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DESCARTES

MEDITAÇOES
INI

SOBRE
FILOSOFIA PRIMEIRA

FAUSTO CASTILHO
Tradução e Nota Prévia

Edição bilíngüe

Texto em Latim e em Português

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PuBL1cAçÃo Do cENTRo DE ESTUDQ DA HISTÓRIA DA
F1Losor=1A MDDERNA E CDNTEMPDRANEA - IFCH-UNICAMP
' `i Nota Prévia ......................................................... ..
Primeira Meditação ...............................................
Diretor do IFCH: Paulo Miceli
Diretor Associado do IFCH: Rubem Murilo Leão Rêgo Segunda Meditação ..............................................
nv

mretor do CEMODECON: Fausto Castuho Terceira Meditaçao ............................................. ..


Diretor-Adjunto do CEMODECON: Luiz B.L. Oriandi Quarta Medüação ....... ' '
Secretário do CEMODECON: Luiz Roberto Monzani
Quinta Meditação ................................................ ..

Edüoração/projeta Gráfico: Marüza A_ Süva Sexta Meditação ...................................................


Apêndice
Impressão: 'Gráfica do IFCH - Sebastião Rovaris, Marcos J. Pereira,
Luiz Antonio dos Santos, Marcilio Cesar Carvalho - José Carlos Diana Epístola ......................................................
e |-e0fl'C¡fla M- Segafltlflí Prefácio Dirigido ao Leitor ...........................
Publicações: Marilza A. Silva, Magali Mendes e Maria das Graças Do Editor parao Leitor _____________________________ _,
Nmeida Sinopse das Seis Meditações que Seguem

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Nom PRÉVIA

Publicado em 1904 no sétimo volume da edição Adam e Tannery das Obras


de Descartes' - cujo curador foi Charles Adam, - o original das Med/'tar/'ones de
Prima Phr'/osoph/a apresenta-se sob uma como que dúplice condição. Em primeiro
lugar, é o texto de base das edições de algum significado acadêmico que da obra
posteriormente se fizeram. Mas, por outro lado, constitui ainda o caso talvez único
de um'original em duas edições.
É fácil, pois, entender que indagação pela me/hor fonte se tenha incisiva-
mente reproposto no decênio de 1980. A bem dizer, já em meados dos anos de
1970, Giovanni Crapulli, - cuja edição critica das “Regulae” (1966) influira de tal
modo no curso dos estudos cartesianos que não é possivel dissociá-la, por exem-
plo, das “Règles Utiles et Claires selon le Lexique Cartésien et Annotation Con-
ceptuelle, avec Notes Mathématiques de Pierre Costabel", editadas por Jean-Luc
Marion? - Crapulli iniciou um estudo comparativo do texto latino em suas duas edi-
ções, a de 1641 (Paris) e a de 1642 (Amesterdão). Realizou-se esse estudo sobre

1 Oeuvres de Descartes, publiées par Charles Adam et Paul Tannery, 11, Nouvelle presenta-
tion, en co- édition avec le Centre National de la Recherche Scientifique, Paris, Vrin, 1964-
1974. Exemplo de referência: AT, Vll, 1 (isto é, edição Adam-Tannery, sétimo volume, pri-
meiro capitulo)
2 René Descartes, Regulae ad direclionem lngenii, texte critique établi par Giovanni Crapulli
avec la version hollandaise du Xvlème siècle, Martinus Nijhoff, La Haye, 1966; René Des-
cartes, Règles Uliles el Claires pour la Direction de l'Esprit en la Recherche de la Verité, par
J-Luc Marion, Martinus Nijhoff, The Hage, 1977.

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Fausto Castilho Nota pr-évizz

um protocolo de dezessete exemplares da lê e vinte e dois exemplares da 2ë edição Mas, Alquié afirma que as “correções e adições” feitas no Apêndice constituem um
e pretendia reunir “notas para uma nova edição critica” do original. Dele resultou um desmentido, ao menos parcial, daquela precedência.
primeiro inventário das variantes entre ambas as versões da obra.3 De outra pane, no entanto, estão as conseqüências que dessa laboriosa co-
Em 1983, Ferdinand Alquié, no estudo que precede o texto latino da obra, no lação poderiam ser tiradas para o novo estabelecimento de texto. Alquié afirma que
tomo ll das “Oeuvres Philosophiques” de Descartes por ele publicadas, propõe um a primazia dada à segunda edição deriva de certas suposições, como, por exemplo,
novo estabelecimento de texto, a partir do cotejo sistemático das duas edições. que Descartes, residindo na Holanda, não pôde rever as provas da lê edição, ao
“Jusqu'ici”, diz, “auclune comparaison sérieuse des deux textes n'avait été falte”. É, passo que não é apenas verossímil que tenha revisto as provas da 28. edição, feita
desde logo, manifesto que Alquié considera insuficiente o registro das diferenças em Amesterdão, mas pode ter utilizado ainda um manuscrito retocado ou mesmo
entre ambas as edições feito em AT, VII.” Nous avons donc repris la question, et novo. Na falta de uma séria comparação dos textos, tais asserções de AT são, no
comparé tous les exemplaires des originales que nous avons pu découvrir”'.4 Nós, parecer de Alquié, “imprecisas e mesmo inexatas”.
isto é, Alquié, auxiliado por Gouhier, na França e por Leslie Beck, na Inglaterra. Este desenvolve, em conseqüência, a extensa argumentação que passamos
Nada infomia, porém, nesse estudo, acerca da dimensão da amostra utilizada por a resumir. Os exemplares da 18. edição consultados por ele e seus colegas não
Ê ele e seus colegas. contêm os erros e omissões apontados por AT, embora contenham outros não assi-
Na importante tarefa que se propõem é indispensável distinguir, todavia, dois nalados por AT. Por outro lado, apesar de privilegiar a edição de 42, AT não avisa o
aspectos. De uma parte, estão as muitas e minuciosas considerações de critica ao leitor dos pontos em que dela se afasta. É bem verdade que chama a atenção no
procedimento pelo qual AT estabelece o seu texto. Elas decorrem, fundamental- Apêndice para os erros da 1-Ê que teriam sido corrigidos “numa segunda tiragem”.
mente, do exame comparativo da “Advertência” (AT, VII, págs. V-XVIII) e do “Apên- Ora, acrescenta Alquié, esse descobrimento inesperado de duas tiragens da edição
dice” (ibidem, págs. 605-612). Na Advertência, o curador do volume enuncia os de 41 é um fato novo, tardio e de tal relevância que seria capaz por si só de invalidar
pressupostos que justificam a precedência que atribui ao texto da edição de 1642. as teses postas na Advertência (cf. pág. 172). Além de que, o Apêndice descobre na
edição de 41 outros erros que, estes ali efetivamente se encontram, embora não
3 Giovanni Crapulli, La rédaction et les projets d'édition des “Meditationes de prima philoso-
phia” de Descartes (Notes pour une nouvelle édition critique),in Etudes philosophiques,4, mostre que esses mesmos erros estão igualmente presentes na edição de 42. Para
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1976, págs. 425-441; idem, La prima edizione delle “Meditationes de prima philosophia”di Alquié, a “nova apresentação” de AT pelo consórcio CNRS - VFilN (1964-1974) sa-
Descartes e il suo esemplare ideale, in Studia Cartesiana, l, 1979, págs. 37-90; idem, La
452.00*- seconda edizione delle “Meditationes de prima philosophia" di Descartes (1642) nei suoi tisfaz-se com reproduzir, sem averiguar-lhes o bem fundado, as correções e adições
rapporli con la prima edizione (1641), in Transmissione dei testi a stampa nel periodo mo- constantes da edição de 1904.
derno, Ateneo, Roma, 1985, págs. 77-112. Sobre esses trabalhos de Crapulli, cf. Cartesio, “Eis porque retomamos a questão, comparando todos os exemplares das du-
Opere filosofiiche, 2, cur. E. Garin, Laterza, Bari, 1994, págs. Xll-XIII.
4 F. Alquié, Le texte latin des Méditations, in Descartes, Oeuvres philosophiques, ll, (1983), as primeiras edições que pudemos descobrir.”
Garnier-Bordas, Paris, págs. 171-176. Cf. ibidem, pág. 172. Alquié nao se refere, nesse pas-
so, a Crapulli.
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Fausto Castilho
« Nota prévra

Em relação à primeira edição, “Beck encontrou na Inglaterra - nenhum foi reunidas no conjunto das anotações de variantes entre as edições, apostas por Alquié
encontrado na França, - dois exemplares trazendo os erros apontados por AT, que ao texto por ele estabelecido. Resumindo: das sessenta e cinco (65) variantes
não foram encontrados, porém, na maioria dos exemplares de 41”. Alquié descarta, apostas a seu texto, vinte e cinco (25) devem ser desconsideradas a /imine, por
no entanto, a hipótese de uma segunda tiragem da P edição e supõe que as pági- que não dizem respeito ao texto que em tese deveriam anotar e referem-se apenas
nas defeituosas se corrigiram quando da fabricação do livro, sendo substituídas ou à disparidades entre o original latino e a tradução francesa de de Luynes e mesmo
acrescentadas no decorrer da brochagem. É o que mostra, segundo afirma, um de Clerselier. Restam, pois, quarenta (40) anotações pertinentes ao original. Destas
exemplar que teria pertencido a Bywater, onde coexistem páginas defeituosas e pági- quarenta, trinta e oito (38) anotações nada acrescentam ao texto, dada a sua total
nas corretas. Hipótese que parece se confirmar na correspondência com Mersenne coincidência com variantes já registradas em AT, Vll. Logo, do conjunto de sessenta
(cartas de 23, 06, 1641, 22, 07, 41 e 29,07, 41 (a última era desconhecida de AT, e cinco anotações sobram apenas duas (2), pertinentes ao texto: a primeira, assi-
pois, somente Roth a publicaria), onde Descartes relaciona os defeitos por emendar, nalando a troca em AT, flagrantemente incompreensível, de imaginatione por ima-
entre os quais constam as omissões e os erros que assinala a Huygens, indicando a natione, na frase non igitur ab iis, quae imaginatione effingo (Segunda Meditação,
página e a linha onde buscá-los, os_quais foram todos corrigidos (cf. pág. 604). §8, pág. 28) e, a segunda, indicando a troca de posse por posset, na frase nonnisi in
Em relação à edição de 42, todos os exemplares consultados pelos três pro- judiciis posse reperiri paulo ante notaverim (Terceira Meditação, §21, pág. 43). A
fessores contêm erros que AT não aponta, provenientes muitos da ië ed. Para Alquié presente edição incorpora ambas as anotações, introduzidas, no lugar próprio, me-
são as provas de 42 que Descartes não revê e essa edição não se fez com base em diante um asterisco, grafadas em negrito e transcritas ao pé do parágrafo corres-
novo manuscrito, mas, a partir de um exemplar corrigido da primeira. pondente, com a indicação Alq.
Alquié conclui suas. considerações criticas, afirmando que o texto estabeleci-
do por ele não o foi nem exatamente a partir da 1% nem da 2% nem do texto de AT,
“mas, em cada caso, escolhemos a versão que nos pareceu a melhor”, "indicando,
em cada caso, mediante uma nota, que nos afastamos quer da primeira, quer da Na edição Alquié, omitem-se os três textos suplementares em latim que Des-
segunda, quer da edição de AT”.5 cartes, tanto em 41 como em 42, antepõe ao texto propriamente dito das medita-
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ções, isto é, a Ep/Sto/a decano et doctor/'br/5, o Praefatio ad /ectorem, a
iii Synopsis sex sequentium meditationum. São dados em francês, juntamente com
S--.-.-_. .

Mas, que conseqüências resultam dessa laboriosa colação para a integridade a tradução francesa de 1647. É o que sucede também com as Object/'ones et Res-
do texto da nova apresentação de AT por CNRS-VRIN? Essas conseqüências estão ponsiones publicadas na versão francesa de Clerselier. Estampa, todavia, o infor-
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me Du //'bra/'re au /ecteur (Alq, II, págs. 381-403), o qual substitui 0 Praefatio nes-
sa edição de 1647. Não obstante o conjunto das censuras a que AT, Vll é submeti-
5 lbidem, pág. 175.
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Fausto Castilho
Nota prévio

do, não se pode dizer, contudo, que a edição de Alquié seja “a edição critica” alme-
ao Leitor), com as respectivas traduções. Há, contudo, nessa disposição da maté-
jada por Crapulli.
ria uma particularidade: para cumprir as duas tarefas que Descartes pretende atri-
Aliás, o próprio Alquié adota por texto de referência AT, VII, acrescido, é
buir à Sinopse, quer na ordem das razões, quer na ordem das matérias, o leitor
certo, das modificações já mencionadas. Segue-lhe a paginação, a pontuação, a
pode lê-la em dois momentos: ou distributívamente, sob a forma de um resumo an-
paragrafação que AT introduz no texto de Descartes, por este redigido em forma
teposto a cada meditação (cf. carta a Mersenne de 18, 03, 1641), ou, no Apêndice,
continua. Essa é, de resto, a norma seguida pelas edições feitas no século XX,
como uma única peça relativa ao conjunto das meditações.
bastando lembrar as bilingües que se publicaram mais recentemente apenas na O texto de referência continua sendo, portanto, o de AT, Vll, por cuja pagina-
Françafi - ção se orienta a do texto em português, ajustado ao recorte do texto latino. A para-
t i 1:
grafação é basicamente aquela introduzida por AT, mas, os parágrafos da presente
edição não raro são novamente subdivididos, no que não se deve ver, contudo, al-
gum propósito de os reordenar, mas, apenas, de facilitar a leitura do texto. Razão
A presente edição enfeixa em um volume os seis fascículos da edição bilín-
por que os parágrafos são também numerados, facilitando assim a consulta e as
güe das Med/tationes de Prima Phi/osoph/a publicada, para uso interno, na cole- remrssoes.
çoes “Primeira Versão” e “Textos Didáticos” do IFCH-LINICAMP, durante o decênio Finalmente, os acréscimos, que Descartes fez ao texto por ocasião da leitura
de 1990. Relidos agora, eliminados os erros de impressão, reparadas as omissões e da tradução francesa de De Luynes, são traduzidos e, em negrito, interpolados no
modificado, esperamos que para melhor, o texto traduzido em alguns pontos, se- texto português, além de transcritos em francês ao pé do respectivo parágrafo. 1
guem as meditações por ora desacompanhadas das Object/'ones et Responsib-
nes.
O livro está organizado da seguinte maneira: a presente Nota Prévia, o texto
latino das Meditações um Ape^noi'ce (reunindo a Episto/a, 0 Prefácio, a Sinop-
FAUSTO CASTILHO
se das Seis Meditações que Seguem e o texto em francês do informe Do Editor
UNICAMP, 1999
6 Descartes, Méditations métaphysiques, texte latin et traduction présentés par Geneviève
Rodis-Lewis, Vrin, Paris, 1944; Descartes, Méditations métaphysiques, texte latin et traduc-
tion présentés par Florence Khodoss, P.U.F., Paris, 1956; René Descartes, Médifations
métaphysiques,Objectiones et Réponses suivies de quatre Lettres par Jean-Marie Beyssade
et Michelle Beyssade, Flammarion, Paris, 1979; Descartes, Méditations métaphysiques,
Meditationes de prima philosophia (texte latin et traduction du duc de Luynes), Méditations de
Philosophie Premiere (Présentation et traduction de Michelle Beyssade), Le Livre de Poche,
1990.

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PRIMEIRA MEDITAÇÃO ,
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MEDITATION UM
. DE PRIMA
P L O S O P H PRIMEIRA MEDITAÇAO

IN QUIBUS DEI EXISTENTIA st ANIME A CORPORE


DISTINCTIO DEMONSTRANTUR 1,.,
A (vg S' PosTAs
SOBRE As I-:MQUE
COISAS DuvIDA
PODEM SER
PRIMA- ¿¡v~<1ç^^ “AW
` Citer " . /1/.Faz alguns anos jafi ., der-më)
. __ desde a infância
conta de que admrtrra
muitas coisas falsas por verdadeiras e de quao duvidoso era o que depois sobre
__ ¿ _ _ elas construr. Era preciso, portanto, que, uma vez na vida, fossem postas abaixo
De “5 “Im” 1" 111117 1 1"” 'evocar' b P°fl“"Í' [Q_<_1êL5_ãS CQ¡S§§,_i9daS rasopiniões em que até então confiara*, recorneçando
1 Animadv “_ _ m t 1_ t ` multa Q dos primeiros fundamentos, Êedesejassg eSrabg|¿¿çer__em__Ê¡|gum momenjpajgo
e I n n o uam ' -- - rf .
. 1? If a e 3111110 3 “T5 fl ` › aq Mr) Iilrmê Bpertnanente çnaçsçclepgas. Mas, como tal(še mšâafrgurasse uma vasta
1119111119 11111116- 3 11 Pf°_ 126115 11111111 911111» & 111121111 T0 ç, tarefa, esperava alcançar uma idade que fosse bastante madura, que nenhuma
dubƒfi l 11111 Cl111Ê°1111fluÊ 11115 P911? f11Pefe111f11111› 11° 8 ,xxu outra se lhe seguisse mais apta a executá-la. Por isso, adiei por tanto tempo
5 Pf0lI1d¢ fU11d1U1S 011111121 fetflel 111 VlÍfl_ 611€ €\'¢fÍ€I1dí1› que, de agora em diante, seria culpado, se consumisse em deliberar o tempo
atque a pnmrs fundamenus denuo Inchoandum, fi que me resta para agir.
1l_1_11d ¡111<_l1_1a11d° 111.111-11111 51 111a11fufu111_ CUPÍÍ1111 111 1131611' *les opinions que j 'avais reçues jusques alors en ma créance
tus ítabrlrreç fed rngens opus elle vrdebatur, eamque
ç aetatemexpeãtabam, qua: foret tam matura, ut ca- /2/ É, portanto, errr boa hora que, hoje,amente desligada de
to peífendts drfcrphnrs aptlor nulla fequeretur. Q_uare
tamdiu cunétatus fum ut deinceps eífem in culpâ,
tl quod temporis 2 fupereít ad. . agendum, . deliberando . .p-

confumerem. Opportune Igltur hodle mentem curls Wqt aim( \,\/×rzz\:<› ¿ä¿,\..Jc/š Plrrftz 1 C/\›×z×/rt, Lkfrzr ct Íytzi
. ro i “Q _ ,_ E/{ til.
a. Au lieu de cc long titre, en téte de page, la première édition donnait
:out simplcmem, aussitót après la Synopsis, ct sur la même page 7 :
MEDITATIO PRIMA.
rz›.v‹›1fz.I11,p.zõ;,r.zs. Mä. ¿f,,.,,a,;~_j M.\(,r,...i.,¬L¡ 0 ¢‹›zV×,.z'~\/tlzz. aí-¬ eo/rzzz,
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18 . 1 OBRAS DE DESCARTES 7-9,
18 OEuvnEs DE Descimrcs. I :-9-
omnibus exfolvi,fecu|rum mihi otium procuravi, folus todas as preocupações, no sossego seguro deste retiro solitário, dedicar-me-er
fecedo, ferio tandem & libere generali l1uic mearum por fim a derrubar séria, livre e genericamente minhas ant¡gas*opiniões.
opinionum everfioni vacabo. Ora, para isso não será necessário mostrar que todas elas são falsas, - o
Ad hoc autem non erit neceffe, ut omnes effe fal- que talvez nunca pudesse conseguir, - mas, porque a razão já me persuade de
fas otlendàm, quod nunquam fortaflls affequi potfem; que é preciso coibir o assentimento, de modo não menos cuidadoso, tanto às
fed quia jam ratio perfuadet, non minus accurate ab coisas que não são de todo certas e fora de dúvida, quanto às que são mani-
iis qua: non plane certa funt atque indubitata, quam festamente falsas, bastará que encontre, em cada uma, alguma razão de duvidar
. . pf¬z.›-l"""-¬'"""'*;1---¬_hJ_¡¿__-_. T"`f=1-.`_
ab aperte falfis affenfionem effe cohibendam, fatis erit para q_u_e as rejerte todas.
ad omnes rejiciendas, fi aliquam rationem dubitandi 1 E, para faz'ê-lo, não será preciso também que as percorra uma por uma,
in unâquáque reperero. Nec ideo etiam flngulze crunt 1° ~ tarefa infindável, mas porque, se os fundamentos se af ndam desaba por s_i
percurrenda, quod | operis effet infiniti; fed quia, fuf- rr_r_e_smotudg o qqç foLedrfrç_ado sob_r_q_eles¿ ataçarer eim_ediato os pró riqs prin¿
foflis 1 fundamentis, quidquid iis fuperzedificatum eft ci
LE..ios em que se apoiava tudo aquilo ' em\queFoutrora acreditei.
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fponte collabitur, aggrediar ftatim ipfa principia, qui- Í'


ancrennes V \ -, \ M , _ - ,
.". ‹: I..-¡`S|"'. J \ ` L q_A`J 1 'rod'-I” l_ Hx 3:' ./.l"L-'-lr' .fi-. 1: ' I' 4°.--.., ~ - _. .-

bus illud omne quod olim credidi nitebatur. . .I ..Jl_

3 Nempe quidquid haëlenus ut maxime verum admiti, /3/ Com\ efeito, tudo o que admiti até agora como o que há de mais verda-
derro, eu o recebi dos sentidos ou pelos sentidos. Ora, noter' que os sentidos
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vel a fenfibus, vel per fenfus accepi 1° ; hos autem in- *J-¡-rno-||nII"-"""""í_

terdum fallere deprehendi, ac prudentize eft nunquam vezes enganam e é prudente nunca confiar completamente nos que, seja uma
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íllis plane confidere qui nos vel femel deceperunt. vez, nos en anaram. gi F; fl, J ,_ ,¬ -,-. , r,-__ Í-
4 Sed forte, quamvis interdum fenfus circa 'minuta \ \ ' _ __* \ " '\ ¿-"“¡-- _") ¡_,'\,,~"1'\

qutedam & remotiora nos fallant, pleraque tamen alia /4/ Mas, talvez, apesar de os-sentidos nos enganarem às vezes acerca de
funt de quibus dubitari plane non poteíl, quamvis ab certas coisas miúdas e muito afastadas, muitas outras coisas haja, contudo, so-
iifdem hauriantur: ut jam me híc cffe, foco aflidere, bre as quais não se pode de modo algum duvidar, não obstante hauridas dos
hyemali togã effe indutum, chartam iftam manibus sentidos. Por exemplo, que agora estou aqui, sentado junto ao fogo, vestindo
contreãlare, & fimilia. Manus vero has ipfas, to- esta roupa de inverno, tendo este papel às mãos e coisas semelhantes. Em ver-
tumque hoc corpus meum eífe, quâ ratione | poffet z5 dade, qual a razão para que possa negar essas próprias mãos e todo esse meu
negarí Ê nifr me forte comparem nefcio quibus infanis, ~ corpo? A não ser talvez que me compare a não sei quais insanos,

3 Après vacabo,rzon à la ligne ainsi pendant tout le cours de


(1" ni 2' édition), mais zm petit la Méditation. - I6 hos autcm
ínterzialle en blanc (2' e'dr`t.), et omis (1"e'dr't.).rémb1i (af édz°r.).

a. Voir t. III, p. 268,1. 3.


b. Ib., p. 267,1. 27, ct t. V, p. 14.6.
16 17
9-10. MEDITAÇÕES - PRIMI-:IRA MEDITAÇÃO 19
ow- MEDITATIDNES. -- PRIMA. 19
quorum cerebella tam contumax vapor ex atrâ bile cujo cérebro foi a tal ponto afetado pelo negro vapor da bilis que constantemente
labefaâat, ut conftanter affeverent vel fe effe reges, asseveram ou que são reis, sendo paupérrimos, ou que se vestem de púrpura,
cüm funt pauperrimi, vel purpurâ indutos, cum funt estando nus, ou que têm a cabeça feita de barro ou que são inteiramente caba-
nudi, vel caput habere fiélile, vel fe totos effe cucur- ças ou confeccionados em vidro. Mas, eles são dementes e não pareceria me-
bitas, vel ex vitro conflatos; fed amen|tes funt ifti, 10 nçs demente do que eles, se buscasse neles algo como exemplo para mim.
nec minus ipfe demens viderer, fI quod ab iis exem- 9'-.`¬ lÂ'LQ¿uu\¬z¬ Clips. //DO `*^\'7-'>¿1>°
plum ad me transferrem. ' Aindai bem! Como se eu não fosse um homem, acostumado a dormir á
5 Przeclare fane, tanquam non frm homo qui foleam 9 N-noite e sentir nos sonos todas essas mesrras coisas e, até menos verossimeis,
noëlu dormire, dt eadem omnía in fomnis pati, vel _. r-›°l.,‹ que eles em sua vigília! Em verdade, com q.Je freqüência o sono noturno não me
etiam interdum minus veriflmilia, quam quze ifli vigi- persuadiu dessas coisas usuais, isto é, que estava aqui, vestindo esta roupa,
lantes. Quàm frequenter vero ufrtata ifta, me híc effe, kwjpr' sentado junto ao fogo, quando estava, porém, nu, deitado entre as cobertas!
togâ vcftiri, foco affldere, quies noílurna perfuadet, .,.-.“"Êgora, no entanto, estou certamente de ohos despertos e vejo este papel e,
cum tamen pofltis veftibus jaceo inter flrata! Atqui ¿;_¡,,l1“' esta cabeça que movimento não está dorrrindo e é, de propósito, ciente disso,
nunc certe vigilantibus oculis íntueor hanc chartam, .re estendo e sinto esta mão, coisas que não ocorreriam de modo tão distinto a
non fopitum eft hoc caput quod commoveo, manum .rem dormisse. Mas, pensando nisto cuidadosamente*, como não recordar
íftam prudens «St fciens extendo dt fentio ; non tam nos sonos por pensamentos semelhantes, em outras ocasiões! E,
diftinâa contingerent dormienti. Quafi fcilicct non .Jando penso mais atentamente, vejo do modo mais marrifesto que a vigilia
recorder a fimilibus etiam cogitationibus me alias in 3. C2_CJ_C)_C) .Inca pode ser distinguida do sono por indícios certos, fico estupefato e esse

fomnis fuiffe delufum; quae dum cogito attentius, mesmo estupor quase me confirmei na oprnrao de que estou dormindo.
tam plane video nunquam certis indiciís vigíliam a *enypensantsoigneusement _,QL, ;=;,<;j,,`lzr_,cf
fomno poffe diftingui, ut obílupefcam,& fere hic ipfe
ftupor mihi opinionem fomni confirmet. /6/ Sonhemos, portanto, e que aquelas coisas particulares - que abrimos
'5 Age ergo fomníemus, nec particularia ifta vera frnt, os olhos, mexemos a cabeça, estendemos a mão e semelhantes* - não são
nos ocul-os aperire, caput movere, | manus extendere, verdadeiras e talvez não tenhamos tam bém_estas mãos, nem este corpo todo.
nec forte etiam nos habere tales manus, nec tale to- Entretanto, é preciso por certo confessar que as coisas vistas no sono são
tum corpus; tamen pro|fe&o fatendum eft vífa per 11 como certas imagens pintadas e não puderam ser essa ficção, a não ser pela
quietem effe veluti quafdam piëtas imaginas, qua: non similitude das coisas verdadeiras. De sorte que, pelo menos essas coisas gerais
nifl ad rerum verarum fingi potuerunt; - olhos, cabeça, mãos e o corpo todo, - não são coisas imaginárias, mas, exis-
ideoque faltem generalia hzec, oculos, caput, manus, tem deveras. Pois, na verdade, os próprios pintores,
totumque corpus., res quafdam non imaginárias, fed
veras exiflere. Nam fane piílores ípli, ne tum qui- * et choses semblables

ra '1 19
zo OEuvREs ni-: Diasczmras. za-. i. 20 . OBRAS DE DESCARTES '10_11_

dem, cum Sirenas 8: Satyrifcos maxime inufitatis for- quando se esforçam por figurar sereias e sátiros com formas as mais inusitadas
mis fingere fiudent, naturas omni ex parte novas iis e da maneira mais artificiosa**, não lhes podem atribuir naturezas que sejam
poffunt aflignare, fed tantummodo diverforum anima- novas em todas as suas partes e misturam somente membros de animais diver-
lium membra permifcent; vel fi forte aliquid excogi- sos. Ou, se sua imaginação é assaz extravagante para (inventar) e excogitar
tent adeo novum, ut nihil omnino ei íimile fuerit vi- talvez algo a tal ponto novo que, nada do que antes se viu se lhe assemelhe de
fum, atque ita plane fiãitium íit dz falfum, certe tamen todo e seja, assim, completamente fictício e falso, decerto que ao menos as co-
res de que se compõe devem ser, porém, verdadeiras.
ad minimum veri colores eífe debent,ex quibus illud
** avec Ie plus d 'artifice
componant. 7 Nec difpariratione,quamvisetiam gene- *** .leur imagination est assez extravagante pour (inventer)
ralia haec, oculi, caput, manus, & limilia, imaginaria
effe poífent, necelfario tamen faltem alia quzedam ad- ' /7/ Por igual razão, embora essas coisas gerais - olhos, cabeça, mãos e
huc magis íimplicia dz univerfalia vera efl`e fatendum semelhantes, - possam ser elas também imaginárias, é preciso confessar, toda-
efi, ex quibus tanquam coloribus veris omnes iftm, via, que são pelo menos necessariamente verdadeiras e existentes* algumas
feu verte, feu falfae, quze in cogitatione nofirâ funt, outras coisas, ainda mais simples e universais, a partir das quais sao iiguradas,
rerum imagines eflinguntur. . como a partir de cores verdãdeiras,7Ud"'as as imagens de_,cQis.ã&f.lUe_.estão em
Cujus generis eífe videntur natura corpo|rea in nosso pensam g, quer verdadeiras, quer talsavsf "" i ii
communi, ejufque exteniio; item figura rerum exten- "' Desiseigênero parecem sieriãlnatulreza corporal comum e sua extensão,
farum; item quantitas, tive earumdem magnitude «Sé bem como a figura das coisas extensas ; a Jquagtidade ouggrandeza delas *eseu
| numerus; item locus in quo exiítant, tempufque per nu'mero; o lugar onde exisieme o tempo pelo qual duram e que mede sua du-
“'-..-T---‹-Lzzs-wa _.¬...¬-»zz¬fz...-»¬... _. iq, $ J-ze ~ f «az zz. ff se
_razç_ao*_, erggisflaâlsemelñanies. ,
quod durent, & fimilia.
* et existantes Y ~?*'*`*'*-" *`""”"i^"'l“°¿`”"`
“Quapropter ex his forfan non male concludemus ** ,
qui mesure leur duree
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Phylicam, Afironomiam, Medicinam, difciplinafque > f°fíí°í*":í t' 1;»
alias omnes, quae a rerum compolitarum conlidera- /8/ Flazão pela qual partindo disso, não seria talvez incorreto concluir que
tione dependent, dubias quidem eífe; atqui Arithme- a Física, a Astronomia, a Medicina e todas as outras disciplinas que dependem
ticam, Geometriarn, aliafque ejufmodi, quae nonnifi da consideração das coisas composta são, na verdade, duvidosas, ao passo
de fimpliciflimis dz maxime generalibus rebus traãlant, que a Aritmética, a Geome - - ii ras desse modo, - que não tratam senão de
atq_ue utrum eae fint in rerum naturâ necne,parum cu- coisas muito simgles e muito gerais, pouco se preocupando com que estejam ou
rant, aliquid certi atque indubitati continere. Nam não na natureza das coisas, - contêm algo certo e fora de dúvida. Pois, esteja
live vigilem, live dormiam, duo dz tria fimul juncia eu acordado ou dormindo, dois e três juntos são cinco e o quadrado não tem
funt quinque, quadratumque non plura habet latera mais que quatro lados. E, não parece possível que verdades tão manilestas in-
quam quatuor; nec tieri potfe videtur ut tam perfpi- corram na suspeita de falsidade ou de incerteza ii.
cuae veritates in fufpicionem fallitatis incurrant.
* ou d 'incertitude

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°Verumtamen infixa quzedam eft meae 'menti vetus 19/ Entretanto, fixa em minha mente tenho uma certa velha opinião de que
opinio, Deum elle qui poteft omnia, «Sr a quo talis, há um Deus,@uip_9_c_je todagas coisas)e pelo qual fui criado tal qual existo. Mas, i
qualis exifto, fum creatus. Unde flllíem ÍCÍO Íllum “On de onde sei que ele nãoifenha feito que nãohaja de todo terra alguma, céu al- j
.feciffe ut nulla plane lit terra, nullum ccelum, nulla its' gum, coisa extensa alguma, figura alguma, grandeza alguma, lugar algum e que
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res extenfa, nulla figura, nulla m£i.gniI11d0z flUl|1_u§ __l?i¿r~"(*.z~°"i'ião obstante eu sinta todas essas coisas* e que, no entanto, todas elas nao
locus, & tamen hzec omnia non aliter quam nunc 31.1111 me pareçam existir diferentemente de como me aparecem agora ? `
videantur exiftere? Imö etiam, quemadmodum judlco ,tw Mais: do mesmo modo que julgo que os outros às vezes erram acerca de j
interdum alios errare circa ea qua: fe perfefilíflflfe §,_¢~ “coisas que presumem saber à perfeição, não estaria eu mesmo de igual maneira ,
fcire arbitrantur, ita ego ut fallar quoties duo «St tria ft* errando, cada vez que adiciono dois a três ou conto os lados do quadrado ou ‹
limul addo, vel numero quadrati latera, vel fi quld t U, faço outra coisa que se possa imaginar ainda mais fácil ?
aliud facilius fingi poteft? At forte | noluit Deus ita V `*'. "`,^.-.= Mas, talvez Deus não tenha querido que eu fosse enganado dessa manei- D
me decipi, dicitur enim fumme bonus; fed fi hoc
Art .M . . .
_,(i, ra, pois, dizem-no sumamente bom. Ora, se criar-me para que sempre erre re-
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ejus bonitati repugnaret,-talem me creatle ut femper pugna à sua bondade, parece que a essa bondade deve também repugar a\
fallar, abeâdem etiam videretur efl`e alienum per- _ .-__.__a permissão para que eu erre às vezes, mas o último não pode ser, contgdo, afir-Ji
K' -i__,\¿__ :z/-k

mittere ut interdum fall:-1r; quod llltímllm tamen fi0fi mado.


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* *et que neanmoinsj are les sentiments de toutes ces choses ` “'°" `
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poteft dici. _ ll'
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1° Elfent verö fortaífe nonnulli qui tam potentem ali- . 5 uu. Í Q.-um-› .
quem Deum mallent negare, quam res alias omnes 110/ Talvez haja, em verdade, aqueles que, a ter de crer que todas as ou- ,_,Ê
credere effe incertas. Sed iis non repugnemus, to- f- m_» s coisas sao incertas, prefiram negar um Deus tao poderoso.
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tumque hoc de Deo demus eífe fiëiitium; at feu fato, É


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2,.-2°-í Não os contraditemos e admitamos que tudo o que dissemos sobre Deus
feu cafu, feu continuatâ rerum ferie, feu quovis alio seja fictício. Que suponham tenha eu chegado a ser o que sou pelo fado, pelo
modo me ad id quod fum perveniffe fupponant; quo- acaso, por uma série continua das coisas ou por qualquer outro modo, pois, que
niam falli dr errare imperfeãio quiedam eífe videtur, enganar-se e errar parecem ser uma certa impeifeição, quanto menos poderoso
quo minus potentem originis meze authorem alligna- foro autor que designem à minha origem, tanto mais provável será que eu seja
bunt, eo probabilius erit me tam imperfeâum effe tão imperfeito para que sempre erre.
ut femper fallar. Q_uibus fane argumentis non liabeo Argumentos a que em verdade não tenho o que responder, mas sou fi-
quod | refpondearn, fed tandem cogor fateri nihil eífe
1 nalmente forçado a confessar que, nada há de todas as coisas que considerava
. ,.
ex iis quae olim vera putabam, de quo non l1cea_t dubi- outrora verdadeiras de que nao me seia permitido duvidar, nao por inconsidera-
.
*›M .¬_í___-.i._
~ . tare, idque non per inconfiderantiain vel levitatern, Ç ão ou leviandade i mas' P or robustas e meditadas razões. Dor isso, também a
1

fed propter validas dz meditatas rationes; ideoque elas nao menos que as coisas manifestamente falsas,
etiam ab iifdem, non minus quàrn ab aperte fallis,
22 23
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22 OEm/nas DE Dissciiivrss. zz-z.=i.~ 22 z OBRAS DE Descâivrss 12-13


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accurate deinceps affenfionem eífe cohibendam, fi 4.

