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Cidadania e

UNIDADE 1
Responsabilidade Social
Cidadania e Responsabilidade Social Graduação | UNISUAM

Apresentação
Você é contra ou a favor da descriminalização da maconha?
Você é favor ou contra a legalização das drogas?
Levou um susto? Calma, vamos por parte.

Tema polêmico não é verdade? Mas o que isso tem a ver com cidadania?

Veremos.

Todos nós somos cidadãos. Todos nós temos uma certa noção do que isto significa. Uns com
uma visão mais crítica, outros com uma certa descrença, mas invariavelmente todos terão
uma opinião sobre o tema. O mesmo podemos dizer sobre alguns conceitos temas que nos
acompanharão ao longo deste curso, como: democracia, política e direitos humanos.

Fiquem atentos! Abordaremos a cidadania e a responsabilidade social numa perspectiva


acadêmica e teórica sempre respaldada em alguma pesquisa ou teoria científica. Devemos
estar atentos e procurarmos compreender o que está sendo passado para depois emitirmos,
se necessário, um juízo de valor. A tarefa não é fácil pois o tema sempre nos leva a polêmicas
que exaltam nossos ânimos, despertando debates e pensamentos emocionados. O estudo,
no entanto, requer reflexão racional através dos dados trazidos para análise. Fica a dica.

Conhecer a teoria social é importante, pois no Brasil normalmente queremos mudar as teorias
para que elas se encaixem no nosso pensamento, naquilo que acreditamos e se ajustem a
realidade. Contudo, as teorias e as experiências vividas pelos outros países são referências
para que possamos mudar a realidade. A nossa realidade, política, social e econômica é que
precisa ser modificada para atingir as expectativas que todos nós temos no sentido de uma
sociedade mais justa, igualitária e desenvolvida.

Vamos lá?

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Unidade 01 A Cidadania

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A Cidadania
Objetivo do estudo
- Reconhecer a importância da coletividade.
- Delimitar a diferença entre espaço público e privado.
- Conhecer o significado de cidadania e democracia.

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Unidade 01 A Cidadania

1 T1 O indivíduo e a coletividade - a questão


da cidadania
A cidadania refere-se a pessoa que vive na cidade (palavra de origem latina). Mais que
isso, a pessoa que pertence a cidade, que faz parte da comunidade ou Koinonia como
se dizia na Grécia.

Precisamos chamar a atenção, pois a palavra comunidade na perspectiva da cidadania


não se refere-se a uma região pobre ou uma favela. Estamos falando da vida comunitária
que compartilhamos quando estamos juntos. O nosso prédio, a nossa rua, a universidade
ou o trabalho são espaços de convivência comunitária. Nunca estamos isolados, sempre
interagimos com o nosso entorno.

Na Grécia, o sentido da comunidade se constrói a partir desse conceito do homem “comum”


– comum a comunidade, pois pertence a ela.

Ser comum é ser igual aos outros. Não é ser superior ou inferior, mas igual. Não querer
privilégios ou ser preterido (desrespeitado) em algum direito ou benefício. Isso não impede
que ele tenha uma personalidade ou preferencias, mas sobretudo, uma consciência de que
há uma coletividade e que ele faz parte dela. Preservar a vida comunitária é preservar o
espaço que vivemos no nosso cotidiano.

Não estamos falando apenas de direitos e deveres, estamos falando da tensão entre o
indivíduo e a coletividade. Na sua origem, na Grécia antiga, ela se referia principalmente a
esta percepção de que o exercício da cidadania deve considerar não apenas os interesses
individuais, mas os interesses da comunidade, inclusive porque eu desejo uma vida
comunitária pacífica e prospera.

