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Artigo: David José Caume *

Segurança Alimentar, Reforma


Agrária e Agricultura Familiar

RESUMO tratégicos para contemplar as


necessidades alimentares da po-
Propondo um enfoque sobre o combate à fome no Brasil para além de uma
mera prática de distribuição de alimentos, o artigo pretende analisar como pulação. Um enfoque abrangente
uma ação articulada do Estado que visasse promover a segurança alimentar e adequado de uma política de
poderia ter nas políticas de fortalecimento da agricultura familiar e de efeti- segurança alimentar deve en-
vação da reforma agrária componentes estratégicos de enfrentamento à quadrar tanto aqueles segmentos
miséria e à pobreza no meio rural, propiciando a geração de emprego, a sociais que passam fome (público-
distribuição de renda e a democratização da sociedade brasileira. PALAVRAS- alvo do Programa Fome Zero, do
CHAVE: fome, segurança alimentar, agricultura familiar, reforma agrária. governo de Luiz Inácio Lula da
Silva), quanto aqueles
responsáveis pela produção e
oferta de alimentos - os agricul-
Combater a que isso tem sido considerado pelos governos tores. Portanto, mais do que in-

fome ou
brasileiros. Ou seja, pensar o combate à fome tervenções compensatórias ou
como instrumento compensatório aos efeitos assistencialistas,1 trata-se de con-
promover a economicamente recessivos e socialmente
excludentes das políticas macroeconômicas de
ferir à questão agroalimentar a
importância que merece, con-
segurança cunho neoliberal. Não obstante seja uma ceptualizando-a como um com-
alimentar?
unanimidade nacional o apoio da sociedade ponente estratégico do perfil de
brasileira ao Programa Fome Zero, lançado desenvolvimento económico-so-
Diferentes campos científicos recentemente pelo governo - na medida em que cial que almejamos.
apreendem a questão da segu não se pode desconsiderar a necessidade de Nessa perspectiva, os bene-
rança alimentar sob os mais ações emergenciais para mitigar o estado ficiados por uma política estatal
diversos enfoques analíticos. daqueles que vivem a ignóbil e injustificável que vise combater a fome não
Enquanto os profissionais ligados situação de não dispor do alimento mínimo são tão-somente aqueles que
às ciências da saúde tendem, por indispensável à reprodução humana e na apresentam problemas de acesso
exemplo, a dar primazia aos as- medida em que esse processo certamente não aos alimentos ou que vivem em
pectos relacionados à alimentação será revertido pela ação das forças do mercado - extrema penúria econômica, mas
e ao estado nutricional dos é indispensável que a questão da segurança também os trabalhadores rurais
indivíduos e das sociedades, os alimentar seja abordada sob uma ótica mais responsáveis pela produção de
planejadores e teóricos do de- ampla. alimentos e, particularmente, o
senvolvimento rural centram suas 0 objetivo de que todos os homens e segmento de agricultores
análises e projeções em torno da mulheres tenham assegurado o direito ele- familiares, o qual historicamente
produção e distribuição dos mentar de estar alimentado e protegido contra se dedica à produção dos gêneros
alimentos necessários a as segurar a fome abarca não apenas a questão de garantir direcionados ao abastecimento
o pleno abastecimento das o acesso aos alimentos aos consumidores do mercado interno brasileiro.
populações e, assim, combater ou (dificultado sobretudo por problemas de Mesmo porque em algumas
prevenir as possibilidades de insuficiência de renda e não por pro blemas de regiões, como no sertão e no
ocorrência da fome. escassez de produção, como muitos semi-árido nordestino, os
Neste texto, pretendo levan- consideram), mas também de definir e próprios agricultores familiares
tar considerações no sentido de se operacionalizar políticas públicas direcionadas a têm problemas de geração de
pensar o combate à fome na assegurar a auto-suficiência produtiva do país, uma renda capaz de contemplar
contemporaneidade brasileira isto é, o pleno abastecimento daqueles as necessidades mínimas a uma
para além dos estritos limites em produtos agrícolas considerados es- vida digna.

