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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

INTRODUÇÃO

O que é Teologia Sistemática? Muitas definições têm sido dadas, mas para o propósito
desta disciplina, ficaremos com a definição dada por Grudem1: “Teologia sistemática é qualquer
estudo que responda à pergunta: O que a totalidade da Bíblia nos diz hoje a respeito de um
tópico especifico? Essa definição indica que a teologia sistemática envolve a coleta e o
entendimento de todas as passagens relevantes da Escritura sobre vários tópicos, assim como o
resumo claro de seus ensinos, de forma que saibamos em que crer sobre cada tópico”.

Grudem diferencia ainda a Teologia Sistemática do estudo da Ética Cristã da seguinte


forma: “A ênfase da teologia sistemática é sobre o que Deus quer que creiamos e saibamos, ao
passo que a ênfase da ética cristã é sobre o que Deus quer que façamos e as atitudes que ele
quer que tomemos. Essa distinção é refletida na seguinte declaração: A ética cristã é qualquer
estudo que responda à questão "O que Deus requer que façamos e que atitudes ele requer que
tenhamos hoje?" com respeito a qualquer situação. Assim, a teologia concentra-se sobre as
idéias enquanto a ética concentra-se sobre as situações da vida. Um compêndio de ética, por
exemplo, discutiria tópicos como casamento, divórcio, pena de morte, guerra, controle de
natalidade, aborto, eutanásia, homossexualidade, mentira, discriminação racial, alcoolismo,
papel do governo civil, uso do dinheiro e do direito de propriedade, preocupação com os
pobres, e assim por diante”2

A Teologia Sistemática concentra-se no resumo de cada doutrina bíblica, e como elas


devem ser compreendidas pelos cristãos do presente século. Seu objetivo principal é tornar
claro para o estudioso da Bíblia as mais diversas doutrinas contidas nela. Grudem também
diferencia a Teologia Sistemática de outras Teologias:

“A teologia sistemática também difere da teologia do Antigo Testamento, da teologia do


Novo Testamento e da teologia bíblica. Essas três teologias organizam os seus tópicos
historicamente e na ordem em que são apresentados na Bíblia. Portanto, na teologia do AT,
alguém pode perguntar: "O que o livro de Deuteronômio ensina sobre a oração?" ou "O que
Isaías ensina sobre a oração?", ou ainda "O que a totalidade do AT ensina a respeito da oração,
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e como esse ensino é desenvolvido na história do AT?". Na teologia do NT, alguém poderia
perguntar: "O que o evangelho de João ensina sobre a oração?" ou "O que Paulo ensina sobre
a oração?", ou ainda "O que o NT ensina sobre a oração, e qual é o desenvolvimento histórico
desse ensino à medida que ele progride pelo NT?".

A teologia bíblica tem um significado técnico nos estudos teológicos. É uma categoria
mais abrangente que contém tanto a teologia do AT como a do NT. A teologia bíblica dá
atenção especial aos ensinos dos autores individuais e a seções da Escritura e para o lugar que
cada ensino ocupa no desenvolvimento histórico da Escritura.

A teologia bíblica traça o desenvolvimento histórico de uma doutrina e o modo pelo


qual tal desenvolvimento, em algum ponto, afeta a compreensão que a pessoa tem de uma
doutrina particular e sua aplicação. A teologia bíblica também se concentra no entendimento
de cada doutrina que os autores bíblicos e seus ouvintes ou leitores originais possuíam.

A teologia sistemática, em contrapartida, concentra-se no todo e, dessa forma, no


sumário do ensino de todas as passagens bíblicas sobre um assunto particular. Portanto, faz uso
dos resultados da teologia bíblica e muitas vezes constrói sobre eles. Assim, a teologia
sistemática pergunta, por exemplo: "O que a totalidade da Bíblia nos ensina sobre a oração?"3.

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DEUS
QUEM É DEUS? Eis uma pergunta feita pelo ser humano desde sempre. Não
encontrando uma resposta simples e direta para ela, a humanidade tem criado deuses de todos os
jeitos, de todas as formas e atributos, e de todos os nomes. A própria Bíblia somente nos
apresenta uma descrição dos atributos de Deus, e não uma descrição detalhada sobre quem Ele é.
Moisés, por exemplo, ao pedir a Deus uma descrição mais detalhada sobre quem Ele é,
perguntou-lhe qual o Seu Nome (Êxodo 3:13). Na Bíblia o nome de uma pessoa indica seu
caráter, sua personalidade, quem a pessoa é (veja Gênesis 32:22-30), por isso Moisés perguntou
a Deus pelo seu nome. Contudo, a resposta que Moisés ouviu de Deus não deve ter sido, para
ele, nada animadora: “Eu sou o que sou”.

Como falar de um Deus sem nome para um povo que havia sido criado dentro do Egito e
estava acostumado com a cultura egípcia extremamente politeísta, e na qual todos os deuses não
apenas tinham nomes que o identificavam, mas também tinham um corpo e um rosto? Moisés
queria ouvir um nome que identificasse o Deus que ele representaria, mas seu objetivo foi
frustrado. Deus não tem nome que o identifique, Ele simplesmente “É”. É Eterno, É o Criador de
tudo e de todos, É o que É, ponto!

O GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO

Como é impossível uma descrição detalhada sobre quem Deus é, muitos indivíduos,
dentro e fora da bíblia, têm apresentado Deus por meio de alguns de seus atributos, como por
exemplo, Criador. E com o objetivo de descrever da melhor forma possível esse atributo de
Deus, alguns indivíduos cunharam a expressão “Grande Arquiteto do Universo”, que tem sido
empregada, muitas vezes, tanto dentro quanto fora da teologia cristã. Eminentes teólogos cristãos
do passado como Tomás de Aquino e João Calvino utilizaram esta imagem para descrever o
Deus da criação. Em sua obra publicada em 1536, “As Institutas da Religião Cristã” 1, João
Calvino chama repetidamente Deus de "O Arquiteto do Universo". Fora da teologia cristã
também é muito comum encontrarmos tal adjetivo para descrever o Deus Criador. Por exemplo,
na maçonaria todos os seus membros (ou sócios) têm que crer na existência do “Grande Arquiteto
do Universo” como sendo uma força superior, criadora de tudo o que existe. No judaísmo, no

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islamismo e até no gnosticismo Deus tem sido apresentado desta mesma forma: “O Grande
Arquiteto do Universo”.

No Novo Testamento, o autor de Hebreus, falando sobre a fé de Abraão, diz que ele
“aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hebreus
11:10). De fato, Deus é apresentado nas escrituras sagradas como “Arquiteto e Edificador”.
Contudo, a grande diferença entre os ensinamentos bíblicos e os conceitos de Deus apresntados
por outros grupos reside no fato de que a Bíblia ao designar Deus como arquiteto, não se
restringe apenas à criação. Na realidade, em Hebreus, por exemplo, o autor usa de uma
linguagem figurada para falar da “Nova Jerusalém”, da “Jerusalém Celestial”. Deus é o arquiteto
e edificador não somente da Nova Jerusalém, mas também de um projeto, de um plano para
conduzir Abraão e “todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3) à essa cidade celestial.

Ou seja, a Bíblia apresenta Deus não apenas como o “Grande Arquiteto do Universo”,
mas muito mais do que isso, como o Grande Arquiteto da nossa salvação. E este, talvez, seja um
dos ensinos mais extraordinários da Palavra de Deus, e menos compreendidos pelos cristãos. O
apóstolo Paulo falando sobre esse assunto em sua carta ao Efésios capítulo 1, fala de um plano
arquitetado por Deus, elaborado antes mesmo da fundação do mundo. De acordo com Paulo,
Deus, em sua imensa sabedoria, fez um plano extraordinário que transcende em muito nossa
compreensão. Ele, como um sábio arquiteto, planejou o que iria fazer antes de iniciar qualquer
obra da criação, e esse seu projeto de criação teve como ápice e objetivo final, a criação de seres
inteligentes, livres, santos como ele, e com quem pudesse se relacionar.

Se outros grupos, religiosos ou não, têm a visão de Deus como sendo o Grande Arquiteto
do Universo, limitando sua visão apenas ao Deus da criação do universo visível, na teologia
cristã, no cristianismo, encontramos uma visão muito mais abrangente e extraordinária desse
Grande Arquito. Ele arquitetou não somente a criação do universo, mas muito mais do que isso,
arquitetou um projeto maravilhoso de criação de indivíduos semelhantes a si, com quem pudesse
ter comunhão. E mesmo sabendo que esses indivíduos o desobedeceriam trazendo como
consequência a quebra dessa comunhão, Ele ainda arquitetou um plano para a salvação desses
indivíduos desobedientes, fazendo do Filho Unigênito Jesus o executor desse plano.

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JESUS, O TÉKTON
É muito comum a imagem de Jesus como tendo a mesma profissão de seu pai adotivo
José, a de carpinteiro. Na verdade essa imagem foi construída com base nos dois únicos
versículos da Bíblia que falam sobre isso:
Mateus 13:55  Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus
irmãos, Tiago, José, Simão e Judas?
Marcos 6:3  Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E
não vivem aqui entre nós suas irmãs? E escandalizavam-se nele.
Esta imagem de Jesus tem levado as pessoas, alimentadas pelo cinema americano, a
visualizar o Senhor Jesus numa marcenaria consertando ou construindo mesas, bancos e cadeiras.
Não há imagem mais pobre para descrever o projeto de Deus de enviar Jesus, fazendo-o nascer
no lar formado por Maria e José, do que essa. Não que o Senhor Jesus não pudesse ter
consertado algumas cadeiras ou mesas, mas a escolha de José como pai adotivo tendo ele a
profissão que tinha, também fez parte do plano de Deus, pois não foi apenas Maria a escolhida
para ser a mãe do Salvador, José também foi escolhido por Deus para ser o pai adotivo do
Senhor.

A palavra grega traduzida para o português como “carpinteiro” é “tékton”, que pode
significar também “construtor”. Na língua portuguesa há a palavra “arquiteto”, que é aquele que
desenha o projeto, o que planeja como ficará a obra depois de pronta. O arquiteto dimensiona,
esquematiza e planeja a obra antes de sua construção. A palavra arquiteto é, justamente, a
junção das palavras gregas “arké” + “tékton”. A primeira palavra, “arké”, significa “maior”,
“principal”, etc. Por exemplo, na língua portuguesa “arké” se tornou um prefixo que deu origem
a palavras do tipo “arqui-inimigo”, ou seja, maior inimigo.

Portanto, se Jesus é o “tékton”, o construtor que veio “colocar a mão na massa”, fazer o
trabalho pesado, como um mestre de obra, o Pai é o “Arké-Tékton” (Arquiteto), o construtor
maior, o que planejou a obra que o Filho viria executar. Não é sem propósito que o apóstolo
Paulo diz que nós somos o “edifício de Deus” (I Coríntios 3:9). Portanto, para nós cristãos o
nosso Deus não é apenas o “Grande Arquiteto do Universo” material, visível, Ele é o Grande
Arquiteto do mundo visível e invisível, de nossa vida física e espiritual, de nossa vida eterna.
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O PLANO SECRETO DE DEUS

“Agradeçamos ao Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, pois ele nos tem abençoado
por estarmos unidos com Cristo, dando-nos todos os dons espirituais do mundo celestial. Antes
da criação do mundo, Deus já nos havia escolhido para sermos dele por meio da nossa união
com Cristo, a fim de pertencermos somente a Deus e nos apresentarmos diante dele sem culpa.
Por causa do seu amor por nós, Deus já havia resolvido que nos tornaria seus filhos, por meio
de Jesus Cristo, pois este era o seu prazer e a sua vontade. Portanto, louvemos a Deus pela sua
gloriosa graça, que ele nos deu gratuitamente por meio do seu querido Filho. Pois, pela morte
de Cristo na cruz, nós somos libertados, isto é, os nossos pecados são perdoados. Como é
maravilhosa a graça de Deus, que ele nos deu com tanta fartura!

Deus, em toda a sua sabedoria e entendimento, fez o que havia resolvido e nos revelou o
plano secreto que tinha decidido realizar por meio de Cristo. Esse plano é unir, no tempo certo,
debaixo da autoridade de Cristo, tudo o que existe no céu e na terra. Todas as coisas são feitas
de acordo com o plano e com a decisão de Deus. De acordo com a sua vontade e com aquilo que
ele havia resolvido desde o princípio, Deus nos escolheu para sermos o seu povo, por meio da
nossa união com Cristo” (Efésios 1:3-9 – NTLH).

O apóstolo Paulo fala de um plano arquitetado por Deus, elaborado antes mesmo da
fundação do mundo. Deus, em sua imensa sabedoria, fez um plano extraordinário que transcende
em muito nossa compreensão.

Antes da fundação do mundo, Deus planejou, como um sábio arquiteto, o que iria fazer.
Seu objetivo era o de criar seres inteligentes, livres, santos como ele, e com quem pudesse se
relacionar. Em Efésios 1:4-5, na NTLH, lemos:

“Antes da criação do mundo, Deus já nos havia escolhido para sermos dele por meio da
nossa união com Cristo, a fim de pertencermos somente a Deus e nos apresentarmos diante dele
sem culpa. Por causa do seu amor por nós, Deus já havia resolvido que nos tornaria seus
filhos, por meio de Jesus Cristo, pois este era o seu prazer e a sua vontade”.
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A CRIAÇÃO, O PRIMEIRO PASSO PARA A EXECUÇÃO DO PLANO

Ao criar o homem e a mulher, Deus iniciou a execução desse seu plano. Adão e Eva
foram criados à sua imagem e semelhança (Gênesis 1:27), e eram perfeitos. Perfeitos, mas
passíveis de escolherem o mal. O homem, criado por Deus seria, e é, a coroa de sua criação, mas
o plano final de Deus não era Adão. Deus planejou algo muito maior do que Adão, seu plano era
a criação de seres absolutamente santos, tal como Ele próprio: “assim como nos escolheu, nele,
antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Efésios 1:4).

Em I Coríntios 15: 45-49, lemos:


“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o
último Adão, em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o animal; depois, o
espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o
terreno, tais são também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim
como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial”.

Está claro, pelo texto acima, que o objetivo final de Deus, em seu plano detalhadamente
elaborado antes da fundação do mundo, era o de gerar criaturas que fossem perfeitamente santas
e puras, à imagem de seu Filho Jesus. No início seria necessário adquirirmos a imagem do
terreno (Adão), para que no futuro, adquiramos a imagem do celestial, Jesus. O alvo final da
criação, no plano de Deus, não era o de gerar seres semelhantes a Adão, mas sim, a Cristo:

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes
à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. (Rm 8:29)

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A QUEDA, UM MAL NECESSÁRIO

Por incrível que possa parecer, a queda foi necessária. De certa forma, fez parte do
projeto de Deus. Por quê? Porque o ser humano somente poderia ser semelhante a Deus se
tivesse liberdade, se fosse livre, inclusive, para escolher desobedecer ao Criador. Muitos cristãos
questionam o seguinte: Se a Bíblia diz que “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito
bom”, como foi possível então que entrasse o pecado no mundo? Se era tudo perfeito, como
pôde, o querubim ungido para proteger, ter se rebelado e pecado, e levado o casal adâmico à
queda também?

É justamente aí que repousa a perfeição do plano de Deus na criação. Deus não criou
seres sem personalidade e robotizados, programados para não pecar. Muito pelo contrário, tanto
o ser humano quanto os seres celestiais, foram criados com total liberdade e autonomia de
escolha. Deus criou Satanás perfeito e sem pecado, assim como criou o homem e a mulher
também perfeitos e sem pecado, mas também os criou com potencial para pecar, ou seja, capazes
de tomar decisões, inclusive contrárias à sua vontade.