Então é importante frisar que estamos tratando a cidadania numa perspectiva acadêmica e
que não pode ser confundida com o uso comum e genérico que ouvimos no nosso dia a dia.
Sendo assim, a cidadania privilegia a liberdade e a convivência comunitária muito mais do
que qualquer questão de poder, política ou governo. Essa perspectiva nos coloca uma tensão
permanente entre o indivíduo e a coletividade, mas cujo equilíbrio ideal deve ser procurado
e não pode ser esquecido quando discutimos qualquer tema relevante.

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Sua emergência e vigência no espaço público.


T2 Como surge essa compreensão do indivíduo como cidadão? Isso é normal? Foi natural?
Não. Não foi algo natural e muito menos algo facilmente observável na nossa história. Nos
últimos 5500 anos aproximadamente (desde a invenção da escrita pelo menos), as sociedades
humanas veem organizando-se politicamente através de um modelo de governo centralizador,
autocrático, fosse ele um rei, faraó ou algum tipo de soberano que se impunha e governava
sobre seus súditos.

A democracia como um regime de iguais, no qual as pessoas participam da comunidade


política para expressar e participar das decisões de interesse público foram raras. Na Grécia
Antiga correspondeu ao período de 509 a 322 a.C e na Era Moderna a partir do século XVII
com a Paz de Vestfália e o fim da Revolução Inglesa. Mesmo assim, podemos dizer que o
sistema partidário Europeu adquiriu maior consistência no Século XIX e maior estabilidade
no século XX. Então o exercício da cidadania, entendida como pautada no princípio da
liberdade, da convivência e da participação política é algo recente e raro na história das
sociedades humanas.

A democracia e por conseguinte o exercício da cidadania


foi resultado de um processo histórico específico, somente
possível em razão da vida na Polis, como eram chamadas
as Cidades-Estados gregas, da qual derivou o termo política,
enquanto prática de se discutir a vida coletiva e os problemas
da Polis. Também por isso, falar de cidadania muitas vezes é
falar de política, mas não se restringe a ela, assim como não
se limita a direitos. O exercício da cidadania deve incorporar
a relação com o outro e portanto deve estar presente na
relação professor/aluno, nas relações cotidianas e até na
relação que temos com o espaço que vivemos. Nesse sentido
preservar o meio ambiente, não sujar a cidade, respeitar filas
são práticas cidadãs.

http://www.mundoeducacao.com/
upload/conteudo_legenda/76940bc1d
244b2235a8fe78074659d94.jpg
Cidade = Polis

Cidadania

Discutir os problemas da Polis

Política

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Unidade 01 A Cidadania

Na sua origem, a cidadania surgiu na Grécia como reação ao governo tirano de Psístrato,
que chegou ao poder através de um golpe militar e governou Atenas de 546 até 527 a.C.
Seguiu-se um período turbulento sucedido pelos seus filhos que ao final foram destituídos
por Clístenes que deu início as reformas democratizantes posteriormente aprofundadas
por Solon e Péricles.

Clístenes Sólon Péricles

A criação da democracia como um regime político no qual o poder é do cidadão que o exerce
em igualdade foi revolucionária. Somente em um ambiente democrático as pessoas podem
exercer sua liberdade e participar da vida comunitária de forma ativa e autônoma. Nessa
perspectiva, as pessoas não agem de forma manipulada ou reproduzindo discursos de outros.
Elas são capazes de desenvolver sua própria opinião a partir da análise da sua realidade.

Reflitam sobre a frase do escritor Português Premio Nobel da literatura de 1998 José Saramargo:

Aprendi a não tentar convencer ninguém.


