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DOCUMENTOS DA IGREJA

E DOS PRIMEIROS CRISTÃOS


SOBRE A ADMINISTRAÇÃO
DO BATISMO ÀS CRIANÇAS
- Sumário -

1. Discurso do Papa Pio XII aos participantes do


Congresso da União Católica Italiana de Obstetrizes
[29 de outubro de 1951]

2. Texto da Nova Enciclopédia Católica


editada pela Universidade Católica de Washington

3. Atas da Sé Apostólica
[ano 1958]

4. Texto de Santo Agostinho,


do livro "Sobre os Méritos e a Remissão dos Pecados"

5. Carta de São Cipriano, bispo de Cartago,


e outros 66 bispos do norte da África,
dirigida ao presbítero Fido, no ano 253 da Era Cristã

TEXTO I
Atas da Sé Apostólica, vol. 43,
ano 1951, pgs. 835-6; 841-2.

Do discurso de Sua Santidade, o Papa Pio XII, aos


participantes do Congresso
da União Católica Italiana de Obstetrizes,
pronunciado no dia 29 de outubro de 1951.
"Velar com solicitude sobre aquele berço silencioso e obscuro, onde Deus
infunde uma alma imortal ao gérmen dado pelos pais, para prodigalizar
os vossos cuidados à mãe e preparar à criança, que ela traz em si mesma,
um nascimento feliz, eis, amadas filhas, o objeto de vossa profissão, o
segredo de sua grandeza e de sua beleza.

Quando pensamos a esta admirável colaboração dos pais, da natureza e


de Deus, pela qual vem à luz um novo ser humano à imagem e
semelhança do Criador, como se poderia não apreciar em seu justo valor
o concurso precioso que vós trazeis a tal obra?

Portanto, quem se aproxima deste berço do devir da vida e ali exerce a


sua ação de um ou outro modo, deve conhecer a ordem que o Criador
quer que seja mantida e as leis que presidem sobre a mesma. Pois não se
tratam aqui de simples leis físicas e biológicas às quais obedecem
necessariamente agentes destituídos de razão e forças cegas, mas de leis,
cuja execução e cujos efeitos são confiados à cooperação livre e
voluntária do homem.

À luz destes princípios Nós Nos propomos agora a expor-vos algumas


considerações sobre o apostolado a que vossa profissão vos empenha. De
fato, cada profissão querida por Deus importa em uma missão, isto é,
aquela de realizar, no campo da própria profissão, os pensamentos e as
intenções do Criador, e de ajudar os homens a compreender a justiça e a
santidade do desígnio divino e o bem que do seu cumprimento advém
para eles mesmos.

Se isto que temos dito até agora diz respeito à proteção e ao cuidado para
com a vida natural, com muito mais fortes razões deve valer para a vida
sobrenatural, que o recém nascido recebe com o batismo. Na presente
economia não há outro modo de comunicar esta vida à criança, que não
possui ainda o uso da razão. E, todavia, o estado de graça no momento da
morte é absolutamente necessário para a salvação; sem o mesmo não é
possível alcançar a felicidade sobrenatural, a visão beatífica de Deus. Um
ato de amor pode ser suficiente para o adulto para conseguir a graça
santificante e suprir a falta do batismo: mas ao não nascido ou ao recém
nascido esta via ainda não está aberta. Se, portanto, considerarmos que a
caridade para com o próximo impõe a que seja ajudado em caso de
necessidade, e que esta obrigação é tanto mais grave e urgente quanto
maior é o bem que se deve buscar ou o mal que se deve evitar, e quanto
menos o necessitado é capaz de se ajudar e de se salvar a si mesmo; então
é fácil compreender a grande importância do batismo de uma criança,
privada de qualquer uso da razão e que se acha em grave perigo ou
diante de uma morte certa. Sem dúvida, este dever obriga em primeiro
lugar aos pais; mas em caso de urgência, quando não há tempo para
perder ou não é possível chamar um sacerdote, cabe a vós a sublime
incumbência de administrar o batismo. Não falteis, portanto, à prestação
deste serviço de caridade e de exercer este ativo apostolado de vossa
profissão. Possa ser-vos de conforto e encorajamento a palavra de Jesus:

