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CENTRO UNIVERSITÁRIO PADRE ANCHIETA

CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA

Possibilidades do ensino das lutas nas aulas de Educação Física


no ensino fundamental

Luis Simioni
Milene Alves Silva

JUNDIAÍ - SP
2018
LUIS SIMIONI E MILENE ALVES SILVA

Possibilidades do ensino das lutas nas aulas de Educação Física


no ensino fundamental

Projeto de pesquisa apresentado


ao Centro Universitário Padre Anchieta –
Campus Jundiaí-SP como requisito para
elaboração do Trabalho de Conclusão do
Curso de licenciatura em Educação Física.

Orientador: Dr. Vinicius Silva


Orientador: Prof. Ms. Alessandro Tosim.

Jundiaí -SP
2018
1 RESUMO

A luta corporal é uma das manifestações culturais interligadas a


disciplina de Educação Física, caracterizada pela oposição física entre duas ou
mais pessoas, e devido a isso é comumente associada com a violência. Isso
ocorre graças ao pouco conhecimento sobre os valores morais e de conduta
intrinsecamente ligados a essa pratica corporal, e dentro do ambiente escolar,
estas características podem ser ótimas ferramentas pedagógicas desde que o
conteúdo seja abordado de forma correta.
Com a compreensão da forma de lutar, suas principais características e
particularidades, além da diferença entre lutas e artes marciais é possível
entender como essa manifestação se apresenta em relação a aspetos motores
e sociais, assim elaborando métodos didático-pedagógicos mais eficientes. O
uso dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e das três dimensões dos
conteúdos são indispensáveis para que isto ocorra.
As dificuldades alegadas pelos profissionais da área são empecilhos
para a inserção das lutas, mas ao desmistifica-los sua inserção e utilização
pode ocorrer de forma mais abrangente. O mesmo foi realizado por meio de
revisão de literatura de livros, revistas, artigos científicos entre outros. Com o
intuito de ser mais uma ferramenta que possibilitará conhecimento sobre a luta
corporal, auxiliando professores de Educação Física em suas aulas.

Palavras chave: Educação Física; Educação Física escolar; Lutas;


Artes Marciais.
SUMÁRIO

1 RESUMO..........................................................................................3

2 INTRODUÇÃO..................................................................................5

3 JUSTIFICATIVA................................................................................7

4 METODOLOGIA...............................................................................8

5 REVISÃO DE LITERATURA............................................................9

5.1 Contextualizando as lutas................................................................9

5.1.1 Conceitualizando lutas, artes marciais e esportes de combate........................9


5.1.2 Classificando as lutas: distancia, ação motora e fundamentos.......................11
5.1.3 Lutas no âmbito escolar..................................................................................13
5.1.4 As três dimensões: conceituais, procedimentais e atitudinais........................14
5.1.5 Fatores motores, cognitivos e afetivos...........................................................16
6 RESULTADOS E DISCUSSÕES...................................................18

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................24

8 REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS...............................................25
5

2 INTRODUÇÃO

A Educação Física possui várias áreas de atuação, tanto dentro quanto fora
da escola, estando vinculada aos aspectos físicos e na construção de valores
imprescindíveis para as relações humanas. As lutas são um dos conteúdos desta
disciplina e possuem ambas estas características de forma inerente na sua história.
Visando o desenvolvimento dos alunos, ela deve ser introduzida de maneira correta
fazendo uso de metodologias que contemplem o objetivo proposto na aula.
(RUFINO; DARIDO, 2013)
Segundo Bracht (2005) a disciplina de Educação Física deve apresentar aos
alunos, de forma prática e teórica, as manifestações da cultura corporal, sendo elas
a ginástica, jogos e brincadeiras, esportes, danças e lutas, garantindo variedade
cultural e motora entrelaçada aos objetivos da escola que, em linhas gerais, é
fornecer conhecimento aos alunos sobre os direitos e deveres enquanto cidadão.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais são um dos referenciais utilizados
para a aplicação dos conteúdos nas escolas e é, também, o pilar da relação entre a
formação cidadã, as lutas corporais e a função da Educação Física dentro do
ambiente escolar. A compreensão desta relação é imprescindível para inserção do
conteúdo das lutas que, por sua vez, está previsto a ser ministrado nos PCNs.
(BRASIL, 1998)
Na atualidade são necessários elementos teóricos e práticos para ocorrer
uma transposição didática, ou seja, uma forma de facilitar a aplicação e a absorção
do conteúdo. E no que se refere às lutas se faz necessário um olhar mais
responsável, uma vez que elas compõem o patrimônio cultural e de desenvolvimento
em inúmeras civilizações e devem ser exploradas como tal. (CORREIA, 2009).
Apesar disso muitos professores não utilizam de todas as práticas corporais
durante suas aulas, limitando assim a diversidade dos conteúdos e o papel da
disciplina; as lutas sofrem desse mal e são aplicadas timidamente, quase não
aparecendo no cenário escolar. A associação com a violência, limitação de espaço e
material adequado, são alguns fatores que inibem a disseminação desta pratica.
(CARREIRO, 2005)
As dimensões dos conteúdos, ou seja, planejamentos que norteiam a aula é
uma forma de ampliar os conhecimentos sobre as lutas, sem se limitar apenas aos
6

