65. independentes dos departamentos. As relações sociais nos centros
abalam a tradição acadêmica. Ver também em (Auto )critique de lu
150. A. Gehlen, "Die Technik in der Sichtwcise der Anthropologic", An- science, loc. cit., os capítulos: "Le prolétariat scientifique", "Lcs cher-
thropologische Forschung, Hamburg. 1961. cheurs", "La crise des mandarins··.
151. A. Leroi-Gourhan. ''Milieu et techniques··. Albin-Michcl. 1945; id.. 160. N. Luhmann, Legitimation durcll Verfalmm, Ncuwicd. Luchtcrhand.
Lc gcste ct la paro/e I. Teclmique et ltmgagc, Albin-Michcl, 1964. 1969.
'152. J.· P. Vernant. Mythe ct pensée chez les Grecs. Maspcro. 1965, ~o­ 161. Cl. Mueller, comentando Luhmann. escreve: "Nas sociedades indus-
brctudo a seção 4: "Le travail ct la penséc techniquc··.
triais desenvolvidas. a legitimação legal-racional é substituída por
153. J. 13altrusaitis. Anamorplwses, ou magic artifiddlc des cflcts mcr- uma legitimação te.cnocrática, que não atribui nenhuma importância
veil/eux, O. Pcrrin. 1969. (sig11i/icance) às crenças dos cidadãos nem à própria n'oralidade."
L. Munford, Technics and civilization, N.Y .. 1934; t.F. Montanicr.
(The Politics of Communication. loc. cit .. 135). Ver uma bibliografia
154.
sobre a questão tecnocrática em Habermas. Théorie ct pratique ll.
Tecnique et civilisatiOil, Seuil, 1950. B. Gillc. Histoire tles Tecniques, loc. cit., 135-136.
Gallimard (Piêiade), 1978.
162. Uma análise lingüística do controle da verdade é dada por G. Fau-
155. Um exemplo impressionante foi estudado por M. L. Mulkay & D. O. connicr. "Comment contrôler la vérité? Remarques iiJustrées par des
Edge, "Cognitive, Tecnical and Social Factors in the Growth of assertions dangereuses et pernicieuses en tout genre'', Actcs de la
Radio-astronomy", Social Science ln/ormation ( 1973). 23·65: utili- recherche en sciences sociales 25 (janvier 1979). 1-22.
zação dos radioamadores para verificar algumas implicações da teoria
da relatividade. 163 . Foi assim que se exigiu em 1970 do University Gnmts Committce
britânico "exercer um papel mais positivo no domínio da produti-
156. Mulkay desenvolve um modelo flexível de inde:Jendência relativa vidade, da especialização, · da concentração dos temas e do controle
das técnicas c do saber científico: "The Model o f Branching''. Thc dos prédios limitando os custos destes últimos'' (The Polith-s of
Sociological Review XXXIII (1976). 509-526. H. Brooks, presidente Education: E. Bo.vle & A. Crosland parlent à M. Kogan, Penguin of
do Sciencc and Public Committee da National Academy of Sciences. Education Special, 1971-). Isto pode parecer contraditório com de-
co-autor do "Rapport Brooks" (O.C.D.E.. juin 1971). fazendo a crí- clarações como as de Brooks. anteriormente citadas (nota 156). Mas,
tica do modo de investimento na R. & D. no curso dos anos 60, 1) a "estratégia" pode ser liberal c a "tática·• autoritária, o que afir-
declarava: "Um dos efeitos da corrida à lua foi aumentar o custo ma, aliás, Edwards; 2) a responsabilidade no seio das hierarquias
da inovação tecnológica até esta tornar-se simplesmente demasiado dos poderes públicos é freqüentemente compreendida no sentido mais
cara ( .. . ). A pesquisa é propriamente uma atividade a longo termo: estrito, que é a capacidade de corresponder oo desempenho calculá-
uma aceleraÇão rápida ou um retardamento implicam despesas não vel de um ;')rojeto; 3) os poderes públicos não estão ao abrigo das
declaradas c numerosas incompetências. A produção intelectual não pressões de grupos privados cujo critério de desempenho é imedia-
pode ultrapassar um certo ritmo" ("Les lôtats-Unis ont-ils une poli- tamente restritivo. Se as chances de inovação na pesquisa escapam
tique de la science?", La recherche 14, jui11et 1971. 611). Em março ao cálculo. o interesse público parece ser o de ajudar toda pesquisa,
de 1972, E. E. David Jr.. conselheiro científico da Casa Branca, que em outras condições que não a da eficácia estimável a termo.
lançou a idéia de uma Research Applied to National Needs (R.A.
N.N.), concluía no mesmo sentido: estratégia ampla c flexível para
a pesquisa. tática mais restritiva para o desenvolvimento (La reclzcr-
chc 21, mars 1972, 211 ).
157. Esta foi uma das condições exigidas por Lazarsfeld para a sua acei-
tação de criar o que será o Mass Communication Research Center.
em Princeton. em 1937. Isto não se realizou sem tensões. Os indus-
triais de rádio recusaram investir no projeto. Dizia-se de Lazorsfcld
que ele lançava as coisas mas não acabava nada. Ele mesmo dizia
a Morrison: I usua/ly put thinks togethcr and hoped they workcd.
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ximos anos, aumentará: todas as disciplinas relacionadas


com a formação "telemática" (informáticos, cibernéticos,
lingüistas, matemáticos, lógicos ... ) deveriam ser reco-
12 nhecidas -como prioritárias em matéria de ensino. E isto
na medida em que a multiplicação destes experts deveria
O ENSINO E SUA LEGITIMAÇAO acelerar os progressos da pesquisa em outros setores do
PELO DESEMPENHO conhecimento, como já se viu para a medicina e a biologia.
Por outro lado, o ensino superior, sempre na mesma
hipótese geral, deverá continuar a fornecer ao sistema so-
cial as competências correspondentes às suas exigências
·QuANTO à outra vertente do saber, a da sua transmis- próprias, que são a de manter sua coesão interna. Ante-
são, isto é, o ensino, parece fácil descrever a maneira pela riormente, esta tarefa comportava a formação e a difusão
qual a prevalência do critério de desempenho vem afetá-la. de um modelo geral de vida, que legitimava ordinariamen-
te o discurso da emancipação. No contexto da deslegitima-
Admitindo-se a idéia de conhecimentos aceitos, a
ção, as universidades e as instituições de ensino superior
questão de sua transmissão subdivide-se pragmaticamente
são de agora em diante solicitadas a formar competências,
numa série de questões: quem transmite? o que é transmi-
e não mais ideais: tantos médicos, tantos professores de
tido? a quem? com base em quê? e de que forma? com tal ou qual disciplina, tantos engenheiros, administrado-
que efeito? 164 Uma política universitária é formada por um
res, etc. A transmissão dos saberes não aparece mais como
conjunto coerente de respostas a estas questões. destinada a formar uma elite capaz de guiar a nação em
No momento em que o critério de pertinência é o
sua emancipação. Ela fornece ao sistema os jogadores capa-
desempenho do sistema social suposto, isto é, quando se
zes de assegurar convenientemente seu papel junto aos
adota a perspectiva da teoria dos sistemas, transforma-se
postos pragmáticos de que necessitam as instituições.165
o ensino superior num sub-sistema do sistema social, e
aplica-se o mesmo critério de desempenho à solução de Se os fins do ensino superior são funcionais, quem
cada um destes problemas. são os seus destinatários? O estudante já mudou e deverá
O efeito a se obter é a contribuição ótima do ensino mudar ainda. Ele não é mais um jovem egresso das "eli-
superior ao melhor desempenho do sistema social. Ele de- tes liberais " 166 e influenciado de perto ou de longe pela
verá então formar as competências que são indispensáveis grande tarefa do progresso social compreendido como
a este último. Elas são de duas espécies. Umas são desti~ emancipação.
.
Neste sentido, a universidade "democrática" '
nadas mais particularmente a encarar a competição mun- sem exame de seleção (vestibular), pouco dispendiosa para
dial. Variam segundo as "especialidades" respectivas que o estudante e a sociedade, se se calcula o custo-estudante
os Estados-nações ou as grandes instituições de formação per capita, mas acolhendo numerosas inscrições/67 e cujo
podem vender sobre o mercado mundial. Se nossa hipótese modelo era o do humanismo emancipacionista, revela-se
geral for verdadeira, a demanda de experts, quadros supe- hoje pouco eficiente. 168 De fato, o ensino superior já está
riores e quadros médios dos setores de vanguarda desig- afetado por uma transformação de importância simulta-
nados no início deste estudo, que são o desafio dos pr6- neamente dirigida por medidas administrativas e por uma
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demanda social pouco controlada surgindo dos novos usuá- O novo caminho tomado pela transmissão do saber
rios , e que tende a ordenar suas funções em duas grandes não prossegue sem conflitos. Pois, de um lado, enquanto
espécies de serviços. é do interesse do sistema, e portanto de seus "decisores",
Por sua função de profissionalização, o ensino supe- de encorajar a promoção profissional, já que ela não pode
rior endereça-se ainda a jovens egressos das elites liberais senão melhorar as performances do conjunto, por outro
às quais é transmitida a competência que a profissão julga lado, tanto a experimentação sobre os discursos, as insti-
necessária; vêm juntar-se a isto, por uma via ou por outra tuições e os valores, acompanhada por inevitáveis "desor-
(por exemplo, os institutos tecnológicos), mas segundo o dens" no curriculum, o controle dos conhecimentos e a
mesmo modelo didático, os destinatários dos novos sabe- pedagogia, sem falar de recaídas sociopolíticas, mostra-se
res ligados às novas técnicas e tecnologias que são igual- pouco operacional e se vê recusar qualquer crédito em
nome da seriedade do sistema. Contudo, o que se delineia
, mente jovens ainda não "ativos".
aí é uma via de saída fora do funcionalismo tanto menos
Fora destas duas categorias de estudantes que repro- negligenciável porque foi o funcionalismo que a traçou.m
duzem a "intelligentsia profissional" e a "intelligentsia téc- Mas pode-se calcular que a responsabilidade seja confiada
69
nica" / os outros jovens presentes à universidade são em às redes extra-universitárias .173
sua maioria desempregados não contabilizados nas estatís- De qualquer modo, o princípio de desempenho, mes-
ticas de demanda de emprego. Com efeito, seu número ex- mo se não permite decidir claramente em todos os casos
cede o fixado em relação às ·perspectivas profissionais cor- sobre a política a seguir, tem por conseqüência global a
respondentes às disciplinas nas quais se encontram (letras subordinação das instituições do ensino superior aos po-
e ciências humanas). Eles pertencem, na realidade, malgra- deres constituídos. A partir do momento em que o saber
do sua idade, à nova categoria dos destinatários da trans- não tem mais seu fim em si mesmo como realização da
missão do saber. idéia ou como emancipação dos homens, sua transmissão
Pois, ao lado desta função profissionalizante, a uni- escapa à responsabilidade exclusiva dos mestres e dos es-
versidade começa ou deveria começar a desempenhar um tudantes. A idéia de "franquia universitária" é hoje de
novo papel no quadro da melhoria das performances do uma outra época. As "autonomias" reconhecidas às uni-
sistema, o da reciclagem permanente. 17° Fora das universi- versidades após a crise do final dos anos 60 são de pouco
dades, departamentos ou instituições de vocação profissio- peso perto do fato evidente de que os conselhos de pro-
nal, o saber não é e não será mais transmitido em bloco fessores quase não participam da decisão sobre o orça-
174
e de uma vez por todas a jovens antes de sua entrada na mento que chega à sua instituição; eles têm apenas o
vida ativa; ele é e será transmitido à la carte a adultos poder de repartir o montante que lhes é concedido, e ain-
já ativos ou esperando sê-lo, em vista da melhoria de sua da assim somente no final de seu percurso.m
competência e de sua promoção, mas também em vista da Agora, o que se transmite nos ensinos superiores?
aquisição de informações, de linguagens e de jogos de lin- Tratando-se de profissionalização, e atendo-se a um ponto
guagem que lhes permitam alargar o horizonte de sua de vista estritamente funcional, o essencial do transmissí-
vida profissional e de entrosar experiência técnica e vel é constituído por um estoque organizado de conheci-
ética.m mentos. A aplicação de novas técnicas a este estoque pode
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ter uma incidência considerável sobre o suporte comuni- dável? E, no contexto do aumento do poder: isto é eficaz?
cacional. Não parece indispensável que este seja um curso Ora, parece dever ser bem vendável a disposição de uma
proferido de viva voz por um professor diante de estu- competência atuante nas condições acima descritas, e ela
dantes mudos, sendo o tempo para perguntas transferido é eficaz por definição. O que deixa de sê-lo é a compe-
para as seções de "trabalhos" dirigidas por um assistente. tência segundo outros critérios, como o verdadeiro/falso,
Na medida em que os conhecimentos são traduzíveis em o justo/injusto, etc. e, evidentemente, o fraco desempe-
linguagem informática, e enquanto o professor tradicional nho em geral.