'Bem aventurados os misericordiosos, porque


acharão misericórdia'.
Mateus 5,7

E qual misericórdia maior e mais bela do que aquela de garantir à alma


da criança, entre a porta da vida que apenas iniciou, e a porta da morte
que se aproxima, a entrada na gloriosa e beatificante eternidade!"
TEXTO II
Texto adaptado da Nova Enciclopédia Católica,
editada pela Universidade Católica de Washington,
vol.2, pg. 70.

Destino das crianças não batizadas.


"A doutrina católica acerca da necessidade do batismo levanta o difícil
problema da necessidade do batismo para a salvação das crianças que
morrem sem o batismo.

A doutrina católica ensina claramente a perda do céu e da visão beatífica


como uma punição para o pecado original. Já que as crianças mortas sem
o batismo ainda possuem o pecado original em suas almas, os dados
revelados pela fé nos forçam a concluir que as mesmas não podem entrar
no céu. Ao mesmo tempo a razão afirma que elas não podem ser punidas
no inferno como os pecadores adultos. Assim, postulou-se um lugar e um
estado especial para elas denominado Limbo.

Os dois pilares sobre que se fundamenta o Limbo são a exclusão do céu e


a ausência dos tormentos do inferno. Esta é a solução segura e
amplamente aceita para o problema das crianças não batizadas; ao
mesmo tempo é evidente que este não é um ensinamento oficial da Igreja
Católica, [pois, embora postulado pelos teólogos, não há documento do
Magistério da Igreja que afirme a existência do Limbo].

É possível expressar, [no plano especulativo], a piedosa esperança de que


Deus, em sua misericórdia e sabedoria, pode ter disposto alguma outra
via, desconhecida por nós, para salvar estas crianças; mas reduzir esta
esperança para[o terreno prático, adotando uma conduta quanto à
administração do sacramento do Batismo que supusesse esta hipótese como
segura, não seria moralmente aceitável para uma consciência cristã].

Ainda recentemente todas as tentativas para se idear um meio de


salvação para estas crianças foram classificadas pelo Santo Ofício, em 18
de fevereiro de 1958, como carecendo de sólido fundamento, [conforme
publicado nas Atas da Sé Apostólica, 50, 1958, 114; veja adiante, no texto
número 3]. Isto mostra que o problema não é uma questão aberta no
sentido usual do termo".
TEXTO III
Atas da Sé Apostólica, volume 50,
ano 1958, pg. 114.

Advertência da Suprema Sagrada Congregação do


Santo Ofício
"ATAS DAS SAGRADAS CONGREGAÇÕES

Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício

ADVERTÊNCIA

Em alguns lugares recobrou força o costume de adiar a


administração do batismo por supostas razões ou de comodidade
ou de índole litúrgica. A este adiamento poderiam favorecer
algumas sentenças sobre a sorte eterna das crianças que morrem
sem batismo, as quais, porém, carecem de sólido fundamento.

Por causa disto, esta Suprema Sagrada Congregação, com a


aprovação do Sumo Pontífice, adverte aos fiéis cristãos que as
crianças sejam batizadas o quanto antes conforme prescrito no
cânon 770, e exorta aos párocos e aos pregadores que insistam no
cumprimento desta obrigação.

Dado em Roma, no prédio do Santo Ofício, no dia 18 de fevereiro


do ano de 1958".
TEXTO IV
Texto de Santo Agostinho,
bispo de Hipona e Doutor da Igreja

Do livro "Sobre os Méritos e a Remissão dos


Pecados", livro I, Cap. 22-3,
de Santo Agostinho, conforme a Patrologia Latina
de Migne, vol 44, pg. 128.

