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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

NÚCLEO DE ESTUDOS JUNGUIANOS

A teoria complexa de C. G. Jung: dissociação e criatividade


Profª. Drª. Liliana Liviano Wahba

Aluno:
Eduardo Arruda Sautchuk
19 de junho de 2020

Inte(g)ração

“Édipo:
Onde os culpados estarão?
Onde acharemos algum vestígio desse crime muito antigo?
Creonte:
Em nossa terra, disse o deus; o que se busca
encontra-se, mas foge-nos o que deixamos.”
(Sófocles, ca. 430 a.C., 1.2.134-137) 1

Kitsch é uma palavra alemã que designa um estilo artístico considerado de gosto
popular e pouco refinado, com características sentimentalistas ou sensacionalistas,
superficiais. No sentido estético da arte crítica, seria considerado de mau gosto. A
palavra se originou no séc. XIX, servindo para descrever objetos que não são dotados de
qualquer rigor estilístico ou técnico e, ainda assim, recebem grande aceitação do público
em geral, integrando a cultura de massa. O estilo kitsch é próximo da ideia de
estereótipos artísticos, sociais e culturais. Verskitchen, termo do qual kitsch se origina,
significa a fraude de imitar obras de arte.
Segundo Shalit (2002, p. 70), todo complexo deve ser considerado em relação ao
complexo do ego. Mesmo que o complexo não seja totalmente integrado ou assimilado

1
Aristófanes, Eurípedes, Ésquilo, Sófocles. (2013). O melhor do teatro grego. Traduzido por Mario da
Gama Kury. Zahar.
2