A capacidade de tomar decisão e a liberdade para decidir são bênçãos do Criador às suas
criaturas e, penso eu, que quando viu Deus que essas duas coisas estavam implantadas e
funcionando perfeitamente nos anjos e nos homens, declarou que era tudo muito bom, e
descansou no sétimo dia. O alvo de Deus ia muito além da criação de Adão e Eva, era criar seres
semelhantes a si em tudo, e a liberdade de escolha era algo indispensável e inegociável em seu
plano. Deus sabia que o homem iria cair, mas isso não mudou seu plano de criar alguém
semelhante a si. A queda faria parte do processo, seria conseqüência inevitável da liberdade dada
ao homem, mas havia, também, o plano de resgate após a queda. Sem a liberdade não haveria a
queda, mas, também, sem a liberdade o homem jamais conseguiria ser semelhante a Deus. Por
isso, Cristo foi o plano de salvação para a queda.

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PLENA FILIAÇÃO: O PLANO SECRETO DE DEUS

"Então daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo dizeis: Tu blasfemas, porque
declarei: Sou Filho de Deus" (Jo.l0:36).

A expressão grega traduzida para nosso idioma como “Filho de Deus” é “Hüiós toû
Teoû”. João apresenta Cristo como sendo o "Filho de Deus" (Hüiós toû Teoû) 52 vezes nas
seus escritos. Este termo, ou apenas a palavra "Hüiós" (com suas variantes), aparece 40 vezes
no Evangelho, 22 vezes na Primeira Epístola, 2 vezes na Segunda Epístola, nenhuma vez na
Terceira Epístola e apenas uma vez no Apocalipse. A primeira declaração formal de "Filho de
Deus" que aparece no quarto Evangelho é feita por João Batista: “E João testemunhou, dizendo:
Vi o Espírito descer do céu como pomba e pousar sobre ele. Eu não o conhecia; aquele, porém,
que me enviou a batizar com água me disse: Aquele sobre quem vires descer e pousar o
Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo. Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele
é o Filho de Deus” (João 1:32-34). E em seguida aparece Natanael fazendo a mesma
declaração; “Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel” (Jo. 1;49).

O conceito de Filho de Deus, na realidade, não era nada novo entre os judeus, pois eles
próprios se consideravam filhos de Deus: “Disseram-lhes eles: Nós não somos bastardos; temos
um Pai que é Deus” (Jo. 8;41). Se os próprios judeus tinham essa concepção de si mesmos
como sendo filhos de Deus, por que eles se revoltaram tanto contra Jesus pelo fato de Ele ter se
apresentado como Filho de Deus, conquanto fosse Ele também judeu?

“Então daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo dizeis: Tu blasfemas,


porque declarei: Sou Filho de Deus” (Jo. 10:36).

“Responderam-lhes eles (os judeus): Temos uma lei e, de conformidade com a lei, Ele
deve morrer, porque a si mesmo se fez de Filho de Deus” (Jo. 19:7).

O problema estava na natureza de filiação divina entre os judeus e Jesus. João utiliza em
todos os seus escritos duas palavras que são traduzidas por “filho”, “huiós” e “téknon”, que,
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entretanto, são usadas por ele sempre com sentido diferentes uma da outra. A palavra “huiós”
que aparece 52 vezes (com suas variantes) em seus escritos, sempre transmite a idéia de filho
legítimo, gerado por seus pais, etc. “E o levou a Jesus, fixando o olhar disse: Tu és Simão, filho
(huiós) de João” (Jo. 1;42). “Chegou, pois a uma cidade de Samaria chamada Sicar, junto da
herdade que Jacó dera a seu filho (huiós) José” (Jo. 4:5). “Foi então, outra vez a Caná da
Galiléia, onde da água fizera vinho. Ora, havia ali um oficial do rei, cujo filho (huiós) estava
enfermo em Cafarnaum” (Jo. 4:46). “Responderam seus pais: Sabemos que este é o nosso filho
(huiós), e que nasceu cego” (Jo. 9:20).

João nunca utiliza a palavra “téknon” com relação a filho legítimo, mas sempre “Hüiós”.
Nestes textos citados, e em todos os demais em que se transmite a idéia de filho legítimo, gerado,
ele usa a palavra “hüiós”. E foi exatamente assim que Jesus se apresentou aos Judeus, Ele era
Filho (Hüiós) de Deus, o que causou escândalo e revolta entre os judeus, que utilizavam sempre a
palavra “Teknon” ao se referirem a si como filhos de Deus: “Ora, ele não disse isto de si mesmo:
mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus estava para morrer pela nação, e
não somente pela nação, mas também para reunir um só corpo os filhos (tékna) de Deus, que
estão dispersos” (Jo. 11: 52). Na linguagem científica de nossos dias, Jesus estaria dizendo que
Ele possuía o mesmo DNA de Deus, o que era, para os líderes religiosos, uma grande heresia.

A palavra “Téknon”, com suas variantes, aparece 23 vezes nos escritos joaninos, e sempre
transmite a idéia de filho de criação, adotivo, não legítimo, descendência, etc. “Responderam-lhe:
Nosso Pai é Abraão. Disse-lhe Jesus: Se sois filhos (tekna) de Abraão, fazeis as obras de
Abraão” (Jo.8:30). “Nisto são manifestos os filhos (tékna) de Deus e os filhos (tékna) de Deus,
se amamos a Deus e aguardamos os seus mandamentos” (I Jo. 5:2). Esta palavra é usada ainda
por João para designar “filhos na fé”: “Não tenho maior gozo do que este: o de ouvir que os
meus filhos (tékna) andam na verdade” (III Jo.4).

É usada também no diminutivo (teknía) como tratamento afetivo: “Filhinhos (teknía),


estas coisas vos escrevo para que não pequeis” (I Jo.2:1). Portanto, o tipo de filiação divina
que desfrutamos hoje, é o de filhos adotivos de Deus. Não temos o DNA do Pai, e é exatamente
assim que João nos descreve:
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“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o
receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos (tékna) de Deus, a saber, aos que crêem no
seu nome” (João 1:11-12).

O motivo da revolta dos judeus contra Jesus estava justamente nesse ponto. A natureza de
filiação de Cristo (Filho legítimo, gerado por Deus) era “heresia” demais para que eles pudessem
suportar. Muito embora eles estivessem acostumados a ouvir os reis e nobres helenistas
utilizarem para si o título de “Filho de Deus” (Huiós toû Teoû), em Cristo, eles viram que a
conotação não era como a dos nobres helenistas, mas se referia a uma filiação real, o que o
tornava semelhante a Deus, razão pela qual Ele deveria se morto (Jo.5:18).

O DNA DE DEUS, O ÁPICE DO PLANO SECRETO DE DEUS

“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de
Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto
não o conheceu a ele mesmo. Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou
o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele,
porque haveremos de vê-lo como ele é” (I João 3:2).

O apóstolo João fala a respeito do que somos agora, e o que seremos no futuro. Ele fala
claramente do plano presente e futuro de Deus para o homem. No momento, somos
filhos(tékna) de Deus, o que já é uma grande dádiva divina. Mas isso ainda não é tudo o que
Deus tem preparado para aqueles que são seus. Embora seja extraordinário ser “tékna toû
Teoû” (filhos adotivos de Deus), Deus tem preparado algo muito maior para os que o amam.
Paulo, em I Coríntios 2:9, diz:

“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o
que Deus tem preparado para aqueles que o amam”.

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Segundo João, agora somos tékna de Deus, mas ainda não somos o que haveremos de
ser; e completa dizendo: Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele.
Ou seja, o plano de Deus é que, no final dos tempos, na volta de Jesus, nós nos tornemos
realmente semelhantes a Ele. Em apocalipse 10:7 João escreve que “quando o sétimo anjo
tocar a trombeta, Deus cumprirá o seu plano secreto, como anunciou aos seus servos, os
profetas”. Seu plano secreto é o de nos transformar em filhos legítimos, possuidores do
mesmo DNA do Pai, ou seja, seremos, tal como Cristo, “hüiós toû Teoû”. E isso fica muito
claro em Apocalipse 2:17, quando João escreve: “O vencedor herdará todas essas coisas, e Eu
lhe serei Deus e ele me será filho (huiós)”.

Segundo João, o apenas nessa ocasião é que o homem irá se tornar, como Cristo, “huiós
toû Teoû”. Somente quando estiver glorificado é que o homem irá atingir a filiação plena do
Pai. Isto tem muitas e maravilhosas implicações, que veremos mais adiante.

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A EXPIAÇÃO, O SEGUNDO PASSO DO PLANO SECRETO DE DEUS.

Expiação pode ser definido como “a obra que Cristo realizou em sua vida e morte para
obter nossa salvação”. A obra realizada por Cristo foi completa, mas como se deu esse
fenômeno? Que implicações para a humanidade teve a obra realizada por Jesus durante a sua
vida aqui na terra, durante sua morte, durante três dias no hades, e após sua ressurreição?

A HUMANIDADE DE CRISTO

Em primeiro lugar, precisamos compreender o significado da encarnação, da


humanidade de Cristo. Paulo afirma que Cristo “...subsistindo em forma de Deus, não julgou
como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo,
tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se
humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2:5-8).

O apóstolo Paulo afirma, no versículo 7, que Jesus se esvaziou de sua glória: O verbo
grego traduzido como “esvaziar” é “” (kénou)Sua forma verbal encontra-se na
terceira pessoal do singular do tempo aoristo. Paulo usa esse mesmo verbo em I Coríntios 9:15
no sentido de tornar nulo, anular. Portanto, Jesus Cristo, ao se fazer homem, tornou nula a sua
glória junto ao Pai. Ele abriu mão completamente dela. O próprio Jesus falou da glória que
Ele tinha junto ao Pai antes da encarnação: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que
me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive
junto de ti, antes que houvesse mundo” (João 17:4-5).

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O verbo deriva de = ter ) encontra-se na primeira pessoa do singular do


imperfeito do indicativo ativo, e significa literalmente “eu tive” ou “eu tinha”, no passado.
Logo, não tenho mais. O Senhor Jesus realmente abriu mão de toda a sua glória ao se fazer
homem, a fim de experimentar o que é ser homem, com todas as suas lutas, tribulações,
angústias e dificuldades. Isaías profetizando sobre a humanidade do Messias afirmou: “homem
de dores e que sabe o que é padecer” (Isaías 53:3).

Em Hebreus 2:17 lemos: “Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse
semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a
Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo”. Portanto, ao se fazer homem, Jesus
Cristo realmente precisava abrir mão de toda a glória que tinha com o Pai na eternidade, a fim de
assumir sua humanidade de forma integral, pois somente assim Ele poderia passar por todas as
lutas e tentações pelas quais passamos, e lutar contra Satanás e os poderes espirituais da maldade
utilizando tão somente as mesmas armas que dispomos: A Palavra do Pai, comunhão com o Pai, e
a oração.

Utilizando estas armas, que também estão à nossa disposição, Jesus provou para o homem
que é possível obedecer ao Pai de forma integral, sem se contaminar com o mundo. Ele jamais
pecou não porque fosse Deus, mas porque utilizou essas armas durante todo o tempo de sua vida
aqui na Terra. Imaginar que o homem Jesus nunca pecou porque ele era Deus, é anular todo o
mérito da encarnação. O autor de Hebreus, no capítulo 4 versículo 15 afirmou: “Porque não
temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado
em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado”. A perfeita e total comunhão com o
Pai davam-lhe forças para sair vencedor diante de todas as tentações que sofreu. Desta forma
Jesus se tornou o homem ideal, o homem que Deus planejou ao criar Adão: Livre para tomar
decisões, para escolher entre a obediência e a desobediência a Deus. Jesus, em sua encarnação,
tornou-se o homem ideal. Ele é o que Deus queria que Adão fosse e não foi. Ele é o verdadeiro
homem. Ele obteve vitórias sobre todas as provações e tentações não porque Ele era Deus, pois
na encarnação Ele abriu completamente mão dessa glória, mas sua vitória sobre o pecado
repousava na sua íntima comunhão com o Pai.

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Synésio Lyra diz que Cristo “é o protótipo pessoal da humanidade. Ele não representa
somente algumas fazes do ser humano, mas o homem em sua verdade, em sua pureza primitiva,
isenta de tudo o que pode desfigurar ou perverter esta imagem, isto é, isento de pecado. Nele
vemos realizado nosso estado normal primitivo”. Eu diria que nele vemos realizado o nosso
estado normal futuro, infinitamente melhor do que o estado normal primitivo.

O fato de Jesus ter se esvaziado de sua glória não significa que Ele abriu mão também da
comunhão e intimidade com o Pai, muito pelo contrário; mesmo na forma humana o Senhor
Jesus sempre se manteve unido ao Pai, ao ponto de dizer “Eu e o Pai somos um” (João 10:30).
Certamente este era o seu segredo para se manter puro, sem pecado. Jesus Cristo jamais pecou
não porque fosse Deus, mas porque jamais abriu mão da comunhão com o Pai. Ele jamais perdeu
essa a comunhão. Os Evangelhos registram inúmeros momentos de comunhão íntima, particular
de Jesus Cristo com seu Pai. Durante toda a sua existência aqui na terra como homem, o Senhor
nunca deixou sua intimidade com o Pai e nunca tratou desse tema como algo de pouca ou
nenhuma importância, como fazemos muitas e muitas vezes.

Para Jesus Cristo, fazer a vontade do Pai era mais importante do que seu próprio
alimento, ou melhor, isto era a sua comida e bebida: “Nesse ínterim, os discípulos lhe rogavam,
dizendo: Mestre, come! Mas ele lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não
conheceis. Diziam, então, os discípulos uns aos outros: Ter-lhe-ia, porventura, alguém trazido o
que comer? Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me
enviou e realizar a sua obra” (João 4:31-34).

Portanto, ao encarnar o Verbo de Deus realmente abriu mão de todos os benefícios e


privilégios que possuía na eternidade a fim de experimentar na própria carne os problemas
causados pelo pecado.

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

POR TRÁS CRUZ

A morte de Cristo na cruz trouxe para a humanidade uma nova esperança, algo jamais
imaginado. Mas na maioria das vezes quando os cristãos falam da salvação conquistada por
Cristo através de sua morte na cruz, do seu derramamento de sangue por nós, o sangue
purificador que nos limpa de todo o pecado, de suas dores e sofrimento na cruz em nosso lugar,
toda a visão apresentada está focada no aspecto físico desse sofrimento. Cremos, porque a Bíblia
diz, que Jesus morreu em nosso lugar, e que aquela cruz não era para Ele, mas para nós, que os
cravos em suas mãos e pés, a coroa de espinhos na cabeça e a lança furando o lado do Senhor
deveriam ser aplicadas em nós, e não nele. Perceba que todo o foco está na dor física, no
sofrimento humano de Jesus, e por isso deixamos de enxergar o verdadeiro sofrimento do Senhor,
e o verdadeiro significado de sua morte na cruz. Entender o que estava por traz do sofrimento
físico de Cristo na cruz é fundamental para compreendermos toda a as implicações e dimensões
desse seu ato.

Antes de compreendermos o que estava por traz da cruz, é necessário respondermos a


algumas perguntas básicas. Por que Jesus estava tão angustiado nos dias e horas que
antecederam sua morte na cruz? Será que sua angústia era somente por causa da dor física dos
cravos em suas mãos, da coroa de espinhos na cabeça ou da vergonha de ser humilhado e exposto
nu diante de uma multidão? Sem dúvida que tudo isso seria motivo de muita angústia para
qualquer ser humano, até mesmo para Jesus, mas será que esses eram todos os motivos de sua
angústia a ponto de orar insistentemente ao Pai para que Ele o livrasse daquele momento?

“Então Jesus foi, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu. Aí ele começou a
sentir uma grande tristeza e aflição e disse a eles: – A tristeza que estou sentindo é tão grande,
que é capaz de me matar. Fiquem aqui vigiando comigo. Ele foi um pouco mais adiante,
ajoelhou-se, encostou o rosto no chão e orou: – Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice
de sofrimento! Porém que não seja feito o que eu quero, mas o que tu queres. [...] Pela segunda
vez Jesus foi e orou, dizendo: – Meu Pai, se este cálice de sofrimento não pode ser afastado de
mim sem que eu o beba, então que seja feita a tua vontade[...] Jesus tornou a sair de perto deles
e orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.” (Mt 26:37-44).
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

O evangelista Lucas, narrando esse mesmo sofrimento de Cristo, diz:


“Então se afastou a uma distância de mais ou menos trinta metros. Ajoelhou-se e
começou a orar, dizendo: – Pai, se queres, afasta de mim este cálice de sofrimento! Porém que
não seja feito o que eu quero, mas o que tu queres. [Então um anjo do céu apareceu e o
animava. Cheio de uma grande aflição, Jesus orava com mais força ainda. O seu suor era como
gotas de sangue caindo no chão.]” (Lucas 22:39-44).