Revista da Pró-reitoria de Extensão e Cultura


Proponho-me, sucintamente, expor como uma expropriação de pequenos agricultores potenciais beneficiários dos programas
"política de segurança alimentar" eficaz no Brasil marginalizados pelas políticas de crédito do Estado e emergenciais de combate à fome.
deveria abranger, além de ações emergenciais, pela intensiva tecnicização dos processos A capacidade dos agricultores familiares de
políticas estruturais permanentes de fortalecimento produtivos, a "modernização conservadora" estimu- reconfigurar seus sistemas produtivos e de
da agricultura familiar e de execução da reforma lou fortemente a concentração fundiária, estabelecer objetivos adaptados aos mais diferentes
agrária. Nessa ótica, a questão da segurança decorrente, sobretudo, da apropriação das regiões ambientes socioeconômicos é realçada por sua
alimentar deixa de ser uma mera questão de de fronteira agrícola por grandes empresários marcante participação na produção agropecuária
fornecimento de alimentos e passa a representar interessados na especulação fundiária (processo nacional. Ainda que marginalizados do acesso à
um elemento central das estratégias de desenvol- que José de Souza Martins designou, com terra (os estabelecimentos rurais de tipo familiar
vimento econômico-social, sobretudo do espaço propriedade, de "territorialização da burguesia perfazem um total de 4.139.369 - 85,5% do total de
rural. brasileira"). Ou seja, o modelo de desenvolvimento estabelecimentos rurais - e ocupam, segundo dados
agrícola eleito não só não implicou a efetivação da do Censo Agropecuário de 1995-96, 353,6 milhões
Segurança alimentar e reforma agrária, como acentuou ainda mais a já
injusta distribuição da propriedade da terra no
de hectares, ou seja, tão-somente 30,5% da área
total) e ao crédito agrícola (absorvem apenas 25,3%
agricultura familiar no Brasil. A generalização de relações de trabalho de do financiamento total destinado à agricultura), os
cunho temporário (o "bóia-fria") ajudava a compor agricultores familiares dão uma contrapartida à
Brasil um cenário que mostra o agravamento da pobreza e relativamente muito superior, produção nacional,
Contrariamente ao caminho percorrido pelas da miséria no meio rural brasileiro. pois são responsáveis por 37,9% do valor bruto da
principais economias do mundo, como os Estados Em que pese essa desconsideração de políticas
Unidos, a Europa, o Japão e a Coréia, que elegeram de segurança alimentar que almejassem assegurar,
a agricultura de tipo familiar como elemento em primeiro plano, a auto-suficiência alimentar do
estratégico de desenvolvimento econômico-social, país, a agricultura familiar demonstrou uma grande
as elites políticas brasileiras privilegiaram, historica- capacidade de adaptação e flexibilidade em relação
mente, um perfil de desenvolvimento agrícola e a essa inserção periférica nas estratégias de
agrário centrado na preservação da hegemonia da desenvolvimento do meio rural no Brasil. Também
grande propriedade fundiária e na delegação à não há dúvida de que a agricultura patronal
empresa capitalista de grande escala o papel de mostrou nas últimas décadas um acentuado
cumprir as principais funções macroeconômicas dinamismo, notadamente no que diz respeito à
atribuídas ao setor agrícola em diferentes capacidade de aumentar continuamente sua
momentos. participação nas exportações brasileiras e na
Particularmente, o regime militar instaurado consolidação das chamadas "cadeias
em 1964, através de uma política agrícola centrada agroindustriais", indicando que hoje já não mais
na concessão de fartos subsídios, deu operacionali- podemos falar da clássica separação entre uma
dade a um modelo de desenvolvimento agrícola e agricultura familiar exclusivamente dedicada ao
agrário que visou modernizar a agricultura abastecimento do mercado interno e um setor
brasileira, transformando o arcaico latifúndio tradi- empresarial capitalista voltado à produção de
cional em modernas empresas rurais que assumiam mercadorias valorizadas pelo mercado
o encargo de aumentar nossas exportações internacional.
agrícolas, financiando desse modo o processo de A agricultura familiar brasileira tem como uma
industrialização do país via "substituição de de suas características a diversidade
importações". socioeconômica e cultural. Nas regiões Sudeste e Sul
Pela intervenção estatal, portanto, configurava- do país consolidou-se um segmento de agricultores
se a consolidação de um modelo de plenamente modernizado, desenvolvendo sistemas
desenvolvimento de cunho socialmente excludente de produção altamente tecnicizados e intimamente
e ecologicamente predatório que, se, por um lado, articulados às agroindústrias processadoras de
significou um aumento considerável na produção de produtos agrícolas. Nas regiões Centro-Oeste, Norte
determinados produtos agrícolas e na sensível e, principalmente, Nordeste, por sua vez, a
redução de alguns,2 por outro, representou a mar- agricultura familiar enfrenta as dificuldades de um
ginalização social, econômica e política de grande processo histórico de configuração do espaço
parte de nossos agricultores familiares que se viram agrário sob domínio da grande propriedade; nessas
na contingência de migrar para os grandes centros regiões, normalmente associa-se agricultura familiar
urbanos (entre 1960 e 1980, 28,5 milhões de com unidades de baixa produção, precário
pessoas deixaram o campo - equivalente, na época, desenvolvimento tecnológico e fraca capacidade de
à população total da Argentina). geração de renda.3 Isto indica que, paradoxalmente,
Além do êxodo rural provocado pela muitos agricultores do Nordeste brasileiro são
produção agrícola brasileira. Na região Sul, onde, Por um PRONAF ) provocam uma realidade marcada pela

