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Origens marxistas do fascismo

Douglas Lisboa Santos de Jesus


douglas.lisboasj@gmail.com

27 de novembro de 2017

Resumo

Semelhanças entre as ditaduras de Mussolini, Stálin e Hitler eram bem conhecidas e


estudadas ao longo das décadas de 1950 e 1960. Uma explicação inicial para estas
comparações poderia ser uma suposta ruptura destes regimes em relação aos valores
e ideias (desenvolvidas a partir) do Iluminismo. Não era apenas a concentração
de poder na figura do Estado, senão também a completa negação do ser humano
enquanto agente racional portador de direitos. Era o sistema de vigilância política
e ideológica do Estado na forma do Partido Único, como retratado por George
Orwell. É neste contexto que aparecem as mais conhecidas reflexões filosóficas sobre
o totalitarismo. Autores como Karl Popper e Hannah Arendt tentaram mostrar como
o bolchevismo era contíguo ao fascismo e ao nazismo desde um ponto de vista dos
efeitos políticos, apesar da distância no espectro político. O propósito deste artigo é
apresentar uma outra abordagem sobre as possíveis aproximações entre o socialismo
marxista e o fascismo. Considerando o desenvolvimento ideológico de Mussolini, o
texto tenta mostrar que um dos mais importantes elementos da doutrina fascista em
1919 foram as interpretações heterodoxas dos textos de Marx & Engels.

Palavras-chave: Totalitarismo. Socialismo marxista. Fascismo.

1
1 Introdução

Algumas das mais conhecidas publicações sobre o totalitarismo na literatura especiali-


zada apareceram logo ao final da II Guerra1 . Tal era o caso já em 1945, quando Karl Popper
publicou The Open Society and Its enemies e, não muito tempo depois, com o Origens do
totalitarismo ([1951] 1998), de Hannah Arendt. Para estes filósofos, pareceria haver uma
perversa novidade nas ditaduras de Mussolini, Stálin e Hitler. Seria possível dizer que esta
novidade era a rejeição radical aos valores liberais que surgiram com o (ou a partir do)
Iluminismo, como o próprio Mussolini confessa em “La dottrina del fascismo”, em 1933. O
historiador Ernst Nolte seguiu pensamento similar aos de Popper e Arendt em As três
faces do fascismo ([1965] 1974), onde acrescentou outro movimento de extrema direita:
o Action Française. Havia, portanto, o entendimento de que o pêndulo do totalitarismo
apresentava inclinações tanto para a direita como para a esquerda.
As comparações entre bolchevismo, fascismo e nazismo ficaram ainda mais evidentes
após a divulgação dos abusos da ditadura stalinista no XXo Congresso do Partido Co-
munista Soviético. Para muitos intelectuais da época, não poderia haver dúvidas sobre o
perfil genocida de Stálin. Ainda assim, a tradição marxista nunca foi unânime em aceitar
o stalinismo como exemplo de regime totalitário. Na verdade, nem mesmo o conceito de
totalitarismo é uma unanimidade, como lembra Domenico Losurdo (2006). A objeção
de Losurdo, porém, não é sobre semelhanças empíricas entre estes regimes, que ele não
nega, senão ao fato do totalitarismo ser tomado como única chave explicativa para estas
semelhanças. De fato, parece haver um esforço em comparar estas ditaduras a partir
de seus efeitos políticos e não a partir de suas formulações teóricas. Restaria dizer algo
sobre as origens teóricas e culturais deste regimes. Ora, é sabido que Mussolini começou
sua trajetória política no socialismo, destacando-se, inclusive, no Partido Socialista da
Itália. É também sabido que os principais teóricos do sindicalismo revolucionário italiano
foram responsáveis pela ascensão da ideologia fascista na década de 1920. Esta filiação do
socialismo marxista e o fascismo não parece um simples acidente.
Não é incomum que o fascismo seja caracterizado como uma simples irrupção irracional
baseada somente na violência e na guerra. Agora, se um por um lado é verdadeiro que
o fascismo representou a antípoda do Iluminismo, não se segue daí que seus principais
representantes tenham ignorado a importância política de um sistema de crenças e valores
consistentes. Ou seja: a negação do projeto racionalista do Iluminismo (ou o projeto
racionalista que pode ser atribuído a autores iluministas) não implica um irracionalismo
completo de seu proponente. Então, se isto é correto, sob quais condições a violência
1
A palavra “totalitarismo”, porém, já havia entrado no vocabulário político da Itália na década de
1920 e foi logo adotada pelos teóricos do fascismo. O leitor encontra uma exposição ao tópico na
entrada correspondente da Internet Encyclopedia of Philosophy consultando este endereço: <http:
//www.iep.utm.edu/totalita/>.

2
poderia ser evocada como princípio de ação política? Em outras palavras, quais as origens
teóricas (morais e epistêmicas) do fascismo?
Este artigo trata das relações entre o socialismo marxista e o fascismo. Na contramão
do que afirma Losurdo, o texto tenta defender a tese segundo a qual é possível aproximar
o socialismo marxista (ao menos em sua expressão marxista-leninista) ao fascismo sob
a categoria de totalitarismo. O argumento principal aqui arrolado é que o socialismo
marxista pode ser entendido como o núcleo teórico comum a estas ideologias. Tenta-se
apontar como as linhas iniciais do desenvolvimento teórico do fascismo foram atadas por
leituras heterodoxas de Marx.
Frise-se que o debate proposto aqui não pretende defender que o fascismo e o nazismo
eram ideologias de esquerda. Poucas evidências poderiam sustentar esta alegação e nem
mesmo os autores consultados falam algo parecido. Se legítima ou não, esta disputa
parece existir em função de uma área cinza que envolve a extrema esquerda e a extrema
direita. Eis porque a biografia política de Mussolini, que transitou de um extremo a outro,
poderia ser interessante. Como tantos outros indivíduos politicamente engajados, dos quais
Raymond Aron fala em O ópio dos intelectuais ([1957] 2016), Mussolini demonstrava
uma fé inabalável na Revolução. Tamanha era sua fé que ele parecia estar honestamente
convencido de que o fascismo era uma expressão deste ideal.
Globalmente, o artigo procura apresentar-se na forma de uma reconstrução histórica do
desenvolvimento ideológico de Mussolini entre os anos de 1904 e 1919. Com isso é possível
abarcar os principais episódios de sua atuação militante pelo Partido Socialista Italiano até
a fundação do Partido Nacional Fascista. Por outro lado, faz-se necessária alguma discussão
filosófica sobre a importância dos conceitos de revolução, violência e nação durante estes
anos. Não é demais lembrar que o recorte proposto é apenas uma abordagem possível
dentre tantas outras. Seguramente é possível estudar o fascismo desde a perspectiva da
psicologia, economia, política, etc. O leitor poderá encontrar farta literatura sobre cada
uma destas em Laqueur (1976) e Gregor (1979, Introdução).
A seção 2 abaixo discute a maneira como a violência foi reivindicada por Mussolini a
partir de suas leituras de Marx & Engels. Nota-se aqui uma gradativa transformação na
maneira como Mussolini enxergava a violência dentro da atuação política; de uma arma
do proletariado contra a burguesia até tornar-se num princípio de ação política do fasci
di combattimento. A seção 3 amplia estas discussões ao mostrar como o radicalismo de
Mussolini o colocou em oposição aos membros do partido socialista da Itália. A seção 4
mostra como o conceito de nação é incorporado definitivamente ao pensamento doutrinário
de Mussolini nos anos em que esteve na guerra. A seção 5 encerra o ciclo de transformação
de Mussolini nos anos de 1919-1920.

3
2 Revolução e violência

Filho de um conhecido internacionalista2 (como os socialistas se identificavam à época),


Mussolini nasceu numa província em Emília-Romanha, uma das mais violentas localidades
da Itália, marcada por agitações políticas constantes. Mussolini foi educado para tornar-se
professor, mas, após breve experiência, abandonou o ofício em favor do jornalismo. Aos
dezoito anos, publicaria seus primeiros artigos e traduções3 durante sua estadia na Suíça,
entre 1902 e 1904. Foi durante este período que conheceu Giacinto Menotti Serrati e
Angelica Balabanoff — sua mentora e suposta amante —, dos quais recebeu incentivos
para estreitar relações com o Partito Socialista Italiano (PSI). Foi Menotti Serrati quem
colocou Mussolini em contato com o Avvenire del Lavoratore, jornal ligado ao PSI, onde
publicou seu primeiro texto4 , “Il romanzo russo” (1902).
Segundo o relato de Renzo De Felice, seu mais famoso biógrafo, um dos primeiros
livros de Marx com os quais Mussolini entrou em contato foi uma edição d’O Capital
(1867) preparada por Carlo Cafiero. Sabe-se também que ele tinha conhecimento das
Teses ad Feuerbach (1845) e do Manifesto Comunista (1848), além dalguma referência
aos períodos da Rheinische Zeitung e do Deutsch–Französische Jahrbücher 5 . Ou seja: ele
estava a par das mais importantes publicações socialistas até então disponíveis. Ainda
sobre suas preferências literárias, devem-se destacar Hegel, Nietzsche6 e Georges Sorel.
Cada um destes autores ofereceu algum elemento teórico para a construção da ideologia
fascista, seja em suas linhas iniciais, com Nietzsche e Sorel, ou em sua versão acabada,
com Hegel. O sincretismo ideológico Mussolini, porém, encontra em Marx seu principal
profeta7 .
Ao final de 1902, Arturo Labriola iniciou a publicação do periódico Avanguardia
socialista. Esta revista concentrou as principais publicações em favor do sindicalismo
2
Alessandro Mussolini (1854 - 1910). Segundo consta, o nome Benito Amilcare Andrea Mussolini foi
uma homenagem a três revolucionários: Benito Pablo Juárez García (1806 - 1872), Amilcare Cipriani
(1843 - 1918) e Andrea Costa (1851 - 1910).
3
Mussolini recebeu habilitação para lecionar francês e iniciou mais ou menos nesta época algumas lições
de latim. Ele traduziu, do francês, o livro Les Paroles d’un Révolté, do anarquista russo Petr Kropotkin;
do alemão, traduziu Am tage nach der sozialen Revolution, de Karl Kautsky, e Karl Marx und der
historische Materialismus, de Wilhelm Liebknecht. Estas informações encontram-se em De Felice (1965,
cap. 1-2). Apesar de sua formação, Mussolini não costuma ser caracterizado como um intelectual pela
literatura especializada.
4
Os textos de Mussolini consultados encontram-se em Opera omnia di Benito Mussolini, com edição de
Edoardo & Duilio Susmel.
5
Como as obras de Marx & Engels não estavam disponíveis em sua totalidade no início do séc. XX (isso
aconteceria apenas a partir da década de 1930), é preciso situar com alguma precisão quais textos
Mussolini conhecia e quais ideias foram adotadas a partir daí. Citações às obras de Marx seguem aqui
a edição crítica Marx & Engels Collected Works (doravante MECW, seguido pelo volume) traduzida
por Richard Dixon et al (1975 - 2005).
6
Sobre a influência de Nietzsche, consultar Gentile (2005, cap. 1) e Drake (2003, p. 115). De Felice
lembra ainda que Mussolini era leitor de Rosa Luxemburg, Werner Sombart e Vilfredo Pareto.
7
Mussolini, “Una caduta” (1904), “Delinquenza moderna” (1904) e “Karl Marx (Nel 25o anniversario
della sua morte)” (1908, pp. 101-103), Opera, Vol. I.