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j.~,iz:_ devo, de agora em diante, negar cuidadosamente o meu assentimento, se quero
quid certi velim invenire. _
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encontrar algo certo nas ciências*.
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" Sed nondum fuflicit hêec advertiffe, curandum efi -4..-


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* dans les sciences
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ut recorder; allidue enim recurrunt confuetze opinio- _ ."¿Ê.1


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nes, occupantque credulitatem meam tanquam longo KT:


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/1 1/ Mas, ainda não é suficiente que tenha notado essas coisas, devo cui-
ufu «Sr fami|liaritatis jure íibi devinãam, fere etiam -'* dar de me lerribrar delas, pois, as opiniões costumeiras reaparecem ininterrup-
me invito; nec unquam iis affentiri & confidere de- tamente, a ocupar minha credulidade, a elas submetida quase contra minha
fuefcam, quamdiu tales elle fupponam quales funt vontade por um demorado trato e um direito de familiaridade. -_--^i> f
revera, nempe aliquo quidem modo dubias, ut .jam Nunca vencerei o hábito de a elas assentir e nelas confiar, enquanto as
jam oltenfum eli, fed nihilominus valde probabiles, supuser tais quais são deveras, a saber, de algum modo por certo duvidosas,
dz quas muito magis rationi confentaneum fit cre- ,an como@ pouco foi mostrado e, não obstante, muito prováveis, sendo muito mais
dere quam negare. Quapropter, ut opinor, non male ilë consentaneo
^ com a razão nelas acreditar do que negá-las. . ~
agam, fi, voluntate plane in contrarium veria, me r\__,. Eis porque creio não esteja agindo mal, se, entrando voluntariamente
ipfum fallam, illafque aliquandiu 0mnÍn0 ÍEIÍÍEIS Ímfl' Í'. , ¿^"numa direção de todo contrária, passe_ a me enganar a mim mesmo I e, finja por
ginariafque eífeifingam, donec tandem, velut aequa- t5 ` algum tempo* que essas opiniões sao de todo falsas ou imaginarias, até que,
tis utrimque praejudiciorum ponderibus, nulla am- finalmente, os pesos das duas ordens de preconceitos tendam, por assim dizer,
plius j prava confuetudo judicium meum ri reëia rerum a igualar-se e_já nenhum mau hábito desvie meu juízo da reta percepção das
perceptione detorqueat. Etenim fcio nihil inde peri- coisas, de um exato conhecimento das coisas”. Com efeito, sei que nesse
culi vel erroris interim fequuturum, da me plus zequo interim não sucederá perigo ou erro algum, não posso ser mais indulgente do
diffidentize indulgere non poffe, quandoquidem nunc que devo com minha desconfiança, pois, agora, não me proponho agir mas ape-
non rebus agendis, fed cognofcendis tantum in- nas conhecer.
cumbo. * durant quelque temps
" Supponam igitura non optimum Deum, fontem ve- ** d' une exacte connaissance des choses
ritatis, fed genium aliquem malignum, eundemque
fumme potentemb & callidum, omnem fuam indu- 112/ Suporei, portanto, que há não um Deus ótimo, fonte soberana* da ver-
firiam in eo pofuiffe, ut me falleret: putabo coslum, ` dade, mas algum e ao mesmo tempo, sumamente poderoso e ma-
aërem, terram, colores, figuras, fones, cunëtaque ex- nhoso, que põe toda a sua indústria em que me engane: pensarei que o céu, o ar,
terna nihil aliud elle quam ludificatíones fomniorum, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas externas nada mais são do
quibus infidias credulitati mea: tetendit : confiderabo que ludibrios dos sonhos, ciladas que ele estende à minha credulidade. Pensarei
a. Voir t. III, p. 147. - * souveraine
b. Ib., p. 147.

24 25
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1 .
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13-15. MEIJITAÇÕES - PRIMEIRA MEDITAÇÃO 22


zs-is. Mi-:i>i'i¬imoNEs. -- Sizcuunii. 23
meipfum tanquam manus non habentem, non ocu- que sou eu mesmo desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, de sen-
los, non carnem, non | fanguinem, non aliquem fen- tido algum mas, tenho a falsa opinião de que possuo tudo isso. Manter-me-ei
fum, fed haec omnia me habere falfö opinantem : obstinadamente firme nesta meditação, de maneira que, se não estiver em meu
maneboobfiinate in hac meditatione defixus, atque poder conhecer algo verdadeiro, estará em mim pelo menos negar meu assen-
ira, fiquidem non in poteftate mea fit aliquid veri co- timento aos erros", às coisas falsas. Eis por que tomarei cuidado para não
gnofcere, at certe hoc quod in me eft, ne fallis affen- receber em minha crença nenhuma falsidade***, afim de que esse engana-
tiar, nec mihi quidquam ifie deceptor, quantumvis dor, por mais poderoso e por mais astuto que ele seja, nada possa me impor.
potens, quantumvis callidus, poffit imponere, obfir- ** de refuser mon assentiment aux erreurs
16 *** C'est pourquoije prendrai garde soigneusement de ne point recevoír en
mata mente cavebo. 1° Sed laboriolfumeft hocinftitu-
tum, & defidia qua-:-dam ad confuetudinem vitae me ma croyance aucune fausseté ,, Mjíj f
reducit. Nec aliter quam captivus, qui forte imagi- E

naria libertate fruebatur in fomnis, qullm poftea fu- /13/ Mas, esse propósito é laborioso e uma certa desidia devolvelme a Q Í'
fpicari incipit fe dormire, timet excitari, blandifque vida de costume. E, não diferentemente do prisioneiro que, desfrutando talvez Vl
illufionibuis lente connivet : fic fponte relabor in ve- emsonho de uma liberdade imaginária, quando começa em seguida a desconfi- ,fi
teres opiniones, vereorque expergifci, ne placldw ar de que está dormindo*, teme despertar e, por prudência, passa a ser coni- v

quieti l-aboriofa vigília fuccedens, non in aliquâ luce, vente com as doces ilusões, a fim de que o logrem por mais tempo”, assim Ç
fed inter inextrieabiles jam motarum diflicultatum também eu volto a recair espontaneamente em minhas inveteradas opiniões,
tenebras, in pofterum fit degenda. receio acordar de medo que a vigília laboriosa, que venha a suceder o sossega- ,_ .Í

do repouso, não transcorra de agora em diante, não sob alguma luz, no conhe- r \

cimento da verdade***, mas, emmeio às inextricáveis trevas das dificuldades


que acabam de ser suscitadas. É
* qu 'il dort ' `-

** pour en être plus longuement abusé Lwózz ""'r .Í



*** dans la connaissance dela verite A W' 'H 1* \
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SYNOPSIS
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/1/ Na Segunda Meditação, a nieiire no uso da própria liberdade ao


í¡-IIl-I"'í_,- |

supor que não existeiii rodas as coisas sobre cuja existência possa diivizlzzi- 0
/"Gl-Y mí/'lí/"U/liëllfë. percebe que entreinentes é i`mpossi'vel que ela mesmo
H I I

wa. O que e ta/nbeni de suma utilidade, pois qiie, desse modo, dz'_ç¡¡,,,_
gire facilmente o que pertence a ela, corno natureza intelectual, do que pe,-_
lena' ao Corpo' Mas- 170111146 UÍRUNS lfllvez esperem encontrar nesse passo as
razões da íniorralidade da alma, creio deva chamar sua atenção

2 1 lln fecundã, mens quce, propria' libertate utcns, fup-


ponft ea omnia non exficrc dc quorum exz:/lentfá rcl ini-
nímimz pote/2 duliitarc, 'arzz'mad1'ertz't_ficrz° non po__//'ic quín
zpfa íntcrínz cxf/lar. Quad etiam fummce cfl uiz`lítati'.s'_,
quoníam lzoc paílo facilc di_`/i.'i°nguz't qucenam ad | fc, lzoc
Q/2, ad naturam z'ntcllec'lualem, di' qucenam ad corpus per- `\

tincant. Sed quia forte nonnulli' rationcs dc animre ím-


nzortalitaie íllo fiz loco cxpcélaliunt, eos liíc moncnclos

iz dubitare potefi (1" c'di'l.).

a. Voir t. Ill, p. 268, 1. 9; p. 2;i, l. 7; p. 297z l. Ó. Cf. ia.,


p.364-365.

28 29
'ae'
1i.','_.

za; MEDrrA'rioi~iEs. -- Svnoesis. 13 2-3, MEDITAÇÓES - SINOPSE 1g

puto me conatum efie níliz'1_/'crílrere quod non accurate para oƒato de que nie esforcei por nada escrever que irão dernonstrasse cui-
demonflrarem; ideoque non alíum ordincnz fequí potufz/_c, dadosamente. De sorte que, outra ordem não pude seguir senão a que eni-
qziàm íllum qui efl apud Geometras uƒitatus, ut nempe pregam os geôiiietras. a saber, antecipou o todas as coisas de que depende
omnia prcemítterem ex quibus qua;/ita propo/ízzo dq- "b risca a, arz td
a proposiçao es e corzc l`l
uira go a respei'rdl
o e. a.-i> re"-:›\
¿/5 .›- , ,f_¬_›..
\ , .,ø

Pender, antequanz de ip/'á' quidquamconcluderem. 2 Pri- \. rio L

murn autem 6' przeczpuum quod prcerequzrztur ad cogrioƒ- /2/ Ora, o pririieiro e principal requi`si'to que previamente se exige
cendam anímce immortalítatenz, q[/'e .ut quam maxinre para o coriliecirirerito da imortalidade da alma é que dela riosforrnernos um
perfincuum de ea conceprum, G' ab omni conceptu corporis ' conceito. o rnals claro possível e que seja conrpletarrrente dz`str`nto de todo ` 1-.

plane di'/tinéium, fornzemus; quod zbz facflunz e/l. Pree- conceito do corpo: o que se fez, nesta Segunda. Reqrier-se, além disso, ern
terca vero requz'rz'eti`am ut fcíamus ea omnia quce clare G* verdade, que saílrarnos tarribérn que todas as coisas entendidas clara e dis- if
dzfiincfle íntellígímus, eo ip/o modo quo ílla' | z'ntellr°gz'-` 3 tiritariieiite são verdadei'r°as, do rnodo rnesnro corno as eriterideinos: o que
musÍ efle vera . quod ante quartam Meditatíonenz probarz não pôde ser provado antes da Quarta. É preciso que tenliainos tarribérri um ‹.Z.-mà

non potuít; 8' liabendum elle di;/línólum natura: corporece conceito d¡sti`nto da riaturezo corporal, o que se forrnou ein parte nesta
conceptum, qui' partim in zpfí fecunda, partzm etiam' in mestria Segunda. ein parte tarnlréni, ria Quinta e na Sexta: partindo disso,
qzzínzá ëfextä formatur; atque ex lizs debere conclucli ea dei-'er-se-i`u concluir que todas' as coisas' que se concebeni clara e di`sti`nta-
omnia quce clare 3' dz/linéle conczpzuntur ut fub/lantzaz mente como substâricias dr`i›ersas, assitir como a rnerite e o corpo são conce-
dive;-fee, ficuti concípiuntur mens 6* corpus, efiereiierq
I

bidos, são deveras szibstâricias realrnente dr'stirztqs iirrrci da outra, o que e


fubflantzas realíter a /'e mutuo dift'z'n¿las, liocque znfexza uma conclusão da Sexta. E. isto e' tanibérrr ali con/irriitirlo porque só enten-
concludí. ldemque ezíanz iu qvffl ffollfifman cx eo quod demos todo corpo como dt'i›i`sr'vel, ein. coritr'aposr`çã‹r ct toda rrrente, ci qual so
nullum corpus ni_/Í divt/Íbzle zntelligamus, .contra autern e' entendida corno i`ricli`vr'si've.l.° pois, não podemos coricelrer u metade de rie-
nullam mentem nifi zndivi/íbilenz :nqeque enim | po_[/"umus nluinia rnente, tio passo que podemos juzê-lo corri qualquer' corpo, por ine-
ullíus mentzs medzam partem concrpere, ut poflumus cu- nor que seja. De rnaneira que suas naturezas são por nós conliecidas irao
ju_/lílret quantumvis exígui corporis; adeo ut eorum na- apenas corno diversas ruas, de certo rnodo. como contrári`as tarnbérn. _.,¡'__,,_,r , ,
tura: non modo d1'i'erfrI,_/'ed etiam quodammodo contrarice 1
¡K\\.'¬
fl
i, t__l _ . . . . , .
agnofcantur. 3 Non autem ulteríus eâ de re in lioc _/'crzpto 3;? l3/ Nao nie cubra dizer neste escrito mais nada sobre esse r.›uiter'ia,
f\

me ¿›g¿`fl`e,- rum quia lzcecfuffícíunz ad Q/íendendum ex cor- tanto porque o que disse é sriƒícierrte para mostrar que da corrupção do cor-
#*.¿

porís corruptione mentís interítum non ƒequi, atque_/ic ad po não se segue a rnorte da rriente, der`.1'ando assi`rn aos niortais urna espe-

alteríus vitce_/pen: mortalibus facienaam; tum etiam quza rança de outra vida. quanto tqrnbern. porque as preriirssas das quais se possa
_ . . . _ 0. , .
Frzgmzyfm, ex quílrus ip/.2 m6nz¡5 zmmortalztag concludz concluir a iiriortalidade da mente dependeni da explicaçuo da toda a Fisica.
pote/il ex toltius Plii:/icce explz'catz`one dependent: primo Ein. pr'r'rriei'ro

23 quanturnuis lt" e'dít.).

30 31

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ät!
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14 OEUVRES DE DESCARTES. s-4. -‹' I

.. 14 z OBRAS DE DESCARTES 34,


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ut _/'ciatur omnes omnino_/ul;/íantt°as,_/i1'e res qua: a Deo *Cl

lugar, para que se saiba que todas as substâncias em geral, isto é, as coisas
creart' debent ut exi/iant, ex naturzí _/uí e_[/'e incorrupti-
que só existem porque criadas por Deus, são incorruptiveis por sua natureza
biles, nec po_//'e unquam definere effe, nifi ab eodenz Deo É

e nunca podem abandonar o ser, a menos que Deus ele mesmo lhes negue o
concur/'uin_/uum iis denegante ad nilzilum reducantur; ac ~.

seu concurso. reduzindo-as ao nada. Em segundo lugar, para que se saiba


deinde ut advertatur corpus quidem in generefunzptunz
que, genericamente tomado, o corpo é sem dúvida uma substância e, por
efle _/'ulJ_/zlantiam, ideoque nunquam etiam perire. Sed
isso, também nunca perece. Mas, que o corpo humano, na medida em que
corpus lzumanum, quatenus a reliquis dzƒert corporibus.
difere dos outros corpos, é constituído por certa configuração de membros e
non nifi ex certá membrorum configuratione alii/'que eju/1
de outros acidentes desse modo, ao passo que a mente humana nao e cons-
rnodi accidentibus e_[/De con_flatum_; mentem reriz Ízutnatzam
tituida dessa maneira. a partir de acidentes nenhuns, mas, ë pura substân-
non ita ex ullis accidentilaus con_/íare, _/'ed param e[/Í* _ gi I fz» Q-nI_ll~lI-U'-'-_'_-_

cia. Pois, embora todos os seus acidentes se modifiquem, - ela entende umas
_/'ub/lantiam : et/i enim omnia eƒus accidentia mutentur, """"Í' . , .
coisas, quer outras_. sente outras, etc. - nem por zsso a propria mente torna-
ut quod alias res intelligat, alias velit, alias fentiat,
se uma outra. Ao passo que o corpo hutnano torna-se outro, em virtude ape- p
6'c, non idcirco tpfa mensalia euadit; lzumanum autem
nas de que se modiflque a figura de qualquer uma de suas partes. Disto se
corpus aliudfit ex_lzoc_/'olo quod figura quarumdam ejus segue que tal corpo morre muito facilmente, enquanto a mente ou a alma do
partium mutetur : ex quibus _/'equitur corpus quidem homem (o que não distingo)* e imortal por sua natureza.
perfacile z'n|terire, mentem autenz ex naturá fuzí e[/*e * ou l'âme de l ' homme (ce que je ne distingue point)
irnmortalem.
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32 33

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.s-zs. M1'-:m'rAT¡oNEs. -~ SEGUNDA. 23

SEGUNDA MEDITAÇÃO

SOBREÍA NATUREZA DA MENTE HUMANA:


QUE ELA E MAIS CONHECIDA DO QUE O CORPO

l1l Em tantas dúvidas fui lançado pela meditação de ontem que, já não
sou capaz de as esquecer, nem vejo todavia o modo de as resolver. E, como se

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De natura mentzs humana' : quod zpmfit l ¿, _ *


notior quam corpus “.

1 In tantas dubitationes hefiernâ meditatione conjec-


tus fum, ut nequeam aínpliüs carum obh\'1fc1¬ nec V1-
deam ta|men quâ ratione folvendm lmt; fed, tanquam
-- 19 II] sccunda (t" e'dit.).

a. Voir 1. III, p. 29;. 1. az.


34 35
:=~:
ã_.:;
31

24 Ošuvaes DE Descimrrzs. i5~zõ.


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fix

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24 , OBRAS DE Descâizres 1546
'Ê-..
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'sn

in profundum gurgitem ex improvilo delaplus, ita -4.)


#57. de repente houvesse caído em um poço profundo, minha perturbação é tal que
Ç 3-.
5;:
turbatus fum, ut nec pollirn in imo pedem tigere, nec fz? nem posso firmar o pé no fundo, nem vir à tona. Esforçar-me-ei, contudo, para
retornar ao caminho onde o *lt em ingressei, a saber, fazendo a remoção de tudo
. .:¡,

enatare j ad lummum. Enitar tamen & tentabo rurlus -u


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1;
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eandem viam quam heri fueram ingreílus, removendo L' :.


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3..
E..
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o que comporte a mais mi'n'ma dúvida, como se o descobrisse de todo falso. E,
lcilicet illud omne quod vel minimum dubitationis ru.
prosseguirei até conhecer a go certo ou, na falta de outra coisa, que pelo menos
admittit, nihilo fecius quam li omnino lallum elle \-qn:
\1
.
.,.
reconheça como certo que n a da ha' que seja
' certo .
comperillcm; pergamque porro donec aliquid certi, l*~¢_¿¿-J;-¬z‹š»1:.~~zo"-QUL '=¿,, j,_,,,,-C1¢..,-,,,,,.É ça, l zx,_i,~^ WO
_.- "
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} íw§f*Í\" ._¬«.~'~§"'zL~.~ :~-(z¬ '._,._
vel,fi nihil aliud,laltem hoc iplum pro ccrto,nihil elle to-~ /2/ Arquimedes nao pedia mais que um _p_g_i]_§J, que fosse firme e iirovel,
para poder remover a terra inteira de seu lugar: são grandes também as minhas
4

certi, cognolcam. 2 Nil1il nilipuná°tumpetebatArcl1i- «H


medes, quod eller firmum 8: immobile, ut integram


Í

esperanças, se vier a encontrar algo, o mais minimo, que seja certo e inabalável.
terram loco dimoveret; magna quoque lperanda funt,
li vel minimum quid invenero quod certum lit dz in- /3/ Suponho, portanto, falsas, todas as coisas que vejo: creio que nunca
concu1Tum“. existiu nada do que a memória mendaz representa; não tenho nenhum dos sen-
3 Suppono igitur omnia quze video falla elle; credo tidos todos: corpo, figura, extensão, movimento e lugar são quimeras. Que será,
nihil unquam extitille eorum quai- mendax memoria L.
r. então, verdadeiro? Talvez isto somente: nada é certo.
reprzelentat; nullos plane habeo fenfus; corpus, fi-
gura, extentio, motus, loculque funt chimerze. Quid /4/ Mas, de onde sei que não há algo diverso de todas as coisas cujo cen-
igitur erit verum ? Fortallis hoc unum, nihil elle certi. so acabo de fazer e. a respeito de que não haveria a mais mínima ocasião de
4 Sed unde lcio nihil elle diverlum ab iis omnibus duvidar? Não há algum Deus, qualquer que seja o nome com que o chame, que
qua: jam jam recenlui, de quo ne minima quidem oc- tenha posto em mim esses mesmos pensamentos? Por que, na verdade, supõ-
calio fit dubitandi ? Nunquid elt aliquis Deus, vel quo- Io, quando talvez eu mesmo possa ser o seu autor? Não sou, portanto, eu pelo
cunque nomine illum vocem, qui mihi has iplas cogi- menos, algo? Mas, já me neguei a posse de todos os sentidos e de todo corpo.
tationes immittit? Quare Íveró hoc putem., cum forlan Hesito, entretanto,
iplemet illarum author elle poliim ? Nunquid ergo | lal-
tem ego aliquid fum? Sed jam negavi me habere ullos
fenfus, dt ullum corpus. I-lazreo tamen; nam quid '\

a. Pas plus pour cette deuxième Méditation que pour la premiere, nl


l'e'dítion de 1641 ni celle de 1642 ne distinguem les alíneas en meiiant
‹‹ à la ligne z; mais la 2' édition separe d`ordinaire par un intervalle en
blanc cheque point de la majuscule suivante, et ces séparations, très
visibles dans Fimprimé, correspondem presque toujours aux commen-
cemems de nouveau: alinéas.
36 37

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zõ-z7. Meuirivriouiás. -- SECUNDA. 25 16-17. Meorrâçoes - SEGUNDA MeDi'rA¢Ão .. 25


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inde? Sunme ita corpori lenfibulque allig'atus,ut line 1
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pois, que resulta disso? Acaso, estou atado assim ao cor o e aos sentidos ue sem
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V

illis elle non potlim? Sed mihi perluali nihil plane ~.z¡~
la.
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eles, não posso ser? Mas, já me persuadi de que não há no mundo totalmente nada
z

elle in mundo, nullum coelum, nullam terram, nullas N .

nenhum céu, nenhuma terra, nenhuma mente e nenhum corpo. Portanto, não me
mentes, nulla corpora; nonne igitur etiam me non c p
ersuadi de que eu, também ' não era?` Ao contrário
,..._, _ 1
eu certamente
t
era 1 se me per'
elle? Imo certe ego eram, li quid mihi perluali. Sed uadi de al o ou se somente enseiai o*.
Mas, há um enganador, não sei quem, sumamente poderoso, sumamente
V-
f`Í

eli deceptor nelcio quis, fumme potens, fumme calli- 3'

dus, qui de indultriâ me femper fallit. I-laud dubie


Ir
astucioso que, por indústria, sempre me engana. Não há dúvida, portanto, de que .J
igitur ego etiam fum, li me fallit; 8: fallat quantum 1 eu» eu sou = também › se me en 9 ana Í fl ue me en 9 ane o fl uanto P ossa . nunca oderá
azer, porem, que eu nada se'a, enquan o eu pensar que sou algo. De soite que,
poteli, nunquam tamen efliciet, ut nihil lim quamdiu depois de ponderar e examinar cuidadosamente todas as coisas" é preciso es-
me aliquid elle cogitabo. Adeo ut, omnibus fatis lu- tabelecer, finalmente, que este enunciado@ eu sou, eu, eu exišto*'§ necessari- L
perque penlitatis, denique llatuendum lit hoc pronun- amente verdadeiro, todas as vezes que é pormim proferid i oilconcebido na mente.
tiatum, Ego fum, ego exfio, quoties a me prolertur,
I ,p “

*ou seulement si j ai pense quelque chose ol j, , _, ,j 4' *n

vel mente concipitur, necellario elle verum. ** et avoir soigneusement examine toutes choses ~'
si i ,Í ~ "' _›_\¡.; L ._
,
'5 Nondum veró fatis intelligo, quilnam lim ego ille, *** Ego sum, ego existo , lfigz^ 31.'
15'.-3,'
,_q Njñ .. i
qui jam necellario fum; deinceplque cavendum eli '¡':\--. E \-':, L
/Sl Na verdade, ainda nao
" entendo satisfatoriamente
_ quem sou, esse eu â que
ne forte quid aliud imprudenter allumam in locum agora sou necessariamente. E, de agora em diante, devo precaver-me para não
mei, licque | aberrem etiam in eâ cognitione, quam tomar imprudentemente outra coisa em meu lugar, errando, assim, também no co-
omnium certillimam evidentillimamque elle contendo. nhecimento que pretendo seja o mais certo e o mais evidente de todos os que tive
6 Quare jam denuo meditabor quidnam me olim elle anteriormente". ,_ ft
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crediderim, priulquam in has cogitationes incidillem; Í'


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ex quo deinde lubducam quidquid allatis rationibus ** celles que j ai eues auparavant ~ .- ,,,. ._ ,z
vel minimum potuit infirmari, ut ita | tandem przecile
remaneat illud tantüm quod certum elt dt incon- / 6 / E por isso que, agora, meditarei de novo sobre aquilo que acreditava ser,
cuflum. outrora, antes de chegar a esses pensamentos. Em seguida, a paitir disso, elimina-
rei tudo o que possa ter sido infirmado, por menos que seja, pelas razões alegadas,
Quidnam igitur antehac me elle putavi? Hominem
de maneira que só remanesça, por fim, precisamente, o certo e inconcusso.
lcilicet. Sed quid eli homo? Dicamne animal ratio-
Que acreditei ser, portanto, até agora? Um homem, deceito. Mas, que é um
nale? Non, quia poliea quzerendum foret quidnam homem? Direi, acaso, um animal racional? Não, porque seria preciso perguntar em
1
animal lit, «St quid rationale, atque ita ex unâ quas- seguida que é um animal e que é racional, de modo que, a partir de uma questão,
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ltione in plures dilliciliorelque delaberer;' nec jam eu resvalaria para muitas e mais difíceis questões. E, o tempo de que disponho já
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mihi tantum otii eli, ut illo velim inter illiulmodi lub- não é tanto que o queira malbaratar em sutllezas dessa ordem.
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tilitates abuti. Sed hic potius attendam, quid fponte
38 39

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26 OEuvREs DE DESCARTES. 11-18- 26 df” W 3 OBRAS DeDescARrEs 1748,
Q
L.

& naturâ duce cogitationi meaa antehac occurrebat,


quoties quid ellem confiderabam. Nempe occurrebat a-_ agora me ocorriam por si mesmos e naturalmente, ca a vez que considerava o
primo, me habere vultum, manus, brachia, totamque que eu era . Com efeito, ocorria-me, em primeiro lugar, que eu tinha um rosto,
hanc membrorum machinam, qualis etiam in cada- ¡-A mãos, braços e toda essa máquina de membros, que se percebe também em
vere cernitur, & quam corporis nomine delignabam. 5
um cadáver e que eu designava pelo nome de corpo. Além disso, ocorria que me
Occurrebat praejterea me nutriri, incedere, lentire, dt W
alimentava, andava, sentia e pensava, ações que eu referia por certo a uma
cogitare : quas quidem aãiones ad animam refere-
¬~

Àl 'EF.
lf-`- 1'.r'~â.i*à'z^¢*t,
f-'r›Í7?.v

um
alma.
bam. Sed quid ellet haec anima, vel non advertebam, "rn¡.¡|'|:., .
z
Mas, oque essa alma era, ou não o notava ou, se me detinha* em con-
vel exiguum nelcio quid imaginabar, inliar venti, vel 7.-g
Ó. -.
, siderá-lo, imaginava um não sei que de diminuto, a exemplo do vento ou do fogo
ignis,ve1 a=:theris“,quod crallioribus mei partibus ellet IO Ç.
..L.1
Ui.
._¿.

ou de um éter***, infuso em minhas partes mais espessas.


,~"4'r.1:._I_[-iv›-f¡f¿`g. cuz

infulum. De corpore veró ne dubitabam quidem, led 31-»


fl._››vg-
U.
r¿.
Sobre o corpo não tinha, na verdade, dúvida alguma e julgava conhecer-
diliinšie me nolle arbitrabar ejus naturam, quam li lhe a natureza distintamente. Se tentava talvez descrevê-Ia tal qual minha mente
forte, qualem mente concipiebam, delcribere tental- a concebia, explicava-o desta maneirazjšntendo por corpo tudo o que pode ter-
lem, lic explicuillem : per corpus intelligo illud omne minar por alguma figura, estar circunscrito em algum lugar e preencher um es- ¿
quod aptum eli figurâ a1i|quâ terminari, loco circum- 15 *zw-'11.ri-\'f.*¬\-M-_?›,§.~-Í 'i-ÕÍ'Ffz1,{z" '".i-
paço do qual exclui todo outro corpo:_jE percebido pelo tato, pela vista, pelo ouvi-
lcribi, lpatium fic replere, ut ex eo aliud omne corpus do, pelo gosto e pelo olfato e é, também, movido de muitos modos, não em ver-
excludat; taëfiu, vilu, auditu, guliu,›vel odoratu per- dade*** por si mesmo, mas por um outro, que o toca e do qual recebe a im- ‹
cipi, necnon moveri pluribus modis, non quidem a '=Hit
u. ¡!?-*:f\¬'fz1_'w-¬'9l10:~¶'r:-:,:'
I¶';fr --;‹ ›_q“,¬l:
pressão****. Pois, ter a força de mover-se a si mesmo, de sentir e de pensar, de
\.r

leiplo, led ab alio quopiam a quo tangatur : namque Í


2.
..
uzq
modo algum julgava pertencer ã natureza do corpo. Ao contrário, ficava antes
habere vim leiplum movendi, item lentiendi, vel co- G admirado
. . ,
de encontrar
,. ,
tais faculdades em certos corpos. 1, (F‹' .› / ' z
gitandi, nullo pafio ad naturam corporis pertinere iz- * si je m y arretais Mó (ui ` ,J
zu
judicabam; quinimo mirabar potius tales facultates ¢...'
'E1'
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ou un ether Ç_ 1,., _ ,.. I
N-Í\j
ala verite «W 3., O Lg
I. ' \ I I I \ ' .". ._'l!\'.. , U.

in quibuldam corporibus reperiri. **** e z n . LL . Q I Q' '13 ' 3


T
et dont il reçoive I impression ,_,,z-'t ,,,›- ,, ¡,S
7 Quid autem nunc,ubi luppono deceptorem aliquem ter*~s;_»~;f_. s
:‹ “i `
to ti 'fra
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potentillimum, &, li fas eli dicere, malijgnum b, datâ :S ii.

/7/ Ora, eu, quem sou?*, agora que suponho haver um enganador pode-
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operâ in omnibus, quantum potuit, me delulille ? Pol-


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T;
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1
2 . rosissimo e, se é permitido dizer, maligno, que de propósito empenhou-se, o
lumne affirmare me habere vel minimum quid ex iis
quanto pôde, em me enganar em todas as coisas? Posso, acaso, afirmar que
omnibus, quze jam dixi ad naturam corporis perti- y-qi”-.P'F
w-:_
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-.{,._


i..
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possuo minimamente todas as coisas que há pouco disse pertencer à natureza -
9 vel amis (1" édít.).-- 24. nunc mangue (1" e'dit.). do corpo?
a. Voir t. III, p. 362,1. 8. * moi, qui suis-je
b. Voir t. V, p. 15o. i

40 41

il;
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"i".*§'
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fg, X.
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18-19- Mantrxrrouas. -- Sizcunna. 27 ._¿, 15-19, MEDi'rAÇÓEs - SEGUNDA MEDi'rAÇÃo 27


Ç2'-We..n'_-¡.,_'__\'i‹_i.i
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'-'Ê' '.
pt.

nere? Attendo, cogito, revolvo, nihil occurrit; fatigor ¢

Presto atenção, penso, repenso e nada ocorre, canso-me de repetir em vão as


eadem frulirà repetere. Quid verö ex iis quae animaa “ff
nvÂ- L.'.\
"r`Ji ` \.'
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mesmas coisas.
tribuebam? Nutriri vel incedere? Quandoquidem ."'fÍ"`Ê_

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Lãäip;
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J:z
Na verdade, quais delas eu atribuía à alma? Vejamos se algumas estão
jam_corpus non habeo, ha=:c quoque nihil funt nili
em mi'm**:: alimentar-me e andar? Como já não tenho corpo, já não são mais
._

figmenta. Sentire? Nempe etiam hoc non fit fine cor- __.


.-
que ficções. Sentir? Ora, isto também não ocorre sem corpo e, muitas coisas
pore, dt permulta fentire vifus fum in fomnis qua: -.t-\
i.

'P pareceu-me sentir em sonho de que me dei conta, em seguida, que não sentlra.
deinde animadverti me non fenlille. Cogitare? Híc .fiz-ztefi
Eensar? Encontrei: há o pensamento e, somente ele nao pode ser separado de

"Í'-.'
¡:. 'z
il»

invenio : cogitatio eli; hac fola a me divelli nequit. " -


PJ.:
I ..
2:/

4
,.

mim. “ irjz, (___.f_\ i i"' Q, \,¬ 5 ׬
Ego fum, ego exílio; certum eli. Quandiu autem? rf
' Eu, eu sou, eu, eu existo, isto é certo. Mas, por quanto tempo? Ora, en-'f¿ç(l,
Nempe quandiu cogito; nam forte etiam fieri pollet,
quanto penso, pois, talvez pudesse ocorrer também que, se eu já não tivesse
li cellarem ab omni cogitatione, |ut illico totus elle \r¡z7=":=
If-..
1.. nenhum pensamento, deixasse totalmente de ser, Agora, não admito nada que
delinerem. Nihil nunc admitto nifi quod necellario lit
TV
i i?? não seja necessariamente verdadeiro: sou, portanto, precisamente, só coisa
verum; fum igitur praecife tantüm f@MXc'É› id P.

eli, mens, live animus, live intelleéius, 1ve ratio, 1;.-. .


O
P%@“Sa“t@
ção eu antes ignorava. Sou, porém, uma coisa verdadeira e verdadeiramente Ó
voces mihi priüs fignificationis ignotae. Sum autem
L
¡.
ø
¡_

» existente. Mas, qual coisa? Já disse: coisa pensante. ' `*""`


res vera, dt vere exiliens; fed qualis res? Dixi,-co- E, que mais? Usarei minha imaginação para ver se não sou algo
gitans. ' mais***. Não sou a compaginação destes membros, chamada de corpo humano; '
Quid prrzeterea P Imajginabor : non fum compages não sou também um ar sutil, infuso nestes membros ; não sou um vento, nem "'
illa membrorum, qua: corpus humanum appellatur; um fogo, nem um vapor, nem um sopro, nem algo que eu possa formar em fic-
non fum etiam tenuis aliquis aër iliis membris infu- ção, pois, supus que tais coisas nada eram. Permanece, porém, a afirmação: eu .j 'S
fus, non ventus, non ignis, non vapor, non halitus, mesmo sou, no entanto, algo.
non quidquid mihi fingo :fuppofui enimilia nihil elle. ** et voyons s 'ii y en a quelques-uns qui soient en moi
Manet pofitio : nihilominus tamen ego aliquid fum. *** pour voir si je ne suis point encore quelque chose de plus , r ,_., ,_ i
' Fortaliis veró contingit, ut hêec ipfa, quas fuppono I.-
ãq,..)<1íí,‹___r`.. _:_.IJ.-\- .¬‹ 'ti I: .