é assimilável a uma memória, a didática pode ser confiada , A perspectiva de um vasto mercado de competências
a máquinas articulando as memórias clássicas (bibliotecas, operacionais está aberta. Os detentores desta espécie de
etc.) bem como os bancos de dados a terminais inteligentes saber são e serão objeto de ofertas e mesmo motivo de
, colocados à disposição dos estudantes. disputa de políticas de sedução. 178 Deste ponto de vista,
A pedagogia não sofrerá necessariamente com isto, não é o fim do saber que se anuncia, e sim o contrário.
pois será preciso apesar de tudo ensinar alguma coisa aos A enciclo édia de amanhã são os b~dadqs. _Eks.
estudantes: não os conteúdos, mas o uso dos terminais, excedem a capacidade oeca a usuário. Eles são a "natu-
isto é, de novas linguagens, por um lado, e, por outro, réZã'. para o _Q_mem pós-moderno. 179 -
um manejo mais refinado deste jogo de linguagem que é
a pergunta: onde endereçar a questão, isto é, qual a me- Entretanto, notar-se-á que a didática não consiste so-
mória pertinente para o que se quer saber? Como formulá- mente na transmissão de informação, e que a competência,
la para evitar os equívocos, etc. 176 Nesta perspectiva, uma mesmo atuante, não se resume em se ter uma boa memó-
formação elementar em informática e particularmente em ria de dados ou numa boa capacidade de acesso a memó-
telemática deveria fazer parte obrigatoriamente de uma rias-máquinas. É uma banalidade sublinhar a importância
propedêutica superior, do mesmo modo que a aquisição da capacidade de atualizar os dados pertinentes para o pro-
da prática corrente de uma língua estrangeira, por blema a resolver 'faqui e agora" e de ordená-los numa
exemplo. 177 estratégia eficiente.
É somente na perspectiva de grandes relatos de legi- A medida que o jogo está na informação incom-
timação - vida do espírito e/ ou emancipação da huma- pleta, a vantagem cabe àquele que sabe e pode obter um
nidade - que a substitui!;ão_pru.:ci.a.Ldos_professores por suplemento de informação. Este é o caso, por definição,
máquinas pode arecer deficiente, e mesmo intolerável. de um estudante em situação de aprender. Mas, nos jogos
-Mas é prováVel que estes r e atos já não constituam mais de informação completa/ 80 o melhor desempenho não pode
a causa principal do interesse pelo saber. Se esta causa é consistir, por hipótese, na aquisição de um tal suplemento.
o poder, este aspecto da didática clássica deixa de ser per- Ela resulta de um novo arranjo dos dados, que constituem
tinente. A questão, explícita ou não, apresentada pelo propriamente um "lance". Este novo arranjo obtém-se or-
estudante profissionalizante, pelo Estado ou pela institui- dinariamente mediante a conexão de séries de dados tidos
ção de ensino superior não é mais: isto é verdadeiro?, mas: até então como independentes. 181 Pode-se chamar imagina-
para que serve isto? No contexto da mercantilização do ção esta capacidade de articular em conjunto o que assim
saber, esta última questão significa comumente: isto é ven- não estava. A velocidade é uma de suas propriedades.182
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Ora, é permitido representar o mundo do saber pós- A valorização do trabalho em equipe pertence a esta
moderno como regido por um jogo de informação com- prevalência do critério do desempenho no saber. Pois para
pleta, no sentido de que os dados são em princípio acessí- o que se considera como verdadeiro ou se prescreve como
veis a todos os experts: n~gr_edo científko._D justo, o número não quer dizer nada; a não ser se justiça
aumento de eficiência, de com etência_igual,_oo_produção e verdade sejam pensadas em termos de êxito mais prová-
áosaóer, e _nãÕ mais em sua ag_uis'ç_ão depende então final- vel. Com efeito, as performances em geral são melhoradas
mente desta "imaginaç?o", q!!e p~rmite sej~_alizar- um pelo trabalho em equipe, sob condições que as ciências
~laiic~_se'a mudar as regr~i9go. sociais tornaram precisas há muito tempo.'~ Na verdade,
3

Se o ensino deve assegurar não somente a reprodu- elas alcançaram sucesso em relação ao desempenho no qucl-
ção das competências, como também seu progresso, seria dro de um modelo dado, isto é, na execução de uma tare-
· preciso em conseqüência que a transmissão do saber não fa; a melhoria parece menos certa quando ~e trata de "im:l-
fosse limitada à de informações, mas que ela comporte a ginar" novos modelos , isto é, quanto a concepção. Ao que
aprendizagem de todos os procedimentos capazes de me- parece, têm-se alguns exemplos sobre isto. 11l-1 Mas continua
difícil separar o que corresponde ao dispositivo em equipe
lhorar a capacidade de conectar campos que a organização
e o que se deve ao gênio dos participantes.'
tradicional dos saberes isola ciosamente. A palavra de or-
Observar-se-á que esta orientação concerne mais à
dem da interdisciplinariedade, difundida sobretudo após a
produção do saber (pesquisa) que à sua transmissão. É
crise de 68, mas preconizada bem antes, parece seguir esta abstrato, e provavelmente nefasto, separá-los completa-
direção. Ela chocou-se contra os feudalismos universitários, mente, mesmo no quadro do funcionalismo e do profissio-
diz-se. Ela chocou-se com muito mais. nalismo. No entanto, a solução, para a qual se orientam
No modelo humboldtiano de universidade, cada ciên- de fato as instituições do saber em todo o mundo, con-
cia ocupa seu lugar num sistema dominado pela especula- siste em dissociar esses dois aspectos da didática , o da
ção. A invasão de uma ciência no campo de uma outra não reprodução "simples" e o da reprodução "ampliada" , dis-
pode provocar senão confusões, "ruídos", no sistema. As tinguindo entidades de toda natureza. sejam estas insti-
colaborações não podem se realizar senão no nível espe- tuições, reagrupamentos de disciplinas , alguns dos quais
culativo, na cabeça dos filósofos. votados à seleção e à reprodução de competências profis-
Ao contrário, a idéia da interdisciplinaridade per- sionais, e outras à promoção e à "embalagem" de espí-
tence propriamente à época da deslegitimação e ao · seu ritos "imaginativos". Os canais de transmissão colocados
empirismo apressado. A relação com o saber não é a da à disposição dos primeiros podetão ser simplificados e
realização da vida do espírito ou da emancipação d11 hu- generalizados; os segundos têm direito aos pequenos gru-
manidade; é dos utilizadores de um instrumental concei- pos que funcionam num igualitarismo aristocrático. 185 Es-
tual e material complexo e dos beneficiários de suas per- tes últimos podem fazer parte ou não oficialmente de uni-
formances. Eles não dispõem de uma metalinguagem nem de versidades, isto pouco importa.
um metarrelato para formular-lhe a finalidade e o bom Mas o que parece certo, é que nos dois casos a
uso. Mas têm o brain storming para reforçar-lhe as per- deslegitimação e. a prevalência do critério do desempenho
formances. soam como a hora f n.aLda_era do Profess.or.;_ele.-nãO-->é
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UN IVERSI DADE FEDERAl DO PARÁ
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mais com~e gue a_§__tedes de_m~mórias para trans- 170. 1!. o que M. Rioux e J. Dofny indica'!' sob a. rubrica "Formação ~u.ltu­
ral": J. Dofny & M. Rioux, "lnventatre et btlan de quelques expenen-
mitir o saber estabelecido, e ele não é mais com etente ces d'intervention de l'université", in L'université dans son mi/ieu:
que as equi ~ interdisciplinar~~ novos lan- action et responsabilité (Colóquio da A.U.P.E.L.F.), Universidade de
Montreal , 1971, 155-162. Os autores fazem a crítica do que eles cha-
_ces ou novos JQg_Q§. mam dos dois tipos de universidade da América do Norte : os liberal
art colleges, onde ensino e pesquisa são inteiramen te dissoci.a dos da de-
manda social, e a multiversity, pront~t a fornecer todo ensmo, de que
a comunidade aceita assumir o custo. Sobre esta última fórmula, ver
C. Kerr The Uses of the University. With a Postscript - 1972 -
Cambridge (Ma) , Harvard U.P .. 1972. Num sentido análogo, mas
NOTAS sem o intervencionismo da universidade na sociedade que Dofny e
Rioux preconizam , ver a descrição da universidade futura dada por
164. Durant~ os seminários de Princcton Radio Rcscarch Centcr. dirigidos M. Alliot durante o mesmo colóquio, ''Structures optimales d e l'i_ns·
por Laz.: rsfeld .:m 1939·1940. La:;w~cl ddiniu o processo de comu- titution universitaire", idib., 141-154. M. Alliot conclui: "Acredita-
nicação pela fórmula: \Vho says ll'iwt to n·hom i11 11'/zat channel mos em estruturas , quando no futuro deveria haver o mínimo de
II'ÍIIz wlwt ef!ect? V.:r D. Morrison . art. cit. estrutura possível." Esta é a voca:;ão do Centro experimental, depois
Universidade de Paris VIII (Vincennes), declarada por ocasião de sua
165. O que Par:;ons ddin.: como "ativismo instrumental" elogiando-o a fundação, em 1968. Ver a este respeito o doss:ê Vincennes ou le
ponto d.: confundi-lo com o "conh.:cim.:nto racionar·: "A orientação désir d'apprendre, Alain Moreau, 1979.
para o conhecimento racional é implícita na cultura comum do
ativismo instrumental. mas .:!:1 niio se torna mais ou menos explícita 171. O signatário se faz aqui a testemunha da ex;>eriência de um grande
número de departamentos de Vincennes.
c não é muito apreciada seniio nas c:Hegorias sociais as mais instruí·
das que a utilizam mais evidentemente .:m suas atividades profissio- 172. A lei de orientação do ensino superior de 12 de novembro de 1968
nais." (T. Parsons & G. M. Platt. ''Considcrmions on the American inclui a formação permanente (entendida de maneira profissionali-
Acad.:mic System". Minen•a VI [été 19681. 507: citado por A. zante) entre as missões do ensino superior : este "deve estar aberto
Touraine. Unil•ersité e/ sodété . . .. /oc . cit .. 146). aos antigos estudantes bem como às pessoas que não tiveram a pos·
sibílidade de prosseguir nos estudos a fim de lhes permitir, segundo
166. O que Mueller chama professiona/ intelligeHtsia. opondo-a à teclmi- suas capacidades , melhorar suas chances de promoção ou mudar sua
cu/ intel/igentsia. Seguindo I. K. Galbraith . descreve a inquietação
atividade profissional."
c a resistência da primeira em face da li::gitimaçiio tecnocrática (op.
cit., 172-177) . 173 . Numa entrevista à Télé-sept-jours 981 (17 mars 1979), o ministro
francês da Educação, que havia recomendado oficialmente a série
167. No início dos anos 1970-1971. na classe de idade dos 19 anos. a
Holocausto, transmitida no canal 2 (França), aos alunos do ensino
proporção dos inscritos no ensino superior .:ra de 30 a 40% no
público (iniciativa sem precedente). declara que a tentativa do setor
Canadú. Estados Unidos. União Soviética c Iugoslúvia : em torno de
educativo de se criar um instrumento audiovisual autônomo emper-
20''u na Akmanha. Frarwa. Grü-Brcwnha. fapiio e Países Baixos. Ne:;-
tes país.:s. tinha duplicado ou triplicado .:m relação às taxas de 1959. rou e que "a primeira das tarefas educativas é a de ensinar às crian-
Segundo a mesma fonte ( '.<1. De vez.:. Histoire contemporailze de ças a escolh~rem seus programas" na TV.
l'tlllÍI'ersité. Paris. Sedes . 1976. 439-440). a relação população estu· 174. Na Grã-Bretanha, onde a participação do Estado nas despesas em
dante/população total pas:;ou cntr.: 1950 c 1970 de aproximada· capital e em funcionamento das universidades passou de 30 a 80%
mente 4oo para aproximadamente 10°o na Europa ocidental. de 6 . 1 entre 1920 a 1960, foi o University Grants Committee. vinculado ao
para 21.3 no Canadú . de 15. I para 32.5 nos Estados Unidos.
ministério do Estado para a ciência c as universidades, que, após
168. Na França. de 1968 a 1975 . a receita totul dos ensinos superiores exame das necessidades e dos planos de desenvolvimento apresenta-
(sem o C.N.R.S .) passou (em milhões de fnmcos correntes) de 3 .015 dos pelas universidades, distribuiu entre estas a subvenção anua l.
para 5 .454. ou s.:ja. de aproximadamente O. 55% para O. 39°6 do Nos Estados Unidos. os trustes são todo-poderosos.
