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Ética e Deontologia em Educação Física e Desporto, 1º Ano, II


Semestre. 2019/2020. BENTO, Jorge Olimpo. (2008). Desporto. Discurso e
Substância. Porto: Campos de Letras: “Do princípio do fair play”, pp. 131-
135.
“O desporto é parte integrante da sociedade e, por isso, subordina-se ao sistema de normas e
valores nela, predominantes. Ou seja, aparentemente não há valores específicos do desporto,
diferentes dos valores vigentes no contexto social. Poderá então falar-se de uma ética e de uma
moral próprias do desporto? Poderá o fair play ser hoje o princípio moral mais importante do
desporto quando o não é da sociedade?

Como é sabido, o vocábulo fair é inglês. Fairs eram mercados realizados na Idade Média (Séc.
I-XV dC ou Séc. V-XVdC) em determinados dias festivos; assumiram um papel de relevo na
dinâmica da vida pública, a ponto de terem gerado uma ética de mercado. Esta convidava as
permutas a cultivar a franqueza e honradez e a renunciar à fraude como modo de obter
vantagens. Fair era, portanto, um mercado regido pelas bitolas da honestidade, lealdade,
cavalheirismo, rectidão, integridade, probidade, justiça e seriedade.

Aquele código ético serviu à burguesia para provar que o sucesso económico não ia contra a
honra, que era possível ligar as duas coisas, legitimando assim a sua ascensão. Com o posterior
aparecimento das competições desportivas – assentes nos parâmetros da medição e comparação
de rendimentos - surge um novo campo de afirmação daquele princípio: o mercado desportivo.
É assim que o conceito de fair play se incorpora no desporto do século XIX e lhe dita três
exigências:

• O jogador deve dar o seu melhor para ganhar, atendo-se porém ao cumprimento escrupuloso
das regras;

• O jogador deve ser desafiado a visar o mais alto rendimento, pelo que deve procurar também
o adversário mais difícil possível e forçar este a dar o melhor de si e a tentar vencer;

• O espectador deve ser imparcial.

Se atentarmos devidamente na evolução do desporto moderno e na sua profissionalização e


comercialização crescentes, torna-se evidente uma contradição entre a moral teórica ideal e a
moral viva e real. Mostrando que, como todas as regras morais, também a do fair play não é
imutável, por estar sujeita a condições sociais. Épocas diferentes conhecem interpretações
diferentes de um qualquer princípio. Pelo que aquela norma não pode ter o mesmo
entendimento do passado, nem o desporto de hoje pode ser visto sob essa perspectiva.

Mais ainda, se os valores do cenário desportivo surgem da sua interacção com a sociedade,
qual a razão para continuar a reclamar que o desporto seja um altar de celebração do princípio
do fair play? Porque é que tantos críticos exigem do desporto condutas conformes a esse
princípio, enquanto se mantêm calados em face da inobservância do mesmo noutros domínios?

Realmente, a vida quotidiana é farta em evidências de que o terreno é pouco propício para o
cultivo daquele mandamento. Emigrou para muito longe a preocupação de agir em
conformidade com a ética dos comerciantes dos fairs de outrora. A sociedade actual confunde-

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se até com um sistema amoral, dado que o primeiro plano é ocupado pela tentativa de impor
brutalmente a vantagem pessoal, em detrimento do interesse geral.

A título de exemplo, reparemos no paradoxo dos media. Zurzem o desporto pelo atropelo de
princípios éticos, quando são eles mesmos que os desrespeitam e ajudam a destruir. Na disputa
pelas quotas de vendas e audiências fogem do fair play como o Diabo da Cruz e não parecem
nada incomodados com isso. De facto, a comunicação social - particularmente a televisão -
influencia a mudança de normas e valores e está altamente implicada no decréscimo da
observância daquele princípio. Por isso é espantoso que neste enquadramento se faça
constantemente apelo a um desporto com certificado de pureza passado pelo fair play.

Mas... conseguirá o desporto sustentar-se como espaço moral livre das influências sociais?
Será capaz de manter a ilusão do fair play na vida? Poderá configurar uma reserva destinada a
garantir a sobrevivência de um axioma moral tão antigo? Será lícito sujeitar o desporto a um
tão pesado fardo de promessas e ilusões?

Não nos parece que o predomínio de interesses materiais na sociedade tolere um papel
significativo do fair play, nem que as duas coisas sejam conciliáveis. Este último saiu de cena e
encontra-se a praticar abstinência em todos os domínios sociais, em que a pressão do resultado,
do lucro e do sucesso assentou arraial e estabeleceu mecanismos, processos e leis para
consumar o seu objectivo.

Dispõe o desporto de autonomia para ser diferente? Consentirão os poderes e interesses em


voga, sobretudo na economia e nos media, que o desporto tenha como ideia basilar a do velho
espírito desportivo? Esmagado por tais interesses e pelos respectivos arautos e beneficiários o
desporto não tem forças para corresponder a esse tipo de exigências. A sua massificação
instrumentaliza-o para finalidades conjunturais, muitas vezes, inconfessas, com os objectivos
quantitativos a sobrelevarem os qualitativos. A primazia não vai mais para o fair play e outras
noções éticas.

Por isso, é estranho que ele seja alvo de tantas denúncias e exortações morais. Realmente,
anda por aí muito moralista que não se ou que toma todo o mundo por distraído. Os seus
protestos e declarações não passam de confissões de boca. Cumprem a tarefa de confundir os
incautos, mantendo em alta a cotação e o encobrimento de outros valores, melhor dizendo, anti-
valores. Quanta hipocrisia!”

Questões para discussão/ análise interpretativa:

1) Afinal, o que o espírito desportivo e a ética desportiva podem aprender com a “ética dos
comerciantes dos fairs” dos tempos medievais?
2) Do seu ponto de vista, é possível, atualmente, conciliar o desporto com o princípio de fair
play? Justifique com base em dois argumentos textuais ou pessoais.
3) Afirma o autor do texto que, na realidade desportiva atual, “a primazia não vai mais para o
fair play e outras noções éticas”. Concorda com esta situação de estado de coisas se ela for
verdadeira? Justifique.