"Cedamos, portanto, e consintamos com a autoridade da Sagrada


Escritura, que não sabe ser enganada nem enganar: e assim como, para
discernir os seus méritos, não cremos que os ainda não nascidos tenham
praticado algo de bem ou de mal, assim também não duvidemos todos
estarem debaixo do pecado, que por um homem entrou no mundo e que
passou por todos os homens, do qual não liberta senão a graça de Deus
por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Seu advento medicinal não é obra para os sãos, mas para os enfermos,
porque não veio chamar os justos, mas os pecadores, em cujo reino não
entrará senão quem tiver renascido pela água e pelo Espírito, nem
possuirá fora de seu reino salvação e vida eterna, já que quem não tiver
comido a sua carne, e quem é incrédulo do Filho, não terá a vida, mas a
ira de Deus permanece sobre ele (Jo 3, 36).

Deste pecado e desta enfermidade, ... , dos quais são naturalmente filhos
também aqueles que, se pela idade não o possuem próprio, trazem
todavia o pecado original, não liberta senão

`o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo';


Jo 1, 29

ninguém senão o Médico que

`não veio por causa dos sãos, mas por causa dos
enfermos';

ninguém senão o Salvador, do qual foi dito ao gênero humano:

`Hoje vos nasceu um Salvador';


Luc. 2,11

ninguém senão o Redentor, cujo sangue destrói a nossa dívida. Porque


quem ousará dizer não ser Cristo Salvador nem Redentor das crianças?
Mas de que as salva se não houver nelas nenhuma enfermidade do
pecado original? De que as redime se não são pela origem do primeiro
homem vendidas sob o pecado? Portanto, fora do batismo de Cristo, não
se prometa às crianças pelo nosso próprio arbítrio nenhuma salvação
eterna que não promete a Sagrada Escritura, preferível a todos os
engenhos humanos".

TEXTO V
Carta de São Cipriano, bispo de Cartago,
e de outros 66 bispos do norte da África,
dirigida ao presbítero Fido, no ano 253 da Era Cristã

Explicação Introdutória.
Este é um texto muito importante, pois data de bem antes do Edito
de Constantino, que em 313 aboliu as perseguições aos cristãos. São
Cipriano era bispo de uma das cidades mais importantes do norte
da África, e foi alguém que teve a oportunidade de testemunhar
heroicamente sua fé em Cristo. Condenado à morte por se confessar
cristão, pouco antes de morrer agradeceu ao carrasco que iria
degolá-lo presenteando-o com o dinheiro que trazia consigo pela
oportunidade que este lhe oferecia de colher a palma do martírio.

Consta que no ano de 253 Cipriano recebeu a notícia de que um


presbítero chamado Fido, lendo que a Lei de Moisés preceituava
que as crianças judias fossem circuncidadas no oitavo dia após o
nascimento, começou também a batizar as crianças recém nascidas
no oitavo dia após o nascimento. O fato era uma novidade na Igreja
e, por isso, Cipriano, em uma reunião que houve entre os bispos do
norte da África, dos quais ele era o principal, colocou a estranha
prática em discussão.

Para apreciar a importância da decisão que então foi tomada, deve-


se lembrar que aqueles eram ainda os tempos dos primórdios
heróicos da Igreja em que, a exemplo de Cipriano, muitos cristãos
não temiam senão a Deus e se ofereciam alegremente para dar a
vida em testemunho da fé cristã, pessoas dispostas a qualquer
sacrifício para obedecer às suas consciências e ao que Deus lhes
pedisse. Aquela era ademais uma época em que a lembrança dos
tempos apostólicos estava bem viva na Igreja e na qual ainda havia
muitas pessoas que conheciam fatos ocorridos no tempo dos
apóstolos não por tê-las lido, mas por terem passado de boca em
boca desde as primeiras testemunhas oculares.