3.

nihil elle, quia mihi funt ignora, tamen in rei veri-


'‹_.
fl'
/8/ Em verdade, talvez essas inesmas coisas que suponho nao ser, por-
. -
tate non different ab eo me quem novi? Nefcio, de F.
que me são desconhecidasrnão difiramllporém, na verdade da coisa, do eu que "
hac re jam non difputo _: de iis tantüm quze mihi nota
conheci? Não sei, não discuto agora a respeito e só posso julgar acerca das coi-
funt, judicium fegre poffum. Novi me exiliere; quêero
sas que me são conhecidas. Conheci que existo e procuro quem sou eu, esse
quis fim ego ille quem novi. Certiliimum eli l1ujus fic "o
""'J
.,.1I."'
i-‹.._nr
"l -f'

eu que conheci. E, é certíssimo que, assim precisamente tomado, o conheci-


prmcife fumpti notitiam non pendere ab iis qu:-e exi- ¬'-r=“frz*H¬"i-=~r*-'¬f=".i*-z'"¬1r"'¬w-z ‹=¬'f.-
mento de mim mesmo não depende das coisas cuja existência ,
z3 Manet] maneat jr" édi`t.). .' i i_ (' ¬q,_ [_ ( f ')z_-__\_ ll ) _ ___ _.1__(_ ,‹1._¡/` l Cxz '__ƒ
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¡_"(l; J _//L 1 - j/ t'
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42 43 .,

fl*°*ipr-uzfrww'
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1

28 OEuvnEs DE Dsscnnrzs. zs-z°. ,za


`.
22 _ OBRAS DE DEscARTi.=.s 19-20
'i í:

ítere nondum novi ; non igitur ab iis ullis, quà ima- ainda não conheço, nem, portanto, daquelas que figuro em minha i'magi'nação*.
natione effingo. Atque hoc verbum, efiingo, admonet E, essa palavra figuro chama a atenção para o meu erro: pois, estaria
me erroris mei : nam fingerem revera, li quid me eífe uu-

- deveras figurando uma ficção, se deveras imaginasse que sou algo, por que
imaginarer, quia nihil aliud cfi: imaginari quam rei ¡rn_g_g_i_i}§r não e'__senão contemplar a_fig_ura,ou a im_ag_e_rn_de uma __coisan.ç_o¿:¿qral.
'‹:
corporeze figuram, feu imaginem, contemplari. Jam Mas, agora estou certo de que sou; mas, ao mesmo tempo, pode ser que todas
5

autem certo fcio me eífe, | fimulque fieri pofl`e ut i'.'-


~i

essas imagens e, em geral, tudo o que se refere à natureza do corpo, não pas-
'E
omnes ifize imagines, & generaliter quaecunque ad sem de um sonho. Feitas essas advertências, não pareço menos inepto, ao di-
corporis naturam referuntur, nihil fint| preter infom- zer: “usarei a imaginação para conhecer mais distintamente o que sou" do que
nia. Q_uibus animadverfis, non minus ineptire videor, dizendo “estou acordado e vejo algo verdadeiro, mas, como ainda não vejo com
dicendo : imaginabor, ut diftinãius agnofcam quif- suficiente evidência, vou dormir de propósito, afim de que os sonhos mo repre-
nam íim, quam fi dicerem : jam quidem fum exper- sentem de modo mais verdadeiro e mais evidente". De sorte que, reconheço que
reâus, videoque nonnihíl veri, fed quia nondum nada do _quep_osso compreender com q ajuda da imaginação pertence ao co-
video fatis evidenter, datâ operâ obdormiam, ut hoc nnecimento que tenho de mim. E, para que a mente possa perceber distinta-
ipfum mihi fomnia verius evidentiufque reprwfen- "F"'F".'P‹'I?U.f
mentieisuai prdpria natureza, é preciso muito cuidado em mantê-la afastada da
tent. Itaque cognofco nihil eorum quze poíium ima- imaginação.
ginationis ope comprehendere, ad hanc quam de me * ímagínatione ( Alq, ll, pag. 185). ATimprime por erro imanatíone
habeo notitiam pertinere, mentemque ab illis dili- Í
gentiflime efi"e avocandam, ut fuam ipfa naturam í / 9/ Mas, que sou, então? Coisa pensante. Que é isto? A saber, coisa que
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quam difiinëtiflime percipiat. í duvida, que entende, que afirma, que nega, que quer, que nao quer, que imagina
9 Sed quid igitur fum? Res cogitans. Quid eíi. hoc? I
também e que sente. Não é certamente pouco, se essas coisas em conjunto me
"_"'“-"'-'-¡-Iun..i_.-.--

Nempe dubitans, intelligens, afiirmans, negans, vo- ¿_ pertencem. _


lens, nolens, imaginansquoque, & fentiens. E, por que não pertenceriam? Não sou eu mesmo que, há pouco, pus em
Non pauca fanè haac funt, Ii cunãa ad me perti- d_i_]vida quase todçaqsflas coisas; que, no entanto, entendo algo ; que afirmo que só
neant. Sed quidni pertinerent? Nonne ego ipfe fum 1
issd é verdadeiro e nego as outras coisas; que desejo saber outras coisas, que
qui jam dubito ferè de omnibus, qui nonnihíl tamen não quero ser enganado, que i_ir¿ê@n_o outras até involuntariamente e também
intelligo, qui hoc unum verum effe atfirmo, nego eze- '\
fl ue P._.._...._._-
ercebo outras como se elas proviessem dos sentidos? Qual dessas coisas
tera, cupio plura noífe, nolo decipi, multa vel invitus nao e tao verdadeira, j
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imaginor, multa etiam tanquam a fenfibus venientia I
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zz-zz. Mi-:oiTATioNi-:s. -- Sacuivozi. 29 f,t¿o_-22.1 Miâoimçoiâs - SEGUNDA Meoir/›.çÀo 29


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miam, quamvis etiam is qui me creavita, juantum in


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- mesmo que eu esteja sempre dormindo e que, quem-me criou faça tudo o que
fe efi, me deludat, quod non | xeque verum lit ac me P3'
na
está em seu poder para me enganar, - quanto é verdadeiro que sou? Qual delas
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elfe? Quid eli quod a mea cogitatione diftinguatur? s'4q‹ ,


distingue-se de meu pensamento? Qual pode dizer-se separada de mim mes-
Quid eli quod a me ipfo feparatum dici poliit? Nam mo? Pois, que sou eu quem duvida, quem entende, quem quer é tão manifesto,
quod ego lim qui dubitem, qui intelligam, qui velim, que já não é preciso nada mais para tornar a explicação mais evidente.
tam manifeftum eli, ut nihil occurrat per quod evi- Mas, em verdade, eu também sou o mesmo que imagina, pois, ainda que,
dentius explicetur. Sed veró etiam ego idem fum qui segundo supus, nenhuma coisa imaginada seja verdadeira,|aipróprialforça def `
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imaginor; nam quamvis forte, ut fuppofui, nulla _9,_.l_____...__«__i>_____i>___
ima inar, todavia, existe deveras e faz arte de meu ensamento. Finalmente, .
prorfus res imaginata vera lit, vis tamen ipfa ima- eu sou o mesmo que sente e percebe coisas corporais como por intermédio dos
ginandi revera exiftit, & cogitationis meze partem sentidos, por exemplo, vejo agora a luz, ouço o ruido, sinto o calor. Essas apa-
wíà-_¿ \.

facit. Idem denique ego fum qui fentio, five qui rêncías, dirão, sao falsas *, já gue durmo. Que assim seja”. Parece-me, toda- ,
res corporeas tanquam per fenfus animadverto: vi- F. via ue vejo, ouço, aque o-me e isto não pode ser falso. Isto é o que em mim _
delicet jam lucem video, ltrepitum audio, calorem ._
se chama propriamente sentir, o que, tomado assim, precisamente, nada mais e
fentio. Falfa hac funt, dormio enim. At certe vi- jtlfF
.*~__r_`g,__;«i'-r.w'_E,iv-l2.?_',?¡r_|?v'fi~t,1`¡,›¿, _,'.
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do que pensar.
dere videor, audire, calefcere. Hoc falfum elfe non `‹
à partir do que, começo sem dúvida a conhecer um pouco melhor quem i
potefl; hoc eli proprie quod in me fentire appellatur; sou. ,
atque hoc przecife lic fumptum nihil aliud eli quam * Mais l 'on me díra que (ces apparences sont fausses)
cogitare. ** Qu 'il soít ainsi
Ex quibus equidem aliquanto melius incipio nolle *** toutefois
quifnam lim; l° fed adhuc tamen videtur, nec poífum
abftinere quin putem, res | corporeas, quarum ima- 25 /10/ Entretanto,ainda me parece e não posso abster-me de crer que as
gines cogitatione formantur, «St quas ipli fenfus explo- coisas corporais, cujas imagens se formam por meu pensamento e que os pró-
rant, multo diftinãius agnofci quam illud nefcio quid prios sentidos exploram, são conhecidas por mim muito mais distintamente do
mei, quod fub imaginationem non venit: quanquam Í.”
que esse algo de mim que não cai sob a imaginação. Embora seja seguramente
profeãto lit mirum, res quas animadverto elfe dubias, de admirar que coisas que percebo sendo duvidosas, desconhecidas, estranhas
ignotas, a me alienas, difiinãius quam quod verum a mim, sejam por mim compreendidas mais distintamente do que o que é verda-
eli, quod | cognitum, quam denique me ipfum, a me deiro, do que é conhecido, do que eu mesmo, afinal.
comprehendi. Sed video quid fit : gaudet aberrare Mas, vejo o de que se trata: rriiriha mente compraz-se em andar fora do
mens mea, necdum fe patitur intra Veritatis limites caminho e ainda não se contem deritro dos limites da verdade. Logo, afrouxe-
cohiberi. Elfo igitur, «St adhuc femel laxiflimas habe- mos um momento as rédeas,
a. Voir t. V, p. 151.

46 47
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30 Olšuvmzs oi: Dizscânrtzs. zz-za. -


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-_,› 30 , /OsizAs oe DascAizTi=.s /I 22-23,


nas ei permíttamus, ut, illis paulo poli opportune re- V` -›-
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duéiis, facilius fe regi patiatur.


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afim de que, em seguida, ao puxá-las pouco a pouco elapropriadamente, seja
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" Conlideremus res illas qua-: vulgo putantur omnium l mais fácil dirigi-lia. ,, ,,
¿h¡._U_;¢v\jili¬l0 ÔVR/ Ufifñ'
diliinãiillime comprehendi : corpora fcilicet, quae tan-
gimus, quae videmus; non quidem corpora in com- l /11/ Consideremos, pois, as coisas cuja compreensão se crê vulgarmente
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muni, generales enim iliae perceptiones aliquanto
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seja de todas a mais distinta, a saber, os corpos que tocamos, que vemos, mas
magis confufaa elfe folent, fed unum in particulari.
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não por ceito os corpos naquilo que têm de comum, pois, essas percepções ge-
Sumamus, exempli caufâ, hanc-ceram : nuperrime ex néricas costumam ser confusas e, sim, um corpo em particular. .,
favis fuit eduéia; nondum amilit omnem faporem fui lTomemos, por exemplo, esta cera. Foi retirada faz pouco dos favos, ainda
mellis ; nonnihíl retinet odoris florum ex quibus col- não perdeu todo Q saxboii `di"›ciiiël, retém um pouco do aroma das flores de onde a /
3
recolheram ; sua cdr, figura, tamanho são inanifestos ; é diiiáffria, ê fácil toca-la É
leãfl CÍÍJ ejus coflor, figura, magnitude, manifelia ii

funt; dura eli, frigida eli, facile tangitur, ac, li arti-


._'.. e, golpeada com os dedos, produz um certo šom ; está nela presente tudo o que J/
culo ferias,_emittet fonum ; omnia denique illi adfunt
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parece exigido para que o conhecimento de um corpo seja distinto. “Mt r" . .
quze requiri videntur, ut corpus aliquod poliit quam
112/ Mas, eis que, enquanto falo, ela é levada para perto do fogo: o que
diliinšiillime cognofci. 'Z Sed ecce, dum loquor,igni 15 restava de sabor se desvanece, o aroma se dissipa, a cor muda, desfaz-se a
admovetur : faporis reliquize purgantur, odor expirar,
figura, o tamanho aumenta, torna-se líquida, fica quente, pode apenas ser toca-
color mutatur, figura tollitur, crefcit magnitudo, fit
da e, se a golpeio, já não produz nenhum som. A mesma cera ainda remanes-
liquida, fit calida, vix tangi potefi, nec jam, li pulfes,
ce? Deve-se confessar que remanesce, ninguém o nega, ninguém pensa de
emittet fonum. Remanetne adhuc eadem cera? Rema-
outra maneira.
nere fatendum eli; nemo negat, nemo aliter putat. :zo Que havia nela, poitanto, que era compreendido tão distintamente? Nada,
Quid erat igitur in ea quod | tam diliinéie comprehen- por certo, do que eu atingia pelos sentidos, pois, tudo o que caía sob o gosto ou
debatur? Certe nihil eorum qua: fenlibus attingebam; o olfato ou a vista ou o tato ou o ouvido já se modificou: e, a cera remanesce.
nam quaecunque fub gulium, vel odoratum, vel vifum, Talvez fosse aquilo em que estou pensando agora, isto é, que a cera, ela
vel taãium, vel auditum veniebant, mutata jam funt : mesma, não era, decerto, a doçura do mel, nem a fragrância das flores, nem a
remanet cera. 25 alvura, nem a figura, nem o som, mas um corpo que há pouco se me deparava
Fortaflis illud erat quod nunc cogito : nempe ceram sob aqueles modos e, agora, sob outros, diversos dos primeiros. E, que é preci-
ipfam non quidem fuilfe ifiam dulcedinem mellis, nec -5
I

samente o que imagino, quando a concebo dessa manei'ra*? Prestemos


tlorum fragrantiam, nec ifiam albedinem, nec figu- »

* lorsqueje la conçois en cette sorte


ram, nec fonum, fed corpus quod mihi apparebat
paulo ante modis iliis confpicuum, nunc diverlis. Quid 3o FÍGFÊÍEFWHI
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eli autem lioc przecife quod fic I imaginor? Atrenda- ø

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mus, &, remotis iis quae ad ceram non pertinent, - .\_z›'Qz'* *"`¿ 5°/ `\/-"I,j'J'›:'§
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atenção e, removendo todas as coisas que nãojpeitencem à cera, vejamos o/Í


videamus quid fuperlit : nempe nihil aliud quam ex-
que resta: nada além, com efeito, do que algojextensdjflexivel,jmudável. Que é, U
tenfum quid, flexibile, mutabile. Quid veró eli hoc
em verdade, esse algo flexível, mudável? Não será o que imagino, isto é, que
flexibile, mutabile? An quod imaginor, hanc ceram cx W??-_UV.
4!'
rx-4
i'1'°'^21'“§' gi'
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_s'ãI-§;,lÍyif,.!*Íi‹"

ti?
^3 essa cera pode converter-se de figura redonda em figura quadrada e, desta, em
figura rotunda in quadratam, vel ex hac in triangu- H;
55'.
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triangular? De modo algum, pois, compreendo que ela ê capaz de inúmeras mo-
larem verti polfe? Nullo modo ; nam innumerabilium
dificações dessa ordem, as quais não posso, todavia, percorrer imaginando. i
ejufmodi mutationum capacem eam elfe compre- 'I

1
Logo, essa compreensão não pode ser alcançada pela faculdade de imaginar.
liendo, nec polfum tamen innumerabiles imaginando .F/fi'r;i",¢---'
percurrere; nec igitur comprehenlio lizec ab imagi- W

gl. /13/ Que é o extenso? Acaso sua própria extensão não nos é também L i
J \.

nandi facultate perficitur. '“ Quid extenfum ?Nunquid É desconhecida? Pois, na cera que se liqiefaz, ela fica maior, maior ainda, se a
etiam ipfa ejus extenlio eli ignota P Nam in cera liquef- a

cera fen/e e ainda maior, se o calor aumenta. E, meu juízo do que a cera é não
cente fit major, major in ferventi, majorque rurfus, seria reto, se 'não a pensasse suscetíve de admitir mais variedades, segundo a
li calor augeatur; nec reëie judicarem quid fit cera, extensão, do que eu jamais abarcaria pela imaginação. ""°`° * “"°`§*' 'Vi °« '-'-M. ot, 'W

nili putarem hanc etiam plures fecundiim extenfio- r Resta, portanto, que eu conceda não poder sequer imaginar o que esta
nem varietates ad|mittere, quam fuerim unquam ima- \

¬. cera é: o que só a mente percebe. Retiro-me a esta cera em particular, pois, ,em
ginando complexus. Supereli igitur ut concedam, me f
relação à_ cera, no que tem de comum, isto é ainda mais claro. Mas, ue é em
nequidem imaginari quid lit haec cera, fed fola mente verdade essa cera que só a mente pode perceber? Seguramente,
percipere; dico hanc in particulari, de cera enim in F.
que vejo, toco, imagino, a mesma, enfim, que desde o inicio, eu julgava que ela
communi clarius eli. Quanam veró eli haec cera, qua: fosse. Ora, o que se deve_ nqtar é que sua percepção ou a ação pelaguaié
non nifi mente percipitur? Nempe eajdem quam video, 28 É percebida* irão* éiiin ato de vefde tocarfdeiãginarie nuncao foi, embora
quam tango, quam imaginor, eadem denique quam ›
antes S oparecesse, masiuma inspeção só da mente, que podeyser impëneitãf-5
ab initio effe arbitrabar. Atqui, quod notandum eli, 'L
confus a' como antesera
----~_1Q
oujdaraje distintajpomoagoraé,segunddpresto «WW
me-
ejus perceptio non vilio, non taëiio, non imaginatio HOSOU mais aieflrãp às ¢°iSfiS.de.9i1.e§@ Coimêg J . *F "Q
eli, nec unquam fuit, quamvis prius ita vidéretur, fed *oiibien de l'action par Iaquelle on I 'aperçoit 'L ‹.i-i,i, ¿jc,¬j,¿,;z ,~,_.¿¿¬
folius mentis infpeãiio, qua-': vel imperfeëia elfe poteli
& confufa, ut prius erat, vel clara & diliinëia, ut /14/ Fico, em verdade, admirado com a grande propensão de minha
nunc eli, prout minus vel magis ad illa ex quibus *.
mente para os erros, pois, embora eu faça esta consideração em silêncio,
confiat attendo.
“Miror veró interim quam prona fit mea mens in
errores; nam quamvis ha-'zc apud me tacitus dz fine iz
3-4 Quid. . . mutabile ? manque (1" éa'it.). rétablz' (second zírage).

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f El N”. da \_.W/l/U4»/\ooiC> “¿“‹¿^-/1..lz'\ t/
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52 .OEuvnEs DE Dascnaras. z.,.zõ. Í :Í 22 Í,/Mago, \f`0 . nf«GILG .Qi'nf/I OBRAS DE Dascâares 24-25.
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voce conliderem, hzereo tamen in verbis iplis, ii: lere


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É /de mim para comigo, tropeço, no entanto, nas palavras e sou como que engana-
decipior ab ipfo ufu loquendi. Dicimus enim nos
do pelo próprio uso da fala. Pois, dizemos ver a própria cera, se ela está pre-
I
| - ,,
I

videre ceram ipfammet, fi adlit, non ex colore vel ... -~ 1


sente, mas não dizemos que a julgamos presente a partir da cor e da figura.
figura eam adelfe judicare. Unde concluderem lia- Donde eu iria imediatamente concluir que a cera é, portanto, conhecida pela vi-
tim : ceram ergo vilione oculi, non folius mentis in- 5 1 'a
são do olho e não por uma inspeção só da mente, se acaso já não percebesse
fpeëiione, cognofci; nifi jam forte refpexilfem ex da janela homens transitando na rua. Segundo o uso, tanto quanto para a cera,
fenelira homines in platea tranfeuntes, quos etiam digo que os vejo eles mesmos. Mas, que vejo, além de chapéus e de trajes, sob
ipfos non minus ulitate quam ceram dico me videre. os quais podem se esconder autómatos? Julgo, porém, que são homens de
Quid autem video przeter pileos & vefies, fub quibus verdade*. É, assim, que o que acreditava ver pelos olhos, só compreendo pela
latere poflent automata? Sed judi|co homines elfe. f_a_çu_Idade de julgar que está em minha mente.
Atque ita id quod lputabam me videre oculis, fola judi- *vraish *S F* "`l É
candi facultate, qua: in mente mea eli, comprehendo.
15 Sed pudeat fupra vulgus fapere cupientem, ex for- /15/ Mas, quem deseja ir além do conhecimento vulgar, deve envergo-
mis loquendi quas vulgus invenit dubitationem quze- nhar-se de ir buscar razões de dúvida nas formas de falar, encontradas vulgar-
fiviffe; pergamufque deinceps, attendendo utrum ego mente. É preciso ir adiante e, indagar atentamente se eu percebia mais perfei-
perfeéiius evidentiufque percipiebam quid ellet cera, tamente e mais evidentemente o que a cera é, quando a percebi pela primeira
cum primum afpexi, credidique me illam ipfo fenfu vez, - acreditando conhecê-la pelo próprio sentido externo ou, ao menos, pelo
externo, vel faltem fenfu comniuni, ut vocant, id eli sentido comum, como é chamado, isto é, pela faculdade imaginativa - ou agora,
potentia imaginatrice, cognofcere P an verö potius depois de ter investigado mais cuidadosamente, tanto o que ela é, quanto o
nunc, poliquam diligentiiis inveliigavi tum quid ea modo como é conhecida?
lit“,tum quomodo cognofcatur É' Certe liac de re dubi- Seria certamente uma inépcia duvidar disso, pois, que havia de distinto na
tare elfet ineptum; nam quid fuit in prima percep- primeira percepção que um animal qualquer não pareça poder possuir? Na ver-
tione diliinfium? Quid quod non a_ quovis animali dade, quando distingo a cera de suas formas exteriores, como que a despindo
liaberi polfe videretur? At veró ci`im,ceram ab exter- de suas roupas, considero-a nua, tal como deveras é. E, conquanto ainda possa
nis formis difiinguo, de tanquam veliibus detraíiis ocorrer um erro em meu juizo, não o posso perceber, contudo, sem a mente
nudam confidero, lic illam revera, quamvis adhuc er- humana.
ror in judicio meo effe pofiit, non polfum tamen fine
humana mente percipere.
3 ipfammet, li] ipfam. ctli (i" tidi`t.),corri'gé (second th-age).
4 figurà] cx figurâ(1"édi`t.).
a. Voir t. V, p. i5i.

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zâ-zõ. Mi=.DiT1i'rioNi:s. - SECUNDA-. ; _; 25-26. f Mi'-;i>i1¬AÇÓBs - SEGUNDA MEDiTAÇÃo 22


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1 /if '
le Quid autem dicam de liac ipfa mente, live de me - i

i/16 / Mas, que dizer dessa mente ela mesma, isto ê, de mim mesmo?
i pfo .F Nihildum enim aliud admitto in me elle prater
ltnentem. Quid. inquam, ego qui hanc ceram videor 3° , Pois, ainda não admito que haja nada em mim, exceto a mente. Que dizer sobre
mim, pergunto, eu que pareço perceber esta cera tão distintamente? Acaso não
tam difiinëie percipcrc É Nunquid me ipfuni non tati-
“ conheço a mim mesmo, de modo não apenas muito mais verdadeiro, muito mais
tiim multo verius, multo certius, fed etiam multo
, certo, mas, também, muito mais distinto e mais evidente?
difiinfiius evidentiufque, cognofco? Nam, fi judico
Pois, se julgo que a cera existe porque a vejo, resulta certamente, de ma-
ceram | exiliere, ex eo quod lianc videam, certe muito ' /
. neira muito mais evidente, que eu tambem existo por isso mesmo que a vejo.
evidcntius eiiicitur nie ipfam etiam exiliei-‹¬.. cx co
Pois, pode acontecer que o que vejo não seja verdadeiramente cera; pode
ipfo quod lianc videam. Fieri enim poteli ut hoc quod
É acontecer que eu sequer tenha olhos com que veja algo, mas, quando vejo ou (o
video non vere lit cera; licri poteli ut nc quidem ocu-
que não distingo) pensoler, é de todo impossivel queeu, que_penso, não seja
los liabeam, quibus quidquam vidcatur; fell fieri plane
algo. Por semelhariteirazqão, sejulgo que a ceia é porque a toco, de novo se dirá
non poteli, cum videam, live (quod jam non diflin-
Ê.,':“\' Lóinësmo, a_sab_er, jqqgeq sou._ Se o julgo porque a imagino ou por outra causa
guo_"i cum cogitem me videre, ut ego ipfe cogitans ,_-,_×*`~° qualquer, o mesmo se dirá. E, isso mesmo que observo em relação à cera pode
non aliquid fim._Simili ratione, fi judico ccrani clic, fiser aplicado a todas as outras coisas situadas fora de mim. _ L
ex eo quod hanc tangam, idem rurfus eliicictur, vide- \
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licet me elfe. Si ex eo quod imaginar, vel quavis alia /17 / Mas, continuemos: se a percepção da cera me pareceu mais distinta
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ex caufa, idem plane. Sed «S1 lioc ipfum qiiod de cera depois de a conhecer não apenas pela vista ou pelo tato, mas por muitas cau-
animadverto, ad reliqua omnia, qua: funt extra me sas, com quanto mais distinção sou agora conhecldo, já que todas as razões
polita, licet applicare. " Porro autem,li magis difli ncia que podem auxiliar na percepção da cera ou de qualquer outro corpo provam
vifa fit cera perceptio, pofiquam -mihi, non cx folo também, e melhor, a natureza de minha mente! Mas, além disso, são tantas as
vifu vel tafiu, fed pluribus ex caulis innotuit, quanto outras coisas que estão na própria mente e que podem tornar o seu conheci-
diliinfiius me ipfuin a me nunc | cognofci fatendum 31 mento mais distinto que, as que emanam do corpo e chegam até ela parecem
eli, quandoquidem nulla rationes vel ad cera, vcl apenas dignas de menção. i
ad cujufpiam alterius corporis perceptionein pollint
juvare, quin eadem omnes mentis mea naturam me- /18.' Eis-me, afinal, naturalmente de volta aonde
lius probent! Sed de alia infuper tam multa funt iii
ipfa mente, ex quibus ejus notitia diliinciior reddi
poteli, ut ea, qua ex corpore ad illam emanam. viv
numeranda videantur.
“Atque ecce tandem fponte fum reverfus eo quo
ig diliinfiaj difiinãiè (r" e'dit.].

54 55
Q'

34 OEUvni:s na Di-:scriivri-:s. zeze. 24 . OBRAS DE Diascâizres 26-28.


volebam; nam cum | mihi nunc notum fit ipfamet cor-
queria, pois, c sçorg@*sã@qqgQdos não propri-
2›

pora, non proprie a fenlibus,vel ab imaginandi facul- ni

tate, fed a folo intelleéiu percipi, nec ex eo percipi


-

ampnte pelos sentidoqou pela faculdad§_de_imaginar, mas, peloqintejqectq so-


quód tangantur aut videantur, fed tantiim ex eo quod
n_~§r¿t§_,*e, nâci_são per‹:eii¬idE›§`póTšeiem tocadóšotii/i§ÍÕ7sÍ`mas,'unicamente
intelligantur aperte cognofco nihil facilius aut evi- 5 _ porque entendidos, conheço de modo manifesto que nada pode ser por mim
dentius mea mente pofl`e a me percipi. Sed quia tam percebido mais facilmente e mais evidentemente do que minha mente. Mas,
porque o costume de uma opinião inveterada não pode ser de pronto abandona-
cito deponi veteris opinionis confuetudo non poteli,
do, é conveniente que aqui me detenha para, através de uma meditação dura-
placet híc conliliere, ut altius hac nova cognitio me-
doura, fixar mais fundo em minha memória esse novo conhecimento _
moria mea diuturnitate meditationis ínfigatur.
L\> ‹>(\x,çÀ_ JV' (D bw Á
u
,I ,,,,,,.j¿,oo›i2,¿, Qíimdwyli
_

i ipfamet] ipfam, 8: (1" édít).

56 57
14 OEUVRES or. Diascrinrizs. 5.4 É

SYNOPSIS
SINOPSE

TERCEIRA MEDITAÇÃO

Na Terceira Meditação. expus sufiei'entem.en.te, ao que me parece,


meu principal argumento para provar a e.vístênci'a de Deus. Entretanto, a
fim de que os ânimos dos leitores se ciftistasseni ao máximo dos sentidos, não
qiu`s usar aqui comparações obtidas das coisas corporais. Por isso, talvez
In tertzií Medz°tatz'one, meum prwczjvuum argumentam
ad prolmndunz Dez' | ext°/i'entz`am fatis fufi, ut_nzz'/zt'i-'z'de- restem mur`tcrs obseuridades que espero sejam por completo elíinuiadcis, ul-
tur, e.vp1z`cuz'. Verumtamen, quia, ut Leöiorum ani'mo.i ZU
teriormente, nas respostas' às objeções. E.veniplo, entre outros, o niodo como
quànz maxima a /en/ilzus abducerem, nullís íbícompara- a idéia, que está em nós, de um ente sumrunente perfeito, tem tanta realidade
tíonibus a rebus corporez`sjoetz'tz`s 1-'oluí utí, mult‹:eforta__//'e objetiva. isto é, participa por representação de tantos graus de ser e de per-
ol›fcuri'tates renzanferunt, fed quae, ut fivero, pofiea in feição*, que ela só pode ser por uma causa sumamente perfeita. E, isto e
I

refjvon/Íoníbus ad ol›jec?z'ones plane tollentur; ut, inter ilustrado pela cornparação com uma máquina muito perfeita, cuja idéia está
cceteras, quomodo idea entísfumnze ,vet:fec'li', qua* in nobís 25 na mente de algum artifice. Pois, assim como o artifício objetivo dessa idéia
ç/Í, tantum liabcat rcalitatzis objedlívce, ut non prfiit non deve ter alguma causa, - ou ci clêiicia de seu artiflce ou de outrem, de quem
efie a caufí_/imzme perfediâ, quod íbz' z°l1u_/lratur compa- fi wecebeii, - da mesmo maneira, ci
ratíone maclzince valde petfeílce, cujas idea cfi in mente c'est-à-dire participe par représeiztatioit à tant de degrés d 'être et de per-
alz'cu_¡'us art;'ficz`s,' ut enim arti`fz`ci`unz ol{¡'e¿?z'i'un1 /zu_¡'u.i~
fection
idea: debet Ízabere alíquam cau/am, nempe_fcz'entz'am liuzui 3
artt'fici's_, rel alícujus alterius a quo illam acceptt. it.:

58 59

_ i.______
1?

4-s. MEm'rA'r1oNEs. -- Smovsrs. 1; 4-5 _ °


MEDWAÇÓES - S¡NoPsE s 15

Ídfifi DCI., 9115-” 1." 71055 É/¡'› 710” P0”,/Í 710” babe” Deum idéia de Deus, que está em nós, não pode não ter Deus ele mesmo por sua
ig/'um pro caufâ. Ca¿,¿¿,.

`\

eo I 61
34 OEUvREs DE Desczmres. zeze.

,_..4_-. ~._i¡›.@›‹_.-gy.

TERCEIRA MEDITAÇÃO

\
SOBRE DEUS: QUE ELE EXISTE

11/ Agora, de olhos fechados, o ouvido tapado, distraídos todos os meus


I Meomfrio Ill. sentidos, apagarei também de meu pensamento as imagens de todas as coisas
corporais ou, como isto é decerto apenas possivel, passarei a tê-las por nada,
De Deo, quod exfflatä como vãs e falsas e, em solilóquio comigo mesmo, inspecionando-me mais a
fundo, esforçar~me-ei por me tornar paulatinamente mais conhecido de mim e
'Claudam nunc oculos, aures obturabo, avocabo mais famiiiaramim mesmo. /s -_, s
omnes fenfus, imagines etiam rerum corporalium Eu, eu sou coisa pensante, isto é, coisa que duvida, que afirma, que
omnes vel ex cogitatione meâ delebo, vel certe, quia nega, que entende poucas e ignora muitas coisas, que ama, que odeía*, que
hoc fieri vix potefl, illas ut inanes ri: falfas nihili pen- l5 , quer, que não quer, que imagina também e que sente. Pois, como antes fiz no- «-5141
dam, meque folum alloquendo 6; penitius infpi- `r far, embora as coisas que sinto e imagino fora de mim, talvez não sejam nada E»
ciendo, meipfum paulatim mihi magis notum 8: fa- ali, todavia, os modos de pensar que chamo sensações e imaginações,
miliarem reddere conabor. Ego fum res cogitans, id
* qui aime, qui hait
eít dubitans, affirmans, negans, pauca intelligens,
multa ignorans, volens, nolens, imaginans etiam 8:
fentiens; ut enim | ante animadverti, quamvis illa qua:
fentio vel imaginor extra me fortaffe nihil fint, illos
tamen cogitandi modos, quos fenfus 8; imaginationes
- to III] tertia (1" e'dz`t.).

a. Voir t. Ill, p. 29;, I. 25.

62 63
.zi-
wãl
~.7.m|

28-29. _ MEo|"rAÇÓE.s - TERCEIRA MEr›rrAÇÃo 95


zz_zg. Meormrrones. - TERTIA. 35
appello, quatenus cogitandi quidam modi tantum na medida em que são somente certos modos de pensar, tenho certeza de que
1-I n í- Eílíí'-'íu

funt, in me eíle fum certus “. eles estao em mim.


Atque his paucis omnia recenfui qua vere fcio, vel E, essas poucas coisas por mim recenseadas sao todas as que verdadei-
faltem qua me fcire hac | tenus animadverti. 2 Nunc ramente sei ou, pelo menos, que me dei conta de saber até agora.
circumfpiciam diligentiüs an forte adhuc apud me i\`”' \r<,{l‹z;×r¿.»› d+ uJ>3/ipšø «L el-L ×f~U1°'°¿¿
alia fint ad qua nondum refpexi. Sum certus me elle /2/ Farei, agora, uma inspeção ainda mais cuidadosa para saber se acaso
rem cogitantem. Nunquid ergo etiam fcio quid requi- não há em mim outras coisas' que, por ora ainda não percebi. Estou certo de que
ratur- ut de aliquà re fim certus ? Nempe in hac primâ
sou coisa pensante. Não saberei, portanto, também, qual o para que
cognitione nihil aliud efi,_ quàm clara quadam &
fique certo de alguma coisa? Com efeito, nesse primeiro conhecimento nada há
diíliníta perceptio ejus quod aflirmo; qua fane non
senão'umia`pe/rcepciâo clara e distinta do que afirmo. Isto não seria seguramente
fufficeret ad me certum de rei veritate reddendum, ii
suficiente para me tornar certo da verdade da coisa, se jamais pudesse aconte-
poífet unquam eontingere, ut aliquid, quod ita clare
cer que algo por mim perceb'do assim clara e distintamente, fosse falso. E, por
& difiinãe perciperem, falfum eífet; ac proinde jam
videor pro regulâ generali polTe itatuere, illudomne conseguinte, parece-me que já posso estabelecer como regra geral que: é ver-
. . z ú z m*

eífe verum, quod valde clare & difiinâeq percipio. dadelro tudo o gue percebo muito clara e muito distintamente.
3 Verumtamen multa prius ut omnino certa & mani-
fefia admifi, qua tamen poítea dubia eífe depre- /Sl Entretanto, muitas coisas admiti anteriormente como de todo certas e
hendi. Qualia ergo ifla fuere? Nempe terra, coelum, manifestas de que me dei conta depois que eram duvidosas. Quais eram elas,
fvdera & catera omnia qua fenfibus ufurpabam. pois? Eram o céu, a terra, as coisas siderais e todas as outras que obtinha pelo
Ó_uid autem de illis clare percipiebam? Nempe ipfas uso dos sentidos. Mas, que percebia eu claramente em tais coisas? Percebia
talium rerum ideas, five cogitationes, menti mea ob- que as próprias idéias ou pensamentos de tais coisas deparavam-se à minha
verfari. Sed ne nunc quidem illas ideas in me|eíi`e mente. Mas, sequer agora nego que essas idéias estejam em mimq
inficior. Aliud autem quiddam erat quod affirmabam,_, Havia ainda outra coisa queen afirmava:-ie'Éji|e,_|'3_c›r eieito de um hábito
quodquel etiam ob confuetudinem credendi clare me de crer, julgava nelas perceber claramente mas, na verdade, não percebia, - e
percipere arbitrabar, quod tamen revera non percipie- era qqejaviagoisas fora de mim, das quais essas idéias procediam e às quais
bam : nempe res quafdam extra me eífe, a quibus idea eram de todo semelhantes. E, nisto, eu ou errava, ou se julgava por certo verda-
iíla procedebant, & quibus omnino fimiles erant. Atque
qdeiro, não o fazia por lorçavde minha percepção." U ,Q ma ,Mir
hoc erat, in quo vel fallebar, vel certe, li verum judi-
cabam, id non ex vi mea perceptionis contingebat. do š-Qf'52;U/\
4 Quid vero ? Cüm circa res Arithmeticas vel Geome- /4/ Ora, quando acerca das coisas aritmeticas e geomé-
a. Même remarque que ci-avant p.- 24, note d-
64
=z 65
_; 6 OEuvREs DE Descziitrizs. za-sfl. 26 OBRAS DE DESCARTES 29-30.