ao ego, pode tornar-se patológico quando tem sua existência negada. A reflexão
proposta neste texto enfoca a perspectiva relacional da dinâmica psíquica, considerando
a metáfora do kitsch como uma possível forma de relação do eu com a “pequena gente”
que atrapalha suas noites (Jung, 2013/1934, para. 209).
A mente consciente está geralmente inclinada a entender que os complexos
devem ser eliminados, esquecendo-se de que são os complexos que a têm. O medo dos
complexos é um preconceito, visto que a dissociabilidade da consciência e a autonomia
destes fragmentos da psique são normais (op. cit., para. 211). A existência de complexos
é comum a todos os indivíduos, o que importa é compreender a atitude do ego em
relação a estes (Jung, 2017/1935, para. 175). É justamente a tendência natural à divisão
da psique que possibilita a diferenciação e desenvolvimento do eu (Jung, 2013/1937,
para. 255). Portanto, integrar o complexo não significa alcançar a homogeneidade da
psique, ou necessariamente a concordância e coerência do entendimento consciente.
A homogeneidade é o perigo do kitsch. Ele é palatável, agradável, facilmente
aceito. Milan Kundera (2008/1982, p. 244) entende o kitsch como um ideal estético que,
em essência, “exclui de seu campo visual tudo o que a existência humana tem de
essencialmente inaceitável”. Pode-se dizer que a inclinação da mente consciente a
desejar eliminar os complexos, citada anteriormente, fundamenta uma tendência à
criação ou habitação do kitsch. Entretanto, a parte inaceitável, considerada doente, não
pode ser eliminada, como se fosse um corpo estranho, sem o risco de destruir algo
essencial que deveria continuar vivo (Jung, 2012/1928, para. 293).
O kitsch é também o ideal estético de todos os políticos e movimentos políticos,
segundo Kundera (2008/1982, p. 246). Desconsiderando tudo o que é desagradável,
apelam para as mais profundas experiências humanas e evocam um estado emocional
desprovido de crítica consciente. Num contexto democrático em que possam conviver
diferentes kitsches, com influências que podem se anular, há espaço para originalidade e
criatividade dos indivíduos. Quando apenas um movimento ideológico toma conta de
uma sociedade, tem-se um kitsch totalitário que bane da vida tudo o que considera
prejudicial. Para o autor tcheco, os banidos eram enviados à fossa séptica chamada
gulag (acrônimo russo para Administração Central dos Campos de trabalhos forçados)
de forma que a sociedade ficasse limpa. O kitsch tem um núcleo ideológico no qual
reside sua força, que é usado para a manobra de massa e o estabelecimento de um tipo
peculiar de inconsciência (Kundera, 2008/1982, p. 246-247). Aqui pode-se pensar como
se chega no absurdo de um campo de concentração: talvez pela soma de absurdos aos
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quais uma sociedade fica continuamente exposta, até que ninguém mais consiga dizer
como se chegou a este ponto. Este é um caminho que perigosamente se repete ao longo
da história.
Um dos motivos para isso é, possivelmente, que o movimento macropolítico do
totalitarismo aconteça também no contexto micropolítico da psique individual, e vice-
versa. Segundo Jung (1987, p. 321), a psique é constituída de problemas, convicções e
questões coletivas, assim como individuais. Para Shalit (2002, p. 107), a ideia de que
todos os “indivíduos” falem uma mesma língua pode ser considerada uma inflação. A
diferenciação de línguas na Torre de Babel é um movimento de diferenciação do
indivíduo em sentido à consciência. Sem diferenciação, a intenção de homogeneização
dos conteúdos é como um totalitarismo egoico.
Erel Shalit (op. cit) apresenta um caso clínico de um paciente possuidor de
atitude egoica inflada, incapaz de aceitar seus problemas e falhas. Criou-se uma
falsidade, um invólucro de persona que tentava sustentar muito mais do que poderia.
Desejava ser o melhor e não demonstrar fraqueza, vivendo a fantasia de não ter limites.
É como se o ego experienciasse um kitsch próprio, que o torna limitado em sua
prepotência. Apenas por meio de Eros e Logos, sentir e entender, que o ego pode
integrar essa falsidade, gerando uma mudança na atitude consciente (Shalit, 2002, p.
114).
A atitude do paciente citado acima não é incomum, especialmente considerando
a influência do capitalismo globalizado nos indivíduos. O contexto político e social de
normalização e capitalização da sociedade contemporânea causa o que Byung-Chul Han
(2017) chama de agonia do Eros. No prefácio da obra de Han, Alain Badiou (2017, p.
10) afirma que o individualismo que privilegia a concordância e gratificação narcísica é
característico dos tempos atuais, em que se vive o “inferno do mesmo”. Entretanto, o
amor corre grande risco, pois sua condição básica para é a coragem de negar a si
mesmo, para que seja possível conhecer o Outro. A experiência de amor, Eros, não
acontece no âmbito do poder. Deve-se ter capacidade de reconhecer que não é capaz, a
capacidade da humildade (Han, 2017). A vivência do kitsch capitalista de que todos
podem tudo, bastando querer e lutar, influencia também a atitude entre ego e
complexos.
Shalit (2002, p. 102) considera que existem dois tipos diferentes de complexos:
os construtivos e os autônomos. Os construtivos seriam aqueles que, por meio da
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integração, promovem o desenvolvimento do indivíduo. Os complexos autônomos