Embora o texto original de Lucas provavelmente não possuísse os versículos 43 e 44 que


falam de sua grande aflição e de seu suor como gotas de sangue caindo no chão, o fato é que ele
acabou fazendo parte do texto de Lucas, inserido por algum copista, com base em alguma outra
fonte de informação que para esse copista era confiável. Desta forma, não há porque duvidar da
veracidade da informação, que descreve muito bem a agonia vivida pelo Senhor Jesus nos
momentos que antecederam sua crucificação.

Ao longo de história da humanidade, inúmeras outras pessoas, homens e mulheres,


morreram martirizados das mas mais perversas formas que podemos imaginar, e não
demonstraram sentir tanta agonia quanto o Senhor Jesus estava sentindo antes de ser levado para
a cruz. Tanto a história secular quanto a própria Bíblia relatam atos de bravura de pessoas que
foram martirizadas por serem fiéis a Deus, ou mesmo por uma ideologia qualquer, sem sequer
clamarem a Deus por livramento.

No livro de Hebreus lemos: “...Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate,
para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e
açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos
a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados,
afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos
montes, pelas covas, pelos antros da terra” (Hb 11:35-38).

Em Atos dos Apóstolos, Lucas narra a seguinte oração feita pelos cristãos primitivos em
Jerusalém, no auge da perseguição a eles promovida pelo judaísmo e pelo império romano:

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

“agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem
com toda a intrepidez a tua palavra” (Atos 4:29). Eles não oraram pedindo livramento das
prisões, dos martírios, dos leões famintos que os devoravam nas arenas para deleite das
multidões sedentas de sangue e nem oraram pedindo que Deus os livrassem de serem serrados
ao meio, jogados nas fornalhas ou crucificados. Será que o Filho de Deus era menos resistente
à dor do que todos esses mártires, para pedir insistentemente ao Pai que o livrasse daquela hora?
Certamente que não!

A agonia de Cristo ia muito além da dor física, por mais que essa também não fosse
nada fácil. O problema era, justamente, o que estava por traz da cruz, por traz do sofrimento
físico. A luta e a agonia de Jesus não eram apenas físicas, mas muito maior e pior, eram
espirituais. O profeta Isaías, profetizando sobre o sofrimento de Cristo na cruz, não fala somente
da dor física:
“Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma
como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do
Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará
satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as
iniqüidades deles levará sobre si” ( Is 53:10-11).

Segundo Isaías Jesus daria não apenas o seu corpo, mas “a sua alma como oferta pelo
pecado”. Na cruz, o Senhor Jesus passaria por situações às quais jamais havia experimentado, e
o destino, tanto dele quanto de toda a humanidade, estava em jogo. Seu sucesso representaria o
sucesso do plano do Pai e a possibilidade de remissão dos pecados da humanidade, e seu
fracasso, representaria a vitória de Satanás e seus demônios sobre toda a criação.

O primeiro drama que Jesus enfrentaria na cruz está profética e maravilhosamente


registrado no Salmo 22.

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha
salvação as palavras de meu bramido? Deus meu, clamo de dia, e não me respondes; também
de noite, porém não tenho sossego. Contudo, tu és santo, entronizado entre os louvores de
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

Israel.[...] 6Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo.
Todos os que me vêem zombam de mim; afrouxam os lábios e meneiam a cabeça: Confiou no
Senhor! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer. Contudo, tu és quem me fez nascer; e me
preservaste, estando eu ainda ao seio de minha mãe.

A ti me entreguei desde o meu nascimento; desde o ventre de minha mãe, tu és meu


Deus. Não te distancies de mim, porque a tribulação está próxima, e não há quem me acuda.
Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam. Contra mim abrem a boca, como
faz o leão que despedaça e ruge. Derramei-me como água, e todos os meus ossos se
desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim. Secou-se o meu
vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da
morte. Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés.
Posso contar todos os meus ossos; eles me estão olhando e encarando em mim. Repartem entre
si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes. Tu, porém, Senhor, não te afastes de
mim; força minha, apressa-te em socorrer-me. Livra a minha alma da espada, e, das presas do
cão, a minha vida. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos búfalo...”.

Este Salmo é, realmente, extraordinário! Ele descreve todo o drama espiritual vivido por
Jesus Cristo na cruz. Ele inicia com o clamor angustiado de Cristo registrado também em Mateus
27:46: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Na cruz, Jesus se tornou o maior de
todos os pecadores. Ele carregou o pecado de toda a humanidade desde Adão, até o último
indivíduo que vier a nascer neste planeta. O apóstolo Paulo afirma em II Coríntios 5:21 que
“Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós...”. Então, o que isto significa?
Significa que Jesus, que jamais havia cometido qualquer tipo de pecado em toda a eternidade,
acabou se tornando o maior de todos os pecadores de uma hora para outra, e, conseqüentemente,
sofrendo os três efeitos mais perniciosos causados pelo pecado:

1. O afastamento de Deus. Jesus jamais havia perdido a comunhão com o Pai,


conforme já foi visto acima. Mesmo esvaziando-se de toda a glória que Ele tinha na eternidade,
o Senhor nunca abriu mão da comunhão com Deus. No entanto, a Bíblia é bem clara quando
afirma que os nossos pecados provocam divisão entre nós e Deus, criando uma barreira de
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

separação tamanha que impede que Ele nos ouça: “Mas as vossas iniqüidades fazem separação
entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não
ouça” (Isaías 59:2). Jesus Cristo ao carregar na cruz o pecado de toda a humanidade tornou-se,
de uma hora para outra, o maior de todos os pecadores, e nessa condição a quebra de comunhão
com o Pai foi a conseqüência natural e inevitável.

Jesus, que jamais havia perdido a comunhão, agora se vê totalmente afastado do Pai por
nossa culpa. Se os pecados de um único indivíduo causam tamanha separação de Deus, imagine
o sofrimento de Cristo ao ser afastado do Pai, o mais longe do que qualquer ser humano pudesse
ser afastado, por carregar sobre si todos os pecados da humanidade? Certamente nós, que somos
mestres na arte de pecar e não encaramos a comunhão com o Pai com tanta seriedade e como
algo realmente vital (veja João 15:4-6), não conseguimos avaliar o que a perda de comunhão com
o Pai significava para Jesus. Ao assumir todos os pecados da humanidade, Jesus Cristo imergiu
na mais densa treva, sem a mínima chance de permanecer unido ao Pai nessa condição. Por isso
o seu clamor angustiado: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, e por isso também
a primeira boa razão para Ele suplicar ao Pai: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice
de sofrimento”.

2) O sofrimento espiritual na cruz

A perda de comunhão com o Pai, o vazio e o abandono provocados pelos pecados de


todas as pessoas seriam motivos mais do que suficientes para que Jesus se sentisse tão angustiado
a ponto rogar ao Pai que o livrasse daquela situação, mas o drama da cruz não pararia por aí. Na
cruz, na situação de “o maior de todos os pecadores”(Is 53:3), Jesus estaria totalmente a mercê
de Satanás e suas hostes malignas. Durante a crucificação, enquanto os homens viam suas mãos
e seus pés ensangüentados cravados no madeiro, viam sua testa também ensangüentada devido a
coroa de espinhos, viam ainda água e sangue jorrando de seu corpo furado por uma lança, a cena
invisível fisicamente era ainda muito pior.

A verdadeira luta e o verdadeiro sofrimento não estavam sendo vistos pelos homens. O
apóstolo Paulo diz que “não temos que lutar contra carne e sangue, mas, sim, contra os
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes
espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6:12). Foi exatamente esta a luta de Jesus
na cruz; a dor física, embora terrível, não se comparava ao que Ele estava sofrendo
espiritualmente, sozinho, carregando todos os pecados possíveis e imagináveis de toda a
humanidade, e totalmente entregue a Satanás.

No Salmo 22 vemos uma pálida descrição dessa batalha espiritual: “Não te alongues de
mim, pois a angústia está perto, e não há quem ajude. Muitos touros me cercaram; fortes touros
de Basã me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que
ruge”. (vv 11-13). Certamente que os fortes touros de Basã que o estavam rodeando é uma
metáfora que descreve a violência e a força de seus inimigos; não os líderes religiosos judeus
mas Satanás e seus demônios. Pedro afirma que “o diabo, vosso adversário, anda em derredor,
bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1 Pedro 5:8), e era exatamente isto que
estava acontecendo na cruz, invisível aos olhos humanos. Satanás, “como um leão que
despedaça e que ruge”, estava derramando toda a sua fúria e seu arsenal maligno contra o Filho
de Deus.

A agonia de Jesus antes de encarar a cruz vista sob este aspecto, sob o lado espiritual, é
mais do que justificável. Ele realmente sabia o que o aguardava. Sua luta era mesmo apavorante,
algo que homem algum suportaria. Veja o que diz o Salmo 22:19-21:

“Tu, porém, Senhor, não te afastes de mim; força minha, apressa-te em socorrer-me.
Livra a minha alma da espada, e, das presas do cão, a minha vida. Salva-me das fauces do leão
e dos chifres dos búfalos; sim, tu me respondes”. Esses animais descritos no texto são figuras de
linguagem que descrevem o ódio e a ferocidade de todas as hostes espirituais da maldade, como
diz Paulo, contra o mais perfeito e puro de todos os homens, contra aquele que havia encarnado
para ser o “primeiro dentre muitos irmãos” (Romanos 8:29). Satanás não suporta a obediência a
Deus, a santidade e a pureza de vida, e Jesus, o único homem realmente santo, puro e bom, agora
estava totalmente entregue em suas mãos, destituído de todos esses atributos maravilhosos que o
mantinham na perfeita comunhão com o Pai. Jesus Cristo homem, vivendo uma vida perfeita,
sem cometer o menor pecado que fosse, provou para Satanás que o ser humano, quando se
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

mantém em real e íntima comunhão com Deus, consegue vencer todas as suas diabólicas
investidas, e isso certamente era muito humilhante para ele. Satanás odeia a fidelidade a Deus!
Veja como ele derramou toda a sua ira contra Jó simplesmente pelo fato de ele ser um “homem
íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal.”(Jó 1:8). Jesus, o homem ideal, mesmo
destituído de toda a sua glória, sempre foi vitorioso contra todas as investidas de Satanás contra
si, porque Ele sempre viveu em plena comunhão com o Pai. Sua intimidade com Deus era muito
mais intensa e perfeita do que a de qualquer outro ser humano que já tenha existido ou venha a
existir na face da terra, e isso, certamente, era uma afronta tremenda a Satanás. Seu ódio contra o
homem Jesus era mortal. Desde Adão nenhum homem o havia humilhado tanto, resistindo a
todos os seus ataques e não caindo em nenhuma de suas armadilhas, usando contra ele apenas as
armas espirituais que Deus colocou à disposição de todo o ser humano, conforme ensina o
apóstolo Paulo:

“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas
do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e
potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal,
nas regiões celestes. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia
mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis. Estai, pois, firmes, cingindo-vos
com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. Calçai os pés com a preparação do
evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os
dardos inflamados do Maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito,
que é a palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para
isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos...” (Ef 6:11-18).

Foi utilizando esta armadura de Deus durante todo o tempo de sua vida terrena que o
homem Jesus sempre obteve vitória contra as investidas e ciladas de Satanás. Mas agora era o
momento da vingança. O momento tão diabolicamente esperado. Finalmente Jesus seria entregue
em suas mãos completamente destituído de toda a armadura de Deus, destituído completamente
de pureza e de santidade, pois os nossos pecados provocaram isso nele. Certamente não haveria
oportunidade mais perfeita para Satanás se vingar do homem ideal, derramando sobre ele toda a
sua ira.
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

Analisando a crucificação sob esse ponto de vista, torna-se perfeitamente compreensível


que o Filho de Deus tenha se angustiado tanto nos momentos que precederam a sua crucificação.
O que estava em jogo não era simplesmente seu sofrimento físico, como muitos imaginam, mas
sim, uma violenta batalha espiritual, que poderia trazer conseqüências inimagináveis tanto para
Ele quanto para toda a criação, caso o Senhor fracassasse.

3. A ida de Cristo ao inferno

Este foi, sem dúvida, o terceiro e derradeiro motivo que levou Jesus suplicar ao Pai que,
se fosse possível, passasse dele aquele cálice sem que Ele o bebesse.
Tal como o sofrimento na cruz, quando os cristãos falam da morte de Cristo toda a
imagem que se faz está focada no lado físico. Pensamos sempre na morte de Jesus sob o ponto
de vista humano. O quadro visível da morte de Cristo é narrado por Mateus da seguinte forma:

“Ao meio-dia começou a escurecer, e toda a terra ficou três horas na escuridão. Às três
horas da tarde, Jesus gritou bem alto: – “Eli, Eli, lemá sabactani?” Essas palavras querem
dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” [...] Aí Jesus deu outro grito forte e
morreu. Então a cortina do Templo se rasgou em dois pedaços, de cima até embaixo. A terra
tremeu, e as rochas se partiram. Os túmulos se abriram, e muitas pessoas do povo de Deus que
haviam morrido foram ressuscitados e saíram dos túmulos. E, depois da ressurreição de Jesus,
entraram em Jerusalém, a Cidade Santa, onde muitos viram essas pessoas. O oficial do exército
romano e os seus soldados, que estavam guardando Jesus, viram o terremoto e tudo o que
aconteceu. Então ficaram com muito medo e disseram: – De fato, este homem era o Filho de
Deus!” (Mateus 27:45-54).

Algumas pessoas imaginam que logo depois de sua morte Jesus ficou na sepultura
“dormindo”, esperando ser acordado no terceiro dia, ou então que sua morte foi um alívio
imediato de suas dores físicas na cruz, e que ele foi imediatamente para o paraíso descansar por
três dias, junto com o ladrão convertido na cruz, esperando a hora de ressuscitar. Na verdade, o

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

drama de Cristo na cruz não acabou com a sua morte, mas muito pelo contrário. Após sua morte
é que a batalha espiritual se travou de forma mais violenta e terrível ainda.

Jesus Cristo morreu levando todos os pecados de toda a humanidade, em todos os


tempos e em todas as épocas, desde Adão, até o último indivíduo que vier a nascer neste planeta.
Isso significa que ele se tornou o pior de todos os homens, o maior pecador de todos e o mais
desqualificado para ir para o “paraíso”. Em Apocalipse 22:8 lemos:

“Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos
impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago
que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte”.

O apóstolo Paulo afirma em Rm 1:28-32 o seguinte: “E, por haverem desprezado o


conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para
praticarem coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade;
possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores,
aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos
pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia. Ora, conhecendo eles a
sentença de Deus, de que são passíveis de morte [espiritual] os que tais coisas praticam, não
somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem...”

Na cruz, Jesus Cristo se tornou tudo isso tudo e muito mais, e quando ele morreu foi
nesta condição que se encontrava, “passível de morte”, logo o seu destino após a morte não
poderia ser mesmo o céu, e sim o inferno. E foi para lá que ele foi logo após a sua morte. Há
pessoas que se escandalizam com essa idéia de Jesus ter ido para o inferno, mas acontece que Ele
foi lá para que nós não precisemos ir. Ele foi ao inferno em nosso lugar. Este foi o clímax de sua
batalha espiritual. Segundo o profeta Isaías, “...ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar;
quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado” (Isaías 53:10). No versículo 5 deste
mesmo capítulo de Isaías diz que “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele”, e no Novo
Testamento vemos claramente que tipo de castigo espera aqueles que estão afastados de Deus: “E
irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna” (Mt 24:46). Este foi o
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

castigo que Ele carregou sobre si, e que nos traz a paz; não o castigo dos açoites ou dos cravos
somente, mas um castigo muito maior e pior, o castigo que espera todos os ímpios e pecadores
pelos quais Jesus morreu; o castigo eterno. Esse castigo era para nós, mas Ele foi castigado em
nosso lugar. O castigo eterno não ocorre nesta vida física, mas sim no inferno.

