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Universidade Estadual de Feira de Santana

Departamento de F´ısica

Curso de F´ısica

Tony Silva Almeida

Modelando Energia Escura com Fluidos Ex´oticos e Campos de Quintessˆencia

Feira de Santana-Ba

2009

Tony Silva Almeida

Modelando Energia Escura com Fluidos Ex´oticos e Campos de Quintessˆencia

Monografia apresentada ao Curso de F´ısica da UEFS, como requisito para a obten¸c˜ao parcial do grau de BACHAREL em F´ısica.

Orientador: Alexandre Manoel Morais de Carvalho

Feira de Santana-Ba

2009

Almeida, Tony Modelando Energia Escura com Fluidos Ex´oticos e Campos de Quintessˆencia / Tony Almeida - 2009

73.p

1.Cosmologia 2. Energia escura

I.T´ıtulo.

CDU xxx

Tony Silva Almeida

Modelando Energia Escura com Fluidos Ex´oticos e Campos de Quintessˆencia

Monografia apresentada ao Curso de F´ısica da UEFS, como requisito para a obten¸c˜ao parcial do grau de BACHAREL em F´ısica.

Aprovado em 9 de Mar¸co de 2009

BANCA EXAMINADORA

Alexandre Manoel Morais de Carvalho

Alexandre Leite Gadelha

Doutor em F´ısica

Carlos Alberto de Lima Ribeiro

Doutor em F´ısica

Resumo

At´e meados de 1998, acreditava-se que a taxa de expans˜ao do universo estivesse dimin- uindo ao longo do tempo, entretanto dados observacionais[3,4] mostraram que a taxa de expans˜ao do universo est´a aumentando de forma acelerada. Essa recente descoberta ac- erca da acelera¸c˜ao c´osmica mudou profundamente certos aspectos da cosmologia moderna. Este trabalho tem como objetivo fazer uma revis˜ao sobre os modelos que foram propostos desde ent˜ao para descrever o fenˆomeno observado. Entre os modelos tratados aqui h´a um consenso de atribuir tal efeito a` uma esp´ecie de energia escura. Energia Escura ´e uma forma hipot´etica de energia que preenche todo o universo, possuindo uma forte press˜ao negativa. O efeito dessa press˜ao negativa ´e an´alogo a uma for¸ca que age em larga escala em oposi¸c˜ao a` gravidade. A natureza da Energia Escura ´e um dos principais desafios da f´ısica contemporˆanea. Recentemente, foi introduzida na literatura uma s´erie de mecan- ismos e modelos para explicar as principais caracter´ısticas da Energia Escura. Entre os principais modelos utilizados para descrever a Energia Escura, destacam-se a constante cosmol´ogica, Campos de Quintessˆencia e fluidos de Quartessˆencia.

A inclus˜ao da constante cosmol´ogica nas equa¸c˜oes de campo de Einstein modi- fica a geometria do universo e tamb´em altera a energia de v´acuo do universo. Os campos de quintessˆencia associam um campo escalar `a energia escura cuja densidade varia no tempo

e no espa¸co muito lentamente, gerando assim press˜ao negativa. Os modelos de Quart-

essˆencia tem como caracter´ıstica utilizar fluidos para unificar o chamado setor escuro da cosmologia: mat´eria e energia escura. Desses modelos examinamos o g´as de Chaplygin, que possue uma equa¸c˜ao de estado ex´otica, onde defini-se a press˜ao como negativa; da´ı ´e poss´ıvel encontrar a express˜ao da densidade de tal g´as e verificar seu comportamento em pequenas e largas escalas.

Estudamos os modelos citados acima no contexto da cosmologia padr˜ao, ado-

tando os v´arios conceitos intr´ınsecos a` teoria da relatividade geral (TRG). Podemos citar

a pr´opria constante cosmol´ogica, que at´e tempos atr´as era carente de motiva¸c˜ao f´ısica dentro da TRG; temos a presen¸ca de campos escalares de Quintessˆencia que se acoplam minimamente a` curvatura, atrav´es do princ´ıpio de equivalˆencia; al´em do tratamento de fluidos perfeitos para descrever as fontes de campo gravitacional. Nesse contexto procu- ramos ressaltar e explorar as caracter´ısticas de cada modelo, explicitando como cada um gera os efeitos requeridos da energia escura e discutimos as propriedades que da´ı surgem.

Abstract

Until the middles of 1998, was believed that the rate expansion of the universe has been decreasing belong(thought) the time,however data observational [3][4] shown which that rate is increasing of form acceleread . This new discovery about the cosmic acceleration was changed deeply some aspects of modern cosmology. This work have the objective of to make a review about the models which was proposed since so to describe the phenomenon observed. Between the models analyzed here has a consensus of to atribute that effect to a specie of dark energy. Dark energy is a form hypothetical of energy which fill all the universe, having a strong negative pressure. The effect of this pressure is similar to

a

force which act on large scale in opposition to gravity. The nature of the dark energy

is

one of the principals challenge of the contemporary physics. Recently, was introduced

in literature a kind of mechanisms and models to explain the principals featuring of the

dark energy. Between the principals models used to describe the dark energy, we detach the cosmological constant, the Quintessence fields and fluids of Quartessence.

The inclusion of the cosmological constant in the Einstein’s equation of fields modify the geometry of the universe and too alter the energy of vacuum of the uni- verse. The quintessence fields associate a scalar field to dark energy whose density, in the time and in the space,change very slowly, making thus negative pressure. The models of Quartessence has how featuring use fluids to unify the namely dark sector of cosmology:

dark matter and energy. In this models we examine the Chaplygin Gas, which have a equation of state exotic, where is defined the negative pressure; there is possible to find the expression of the density of that gas and verify it’s behavior in small and large scale.

We study the models cite above in context of the standard cosmology, adopting the various concepts inherent to general theory of relativity (GTR). We can to cite the proper cosmological constant, which until back times was needed of physical motivation into of the GTR; we have the presence of scalar fields of quintessence with minimal coupling to curvature, through of the equivalence principle; beyond of the treatement of fluids to describe the fonts of gravitational fields. In this context we wanted to stand out and to explore the featuring of each model, expliciting how each one generate the effects request by the dark energy and we discuss the proprieties which there appear.