O trabalho de convencer é uma
falta de respeito, é uma tentativa
de colonização do outro.
Compare a frase anterior com a frase proferida por Péricles
em seu Discurso Fúnebre na Grécia Antiga: “nós cidadãos
atenienses, decidimos as questões públicas por nós
mesmos, ou pelo menos nos esforçamos por compreendê-
las claramente, na crença de que não é o debate que é
empecilho à ação, e sim o fato de não se estar esclarecido
pelo debate antes de chegar a hora da ação. ”

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T3 Cidadania como exercício da liberdade e da


autonomia
A vida política que se desenvolveu na Polis grega foi portanto resultado da ação deliberada
das pessoas que ali viveram. Se desenvolveu na esfera pública a partir da interação que os
cidadãos estabeleciam entre si. Tudo o que tratava da vida particular ou familiar não era objeto
da política. Essa divisão entre a esfera pública e esfera privada era essencial para o grego.
Hanna Arendt observava que:

“A polis diferenciava-se da família pelo fato de somente conhecer


‘iguais’, ao passo que a família era o centro da mais severa
desigualdade. Ser livre significava ao mesmo tempo não estar sujeito
as necessidades da vida nem ao comando de outro e também não
comandar. Não significava submissão. ” (ARENDT, 2003: 41)

Isso significa compreender a vida em sociedade como algo que produzimos em conjunto a
partir das nossas ações conscientes e não como uma fatalidade. Ainda que muitas vezes a
nossa percepção é de que as coisas são do jeito que as conhecemos desde sempre, de fato
a realidade social está sempre se reproduzindo e mudando em função das nossas atitudes.
Em outras palavras, até podemos observar a corrupção e a violência ao longo da história da
humanidade mas a forma como lidamos e como elas se apresentam mudaram o tempo todo.

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Observem que na maior parte das sociedades humanas e durante toda a nossa história
conhecida a mulher ocupou uma posição subalterna em relação ao homem. Somente no
século XX, principalmente na sua segunda metade, o movimento feminista conseguiu avançar
em termos de uma igualdade e liberdade entre homens e mulheres. Mesmo hoje, casos
de violência e desrespeito contra a mulher ainda existem. Convivemos com uma cultura
machista ainda.

Então, temos uma tendência de pensar a vida social numa perspectiva natural. Frequentemente
os governantes utilizam-se desse senso comum para perpetuar o sentimento de que as coisas
não mudam. Nas ciências sociais chamamos esse processo de naturalização da vida social.
Como se fossemos nos acostumando com uma dada situação. O grego pensava diferente. Ele
poderia invocar uma explicação mitológica, mas compreendia a vida política como resultado
de decisões humanas.

O espaço público, notadamente a Àgora (praça) ateniense,


era o local de convivência e de interação social. Um
lugar de expressão de ideias e de debate sobre questões
comuns a todos e que deveriam ter como perspectiva o
bem coletivo. Esse é um ponto interessante, pois a política

aprofundando foi concebida como um mecanismo para gerar o bem


comum e atualmente ela é compreendida como uma
forma de conseguir poder, prestigio e dinheiro. Hoje,
consideramos natural entender a política dessa forma
Hanna Arendt
degradada do que na sua concepção mais nobre e ideal.
http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-
sabedoria/28/hannah-arendt-pensadora-da-politica- De fato Hanna Arendt percebia que a política, já na época
e-da-liberdade-a-210008-1.asp dela (meados do século XX), não correspondia a uma prática
moldada em princípio éticos e nobres. Justamente por isso,
compreendia que era necessário resgatar o sentido original
que a política tinha para os cidadãos na Grécia antiga para
poder contrastar com a experiência empobrecida e limitada
que temos da política hoje e que ela tinha na época dela.

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Por ser judia e ter vivido os horrores do Nazismo, Hanna Arendt ressaltava a importância da
liberdade para a existência de um espaço público para o exercício da cidadania através da
política. Para ela o recurso do medo e da violência acabava com qualquer tipo de relação
política. A política é vivida com liberdade e se opõem a violência. A exceção é o Estado
que monopoliza o direito do uso legal da força dentro da lei, mas que não pode cercear a
experiência política na convivência coletiva.