4
revolucionário, braço mais radical dentro do PSI, com o próprio Labriola à frente. A
Avanguardia socialista atraiu também Sergio Panunzio, responsável pelas principais contri-
buições ao fascismo na década de 1920, atrás apenas de Giovanni Gentile. Em 1905, Enrico
Leone e Paolo Mantica fundariam a revista Il divenire sociale, seguidos de perto por Angelo
Oliviero Olivetti, futuro ideólogo do fascismo. É neste ambiente que o jovem Mussolini
começaria sua vida política. Será também Mussolini um dos principais responsáveis por
unir este grupo sob um novo periódico (Utopia), em 1910, a partir do qual emergiriam as
principais linhas da doutrina fascista.
Uma das principais características destes primeiros escritos é o elogio à violência.
Assim como Marx, Mussolini entendia que a revolução8 do proletariado seria conflagrada
através da luta armada contra a burguesia. Não obstante, Mussolini necessitava dalgum
endosso moral para este modelo de ação política. Mesmo o pensamento revolucionário
necessita de algum tipo de argumento normativo sobre a realidade social para legitimar o
uso da violência. O agente precisa estar convencido de que sua tática é a correta. Para
Mussolini, este endosso aparece na forma duma concepção relativista dos valores morais a
partir de Marx, o qual parece chancelar esta leitura ao estabelecer os valores como algo
contingente aos modos de produção duma determinada sociedade. Haveria os valores da
classe dominante (a burguesia) e os da classe dominada (o proletariado). Caberia então ao
revolucionário (ou classe revolucionária), imbuído de novos valores, superar a moralidade
vigente. Esta dicotomia é reforçada no Reflexões sobre a violência ([1908] 1999), de Sorel9 .
O Mussolini destes primeiros anos, até 1910, que se saiba, é marcado pela crença em
dois postulados marxistas: o inevitável colapso das sociedades de mercado e o determinismo
econômico dos valores morais. Tudo isto dependia de sua crença inabalável na Revolução.
Este primeiro postulado, como recorda o historiador James Gregor, seria acompanhada por
elementos positivistas sobre o desenvolvimento histórico da humanidade, muito embora
Mussolini afirme algures que o positivismo é uma ideologia da petite bourgeoisie 10 . Sobre o
determinismo econômico, destaca-se o texto “Deliquenza moderna” (1902), onde Mussolini
resume com clareza suas convicções marxistas. Afirma o autor:

Mais uma vez, a evidência de fato concede a nós, socialistas, o direito


de proclamar o fator econômico a base eficiente de fatores políticos e
morais. Por certo que no regime por nós preparados, auspiciamos que
seja impossível o nascimento e desenvolvimento da aristocracia criminosa
8
O texto usa revolução, sem mais, para designar uma transformação social onde um sistema político
é substituído por outro, algumas vezes através do conflito armado. Já revolução proletária, ou do
proletariado, será entendida como uma revolução associada exclusivamente com a teoria marxista.
Esta identificação é feita em prol do argumento. Por fim, Revolução será associada com as leituras
heterodoxas de Marx & Engels, especialmente a Mussolini. Sobre os variados usos e desusos do conceito
de revolução, consultar Aron ([1957] 2016, cap. 2).
9
Foi consultada a tradução Reflections on Violence, editada por Jeremy Jennings.
10
Cf. Gregor (2009, p. 137). Grosso modo, o positivismo ao qual Gregor se refere diz respeito à tese
segundo a qual a História humana apresentaria “etapas de desenvolvimento” numa reta ascendente: das
sociedades menos desenvolvidas, no passado, para as mais desenvolvidas, no futuro. Para a presente
discussão, não é relevante se esta caracterização (muito simplificada, é claro) do positivismo é correta.

5
revelada nestes últimos tempos, como qualquer outro tipo de crime mais
ou menos vulgar11 .

Dentro das discussões acadêmicas sobre o pensamento de Marx, a ideia de determinismo


econômico não é univocamente aceita, de modo que esta tese não será atribuída a ele. Por
exemplo: a primeira das Teses ad Feuerbach parece contrariar esta linha interpretativa12 .
Seja como for, fato é que Mussolini poderia justificar sua interpretação considerando alguns
escritos de Marx & Engels e foi o que fez. E isso aparece até mesmo nas obras que não
estavam disponíveis.
Esta tese é claramente enunciada por Marx em 1844, nos seus Manuscritos econômicos-
filosóficos: “A religião, a família, o Estado, as leis, a moralidade, a ciência, arte, etc., são
apenas modos particulares de produção, e caem sob esta lei geral”. Em A ideologia alemã
(1846) ele retorna o mesmo raciocínio ao dizer: “O que eles [os indivíduos] são, portanto,
coincide como suas produções, tanto o que produzem assim como produzem. Logo, o que
os indivíduos são depende das condições de suas produções” (MECW ([1846] 1975, pp.
31-32)). E mais adiante afirma:

Moralidade, religião, metafísica e o resto da ideologia, assim como as for-


mas de consciência correspondem a estes [fantasmas formados no cérebro
dos homens], e não mais retêm algum semblante de independência. Não
possuem história, nem desenvolvimento; mas os homens, desenvolvendo
seus meios de produção e intercurso material, alteram, junto com o
mundo atual, seus pensamentos e o produto destes pensamentos (MECW
([1846] 1975, pp. 36-37)).

Para Mussolini, e boa parte da tradição marxista da época, o marxismo ortodoxo resultava
numa visão determinista dos valores e relações humanas. A autonomia individual é subsu-
mida às relações econômicas historicamente localizadas, de modo que o comportamento
humano — desejos, aspirações, afecções, etc. — são explicados doravante a partir destas
categorias. Tome-se como exemplo a seguinte passagem do Manifesto Comunista:

É preciso uma intuição profunda para compreender que as ideias, as


opiniões e as concepções do homem, em uma palavra, a consciência do
homem, mudam com todas as mudanças nas condições de sua existência
material, nas suas relações sociais e na sua vida social?// O que mais
a história das ideias prova a não ser que a produção intelectual muda
11
Mussolini, “Deliquenza moderna” (1902), Opera omnia, Vol. I, p. 14, grifos do autor.
12
“A principal insuficiência de todo o materialismo até aos nossos dias — o de Feuerbach incluído — é que
as coisas, a realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a forma do objeto ou da contemplação;
mas não como atividade sensível humana, práxis, não subjetivamente. Por isso aconteceu que o lado
ativo foi desenvolvido, em oposição ao materialismo, pelo idealismo — mas apenas abstractamente,
pois o idealismo naturalmente não conhece a atividade sensível, real, como tal. Feuerbach quer objetos
sensíveis realmente distintos dos objectos do pensamento; mas não toma a própria atividade humana
como atividade objetiva. Ele considera, por isso, na Essência do Cristianismo, apenas a atitude teórica
como a genuinamente humana, ao passo que a práxis é tomada e fixada apenas na sua forma de
manifestação sórdida e judaica. Não compreende, por isso, o significado da atividade ‘revolucionária’,
de crítica prática”. Para uma visão completa sobre o assunto, consultar De Souza (2012). De Sousa
opta por falar “marxiano” e não “marxista”, o que parece sugerir uma distinção entre uma leitura
acadêmica e uma outra, por assim dizer, engajada, das obras de Marx. Dentro deste quadro, Mussolini
certamente seria um marxista (durante o período analisado).

6
seu caráter na medida em que a produção material é alterada? As ideias
dominantes de cada era foram as idéias de sua classe dominante (MECW,
Vol. 6 (1848], p. 503)).

Em 1847 Engels prepara um breve texto, o “Princípios do comunismo”, o qual traz


algumas das mais populares teses do Manifesto Comunista. Organizado na forma de
perguntas e respostas, Engels responde à pergunta “Será possível abolir a propriedade
privada através de métodos pacíficos?” da seguinte maneira:

É desejável que isso aconteça, e os comunistas certamente serão os últimos


a resistir. Os comunistas sabem muito bem que todas as conspirações não
são apenas inúteis, mas até prejudiciais. Eles sabem muito bem que as
revoluções não são feitas de forma deliberada e arbitrária, mas que, em
todos os lugares e em todos os momentos, foram o resultado necessário
de circunstâncias inteiramente independentes da vontade e liderança de
partidos e classes (MECW, Vol. 6 ([1847], p. 349, grifo meu)).

Esta passagem parece reforçar a fala de Mussolini em 1902, ainda que Engels tenha sido
cuidadoso ao evitar falar que a revolução é “determinada” por algo. A possibilidade de
uma “revolução” pacífica, por outro lado, não parece ter interessado Mussolini13 . E não
obstante, é este modelo de revolução reivindicada pelo fascismo a partir de 1922. Em
todo caso, a fala de Engels deixa o seguinte problema: se é o caso que toda revolução é
indepente da vontade individual dos agentes envolvidos, a militância socialista tornar-se-ia
irrelevante. Ciente desta possível objeção, Engels continua:

Mas eles [os comunistas] também veem que o desenvolvimento do pro-


letariado é, em quase todos os países civilizados, reprimido pela força,
e que assim os opositores dos comunistas estão trabalhando com todas
todas as energias para uma revolução. Se o proletariado oprimido, no
final, for incorrido em uma revolução, nós, os comunistas, defenderemos
a causa deles por ação, bem como fazemos agora, com palavras (MECW,
Vol. 6 ([1847], p. 349)).

Então, o papel do militante socialista seria assegurar que a História siga seu curso. O
antagonismo de classes seria uma condição necessária — mas não suficiente, como Lenin e
Mussolini concluíram — para o surgimento de uma revolução. O uso da violência, portanto,
faz-se necessário somente em momentos bem pontuais, a saber, quando os socialistas
encontram uma situação genuinamente revolucionária. Engels não diz, porém, quando um
acontecimento social pode resultar em uma revolução do proletariado genuína. E por não
haver uma resposta unívoca para esta questão, muitos socialistas marxistas, incluindo aí
Mussolini, interpretarão a I Guerra como o princípio da Revolução.
Ainda pelo Avanguardia Socialista, “Intorno alla notte del 4 agosto” (1904) é um artigo
em homenagem a um dos principais acontecimentos no contexto da Revolução Francesa,
quando a Assembleia Constituinte colocou fim aos direitos feudais na França. O texto é
uma oportunidade para Mussolini recordar aos seus leitores que o fim do feudalismo não
fora uma generosa renúncia da nobreza, mas antes seguiu-se a violentos confrontos. De
13
Este texto de Engels seria publicado pela primeira vez em 1914 por Eduard Bernstein.