teriam um caráter compulsivo destrutivo.
Paradoxalmente, sempre será necessário um grau de autonomia no complexo
construtivo para permitir movimento e desenvolvimento, assim como sempre haverá um
potencial construtivo no complexo autônomo. Pode-se compreender estes dois tipos de
complexos como maneiras de relação entre ego e complexo, relacionada à capacidade
de fazer perguntas. Perguntar é relacionar-se, uma vez que não impõe uma resposta,
uma condição para ser. Rasgar a cortina do cenário (kitsch) para ver o que está atrás é o
que permite a relação. Este é o reconhecimento do que Jung (2017/1935, para. 151)
considera uma mera ilusão da unidade da consciência.
Para Kundera (2008, p. 251), o kitsch é uma bonita e confortável mentira.
Quando é reconhecido como mentira, perde seu poder autoritário. Assume-se como uma
fraqueza intrinsecamente humana. Dessa forma, a pergunta é como a faca que rasga a
cortina do cenário para que se possa ver o que está atrás. Na frente, a mentira inteligível,
atrás, a incompreensível verdade (op cit, p. 249).
O apego à mentira do campo confortável do inteligível, falsamente considerado
suficiente, evita fazer perguntas. Essa atitude homogeneizadora parece permear diversos
campos, sendo uma construção histórica científica e política. Para o analista, o médico,
o professor, o padre ou pastor, pode ser mais confortável ter respostas do que fazer
perguntas, assim como para seus pacientes, alunos e seguidores. A imposição das
respostas é opressora. Guggenbühl-Craig (2004) apresenta os grandes riscos dessa
postura. É urgente pensar a noção de abuso de poder na sociedade, ou a pretensão de
saber como deve ser o comportamento dos indivíduos, especialmente no contexto
educacional e de saúde, pois diminui dramaticamente as possibilidades do ser. Esta
noção é reproduzida na forma de viver de cada indivíduo, e na forma de se relacionar
consigo mesmo e seus complexos.
Em conclusão, a interação é fundamental para a integração. A verdadeira arte é
relacional, pois o sublime é sentido e faz sentido em cada um. A concordância de
respostas da normalização é como uma falsa arte, verskitchen. Mais do que oferecer
respostas no campo do conhecimento, Logos, a abertura de fazer perguntas, Eros,
caracteriza-se como uma suportabilidade não associada à força. Suportar o não saber,
sustentar a atitude humilde do ego em relação ao que desconhece, abrir-se para o Outro,
desconhecido. A integração é relacional antes de conhecer. Para Jung (2012/1928, para.
289) a relação de pessoa a pessoa, uma vez caídas as transferências, é a pedra de toda
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análise, em que paciente e analista estão em plena igualdade. Para conseguir, o analista
deve estar disposto a olhar para si. Assim, o paciente descobre seu próprio valor, de sua
individualidade. Vê que é aceito tal como é, que é capaz de adaptar-se às exigências da
vida. E assim também, cada um de nós.
Segundo Byung-Chul Han (2017, p. 95):
“Em Platão, Eros é chamado de philosophos, amigo da verdade.
O filósofo é um amigo, um amante. Esse amante não é, porém,
uma pessoa exterior, não é uma circunstância empírica, mas
“uma presença íntima no pensamento, uma condição de
possibilidade do próprio pensar, uma categoria viva, uma
vivência transcendental”. Em sentido enfático, o pensamento só
se eleva mesmo a partir de eros. Para poder pensar, é preciso
antes ter sido um amigo, um amante. Sem eros, o pensamento
perde toda e qualquer vitalidade, toda inquietação e se torna
repetitivo, reativo.”

Referências
Guggenbühl-Craig, A. (2004). O abuso de poder na psicoterapia: e na medicina,

serviço social, sacerdócio e magistério. Paulus.

Han, B.-C. (2017). Agonia do eros. Vozes.

Jung, C. G. (2012). O valor terapêutico da ab-reação. In Jung, C. G. Ab-reação, análise

dos sonhos e transferência. Vozes. (Trabalho original publicado em 1928).

Jung, C. G. (2013). Considerações gerais sobre a teoria dos complexos. In Jung, C. G.

Natureza da psique. Vozes. (Trabalho original publicado em 1934)

Jung, C. G. (2013). Determinantes psicológicas do comportamento humano. In Jung, C.

G. Natureza da psique. Vozes. (Trabalho original publicado em 1937)

Jung, C. G. (2013). Os fundamentos psicológicos da crença nos espíritos. In Jung, C. G.

Natureza da psique. Vozes. (Trabalho original publicado em 1919)


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Jung, C. G. (2017). Fundamentos da psicologia analítica (Tavistock Lectures). In C. G.

Jung. A vida simbólica. Vozes. (Trabalho original publicado em 1935)

Kundera, M. (2012). A insustentável leveza do ser. Companhia de Bolso. (Trabalho

original publicado em 1982)

Jung, C. G., McGuire, W. (Ed.), & Hull, R. F. C. (Ed.). (1987). C. G. Jung speaking:

Interviews and encounters. Princeton University Press.

Shalit, E. (2002). The complex: path of transformation from archetype to ego. Inner

City Books.

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