Jesus Cristo não ofereceu apenas seu corpo como sacrifício, e nem sua vida física tão
somente, ele ofereceu sua alma como oferta pelos nossos pecados. Sua alma foi oferecida em
lugar da nossa, e foi no inferno que se travou a derradeira batalha espiritual. “Pois também
Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus;
morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em
prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes...” (IPedro 3:18-19).

Jesus Cristo, ao morrer, foi, com nossos pecados, ao lugar mais tenebroso que alguém
poderia ir, e isto faz muito sentido, pois lugar de pecado não é no céu, mas no inferno. Foi lá que
ele expiou todos os nossos pecados. A Bíblia, na verdade, dá muito pouca informação sobre
a ida de Jesus Cristo ao inferno, mas de qualquer forma podemos imaginar o quão tenebroso
e crítico foi esse acontecimento na história da humanidade. Jesus Cristo foi para lá em nosso
lugar. Foi carregando todos os nossos pecados, e esse foi o seu real sacrifício. Qualquer um de
nós que for para lá, jamais obterá a vitória, seremos derrotados e estaremos eternamente perdidos,
mas Jesus conseguiu obter a vitória lutando contra Satanás em sua própria habitação, o inferno.
Isaías nos diz o seguinte:

“Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o
Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si”
(Isaías 53:11).

O texto de Isaías fala do “penoso trabalho de sua alma”, não simplesmente de seu
grande sofrimento físico e de sua morte física na cruz. A Bíblia é bem clara quando diz que “o
salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23); esta morte não é simplesmente física, mas
espiritual, e Jesus Cristo na cruz tornou-se o mais indigno de todos os pecadores (Isaías 53:3), e

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

ao morrer nessa condição o Senhor Jesus pagou pelos pecados de todos nós, e recebeu também o
salário de todos os pecados, a morte.

Em Ezequiel 18:20 lemos: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a
iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a
perversidade do perverso cairá sobre este”. Tanto em Romanos, quanto em Ezequiel, a morte
em questão não é a física mas a espiritual, é a morte eterna. O profeta Ezequiel deixa bem claro
que o pai não levará a maldade do filho ou vice-versa, mas Jesus levou a iniqüidade de ambos, e
desta forma pagou o preço pelos pecados de todos nós, a morte em sua forma mais completa:
morreu fisicamente, e sua alma foi ao inferno. Chocante? Mas foi exatamente isto que Jesus
Cristo fez por mim e por você! Entregou não apenas seu corpo físico, mas entregou sua própria
alma arriscando sua existência eterna por amor de nós.

Cristo não morreu em nosso lugar pura e simplesmente, Ele não deu apenas sua vida por
nós, Ele entregou sua alma para resgatar a nossa alma, e foi ao inferno para que nós não
tenhamos que ir para lá. Jesus fala dessa entrega voluntária de sua alma em João 10:17-18:

“Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a
tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e
também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai”.

A palavra traduzida por vida no texto acima é psiquë, mas a palavra grega que descreve
vida no sentido físico ou espiritual é “zoê”. Esta palavra é usada diversas vezes no Novo
Testamento se referindo a vida física, como em Lucas 16:25: “Disse, porém, Abraão: Filho,
lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida[zoê], e Lázaro igualmente, os males; agora,
porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos”. E também é usada em referência a vida
eterna, como por exemplo em Mc 10:17: “E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao
seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida[zoê]
eterna?”.

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

Em João 10:17 a palavra psiquë, que é traduzida por vida, seria melhor traduzida como
alma, como em Mateus 10:28, “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma
(psiquê); temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”.

O evangelista Lucas, narrando uma parábola contada por Jesus a respeito de um rico
insensato, escreve, no capítulo 12 verso 20: “Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a
tua alma [psiquë]; e o que tens preparado, para quem será?”. No Novo Testamento há uma
variedade de outros textos onde a palavra psiquë aparece como sinônimo de alma e não de vida
física. Na realidade, mesmo quando esta palavra (psiquë) é traduzida como vida, não se refere a
vida no aspecto físico tão somente, mas por outro lado, a palavra zoê nunca se refere a alma,
mesmo quando a vida em questão é a vida eterna. Portanto, ao dizer a seus discípulos “eu dou a
minha vida [psiquë] para a reassumir” fica evidente que o Senhor Jesus não está se referindo a
sua vida física tão somente, pois se assim fosse Mateus escreveria zoê, e não psiquê, conforme
está no texto. Jesus Cristo deu a sua alma por nós! Ele mesmo afirmou em João 15:13
“Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria alma [psiquê] em favor dos seus
amigos

Este foi o verdadeiro sacrifício por traz do sacrifício na cruz, Ele deu a sua própria alma
por todos nós, por toda a humanidade. Em Mateus 16:26 Jesus diz: “Pois que aproveitará o
homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma [psiquë] ? Ou que dará o homem em
troca da sua alma [psiquë] ?”. Ninguém, absolutamente ninguém, exceto Jesus Cristo poderia
dar alguma coisa em troca de nossa alma; a sua própria alma. Ele deu a sua alma como preço de
resgate pela nossa alma: “o qual a si mesmo se deu em resgate por todos...” (I Tm 2:6). Em
Marcos 10:45 Jesus afirma: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas
para servir e dar a sua vida [psiquë] em resgate por muitos”. Note que a palavra grega é não
apenas vida (zoê), mas alma (pisquê). Ou seja, Jesus afirmou que veio dar a “sua alma em
resgate por muitos”. Não é sem razão que o autor de Hebreus faz a seguinte pergunta: “como
escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb 2:3).

A ida de Jesus Cristo ao inferno é bem clara em Atos 2:27 : “porque não deixarás a
minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção”. A palavra grega
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traduzida por “morte” em muitas versões como a de Almeida Revista e Atualizada é “HADES”,
que não significa apenas morte física. Existem três palavras no Novo Testamento Grego que são
traduzidas para o português como morte: “HADES, TÁNATOS e NECRÓS ”. Necrós se refere a
morte física, morte do corpo ou amortecimento de algum membro do corpo. No português temos
palavras derivadas de necrós como “necrotério”, “necropsia”, “necrosado”. Em Mateus 28:4 por
exemplo, esta palavra aparece como um adjetivo: “E os guardas, com medo dele, ficaram muito
assombrados e como mortos”. Paulo usa esta mesma palavra para se referir ao amortecimento do
corpo de Abraão já idoso: “E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio
corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara” ( Rm 4:19 ). Necrós
também é utilizada algumas vezes no sentido figurado: “Replicou-lhe, porém, Jesus: Segue-me, e
deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos” (Mt 8:22).

A palavra “tánatos”, também traduzida como morte em português, se refere à morte


física, como em Mateus 10.21: “Um irmão entregará à morte[tánatos] outro irmão, e o pai, ao
filho; filhos haverá que se levantarão contra os progenitores e os matarão, ou também à morte
espiritual, como em Mateus 4:16: “O povo que jazia em trevas viu grande luz, e aos que viviam
na região e sombra da morte[tánatos] resplandeceu-lhes a luz”. Tanto a palavra necrós quanto
tánatos se referem a morte física e são utilizadas também no sentido de morte espiritual, mas
jamais se referem a um lugar específico que se encontram as almas do que morreram com ou sem
Cristo. Já a terceira palavra grega encontrada no Novo Testamento que também é traduzida para
o nosso idioma como morte, é “Hades”, só que neste caso esta palavra não se refere apenas a
morte física ou espiritual, mas sim a um lugar onde estão as almas dos mortos. A palavra Hades
é usada nove vezes no novo testamento, e em todos os textos sempre é apresentada como
sinônimo de inferno ou lugar em que estão os mortos, se não, vejamos (Versão de Almeida
Revista e Atualizada):

Mateus 11.23 “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno
[hades]; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela
permanecido até ao dia de hoje”.

Mateus 16.18 “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja,
e as portas do inferno [hades] não prevalecerão contra ela”.

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Lucas 10:15 “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno”
[hades].

Lucas 16:23 “No inferno [hades], estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a
Abraão e Lázaro no seu seio”.

Atos 2:27 “porque não deixarás a minha alma na morte* [hades] , nem permitirás que o teu
Santo veja corrupção”.

Atos 2:31 “Prevendo isto, referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte*
[hades] nem o seu corpo experimentou corrupção”.

Apocalipse 1:18 “...e aquele que vive; estive morto [necrós], mas eis que estou vivo pelos
séculos dos séculos e tenho as chaves da morte[tánatos] e do inferno [hades]”.

Apocalipse 6:8 “E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte
[tátanos]; e o Inferno [hades] o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte
da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra”.

Apocalipse 20:13 “Deu o mar os mortos [necrós] que nele estavam. A morte[tánatos] e o além*
[hades] entregaram os mortos [necrós] que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo
as suas obras”.

Apocalipse 20:14 “Então, a morte [tánatos] e o inferno [inferno] foram lançados para dentro
do lago de fogo. Esta é a segunda morte [tánatos], o lago de fogo”.

Note que, curiosamente, a Bíblia na versão portuguesa de Almeida Revista e Atualizada


não traduz a palavra hades como inferno somente em Atos 2:27 e 31, onde a tradução é morte, e
em Apocalipse 20:13, onde hades é traduzida como além; ao passo que em todos os outros
textos apresentados a tradução para hades é inferno. A situação é mais curiosa ainda quando
vemos que na versão de Almeida Revista e Corrigida (anterior à Revista e Atualizada), nos dois
textos de Atos 2 a palavra hades não é traduzida, e no texto de Apocalipse 20:13 é traduzida
como inferno. Na realidade, a tradução para inferno é muito mais coerente com todos os outros
textos onde a palavra hades aparece do que simplesmente morte.

A única explicação para não se traduzir por inferno estes textos é a resistência de muitos
cristãos em admitir a ida de Jesus Cristo ao inferno, e isto porque toda a ênfase que a maioria dos
cristãos têm dado ao sacrifício de Cristo está centrada única e exclusivamente nos aspectos

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físicos e humanos de sua morte. Infelizmente tal foco tem limitado a visão da Igreja com relação
à grandiosidade do ato remidor de Jesus Cristo através de seu total sacrifício por nós.

Outro texto que não deixa a menor dúvida a respeito da ida de Jesus Cristo ao inferno é
Efésios 4:9-10: “Ora, isto – ele subiu – que é, senão que também, antes, tinha descido às partes
mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus,
para cumprir todas as coisas.”. A mensagem de Efésios 4:9 é muito clara: Jesus, antes de subir
“acima de todos os céus, desceu às partes mais baixas da terra”. Certamente que neste texto
Paulo não está se referindo ao sepultamento de Jesus, pois seu corpo não desceu às regiões
inferiores de terra. Seu túmulo é descrito nos evangelhos da seguinte forma:

“Este, baixando o corpo da cruz, envolveu-o em um lençol que comprara e o depositou


em um túmulo que tinha sido aberto numa rocha; e rolou uma pedra para a entrada do túmulo”
(Marcos 15:46). Portanto, Jesus não foi sepultado sob a terra; por outro lado, a descrição de ter
Ele descido às regiões inferiores de terra é perfeitamente coerente com o conceito judaico a
respeito da localização do inferno. O próprio Jesus se referiu ao inferno [hades] como estando
localizado nas regiões inferiores, conforme as narrativas de Mateus 11:23 e Lucas 10:15 (citadas
acima).

Infelizmente a maioria esmagadora dos cristãos e até mesmo dos teólogos em geral olha
para o sacrifício de Cristo apenas sob o ponto de vista do sofrimento físico e também de sua
morte física, tão somente, e assim perdem de vista a maior graça e o maior sacrifício feitos por
Jesus Cristo na Cruz. Ao voltarem a atenção para o que é aparente, físico e material, perdem o
foco da batalha espiritual travada por Cristo em nosso lugar. Jesus travou uma verdadeira luta
contra os principados, potestades, hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais, e venceu.
Esta é a essência da grande salvação: Jesus deu a sua alma em resgate da nossa alma, e isto
jamais poderia ser ignorado ou negado pela igreja cristã, sob pena de diminuirmos
significativamente o amor de Cristo e o seu sacrifício por nós.

É realmente lamentável que a teologia cristã moderna focalize apenas o sofrimento


físico de Cristo em detrimento de seu total sacrifício por nós. As palavras gregas têm sido
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convenientemente traduzidas a fim de focar somente o sofrimento físico do Senhor, pois o que
pode justificar uma palavra como “hades” não ser traduzida como inferno somente nos textos em
que se referem à morte de Cristo? Ou ser traduzida como sepultura, como algumas versões fazem
em Atos 2: 27 e 31, apenas para reforçar tão somente, a doutrina da morte física mesmo que a
palavra sepultura em grego não seja hades?

No Novo Testamento grego existem três palavras que significam túmulo, sepultura,
sepultamento, etc: A primeira é “mnêma” e a sua variante “mnêmeion”, que aparecem 47 vezes
nos textos do NT, e sempre se refere a túmulo ou sepulcro como conhecemos: “No domingo bem
cedo, as mulheres foram ao túmulo [mnêma], levando os perfumes que haviam preparado”
(Lucas 24:1). “Irmãos, seja-me permitido dizer-vos claramente a respeito do patriarca Davi que
ele morreu e foi sepultado, e o seu túmulo permanece entre nós até hoje” (Atos 2:29).

A segunda palavra grega que significa túmulo ou sepultura é “táphos”, que aparece sete
vezes no NT, sendo seis vezes em Mateus (23:27 e 29; 27:61,64 e 66, e 28:1) e uma vez em
Romanos 3:13 : “A garganta deles é sepulcro[táphos] aberto; com a língua, urdem engano,
veneno de víbora está nos seus lábios”. E a terceira palavra que é traduzida como sepulcro é
“entaphiásmos”, que aparece duas vezes no NT : “Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me
para a sepultura” (Mc 14:8) e Jo 19:40)

d) Por trás da ressurreição

Podemos dizer que ao ir ao inferno em nosso lugar, Jesus Cristo colocou sua própria
existência eterna em jogo. Paulo diz em I Coríntios 15 que se Cristo não tivesse ressuscitado,
todos nós estaríamos irremediavelmente perdidos, e esta é uma verdade absoluta. De fato, se
Cristo não tivesse ressuscitado significaria que Ele não teria conseguido sair do inferno, vencer
Satanás e seus demônios, e, conseqüentemente, toda a humanidade estaria completamente
perdida nas mãos de Satanás. Aliás, não apenas a humanidade mas o próprio Jesus estaria
irremediavelmente perdido, pois não devemos nos esquecer de que ao se fazer homem Jesus se
esvaziou de toda a sua glória, e morreu como o maior de todos os pecadores, logo, totalmente
exposto e vulnerável aos ataques de Satanás, e foi nessa condição que ele foi ao inferno.
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Há um grande equívoco de muitos cristãos em imaginar que Jesus era invulnerável aos
ataques do diabo. Ele nunca pecou, mas não era invulnerável como muitos imaginam. Pensar que
Cristo, em sua humanidade, era invulnerável à Satanás, não é apenas diminuir a grandeza da
salvação, é acabar com ela. É dizer que Satanás somente foi vencido porque Jesus era invencível,
fizesse Ele o que fizesse. Ao se fazer homem Jesus Cristo abriu mão da glória que tinha com o
Pai, e, conseqüentemente, poderia sim ser derrotado e destruído por satanás, mas não o foi. Sua
vitória sobre satanás foi completa! Ele o derrotou tanto aqui quanto no inferno.