7
igual maneira, emenda ele, a revolução socialista será acompanhada por um período de
violência “mais ou menos” longo. E conclui: será um duelo entre as forças conservadoras
e aquelas do futuro (i.e., as do proletariado) ao curso duma tempestade insurrecional,
episódio preliminar da profunda transformação social e advento do socialismo14 .
A ênfase sobre o caráter violento — e inevitável — da revolução não deve ser subesti-
mada, nem mesmo nestas primeiras publicações. Neste particular, deve-se destacar seu
texto em homenagem à Comuna de Paris, “La teppa” (1904), onde Mussolini fala daqueles
que morreram heroicamente pela Comuna. O culto ao heroísmo revolucionário, embora
latente nestas palavras, será uma herança de Sorel que Mussolini levará consigo como um
dos sustentáculos mais importante da ideologia do Partido Nacional Fascista. Aliás, já
neste texto Mussolini emprega o pensamento de Sorel como uma autoridade em favor da
violência revolucionária. Percebe-se aí que a primeira, e talvez mais importante, influência
de Sorel sobre o futuro Duce reside em seu elogio da violência. “Para os ideólogos, para
os professionels de la pensée, Sorel diria a todos aqueles que foram ao socialismo através
dos modos de sentir, [que] ele concebe a revolução socialista como uma questão pura e
simplesmente de “força”. A ideia de “violência” então os faz tremer”15 .
Após a menção a Sorel, Mussolini cita uma passagem de Marx. Não era Marx, recorda
aos seus leitores, quem bradava em 1848 “somos terroristas”? E, de fato, Mussolini encontra
uma perfeita passagem para endossar seu ponto de vista. Diz Marx: “Não só os socialistas
não podem desaprovar certos atos comumente chamados de vandalismo, mas quando tais
são dirigidos contra pessoas ferozes ou contra edifícios aos quais as memórias odiosas se
reconectam, os socialistas devem assumir a direção” ([?], grifos do autor)16 . Ainda sobre
este particular, importa destacar uma outra passagem de Marx. Ainda em 1848, ele escreve
pela Neue Rheinische Zeitung No. 136: “(. . . ) o canibalismo da contra-revolução mostrará
às nações que existe apenas uma maneira pela qual a agônica morte da velha sociedade e
o aflitivo nascimento sangrento da nova pode ser encurtado, simplificado e concentrado
— isto é, através do terror revolucionário” (MECW, vol. 7 ([1848] 1977, p. 506, grifos do
autor)).
Nota-se então que uma das maiores preocupações de Mussolini em sua fase socialista
era encontrar elementos teóricos — morais, sobretudo — que autorizem a insurreição
violenta do proletariado profetizada por Marx. Não é demais insistir que Mussolini buscava
em Marx não apenas uma análise teórica da realidade social, como também elementos
normativos para a ação política. Foi isso que acabou aproximando-o da heterodoxia do
sindicalismo revolucionário.
14
Mussolini, “Intorno alla notte del 4 agosto” (1904), Opera, Vol. I, p. 63.
15
Mussolini, "La teppa” (1904), Opera, Vol. I, p. 93.
16
Até a finalização deste artigo, não foi possível localizar esta passagem. Deste modo, aconselha-se tomar
a autoria como incerta.

8
3 Sindicalismo revolucionário

A influência do marxismo heterodoxo de Georges Sorel e do sindicalismo revolucionário


sobre Mussolini é bem documentada na historiografia17 . Tamanho foi o débito intelectual
do fascismo em relação ao sindicalismo que mesmo seus principais ideólogos, como Giovanni
Gentile, reivindicavam esta herança com certo orgulho. Não há exagero algum quando De
Felice afirma que

(. . . ) a influência mais importante sobre o desenvolvimento de Mussolini


foi o sindicalismo revolucionário. Mesmo após ele ter concluído sua
fase socialista, a influência do sindicalismo revolucionário revelou-se na
maneira como ele concebia as relações sociais e conflitos políticos (De
Felice (1965, p. 40)).

Esta opinião é compartilhada por Gregor, que diz:

(. . . ) é claro que o sindicalismo revolucionário, um marxismo herético,


proveu os argumentos centrais para o fascismo, reunidos por Mussolini
na véspera da paz internacional em 1918. O sindicalismo revolucionário
supriu de conteúdo os elementos sociais que Mussolini empregaria para
[falar da] I Guerra Mundial (Gregor (1979, p. 226)).

O sindicalismo revolucionário italiano, até pelo menos 1907, foi uma facção radical de
esquerda dentro do já radical e de esquerda PSI — os intransigenti, como eram chamados.
Sob a forte influência de Sorel este grupo aproximou-se das ideias revolucionárias de Jules
Guesde18 ao mesmo tempo em que distanciava-se do reformismo de Eduard Bernstein, em
Alemanha, e Ivanoe Bonomi e Leonida Bissolati, em Itália. Este sindicalismo era marcado
pelo questionamento de autoridades representativas, dentro do parlamentarismo ou da
democracia, ao mesmo tempo em que reivindicava a ação direta: ocupação de fábricas,
sabotagens, etc. Dentre seus membros, destacam-se o nomes de Arturo Labriola, Ernesto
Cesare Longobardi e Guido Marangoni, líderes dentro do PSI. É neste ambiente que
17
Cf. Meisel (1950), Drake (2003), Wolin (2004), Gentile ([1974] 2005) e Di Scala & Gentile (2016, p.
145). Além de Mussolini, Sorel foi influente sobre o pensamento de José Carlos Mariátegui, de quem
lê-se, em El alma matinal, o seguinte: “Desde faz algum tempo constata-se o caráter religioso, místico,
metafísico do socialismo. Georges Sorel dizia em suas Reflexões sobre a violência: "Estabeleceu-se uma
analogia entre a religião e o socialismo revolucionário na sua intenção de preparar e até reconstruir o
indivíduo para uma obra gigantesca. Bergson nos ensinou, porém, que não somente a religião pode
ocupar a região do eu profundo: os mitos revolucionários podem também ocupá-la". Como o mesmo
Sorel nos lembra, Renan chamava a atenção sobre a fé religiosa dos socialistas, constatando sua
inexpugnabilidade perante qualquer desalento” Sua fidelidade a Sorel mantém-se ainda no Defensa del
Marxismo (1928-1929), onde fica dito: “Superando as bases racionalistas e positivistas do socialismo
da sua época, Sorel encontra, em Bergson e nos pragmatistas, idéias que revigoram o pensamento
socialista, restituindo-o à missão revolucionária dos seus inícios e da qual tinha sido gradualmente
afastado pelo aburguesamento intelectual e espiritual dos partidos e seus elementos parlamentares,
os quais, no campo filosófico, ficavam satisfeitos com o historicismo mais vulgar e um evolucionismo
mais medroso. A teoria dos mitos revolucionários, que aplica ao movimento socialista a experiência
dos movimentos religiosos, estabelece as bases de uma filosofia da revolução [...]”
18
Guesde foi um dos primeiros seguidores de Marx, com quem trocou correspondências, na França.
Sobre a história do marxismo e do anarquismo na Europa, consultar Lichtheim (1961), Drake (2003) e
Schmidt & Van der Walt (2009).

9
aparece o nome de Mussolini. “Ninguém pode considerar, hoje, Mussolini como alguém
fora do socialismo senão que de forma original ele foi a encarnação destas tendências
insurrecionais, subversivas e publicistas que sempre ocuparam largo espaço dentro da
galáxia do socialismo italiano” (Di Scala & Gentile (2016, p. 137, grifo meu)).
Enquanto o anarquismo, nas décadas de 1870 e 1880, era um movimento de artesãos
pobres, como em Suíça, Bélgica e Áustria, ou trabalhadores rurais, na Espanha e Itália,
contra o Estado e a sociedade, o marxismo já havia encontrado uma via segura de atuação
política na forma da social-democracia no ano de 1864. Por volta da década de 1890
o marxismo estava circunscrito à Europa central. Na Europa ocidental, especialmente
ao sul, o marxismo concorria com ideias anarquistas, com especial destaque para os
seguidores de Proudhon, Blanqui e Bakunin. Ao anarquismo sucedeu outra expressão
revolucionária: o sindicalismo. Expressão duma sociedade industrializada (ou em processo
de industrialização), o sindicalismo encontrou refúgio em França, Itália, Espanha e até
mesmo nos EUA19 .
Apesar da herança anarquista, o movimento sindicalista na Itália era também, a
seu modo, uma heterodoxia marxista. O sindicalismo revolucionário contribuiu para a
divulgação de ideias marxistas ao mesmo tempo em que representava potencial ameaça
aos líderes socialistas mais alinhados com a social-democracia ou com o reformismo. Ainda
assim, é importante notar que a partir de 1880, seguidores do anarquismo, bem como
partidários socialistas do segmento anti-autoritário, estreitaram laços com Marx20 . Este
novo ambiente era diferente do que aconteceu em 1860, quando Marx poderia ser visto como
a antítese, no movimento revolucionário, das ideias de Proudhon; e também do que ocorreu
em 1870, quando poder-se-ia especular se havia uma escolha entre uma versão autoritária
e uma libertária dentro do socialismo. O que acontece a partir de 1880 é que as distintas
variações do socialismo revolucionário encontraram em Marx sua principal referência
teórica. A terminologia marxista tornou-se a língua franca dos principais movimentos
revolucionários por vir, dentre os quais, e o mais importante nesta análise, o sindicalismo.
Após cinco anos como sindicalista, Mussolini publica pelo Il popolo uma resenha sobre
o livro La teoria sindacalista de Giuseppe Prezzolini. O destaque deste artigo fica por conta
das distinções que Mussolini estabelece entre sindicalismo e socialismo21 . Segundo conta, o
sindicalismo estaria para o socialismo assim como o filho estaria para o pai. No entanto,
19
O sindicalismo revolucionário foi mais forte em França e Itália, muito embora Gervasoni afirme que
este movimento espalhou-se pela Europa, Ásia e América Latina. O autor ainda observa que este
sindicalismo manteve-se ativo, na Itália, mesmo após o fim da I Guerra. Prova disso é que Unione
sindacale italiana passou de 80,000 associados, em 1912, para 800,000, em 1920.
20
Lichtheim (1961, p. 224) recorda que o sindicalismo começou a distanciar-se da doutrina marxista
tão logo as aspirações autoritárias da Revolução Russa começaram a manifestar-se. Note-se, contudo,
que isso não resultou em uma aproximação ao modelo parlamentarista ou democrático de organização
política.
21
Mussolini trata deste tópico também em “Pagine rivoluzionarie” (1904), onde faz breve resenha do
livro Palavras de um revoltado, de Kropotkin.