Agradecimentos

Gostaria de agradecer ao meu orientador Alexandre por aceitar a proposta

de enveredar por esses campos ’escuros’ da f´ısica. A introdu¸c˜ao em pesquisa cient´ıfica

´e sempre mais estimulante quando se estuda um assunto que al´em de lhe dar uma base

t´ecnica sobre uma ´area muito rica e profusa como a cosmologia, lhe possibilita estar diante de um dos maiores enigmas que os seres humanos se defrontam desde muito antes do inicio da contagem dos tempos: a vida, o universo e tudo o mais!

Assim meus agradecimentos se somam entre os que de alguma forma con- tribu´ıram para a compreens˜ao t´ecnica de alguns pontos desse trabalho [como b´oson,

a galera dos defeitos topol´ogicos(sodr´e, osvaldo, orˆea, j´ulio, ´erick,carlos A.),augusto e

e aqueles que nos sal˜oes de discuss˜ao(casa amarela, dona vanda, seu ray,

gadelha]

z´eburugudu,4esta¸c˜oes) contribu´ıram para a compreens˜ao de aspectos menos t´ecnicos e mais sutis como as` implica¸c˜oes da constru¸c˜ao de representa¸c˜oes para compreender o todo,

at´e o fim do universo

como a pataf´ısica vˆe isso tudo [que s˜ao fred,b´oson e palova, au-

gusto,jhone, sagu´ı, rodrig˜ao,black mouth,iracema,waldeck,tanaka,debora,thiago,quˆantica e `aqueles que o tempo e o espa¸co afastaram].

ou

Agrade¸co a` minha fam´ılia[o paj´e,o general, a minininha e a` v´eia].

Aos professores do DFIS.

mas n˜ao por menos, ao contribuinte baiano que financiou par-

cialmente por um bom tempo essa passagem por Feira de Santana atrav´es do Programa de Inicia¸c˜ao Cient´ıfica PROBIC-UEFS.

E por ultimo,´

O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no c´eu

Nada como o firmamento para trazer ao pensamento a certeza de que estou s´olido em toda ´area que ocupo. E a imensid˜ao a´erea ´e ter o espa¸co do firmamento no pensamento e acreditar em voar algum dia!

Chico Science

Sum´ario

Lista de Figuras

 

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1 Introdu¸c˜ao

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2 T´opicos de Relatividade

 

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2.1 Relatividade Especial

 

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2.1.1 Transforma¸c˜oes de Lorentz .

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2.1.2 Dinˆamica Relativ´ıstica

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2.2 Relatividade Geral

 

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2.2.1 Tensores

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2.2.2 Princ´ıpio da Equivalˆencia

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2.2.3 Princ´ıpio de Covariˆancia Geral .

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2.2.4 Deriva¸c˜ao das Equa¸c˜oes de Campo de Einstein .

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2.2.5 Momento e energia

 

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3 Cosmologia

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3.1 Princ´ıpio de Weyl

 

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3.2 M´etrica Robertson-Walker[12]

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3.2.1

Redshift Cosmol´ogico .

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3.3 Equa¸c˜oes do movimento

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3.3.1

Equa¸c˜ao das geod´esicas .

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3.4 Constante cosmol´ogica como candidata mais simples

 

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4 Quintessˆencia

 

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4.1 Campo Escalar

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4.1.1 Campo Escalar Minimamente Acoplado .

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4.1.2 Campo Escalar de Quintessˆencia

 

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4.2 Equa¸c˜oes de Einstein acopladas com Quintessˆencia

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5

Quartessˆencia

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5.1 G´as de Chaplygin .

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5.2 Deriva¸c˜ao do Potencial a partir do GC

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6

Conclus˜ao

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Referˆencias Bibliogr´aficas

 

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Lista de Figuras

2.1

Atribuindo coordenadas `a um ponto na variedade

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3.1

Superf´ıcies de tempo-pr´oprio e geod´esicas no substrato

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3.2

O mapa-pr´oprio e retrato-pr´oprio de um observador

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1 Introdu¸c˜ao

At´e o final do s´eculo XX, os cosm´ologos tinham uma descri¸c˜ao muito bem estabelecida

da hist´oria do Universo, desde a era do Big Bang com o dom´ınio da radia¸c˜ao at´e o

surgimento de estruturas em larga escala quando o universo se expande e resfria. Salvo

alguns problemas, como um tipo de mat´eria escura que devia ser introduzida para explicar

a dinˆamica de gal´axias e aglomerados de gal´axias[1]. Com o formalismo da Teoria da Re-

latividade Geral (TRG), que associa gravita¸c˜ao com efeitos de curvatura, combinado com

considera¸c˜oes muito importantes como homogeneidade e isotropia do universo, baseados

em resultados fenomenol´ogicos nos fornece um meio de determinar propriedades globais

do universo, como sua curvatura, atrav´es da contagem de mat´eria e energia existentes

nele.

Com a descoberta da radia¸c˜ao c´osmica de fundo em microondas (RCFM) foi

poss´ıvel verificar as previs˜oes feitas por Gamow, Alpher e Herman[2] sobre a existˆencia

da nucleoss´ıntese primordial onde os f´otons na ´epoca do Big bang teriam se resfriado

provendo assim uma radia¸c˜ao t´ermica de fundo em microondas que seria, e ´e, observada

no presente. A teoria explicava ainda a forma¸c˜ao dos elementos leves, a abundˆancia de

hidrogˆeneo H e h´elio He, a ausˆencia de elementos pesados em estrelas mais antigas,etc.