“Os sistemas totalitários, cujo surgimento Hannah Arendt analisou


em seu grande livro sobre o totalitarismo, são a forma mais extrema
de desnaturação da coisa política, posto que suprimem por completo
a liberdade humana, submetendo-a ao fluxo de uma determinação
histórica ideologicamente fundamentada, contra a qual é impossibilitada
toda resistência individual livre por meio do terror e do domínio da
ideologia. ” (ARENDT, 2003: p.3)

A experiência grega com a política foi muito rica e a contribuição que ela trouxe para a
civilização ocidental é determinante da nossa cultura. O Discurso Fúnebre de Péricles é o
que melhor traduz a distinção entre esses espaços e como o ateniense conduzia sua vida
na esfera política:

Conduzimo-nos liberalmente em nossa vida pública, e não


observamos com uma curiosidade suspicaz a vida privada de nossos
concidadãos, pois não nos ressentimos com nosso vizinho se ele
age como lhe apraz, nem o olhamos com ares de reprovação que,
embora inócuos, lhe causariam desgosto. Ao mesmo tempo que
evitamos ofender os outros em nosso convívio privado, em nossa vida
pública nos afastamos da ilegalidade principalmente por causa de
um temor reverente, pois somos submissos às autoridades e às leis,
especialmente àquelas promulgadas para socorrer os oprimidos e às
que, embora não escritas, trazem aos transgressores uma desonra
visível a todos. (Tucídides, 1987: p. 155)

Em contrapartida, o espaço privado dizia respeito somente ao indivíduo e sua família. Qualquer
coisa que as pessoas fizessem ou deixassem de fazer não interessava aos outros. Conforme
citado acima, até mesmo opinar na vida do outro poderia trazer um descontentamento ou
criar um problema para a convivência social.

O espaço privado correspondia também ao espaço da economia, entendida como Oikos


(casa) nomia (regras) ou `regras da casa` e estava separada efetivamente da vida política.
Isto porque, era responsabilidade do chefe da família prover, organizar e administrar o
trabalho e a riqueza gerada por seu grupo. Da mesma maneira, todos os problemas,
costumes e regras internas a um determinado núcleo familiar e seus agregados não diziam
respeito a comunidade.

Oikos = casa Nomia = regras Economia

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Por isso também que somente o homem livre e autônomo


podia exercer plenamente a cidadania e participar da
política, uma vez que todos aqueles que dependiam dele
economicamente teriam sua opinião influenciada. Assim,
a democracia grega, que era exercida diretamente pelos
cidadãos, era ela própria seletiva deixando de fora as
mulheres, escravos e os filhos dependentes. A autonomia
econômica era um pré-requisito para a vida política afim de
garantir a liberdade de expressão de opinião.

Atualmente, grande parte da política refere-se a questões


econômicas ou de política econômica. Isto ocorre porque a
economia deixou o espaço privado da `casa` para ocupar
um espaço público. Cabe ao Estado contemporâneo discutir
sobre a destinação de recursos, a provisão de políticas
sociais, educacionais e de saúde. O Estado passa a ter
um papel importante ao controlar a moeda, os juros e a
regulação da economia.

Mais que isso, se de um lado a economia passa a ser uma


preocupação cada vez maior do Estado, o Estado por sua

o comportamento vez começa a interferir cada vez mais na vida das pessoas.
Leis são criadas para proibir o fumo de cigarro em ambientes
fechados, a proibição de beber e dirigir, a união estável

pode ser individual entre tantos exemplos que poderíamos trazer aqui para
descrever o controle cada vez maior do Estado na regulação
do comportamento das pessoas e das relações sociais em

mas a consequência todas as dimensões.

é coletiva.
Em certo sentido, essa mudança é importante porque o
comportamento pode ser individual mas a consequência
é coletiva. A pessoa pode decidir dirigir um carro bêbada
mas essa decisão pode acarretar danos a terceiros,
engarrafamentos em função de acidente ou despesas
públicas com atendimento médico. Então, se as escolhas
individuais repercutem na sociedade, a sociedade se sente
no direito de interferir nelas. A questão é definir qual o limite
e de que forma deve ocorrer essa intervenção.