tricas aliquid valde limplex & facile conliderabam, ut


tricas, eu considerava algo muito sirriples e fácil como que dois e três juntos fa-
quod duo & tria limul junfia lint quinque, vel limilia,
zem cinco e coisas semelhantes, acaso eu não as intuia, elas ao menos, de
nunquid faltem illa fatis perfpicue intuebar, ut vera
elle atlirmarem? Equidem non aliam ob caufam dc iis modo suficientemente claro para afirmar que eram verdadeiras? E, por certo que
dubitandum elle poltea judicavi, quam quia venicbat se, depois julguei que elas podiam ser postas em dúvida, não foi por outra causa
in mentem forte aliquem Deum talem mihi naturam senão por me vir à mente que algum Deus podia me haver dado uma natureza
indere potuille, ut etiam circa illa deciperer, quzc tal, que eu fosse enganado também acerca das coisas que me pareciam as mais
manifelliflima viderentur. Sed quoties hac przecon- manifestas. Mas, toda vez que essa preconcebida opinião sobre a suprema po-
cepta de fummâ Dei potentia opinio mihi occurrit. tência de Deus me ocorre, não posso deixar de confessar que, se acaso quises-
non poffutn non fatcri, liquidem velit, liicilc illi cllic se, fácil lhe seria fazer que eu errasse tarribém nas coisas que creio ver por in-
eiiicere ut errem, etiam in iis qua me puto mentis tuição como as mais evidentes aos olhos da mente. Toda vez, ao contrário, que
oculis quam cvidentillime intueri. Quoties vero ad me volto para as coisas elas mesmas que julgo perceber muito claramente, sou
ipfas res, quas valdelclare percipere arbitror, mc por elas persuadido de modo tão completo que, espontaneamente, prorrompo a
converto, tam plane ab illis perfuadeor, ut fponte dizer: engane-me quem puder, nunca poderá fazer no entanto que eu nada seja,
erumpam in has voces: fallat me quifquis poteli, enquanto eu pensar que sou algo ou que alguma vez seja verdadeiro que eu
nunquam tamen efficiet ut nihil lim, quandiu | me ali- nunca fui, quando é verdadeiro que agora sou ou, talvez mesmo, que dois juntos
quid elle cogitabo; vel ut aliquando verum lit me a três fazem mais ou menos do que cinco, ou coisas semelhantes, nas quais
nunquam fuilfe, cum jam verum lit me elle; vcl forte reconheço manifesta contradição.
etiam ut duo & tria limul junãa plura vel pauciora
lint quam quinque, vel limilia, in quibus licilicet rc-
/5 / E, como não tenho por certo nenhuma ocasião de julgar que há um
pugnantiam agnofco manifeltam. 5 Et certecüm nullam
Deus enganador, pois, até agora não sei sequer de modo suficiente se há algum
occafionem habeam exiltimandi aliquem Deum elle
Deus, a razão de duvidar que depende só dessa opinião é muito tênue e, por
deceptorem, nec quidem adhuc fatis fciam utrum lit
aliquis Deus, valde tenuis &, ut ita loquar, Meta-
assim dizer, metafísica. Mas, para a eliminar ela também, tão logo a ocasião se
phylica dubitandi ratio eli, qua tantüm ex eâ opinione apresente, devo examinar se há um Deus e, se há, se ele pode ser enganador.
depender. Ut autem etiam illa tollatur, quamprimum Pois, na ignorância disso, não parece que eu possa jamais estar completamente
occurret occalio, examinare debeo an lit Deus, &_, li certo de nenhuma outra coisa. ‹;¬ a seje . =° U» *fe df»-Me v 4 e- *aa l'-=,-Â: ¬¬ ,,
lit, an poflit elle deceptor; hac enim re ignorata, non Agora, no entanto, a ord em parece exigir,
~› zàameotz i fzm ja-‹›.za,¬., F /7

videor de ullâ aliâ plane certus elle unquam polle. 27* lQ‹.0.(/1 ¿'{¢›‹-'Ã-4 ¿`u¡^ Ê,

Nunc autem ordo videtur exigere, ut prius omnes


q(`t¡¡(7_9 _,(,¡/¡,¬ /1×\/)‹'%¿§‹Ô-'
ii iis] his (1" ('d¡t.).
0% hat, ¿_Qg,,,_1/130 f2.á‹-»¢'L

66 . 67 6.6 fu»-¢ il:/ëôvfi ' ~7»)”^"'


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`* 30-31. , Msoirâçoiss - TERCEIRA MEoiTAÇÃo 37


:=.z-az. MEi›rrA'rior~iEs. - TERTIA. 37
meas cogitationes in certa genera dillrihuam, & in - e a fim de que possa ter ocasião de examinar isso, sem interromper a ordem
quibufnam ex illis veritas aut fal|litas proprie con- as de meditar que me propus e que consiste em passar gradualmente das noções
lillat, inquiram. 5 Quadam ex his tanquam rerum ima- que encontrar primeiro em minha mente às que possa encontrar depois* - que
eu comece por primeiramente distribuir meus pensamentos em certos gêneros, inves-
gines funt, quibus folis proprie convenit idea nomen : tigando em quais deles reside propriamente a verdade e a falsidade.
ut cüm hominem, vel Chimaram, vel Ccelum, vel An- * Et afin que je puisse avoir occasion d'examiner cela sans interrompre I'ordre de
gelum, vel Deum cogito. Alia veró alias quafdam méditer que je me suis proposé, qui est de passer par degrés des notions que je
praterea formas habent: ut, cum volo, cüm timeo, trouverai les premiéres en mon esprit à celles que ¡"y pourrai trouver par après
cum affirmo, cum nego, femper quidem aliquam rem
ut fubjeëtum mea cogitationis apprehendo, fed ali- /6/ Alguns desses pensamentossão com imageps dgcoisas e somente a
eles convem propriamente o nome d quando penso em um homem ou
quid etiam amplius quam iflius rei fi | militudinem co- numa quimera ou no céu ou em um anjo ou mesmo*em Deus.
gitatione compleãor; & ex his alia voluntates, five Outros, em verdade, possuem, além disso, certas outras formas, como quando
affeâus, 'alia autem judicia appellantur. quero, temo, afirmo, nego e neles apreendo sempre alguma coisa como sujeito de
' Jam quod ad ideas attinet, fi fola in fe fpeãtentur, meu pensamento mas, também, abarco com o pensamento algo além dessa similitude
nec ad aliud quid illas referam, falfa proprie effe non da coisa. E, destes, alguns são chamados vontades ou afectos e outros, juízos.
poffunt; nam live capram, five chimaram imaginer, * même
non minus verum eft me unam imaginari quam al- /7/ Agora, no que se refere às idéias, se consideradas em si mesmas e nao
teram. ° Nulla etiam in ipfâ voluntate, vel affeâibus, referidas às coisas a que se reportam, não podem ser propriamente falsas. Pois, quer
falfitas eft timenda; nam, quamvis prava, quamvis imagine uma cabra ou uma quimera, não é menos verdadeiro que tanto uma quanto a
etiam ea qua nufquam funt, poflim optare, non tamen outra são imaglnadas.
ideo non verum efi illa me optare. 9 Ac proinde fola
fuperfunt judicia, in quibus mihi cavendum efl ne /8/ E, também, não há que se temer nenhuma falsidade na própria vontade ou
3-, nos afectos, pois, embora eu possa almejar coisas más ou até coisas que não se en_- _
fallar. Pracipuus autem error ‹S¿j frequentiflimus qui contram em parte alguma, não é por isso menos verdadeiro que as almejo. ¿ Ã.: 4
poflit in illis reperiri, confiflzit in eo quöd ideas, qua .o o.‹z×›.'z.=> /=°-2»-=›z'‹/zlfii i_,,¡. -*_ . _,
in me funt, judicem rebus quibufdam extra me pofitis /9/ Só restam, por conseguinte, o juízos nos quais devo acautelar-me do erro.”*5` Í '
fimiles effe live conformes; nam profe&o,fi tantüm Ora, o erro principal e mais freqüente, qu neles se pode encontrar, consiste em que{,.`/~="-U
ideas ipfas ut cogitationis mea quofdam modos con- eu julgue as idéias em mim semelhantes ii conformqsa certas poisaspostasjora de ;.z.<«.'
liderarem, nec ad quidquam aliud referrem, vix mihi É;Pois, é eroÊsipiñ*píias*idéias como certos modos de meu ,io
pensamento somente, e nao as refiro a outra coisa, elas apenas poderão ensejar-me ¡_,_,
ullamit errandi materiam dare poffent. alguma matéria de erro. j'
'° Ex his autem ideis P alia innata, alia adventitia,
a. Voir t. V, p. 152. /10 / Mas, entre essas idéias algumas me parecemlinatasl outrasladventiciasx
b. Cf. t. Ill, p. 383, l. 2.
7 ÍÍLLI 1/__-'.×i......
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68 69
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33 Olíuvnas na Dascanras. 31-31-
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Os sDi5DEscARTEs
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,.t:;ii¿._~\ j ¿0M¿U,/J _//in H oz-
alia a me ipfo fafia mihi videntur: nam 'quod intel- * Iqoutraslinventadasipor rriim mesmo.¿^Pois, que eu entenda o que e coisa, verda-
i » 0 O l ' .

ligam quid fit res, quid fit veritas, quid fit cogitatio, .w
É

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›\ 1.5.
a...
,\^\\ de pensamentoriao parece que euo tenha obtido de alhures senao de minha
I ü' -_;-_ uma i_ Í 11* ;-gv *" 7 Í 7 ff ¬

hac non aliunde habere videor quam ab ipfâmet meâ ' .'\
.
\)_;'
\

própria natureza. Mas, agora, que ouça um ruido, veja o sol, sinta o fogo, julguei
naturâ; quod autem nunc firepitum audiam, folem 'vu
4

aiéagora que isso procedesse de certas coisas postas fora de mim. Finalmente,
videam, ignem fentiam, a rebus | quibllfdflm Glitfíl me
sereias, hipogrifos e congêneres são de minha invenção. Ou, talvez, eu também
pofitis procedere haãtenus judicavi; ac denique Sy-
renes, Hippogryphes, 6: firnilia, a me ipfo finguntur. as possa supor ou todas adventicias ou todas inatas ou todas inventadas, pois,
Vel forte etiam omnes efl`e adventitias polfum pu- ainda não percebi claramente sua verdadeira origem.
tare, vel omnes innatas, vel omnes faflas : nondum Mas, aqui se trata principalmente daquelas que considero como obtidas
enim veram illarum originem clare perfpexi. l IO i
i
de coisas situadas fora de mim e cabe-me investigar qual a razão que me leva a
Sed hic pracipue de iis eft qua'-:rendum,quas tan- estima-las semelhantes a essas coisas.
quam a rebus extra me exiflentibus defumptas confi-
dero, quanam me mojveat ratio ut illas iftis rebus /11/ Com efeito, parece que fui nisso instruído pela natureza. Além de
fimiles elle exiftimem. " Nempe ita videor doftus a na- que, experimento que essas idéias não dependem de minha vontade, nem, por
turâ. Et praterea experior illas non a meâ voluntate conseguinte, de mim mesmo. Pois, freqüentemente, mesmo a despeito de mim,
nec proinde a me ipfo pendere; fape enim vel invito elas se me apresentam, como sucede neste momento, quando, quer queira,
obverfantur : ut jam, five velim,five nolim, fentio ca- quer não, sinto calor e, por isso, creio que aquela sensação ou a idéia de calor
lorem, & ideo puto fenfum illum, five ideam caloris, a ocorrem em mim, proveriientes de uma coisa diversa de mim, a saber, do calor
re a me diverfâ, nempe ab ignis cui aflideo calore, do fogo junto ao qual estou sentado. E, nada mais óbvio, pois, que julgue ser /nf.
mihi adveniref Nihilque magis ohvium efl,quam ut
` '\nI_r __ _4--If- zz - ' -if Í-P Di __,_í__ Í

essa
_* coisa
,___ ._ ,e não outra, a remeter
T p ara den tro de mim
qi W,sua similitude.
_ . .».,/, *fu
Z _ ¬ `,¿ ¿g¿,\j -
judicem illam rem fuam limilitudinem potius quam of \ E PA* . _ Í ".°¬ O
ct da; .-4 &{ Q
aliud quid in me immittere. /12/ Se essas razões são bastante firmes e convincentes*é o que agora à _
'2 Qua rationes, an fatis firma fint, jam videbo. Cum verei. Ao dizer aqui que fui nisso instruído pela natureza, entendo apenas que “fi-¬-‹
/-'-‹-
hic dico me ita doëlum elle a natura, intelligo tan-
sou levado a nisso acreditar por um certo impulso espontâneo e não que alguma
tüm fpontaneo quodam impetu me ferri ad hoc cre-
luz ratural me mostre que sejaBcverdadeiro. Duas coisas entre si muito discre-
dendum, non lumine aliquo naturali mihi ollzendi elle . M ° .
pantes. Pois, tudo o que a luz natural me mostra, - como que de duvidar segue-
verum. Qua duo multum difcrepant; nam qua-
cumque lumine naturali mihi ollenduntur, ut quod se que sou, e coisas semelhantes, - de modo algum pode ser duvidoso, porque
ex eo quod dubitemj fequatur me effe, & fimilia, nullo não pode haver nenhuma outra faculdade em que confie tanto quanto nessa luz,
f""` F:

modo dubia effe poflunt, quia nulla alia facultas elle * et con vaincantes _., .Zw¡ó.;‹;zÍ/.uçfi i,¢.,,7l, M, W. mz. ‹'‹zz ‹z.F,, /O -za fl- ak
poteli, cui | aque fidam ac lumini ifti, quaque illa
70 71
33-34. Msorrxrrom-:s. - Tenrui. 39 3364. « MEDITAÇÓES - TERci.=.iRA Mi5DiTAÇÃo go

non vera elle pollit docere ; fed quantum ad impetus e que possa ensinar-me que elas não são verdadeiras. Mas, quanto aos impul-
naturales, jam fapel olim judicavi me ab illis in de- sos naturais, julguei freqüentemente no passado que me empurraram para o
teriorem partem fuille impulfum, cum de bono eli- lado pior, quando se tratava de escolher o que fosse bom, e não vejo porque
gendo ageretur, nec video cur iifdem in ullâ aliâ re mereceriam maior confiança em nenhuma outra coisa.
magis lidam.
'° Deinde, quamvis idea illa a voluntate meã non /13/ Em segundo lugar, embora essas idéias não dependam de minha
pendeant, non ideo confiat ipfas a rebus extra me vontade, nem por isso se constata que procedem necessariamente de coisas
politis necellario procedere. Ut enim impetus illi, de postas fora de mim. Pois, assim como os impulsos de que há pouco falava, não
quibus mox loquebar, quamvis in me fint, a voluntate obstante estejam em mim, parecem ser, contudo, diversos de minha vontade,
tamen meâ diverli elle videntur, ita forte etiam* ali- assim também pode ser que haja em mim alguma outra faculdade, por ora ainda
qua alia cfi in me facultas, nondum mihi fatis co- não suficientemente conhecida de mim, que seja a produtora dessas idéias e o
griita, illarum idearum efi`e&rix, ut haâenus femper faça sem o auxilio de nenhuma coisa exterior*, da mesma maneira que sem-
vifum elf illas, dum fomnio, abfque ullâ rerum exter- pre me pareceu até agora que, quando durmo, elas se formam em mim sem ne-
narum ope, in me formari. nhum auxilio de coisas externas.
“ Ac denique, quamvis a rebus a me diverlis proce- * sans I'aide d'aucunes choses extérieures
derent, non inde fequitur illas rebus illis limiles
elle debere. Quinimo in multis fape magnum dif- /14/ E, em terceiro lugar, mesmo que procedessem de coisas diversas
crimen videor deprehendifle : ut, exempli caufâ, duas de mim, disto não se seguiria que devessem ser semelhantes àquelas coisas.
diverfas folis ideas apud me invenio, unam tanquam Ao contrário, freqüentemente me pareceu notar em muitas uma grande discre-
a fenlibus haullam, & qua maxime inter illas quas páncia entre o objeto e sua idéia*. É o caso, por exemplo, das duas idéias di-
adventitias exifiimo elt recenfenda, per quam mihi versas do sol que encontro em mim: uma, como que haurida dos sentidos, - e
valde parvus apparet, aliam vero ex rationibus Altro- que há de ser listada, como a que mais o seja, entre as que reputo adventicias,
nomia defumptam,|hoc ell ex notionibus quibuf- - pela qual o sol me parece muito pequeno ; a outra, tirada em verdade das ra-
dam mihi innatis elicitam, vel quocumque alio modo zões da Astronomia, - isto é, obtida de noções que me são inatas ou, de algum
a me faítam, per quam aliquoties | major quàm terra modo, feitas por mim, - pela qual o sol se mostra várias vezes maior do que a
exhibetur; utraque profeflo limilis eidem foli extra l . terra. É seguro que essas duas idéias ifão podem ser uma e outra semelhantes
me exiltenti elle non poteli, da ratio perfuadet illam ao mesmo sol existente fora de mim. E, a razão me persuade de que a que mais
diretamente parece dele emanar é a que menos se lhe assemelha.
ei maxime elle diflimilem, qua quàm proxime ab ipfo
* entre I'objet et son idée
videtur emanalle.
15 Qua omnia fatis demonfirant me non haãenus ex
/15 I Tudo isso demonstra suficientemente que não foi
a. Volr t. V, p. 15:.

72 73
40 OEuvni:s DE Desczmres. 34-35- 40 - OBRAS DE DESCARTES 34-35_
certo judicio, fed tantüm ex caco aliquo impulfu, cre-
a partir de um juízo certo, mas somente por algum impulso cego, que até agora
didille res quafdam a me diverfas cxiltere, qua ideas
acreditei na existência de coisas diversas de mim, as quais, por intermédio dos
five imagines fuas per organa fenfuum, vel. quolibet
órgãos dos sentidos ou por um outro modo qualquer, enviavam suas idéias ou
alio paâto, mihi immittant.
imagens para dentro de mim e ali imprimiam suas similitudes*
1° Sed alia quadam adhuc via mihi occurrit ad inqui- 5 .

* et y imprimaient leur ressemblance


rendum an res aliqua, ex iis quarum idea in me funt,
extra me exifiant. Nempe,quatenus idea illa cogi-
/16/ Mas, um outro caminho se me apresenta todavia para investigar se
tandi quidam modi tantüm funt, non agnofco ullam
coisas, cujas idéias estão em mim, existem fora de mim. Pois, na medida em
inter ipfas inaqualitatem, & omnes a me eodem modo que essas idéias são somente modos de pensar, não reconheço nenhuma desi-
procedere videntur; fed,quatenus una unam rem, alia gualdade entre elas, já que todas parecem proceder de mim pelo mesmo modo.
aliam reprafentat, patet eafdem elle ab invicem Na medida, porém, em que uma idéia representa uma coisa, outra, outra coisa, éi.
valde diverfas. Nam proculdubió illa qua fubltantias patente que são muito diversas umas das outras. Pois, não há dúvida de que as 'r j
mihi exhibent, majus aliquid funt, atque, ut ita loquar, que mostram substãncias<são algo maisle contêm, por assim dizer, mais reali-ã ,
[plus realitatis objeâiva in fe continent, quam illa l dade objetiva, isto é, participam por representação de mais graus de ser ou/;
qua tantum modos, live accidentia, reprafentant; 6; i5
de perfeiçãoíz do que as que só representam modos ou acidentes. Por sua vez, i
rurfus illa per quam fummum aliquem Deum, ater- aquela pela qual entendo um certo Deus supremo, eterno, infinito, imutável",
num, infinitum, omnifcium, omnipotentem, rerumque onisciente, onipotente, criador de todas as coisas que estão fora dele, segura-
omnium, qua prater ipfum funt, creatorem intelligo, mente tem em si mais realidade objetiva do que as idéias pelas quais se mos-
plus profeëto realitatis objeâiva in fe habet, quam tram as substâncias finitas.
illa per quas finita fubjflantia exhibentur. * c'est-à-dire participent par representation à plus de degrés d'être ou de
" Jam vero lumine naturali manifefium eft tantum- peffecfion L, ,..,_,_Lz, i.-z-C '_- 1
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dem ad minimum elle debere in caufâ ellicientc lí "immuable PJ.


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totali “, quantum in ejufdem caufa effeëtu. Nam, i' M- Í ~ /.ii `~z\Í.l'- ¿/\-/
quafo, undenam pollet aflumere realitatem fuam el.- 'sr-'-"""`" lr "". . D ..
/17/ Agora, é em verdadelmanifesto a luz natural ue na causa eficiente G
feãus, nifi a caufâ? Et quomodo illam ei caufa dare total deve haver pelo menos tanto quanto há em seu efeito. Pois, pergunto, d 6
pollet, nifi etiam haberet?'° Hinc autem fequitur,nec `\onde o efeito poderia receber sua realidade senão da causa? E, como esta po-
polle aliquid a nihilo fieri, nec etiam id quod magis
perleâum elt, hoc elt quod plus realitatis in fe con- i'
i
Íderia lhe dar,,se nãoa possuísse também? i,¿v¿ ¿,¿.,,_, ,,,_¬,_,. ,,W,,5¿ mm,
.. _ -1' _. I
,ge~_¿í\.‹,‹zctj4,io..¿c'z.o'\y¬,,¿j

i Après certo] aliquo ajouté (r" éd:`t.).


/18/ De onde se segue, porém, não ser possivel que algo resulte do nada ,¿ ,
e nem também que o mais perfeito, isto é, o que contem em sl mais realidade
a. Voir t. III, p. 274,1. ao.
\/'>*. C
74 ç 75

M.
zõsõ. Miai:›mmoNss~. -- Terrrm. 41 35¬36. ~ MEDi'rAÇõEs - TERcEiRA MEDi'rAÇÃo 41

tinet, ab eo quod minus. Atque hoc non modo perl- resulte do menos perfeito. E, isto não é só claramente verdadeiro para os efeitos cuja
picue verum eli de iis elleãtibus, quorum realitas eli: realidade é aquela que os filósofos chamam* atual e formal, mas também para as
aéiualis live formalis, fed etiam de ideis, in qiJ1b11S idéias em que só se considera a realidade que denominam “objetiva
confideratur tantüm realitas objeãiva. I-Ioc eli, non Por exemplo, uma pedra que antes não existia, só pode começar a existir se
modo non poteli, exempli caufâ, aliquis lapis qul 42 for produzida por alguma coisa em que esteja ou formal ou eminentemente tudo o que
está posto na pedra, isto é, que contenha em si as mesmas coisas ou outras mais
prius non fuit, nunc incipere elle, nifi producatur ab
excelentes do que as que estão na pedra*** e nem o calor pode ser introduzido em
aliquâ re in quâ totum illud fit vel formaliter vel emi- um sujeito, que antes não era quente, a não ser por uma coisa de uma ordem, grau ou
nenter, quod ponitur in lapide; nec poteli: calor in gênero**** de perfeição ao menos igual à do calor e, assim por diante; Mas, além dis-
fubjeãium quod prius non calebat induci, nifi a re so, a idéia de calor ou de pedra só pode estar em mim se foi posta por uma causa na
qua fit ordinis faltem aeque perfeáii atque eli calor, qual há no minimo tanta realidade quanto a que concebo haver no calor ou na pedra.
& fic de cateris; fed praterea etiam non poteli in me Pois, embora essa causa não transmita à minha idéia nada de sua realidade atual ou
efle idea caloris, vel lapidis, nifi in me pofita fit al) formal, não se deve crer que ela seja por isso menos real. Mas como toda idéia é
,, ,, .. . --K-------«. .
aliquâ caufâ, in quâ tantumdem ad minimum fit reali- uma obra da mente ** , a natureza dessa ideia e tal que ela nao exi e or si mesma
tatis quantum effe in calore vel lapide concip1o..Nam nenhuma outra realidade formal além da que recebe de meu pensamento ou de mi-
-

quamvis ilia caufa nihil de fuâ realitate actuali five


nha mente******, da qual e um modo, isto e, uma maneira ou feitio de pensar*******.
Mas, que essa idéia conten a esta e não aquela reali ade objetiva, deve-o ela segu-
formali in meam ideam transfundat,| non ideo putan-
ramente a alguma causa da qual a recebeu e na qual há no minimo tanta realidade
dum eft illam minus realem elle debere, fed talem elle formal quanto essa idéia contem de realidade objetiva. Pois, se supusermos que há na
naturam ipfius idea,ut nullam aliam ex fe realitatem idéia algo que não havia em sua causa, ela o teria obtido, portanto, do nada. E, por
formalem exigat, prater illam quam mutuatur a cogi- mais imperfeito que seja esse modo de ser pelo qual a coisa, mediante idéia, é objeti-
tatione meâ, cujus eft modus. Quod autem hac idea vamente ou por representação ******** no intelecto, é seguro, no entanto, que ele não
realitatem objeãtivam hanc vel illam contineat potius é totalmente um nada e não pode, por conseguinte, provir do nada.
quàm aliam, hoc profeão habere debet ab aliquâ * que les philosophes appelent
** qu'ils nomment
caufa in quâ tantumdem fit ad minimum realitatis
*** c'est-à-dire qui contienne en soi les mémes choses, ou d'autres plus excellentes que
formalis quantum ipfa continet obje&iva. S1 enim celles qui sont dans la pierre
43
ponamus aliquid in | ideâ reperiri, quod non fuerit in **** d'un degré ou d'un genre
ejus caufâ, hoc igitur habet a nihilo; atqui quan- 'i**** toute idée étant un ouvrage de Pesprit
tumvis imperfeãus fit ille eflendi modus, quo res eli: ****** ou de l'esprit
objeãive in intelleãu per ideam, non tamen profeão ******* c'est-à-dire une manière ou façon de penser
plane nihil eft, nec proinde a nihilo elle poteli. "******* ou par représentation
/19/ Mas, não devo suspeitar também de que, por ser essa realidade con-
1° Nec etiam debeo fufpicari, cüm realitas quam con-
siderada em minhas idéias somente realidade objetiva,
fidero in meis ideis fit tantüm objeftiva, non opus
76 77
42 OEuvREs DE Dascitnras. 36-31- 42 Oeiuis DE Descnnres 35-37_

efle ut eadem realitas fit formaliter in caulis illarum não seja preciso que essa mesma realidade esteja formalmente nas causas
idearum, fed fufiicere, fi fit in iis etiam objeétive. dessas idéias, como se bastasse que ela estivesse ali também apenas objetiva-
Nam quemadmodum ille modus eflendi objeãtivus mente. Pois, da mesma maneira que esse modo de ser objetivo pertence às
competit ideis ex ipfarum naturâ, ita modus eflendi idéias pela natureza delas, assim também o modo de ser formal pertence por
formalis competit idearum caulis, faltem primis 6: sua natureza às causas das idéias, ao menos às primeiras e principais. E, ape-
pracipuis, ex earum natura. Et quamvis forte una sar de que talvez uma idéia possa acaso nascer de outra, não pode haver aqui,
idea ex aliâ nafci pollit, non tamen hic datur pro- no entanto, progressus in infinitum e deve-se chegar por fim a uma primeira
greflus in infinitum, fed tandem ad aliquam primam idéia, cuja causa seja um como que arquétipo, no qual esteja contida formal e
debet deveniri, cujus caufa fit inflar archetypi, -in efetivamente*toda a realidade ou perfeição" que na idéia está contida apenas
| quo omnis realitas formaliter contineatur, qua eli in objetivamente ou por representação***. De sorte que pela luz natural percebil
ideâ tantüm objeftive. Adeo ut lumine naturali mihi claramente que as idéias são em mim como que imagens, que facilmente podem
fit perfpicuum ideas in me elle veluti quafdam ima- se tornar deficitárias da perfeição que está nas coisas de que foram tiradas, mas
gines, qua pollunt quidem facile deficere a perfe- não podem conter algo maior ou mais perfeito do que essas coisas.
Eizione relrum a quibus funt defumpta, non autem * et en effet `
quicquam majus aut perfeãius continere. l ** ou perfectíon
2° Atque.hac omnia,quo diutius :SL curiofius examino, *** ou par représentation
tanto clarius & diltinãius vera elle cognofco. Sed
quid tandem ex his concludam? Nempe fi realitas 120/ E, quanto mais demorada e cuidadosamente examino todas essas
objeáiiva alicujus ex meis ideis fit tanta ut certus coisas, tanto mais clara e distintamente recorrheço que são verdadeiras. Mas,
lim eandem nec formaliter nec eminenter in me elle, que devo concluir, afinal? Que, se a realidade objetiva de alguma de minhas idéias
nec proinde me ipfum ejus idea caufam elle polle, for tanta que eu fique certo de que ela não está em mim, nem formal, nem emi-
hinc neceflario fequi, non me folum elle in mundo, nentemente e de que, por conseguinte, não posso ser eu mesmo sua causa, disto
fed aliquam aliam rem, qua iflius idea elt caufa, se seguirá necessariamente que não estou só no mundo mas que, alguma outra
etiam exiftere. Si vero nulla talis in me idea reperia- coisa, que é causa dessa idéia, também, existe. Se, em verdade, não encontro
tur, nullum plane habeboa argumentam quod me de em mim nenhuma idéia de tal gênero, já não terei nenhum argumento que me dê
alicujus rei a me diverfa exifientiâ certum reddat; a certeza da existência de uma coisa diversa de mim, pois, considerei todos eles
omnia enim diligentiflime circumfpexi, & nullum cuidadosamente -e nenhum outro pude encontrar até agora.
aliud potui haâenus reperire.
21 Ex his autem meis ideis, prater illam qua me ip- 121/ Ora, entre minhas idéias, além da que me mostra a mim mesmo, a
fum mihi exhibet, de quâ híc nulla diflicultas ellc respeito da qual não pode haver aqui nenhuma dificuldade,
a. Voir t. V, p. 152.
78 79

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.-

37.39. Msorrivrionxs. - Tanriii. 4_; 37¬39. . MEDITAÇÓES - TERCEIRA MEDITAÇÃO 43

poteli, alia eli qua Deum, alia qua res corporeas & - uma outra representa Deus, outras representam coisas corporais e inanima-
inanimes, alia qua Angelos, alia qua animalia, ac das, outras, anjos, outras, animais e, finalmente, outras representam outros ho-
denique alia qua alios homines mei limiles repra- mens semelhantes a mim. 0_z' .df-"" H- _»
fentant. E, quanto às idéias que representam outros homens ou animais ou anjos,
5 Et quantum ad ideas | qua | alios homines, vel 45
entendo facilmente que podem ser compostas a partir das que tenho de mim
animalia, vel Angelos exhibent, facile intelligo illas mesmo, das coisas corporais e de Deus, mesmo que não existam no mundo
ex iis quas habeo. mei iplius & rerum corporalium
nem homens, exceto eu, nem animais, nem anjos. ׿,¿,ƒ:i "
& Dei poffe componi, quamvis nulli prater me ho-
Quanto, porém, às idéias das coisas corporais, nada ocorre nelas que não
mines, nec animalia, nec Angeli, in mundo eflent.
to Quantum autem ad ideas rerum corporalium, ni- pareça poder provir de mim mesmo. Pois, se as inspeciono mais de perto e as
hil in illis occurrit,quod fit tantum ut non videatur a examino em separado, do mesmo modo que ontem examinei a idéia da cera,
me ipfo potuifle proficifci; nam fi penitiüs infpiciam, noto que muito poucas são as coisas que nelas percebo clara e distintamente, a
«St fingulas examinem eo modo quo heri examinavi saber: a grandeza ou a extensão em comprimento, largura e profundidade ; a
ideam cera, animadverto perpauca tantum elle qua l
i figura, que surge da terminação dessa extensão; a situação obtida das coisas
15 in illis clare & difiinâíe percipio : nempe magnitu- diversarriente figuradas; o movimento ou mudança dessa situação, ao que po-
dinem,- live extenfionem in longum, latum, & pro- iu
dem ser acrescentados a substância, a duração e o número. ¿\z*-_' r
fundum; figuram, qua ex terminatione iftius exten- Quanto às restantes, contudo, como a luz e as cores, os sons, os cheiros,
lionis exfurgit; litum, quem diverfa figurata inter fc os sabores, o calor e o frio e outras qualidades táteis, só são pensadas por mim
L
obtinent; «SL motum, five mutationem iftius litüs; qui- muito confusa e obscuramente, a ponto de eu ignorar se são verdadeiras ou fal-
zo bus addi poffunt fubftantia, duratio, & numerus : sas, isto é, se as idéias que delas tenho são idéias de coisas ou de não coisas.
catera autem, ut lumen & colores, foni, odores, Pois, embora a falsidade propriamente dita ou falsidade formal não possa* en-
fapores, calor & frigus, aliaque taãiles qualitates, contrar-se senão nos juízos, conforme fiz notar anteriormente, é seguro que há,
nonnifi valde confufe & obfcure a me cogitantur, porém, nas idéias uma certa outra falsidade material, quando elas representam
adeo ut etiam ignorem an fint vera, vel falfa, hoc uma não coisa como se coisa fosseãassim, por exemplo, as idéias que tenho do
:S eli, an idea, quasl de illis habeo, lint rerum quarun- 4
calor e do frio são tão pouco claras
dam idea, an non rerum. Quamvis enim falfitatem
proprie difiam, five formalem, nonnifi in judiciis
pollet reperiri paulo ante notaverim, eli tamen pro-
feéio quadam alia fallitas materialis in | ideis, cum non
30 rem tanquam rem reprafentant : ita, exempli caufa,
idea quas habeo caloris «St frigoris, tam parum clara
80 81

úI|fl~l¡n_.‹$¡-emu-na o
44 OEuvni:s DE DESCARTES. ag-4°. 44 OBRAS DE DrascAR'rr.=.s 39-40.

& difiinëia funt, ut ab iis difcere non poflim, an fri- e distintas, que delas não posso aprender se o frio é apenas-privação de calor
gus fit tantúm privatio caloris, vel calor privatio fri-
ou o calor, privação de frio ou se ambos são qualidades reais ou se nenhum de-
goris, vel utrumque fit realis qualitas, vel neutrum.
les o QE, porque não pode haver idéias que não sejam idéias de coisas, se for
Et quia nulla idea nifi tanquam rerum elle polluntt,
verdade que o frio nada mais é do que píivação de calor, a idéia que o repre-
liquidem verum fit frigus nihil aliud elle quam priva-
tionem caloris, idea qua mihi illud tanquam reale senta como algo real e positivo será merecidamente chamada falsa, e assim por
quid & pofitivum reprafentat, non immerito falfa di- diante.
cetur, dt fic de cateris. E, não é seguramente necessário que se lhes atribua um autor que não
Quibus profeëio non eli necefle ut aliquem autho- eu mesmo, pois, se elas acaso são falsas e não representam coisa alguma, sei
rem a mc diverfum aflignem ; nam, li quidem lint pela luz natural que procedem do nada, isto é, que a causa pela qual estão em
falfa, hoc eli nullas res reprafentant, lumine naturali mim é uma deficiência de algo em minha natureza, a qual não é totalmente per-
notum mihi efi illas `a nihilo procedere, hoc eli, non feita. Se são, ao contrário, verdadeiras, porque me mostram, no entanto, tão
aliam ob caufam in me elle quàmquia deefi aliquid pouco de realidade que sequer posso distinguir esse pouco de uma não coisa,
natura mea, nec eli plajne perfeúia; fi autem lint não vejo porque não possam provir de mim mesmo. ~
vera, quia tamen tam parum realitatis mihi exhibent, * ATimprime gem lugar de Q Alq, pág. 198)
ut ne quidem illud a non re poflim difiinguere, non
video cur a me ipfo elle non poflint. 122/ Quanto, em verdade, ao que é claro e distinto nas idéias corporais,
22 Ex iis vero qua in ideis rerum corporalium clara dz parece que eu poderia tomá-lo emprestado em parte da idéia de mim mesmo, a
diliinéia funt, quadam ab ideâ mei ipfius videor mu- saber: substância, duração, número e, assim, de outras coisas do mesmo modo.
tuari potuille, nempe fubliantiam, durationem, nu- Pois, quando penso que a pedra é uma substância ou uma coisa apta a existir
merum, & fi qua alia fmt ejufmodi; nam cum cogito por si e que sou também uma substância, - embora me conceba como coisa
lapidem elle fubfiantiam, five elle rem qua per fe
pensante e não extensa e, a pedra, como coisa extensa e não pensante e, por
apta eli exiftere, itemque me ef| fe fubfiantiam, quam-
conseguinte, como máxima a diversidade entre os conceitos de uma e de outra,
vis concipiam me elle rem cogitantem & non exten-
- parece que elas são, todavia, concordantes no que se refere à substância. Do
fam, lapidem vero elle rem extenfam & non cogitan-
tem, ac proinde maxima inter utrumque conceptum fit mesmo modo, quando percebo que sou agora e me lembro de que fui por algum
diverfitas, in ratione tamen fubfiantia videntur con- tempo também anteriormente e quando me ocorrem vários pensamentos cujo
venire; itemque, cum percipio me nunc elle, & prius número entendo, adquiro as idéias de duração e de número, as quais possa
etiam aliquamdiu fuifle recordor, cümque varias ha- transferir em seguida a quaisquer outras coisas.
beo cogitationes quarum numerum intelligo, acquiro
a. Voir t. V, p. 153.

82 83

b
-‹.‹›-41. Mr‹:br'rA.'rroNEs. -- TERTI.-1. 45 4041. , Meomrçoes - TERCEIRA MEDITAÇÃO 45
ideas durationis & numeri, quas deinde ad quaf-
cunque alias res poífum transt`erre.2=Ca:tera autem /23/ Quanto, porém, às restantes coisas que entram na formação das
omnia ex quibus rerum corporearum ideae confian- idéias das coisas corporais, isto é, a extensão, a figura, a situação e o movi-
tur, nempe | exteniio, figura, Iitus, Â: motus, in me mento, elas não estão contidas formalmente em mim, porque nada mais sou do
5 quidem, cüm nihil aliud tim quàm res cogitans, for- que coisa pensante. Mas, porque são somente certos modos de substância e
maliter non continentur ; fed quia funt tantüm modi como trajes com que a substância nos aparece* e eu, eu sou contudo uma
quidam fubfiantiae, ego autem fubfiantia, videntur in substância, parece que eles podem estar contidos em mim eminentemente.
me contineri pofl`e eminenter. * et comme les vêtements sous Iesquels Ia substance corporelle nous parait
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2' Itaque fola refiat idea Dei, in quâ confiderancium


ro eit an aliquid fit quod a me ipfo non potuerit profi- /24/ E, assim, a idéia de Deus permanece a única em que se deve consi-
ctfci. Dei nomine intelligo fubfiantiam quandam infi- derar se há algo que não poderia provir de mim. Entendo pelo nome de Deus
nttam, independentem, fumme intelligentem, fumme certa sub_s__tâ_ncia_infinita, independente, eterna, r'mutável*, sumamente inteli-
potentem, & a quâ tum ego ipfe, tum aliud omne, ii gfitíévsumamentepo-cierosa empiela qual eu mesmo iui cfiãšlõie tudoggwrnaš
quid aliud extat, quodcumque extat, efi creatum. Qua: ëxistentefseefiste alguma outragcgc¿is_a.*Tõ?tã's`ëíšašÊoisas são tais que, quanto
ri fane omnia talia funt ut, quo diligentius attendo, mais cuidadosamentelhespresto atenção, tanto menos parece que elas possam
tanto minus a me folo profefiza efl`e poífe videzzmrm provir somente de mim. Por ÍS§0, do que fo_i dito deve-se concluir queDeus lv:
/""'.""_.' «

Ideoque ex antediâis, Deum| neceífario exií`tereÇ eí`t fezlsteilecessarramente.