Nessa ´epoca, o universo com uma temperura em torno de 10 9 K era dominado

por radia¸c˜ao e os f´otons livres, os n´ucleons e el´etrons n˜ao tinham muito efeito sobre a sua

`

A medida que o cosmos se expandia

e se resfriava a densidade de energia da radia¸c˜ao diminuia numa taxa proporcional `a

ρ a 4 (t) onde a(t) ´e o fator de escala que mede de quanto o raio do universo aumenta

para um dado observador fundamental 1 . A densidade de energia diminui a` tal ponto

que acontece o desacoplamento entre radia¸c˜ao e mat´eria quando el´etrons e pr´otons pu-

deram interagir pela atra¸c˜ao coulombiana e emitir os f´otons que comp˜oem hoje a ultima´

dinˆamica al´em de torn´a-lo completamente opaco.

1 Basicamente ´e o referencial que observa o afastamento das gal´axias emtodas as dire¸c˜oes. No cap´ıtulo 3 definiremos mais detalhadamente o que vem a ser um observador fundamental

1

Introdu¸c˜ao

9

superf´ıcie de espalhamento, ou a RCFM, para da´ı ter inicio a produ¸c˜ao de hidrogˆenio. Com o passar do tempo foi poss´ıvel que a atra¸c˜ao gravitacional do g´as de hidrogˆeneo se tornasse relevante e come¸casse a` se aglomerar devido as pequenas flutua¸c˜oes da densidade e dessa forma favorecer `a forma¸c˜ao de estruturas atrav´es do colapso gravitacional, assim temos a forma¸c˜ao das primeiras gal´axias e estrelas[2].

Na sequˆencia o universo se torna dominado pela mat´eria e a atra¸c˜ao gravita- cional desta tende a` reduzir a velocidade inicial de expans˜ao. A evolu¸c˜ao temporal deste cen´ario ´e descrita, como no caso de dom´ınio da radia¸c˜ao, pela equa¸c˜ao de Friedmann, mas com uma equa¸c˜ao de estado diferente ser´a discutida no cap´ıtulo 3. Ela que mede a taxa de expans˜ao do universo em fun¸c˜ao da densidade de mat´eria e energia que dominam sua dinˆamica. Atrav´es dessa equa¸c˜ao ´e poss´ıvel verificar se

a densidade de energia ´e suficiente para curvar positivamente o universo e fazˆe-lo colapsar sobre si devido `a atra¸c˜ao gravitacional,

a densidade de energia ´e baixa para retardar a expans˜ao inicial e o universo tem curvatura negativa e se expande para sempre,ou

a densidade de energia ´e cr´ıtica e o cosmos tem mat´eria suficiente para torn´a-lo plano.

Atrav´es da Cosmologia Observacional no entanto a contagem de aglomerados estelares, fontes de raio-x, e outras fontes somados com dados da RCFM indicam que o universo ´e plano e que a densidade ´e cr´ıtica[2]. A mat´eria observav´el(bariˆonica) contribui com 4% do valor necess´ario para a densidade cr´ıtica, uma esp´ecie de mat´eria n˜ao luminosa contribui com mais de 25% 2 , portanto falta encontrar a outra componente que contribui com a maior parte da densidade cr´ıtica. Uma reavalia¸c˜ao dos m´etodos de contagem era o mais indicado a ser feito.

Esse era o panorˆama que os cosm´ologos tinham para a origem, dinˆamica e

2 Essa ´e a chamada mat´eria escura, que ´e designada por mat´eria escura bariˆonica(buracos-negros, an˜as marrons- basicamente mat´eria normal dificeis de detectar)e mat´eria escura fria (que seria composta por WIMP’s, weak interacting massive particles, e outras part´ıculas previstas pela Teoria quˆantica de Campos mas indetectadas at´e agora)

1

Introdu¸c˜ao

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evolu¸c˜ao do cosmos. Com o aprimoramento dos instrumentos e aperfei¸coamento na obten¸c˜ao de dados foi poss´ıvel que se observasse o universo em ´epocas cada vez mais remotas com a ajuda de velas padr˜ao 3 como supernovas do tipo 1a (SN1a).

De fato no final da d´ecada de 90 dois grupos de pesquisa (High-Z Team Super- novae[3] e Supernova Cosmology Project[4]) independentemente anunciaram a observa¸c˜ao de uma queda na luminosidade intr´ınseca de supernovas a uma distˆancia > 100Mpc, essa queda era em torno de 25-50% da taxa esperada[3,4], o que indicava que esses objetos estavam se afastando de n´os a` uma taxa acelerada, que a constante de Hubble era menor no passado recente do que hoje. A forte evidˆencia dessa acelera¸c˜ao guiou para uma re- vis˜ao da cosmologia f´ısica e astrof´ısica. Mas o que estaria promovendo essa acelera¸c˜ao, uma verdadeira repuls˜ao da mat´eria em larga escala? Evidentemente o universo tem um campo f´ısico que exerce um efeito gravitacional repulsivo que ´e maior que a atra¸c˜ao de toda a mat´eria no universo, essa nova componente era necess´aria para compor a maior parte da energia do universo, a chamada energia escura, caracterizada por uma press˜ao negativa, que ´e semelhante a` tens˜ao que surge num el´astico quando ´e esticado.

O que ´e essa nova componente? Quais seus constituintes? Uma profus˜ao de

id´eias surgiram desde ent˜ao para explicar (descrever) a energia escura e o objetivo desse presente trabalho ´e incorrer numa revis˜ao de alguns do principais modelos propostos fo- cando sempre na motiva¸c˜ao que levou `a sua ado¸c˜ao; diante de uma quantidade e qualidade de dados insuficientes para selecionar e excluir os diversos modelos focaremos as discuss˜oes quanto a` resolu¸c˜ao dos problemas cosmol´ogicos que surgem com a energia escura.