10
pontua: o socialismo é um problema humano, cuja ética orbita o cristianismo com um
pequeno, embora perceptível, matiz utilitarista; enquanto expressão política, o socialismo
busca desenvolver-se progressivamente por dentro do Estado, apoiando-se no Parlamento.
Do outro lado, o sindicalismo trataria exclusivamente do proletariado; é anti-Estado e
anti-parlamentarista por excelência; sua missão é criar novos caracteres, novos valores, os
homines novi, enfim.
Emílio Gentile ([1974], 2005) enxerga em Mussolini uma acentuada influência do
Übermensch de Nietzsche. Isso seguramente é compatível com sua concepção de atuação
política e que a revolução deveria ser conduzida por um grupo muito especial de indivíduos.
A este grupo, e somente este, estaria reservado o uso da violência. Note-se, todavia, que
as críticas ao socialismo na passagem acima dizem respeito ao modelo supostamente
reformista do PSI. Para Mussolini, somente um partido radical ao estilo do sindicalismo
poderia satisfazer as doutrinas de Marx.
Por outro lado, percebe-se também o distanciamento inicial de Mussolini em relação à
ortodoxia marxista na forma do determinismo econômico. Em vez das “leis inescrutáveis”
às quais o socialismo do PSI estava submetido, o sindicalismo (de Sorel, frise-se) seria o
responsável por privilegiar a vontade e a determinação do homem. Caberia a este agente
deixar a marca de sua força modificadora sobre as coisas ou sobre as instituições que o
cercam22 . Esta observação não é trivial. Mussolini não tem em mente o ser humano em
geral — muito menos o “homem comum”, pelo qual sempre teve desprezo —, mas sim a
elite revolucionária. Ao deixar de lado o determinismo econômico Mussolini conseguirá
resolver, nos próximos anos, o problema da atuação política do Partido do qual falava
Engels em 1847. Por sinal, já aqui Mussolini argumenta que a principal diferença entre o
socialismo e o sindicalismo é a tática: o socialismo, emenda, opta por reformar em benefício
da conservação; o sindicalismo “combate construindo”; o socialismo preza por acordos
entre as classes sob a égide do Estado; o sindicalismo persegue a destruição do Estado23 .

As grandes transformações sociais são consagradas pelo sangue dos


homens que defendem o velho mundo e os homens que desejam derrubá-
lo. Os trabalhadores não acreditam quebrar as cadeias de sua servidão
econômica sem sacrifícios; Em vez disso, eles se preparam para ensaios
difíceis e deixam as previsões corajosas, o otimismo evangélico para os
poucos românticos e o sentimentalismo feminino24 .

O apreço pelo sindicalismo revolucionário, porém, seria irreparavelmente abalado em


1910 quando torna-se público a aliança de Sorel com o Action Française de Charles Maurras.
Na França, o Action Française era talvez a mais forte expressão política do nacionalismo
emergente do Caso Dreyfus. Sob a ótica do socialismo marxista, este grupo representava
o ressentimento típico do pensamento reacionário. Sorel não seria o último militante a
transitar da extrema esquerda para a extrema direita, como será dito ao longo deste texto.
22
Mussolini, “La teoria sindacalista” (1909), Opera, Vol. II, loc. cit.
23
Ibid. p. 26.
24
Ibid. p. 27.

11
O gesto de Sorel foi recebido em Itália como um ato supremo de traição. Mussolini
até então ainda era um convicto internacionalista. Por outro lado, esta foi também uma
oportunidade política para ele. Como destacam Di Scala & Gentile (2016, p. 143), Mussolini
mirou no sindicalismo como uma estratégia política para fortalecer sua imagem socialista.
Ele empregou sua força política contra os sindicalistas no Congresso de Bologna, em
dezembro de 1910. Mussolini questionava agora a ortodoxia do movimento sindicalista, como
ele expressa em “L’ABC sindacale”25 . E ainda mais: era para ele evidente que mesmo Sorel
não prescrevia táticas de ação revolucionária. O distanciamento do sindicalismo refletia
uma honesta posição de Mussolini, mas também representava suas táticas pragmáticas
e oportunistas. No primeiro sinal de fraqueza dentro do sindicalismo, Mussolini soube
apresentar-se como o mais ortodoxo dos revolucionários26 . É importante perceber, todavia,
que o oportunismo de Mussolini não pode ser explicado (ao menos, não inteiramente) em
função de uma suposta obsessão pelo poder. Não faria muito sentido acercar-se de um
grupo pouco expressivo no cenário político italiano, como era o caso do sindicalismo.
Em 1904 Mussolini já percebia que suas aspirações revolucionárias não seriam plena-
mente satisfeitas pelo PSI. Em 1910 ele percebeu que o sindicalismo também não respondia
a suas exigências. Para onde ir? Não lhe restava outra opção: o Partido haveria de surgir
de sua própria pena.

4 A elite do Partido

Até a elaboração das diretrizes políticas do Partido Nacional Fascista, em 1919, Musso-
lini ainda precisava avançar nalguns tópicos importantes sobre a organização partidária. A
razão para isso é que para quase toda sua geração de revolucionários restava ainda entender
como compatibilizar o determinismo econômico — o inevitável colapso do capitalismo
e o nascimento revolucionário da nova sociedade — com a atuação militante. Ora, se a
revolução já está inscrita na história do desenvolvimento humano, então era desnecessário
haver qualquer tipo de participação militante. Por outro lado, pensa o militante consigo,
sem a atuação política, como a classe trabalhadora, inculta e amorfa, tomará conhecimento
de sua missão? Marx & Engels já estavam cientes deste dilema em 1848. Mussolini resolveu
este dilema de uma maneira até mesmo engenhosa: ele simplesmente negou este postulado.
Na Alemanha, este dilema foi herdado pelo partido social-democrata de Kautsky, cujas
ideias o levaram em direção à centralidade do Partido. Na Rússia, Lenin seguiria caminho
similar, apesar das suas objeções a Kautsky. Começava a haver uma convergência na
doutrina socialista marxista: ainda que a revolução fosse inevitável, seria necessário haver
uma cooperação dentro do Partido entre o proletariado inculto e os intelectuais burgueses
25
Mussolini, “L’ABC sindacale” (1910), Opera, Vol. III.
26
Cf. Di Scala & Gentile (2016, p. 144).

12
esclarecidos. Essa visão elitista era compartilhada por Mussolini, muito embora seja incerto
dizer que Kautsky foi sua inspiração. Deste modo, o leitor encontra no “La teppa” (ou
seja: já em 1904) a alegação de que “o povo” sempre foi uma criança ingênua. Não poderia
ser esta, portanto, a portadora da chama revolucionária, muito embora a sociedade futura
a ela fosse destinada. Sucede então que esta mesma criança deveria ser conduzida à razão
por uma elite 27 proletária, nas palavras do autor (incluindo a ênfase).
O leitor não deve ignorar a semelhança patente entre o argumento de Mussolini e
aquele de Lenin em Que fazer? (1902), obra de reconhecida importância doutrinária para
o bolchevismo e futuro marxismo-leninismo28 . A concepção de partido em Lenin, porém,
já havia alcançado um nível de desenvolvimento e organização ainda não vislumbrados por
Mussolini. Lenin argumenta, por exemplo, que o desenvolvimento da consciência política na
classe trabalhadora não poderia depender apenas dos fatores econômicos. Apesar da luta
de classes, diz ele, “empurrar” os trabalhadores a perceber o antagonismo em relação ao
governo (burguês, supõe-se pelo contexto), os socialistas nunca serão capazes de desenvolver
esta consciência dentro deste cenário. A consciência política, conclui, somente pode ser
trazida à classe trabalhadora a partir de fora, numa esfera mais ampla, onde todas as
classes comungam. Daí os socialistas podem apresentar-se como teóricos, propagandistas,
agitadores e organizadores (LCW, Vol. 5 ([1902] 1961, pp. 421-425)).
Lenin insiste, porém, no caráter profissional destes líderes. Em comentário à situação
alemã, ele nota que os socialistas ali acumularam experiência suficiente para perceber
que sem umas dezenas de líderes talentosos e bem treinados, trabalhando em harmonia,
nenhuma classe poderia receber a devida recompensa por sua luta. E Lenin pontua, entre
parênteses: “homens talentosos não nascem às centenas” (LCW, Vol. 5 ([1902] 1961, p.
461, grifo meu)). Embora esta última frase seja trivialmente verdadeira, Lênin se refere
aos líderes da revolução.
Tanto Lenin como Mussolini compreendiam que o processo revolucionário deveria ser
guiado por uma elite intelectual — por vezes egressa da própria burguesia. Eis porque
o jovem italiano demonstrava tamanho descontentamento em relação à condução de seu
partido que, de um lado, não reconhecia plenamente a necessidade da violência e, de outro,
não possuía uma política rígida para seus quadros na militância. Como observa Gregor, o
partido revolucionário, bem como os intelectuais responsáveis por suprir suas teorias sociais
e formular suas táticas, era responsável por liderar as massas e persuadir aqueles que ainda
não comungavam dos mesmos valores e ideias. Investido de tamanha responsabilidade, o
partido dos intelectuais assumiria a obrigação histórica de criar e manter uma estrutura
forte e centralizada, cuja principal missão era defender a ideologia do próprio partido
(Gregor (2009, p. 123)). Em outras palavras: o Partido não oferece apenas uma solução
27
Cf. Mussolini, “Discussioni Socialiste” (1912) Opera.
28
A edição consulta encontra-se no Vol. 5 do Lenin Collected Works (doravante LCW ), organizada por
victor jerome.

13
para questões sociais: ele é o único portador da verdadeira compreensão da realidade
humana29 .
Em 1908, em “L’Attuale momento politico”, Mussolini reconhecia haver uma crise no
PSI similar à que viva o partido social-democrata, na Alemanha. Note-se, porém, que
o problema para Mussolini era a organização política — a presença de revisionistas e
pequeno-burgueses — e não a ideologia por detrás. “O Partido Socialista pode morrer
ou, pelo menos, mudar as formas de sua organização atual, mas não o socialismo30 ”. Em
1910 Mussolini escreve em “Il socialismo degli avvocati,” sobre a necessidade em limpar
o PSI de seus quadros reformistas e pequeno-burgueses. O ímpeto de tais observações,
assim como a própria terminologia, ainda é a do marxista dos primeiros anos. Apesar das
duras palavras, Mussolini não poderia ignorar a possibilidade de abandonar o PSI, uma
vez que o séquito reformista havia triunfado no recente congresso de Milão. Porém, se por
um lado seu futuro no PSI era incerto, restava-lhe agora a possibilidade de criar um novo,
e genuíno, partido revolucionário (Cf. Di Scala & Gentile (2016 p. 143)).
O principal acontecimento neste arco investigativo foi a I Guerra. Agora, uma análise
das consequências psicológicas e sociais deste evento para o socialismo marxista encontra-se
fora do escopo deste artigo. Ainda assim, Donald Sassoon traça um quadro geral que
merece o registro:

A guerra que teve início em 1914 era amplamente esperada. Em muitos


países, fora até mesmo bem recebida. As rivalidades imperialistas, a
corrida armamentista, o inexorável desmoronamento do Império Otomano,
criando um novo vazio político no Mediterrâneo Oriental, o crescimento do
nacionalismo — que foi especialmente destruidor para o Império Austro-
Húngaro —, a visível fraqueza da Rússia (derrotada pelo Japão em 1905)
e um complexo e instável sistema sistema de alianças contribuíram para
a irrupção da guerra depois que a bala disparada por Gavrilo Princip
atingiu a veia jugular do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo,
em 28 de junho de 1914 (Sassoon (2009, p. 31)).