procedimentos e um simples “fazer”, mas permitir que as práticas exerçam também


as dimensões conceituais e atitudinais (RUFINO; DARIDO, 2013). Possuindo
conhecimentos básicos e entendimento na elaboração das dimensões o professor
oferecerá um amplo repertorio motor e valores de cidadania sem o intuito de formar
lutadores, sendo esta a principal intenção (BRASIL, 1998).
Desta forma alguns questionamentos sobre o conteúdo “lutas” podem ser
obtidas de modo a destacar esta pratica corporal explanando sua real importância
dentro da escola:
● As lutas estão sendo utilizadas dentro do ambiente escolar como ferramenta
pedagógica?
● Ela pode influenciar na formação de valores e na formação social dos alunos?
● Quais as dificuldades que os professores sofrem durante o ensino das lutas
no ambiente escolar?
Uma vez que este conteúdo leva a fascínio inúmeras faixas etárias, por
estarem presente em diversas formas de entretenimento como desenhos animados,
videogames, filmes e outros, as lutas se tornam uma ótima ferramenta pedagógica
graças a esta familiaridade. Sua inserção de forma lúdica aproxima ainda mais os
alunos deste conteúdo e uma discussão sobre as lutas em âmbito escolar
demonstra-se pertinente. (FERREIRA, 2006)
Objetivos
Assim, o seguinte trabalho tem por objetivos:
Geral: discutir as possibilidades metodológicas que auxiliem na inserção
das lutas no ambiente escolar, em especifico para o ensino fundamental I e II.
Especifico: contextualizar as lutas historicamente; categorizá-las segundo
sua distância; forma e tipo, demonstrando seus benefícios no ambiente escolar.
7

3 JUSTIFICATIVA

O tema é proposto devido à baixa ou nula utilização das lutas no âmbito


escolar, fazendo com que o aprimoramento motor e social que esse conteúdo tem a
oferecer seja completamente desperdiçado.
O preconceito para com as lutas, a má formação dos professores, a
infraestrutura inadequada e outras dificuldades alegadas foram investigadas em
inúmeros artigos vinculados a esta temática.
Consequentemente a relevância social das informações aqui apresentadas
se vale devido à contribuição sobre uma temática pouco explorada em ambiente
escolar. O conteúdo “luta” pode ser melhor compreendido e utilizado pelos
professores que conhecerem os inúmeros benefícios nela presente, bem como as
metodologias para seu emprego, apresentando variedade cultural nas aulas.
8

4 METODOLOGIA

O presente estudo apresenta uma revisão de literatura sobre trabalhos


científicos que discutiram sobre lutas, artes marciais e metodologias pedagógicas. A
pesquisa foi realizada com base em livros, artigos e dissertações que estabelecem
uma relação entre o tema proposto e forma de inseri-lo dentro do ambiente escolar. 
Utilizou-se como estratégia de pesquisas somente a literatura nacional,
feitas na base de dados eletrônicos – Scielo, e Google Acadêmico, utilizando os
seguintes descritores: Lutas, Artes Marciais, Metodologias, Pedagogia e Escola. 
Após a leitura dos trabalhos, foi utilizado como critério de seleção somente
textos voltados ao tema, com foco em metodologias de ensino na escola e sua
relação com as lutas, sendo dentre os escolhidos: duas dissertações de mestrado,
32 artigos acadêmicos, e um livro para compreensão pedagogia das lutas. 
 Com o intuito de contribuir ainda mais para a discussão, os Parâmetros
Curriculares Nacionais foram utilizados para estabelecer relação entre o ensino das
lutas e o conceito de cidadania, sendo o conhecimento sobre este conceito um dos
objetivos principais da escola. 
No final da pesquisa, foi utilizado todo o material escolhido e realizado a
leitura do mesmo e serviram de base para a construção desse trabalho
considerando o que era mais importante em função do objetivo inicial da discussão,
ou seja, discutir as possibilidades metodológicas para a inserção das lutas no
ambiente escolar. 
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5 REVISÃO DE LITERATURA

5.1 Contextualizando as lutas

Como ponto de partida é necessário compreendermos os diversos


significados que o termo “luta” pode vir a possuir, além de um entendimento acerca
das “artes marciais” que são comumente ligadas ao oriente com um caráter
tradicionalista durante a pratica. (RUFINO, 2012a)
Entendendo as diferenças e semelhanças entre estas práticas é possível
obter um direcionamento na abordagem deste conteúdo, tendo em vista a ampla
contextualização que pode ser feita no decorrer das aulas.
Então podemos destacar que a origem das lutas é inerente às atividades
humanas pelo simples fator de sobrevivência, a primeira forma de “luta” é incerta
devido a isso, mas podemos obter a característica principal do ato de lutar, sendo
ela a “oposição física” entre dois indivíduos. (VIRGÍLIO,1994 apud RUFINO;
DARIDO,2011)
Mesmo detendo este aspecto central de enfrentamento físico, as lutas
possuem uma grande bagagem cultural se manifestando em diferentes civilizações
e, sem perder sua essência, passa por inúmeras transformações ao longo dos
séculos graças a capacidade humana de atribuir significados e valores a ela.
(RUFINO; DARIDO, 2013)
A Luta já foi reconhecida como rito, prática religiosa, preparação para a
guerra, jogo, exercício físico, entre outros diversos significados e desse modo às
lutas, na realidade, expressam os costumes e tradições que definem a história do
povo em questão, fosse ele ocidental ou oriental. (ESPARTERO, 1999 apud
GOMES, 2008)