A primeira candidata a` energia escura ´e a constante cosmol´ogica Λ [1] de Ein-

stein, que introduz uma densidade de energia e press˜ao negativa no universo que s˜ao constantes no tempo e no espa¸co. A constante cosmol´ogica foi introduzida, inicialmente, para prover uma solu¸ca˜o est´atica para o Universo. Atualmente ´e interpretada como ener- gia do v´acuo associada a` estudos em teoria quˆantica de campos, no entanto o valor previsto ´e 120 ordens de grandeza maior[22] que o necess´ario para causar o efeito observado pela expans˜ao acelerada, al´em disso, existe o problema da coincidˆencia c´osmica, o porquˆe de s´o

3 objetos com comportamento regular e muito bem conhecido, para que seja poss´ıvel comparar diferen¸cas devido a distˆancia de n´os

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Introdu¸c˜ao

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agora podermos observar o fenˆomeno de acelera¸c˜ao da expans˜ao, quando as densidades de energia se igualam ; note que a densidade da componente da energia escura se iguala nesse momento do universo, com a densidade de energia da mat´eria, 10 29 kg/cm 3 [2]; o uni-

verso passa assim por outra transi¸c˜ao de fase, em que era dominado pela mat´eria(escura)

e passa a ser dominado pela energia escura.

Uma outra candidata aparece motivada pelos estudos da chamada ´epoca de infla¸c˜ao cosmol´ogica, em que o universo no seu in´ıcio teria sofrido uma r´apida expans˜ao(re- puls˜ao gravitacional) devido ao seu conte´udo inicial[5]. A partir desses trabalhos [6] , que introduziram a f´ısica de part´ıculas e campos na cosmologia, abriu-se a possibilidade da existˆencia de campos escalares no universo. Assim, teoria de campos e particulas nos oferece um meio atrav´es do qual podemos adotar a descri¸c˜ao de campos escalares “leves”, em escalas de baixas energias. Esses campos oscilam lentamente com o tempo e posi¸c˜ao [7], que est´a associado `a um potencial V (φ) que gera press˜ao negativa, tal campo

´e conhecido na literatura como Quintessˆencia. Aqui, temos uma componente de energia

escura dinˆamica e as equa¸c˜oes s˜ao alteradas por um acoplamento entre o campo escalar introduzido e o escalar de curvatura (aqui usaremos o acoplamento m´ınimo). Nesse modelo aparece o problema das condi¸c˜oes iniciais que influenciam como vemos o universo hoje, o fator de escala e consequentemente o tipo de potencial `a que tal campo est´a sujeito.Esses problemas s˜ao(parcialmente) resolvidos quando ´e introduzido os campos “rastreadores”, que s˜ao solu¸c˜oes tipo-atrator [8]que, independendo das cond. iniciais, tem a dinˆamica do campo ditada pela componente(radia¸c˜ao ou mat´eria) que domina o universo, uma esp´ecie de intera¸c˜ao.

Outro modelo muito explorado para a componente de energia escura ´e o chamado G´as de Chaplygin, que se encaixa nos modelos de quartessˆencia que tem como caracter´ıstica principal a unifica¸c˜ao do setor escuro da cosmologia(mat´eria e energia), da´ı

o nome quarter, j´a que n˜ao utiliza uma quinta componente para preencher o universo.

O g´as de Chaplygin[9] ´e um g´as ex´otico com press˜ao negativa que tem sido usado para descrever a transi¸c˜ao do per´ıodo de desacelera¸c˜ao da expans˜ao para a recente acelera¸c˜ao

observada atrav´es de um unico´ fluido que em escalas menores se aglomera gravitacional- mente em torno de gal´axias e aglomerados, mas que em escalas maiores, cosmol´ogicas,

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Introdu¸c˜ao

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tem a propriedade de se tornar repulsivo, caracter´ıstica presente na equa¸c˜ao de estado.

A Monografia est´a organizada como segue: no cap´ıtulo 2 ´e feita uma breve re-

vis˜ao de conceitos de relatividade especial e geral, focamos principalmente nos conceitos

e defini¸c˜oes que s˜ao utilizados diretamente nas dedu¸c˜oes das rela¸c˜oes e equa¸c˜oes e que esclarecem melhor os resultados. No cap´ıtulo 3, seguindo o mesmo objetivo do cap´ıtulo 2, introduzimos alguns conceitos de cosmologia para melhor situar a nossa discuss˜ao nessa area´ e deduzimos a m´etrica de Robertson-Walker por achar que essa dedu¸c˜ao explicita ca- racter´ısticas como o redshift cosmol´ogico observado. No cap´ıtulo 4 descrevemos o modelo de quintessˆencia definindo inicialmente campos escalares. Depois atribuimos certas carac- ter´ısticas como a presen¸ca de tal campo na presen¸ca de gravidade e o configuramos como campo de quintessˆencia acoplado a` curvatura minimamente. No cap´ıtulo 5, descrevemos

o modelo de Quartessˆencia do G´as de Chaplygin discutindo, inicialmente, algumas ca-

racter´ısticas desse fluido quanto a` sua equa¸c˜ao de movimeto pr´opria e depois quanto a` sua aplica¸c˜ao na cosmologia e como pode-se derivar um campo escalar de quintessˆencia e

seu potencial de tal fluido. Por fim, no cap´ıtulo 6 discutimos a rela¸c˜ao entre os modelos comparando-os e conclu´ımos com os resultados obtidos.

13

2 T´opicos de Relatividade

Apesar de que os f´ısicos tenham conhecimento de quatro tipo de intera¸c˜oes fundamen- tais (a saber, eletromagn´etica,nuclear forte, nuclear fraca, e gravitacional), em escalas cosmol´ogicas (> 100Megaparsec) podemos desconsiderar as for¸cas nucleares que s˜ao de curto alcance e o eletromagnetismo devido ao equil´ıbrio de cargas el´etricas em gal´axias e aglomerados. Portanto a Gravita¸c˜ao ´e a intera¸c˜ao mais relevante na Cosmologia[2]. A Cosmologia te´orica tem como alicerce principal a Teoria da Relatividade Geral(TRG), que

descreve a intera¸c˜ao gravitacional como manifesta¸c˜ao da geometria do espa¸co (ou espa¸co- tempo, j´a que uma vers˜ao restrita a` obs. inerciais, dessa mesma teoria, unifica o conceito

de espa¸co e tempo).Portanto ´e instrutivo rever os principais conceitos e resultados dessa

teoria que s˜ao de interesse para o entendimento e discuss˜ao do objetivo desse trabalho.