A guerra também foi bem recebida por alguns intelectuais e artistas. Os futuristas,
em especial, glorificavam a guerra e a violência. Esta seria uma maneira de abalar as
“convenções burguesas”: o liberalismo, o parlamentarismo e o pacifismo (Cf. Sassoon (2009,
p. 35)). Não por acaso o futurismo foi um dos elementos culturais assimilados pelo fascismo,
como ficará dito na seção 5.
Neste contexto (mas não exatamente por causa dos motivos acima), a bancada parla-
mentar do Partido Social-Democrata de Kaustky apoiou, por unanimidade, a entrada da
29
Novamente, pode-se estabelecer um paralelo entre Lenin e Mussolini, mais sutil, diga-se. O texto
Que fazer? traz como epígrafe uma frase de Lassalle sobre como deveria ser a organização do partido
socialista — principal preocupação de Lenin neste texto. O trecho aparece numa carta de 1852
endereçada a Marx, onde lê-se: (. . . ) “as lutas do partido dão-lhes força e vitalidade; a maior prova de
sua fraqueza é sua difusão e a confusão de demarcações claras; um partido tornar-se mais forte ao
purgar-se” (. . . ).
30
Mussolini, “L’Attuale momento politico” (1908), Opera

14
Alemanha no conflito. A mesma posição foi adotada pelos socialistas da França, Bélgica e
Áustria. O PSI, porém, optou pela cautela. Esta mesma cautela foi adotada por Mussolini
nos primeiros meses31 .
O intervencionismo logo fez-se notar. E era um grupo ruidoso. Dentre seus primeiros
representantes, à esquerda, encontrava-se Leonida Bissolati e Gaetano Salvemini. Bissolati,
vale dizer, foi o primeiro editor do Avanti!, principal periódico do PSI, de 1896 a 1904, sendo
expulso do partido em 1912. Não muito tempo depois, fundou o Partito Socialista Riformista
junto com Ivanoè Bonomi e em 1916 integrava o governo. À direita, o intervencionismo
era o resultado do cada vez mais forte nacionalismo. E mesmo Dom Luigi Sturzo, o padre
que fundaria o Partito Popolare Italiano, em 1919, era intervencionista (Cf. Sassoon (2008,
pp. 41-43)).
Qual justificativa Mussolini encontrou para seu intervencionismo? Como foi dito na
seção 1, o socialismo marxista não possuía uma resposta unívoca sobre quais acontecimentos
poderiam resultar numa revolução proletária genuína. Em 1911 isso ficou evidente no PSI:
os intervencionistas daquela época teimavam em dizer que uma guerra da Itália contra
o Império Otomano poderia promover condições suficientes para a Revolução32 . Mesmo
Mussolini interpretou as insurreições da La settimana rossa, em 1914, como o prelúdio da
Revolução33 . Não era, portanto, um absurdo pensar a I Guerra como um acontecimento
revolucionário, ou pelo menos o evento ao qual sucederia a Revolução.
Uma explicação convincente é oferecida por De Felice. Segundo ele, Mussolini aproximar-
se-ia do intervencionismo sobretudo a partir dum artigo de Panunzio, “Il lato teorico e il
lato pratico del socialismo”, publicado em um novo periódico socialista de Mussolini, o
Utopia 34 . Panunzio argumentou neste artigo que apesar dalgumas vitórias pontuais do PSI,
a causa revolucionária mantinha-se estagnada. Ele criticou o antimilitarismo do PSI sob
a alegação de que a guerra poderia criar as condições para a revolução na Europa. Bem
entendidos, disse, o antimilitarismo e o pacifismo eram atitudes conservadoras a serviço do
status quo. Além disso, o neutralismo agora deveria enfrentar outro desafio: a invasão da
Bélgica pela Alemanha. Era cada vez mais evidente que a guerra fragmentou, ao menos
parcialmente, o socialismo marxista. O apoio de Guesde, Vandervelde e Kautsky era a
prova definitiva. E Panunzio ataca:

Nós temos o raro privilégio de vivermos no período mais trágico da


história do mundo. E nós pretendemos ser — como homens e socialistas
— espectadores desamparados deste grande e dramático evento? Ou
desejamos ser — de algum modo e em alguma direção — os protagonistas?
31
Cf. Mussolini. “Un blocco rosso?” (1914), Opera.
32
O ano de 1911 foi marcado pela guerra entre a Itália e o Império Otomano pelo domínio sobre a
Líbia. Para o PSI a questão era saber a Itália deveria envolver-se em tal confronto. Filipo Turati,
que pertencia à ala reformista, argumentava que o imperialismo era, não obstante suas consequências
humanitárias, uma necessidade no processo de desenvolvimento do capitalismo e, portanto, poderia
aproximar a revolução. Mussolini (que estava preso nesta ocasião) seguiu o neutralismo do PSI durante
todo o episódio. Sobre estes acontecimentos, consultar Drake (2003, cap. 5).
33
Cf. Mussolini, “La settimana rossa” (1914), Opera, Vol. V.
34
Em 1914 Mussolini era o editor da revista Avant!, um posto de relativo prestígio no PSI.

15
Socialistas da Itália, cuidado: já aconteceu no passado de a “letra” ter
assassinado o “espírito”. Evitemos salvar a “letra” do partido se isto
significa matar o “espírito” do socialismo!35

Segundo a interpretação de De Felice, este foi o texto decisivo para a mudança de postura
de Mussolini e o simples fato de ele aceitar publicar o texto já seria um indício em favor
disto36 . Portanto, seja qual for o motivo para a repentina transformação de Mussolini,
pode-se interpretar sua posterior defesa do intervencionismo como consequência duma
crise política acompanhada por uma nova orientação para seu marxismo37 .
Em 18 de outubro, Mussolini escreve “Dalla neutralità assoluta alla neutralità attiva
ed operante”. Esta foi sua primeira manifestação pública em favor da intervenção italiana.
O argumentos apresentados assemelham-se aos de Panzunzio. É dito que a neutralidade é
reacionária e somente contribui para o conservadorismo. Apoiando-se na autoridade de
Marx, Mussolini tentava persuadir seus aliados de que a guerra era um meio legítimo de
promover a agitação necessária para a Revolução. Em paz com sua consciência, seguro que
a guerra poderia, de fato, promover a revolução, Mussolini precisava agora enfrentar seu
companheiros. É que após este artigo, todo o grupo do Avante! sentiu-se ultrajado pelo
gesto. E então, diante do cenário pouco favorável, no dia 21 de outubro, Mussolini deixa a
direção do Avanti! No mês seguinte, ele inicia o Popolo d’Italia. Esta revista concentrava
em seu corpo editorial Corridoni, De Ambris, Edmondo Rossoni, Michele Bianchi e Ottavio
Dinale, companheiros da época do sindicalismo.
É verdadeiro dizer que a atuação socialista de Mussolini pelo PSI encerrou-se em 1914,
mas não sua militância socialista e muito menos suas conexões com Marx. Ao contrário: é
o radicalismo de suas ideias marxistas que o colocou em confronto direto com a direção
do PSI38 . Era seu apelo à violência revolucionária que cada vez menos encontrava espaço
entre seus companheiros. E ele fazia questão de acentuar este fato:

Bem, aceitamos a luta de classes agressiva, direta e violenta. É por isso que
não nos envolvemos com assuntos republicanos. Se fôssemos republicanos,
o problema institucional tornar-se-ia preeminente e prejudicial para nós,
de sorte que orientaremos de outra maneira toda a nossa atividade39 .

Uma síntese muito razoável dos acontecimentos é oferecida, mais uma vez, por De
Felice. Ele argumenta que a defesa do intervencionismo foi a mais radical transformação
ideológica de Mussolini. Ao afastar-se o PSI, Mussolini tomava consciência, cada vez mais,
da importância da elite do Partido em vistas da Revolução.

Ao deixar o Partido Socialista, e apesar de ainda chamar a si mesmo de


socialista e proclamar seu socialismo aos socialistas que o expulsavam,
em Milão, e apesar do que era lido no subtítulo de seu novo jornal —
35
Panunzio, “Il lato teorico e il lato pratico del socialismo”, Utopia, 2, 7-8 (1914, p. 201).
36
De Felice (1965, p. 195). Esta avaliação é compartilhada por Gentile ([1974] 2005, pp. 20-26).
37
Cf. De Felice (1965, p. 287)
38
Cf. Gentile ([1975] 2005).
39
Mussolini, “Intermezzo polemico lotta politica e lotta di classe” (1914), Opera, p. 279.

16
“um periódico socialista” —, com sua saída do partido Mussolini fez,
sem dúvida, uma escolha: ele escolheu as elites. Até então ele falava para
o proletariado, o proletariado socialista, em particular, e todo o corpo
proletariado, em geral, tentando obter um movimento numa direção
unificada. Se ele percebeu ou não, sua posição em favor da intervenção
mirava as massas proletariadas, mas, sobretudo, as elites revolucionárias,
tanto proletária quanto burguesa (De Felice (1965, p. 284, grifos do
autor)).

Quando a Itália entrou na guerra e o PSI, incluindo o braço reformista, opôs-se a


esta decisão, Mussolini percebeu que tinha perdido sua batalha final contra o antigo
partido. Tamanha foi a devastação deste acontecimento que o resultado não poderia ser
outro: em novembro, dia 24, Mussolini é formalmente expulso do PSI. A partir daquele
momento, os socialistas tornar-se-iam seus maiores inimigos40 . Portanto, ao divórcio do
PSI e do sindicalismo não sucedeu uma rejeição do marxismo, mas, o preciso contrário,
era o movimento bem calculado de quem percebia que seu radicalismo não poderia ser
satisfeito em tais movimentos.
Esta convicção ideológica poderia ser a razão parcial para o alistamento de Mussolini
poucos meses depois da expulsão. Ele esperaria encontrar no front, para onde foi enviado
em setembro de 191541 , os indícios da tão esperada Revolução. O que ele de fato encontrou,
porém, foi um elemento que o ajudaria sedimentar o fascismo: o nacionalismo.