Da mesma forma, como o Estado é cada vez mais importante


na economia, a possiblidade de misturar interesses públicos
com interesses privados aumenta. A possiblidade do uso do
Estado para conseguir acumular riqueza privada também
aumenta. Por isso, mesmo hoje procuramos estabelecer
essa distinção entre esfera pública e esfera privada e
condenamos sua mistura quando o indivíduo se utiliza
das suas prerrogativas junto ao Estado para se beneficiar
particularmente.

https://natransversaldotempo.files.wordpress.
com/2012/07/charge-politica-humor1.jpg

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Resumindo, na Grécia antiga a separação entre o público e o privado era importante para definir
o espaço e o objeto das decisões políticas. Atualmente, essa separação diminuiu e assumiu
novas dinâmicas, mas deve ser respeitada, principalmente em relação aos interesses individuais
de alguém que se utilize das prerrogativas de um cargo ou poder para adquirir privilégios.

A vida em sociedade é estruturada politicamente a partir da participação dos cidadãos na


política. Ela é resultado de decisões conscientes e somente podem se desenvolver em
ambientes democráticos que estimulem a liberdade, o uso da violência restringe a experiência
política e nos coloca em um contexto, na verdade, pré-político ou quase selvagem.

Movimentos sociais, organizações sociais e


T4 cidadania
A cidadania é condição da pessoa que vive na cidade e por isso ultrapassa sua condição
política, jurídica, econômica ou social. E, no entanto, tem relação com todas essas dimensões
da vida humana em sociedade.

Por isso a cidadania reside na garantia da liberdade e no respeito da alteridade (no respeito
ao outro) com quem convivemos.

Desde o princípio os governos se colocaram como o meio natural e único que possibilita essa
convivência. As leis, a segurança e a ordem são acréscimos necessários para possibilitar a
efetivação da vida coletiva. Essa estrutura governamental se desenvolveu de tal forma ao
longo do tempo que no século XVIII, Rousseau já escrevia em seu livro clássico Do Contrato
Social: “o homem nasce livre e em todos os cantos encontra-se a ferros”. Prisioneiro das
convenções que ele mesmo criou na pretensão de torna-lo mais livre e feliz.

Segundo Augusto de Franco, nada disso era verdadeiramente


necessário. A constituição de uma organização autocrática
garantidora da ordem social tem sido o modelo padrão
adotado. Parece que a vida coletiva só é possível com
estruturas de controle cada vez mais abrangentes até cercear
toda a liberdade humana. Elas são desenvolvidas com base
em um discurso que autoriza e incentiva seu desenvolvimento
e é suportado com base em fatos que desafiam o nosso
cotidiano. Mas essas circunstancias não são absolutas.

Em outras palavras, quando presenciamos o crescimento


da criminalidade e da desordem urbana, ficamos com a
sensação de que somente a repressão pode reverter este
quadro. Esta percepção está correta quando não temos
outros recursos. Se pensarmos em termos de uma lógica
concentradora de riqueza, na exclusão social, na falta
de perspectiva e numa sociedade esvaziadas de valores
sociais substituídos por valores econômicos possessivos
e egoísta poucas alternativas teremos. Resta aumentar o
uso da força para preservar uma ordem desfavorável para
a maioria da população.

https://pensamentosdeumacoruja.files.wordpress.
com/2014/05/caos_urbano_by_musicdor.jpg

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Não se trata de uma crítica a sociedade capitalista ou socialista uma vez que cada qual
apresentou seus desvios e inviabilizou a emergência de uma sociedade democrática. Também
não se trata de criarmos uma receita pronta para solução de todos os males. Destacamos, a
necessidade de recuperar o diálogo e a convivência fraterna para criar novas experiência sociais.
A compreensão do outro e a tolerância com o diferente é essencial. O objetivo da política desde
sua origem foi possibilitar a convivência pacifica da diversidade, foi preservar a pluralidade. Até
porque, quando todos pensam e vivem da mesma maneira não há necessidade da política.