2.1 Relatividade Especial

Faremos aqui uma breve incurss˜ao pela Relatividade especial, para definir as trans- forma¸c˜oes locais poss´ıveis (em cada ponto do espa¸co curvo devido `a gravidade) a` sistemas

de referˆencia momentaneamente inerciais 1 [10], e os efeitos cinem´aticos e dinˆamicos ob-

servados em tais sistemas , assim como grandezas que s˜ao invariantes, independente do estado de movimento do referencial, ou seja, independente do sistema de coordenadas que

escolhamos para medir tais grandezas.

2.1.1 Transforma¸c˜oes de Lorentz

A transforma¸c˜ao de Lorentz (T.L.) ´e o conjunto de equa¸c˜oes que estabelece a rela¸c˜ao

entre as medidas de tempo e espa¸co de dois referenciais inerciais, x(x ) e x (x), que se

1 Uma part´ıcula acelerada n˜ao tem um referencial inercial em que esteja sempre em repouso.Entretando, existe um referencial inercial que momentaneamente tem a mesma velocidade da part´ıcula, mas que num instante depois n˜ao est´a mais se movendo(c´omovel) com ela. Esse referencial ´e o sistema de referˆencia momentaneamente c´o-movel(SRMC)

2.1

Relatividade Especial

14

movem com velocidade relativa v, consequentemente as T.L. transformam tamb´em as

componentes dos quadrivetores definidos nesses referenciais. Assumindo que as equa¸c˜oes

de transforma¸c˜ao preservam a homogeneidade do espa¸co ( todos os pontos do espa¸co

e do tempo s˜ao equivalentes), dever˜ao ser transforma¸c˜oes lineares. Com o aux´ılio dos

postulados da RR,

Postulado de Relatividade: todas as leis da f`ısica s˜ao as mesmas para um observador

que se move com velocidade uniforme como para um que permanece em repouso[11],

Velocidade da Luz:a velocidade da luz tem um valor particular e fixo, c. Por isso,

segue do princ´ıpio de relatividade que todo observador que me¸ca a velocidade da

luz obter´a o mesmo valor[11],

´e poss´ıvel encontrar a transforma¸c˜ao, que se escreve

com o fator de Lorentz

x

y

z

t

γ =

=

=

=

=

γ(x vt)

y

z

γ(t v 2 x)

c

1

1 v 2

c

2

.

(2.1)

Usando essas transforma¸c˜oes entre dois referenciais inerciais que se movem

ao longo da dire¸c˜ao x, observar-se-a efeitos de contra¸c˜ao dos comprimentos na dire¸c˜ao

do movimento e dilata¸c˜ao do tempo para o referencial que se move com velocidade v,

ambiguidade na defini¸c˜ao de simultaneidade 2 pois a informa¸c˜ao sobre eventos que ocorram

no espa¸co-tempo estar˜ao limitados pela velocidade da luz . Apesar do car´ater relativo

que h´a entre as medidas de dois observadores inerciais, na relatividade especial existe

quantidades que s˜ao invariantes sob transforma¸c˜oes de referencias, por exemplo a distˆancia

2 dois eventos que s˜ao simultˆaneos com respeito `a um sistema de referˆencia n˜ao s˜ao em geral simultˆaneos para um outro referencial

2.1

Relatividade Especial

15

entre dois eventos no referencial S

ds 2 = c 2 dt 2 dx 2 dy 2 dz 2 ,

´e igual `a distˆancia medida pelo refenrencial S ,

ds 2 = c 2 dt 2 dx 2 dy 2 dz 2 ,

ou seja

ds 2 = ds 2 .

(2.2)

(2.3)

(2.4)

A partir daqui faremos uso da nota¸c˜ao indicial e da conven¸c˜ao de soma de

Einstein 3 para simplifica¸c˜ao, assim a equa¸c˜ao (2.2) ser´a escrita na forma

ds 2 =

µ

ν

η µν dx µ dx ν = η µν dx µ dx ν ,

(2.5)

onde µ, ν = 0, 1, 2, 3 e x 0 = ct, x 1 = x, x 2 = y, x 3 = z e temos

η µν =

1

0

0

0

0

1

0

0

0

0

1

0

0

0

0

1

,

(2.6)

que ´e a m´etrica do espa¸co-tempo de Minkowski com assinatura pseudo-euclidiana (+, , , ).

Seus elementos s˜ao chamados componentes do tensor m´etrico[12].

As transforma¸c˜oes de Lorentz nessa nota¸c˜ao se escreve

onde

Λ µ ν =

x µ = Λ µ ν x ν ,

γ

0

0

γ

0

0

0

0

1

0

0

0

0

1

 

(2.7)

,

(2.8)

3 ´ındices repetidos num mesmo termo indicam uma soma sobre esses ´ındices , portanto omite-se o sinal de soma

2.1

Relatividade Especial

16

´e a matriz de transforma¸c˜ao.

Um intervalo ∆s 2 = c 2 t 2 x 2 y 2 z 2 entre dois eventos ´e dito do

tipo-tempo se a parte temporal ´e maior do que a parte espacial (∆s 2 > 0), e do tipo-

espa¸co se a parte espacial ´e maior que a temporal (∆s 2 < 0). Se ∆s 2 = 0 o intervalo ´e

dito tipo-luz. Essa classifica¸c˜ao ´e absoluta, v´alida em todos referenciais, pois ∆s 2 ´e um

escalar[12].