P.N .B. Os aumentos observados em cifras absolu tas interessam as
categorias: remunerações . funcionamento . bolsas : a categoria sub- 175 . Quer dizer, na França, entre os departamentos, para as despesas
venções para pesquisa permanente semivelmentc estagnada (Deveze de funcionamento e de equipamento. As remunerações não sã.o de
op. cit .. 447-450). Nos anos 70. E. E. David ch:clarava que o Ph.D . sua alçada, salvo para os licenciados. O financiamento de proJetos,
niio era mais necessário. a nüo ser pant o decênio anterior (art. cit., de novas experiências, etc., é custeado pelo " pacote" (verba) peda-
212). gógico que cabe à universidade.
176. M. McLuhan, D'oei/ à oreille, Denoel-Gonthier. 1977 ; P. Antoine .
169 Segundo a tcrminologiu de Cl. \1uellcr. up. cit. "Comment s'informer?", Projet 124 (avril 1978), 395-413.
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177. Sabe-se que o uso de terminais inteligentes é ensinado aos estudantes
no Japão. No Canadá, os centros universitários e colegiais isolados
usam-os correntemente.
178. Foi a política seguida pelos centros de pesquisa americanos desde
antes da Segunda Guerra Mundial. 13
179. Nora e Mine escrevem (op. cit., 16): "0 principal desafio. nos pró-
ximos decênios, não está mais, para os grupos mais avançados da A CI~NCIA PóS-MODERNA COMO PESQUISA
humanidade. na capacidade de dominar a matéria. Esta já foi domi-
nada. Ele reside na dificuldade de construir a rede dos laços que DE INSTABILIDADE
fazem progredir juntas a informação e a organização."
180. A. Rapoport, Fights, Games and Debates, Ann Arbor, Un. of Mi-
chigan Press, 1960; t.f. Lathébeaudiere, Combats, débats et jeux, Du-
nod, 1967.
181. E o Branching Model de Mulkay (ver nota 151). G. Deleuze analisou
o evento em termos de crescimento de séries em Logique du sens. AFIRMOU-SE anteriormente que a pragmática da pes-
Minuit, 1968, c em Différence et répétition, P.U.F.• 1968.
quisa científica, sobretudo em seu aspecto de pesquisa de
182. O tempo é uma variável que entra na determinação da unidade de
potência em dinâmica. Ver também P. Virilio, Vitesse et politique. argumentações novas, trazia para o primeiro plano a in-
Galilée, 1976. venção de "lances" novos e mesmo de novas regras de
183. J. L. Moreno, Who shall Survive? (1934), N.Y., Beacon. 2.• ed., 1953; jogos de linguagem. Importa agora sublinhar este aspecto,
t.f. Maucorps & Lesage, in J. L. Moreno, Fondements de la socio- que é decisivo no estado atual do saber científico. Deste
logie, t. V, "Perspectives de l'avenir: qui survivra?", P.U.F., 1954.
184. The Mass Communication Research Center (Princeton), The Mental último poder-se-ia dizer, analogicamente, que ele está em
Research lnstitute (Pato Alto), The Massachusetts lnstitute of Tech- busca de "caminhos de saída da crise", considerando-se
no!ogy (Boston), Institui /ür Sozialjorschung (Frankfurt), entre os
:mais célebres. Uma parte da argumentação de C. Kerr em favor do como crise o determinismo. O determinismo é a hipótese
que ele chama o ldeopolis basea-se no princípio do ganho em inven- sobre a qual repousa a legitimação pelo desempenho: defi-
tividade obtido pelas pesquisas coletivas (op. cit., 91 sq.}.
nindo-se este por uma relação input / output, deve-se su-
185 D. J. de Solla Price (Little Science, Big Science, loc. cit.} tenta cons-
tituir a ciência da ciência. Ele estabelece leis (estatísticas) da ciência por que o sistema no qual faz entrar o input encontra-se
tomada como objeto social. Assinalamos a lei da clivagem não demo- num estado estável; ele obedece a uma "trajetória" re-
crática na nota 131. Uma outra lei, a dos "colégios invisíveis", des- gular através da qual pode-se estabelecer a função contínua
creve o efeito que resulta da própria multiplicação das publicações
e da saturação dos canais de informação nas instituições científicas: e derivável que permitirá antecipar convenientemente o
os "aristocratas" do saber tendem por reação a estabelecer redes es- output.
táveis de contatos interpessoais agrupando no máximo uma centena
de membros cooptados. Sobre estes "colégios", D. Crane dá uma Esta é a "filosofia" positivista da eficiência. Opondo-
interpretação sociométrica em lnvisible Colleges, Chicago & Londres, lhe aqui alguns exemplos evidentes, procura-se facilitar a
The Un. of Chicago P., 1972. Ver Lécuyer, art. cit.
discussão final da legitimação. Trata-se em suma de mos-
trar em alguns casos típicos que a pragmática do saber
científico pós-moderno tem, nela mesma, pouca afinidade
com a busca do desempenho.
A expansão da ciência não se faz graças ao positi-
vismo da eficiência. É o contrário: trabalhar na prova é
pesquisar e inventar o contra-exemplo, isto é, o ininte-
ligível; trabalhar na argumentação é pesquisar o "para-
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doxo" e legitimá-lo com novas regras do jogo de raciocí~ A pesquisa metamatemática que se desenvolve até
nio. Nos dois casos, a eficiência não é visada por si mesma, chegar ao teorema de Godel é um verdadeiro paradigma
ela vem por acréscimo, por vezes tarde, quando os finan- desta mudança de natureza. 189 Mas a transformação da di-
ciadores se interessam enfim pelo caso. 186 Mas, o que não nâmica não é um exemplo menos importante do novo
pode deixar de vir e voltar com uma nova teoria, uma espírito científico, e ela nos interessa particularmente por-
nova hipótese, um novo enunciado, uma nova observa- que obriga a corrigir uma noção que já vimos, e que é
ção, é a questão da legitimidade. Pois é a própria ciência grandemente introduzida na discussão da performance, par-
que a si mesma levanta esta . questão, e não a filosofia ticularmente em matéria de teoria social: a noção de sistema.
à ciência.
A idéia de performance implica a de sistema com
O que está ultrapassado não é perguntar-se o que estabilidade firme, porque repousa sobre o princípio de
é verdadeiro e o que é justo, e sim considerar-se a ciência uma relação, a relação sempre calculável em princípio en-
como positivista e condenada a este conhecimer:to i~egi­ tre calor e trabalho, entre fonte quente e fonte fria, entre
timado, a este meio-saber de acordo com os Idealistas input e output. É uma idéia que vem da termodinâmica.
alemães. A questão: O que vale o seu argumento, o que Ela está associada à representação de uma evolução pre-
vale a sua prova? faz de tal modo parte da pragmática do visível das performances do sistema, sob a condição que
saber científico que é ela que assegura a metamorfose se lhe conheçam todas as variáveis. Esta condição é clara-
do destinatário do argumento e da prova em questão em mente expressa a título de limite pela ficção do "demônio"
destinador de um novo argumento e de uma nova prova, de Laplace: 190 de posse de todas as variáveis que deter-
donde a simultânea renovação dos discursos e das gera- minam o estado do universo em um instante t, ele pode
ções científicas. A ciência se desenvolve, e ninguém con- prever o seu estado no instante t' > t. Esta suposição é
testa que ela se desenvolve, desenvolvendo esta questão.
sustentada pelo princípio de que os sistemas físicos, in-
E esta mesma questão, desenvolvendo-se, conduz à ques-
tão isto é à metaquestão ou questão da legitimidade: clusive o sistema dos sistemas que é o universo, obede-
' '
O que vale o seu "o que vale"?
187 cem a regularidades, que por conseguinte sua evolução
delineia uma trajetória previsível e dá lugar a funções
Como já se disse, o traço surpreendente do_ saber
contínuas "normais" (e à futurologia ... ).
P ós-moderno é a imanência a si mesmo, rnas explícita, do
.. 188 o
discurso sobre as regras que o 1egltlmam. que po"de Com a mecânica quântica e a física atômica, a ex-
passar ao final do século XIX por perda de legitimid~d: tensão deste princípio deve ser limitada. E isto de dois
e decadência no "pragmatismo" filosófico ou no positi- modos, cujas respectivas implicações não têm o mesmo al-
vismo lógico não foi senão um episódio, por meio do qual cance. Primeiramente, a definição do estado inicial de um
o saber ergueu-se pela inclusão no discurso filosófico do sistema, isto é, de todas as variáveis independentes, se ela
devesse ser efetiva, exigiria uma despesa de energia no
discurso sobre a validação de enunciados com valor como
mínimo equivalente àquela que consome o sistema a ser
leis. Viu-se que esta inclusão não é uma operação simples,
definido. Uma versão leiga desta impossibilidade de fato
ela dá lugar a "paradoxos" assumidos como eminent~ente de efetuar a medida completa de um estado do sistema é
sérios e a "limitações" no alcance do saber que sao, de dada por uma observação de Borges: um imperador quer
fato, m~dificações de sua natureza. estabelecer um mapa perfeitamente preciso do império. O
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. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - -- - - -- -- --=--- - -- - -- -- - -- -- - - - ·-------
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resultado é a ruína do país: a população inteira consagra dade da ordem do milhar, que se produzem irregularmente.
toda a sua energia à cartografia.191 À medida que o volume da esfera se contrai, a impor-
Com o argumento de Brillouin,t92 a idéia (ou a ideolo- tância destas variações aumenta: para um volume da or-
gia) do controle perfeito de um sistema, que deve per- dem de 1/lOme de mícron cúbico, as vanaçoes atingem a
mitir melhorar suas performances, mostra-se inconsistente ordem do milésimo; para 1/lOOme de mícron cúbico, elas
em relação à contradição: ela faz cair o desempenho que são da ordem da quinta parte.
declara elevar. Esta inconsistência explica em particular a Diminuindo ainda mais o volume, atinge-se a ordem
fraqueza das burocracias estatais e sócio-econômicas: elas do raio molecular. Se a esférula encontra-se no vazio en-
sufocam os sistemas ou os subsistemas sob seu controle, tre duas moléculas de ar, a densidade verdadeira do ar
e asfixiam-se ao mesmo tempo que a si mesmas (feedback é nula. Contudo, na proporção de uma vez sobre mil, apro-
negativo). O interesse de uma tal explicação é que ela não ximadamente, o centro da esférula "cairá" no interior de
tem necessidade de recorrer a uma outra legitimação a não uma molécula, e a densidade média neste ponto é então
ser a do sistema - por exemplo, a da liberdade dos agen- comparável ao que se chama de densidade verdadeira do
tes humanos que as levanta contra uma autoridade exces- gás. Se se desce a dimensões intra-atômicas, a esférula tem
siva. Admitindo-se que a sociedade seja um sistema, seu todas as chances de se encontrar no vazio, novamente com
controle, que implica a definição precisa do seu estado densidade nula. Uma vez em um milhão de casos, no en-
inicial, não pode ser efetivo, porque esta definição não tanto, seu centro pode se encontrar situado num corpús-
pode ser efetuada. culo ou no núcleo do átomo, e então a densidade tornar-
Além disso esta limitação não coloca em causa senão se-á muitos milhões de vezes superior à da água. "Se a
a efetividade de um saber preciso e do poder que del"e esférula se contrair ainda mais ( ... ) , provavelmente a
resulta. Sua possibilidade de principio permanece intacta. densidade média retornará logo e será nula, como a den-
O determinismo clássico continua a constituir o limite, sidade verdadeira, salvo em certas posições muito raras
excessivamente caro, mas concebível, do conhecimento dos onde ela atingirá valores colossalmente mais elevados que
sistemas.193 os precedentes. " 194
A teoria quântica e a microfísica obrigam a uma re- O conhecimento relativo à densidade do ar abrange
visão muito radical da idéia de trajetória contínua e pre- portanto uma multiplicidade de enunciados que são total-
visível. A busca da precisão não se choca com um limite mente incompatíveis entre si, e não se tornam compatí-
devido ao seu custo, mas à natureza da matéria. Não é veis a não ser que sejam relativizados em relação à escala
verdade que a incerteza, isto é; a ausência de controle, escolhida pelo enunciador. Por outro lado, em determi-
diminua à medida que a precisão aumente: ela aumenta nadas escalas, o enunciado desta medida não se resume
também. Jean Perrin propõe o exemplo da medida da numa asserção simples, mas numa asserção modalizada do
densidade verdadeira (quociente m"assa/volume) do ar tipo: é plausível que a densidade seja igual a zero, mas
contido numa esfera. Ela varia sensivelmente quando o não exclui que ela seja da ordem de 10", sendo n muito
volume da esfera passa de 1.000m3 a lcm3 ; .ela varia muito elevado.