Da mesma forma que o sofrimento e a morte, a ressurreição de Cristo também tem sido
olhada pela imensa maioria dos cristãos somente pelo lado físico e material. Jesus morreu, foi
sepultado e ressuscitou. Pronto! Está concluída a obra redentora de Deus através de Cristo Jesus.
Quanta pobreza de visão! Assim como o seu sofrimento na cruz e sua morte transcenderam a
simples dor física, ao ressuscitar Cristo venceu a morte não apenas física, mas a morte eterna,
espiritual.

Ao retornar do “hades” (pois sua ressurreição foi exatamente isto) Ele derrotou o
próprio inferno com todos os seus grilhões. Jesus venceu a morte [tánatos] física é verdade, mas
sem a vitória sobre a morte espiritual, morte eterna, Ele não teria obtido vitória alguma. Uma
grande evidência de que a ressurreição de Cristo foi uma vitória não sobre a morte física tão
somente, mas, sobretudo, espiritual, está no fato de que seu corpo após a ressurreição não era
exatamente igual ao de antes sua morte física. Note que na passagem de João 20:14-15 Maria
está diante de Jesus, conversa com Ele, mas não o reconhece no primeiro momento: “Tendo dito
isto, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não reconheceu que era Jesus. Perguntou-lhe
Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu:
Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei”.

Quando Lázaro foi ressuscitado por Jesus, seu corpo não foi transformado, pois no caso
dele e de todos os outros ressuscitados que a Bíblia menciona, eles permaneceram exatamente
como eram antes de sua morte. Não receberam um novo corpo. Eles morreram, ressuscitaram e
pronto. Foi uma morte física e uma ressurreição física também. Não envolveu outros aspectos.
Eles poderiam até ter sido mortos em uma cruz e ressuscitado três dias depois, como foi o caso de
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Lázaro, que já havia sido sepultado há quatro dias quando foi ressuscitado por Jesus (João 11:17),
mas isso não implicaria em remissão do pecado de ninguém. Inúmeros cristãos morreram
sacrificados e alguns, inclusive ressuscitaram (Hebreus 11:35), mas nenhum desses mártires que
foram oferecidos como sacrifícios vivos e depois retornaram a vida, realizaram a obra redentora
que Cristo realizou, pois nenhum deles ofereceu sua alma em sacrifício, mas apenas seu corpo
físico. Esta é a grande diferença. Todos os que ressuscitaram saíram da sepultura retornando da
morte física, mas Jesus foi além, foi ao inferno, venceu a morte eterna e pagou em nosso lugar o
salário do pecado que em nós habita.

A luta espiritual travada pelo Senhor Jesus desde antes de sua crucificação até sua
ressurreição foi algo extraordinário e assustador. No discurso de Pedro narrado por Lucas em
Atos 2:27 vemos a angústia de Jesus após sua morte: “porque não deixarás a minha alma na
morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção”. Jesus recebeu uma missão e autoridade
para cumprir essa missão, conforme ele mesmo afirmou: “Por isso, o Pai me ama, porque eu
dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente
a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu
Pai” (João 10:17).

A GLORIFICAÇÃO

A ressurreição de Cristo foi um ato do Pai, conforme afirma Paulo em Ef 1:19-22: “...e
qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do
seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à
sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e
de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs
todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a
qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas”.

Após a ressurreição, Cristo, novamente, uniu-se ao Pai, e foi glorificado com a mesma
glória que possuía antes que houvesse mundo (Jo 17:5). Ao se despedir de seus discípulos, após
sua ressurreição, o Senhor lhes disse:
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na


terra” (Mt 28:18).

No texto de Efésios 1, Paulo afirma que após sua ressurreição, Jesus sentou-se à direita
do Pai, “acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa
referir não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos
pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas...”.

Em Atos 2:32-33 lemos: “A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos
testemunhas. Exaltado, pois, à destra de Deus...”. A Bíblia não deixa a menor dúvida de que
Jesus Cristo, ao ressuscitar, recebeu todo o domínio, honra, glória e poder, conforme atestam
vários textos da Palavra de Deus, como, por exemplo:

Filipenses 2:6-11: “pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação
o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-
se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe
deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos
céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória
de Deus Pai”.

Apocalipse 5:12: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e
sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor. Então, ouvi que toda criatura que há no céu e
sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que
está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos
séculos dos séculos”.

Portanto, ao entregar sua alma por nós o Senhor Jesus pagou o preço completo em nosso
lugar, mas não ficou na sepultura e nem no inferno, Ele ressuscitou e foi glorificado, e diante
dele, de seu nome, todo o joelho se dobra e toda a língua o glorifica, seja no céu, na terra ou
debaixo da terra. Amém!
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A PLENA FILIAÇÃO NOS GARANTIRÁ O PLENO CONHECIMENTO

Conforme vimos anteriormente a respeito da filiação de Deus, hoje somos filhos(tékna)


de Deus por adoção, mas um dia, tal como Jesus Cristo, seremos filhos(hüiós) legítimos de
Deus, e esse tipo de filiação nos proporcionará uma outra extraordinária e especial graça, que é o
conhecimento pleno, conforme diz Paulo:

“Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face.
Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido” (I Coríntios 13:12).

Ao sermos transformados em “hüiós toü teoü” (filhos legítimos de Deus – Ap.21:7),


receberemos o conhecimento pleno, completo. Receberemos de presente de Deus, como
resultado de nossa obediência à sua Palavra, aquilo que Adão e Eva almejaram conseguir por
meio da desobediência; o conhecimento total tal como Deus: “Então, a serpente disse à mulher:
É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão
os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era
boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do
fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu” (Gn 3:4-6).

Que coisa extraordinária! Através da obediência receberemos aquilo que tentamos


conseguir através da desobediência. Este presente é, de fato, uma graça especialíssima. Nada,
absolutamente nada ficará oculto aos filhos de Deus (Mt 10:26). No ensinamento do apóstolo
Paulo, nós conheceremos tal como somos conhecidos, e é fato que somos conhecidos total e
completamente. A palavra grega usada por Paulo em I Co 13:12 traduzida como “conhecer” é
“epignosko”, que de acordo com o Léxico do Novo Testamento Grego/Português significa
“conhecer exatamente, completamente”. Esta mesma palavra é usada em Mateus 11:27, quando
Jesus diz: “...Ninguém conhece[epiginóskei] o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece
[epiginoskei] o Pai, senão o Filho...”. O Pai e o Filho são um (Jo 10:30), e nós, quando formos
transformados em filhos da mesma essência de Cristo, tivermos o mesmo DNA do Pai,

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

receberemos a graça do conhecimento pleno.

Lembre do ensinamento de Paulo em Romanos 8:29: “Porquanto aos que de antemão


conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que
ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. E em Colossenses 3:10,ele diz: “e vos revestistes
do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o
criou”.
Esse conhecimento pleno, dentre tantas outras coisas, nos permitirá participar do
julgamento do mundo e dos anjos, como juizes:
“Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser
julgado por vós, sois, porventura, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que
havemos de julgar os anjos?” (I Coríntios 6:2-3).
“Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de
julgar...” (Ap 20:4);

Não é sem razão que Paulo afirma: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem
jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (II
Co 2:9).
O conhecimento pleno que teremos, está muito bem explicado por Paulo nesse capítulo
2 de II Coríntios. Nos versos 10 a 12 ele afirma o seguinte:

“Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta,
até mesmo as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o
seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece,
senão o Espírito de Deus. Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito
que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”.

Deus nos deu o Seu Espírito, e por meio dele temos a graça do conhecimento completo
das “profundezas de Deus”. O que nos impede, no presente, de termos tal conhecimento é o
pecado que em nós habita, e que não habitava em Jesus, mas quando formos transformados à
imagem de Cristo, essa barreira que nos afasta do pleno conhecimento deixará de existir, e então
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

conheceremos tal como somos conhecidos.

A PLENA FILIAÇÃO NOS GARANTIRÁ O DIREITO DE REINAR COM CRISTO

Outro maravilhoso presente especial dado por Deus àqueles que, pela fé em Jesus, se
tornam seus filhos, é o poder de reinarmos com Cristo. O conhecimento pleno nos permitirá
participar do julgamento do mundo e dos anjos como juizes, e a nossa transformação em filhos
nos colocará na condição de sermos herdeiros juntamente com Cristo de todo o Universo: “Ora,
se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com
ele sofremos, também com ele seremos glorificados...” (Rm 8:17). Ao ressuscitar, ao vencer a
morte e o inferno, o Senhor Jesus reassumiu toda a sua glória e poder, conforme já vimos, e por
amor e graça resolveu dividir com aqueles que nele crêem o seu domínio sobre todo o Universo.

Deus criou o ser humano e deu-lhe domínio sobre todo o planeta Terra: “Também disse
Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio
sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra
e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn 1:26), mas através do novo nascimento o
“novo homem” receberá o domínio sobre todo o Universo: “Fiel é esta palavra: Se já
morremos com ele, também viveremos com ele; se perseveramos, também com ele
reinaremos...” (II Tm 2:11-12).

“Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu
sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o
nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra” (Ap 5:9-10).

“Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de
julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por
causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem,
e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil
anos” (Ap 20:4; ver ainda Ap 20:6 e 22:5).

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PARTE 2

OS OFÍCIOS
DE CRISTO

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INTRODUÇÃO

Os três cargos mais importantes que poderiam existir para o povo de Israel no Antigo
Testamento eram: o profeta (como Natã, 2Sm 7.2), o sacerdote (como Abiatar, ISm 30.7) e o rei
(como Davi, 2Sm 5.3). Esses três ofícios eram distintos. O profeta falava as palavras de Deus
ao povo; o sacerdote oferecia sacrifícios, orações e louvores a Deus em favor do povo; e o rei
governava o povo como representante de Deus. Esses três ofícios prefiguravam a própria obra
de Cristo de várias maneiras. Conseqüentemente podemos voltar de novo a nossa atenção para a
obra de Cristo, dessa vez considerando desde a perspectiva desses três cargos ou categorias. I
Cristo preenche esses três ofícios dos seguintes modos: como profeta ele revela Deus a nós e
transmite-nos a palavra de Deus; como sacerdote ele tanto oferece a Deus um sacrifício em
nosso favor quanto ele mesmo é o sacrifício oferecido; e como rei governa a Igreja e o próprio
universo. Vamos agora discutir detalhadamente cada um desses ofícios.

CRISTO COMO PROFETA

Os profetas do Antigo Testamento transmitiam a palavra de Deus ao povo. Moisés foi o


primeiro grande profeta e escreveu os cinco primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco. Depois
vieram outros que falaram e escreveram as palavras de Deus. Mas Moisés predisse que um dia
viria outro profeta como ele.

“O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante
a mim; a ele ouvirás, segundo tudo o que pediste ao SENHOR, teu Deus [...] Então, o SENHOR
me disse [...] Suscitar-Ihes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca
porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.15-18).

Contudo, quando examinamos os evangelhos vemos que Jesus não é fundamentalmente


visto como um profeta ou como o profeta semelhante a Moisés, apesar de referências eventuais
a isso. Geralmente aqueles que chamavam Jesus de "profeta" conheciam muito pouco sobre ele.
Por exemplo, várias opiniões circulavam a respeito dele:

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

“Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros:Jeremias ou algum dos profetas” (Mt
16.14; cf. Lc 9.8). Quando Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, as pessoas se
atemorizaram e disseram que havia um grande profeta em seu meio (Lc 7.16). Quando Jesus
disse à samaritana no poço um pouco da sua vida passada, ela respondeu imediatamente que
percebia que ele era profeta Jo 4.19). Mas ela até então não sabia muito acerca dele. A reação
do homem cego de nascença curado no templo foi semelhante:

“Então os fariseus tornaram a perguntar ao homem:


– Você diz que ele curou você da cegueira. E o que é que você diz dele?
– Ele é um profeta! – respondeu o homem” ( Jo 9.17).

Observe que sua fé em Jesus como Messias e Deus não apareceu antes do v. 37, após
uma conversa posterior com Jesus. Portanto, "profeta" não é uma designação básica de Jesus
nem usada freqüentemente por ele ou a respeito dele. Contudo, ainda havia uma expectativa de
que viria o profeta semelhante a Moisés (Dt 18.15, 18).

Após Jesus ter multiplicado os pães e os peixes, alguns exclamaram: "Este é,


verdadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo" Jo 6.14; cf. 7.40). Pedro também identifica
Cristo como o profeta predito por Moisés (veja At 3.22-24, citando Dt 18.15). Assim Jesus é de
fato o Profeta predito por Moisés.

Apesar disso, é digno de nota que as epístolas nunca aludem a Jesus como um profeta
ou o profeta. Isso é especialmente notável nos capítulos iniciais de Hebreus, porque ali havia
uma clara oportunidade para identificar Jesus como profeta, se o autor assim o tivesse desejado.
Ele inicia dizendo: "Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos
pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho" (Hb 1.12).

Então, após discutir a grandeza do Filho nos capítulos 1-2, o autor não conclui essa seção
dizendo: "Por isso, considerai Jesus, o maior de todos os profetas" ou algo semelhante, mas diz:
"Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial, considerai atentamente o
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão,Jesus" (Hb 3.1).

Por que as epístolas do Novo Testamento evitam chamar Jesus de profeta?


Aparentemente porque, apesar de ser Jesus o profeta predito por Moisés, ele é também
infinitamente maior que qualquer profeta do Antigo Testamento, em dois sentidos:

1. Ele é aquele sobre quem foram feitas as profecias do Antigo Testamento. Quando
Jesus falou com os dois discípulos no caminho de Emaús, ele os conduziu por todo o Antigo
Testamento, mostrando como as profecias apontavam para ele: "E, começando por Moisés,
discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as
Esçrituras" (Lc 24.27). Ele disse a esses discípulos que eles eram "tardios de coração para crer
tudo o que os profetas disseram", mostrando que era necessário que "o Cristo padecesse e
entrasse na sua glória" (Lc 24.25-26; cf. lPe 1.1, que diz que os profetas do Antigo Testamento
estavam predizendo os sofrimentos de Cristo e sua glória subseqüente). Assim, os profetas do
Antigo Testamento escreviam a respeito do Cristo esperado no futuro, e os apóstolos do Novo
Testamento examinavam o que Cristo fez no passado e interpretavam sua vida em beneficio da
igreja.

2.Jesus não era meramente um mensageiro da revelação de Deus (como todos os outros
profetas), mas era ele mesmo a fonte da revelação de Deus. Em vez de dizer, como todos os
profetas do Antigo Testamento disseram: "Assim diz o SENHOR", Jesus podia começar o ensino
com autoridade divina, com a assombrosa declaração: "Eu porém vos digo" (Mt 5.22; et al.). A
palavra do Senhor veio aos profetas do Antigo Testamento, mas Jesus falou com sua própria
autoridade como o Verbo eterno de Deus (Jo 1.1) que revelou perfeitamente o Pai a nós (Jo
14.9; Hb 1.1-2).

No sentido mais amplo da palavra profeta, significando simplesmente alguém que revela
Deus a nós e nos transmite as palavras de Deus, Cristo é evidentemente um profeta de modo
verdadeiro e completo. De fato, ele é aquele prefigurado por todos os profetas de Antigo
Testamento, por meio das palavras e das ações deles.