5.1.1 Conceitualizando lutas, artes marciais e esportes de combate

Sobre o conceito de luta especificamente voltada a pratica física, Pucineli


(2004) enfatiza a expressão “luta corporal” destacando as características presentes
na pratica de uma modalidade de luta, sendo elas a relação de oposição entre duas
ou mais pessoas e o objetivo de dominar o oponente que é um alvo móvel.
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Gomes (2008) acrescenta nesta mesma linha de pensamento afirmando


que se trata de uma pratica imprevisível que possibilita um enfrentamento com
trocas constantes de ações de ataque e defesa, com regras e princípios condicionais
que caracterizam a pratica de uma modalidade de luta, diferenciando-a do ato de
“brigar”.
Estas particularidades da luta corporal a diferem da violência física, pois uma
troca de socos e ponta pés com a única intenção de ferir alguém é apenas uma
violência. Já a luta corporal e as artes marciais envolvem muitos valores éticos e de
respeito vinculados a pratica, e independentemente da modalidade de luta que se
pratique os valores estão presentes e são indispensáveis para caracteriza-la, pois
delimitam e diferenciam esse conhecimento dos demais. (GOMES et al. 2010)
Desta forma, para Ferreira (2006) há uma vasta diversidade de
conhecimentos sobre a luta, não somente modalidades tradicionais como o Judô,
Caratê e Kung Fu, existindo também a pratica da luta informal que é desvinculada
das tradições, mas ainda capaz de transmitir os mesmos valores morais. Ou seja,
diferente das lutas corporais, as artes marciais estão carregadas de valores e regras
de conduta que também carregam as tradições e costumes do seu local de origem
de forma inerente um ao outro.
Para uma maior clareza o conceito de artes marciais é explicado por
Rodrigues (2009, p.649) que, enfatiza as questões morais e de doutrina
intrinsecamente ligadas a estas práticas:

Artes Marciais, reforçando a ideia de que são práticas vinculadas a


determinados valores morais que produzem uma conduta específica,
um estilo de vida que “envolve” o sujeito em outras dimensões de
sua existência dentro e fora da área de luta. (RODRIGUES, 2009,
p.649)

Assim a origem do termo arte marcial é uma junção das palavras “Arte” que
significa “técnica refinada”, e da palavra “Marcial” que referencia Marte o Deus da
Guerra romano, assim sendo, uma Arte Marcial também pode ser compreendida
como uma “técnica guerreira” ou “arte da guerra”, pois se trata de técnicas e
estratégias para vencer. (GASTALDO, 1995a apud TURELLI, 2008)
Os fatores tecnicistas e tradicionalistas caracterizam as artes marciais como
uma pratica difícil que requer um árduo treinamento para sua execução, possuindo,
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independentemente do seu local de origem, um conjunto de ações que compreende


técnicas de luta e atitudes específicas. Portanto ela tem o objetivo de ser o caminho
do guerreiro, e a mais elevada tarefa é vencer a si mesmo. (TURELLI, 2008)
Por isso, trata-se de uma pratica que aborda tanto o aspecto físico quanto o
moral, não se limitando apenas ao exercício físico e emerge também como uma
doutrina de vida. (RODRIGUES, 2009)
Por outro lado, existem as modalidades esportivas de combate advindas
fruto da modernidade e o fenômeno “esporte” que é muito presente na bagagem
cultural de diversos povos, sendo assim ocorre a transformação de uma “luta” para
um “esporte”. (GONZÁLES; FENSTERSEIFER, 2005)
A comparação de desempenho entre adversários, as regras estabelecidas
que padronizam a modalidade, uma pratica voltada para competições que visam o
rendimento, geram uma “esportivização” que desvincula a luta da sua origem
(GONZÁLES; FENSTERSEIFER, 2005)
Logo, as modalidades esportivas de combate são modalidades que sofreram
modificações para se enquadrarem em um nicho popular, no caso os esportes,
fazendo com que se percam características sociais e culturais buscando,
simplesmente, a característica de “esporte” por uma federação esportiva. (GOMES,
2008)
Então a confusão feita por qual terminologia usar perante o conteúdo “lutas”
pode ser um obstáculo devido à baixa compreensão sobre as diferenças entre as
lutas, as artes marciais e as modalidades esportivas de combate. Entretanto, como
afirmam Rufino e Darido (2009), a terminologia em si não é importante, e sim a
inserção desse conteúdo com uma contextualização e explicação destas diferenças,
propagando este conhecimento a fim de sanar essa “confusão” e demais obstáculos
que impedem o bom uso desta manifestação cultural.

5.1.2 Classificando as lutas: distancia, ação motora e fundamentos

Com um aprofundamento sobre os aspectos motores e a forma de execução


encontrados nas lutas, é possível organizar e compreender uma modalidade em
especifico, facilitando na elaboração das aulas de luta corporal. (ESPARTERO,
1999, apud GOMES, 2008)
12