pouco de. lcm3 a 1/l.OOome de min\ mas já se pode obser- Aqui, a relação do enunciado do cientista com "o
var neste intervalo o aparecimento de variações de densi- que diz" a "natureza" parece originar-se de um jogo de
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informação não completa. A modalização do enunciado do pela performance, acreditam ter reencontrado seus direi-
primeiro exprime o fato que o enunciado efetivo, singular tos. Todavia, vê-se delinear na matemática contemporânea
(o token) que proferirá a segunda não é previsível. O que uma corrente que põe novamente em causa a medida pre-
é calculável é a chance de que este enunciado diga isto e cisa e a previsão de comportamentos de objetos segundo
não aquilo. No nível microfísico, uma "melhor" infor- a escala humana.
mação, isto é, com maior capacidade d(' desempenho, não Mandelbrot coloca suas pesquisas sob a autoridade
pode ser obtida. A questão não é a de conhecer o que é o do texto de Perrin que comentamos. Mas amplia-lhe o
adversário (a "natureza"), e sini saber que jogo ele joga. alcance numa perspectiva inesperada. "As funções de deri-
Einstein se revoltava com a idéia de que "Deus joga da- vada, escreve ele, são as mais simples, as mais fáceis de
dos".195 É, no entanto, um jogo que permite estabelecer tratar, são no entanto a exceção; ou, se se prefere uma
regularidades estatísticas "suficientes" (tanto pior para a linguagem geométrica, as curvas que não têm tangente
imagem que se tinha do supremo Determinante). Se ele são a regra, e as curvas bem regulares, tais como o cír-
jogava bridge, os "acasos primários" que a ciência encon- culo, são casos interessantes, mas muito esp~ciais., 199
tra deveriam ser imputados não mais à indiferença do A constatação não tem um simples interesse de curio-
dado em relação às suas faces, mas à astúcia, isto é, a uma sidade abstrata, ela vale para a maioria dos dados experi-
escolha ela mesma deixada ao acaso entre várias estraté- mentais: os contornos de uma bolha de água de sabão
gias puras possíveis.196 salgado apresentam tais infractuosidades que é impossível
Em geral, admite-se que a natureza é um adversário para o olho fixar uma tangente em algum ponto de sua
indiferente, mas não astuto, e distingue-se as ciências da superfície. O modelo é dado aqui pelo movimento brownia-
natureza e as ciências do homem com base nesta dife- no, e sabe-se que uma de suas propriedades é de que o
rença.197 Isto significa em termos pragmáticos que a "natu- vetor do deslocamento da partícula a partir de um ponto
reza" no primeiro caso é o referente, mudo, mas tão cons- é isótropo, isto é, que todas as direções possíveis são igual-
tante quanto um dado lançado um grande número de mente prováveis.
vezes, a respeito do qual os cientistas trocam os enun- Mas reaparece o mesmo problema na escala habitual
ciados denotativos que são os lances que eles fazem uns se, por exemplo, se quiser medir com precisão a costa da
aps outros, enquanto no segundo caso, sendo o homem o Bretanha, a superfície da Lua coberta de crateras, a dis--
referente, é também um parceiro que, falando, desenvolve tribuição da matéria estelar, as "rajadas" de ruídos numa
uma estratég~a, inclusive mista, diante da do cientista: o ligação telefônica, as turbulências em geral, a forma das
acaso com o qual este se choca então não é de objeto ou nuvens, enfim, a maioria dos contornos e das distribuições
de indiferença, mas de comportamento ou de estratégia/98 das coisas que não sofreram a uniformização imposta pela
isto é, agonístico. mão dos homens.
Dir-se-á que estes problemas concernem a microfí- Mandelbrot mostra que a figura apresentada por este
sica, e que eles permitem o estabelecimento de funções gênero de dados as aproxima de curvas correspondentes
contínuas suficientemente semelhantes para permitir uma às funções contínuas não deriváveis. Um modelo simpli-
boa previsão probabilista da evolução dos sistemas. Assim, ficado seria a curva de Von Koch; 200 ela possui uma homo-
os teóricos do sistema, que são também os da legitimação tetia interna; pode-se mostrar formalmente que a dimen-
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são de homotetia sobre a qual ela é construída não é um um tipo de catástrofe, que é determinado pelo número de
inteiro mas o log 4 / log 3. Tem-se o direito de dizer variáveis de controle e de variáveis de estado (aqui 2 + 1).
que tal curva situa-se num espaço cujo "número de di- A discussão sobre os sistemas estáveis ou instáveis,
mensões, está entre 1 e 2, e que ela é portanto intuiti· sobre o determinismo ou não, encontra aqui uma saída,
vamente intermediária entre linha e superfície. É porque que Thom formula em um postulado: "O caráter mais
sua dimensão pertinente de homotetia é uma fração que ou menos determinado de um processo é determinado pelo
Mandelbrot chama estes objetos de objetos fractais. estado local deste processo. " 203 O determinismo é uma es-
Os trabalhos de René Thom2<ll seguem um sentido pécie de funcionamento que é ele mesmo determinado:
análogo. Eles interrogam diretamente a noção de sistema a natureza realiza em qualquer circunstância a morfologia
estável, que é pressuposta no determinismo laplaciano e local menos complexa, que seja portanto compatível com
mesmo probabilista. os dados iniciais locais.204 Mas é possível, e é mesmo mais
Thom estabelece a linguagem matemática que permite freqüente, que estes dados impeçam a estabilização de uma
descrever como descontinuidades podem se produzir for- forma. Pois elas estão freqüentemente em conflito: "O
malmente em fenômenos determinados e dar lugar a for- modelo das catástrofes reduz todo o processo causativo a
mas inesperadas: esta linguagem constitui a teoria dita das um único, cuja justificação intuitiva não apresenta pro-
catástrofes. blemas: o conflito, pai de todas as coisas, segundo Herá-
Seja a agressividade como variável de estado de um clito." 203 Existem mais chances de que as variáveis de
cão; ela cresce na função direta de sua raiva, variável de controle sejam incompatíveis que o contrário. Não exis-
tem assim senão " ilhas de determinismo". O antagonismo
controle.202 Supondo que esta seja mensurável, chegando catastrófico é a regra, no sentido próprio: existem as re-
a determinado limite, traduz-se em ataque. O medo, se- gras da agonística geral das séries, que se definem pelo
gunda variável de controle, terá o efeito inverso, e, che- número de variáveis em jogo.
gando a determinado limite, se traduzirá pela fuga. Sem Pode-se encontrar uma repercussão (atenuada, é ver-
raiva nem medo, a conduta do cão é neutra (vértice da dade) dos trabalhos de Thom nas pesquisas da escola de
curva de Gauss). Mas, se as duas variáveis de controle Paio Alto, notadamente na aplicação da paradoxologia ao
crescem juntas, as duas serão aproximadas ao .mesmo· tem- estudo da esquizofrenia, que é conhecida com o nome de
po: a conduta do cão torna-se imprevisível, ela pode pas- Double Bind Theory.~ Apenas daremos aqui notícia desta
sar bruscamente do ataque à fuga, e inversamente. O aproximação. Ela permite compreender a extensão destas
sistema é chamado instável: as variáveis de controle va- pesquisas centradas sobre as singularidades e as "inco-
riam continuamente, e as de estado, descontinuamente. mensurabilidades, até o domínio da pragmática das difi-
Thom mostra que se pode escrever a equação desta culdades mais cotidianas.
instabilidade e desenhar o gráfico (tridimensional, já que A idéia que se tira destas pesquisas (e de muitas
existem duas variáveis de controle e uma de estado) que outras) é de que a preeminência da função contínua de
determina todos os movimentos do ponto representando derivada como paradigma do conhecimento e da previsão
o comportamento do cão, e entre eles a passagem brusca está em vias de desaparecer. Interessando-se pelos inde-
de um comportamento a outro. Esta equação caracteriza cidíveis, nos limites da precisão do controle, pelos quanta,
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pelos conflitos de informação não completa, pelos "fracta", Varones Prudentes IV, 14, Lerida, 1658. O resumo dado aqui é em
parte infiel.
pelas catástrofes, pelos paradoxos paradigmáticos, a ciên-
192. A própria informação custa energia, a neguentropla que ela cons-
cia pós-moderna torna a teoria de sua própria evolução titui suscita a entropia. M. Serres faz freqüentemente referência a
descontínua, catastrófica, não retificável, paradoxal. Muda este argumento, por exemplo em Hermes Ill. La traduction, Minuit,
1974. 92.
o sentido da palavra saber e diz como esta mudança pode
193. Seguimos aqui I. Prigogine & I. Stengers. "La dynamique, de Leibniz
se fazer. Produz, não o conhecido, mas o desconhecido. à Lucrece", Critique 380 (n.• spécial Serres) (janvier 1979), 49.
E sugere um modelo de legitimação que não é de modo 194. J. Perrin, Les atomes (1913), P.U.F., 1970, 14-22. O texto foi colocado
algum o da melhor performance, mas o da diferença com- por Mandelbrot como Introdução aos Objets fractals, loc. cit.
preendida como paralogia.207 195. Citado por W. Heisenberg, Physis and beyond, N.Y., 1971.
Como diz muito bem um especialista da teoria dos 196. Numa comunicação à Academia de ciências (dezembro de 1921),
Borel sugeria que "nos jogos onde a melhor maneira de jogar não
jogos, cujos trabalhos seguem a mesma direção: "Onde existe" (jogos de informação incompleta), "pode-se perguntar se não
está então a utilidade desta teoria? Achamos que a teoria é possível, na falta de um código escolhido uma vez por todas, jogar
de uma maneira vantajosa variando o seu jogo." t a partir desta
dos jogos, como toda t~_;ia elaborada, é útil no sentido distinção que Von Neumann mostra que esta probabilização da de-
de que ela gera idéias."2 -~or sua parte, P. B. Medawae09 cisão é ela mesma em certas condições "a melhor maneira de jogar'',
Ver G. Th. Guilbaud. Eleménts de la théorie mathématique des jeux.
dizia que "~er idéias é o S!!~O êxito gara um cientista", Dunod, 1968, 17-21. E J. P. Séris. La théorie des jeux, P.U.F., 1974
que não existe "método científicor.-~ro-e que um cientista (compilação de textos). Os artistas "pós-modernos" empregam corren·
temente estes conceitos; ver por exemplo J. Cage. Silence, e A Year
é em princ1p1o alguém que "conta histórias", cabendo-lhe from Monday. Middletown (Conn.), Wesleyan U.P .• 1961 e 1967.
simplesmente verificá-I,~ 197 . I. Epstein, "Jogos", Ciência e Filosofia, Revista Interdisciplinar.
Universidade de São Paulo. 1 (1979).
198. "A probabilidade reaparece aqui não mais como :Jrincípio constitu-
tivo de uma estrutura de objeto. mas como princípio regulador de
uma estrutura de comportamento" (G. G. Granger, Pensée formelle
NOTAS et sciences de l'homme, Aubier-Montaigne, 1960, 142). A idéia de
que os deuses jogam. digamos. bridge, seria antes uma hipótese grega
pré-platônica.