2.1.2 Dinˆamica Relativ´ıstica

As leis que regem a dinˆamica de pontos materiais na Relatividade Restrita mantˆem seu

car´ater covariante, como exigido pelo primeiro postulado, desde que n˜ao mais falemos de

a¸c˜ao `a distˆancia. Assim podemos derivar as leis de conserva¸c˜ao das trˆes componentes do

vetor momento linear p e da energia E, no entanto o resultado que surge ´e a unifica¸c˜ao

dessas quantidades numa unica:´ o quadrivetor momento-energia que tem suas compo-

nentes dadas por

p α = mU α ,

(2.9)

onde m ´e a massa relativ´ıstica e U α ´e a quadrivelocidade c 2 , u x , u y , u z e temos

p 0

p

x

p

p

y

z

=

=

=

=

m 0 c 2

E =

1 u 2 m 0 u x

c

2

1 m 0 u y

u

2

c

2

1 m 0 u z

u

2

c

2

1 u 2

c

2

,

,

,

,

m 0 ´e a massa de repouso (massa pr´opria) e u 2 = u 2 x + u 2 y + u 2 z . Expandindo a energia

E para o limite de baixas velocidades u << c temos

E

= m 0 c 2 + 1 2 m 0 u 2 + 3

8 m 0

u

4

c 2

+

.

.

.

.

(2.10)

O primeiro termo ´e a energia de repouso, o segundo ´e a energia cin´etica cl´ass´ıca e os

termos seguintes s˜ao corre¸c˜oes relativ´ıstica `a express˜ao cl´assica.

2.2

Relatividade Geral

17

Um importante resultado ´e o que relaciona a energia da part´ıcula com o seu

momento linear, a saber:

E = p 2 c 2 + m o c 4

(2.11)

Uma outra caracter´ıstica da mecˆanica relativ´ıstica n˜ao partilhada pela mecˆanica

cl´assica ´e a possibilidade da existˆencia de part´ıculas com massa de repouso zero (f´otons e

gr´avitons). Fazendo m 0 = 0 na express˜ao acima temos

E =| p

| c

(2.12)

que ´e a conex˜ao relativ´ıstica entre E e p para part´ıculas de massa zero. Uma caracter´ıstica

fundamental das part´ıculas de massa nula ´e que, em m´odulo, sua velocidade ´e sempre c

em qualquer referencial inercial[12].

2.2 Relatividade Geral

2.2.1

Tensores

Para trabalhar com a Teoria da relatividade Geral precisamos do formalismo tensorial,

que al´em de possibilitar escrever as equa¸c˜oes de uma forma compacta, a sua linguagem

revela da estrutura das equa¸c˜oes um comportamento covariante 4 .

Variedades

Inicialmente consideraremos tensores definidos em n dimens˜oes. Um tensor ´e um objeto

definido em um espa¸co geom´etrico chamado variedade. N˜ao definiremos variedade de uma

forma matematicamente precisa pois envolveria muitos conceitos da topologia. Podemos

dizer, no entanto, de um ponto de vista intuitivo, que uma variedade M ´e alguma coisa

que localmente se reduz a` um espa¸co euclidiano n-dimensional R n [12]. Com isso queremos

dizer que na vizinhan¸ca (fig.2.1) de um ponto p em M existe um conjunto aberto 5 U e

4 Os resultados desta se¸c˜ao foram retirados do livro do D’inverno,[12] 5 Um conjunto S de pontos do R n ´e dito aberto se todo ponto x em S tem uma vizinhan¸ca inteiramente

contida em S. Claramente conjunto discretos n˜ao s˜ao abertos

2.2

Relatividade Geral

18

uma fun¸c˜ao φ de U que associa ao ponto P coordenadas x i = x 1 , x 2 , aberto em R n .

x i = x 1 , x 2 , aberto em R n . , x

, x n num conjunto

Figura 2.1: Atribuindo coordenadas a` um ponto na variedade

Na variedade estamos preocupados com pontos e subconjuntos de pontos que definem curvas e superf´ıcies de diferentes dimens˜oes. Devemos definir essas curvas em termos de parˆametros, por exemplo, uma curva, que tem somente um grau de liberdade

e depende de um parˆametro ´e definida em termos das equa¸c˜oes param´etricas

x i = x i (u),

(i = 1, 2,

, n),

(2.13)

onde u ´e o parˆametro e x 1 , x 2 ,

superf´ıcie de m-dimens˜oes (m < n) tem m graus de liberdade e depende de m parˆametros

e ´e dada pelas equa¸c˜oes param´etricas

, x n s˜ao n fun¸coes de u. Similarmente, um subspa¸co ou

x i = x i (u 1 , u 2 ,

, u M ),

(i = 1, 2,

, n),

(2.14)

Se, em particular, m = n 1 o subespa¸co e dito hipersuperf´ıcie. Nesse caso

x i = x i (u 1 , u 2 ,

, u n1 ),

(i = 1, 2,

, n),

(2.15)

e n 1 parˆametros podem ser eliminados dessas n equa¸c˜oes para gerar uma fun¸c˜ao conectando as coordenadas,

f(x 1 , x 2 ,

, x n ) = 0,

(i = 1, 2,

, n),

(2.16)

2.2

Relatividade Geral

19

Transforma¸c˜ao de coordenadas

A abordagem que adotaremos ´e a mesma seguida por D’inverno[12] que ´e definir uma

quantidade geom´etrica em termos de suas propriedades de transforma¸c˜ao sob uma trans-

forma¸c˜ao de coordenadas x a x a dada por n equa¸c˜oes

x i = f i (x 1 , x 2 ,

, x N ),

(i = 1, 2,

, N )

(2.17)

onde as f s s˜ao fun¸c˜oes continuas e diferenci´aveis. Ou mais compactamente

x i = x i (x),

(i = 1, 2,

, N )

(2.18)

onde os x i denotam as n fun¸c˜oes f i . Diferenciando (2.18) com respeito `a cada uma das

coordenadas x j temos

dx i = x i

x j dx j

(2.19)

que gera a matriz de transforma¸c˜ao n × n com os coeficientes

∂x i ∂x j

=

∂x 1 ∂x 1

∂x 2 ∂x 1

.

.

.

∂x n ∂x 1

∂x 1 ∂x 2

∂x 2 ∂x 2

.

∂x n ∂x 2

.

·

·

.

·

.