Segundo Gomes (2008) e Paes (2010) as lutas podem ser classificadas


usando a distância como base fazendo com que a ação motora presente no
combate fique evidente, isto graças à posição em que o praticante se encontra em
relação ao oponente. Existem três divisões da forma de lutar: as lutas de curta,
média e longa distância.
As lutas de curta distância usam o “agarrar” como ação motora e consistem
em roubar o centro de equilíbrio do adversário e derruba-lo, sendo exemplos o Judô
e o Jiu-jitsu que possuem duas fases; a primeira de projeção e a segunda é uma
continuação no solo. (GOMES, 2008)
As lutas de média distância são aquelas que têm como característica
principal tocar e percutir golpes como socos e chutes, esta é a ação motora de
golpear e impactar o oponente, e são exemplos dessa forma de lutar o Tae-kwon-do,
o Boxe e o Muai Thay. (GOMES et al. 2010)
Já as lutas de longa distância utilizam da manipulação de implementos para
exercer a ação motora que é igual a das lutas de média distância, mas se diferem na
noção espacial necessária para executar o movimento graças a esse implemento,
sendo exemplos as espadas e os floretes utilizados no Kendo e na Esgrima
respectivamente. (PAES, 2010)
Já Oliveira (2009) classifica as características que podem ser observadas
em diversos estilos de luta, denominando-as e as dividindo em fundamentos que
são: traumatizantes, fintas, bloqueios, esquivas, desequilíbrio, projeções,
imobilizações e acrobacias.
Os fundamentos traumatizantes são socos, chutes e joelhadas, mas que
podem ser combinados ao fundamento finta com a intenção de ludibriar o adversário
(fingir um golpe). O bloqueio consiste em defesas utilizando qualquer segmento
corporal (braços, pernas e mãos), já a esquiva consiste em uma mudança de
direção evitando um golpe direto. (RAMIRES; DOPICO e IGLESIAS, 2000)
O desequilíbrio visa à perda de apoio dos membros do adversário e, pode
ser seguida por uma projeção que consiste em roubar o centro de equilíbrio levando-
o a queda. Com a luta no solo deve-se utilizar de técnicas de imobilização e
estrangulamento reduzindo ou anulando a mobilidade do adversário. (GOMES et al.
2010)
13

Por fim as acrobacias são movimentos plásticos e, com fase aérea ou não,
elas podem ser executadas como movimento tanto ofensivo quanto defensivo; ou
até mesmo como movimentos de esquiva. (OLIVEIRA, 2009)

5.1.3 Lutas no âmbito escolar

Os Parâmetros Curriculares nacionais (PCN) é um documento oficial com


referenciais e orientações pedagógicas para os profissionais docentes da educação
escolar, seu objetivo principal é ser um norteador pedagógico. As aulas não devem
ser apenas um “aprender a fazer”, e sim um “aprender fazendo” pautando-se em um
planejamento que trabalhe o “porquê do fazer”. (BRASIL, 1998)
No que se refere ao ensino das lutas, os aspetos históricos e sociais devem
ser trabalhados juntamente com a compreensão do ato de lutar, sendo importante
que se saiba o porquê da luta, como ela ocorre, seu surgimento e assegurando sua
relação com a cidadania utilizando dos PCNs. (BRASIL, 1998)
A função da escola é garantir que o aluno se aproprie dos conhecimentos
produzidos pela humanidade, obtendo meios de intervir na sociedade; a luta corporal
possui uma grande bagagem cultural e histórica, e deve ser mais uma das
ferramentas para isto. (RESENDE; SOARES, 1997, apud ALENCAR et.al 2015)
Um estudo feito por Lopes e Tavares (2008) conclui que os conteúdos
voltados as lutas corporais fora do ambiente escolar, são ensinadas como verdades
absolutas com um viés estritamente tecnicista, não provendo reflexões sobre a
pratica em si, apenas visando a execução de gestos mecânicos, sendo um
treinamento puro e simples.
Estes aspectos não condizem com o desejável dentro do ambiente escolar,
em especial a hierarquização exacerbada entre professor e aluno, em que o
discípulo é extremamente passivo e não questiona os ensinamentos, devendo
adequar-se à doutrina do mestre e aos aspectos da modalidade, nunca o contrário.
(LOPES; TAVARES, 2008)
Desta maneira, fica evidente a importância de um ensino de qualidade que
vise à formação de cidadãos autônomos e de um sistema educacional com uma
prática educativa adequada às necessidades sociais, políticas, econômicas e
culturais da realidade brasileira, em especial a realidade em que o aluno se
encontra. (BRASIL, 1998)
14

Portanto os PCNs são norteadores teórico-práticos das manifestações da


cultura corporal de movimento, incumbidas de assegurar a identidade desta
disciplina com práticas que possuam um objetivo especifico. (AZEVEDO;
SHIGUNOV, 2001). Com esses nortes é possível destacar qual o objetivo de estudo,
qual a forma de se avaliar e como organizar os conteúdos dentro da disciplina de
Educação Física. (SOUZA JÚNIOR, 1999 apud AZEVEDO; SHIGUNOV, 2001)

5.1.4 As três dimensões: conceituais, procedimentais e atitudinais

Dentro da escola é necessária à união de aspectos que conduzem as


manifestações da cultura corporal dentro da disciplina de Educação Física, desta
forma, os PCNs apresentam dimensões conceituais, procedimentais e atitudinais
que provem um alicerce metodológico para os professores, assim podemos defini-
las como planejamentos para direcionar as aulas. (BRASIL, 1998). Segundo Coll e
colaboradores (2000) estas dimensões seriam respectivamente: O que se deve
saber? O que se deve fazer? E como deveria ocorrer?
O plano conceitual consiste na obtenção de conhecimento do conteúdo
abordado, ou seja, o porquê da realização deste ou daquele movimento, bem como
os aspectos interligados a pratica, a origem, as mudanças e características
principais do tema apresentado. (RUFINO; DARIDO, 2013)
O plano procedimental é o emprego de técnicas e fundamentos que estarão
presentes durante a aula, podendo (de preferência) ser executados de forma lúdica
e, são na realidade as atividades a serem desenvolvidas durante a aula.
(MALDONADO; BOCCHINI, 2013b)
O plano atitudinal são os valores agregados com as práticas com o intuito de
gerar reflexões entre os alunos durante e depois das atividades, sendo que em
determinados momentos podem ocorrer conflitos e embates de ideias mediados pelo
professor, gerando discussões sobre valores morais e condutas. (BRASIL, 1998)
Rufino e Darido (2013) dizem que mesmo com a divisão em três dimensões,
elas devem estar atreladas uma a outra, de modo a não fragmentar o conteúdo e
facilitando a aprendizagem.
Desta maneira pode-se destacar a proximidade entre os planos conceituais
e procedimentais, pois o objetivo principal da cultura corporal de movimento é um
“fazer” atrelado aos processos de aprendizagem de modo que, por meio do corpo,
15