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

CRISTO COMO SACERDOTE


No Antigo Testamento, os sacerdotes eram designados por Deus para oferecer
sacrifícios. Eles também ofereciam orações e louvores a Deus em favor do povo. Ao agir assim
"santificavam" as pessoas, ou tornavam-nas aceitáveis à presença de Deus, se bem que de forma
limitada durante o período do Antigo Testamento. No Novo Testamento, Jesus tornou-se nosso
grande sumo sacerdote. Esse tema é bem desenvolvido na carta aos Hebreus, na qual vemos que
Jesus atua como sacerdote de duas maneiras.
1. Jesus ofereceu um sacrifício perfeito pelo pecado. O sacrifício que Jesus ofereceu
pelos pecados não foi o sangue de animais como touros ou bodes: "... porque é impossível que o
sangue de touros e bodes remova pecados" (Hb 10.4). Em vez disso, Jesus ofereceu a si mesmo
como sacrifício perfeito: "... ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para
aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado” (Hb 9.26). Esse sacrifício foi definitivo e
completo, que jamais precisaria ser repetido, tema freqüentemente enfatizado no livro de
Hebreus (veja Hb 7.27; 9.12, 24-28; 10.1-2, 10, 12, 14; 13.12). Portanto, Jesus preencheu todas
as expectativas que prefigurou, não apenas nos sacrifícios do Antigo Testamento, mas também
na vida e ação dos sacerdotes que os ofereciam: ele era tanto o sacrifício quanto o sacerdote que
oferecia o sacrifício. Jesus agora é o "Grande Sumo Sacerdote que penetrou os céus" (Hb 4.14) e
que compareceu na presença de Deus em nosso favor (Hb 9.24), visto que ofereceu um sacrifício
que de uma vez por todas pôs fim à necessidade de quaisquer outros sacrifícios.
2. Jesus nos aproxima continuamente de Deus. Os sacerdotes do Antigo Testamento
não apenas apresentavam sacrifícios, mas também compareciam de modo representativo na
presença de Deus, de tempos em tempos, em favor do povo. Mas Jesus faz muito mais do que
isso. Como nosso perfeito sumo sacerdote, ele continuamente nos conduz à presença de Deus,
de forma que não temos mais a necessidade de um templo em Jerusalém nem de um sacerdócio
especial que se coloque entre nós e Deus. E Jesus não foi para a parte mais recôndita (o santo
dos santos) do templo terrestre de Jerusalém, mas foi ao equivalente celestial do santo dos
santos, a presença do próprio Deus no céu (Hb 9.24). Conseqüentemente, temos uma esperança
que o segue lá: "... a qual temos por âncora da alma, segura e firme e que penetra além do véu,
onde Jesus, como precursor, entrou por nós, tendo-se tornado sumo sacerdote para sempre"
(Hb 6.19-20).

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

Nós temos um privilégio muito maior do que o daqueles que viveram na época do
tabernáculo ou templo do Antigo Testamento. Eles nem sequer podiam entrar na primeira parte
do templo (ou do tabernáculo), o lugar santo, pois apenas os sacerdotes podiam ir até lá. Quanto
à parte interior do templo, o santo dos santos, somente o sumo sacerdote podia entrar ali, e isso
uma única vez por ano (Hb 9.1-7). Mas quando Jesus ofereceu um sacrifício perfeito pelos
pecados, a cortina ou véu do templo que fechava o santo dos santos rasgou-se em dois, de alto a
baixo (Lc 23.45), indicando assim, de modo simbólico na terra que a via de acesso a Deus nos
céus tinha sido aberta com a morte de Jesus. Portanto, o autor de Hebreus podia fazer essa
impressionante exortação a todos os crentes:

“Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de
Jesus[...] e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero
coração, em plena certeza de fé” (Hb 10.19-22).

Jesus abriu para nós a via de acesso a Deus para que nos aproximemos continuamente da
presença do próprio Deus sem temor, mas com "intrepidez" e com "plena certeza de fé”.

3. Como sacerdote, Jesus ora continuamente por nós. Outra função sacerdotal no
Antigo Testamento era orar a favor das pessoas. O autor de Hebreus nos diz que Jesus também
cumpre essa função: "... também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus,
vivendo sempre para interceder por eles" (Hb 7.25). Paulo afIrma a mesma coisa quando diz
que Cristo Jesus é aquele que intercede por nós (Rm 8.34).

Alguns têm argumentado que essa obra de intercessão como sumo sacerdote é apenas a
permanência na presença do Pai como lembrete contínuo de que ele mesmo pagou a pena por
todos os nossos pecados. De acordo com esse ponto de vista, Jesus não faz de fato orações
específicas a Deus Pai por causa das necessidades individuais que enfrentamos na vida, mas
"intercede" apenas no sentido de permanecer na presença de Deus como nosso Sumo Sacerdote
que nos representa. Todavia, esse ponto de vista não parece se encaixar com o uso das palavras
em Romanos 8.34: Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem
ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. E Hebreus 7.25-28:
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

“Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo
sempre para interceder por eles. Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo,
inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus, que não tem
necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus
próprios pecados, depois, pelos do povo; porque fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo
se ofereceu. Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens sujeitos à fraqueza, mas a
palavra do juramento, que foi posterior à lei, constitui o Filho, perfeito para sempre”.

Nos dois casos, a palavra intercede traduz o termo grego entygxáno. Essa palavra não
significa meramente "ser o representante de alguém diante de outra pessoa", mas tem o claro
sentido de fazer pedidos específicos ou petições diante de alguém.

Por exemplo, Festo usa essa palavra para dizer ao rei Agripa: “... vede este homem! Toda
a comunidade judaica me fez,petições a respeito dele” (At 25.24 NVI). Paulo também a utiliza
para mencionar como Elias "clamou a Deus contra Israel" (Rm 11.2). Nos dois casos os
pedidos são muito específicos, não apenas representações gerais. Podemos concluir, portanto,
que tanto Paulo quanto o autor de Hebreus estão dizendo que Jesus vive continuamente na
presença de Deus, fazendo pedidos específicos e levando petições bem definidas diante de Deus
em nosso favor.

Esse é o papel que apenas Jesus como Deus-Homem, está qualificado para cumprir.
Apesar de Deus poder cuidar de todas as nossas necessidades em resposta à observação direta
(Mt 6.8), foi do agrado de Deus em seu relacionamento com a raça humana, decidir agir em
resposta à oração, para que a fé demonstrada por meio da oração possa glorificá-lo. São
especialmente as orações dos homens e mulheres, criados à sua imagem, que lhe são agradáveis.
Em Cristo temos um verdadeiro homem, um homem perfeito, orando e glorificando a Deus
continuamente por meio da oração.

Mas é claro que apenas em sua natureza humana Jesus não poderia ser tal Grande Sumo
Sacerdote em favor de todo seu povo em todo o mundo. Ele não poderia ouvir as orações de
pessoas em lugares distantes, nem poderia ouvir as orações proferidas apenas na mente das
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

pessoas. Ele não poderia ouvir a todos os pedidos simultaneamente (pois em todos os momentos
há no mundo milhões de pessoas dirigindo-lhe orações). Portanto, para ser o sumo sacerdote
perfeito que intercede por nós, ele precisa ser tanto Deus quanto homem. Ele precisa ser aquele
que em sua natureza divina pode conhecer todas as coisas e levá-las à presença do Pai. Mas
visto que ele veio a ser homem, ele tem o direito de representar-nos diante de Deus e pode
expressar seus pedidos do ponto de vista de um sumo sacerdote compreensivo, que se identifica
por experiência própria com as situações por que passamos.

Portanto, Jesus é a única pessoa em todo o universo, em toda a eternidade, que pode ser
tal sumo sacerdote celestial, aquele que é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem,
exaltado para sempre acima dos céus. Pensar que Jesus está orando continuamente em nosso
favor deve dar-nos grande ânimo. Ele sempre ora por nós, de acordo com a vontade do Pai, de
modo que podemos saber que seus pedidos serão atendidos.

CRISTO COMO REI

No Antigo Testamento o rei tinha autoridade para governar a nação de Israel. No Novo
Testamento Jesus nasceu para ser o Rei dos judeus (Mt 2.2), mas recusou todas as tentativas
feitas pelo povo para fazê-lo um rei terreno com um poder militar e político terreno (Jo 6.15).
Ele disse a Pilatos: "O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus
ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o
meu reino não é daqui" (Jo 18.36). Mesmo assim, Jesus de fato tem um reino, cuja vinda ele
anunciou em sua pregação (Mt 4.17,23; 12.28 ). Ele é, de fato, o verdadeiro Rei do novo povo
de Deus. Dessa forma, Jesus negou-se a repreender seus discípulos que clamavam em alta voz
durante sua entrada triunfal em Jerusalém: "Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor!" (Lc
19.38; cf. vv. 39-40; também Mt 21.5;Jo1.49;At 17.7).

Após sua ressurreição, Deus Pai deu a Jesus muito maior autoridade sobre a igreja e sobre o
universo. Deus o exaltou "fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo
principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no
presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

cabeça de todas as coisas, o deu à igreja" (Ef 1.20-22; Mt 28.18; 1 Co 15.25).

Essa autoridade sobre a igreja e sobre o Universo será mais plenamente reconhecida pelas
pessoas quando Jesus voltar à terra com poder e grande glória para reinar (Mt 26.64; 2Ts 1.7-10;
Ap 19.11-16). Naquele dia ele será reconhecido como o "REI DOS REIS E SENHOR DOS
SENHORES" (Ap 19.16) e todo joelho se dobrará diante dele (Fp 2.10).

NOSSO PAPEL COMO PROFETAS, SACERDOTES E REIS

Se olharmos para a situação de Adão antes da queda e para a nossa situação futura com
Cristo no céu por toda.a eternidade, poderemos ver que esses papéis de profeta, sacerdote e rei
têm paralelo com a experiência que Deus originariamente pretendia que o homem tivesse e serão
cumpridos na nossa vida no céu.

No jardim do Éden, Adão era um "profeta" no sentido de que possuía o verdadeiro


conhecimento de Deus e sempre falava de modo fidedigno a respeito de Deus e da sua criação.
Ele era um "sacerdote" no sentido de que podia oferecer livre e espontaneamente orações e
louvores a Deus. Não havia necessidade de um sacrifício para pagar os pecados, mas em outro
sentido de sacrifício o trabalho de Adão e Eva seria oferecido a Deus em gratidão e ação de
graças, e assim teria sido um "sacrifício" de outro tipo (cf. Hb 13.15). Adão e Eva eram também
"reis" (ou rei e rainha) no sentido de que receberam domínio e autoridade sobre a criação (Gn
1.26-28). .

Após a entrada do pecado no mundo, os seres humanos decaídos não mais exerciam a
função de profetas, pois acreditavam em falsas informações acerca de Deus e falavam
falsamente sobre ele para os outros. Não mais tinham acesso sacerdotal a Deus, pois o pecado os
havia afastado da sua presença. Em vez de reger a criação como reis, estavam sujeitos aos
rigores da criação e eram tiranizados por inundações, secas e terra improdutiva, bem como por
tiranos humanos. O caráter nobre do homem, como Deus o havia criado, de ser um verdadeiro
profeta, sacerdote e rei, perdeu-se com o pecado.

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

Houve uma recuperação parcial da pureza desses três papéis na instituição dos cargos de
profeta, sacerdote e rei no reino de Israel. De tempos em tempos, homens piedosos exerciam
esses ofícios. Mas havia também falsos profetas, sacerdotes desonestos e reis ímpios, e a pureza
original e a santidade com as quais Deus pretendia que o homem cumprisse esses ofícios jamais
foram vistas plenamente.

Quando Cristo veio, vimos pela primeira vez o cumprimento desses três papéis, uma vez
que ele foi o Profeta Verdadeiro, que manifestou mais plenamente as palavras de Deus para nós,
o perfeito Sumo Sacerdote, que ofereceu o sacrifício supremo pelos pecados e que aproximou o
seu povo de Deus, e o verdadeiro e justo Rei do universo, que reinará eternamente com um cetro
de retidão sobre o novo céu e a nova terra.

Mas surpreendentemente, nós, como cristãos, ainda hoje começamos a imitar Cristo em
cada um desses papéis, apesar de ser em subordinação a ele. Somos profetas à medida que
proclamamos o Evangelho ao mundo, trazendo assim a Palavra salvadora de Deus às pessoas. De
fato, sempre que falamos fidedignamente a respeito de Deus, a crentes ou a descrentes, estamos
exercendo uma função "profética" (usando a palavra em um sentido bem amplo). Somos
também sacerdotes, pois Pedro nos chama de "sacerdócio real" (IPe 2.9). Ele nos convida a
sermos parte da edificação de um templo espiritual e sacerdócio santo para oferecer sacrifícios
espirituais aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo (1 Pe 2.5). O autor de Hebreus também
nos vê como sacerdotes aptos a entrar no santo dos santos (Hb 10.19, 22) e somos instados:
"ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu
nome" (Hb 13.15).

Ele também nos diz que nossas boas obras são sacrifícios agradáveis a Deus: "Não negligencieis,
igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz"
(Hb 13.16). Paulo também escreve: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que
apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto
racional" (Rm 12.1). Também compartilhamos agora parcialmente do reino de Cristo, visto
que fomos elevados para nos assentar com ele nos lugares celestiais (Ef2.6), participando assim
até certo ponto da sua autoridade sobre várias áreas deste mundo ou sobre a igreja, dando a
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

alguns a autoridade sobre muitas coisas e a outros a autoridade sobre pouco. Mas quando o
Senhor retornar aqueles que tiverem sido fiéis sobre o pouco receberão autoridade sobre o muito
(Mt 25.14-30).

Quando Cristo voltar e reger o novo céu e a nova terra, mais uma vez seremos
verdadeiros "profetas", pois nosso conhecimento se tornará, então, perfeito, e conheceremos
como somos conhecidos (1 Co 13.12). Então falaremos apenas a verdade a respeito de Deus e
sobre seu mundo, e se cumprirá em nós o plano secreto Deus. Seremos sacerdotes para sempre,
pois iremos eternamente adorar e oferecer orações a Deus, contemplando sua face e habitando
em sua presença (Ap 22.3-4). Iremos oferecer continuamente a nós mesmos, todas as nossas
posses e ações, como sacrifícios ao nosso Rei.

Também iremos, sujeitos a Deus, participar no governo do universo, pois com Ele,
reinaremos eternamente (Ap 22.5). Jesus diz:

"Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e
me sentei com meu Pai no seu trono" (Ap. 3.21). De fato, Paulo diz aos coríntios: "não sabeis
que os santos hão de julgar o mundo? [...] Não sabeis que havemos de julgar os próprios
anjos?" (ICo 6.2-3). Portanto, por toda a eternidade, agiremos para sempre como profetas,
sacerdotes e reis, subordinados e sempre sujeitos ao Senhor Jesus, o Supremo Profeta, Sacerdote
e Rei. AMÉM!

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

A DOUTRINA DA GRAÇA

INTRODUÇÃO

A palavra graça deriva da palavra grega “káris”; o apóstolo Paulo a usa em II Coríntios
12:9 “Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.
De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de
Cristo”, e em João 1:16 e 17 ela é usada três vezes: “Porque todos nós temos recebido da sua
plenitude e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a
verdade vieram por meio de Jesus Cristo”. No Novo Testamento a palavra “káris”, juntamente
com suas variantes, é utilizada 174 vezes, sendo que em algumas delas esta palavra é traduzida
como:
1) Recompensa: “Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa[káris]? Porque
até os pecadores amam aos que os amam” (Lc 6:32).
2) Simpatia: “ louvando a Deus e contando com a simpatia[káris] de todo o povo.
Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (Atos 2:47).
3) Apoio: “Dois anos mais tarde, Félix teve por sucessor Pórcio Festo; e, querendo
Félix assegurar o apoio[káris] dos judeus, manteve Paulo encarcerado” (Atos 24:27).
4)Favor: “pedindo como favor[káris], em detrimento de Paulo, que o mandasse vir a
Jerusalém, armando eles cilada para o matarem na estrada” (Atos 25:3).

De fato, uma boa definição para a palavra graça é “favor”. Na realidade, quando se
refere à graça de Deus, é um favor imerecido, é algo que recebemos dele sem termos mérito
algum. Por exemplo, a salvação que recebemos através do extraordinário sacrifício de Cristo por
nós conforme vimos no capítulo anterior, é fruto única e exclusivamente da graça divina. Não é
sem razão que Paulo afirma:

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e
estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois
salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em
Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não
vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:4-9).
Portanto, a doutrina da graça é a doutrina das bênçãos que recebemos de Deus sem
termos mérito algum, sendo a maior de todas as bênçãos a salvação em Cristo Jesus.