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concludendum. * éternelle, immuable \i~‹*`°, ` . 1, ¿_,\Ç¿,* "_" _


25 Nam quamvis fubfiantia quidem idea in me fit ex L z^\r zt ‹<- ff f ¬\ twin _\-J _ fr '\

` \ (
20 hoc ipfo quod fim fubfiantia, non tamen idcirco eiTet 25/ Pois, embora haja em mim certa idéia de substância pelo fato mesmo
idea fubfiantiêe infinita, cüm fim finitus,nifi ab aliquâ de que sou substância, não seria, por isso, no entanto a idéia de substância infi-
fubfiantíâ, quae revera eífet infinita, procederet. nita, já que sou finito, a menos que ela procedesse de alguma substância que
”° Nec .putare debeo me non percipere infinitum per fosse deveras infinita. ç, \, -__'\_
veram ideam, fed tantüm per | negationem finiti, ut . \¡¬r°¡'qv `\\¬~\N
:S percipio quietem & tenebras per negationem motüs /26/ E, não devo crer que não percebo o infinito por uma verdadeira idéia,
- -~'¬-c-f" '"'";* ' 'I . "“'“ ----__.../-~~"'“ 2-'
& lucis; nam contrà manifefie intelligo plus reali- mas somente por uma negação dofinrto, como percebo o repouso e a escuridão
tatis efi`e in fubfiantiâ infinitâ quàm in finitâ, ac pelanegação do movimento e da luz, pois, ao contrário, entendo de modo ma-
proinde priorem quodammodo in me eii`e perceptio- niiesto que hámais realidade na §u_bstân_cia_infi_nita do que na finita e, por con-
nem infiniti quàm finiti, hoc efl: Dei quàm mei ipíius. seguinte,.que a percepção do infinito é, de certo modo, em mim anterior à per-
3o Q_uâ enim ratione intelligerem me dubitarea, me cepção do finito, isto é, que a percepção de Deus é anterior à percepção de mim
a. Voir t. V, p. 153. mesmo. Pois, qual a razão por que me daria conta de que duvido, , _
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46 OEuvREs DE DEscARTEs. .,z...z.
l
46 OBRAS DE DESCARTES 41-42.
cupere, hoc eft, aliquid mihi deeífe, ti: me non elfe
omnino perfeãum, ii nulla idea entis perfeftioris in desejo, isto é, de que sou indigente de algo e de que não sou totalmente perfeito,
me effet, ex cujus comparatione defeâus meos agnoil se não houvesse em mim nenhuma idéia de um ente mais perfeito, por compara-
ção com o qual, conheço meus defeitos?
cerem P
27
Nec d1c1 potefl hanc forte ideam Dei materiali-
. . . 0 O i

/27/ E, nem se pode dizer que talvez essa idéia de Deus seja materialmente
ter falfam eífe, ideoque a nihilo clfe polfe ut paulo falsa e, por isso, pude obtê-la do nada, isto é, que ela pode estar em mim por
ante. de ideis caloris da frigoris, & iimilium', canimad-
4. uma deficiência minha”, a exemplo do que há pouco fiz notar acerca das idéias
verti ; nam contra, cum maxime clara & dillinfta fit de core de frio, e semelhantes. Pois, ao contrário, sendo clara e distinta ao máxi-
& plus realitatis objeftivae quam ulla alia contineztt, mo e contendo mais realidade objetiva do que nenhuma outra, nenhuma é por si
nulla efl Per Íe magis Vef¡1¬ 1160 in quâ minor falli- mais verdadeira e em nenhuma se encontra menos suspeição de falsidade. O ,_
tatrs fulptcro reperiatur.” Eft,inquam,l1mc ídeaemig * c'est-à-dire qu'e!le peut être en moi pour ce que j'ai du défaut _, _ ‹ ,
_ '57 ,..
fumme perfeétt &1nfin1t1 maxime vera; nam quam|vis
orte fingl poflit tale ens non exlftere, non tamen Íingi /28/ Essa idéia de um ente sumamente perfeito e infinito é, digo, verdadeira
potcft ejus ideam nihil reale mihi exhibere, .ut dc ao máximo, pois, embora talvez se possa pensar ficticiamente que um tal ente
talvez não exista, não se pode porém pensar por ficção que sua idéia não me
ideâ | frigoris ante dixi. 2° Eft etiam maxime clara lí'
mostre nada real, conforme eu disse anteriormente a respeito da idéia de frio.
dtftinãa; nam quidquid clare & diliiníte percipio,
quod eft reale & verum, & quod perfeftionem aliquam /29/ Ela é também clara e distinta ao máximo, pois, tudo o que percebo cla-
importat, totum rn eâ continetur.3° Nec obftat quod ra e distintamente e que é real e verdadeiro e contem alguma perfeição, está todo
non comprehendam infinitum, vel quod alia innu- contido nela.
mera in Deo fint, qua: nec comprehendere, nec forte
etiam attingere cogitatione. ullo modo pofl`um° eli /30/ E, não importa que eu não compreenda o infinito ou que em Deus haja
enim de ratione infiniti, ut a me. qui fum finitus non l. inúmeras outras coisas que não posso de modo algum nem compreender, nem
f › I
comprehendatur ; & fufiictt me hoc ipfum intelligere, talvez até atingir pelo pensamento. Pois, é da natureza do infinito que não seja
ac judicare, illa omnia qua: clare perc1p1o,‹S: perfe‹Étio- compreendido por mim, que sou finito, bastando que eu entenda isso e julgue que
nem aliquam rmportare fcro, atque etiam forte alia I estão em Deus formal ou eminentemente todas as coisas que percebo claramente
25 . e nas quais sei que existe alguma perfeição, e talvez também inúmeras outras,
1nnum,era qua'-: ignoro, vel formaliter vel eminenter in
que talvez ignore, para que a idéia que dele tenho seja de todas as que estão em
Deo effe, ut idea quam de illo habeo fit omnium quze
mim, ao máximo verdadeira e ao máximo clara e distinta.
in me funt maxime vera, 8: maxime clara & diftintta
sr Sed forte majus
- - - fum quam
aliquid . rpfe
. r tntelltgam,
. . ` ..›¬-._

/31/ Mas, talvez eu seja algo mais do que percebo e, todas as perfeições
omnefque illae perfeftiones quas Deo tribuo porem- que atribuo a Deus, estejam de algum modo poter¿ç_ialmeflÍf~?..<âlTLmim, embora__ain-
tlâ quodammodo tn me funt, ctiamli nondum fefc cxc~ O dãnão tenham E
_`_""_--¬'*-~.

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4=-43- Mabtnmonzs. - Trsnrrx. 47 4243. . Meormçoas - TERCEJRA MEDLTAÇÃO 47

rant, neque ad aétum reducantur. Experior enim jam


a arecido e não tenham se manifestado em ato. Pois, já experimento agora que
.ii
cognitionem meam paulatim augeri; nec video quid
meu conhecifñemo aumenta paulatinamente e não vejo o que poderia impedir
obftet quo I minus ita magis & magis augeatur in infi- S1
que cresça mais e mais in infinitum, nem também que, o conhecimento assim
nitum, nec etiam cur, cognitione tic auãâ, non pof-
aumentado o conhecimento, não possa eu adquirir com sua ajuda todas as res-
fim ejus ope* reliquas omnes Dei | perfeãiones adi-
tantes perfeições de Deus, nem vejo a razão por que a potência para essas
pifci b; nec denique cur potentia ad iftas perfeãiones,
perfeições, que já se encontra em mim, não seja suficiente para produzir a idéia
fi jam in me efiz, non fufliciat ad illarum ideam pro-
dessas perfeiçõesi
ducendam.
Pelo contrário, olhando mais de perto, reconheço” que nada disso é
Imo nihil horum eife poteli. Nam primo, ut verum possível. Pois, em primeiro lugar, se é verdade que meu conhecimento aumenta
fit cognitionem meam gradatim augeri, & multa in
paulatinamente e que há em mim muitas coisas em potência, que ainda não se
me eífe potentiâ quâe aâu nondum funt, nihil tamen atualizaram, contudo, nada disso pertence â idéia de Deus, na qual nada há com
horum ad ideam Dei pertinet, in quâ nempe nihil efeito que seja de modo algum potencial, pois, nela, tudo é atua! e efetivo***.
omnino eft potentiale; namque hoc ipfum, gradatim E, o próprio fato do aumento gradativo já não é acaso uma prova cerlissima de
augeri, certiliirnum eft imperfeãionis argumentam. imperfeição em meu conhecimento?****.
Praeterea, etiamfi cognitio mea femper magis & ma- Além disso, embora meu conhecimento aumente sempre mais e mais, en-
gis augeatur, nihilominus intelligo nunquam illam tendo que nunca será infinito em ato, pois, nunca chegará a um ponto em que não
idcirco fore aâu infinitam, quia nunquam eo deve- seja capaz de um incremento rraior do que o alcançado. Mas, Deus, julgo eu, é
nietur, ut majoris adhuc incrementi non fit capax; infinito em ato, de maneira que nada poderia ser acrescentado à sua perfeição.
Deum autem ita judico effe aštu infinitum, ut nihil Percebo, finalmente, que o ser objetivo de uma idéia não pode ser produ-
ejus perfeãtioni addi poffit. Ac denique percipio eífe zido por um ser que é somente potencial, o qual, falando propriamente, nada é,
objeâivum idea: non a folo eife potentiali, quod pro- mas unicamente por um ser atual ou formal.
prie loquendo nihil eli, fed tantummodo ab aãtuali * de ces perfections
five lormali poífe produci. ** en y regardant un peu de près, je reconnais que
*** mais tout y est actuellement et en effet
32 |Neque profeäo quicquam eli in his omnibus, quod 52 'F***en une connaissance
díligenter. attendenti non fit lumine naturali mani-
feftum; fed quia, cüm minus attendo, «St rerum fenti- _, 132/ Para quem lhe dedique uma cuidadosa atenção, não há seguramente
blltum imagines mentis aciem excmcant, non ita facile em tudo isso nada que não seja manifesto à luz natural. Mas, quando presto
recordor cur idea entis me perfeâioris neceflarió ab menos atenção e que as imagens das coisas sensíveis cegam o olhar de minha
ente aliquo procedat quod fit revera perfeãlius, ulte- mente, já não me lembro com facilidade da razão por que a idéia de um ente
7 illarum] illorum (1" e'dit.). mais perfeito do que eu deva proceder necessariamente de algum ente que seja
a. Voir t. V, p. r54. deveras mais perfeito.
b. Voir t. Ill, p. 329,1: 12.

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48 OEuvnEs DE Dascrtnres. 42-45. 4? OBRAS DE DESCARTES 43.45


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rius quarere libet an | ego ipfe habens illam ideam Por isso, gostaria de investigar em seguida se eu, que tenho essa idéia, eu
effe polfem, li tale ens nullum exifieret. poderia ser, se um tal ente não existisse. '
33 Nempe a quo effem? A me fcilicet, vel a paren- 55?-`~ Pwl/0» Câwzs 4 Í'
tibus, vel ab aliis quibuflibet Deo minus perfeãtis; /33/ Com efeito, de onde tenho o ser? Por certo de mim mesmo ou de meus
nihil enim ipfo perfeãius, nec etiam aque perfeãum, paiíou de outras coisas, quaisquer que sejam, menps perfefiasqo qy§_Deus, pois,
cogitari aut fingi poteft. não se pode pensar ou imaginar algo mais perfeito e nem mesmo de uma perfeição
3' Atqui, fi a me effem, nec dubitarem, nec optarem, igual.
nec omnino quicquam mihi deeffet; omnes enim per-
feftiones quarum idea aliqua in me eli, mihi dedif- .-1-ílbf 34/ Ora, se eufosse independente de tudo o mais* e recebesse meu ser
fem, atque itaipfemetDeus ef1`em.“5 Nec putaredebeo l de mim, não duvidaria, não desejaria ëiem mim nada faltaria, pois, todas as perfei-
ções de que há alguma idéia em mim, eu meidaria e, assim, seria eu mesmo Deus.
illa forfan qua mihi defunt diflicilius acquiri pofie,
quam illa qua jam in me funt; nam contra, mani- l *sij'étais indépendant de tout autre
_
f "ii L J "`i
//Or/"r. ñfl 43-51.:-lr' .lfwcffl-l."-«"l Ul""-'¿"i"in¿«'
fefium efi; longe difficilius fuiffe me, hoc efi: rem live lz
/35/ Nem devo crer que o que falta em mim seja acaso de aquisição mais di-
fubftantiam cogitantem, ex nihilo emergere,_ quam ¿
ficil do que o que já se encontra em mim. Ao contrário, é manifesto que seria muito
multarum rerum quas | ignoro cognitiones, qua tan- mais dificil para mim, coisa ou substância pensante, emergir do nada do que adquirir
tüm iftius fubftantia accidentia funt, acquirere. Ac os conhecimentos, - que são apenas acidentes dessa substância - das muitas coi-
certe, fi majus illud a me haberem, non mihi illa fal- sas que ignoro. E, se obtivesse de mim 0 mais, isto é, se eu tosse o autor de meu
tem, qua facilius habcri poffunt. denegaffem. fed nascimento e de minha existência*, por certo que não me teria negado o que é
neque etiam ulla alia ex iis, qua in icteá Dei contineri *AÉ«gua
-íu-n.o-q.*nu-Qv\. ,. _-_ _.
l
mais fácil obter, isto é, os muitos conhecimentos de que minha natureza esta'
percipio; quia nempe nulla difliciliora faflzu mihi vi-
l
desprovida”, mas também das outras coisas que percebo no conteúdo da idéia de
dentura; li qua autem difficiliora faëlu effent, certe
i Deus, porque nenhuma há, com efeito, que me pareça mais dificil fazer e, se exis-
etiam mihi difficiliora viderentur, fiquidem reliqua tisse alguma que fosse mais dificil, por certo que ela também me pareceria mais
qua habeo, a me haberem, quoniam in illis potentiam
dificil, se as outras coisas que tenho, eu as obtivesse de mim, pois experimentaria
que meu poder não seria capaz de chegar até elas”, nelas terminando.
meamiterminari experirer.
*Neque vim harum rationum effugio, fi fupponam
Fl
* c'est-à-dire sij'étais l'auteur de ma naissance, et de mon existence
me forte femper fuilfe ut nunc fum,| tanquam fi inde
** à savoir, de beaucoup de connaissances dont ma nature est denuée
*** et ne serait pas capable d'y arriver '
fequeretur '°, nullum exiftentia mea authorem effe
quarendum. Quoniam enim omne tempus vita in -izcr J'-×i`-¬ ‹,0 L=«$(~
/36/ E, não me furto â força dessas razões, supondo que eu talvez tenha sido
9 quarum] quorumlr" c'.'1z't.i.-15 cognitioneslcogitationesl1“é.'1it.). sempre como agora sou, de modo que disso decorreria que não devesse procurar
a. Voir r. V, p. 154. a-iÁízfJIiA¬In:r nenhum autor para minha existência. E, pois que todo o tempo da vida
b. lb., p. 155.

90 91
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45-46- MEDITATIONES. - TERTIA. 49 45-46. . MEDi"rAÇoEs - TERCEIRA MEDITAÇÃO 49

partes innumeras dividi poteft, quarum fingula a reli-` c/CQC cdš. / WWMA r/c
pode ser dividido em inúmeras partes, cada uma das`°quais não dependendo de
quis nullo modo dependent, ex eo quod paulo ante
fuerim, non fequitur me nunc debere effe, nifi aliqua modo algum das outras, e pelo fato de que fui há pouco não se segue que eu
caufa me quafi rurfus creet ad hoc momentum, hoc deva ser agora, a menos que alguma causa me crie, por assim dizer, para este
elf me confervet. 37 Perfpicuum enim eft attendenti ad momento, isto é, conserve-me. UUOCÕÕ wwii' oz ore cifra,
% (IQU Gíl-'..l ¡¬_,. Ó- Ovi/¬ JE l/l 'Õ gl/1,`
temporis naturam, eâdem plane vi & aãione opus
effe ad rem quamilibet fingulis momentis quibus du- 54 /37/ Pois, é manifesto a quem esteja atento a natureza do tempo que,
rat confervandam, quâ opus effet ad eandem de novo para se conservar algo, em cada momento de sua duração, são necessárias
creandam, fi nondum exiiteret; adeo ut confervatio- totalmente a mesma força e a mesma ação que para criar de novo o que ainda
nem folâ ratione a creatione differre, fit etiam unum não existe. E, uma das coisas manifestas à luz natural é que a consen/ação só
ex iis qua lumine naturali manifefta funt. ' difere da criação por razão.
ltaque debeo' nunc interrogare me ipfum, an ha- Eis porque devo agora interrogar-me para saber se tenho alguma força
beam aliquam vim per quam pofiim efficere ut ego ille, capaz de conseguir que eu, eu que agora sou, eu ainda seja pouco depois, já
qui jam fum, paulo poli etiam fim futurus : nam, cum que, não sendo senão coisa pensante ou, pelo menos, como agora só se trata
nihil aliud fim quàm res cogitans, vel faltem cum de da minha parte que é precisamente coisa pensante, se houvesse em mim aquela
ea tantüm mei parte pracife nunc agam qua eft res força, sem dúvida que eu dela estaria consciente. Mas, como experimento que
cogitans, fi qua talis vis in me effet, ejus proculdu- não há nenhuma, sou levado a reconhecer da maneira mais evidente, que de-
bio confcius e1fem.Sed'& nullam effe experior, C5: ex pendo de algum ente diverso de mim. .
hoc ipfo evidentiffime cognofco me ab aliquo ente a
me diverfo pendere.
/38/ Talvez esse ente não seja em verdade Deus, e talvez eu tenha sido
3° Forte vero illud ens non eft Deus, fumque vel a
produzido ou por meus pais ou por outras causas quaisquer, menos perfeitas
parentibus produãus, vel a quibuflibet aliis caulis
que Deus.
Deo minus perfeãtis. | Imo, ut jam ante dixi, perfpi-
cuum eft tantumdem ad minimum effe debere in caufa Não, ao contrário, não pode ser assim*: como já disse anteriormente, é
quantum eft in effeftuz 8: idcirco, cum fim res cogi- manifesto que deve haver na causa ao meqos tanto, quantghá_r1o efej19,_razãopgr
tans, ideamque quandam Dei in me habens, qualif- que, sendoeu_coisa pensante e,_possuindo certa idéia de Deus, qualquer que seja
cunque tandem mei caufa affignetur, É illam etiam 55 acausa que afinal se me assine, devo reconhecer que ela deve ser
f' '-*tv-L* 7 _ ff 7 _*f 1' " 'E ' _ __¡_íI1III-_l f
em corsa
f~IIII_ _. '¬-f *Â-«___
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effe rem cogitantem, & omnium perfeãlionum, quas Í


ff
pensa_nte ideiade todasas perfelçoels que atrj:_›_i¿oa Deus.
Deo tribuo, ideam habere fatendum eft. Poteftque de i Poder-se-ia perguntar novamente se ela seria por si ou seria por outra. Se
illa rurfus quari, an fit a fe, vel ab alia. Nam fi a fosse por si, ficaria patente pelo que foi dito, que ela é Deus, porque
fe, patet ex diãtis illam ipfam Deum effe, quia nempe,
92 l 93
go OEuvnEs DE DESCARTES. 46-41- 50 OBRAS DE DescAR'rEs 4647

cüm vim habeat per fe exifiendi, habet proculdubio tendo a força de existir por si, sem nenhuma dúvida que também teria a força de
etiam vim poflidendi aâu omnes perfeãiones quarum possuir em ato todas as perfeições cuja idéia ela possui em si mesma, isto e to-
ideam in fe habet, hoc efi omnes quas in Deo effe das as que concebo estarem em Deus.
concipio. Si autem fit ab alia, rurfus eodem modo de
5
/ Se fosse, porém, por outra coisa, de novo se perguntaiia do mesmo modo
hac altera quaretur, an fit a fe, vel ab alia, donec tan- , se é por si ou por outra, até chegar finalmente a uma última causa, que seria
dem ad caufam ultimam deveniatur, qua erit Deus. / Deus. .ju f o'x^Íoc~»
Satis enim apertum efi nullum hic dari poffe pro- '“° Pois, é bastante manifesto que aqui não pode haver progressum rn infini
greffum in infinitum, prafertim cüm non tantüm de fum, principalmente porque não se trata aqui da causa apenas que me produziu
caufa, qua me olim produxit, hic agam, fed maxi-me outrora mas, também e principalmente, da que me conserva no tempo presente
etiam de illa qua me tempore prafenti confervat. ro * cela ne peut être ainsi
3° Nec fingi poteft plures forte caufas partiales ad me
/39/ Não se poderia também imaginar que, para minha produçao, talvez te
na

efliciendum concurriffe, & ab una ideam unius ex


perfeëtionibus quas Deo tribuo, ab alia ideam alterius
nha havido o concurso de várias causas parciais e que de uma delas eu tenha rece-
bido a idéia de uma perfeição, que atribuo a Deus, de outra, a de outra perfeição
me accepiffe, adeo ut omnes quidem illa perfeâiones
IS
sua, de modo que todas essas perfeições se encontrariam em algum lugar do uni-
alicubi in univerfo reperiantur, fed non omnes fimul verso, mas não todas juntas, ao mesmo tempo, em uma só coisa, que seria Deus
| junfia | in uno aliquo, qui fit Deus. Nam contra, uni- Pois, ao contrário, a unidade, a simplicidade ou insepgaragbilidade de todas
tas, fimplicitas, five infeparabilitas eorum omnium as coisa/suqiie estãri'_erFi1_L2_ey§__`e'__i¿rt]»a dasprinciqaispedeições queenienqpiesfa- .:..
qua in Deo funt, una eft ex pracipuis perfeëtionibus rem em Deus' Efé seguro que a idéiaädessa unidade deiodas as suas perfeiçoes _.,
quas in eo effe intelligo. Nec certe iftius omnium ejus não pode ter sido posta em mim por nenhuma causa da qual eu não recebesse
perfeãionum unitatis idea in me potuit poni ab ulla zo
também as idéias das outras perfeições, pois, ela não pode fazer que eu as en
A
Q

caufa, a qua etiam aliarum perfeâtionum ideas non tendesse ao mesmo tempo juntas e inseparáveis, senão fazendo que eu conhe
habuerim: neque enim eflicere potuit ut illas fimul cesse quais elas eram e de algum modo as conhecesse todas*.
junëtas & infeparabiles intelligerem, nifi fimul effe- * et que je les connusse toutes en quelque façon
cerit ut quanam illa effent agnofcerem.
4° Quantum denique ad parentes attinet, ut omnia 25 140/ Quanto ao que se refere, finalmente, a meus pais, como sempre acre
vera fint qua de illis unquam putavi, non tamen pro- ditei que todas as coisas a seu respeito eram verdadeiras, dos quais parece que
ferfto illi me confervant, nec etiam ullo modo me, recebi meu nascimento*, não são seguramente eles, porém, que me consen/am
quatenus fum res cogitans, effecerunt; fed tantüm nem também, de modo algum, que me produziram na medida em que sou coisa
pensante, e apenas puseram certas disposições naquela matéria em que eu, isto
difpolitiones quafdam in ea materia pofuerunt, cui
30 l é, uma mente, já que agora somente ela aceito como sendo eu mesmo
me, hoc eft mentem, quam folam nunc pro me acci-
* desquels il semble que je tire ma naissance
i8 perfeftionibus pracipuis (1" e'dit.).
94 95
47-48. _ MEDITAÇÓES- TERCEIRA MEDITAÇÃO 51
ms. Mr-:i>rrA'rIoi~iI-:s. -- TERTI. . 51
pio, ineffe judicavi. Ac proinde hic nulla de iis diffi- julguei encontrar-me. Por conseguinte, não pode haver aqui nenhuma dificulda-
cultas effe poteli; fed omnino efi concludcndum, ex de a respeito deles. Mas, deve?-se concluir completaffieñfêqüë só pelogfi-ito de
hoc folo quod exiftam, quadamque idea entis per- q:u_ë'e›Êíšto egdegque háeem [nim certa idéia de um ente_@rfeitissi Liste ê, de
feëtiflimi, hoc eft Dei, in me fit, evidentiflime demon- Deus, ficaxzlemonstr.:-1da,_de.tnane.ira ev_idenflssima_gge.Deus,te¿[_nbém_e;硧;;;-g
ftrari Deum etiam exifiere.
4' Supereft tantiim utlexaminem qua ratione ideam 5
/41/ Resta, somente, que examine a maneira como recebi de Deus essa
ifiam a Deo accepi; neque enim illam fenfibus liaufi,
idéia, pois, não a tenho dos sentidos e ela nunca se me apresentou inesperada-
nec unquam non expeãtanti mihi advenit, ut folent
mente, como costumam apresentar-se as idéias das coisas sensíveis, quando se
rerum fenfibilium idea, cum illa res extcrnis fcn-
fuum organis occurrunt, vel occurrcjrc videntur; iicc
apresentam ou parece que se apresentam aos órgãos dos sentidos externos.
etiam a me efliâa eft, nam nihil ab illa detralierc, Ela não foi também inventadapor mirg,_pois, de_nep_h_uma__maneiraposso sub-
nihil illi fuperaddere plane poffum; ac proinde' fuper- tiaiiig-lhe a|g_o, _nem__r]adaacrescentar-lhe. Assim, resta somente qpe ,ela me__seja
eít ut mihi fit innata, quemadmodum etiam mihi eli ,= `in'ata, domesmomgdo. que okê também iaiidéiaque tenho de mim mesmo desde
innata idea mei ipfius. quando fui criado*. já ii Í
4' Et fane non mirum eft Deum, me creando, ideam * dês lorsque ¡"ai été crée - '
illam mihi indidiffe, ut effet tanquam nota artificis /I/J (,.,'/az z: Á Áá-¬ /zflvv<,¬ 'Z
operi fuo impreffa; nec etiam opus efi ut nota illa fit /42/ E, não é seguramente surpreendente que, ao me criar, Deus me te-
aliqua res ab opere ipfo diverfa. Sed ex hoc uno quod nha imposfo essa idéiafçšno sefosse a marca do gartificei:mp'r'éssa ern'ͧu_a
Deus me creavit, valde credibile eita me quodam- ;c_›tia'_.` E,"ri`ãö`é'"pTêõÉö'Íue aimarca seja algo diivierso da própria obra. Mas, só
modo ad imaginem & fimilitudinem ejus faftum cffc, por me haver criado, deve-se acreditar, e muito, que me tenha feito de algum
illamque fimilitudinem, in qua Dei idea continetur. a modo à sua imagem e semelhança e, que eu percebesse essa semelhança, na
me percipi per eandem facultatem, per quam ego qual está contida a idéia de Deus, pela mesma faculdade por que me apercebo a
ipfe a me percipior : lioc eflz, dum in meipfum mentis mim mesmo, isto é, que ao voltar a ponta da mente para mim mesmo, não en-
aciem converto, non modo intelligo me effe rem in-
tenda apenas que sou uma coisa imperfeita*, incompleta e dependente de outra
completam & ab alio dependentem, reniquc ad mr.-
coisa, aspirando indefinidamente a coisas cada vez maiores e melhores. Mas, ao
jora dz: majora five meliora indefinite afpijrantem; fed 58
mesmo tempo, entenda, porém, que aquele de quem dependo tem em si todas
fimul etiam intelligo illum, a quo pendco, majora if`ta
essas coisas maiores a que aspiro e cujas idéias encontro em mim **, não de
omnia non indefinite & potentia tantiini, fed reipfa
infinite in fe habere, atque ita Deum effe. Totaquc maneira indefinida e, só em potência, mas real e infinitamente e, assim, é Deus.
vis argumenti in eo efl_.quod agnofcam fieri non poifc E, toda a força do argumento consiste em que reconheço
a_ Voir ,__ V' pv- ¡56_ ~ \ .V1/,GM ¿_C Ê]/Ê,/l(,`›¿_' '»IZ-4./t '(4 ao Li [18 5/3 ,(_¿_1>¿-"¬ `\/\/l Ô\/?×"ÚÚ*-f

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52 OEuvRI:s DI: DI:scARTr.s. .is..rçz. 52 OBRAS DE DESCARTES 4349

ut exiftam talis natura qualis fum, nempe ideam Dei ser impossível a existência de uma natureza tal qual sou, isto é, possuidora da
in me liabens, nifi revera Deus etiam exiflerct, Deus, idéia de Deus em mim, a menos que Deus ele mesmo também exista. _De_gs,_
inquam,ille idem cujus idea in me eft, hoc efl, liabens -¡.@.r;-¡n.o,fn_-lq.
l
digo, aquele mesmo cuja idéia está em mim, isto é, o detentor de todas aquelas
omnes illas perfeëtiones, qua's| ego non comprehen- ipe;rieiç_õe_s_guenãopossocormifeeniienr, mma que, de algum modo, posso atingir
dere, fed quocunque modo attingere cogitatione pof- I

pelçyqe_r]_sa_r_n_‹-;nÍrg,,o.qual¬oão_esiá.SLg`eitcg,a nenhum defeitoie não tem nenhuina


fum, & nullis plane defeëtibus obnoxius. 43 Ex quibus
de todas as_qçisas_ g_u_e_saf_'g__a mafca de alguma imperfeição***.
fatis patet illum fallacem elfe non potfe; omnem eniin .'“¡,,',pa'r¡¿¡¡e “ E P
fraudem dt deceptionem a defeftu aliquo pendere.
lumine naturali manifeflum eft. `l * * auxquels ,i'aspire et dontje trouve en moi les idées
“ Sed priufquam hoc diligentius examinem, fimulque * ** et qui n'a rien de toutes les choses qui marquent quelque imperfection
in alias veritates qua inde colligi poffunt inquiram,
placet hic aliquandiu in ipfius Dei contemplatione Í /43/ Pelo que, fica suficientemente manifesto que ele não pode ser enga-
immorari, ejus attributa apud me expendere, & im-
menfi liujus luminis pulçhritudinem, quantum cali-
gantis ingenii mei acies ferre poterit, intueri, admi-
l nador: é manifesto à luz natural que toda fraude e todo engano dependem de
algum defeito.
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|rari, adorare. 45 Ut enim in liac fola divina majeflatis I44/ Mas, antes de examiná-lo mais cuidadosamente e, ao mesmo tempo,
contemplatione fummam alterius vita fcelicitatcm investigar que outras verdades posso alcançar, é bom que me demore algum
confiftere fide credimus, ita etiam jam ex eadem, licct i tempo, neste passo, contemplando esse Deus perfeitíssimo* ele mesmo, pe-
multo minus perfeíta, maxiniam, cujus in liac vita i
sando livremente** seus maravilhosos*** atributos em mim, vendo, admirando,
capaces fimus, voluptatem percipi polle experimur. l
adorando a incomparável**** beleza dessa imensa luz, tanto quanto o pode o
l olhar obnubilado de minha inteligência.
* tout parfait
** tout à loisír
*** merveilleux
* *** incomparabie

/45/ Pois, assim como cremos pela fé que a suprema felicidade da outra
Í vida consiste somente na contemplação da majestade divina, assim também
É
experimentamos desde já que essa contemplação, ernbora decerto menos per-
4-6 quas. . . poffum entre parciitlièscs (r"' ér1it._`. l
feita, pode nos dar o maior prazer de que somos capazes nesta vida.
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AssociAçÃo EDITORIAL Hui.rAi~iITAs
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/Wi/ton Melia do Nascrinenro ._'

Vice-Presidente .(É-
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Gabriel Co/m
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Coiisetiio Eorronuu.
` Titulares Suplentes
- léra Lúcia AmaralÍërifnr' _
Sue/1' Angelo fiir/an
Mana Luíza 7i'iec¡Came¡ro
Wagner da Costa Ribeiro O papel da dúvida metafísica no
Victor Knoll Caetano Ernesto P/asríno
Betli Bniil
_/oséjeremräs de O/íveíra FT//ro
ll/Íargan`da Mania Yãddon1`Hrrer
léra da Sdva YE//es
processo de coiistituição do cogito
Cícero Romão Resende de Araújo FF//io Cí/do Marçal Brandão ,-

Anlonfo Dfmas de Moraes Ósva/do Humberto Leoriardr' Cesc/uh


l/ãférfa de Mama Véroníque Dali/er
Beafn'z Fèrmne-Moisés Paula Montero '
Berta l-lia/dman Moaerr A. Amâncio
jorge /Mattos Brito de A/meída fabio Rligatto de Souza Andrade

Enéías Forlin

Proibida a reprodução parcial ou integral desta obra por qual-


quer meio ' el e trõnic o, mecânico, inclusive por processo
xerográfico, sem permissão expnessa do editor (Lei n°. 9.610, de
19.02.98).

LEI DE
RCUl.`I`lJ'RA

5. .. ,E:\;.Í"›;
i^ ' ¬~_~;I`,;; ;‹l¬'

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DA CULTURA

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junho Í 2004
Copyn'g/1! ©2004 Enéias Forlin

Serviço de Biblioteca e Documentação da Faculdade de filosofia, `


Letras e Ciências _Humanas da Universidade de São Paulo

F722 Forlin, Enéias


umário 6
O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito
/ Enéias Forlin. - São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2004.
162 p. (Estudos Seiscentistas). »~

Originalmente apresentada como Dissertação (Mestrado) - Faculdade


de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo, sob o título "A dúvida metafísica e a constituição do cogito na
obra de Descartes”, l996.

ISBN B5-98292-04-4

l. René Descartes (l 596-1650) 2. Filosofia moderna 3 Consciência


(ética) 4. Método cartesiano 5. Discurso do método 6. Metafísica Introdução
I.Tíru1o II. Série
Capítulo 1 - A estrutura lógica da dúvida metódica
CDD I94.I
Capítulo 2 - Uma comparação entre o processo
constitutivo do cogito no Discurso
Assoc1A‹;Áo Eorronuu, HuMANrrAs e nas Meaitações
EcÚi'orRcspansá'vt]
Ptof. Dr. Milton Meira do Nascimento
I I9 Capítulo 3 - Os Pn'nc1'p¡os da Efosofia como
Coordenação Edrronäl
M'. Helena C. Rodrigues - MTb n. 28.340
contraprova

Hvjisto Czáfico
Selma M. Consolijacintho - MTb n. 23.339 I5I Conclusão
D1äg1ama_çá'o
Walquir da Silva - MTb n. 2B.B4| 159 Referências Bibliográficas
Capa
Heloísa Helena de Almeida Beraldo

Revisão
Kátia Rocini Morope
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Introdução
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2"J.

INAUGURADOR DA F1Loso1=1A moderna, o pensamento filo-


sófico de Descartes não apresenta o nível de sofisticação e, o que é
proporcional a isso, o nível de dificuldade interpretativa, das filosofias
que o sucederam. Além disso, objeto de inúmeros e rigorosos estudos,
já a partir das primeiras décadas deste século, ele se mostra como um
pensamento facilmente acessível, satisfatoriamente compreensível.
Ledo engano. Primeiramente, porque toda a filosofia, por
menos complexa que seja, apresenta dificuldades de compreensão
que não podem ser solucionadas por uma explicação cabal, exigindo
5

um esforço sempre renovado de interpretação. Depois, porque a filo-


sofia cartesiana está muito longe da imagem de “clareza e distinção"
que o senso comum do ambiente filosófico, por assim dizer, pretende
atribuir-lhe. Uma tal imagem dissimula as polêmicas que há entre os
estudiosos sobre aspectos fundamentais da metafísica de Descartes.
O próprio ponto de partida da metafísica cartesiana - o cogi-
to -, considerado de livre acesso por qualquer estudioso de filosofia,
é ele mesmo objeto de inúmeras controvérsias entre os especialistas
de Descartes. Tais controvérsias dizem respeito ao estatuto do Eu do
cogito - sujeito epistemológico ou sujeito psicológico, impessoal abstra-
É
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.-

ñ Introdução
O papel da dúvida metafísica no processo dc constituição do cogito 1...