seja adquirido conhecimento sobre suas capacidades físicas e sociais. (BRASIL,


1998)
Por sua vez, os planos atitudinais são meios que apontam a necessidade de
vivencia do aluno, e é muito importante para atingir o objetivo principal da aula,
constituindo-se em referencias para o diálogo entre a aprendizagem e o ensino,
baseando-se nos valores apresentados pelos alunos antes e depois das aulas.
(BRASIL, 1998)
Assim ofertar as manifestações da cultura corporal junto a estas dimensões
significa que:

O interesse pedagógico não está centrado no domínio técnico dos


conteúdos, mas no seu domínio conceitual, na perspectiva de um
saber sistematizado que supere o senso comum, inserido num
espaço humano de convivência, em que possam ser vivificados
aqueles valores humanos que aumentem o grau de confiança e de
respeito entre os integrantes do grupo. (SBÓRQUIA; GALLARDO,
2006, p. 1).

As lutas corporais são um excelente meio pedagógico para garantir valores


aos alunos, sendo condizente com as propostas educacionais desde que inserida e
trabalhada de maneira adequada. O uso das dimensões e o fator de maior interesse
para os alunos, a ludicidade, devem ser explorados para garantir tal feito. (RUFINO;
DARIDO, 2013)
O caráter lúdico se faz muito importante em todas as atividades, criando
interesse de forma prazerosa ao mesmo tempo em que desenvolve fatores físicos e
cognitivos por intermédio de vivencias diversificadas. Assim é possível unir tudo o
que as lutas têm a oferecer enquanto ferramenta pedagógica, concebendo, também,
alunos capazes de conhecer, transformar e resinificar de forma crítica os conteúdos
trabalhados. (RUFINO; DARIDO, 2011)
Ludicamente, com competição ou não, as atividades são favoráveis ao
aprendizado, porque permitem uma ampliação dos movimentos que, podem ser
executados de forma agradável ao praticante e não apenas buscando um objetivo
especifico como ponto ou gol; isso faz com que a pratica se torne mais imprevisível
e com movimentos variados; resultando em um aluno capaz de se adaptar a
diferentes situações e problemas apresentados a ele. (BRASIL, 1998)
16

Principalmente na Educação Infantil, tais fatores são determinantes para o


sucesso da aplicação deste conteúdo; lutas imaginando animais como sapinhos e
jacarés, são a porta de entrada para a aplicação das lutas deixando as crianças
mais familiarizadas, além de servirem como liberação da agressividade ao mesmo
tempo em que trabalham as capacidades físicas. (FERREIRA, 2006)
No Ensino Fundamental, brincadeiras como “empurra e puxa” ou “uga-uga”
requerem um esforço maior e necessitam de respostas cognitivas mais elaboradas.
Já no Ensino Médio exige-se uma profundidade, graças ao desenvolvimento físico e
cognitivo dos alunos; o conteúdo deve então, possuindo norteadores, abordar o
tema com um resgate histórico sobre as modalidades de luta e relaciona-las com a
ética e os valores morais de forma mais ferrenha. (FERREIRA,2006)
Assim sendo, a ludicidade é um meio extremamente efetivo para utilizar na
aplicação das lutas, brincar de lutar desenvolve o contato humano (social) e os
aspectos físicos e cognitivos (motores) de forma intrínseca a atividade, podendo ser
utilizada com qualquer faixa etária; prover ambos estes desenvolvimentos é um dos
objetivos da escola junto à disciplina de Educação Física. (FERREIRA, 2006)

5.1.5 Fatores motores, cognitivos e afetivos

O que foi mencionado acima também consta nos PCNs e indicam que o
ensino das lutas deve ocorrer com diversidade de vivencias em situações que
envolvam o perceber e o relacionar-se com os outros, além de prover o
desenvolvimento de capacidades físicas e habilidades motoras. (BRASIL, 1998)
Possuindo o movimento como base Gomes (2008) corrobora com os PCNs
mesmo que de forma indireta no que se refere aos aspectos motores presentes
durante o ensino das lutas; ambos afirmam sobre a variedade motora presente e sua
importância na obtenção de capacidades físicas e cognitivas. Tal variação
presenteia os alunos com saberes que os ajudaram na realização de tarefas dentro
e fora da escola, transportando o aprendizado a outras situações.
Porém, quando se trata dos objetivos da escola, sempre os fatores morais e
de condutas são enaltecidos em detrimento de qualidades físicas, pois o foco é em
formar cidadãos e não atletas; porém no desenvolvimento dos alunos durante a
aplicação das práticas, é fácil constatar uma melhora física e motora que é inerente
durante o ensino. (FERREIRA, 2006)
17