desenvolvimento rural
pelo seu processo histórico de formação e ausência de trabalho e pela obtenção de rendas
desenvolvimento, a agricultura familiar se insere insuficientes à reprodução econômica e social.
num ambiente socioeconômico mais favorável, os sustentável: agricultura Portanto, a fome não pode ser atribuída nem a
agricultores familiares respondem por 90,5% dos es-
tabelecimentos da região, ocupam 43,8% da área e
familiar, reforma agrária e fatores de ordem natural e nem mesmo de
produção insuficiente à alimentação de todos; ela
produzem 57% do valor bruto da produção. preservação ambiental decorre de fatores políticos que produzem a
Revelando como a agricultura empresarial A fome é a manifestação mais dramática do exclusão social de milhões de trabalhadores rurais.
capitalista se expandiu fortemente nas últimas estado de miséria e pobreza absoluta a que O resgate de uma cidadania dilacerada por
décadas na região Centro-Oeste (incentivada por contigentes não desprezíveis da população processos econômicos, sociais e políticos injustos no
programas oficiais de desenvolvimento regional), os brasileira estão submetidos. Diferentemente de meio rural, na contemporaneidade brasileira, passa
agricultores familiares são responsáveis por apenas outros países, todavia, a fome no Brasil não é por um conjunto de iniciativas que redefinem o
16,2% do valor bruto da produção agropecuária consequência da incapacidade de produzir perfil de nosso desenvolvimento rural. No atual
regional, o menor percentual entre todas as regiões alimentos em virtude de dificuldades impostas contexto, a reforma agrária de caráter distributivista
brasileiras (GUANZIROLI et al„ 2001). por condições climáticas ou catástrofes naturais. e produtivista não tem mais sentido; não se pode
A importância da agricultura familiar não se Ela decorre de fatores de ordem estrutural, da pensar em desarticular e desestabilizar o dinâmico
restringe a produtos destinados ao abastecimento escolha de um determinado perfil de setor agroindustrial, mas se pode atribuir à
do mercado interno, como certas perspectivas desenvolvimento que distribui de forma democratização do acesso à terra a função de criar
dualistas costumam afirmar. Mesmo naqueles extremamente desigual tanto a riqueza gerada formas de emprego e geração de renda a
produtos tradicionalmente vinculados à exportação quanto os fatores de produção trabalhadores ru
e/ou processamento agroindustrial, como soja, 90
80 □ Café
laranja e carne bovina, os agricultores familiares 70
Q. □ Arroz
têm uma sensível contribuição; mas é, sobretudo, CD 60
□ Feijão
50
na produção daqueles produtos que compõem a O> □ Mandioca
TJ
40
dieta alimentar básica da população brasileira que 30 ■ Milho
20 □ Soja
sua presença é mais ressaltada, conforme se pode 10 ■ Pec. de corte
visualizar no gráfico ao lado. 0
□ Pec de leite
Esses dados, portanto, apontam que o Participação da agricultura familiar no Valor Bruto da Produção (VBP)
fortalecimento da agricultura familiar pode
Culturas ■ Suínos
efetivamente constituir-se numa das principais □ Aves/ovos
estratégias de efetivação de uma política de segu- necessários à viabilização dos processos □ Laranja
rança alimentar no Brasil, possibilitando tanto o econômicos. Se a fome no meio urbano é □ Algodão
■ Prod, total
incremento da produção agrícola nacional, como
também a reprodução social e econômica de um
contingente significativo de trabalhadores rurais,
que, mesmo vivendo sob condições de pobreza e
miséria no campo, ainda resistem à estratégia
ri l.l I rais desprovidos dos elementares meios de
sobrevivência. Além disso, em algumas
regiões, como no Nordeste, Norte e parte do
Centro-Oeste, a reforma agrária criaria as
sempre possível da migração para os grandes condições para um processo de dinamização
centros metropolitanos em busca de melhores opor- r econômica,4 rompendo as amarras ao de-
tunidades de vida. senvolvimento impostas pela ociosidade no uso da
Fonte: Confeccionado a partir de GUANZIROLI et al. (2001).