186. B. Mandelbrot (Les obiets /rt!ctals. Forme, frasard et dimension.
Flammarion, 1975) apresenta num A;1êndice (I 72-183) "esboços bio- 199. Op. cit., 4.
gráficos" de pesquisadores em matemáticas e em física reconhecidos 200. Curva contínua não retificável à homotetia interna. Ela é descrita
tardiamente ou que ficaram desconhe~idos por causa da estranheza por Mandelbrot, op. cit., 30. Foi estabelecida por H. von Koch em
de suas idéias e malgrado a fecundidade de suas descobertas. 1904. Ver Objets fractais . bibliografia.
187. Um exemplo célebre é dado pela discussão sobre o determinismo 201. Modeles mathématiques de la morphogenese, 10/18, 1974. Uma ex·
desencadeada pela mecânica quântica. Ver. por exemplo, a apresen· posição acessível ao leigo sobre a teoria das catástrofes é dada por
tação da correspondência entre M. Born e A. Einstein (1916-1955) K. Pomian. "Catastrophes et déterminisme". Libre 4 (1978), Payot.
por J. M. Lévy-Leblond, "Le grand débat'•de la mécanique quan·
tique", La recherche 20 (février 1972~. 137-144. A história das ciên· 115-136.
cias humanas há um século está repleta destas passagens do discurso 202 . O exemplo é tomado por Pomian de E. C. Zeemann, "The Geometry
antropológico ao nível de metalinguagem. of Catastrophe", Times Literary Supplement (10, december 1971).
188. I. Hassan dá uma "imagem" do que ele chama immanen,·e in "Cul· 203. R. Thom, Stabilité structurelle et morphogenese. Essai d'une théorie
ture, Indeterminacy, and lmmanence", loc. cit. générale des modeles, Reading (Mass.), Benjamin. 1972. 25. Citado
189. Ver nota 142. por Pomian, loc, cit., 134.
190. P. S. Laplace, Exposition du systeme du monde, I & 11, 1796. 204 . R. Thom. Modeles mathématiques .. .. loc. cit .. 24.
191. Do rigor da ciência, Histoire de l'infamie, Monaco, Rocher. 1951. A 205 . lbid., 25.
nota em questão é atribuída por Borges a Suarez Miranda, Viajes de 206. Ver sobretudo Watzlawick et ai .. op. cit .. cap. VI.
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(
207. ":e
preciso distinguir as condições da produção do saber científico
do saber que é produzido ( . . . ). Existem duas etapas constitutivas
da démarche científica - , tornar desconhecido o conhecido, depois
reorganizar este desconhecido num metassistema simbólico indepen-
dente ( ... ). A especificidade da ciência se deve à sua imprevisibili-
dade" (Ph. Breton, Pandore 3, avril, 1979, 10).
208. A. Rapoport, Théoire des jeux à deux personnes, t.f. Renard, Dunod, 14
1969, 159.
209. P. B. Medawar, The Art of the Solub/e, Londres, Methuen, 6." ed. A LEGITIMAÇAO PELA PARALOGIA
1967, notadamente os capítulos intitulados "Two Conceptions of
Science" e "Hypothesis and lmagination".
210. P. Feyerabend, Against Method, Londres, N.L.B., 1975, explica isto
apoiando-se no exemplo de Galileu. e considera "anarquismo" ou
••dadaísmo" epistemológico contra Popper e Lakatos.
CoNVENHAMOS que os dados do problema da legi-
timação do saber, estejam hoje suficientemente desemba-
raçados para o nosso propósito. O recurso aos grandes
relatos está excluído; não seria o caso, portanto, de re-
correr nem à dialética do Espírito nem mesmo à eman-
cipação da humanidade para a validação do discurso cien-
tífico pós-moderno. Mas, como vimos, o "pequeno relato"
continua a ser a forma por excelência usada pela invenção
imaginativa, e antes de tudo pela ciência.211 Por outro lado,
o princípio do consenso como critério de validação tam-
bém parece insuficiente. Ou ele é o assentimento dos ho-
mens, enquanto inteligências conhecedoras e vontades li-
vres, obtido por meio do diálogo - e é sob esta forma
que se encontra elaborado por Habermas, embora esta
concepção repouse sobre a validade do relato da emanci-
pação - , ou então ele é manipulado pelo sistema como
uma de suas componentes visando manter e melhorar suas
performances.212 Ele constitui o objeto de procedimentos
administrativos, no sentido de Luhmann. Não vale, então,
a não ser como meio para o verdadeiro fim, o que legi-
tima o sistema, o poder.
O problema é portanto o de saber se é possível uma
legitimação que se valesse apenas da paralogia. É preciso
distinguir o que é propriamente paralogia do que é ino-
vação: esta é comandada ou pelo menos utilizada pelo
sistema para melhorar sua eficiência; aquela é um lance,
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de importância muitas vezes desconhecida de imediato, aos seus próprios fins. 215 A redução da complexidade é
feito na pragmática dos saberes. Que, na realidade, uma exigida pela competência do sistema quanto ao poder. Se
se transforma na outra, é freqüente, mas não necessário, todas as mensagens pudessem circular livremente entre to-
e não necessariamente inoportuno para a hipótese. dos os indivíduos, a quantidade de informações a se levar
Se se parte da descrição da pragmática científica em conta para fazer as escolhas pertinentes retardaria con-
(seção 7), a ênfase deve ser colocada de agora em diante sideravelmente o prazo da decisão e, portanto, o desem-
sobre o dissentimento. O consenso é um horizonte, jamais penho. A velocidade é, com efeito, uma componente do
ele é atingido. As pesquisas que se fazem sob a égide de poder do conjunto.
um paradigma213 tendem a estabilizá-lo; elas são como a Objetar-se-á que é preciso levar em conta estas opi-
exploração de uma "idéia" tecnológica, econômica, artís- niões moleculares, se não se quer correr o risco das per-
tica. Isto não é nada. Mas admira-se que venha sempre turbações graves. Luhmann responde, e é este o segundo
alguém para desarranjar a ordem da "razão". É preciso ponto, que é possível dirigir as aspirações individuais por
supor um poder que desestabilize as capacidades de ex- um processo de "quase-aprendizagem", "livre de toda per-
plicar e que se manifeste pela regulamentação de novas turbação", a fim de que elas se tornem compatíveis com
normas de inteligência ou, se se prefere, pela proposição as decisões do sistema. Estas últimas não têm que res-
de novas regras para o jogo de linguagem científico, que peitar as aspirações que devem visar estas decisões, pelo
irão circunscrever um novo campo de pesquisa. É, no menos seus efeitos. Os procedimentos administrativos fa-
comportamento científico, o mesmo processo que Thom
chama morfogênese. Ele próprio não é sem regras (existem rão os indivíduos "querer" o que é preciso ao sistema para
categorias de catástrofes) mas sua determinação é sempre ser efidente.216 Vê-se de que utilidade as técnicas tele-
local. Transposta à discussão científica e colocada numa máticas podem e poderão ser nesta perspectiva.
perspectiva de tempo, esta propriedade implica a impre- Não se trata de hegar toda força de persuasão à idéia
visibilidade das "descobertas". Em relação a um ideal de de que o controle e a dominação do contexto valem em si
transparência, ela é um fator de formação de opacidades, mesmos mais que sua ausência. O critério do desempenho
quere1ega o momento do consenso para ma1s . tarde.214 tem "vantagens". Exclui em princípio a adesão a um dis-
Esta preparação revela claramente que a teoria dos curso metafísico, requer o abandono de fábulas, exige es-
sistemas e o tipo de legitimação que ela propõe não têm píritos claros e vontades frias, coloca o cálculo das intera-
nenhuma base científica: nem a própria ciência funciona ções no lugar da definição de essências, faz com que os
em sua pragmática segundo o paradigma do sistema admi- "jogadores" assumam a responsabilidade não somente dos
tido por esta teoria, nem a sociedade pode ser descrita enunciados que eles propõem, mas também das regras às
segundo este paradigma nos termos da ciência contem- quais eles os submetem para torná-los aceitáveis. Coloca
porânea. em plena luz as funções pragmáticas do 'saber na medida
Examinemos a este respeito dois pontos da argumen- em que elas pareçam se dispor sob o critério de eficiência:
tação de Luhmann. O sistema não pode funcionar senão pragmáticas da argumentação, da administração da prova,
reduzindo, por um lado, a complexidade; por outro lado, da transmissão do conhecido, da aprendizagem por ima-
ele deve suscitar a adaptação das aspirações individuais ginação.
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Contribui também para elevar todos os jogos de lin- não pode conhecê-las já que estas não são variáveis inde-
guagem, mesmo se eles não provêm do saber canônico, ao pendentes das novas tecnologias.219 Eis aí o orgulho dos
conhecimento de si mesmos, tende a fazer oscilar o dis- decisores, e sua cegueira.
curso cotidiano numa espécie de metadiscurso: os enun- Este "orgulho" significa que eles se identificam com
ciados comuns manifestam uma propensão a se citarem a o sistema social concebido como uma totalidade em busca
si mesmos e as diversas posições pragmáticas a se refe- de uma unidade com o maior desempenho possível. A
rirem indiretamente à mensagem aliás atualizada que as pragmática científica nos ensina precisamente que esta
concerne.217 Pode sugerir que os problemas de comunicação identificação é impossível: em princípio, nenhum cientista
interna que a comunidade científica encontra em seu tra- encarna o saber e negligencia as "necessidades" de uma
balho para desfazer e refazer suas linguagens são de uma pesquisa ou as aspirações de um pesquisador sob pretexto
natureza comparável aos da coletividade social quando,
privada da cultura dos relatos, deve colocar à prova sua de que eles não são úteis para a "ciência" como totali-
comunicação consigo mesma e a partir daí interrogar-se dade. A resposta normal do pesquisador às demandas é,
sobre a natureza da legitimidade das decisões tomadas em antes, a seguinte: É preciso ver, conte sua história.220 Em
seu nome. princípio ainda, ele não prejulga que o caso já seja regu-
Com o risco de escandalizar, o sistema pode relacio- lado, nem que "a ciência" sofrerá em seu poder se o reexa-
nar a dureza entre as suas vantagens. No quadro do cri- minar. Dá-se mesmo o inverso.
tério de poder, uma exigência (isto é, uma forma da pres- Naturalmente, não acontece sempre assim na reali-
crição) não se legitima pelo fato de proceder do sofri- dade. Não se considera o cientista cujo "lance" foi ne-
mento de uma necessidade não satisfeita. O direito não gligenciado ou reprimido, por vezes durante decênios, por-
resulta do sofrimento e sim do fato de que o tratamento que ele desestabilizava muito violentamente posições adqui-
deste torna o sistema mais eficiente. As necessidades dos ridas não somente na hierarquia universitária e científica,
mais desfavorecidos não devem por princípio servir de mas na problemática.221 Quanto mais um "lance" é forte,
regulador ao sistema, visto que, sendo já conhecida a ma- mais fácil é recusar-lhe o consenso mínimo, justamente
neira de satisfazê-las, esta satisfação não pode melhorar porque ele muda as regras do jogo sobre as quais havia
suas performances, mas somente tornar pesadas suas des- consenso. Mas, quando a instituição de saber funciona
pesas. A única contra-indicação é de que a não-satisfação desta maneira, ela se conduz como um poder ordinário,
pode desestabilizar o conjunto. Ele é contrário à força de cujo comportamento é regulado em homeostasia.