5 Nacionalismo e socialismo nacional

O forte sentimento nacionalista é um componente típico do totalitarismo. É a iden-


tificação do destino dos indivíduos ao da Nação-Estado. Em Mussolini este sentimento
mostrou-se timidamente em 1909, em seus primeiros encontros com Cesare Battisti. Como
será dito adiante, a morte de Battisti em 1916 foi um episódio muito importante na
transformação psicológica de Mussolini, seja por sua cada vez maior rejeição ao socialismo
do PSI, seja por tornar o conceito de nação central em suas formulações doutrinárias.
Mussolini enxergava a I Guerra como uma oportunidade para a união, desenvolvimento
e integração da Itália. Viu-se que esta interpretação da guerra como uma oportunidade era
compartilhada por setores do socialismo marxista. Todos os socialistas que reivindicavam o
intervencionismo consideravam a guerra como um episódio intrinsecamente revolucionário42 ,
cujo resultado seria a derrota da reação conservadora pelas forças sociais conjuradas pelo
conflito43 . Assim, entre fevereiro de 1917 e novembro de 1918 Mussolini voltou-se para suas
40
Cf. Di Scala & Gentile (2016 p. 150).
41
Cf. De Felice (1965, p. 321).
42
Mussolini manteria esta opinião durante toda a guerra. Cf. Mussolini, “Produrre per vincere” (1917),
Opera, X, p. 99.
43
Cf. Gregor (1979, p. 205) e Drake (2003, pp. 128-129).

17
atividades teóricas, das quais resultaria uma primeira síntese do pensamento fascista44 .
Nesta nova fase o conceito de nação45 , antes marginal à época do PSI, torna-se um elemento
central em seus escritos.
Ora, se a nação deveria integrar todos os italianos, o proletariado deveria ser entendido
como um subgrupo desta nação. A luta de classes, essencial no marxismo, começa a ser
gradativamente diluída. “Para Mussolini”, afirma Gregor, “o socialismo do futuro poderia
ser apenas um socialismo nacional, no qual todos os elementos da população encontrariam
seu lugar, uma representação dos seus interesses fundamentais, um objeto de lealdade
prima facie” (Gregor (1979, p. 210, grifos do autor)). Ao contrário do que dizia na época
do Avante!, não eram mais os fatores econômicos, os meios de produção, que deveriam
guiar o destino dos indivíduos em vistas da Revolução. Somente o credo na nação poderia
assegurar uma unidade aos povos, um objetivo coletivo. Neste novo panorama ainda em
desenvolvimento o papel da classe trabalhadora seria pensada a partir de sua possível
contribuição a esta unidade. Ainda assim, este paternalismo elitista, como já sublinhado,
não era incomum entre socialistas marxistas. Tome-se como exemplo a seguinte passagem
de Hubert Lagardelle, escrita ainda em 1912:

O movimento trabalhista interessa-nos apenas na medida em que é o


portador de uma nova cultura. Se o proletário segue a demagogia ou
o egoísmo, já não possui atração alguma para quem procura os meios
através dos quais o mundo é transformado46 .

Há aqui uma interseção entre Mussolini e alguns dos principais representantes do Action
française, nomeadamente, Maurice Barrès, Édouard Drumont e Charles Maurras. Como
o leitor pode ter percebido, não deixa de ser irônico que Mussolini tenha adotado ideias
que em 1910 o levaram a condenar publicamente o reformismo de Sorel. É preciso notar
que por detrás de uma suposta indeterminação nas ideias de Mussolini, ele possuía uma
percepção intuitiva muito boa de acordo com o timing político. Sua fé marxista era também
ideologicamente subversiva em relação ao mestre em momentos oportunos.
Portanto, embora o nacionalismo fosse presente em Mussolini ao menos desde 1909,
a I Guerra foi de fundamental importância em suas reflexões sobre o conceito de nação.
À parte o sentimento nacionalista do sindicalismo, Gregor faz uma aguda observação
sobre os possíveis efeitos psicológicos da guerra para os italianos. “A guerra dissolveu o
regionalismo e o compromisso a interesses paroquiais que marcaram a expressão geográfica
da Itália após a unificação” (Gregor (1979, p. 210)). Para Mussolini, esta seria a mais
pungente evidência em favor da Grande Itália. Afinal, não existem interesses individuais
ou de classe numa guerra; apenas a defesa patriótica e o enaltecimento da nação. Gregor
recorda ainda que durante esta mesma época outros sindicalistas começariam a assimilar
as mesmas ideias. Nota-se isto em Filipo Corridoni, Olivetti, Sergio Panunzio e Roberto
44
No início de 1917 Mussolini foi gravemente ferido em virtude duma explosão durante um treinamento.
Sequelas deste incidente acompanharam-no durante os anos seguintes.
45
Cf. Mussolini. “Il sangue è sangue” (1915), Opera, Vol. VIII, p. 30.
46
H. Lagardelle, “Les Revues,” Le Mouvement socialiste, no. 243: 153.

18
Michels. Em todos estes autores há também uma reverência a notórios revolucionários
italianos, como Carlo Pisacane, Giuseppe Garibaldi, Andrea Costa e Cesare Battisti (Cf.
Gregor (1979, pp. 223-224)). Acrescente-se aí também o nome de Giuseppe Mazzini47 , o
qual seria reivindicado em várias ocasiões por Giovanni Gentile.
Um importante testemunho desta nova fase é o texto “Battisti!” (1917). O artigo é
uma apaixonada homenagem a Cesare Battisti, morto na guerra em 191648 . As condições
da morte de Battisti bem como o fato de seu corpo ter sido exibido como troféu pelas
tropas inimigas certamente abalaram Mussolini. É visível neste texto o pesar do luto e a
fúria. E toda esta fúria foi direcionada contra os “inimigos da nação”: os socialistas. E
nem mesmo o cristianismo poderia oferecer um refúgio neste momento. A guerra havia
demonstrado, em seu entender, que a crença numa fraternidade entre todos os homens era
falsa.

Essas ideias [cristãs e socialistas] não levaram ninguém ao sacrifício. Eles


sofreram a tempestade em estado de resignação e impotência. Nenhum
cristão ou socialista morreu em nome do cristianismo ou do socialismo.
É de uma aridez espetacular, moral e histórica, o misticismo católico e o
materialismo histórico dogmatizado! Uma ideia é [somente] uma imagem
crepuscular quando não há ninguém disposto a defendê-la ao preço da
própria vida. Cesare Battisti não morreu em nome do cristianismo ou
em nome do socialismo, como é comumente conhecido, compreendido e
praticado: ele morreu em nome da Pátria 49 .

Se é verdade que somente a crença nalguma ordem superior faz um homem sacrificar sua
própria vida, então seria preciso reconhecer agora que esta ordem se realiza dentro do
conceito de nação50 . Segue-se então que toda ideologia internacionalista (viz, o socialismo
marxista) é falsa e potencialmente perigosa à ordem social; deve ser eliminada, portanto.
Imerso nestas reflexões, Mussolini percebia agora como a disciplina militar respondia aos
seus anseios por mobilização política em direção à Revolução. “Uma vez que a integração
nacional tornou-se um objetivo revolucionário, o sentido reduzido na distinção de classes
foi bem recebida como uma consequência do serviço militar” (Gregor (1979, p. 211)). Ao
contrário do profissional revolucionário preconizado por Lenin, Mussolini desejava incubir
em seus seguidores o pétreo sentimento de amor pela nação num ambiente visto somente
47
Em julho de 1871, Marx concedeu entrevista a R. Landor pelo New York World. Eis a sua declaração
sobre Mazzini: “Ele não representa nada melhor que a velha ideia de uma república de classe média.
Não queremos participação da classe média. Ele foi precipitado para a parte de trás do movimento
moderno, bem como os professores alemães, que, no entanto, ainda são considerados na Europa como
os apóstolos do democratismo aculturado do futuro. Eles [os professores alemães] de fato eram, em
certo momento — antes de [18]48, talvez, quando a classe média alemã, no sentido inglês, quase não
alcançara seu desenvolvimento adequado. Mas agora eles [Mazzini e os professores alemães] passaram
para a reação, e o proletariado não os conhece mais”. A entrevista, em inglês, pode ser consultada
neste endereço: <https://www.marxists.org/archive/marx/bio/media/marx/71_07_18.htm>
48
Drake (2003) apontou alguns episódios que poderiam servir como causas psicológicas para a ulterior
ojeriza de Mussolini para com os socialistas. Gregor (1979, p. 227-234) destaca outro acontecimento
importante: diversos camaradas de Mussolini foram mortos na I Guerra. Além de Battisti, Corridoni
também morreu nas trincheiras.
49
Mussolini, “Battisti!” (1917), Opera, Vol. IX, p. 44, grifos do autor.
50
Cf. Mussolini, “Direttive”, Opera, Vol. IX.

19
na guerra. “Sob a pressão de grupos de pares e a resposta mimética ao comportamento
duma liderança forte, homens ordinários suportam as aflições das feridas e o prospecto da
morte com estoica tranquilidade” (Gregor (1979, p. 211)). Sintoma desta nova percepção é
o fato de agora Mussolini não falar mais na vanguarda do proletariado, mas sim duma
aristocracia emergente das trincheiras: a trincerocrazia 51 .
É também dentro deste nacionalismo exacerbado que Mussolini começa a perceber as
intersecções com a elite econômica. Seria responsabilidade da Nação-Estado levar adiante
o desenvolvimento do país, protegendo o parque industrial do país52 . Deve-se destacar,
não obstante, que o interesse primário de Mussolini era a dimensão sociopsicológica da
mobilização das massas e não a dimensão econômica. Daí a importância de figuras como
Olivetti, Panunzio e Michels e a ideia de transvaloração dos valores — evidente influência
nietzscheana conhecida por Mussolini —, que foi bem recebida dentro do modelo de
sociedade futura regida por uma elite esclarecida.
Mesmo após a I Guerra, portanto, Mussolini ainda demonstrava carregar alguns
preceitos marxistas de sua juventude. Note-se, por exemplo, que ele negava com veemência
que a Revolução de Outubro fosse, de facto, o tipo de revolução profetizada por Marx
& Engels53 . Em “Divagazioni pel centenario”, já em 1918, Mussolini recorda as etapas
do desenvolvimento histórico e econômico previstos por Marx para então concluir que os
acontecimentos na Rússia eram não mais que a expressão psicológica de fatores morais. “A
experiência russa não é marxista. Não houve processo marxista na Rússia porque o processo
capitalista [lá] estava no início”54 . O dilema que Mussolini (e, na verdade, a comunidade
socialista) enfrentava era esse: ou a Rússia passava por um genuíno processo revolucionário
sem ter entrado num ciclo de desenvolvimento capitalista (segundo interpretações marxistas
da época a Rússia, assim como o Brasil, era uma sociedade “semi-feudal”) ou, o que
parecia mais compatível com a letra de Marx, toda sociedade deveria seguir “leis” de
desenvolvimento socioeconômico. E como não ocorria a ninguém contestar a letra de Marx,
a conclusão de Mussolini era a de que estes eventos não tinham nada de revolucionário.
Ele se queixava também em relação ao Tratado de Brest-Litovski55 .