∂x 1 ∂x n

∂x 2 ∂x n

.

∂x n ∂x n

(2.20)

O determinante J dessa matriz ´e chamado o jacobiano da transforma¸c˜ao

J =

∂x i ∂x j

(2.21)

que assumimos ser diferente de zero para algum x j . Pelo teorema da fun¸c˜ao inversa pode-

mos, em princ´ıpio, resolver a equa¸c˜ao (2.18) para as coordenadas x j e obter as equa¸c˜oes

de transforma¸c˜ao inversa

x j = x j (x ),

(j = 1, 2,

, N ).

(2.22)

Se definimos o jacobiano da transforma¸c˜ao inversa por

ent˜ao J =

1

J .

J =

∂x j ∂x i

(2.23)

2.2

Relatividade Geral

20

Definimos ainda o delta de Kronecker

δ i j =

1

0

se i = j;

se i

= j

(2.24)

Uma propriedade do delta de Kronecker ´e que δ

express˜ao, o unico´

i k A i = A k , pois no lado esquerdo dessa

termo n˜ao nulo da soma ´e aquele para o qual k = i. Tamb´em temos

∂x k

∂x i

= δ

i k porque as coordenadas x r s˜ao independentes 6 .

Faremos agora uma breve sequˆencia de defini¸c˜oes que constituem a ´algebra

tensorial, e como j´a foi dito, ser˜ao focados nas propriedades de transforma¸c˜ao das quan-

tidades.

Um conjunto de N fun¸c˜oes A i das N coordenadas x i ´e chamado de componentes

de um vetor contravariante se elas se transformam de acordo com a equa¸c˜ao

A i = x i

x j A j ,

(2.25)

quando se faz uma mudan¸ca das coordenadas x i para x i .

Um conjunto de N fun¸c˜oes A i das N coordenadas x i ´e chamado de componentes

de um vetor covariante se elas se transformam segundo a equa¸c˜ao

A

i = ∂x ∂x

j

i A j ,

(2.26)

quando se faz uma mudan¸ca das coordenadas x i para x i . Quaisquer N fun¸c˜oes podem

ser escolhidas como as componentes de um vetor covariante no sistema de coordenadas x i

e (2.26) define as N componentes no novo sistema x i .

Qualquer fun¸c˜ao φ das N coordenadas x i ´e chamada um invariante ou um

escalar com respeito a` transforma¸c˜ao de coordenadas se φ = φ, onde φ ´e o valor de φ no

sistema x i .

Com as componentes A i e B i de um vetor contravariante e um covariante

podemos formar a soma A i B i . Quando mudamos pera outro sistema de coordenadas x i ,

a quantidade A i B i transforma-se em A i B

i

A i B

i =

∂x i A j ∂x

∂x j

k

x i B k = δ

j

k

A j B k = A j B j ,

6 Outras duas propriedades importantes s˜ao: δ

i

i

= N e

∂x k ∂x i

∂x i ∂x j

= δ

k

i

.

(2.27)

2.2

Relatividade Geral

21

ou A i B

i = A i B i e A i B i ´e um invariante.

N 2 quantidades A ij formam as componentes de um tensor 7 contravariante de

segunda ordem se elas se transformam como

A ij = x i

∂x k

j

∂x x l A kl .

(2.28)

Da mesma maneira, N 2 fun¸c˜oes A ij formam as componentes de um tensor

covariante de segunda ordem se elas se transformam como

A

ij = x k

∂x i

∂x

l

x j A kl .

(2.29)

Se tivermos N 2 fun¸c˜oes A i j , cuja lei de transforma¸c˜ao ´e

A i j =

x i

∂x

l

j A

∂x k ∂x

k

l

,

(2.30)

chamamos A i j de as componentes de um tensor misto de segunda ordem. Ele se transforma

contravariantemente com respeito ao ´ındice i e covariantemente com respeito ao ´ındice j.

s p das N coordenadas x i s˜ao as compo-

nentes de um tensor misto de ordem (s + p), contravariante de ordem s e covariante de

ordem p, se elas se transformam de acordo com a lei de transforma¸c˜ao

Um conjunto de N s+p fun¸c˜oes A t 1 t 2

q 1 q 2

t

q

A

u 1 u 2 r 1 r 2

r

u

p

s

= ∂x u 1 ∂x t 1

··· x ∂x t u s s

∂x q 1 ∂x r

1 ··· x q p

∂x r p

A t 1 t 2 q 1 q 2

t

s

q

p

(2.31)

na mudan¸ca do sistema de coordenadas x i para x i .

Se dois ´ındices, contravariantes ou covariantes, puderem ser permutados sem

alterar o tensor, ele ´e dito ser sim´etrico com rela¸c˜ao a esses ´ındices:

A ij = A ji ;

A ij = A ji .

Se ao trocarmos dois ´ındices, contravariantes ou covariantes, mudamos o sinal

do tensor, ele ´e dito ser antisim´etrico com respeito a esses ´ındices:

A ij = A ji ;

7 A partir de agora usaremos o termo tensor que ´e mais geral. Vetores contravariantes e covariantes s˜ao tensores de primeira ordem .

2.2

Relatividade Geral

22

A ij = A ji .

Simetria e antisimetria s˜ao propriedades que independem do sistema de coor-

denadas, ou seja, se um tensor ´e sim´etrico ou antisim´etrico com respeito a dois ´ındices

em um sistema de coordenadas, ele o ser´a em todos os outros sistemas de coordenadas.

Al´em disso, se as componentes de um tensor s˜ao identicamente nulas em um

sistema de coordenadas, elas tamb´em ser˜ao nulas em todos os sistemas de coordenadas.

Essas propriedades s˜ao de fundamental import˜ancia para a aplica¸c˜ao do c´alculo tensorial

a` f´ısica pois elas oferecem um meio de se obter leis de covariˆancia geral.