se regulamentar sobre a fraqueza. Mas é próprio do sis- Este comportamento é terrorista, como o é o do
tema suscitar demandas novas que deverão contribuir para sistema descrito por Luhmann. Entende-se por terror a
a redefinição das normas de "vida" .218 Neste sentido, o eficiência oriunda da eliminação ou da ameaça de elimi-
sistema apresenta-se como a máquina de vanguarda atraindo nação de um parceiro fora do jogo de linguagem que se
a humanidade, desumanizando-a, para tornar a huma- jogava com ele. Ele se calará ou dará seu assentimento
nizá-la em outro nível de capacidade normativa. Os tecno- não porque ele é refutado, mas ameaçado de ser privado
cratas declaram não poder fiar-se no que a sociedade de- de jogar (existem muitas espécies de privação). A arro-
clara serem suas necessidades. Eles "sabem" que ela mesma gância dos decisores, em princípio sem. equivalente nas
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ciências, volta a exercer este terror. Ele diz: Adaptai vos- penho que rejeita para si mesmo? Ou, ao contrário, re-
sas aspirações aos nossos fins, senão ... 222 cusa .de cooperação com os poderes e ingresso na contra-
Mesmo a permissividade em relação aos diversos jo- cultura, com o risco da extinção de toda possibilidade de
gos é colocada sob a condição de desempenho. A rede- pesquisa por falta de créditos?m
finição das normas de vida consiste na melhoria da com- Desde o início deste estudo sublinhamos a diferença
petência do sistema em matéria de poder. Isto é parti- não somente formal, mas pragmática, que separa os diver-
cularmente evidente com a introdução das tecnologias tele- sos jogos de linguagem, notadamente denotativos ou de
máticas: os tecnocratas vêem nelas a promessa de uma conhecimento, e prescritivos ou de ação. A pragmática
liberalização e de um enriquecimento das interações entre científica está centrada sobre os enunciados denotativos,
locutores, mas o efeito interessante é que isto resultará daí resultando instituições de conhecimento (institutos,
em novas tensões no sistema, que melhorarão suas per- centros, universidades, ete.). Mas seu desenvolvimento pós-
formances.223 moderno coloca em primeiro plano um "fato" decisivo: é
Na medida em que é diversificante, a ciência em sua que mesmo a discussão de enunciados denotativos exige
pragmática oferece o antimodelo do sistema estável. Re- regras. Ora, as regras não são enunciados denotativos, mas
tém-se um enunciado a partir do momento em que ele prescritivos, que é melhor chamar metaprescritivos para
comporta a diferença com o que é sabido e quando é argu- evitar confusões (eles prescrevem o que devem ser os lan-
mentável e provável. Ela é um modelo de "sistema aber- ces dos jogos de linguagem para ser admissíveis). A ati-
to"224 no qual a pertinência do enunciado está em que vidade diversificante, ou de imaginação, ou de paralogia
"gera as idéias", isto é, outros enunciados e outras regras na pragmática científica atual, tem por função revelar
de jogo. Não existe na ciência uma metalíngua geral na estes metaprescritivos (os "pressupostos")226 e de pedir
qual todas as outras podem ser transcritas e avaliadas. É par.a que os parceiros aceitem outros. A única legitimação
isto que impede a identificação com o sistema e, pensando que ao final das contas torna aceitável esta démarche, se-
bem, o terror. A clivagem entre decisores e executantes, ria a de que produzirá idéias, isto é, novos enunciados.
se ela existe na comunidade científica (e existe), pertence A pragmática social não tem a "simplicidade" que
ao sistema sócio-econômico, não à pragmática científica. possui a das ciências. É um monstro formado pela im-
Ela é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento bricação de um emaranhado de classes de enunciados (de-
da imaginação dos saberes. notativos, prescritivos, performativos, técnicos, avaliati-
A questão da legitimação generalizada torna-se a se- vos, etc.) heteromorfos. Não existe nenhuma razão de se
guinte: qual é a relação entre o antimodelo oferecido pela pensar que se possa determinar metaprescrições comuns
pragmática científica e a sociedade? É ele aplicável às imen- a todos estes jogos de linguagem e que um consenso revi-
sas camadas de matéria de linguagem (langagiere) que sável, como aquele que reina por um momento na comu-
formam as sociedades? Ou permanece ele limitado ao jogo nidade científica, possa abarcar o conjunto das metapres-
do conhecimento? E, neste caso, que papel joga ele com crições que regulem o conjunto dos enunciados que cir-
relação ao vínculo social? Ideal inacessível de comunidade culam na coletividade. É ao abandono desta crença que
aberta? Componente indispensável do subconjunto dos de- hoje se relaciona o declínio dos relatos de legitimação, se-
cisores, aceitando para a sociedade o critério de desem- jam eles tradicionais ou "modernos" (emancipação da hu-
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manidade, devir da Idéia). É igualmente a perda desta plica evidentemente a renúncia ao terror, que supõe e
crença que a ideologia do "sistema" vem simultaneamente tenta realizar sua isomorfia. O segundo é o princípio que,
suprir por sua pretensão totalizante e exprimir pelo ci- se existe consenso sobre as regras que definem cada jogo
nismo do seu critério de desempenho. e os "lances" que aí são feitos, este consenso deve ser
Por esta razão, não parece possível, nem mesmo pru- local, isto é, obtido por participantes atuais e sujeito a
dente, orientar, como faz Habernas, a elaboração do pro- uma eventual anulação. Orienta-se então para as multi-
blema da legitimação no sentido da busca de um consenso plicidades de metaargumentações versando sobre metapres-
universal227 em meio ao que ele chama o Diskurs, isto é, critivos e limitadas no espaço-tempo.
o diálogo das argumentações.228 Esta orientação corresponde à evolução das intera-
Trata-se, com efeito, de supor duas coisas. A primeira ções sociais, onde o contrato temporário suplanta de fato
é que todos os locutores podem entrar num acordo sobre a instituição permanente de matérias profissionais, afeti-
regras ou metaprescrições válidas universalmente para to- vas, sexuais, culturais, familiares e internacionais, como
dos os jogos de linguagem, quando está claro que estes são nos negócios políticos. A evolução é, assim, equívoca:
heteromorfos e resultam de regras pragmáticas heterogêneas. o contrato temporário é favorecido pelo sistema por causa
A segunda suposição é que a finalidade do diálogo de sua grande flexibilidade, de seu menor custo, e da
é o consenso. Mas mostramos, analisando a pragmática efervescência de motivações que o acompanha, sendo que
científica, que o consenso não é senão um estado das dis- todos estes esforços contribuem para uma ·melhor opera-
cussões e não o seu fim. Este é antes a paralogia. O que tividade. De qualquer modo, a questão não é propor uma
desaparece com esta dupla constatação (heterogeneidade alternativa "pura" ao sistema: todos nós sabemos, neste
das regras, busca do dissentimento), é uma crença que final dos anos 70, que ela será semelhante ao próprio
anima ainda a pesquisa de Habermas, a saber, que a hu- sistema. Devemos nos alegrar que a tendência ao contrato
manidade como sujeito coletivo (universal) procura sua temporário seja equívoca: ela não pertence à exclusiva fina-
emancipação comum por meio da regularização dos "lan- lidade do sistema mas este a tolera, e ela evidencia em
ces" permitidos em todos os jogos de linguagem, e que a seu seio uma outra finalidade, a do conhecimento dos jo-
legitimidade de um enunciado qualquer reside em sua gos de linguagem como tais e da decisão de assumir a
contribuição a esta emandpação.229 responsabilidade de suas regras e de seus efeitos, sendo
Compreende-se bem qual é a função deste recurso o principal destes o que revalida a adoção destas, a pes-
na argumentação de Habermas contra Luhmann. O Diskurs quisa da paralogia.
é o último obstáculo oposto à teoria do sistema estável. Quanto à informatização das sociedaJcs, vê-se enfim
A causa é boa, mas os argumentos não o são.230 O con- como ela afeta esta problemática. Ela pode tornar-se o
senso tornou-se um valor ultrapassado, e suspeito. A jus- instrumento "sonhado" de controle e de regulamentação
tiça, porém, não o é. É preciso então chegar a uma idéia do sistema do mercado, abrangendo até o próprio saber,
e a uma prática da justiça que não seja relacionada à do e exclusivamente regido pelo princípio de desempenho.
consenso. Ela comporta então inevitavelmente o terror. Pode tam-
O reconhecimento da heterogeneidade dos jogos de bém servir os grupos de discussão sobre os metaprescriti·
linguagem é um primeiro passo nesta direção. Ela im- vos dando-lhes as informações de que eles carecem ordi-
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nariamente para decidir em conhecimento de causa. A se for capaz de construir novas aspirações nos outros sistemas exis-
tentes, quer se trate de pessoas ou de sistema sociais." (Legitimation
linha a seguir para fazê-la bifurcar neste último sentido durch Verfalzre/1. loc. cit., 35).
é bastante simples em princípio: é a de que o público 216 . Encontra-se umn articulação desta hipótese nos estudos mais antigos
tenha aces~o livremente às memórias e aos bancos de da- de D. Reinman. The Lonely Crowd, Cambridge (Mass.), Yale U.P.,
1950, t.f. La /ou/c so/itaire, Arthaud, 1964; de W. H. Whyte, The
dos.231 Os jogos de linguagem serão então jogos de infor- Organizatio11 \f,m. N.Y., Simon & Schuster, 1956, t.f. L'homme de
mação completa no momento considerado. Mas eles serão l'organisatio11. l'lon. 1959; de Marcuse, One Dimensional Man, Bos-
ton. Rcacon. l'lbb. t.f. Wittig, L'homme unidimensionel, Minuit, 1968.
também jogos de soma não nula e, nesse sentido, as dis-
cussões não correrão o risco de se fixar jamais sobre posi- 217 . J. R.:y-D.:huv.: (op. cit., 228 sq.) nota a multiplicação dos vestígios
d.: dis~:urso indireto ou de conotação autonímica na língua cotidiana
ções de equilíbrio mínimos, por esgotamento das disputas. contemporânea. Ora, lembra ele, "o discurso indireto não é confiá-
vel".
Pois as disputas serão então constituídas por conhecimen-
218. Ora, como diz G. Canguilhem, "o homem não é verdadeiramente
tos (ou informações) e a reserva de conhecimentos, que são a não ser quando é capaz de muitas normas, quando é mais que
é a reserva da língua em enunciados possíveis, é inesgo- normal ("Le normal et le patologique" [1951], La connaissance de
la vie, Hachette, 1952, 210).
tável. Uma política se delineia na qual serão igualmente
219. E. E. David (art. cit.) nota que a sociedade não pode saber senão
respeitados o desejo de justiça e o que se relaciona ao das necessidades que experimenta no estado atual de seu meio tec-
desconhecido. nológico. ~ próprio da ciência fundamental descobrir propriedades
desconhecidas que vão remodelar o meio técnico e criar necessidades
imprevisíveis. Ele cita a utilização do material sólido como amplifi-
cador c o desenvolvimento da física dos sólidos. A crítica desta "regu-
lamentação negativa" das interações sociais e das necessidades pelo
objeto técnico contemporâneo é feita por R. Jaulin, "Le mythe tech-
NOTAS nologlque", Revue de l'entreprise 26 (n.• spécial "L'ethnotechnologie",
mars 1979), 49·55. O autor qita A. G. Haudricourt, "La technologie
211. Não foi possível no quadro deste estudo analisar a forma que toma culturelle, essai de méthodologie", in B. Gille, Histoire des techniques,
o retorno do relato nos discursos de legitimação tais que: o sistemá- loc. cit.
tico aberto, a localidade, o antimétodo, e em geral tudo o que nós 220. Medawar (op. cit., 151-152) opõe o estilo escrito e o estilo oral dos
agrupamos aqui sob o nome de paralogia. cientistas. O primeiro deve ser "indutivo" sob pena de não ser
212. Nora c Mine atribuem por exemplo à "intensidade do consenso so· levado em consideração; do segundo, ele relaciona uma lista de
cial" que eles consideram próprios à sociedade japonesa os sucessos expressões correntemente entendidas nos laboratórios, como: My
que este país obtém em matéria de informática (op. cit., 4). Escre- results don't make a story yet. E conclui: "Scientists are building
vem eles em sua conclusão: "A sociedade à qual ela [a dinâmica explanatory structures, telling stories ( ... )."
de uma informatização social extensa] conduz é frágil: construída 221. Para um exemplo célebre, ver L. S. Feuer, The ConjlÚ oj Genera-
para favorecer a elaboração,; de um consenso, supõe sua existência
e bloqueia-se, se não consegue adquiri-lo" (op. cit., 125). Y. Stourdzé,
tions (1969), u: Alexandre, Einstein e{ le conjlit des générations, Bru·
xelas, Complexe, 1979. Como sublinha Moscovici no seu prefácio à
art. cit., insiste sobre o fato de que a tendência atual a desregular, tradução francesa, "a Relatividade nasceu numa 'academia' nada
desestabilizar e enfraquecer as administrações, nutre-se da perda de acadêmica, formada por amigos dos quais nenhum era físico, mas
confiança da sociedade na eficiência do Estado. apenas engenheiros e filósofos amadores."