Mas quais seriam as melhoras motoras obtidas com a aplicação deste


conteúdo? Isso fica fácil de responder se levarmos em conta os movimentos
fundamentais que são trabalhados nas lutas, sendo eles o correr, saltar, andar,
lançar que, na verdade são movimentos feitos em circunstancias diversas; a
princípio às lutas parecem apenas uma troca de golpes e agarrões, mas necessitam
de grande controle corporal resultando em melhorias devido a diversidade. (ALESSI;
BOEIRA, 2017)
Consequentemente existem inúmeros benefícios da luta corporal não se
limitando apenas ao físico ou ao social de forma a obtê-los separadamente durante
a pratica, mas é possível dividi-los em três grupos para entendermos suas relações
e particularidades, estes grupos de benefícios são o desenvolvimento motor,
cognitivo e afetivo-social. (FERREIRA, 2006)
Restritamente no aspecto motor, temos melhorias no desenvolvimento da
lateralidade, no controle dos tônus musculares, melhora no equilíbrio e da
coordenação global, no aprimoramento da ideia de tempo, espaço e noção corporal
(propriocepção). (FERREIRA, 2006)
Junto a isso a parte cognitiva é trabalhada devido à elaboração de
estratégias e tomadas de decisão com imprevisibilidade durante a luta, além da
vasta variedade de movimentos possíveis que proporciona um aprimoramento da
memória e da concentração do aluno. (ALESSI; BOEIRA, 2017)
Por fim no afetivo-social observam-se benefícios como a reação a
determinadas atitudes e condutas, a postura social, a socialização, a perseverança,
o respeito e a determinação. Valendo ressaltar que estes benefícios mencionados se
referem a relações sociais, e promovem um entendimento da sociedade através da
pratica corporal. (FERREIRA, 2006)
Logo, a luta contribui para o desenvolvimento pleno do cidadão por sua
natureza histórica, apresentando um grande acervo cultural com o resgate da função
da Educação Física escolar, indo da promoção de saúde até a expressão corporal
plena das manifestações culturais. (CONFEF, 2002)
18

6 RESULTADOS E DISCUSSÕES

O estudo realizado destacou os aspectos que envolvem a Educação Física e


um de seus conteúdos, as lutas, ressaltando seus benefícios e métodos de inserção
dentro da escola. Entretanto foram encontradas razões que prejudicam seu uso
enquanto ferramenta pedagógica e elas serão agora explicitadas, uma vez que
mesmo promissora, as lutas são pouco presentes nas aulas de Educação Física e
aparentam não fazer parte do currículo dessa disciplina.
Carreiro (2005) revela como as lutas não estão sendo ensinadas de forma
abrangente na escola ao destacar os motivos que levam a isso, e em grande parte
são alegações feitas pelos próprios professores que fomentam uma dificuldade de
usar as lutas devido as seguintes condições: Infraestrutura e vestimentas
inadequadas, a falta de espaço e material, associação com a violência, e a falta de
conhecimento dos professores sobre como abordar esse conteúdo.
Rufino e Darido (2015) afirmam que muitas vezes os docentes se deparam,
principalmente, com a questão do espaço e falta de material, acabando por optar por
outra manifestação cultural em suas aulas. Em resumo, é esquecida a real intenção
ao promover o ensino de um pratica corporal; ela deve ser a de prover diversidade
motora e cultural aos alunos sem se importar com a semelhança ou formalidade, e
sim propiciar um ambiente de aprendizagem.
A utilização da quadra poliesportiva presente nas escolas pode ser
considerada uma adaptação, uma vez que o local “supostamente” adequado para a
pratica da luta seria em um tatame ou um dojô. Os materiais podem sofrer o mesmo
processo, por exemplo, durante o ensino de uma modalidade de luta de longa
distância, o uso de jornais para simular uma espada pode ser empregado,
adaptando e garantindo segurança ao aluno.
Muitos profissionais não possuem essa visão, e não buscam novas
possibilidades de ensino fora de um tatame, ou sem os materiais tradicionais
presentes nas modalidades de luta, limitando a si mesmos na hora de trabalhar de
forma diversificada, prendendo-se e acomodando-se. (GOMES, 2008)
Conforme Nascimento e Almeida (2007) é obvio que o fator segurança deve
estar presente nas aulas, permitindo uma vivencia nas modalidades de luta de forma
lúdica por meio de simples adaptações nos espaços e materiais disponíveis. Mas
19

outra questão apontada por estes autores é a desvinculação desta pratica enquanto
conteúdo da Educação Física:

Se o fenômeno lutas aparece na escola, isso acontece pelas


aberturas preconizadas por essa instituição para terceiros realizarem,
em seu espaço, oficinas, voluntárias ou não, desvinculadas da
disciplina de Educação Física e do projeto político-pedagógico da
Escola. (NASCIMENTO; ALMEIDA, 2007, pg. 93)

Rufino e Darido (2011) reiteram a afirmação acima ao dizer que algumas


instituições, simplesmente ofertam modalidades de luta como judô e karatê como
atividade extracurricular fora da disciplina de Educação Física com ex-praticantes
como docentes. Gomes (2008) afirma que pela vivencia mais aprofundada e
especializada dos “mestres” eles acabam por ganhar credibilidade mesmo sem
formação em Educação Física e “ministram” a luta corporal enfraquecendo a ligação
dela enquanto conteúdo da disciplina.
Tal fato, além de limitar e fragmentar o conteúdo, segundo Ferreira (2006),
coaduna para uma exposição sobre a falta de conhecimento que os docentes
possuem acerca das variedades e possibilidades da luta corporal; ao reconhecer
somente modalidades como Karatê, Judô e Capoeira, o resultado é uma perda
motora e cultural para os discentes.
Pode-se comprovar a afirmação acima com os estudos realizados por Darido
em 2005, que aponta a falta de diversidade entre as modalidades de luta corporal, e
sua pesquisa em 2013 junto a Rufino que apresentou o mesmo cenário, constatando
que existe uma restrição no ensino levando a pratica de um único estilo de luta, e
sua aplicação é exercida por praticantes sem formação acadêmica e fora da escola.
Levando em conta a formação no meio acadêmico, as universidades utilizam
apenas um semestre para se trabalhar o conteúdo das lutas, isto quando ela está
presente na grade curricular. Mesmo que as demais manifestações culturais
possuam o mesmo período de tempo para serem ministradas, as lutas são diversas
e ramificadas precisando de uma compressão na sua totalidade.
Dessa maneira a ausência de divulgação de informação cientifica sobre o
ensino das lutas, demonstra-se, de certa forma, um dos maiores entraves para a
ampliação desta manifestação cultural, de maneira que a falta de pesquisa
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acadêmica acarrete em uma escassez ou mal-uso da luta corporal. (CORREIA;