Karl Marx nunca foi, a priori, contrário à guerra. Ele não iria para
Zimmerwald56 , ele nunca condenou a guerra sob o tipo de eternidade e
humanidade. Ele não era humanitário. Ao ridicularizar o humanitarismo,
havia um pouco de crueldade prussiana nele, foi o que os saxões chamavam
de stock preusse, com isso: que esta aridez rústica de seu caráter veio a
ser polida na Inglaterra57 .

Mussolini então conclui sua causa: se a guerra pode trazer benefícios ao proletariado —
51
Mussolini, “Pace dedesca, mai! Nelle trincee non si voule la pace tedesca” (1916), Opera, Vol. VIII, p.
272; “Trincerocrazia” (1917), Opera, Vol. X.
52
Mussolini, “Direttive”, Opera, Vol. IX; “Il fucile e la vanga” e “Consenti”, Opera, Vol. XI.
53
Cf. Mussolini, “Viva Kerensky!” (1917), Opera, Vol. IX.
54
Mussolini, “Divagazioni pel centenario” (1918), Opera, Vol. XI, p. 47.
55
Cf. Mussolini, “Dopo Brest-Litovsk. Il cannone ha la parola!” (1918), Opera, Vol. X.
56
Trata-se aqui da Conferência Socialista de Zimmerwald, realizada entre 5 a 8 de setembro de 1915, em
Suíça.
57
Mussolini, “Divagazioni pel centenario” (1918), Opera, Vol. XI, p. 45

20
por meio de reformas e emancipação —, Marx não apenas aprovaria como exaltaria e
invocaria a guerra58 . Estas passagens revelam então que Mussolini havia encontrado uma
síntese para seu agora perfil militarista e nacionalista dentro do marxismo. Recorde-se que
as passagens acima foram escritas após suas reflexões sobre o papel da nação e da elite das
trincheiras. Depreende-se daí que, se por um lado Mussolini era agora um ferrenho inimigo
dos socialistas, ele ainda alimentava esperanças de preservar sua tradição marxista, ainda
que agora radicalmente modificada.
A rejeição ao bolchevismo aliada a um latente “desenvolvimentismo” inseria-se ainda no
marco da Revolução futura. Se o crescimento regular da produção industrial era imperativo
para a Itália revolucionária, então o marxismo ortodoxo da época tornara-se, na melhor das
hipóteses, irrelevante e, na pior, um obstáculo ao desenvolvimento revolucionário. Por meio
deste raciocínio Mussolini começava a perceber a afinidade entre seu projeto e os interesses
do establishment, apesar das ressalvas59 . Ele mirava a burguesia industrial e pensava ser
possível aglutinar esta nova classe e o proletariado sob um interesse comum, de modo a
fomentar o desenvolvimento econômico e industrial da Pátria60 . As conclusões de Mussolini
não eram estranhas ao marxismo, todavia. Em 1915, Arturo Labriola empregou as palavras
de Marx para reforçar a sua audiência da necessidade em promover o desenvolvimento
capitalista na península61 .
Mussolini também falava, ainda em 1918, do novo modelo político italiano. Ele re-
tornava às suas ideias anti-parlamentaristas da época do PSI. Ou melhor: ele encontrou
um acabamento teórico até então inexistente para o anti-parlamentarismo que nunca
abandonou62 . Pensava ele, com efeito, em um sistema científico, do mais alto nível técnico,
composto por representantes de cada nível produtivo da Itália. O parlamentarismo liberal,
em sua opinião, apenas retardava o desenvolvimento da nação63 . Ele agora fala expres-
samente em fechar o Parlamento. O curioso a perceber é que para Mussolini, Woodrow
Wilson, presidente dum país democrático, era um perfeito exemplo de ditador. Não por
ter fechado o Congresso, todavia, mas sim por conseguir da Casa Legislativa a aprovação
de quaisquer decretos64 . Era esse modelo de governo, típico dos tempos de guerra, que
Mussolini começava a incorporar dentre suas ideias.
A I Guerra transformou radicalmente o marxismo heterodoxo de Mussolini. Ele agora
estava seguro que a verdadeira revolução era nacional. Para ele, somente dentro da Nação-
58
Mussolini, “Divagazioni pel centenario” (1918), Opera, Vol. XI, p. 46.
59
Cf. Mussolini, “Dal veccio al nuovo ministero”, Opera, Vol. VIII, p. 234; “Fra il segreto e il pubblico”
(1917), pp. 138-139, “Milano darà un miliardo?” (1918), Opera, X, p. 259.; “Verso la meta”, “La casa
delle parole”, “La finzione”, e "Orientamenti e problemi”, p. 283, Opera, Vol. XI.
60
Cf. Gregor (1979, pp. 216-217).
61
Arturo Labriola “I principii di C. Marx in materia di politica estera”. Apêndice ao La conflagrazione
europea e il socialismo (1915, pp. 209-212).
62
Cf., por exemplo, “La tenda” (1917) Opera, Vol. IX, p. 251.
63
Cf. Mussolini, “La formula” (1917), Opera, Vol. IX, p. 298
64
Cf. Mussolini, “Malessere”, Opera, Vol. X, p. 144.

21
Estado seria possível eliminar (ou pelo menos apaziguar) os interesses individuais e de classe.
E qualquer tentativa de obstrução deveria ser violentamente reprimida. Havia também
a clara percepção de que o Partido deveria seguir um modelo rigidamente militar. Ao
retornar para a Itália, Mussolini encontraria ainda outros elementos para este sincretismo
ideológico.

6 Doutrina fascista e totalitarismo

Em 1919 o fascismo já era um movimento político coeso e razoavelmente bem articulado


desde um ponto de vista ideológico. Sua expressão teórica encontrava-se em publicações do
La lupa, fundado por Paolo Orano, em Itália, que em 1910 reunia os principais nomes do
sindicalismo revolucionário: Arturo Labriola, Agostino Lanzillo, Olivetti e Robert Michels.
O periódico francês Cahiers du Cercle Proudhon, sob direção de Henri Fortin e supervisão
de Charles Maurras, também ajudou a vocalizar estas ideias na Europa. Portanto, antes
mesmo da Marcha sobre Roma, em 1922, o fascismo já era um fenômeno político e cultural
essencialmente europeu. Assim como o socialismo em geral — e o marxista, particular —,
o fascismo pode ser entendido como uma reação aos valores e ideias liberais (que surgiram
ou foram reforçadas a partir) do Iluminismo.
Sternhell, Sznajder & Asheri (1994) observam que o fascismo foi um fenômeno político
e cultural não menos independente, de um ponto de vista intelectual, que o liberalismo e o
socialismo. Estes autores argumentam ainda que o quadro conceitual do fascismo apre-
sentava uma visão anticonformista, vanguardista e revolucionária. E apesar da rivalidade
entre o fascismo e o socialismo, especialmente na Itália, Sternhell, Sznajder & Asheri
insistem em apontar que o fascismo foi uma consequência direta dum tipo de revisionismo
heterodoxo do marxismo. Este revisionismo, como até agora argumentou-se, está associado
com Sorel e o sindicalismo revolucionário que, em ambos os casos, influíram na França e
Itália no início do séc. XX. Há, porém, um elemento do fascismo que nunca foi incorporado
ao socialismo marxista de maneira definitiva: o nacionalismo. É possível dizer, portanto,
que o fascismo resultou duma síntese orgânica entre o nacionalismo com uma revisão
do marxismo cujas aspirações revolucionárias eram movidas por uma radical rejeição de
quaisquer elementos da tradição liberal. A seu modo, tanto o fascismo como o socialismo
marxista desejavam “retificar” uma suposta “desumanização” das relações sociais ao mesmo
tempo que pretendiam preservar a ciência e tecnologia modernas; mostraram-se contrários
ao suposto atomismo das sociedades baseadas em livre-mercado ao mesmo em que se
apropriavam ou conservavam alguns elementos do capitalismo.
Dentro deste quadro, não é difícil entender como o fascismo conseguiu seduzir diversos
revolucionários marxistas à época. Para estes indivíduos, assim como para Mussolini, a
política dos Fasci di Combattimento era a mais fiel representação dos anseios revolucionários

22
da Itália. Não por acaso Enrico Ferri, Guido Podrecca e Nicola Bombacci, líderes socialistas
por anos, logo começaram a seguir o movimento fascista. Eles começariam a perceber
também que este plano exigiria alianças pontuais com o status quo e, quando necessário,
aplicar táticas reacionárias. Portanto, que o fascismo tenha se tornado uma força de
extrema-direita não representou, para estes indivíduos, uma incoerência ideológica; era, ao
contrário, uma etapa indispensável na busca pela Revolução.
O fascismo encontraria alguns representantes da nova aristocracia do combattentismo
entre os futuristas65 . O Manifesto Futurista (1909) de Marinetti seria a síntese deste novo
(e também vanguardista) movimento político: a exaltação do progresso, da vida heróica e
da violência; o prospecto de uma grande guerra libertadora de todo tédio; um romantismo
torpe, enfim. Em 1919 havia também o Associazione Nazionale Combattenti. Esse grupo
político procurava ser a voz dos diversos veteranos da I Guerra que desejavam retomar
às suas respectivas vidas sociais. Os combatentes desejavam reformas inspiradas pelo
sentimento nacional e reivindicavam a abolição de privilégios e oligarquias. Repudiavam,
por outra parte, ideologias internacionalistas que supostamente alienaram a Itália da
realidade.
A mentalidade coletivista desenvolveu-se nesses jovens soldados que até pouco tempo
atrás eram camponeses. Donald Sassoon nota como a guerra foi um teste de companheirismo,
disciplina e coragem. Havia também uma narrativa comum entre estes veteranos baseada
num forte ressentimento em relação aos ricos e neutralistas que conseguiram esquivar-se da
dor e do sofrimento (Sassoon (2009, p. 48)). Não seria equivocado dizer que a ambiguidade
do establishment e a inépcia dalguns liberais ajudaram (indiretamente ou não) Mussolini
a retirar destes grupos muitos dos seus primeiros recrutas. Seja como for, a promessa da
Grande Itália conseguiu convencer muitos destes indivíduos. Emilio Gentile acrescenta:

Uma parte importante dos mitos iniciais do fascismo veio destas minorias
que queriam ter uma revolução através da glorificação da guerra e da
vitória na luta contra seu oponentes, sobretudo os neutralistas e socialistas.
O papel das massas não foi excluído da nova ordem destas minorias,
mas como sentiam que a maioria dos combatentes ainda não havia
assimilado o espírito revolucionário da guerra e ainda não estaria pronta
para subverter a ordem existente e plantar um novo regime, esta tarefa
pertenceria à vanguarda, aos “aristocratas de espírito lutador” do Arditi 66 ,
aos futuristas, aos seguidores de D’Annunzio (Gentile ([1974] 2005, p.
76)).

