Você está na página 1de 2

UOL

São Paulo, terça-feira, 15 de abril de 2003

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

Antonio Calmon debate sua "arte


descartável"
DA REPORTAGEM LOCAL

O cineasta Antonio Calmon, 56, trocou o cinema pela autoria


de novelas de TV e não se arrepende.
"Depois de quase 15 anos de televisão, isso ficou mais claro
para mim, mas sempre me vi como um tipo de artista que faz
uma arte industrial. No Brasil, as pessoas são autorais
demais. Eu criticava isso no cinema novo, no underground. É
a síndrome da genialidade e da autoria", diz.
Contradizendo sua própria auto-imagem, é como um autor
singular no panorama do cinema e da TV que os
organizadores da mostra "Antonio Calmon - Gênero,
Contestação e Autoria" inauguram hoje uma retrospectiva de
seus trabalhos no cinema e na TV.
Concentrado no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), o
ciclo começa com um debate em torno do diretor, do qual
participam o ator e diretor Daniel Filho, o roteirista Marçal
Aquino e o consultor de TV Álvaro Ramos. "Venham jogar
pedras em Antonio Calmon", convida.
A retrospectiva prossegue até o dia 27, com a exibição dos
longas-metragens dirigidos por Calmon e de trechos de
novelas e programas especiais que escreveu, como "Vamp",
"Top Model", "Armação Ilimitada" e "A Justiceira".
"Sempre me considerei um autor de produtos descartáveis. O
que está no meu computador hoje vai ao ar em um mês e, um
mês depois, já foi esquecido. Mas, num único dia, o que
escrevi foi visto por 60 milhões de pessoas. São escolhas que
a gente faz", diz.

Desconforto
O diretor diz que seu caminho até a teledramaturgia e a
especialização na temática infanto-juvenil foram
"acidentais". "A temática infanto-juvenil não é algo que eu
adore ou sobre que fique especialmente pensando. Fiz o
[filme] "Menino no Rio", por encomenda do [diretor] Bruno
Barreto, que deu no [filme] "Garota Dourada", que deu no
[seriado de TV] "Armação Ilimitada" e aí fiquei no horário
das 19h [da programação de novelas da Globo], que
praticamente tem apenas eu e Carlos Lombardi como autores
fixos", afirma.
Sem planos de retornar ao cinema, Calmon diz que não sente
falta de dirigir, porque considera a atividade "muito
desconfortável".
"Um filme ocupa três, quatro anos da sua vida. Tem que
levantar o dinheiro [para a produção], depois tem que ir
contra toda a realidade para filmar, programar o filme, ficar
mais um ano vendendo, passando em festivais..."
Calmon diz que "a nova safra do cinema brasileiro é
excelente". Mas critica o que considera falta de coerência na
abordagem do tema da violência.
"Quando fiz filmes de hiperviolência, vivia uma vida
marginal, não era uma pessoa certinha, organizadinha, de
boa família. Cobro muito a relação entre a experiência
pessoal do artista e sua obra. Quando se mistura as duas
coisas, você morre prematuramente, como aconteceu de
Rimbaud a Glauber Rocha. Mas é preciso ter uma coerência
mínima. Eu, por exemplo, se tivesse grana e gostasse de
trabalhar, ia fazer filmes na linha do Antonioni", diz.

Texto Anterior: É Tudo Verdade: Filme do Brasil vence


competição estrangeira
Próximo Texto: Especial: Festival do Recife ganha
retrospectiva
Índice

UOL
Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em
qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.