É portanto significativo, nestas circunstâncias, que nenhum dos


sessenta seis bispos presentes, ao ouvir a prática do presbítero Fido
de batizar as crianças no oitavo dia, tivesse afirmado, indignado,
que jamais se tivesse ouvido na Igreja que se devessem batizar as
crianças ou que esta fosse uma prática que devesse ser condenada.
Nenhum deles também fêz qualquer afirmação no sentido de que na
época dos apóstolos houvesse alguma ordem pela qual somente os
adultos devessem ser batizados. Ao contrário, os bispos
responderam unanimemente ao presbítero Fido que ele não
inventasse novos costumes e que batizasse as crianças assim que
tivessem nascido, pois elas corriam o risco de falecer antes do oitavo
dia e o batismo lhes era necessário para a sua salvação.

Igualmente significativo foi que esta decisão dos bispos africanos


depois circulou livremente em toda a Igreja e não consta que
alguém a tivesse condenado sob a alegação de que na época dos
apóstolos não se batizavam as crianças e a que decisão dos bispos
africanos fosse um desvio da doutrina original.

Esta carta do concílio dos bispos africanos do terceiro século, é,


portanto, um testemunho eloqüente de que sempre e em todo o
lugar, desde os primórdios da Igreja, batizaram-se as crianças, sem
que tivesse havido protestos de que esta prática pudesse ser
contrária aos ensinamentos dos apóstolos.

Texto da Carta de Cipriano e outros sessenta e seis


bispos ao
presbítero Fido, conforme se acha na Patrologia
Latina de Migne.

"Cipriano e os demais colegas, que em número de sessenta e seis se


reuniram em concílio, desejam saúde ao irmão Fido.

Lemos a tua carta, irmão caríssimo. Quanto ao que diz respeito ao caso
das crianças, das quais disseste que não devem ser batizadas no segundo
ou terceiro dia após o nascimento, devendo-se considerar a lei antiga da
circuncisão, de tal modo que não julgas dever ser batizada e santificada
antes do oitavo dia aquele que nasceu, muito diversamente pareceu isto a
todos os reunidos em nosso concílio. Nisto que tu pensas que se deve fazer
ninguém concordou; ao contrário, todos nós julgamos que a nenhum
homem nascido deve ser negada a misericórdia da graça de Deus.

Pois como o Senhor no seu Evangelho diz:


"O Filho do Homem não veio perder as almas dos
homens, mas salvá-las",

o quanto está em nós, se puder ser feito, nenhuma alma deve ser perdida.

Por causa disso julgamos que ninguém deve ser impedido de alcançar a
graça por aquela lei outrora estabelecida [por Moisés de circuncidar as
crianças só no oitavo dia], nem a circuncisão espiritual deve ser impedida
pela circuncisão carnal, mas todo homem deve ser admitido à graça de
Cristo, conforme Pedro nos diz nos Atos dos Apóstolos:

"O Senhor me revelou que nenhum homem deve


ser considerado impuro".

Ademais, se algo pudesse impedir os homens de alcançarem a graça, os


pecados mais graves poderiam impedir os mais adultos e desenvolvidos.
Ao contrário, porém, se mesmo aos mais graves e delinqüentes, e aqueles
que muito pecaram diante de Deus, vindo posteriormente a acreditar, se
lhes oferece a remissão dos pecados e a nenhum deles se lhe proíbe a
graça do batismo, quanto mais não se o deve proibir à criança, que, ainda
recém nascida, em nada pecou, a não ser na medida em que, nascida de
Adão segundo a carne, contraíu o contágio da morte antiga pelo primeiro
nascimento, e que por isso mesmo mais facilmente se aproxima da
remissão dos pecados porque lhe são perdoados não os pecados próprios,
mas os alheios.

E, portanto, irmão caríssimo, esta foi a nossa sentença neste concílio, que
ninguém deve ser proibido do batismo e da graça de Deus, o qual é
misericordioso, benigno e piedoso para com todos. Coisa que, devendo
ser observada a guardada para com todos, mais ainda julgamos que o
deve ser para com as próprias crianças e os recém nascidos, que mais o
merecem de nossas obras e da misericórdia divina, os quais desde o
primeiro momento de seu nascimento gritando e chorando nada mais
fazem do que o rogar.

Desejamos a ti, irmão caríssimo, que sempre passes bem".