Porém, nem mesmo os arditi tinham plena consciência do que desejavam enquanto
organização política. Havia um sentimento generalizado de recusa do sistema político e
talvez alguma desorientação causada pela guerra. Os arditi formavam um grupo heterogêneo,
todavia: muitos eram ex-presidiários, alguns anarquistas; havia os intelectuais proletários
65
Cf. De Felice (1965, p.249).
66
O nome designava, na I Guerra, uma unidade de ataque especial que assumia as principais missões
de alto-risco. O grupo era representado perante a opinião pública pelo Ardito, jornal do Associazione
arditi d’Italia, criado por Mario Carli, o qual passou às fileiras do fascismo pouco depois da Marcha
sobre Roma.

23
e membros da classe média. Um exemplo deste perfil era Edmondo Mazzucato, que iniciou
a vida política como anarquista e acabou como um dos primeiros fascistas. O que unia
estes indivíduos tão diferentes era a experiência da guerra67 . Os arditi, mais do que
uma (pretensa) ideologia, representavam um estilo de vida baseado em comportamentos
ritualísticos e simbólicos de glorificação da guerra, da autoridade militar e da rejeição
dos valores liberais moderados. E estes elementos foram incorporados pelo fascismo: as
camisas-pretas, a postura militar e até mesmo o hino dos arditi, “Giovinezza” (Juventude),
tornou-se o hino oficial do Partido Fascista.
Mussolini subiu ao poder com a firme convicção de que o fascismo era uma legítima
manifestação revolucionária. E a própria escolha do nome deveria reforçar esta simbologia.
A palavra “fascio” entrou no léxico político no séc. XIX a partir do Risorgimento e foi
preservado em movimentos camponeses e operários, sobretudo na Sicília (os fasci siciliani).
Já em 1914-1915, os sindicalistas revolucionários que desejavam a intervenção italiana
formaram o Fascio Rivoluzionario d’azione Internazionalista. Portanto, a promessa de
Mussolini a partir de 1919 pode ser interpretada como o resgate da Grande Itália de
Giuseppe Mazzini através de uma grande marcha para o futuro.
O conceito de revolução, como ficou demonstrado, atravessa todo este arco da vida
política de Mussolini. Mas, que tipo de revolução? Mussolini seguramente sabia que este
termo já não significava em 1919 a mesma coisa que em 1904. A Marcha de 1922 não foi
acompanhada por um banho de sangue, como tanto esperava nos tempos do PSI. A razão
para isso é que também o conceito de violência foi realocado.
Giovanni Gentile parecia estar ciente desta ambiguidade e tratou de esclarecer em 1929
qual tipo de revolução o fascismo representava:

(. . . ) uma revolução portadora de uma ideia, uma vontade e um Líder.


Tudo começou com a guerra, declarada de uma maneira que já havia
ferido mortalmente o Parlamento, reduzindo a escombros as objeções
legais que obstruiam a realização da vontade nacional profunda de uma
pessoa que buscava a dignidade e poder de sua nação.// A revolução
foi perseguida e feita com energia até o objetivo ter sido alcançado. As
ilegalidades de um período de quatro anos (1919-1922) constituiram a
condição necessária da manifestação da vontade nacional — até 22 de
outubro de 1922, quando o velho Estado foi varrido de lado pelo ímpeto
da nova fé e o Fasci tornou-se a nova Itália68 .

Pode-se alegar, naturalmente, que esta não era o tipo de revolução profetizada por
Marx & Engels69 . Ao eleger a nação como o agente transformador da sociedade, Mussolini
teria abandonado, em definitivo, os principais elementos do marxismo. E ainda assim, o
nacionalismo foi um fantasma que assombrou o socialismo marxista por muitos anos, como
67
Cf. De Felice (1965, p. 478)
68
Gentile, “Origini e dottrina del fascismo”, 1929, apud Gregor (2002, p. 19).
69
Eugen Weber apresenta uma visão alternativa em “Revolution? Counterrevolution? What revolution?”
(In: Laqueur (1976, cap. 12))

24
a história da URSS de Stálin poderia confirmar. Mussolini deixou de lado a revolução
violenta da qual tanto falava nos tempos do PSI. E no entanto, Engels reconhecia em
1847 que uma revolução pacífica era preferível a uma sangrenta. Seria possível dizer que o
maior pecado de Mussolini foi abandonar a luta de classes. Mas, nem mesmo o acordo
com o establishment (que não parece tê-lo compreendido verdadeiramente) foi justificado
sob sua orientação marxista. Uma solução definitiva para estas questões não poderia ser
apresentada aqui.
A passagem de Mussolini da extrema esquerda para a extrema direita foi uma transfor-
mação gradativa e somente a partir de 1919 a influência marxista começa a ser diluída.
Voltando a Gentile, ele oferece talvez a melhor descrição da origem da ideologia fascista e
sua relação com o marxismo:

É bem conhecido que o sindicalismo soreliano, do qual emergiram o


pensamento e o método político do fascismo, se considerava o intérprete
genuíno do comunismo marxista. A concepção dinâmica da história, na
qual forças como a violência funcionam como uma [parte] essencial, é de
origem inequivocamente marxista70 .

E Gentile emenda: foram estas as noções que influíram em outras correntes que
igualmente reivindicam esta (nova) forma de Estado. Em 1929 esta era uma afirmação
verdadeira sobre o Action Française de Charles Maurras, o nacional socialismo de Hitler e o
comunismo de Stálin. O marxismo, é verdade, tornou-se o maior inimigo do fascismo. Mas
a queixa principal dos seus ideólogos, Gentile, por exemplo, era em relação à concepção
materialista por detrás do marxismo. Este seria o maior impedimento para o ser humano
perceber a nação como uma ideia superior, além de toda forma de individualismo.
Em 1933 Mussolini retornaria a estas reflexões em “La dottrina del fascismo” para
dizer:

O mundo do fascismo não é esse mundo material que aparece na superfície,


onde o homem é um indivíduo separado de todos os outros e é governado
por uma lei natural que instintivamente leva-o a viver uma vida de prazer
egoísta e momentâneo. O homem do fascismo é um indivíduo que é uma
nação e um país, uma lei moral que retém indivíduos e gerações numa
tradição e em uma missão, que suprime o instinto da vida fechada no
curto turno de prazer para estabelecer no dever uma vida superior livre
do tempo e limites espaciais: uma vida em que o indivíduo, através da
abnegação, o sacrifício de seus interesses particulares, mesmo a morte,
percebe a existência espiritual em que é seu valor humano71 .

A experiência proporcionada pelo fascismo, continua Mussolini, só foi experienciada


uma outra vez: durante sua militância socialista entre 1903 e 191472 . Estas foram as
palavras do Il Duce em 1933, quando o mundo já não tinha mais dúvidas sobre a natureza
do regime fascista. Na verdade, Mussolini tinha consciência de que “um partido que
70
Gentile, “Origini e dottrina del fascismo”, 1929, apud Gregor (2002, p. 59).
71
Mussolini, “La dottrina del fascismo” (1933), Opera, Vol. XXXIV, pp. 117-118.
72
Mussolini, “La dottrina del fascismo” (1933), Opera, Vol. XXXIV, p. 122.

25
controla uma nação totalitariamente é um fato novo na história”73 . E desfere: “Pode-se
pensar que este é o século da autoridade, um século de “direita”, um século fascista; se o
XIX foi o século do indivíduo (liberalismo significa individualismo), pode-se pensar que
este é o século “coletivo” e, portanto, o século do estado”74 .
A literatura especializada não parece dispor de uma definição unívoca de fascismo. Em
uma das possíveis interpretações, mencionada no início deste artigo, assume-se apenas
que o fascismo era uma força irracional movida pela violência e pela guerra — fons et
origo malorum. Caso os argumentos apresentados até aqui mostrem-se corretos, então esta
interpretação poderia ser reavaliada ou mesmo rejeitada. À parte a correta avaliação de
que o fascismo (junto ao nazismo e ao comunismo) foi uma experiência desastrosa em
todos os sentidos, isto não deve afastar o fato de haver um núcleo teórico razoavelmente
consistente; que Mussolini, Gentile, Lenin, Stálin, Hitler e tantos outros tentaram conferir
uma racionalização para suas aspirações revolucionárias e totalitárias. A compreensão
objetiva do fascismo não significa, em absoluto, ignorar os motivos morais para a sua
completa rejeição.

7 Conclusão

Há reconhecidos traços de afinidade entre o fascismo e o socialismo marxista. No


plano teórico, é possível verificar uma rejeição da autonomia individual e uma redução
da agência humana a categorias sociais. Segue-se daí, direta ou indiretamente, um igual
descontentamento em relação ao modelo representativo de democracia. Torna-se um ultraje
a comunicação de quaisquer ideias que não estejam alinhadas com as do Partido. É notável
também um desprezo pelo livre-mercado, muito embora tanto no fascismo como no nazismo
o objetivo parece ter sido o controle total sobre a economia pelo Estado. O resultado, no
plano político, foi o modelo totalitário de ditadura abalizado por um sistema ideológico
monopolizado pelo Partido Único.
Este artigo tentou apresentar o parentesco entre fascismo e socialismo marxista a
partir do desenvolvimento ideológico de Mussolini. É possível perceber como os conceitos
de violência e revolução foram assimiladas por ele a partir de Marx e radicalmente
transformadas ao longo dos anos. Além disso, suas reflexões sobre o papel estratégico das
elites revolucionárias não aparentavam ser menos socialistas do que as de Lenin. Viu-se
também que mesmo após a expulsão do PSI, em 1915, Mussolini continuava um firme
marxista. O nacionalismo dos anos 1917-1919 ajudou a fincar os alicerces desta ideologia.
A heterodoxia de Mussolini era mais uma no universo de interpretações do pensamento
marxista no início do séc. XX. Ele não era, contudo, um acadêmico e nunca ocultou o
73
Mussolini, “La dottrina del fascismo” (1933), Opera, Vol. XXXIV, p. 128.
74
Mussolini, “La dottrina del fascismo” (1933), Opera, Vol. XXXIV, p. 128.

26
fato de tentar realizar as ideias de Marx no plano material. É como se oferecesse nova
interpretação da última das Teses ad Feuerbach: os filósofos têm apenas interpretado Marx
de maneiras diferentes; a questão, porém, é aplicá-lo. Considerando, porém, o resultado
desta aplicação, seria interessante discutir, no futuro, qual a relação (e se há alguma) entre
as interpretações de Marx e a origem do totalitarismo.

27
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