Certamente, a proposta desses autores não é uma tarefa fácil, tendo em vista que as pessoas
estão cada vez mais individualistas e egoístas. Recolhidas em seus espaços privados, estão
pouco dispostas ao debate. A sociedade em rede que emerge dessa realidade, altamente
conectada pela internet pode ser ou não um fator de mudança. De um lado, as pessoas podem
interagir mais discutindo os temas relevantes da sua vida em comum com outras, mas por
outro lado, reforça a distância, a falsificação de ideias e a intolerância entre elas.

Segundo Augusto de Franco a democracia é sempre um movimento de desconstituição de


autocracia. Democracia no sentido forte do conceito refere-se ao governo de todos e não
apenas de uma maioria opressora por argumentos falaciosos e manipuladores. A democracia
pressupõe a garantia e a preservação das minorias. Requer um envolvimento do cidadão e
não apenas participação em uma tomada de decisão ou processo eleitoral, cujo objetivo tem
de ser a liberdade das pessoas.

Historicamente, a primeira experiência democrática foi registrada na Grécia e era exercida


diretamente, a segunda experiência democrática criada na modernidade (e que nós
vivenciamos) é representativa. Os representantes são escolhidos em um processo eleitoral
e a participação do cidadão comum se restringe a votar.

A Democracia Representativa se utiliza de pessoas


escolhidas pelo povo e organizadas em partidos políticos
para deliberarem sobre leis e políticas de governo. Os
aprofundando sindicatos, conselhos municipais e estaduais com a presença
de membros da sociedade civil organizada são outros
mecanismos de participação e mesmo assim temos visto
uma distância entre o desejo das pessoas no mundo todo e
h t t p s : / / w w w. y o u t u b e . c o m / as ações dos governos. Isto porque, democracia no sentido
watch?v=224w44q9ogw forte não é participação ou eleição, mas envolvimento com
as questões de interesse coletivo.

Saramargo critica a democracia que nós temos em um


sentido bem interessante. E, muitos de nós questionamos
a política e os políticos. Por mais tosca que seja nossa
experiência democrática, ela produz um certo grau de

aprofundando rotatividade. Pense nos governadores do seu Estado nos


últimos 20 anos. O Rio de Janeiro, por exemplo, já foi o
Estado do Leonel Brizola, do Moreira Franco, do Marcelo
Allencar, do Garotinho, do Sergio Cabral. Foram poderosos,
A democracia que nós temos tem sido hoje exercem mais ou menos influência na política regional.
amplamente questionada, como em vídeo Agora perguntamos: Quanto tempo as mesmas famílias
clássico de José Saramargo que afirmou: estão no comando da Rede Globo, SBT e outros grupos
econômicos? Por quanto tempo terão o comando dessas
www.youtube.com/watch?v=m1nePkQAM4w
organizações? A resposta é: enquanto forem propriedade
delas pode durar para sempre.

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Percebemos que a relação entre política e economia são intensas. Uma influência a outra.
Porém, conseguimos muito mal ter algum controle sobre a esfera política. Por mais frágil
que nossa experiência presente seja, no passado era ainda mais precária. A democracia e o
exercício da cidadania deve ser um exercício continuo de aprimoramento.

Como na frase de Winston Churchill, “a democracia é a pior forma de governo, salvo todas
as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. Essa constatação
não pode nos impedir de buscar aprimorar essa experiência que somente pode prosperar
se compreendermos que ela deve favorecer a liberdade e a humanidade e não fazê-la refém
de uma organização política.