FRANCHINI, 2010).
A troca de informações e uma busca por diversidade na aplicação
metodológica são importantíssimos meios de inserir a luta corporal na escola, pois
com professores mais qualificados, capazes de contextualizar e aperfeiçoar o ensino
deste conteúdo, garantir o interesse dos alunos se torna a parte mais fácil de ser
exercida. (ALENCAR et al. 2015)
Ferreira (2006) lamenta o fato deste conteúdo não ser aproveitado pelos
profissionais de Educação Física, fazendo com que os benefícios e as dificuldades
no ensino necessitem de ênfase, não bastando apenas uma discussão sobre o que
são as lutas e como utiliza-las, mas, também, fazer uma análise de como inseri-la na
escola.
Os conhecimentos pedagógicos são imprescindíveis, mas, segundo Gomes
(2008), existem inúmeros casos em que os docentes não conseguem colocar em
pratica o que é abordado nos PCNs, ao supor que é indispensável um conhecimento
aprofundado em uma modalidade de luta; ou que é impossível exercer tal pratica
fora de um tatame.
Isto se prova um equívoco, o conhecimento, a priori, deve ser diversificado
por parte dos professores, não sendo necessário que se detenha o conhecimento
total sobre técnicas especificas em detrimento de atos simples e lúdicos de “lutar”.
Um simples cabo-de-guerra ou um braço-de-ferro já fazem parte deste conteúdo,
não sendo necessário maiores esforços na aplicação lúdica das mesmas.
(FERREIRA, 2006)
Então, em resumo, sobre a inserção das lutas na escola, Darido (2005,
pag.246) sugere algumas opções para contornar estas situações, de forma a utilizar
o potencial das lutas. Sendo elas a busca por locais apropriados, criar novas
possibilidades de deslocamentos, trabalhar equilíbrio e desequilíbrio, além de formas
simples de Kata (apresentação de golpes sem contato), gerando interesse por parte
dos alunos, sendo esta, de fato, a principal intenção.
Diante desses fatos relatados até o momento sobre a não utilização das
lutas, o “grande vilão” aparentemente é a associação com a violência, o que acaba
sendo crucial para a escolha de outras manifestações corporais nas aulas de
Educação Física.
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Barros e Gabriel (2011) ressaltam a visão deturpada que muitos


profissionais da área têm a respeito das lutas, relacionando-as com agressividade e
violência; os professores acreditam que posteriormente os alunos terão
comportamentos semelhantes. Mas tal ligação é uma falácia segundo Ferreira
(2006) tendo em vista que atitudes de agressão são contrárias ao que representa a
Educação Física e a própria filosofia das lutas.
Diversos autores reafirmam a associação feita entre lutas e violência, o que
reafirma a pouca compreensão sobre essa temática que, por sua vez, é capaz de ir
contra a violência pelo fato de fornecer aos praticantes uma noção corporal e de
respeito com o próximo.
Carreiro (2008), Nascimento e Almeida (2007), Araújo e Rocha (2007) são
alguns dos autores que providenciam informações sobre a violência que
“supostamente” está ligada a luta corporal.
Porem esse cenário já vem mudando nos últimos anos, tendo em vista que
em 2015 Rufino e Darido fizeram uma pesquisa de campo na qual o fator “violência”
não foi o maior empecilho; uma formação deficiente e a insegurança do professor na
escola são o que culminam em entraves para o conteúdo.
Alencar et.al (2005) salienta que a violência está presente na sociedade
como um todo, e independentemente do conteúdo abordado, o importante é a
condução do mesmo. A fundamentação teórico-metodológica e o trato didático-
pedagógico são essenciais; os valores morais e de ética interligados nas artes
marciais, devem ser, pertinentemente, aproveitados e contextualizados.
Então a luta corporal deve ser abordada de forma crítica e reflexiva, pois as
crianças se entretêm com desenhos e filmes que contém “lutas”, e precisam
discernir o que é realidade do que é fantasioso sobre esta pratica corporal.
(RUFINO; DARIDO, 2015)
Interligada com a mídia, a luta corporal torna-se um meio possível de
destacar a violência e como ela realmente se manifesta na sociedade, sendo
também um modo de ensinar a arte da defesa pessoal. Isto desde que
contextualizada de forma correta visando o respeito ao próximo, e não para “arrumar
briga”. (BRASIL, 1998)
Portanto as lutas já estão ligadas ao universo infantil podendo ser trabalhada
desde o início da educação e desde cedo diferenciando a luta das brigas, e é
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irrefutável a necessidade de atribuir valores e significados para distinguir as lutas de