213. No sentido de Kuhn, op. cit. 122. ~ o paradoxo de Orwell. O burocrata fala: " Nós não nos contenta-
214. Pomian, art. cit., mostra que esta espécie de funcionamento (por ca- mos com uma obediência negativa, nem mesmo com a mais abjeta
tástrofe) não provém de modo algum da dialética hegeliana. submissão. Quando finalmente vocês se renderem a nós, isto deve
ser resultado de sua própria vontade." (1984, N.Y., Harcourt &
215. "A legitimação das decisões implica fundamentalmente um pro- Brace, 1949; t.f. Gallimard, 1950, 368.) O paradoxo se exprimiria em
cesso afetivo de aprendizagem que seja livre de toda perturbação. jogo de linguagem por um: Seja livre, ou ainda, Queira o que você
.E: um aspecto da questão geral: Como as aspirações mudam, como quer. Ele é analisado por Watzlawick et al., op. cit., 203-207. Ver
o subsistema político e administrativo pode reestruturar as aspirações sobre estes paradoxos J. M. Salanskis, "Geneses 'actuelles' et gene-
da ·sociedade graças às decisões, quando ele mesmo não é senão ses 'sérielhis' de l'inconsistant et de l'hétérogene", Critique 379 (dé-
um subsistema? Este segmento não terá uma ação eficaz. a não ser cembre, 1978), 1155-1173.
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223. Ver a descrição das tensões que não deixará de criar a informatiza- cujo tema é a formação de redes populares de comunicação
ção de massa na sociedade francesa segundo Nora e Mine (op. cit., multimédia: sobre os radioamadores (e notadamente sobre o seu
Apresentação). papel em Quebec, por ocasião do affaire do F.L.O. em outubro
de 1970, e do "Front commun" em maio de 1972); sobre as rádios
224. Ver nota 181. Cf. em Watzlawick et al., op. cit., 117·148, a discussão comunitárias nos Estados Unidos e no Canadá; sobre o impacto da
dos sistemas abertos. O conceito de sistemático aberto constitui o ob- informática nos condições do trabalho redacional na imprensa:
jeto de um estudo de J. M. Salanskis, Le systématique ouvert, 1978. sobre as rádios-piratas (antes do seu desenvolvimento na Itália);
225. Após a separação da Igreja e do Estado, Feyerabend (op. cit.) re- sobre os fichários administrativos, sobre o monopólio IBM, sobre
clama no mesmo espírito "leigo", a da ciência e do Estado. Mas e a sabotagem informática. A municipalidade de Yverdon (Cantão de
a da Ciência e do Dinheiro? Vaud), após ter votado a compra de um computador (operacional,
em 1981) estabeleceu um certo número de regras:· competência ex-
226. ~ pelo menos uma das maneiras de compreender este termo que per
clusiva do conselho municipal para d'ecidir que dados são coletados,
tence à problemática de O. Ducrot, op. cit. a quem e sob que condições eles são comunicados; acessibilidade de
221. Raison et légitimité, loc. cit., passim, sobretudo 23·24: ..A linguagem todos os dados a todo cidadão sobre sua solicitação (contra paga·
funciona como um transformador: ( . .. ) os conhecimentos pessoais mento); direito de todo cidadão de tomar conhecimento dos dados
transformam-se em enunciados, as necessidades e os sentimentos em de sua ficha (cinco centenas), de corrigi-las, de formular a seu res-
expectativas normativas (comandos ou valores). Esta transformação peito uma reclamação ao conselho municipal e eventualmente ao
estabelece a diferença importante que separa a subjetividade da in- Conselho do Estado; direito de todo cidadão de saber (a pedido)
tenção, do querer, do prazer e da dor, de um lado, e as expressões que dados a seu respeito são comunicados, e a quem (La semaine
e as normas que não têm uma pretensão à universalidade, por outro media 18, I mars 1979, 9).
lado. Universalidade quer dizer objetividade do conhecimento e le-
gitimidade das normas em vigor. Esta objetividade e esta legitimi·
dade asseguram a comunidade (Gemeinsamkeit) essencial à consti-
tuição do mundo vivido social." Vê-se que a problemática circuns-
crita desta maneira, bloqueando a questão da legitimidade sobre um
tipo de resposta, a universalidade, de um lado pressupõe a iden·
tidade das legitimações para o sujeito do conhecimento e para o
sujeito da ação, cpntrariamente à crítica kantiana que dissociava
a universalidade conceitual, apropriada ao primeiro, da universali-
dade ideal (a "natureza supra-sensível") que serve de horizonte ao
segundo; e, por outro lado, ela mantém o consenso (Gemeinschaft)
como único horizonte possível à vida da humanidade.
228. lbid., 22, e nota do tradutor. A subordinação dos metaprescritivos
da prescrição, isto é, da normalização das leis, ao Diskurs, é explícita,
por exemplo 146: "A pretensão normativa à validade é ela mesma
cognitiva no sentido de que ela supõe sempre que ela poderia ser
admitida numa discussão racional."
229. G. Kortian, in Métacritique, Minuit, 1979, Parte V, faz o exame
crítico deste aspecto aufkliirer do pensamento de Habermas. Ver
também do mesmo autor, "Le discours philosophique et son objet'',
Critique, 1979.
230. Ver J. Poulain, art. cit., nota 28; e, para uma discussão mais geral
da pragmática de Searle e de Gehlen, J. Poulain, "Pragmatique de la
parole et pragmatique de la vie", Phi zéro, 7,1 (septembre 1978}, Uni-
versité de Montréal, 5-50.
231. Ver Tricot et al., lnformatique et libertés, Rapport au gouvernement,
La Documentation française, 1975. L. Joinet, "Les 'pieges libertici-
des' de l'informatique", Le Monde diplomatique 300 (mars 1979):
estas armadilhas são "a aplicação da técnica dos 'perfis sociais' à
gestão de massa das populações; a lógica de segurança que produz
a àutomatização da sociedade." Ver também os dossiês e as aná-
lises reunidas em Interjérences 1 e 2 (hiver 1974. prlntemps 1975),
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POSFÁCIO
A EXPLOSIVA EXTERIORIZAÇÃO DO SABER*

SILVIANO SANTIAGO**

TEM SIDO pouco salientado, no debate sobre a pós-modernida-


de, o fato de o livro de Jean-François Lyotard, A condição pós-mo-
derna, ser um "escrito de circunstância". Trata-se do resultado de
uma encomenda que lhe foi feita pelo Conselho das Universidades
junto ao governo do Quebec. Antes, portanto, de ser produto de
um encadeamento orgânico e lógico que daria continuidade a
preocupações da produção teórica anterior do autor, A condição
pós-moderna trilha o caminho inaugurado por De Gaulle quando
deu vivas ao Quebec livre: é a resposta dada por um europeu a
franco-canadenses para enfrentar o impacto da modernização oci-
d ntal a partir do modelo nipo-americano. Este vai nos conduzin-
do a uma nova era histórica que se convencionou chamar de pós-
industrial. A reflexão de Lyotard sobre a nova era, antes de ser res-
posta a uma pergunta subjetiva, é parte de um cálculo de lucros-e-
perdas feito por uma economia regional atrasada. Essa nossa cons-
tatação, por sua vez "circunstancial" com relação ao específico das
teses de Lyotard, nos leva a algumas ponderações que julgamos
oportunas.
A primeira diria que La condition post-moderne circunscreve
Canadá e França como periféricos com relação ao estágio avança-
do em que se encontra o núcleo desenvolvido do Primeiro Mundo.
O livro talvez seja a resposta mais inteligente à pergunta feita de
maneira grosseira pelo jornalista Servan-Schreiber, em O desafio
norte-americano. Em segundo lugar, percebe-se que, por uma
encomenda, Lyotard é retirado do seu lugar p olítico original - os
acontecimentos de maio de 68 - e posto de supetão diante de um
necessário e indispensável processo de atualização das insrituições.

• Artigo publicado no {orna/ do Brasil, Caderno Idéias/ Livros, de 30 de junho


de 1990.
•• Escritor e crítico.

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Trata-se de um relatório de estudos, cujo resultado visa a aprimo- Para ele, a condição pós-moderna se inaugura pela atual "in-
rar o quadro universitário e os laboratórios de pesquisa canaden- credulidade" em relação aos metarrelatos, ou seja, essa espécie de
ses. Finalmente, e aqui entramos propriamente no nosso assunto "desencanto" (a palavra é do cientista político Norbert Lechner)
de hoje, Lyotard acredita ser justo aconselhar que o processo de com os grandes discursos produzidos no século XIX e explicadores
abordagem da modernização pós-industrial seja feito pelo viés da condição histórica do Homem ocidental, nos seus aspectos eco-
técnico-científico. O acesso ã nova revolução industrial está na nômicos, sociais e culturais. Os metarrelato_s_foram resQonsáveis
aquisição de um saber, que é vendido ou negado pelos países pela constituição - nos tempos modernos - de grandes..oatores,
avançados aos consumidores periféricos, quando não lhes é sim- granaes heróis, grandes perigos, grandes périplos e, principalmen-
plesmente escamoteado ou sonegado. As sociedades periféricas só te,,~tiv<Y socio@lítico-t;ecmrôrruco, trazendo uma
terão pleno acesso a ele se os repectivos governos ou as empresas impossível, mas almejada grandiosidade para um mundo que mais
nacionais delegarem às suas instituições de saber, ao alocar-lhes e mais se dava como burguês e capitalista, baixo e decadente. Eles
fundos generosos, a indispensável tarefa de aprimoramento de um tiveram como ponto de partida o ideal libertário da Revolução
corpo de pesquisadores e de docentes de altíssimo nível. A pesqui- Francesa e como fundamento os princípios da razão ilumunista.
sa de ponta é o alicerce indispensável para que se afirme o poder Ainda de maneira simplificada, digamos que aquela é equacionada
econômico na competitiva era pós-industrial. ao autoritarismo, responsável por sua vez por inúmeras ditaduras
Unindo estas três ponderações, está uma outra frase da intro- de variado colorido, e está à vontade de compreender o processo
dução ao livro, que diz ter sido ele escrito no momento muito pós- social na sua totalidade, deixando que a violência homogeneizado-
moderno, em que a Universidade de Vincennes desaparece. Em ra passe o rolo compressor no que é diferente e, por isto, hetero-
Paris, o campus de Vincennes, desde os anos 70, foi o baluarte da gêneo, vale dizer no que é plural.
imaginação no poder ã chinesa, lugar por excelência da revolta Aos olhos revolucionários, a pós-modernidade é reformista.
cultural maoísta contra o império esclerosado da Sorbonne. Na Aos olhos iluministas ela é uma freguesa contumaz, ou seja, mais
homenagem póstuma ao santuário da emancipação humana, lê-se uma rebelião anárquica da irracionalidade. Aos olhos verdadeira-
que a almejada transformação social se fará de maneira lenta e gra- mente modernos, ela é apenas modernizadora. Porém, aos seus
dual, pelo aperfeiçoamento das instituições, com vistas a uma so- próprios olhos, a pós-modernidade é antitotalitária, isto é, demo-
ciedade plural e democrática, mas ao mesmo tempo eficiente. Mo- Tatl am "nt fragmentada, e serv. par_g_ afiar a nossa inteligência
dernização e democracia se tornam o casal 20 dos anos 80, assim 1 u 1 qu é heterogên~o, marginal, m~ginal.iza.dQ,._ c~, a
como revolução cultural e guerrilha o foram dos anos 60. Se, na- n, Qll a razão histórica ali enxer e novos ob~os_de-estttElo.
queles anos, o poder era o mal e o acesso ao lugar dele significava I r t •• u grandiosidade, anha-se a tolerância. Em lugar do_de_\!:.er
a mais terrível das traições, nos nossos dias, o poder é o cimento hi.tOr.l o do Romem, tem-s~ -a integra_ç_ã_o...pkna_d_o__çidadão m co-
de uma possível melhoria tecnológica, vale dizer: uma possível IYll.tnldades. E é a estas "placas"_(i!_ QalavraE e Ly.P~rd)_de_sociabi-
melhoria econômica e social dos cidadãos. O estado do bem-estar 1Idade que s.e...d.iri e o olb.aqlóS- o_clel1.1P, busçanQo com reendê-
social (welfare state) joga para escanteio a insatisfação radical que las .ao mesmo..temp_o..na ua_autenticid:;.de e_na sua precariedaÇe.