Uma combina¸c˜ao linear de tensores de mesmo tipo cujos coeficientes s˜ao in-

variantes, forma um tensor de mesmo tipo. De dois tensores A

o

s˜ao a soma e a diferen¸ca respectivamente dos tensores A

jk e B jk , podemos formar

jk +B jk e A jk B

i

i

i

i

jk

i

i

tensor αA jk +βB jk o qual satisfaz(2.31), sendo α e β invariantes. A

jk e B

i

i

jk .

i

i

Para mostra a propriedade de contra¸c˜ao consideremos o tensor misto A ij

lmn ,

fa¸camos a soma A ij lmj , de

A ∂x s

=

∂x r

∂x l

∂x

∂x m ∂x

m

n

sr

pqr

sr

pqr

r A ij

∂x i

∂x j ∂x p ∂x q ∂x

∂x l

lmn ,

A ∂x s

=

∂x q A ij lmj .

∂x i ∂x p

e

E A lmj ij ´e um tensor misto contravariante de primeira ordem e covariante de

segunda ordem. Este processo ´e chamado de contra¸c˜ao e por meio dele obtemos um tensor

de ordem r 2 de um tensor de ordem r.

Em an´alise vetorial, um vetor fixo est´a associado com um vetor no ponto,

dessa forma um campo vetorial definido sobre uma regi˜ao ´e uma associa¸c˜ao de um vetor

a` cada ponto da regi˜ao. Seguindo esse caminho, um tensor ´e um conjunto de quantidades

associadas `a um ponto na variedade. Um campo tensorial definido em uma regi˜ao da

variedade ´e uma associa¸c˜ao de um tensor de mesma valˆencia, ou ordem, a cada ponto da

regi˜ao, ou seja

onde T a

P

−→ T a b

(2.32)

b ´e o valor do tensor em P . O campo tensorial ´e dito cont´ınuo ou diferenci´avel

2.2

Relatividade Geral

23

se suas componentes em todos sistemas de coordenadas s˜ao fun¸c˜oes cont´ınuas ou dife-

renci´aveis das coordenadas. O campo tensorial ´e dito suave se suas componentes s˜ao

diferenci´aveis em todas as ordens, ou seja, as componentes s˜ao de classe C Com essas

defini¸c˜oes feitas acima podemos desenvolver a an´alise tensorial que ser´a muito utilizada

em nossas dedu¸c˜oes.

Defini¸c˜oes adicionais

Uma quantidade muito utilizada ´e a densidade tensorial T a

um tensor exceto pela potˆencia W do jacobiano

que aparece como um fator

T a

b

=

J = |

∂x

∂x b |

a

J W x a

x c

d

∂x

x b T c

d

b que se transforma como

(2.33)

Com alguma modifica¸c˜oes podemos combinar densidades tensoriais da mesma

forma que tensores. Exceto que o produto de duas densidades tensoriais de peso W 1 e W 2

ser´a uma densidade tensorial de peso W 1 + W 2 [12]

Um campo vetorial B a ´e uma fun¸c˜ao vetorial da posi¸c˜ao definida sobre uma

regi˜ao da variedade que se transforma de acordo com (2.26) em cada ponto x b em que ele

est´a definido. Se B a ´e uma fun¸c˜ao diferenci´avel de x b , sua derivada se transforma como

∂B ∂x c

a

=

∂x b

∂x d ∂B b

2

x c x a B b .

b

∂x a ∂x c ∂x d

∂x

+

(2.34)

O

a presen¸ca do segundo termo retira esse car´ater. A segunda derivada ´e em geral diferente

de zero e indica que os coeficientes da transforma¸c˜ao variam com a posi¸c˜ao na variedade.

primeiro termo do lado direito ´e a forma necess´aria para fazer B c ser um tensor, mas

a

∂x

Quando procuramos construir a derivada B c , temos que defini-la como um limite:

a

∂x

∂B

a

=

∂x c

lim

δx c 0

B a (x b + δx b ) B a (x b )

δx c

.

(2.35)

Podemos ver que os dois termos no numerador se transformam como vetores em dois

pontos diferentes e, por causa da varia¸c˜ao dos coeficientes com a posi¸c˜ao, a diferen¸ca

2.2

Relatividade Geral

24

entre eles n˜ao deve ser um vetor( a diferen¸ca de dois vetores ´e um vetor, desde que ambos

estejam definidos no mesmo ponto). Para descrever a mudan¸ca gerada no vetor que vai

de um ponto a` outro devemos medir a diferen¸ca no mesmo ponto. Fazemos isso com o

chamado transporte paralelo, que ´e o efeito de mover B a (x b ) de um ponto a` outro, paralelo

a` si,isto ´e, como se sua magnitude e dire¸c˜ao n˜ao variasse, e em seguida compar´a-lo com

B a (x b + δx b ) . Como a mudan¸ca nas componentes de B a atrav´es do transporte paralelo

ser´a proporcional as` componentes originais e tamb´em ao deslocamento δx b na posi¸c˜ao para

ir de um ponto ao outro (dependˆencia com a trajet´oria), podemos expressar tal mudan¸ca

como uma fun¸c˜ao linear de ambas essas quantidades e a forma mais geral que podemos

ter ´e

δB a = Γ c ad B c δx d ,

(2.36)

onde os coeficientes s˜ao, em geral, fun¸c˜ao das coordenadas. Essas quantidades s˜ao chamadas

s´ımbolos de Christoffel. Enquanto a m´etrica nos diz como medir distˆancias entre pontos

vizinhos, a defini¸c˜ao acima nos diz como definir vetores paralelos em pontos vizinhos. Essa

propriedade de conectar vetores vizinhos define o conceito de paralelismo local chamado

conex˜ao afim . Podemos, de acordo com o que foi exposto, redefinir o segnificado f´ısico de

derivada de um vetor escrevendo

b B a = B ∂x b a

Γ c ab B c ,

(2.37)

essa derivada deve, por defini¸c˜ao, se transformar como um tensor. E ´e chamada derivada

covariante. Os coeficientes se transformam de acordo com a seguinte lei

∂x e ∂x f

Γ a bc = ∂x a

Γ d ef