Ao contrário, as experiências ditatórias que presenciamos


em nosso país ou em outros países demonstram que elas
sempre sofrem algum tipo de degeneração ampliando
a opressão e impondo uma realidade repressiva com o
cerceamento da liberdade.
aprofundando Porque é tão necessário discutirmos a
cidadania, a democracia e os direitos
Winston Churchill: humanos?

h t t p : / / w w w. a r q n e t . p t / p o r t a l / b i o g r a f i a s / Por que essa é uma configuração social difícil de ser


churchill.html produzida. Uma sociedade capaz de se estruturar com bases
nesses princípios de uma maneira verdadeiramente efetiva
não é facilmente atingida. Ao mesmo tempo, não pode deixar
de ser o nosso horizonte enquanto uma coletividade que
busca uma organização social pacifica e justa.

A democracia foi alvo de várias críticas na Grécia antiga.


Primeiro pelos filósofos que viam nela o domínio da Doxa
(opinião) sobre a episteme (conhecimento) que advinha
da filosofia. A opinião é sempre facilmente modificável
Demos = povo transformando a democracia em demagogia pelo uso do
discurso retórico. Por isso, os filósofos viam com certa
descrença a democracia.

O argumento é elitista por considerar que nem todos


conseguem acompanhar o debate e emitir uma opinião
fundamentada em uma reflexão própria. Certamente,
o argumento técnico, cientificamente fundamentado

Kratos = poder pretende ser melhor do que qualquer outro e normalmente


encontra boas razões para isso. Entretanto, mesmo uma
pessoa comum é capaz de discernir quando uma questão
a favorece ou a prejudica. Quando uma determinada
realidade lhe é favorável ou não. Existem temas que são
mais complexos, mas isso não justifica a exclusão das
pessoas do exercício da cidadania.

DEMOCRACIA Os sofistas tinham uma posição ambígua em relação


a democracia. Eles eram um grupo de pessoas que
dominavam a arte da retórica e ensinavam suas regras a
quem podia pagar. Em certo sentido, eles defendiam que
qualquer um poderia participar da democracia, uma vez
que a base da política é a retórica e não o conhecimento.

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Assim, qualquer um é capaz de participar dos debates


utilizando-se da lógica. Contudo, ao admitir que nunca
conhecemos a verdade na sua plenitude, e pouco
podemos fazer para mudar a realidade, abordavam a
política com um certo ceticismo (descrença).

A democracia, enquanto regime político, coloca o desafio


para o cidadão de viabilizar sua participação nas decisões
políticas, mas ao mesmo tempo essa participação pode ser
prejudicial aos próprios cidadãos quando as informações
técnicas ou quando o discurso emocionado influencia
as opiniões e gera um resultado indesejado. Por isso, a
democracia tem de estar constantemente se renovando
e se aperfeiçoando.

Um exemplo desta situação são os discursos de ódio e


preconceito que observamos nos meios de comunicação
e nas mídias sociais. Quando confundimos o direito de
expressão com direito de ofensa. Quando confundimos
o direito de defender os nossos interesses com a guerra
contra quem pensa diferente. E, observamos isso de
http://1.bp.blogspot.com/-Bmt1V4v1lxA/UTf7L_8ClYI/
AAAAAAAAAS4/r3LY37udvSw/s400/lgbt.png forma generalizada tanto para quem defende os grupos
LGBT e afins quanto aqueles que defendem valores
sociais mais conservadores. O mesmo pode ser visto
em outros temas.

confundimos
http://2.bp.blogspot.com/-ljf5pfL9Fn8/UbAWJfm3zPI/
o direito de
expressão
AAAAAAAAVqw/kv3pqo5jYhE/s640/06.jpg

com direito
de ofensa
http://4.bp.blogspot.com/_0Pi_X-ntZLY/SCtqwxKnqxI/
AAAAAAAAADM/0JxoWDTnANw/s400/amarildo_
aborto_camisinha%255B1%255D.jpg

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Ainda assim, com todas as críticas e poucas experiências bem sucedidas a democracia e
a cidadania se colocam como necessárias para avançarmos num modelo societário mais
equilibrado e desenvolvido. Que não pode se construir com base na luta pelo poder. Como
nos ensina Augusto de Franco, a democracia:

“é uma insubordinação contra o poder vertical, entendido como o poder


de obstruir, separar e excluir, aquele poder que se estrutura instalando
centralizações na rede social para tornar seus agentes capazes de
mandar alguém fazer alguma coisa contra sua vontade. “ (Franco, p.19)

Completa John Dewey apud Franco (Idem. p.22):

“A ideia de democracia é uma ideia mais ampla e mais completa do


que se possa exemplificar no Estado, ainda no melhor dos casos. Para
que se realize, deve afetar todos os modos de associação humana, a
família, a escola, a indústria, a religião. Inclusive no que se refere às
medidas políticas, as instituições governamentais não são senão um
mecanismo para proporcionar a essa ideia canais de atuação efetiva”

Atualmente, vivemos em uma sociedade em rede, aonde as pessoas estão conectadas e


interagindo entre elas graças a tecnologia da internet. As relações que estabelecemos uns
com outros permitem o fluxo de informação e a tecnologia tem diminuído a distância entre
nós. Essa nova realidade permite também a ação coletiva e mecanismo de expressão de
opinião capaz de pressionar governos virtualmente ou numa intervenção real incluindo número
crescente de pessoas com cada vez mais velocidade.

a democracia
Todos esses recursos podem ser uma maravilhosa ferramenta
para expansão da democracia, e uma verdadeira ameaça,
quando usado para formar consensos que impactam sobre

para permitir grande contingente de pessoas. Esse também tem sido o


desafio de todos aqueles que um dia sonharam com um
mundo melhor partindo do princípio da igualdade entre todas

o exercício as pessoas, mas também é a grande tarefa e o que permite


a democracia sempre se atualizar. Em outras palavras, a

continuo da
democracia para permitir o exercício continuo da cidadania
tem de ser compreendida como processo muito mais do que
uma reta de chegada. No caminho, na sua dinâmica ela se

cidadania tem de renova e aperfeiçoa.

Chegamos ao final e agora podemos voltar a pergunta

ser compreendida inicial com a certeza de que ela permite múltiplas


respostas. Não só em razão das diferentes opiniões

como processo
sobre o tema, assim como das alternativas disponíveis
ou que podem vir a ser criadas para evitar algum
maleficio para a sociedade.

muito mais do Sem dúvida é um debate que não se esgota nesse


exercício ou neste momento e como todos os outros

que uma reta de devem ser renovados e trazidos a esfera pública para que
todos possam se envolver com ele, pois afinal ele está

chegada
presente no nosso cotidiano, seja na casa, no trabalho ou
na sociedade sob forma de criminalidade.

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aprofundando
Sugiro uma reflexão sobre o tema da descriminalização
e a legalização do uso de drogas ou da maconha em
particular.

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/
foto/0,,17925430,00.jpg

Com base no estudado nesta unidade vocês


devem considerar se deve prevalecer o princípio
da liberdade (pautado no direito individual) ou o
interesse coletivo (em função dos gastos públicos
com tratamento entre outros)? Devemos nos pautar
nos argumentos técnicos que apontam benefícios
terapêuticos ou os argumentos que apontam para
a dependência e efeitos negativos sobre a saúde?
Ainda que se considere esses argumentos, será
que a forma e os controles sociais hoje disponíveis
trazem melhorias ou prejuízo para a sociedade
como um todo?

Bibliografia:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Editora Forense. Rio de Janeiro, 2003

______________. O que é política? Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2002.

FRANCO, Augusto de. A terceira invenção da democracia. São Paulo: 2013 Disponível
em: http://pt.slideshare.net/augustodefranco/a-terceira-inveno-da-democracia-29335826
Acessado em: 13/10/2014
____________ Democracia: um programa auto didático de aprendizagem São Paulo:
2010.

SARAMARGO, José: Onde está então a democracia? Disponível em: https://www.youtube.


com/watch?v=HRX5j9OYrrE Acessado em: 13/10/2014.
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