existe por trás do desejo utópico. Nas sociedades avançadas, o A grande questão para Lyotard é a de saber como, descartados
seguro-desemprego garante o silêncio conivente, alimentando com <)S metarrelatos legitimadores do bom, do justo e do verdadeiro,
desocupados os clubes noturnos e os estádios de futebol. constituir formas de legitimação da nova ordem mundial. Essa
Dentro dessa perspectiva, não é novidade que Lyotard tenha questão - cuja resposta é apenas sugerida - se torna mais urgen-
imaginado entrar na análise da sociedade pós-industrial pelo viés !e porque a sociedade pós-industrial, ao mesmo tempo em que
da informática. Antes de abordar o problema que nos interessa, o democrática e tolerante, marcha dentro da discutível "lógica do
do estatuto do saber na era pós-industrial, tracemos o quadro geral melhor desempenho". Essa lógica é a principal responsabilidade
da pós-modernidade pintado por Lyotard, deixando no entanto a de uma nova classe dirigente, a dos "decisores" (dirigentes de em-
discussão do quadro geral para melhor e mais oportuna ocasião. presas, altos funcionários, dirigentes de grandes órgãos profissio-
Fiquemos, hoje, apenas com a descrição sumária da complexa e nais, sindicais, políticos, confessionais).
ambiciosa tese que Lyotard levanta. A lógica do melhor desempenho, quando usada sem discemi-
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menta, inaugura uma nova forma de "terror", o terror tecnocrata ' A escola já não pode mais exigir uma absurda interiorização dele
implantado pelos "decisores", aliás, recentemente acolhido entre por parte do aluno, mesmo porque professor e aluno, em condi-
nós e imediatamente transplantado para Brasília: "Sede operatórios, ções ideais, trabalham com informação completa. Não há desnível
isto é, comensuráveis, ou desaparecei." A questão da legitimação entre os dois em quantidade de informação. Há desnível no modo
do saber científico é ainda im ortante or ue, desde os anos 60 como utilizar a informação. Observa Lyotard que a pedagogia na
os ges uisadores assam or um "grocesso de desmoralização" .,n~ sociedade ós-modernª--D.ãQ__ctesapar:eGe,-mud~SJ o seuS-méto-
medida em ue questionados elos movimentos reservacionistas. os. Ensinam-se não os conteúdos, mas o uso do terminais. En-
Apesar e ascinante, deixemos de lado a discussão da tese sma-se um "manejo mais refinado deste jo o de lingua~ue é,a
fundamental de 1-yotard e a dos seus critérios, e adentremo-nos per-gunta: on e en ereçar a uestão, isto ~. _gual é a m~mória..per-
agora pela vereda do grande sertão da informát-iea: o estatuto do tinente para o que se querSãber?"
saber na sociedade pós-industrial- -- 0 -saber-p:erde::-entaO-a-sua-oondição....de "valor_de_us_<i:. e passa a
A hipótese fundamental de Lyotard diz que o estatuto do saber ser avaliado como algo que existe para ser vendido e ue também
mudou a partir dos anos 50/60. Anteriormente, ele deveria fazer eXJ.ste para ser consumido com vistas a uma nova rodução. Forne-
parte da formação (Bildungy espiritual de todo e qualquer indiví- cedores-e usuários do conhecimento passam a ter uma relação com
duo para que chegasse à condição de cidadão participante. Para o saber como "valor de troca". O seu valor é determinado por uma
isso, o indivíduo tinha de se entregar, desde a mais tenra idade, a realidade extrínseca a ele; ele é, segundo a definição clássica, a ex-
um lento e gradativo processo de interiorização do saber, tanto de pressão do trabalho humano socialmente necessário para produzi-
um saoer universal e multidisciplinar básico, quanto de um saber lo. Pode concluir Lyotard que, nos últimos decênios, o saber tor-
disciplinar e superior. A escola e os professores, donos de uma in- nou-se a principal força de produção. Tanto a busca do saber (pes-
formação completa do saber, eram os principais responsáveis por quisa) quanto a transmissão do saber (pedagogia) fundafl! a circula-
esse trabalho junto aos alunos que, por definição, tinham informa- ção do capital na sociedade pós-moderna. O saber não está desvin-
ções incompletas. O desnível justificava a autoridade do professor culado da questão maior do poder econômico e político, em suma,
e a obediência do discípulo. ele é a moeda que define na cena internacional os jogos de hege-
Em literatura, a dramatização desse processo foi responsável monia (entre as nações, entre as empresas multinacionais).
por um dos mais ricos subgêneros da ficção: o romance-de-forma- Os créditos para a pesquisa são o alicerce para os laboratórios
ção (Bildungsroman) ou, de maneira mais específica, o romance- dentro de uma perspectiva de crescimento e importância que é
de-artista (Kunstlerroman). Os mestres incontestáveis são Goethe, legitimada pelo melhor desempenho. Nesse sentido, pesquisa,
com Wilhelm Meister, e Flaubert, com Educação sentimental. Um transmissão do saber e empresa pós-industrial se encontram inti-
artista aprendiz, de Autran Dourado, seria exemplo recente do sub- mamente ligados. Diversas universidades funcionam em estreita
gênero entre nós. O romance-de-formação, em geral autobiográfico, colaboração com parques industriais que lhes são vizinhos, como é
narra a experiência de um indivíduo até o final da adolescência. o caso sempre citado da Universidade de Stanford, na Califórnia. E
Mostra como ele se toma consciente de si, ao mesmo tempo em continua Lyotard:
que relata o mundo objetivo fora da sua consciência subjetiva. "Mas o capitalismo vem trazer sua solução ao problema cientí-
O saber tinha então, para usar a terminologia marxista, um fico do crédito à pesquisa: diretamente financiando os departamen-
"valor de uso". tos de pesquisas nas empresas, onde os imperativos de desempe-
Nos países avançados, com a proliferação de magníficas biblio- nho e de recomercialização orientam com prioridade os estudos
tecas públicas e universitárias, com a diversidade infinita de labora- voltados para as aplicações; indiretamente, pela criação de funda-
tórios de pesquisa com memória científica específica, com a multi- ções de pesquisa privadas, estatais ou mistas, que concedem crédi-
plicação de museus cada vez mais especializados, com o surgi- tos sobre programas a departamentos universitários, laboratórios,
mento dos mais variados tipos de arquivos públicos, e com a con- sem esperar do resultado dos seus trabalhos um lucro imediato,
seqüente informatização de todas essas instituições, o saber passa mas erigindo em princípio que é preciso financiar pesquisas a fun-
mais e mais a viver a condição de uma "explosiva exteriorização". do perdido durante um certo tempo para aumentar as chances de
Ele é tanto mais e mais abundante quanto é mais e mais acessível. se obter uma inovação decisiva e, portanto, muito rentável."
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Lyortard conclui de maneira premonitória que o saber na no fato de que existe uma pesquisa técnico-científica militar avan-
sociedade pós-industrial passa a ser o principal ponto de estrangu- çada cujo conteúdo é secreto para a pesquisa civil. A segunda, a
lamento para o desenvolvimento dos países periféricos. Daí se que relega a segundo plano as ciências humanas e sociais, deixan-
pode supor, ao contrário do que é voz corrente entre nós, que a do as ciências exatas serem solitariamente hegemônicas. O modelo
distância entre os países desenvolvidos e os países em vias de de desenvolvimento realista, ou seja, o que é dado pela maturação
desenvolvimento tende a se alargar mais e mais no futuro. Falar periférica (artificial e tardia, mas sólida) do progresso nos países
hoje de uma única economia planetária não deixa de ser um modo avançados, só encontra um legítimo critério de avaliação nas ques-
pouco discreto de legitimar formas múltiplas e até então insuspei- tões abertas pelas pesquisas vivas, porque também "ricas", feitas
tadas de injustiça. Acreditar também que o saber circula em trans- no campo das ciências humanas e sociais. Elas é que podem, ou
parência quando movido pelo capital internacional é truísmo des- não, legitimar o saber que foi, em primeira instância, acatado pelas
prezível. ciências exatas dentro da lógica do melhor desempenho. É pela
Dentro dessa perspectiva é que não é de todo impensável, reflexão dos outros cientistas que se avaliam o progresso na nova
para os países periféricos com sólido governo democrático, uma ordem internacional e a justiça na "compra" do trabalho humano
política estratégica que se ancora no recurso à "reserva de merca- na sociedade pós-industrial.
do". O dilema hoje para países como o Brasil, cuja tradição aponta O livro de Jean-François Lyotard existe para que avaliemos até
para a dança com os países do Primeiro Mundo, pode pragmatica- que ponto é justo e verdadeiro o seguinte enunciado: "~
mente ser apresentado aos seus cidadãos da seguinte forma: (a) ou cpmQram cientistas, técnicos e a arelhos ara saber a verdade,
mas para aumentar o poder."
entramos no movimento do capital internacional enquanto nação e
passamos a ser pseudomodernos e eternos consumidores, vale ---
dizer, eternamente periféricos, (b) ou corremos o risco de inverter
as coisas, assumindo a possibilidade de um desenvolvimento da
pesquisa e da transmissão do saber numa espécie de redoma artifi-
cial, cujas leis de funcionamento sejam constantemente (insisto no
advérbio) avaliadas e modificadas, com vistas a uma melhor adap-
tabilidade do ar artificial da redoma ao meio ambiente avançado.
A primeira opção é a de mais fácil execução, pois depende
apenas da boa disposição privatizante do governo federal, auxilia-
do por eficiente campanha publicitária que mascara as perdas em
conquistas. O governo da nação age como mero árbitro (caso não
seja corrupto) no processo de rápida modernização pela injeção de
"aplicações do saber" vindas de fora sob a forma de mercadorias
acabadas ou semi-acabadas, dependendo do nível de saber
estrangeiro que se quer tomar público. A segunda opção não
depende apenas de um governo central e, por isso, é de execução
difícil e até quase impossível em país como o nosso no seu estágio
político atual.
Para que não seja mero arremedo de um nacionalismo ultra-
passado, lembraria os anos 50 cujo slogan era o "Yankee, go ho-
me", para que não se repita o modelo isebiano do período JK,
quando se favorecia apenas a grande empresa (particular ou do
Estado), para que seja rentável hoje, é preciso que da decisão par-
ticipe toda a sociedade, dando por terminadas duas dicotomias in-
temas que nos têm sido muito prejudiciais. A primeira se consolida
130 131
norte-americanos. Muito do que Lyotard
escreveu depois sobre o tema teve por
objetivo demarcar sua própria posição.
Ele nunca foi um apologeta da pós-
modernidade. P elo contrário, com o tem-
po, tornou-se um de seus mais furiosos
críticos, no campo das questões estéticas.
Em A condição pód-moderna, Lyotard
p retendeu expor, de maneira basicamen -
te descritiva, os prudupodto.J o6jetivoó que
permitiam falar de uma transformação
radical n a maneira como o saber é pro-
duzido, distribuído e principalmente le-
gitimado, nas áreas mais avançadas do
capitalismo contemporâneo. Daí a cen-
tralidade do termo condição. Um termo
filosoficamente nada ingênuo, que opera
umf!. fusão específica entre elementos d e
kantismo e de marxismo. Ly otard sem-
p re foi o mais eclético dos filósofos d e 68.
Mas o que emerge destas páginas semi-
nais, muito além dos criticismos kantiano
e marxista, é o ponto de v ista cético e
pragmático que acabou por dominar boa
parte do pensamento ocidental nos últi-
. mos anos. Em A con'diçtÍ.o pód-nwderna, tal
ponto d e vista se traduz na famosa tese
do frm das metanarrativas de legitimação
do saber e da política, q ue significa a per-
da de atração pelos ideais altissonantes
Este livro foi impresso pelo
da modernidade clássica. A versão lyotar-
Sistema Digital Instant Duplex
diana do pragmatismo contemporâneo,
da DIVISÃO GRÁFICA DA DISTRIBUIDORA REcoRo
Rua Argentina, 171 - Rio de Janeiro, RJ porém, nada tinha de conformista ou li-
para a beral. Ao propor o q ue chamou de uma
EDITORA JOSÉ ÜLYMPTO LTDA. agon&tica geraL dod di.Jcuróod, Lyotard per-
em dezembro de 2009 maneceu fiel a seu passado militan te, tan-
to neste qua nto em todos os seus livros.
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!talo Moriconi
78° aniversário desta Casa de livros, fundada em 29.11.193 1