esultado, sobretudo, das dificuldades de acesso terra, pela prática de uma pecuária de caráter
ao emprego e aos baixos salários, no meio rural extensivo, pela superexploração da mão-obra, pela
pode ser atribuída, fundamentalmente, às vigência de relações de trabalho ilegais (como as
precárias condições de reprodução dos formas de trabalho escravo e infantil) e pela
pequenos agricultores. A extrema concentração monopoliza-
fundiária , que produz os sem-terra e os sem-
renda, e a falta de políticas específicas à agri-
cultura familiar (em que pese a existência do
Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar -
ção do uso dos recursos naturais Muitas dessas tecnologias já são desenvolvidas por *Professor da Escola de Agronomia e
(como o caso da água no sertão e algumas Organizações Não-Governamentais (ONGs), Engenharia de Alimentos/UFG.
semi-áridos nordestino). mas urge potencializar esse trabalho com o efetivo E-mail: caume@uol.com.br.
Além de incrementar a agricultura familiar em engajamento dos órgãos oficiais de pesquisa, como
ambientes onde ela encontra-se marginalizada, a a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
reforma agrária abre as possibilidades para uma (EMBRAPA) e as universidades públicas. REFERÊNCIAS
efetiva democratização política, tornando os O enfoque paradigmático da "industrialização CAUME, David J. A tessitura do"assentamento de reforma agráriaM: discursos e
práticas instituintes de um espaço agenciado pelo poder. 2002. Tese (Doutorado
trabalhadores rurais assentados agentes da agricultura", que norteou as políticas públicas em Ciências Sociais) - IFCH/ Unicamp, Campinas. 2002.
participantes das instâncias de poder local (partidos para a agricultura brasileira nas últimas décadas, é GUANZIROLI, Carlos et al. Agricultura familiar e reforma agrária no século XXI. Rio
políticos, sindicatos, prefeituras, câmaras de portador de uma racionalidade pro- dutivista que de Janeiro: Garamond, 2001.

vereadores, movimentos sociais etc.).5 Na dimensão tem se revelado como irracionalidade social e INCRA. Atlas fundiário brasileiro. Brasília, 1996.