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1. daquela das Meafrraçõesz no Brasil, Raul l_.andim7 propõe uma in-
to ou pessoal concreto? Há controvérsias também quanto ao estatuto
terpretação que vai na mesma direção.
da evidência do cogito - a intuição atual do cogito necessita de uma
garantia divina ou não? Garantia de ordem intelectual ou meramen- Como prova de que não há dúvida metafísica no Discurso,
te moral? Existe polêmica até mesmo quanto ao estatuto da proposi- esses comentadores citam a inexistência do argumento do Deus En-
ção do cogíto, onde, quer nos parecer, Descartes já esclareceu o ganador que aparece nas Medrraçõcs. Para Guéroultf' como o Dis-
suficiente - “eu penso, logo existo” é um raciocínio ou não? Há aqui
I'
curso só opera, por um lado, com o argumento tirado dos paralogismos
um movimento que vai do cogito ao sum? cometidos algumas vezes pelos matemáticos, que pode fazer-me du-
vidar de minha capacidade de alcançar as noções certas mas não
Ora, em que, nisso tudo, o cogito se mostra satisfatoriamente
dessas noções mesmas, e, por outro lado, com o argumento dos So-
esclarecido, a ponto de ser considerado coisa trivial? A bem dizer,
nhos, capaz de enganar-me sobre as existências mas não sobre as
todas essas controvérsias só fazem revelar o quanto ainda precisa ser
noções matemáticas, apenas nas Medrtações, que utiliza o argumento
feito para que tenhamos uma adequada compreensão do cogito. Ele,
do Deus Enganador, “a reflexão eleva-se do plano natural ao plano
o cogito, apresenta dificuldades que de modo algum nos autorizam a
metafísico”. Para Gilson,9 como o fundamento metafísico último so-
tomá-lo como um “assunto batido” em filosofia.
bre o qual repousará a crítica dos meios de conhecer nas fl/Iedftações
Quer nos parecer mesmo que há uma incompreensão mais e nos Pnr1crfoio.s(o argumento do Deus Enganador) não foi utilizado
profunda no que respeita à concepção do cogito- e ali mesmo onde no Discurso, a dúvida, nesta obra, não atinge “a intuição atual das
não parece haver controvérsias. A tese de que a formulação do cogito demonstrações matemáticas, mas a lembrança das demonstrações que
no Discurso se diferenciaria daquela nas Mecfrtaçães, porque no Dis- outrora nos pareceram demonstrativas”. E Gilson vai mais longe:
curso não constaria a dúvida metafísica enquanto nas Medrtações ela ele sugere que no Discurso sequer a existência das coisas exterio-
se faria presente, tem grande adesão entre os mais respeitados co- res foi posta em dúvida, tanto porque, segundo ele, a dúvida so-
mentadores de Descartes. C\ilson,' C\uéroult,2 Gouhieri e Hamelin4 bre a veracidade do testemunho dos sentidos parece referir-se à
afirmam a inexistência de dúvida metafísica no Discurso do Método. natureza das coisas exteriores (e não à existência delas), quanto
A partir dessa premissa, comentadores como Alquiés e l\/larionó de- porque a razão hiperbólica de duvidar (o Gênio l\/laligno), que
fendem a tese de que a concepção do cogíto no Discurso é diferente colocaria em questão a existência de nosso próprio corpo, não
aparece no Discur.so.'°
' GILSON, Etienne. Discours de Ia Mëtbodc. Texte et Commentaire. Paris: Vrin, l9B7,
p. 290.
2 CUÉROUT, Martial. Descartes Se/on L 'OrdreDes Raisorrs. Paris: Aubier, 1953, p. 37.
7 Estamos nos referindo aqui especificamente ao artigo de LANDIM FILHO, Raul. "Pode
3 GOUHIER, Henri. Essais sur/e Discours de la Métlrode, la fl/Íétap1r_ysr°que et Ia Morale.
o cogito ser posto em questão?". Discurso, Revista do Depto. de Filosofia da USR Il- 24.
Paris: Vrin, l 973, p. l 66.
I 995.
4 HAMELIN, Octave. Ei¡..5istema de-Descartw. Buenos Aires: Editorial Losada, I949, p. lZ6.
3 GUÉROUT, M., op. cit.
5 FERDINAND, Alquié. La Dëcouverte Métaplrjsriyue de L'Í'Íommc clrez Descartes. Pa-
ris: PUF, l950, cap. lx, p. l8l-200. ° GILSON, E., op. eir.
'° Idem, ibidem, p. 308-9.
6 MARlON,]ean-Luc. Questions Cartésrenrres. Paris: PUE l99|, p. 60-l.

9
8 É
O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogita Introdução
.
A partir dessas indicações, e em especial a de Gilson, Alquié' ' e se sentido mostra-se, numa análise mais acurada, arbitrária; depois
propõe uma concepção do cogito do Discurso distinta daquela do É .4
porque - e isso nos parece o mais fundamental - uma análise lógica
cogito das Meaiiagõesz o cogito do Discurso, dotado de uma clareza e daformulação do cogito mostra-nos que ele é conseqüência da ins-
autonomia tais que Descartes acreditava ser possível concluir apenas tauração da dúvida metafísica; sem dúvida metafísica, pois, não che-
taierei
-nur

da distinção das idéias de alma e corpo a distinção real destas duas gamos ao cogito como primeira verdade.
substâncias; o cogito das Meditações, dotado de uma obscuridade e Ôra, dir-nos-ão aqueles que advogam a tese de que não há
.‹

complexidade, cujas contradições engendrariam um movimento dúvida metafísica no Discurso: analise", então, as etapas da dúvida
dialeuco, fonte de um aprofundamento em direção ao Ser e de um 5¬'§í?ü*¡z"-Ri
nessa obra e veja se é possível encontrar ali uma razão metafísica de
perpétuo ultrapassamento de si. là
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ii! duvidar, tal como encontramos explicitamente nas Meafrrações. Pois é
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Que se possa defender a interpretação de que existem duas


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precisamente isso o que faremos nesta dissertação: iremos analisar o
concepções de cogito a partir da indicação geral de que não há dúvi- "r§,';!:"'
processo de constituição do cogito” no Discurso e compará-lo àquele
É

da metafísica no Discurso -- nada temos a objetar. Na verdade deve- que aparece nas Meditações. Nosso objetivo é mostrar que não há
mos mesmo reconhecer a coerência de Alquié ao desenvolver até as Í

últimas conseqüências aquilo que já está implícito na tese de que não


'Z Por “processo de constituição do cogito” entendemos o processo da dúvida que conduz
há dúvida metafísica no Discurso. Nossa suspeita aqui vai contra ›.›

ã formulação do cogito. Pode-se alegar, é claro, que a dúvida não pode ser ligada ao cogito
essa tese mesma: não existe realmente dúvida metafísica no Discur- como formando um processo único, que seria o processo de sua constituição. dúvida
so? Mais que isso, ela vai contra a possibilidade mesma dessa tese: é eonsistindo, pois, apenas num processo negativo de rejeição de todo o conhecimento; o
cogito. POr sua vez, consistindo no início de um n0V0 Pf0C°550› P°5¡ÚV°› QUÊ 5“"gmd_°
possível instaurar o cogito sem passar pela dúvida metafísica?
contra a dúvida, restabeleceria o conhecimento sobre novas bases. Essa divisão estaria
Com uma tal suspeição, na verdade, estamos mesmo atenden- bem explícita na divisão das Merfriações, onde a dúvida ocuparia sozinha to-da a primeira
Meditação e o cogito iniciaria uma nova, a segunda Meditação. Nossa interpretação,
do ao apelo que Descartes faz no prefácio à tradução francesa de
porém, não exclui uma tal perspectiva, senão mesmo que a completa com uma outra pers-
seus Pn'rrcr2›r°o.s: pectiva que lhe é inerente. Se a operação da dúvida consiste num movimento negativo de
rejeição do conhecimento, ela também é, ao mesmo tempo, um movimento positivo de
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colocação do sujeito desse conhecimento, e como tal consistindo, simultaneamente, num
nunca me atribuam qualquer opinião que não encontrem expressamente '_'
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processo constitutivo do cogito. Não nos parece possível ver na consciência-de-si,_expressa
Q
em meu escritos, e até nenhuma aceitem como verdadeira, quer nos meus pelo cogito, um fato autônomo frente ao processo da dúvida. Se figurarmos adúvida como
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escritos quer em outro lugar, se não verificarem ser claramente deduzida dos um movimento entre a bipolaridade sujeito-objeto, perceberemos melhor que ela se consti-
verdadeiros princípios. -.\\¡' /'
tui numa progressiva operação de distanciamento do objeto em relação ao sujeito. -C
sujeito está ligado ao mundo por toda uma estrutura de representações: num primeirc
Quer nos parecer que advogar a tese de que não há dúvida momento, ele está, por meio desta estrutura, como que concentrado nolmundo e descentradc
de si mesmo; num segundo momento, porém, por meio de uma crítica do conhecimento,
metafísica no Discurso incorre em grave e duplo erro: primeiro por- ele vai como que se desprendendo do mundo, se afastando do objeto e entrando em st
que pretende atribuir a Descartes algo que ele jamais admitiu, sendo mesmo; a etapa final, então, é como que a redução da consciência ã sua própria esfera, da
que qualquer tentativa de interpretar as afirmações de Descartes nes- consciência das coisas para a consciência de si mesma. Neste sentido, pois, o movrmentt
de rejeição do objeto é, simultaneamente, um movimento de posição do sujeito.: a rejeição
pela dúvida, de todo o conhecimento sendo uma progressiva operação de manifestação d‹
" Atouuá, F. op. oii., p. I80-I. sujeito do conhecimento: o pensamento.

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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito .,-.~_f.


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Introdução

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diferença essencial, mas meramente de exposição, entre esses dois


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tes aeugerir a tese que aqui combatemos. Mas é sobretudo quando
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processos - o que significa dizer que há também dúvida metafísica aparece algo mais elaborado no importante e minucioso comentãr10
no Discurso. Disso decorre, portanto, que não pode haver diferença .›...
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que Gilson faz do Discurso do Método, e também, ainda que como
de concepção entre o cogito dessas duas obras. simples indicação, na monumental obra de Guéroult, Descartes ScÍ0fl
O Discurso do Método e as Meditações Metaƒifsicas serão, L'Ordre des Raisons, que uma tal tese como que ganha autoridade e
pois, os objetos centrais de nossa análise - fundamentalmente, a quarta começa a formar escola. O prestígio dessas duas obras, que constitu-
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sz:itfz-'se-sifion em verdadeiros marcos na interpretação da filosofia cartesiana, a de
parte do Discurso, a primeira e também a segunda Meaftações. Como
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há ainda uma terceira obra onde Descartes faz uma exposição acaba-
1.
L Gilson no que se refere ao Discurso e a de Guéroult no que respeita
da de sua metafísica, a saber, os Prirrcrfoíos da Fifosofia, ser-nos-á de lí
às Meditações, confere a essa tese o aspecto de legitimidade necessá-
grande valia também uma análise do processo de constituição do rio para a sua aceitação e difusão. Advogada também por Gouhier,
cogito que ali aparece. Ela servirá como um importante elemento de ii outro renomado comentador de Descartes, a tese de que não há dú-
contra-prova dos resultados obtidos a partir de nosso estudo compa- vida metafísica no Discurso adquiriu como que um quórum suficiente
rativo entre o processo de constituição do cogito no Discurso e nas
v-:-zf‹.'f:i\:
entre os grandes intérpretes de Descartes, a ponto de ser vista hoje

Meditações. Imprescindível também será o recurso às Óbjcções e


nua

mais como um fato do que como uma interpretação. Some-se a isso a


E
v

Respostas e à correspondência de Descartes, tanto porque há ali É


já clássica, por assim dizer, distinção estabelecida por Alquié entre â
importantes esclarecimentos do autor sobre sua obra, quanto porque concepção do cogito do Discurso e aquela das Mea'r'taçô'es, só torna-
é justamente ali que muitos dos intérpretes de Descartes vão buscar da possível a partir de uma tal tese e que, ao mesmo tempo, .serviu
apoio para a tese de que não há dúvida metafísica no Discurso. para consolidá-la. E basicamente com esses comentadores, P015, que
pretendemos dialogar no decorrer de nossa dissertação.
Não é nossa intenção confroiitarmo-nos com cada um dos co-
mentadores de Descartes queeadvogam essa tese. Uma tal tarefa é, Ela constará de três capítulos. Como nosso objeto de estudo
ao mesmo tempo, impossível e desnecessária. Como, para usar as consiste num recorte feito no sistema metafísico de Descartes, a or-
palavras de Descartes, “a ruína dos alicerces carrega necessariamen- :i
dem entre os capítulos não segue, é claro, a ordem das razões que
f

te consigo todo o resto do edifício”, pretendemos deter-nos mais es-


l
articula o sistema cartesiano: trata-se, a bem da verdade, de uma
pecificamente naqueles comentadores que, se não foram talvez os ordem das matérias, organizada segundo o objetivo e os interesses de
responsáveis pela introdução da tese de que não há dúvida metafísica nosso projeto.
no Discurso, foram, sem dúvida, dada sua tradição e competência na ' A discussão central a respeito da dúvida metafísica no Discur-
interpretação da obra de Descartes, os responsáveis pelo definitivo so, envolvendo uma análise comparada entre a exposição do Discur-
estabelecimento dessa tese, inaugurando toda uma linha interpretativa. so e aquela das Medr'taç'ô'cs, será apresentada no capítulo 2. Num
A escola francesa, sem dúvida, é aquela que possui maior au- primeiro momento, faremos um exposição minuciosa do processo de
toridade e influência na interpretação da filosofia cartesiana. Com constituição do cogito nas Meditações; depois, Ígflfilmeflflä Pl:0Cede'
sua imponente obra Le Systême de Descartes, editada em Paris em remos à exposição do processo constitutivo do cogito no DISCUISO;
l9l I, Hamelin foi um dos primeiros grandes intérpretes de Descar- num terceiro momento, então, teceremos um estudo comparativo en-

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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito IntrodI1§ã°


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tre esses dois processos. Este, por sua vez, constará de quatro mo- is. ' Como, P°i-ém, 0 PY°°°55° de C°fi5m“¡§ã° do fogto e _
› , - ta s a uvi-
mentos: no primeiro, estabeleceremos resumidamente as diferenças ‹
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¡›
do-se a formula - praticamente todo composto pe as C P6
entre esses dois processos; no segundo, trabalharemos aquelas dife- da g como, ao nosso ver, é precisamente sobre etap&S QUÊ 05
, ' " ` ' s recisa-
renças no que se refere às razões de duvidar propriamente ditas, lo- equivocos se concentram, a nossa discussao inci ira. mal, P .
calizando a questão principal de nossa discussão, a saber, a função mente sobre a estrutura lógica da dúvida metódica. Tal e. P015› 0
I ú

~ ' f fazer mani-


que o argumento do Sonho ocupa no processo constitutivo do cogito assunto de nosso primeiro capitulo, no qual Pf¢Í¢fld°m°5 ^
no Discurso, a qual será discutida em quatro estágios; no terceiro .-fazia-si msíati -›~¬*
festar progressivamente essa estrutura lógica através de uma genese
P1'
momento, então, trataremos da diferença de aplicação do recurso *RH de seus conceitos. Assim procedendo, avançaremos algumas posi-
_ . - ' ' ” t o rinci-
metodológico nestes dois processos, tomando como íio condutor a L
L çoes, principalmente no que se refere a uma distinçao en re P
r

ausência do artifício psicológico do Gênio Maligno no Discurso; no >


pio da dúvida hiperbólica e o recurso metodológicoddektlomar comi:
I

- z ° caracteri-
quarto, finalmente, discutiremos a diferença entre as fórmulas do cogüo 4. falso aquilo que e apenas duvidoso, bem como uma evi a
\`

no Dišcuzso e nas Meditações. 5


zação deste último.
_:..

Antes, porém, de lançarmo-nos na discussão central de nossa É


r Mas se a discussão central de nossa dissertação ¢XÍ8€ Um Cap*
dissertação, será necessário um primeiro capítulo onde trataremos de tulo anterior com discussões preliminares que llhe pfepfífem 0 5910'
z ' ue sirv'
questões preliminares referentes, de modo genérico, ao processo de ela requer tambem, por outro lado, um capitu o posterior q . c
constituição do cogito. Isto porque a incompreensão que cremos exis- como contraprova daquilo que nela ficou estabelecido. Tal C, P015, <
. . , - z '' ii condutor c
tir em torno desse processo é, assim nos parece, resultado de uma obyetivo do ultimo capitul0, Onde. UUl1Za¡fd° É°m° °_
incompreensão mais profunda que diz respeito à própria estrutura processo de constituição do cogito nos PHHCÍPÍOS da EI”-fofia' pre'
lógica do processo constitutivo do cogito. Somos levados a crer que tendemos confirmar a tese de que a concepção do c0g{I0f§ fi fflesmf
é porque não se compreende adequadamente a mecânica dessa es- em qualquer das obras de Descartes. Este capítulo esta dividido en
trutura, bem como a função precisa de cada uma de suas etapas, que duas partes: uma primeira, onde procuraremos mostrar(1106, PQ; Sua*
se pode chegar ao ponto de afirmar que não há dúvida metafísica no / ° Í I'
caracteristicas especificas, 0 Pf0¢¢55° df* C°fl5UtU1§a° f) 0037
0

Discurso, ou que ali não se coloca em dúvida a existência das coisas T

É Pnizcijoios evidencia a irrelevâricia das diferenças que existem entre ‹


exteriores. Tanto essa crença parece-nos verdadeira que, mesmo no I

i
1 processo constitutivo do cogito que aparece no Discuzsoe aquele qu‹
que se refere ao processo de constituição do cogito nas Meditações, é i
aparece nas Meditações; uma segunda, onde tentaremos mostrar qu‹
x
possível perceber incompreensões quanto à função do argumento dos .. . - , - ^ ' ' ' ' nlirma z
a ausencia do artificio do Genio Maligno nos PHHCIPIOS C0 ç al
erros dos sentidos, bem quanto ao recurso metodológico de tratar como f
nossa interpretaçao sobre o carater da operaçao de tomar como s‹
falso o que é apenas duvidoso - o que, neste último caso, parece revelar aquilo que é apenas duvidoso e, portanto, S0b1`¢ 0 Papel m¢5m° qu*
uma incompreensão mais geral quanto ao papel que a psicologia de- o Gênio Maligno desempenha nas Meditações.
sempenha no método cartesiano, a qual, como pretenderemos mostrar, _ . - (1,
Com este procedimento, acreditamos. estar elucidaiidm
é um componente essencial na medida em que funciona como
coroamento da dúvida metódica. maneira mais comp 1 fitâ POSSWÊ
' l › 0 n osso ob3 eto de discussao. Ist«,
pm-que (a) não nos parece satisfatório empreender qualquer ql!-C SC]
2
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3.
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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito -'ze
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a análise do processo de constituição do cogito, em qualquer que seja .f.'¿'


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a obra de Descartes onde ele aparece, sem antes termos uma com- fã
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NM:
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preensão adequada de sua estrutura lógica. Quanto (b) ao motivo de QUI'
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utilizar o processo de constituição do cogito nos Pniiczfofos como f


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321

Capítulo 1
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contraprova dos resultados de nossa análise, ele se justifica tanto pela


-1-f-'
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oportunidade quanto pela necessidade: por um lado, é de extrema


A estrutura lógica da dúvida metódica *
r ~P.
1-,
qu..
¬.

conveniência encontrar na obra de Descartes ainda uma outra expo-


s
"3,14
ë'í;‹F't«5"°¿”f_*`3
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sição do cogito, a qual nãoisomente não contraria a interpretação que


El

aqui defendemos, como serve muito bem para referendá-la; por ou-
tro lado, não nos parece mesmo possível ignorar a existência de 'gr

outra exposição do cogito quando o que está em jogo não é apenas 5'
'I

mostrar que a concepção do cogito do Discurso é a mesma que aque-


.' .-
Ê".

i;
la que aparece nas Meditações, mas também mostrar que, do ponto I
z
ii
de vista lógico, a concepção do cogito deve necessariamente ser a v

mesma, seja qual for a obra de Descartes em que ele apareça. Ív-

Por fim, cabe ressaltar que não é nossa intenção aqui trabalhar Í

com os problemas internos da filosofia de Descartes, isto é, com aque- I» A DÚVIDA CARTESIANA não é uma dúvida natural, provocada
las questões que a filosofia cartesiana se colocou e que, ao que pare- ä
pela própria experiência, mas consiste numa dúvida Vo/untâína, gera-
ce, não conseguiu dar conta. Iremos nos deter exclusivamente naqueles, da por decisão. “Aplicar-me-ei seriamente e com liberdade em des-
' si _.
por assim dizer, problemas de interpretação, isto é, naquelas ques- truir em geral todas as minhas antigas opiniões .f Nao uma decisão
tões que giram em torno de se precisar o sentido daquilo que Descar-
tes quis dizer quando afirmou isso ou aquilo. lsto porque, acreditamos, ' Uma vez que o processo da dúvida aparece de maneira mais completa nas Meaf¡'ta-
a tarefa de_ apontar e buscar esclarecer os problemas contidos na ou """C-|`
ções, tal caracterização se assentará sobretudo naquilo que está exposto nesta obra. As
diferenças com aquilo que está exposto no Discurso e nos Híncifoibs serão trabalhadas no
gerados pela posição filosófica de Descartes requer, antes de mais momento mesmo das análises dos processos de constituição do cogito nessas duas obras.
nada, que interpretemos o mais fielmente possível sua filosofia. Caso
' ADAM, C.; TANNERY, P. /Wédítatíons /llétap/Jysíques. ln: Oeuvres de Descartes, I l
contrário, arriscamo-nos a tomar como problemas da filosofia de
v. Paris: Vrin, l973-1978, tomo IX, p. 13 (grifo nosso). Todas as obras de Descartes
Descartes aquilo que, talvez, não passe de problemas gerados pela serão citadas segundo esta edição, indicada pelas iniciais (A.T.), seguidas do número do
nossa interpretação sobre essa filosofia. 1 volume. Especificamente, para as Quintas e Sétimas Objeções e respostas (cujas tradu-
ções para o francês não constam da edição de Adam & Tanney) também utilizaremos,
para efeito de citação, a edição francesa de BEYSSADE, M. et Jean-Marie. )'l/Íéditations
Métapbysibues. Ôbjections et Réponses, suivies de quatre Lettres. Paris: Garnier-
Flammarion, I979, indicada pelas iniciais (JMB). A tradução para o português foi reti-
rada da edição GUINSBURG, J.; PRADO JÚNIOR, B. Decarres - Obras lncompletas. São
Paulo: Abril Cultural, 1983. De maneira geral, essa será a edição utilizada sempre que

16 o
A estrutura lógica da dúvida metódica
O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito l

Q
»›-
0

. n

suficiente para rejeitar uma opinião. Nada mais apropriado ao proje-


l.

aleatória, mas uma decisão visando a um objetivo e, paratal, adotan-


to cartesiano, pois, que o emprego da dúvida lógica. ~ " '
do uma estratégia. Trata-se, pois, de um metodo de duvidar e, neste
sentido, pode ser chamada de dúvida metõafrca. ç
Ora, não será necessário, para alcançar esse desígnio [rejeição de todas as
Ó objetivo de Descartes, sabemos, era restabelecer o edifício
opiniões], provar que todas elas são falsas, o que talvez nunca levasse a cabo;
do conhecimento sobre bases absolutamente certas e seguras: J
mas, uma vez que a razão já me persuade de que não devo menos cuidadosa-
*T

mente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e
indubitáveis, do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor
I-lá já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, E
zr
E:

2:
motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar a
recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois
todas.3
eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvido-
so e incerto; de modo que me era necessário dispor-me seriamente, uma vez
em minha vida, a desfazer-me de todas as opiniões que eu recebera até então E daqui decorre o caráter hiperbólico da dúvida metódica carte-
em minha crença, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se qui-
sesse estabelecer algo de firme e constante nas ciências? siana: “rejeitar tudo aquilo em que se encontrar o menor motivo de
!Yfii
i¬'?ñiEl%'¡ffl`~T¬.'Ê¿të7TÍãfli*`É"!'Í›5- ' 5
li
dúvida”. É apenas nisso, acreditamos, que se resume o princípio da
nz
.-.'-

... dúvida hiperbólica. Um outro, bem diferente, “rejeitar como falso o


A dúvida metódica surge, assim, como um instrumento para a 125.'-'š[!"f
Iv
'.' que é apenas duvidoso” diz respeito a uma segunda operação que
rejeição de todas as minhas antigas opiniões. Não se trata de uma ~
11757
›;
9,. aparecerá somente no final da Primeira Meditação e, portanto, somen-
rejeição pela rejeição, isto é, de uma simples decisão de rejeitar (o
te ali, como mostraremos mais adiante, esse princípio será formulado.
que é muito pouco) e nem de uma rejeição pela prova cabal de que 1:

;.'.-qu
I:

:ft
z Se, por um lado, o critério de rejeição das opiniões não é o da
todas elas são falsas (o que ultrapassa todas as nossas forças): trata- lv
$
prova de falsidade mas tão somente aquele da dúvida, por outro lado,
se simplesmente de uma rejeição pela dúvida. Do ponto de vista es- :I
â
às não se trata de uma dúvida espontânea, condicionada pelo grau de
tritamente lógico, apenas se pode garantir a verdade para o que é í.

probabilidade, mas de uma dúvida segundo o iigorlógico da necessi-


necessário; o possível e mesmo o provável (não importa qual o grau) p
'Z-'T-"|í-31.'
io'
dade, uma dúvida, pois, extremada. É claro, na perspectiva rigorosa
é sempre passível de dúvida. Ora, se o projeto cartesiano é a constru-
da lógica, não se pode falar em grau de dúvida: simplesmente uma
ção de uma ciência de certezas absolutas, o menor índice de dúvida é
coisa é ou não é passível de dúvida. Mas a aplicação lógica da dúvida
às opiniões hiperboliza as dúvidas naturais sobre essas opiniões; con-
citarmos em português trechos das Meditações metaiffsƒcas e das Qbjeções e respostas, verte-as, portanto, em dúvidas hiperbólicas.
bem como do Discurso do método e das Pailirões da alma. Para as citações em portugues Em linhas gerais, a dúvida pode ser entendida em dois senti-
do texto dos Hiiicibibs da Filosofía utilizaremos uma edição de Lisboa, da Guimaraes ...-

=.*ti23at!
t~1=>v'¬u:rnw i:=ruift '5.=ilrd1I~¬*
dos: (i)como uma dúvida empírica, ou seja, provocada pelos fatos;4
n

Editores, l939 (tradução de Alberto Ferreira); para.o texto das Regras para a onenta- n.
QI.
1:'

ção do espíiíto utilizaremos também uma edição de Lisboa, Edições 70, l985 (traduçao
de João Gama). Quando promovermos qualquer modificaçãoonas traduçoes citadas, co- ti
WIN
-'flz

locaremos entre parênteses a sigla (T.M.). Quanto aos demais textos de Descartes que
3 Mézziizziõzs, AT. Dep. 13-14.
não foram traduzidos para o português, faremos nossa própna tradução. rs
r'. 4 Por fatos, entenda-se aqui, fatos de nossa experiência externa ou interna (sensível ou
5;-l='ÊE"IvÊ'‹*=ãI¡Í
inteligível); fatos, pois, de conhecimento, isto é, idéias ou representações. '
2 Méali`taii'oiis, AT. IX, p. I3.

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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito A estrutura lógica da dúvida metódica

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como tal ela é de caráter psicológico, isto é, consiste num desequilíbrio N-4.'
E, para isso, não é necessário que examine cada uma em particular, o que
de alguma de nossas crenças, numa manifestação de desconfiança seria um trabalho inlinito; mas, visto que a ruína dos alicerces carrega neces-
sariamente consigo todo o edifício, dedicar-me-ei inicialmente aos princípios
sobre a verdade de um determinado fato, pela constatação no fato de
sobre os quais todas as minhas opiniões estavam apoiadas.°
um elemento que contradiz ou simplesmente escapa ao controle de 'ä
'FIL

¢'z'
...
nossas explicações; (ii) como uma dúvida voluntária, ou seja, kr-

provocada pela simples possibilidade de se questionar tudo aquilo


_l`.I'
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Quer dizer, a rejeição pela dúvida segue o princípio lógico da
šiff
.,_.
que não possui uma certeza inquestionável (absoluta); como tal, ela
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uq;-Í simplicidade. l-lá, claro, um obstáculo de ordem prática, na medida
Ff'
I_
é de caráter lógico, isto é, consiste em desequilibrar alguma de nossas "!
1°.
em que o exame particular de cada opinião seria uma tarefa infinita;
2
crenças pela constatação de que ela não é absolutamente necessária. mas, e isso é 0 mais importante, mesmo que fosse factível, uma tal
Â
J'

No primeiro sentido ela pode ser dita dúvida natural ou de fato; no tarefa seria desnecessária: a ruína dos alicerces é a ruína do edifício.
segundo, dúvida lógica ou de direito. Nesta perspectiva, estabelece- Ó ataque, então, será na raiz mesma das opiniões. A dúvida metódi-
se uma distinção entre dúvida natural e lógica: natural, a dúvida é ca é, pois, uma cfzíwirfa radícal .
proporcionalmente inversa à probabilidade: quanto mais provável, Essa operação radical da dúvida metódica deve, porém, se-
menos duvidoso - e o que não tem muita dúvida é praticamente guir uma ordem, e essa ordem, por sua vez, deve estar diretamente
certo; lógica, ela consiste naquela exigência rigorosa da necessidade. I ligada às exigências da empresa cartesiana.? A dúvida metódica vai
Mas se são distintas, elas não são, todavia, excludentes: a dúvida então se aplicar primeiramente ao conhecimento sensível e depois ao
lógica pode aplicar-se sobrea dúvida natural: orientada pelo rigor conhecimento matemático, segundo uma ordem de generalização cres-
lógico, a dúvida natural é levada ao extremo, convertendo-se, assim, cente que parte da rejeição das nossas opiniões sobre as qualidades
em dúvida hiperbólica. A dúvida hiperbólica consistindo, pois, num das coisas exteriores, passa pela rejeição das opiniões sobre a própria
primeiro momento,5 na conversão da dúvida natural em dúvida lógi- existência das coisas exteriores e, finaimente, atinge a rejeição de
ca, ou seja, num exagero da dúvida natural operado pela exigência nossas opiniões sobre a verdade de coisas universais como a exten-
¡_.

lógica de necessidade. vz
3.
1.?
são, a figura, a quantidade ou grandeza, o número, o tempo, o movi-
A dúvida metódica cartesiana é, então, Voluntária e mento etc.
/uiverbôlíca. Mas não é apenas isso: a dúvida metódica, o nome já
F
J.
nr.-I-=Ir Por outro lado, trata-se de uma ordem que vai do complexo ao
diz, segue um método. Ela já tem seu objeto: as nossas antigas simples. Como bem mostra Guéroult,8 a dúvida ataca primeiramente
opiniões; seu caráter já está dado: é dúvida hiperbólica. Mas como
mais precisamente vai operar a dúvida hiperbólica sobre as opini-
6 Médriaübns, AT. IX, p. I4. .
ões? Qual é sua estratégia?
7 “Não quis de modo algum começar rejeitando inteiramente quaisquer opiniões, que se
intiltraram outrora em minha crença sem terem sido aí introduzidas pela razão, sem que
eu tivesse antes empregado bastante tempo em elaborar o projeto da obra que ia empreen-
der, e a procurar o verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas de
5 Ver-se-á, mais adiante (p. 23), que este é apenas um dos dois casos da dúvida que meu espírito seria capaz". (Driscours de la Métbocfe, AT. Vl, p. ló).
hiperbólica, sendo que o outro é aquele que corresponde à dúvida metafísica. E GUÉROULI, M. Descartessefon L'O¡df|.=.' de.sRa¡Ísons, v. l. Paris: Aubier, l953, p. 34.

20 0
i 21

1.
ou
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cz:
“il”
_. O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito 5:
F A estrutura lógica da dúvida metódica
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.i.i'
O
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as percepções sensíveis, que são representações compostas; depois os «H *_
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fi,
Entretanto, o limite aquié apenas aparente: se o fato matema I
Ç
i, '.- -
â.-

elementos mais simples e gerais que compõem essas representações, il' .


.|.
ticonão permite uma dúvida de fato, a lógica, porém, torna possível
c
tais como olhos, mãos etc.; e, por fim, os elementos desses elementos, i
uma dúvida de direito sobre o fato. Aqui ocorre uma separação entre
›z-
que são as naturezas absolutamente simples e gerais: figura, número a dúvida lógica e a dúvida natural: se a dúvida lógica não pode mais
T
etc. Assim, podemos interpretar a ordem aqui exposta como que já utilizar a dúvida natural contra o fato, fazendo, portanto, recurso à
uma espécie de aplicação do segundo preceito do método cartesiano: f..
própria experiência, ela tem o direito, todavia, de levantar por si mesma
w

f'O segundo [preceito] consiste em_dividir cada uma das dificulda- 15


uma dúvida contra o fato, questionando a legitimidade da própria
¡..

des que eu examinasse em tantas parcelas quantas fosse possível e experiência. A dúvida hiperbólica surge, agora, como uma aplicação
quantas necessárias fossem para melhor resolvê-la".9 Este, sabemos, direta da dúvida lógica aos fatos, e não mais apenas como uma apli-
é o preceito da análise, que leva do composto ao simples. Ora, o que cação mediada pela dúvida natural (que aparece, então, como um
é a operação da dúvida senão uma análise que irá decompor as re- '1
II..
caso particular da dúvida hiperbólica). Na verdade, a dúvida lógica
presentações em seus elementos absolutamente simples e gerais? Ou pode aplicar-se aos fatos, e assim tornar-se hiperbólica, de duas ma-
ainda, o que é a operação da dúvida senão desconstrução do edifício neiras: utilizando-se da dúvida natural, fornecida pela própria expe_
do conhecimento antes de seu restabelecimento sobre bases absoluta- .t nência; ou então, se a experiência nada fornece, fazendo uso do direito
š.

mente seguras? '° _ i.


I.
.
de duvidar sobre a validade da própria experiência. Neste segundo
ó Em suma, a dúvida metódica é uma dúvida hiperbólica que \› modo: a dúvida hiperbólica converte-se em dúvida metafi'sica, ou seja,
“H

opera sistematicamente de modo radical e universalizante. Mas, ao Í»


L
ela nao se apóia mais na experiência para questionar 05 fatos mas
._:

operar assim, de modo universalizante, a dúvida hiperbólica en- I.


precisa recorrer a hipóteses transcendentes que questionam nossa
contra seu limite. Nas sucessivas etapas de generalização, a dúvida ?l
E
própria experiência dos fatos. Com a dúvida metafísica, então, a dú-
natural vai enfraquecendo até, por tim, desaparecer: as intuições vida metódica torna-se dúvida universal.
atuais da matemática, enquanto fato, são inquestionáveis. Ora, se dlfim sentido largo, pode-se dizer que a dúvida metódica como
inicialmente a dúvida hiperbólica consiste num exagero da dúvida
gif] ° 3.3 duvlda h1P¢fl30l1Cfi, isto é, exagerada: ela instaura uma
natural pela aplicação da dúvida lógica, então, nas idéias matemá- duvida universal de proporçoes metafísicas. As sucessivas etapas da
ticas, onde desaparece a dúvida natural, a dúvida hiperbólica ten- uvi a metodica consistindo, pois, nos diferentes graus da dúvida
deria a dissolver-se. liiperbolica. Em sentido mais próprio, porém, pode-se dizer que a
"='“`=J ~¿fi¬1«t=fi‹¬ra;uB1=Y¢tä'E51!=m.'r›ia‹sr1a'‹
dúvida metódica se compõe de uma série de dúvidas hiperbólicas em
9 Díscours, AT. Vl, p. IB. ,___,_.
1:
IV. ordem de generalização crescente: cada dúvida atuando sobre um
'° Como diz Laporte, a dúvida metódica é “o primeiro fruto do método, uma vez que é a
.-
.“

aplicação da primeira regra, prescrevendo a só receber por verdadeiro aquilo de que não 9'r)1,'
-ã'Y
cainpo maior que a anterior e incluindo o campo desta. Contudo,
tecnicamente falando, fl dúvida hiperbólica consiste precisamente
^.-
E*
se tem 'nenhuma ocasião de colocar em dúvida', logo, de rejeitar tudo aquilo de que se E

pode, a qualquer título, duvidar; uma vez que, para o motivar, é necessário examinar por numa aplicaçao da duvida lógica sobre os fatos, seja indiretamente,
ordem os diversos 'fundamentos' de nossos conhecimentos, segundo os procedimentos da -: z,=.ce: 3-:::

divisão e da enumeração prescritos pela 2' e 3' regras”. l_.APORTE,J. Le Ratfonaliisme de F


›:
por meio de um exagero da dúvida natural, seja diretamente, pela
Descartes, 3. ed. Paris: PUF, 1988, p. l5. J instauraçao de uma dúvida metafísica. Quanto à dúvida metódica, o

22
23
Ê'
,
ff*
› -. i
O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito \**.'~‹
›¬.\i§
3:21'
7;. A estrutura lógica da dúvida metódica
í3 | |`.'