A) A GRAÇA COMUM

Embora a salvação seja a maior de todas as graças dadas por Deus, seu amor e bondade
são tão grandes que Ele derrama graça sobre graça a todos os indivíduos, mesmo sobre aqueles
que não crêem para a salvação, e esse tipo de graça independente da salvação, que Ele derrama
sobre todos é chamada de “graça comum”. A graça comum é, portanto, “a graça de Deus pela
qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação”[Grudem 297]
. Um
exemplo dessa graça comum encontramos nas palavras do próprio Senhor Jesus Cristo narrada
em Mateus 5:45: “para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu
sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”.

Wayne Grudem fala sobre “diversas categorias específicas nas quais a graça comum é
[GRUDEM 550]
vista” . A seguir são apresentadas cada uma dessas categorias descritas por Grudem:

1. O DOMÍNIO FISICO. “Os incrédulos continuam a viver neste mundo unicamente


por causa da graça comum de Deus - toda vez que alguém respira, isso se dá pela graça, porque
o salário do pecado é morte, não vida. Além disso, a terra não produz somente cardos e abrolhos
(Gn 3.18), nem permanece como um deserto ressecado, mas pela graça comum de Deus ela
produz alimento e material para roupa e abrigo, freqüentemente em grande abundância e
diversidade. Jesus disse: "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que
vos tomeis filhos de vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir
chuvas sobre justos e injustos" (Mt 5.44-45). Aqui Jesus apela à abundante graça comum de
Deus como um incentivo a seus discípulos porque eles também deveriam ofertar amor e orações
pelas bênçãos sobre os incrédulos (cf. Lc 6.3536) [...]”.

“[...] O Antigo Testamento também fala sobre a graça comum de Deus que chega tanto
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

aos incrédulos como aos crentes. Um exemplo específico é o egípcio Potifar, capitão da guarda
que comprou José como escravo: "O SENHOR abençoou a casa do egípcio por amor de José; a
bênção do SENHOR estava sobre tudo o que tinha, assim em casa como no campo" (Gn 39.5).
Davi fala de uma maneira muito mais abrangente a respeito de todas as criaturas que Deus fez:
"O SENHOR é bom para todos, e suas temas misericórdias permeiam todas as suas obras. [...]
Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. Abres a mão e satisfazes
de benevolência a todo vivente" (SI 145.9, 15-16).

Esses versículos são outro lembrete de que a benevolência encontrada na criação inteira
deve-se à benevolência e às temas misericórdias de Deus. Vemos evidências da graça comum de
Deus até na beleza do mundo natural. Embora a própria natureza esteja no "cativeiro da
corrupção" e "sujeita à vaidade" (Rm 8.21, 20) por causa da maldição da queda (Gn 3.17-19),
ainda há muita formosura no mundo natural. A beleza das flores multicoloridas, dos gramados e
florestas, dos rios, lagos, montanhas e praias ainda permanece como um testemunho diário da
incessante graça comum de Deus. Os incrédulos não merecem usufruir dessa beleza, mas pela
graça de Deus eles podem usufruí-Ia por toda a vida”.

2. O DOMÍNIO INTELECTUAL. “Satanás é "mentiroso e pai da mentira" e "nele


não há verdade" Jo 8.44), porque ele é completamente inclinado para o mal, para a irracio-
nalidade e para a perpetração da falsidade que acompanha o mal extremo. Mas os seres
humanos no mundo atual, mesmo incrédulos, não são totalmente inclinados para a mentira,
para a irracionalidade e para a ignorância. Todas as pessoas conseguem compreender alguma
medida da verdade; certamente alguns têm grande inteligência e entendimento. Isso também
deve ser visto como um dos resultados da graça de Deus. João fala de Jesus como "a
verdadeira luz que ilumina a todo homem" (Jo 1.9), porque em sua função como criador e
sustentador do universo (não particularmente em sua função como redentor) o Filho de Deus
permite que iluminação e entendimento cheguem a todas as pessoas no mundo.

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e mesmo o pecado não anulou isso.
Portanto, é uma graça comum o fato de, diferentemente de Satanás, termos dentro de nós,
crentes ou não, a semente da divindade que regula nossas ações.
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

A graça comum de Deus no domínio intelectual é vista no fato de que todas as pessoas
têm um conhecimento de Deus: "Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram
como Deus, nem lhe deram graças" (Rm 1.21). Isso significa que há uma percepção da
existência de Deus e freqüentemente um desejo de conhecer a Deus que ele permite
permanecer no coração das pessoas, ainda que isso amiúde resulte em diversas religiões
artificiais e conflitantes. Por essa razão, mesmo ao falar a pessoas que se apegavam a religiões
falsas, Paulo encontrava um ponto de contato com referência ao conhecimento da existência
de Deus, como ele fez ao falar aos atenienses: "Senhores atenienses! Em tudo vos vejo
acentuadamente religiosos. [...] Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele
que eu vos anuncio" (At 17.22-23).
A graça comum de Deus no domínio intelectual também resulta na capacidade para
compreender a verdade e distingui-la do erro e em experimentar crescimento em
conhecimento, que pode ser usado na investigação do universo e na tarefa de dominar a terra.
Isso significa que toda ciência e tecnologia executada por não-cristãos é um dos resultados
da graça comum, que lhes concede fazer descobertas e invenções inacreditáveis, desenvolver
os recursos da terra em muitos bens materiais, produzir e distribuir tais recursos e ter
habilidade em seu trabalho produtivo. Num sentido prático isso significa que toda vez que
caminhamos até uma mercearia, andamos de automóvel ou entramos em uma casa,
deveríamos lembrar que estamos experimentando os resultados da abundante graça comum
que Deus derramou tão esplendidamente sobre toda a humanidade”.

3. O DOMÍNIO MORAL. “Deus também, por meio da graça comum, limita as


pessoas para que não sejam tão más quanto poderiam ser. Mais uma vez o domínio
demoníaco, totalmente devotado ao mal e à destruição, proporciona um claro contraste com a
sociedade humana, na qual o mal é claramente controlado. Se as pessoas persistem cruel e
repetidamente em aderir demais ao pecado no decorrer do tempo, Deus finalmente "os
entregará" ao maior de todos os pecados (cf. Sl 81.12, Rm 1.24, 26, 28), mas no caso da
maioria dos seres humanos eles não caem até as profundezas onde seu pecado os levaria
porque Deus intervém e põe freios sobre sua conduta. Uma das mais eficazes restrições é a
força da consciência. Paulo diz: "Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes
mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-/hes também a consciência
e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se" (Rm 2.14-15).

Essa percepção interna do certo e do errado, que Deus dá a todas as pessoas, significa
que elas freqüentemente aprovarão os padrões morais que refletem muitos dos padrões morais
das Escrituras. Mesmo àqueles que se entregaram ao pecado mais degradante, Paulo diz que eles
conhecem "a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam" (Rm
1.32). Em muitos outros casos essa percepção interior da consciência conduz as pessoas a
estabelecer leis e costumes na sociedade que estão, em termos de procedimento externo que
aprovam ou proíbem, totalmente de acordo com as leis morais das Escrituras: as pessoas
freqüentemente estabelecem leis ou têm costumes que respeitam a santidade do matrimônio e da
família, protegem a vida humana e proíbem o roubo e a falsidade no falar.

Por causa disso, as pessoas com freqüência vivem de maneira correta e estão
exteriormente de acordo com os padrões morais encontrados nas Escrituras. Apesar de sua
conduta moral, não podem merecer recompensa da parte de Deus (visto que as Escrituras
claramente dizem que "pela lei, ninguém é justificaqo diante de Deus", Gl 3.11, e "Todos se
extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer", Rm
3.12); não obstante, em algum sentido menor do que merecer a aprovação eterna ou a
recompensa de Deus, os incrédulos "fazem o bem". É isso que significam as palavras de Jesus:
"Se fizerdes o bem aos que vos fazem o bem, qual é a vossa recompensa? Até os pecadores
fazem o mesmo"(Lc 6.33) [...].

Deus também demonstra sua graça comum por meio de advertências com relação ao
juízo final no processo do mundo natural. Deus ordenou o mundo de modo que viver de acordo
com seus padrões morais muito freqüentemente conduz a recompensas no domínio natural, e
violar os padrões de Deus leva destruição às pessoas, em ambos os casos indicando a
conseqüente direção do juízo final: honestidade, trabalho árduo, demonstrar amor e bondade a
outros, fidelidade no casamento e à família conduzem (exceto nas sociedades mais corruptas) a
muito mais recompensas materiais e emocionais nesta vida do que desonestidade, preguiça,
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

crueldade, infidelidade conjugal e outras coisas erradas tais como embriaguez, abuso de drogas,
roubo, e assim por diante. Essas conseqüências normais do pecado ou da retidão devem servir de
advertências com relação ao juízo vindouro e, desse modo, são também exemplos da graça
comum de Deus”.

4. O DOMÍNIO CRIATIVO. “Deus tem permitido medidas significativas de talento


nas áreas artísticas e musicais, bem como em outras esferas nas quais a criatividade e o talento
podem ser expressos, tais como atividades atléticas, arte culinária, literatura e assim por diante.
Além disso, Deus nos dá capacidade para apreciar a beleza em muitas facetas da vida. E nessa
área, bem como nos domínios físico e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes
derramadas sobre os incrédulos até mais abundantemente do que sobre os crentes. Contudo, em
todos os casos é o resultado da graça de Deus”.

5. O DOMÍNIO SOCIAL. “A graça de Deus também é evidente na existência de


várias organizações e estruturas na sociedade humana. Vemos isso primeiramente na família
humana, atestada pelo fato de que Adão e Eva permaneceram como marido e mulher depois da
queda e então tiveram descendentes, tanto filhos como fIlhas (Gn 5.4). Os fIlhos de Adão e Eva
se casaram e formaram suas próprias famílias (Gn 4.17,19,16). A família humana perdura hoje
não simplesmente como uma instituição para crentes, mas para todas as pessoas.

O governo humano também é resultado da graça comum. Ele foi instituído por Deus
como um princípio depois do dílúvio (veja Gn 9.6), e se diz claramente que é concedido por
Deus em Romanos 13.1: "Não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que
existem foram por ele instituídas". É evidente que esse governo é uma dádiva de Deus para a
humanidade em geral, porque Paulo diz que o governante é "ministro de Deus para teu bem" e
que ele é "ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal" (Rm 13.4). Um dos
principais expedientes que Deus usa para restringir o mal no mundo é o governo humano. As leis
humanas, as forças policiais e os sistemas judiciais proporcionam um poderoso restringente às
ações do mal, e essas coisas são necessárias porque existe no mundo muito mal irracional que só
pode ser restringido pela força e não pela razão ou educação. Obviamente, a propensão do
homem para o pecado também pode afetar os próprios governos, por isso eles se tomam
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

corruptos e efetivamente encorajam o mal ao invés do bem. Isso meramente significa que o
governo humano, assim como todas as outras bênçãos da graça comum que Deus dá, pode ser
usado tanto para propósitos bons quanto maus[...]”.

6. O DOMÍNIO RELIGIOSO. “Até mesmo no domínio da religião humana, a graça


comum de Deus produz algumas bênçãos para pessoas incrédulas. Jesus nos ordena: "Amai os
vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mt 5.44). Visto que no contexto não há
restrição para orar apenas pela salvação deles, e visto que a ordem de orar por nossos
perseguidores está ligada a um mandamento para amá-los, parece razoável concluir que Deus
tem a intenção de responder às nossas orações - mesmo aquelas pelos nossos perseguidores -
com relação a muitas áreas da vida. De fato, Paulo ordena especificamente que oremos "em
favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade" (ITm 2.1-2).

Quando visamos o bem dos incrédulos, isso está em harmonia com a prática do próprio
Deus de conceder luz solar e chuva "sobre justos e injustos" (Mt 5.45) e também se harmoniza
com a prática de Jesus durante seu ministério terrestre, quando ele curou todas as pessoas que
eram levadas até ele (Lc 4.40). Não há indicação de que ele exigisse que elas acreditassem nele
ou concordassem que ele era o Messias antes de lhes conceder a cura física.

Será que Deus responde às orações dos incrédulos? Embora Deus não tenha prometido
responder às orações deles (como prometeu responder às dos que oram em nome de Jesus) e
embora não tenha a obrigação de respondê-las, ainda assim ele pode, por causa da sua graça
comum, ouvir e atender as orações deles, demonstrando assim sua misericórdia e sua bondade
também dessa maneira (d. SI 145.9, 15; Mt 7.22; Lc 6.35-36). Esse é aparentemente o sentido
de 1 Timóteo 4.10, que diz que Deus é o "Salvador de todos os homens, especialmente dos
fiéis". Aqui, "Salvador" não pode ser restringido como significando aquele que “perdoa
pecados e dá vida eterna”, porque essas coisas não são dadas àqueles que não crêem. "Salvador"
aqui deve ter um sentido mais abrangente, a saber: “aquele que livra das tribulações, aquele que
liberta”. Nos casos de dificuldades e tribulações, Deus freqüentemente ouve as orações dos
incrédulos e com benevolência os livra de suas dificuldades. Além do mais, até mesmo os
incrédulos muitas vezes têm um senso de gratidão para com Deus pela excelência na criação,
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

pelo livramento do perigo, pelas bênçãos na família, no lar, nas amizades e no país. [...]”

A graça comum, enfim, é a ação amorosa de Deus sobre todos os indivíduos


independentemente de sua fé em Cristo Jesus. Tiago ensina, com muita propriedade que “toda
boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode
existir variação ou sombra de mudança” (Tiago 1:17).

B) A GRAÇA INCOMUM

Quando nos entregamos, pela fé, ao Senhor Jesus Cristo, recebemos de Deus um
“pacote” contendo inúmeros presentes de diversos tipos. Esses presentes são graças especiais
derramadas por Deus especificamente sobre seus filhos. Não são presentes comuns, nem todas
as pessoas os recebem, mas com certeza, todos os que, pela fé, se entregam ao Senhor Jesus
Cristo e crêem no seu sacrifício na cruz (e além da cruz) por nós. A graça especial ou incomum
é aquela que Deus derrama somente sobre algumas pessoas, e vai além da graça comum.
Vejamos quais são essa graça:

1. A GRAÇA DA SALVAÇÃO. Esta, certamente, dentre todas as graças


especiais, é a mais comentada, falada e divulgada entre os cristãos. A palavra grega que é
traduzida no Novo Testamento como salvação é “sötëria”, que de acordo com o Léxico do Novo
Testamento Grego/Português significa também “preservação” ou “libertação”. No Evangelho
segundo Lucas 19:9 lemos: “Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que
também este é filho de Abraão”. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento a salvação
envolve sempre dois aspectos: Físico e espiritual. Sob o ponto de vista físico, o Antigo
Testamento enfatiza a salvação operada por Deus tanto na nação de Israel quanto de pessoas
específicas, como, por exemplo, em I Samuel 17:41-51, onde lemos o registro da luta de Davi
contra Golias, e no versículo 47 está escrito: “Saberá toda esta multidão que o Senhor salva,
não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e ele vos entregará nas nossas
mãos”. A salvação em questão não era espiritual, mas física. O povo de Israel estava sendo
ameaçado pelos filisteus, e havia a necessidade de uma intervenção divina a fim de estes não
prevalecessem sobre eles e os subjugassem. Davi confia, então, na intervenção divina para
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

salvá-los desse problema. Sua confiança na salvação vinda de Deus era tanta que ele resolve
lutar contra o terror dos filisteus, Golias, usando apenas uma funda e algumas pedras. Todos
sabemos o desfecho da história.

A salvação física pode ser classificada ainda como graça comum, uma vez que Deus
tem derramado esse tipo de graça sobre todos os indivíduos, independentemente de sua relação
com Ele. Na realidade, é essa graça que impede que todos os homens sejam destruídos: “As
misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias
não têm fim; renovam-se cada manhã” (Lamentações 3:22-23).