societária, os assentamentos geralmente implicam ecológica. A construção alternativa de uma "agri- MALUF, Renato Sérgio. Segurança alimentar e desenvolvimento econômico no
Brasil, [s. d.]. Mimeografado.
impactos significativos nas novas formas de cultura sustentável" implica novos conceitos e
MARTINE, George; GARCIA, Ronaldo Coutinho. A modernização agrícola e a panela
organização coletiva, seja pela criação de novas objetivos que busquem conciliar produção do povo. In: MARTINE, George; GARCIA, Ronaldo Coutinho. Os impactos sociais da
modernização agrícola. São Paulo: Caetés, 1987.
formas, seja pela dinamização daquelas já existentes econômica e preservação dos recursos naturais; um
ROMEIRO, Adhemar; GUANZIROLI, Carlos; PALMEIRA, Moacir; LEITE, Sérgio (Org.).
(sindicatos, associações de produção, centros de perfil de desenvolvimento rural que tenha Reforma agrária: produção, emprego e renda. O relatório da FAO em debate. Rio
convivência comunitária, clubes de mães, grupos de de Janeiro: Vozes: IBASE/FAO, 1994.
jovens etc.). VEIGA, José Eli da. 0 desenvolvimento agrícola: uma visão histórica. São Paulo:
4. Diversificação da pauta produtiva regional, valorização da Edusp; Hucitec, 1991.
A busca por formas sustentáveis de
força de trabalho, aumento de produção, incremento do mercado
desenvolvimento rural no Brasil implica, consumidor no comércio e rede bancária local e aumento da arrecadação
certamente, a consolidação da agricultura familiar, municipal de impostos seriam algumas possíveis decorrências econômicas
desse processo.
propiciando-lhe condições mais adequadas de 5. Entretanto, não há um sentido determinista da reforma agrá
acesso ao crédito estatal (o que abarca redefinições ria sobre as instancias de poder; apenas potencializam-se possibilidades. Em
minha tese de doutorado pude verificar diferentes implicações no ambiente
nas normativas atualmente vigentes no PRONAF) e regional possibilitadas pela criação de assentamentos: no município de Pon-
de reconfiguração do padrão tecnológico de tão (RS), nas últimas eleições, foi eleito um prefeito que é assentado e dos 7
membros da Câmara de Vereadores 4 são assentados; em contrapartida, na
produção adotado. Cabe ao Estado incentivar uma cidade de Goiás (GO), apesar do expressivo número de assentamentos
pesquisa agropecuária direcionada às criados nos últimos anos, os agncultores assentados nunca conseguiram
eleger um representante. Para maiores detalhes, ver CAUME (2002).
especificidades e realidades da agricultura familiar 6. E inegável que contrariamente à agricultura patronal, que
brasileira, possibilitando a oferta de alternativas adota um padrão tecnológico poupador de força de trabalho, o
fortalecimento da agricultura familiar representaria uma significativa
tecnológicas relativamente neutras do pon- ampliação das possibilidades de ocupação no campo. Estima-se que 77% do
pessoal ocupado em atividades agropecuárias no Brasil o faz em esta-
belecimentos de tipo familiar e, no Nordeste, esse número chega a 83%. Ver
GUANZIROLI (2001).

NOTAS como primazia não aumentos progressivos de


1. Por mais bem intencionadas que sejam, as ações assistenci- produção e produtividade à custa de prejuízos
alistas têm normalmente um caráter esporádico e descontínuo e,
ambientais, mas a elevação da qualidade de vida da
perigosamente, podem levar ao entendimento que substituem as ações
estruturais de distribuição de renda articuladas pelo poder público. maioria da população, propiciando alimentos
2. A produção prioritariamente destinada ao mercado internacional,
nutricionalmente mais saudáveis para todos.
como é o caso da soja, laranja e café, teve exponencial crescimento (a

Considerações
produção per capita de soja, passou de 3,9 kg/hab/ano, em 1960, para 115,7
kg/hab/ano em 1980); em contrapartida, produtos agrícolas consumidos no
mercado interno mostravam decréscimo de oferta (a produção per capita de
arroz diminuiu de 74,8 kg/hab/ano para 70,4 kg/hab/ano e de feijão caiu de
24,5 kg/hab/ano para 18,0 kg/hab/ano). Ver MARTINE e GARCIA (1987). finais
Acredito que a materialização do direito de
3. Dados do Convênio FAO-INCRA indicam que, na região Nor
acesso à alimentação para todos os brasileiros passa
deste, tão-somente 3,8% dos agricultores familiares obtêm níveis de renda
considerados satisfatórios, enquanto 52,2% deles são classificados no tipo D,
não somente pela formatação de ações emergen-
isto é, aqueles que obtêm os níveis de renda mais baixos. Na região Sul, em
ciais de distribuição de alimentos, mas
contrapartida, 49,1% dos agricultores familiares foram classificados nos tipos
A e B (níveis mais altos de renda). Ver GUANZIROLI et al. (2001).
principalmente por mudanças estruturais em nosso
A busca por formas sustentáveis de perfil de desenvolvimento rural, tomando-se como
desenvolvimento rural no Brasil questão estratégica uma política de segurança
alimentar. Procurei apontar como a consolidação da
implica, certamente, na agricultura familiar, tradicionalmente devotada à
consolidação da agricultura produção de alimentos para o mercado interno, e a
realização da reforma agrária podem efetivamente
familiar contribuir não apenas para o combate à fome no
Brasil, mas também para a geração de emprego, 6
to de vista da escala de produção e que não distribuição de renda e democratização da
demandem grandes investimentos de capital. sociedade brasileira.