*ai
mais apropriado é considerá-la como um programa que, mediante E jamais perderei o costume de aquiescer a isso e de confiar nelas [as
um método (0 qual consiste em operar radical e hiperbolicamente), 1-\.
antigas opiniões], enquanto as considerar como são efetivamente, ou seja,
visa a instaurar a dúvida universal. A dúvida universal, é claro, é como duvidosas de alguma maneira, como acabamos de mostrar, e todavia
'T
muito prováveis, de sorte que se tem muito mais razão em acreditar nelas do
também hiperbólica (na verdade, a mais hiperbólica das dúvidas). que negá-las"
Mas isso não é o mais importante: o objetivo é instalar a dúvida
universal - se ela é hiperbólica, isso se deve apenas ao fato de que dou

Assim, a dúvida metódica encontra um forte obstáculo que a


não havia outro meio de alcançar a dúvida absolutamente universal
as‹ra sa aimi
..~.
, â impede de efetivar-se e pode, inclusive, eliminá-la. Para que possa,
sem fazer uso da dúvida hiperbólica. ,_ "Wii'
então, vencer o obstáculo e completar a sua empresa, a dúvida metó-
Mas a dúvida metódica não se detém por aqui. Se ela conse- Q
'Às
dica precisa operar agora no plano psicológico: ela precisa se instalar
guiu rejeitar universalmente as nossas antigas opiniões, ela só o fez no seu interior, desestabilizando a confiança no provável. Ora, con-
'éHF
T.-'T.¬"'v.3!.f '
ao preço do exagero: num primeiro momento, exagerando as dúvidas .iv
il.

57.? tra a confiança natural na verdade do que é apenas duvidoso, um


naturais, e quanto menor a dúvida natural maior o exagero; num *.í`1¡J'*T1;*. autocondicionamento voluntário de tomar o que é apenas duvidoso

ø.-_

segundo momento, com a inexistência da dúvida natural, o exagero ln.


e..

por absolutamente falso.


'f'$_I'1!',-

absoluto de recorrer a hipóteses transcendentes para duvidar da pró- .'-

.¬:v,i,¬,
pria experiência. O caráter hiperbólico da dúvida metódica, sendo, 2
ci'
Í:
me Eis porque penso que me utilizarei delas [as antigas opiniões] mais pru-
pois, inversamente proporcional ao grau da dúvida natural: ele vai cres- É dentemente se, tomando partido contrário, empregar todos os meus cuidados
cendo na medida em que a dúvida natural diminui. Ao mesmo tempo, . em enganar-me a mim mesmo, fingindo que todos esses pensamentos são
porém, ele vai também enfraquecendo, a ponto de, com o desapareci- falsos e imagináriosfiz
i"
mento da dúvida natural, ele próprio desaparecer, não fosse a manobra ,R
z
I'

de inversão radical que faz de seu limite, a perda do apoio da experiên- 1


O resultado, todavia, não é uma conversão do estado de dúvi-
›.
cia, sua mais plena realização, a dúvida metafísica contra a experiên- 2
,L
da generalizada em estado de falsidade absoluta. A tensão criada
cia. Mas a plena realização da dúvida hiperbólica enquanto dúvida ›fra:
.~'='=r‹-
entre o condicionamento natuial e o condicionamento voluntário pro-
metafísica, longe de fortalecê-la, cristaliza-a na sua fraqueza: quanto tits
'i
1.
1:.
.'!
move um clima de indecisão que recria psicologicamente o estado de
..-

mais exagerada, menos convincente; o próprio caráter metafísico da


:L

-Q dúvida instaurado logicamente. _


dúvida absolutamente exagerada retira-lhe qualquer quesito para a aI

persuasão. É claro, do ponto de vista lógico, a dúvida hiperbólica [...] empregar todos os meus cuidados em enganar-me [...] até que, tendo
mantém-se inabalável: uma opinião é ou não passível de dúvida; as \
F de tal modo balançado meus prejuízos, que eles não possam inclinar minha
Ia

opinião mais para um lado do que para o outro, meu juízo não mais seja
que forem são igualmente duvidosas e, portanto, igualmente rejeitáveis,
f
1
Í
\

¡ doravante dominado por maus usos e desviado do reto caminho que pode
não importando as diferenças de grau de dúvida. Do ponto de vista ›z

i conduzi-lo ao conhecimento da verdade.”


psicológico, porém, a dúvida hiperbólica é contestada pela probabili- 1.


Ê'
“ Íwédítatfons, AT. IX-l , p. ló.
dade: uma opinião pouco duvidosa tem mais crédito que as outras;
Í;
.L
Í'

'Z Idem, ibidem, p. l7.


quanto menor a dúvida, maior a crença.
'3 ldem, ibidem.

24 z
25
I
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_r|‹ 1 A estrutura lógica da dúvida metódica


O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito -nt
,i

'Q
à
l`.,.
l.'š` instrumento da dúvida metódica para estabelecer a dúvida universal
Assim a dúvida metódica consiste em duas operações comple-
fa
=f;
no plano psicológico, mas é o próprio coroamento da dúvida metódi-
mentares' primeiramente, ela rejeita tudo o que for passível de dúvi- .Es
F
ca na sua expressão mais radical. '
da; depois, ela rejeita como falso tudo o que for passível de dúvida. ~..u~
..`x
~

Acreditamos, no entanto, que uma leitura mais aprofundada


Mas tanto no primeiro quanto no segundo caso, o interesse e criar.a
Í
_\.
_: da Meditação Primeira não autoriza uma tal interpretação. Descar-
dúvida e não a falsidade; essa entendida como um instrumento para ^.r

a instauração daquela no plano psicológico. O recurso,metodológico,


..,
".
za '
- › ~v
tes não afirma simplesmente que vai fingir que todos os seus pensa-
¢

mentos são falsos, mas diz explicitamente que vai lingir isso “até que,
da dúvida metódica para essa segunda operação consiste, pc}›1is. Hlflfl
tendo de tal modo balançado meus prejuízos, eles não possam incli-
Z

artifício psicológico que converte as razoes de duvidar das min L as anti- av

gas opiniões em crenças na falsidade das minhas antigas opinioes- nar sua opinião mais para um lado que para outro”. Nas Respostas
às se't1`mas objeções, Descartes reformula assim este trecho: “até que,
_ Nossa interpretação, sabemos, vai contra toda uma linha in- ‹

à
-
finalmente, tendo igualmente balançado meu antigos e meus novos
terpretativa de comentadores. Ciuéroult, por eiiemPl0, VC _l1¢553-_5e' H ,
prejuizos [...] .
,Q C CC ° ° z Y,
ontra os meus antigos prejuizos , isto e, a cren-
° ;

gunda operação uma efetiva transformação em julgamento negativo, " ' ÍÍ


ça natural na verdade de todas as coisas, eu crio novos prejuizos ,
' I ,Y

“para com isso melhor prevenir-se de um julgamento positivo".'4 Mais


. . . . . - ci: 1 ' 1 1 1 ° ¡'-
isto é, a crença voluntária na falsidade das coisas: o resultado é um
incisivo, Gouhier acredita que a duvida so e metodica ao se tornar
estado de equilíbrio, onde “eu não posso inclinar minha opinião mais
nega§ã0"_'5 Segundo ele, é em se chocando contra ela, a negaçao, e
para um lado que para outro”. Trata-se, portanto, de negar para
não apenas contra a simples dúvida, que a evidência revela sua capa- duvidar, ou melhor, para persistir na dúvida.
cidade de resistir à dúvida: “o inegável é que é o verdadeiramente
Essa operação, na verdade, ë bastante clara: com o argumento
indubitável”.'6 Assim, para Ciouhier, a segunda operação, que ,con-
?'äuBm'iE-ufn¡mI|iw_nl;!ffl1awI1ti¡mHfiti fflrifil do Deus Enganador, a dúvida universal foi estabelecida, isto é, tor-
siste em tratar como falso o que e simplesmente duvidoso. nao e um r
N-
r
22'
#4 na-se lícito, do ponto de vista lógico, uma dúvida absoluta sobre todo
o nosso conhecimento. A dúvida está, pois, estabelecida de direito.
'* Gufiizouir, Maniâl. Dasmnes Sela: L'Ombe des Raišvns v- I - Paris: Aubier. 1953. P- 33- De fato, entretanto, a experiência nos fornece mais razões para acei-
'5 Estamos nos referindo aqui especificamente ã proposição que Couhier defende na sua tar que para rejeitar nossas antigas opiniões; contra o rigor lógico da
obra La Pensëe Métapbjsiijue a'e Descartes. Paris:_Vrin, 1962, p. 28. Posteriormente, na
necessidade ela opõe uma lógica da probabilidade. No plano psico-
obra Essays sur/e Discours de la Méthode, la Métapliysique et la Morale, p. 148-54, ele
oferece uma interpretação similar a esta que aqui apresentamos. Entretanto, como ele nao lógico, pois, a balança pende para o lado de nossas antigas opiniões,
a apresenta como uma modificação de sua posição anterior, Fica a impressão de que ambas sendo que a força do hábito tenderá mesmo a identificar probabilida-
as interpretações são plausíveis. Tanto é verdade que, atualmente, alguns estudiosos ain-
de com verdade e, portanto, restabelecer integralmente a confiança
da citam a explicação que Gouhier forneceu em La Hmsée MétapÍ1}'sique..., tal como é o
caso de Richard Poplcin em seu livro He ffzstory ofsceplicism fivm Elasmus to Spinoza. nelas. Ora, se é certo que a pesquisa da verdade é uma tarefa lógica
Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press, I979, num dos dois realizada à parte de nossa vida prática, não é menos certo, por outro
capítulos que dedica a Descartes (cap. IX. P- 238)- De fl0S$a Parte- fl°1`¢d1Íam°5 (fue u:.u:xrs
«HE.=;1!Bn€t¶swI'&1EBI't!¡i1wIl€$'Êf¡rH.B=w$-1fl=¡U?n›'f*w“` :
t.
Li lado, que precisamos estar integralmente em cada uma delas: assim,
essas duas interpretações são excludentes entre si, e, mais que isso, que aquela defendida
por Gouhier em La Pensëe... não se sustenta nos textos de Descartes.. Nosso esforço ¡.“:
M'1'ã3.›'7.'¡
~
v
.'
.1.
aqui, portanto, vai no sentido de demonstrar a ilegitimidade de uma tal interpretação. i
2
'7 Septíêmes Rëponses,_|MB, p. 440.
'° GOUHIER, H. La Rensée Métap}iysÍque..., op. cit., p. 31. ° l"I"

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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito A estrutura lógica da dúvida metódica

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pois, como nos inserimos em nosso cotidiano colocando a razão a -i-i


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de duvidar é precisamente uma suspeita que se levanta contra uma
serviço de nossa experiência, também, por outro lado, devemos inse- i¡.' . crença, opinião ou teoria, a fim de provocar o estado de dúvida. Até
.. z›

rir-nos na pesquisa da verdade colocando nossa psicologia a serviço fí- 0 argumento do Deus Enganador, portanto, o que Descartes faz é
da razão. A dúvida metódica, como insiste Descartes, deve ser levantar suspeitas contra a validade de nossas crenças na verdade das
vivenciada e não apenas fingida. Não basta, então, apenas estabelecer coisas. O estado de dúvida instaurado é, assim, resultante da oposi-
no direito a dúvida universal, mas é necessário também vivenciá-la. ção entre teses (nossas crenças) e hipóteses (razões de duvidar des-
Até o argumento do Deus Enganador, portanto, a empresa cartesia- ",
--_-.'-`i
sas crenças). Embora do ponto de vista lógico isso seja o suficiente,
na cumpriu apenas parte de sua tarefa. E preciso ainda atacar a Descartes acredita que, do ponto de vista psicológico, não basta
probabilidade e instaurar a dúvida integralmente. Paraiisso, entre- opor a uma crença uma mera razão de duvidar dessa crença, mas é
tanto, não servem mais os argumentos: a lógica nada mais pode opor necessário uma crença oposta. O que então ele pretende com o
à probabilidade, senão que deve mesmo referendá-la numa lógica da artifício psicológico é transformar as hipóteses sobre a falsidade
-wi:-¬w.z
probabilidade. É mister, então, um artifício - artifício psicológico. -a
';
¡'.
°-\ das coisas em teses sobre a falsidade das coisas, a fim de obter um
7

Contra o condicionamento pela experiência de aceitar como verda- .-

¡':`*iÊ5¡'"i.f "~Tz estado de dúvida gerado pela oposição entre crenças opostas. É,
deiro -o que é apenas provável, um autocondicionamento de rejeitar portanto, a dúvida enquanto “razão de duvidar” que é convertida
como falso o que é 'simplesmente duvidoso. Mas esse autocondicio- em negação, mas não enquanto “estado de dúvida”, o qual, pelo
namento tem que enfrentar permanentemente o condicionamento pela contrário, só vem a se fortalecer com a conversão das razões de
experiência. Trata-se, pois, de um embate contínuo entre duas forças
duvidar em negações.
opostas. Não há capitulação de nenhum dos lados: o resultado é um
A dúvida hiperbólica, portanto, não consiste em “tratar o du-
estado de equilíbrio entre a aceitação e a negação. Agora, então, a
dúvida universal é instaurada integralmente. vidoso como falso” - isso não é duvidar mas se auto-enganar (e essa
ëãt,`.J.šifiš' é a função do artifício psicológico); o princípio lógico da dúvida
O problema é que se confunde a dúvida entendida como esta- v‹

hiperbólica é “duvidar de tudo o que não for absolutamente verda-


do, “estado de dúvida”, com a dúvida entendida como razão, “razão
deiro”. E não se trata aqui de dizer a mesma coisa de modo diferen-
de duvidar”. O estado de dúvida é, de modo geral, uma suspensão
te: no primeiro caso, eu tomo o duvidoso como falso, e defino a verdade
do juízo pela equipolência entre duas razões opostas. Mas as razões
negativamente como aquilo que é indubitável; no segundo caso, eu
assim opostas podem ser tanto de caráter tético quanto hipotético.
garanto a verdade apenas para o indubitável e não me pronuncio
Frente, por exemplo, à afirmação “Há vida após a morte” eu posso
opor tanto uma afirmação contrária, “Não há vida após a morte”, sobre o duvidoso. Quer dizer, não se trata de definir o que é falso e,
quanto uma mera suspeita, “Nãoé necessário que assim seja: pode
7'Í:›iI‹.?r'`Z!ͬë~3`R.Fz"*vf.1!°š3§FÍE"¡ã3l¶É'‹*|"1-EÍ5¡-9.3
.\-v por conseqüência, o verdadeiro, mas de definir o que não pode ser
ser que não haja vida após a morte”. Do ponto de vista lógico, a
f...
1-É-. falso, e por conseqüência, aquilo que pode ser (mas também pode
*':

simples possibilidade de que uma afirmação não seja verdadeira reti- não ser). Tratar o duvidoso como falso é uma segunda estratégia que
I.
'1

ra a necessidade de que ela seja verdadeira e a transforma, também, 1\'. a dúvida metódica precisa fazer uso para estender a dúvida hiperbólica
em mera possibilidade. Entre duas possibilidades opostas não há ao plano psicológico.
como decidir, e sou forçado a suspender meu juízo. Ora, uma razão

28 Iv 29
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-1.2
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Ii

Nossa interpretação, porém, é de que, nesse momento, Descar-


Guéroult, embora admitindo que estes dois princípios sejam --
-'.
i ,

aplicados em etapas distintas na primeira Meditaçãol Pensa: C°¡1t“' tes de modo algum associa o duvidoso ao falso: eles serão, é claro,
igualmente rejeitados; mas rejeitar tanto o afuiuiíoso quanto o fa/so não
do, que eles compõem juntos o princípio da duvida hiperbolica. i
.v-
.I
_‹
.' "
›‹
Significa rejeitar como lã/so o que 'e' apenas a'uv1o'oso. Pelo contrário,
Iii'
Descartes anuncia que vai justamente fazer apenas uma rejeição pela
.\.`,
_-:li
:Z
*Y .‹‹..",

O duplo princípio dessa dúvida - tratar como absolutamente falso o que .rn
~.t-
.- .
ig.. dúvida: não é preciso que as opiniões sejam falsas para serem rejeitadas
é tão-somente duvidoso; rejeitar universalmente, como sempre enganpso, aquilo .ii
.i_i

..\°.".
._.›

pelo que pude alguma vez ser enganado - responde perfeitamente a signifiilza-
Iii-
‹-i,
1.

.!'‹`.
(não é preciso, pois, tomá-las como falsas); basta, para rejeitá-las,
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encontrar a mínima dúvida (e, portanto, basta que sejam duvido-


ção da palavra [U1£8pB07\.'r], hipérbole, excesso] , completando o sa to .¿L.


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hiperbólico em dois sentidos diferentes.” '.'.›\


z _, sas). A segunda operação, rejeitar como falso aquilo que é apenas
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“E É
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duvidoso, iniciar-se-á somente após o argumento do Deus Engana-
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Ora, que esses dois princípios respondam “perfeitamente ã


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dor e, portanto, somente ali ela será formulada, sendo que ela é
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significação” da palavra “hipérbole” - pois bem; que eles, c0ntud0, T'


distinta do princípio da dúvida hiperbólica expresso no início da
respondam perfeitamente à significação da expressão “dúvida Pn'me¡}'a Meafiação.
zu
L

hiperbólica” - eis o que não está nada bem. Há, sem dúvida, hipérbole .tl
Mas se era objetivo da dúvida metódica a instauração de uma
.,_i
(excesso) tanto em tomar como duvidoso aquilo que alguma vez me 33
4:
dúvida universal, ela mesma, a dúvida metódica, é instrumento, como
liƒ¡

causou dúvida quanto em tomar como sendo absolutamente falso if-


_..
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n.|" _
já dissemos, de um projeto filosófico que visa a estabelecer o conheci-
LG *_

aquilo que é simplesmente duvidoso; mas só no primeiro caso trata- Vs


mento sobre bases sólidas. A dúvida metódica, então, é uma ofiív1'a'a
lr'

se de uma dúvida exagerada, sendo que o segundo caso é meramente le


provisôna. Diferente dos propósitos céticos, o projeto cartesiano não é
um exagero. Apenas o primeiro, portanto, é o princípio da dúvida z»

a permanência no estado de dúvida, mas, ao contrário, a instauração


hiperbólica; o segundo consistindo mais propriamente num artifício -
2
do conhecimento absolutamente certo pelo esgotamento da própria
5
(e não num princípio) do programa da dúvida metódica como um É
s dúvida. A dúvida, a mais absoluta, foi chamada a serviço da certeza,
todo, que visa a manter o estado de dúvida instaurado liipeibolica- sl que fará dela, a dúvida, a mais fiel prova de sua legitimidade: a própria
mente. _ possibilidade de se duvidar de tudo fará revelar, como necessário, um
Também Gouliier'9 vê no princípio da dúvida hiperbólica ex- sujeito dessa dúvida; o ato de duvidar de toda a realidade servirá como
.,_ _

posto no início da primeira Meditação, a dupla função Cie, POI' Um


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ii.
prova inegável de uma realidade: o pensamento. Assim, a mais absolu-
i '.;l'
lado, rejeitar aquilo que é duvidoso e, por outro, rejeitar como falso ...
'r ~
. ›.
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' »-
ta das dúvidas se converterá na possibilidade mesma da primeira certe-
i

aquilo que é apenas duvidoso. Segundo Gouhier, nesse momento .K1


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_.. za, aquela que irá inaugurar toda a cadeia do conhecimento. A dúvida,
“Descartes evoca a diferença entre o falso e o duvidoso justamente que atingiu o seu auge, chega também a seu fim. _
para anunciar que ele não a -levará em conta de modo algum”.2°
L -_ , M

'° GuiâRoui:r, M., op. cii., p. 41 .


'° GOUHIER, H. La Pensée Meítap]i}×s¡21ue..., op. cit., p. 28.
2° Idem, ibidem. zie imflaiz.- as%nmsisi,=_;
s

31
30
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O papel da dúvida metafísica no processo de constituiçao do cogito


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1; estrutura lógica da dúvida metódica

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'.z=l-~‹<.~,›ú-Í'_,â-_êF._ . {=.
e razões opostas, nós somos conduzidos, primeiramente, a um estado de sus-
1. O caráter provisório e voluntário da dúvida O
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tz-ze"
9.
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pensão mental e, depois, a um estado de “imperturbabilidade” ou quietude.”


1'.;,

metódica . .`;,.~›*.1*.
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Não se trata, pois, de uma decisão voluntariosa ou afetação, mas de


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Ô caráter provisório da dúvida metódica cartesiana não deve, D'4”~ ›


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no entanto, servir como pretexto para se insistir em interpretá-la como uma efetiva suspensão do juízo provocada por sérias razões de duvidar.
1
À.
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sendo uma dúvida meramente fingida. A seriedade da empresa da dúvida metódica cartesiana, portan-
Na visão de Descartes, é precisamente porque é provisória 221:`›nv .z
‹ .vv
..t¡,'_› .
to, expressa-se melhor na aproximação do que na oposição com a dúvi-
da cética. Segundo Hamelin, o perigo de se ver a dúvida cartesiana
1

que a dúvida metódica é uma dúvida séria. Para ele, é estar sempre
irresoluto que é uma afetação - afetação dos Céticos, que duvidam çomo um artifício Como qualquer outro está precisamente em se levar
2
apenas por duvidar.” A dúvida, quando levada a sério, só pode mes- demasiado longe a diferença entre esta e a dúvida cética.
mo se mostrar provisória: é essa a experiência pessoal de Descartes,
a qual ele nos relata na terceira parte do Discurso: Visto qúe a dúvida é aqui [como ponto de partida de uma filosofia primei-
W6-

ra] indispensável, ela deve ser sincera e genuína, deve ser, enquanto dure, uma
autêntica dúvida cética, igual a ela em tudo, salvo sua limitada duração.”
procurando descobrir a_falsidade ou a incerteza de proposições que eu
'!1.'. _

examinava, não por li-acas conjecturas mas por mc¡ocñu'os claros e certos, eu n
31

não as encontrava nunca tão duvidosas que não Urasse delas sempre alguma Descartes e os céticos, portanto, tomam igualmente a sério a
'l

conclusão bastante certa, quando não fosse isso mesmo de que ela não contém Z

nada de certo.22 H
N.
I
dúvida; ocorre, apenas, que eles reivindicam resultados diferentes:
w

para o cético, o exercício da dúvida ainda não alcançou nenhuma


verdade, e sua experiência leva mesmo a crer que ele jamais a alcan-
Entretanto, essa diferença entre a dúvida metódica e a dúvida ¡1.f
çará, embora, segundo as exigências da racionalidade crítica, ele deva
cética não deve ser tomada demasiadamente a sério. Descartes não E _
Í Q continuar procurando-a; para Descartes, ao contrário, o exercício da
.Q
foi mesmo muito justo na sua interpretação do ceticismo. Também ›
.ía
C
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dúvida, se bem conduzido, leva necessariamente ao seu esgotamen-
para os céticos a dúvida deve ser levada a sério, não se tratando de to, isto é, alcança necessariamente a verdade. Com resultados tão
fingir irresolução mas de sentir-se realmente irresoluto: a suspensão
do juízo (epolrlzë) consiste num estado de “suspensão mental”, onde i'
¬

1
23 EMPIRICUS, S. .Sextas Empúreus Ín Four lólumes, v. l, Outlines Úf Pyrfizomsm.
o cético encontra-se incapaz de afirmar ou negar coisa alguma. “Ce- BURY, R. G. (English translation). Massachusetts, London: Harvard University Press-
ticismo", nos diz Sextus Empiricus, \li/illian Heinemann LTD., l976, cap. IV, “O que é ceticismo? ", p. 7. Também algumas
das expressões mais contemporâneas do ceticismo, como o Neo-Pirronismo de Porchat,
insistem nessa caracterização da suspensão cética do juízo, não como sendo produto de
é uma habilidade, ou atitude mental, que opõe aparências a juízos, de qual-
uma decisão voluntariosa, mas como um efetivo constrangimento produzido pelas “exi-
quer que seja o modo, com o resultado que, devido â equipolência dos objetos gências de uma racionalidade crítica" que "proíbe a precipitação dogmatizante e o assen-
timento temerário". PORCHAT PEREIRA, O. “Sobre o que aparece". ln: l/ida comum e
2' "Não que por isso imitasse os céticos, que só duvidam' por duvidar, e afetam estar ceticismo. São Paulo: Brasiliense, I994, p. IÓ9.
sempre irresolutos [...]" (Drscouls, AT. Vl, p. 29).
24 l¬lAMELlN, O. E/.Sistema a'e%ca1fa. Buenos Aires: Editorial Losada, I949, p. I IB.
22 Idem, ibidem (grifo nosso).

33
32 *
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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito ~ '._~: L

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opostos a partir de uma mesma estratégia, é natural que cada partido '_-
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E Iv- rã..
¬- j. Por outro lado, Descartes, embora acreditando na possibilida-
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Â-;--›¿ .-‹ Í.

acuse 0 outro de não ter tomado a sério a dúvida.” E, então, menos -


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de de estabelecer um conhecimento certo e seguro, inicialmente não


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pelo modo de operar do que pelos resultados obtidos que Descartes .-i
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declara sua dúvida metódica uma empresa mais séria que aquela da _- 4 .-.:--
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coloca isso senão como possibilidade. Tanto quanto 0 cético, ele ini-
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-.T çia por duvidar seriamente, fazendo uso de todas as razões, por mais
dúvida cetrca. ‹ ._e.
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em-avagantes que sejam, que ele pode imaginar. O caráter provisório
E é efetivamente pelos resultados e não tanto pelos objetivos: › ..

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da dúvida não é dado de início: o ponto de partida é uma dúvida
se Descartes duvida para conhecer, para estabelecer um conhecimen- . ga
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.'«\! séria e sincera, que só se mostra provisória no momento mesmo de
to certo e seguro, o cético, por sua vez, duvida para ver se é possível
seu esgotamento, quando alcança a verdade. E se Descartes já tem
`?!!

conhecer. Ambos, portanto, procuram a verdade.


v-‹
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de saída todo um método para alcançar 0 conhecimento certo e segu-


O cético define-se mesmo como aquele que persiste na investi- .Í ro (tal como aparece na Segunda parte do Discurso, e já antes, de
i

gação da verdade e não como aquele que a nega. Quem confessa que
w 1 ¬\

forma mais detalhada, nas Regras para a Dzreção do Espúíto), cuja


“_Vin-

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fili-
a verdade é inapreensível é, segundo a terminologia cética clássica, o 1.I;` r

primeira regra é precisamente aquela da dúvida, este método, no



“acadêmico”, que, na verdade, é um dogrnátíco às avessas.2° E claro, entanto, só pode ter inicialmente um caráter hipotético, sendo que sua
._× '
no entanto, que a experiência repetida da suspensão do juízo leva o "'!
legitimação apenas poderá ocorrer com os frutos de sua aplicação. Como
cético a desenvolver uma certa expectativa de que a verdade é -w diz Laporte,
inapreensível; isso não passa, porém, de uma expectativa: racional-
mente, ele é constrangido a permanecer numa posição de pesquisa 0 método em seu conjunto e com todos os seus requisitos poderá a princípio
da verdade, sob a pena de tornar-se, também ele, um dogmático.27 rt
ser proposto, mas somente a título de hipótese: a hipótese será em seguida
Â'
\
legitimada pelo seu sucesso, a saber, pelas próprias verdades que ela terá
ir
servido para descobrir. 25 _
25 Richard Popkin, na sua obra He Pfistory ofsceptfcrfsm fivm Erasmus to Spinoza ~\

(I 979), após ter exposto as críticas céticas (e também as “tradicionalistas”) que adversá- -u.

rios de Descartes fizeram contra a dúvida metódica e 0 cogito, chega à conclusão de que z
1, I
.f'¬
|'›'
***
Descartes ou não levou a sério as razões de duvidar expostas na primeira Meditação e,
assim, só foi mais um dogmática que recusou duvidar de seus princípios, sem, no entanto,
xi'
Tampouco o caráter voluntário da dúvida metódica deve levar-
poder demonstrá-los, ou, se as tomou a sério, levou o pirronismo tão longe quanto o
. ~== nos a considera-la como uma duvida finglda. Se Descartes decide
tornou impossível de refutação (cap. X, p. 269-70). Quer dizer, na perspectiva cética I.'\

deste autor, ou Descartes levou a sério a dúvida, e então não alcançou a verdade, ou, se - `Í.`,.
:az
duvidar de suas antigas opiniões é justamente porque percebe que
pensa que a alcançou, então não levou a sério a dúvida. ç -1
elas são passíveis de dúvida e não por querer fingir que elas são
›'

assim.” E se resolvemos duvidar de coisas que já são passíveis de


'.›
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2° Sextus Empiricus define como "cético" aquele que prossegue na pesquisa da verdade; .li
ul

como "dogmática" aquele afirma já tê-la descoberto; e como "acadêmico" aquele que
afirma que ela é inapreensível". EMPIRICUS, Sextus. Outlfnes ofpyrnlromism, op. cit., p. 3.
Ó próprio termo grego Skëpsrs, de onde se originou a expressão “ceticismo", significa 2° LAPORTE, J., op. cit., p. 2-3.
"pesquisa", “investigação". 2° “Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera por
verdadeiras uma quantidade de falsas opiniões, e de que aquilo que depois fundei sobre
27 Porchat, no seu livro Viola comum e ceticismo expõe claramente esta distinção. Ver ali,
princípios tão mal assegurados não podia ser senão muito duvidoso e incerto"
especialmente, 0 artigo “Sobre 0 que aparece" , p. l70.
r ngnâmmng
tmrs. (Méaõiaubns, AT. IX~l, p. I3).
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34
35


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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito #;'==:~~ A estrutura lógica da dúvida metódica
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dúvida, é porque, naturalmente, não tomamos muito a serio essas


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1. S: `
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' Eqüipolência, é claro, de um ponto de vista rigorosamente ló-
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dúvidas.” Quer dizer, a decisão de duvidar é provocada pela per- ~nfi. kãs

Êfiiãàifi
›-`-*Í gico; empiricamente, minhas antigas opiniões, as opiniões sobre a
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cepção de que, por um lado, nosso conhecimento é frágil e de que, .-.r '_ ._
742. iv- .
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.o..›. _»-,
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verdade das coisas, são mais prováveis que suas contrárias. Assim,
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por outro, essa fragilidade passa despercebida ou é pouco considera- T.-.›. -1.* .'

112.
uma vez estabelecida a dúvida universal pelo entendimento, falta ainda
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a vivência psicológica desta dúvida.34 Num segundo momento, então


'.~`- *If

da. Não se trata, pois, de uma decisão voluntariosa de duvidar, mas ví' *W
ÂL'‹-à;
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.a.
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.nx 1".
°4.9?

de uma vontade de tomar a sério a dúvida. A dúvida metódica, por- `. ~Õ "37 \..
(e apenas então), a vontade entra novamente em cena, agora para
Q-íi.
tanto, é séria precisamente porque é dúvida voluntária.” *-5.
'--
ti-Í
É garantir as conquistas do processo que instaurou. Uma vez estabele-
._ _
_ ¡-1-
Além disso, a dúvida metódica é voluntária na medida em que é - fi ‹.
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_..\'.
cida (por razões) a dúvida universal, devo agora, voluntariamente
provocada por deliberação, mas não no sentido de `que se opera por
,.
.-.{
(por decisão), convencer-me de que essas razões de duvidar sobre as
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deliberação. Não se trata de simplesmente decidir suspender o juízo mas -.


J,
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_,\ 5›-_

verdades das coisas são razões de acreditar na falsidade das coisas.”
P;

de decidir encontrar razões que nos tornem capazes de suspendê-lo.” Devo, pois, auto-enganar-me, fingir.
'niÍW
Trata-se, pois, de duvidar por razão e não por decisão. Isto quer dizer i Entretanto, 0 que é fingido não é a dúvida - que é estabeleci-
que, se é a vontade que instaura o processo da dúvida, é o entendimen- da logicamente, pelo entendimento - mas a crença na falsidade do
to, no entanto, queconduz este processo. A cada razão de acreditar na -_
..
que é apenas duvidoso - que é determinada pela vontade.” E um tal
jp
¿ ,

verdade das coisas, o entendimento opõe uma razão contrária: a sn-


._ `-,‹ -.
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1!. '
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artifício não tira a seriedade da dúvida, senão que pretende mesmo
eqüipolência entre os juízos me constrange a suspender o assentimento .._
¡

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u fazer com que ela seja tomada o mais seriamente possível. Como já
ln

a qualquer um deles.”

*f-'-‹ei~`;-e-.J.,p.»='1¬~s.1 razão de duvidar dessa existência; e assim por diante. Como já vimos anteriormente, do
3° “De modo que me era necessário drspor'-me seriamente, uma vez em minha vida, a ponto de vista lógico, a simples possri'›r7ri2'ade de que uma coisa seja falsa tira a necessrda-
desfazer-me de todas as opiniões que eu recebera até então em minha crença..." . ldem, de de que essa coisa seja verdadeira, convertendo sua verdade também em mera possrbí-
.ç ,
ibidem (grifo nosso). ¡¡ ..
Ê. g
/rdade. Entre essas duas possibilidades não há como decidir, e sou forçado a suspender
ti

z_.»~
` PLQi
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¬"
.U meu juízo.
3' Quando Gassendi lhe objeta uma prolixidade no tratamento da dúvida, Descartes
34 Não, é claro, vivência psicológica no sentido de que devemos incorporar a dúvida à
acusa-o de não perceber que nunca se faz demais 0 que é necessário fazer. “Mas certa- Em
-›..
7'-'__§;I'
› -if-tj:
nossa vida ordinária; mas no sentido de que, apartados da vida ordinária e empenhados
mente", ironiza Descartes, “vejo bem que quiseste indicar-me que há muitos que dizem ._Í{- JL.