Contudo, além da salvação física, a Bíblia nos fala de um outro tipo de graça salvadora
que transcende a vida física, e esta é concedida por Deus a algumas pessoas especificamente.
Esta graça está registrada nas páginas do Novo Testamento da seguinte forma: “Porque o Filho
do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19:10). Esta salvação descrita por Lucas é a
salvação espiritual, a salvação da alma da morte eterna, como diz Tiago: “Portanto, despojando-
vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós
implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma” (Tg 1:21). Essa graça salvadora é
especial, ou incomum. Não é derramada sobre todos os indivíduos mas apenas sobre aqueles
que se rendem ao amor e soberania de Deus através da fé em Jesus Cristo: “Porque pela graça
sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que
ninguém se glorie” (Ef 2:8-9). Jesus Cristo pagou um preço absurdamente alto por essa graça,
conforme vimos no capítulo anterior. Ele entregou sua própria alma, e foi ao inferno em nosso
lugar. Recebemos essa graça especialíssima única e exclusivamente através da fé em Cristo
Jesus. Absolutamente nada que fazemos, exceto a fé em Cristo, pode nos garantir tal salvação.

Por méritos próprios, o destino final de nossa alma seria a morte eterna, mas Cristo
pagou o preço em nosso lugar. Ele, e somente Ele, pagou a nossa dívida, e é por isso que não há
outra forma de obter essa graça salvadora, a não ser através da fé nele. “E não há salvação em
nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo
qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12).

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

2. A GRAÇA DA FILIAÇÃO E DO PLENO CONHECIMENTO:

Além da salvação eterna de nossa alma, o Senhor derrama sobre todos quantos crêem
em Cristo a bênção da filiação. Esta graça já foi amplamente abordada no capítulo 1, e é, sem
dúvida alguma, um grande presente de Deus ao ser humano. Conforme vimos, hoje somos
filhos(tékna) de Deus por adoção, mas um dia, tal como Jesus Cristo, seremos filhos(hüiós)
legítimos de Deus, e esse tipo de filiação nos proporcionará muitas outras e extraordinárias
graças.

É de suma importância compreendermos plenamente o que significa a graça de Deus, a


fim de conseguirmos entender, de fato, o que Deus, por meio única e exclusivamente da sua
graça, pretende realizar no ser humano por toda a eternidade. A graça de Deus é algo totalmente
dependente de seu amor. Não há mérito humano algum. É algo tão extraordinário que não
conseguimos compreender totalmente. Nossa visão da graça de Deus, como de tudo o mais,
continua sendo muito pobre e limitada. Em Isaías 55:8-9 lemos: “Porque os meus pensamentos
não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor,
porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais
altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos
pensamentos”. O apóstolo Paulo ensina em Efésios 3:20 que Deus “é poderoso para fazer
tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que
em nós opera...”.

O que é que Deus deseja fazer, que vai muito além daquilo que pedimos ou pensamos?
Certamente que tudo o que Deus tem preparado e planejado para o ser humano desfrutar por toda
a eternidade é algo tão extraordinário que nossa mente limitada e aprisionada pelo pecado não faz
a menor idéia do que seja. É indescritível em linguagem humana. Em II Coríntios 2:15 Paulo diz:
“Graças a Deus pelo seu dom inefável!”. A Bíblia na NTLH interpreta este versículo da seguinte
forma: “Agradeçamos a Deus o presente que ele nos dá, um presente que palavras não podem
descrever” (NTLH). Ser transformado em filho legítimo de Deus será algo maravilhosamente
indescritível. Como filhos legítimos de Deus passaremos a ter a “genética” divina. Paulo fala
dessa “genética” que adquiriremos em I Coríntios 15: “O primeiro homem, da terra, é terreno; o
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrenos; e, qual o
celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim
traremos também a imagem do celestial” (vv. 47-49).

Note que o verbo usado é “phoréo” (  ), que significa “trazer”. No texto em
questão ele aparece em dois tempos, no passado, quando fala que trouxemos a imagem do terreno
(  ), e na primeira pessoa do plural do futuro do indicativo ativo (  ),
quando se refere ao que seremos um dia. Paulo usa termos da sua época. Se falasse isso em
nossos dias provavelmente ele diria: “E, assim como trouxemos o gene do terreno, assim
traremos também o gene do celestial”. Neste texto ele faz uma comparação entre o que
recebemos como herança de Adão, e o que receberemos como herança de Cristo. Este é o mesmo
conceito descrito em Romanos 8:29: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os
predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito
entre muitos irmãos”. Cristo, o Ùiós tôu Teou, é o primogênito entre muitos que serão também
transformados em “ùiós tôu Teou”.

Aquilo que Deus irá realizar, a nossa transformação em seres incorruptíveis, é descrito por
Paulo como sendo um extraordinário mistério: “Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem
todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de
olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão
incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se
revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade..” (vv.50-53).

Tudo isso somente pode ser explicado pela graça de Deus, jamais por mérito humano.
“...para que Cristo habite, pela fé, no vosso coração; a fim de, estando arraigados e fundados
em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o
comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo
entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef. 3:17-19).
Ser transformado segundo a imagem de Cristo é graça pura, e significa que receberemos
de Deus infinitamente mais do que imaginamos. A Bíblia nos mostra que desde o início da

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

criação, Deus sempre desejou que o homem fosse realmente semelhante a si. No Salmo 82:6
lemos: “Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo”. E em João 10:34 Jesus diz:
“...Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois deuses? Se ele chamou deuses àqueles a quem
foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode falhar, então, daquele a quem o Pai
santificou e enviou ao mundo, dizeis: Tu blasfemas; porque declarei: sou Filho de Deus?”

Ora, o plano de Deus sempre foi o de se relacionar com alguém semelhante a si, e foi para
isso que ele nos criou, e por isso o homem foi feito um pouco abaixo de Deus: “...Quando
contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o
homem, que dele te lembres, e o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, um pouco
menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua
mão e sob seus pés tudo lhe puseste...” (Salmo 8:3-6).

A glorificação do homem será o momento em que o projeto de Deus para o homem se


cumprirá integralmente, e, certamente, uma dádiva que receberemos como filhos legítimos de
Deus, como “deuses”, nessa ocasião, será a o conhecimento pleno, conforme diz Paulo: “Porque,
agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em
parte; então, conhecerei como também sou conhecido” (I Coríntios 13:12). Ao sermos
transformados em “hüiós toü teoü” (filhos legítimos de Deus – Ap.21:7), receberemos o
conhecimento pleno, completo. Receberemos de presente de Deus, como resultado de nossa
obediência a sua Palavra, aquilo que Adão e Eva almejaram conseguir por meio da
desobediência; o conhecimento total tal como Deus: “Então, a serpente disse à mulher: É certo
que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos
e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era boa
para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do
fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu” (Gn 3:4-6).

Que coisa extraordinária! Através da obediência receberemos aquilo que tentamos


conseguir através da desobediência. Este presente é, de fato, uma graça especialíssima. Nada,
absolutamente nada ficará oculto aos filhos de Deus (Mt 10:26). No ensinamento do apóstolo
Paulo, nós conheceremos tal como somos conhecidos, e é fato que somos conhecidos total e
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

completamente. A palavra grega usada por Paulo em I Co 13:12 traduzida como “conhecer” é
“epignosko”, que de acordo com o Léxico do Novo Testamento Grego/Português significa
“conhecer exatamente, completamente”.

Esta mesma palavra é usada em Mateus 11:27, quando Jesus diz: “...Ninguém
conhece[epiginóskei] o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece [epiginoskei] o Pai, senão o
Filho...”. O Pai e o Filho são um (Jo 10:30), e nós, quando formos transformados em filhos da
mesma essência de Cristo, receberemos a graça do conhecimento pleno: “Porquanto aos que de
antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim
de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29), e em Colossenses 3:10
lemos: “e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a
imagem daquele que o criou”. Esse conhecimento pleno, dentre tantas outras coisas, nos
permitirá participar do julgamento do mundo e dos anjos como juizes: “Não sabeis vós que os
santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois, porventura,
indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?” (I
Coríntios 6:2-3). Em Apocalipse 20:4 João fala de pessoas que receberão a autoridade de
julgar: “Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de
julgar”.

Não é sem razão que Paulo afirma: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem
jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (II
Co 2:9).

O conhecimento completo que teremos está muito bem explicado por Paulo nesse
capítulo 2 de I Coríntios. Nos versos 10 a 12 ele afirma o seguinte: “Mas Deus no-lo revelou
pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus.
Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está?
Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não
temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o
que por Deus nos foi dado gratuitamente”. Deus nos deu o Seu Espírito, e por meio dele temos
a graça do conhecimento completo das “profundezas de Deus”. O que nos impede no presente
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

de termos tal conhecimento é o pecado que em nós habita, e que não habitava em Jesus, mas
quando formos transformados à imagem de Cristo, essa barreira que nos afasta do pleno
conhecimento deixará de existir, e então conheceremos tal como somos conhecidos.

3. A GRAÇA DE REINAR COM CRISTO

Outro maravilhoso presente especial dado por Deus àqueles que pela fé em Jesus se
tornam seus filhos é o poder de reinarmos com Cristo. O conhecimento pleno nos permitirá
participar do julgamento do mundo e dos anjos como juizes, e a nossa transformação em filhos
nos colocará na condição de sermos herdeiros juntamente com Cristo de todo o Universo: “Ora,
se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com
ele sofremos, também com ele seremos glorificados...” (Rm 8:17). Ao ressuscitar, ao vencer a
morte e o inferno, o Senhor Jesus foi exaltado soberanamente, e por amor e graça resolveu
dividir com aqueles que nele crêem o seu domínio sobre todo o Universo. Deus criou o ser
humano e deu-lhe domínio sobre todo o planeta Terra: “Também disse Deus: Façamos o homem
à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar,
sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis
que rastejam pela terra” (Gn 1:26), mas através do novo nascimento o “novo homem” receberá
o domínio sobre todo o Universo: “Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também
viveremos com ele; se perseveramos, também com ele reinaremos...” (II Tm 2:11-12).

Há em todo o Novo Testamento inúmeras passagens que falam da glorificação dos


salvos e de seu reinado juntamente com Cristo, tais como:

Lucas 12:32
Não temas, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o Reino.

Mateus 25:34
Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por
herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

Romanos 8:17
“Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo;
se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados...”

II Timíteo 2:11-12.
“Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; se perseveramos,
também com ele reinaremos...”

Apocalipse 5:9-10
“Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue
compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus
os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra”

Apocalipse 20:4
“Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi
ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da
palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e não
receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos” ;

Apocalipse 20:6
Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda
morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com
ele os mil anos.

Apocalipse 22:5
Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o
Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos.

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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

4. A GRAÇA DA CONSOLAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO:

‘Outra graça maravilhosa derramada por Deus sobre aqueles que, pela fé, entregam-se
ao Senhor Jesus Cristo, e que já começam a desfrutar no presente é a consolação do Espírito
Santo. Uma das promessas feitas por Jesus a seus discípulos registrada no Evangelho segundo
João é a de que Ele voltaria para o Pai, mas enviaria outro Consolador que ficaria para sempre
com seus discípulos: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja
para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê,
nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós” (João 14:16-17).
Ser consolado pelo Espírito Santo não é uma graça comum, mas é um presente especial de Deus
a seus filhos, pois é mediante a atuação do Espírito dentro de nós é que somos consolados.
Aquele que não tem o Espírito Santo habitando dentro de si não pode mesmo receber esta graça.

A palavra grega traduzida por “Consolador” no Novo Testamento é “parákletos”. Ela é


usada apenas cinco vezes no NT, e todas elas pelo apóstolo João: 4 vezes no quarto Evangelho,
e sempre nos lábios de Jesus falando a seus discípulos a respeito da ação do Espírito Santo sobre
suas vidas, e uma vez em sua Primeira Epístola. Além do texto já mencionado, as outras quatro
ocasiões onde a palavra “parákletos” aparece novo Testamento são:

1) João 14:26 “mas o Consolador[parákletos], o Espírito Santo, a quem o Pai


enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos
tenho dito”.
2) João 15:26  “Quando, porém, vier o Consolador[parákletos], que eu vos enviarei
da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim”.
3) João 16:7  “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não
for, o Consolador[parákletos] não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei”.
4) I João 2:1  “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se,
todavia, alguém pecar, temos Advogado[parákletos] junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo”.
Note que por quatro vezes a palavra “parákletos” é traduzida como consolador quando
se refere a atuação do Espírito Santo, mas, na única vez em que ela é utilizada se referindo a
Jesus Cristo, é traduzida como Advogado. Jesus Cristo, em João 14:16, afirma que rogaria ao
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

Pai e Ele enviaria outro “parákletos” para estar com seus discípulos. Seja por meio de Jesus
Cristo, o “parákletos” (Advogado), ou do Espírito Santo, o “parákletos” (Consolador), todos os
filhos de Deus recebem dele a graça da consolação e da paz: “Ora, nosso Senhor Jesus Cristo
mesmo e Deus, o nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela
graça, consolem o vosso coração e vos confirmem em toda boa obra e boa palavra” ( II Ts
2:16-17). E esta graça especial é derramada pelo Senhor sobre seus servos já nesta vida, e será
completada na eternidade: “...E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (Apocalipse
7:17b).
“E Deus limpará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto,
nem clamor, nem dor, porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado
sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve, porque estas
palavras são verdadeiras e fiéis. E disse-me mais: Está cumprido; Eu sou o Alfa e o Ômega, o
Princípio e o Fim. A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida.
Quem vencer herdará todas as coisas, e eu serei seu Deus, e ele será meu filho (Ap 21:4-7).

5. A GRAÇA DA CAPACITAÇÃO ESPIRITUAL: Os chamados “dons do


Espírito Santo” também fazem parte do imenso “pacote” de graças ou presentes especiais dados
por Deus a todos os seus filhos. O apóstolo Paulo afirma em I Coríntios 12:7 que “a
manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso”, ou seja, Deus
entrega a cada servo seu, dentre seus muitos presentes, um (ou mais de um) que Paulo chama de
“manifestação do Espírito”, que é extremamente útil e fundamental para o cristão em particular,
e para a igreja como um todo. Esta graça especial concedida por Deus tem objetivos muito
definidos: “...com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço,
para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno
conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de
Cristo...” (Ef 4:12-13).

A manifestação do Espírito Santo, ou os dons do Espírito Santo não são concedidos ao


cristão para que ele se orgulhe disso ou para que fique evidente às outras pessoas o quão
espiritual ou santo ele é, mas visa, sim, “o aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu
serviço”. Paulo, o apóstolo, diz que se ele tivesse que se gloriar de alguma coisa seria de suas
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IBE – Teologia Sistemática Roberto Ramos da Silva

fraquezas e não de seus dons e virtudes (II Coríntios 11:30). Ele compreendia muito bem o
porquê dele possuir os dons que possuía. Wayne Grudem[GRUDEM859] descreve o propósito dos
dons espirituais na era do Novo Testamento da seguinte forma:

“Os dons espirituais são dados para equipar a igreja a fim de que ela desenvolva seu
ministério até que Cristo volte. Paulo diz aos corintios: "não lhes falta nenhum dom espiritual,
enquanto vocês aguardam que o nosso Senhor]esus Cristo seja revelodo"(ICo 1.7 NVI). Aqui
ele relaciona a posse dos dons espirituais e a situação deles na história da redenção (aguardando
o retorno de Cristo), dando a entender que os dons são dados à igreja para o período entre a
ascensão de Cristo e sua volta. De maneira semelhante, Paulo olha adiante para o tempo da volta
de Cristo e diz "quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado"
(ICo 13.10), dando a entender também que esses dons "imperfeitos"(mencionados nos v. 8-9)
estarão em operação até a volta de Cristo, ocasião em que serão superados por algo muito maior.
De fato, o derramamento do Espírito Santo com "poder" no Pentecostes (At 1.8) teve por
finalidade equipar a igreja visando à pregação do evangelho (At 1.8) - algo que continuará até
que Cristo volte. E Paulo lembra aos crentes que deviam procurar progredir no uso que faziam
dos dons espirituais, para a edificação da igreja" (ICo 14.12).

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