atitudes pautadas apenas em atos de violência. (RUFINO; DARIDO, 2011)
Todas as dificuldades alegadas podem ser contornadas facilmente segundo
Darido (2005, pag. 245) desde que o professor compreenda a funcionalidade e a
real intenção do ensino das lutas em ambiente escolar; na escola serão formados
cidadãos e não lutadores.
Essa afirmação de Darido é igualmente apresentada nos PCNs, explicitando
que a apropriação do conceito de cidadania deve ser assegurada no ensino
fundamental, preparando os alunos para o mundo social pós-escola. Em suma,
cidadania é a compreensão dos direitos e deveres que um indivíduo tem em relação
à sociedade.
Então as dimensões conceituais, procedimentais e atitudinais fazem o papel
de proporcionar um ambiente para obtenção de cultura por parte dos alunos por
meio de reflexões e críticas. Todavia, quando se trata de uma manifestação cultural,
cabe ao professor compreender o melhor método de iniciar o ensino e o processo
gradual de evolução dos discentes, se baseando em qual manifestação cultural ele
vai utilizar. (RUFINO; DARIDO, 2012)
No que se refere às lutas, os princípios condicionais juntamente com as
dimensões, são o início da compreensão para abordar o conteúdo. Uma vez que os
“princípios” são o que serve de base para a execução enquanto que “condicionais”
são as condições que estão presentes durante uma luta, isto deixa claro quais são
as características presentes nesta pratica; e após compreendidos o uso das
dimensões acaba por ser facilitada. (GOMES et al., 2010)
Por exemplo, um dos princípios condicionais das lutas é a oposição entre
duas ou mais pessoas, porém o objetivo nem sempre é o mesmo, pode ser golpear
ou agarrar o oponente, assim as atividades e métodos de ensino variam. Mas
sempre se visa o respeito e a necessidade de vencer a si mesmo e não ao
adversário, tal característica advém da forte ligação entre lutas e artes marciais e,
por meio delas todas as dimensões podem ser trabalhas.
Segundo Darido (2001) dessa forma teríamos o seguinte exemplo no
entendimento da relação entre as lutas com os planos dimensionais:
Plano conceitual: definir o que é uma luta corporal e as inúmeras formas que
elas se manifestam juntamente com os conhecimentos prévios dos alunos.
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Plano procedimental: são as atividades em si que, devem estar envoltas com


ludicidade a fim de prender a atenção e o interesse dos alunos. Um exemplo de
atividade seria a brincadeira do “prendedor” que consiste em roubar o prendedor do
colega, sendo uma atividade lúdica, imprevisível, com oposição ataque/defesa
(princípios condicionais) e que trabalha os aspectos motores.
Plano atitudinal: com conhecimentos sobre os objetivos da luta já
supracitados, espera-se e orienta-se aos alunos um comportamento que siga os
valores morais presentes nas lutas, fazendo também uma comparação com a
violência, norteando os alunos na diferenciação entre luta e briga. Ou seja, ética,
respeito e alteridade são alguns dos valores que estão intrinsecamente ligadas às
lutas e, isso deve ser passado aos alunos durante o ensino desta pratica. (RUFINO;
DARIDO, 2013)
Logo, conciliando o ensino das lutas com os planos dimensionais, pode-se
trabalhar com tudo que está disciplina têm a oferecer, seus aspectos políticos,
econômicos, sociais, históricos, estéticos, fisiológicos são elementos que
complementarão na construção crítica de valores, atitudes e fatos que ampliam a
visão de mundo. Uma vez que os planos estão interligados e se completam, sendo a
luta um meio para alcançar tais objetivos. (GOMES et al., 2013)
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7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento do presente estudo possibilitou uma compreensão sobre


um tema pouco abordado no meio acadêmico, a luta corporal, que é um dos
conteúdos da Educação Física pouco utilizado na escola. Constatou-se que a falta
de propagação de informações sobre como esse conteúdo deve ser abordado é,
indubitavelmente, um dos maiores problemas para a inserção deste conteúdo.
Com uma investigação feita nos Parâmetros Curriculares Nacionais que
provem bases para uma metodologia pedagógica a ser seguida, foi confirmado que
o conteúdo da luta corporal está previsto a ser ministrado podendo ser um forte
aliado na formação cidadã dos alunos.
Entretanto, as dificuldades alegadas pelos professores acabam impedindo
que o potencial desta manifestação cultural seja utilizado em todas as suas
capacidades motoras, afetivas e sociais. A infraestrutura, a falta de espaço e os
materiais podem ser adaptados da mesma maneira que em um jogo ou brincadeira,
desde que ocorra um planejamento para tal feito.
Com o auxílio dos planos dimensionais que, auxiliam para uma noção de
contextualização, de procedimentos e atitudes que corroboram para uma formação
social mais qualificada do aluno, é possível utilizar essa pratica corporal como
ferramenta pedagógica subjugando as dificuldades alegadas pelos profissionais da
área.
De modo que um aprofundamento sobre as modalidades de luta, de como
elas se manifestam em diferentes culturas, suas diferenças de execução e os
valores morais inerentes na sua pratica, sejam o ponto de partida para conciliar a
luta corporal com a sua inserção na escola desconectando-a da violência, uma vez
que essa associação é muito comum, mas demonstra-se um equívoco, indo contra
os reais propósitos da luta corporal.
Após compreendido tais informações e métodos pedagógicos, é possível
que o docente oferte mais um conteúdo da Educação Física afim de exercer seu
potencial pedagógico ao máximo, criando interesse por parte dos alunos e
garantindo a diversidade cultural.
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