I Ã.jr na pesquisa da verdade, devemos manter-nos psicologicamente sintonizados com a razão,


somente da boca para fora que cumpre evitar cuidadosamente a prevenção, mas que . ¬ `
_ p
4.
isto é, devemos vivenciar psicologicamente o estado de suspensão generalizada do juízo
entretanto nunca a evitam [...]". Réponses Aux Cínquriêmes Objectfons, JMB, p. 344. li-.
.t
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instaurado pelo entendimento.
Quer dizer, o esforço de duvidar vem justamente para atender ã necessidade de levar a , 'F
l.z
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sério aquelas dúvidas que ordinariamente desconsideramos, e que, no entanto, denunci- .
Jh
.-' " 35 Com este recurso metodológico a dúvida metódica cartesiana se diferencia da dúvida
am abertamente a fragilidade de nosso conhecimento. E, para uma tal necessidade, ne- cética. Ao menos do ceticismo clássico, já que, como observa Popkin no seu The .Hrstory
nhum esforço é demasiado. ofsceptícrsm fivm Erasmus to Spinoza, op. cit., p. 238, a negação metódica já existia, em
32 “[...] de todas as opiniões que recebi outrora em minha crença como verdadeiras, não
amam.z. certa medida, “no procedimento de eliminação mental proposto por alguns nouveaux
pyrrvionrens", como Montaigne e Charron.
há nenhuma da qual eu não possa duvidar, não por alguma inconsideração e leviandade,
mas por razões muito fortes e maduramente consideradas [...]”. ldem, ibidem. 3° Uma confusão entre essas duas operações pode levar a interpretar a dúvida cartesiana
33 A razão de acreditar nas informações dos sentidos, opõe-se uma razão de duvidar I como uma dúvida Frngida. E uma tal confusão é reforçada pelo fato de que no Drscurso,
dessas informações; à razão de acreditar na existência das coisas exteriores, opõe-se uma como mostraremos mais adiante, estas duas operações são simultâneas. -
I.
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tentamos mostrar anteriormente,37 se decido acreditar na falsidade ki

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zzš msultado da instauração da dúvida universal, uma crença na poss¡i5¡'-
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das coisas não é para converter a seriedade da dúvida na leviandade . ,mz


_-”
-.-.-'__'
-
Í1'Jaa'e da verdade de todas coisas que se opõe a uma crença na possí-
de uma negação, mas simplesmente para opor à minha crença na Í
'.~

.f
b¡Y¡'a'âa'e da falsidade de todas as coisas, mas eu Jä' tenho, contra a
.,¿

verdade das coisas uma crença na falsidade das coisas, e, assim, re- -,L , , ,

dúvida universal estabelecida, uma crença na verdade de todas as


produzir psicologicamente o estado de suspensão do juízo. Ô objeti- 4.-va '_ ...iç _
.'°._Á`:
___ü_
. '~.
coisas. E contra uma tal crença só vai funcionar uma crença diame-
vo, portanto, é assumir a dúvida de um modo integral.
r E»-`.
'."›¡

iu'
*l_s-
tralmente oposta, e não uma crença na mera poss¡i5¡'ÍÍa'aa'e do oposto.
-r!':'

Trata-se de reproduzir psicologicamente a epok/ré já garantida


HH.:
- 4-Ã.
Fu? Assim, eu não vou me convencer de que há razões de duvidar de
logicamente, ou melhor, de estabelecer efetivamente uma epok/ré E

`r todas as coisas, mas convencer-me de que todas as coisas são real-
claro, a epok/zé, como já vimos, é sempre um estado mental de suspen- .-
mente falsas. Um artifício psicológico é o que Descartes vai precisar
são - e, portanto, psicológico - provocado pela eqüipolência entre dois
I'
para operar no campo psicológico.
1'

juízos opostos - e, portanto, provocado logicamente. Ócorre que, Com este artifício psicológico, então, a vontade retorna à cena,
medida que a psicologia não esteja sintonizada com a razão, isto é, gygv mas não para substituir o entendimento e sim para auxiliá-lo. Tanto é
medida que eu não me convença seriamente das razões de duvidar, ou que, uma vez a dúvida estabelecida integralmente, lógica e psicologica-
as deixe de levar a sério, a eqüipolência entre os juízos desaparece e, mente, é o entendimento que, então, descobre a primeira verdade: aquela
com ela, a suspensão de juízo. E se isto acontece é porque, psicologi- -'nu
da existência do sujeito da dúvida, isto é, da existência do pensamento.
camente, minhas antigas opiniões são ainda, como diz Descartes,38
›-\

Temos, pois, um entendimento que percebe o conhecimento como du-


“senhoras de minha crença" e mesmo “muito prováveis”, sendo que vidoso e incerto; uma vontade que decide tomar seriamente a dúvida,
F

as exigências rigorosas de uma racionalidade crítica me persuadem isto é, instaurar um processo de dúvida metódica; o entendimento,
I

menos que a razoabilidade de minhas antigas opiniões. É preciso, novamente, operando esse processo; a vontade, então, retornando à
pois, efetivar, por assim dizer, a "epokfzé", ou seja, garanti-la, para _» cena para garantir os resultados; e, por fim, o entendimento alcançan-
além de um estado fugaz, enquanto vivência psicológica. do a verdade. Mas essa alternância de funções não deve ser vista como
Assim, uma vez estabelecida, por razões, a dúvida generaliza- manifestações autônomas de sujeitos distintos. Não apenas porque o
da sobre todas minhas antigas opiniões épreciso ainda me convencer entendimento e a vontade são faculdades da alma, e, portanto, é a
dela, isto é convencer-me de suas razões. E isso é o que, a rigor, não
.J
alma que compreende e que deseja, mas, de modo mais específico
será possível: a longa convivência com essas opiniões e mesmo a pro- ainda, porque o entendimento é o atributo essencial da alma.” Ora,
babilidade de que elas sejam mais verdadeiras que falsas as tornam , ‹
dizer que o entendimento é o atributo essencial da alma, é dizer
sempre mais convincentes que as razões hiperbólicas de duvidar. Não que a alma é essencialmente um entendimento (ou intelecto).4°
é possível, pois, convencer-me de uma dúvida hiperbólica contra as Assim sendo, a vontade de tomar a dúvida a sério é uma determi-
minhas antigas opiniões. Psicologicamente, portanto, não existe aquela
eqüipolência que garante a suspensão do juízo: eu não tenho, como
-:4


^_‹ 3° “e verifico aqui que o pensamento é um atributo que me pertence: apenas ele não pode
ser separado de mim". Idem, ibidem, p. 21.
57 Ver p. 25-29. ' 4° “Eu não sou, então, precisamente falando, senão uma coisa que pensa, quer dizer, um
3° Médítâzíons, AT. IX-I , p.I 7. espírito, um entendimento ou uma razão [...] ". ldem, ibidem.

38 39
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1.1 ç
_ J

nação do entendimento. Temos, então, que o entendimento percebe


¬ J

_' 4- ' de pensamento, são, tanto quanto as idéias, inquestionáveis,43 mas os


--4
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f.. . . ‹z-'

(independentemente de sua vontade) que todo o conhecimento é PY' izà' i.


,_,
..
.if
.,.

*1
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juízos na medida em que afirmam ou negam alguma 001551 de “mf


duvidoso; então, agindo por conta própna (por vontade) decide ins- ÍÍjl'ir'
`.› ›i.‹'...`J
,_› =“.›-'. Q'.n.
A ` 'Í0
~'~'.
:¡,z idéia. Como responde Descartes a uma objeção feita por Gaãâfifldl
' '. _- _~‹_'r; ¡
taurar a dúvida metódica, e passa a operar por razões (e não por -'JIE '\_›:
_..,_~-.__ ir
., - -¡›
¬.¬.. _ _

vontade) a suspensão de juízo; finalmente, percebendo a necessida- mi 1


'igqv '
s. '~.' \:;-` `
- r3' ..` -. \.
~

a palavra prejuízo não se estende a todas as noções que existem em nosso


ÍÍÍÊI 'Ç 5 i
--.~: |~ --

de de garantir os resultados do que ficou estabelecido, ele decide por


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1.1.
o . \z espírito, das quais confesso ser impossível desfazer-se, -mas somente a todas
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conta própna (por vontade) se auto-engariar; feito isso, o entendi- ..:


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as opiniões que os juízos que fizemos anteriormente deixaram em nossa
mento percebe a primeira verdadef" ;'.',f_* " ›,._~.:.
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crença.”
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Hamelin,45 entretanto, surpreende-se que Descartes nao te-
nha feito a dúvida atacar as idéias mesmas. Para Descartes, argu-
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2. O campo de operação da dúvida metódica e a _
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menta Hamelin, a operaçao essencial e priiriordlâl da lflle 18911
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questão dos princípios lógicos ._ >
J. nao e o raciocinio ou o juizo, 11165 21 l11ÍU1§3_°- El°_U`a,ta_' a° me_n, `
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medida de seu intelectualismo, de reduzir o raciocinio 6 0 111120 3»
Por lim, é preciso distinguir claramente o campo sobre o qual intuição 5 quer dizer, à idéia" ' 4° Ora, “ se a base última de todo o
.-'.E7` _'_`~ . 1
a dúvida metódica opera. Colocar em dúvida todo o nosso conheci- .pg , ,
.h . 1!
sistema está nas idéias, naturalmente sobre elas devena ter recaido,
mento fé suspender o juízo sobre o conjunto de nossas opiniões, isto é, __...

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antes de tudo a dúvida” 47 Deste modo, previne Hamelin, “há fiCll11›
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sobre os juízos que fazemos acerca de nossas idéias (representações), 1. .

nos fundamentos do sistema, uma lacuna por onde a construçao


mas não sobre as idéias mesmas. Quer dizer, as idéias, enquanto . -.__›
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f.`›_' ameaça desmoronar e desaparecer .48
fatos de nossa consciência, não estão sujeitas ã duvida,42 mas apenas `
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. Ta] ameaça, contudo, não parece ter fundamento. Edprecisa-
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os juízos - e não os juízos em si mesmos, os quais, enquanto modos _)



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mente porque reduz o juizo a ideia que a duvida nao po e rec


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sobre a ideia. Para entender isso, e preciso dishäglg Clšlfamfâ ,_ I
. - ,- 1 . ` eia e
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conceito de ideia em Descartes. enquanto realida e rm ç, al


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4' “Então onde dizes, a vontade e o entendimento verdadeiramente diferem na medida


em que são diversos modos de agir a cerca de diversas coisas, eu acharia preferível: dife-
rem tanto quanto ação e paixão da mesma substância. Ó entendzinento, pois, épropna-
mente a paiirão da mente, a vontade a sua ação. Mas porque nada jamais queremos que 43 “Não é Preciso recear também que se possa encontrar falsidade nas flf¢_C§f5°'5 °“ *'°ma'
. - - › ' via
não entendamos ao mesmo tempo, e dificilmente entendemos qualquer coisa ao mesmo 1' des; pois ainda que eu possa desejar 0018218 11188. 011 111°5m° que lamas wsumm' mda
tempo em que não queremos algo, por essa razão não distinguimos facilmente a paixão da não é por isso menos verdade que as dese.i°”- Idem. ibidem-
ação" Descartes a Regius, maio de l64l , AT lll, p. 372. J
44 Lettre sur Les Ínstances. AT- lx-l z 11-204-
42 “Agora, no que concerne às idéias, se as consideramos apenas nelas mesmas, e não as *5 HAMELIN, O., op. cit. Cap- VI"-
relacionamos a alguma outra coisa, elas não podem, propriamente falando, ser falsas; l
46' ldem, ibidem, p. l22. -
pois, quer eu imagine uma cabra ou uma quimera, não é menos verdade que eu imagino *qt
47 ldem, ibidem. .
tanto uma quanto outra”. `ldem, ibidem, p. 29. “L
4° ldem, ibidem.
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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito


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d-,uvi-dg) a um mero juízo. sobre a realidade objetiva
2 da idéia (0110
simplesmente um modo do pensamento,49 e como tal, é claro, 'ela não " '3 `:.1r;
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é passível de dúvida; enquanto realidade objetiva, idéia é a coisa enquanto tal é inquestionável).
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enquanto objeto do entendimento, ou melhor, é “a coisa pensada,


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Enimtanie, é legítima a questão que Hamelin levanta sobre a
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como ela é objetivamente no entendimento”.5° Ôra, essa “coisa pen- -':.-


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necessidade de uma dúvida de fundamento. Se a operi-içã0 “0SS011C1al C
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sada", enquanto mero conteúdo no entendimento, é um fato de cons- .Ji


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i da inteligência é a intuição ' então a dúvida deveria reca-
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ciência, e como tal é também inquestionável;5l se, entretanto, ela for 1


imfzwdamentalmente sobre ela - Qra ' mas isto de fato ocorre: a duvi-
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1:! L-ii
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tomada como representando uma coisa exterior, isto é, como tendo 'Ii_|'1 da riilcai sobre a intuição intelectual.” l\/las isso não coloca em 0116930
um valor objetivo, então ela é passível de dúvida. Entretanto, não é a 'L
- 'dga
a pi-ópriai 1 › senão mesmo que a idéia é o que resulta deste ques-
própria realidade objetiva que se toma como efietívarnente represen- __..
tionamento sobre a_ intuição intelectual.
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Sllâpeitaf
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de mssa
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intuição
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tando uma coisa exterior, mas nós que assim a tomamos, ou seja, ' l ectual é suspeitar que âQ111l° 11110 111111111105
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P0d° 1
M0 ser
I '
a rea 1'
somos nós que a julgamos como tendo um valor objetivo. Rigorosa- H

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dade em si mesma mas apenas uma realidade Pam 1105-54 E *sm pre'
mente falando, portanto, não é a realidade objetiva que é passível de ›v
eisumente o que Descartes faz com a dúvida metafísica. Ed&0 ffilef
dúvida, mas o nosso juízo sobre ela. Disso resulta que a idéia, toma- isso, ele converte o objeto em si mesmo em mero 0111010 _ e_ mísa
da em si mesma, é inquestionável.” Ela apenas se torna questionável A.

A
intuição, isto é, em simples idéia. Uma mera realidade objetiva e o
quando um juízo a transcende e lhe confere um valor objetivo - e se 4.
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que resulta quando questionamos o valor obÍC1ÍV°¡ 106-lidade 0556 q11_°›
torna questionável não por si mesma, mas por causa do acréscimo como fato de consciência, é irrecusável. '
que recebe do juízo. Portanto, reduzir o juízo à idéia é reduzir meu - - - ' ` ão temos
Contudo, quando iniciamos o processodda duvldã, F ha ,
_ .-... - 'f " auaresu rã
juízo sobre o valor objetivo da idéia (que enquanto tal é passível de ainda uma distinçao precisa entre juizos e 1 el_uS:,_ Q I
1

d epu rada justamente de um tal processo.” De inicio . _ o que 1611105. 0


aquilo que chamamos simplesmente de nosso conhecimento. 011 Sela,
49 “Toda idéia sendo uma obra do espírito, sua natureza é tal que não exige de si nenhu- 0 eonjunto de nossas opiniões sobre os objetos da experlemlâ- A5'
ma outra realidade forma] senão que aquela que ela recebe e toma do pensamento ou
espírito, do qual ela é somente um modo, quer dizer, uma maneira ou forma de pensar"
(Méa'i°tat¡ons, AT. IX-l , p. 32). 53_Expl'ici`tamente com a hipótese do Deus
‹r
_ Enganador,
__ 0113 131 °°m que eu me engana
m
5° Hemiiêres Réponses, AT. lx-l , p. 32. Na exposição geométrica que acompanha as “todas as vezes que eu faço a adição de dois e tres. 011 0111 011€ eu °"“m°"° °5 lad°s de U
- ' ' ' f' 'l”. Id . ibidem. P- ¡6-
Segundas Respostas, Descartes dá a seguinte definição de realidade objetiva: “[...] eu Cluadrado. ou em que eu julgo alguma coisa ainda mais acl 0111
\ . - , ° ' ' ld d d
entendo a entidade ou ser da coisa representada pela idéia, tal como está na idéia" 54 E não importa se uma tal suspeiçao e sobre um defeito intrinseco da facu a 0 0
(Secondes Ráponses, AT. [X-l , p. 124).
:',¬^~
`.»_._
' bre um °
constrangimento externo 011€ Cla sofre: em qual-
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'I 1.
' I entendimento ou meramente S0
5' “Agora, no que concerne às idéias, se as consideramos apenas nelas mesmas, e não as quer dos casos. a validade da intuição está sob susP€Í111-
.
_ . _ ~ ' ' ' ' tre ` 'zos e
relacionamos a alguma outra coisa, elas não podem, propriamente falando, ser falsas; 55 A Pe nas na . terceira Meditaçao,
. Descartes fará uma ngorosadistinçao ' en d e Jul
.. êucia, a nitidez
. uma ta]
pois quer eu imagine uma cabra ou uma quimera, não é menos verdade que eu imagino idéias (Idem, ibidem, p. 29). E que, como veremos na sequ
tanto uma quanto outra” (Meíziliirsubns, AT. lx-l, p. 29). . . - z -
distinçao apenas se tornou_possivel depois que a uvi
à' ui. _mzzóóizz
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procedeu_ 1 uma min"-
____e arte
52 “Pois certamente, se eu considerasse somente as idéias como certos modos 'ou formas
de meu pensamento, sem as querer relacionar a alguma coisa de exterior a mim, mal
_ - d° '
integrante e reduzindo o objeto a uma mera re i
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poderiam elas me dar ocasião de falhar". ldem, ibidem. juízos por ser um autêntico fato (de consciência, é claro).
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42

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.. e no entanto, (Inn 05 5 entidos nao me enganam» ° '


sim, o ataque às minhas opiniões deve incidir também sobre os obje-
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Pfessupo. Í , os sentidos me enganam algumas
tos.5° Não é possível desestabilizar uma opinião em si mesma, mas .iq
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1.
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desestabiliza-la basta mostrar que en anando sempre. Disto
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apenas na sua correspondência com o objeto, ou seja, é preciso mos- pt! §Ê::i
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‹ vezes e que, portanto., podem estar me te gossíveis mas não neces_
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trar que o objeto não referenda aquilo que meu juízo afirma dele. ‹.:' fe...
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resulta Clgã minha:L)¡:)i::;t:úSâ1§snI:£Zrgíiiseniíem os Qbjetos de modo
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sárias; p C SCI' C]
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Mas um juízo nunca afirma de um objeto algo que lhe é contrário; é _ ' ,(-
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lo que eles sao em si mesmos. Ao fazer , ,_
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preciso que o objeto apresente ao menos como possível aquilo que eu ^.:Í.'_
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Í' _, ..
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'ii diferente dâqnl
., - d'd
meiaemqnese aP oia
_.
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V. 2. ue meu juizo transcende o obJ¢Í0› na
afirmo ser verdadeiro. isto quer dizer que um juízo nunca é totalmen- tm q , t - ao objeto (a. crença na veracidade dos
te arbitrário: minhas razões de acreditar. na verdade de um objeto . r
à-

numa crenšâ qlue e ex enor I .


u reduzo O próprio obieto, na medida
eu ° _ . e .

são, em certa medida, fornecidas pelo próprio objeto. Se eu preten- .¬

.
-1
fr
5e“ud°s)' [gua' men i i Cll O t0m0, agora: ape a
n^s como obje-
em Cl u e› de objeto em_ si mesmo , mas também pode não
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do, pois, desestabilizar minhas razões de acreditar na verdade de um ' á

' 9 C1 minha percepçao sensivel (QUÊ Pnde ser*


objeto é preciso que eu encontre no próprio objeto uma razão de .f ¡
í
\
to
Sen esemClh an tC ao- objeto em si - mesm0)- b'EntofeVel°' pmtanto' que
duvidar dele. Trata-se de mostrar, então, que o objeto não referenda em si' mesmo existe
.:2 `

entre meu con ecimen h to do objeto e o 0 JC


como necessáno aquilo que meu juízo afirma dele. Mas se, por um - .L

lado, isso significa restringir meu juízo àquilo que o objeto apresenta z
sempre o filtro dos sentidos.”
necessário frente ao oblfitn (105
como necessário, por 'outro lado, significa também restringir o pró- Entretanto, Um ÍUÍZO Ín°5tra'5e .
. « z ° ^ . -
objetos ' ' sejam
sensiveis apre-
z uizo de existencia. Quer os _ _ ..
T*

prio objeto àquilo que é nele necessidade. Trata-se, pois, de redi- P

CI] d'l 05 Pof e os sent`d i os tais como eles


'L

mensionar o objeto em limites que coloquem o juízo em flagrante senuizios . são


, em si zmesmos,' quer0b'et05nao, 0
1
.¡ .-_;_',*.
.in
, .- ' t , o fato e que existem J
situação de extrapolação, ou seja, de reduzir os objetos a idéias ou 'I. Êfl
_ .'
1"» fato e que eles sao apreendidos, is o e _ d núdos,
representações e mostrar que o erro está em julgar “que as idéias que
:'_!'.
Làs '
.-1 .
1..
" ntidos. lst0 Pnfqne 3° falar de obJ¢t0S 05 se
;¬.1'
que se dfo aos se d os sentidos existam C, P0nnnt°* um como
estão em mim, são semelhantes a coisas que estão fora de mim".57 já se esta pr¢SSnP°n ° que _ sua vez, só
- ' '
É
que seje sujeito desses sentid 03 - C0 FP O 635€ que» _ por Al,
Assim, a primeira etapa da dúvida deverá atacar o conjunto i

de minhas opiniões sobre as coisas sensíveis, isto é, os objetos dos


¡l°
o d e es tar inserido no espaço e ' portanto, pressupoe o esPa§0- em
i pdo mais ' Quan d° eu falo que os sentidos me .. enganam, como, por
sentidos.58 Eu acredito que conheço estes objetos tais como eles são l

' endo nao apenas que eu tenha


...
exemplo › a visão, eu estou pr¢SSnP .
porque eu os vejo, os toco etc., ou seja, eles se manifestam à minha b - eto que a afeta, 1`¢P1`° du-
_ nr
.. `,,-.
._.A I _ .
percepção sensível, eu posso intui'-los sensivelmente. Uma tal crença uma vista mas, Igualmente* que baia um O 1
_. t » ., ¿ ¿'ziéúzz.Nahis1õfia
5.

%l ldes e sua 1
' ,\á.
5° "Como fomos crianças antes de sermos homens, e ora julgamos bem ora mal das coisas ,iz .
1,' _ I'
5° Este é o percurso que
.^ mais
- tarde' Hegel ira 1-efzzel1' Êníliršspfiw
a 1 há um movimento onde,
que se nos apresentam aos sentidos, quando ainda não tínhamos inteiro uso da razão, ¬fi~ da formação a co _^ _ ¡ç , el., e alemça a COReeiência-de-si.. HEGEL,
váiios juízos apressados nos impedem agora de alcançar a verdade, e, de tal maneira nos L
if
inicialmente, a consciencia
, parte da, certeza sensiv pg; m-1,1. (T d.), V. 2. Pads: Aubler
_ ' 194]
. . ,
tornam confiantes, que não há sinal aparente de que deles possamos nos libertar se não Ç,W. F. La Pbériomenologze deLESPI1t. HYP au trata dftlma gênese dialética do sujeito
tomarmos a iniciativa de duvidar,'uma vez na vida, de todas as coisas em que encontra-
hs
TOL pmes A e B) _ A diferença e Que, Ieeiäjullgšfâll:lo Objeto
SC . .
que resulta na posição do sujeito. De
mos a mínima suspeita de incerteza” (Flriicijaes, AT. IX-2, p. 25, grifo nosso). .ir ' a
1.,
M'
v.“
e do objeto, em Descartes e antes um Desennes um progressivo desvelamento das
ft Mzaiizzzzm, AT. |x.i, p. 29. ` tf Qn que
. .
al I- fonnaü há tanto em Hegel quanto em
- -. eia
- que o sujeito
' ' faz do objeto.
.v.
ii
medmeees que estruturam a flilpenen _
5° Driscours, AT. Vl, p. 32; M'éd1itatÍo¡is, AT. IX-I , p. I4; Hínclbes, ATÍ IX-2, p. 26.
45

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O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito


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zindo nela sua imagem, ou seja, estou pressupondo que haja objetos .;'*l'i.?1ii
xl . ._;'_j-.z
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1”.'
› cimento matemático que se assenta sobre intuições claras e distintas do
¿ .;_›_

exteriores.°° . -_;_
."'Í1Í . f: 5'
.,~; -_ _. f ¡-io intelecto. Numa terceira etapa, então, a dúvida deve ainda
'1 .“›"l.,?.. .i
'.,›`--)' > -_
Numa segunda etapa, então, a dúvida precisa voltar-se contra 1-' V
5,.,

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prlitiár-se contra esse conhecimento, para que ela se torne, então, uni-
os sentidos, quer dizer, questionar a própria realidade da percepção . ..._
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' -4,'-`.v
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...' ::;¬5al,°2 Para isso, Descartes reassume uma posição realistaóâ e vai
sensível. Não se trata mais de suspeitar que a percepção sensível .l
.
«_ ._~
r
fazer com o objeto da intuição intelectual o mesmo que ele já haviafeito
`__.

possa estar sempre me enganando mas de suspeitar mesmo que eu ~_1¬I .-: _.'. .

com 0 objeto da percepção sensível, ou seja, reduzi-lo a mera ideia.


possa ter uma percepção sensível. Quando vejo ou toco, eu posso
4- 4
.___f_¿ r _' ç
..'.K` -' -*.
'-›~ t"'.^:
.-.
_.:_5-'f:.'=-
""
O conhecimento matemático é, para a intuição intelectual, tao
apenas estar pensando que vejo ou que toco.6' Com esta manobra, o A
_ .›.P4

_.tz i
...
_.. necessário quanto o era o juízo de existência para a percepção sens1-
juízo mostra-se novamente transcendendo o objeto, à medida que T- ve] Entretanto, como a intuição intelectual se dá, é claro, R0 PI`0P1`1°

pressupõe a realidade da percepção sensível; por outro lado, ocorre ¬.
«
intelecto, não há como recuar, a exemplo do que tinha sidoifeito clom
aqui, outra vez, uma redução do objeto, que passa de objeto da per- - sensivel,
1 ' interior,
° ' a partir` o q ua .se
`
1

a percepçao para um solo mais


~¬-

_"'

cepção sensível para objeto de pensamento, ou idéia (idéia essa que possa atacar a intuição intelectual como um todo. Neste caso, POIS,
pode, ou não, corresponder a um objeto fora dela). Nesta etapa, a não parece ser possível assumir uma perspectiva onde a necessidade
dúvida radicaliza o movimento de internalização já iniciado na etapa ,'-
do juízo se converta em mera possibilidadef” Todavia, se nao e pos-
anterior, nos deslocando, agora, de uma posição realista para uma ›.
1 sível atacar a intuição intelectual como um todo, É POSSÍVCL Por °"tf°
posição idealista. Assim, o juízo de existência, que era uma necessi- lado 9 a exemplo do que a _ primeira etapa da
. _ _dúvida
_ fez com a percep-
.
dade do ponto de vista da percepção sensível, torna-se, do ponto de .ih
vi, ção sensível atacar internamente a intuiçao intelectual- Para ISSO,
9
.ri í

vista do pensamento, uma mera possibilidade. - L:


- 'ff'
basta mostrar que aquilo ' que intuimos
' ' '
intelectualmente p ode não
p
_ fz.._.
Confinados, pois, no espaço do pensamento, onde todo co- .i '
,.'_ corresponder à realidade mesma. Diferente, porem, da percepçao
:ri.-

nhecimento sensível se torna duvidoso pelo ataque à prõpiia percep- . - t


1 15
sensível, onde podíamos mostrar que ela nos engana as vezes, nao e
ção sensível, restam somente as minhas idéias que, enquanto fatos de possível mostrar que a intuição intelectual nos tenha enganado algu-
consciência, são inquestionáveis. Mas resta também todo o conhe- ma vez: aquilo que intuímos intelectualmente, intuímos com uma
jr

°° “mas ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco i

sensíveis e muito distantes, encontramos talvez muitas outras das quais não se pode real-
2
62 Az1ézúr,z,z›z,.AT. IX-I. p. 16; Pn'w1m.AT- IX-Zz P- 26-7- Em °*flP“~ °°'“° P'°'
mente duvidar, embora as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu tencleremos mostrar no cap. ll, também está presente no Discurso.
'\

estou aqui; sentado junto ao fogo, vestido com um c/zambre, tendo este papel entre as sa Esta ê a estratégia exigida pelo argumento do Deus Enganador tal como aparece nas
mãose outras coisas desta natureza" (Médítatíons, AT. IX-I , p. 14, grifo nosso). O que M dragões e nos Princípios No Discurso a estratégia é outra. Discutiremos isso em
e I O Í

é indubitável, portanto, é que eu sou corpo que ocupa um espaço juntamente com outros 1 d' esse
detalhe no cap. ll IOZ-5), onde sc esclarecera 0 qlue pretiäidemos izçr r(:l‹:)mDeus
corpos. Do mesmo modo, no Discurso Descartes supõe apenas que nada é tal como os ,, . . . - -1 ' ' ' en o
reposicionamento realista que vem implicado na uti izaçao o algum
sentidos nos fazem imaginar (Dzscows, AT. Vl, p. 32). Nos Príncáafos, porém, Descar- %HHl-1- Enganador.
tes duvida que haja alguma coisa que exista verdadeiramente no mundo; mas isto, como
veremos no cap. Ill, é porque nesta obra os sentidos são atacados simultaneamente pelo 64 “Eis por que, talvez, não concluamos mal se dissermos que a Física, a Astronomia, il
. . °^ ' ° " ' tas _'
argumento do Erro dos Sentidos e pelo argumento do Sonho. Medicina e todas as outras ciencias dependentes da consideraçao das coiâas cotnpoã dg;
. . - ' f° cias
mimo dimdosas _e incertas; mas que a Antmetica, anczeometria. e as ou as cien
6' Diiscours, AT. Vl, p. 32; MëcÍ¡'ta£7'ons, AT. lx-l p. l4-l 5; Hínciiocs, AT. IX-2, p. 26.
natureza, contêm alguma coisa de certo e indubitável . Â/Íëdmaüons, AT- lX'l› P- ló'

46 47

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necessidade tal que não podemos recusar o assentimento; o juízo como ...,,
_ e `.
1!
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Com esta última manobra, todo nosso conhecimento perde seu
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que é inerente ao próprio objeto, fomecido por ele mesmo.°5 Não há, 1
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valor objetivo, quer dizer, todos os objetos de conhecimento são redu-


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por assim dizer, uma razão natural de duvidar de nossa intuição inte- ...:...-
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zidos a idéias, cuja correspondência com uma realidade exterior não
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lectual. Pode-se, porém, estabelecer uma razão de direito: se, a exem- é garantida. Mas, ao proceder assim, nesse movimento de reçuo pro-
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plo do que veio sendo feito até aqui, não podemos desestabilizar o z~¬; rg
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gressivo da realidade, resulta que eu acabo por tocar, na contra-
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juízo recusando-lhe a necessidade, podemos, no entanto, desestabilizar --143 -ia-


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'Í -`¡›>' mão” por assim dizer, a realidade. Se o movimento de interiorização,
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a própria necessidade que lhe é inerente, mostrando que aquilo que é


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. por um lado, me apartou de toda a realidade ao converter o que
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uma necessidade do pensamento pode não ser uma necessidade da O»

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pareciam ser objetos em si mesmos em meras idéias minhas, por ou-
realidade mesma.°6 Com esta operação, então, que cinde a necessida- 9‹z
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tro lado, ele me lançou em minha própria realidade enquanto sujeito
de em subjetiva e objetiva, o juízo aparece novamente transcendendo o R
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dessas idéias: se a realidade de todas as coisas é duvidosa, a minha
objeto, o qual é reduzido agora, de objeto em si mesmo, a mero objeto
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própria, que duvida delas, não pode ser. Se duvido, peI1S0; SC PCHSO,
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de minha intuição intelectual, ou seja, de essências matemáticas a me- existo.°8 Eis um objeto de conhecimento cujo valor objetivo é
ras idéias°7 (as quais podem, ou não, ser essências). inalienável: minha existência enquanto pensamento. Eu sou cons-
trangido a julgá-lo verdadeiro e não posso jamais mostrar que meu
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juízo o ultrapassa, porque não posso nunca reduzir um tal objeto a
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"Pois, quer eu esteja acordado, quer eu esteja dormindo, dois mais três formarão sem-
mera idéia minha. A representação “eu penso” flã0 P0de 56.1' mera
pre o número cinco e o quadrado nunca terá mais do que quadro lados; e não parece
possível que verdades tão patentes possam ser suspeitas de alguma falsidade". ldem, representação, porque para me representar que penso eu preciso efe-
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ibidem. ' tivamente pensar, isto é, ser pensamento.°9 E não podia ser de outro
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Pode ocorrer que Deus tenha desejado que eu me engane todas as vezes que faço a i
modo, porque se os objetos perderam sua realidade como coisas em
adição de dois mais três[...] ”. ldem, ibidem.
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si mesmas, eles precisam, ao menos, garantir sua realidade C0m0
67 Essa “redução do objeto em si mesmo_ a mero objeto de minha intuição intelectual" r
representações de um sujeito - sujeito esse que, P0l'ÍflflÍ0› 1150 P0de
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não deve ser entendida, é claro, como se tratando de uma redução de essências que exis- ,'›
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ser também ele uma mera representação.


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tem fora do pensamento a mera representação dessas essências no pensamento. As essên-


cias matemáticas não são coisas que existem fora do pensamento, mas representam
propriedades essenciais das coisas que existem fora.do pensamento (as coisas materiais). ***
Piincipes, AT. lX-2, l, art. 58 e 59. Não no sentido de que se trata de uma generalização -f.

empírica, mas no sentido de que são conteúdos inatos colocados aí por Deus. Cínquiiêmes ..
Por fim, devemos atentar para o fato de que a duvida metódica
_ . , o , ú o ; CC -v 7
Réponses, JME, p. 369-70; Entretíen avec Bumiaii (1975), p. 55-7. Quer dizer, Deus não atinge os principios logicos, isto e, as n0ç0CS COIUUHS - Descaí tes
que criou todas as coisas, colocou em nós idéias das propriedades essenciais dessas coi-
sas. Como nos mostra Cuéroult, na sua minuciosa análise das essências. Descartes Se/on
L'0rdre..., op. cit., v. I, cap. lll, as essências matemáticas são as próprias idéias matemá-
ticas. Quando, pois, falamos de uma redução do objeto em si mesmo a mero objeto de airaimnsma «S D,:,a›zzz,, AT. vi. p. 32; Mé./z°zzzzz›»,. AT. ix.i. p- 19: Pflhwbe. AT- I×-2- P- 27-
›`- 69 «Mas não poderíamos igualmente supor que não existimos, enquanto duvidamos da
minha intuição intelectual, estamos referindo-nos a uma redução de conteúdos verdadei- 1

ros no pensamento a conteúdos de pensamento que podem ou não corresponder ã reali- É verdade de todas essas coisas: porque, COIH CÍCÍÍO, Í¢m05 tanta 1`¢PU8flânda em °°"°°b°r que
dade. “A idéia difere da essência", nos diz Guéroult, “nisso que a essência é a idéia aquele que pensa não existe verdadeiramente ao mesmo tempo em qlifl Peas; lille» 050
revestida de seu valor objetivo" (lbidem, p. 381). Quer dizer, reduzir a essência à idéia é obstante todas as mais extiavãgaflffis 5UP05¡.(-`0€$› não 925 Podcfƒamof "ffpedu 8 crer que
retirar da idéia seu valor objetivo. ~ ~ esta conclusão: eu penso, logo existo, não seja verdadeira [...] (Pnncipes, AT. [X-2, P-
27).
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A estrutura lógica da dúvida metódica
O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito `-áà
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já deixava isso claro na exposição geométrica inserida nas Segundas - .-›f a
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outro lado, um princípio lógico, enquanto proposição, não pode ser
Respostas” e, do mesmo modo, na carta a Cle1selier,7' respondendo V flviifiñ
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mero juízo, pois, como declara Descartes, não há juízo sem idéia.”
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às novas objeções de Gassendi. Poder-se-ia, contudo, suspeitar de uma .¡, -:H


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tal isenção: não são também as idéias matemáticas noções comuns, isto «v
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Deste modo, teríamos que do mesmo modo que uma idéia matemáti-
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ça é uma idéia com um juízo inerente, o princípio lógico é como que
é, inatas, simples e evidentes? E, no entanto, não são elas atingidas por zjcsi- . _,

uma dúvida metafísica? Se eu posso duvidar da verdade “2 + 3 -'= 5”, .rn


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um juízo inerente a uma idéia. Por que, pois, não seria possível ata-
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não posso, do mesmo modo, duvidar da verdade “é impossível que


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uma mesma coisa, ao mesmo tempo, seja e não seja”?


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`.'._ ~ Ocorre que um tal raciocínio não é exato. Por um lado, um
Não se pode, entretanto, tomar de modo unívoco a expressão
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princípio lógico não é, propriamente falando, um juízo, porque juízo
“noção comum”. Em sentido próprio, nos diz Gouhier,
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é uma ação da vontade que se aplica a um objeto do entendimento."
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Ora, um princípio lógico não é uma ação da vontade sobre um objeto
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do entendimento, senão que ele próprio é um objeto do entendimen-
“noção comum" designa uma proposição que afirma uma ligação; em _-É "'- ;
:if "` to. Não julgamos, por exemplo, que “é impossível que uma mesma
sentido largo, a expressão tende a tomar a extensão da palavra "noção" quan- 2; Ã' ¬
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do esta designa uma idéia clara, evidente e inata.” coisa, ao mesmo tempo, seja e' não seja” a partir da percepção de
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uma determinada coisa que assim se comporta, mas percebemos
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P (intuímos) essa proposição mesma. Por outro lado, enquanto objeto
Propriamente falando, pois, “noções comuns" são apenas os ~

do entendimento, o princípio lógico não é, propriamente falando,


princípios lógicos. Nomenclatura à parte, o que diferencia os prin- 1
uma idéia, porque idéia é aquele pensamento que é como imagem de
cípios lógicos das idéias matemáticas é que enquanto essas são I

idéias, aqueles são proposições. _


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lsto, contudo, não parece explicar a isenção da dúvida sobre . ,ç
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as idéias matemáticas: por um lado, a dúvida não recai sobre a idéia ...,
'‹‹ bastante válida, julgamos, no entanto, que uma análise dos conceitos de "idéia" e "noção
comum", tal como aparecem em Descartes, mediada por uma análise lógica do termo
matemática em si mesma, que enquanto fato de consciência é "conceito", podem nos conduzir mais diretamente a um esclarecimento sobre a situação
privilegiada que as noções comuns tem frente às idéias matemáticas.
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7° No terceiro postulado da exposição geométrica, Descartes declara que as “noções que 7? “Pretendo que temos idéias não somente de tudo o que está em nosso intelecto, mas
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cada qual encontra em si mesmo" não precisam de provas para serem conhecidas. (AT.
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mesmo de tudo o que está em nossa vontade; pois não poderíamos querer nada sem saber
lX-I, p. l26). .'_
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que o queremos, nem saber senão por uma idéia. Não afirmo, porém, que essa idéia seja
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diferente da ação mesma" (Descartes a Memenne, 23 de janeiro de l64l, Conespondance,
7' “[...] O autor desse livro [as Instâncias que Gassendi fez publicar] não considerou ,_
AT. Ill, p. 295). ,
que a palavra prejuízo não se estende às noções que existem em nosso espírito, das quais
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